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janeiro de 2014  www.revistapesquisa.fapesp.br

pequenas empresas

Concessões à inovação em 2013 foram as maiores da história do Pipe puberdade precoce

Defeitos em gene antecipam o início do amadurecimento sexual alzheimer

Pesquisadores tentam entender por que alguns cérebros resistem à demência pinguins-de-magalhães

Fêmeas morrem mais que machos durante migração anual entrevista Ernst hamburger

Histórias de um físico na escola e no museu

Imagens em 3D revelam segredos de cantora da coleção egípcia do Museu Nacional

A múmia de Pedro II


GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO, SECRETARIA DA CULTURA, SECRETARIA DA EDUCAÇÃO E CATAVENTO CULTURAL E EDUCACIONAL APRESENTAM

Conheça e se reconheça.

EXPOSIÇÃO

Por Walter Neves.

Em fevereiro no Catavento.

Parque Dom Pedro II, s/n° – Centro. Próximo aos metrôs Pedro II e S. Bento. www.cataventocultural.org.br

SECRETARIA DA EDUCAÇÃO organização social de cultura

SECRETARIA DA CULTURA


fotolab

Memória natalina O Natal passou, mas é inevitável a comparação com as bolas coloridas que enfeitam a tradicional árvore natalina. Embora menos poéticas, as imagens acima podem ser igualmente belas e são, definitivamente, mais práticas. O que se vê são placas de fungos endofíticos – que se desenvolvem no interior dos tecidos de plantas sem causar danos ao hospedeiro – isolados de folhas e raízes de manguezais, estudados pelo seu potencial biotecnológico contra microrganismos que causam várias doenças. O trabalho começou a ser realizado durante o doutorado de Fernanda Luiza de Souza Sebastianes em 2007. Atualmente a pesquisa envolvendo o potencial biotecnológico desses fungos vem sendo desenvolvida no laboratório do professor Paulo Teixeira Lacava, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com a participação de pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente, de Jaguariúna, e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). Se você tiver uma imagem relacionada à sua pesquisa, envie para imagempesquisa@fapesp.br, com resolução de 300 dpi (15 cm de largura) ou com no mínimo 5 MB. Seu trabalho poderá ser selecionado pela revista.

Fotos enviadas por Paulo Teixeira Lacava, do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da USFCar, e Fernanda Luiza de Souza Sebastianes, da Esalq-USP

PESQUISA FAPESP 215 | 3


janeiro  n.215 16

60

Capa 16 Imagens em 3D revelam os

88

seçÕes 3 Fotolab 6 On-line 7 Carta da editora 8 Dados e projetos 9 Boas práticas 10 Estratégias 12 Tecnociência 88 Memória 90 Arte 92 Ficção 94 Resenhas 96 Carreiras 98 Classificados

capa  foto eduardo cesar

4 | janeiro DE 2014

40 Tecnologia de informação

segredos da múmia de uma cantora-sacerdotisa de 2.800 anos, estrela da coleção egípcia do Museu Nacional

Programa em eScience busca avanços do conhecimento e aplicações para extrair informação original em meio a gigantescas bases de dados

Entrevista

42 Políticas públicas

24 Ernst Hamburger

Natural de Berlim e o mais novo ganhador do título de Cidadão Paulistano, o professor da USP fala sobre física, educação e divulgação científica

POLÍTICA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA 32 Financiamento

Aumento de projetos aprovados no programa Pipe mostra importância da inovação na agenda das empresas de pequeno porte

36 Indicadores

Cai proporção de empresas que produziram inovações, mas aumenta articulação do setor privado para fazer pesquisa e desenvolvimento, mostra Pintec

Quarta edição do Inventário florestal ampliará em 100 vezes a resolução espacial da vegetação nativa em São Paulo

CIÊNCIA 44 Endocrinologia

Pesquisadores brasileiros identificam o primeiro gene associado a forma hereditária de puberdade prematura

50 Neurociência

Pesquisadores querem entender o que faz o cérebro de algumas pessoas resistir aos efeitos do mal de Alzheimer

54 Genética

Estudo revela que os Uro atuais podem descender dos primeiros habitantes do altiplano andino


90

84

56 Ecologia

Fêmeas de pinguins-de-magalhães morrem mais que machos durante migração anual

60 Biodiversidade

72 Óptica

Grupo de São Carlos constrói equipamento robótico com laser para análise de elementos químicos presentes no solo e nas folhas

Pesquisadores se mobilizam para aumentar em 20% a população de onças-pintadas na mata atlântica em cinco anos

74 Química

64 Oceanografia

Novas linhagens da tradicional levedura e microrganismos silvestres podem aumentar a produção de etanol

Sedimentos do rio da Prata viajam quase 2 mil quilômetros e chegam até o litoral de São Sebastião

66 Física

Técnica duplica quantidade de dados que podem ser recuperados em um sistema quântico

Teste com escâner indica se o leite está adulterado

76 Engenharia genética

HUMANIDADES 80 Divulgação científica

Exposição permanente sobre evolução humana entra em cartaz no Catavento Cultural em São Paulo

84 Demografia

Núcleo de Estudos de População da Unicamp lança atlas sobre os 200 anos de imigração em São Paulo

78 Computação

Software contribui para a detecção e análise precoce da retinopatia diabética

TECNOLOGIA 68 Pesquisa empresarial

Recém-inaugurado, o BRF Innovation Center pretende se tornar referência na criação de novos negócios

44

PESQUISA FAPESP 215 | 5


on-line

Nas redes

Erik Hersman / Wikicommons

w w w . r e v i s ta p e s q u i s a . f a p e s p. b r

Exclusivo no site x A lista vermelha de espécies ameaçadas pode não ser a ferramenta ideal para a formulação de políticas de conservação como acontece mundo afora. Em artigo publicado na revista científica PLoS One, pesquisadores da Universidade Federal de Goiás verificaram que a lista ignora aspectos ecológicos e evolutivos das espécies ameaçadas, o que comprometeria a eficácia das medidas. No estudo, eles criaram um modelo para quantificar o risco de extinção dessas espécies levando em conta a influência humana, a dieta dos animais e o ambiente em que vivem, entre outros fatores. x A anta pretinha – já conhecida pelos ribeirinhos da Amazônia – foi apresentada como uma espécie nova, a Tapirus kabomani (Journal of Mammalogy, dezembro). Única espécie de anta identificada em 150 anos, era considerada uma variação da anta brasileira, Tapirus terrestris, maior mamífero terrestre da América do Sul, com 2 metros de comprimento e 300 quilos, mas a pretinha é menor (1,3 m) e mais leve (110 kg). Pesquisadores das universidades federais de Rondônia (Unir) e de Minas Gerais (UFMG) começaram o trabalho que levou à identificação há 10 anos.

Edson Zanin Barbosa_ Legal, mas rios são entidades vivas inseridas num sistema igualmente vivo e não se restringem à hidráulica ou processos biofísicos isolados! (Impactos antecipados) Marcelo Barros Buldogue_ Fascinante! Um dia, se eu ainda dispuser de energia vital, vou cursar física. Podem ter certeza… (Sopa primordial) Giliard Godoi_ A inspiração de hoje vem do professor Jacó Guinsburg. (Jacó Guinsburg: o editor da academia) Arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus), vulnerável e ameaçada de extinção

Dilson Lockmann_ Sempre falo isso, mas a maioria não sabe e pode ter problemas graves. (Toxina da carambola é isolada) José Renato Mej_ É bom lembrar

Rádio

que o Brasil é o país que mais

Anéis dos troncos de árvores guardam histórico do clima ao longo dos séculos

(Defensivos sob medida)

consome agrotóxicos.

Marcos de Oliveira_ Esse é o motivo de ser biólogo. É fascinante como sempre temos o que aprender, e a cada novo aprendizado temos a certeza de que nada sabemos e que ainda há muito a aprender. (Voo ininterrupto de 200 dias)

Vídeo do mês Biota aborda biodiversidade em ambientes alterados pelo homem youtube.com/user/PesquisaFAPESP

6 | janeiro DE 2014

Assista ao vídeo:


carta da editora fundação de amparo à pesquisa do estado de são Paulo Celso Lafer Presidente Eduardo Moacyr Krieger vice-Presidente Conselho Superior alejandro szanto de toledo, Celso Lafer, Eduardo Moacyr Krieger, fernando ferreira costa, Horácio Lafer Piva, joão grandino rodas, Maria José Soares Mendes Giannini, Marilza Vieira Cunha Rudge, José de Souza Martins, Pedro Luiz Barreiros Passos, Suely Vilela Sampaio, Yoshiaki Nakano Conselho Técnico-Administrativo

Trânsitos, tempos, história Mariluce Moura |

Diretora de Redação

José Arana Varela Diretor presidente Carlos Henrique de Brito Cruz Diretor Científico Joaquim J. de Camargo Engler Diretor Administrativo

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Conselho editorial Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio Túlio Costa, Eugênio Bucci, Fernando Reinach, José Eduardo Krieger, Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Marcelo Leite, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Marisa Lajolo, Maurício Tuffani, Mônica Teixeira comitê científico Luiz Henrique Lopes dos Santos (Presidente), Adolpho José Melfi, Carlos Eduardo Negrão, Douglas Eduardo Zampieri, Eduardo Cesar Leão Marques, Francisco Antônio Bezerra Coutinho, Joaquim J. de Camargo Engler, José Arana Varela, José Roberto de França Arruda, José Roberto Postali Parra, Lucio Angnes, Luis Augusto Barbosa Cortez, Marcelo Knobel, Marie-Anne Van Sluys, Mário José Abdalla Saad, Marta Teresa da Silva Arretche, Paula Montero, Roberto Marcondes Cesar Júnior, Sérgio Luiz Monteiro Salles Filho, Sérgio Robles Reis Queiroz, Wagner do Amaral Caradori, Walter Colli Coordenador científico Luiz Henrique Lopes dos Santos Diretora de redação Mariluce Moura editor chefe Neldson Marcolin Editores Fabrício Marques (Política), Marcos de Oliveira (Tecnologia), Ricardo Zorzetto (Ciência); Carlos Fioravanti e Marcos Pivetta (Editores espe­ciais); Bruno de Pierro e Dinorah Ereno (Editores assistentes) revisão Márcio Guimarães de Araújo, Margô Negro arte Mayumi Okuyama (Editora), Ana Paula Campos (Editora de infografia), Maria Cecilia Felli e Alvaro Felippe Jr. (Assistente) fotógrafos Eduardo Cesar, Léo Ramos Mídias eletrônicas Fabrício Marques (Coordenador) Internet Pesquisa FAPESP online Maria Guimarães (Editora) Júlio Cesar Barros (Editor assistente) Rodrigo de Oliveira Andrade (Repórter) Rádio Pesquisa Brasil Biancamaria Binazzi (Produtora) Colaboradores Abiuro, Adriano Gambarini, Alexandre Affonso, Ana Lima, Antonio Corrêa de Lacerda, Bernardo Kucinski, Carolina Rossetti de Toledo, Catarina Bessel, Daniel Bueno, Daniel das Neves, Evanildo da Silveira, Fabio Otubo, Igor Zolnerkevic, Márcio Ferrari, Pedro Hamdan, Salvador Nogueira, Sandra Javera, Valter Rodrigues, Yuri Vasconcelos, Zé Vicente É proibida a reprodução total ou parcial de textos e fotos sem prévia autorização Para falar com a redação (11) 3087-4210 cartas@fapesp.br Para anunciar (11) 3087-4212 publicidade@fapesp.br Para assinar (11) 3087-4237 assinaturaspesquisa@fapesp.br Tiragem 43.700 exemplares IMPRESSão Plural Indústria Gráfica distribuição Dinap GESTÃO ADMINISTRATIVA INSTITUTO UNIEMP PESQUISA FAPESP Rua Joaquim Antunes, no 727, 10o andar, CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP FAPESP Rua Pio XI, no 1.500, CEP 05468-901, Alto da Lapa, São Paulo-SP Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia Governo do Estado de São Paulo

A

cho fascinante o rosto moreno e sereno da cantora-sacerdotisa egípcia que toma a capa da primeira Pesquisa FAPESP de 2014. Detenho-me nos grandes olhos negros sublinhados talvez a khol, cosmético multimilenar cuja formulação complexa incluía pequenas porções de compostos de chumbo (aparentemente para prevenir infecções), nas sobrancelhas grossas e perfeitamente desenhadas, no nariz de talhe reto, nos belos lábios e na suavidade arredondada do contorno da face e comento en passant que ali está uma linda mulher, certamente no fulgor de sua juventude. Mas Sha-amun-em-su, a dona desse rosto pintado num ataúde que guarda seu corpo mumificado e integra a coleção egípcia do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, não era jovem: morreu com cerca de 50 anos, aproximadamente em 750 a.C., depois de anos a fio a entoar cânticos sagrados em honra ao deus Amon. Sua imagem aqui nesta edição resulta de foto de Eduardo Cesar, profissional que faz parte de nossa equipe há 14 anos. Fascina-me também, é verdade, a própria história da presença dessa múmia especial numa coleção museológica brasileira e as possibilidades mais recentes de desvendamento de seus velhos segredos por meio de imagens em 3D, vivamente narradas por nosso editor especial Marcos Pivetta, a partir da página 16. Veja-se: dom Pedro II, durante uma viagem ao Egito entre 1876 e 1877, deu de presente ao soberano do país, o quediva Ismail, um livro sobre o Brasil e recebeu em troca o esquife lacrado da cantora-sacerdotisa. O imperador conservou-o ciosamente em seu gabinete até 1889. A proclamação da República motivou a incorporação do mimo ao acervo do Museu Nacional, que desde 1892 ocupa a antiga residência da família imperial brasileira,

pertencente hoje à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O ataúde, ressalte-se, jamais foi aberto, mas nos últimos anos tornou-se uma fonte preciosa de informações sobre hábitos funerários dos egípcios relativamente às suas cantoras-sacerdotisas, graças principalmente aos exames de tomografia computadorizada por raios X que permitem ver em três dimensões as estruturas do corpo preservadas num caixão há 2.800 anos. Vale muito a pena conferir essa narrativa feita com graça e fluência. Por fim, encanta-me a possibilidade de trazer aos leitores essa reportagem sobre Sha-amun-em-su justamente na passagem de um ano para o outro, período em que de hábito somos convocados a uma reflexão sobre o que fizemos ao longo do último ano e o que nos propomos a fazer neste novo que se nos oferece em branco, sobre o passar do tempo, sobre o trânsito do ser num dado intervalo de tempo. O que fascina aqui é a oposição entre a fugacidade do tempo individual – e nenhum de nós escapa, mais cedo ou mais tarde, dessa angustiante sensação dos dias escorrendo por entre os dedos – e a longa duração do tempo da história. Alguma consolação sempre há na percepção de que há, senão uma eternidade, pelo menos um longuíssimo prazo na história que os seres humanos vêm construindo há milênios. Brevemente destaco ainda a reportagem de nosso editor de ciência, Ricardo Zorzetto, sobre o que se vai descobrindo a respeito da puberdade precoce (página 44) e a reportagem de nosso colaborador Igor Zolnerkevic sobre a resistência intrigante que alguns cérebros conseguem opor ao avanço do mal de Alzheimer (página 50). Desejo a nossos leitores bons momentos com esta edição e um Ano Novo inteiro criativo e luminoso. PESQUISA FAPESP 215 | 7


Dados e projetos Temáticos e Jovem Pesquisador recentes Projetos contratados em novembro e dezembro de 2013 temáticos

 Begomovírus e crinivírus em solanáceas: epidemiologia molecular e estratégias Pesquisador responsável: Jorge Alberto Marques Rezende Instituição: Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq)/ USP Processo: 2012/51771-4 Vigência: 01/12/2013 a 30/11/2018  A matriz extracelular no envelhecimento, no exercício e no microambiente tumoral Pesquisadora responsável: Heloísa Sobreiro Selistre de Araújo Instituição: Centro de Ciências Biológicas e de Saúde/UFSCar Processo: 2013/00798-2 Vigência: 01/01/2014 a 31/12/2017  Centro de Pesquisa e Análise de São Paulo

Pesquisador responsável: Sergio Ferraz Novaes Instituição: Núcleo de Computação Científica/Unesp Processo: 2013/01907-0 Vigência: 01/12/2013 a 30/11/2018

JOVEM PESQUISADOR

 Decifrando as grandes tendências de evolução molecular e morfológica nos Amoebozoa Pesquisador responsável: Daniel José Galafasse Lahr Instituição: Instituto de Biociências/ USP Processo: 2013/04585-3 Vigência: 01/12/2013 a 30/11/2017  Transformação genética de Urochloa brizantha visando aumentar a tolerância a estresses abióticos Pesquisadora responsável: Alessandra Ferreira Ribas

Instituição: Faculdade de Ciências Agrárias de Presidente Prudente/ Unoeste Processo: 2013/04819-4 Vigência: 01/11/2013 a 31/10/2017

Instituição: Faculdade de Ciências e Tecnologia de Presidente Prudente/ Unesp Processo: 2013/10002-0 Vigência: 01/12/2013 a 30/11/2017

 Efeitos do exercício excêntrico na reabilitação do músculo esquelético de camundongos mdx após longo período de treinamento. Avaliações morfológica, funcional e molecular Pesquisadora responsável: Anabelle Silva Cornachione Instituição: Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP Processo: 2013/07104-6 Vigência: 01/01/2014 a 31/12/2017

 Caracterização dos mecanismos de ação antidengue mediados pela microbiota intestinal de populações naturais do mosquito Aedes aegypti Pesquisador responsável: Jayme Augusto de Souza Neto Instituição: Instituto de Biociências de Botucatu/Unesp Processo: 2013/11343-6 Vigência: 01/11/2013 a 31/10/2017

 Desenvolvimento de complexos de rutênio como sistemas catalíticos duais na polimerização simultânea ROMP/ATRP Pesquisador responsável: Valdemiro Pereira de Carvalho Junior

 Teoria do funcional da densidade e aplicações em sólidos e átomos frios Pesquisadora responsável: Vivian Vanessa Franca Henn Instituição: Instituto de Química de Araraquara/Unesp Processo: 2013/15982-3 Vigência: 01/01/2014 a 31/12/2017

Impacto e coautoria internacional em artigos de autores no Brasil, 1979-2013 Artigos com coautorias internacionais recebem até 3,6 vezes mais citações do que a média dos artigos dos autores no Brasil País Brasil *

Número de artigos na base Brasil do InCites (1979 - 2013)

Citações por artigo

Número de vezes em que as citações superam a média de todos os artigos de autores no Brasil

511.945

7,6

1,0

Austrália

4.617

27,4

3,6

China

3.588

26,8

3,5

Suécia

3.455

26,5

3,5 3,5

Japão

4.454

26,4

Holanda

4.987

26,0

3,4

Suíça

4.434

24,9

3,3

Bélgica

3.751

24,3

3,2

Rússia Inglaterra

4.140

23,1

3,0

14.650

21,8

2,9

México

3.724

21,7

2,9

Canadá

9.393

21,3

2,8

Alemanha

2,8

13.750

21,3

Itália

9.701

21,1

2,8

França

17.077

19,5

2,6

Estados Unidos

52.508

19,5

2,6

Colômbia

3.025

17,8

2,3

Argentina

7.509

17,2

2,3

Espanha

9.920

16,6

2,2

Chile

3.399

15,0

2,0

Portugal

5.776

12,1

1,6

* A linha Brasil se refere ao total de trabalhos que contêm autores com endereço institucional no Brasil. Os dados referentes a outros países referem-se a trabalhos nos quais pelo menos um dos autores tem endereço institucional no país indicado. Fonte: InCitesTM, Thomson Reuters (2013)

8 | janeiro DE 2014


Boas práticas Membros da Academia Chinesa de Ciências manifestaram preocupação depois que uma reportagem da revista Science denunciou um esquema no país de comercialização de autorias e artigos científicos para publicação em revistas indexadas. “Alguns pesquisadores estão conseguindo publicar bons papers em periódicos de alto impacto, mas eles nem sequer sabem sobre o que seus artigos falam”, disse Cao Zexian, professor do Instituto de Física da academia, em Pequim, temendo que realizações de pesquisadores do país passem a ser alvo de desconfiança depois da denúncia. Ao longo de cinco meses repórteres chineses, passando-se por cientistas ou alunos de pós-graduação, procuraram 27 empresas chinesas suspeitas de vender autorias de artigos já prontos. Vinte e duas delas ofereceram serviços fraudulentos. No site Sciedit, especializado em editoração científica, uma das empresas chegou a anunciar, “É inacreditável: você pode publicar artigos científicos sem precisar fazer experimentos”. Outra empresa flagrada foi a Wanfang Huizhi, que atuava como intermediária entre pesquisadores que tinham artigos aceitos para publicação e cientistas que precisam publicar. Segundo a revista, os interessados chegam a desembolsar até US$ 26 mil para ter o nome em um artigo – valor superior ao salário anual de muitos professores assistentes na China. A Wanfang Huizhi ofereceu a um dos jornalistas uma vaga de coprimeiro autor em um paper sobre câncer por US$ 14.800. O artigo foi publicado semanas depois no Journal of Biochemistry & Cell Biology, apresentando dois autores principais, sendo que

um deles não tinha histórico de produção científica. Joanna Kargul, editora-chefe do periódico, disse à Science que, normalmente, se novos autores são incluídos nos papers, o autor principal deve explicar a mudança ao editor: “Isso não aconteceu com o artigo sobre câncer. E a mudança de autoria não foi percebida pelo nosso radar de revisores”. Para Hans-Joachim Schmoll, editor da revista OncoTargets and Therapy, que também recebeu um artigo suspeito, muitos editores já estão se esforçando para avaliar com mais rigor o fluxo de artigos vindos da China. “Não conhecemos muito as universidades de lá, nem as clínicas e as instituições”, disse. A China é um dos países que mais publicam artigos científicos no mundo. O número de artigos chineses no Science Citation Index disparou de 41.417 em 2002 para

daniel bueno

Artigos na prateleira

193.733 em 2012, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Assim como ocorre em muitos países, na China quem consegue publicar em inglês em revistas com fator de impacto elevado tem mais chance de obter promoções e financiamento.

Imagens fraudadas A revista Nature Medicine cancelou de seus arquivos um artigo sobre esclerose múltipla publicado em 2010 e assinado por pesquisadores da multinacional farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK). Uma investigação feita pela empresa em junho apresentou evidências de manipulação de dados. Um dos autores do trabalho, o chinês Jungwu Zang, havia sido demitido sete meses atrás, mas se recusava a assinar uma declaração se comprometendo a colaborar com a revista. Zang, que dirigia o centro de pesquisa em doenças neurodegenerativas da GSK na China, acabou por assinar o documento em dezembro, junto com oito cientistas da empresa e do Baylor College of Medicine,

no Texas, Estados Unidos. O artigo detalhava a função de duas substâncias, o receptor de interleucina-7 (IL-7R) e o T-helper 17, em esclerose múltipla e continha imagens de amostras de sangue de indivíduos saudáveis e pacientes com a doença. Uma das imagens apresentava amostras de sangue de indivíduos saudáveis, mas era legendada como proveniente de pacientes com esclerose múltipla. Os autores também são suspeitos de duplicar outra imagem, apresentada como dois resultados diferentes do estudo. Os pesquisadores alegam que houve falha no processo de edição da revista. Em nota, a GSK lamentou o ocorrido e confirmou as irregularidades nas imagens. PESQUISA FAPESP 215 | 9


Estratégias Nova conselheira O governador Geraldo Alckmin escolheu Marilza Vieira Cunha Rudge, vice-reitora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), para integrar o Conselho Superior da FAPESP. A nova conselheira, cujo nome encabeçava a lista tríplice encaminhada ao governador, foi nomeada para um mandato de seis anos em vaga aberta após o término do mandato de Herman Jacobus Cornelis Voorwald. Graduada em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu,

Brasil quer antecipar Cbers-4

O Cbers-3, em preparação na China semanas antes do lançamento: perda

Marilza é, desde 1971, docente na Unesp – atualmente é professora titular de obstetrícia.

Parceiros no lançamento

comitê de coordenação

O Cbers-3 estava

de satélites de

do programa Cbers

equipado com quatro

pela instalação da

observação da Terra

em Pequim, na China,

câmeras que iriam coletar

Maternidade Escola do

desde 1999, Brasil e

que também debateu

imagens da superfície

Hospital das Clínicas

China discutem a

as causas da perda

da Terra. O objetivo

de Botucatu. Também

viabilidade de antecipar

do Cbers-3. O satélite

era monitorar desastres

foi superintendente do

a montagem e o

foi lançado por um

naturais e acompanhar

Hospital das Clínicas

lançamento do Cbers-4

foguete chinês Longa

alterações da cobertura

(1999-2001) e diretora

(sigla para satélite

Marcha 4B, do Centro

vegetal, com aplicação

da Faculdade de

sino-brasileiro de

de Lançamentos de

no combate a

Medicina de Botucatu

recursos terrestres),

Satélites de Taiyuan,

desmatamentos e

da Unesp (2001-2004).

depois do fracasso do

China, mas uma falha na

queimadas na Amazônia.

lançamento do Cbers-3,

terceira e última etapa

O Cbers-3 seria o quarto

no dia 9 de dezembro.

do lançador impediu que

satélite do programa

O Ministério da Ciência,

entrasse em órbita. De

a entrar em órbita e

Tecnologia e Inovação

acordo com o Instituto

substituiria o Cbers-2B,

(MCTI) gostaria de lançar

Nacional de Pesquisas

que encerrou suas

o novo satélite até o fim

Espaciais (Inpe), o motor

atividades em 2010. O

de 2014 ou até meados

de propulsão do foguete

programa sino-brasileiro

de 2015. No cronograma

chinês foi desligado

está, desde então, sem

original, o Cbers-4

11 segundos antes do

satélites para produzir

deveria entrar em órbita

previsto e impediu que

imagens. O governo

em dezembro de 2015.

o satélite atingisse a

brasileiro investiu

As datas foram discutidas

velocidade mínima para

R$ 160 milhões no

durante uma reunião do

ser mantido em órbita.

projeto, segundo o Inpe.

10 | janeiro DE 2014

Marilza Rudge: mandato de seis anos

2

Ela foi responsável

fotos 1 inpe 2 estúdio chello fotógrafo  3 WilsonDias / ABr  ilustraçãO  daniel bueno

1


Destaques do Jovem Cientista A entrega da 27ª edição

sobre mistura de águas

do Prêmio Jovem

salinas como alternativa

Cientista, realizada em

para a irrigação e

Brasília, reconheceu

produção de forragem no

contribuições ligadas ao

Nordeste. Edvan Pereira,

tema “Água: desafios da

da Escola Estadual

sociedade”. Na categoria

Ernestina Pereira Maia,

Mestre e Doutor, o

em Moju, Pará, venceu na

vencedor foi Gustavo

categoria Ensino Médio,

Meirelles Lima, da

com um trabalho que

Universidade Federal

usou o caroço do açaí

de Itajubá, com uma

na filtragem de água

tese de doutorado em

para o consumo.

engenharia elétrica

O homenageado na

agraciada pelo segundo

sobre sistemas de

categoria Mérito

ano consecutivo na

abastecimento de água.

Científico foi Eugenio

categoria Mérito

O trabalho de José

Foresti, professor da

Institucional, por sua

Sinal verde do Cern

Leôncio de Almeida Silva,

Universidade de São

contribuição à formação

Depois de três anos

estudante de agronomia

Paulo (USP), que dedicou

científica do país.

de negociações, a

da Universidade Federal

mais de 40 anos de

O prêmio é concedido

Organização Europeia

Rural do Semi-Árido

carreira desenvolvendo

pelo Conselho Nacional

para Pesquisa Nuclear

(Ufersa), ganhou na

tecnologias relacionadas

de Desenvolvimento

(Cern), laboratório de

categoria Ensino

à utilização dos recursos

Científico e Tecnológico,

física de altas energias

Superior pela pesquisa

hídricos. A USP foi

o CNPq.

próximo a Genebra, na

3

A entrega do prêmio em Brasília: recursos hídricos

Suíça, aceitou convidar o Brasil a se tornar membro associado do projeto. Em carta à embaixadora

Centro de inovação do ITA

Regina Dunlop, delegada do Brasil em Genebra, o diretor de pesquisa do Cern, Sérgio Bertolucci,

Uma área de 30 mil metros quadrados

diz que a proposta teve

no Parque Tecnológico de São José dos

“aprovação unânime”

Campos abrigará uma unidade do Centro

no conselho executivo da

de Inovação do Instituto Tecnológico de

entidade. O tratado de

Aeronáutica (ITA), que está sendo cons-

adesão será discutido nos

truída com apoio do Banco Nacional de

próximos meses. Ao

Desenvolvimento Econômico e Social

mesmo tempo, Israel se

(BNDES). No total, R$ 300 milhões estão

tornou o 21º país – e o

sendo investidos na ampliação – valor

primeiro não europeu –

que será aplicado ao longo de cinco anos.

contribui para aumentar a competitivi-

a se unir ao Cern.

A iniciativa faz parte da estratégia de

dade”, diz o reitor do ITA, Carlos Américo

O país cumpriu o estágio

expansão do ITA, que também prevê a

Pacheco. Duas instituições internacionais

obrigatório de dois

duplicação do número de vagas de gra-

– o Instituto Fraunhofer IPK, da Alemanha,

anos como membro

duação e de pós-graduação. O novo

e a Universidade de Sheffield, da Ingla-

associado, elevando suas

centro irá atuar no desenvolvimento de

terra – são parceiras na formação do

contribuições financeiras,

tecnologias inovadoras com aplicação

centro e deverão participar de pesquisas.

antes de conquistar o

na indústria aeroespacial e prestará ser-

“Realizamos um evento recentemente

status de membro pleno –

viços a empresas. “Na unidade do Parque

no qual apresentamos o projeto para

que dá ao país direito

Tecnológico o foco será na pesquisa em

várias empresas que mostraram interes-

de voto e permite que

manufaturas avançadas. Com isso, pro-

se em colaborar com o ITA”, conta Pa-

seus pesquisadores

cessos industriais, como a adequação de

checo, citando como exemplo a Embraer.

tenham acesso a mais

uma planta industrial a um novo produto,

“Mas ainda buscamos apoio para fomen-

oportunidades de

podem se tornar mais flexíveis, o que

tar o Centro de Inovação”, diz o reitor.

emprego no âmbito da organização. PESQUISA FAPESP 215 | 11


Tecnociência Inovação nacional

Poeira de casas com cães

Com a distribuição de

Entre os institutos de

prêmios que totalizaram

ciência e tecnologia,

R$ 9 milhões, foram

o ganhador foi o

anunciados em dezembro

Centro de Pesquisa e

os vencedores da etapa

Desenvolvimento em

nacional do Prêmio Finep

Telecomunicações (CPqD),

de Inovação 2013.

de Campinas, no interior

A Natura, de São Paulo,

paulista, especializado

ganhou na categoria

em soluções para a

grande empresa, pela

área de tecnologia

contribuição em produzir

da informação e

cosméticos inovadores e

comunicação. A F123

sustentáveis. A Braile

Consulting, de Curitiba,

Biomédica, de São José

no Paraná, venceu na

do Rio Preto, no interior

categoria tecnologia

paulista, venceu entre as

assistiva por ter

médias empresas pela

desenvolvido um software

série de instrumentos

que possibilita a leitura

A exposição à poeira

apresentaram uma

médicos inovadores,

de telas de computadores

de casas com cães pode

proteção maior contra

principalmente no

para deficientes visuais.

modificar a composição

substâncias causadoras

segmento cardiológico.

O prêmio de tecnologia

da microbiota – a

de alergia (alérgenos)

A pequena empresa

social foi para a

comunidade de

retiradas de baratas,

ganhadora foi a Marina

Fundação de Tecnologia

micróbios – do intestino

em comparação com

Borrachas, de Triunfo,

do Estado do Acre

e proteger contra

animais alimentados

no Rio Grande do Sul,

(Funtac), entidade que

alergias e asma, segundo

com poeira de casa sem

produtora de

produz sementes e

estudo de pesquisadores

cães. Os pesquisadores

componentes de

mudas de plantas nativas

dos Estados Unidos e do

verificaram que a poeira

borracha para as

da Amazônia. O título

Canadá (PNAS,

da casa com cães alterou

indústrias de petróleo,

de inventor inovador de

dezembro). Os autores

a microbiota intestinal,

gás e automobilística.

2013 ficou com o

desse trabalho já tinham

aumentando a população

O prêmio de inovação

empresário José Roberto

verificado que crianças

da bactéria Lactobacillus

sustentável teve a

do Amaral Assy, de

de casas com cães eram

johnsonii. Em seguida,

empresa CBPak, da

Caldas Novas, Goiás,

menos propensas a

os animais que

cidade do Rio de Janeiro,

por ter desenvolvido

desenvolver alergias na

receberam L. johnsonii

como vencedora pela

um sistema dosador de

infância do que as que

apresentaram uma

produção de copos com

sementes para plantio

moravam em casas sem

resposta alérgica mais

amido de mandioca.

de cereais e leguminosas.

animais. Depois viram

amena, quando expostos

que a poeira coletada

a alérgenos de barata ou

de casa com cães

vírus respiratório

continha uma variedade

sincicial, dois fatores de

maior de bactérias do

risco para a asma em

que a de casa sem

crianças. Os especialistas

animais domésticos.

vislumbram novas

Agora eles mostraram

possibilidades de

que a poeira de casas

tratamento de alergias

com cães ajuda a deter

e infecções pulmonares

a inflamação alérgica.

a partir desse estudo,

Camundongos jovens

caso os resultados sejam

que receberam poeira

aplicáveis a seres

de casas com cães

humanos.

12 | janeiro DE 2014

No laboratório da Natura, óleos essenciais extraídos de plantas da biodiversidade brasileira

1


O HIV e a morte explosiva das células de defesa Uma vez no organismo, o vírus da imuno-

agora, em dois artigos, as vias bioquími-

plosiva: a célula se rompe e libera molé-

deficiência humana (HIV) inicia a elimi-

cas de morte celular acionadas pelo HIV

culas inflamatórias. Esse achado abre

nação das células de defesa, em especial

(19 de dezembro, Science e Nature). A

caminho para novas formas de combater

dos macrófagos, que deveriam combatê-

equipe de Greene demonstrou que, depois

o vírus. Os tratamentos atuais bloqueiam

-lo. É uma matança indireta, com efeito

de penetrar nas células, o HIV aciona uma

as proteínas produzidas pelo HIV. Os pes-

disseminado. O grupo liderado por Warner

sequência de reações químicas que levam

quisadores acham ser possível desenvol-

Greene, da Universidade da Califórnia em

a célula à morte por piroptose. Assim

ver compostos que atuem sobre as pro-

São Francisco, Estados Unidos, descreve

como a apoptose, que ocorre com as cé-

teínas dos macrófagos, evitando que

lulas velhas e doentes, a piroptose é uma

morram. Um teste com células mostrou

forma de suicídio celular. Mas a apoptose

que um composto experimental bloqueou

é silenciosa, enquanto a piroptose é ex-

com eficiência a morte dos macrófagos.

Semáforos e carros

2

Gatilho molecular: cópias do HIV (em rosa), que acionam a morte por piroptose

fotos 1 léo ramos 2 CDC / A. Harrison; Dr. P. Feorino  3 MBAR  ilustraçãO  daniel bueno

Cicatrizes da colisão

Os carros autônomos que

veículos conectados

deverão rodar no futuro

uns aos outros por

sem motorista, apenas

meio de uma rede sem

com passageiros, vão

fio chamada de

necessitar, além de

interveiculares ou Vehicle

radares e comandos no

Ad hoc Networks (Vanet).

próprio carro, de uma

Nessas redes os carros

série de sistemas nas

são equipados com um

ruas. Um deles começou

conjunto de sistemas de

a ser desenvolvido em

envio e recepção de

Curitiba, no Paraná, pelo

sinais. “Isso possibilita a

Um abismo submerso no

queda do meteorito, na

engenheiro eletricista

cada veículo conhecer sua

golfo do México parece

península de Yucatán.

Rafael Miggiorin, do

posição, a velocidade e a

esconder vestígios do

Os pesquisadores

Instituto de Tecnologia

direção de outros carros

impacto do meteorito

acreditam que o

para o Desenvolvimento

de um grupo e tomar

que deve ter causado

sedimento acumulado

(Lactec), em conjunto

decisões em conjunto ou

a extinção em massa de

sobre as rochas pode

com professores da

individualmente”, explica

plantas e animais há

guardar registros de

Universidade Tecnológica

Miggiorin. “Nesse caso,

65 milhões de anos.

fenômenos como a

Federal do Paraná

o semáforo seria uma

Com imagens de sonar

nuvem de poeira que se

(UTFPR). Ele desenvolveu

espécie de gerente

captadas em um navio

seguiu à colisão do

um software que simula

enviando comandos para

oceanográfico,

meteorito com a Terra.

largadas e frenagens

os veículos largarem e

pesquisadores da

Segundo eles, as rochas

cooperadas, com os

frearem.”

Universidade Nacional

formadas antes, durante

Autônoma do México e

e depois do impacto se

do Centro de Investigação

espalham pelas bordas

Científica de Yucatán, sob

do abismo submarino,

coordenação de Charlie

também conhecido como

Paul, do Instituto de

escarpa do Campeche.

Pesquisa Monterey

As imagens estão no

Bay Aquarium (MBAR),

Google Maps e no Google

Estados Unidos, fizeram

Earth. Os resultados do

um mapa detalhado

mapeamento foram

de um penhasco de

apresentados em

4 quilômetros (km) de

dezembro na reunião da

profundidade e 600 km

American Geophysical

de comprimento

Union (AGU), em São

próximo do local da

Francisco, na Califórnia.

Representação gráfica da escarpa do Campeche, no México: sinais do choque do meteorito há 65 milhões de anos

100 km

Provável área do impacto

3

PESQUISA FAPESP 215 | 13


Energia do atrito

Filme ativo

Aquele pequeno choque

construindo se baseiam

Uma substância

que quase todos já

na troca de elétrons

antimicrobiana obtida da

sentiram quando tocam

entre dois materiais, um

mostarda e nanotubos

principalmente em

que doa e outro que

de carbono foram os

metais depois de pisar

recebe, quando

ingredientes que a

num tapete num dia

atritados. A repetição

engenheira de alimentos

mais frio e seco

contínua desse processo

Marali Vilela Dias utilizou

é o tipo de energia que

gera uma pequena

para elaborar uma

pesquisadores do

corrente que pode ser

embalagem ativa contra

Instituto de Tecnologia

aproveitada por

microrganismos capaz

da Geórgia (Georgia

eletrodos instalados

Tech), nos Estados

no dispositivo. Esse

Unidos, estão utilizando

processo já era

para desenvolver

conhecido, o que os

de polímeros nesse

geradores capazes de

pesquisadores liderados

processo mas também

recarregar celulares e

pelo professor Zhong Lin

tecidos e papel. Desde

fazer funcionar sensores

Wang inovaram foi na

o início dos estudos,

autoalimentados. Eles

forma de separação dos

a equipe já conseguiu

desenvolveu um filme

se utilizam da tribologia,

dois materiais que

um aumento de 100 mil

plástico com polímero

ciência que estuda o

provoca um melhor

vezes na densidade

de celulose e camadas de

atrito, o desgaste e a

aproveitamento do fluxo

elétrica dos geradores

isotiocianato de alila,

lubrificação. Os

da corrente elétrica.

triboelétricos. O estudo

como antimicrobiano.

geradores triboelétricos

Eles estão utilizando

foi publicado na revista

Os nanotubos servem

que eles estão

principalmente folhas

ACS Nano, de novembro.

para reforçar a

de aumentar o tempo de 1

Dispositivo demonstra geração de eletricidade ao deslizar dois materiais

conservação de frangos, queijo, carnes e derivados. Professora da Universidade Federal de Viçosa (UFV), de Minas Gerais, ela

embalagem. “Utilizamos o isotiocianato contra vários microrganismos, danosos aos alimentos”, diz Marali. Para testar a eficiência da embalagem, ela inoculou a bactéria Salmonella choleraesuis na carne de frango cozido e desfiado. “Os resultados foram bons com o frango embalado durante 40 dias.”

Jovens infratores distinguem o certo do errado Jovens infratores internados em centros

longo de quase um ano (Frontiers in

dáveis (um pai com um bebê no colo),

socioeducativos às vezes exibem indife-

Psychiatry, novembro). “Esses jovens ti-

neutras (um livro sobre uma mesa) ou

rença ao sofrimento alheio e desprezo às

nham maturidade moral e sabiam distin-

desagradáveis (pessoas mutiladas). Hou-

regras sociais, mas eles sabem – ou apa-

guir o certo do errado”, diz Daniel Martins

ve uma correlação entre o grau de frieza

rentam saber – diferenciar o certo do

de Barros, psiquiatra da Universidade de

medido no teste psicológico e a reação

errado. Um grupo de psiquiatras e psicó-

São Paulo. “Mas não podemos confirmar

emocional avaliada pelo teste fisiológico.

logos de São Paulo chegou a essa con-

se esse conhecimento é original ou se

Quanto mais a frieza e a indiferença dos

clusão depois de submeter 30 internos

eles apenas o reproduziam porque tinham

participantes se aproximavam das de

da Fundação Casa (antiga Febem), com

ouvido alguém dizer.” Os adolescentes

alguém com um quadro clássico de psi-

idade entre 18 e 21 anos, a testes psico-

passaram também por um teste que mede

copatia, menos eles sentiam o impacto

lógicos que avaliam o grau de psicopatia

a atividade elétrica da pele e avalia a

das imagens inquietantes, de conteúdo

e a capacidade de julgamento moral, ao

resposta emocional ao ver imagens agra-

afetivo negativo.

14 | janeiro DE 2014


A identidade dos vinhos

2

fotos 1 Inertia Films /Georgia Tech 2 SecultBA  3 eduardo cesar  ilustraçãO  daniel bueno

Arqueologia na Bahia

Lagoa da Velha: pinturas rupestres agora examinadas

Um estudo sobre

Rio Grande do Sul.

antocianinas –

A concentração total

complementando as

de antocianinas,

análises de isótopos

eles verificaram, pode

– pode dificultar a

variar de acordo com

falsificação de vinhos

a origem geográfica,

e sucos de uva.

o tipo de uva e o ano da

Antocianinas são

safra (Food Chemistry,

pigmentos responsáveis

fevereiro 2014).

pela variedade de cores

Pode haver diferenças

em frutos, flores e folhas,

mesmo dentro de uma

variando do vermelho-

variedade: as uvas

-alaranjado ao azul –

Cabernet Sauvignon

esses pigmentos, com

cultivadas em Bento

os taninos pigmentados,

Gonçalves, no Rio Grande

dão a cor avermelhada

do Sul, apresentaram

aos vinhos tintos.

uma concentração

Karina Fraige e Emanuel

levemente maior do que

Carrilho, da Universidade

as de São Carlos, em São

de São Paulo (USP),

Paulo. O resultado mais

e Edenir Pereira-Filho,

impressionante foi que

da Universidade Federal

o teor de antocianinas

de São Carlos (UFSCar),

da variedade híbrida

examinaram por

Maximo é cerca de

Por meio de escavação

animais e vegetais.

cromatografia líquida

10 vezes mais alto que o

iniciada em novembro

Na primeira etapa

e espectrometria de

das outras variedades. As

do ano passado no

do projeto, os

massas os níveis de

uvas Maximo, cultivadas

sítio arqueológico

pesquisadores

20 antocianinas nas uvas

mais intensamente no

Lagoa da Velha, no

mapearam 67 sítios de

de três variedades de

Brasil, apresentam uma

município de Morro

pinturas rupestres, onde

uvas viníferas – Syrah,

casca mais avermelhada

do Chapéu, na Bahia,

encontraram objetos

Cabernet Sauvignon e

que as dos outros tipos,

arqueólogos e

lascados que podem dar

Merlot – e uma híbrida de

ampliando seu potencial

antropólogos esperam

novas pistas sobre os

duas espécies, a Maximo,

de uso na fabricação

entender melhor

hábitos dos povos

coletadas de vinhedos

de sucos com alto

como viviam os

antigos daquela região.

de São Paulo, Bahia e

poder antioxidante.

habitantes daquela

A segunda etapa,

região há milhares de

lançada em julho do

anos. As escavações

ano passado, prevê,

integram um programa

além das escavações,

de pesquisa e manejo

a identificação e o

de sítios de arte rupestre

estudo das pinturas

da Chapada Diamantina,

e gravuras rupestres

realizado pelo Instituto

encontradas.

do Patrimônio Artístico

O sítio de Lagoa

e Cultural em parceria

da Velha faz parte

com o Departamento

da mesma formação

de Antropologia da

geológica que abriga

Universidade Federal da

a serra das Paridas,

Bahia. Originária de

em Lençóis, onde os

bacia sedimentar, com

pesquisadores já haviam

1,6 bilhão de anos, a

encontrado pinturas

Chapada Diamantina

rupestres de animais,

é uma das mais ricas

vegetais, formas

regiões do Brasil em

geométricas e humanas,

cavernas, pinturas

feitas com pigmentos

rupestres e fósseis

vermelhos e amarelos.

Teste apurado: teor de antocianinas diferencia as variedades de vinhos

3

PESQUISA FAPESP 215 | 15


capa

O Ăşltimo ato da favorita do imperador Marcos Pivetta

16 | janeiro DE 2014


fotos 1 eduardo cesar 2 iugiro kuroki

Imagens em 3D revelam os segredos da múmia de uma cantoraEsquife de Sha-amun-em-su, cantora-sacerdotisa do templo de Amon e tomografia por raios X de sua múmia: proteção na garganta para preservar a voz

-sacerdotisa de 2.800 anos, estrela da coleção egípcia do Museu Nacional

U

m livro por uma múmia. A troca foi boa para dom Pedro II, estudioso da cultura do antigo Egito. O imperador deu uma obra sobre o Brasil e, durante sua segunda viagem à terra dos faraós entre 1876 e 1877, recebeu de presente do quediva Ismail, então soberano local, um esquife lacrado. Dentro do caixão de madeira estucada e colorida havia a múmia de uma cantora-sacerdotisa que entoava cânticos sagrados no templo dedicado ao deus Amon, em Karnak, nos arredores de Tebas (atual Luxor). Essa mulher morreu com cerca de 50 anos durante a XXII dinastia, por volta de 750 a.C. O ataúde de Sha-amun-em-su, nome da cantora que significa “os campos verdejantes de Amon”, permaneceu no gabinete de Pedro II no palácio imperial da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, até 1889. Era um dos xodós do monarca, que, reza a lenda, trocaria até algumas palavras com o esquife. Com a proclamação da República, a múmia foi incorporada à coleção egípcia do Museu Nacional, que, desde 1892, ocupa a antiga residência da família PESQUISA FAPESP 215 | 17


real brasileira, hoje pertencente à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mesmo sem nunca ter sido aberto desde que virou a morada final de Sha-amun-em-su, o esquife se tornou nos últimos anos uma fonte preciosa de informações sobre como eram os hábitos funerários adotados pelos egípcios para garantir uma boa existência após a morte para suas cantoras-sacerdotisas. Com o auxílio de exames de tomografia computadorizada por raios X, que permitem ver em três dimensões as estruturas internas preservadas por 2.800 anos no interior do caixão, a equipe do arqueólogo Antonio Brancaglion Junior, curador da coleção egípcia do Museu Nacional, descobriu recentemente que a garganta da cantora parece estar revestida por uma bandagem com resina. Aparentemente os responsáveis pelo processo de mumificação de Sha-amun-em-su se preocuparam em proteger uma região vital para alguém que soltava a voz em rituais sacros, habilidade que, de acordo com a religião dos antigos egípcios, também lhe seria útil no além. “Há pouquíssimas múmias de cantoras no mundo, ainda mais dentro de um caixão lacrado”, diz Brancaglion. “Outra que existe está em Chicago e também parece ter uma proteção na garganta.” O arqueólogo faz referência a Meresamun, também cantora-sacerdotisa do templo de Amon, a principal divindade egípcia naquele período, que viveu por volta de 800 a.C., igualmente duran18 | janeiro DE 2014

te a XXII dinastia. Meresamun, que quer dizer “Amon a ama”, foi uma quase contemporânea de Sha-amun-em-su. Feito num estilo similar ao do caixão de sua colega de ofício que foi parar no Rio de Janeiro, o esquife hoje em poder do acervo do Instituto de Estudos Orientais da Universidade de Chicago também nunca foi violado. Em seu interior há o corpo de uma jovem que morreu por volta dos 30 anos. Uma tomografia realizada no final de 2008 revelou que a boca e o pescoço da cantora estão revestidos com chumaços do que parece ser terra fixada com algum tipo de atadura. Qualquer semelhança com a proteção no pescoço de Sha-amun-em-su não deve ter sido mera coincidência. Brancaglion suspeita que a bandagem na região das cordas vocais presente nas duas cantoras pode denotar um padrão específico de mumificação para as mulheres responsáveis pela música no templo de Amon. Embora não pertencessem a famílias de nobres, as cantoras-sacerdotisas desse lugar sagrado vinham de uma elite local, uma espécie de classe média alta. Em geral, aprendiam sua arte com as mães e não raro uma família fornecia sucessivas gerações de cantoras. Mesmo não sendo necessariamente virgens, eram vistas como extremamente puras – a ponto de poderem exercer seu dom no interior de um edifício tão importante e simbólico como o dedicado ao culto de Amon. Nas tomografias realizadas em Sha-amun-em-su, feitas pelo radiologista Iugiro Kuroki sob


1 Montagem com imagens do esquife, da múmia e do esqueleto da cantora

1

fotos  1 Simone Belmonte 2 Jorge Lopes

orientação da paleopatologista Sheila Mendonça, da Fiocruz, numa clínica particular do Rio de Janeiro, também aparecem amuletos abrigados dentro do caixão, inclusive o escaravelho-coração, um símbolo ligado à ressurreição dos mortos. Composto por uma pedra verde ovalada encaixada em uma placa de ouro que, como um pingente, se prende a um cordão igualmente dourado, o escaravelho traz o nome da múmia escrito em hieroglifos. Era colocado sobre o coração da múmia ou no lugar dele caso o órgão tivesse sido retirado no processo de embalsamamento. “O coração era visto pelos antigos egípcios como o lugar da inteligência e das emoções”, diz Brancaglion, também professor de letras orientais na pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Entre as revelações anatômicas obtidas com as imagens de raios X chamou a atenção uma curiosidade odontológica: a cantora tinha todos os dentes, com exceção de um.

2 Múmias de gatos ao lado de suas respectivas ossadas reproduzidas por uma impressora 3D: tomógrafo e escâner a serviço da egiptologia

conteúdo interno constituído de um material diferente: ossos, pedras, metais e, no caso de múmias, até as tiras de linho usadas para proteger um corpo embalsamado. “Podemos desenfaixar virtualmente uma múmia sem produzir nenhum dano ao material analisado”, afirma Jorge Lopes, coordenador do Núcleo de Experimentação Tridimensional (Next) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e pesquisa-

Desenfaixar virtualmente

Amplamente usada na medicina para visualizar ossos e tecidos moles sem a necessidade de fazer uma incisão no paciente, a tomografia computadorizada permite igualmente que os arqueólogos e os antropólogos físicos enxerguem o interior de um objeto de forma não destrutiva ou invasiva. Em função de regulagens feitas no aparelho, cada rodada da tomografia pode destacar um

2

PESQUISA FAPESP 215 | 19


Detalhe de caixão de aproximadamente 1.000 a.C. do acervo do Museu Nacional e viagem de Pedro II ao Egito: coleção da instituição tem cerca de 700 peças

dor do Instituto Nacional de Tecnologia (INT). “Ou ainda mostrar o tamanho do corpo embalsamado em relação às dimensões do caixão.” Parceiro frequente dos trabalhos feitos pela equipe de Brancaglion, Lopes coordenou a produção das tomografias e a realização de escaneamentos tridimensionais do esquife de Sha-amun-em-su e de outras peças da coleção egípcia, além de objetos de outros setores do Museu Nacional, como dinossauros e aves pré-históricas abrigados na seção de paleontologia. Se a tomografia de raios X é capaz de revelar as entranhas de seres ou objetos, o escaneamento 3D, que emite feixes de laser ou de luz branca, consegue reproduzir com riqueza de detalhes os contornos de uma superfície. Ambas as técnicas geram arquivos com dados tridimensionais, as chamadas coordenadas ortogonais, que podem ser usados para alimentar uma impressora 3D. Assim é possível confeccionar uma réplica em escala menor do esqueleto de Sha-amun-em-su e das feições externas do colorido ataúde que o protege da curiosidade

1

humana há 2.800 anos. “A impressão 3D usa o mesmo conceito empregado na construção das pirâmides ou de uma casa”, afirma Lopes. “Um objeto é construído por meio da adição de novas camadas às antigas, bloco a bloco. O princípio é velho. Apenas a tecnologia é moderna e mais precisa.” Ao lado de Brancaglion, do paleontólogo Sergio Alex Azevedo, também do Museu Nacional, e do médico Heron Werner Jr., Lopes é um dos editores do livro Tecnologias 3D: desvendando o passado, modelando o futuro, que acaba de ser lançado. Preservação digital

2

20 | janeiro DE 2014

Produzir imagens tridimensionais das peças que compõem uma coleção de biologia ou de história natural virou um procedimento quase obrigatório nos grandes museus do mundo. Para pesquisadores das mais diversas áreas, a existência de arquivos digitais com as formas internas e externas de um sarcófago do antigo Egito, de uma ossada humana da Idade da Pedra, de um esqueleto de dinossauro jurássico ou até de uma nova espécie de besouro recém-descoberta representa um novo modo de estudo e análise. As imagens e modelos em 3D também são uma ferramenta de ensino, divulgação pública e de preservação, ainda que digital, das características de um objeto ou monunento. “Houve um grande boom


fotos 1 eduardo cesar 2 biblioteca nacional  3 e 4 brancaglion/facuri

do emprego dessa tecnologia nos últimos anos”, diz Lopes. Em novembro do ano passado, o Instituto Smithsonian, sediado em Washington, lançou uma iniciatiImagens de va chamada Smithsonian X 3D. Em raios X revelam sua página na internet, a instituição americana – que congrega 19 o interior de museus, 9 centros de pesquisa e o Zoológico Nacional – disponibiliza caixões e de ferramentas para visualizar e explorar imagens tridimensionais de pemúmias e ças escaneadas de suas coleções, um escaneamento enorme repositório com 137 milhões de objetos, obras de arte e exemplatridimensional res de diferentes espécies. Também é possível baixar arquivos com moreproduz a delagens e imprimir uma peça numa impressora 3D. Uma organização superfície de sem fins lucrativos sediada na Capeças e lifórnia, a CyArk, tem um grande projeto global de escaneamento de monumentos monumentos do planeta que correm risco de serem destruídos ou são considerados patrimônios culturais da humanidade. Locais como a antiga cidade maia de Chichen Itza, no México, ou o teatro Opera House em Sidney, na Austrália, fazem parte de sua lista de construções que estão sendo escaneadas para a posteridade. O esquife da cantora é a peça mais chamativa da coleção do Museu Nacional, mas não é a única que já foi analisada por meio dessas novas tecnologias. O Museu Nacional tem múmias de gato, uma paixão egípcia. Algumas também já estão tomografadas e escaneadas. Ocultos pelas bandagens, os esqueletos de alguns desses felinos foram até reproduzidos por impressoras 3D. As novas tecnologias ajudaram, ainda, a enterrar de vez uma dúvida sobre uma peça de natureza obscura da coleção. Uma múmia que estava catalogada como pertencente a um humano recém-nascido era, na verdade, de um gato. “Olhando bem a múmia, até dava para desconfiar de que não era de um bebê. Mas só tivemos certeza depois da tomografia”, diz Brancaglion. A dúvida poderia ter sido elucidada antes com a violação da múmia, mas, obviamente, essa estratégia de trabalho estava fora de cogitação. Sem exagero, os estudiosos estimam que milhões de felinos foram embalsamados, enrolados em tiras de pano e sepultados de forma semelhante aos humanos no antigo Egito. Animal sagrado para os antigos egípcios, o gato representava Bas3 tet, a deusa da fertilidade. Havia também razões práticas para o homem dedicado à agricultura Estátuas de bronze gostar desse ágil companheiro de quatro patas. do Museu Nacional: Um felino podia espantar ou até dar um fim em deus Amon (no alto) serpentes e sobretudo em ratos, que ameaçae faraó Menkheperre

vam devorar colheitas. “Os gatos eram vistos como membros da família”, conta Brancaglion. “Quem os matasse podia ser condenado à morte.” A preservação de felinos para uma vida no além era uma prática tão disseminada entre os antigos egípcios que, no final do século XIX, uma expedição encontrou cerca de 300 mil múmias de gato em apenas um sítio funerário, em Beni-Hassan, na margem oriental do Nilo, centro do país. Vistos como sem importância por seus descobridores modernos, os milhares de corpos de felinos embalsamados foram vendidos para uma empresa inglesa que os teria usado como fertilizante.

4

Compra em leilão

Apesar de pequena quando comparada aos acervos de instituições da Europa, dos Estados Unidos e do próprio Museu do Cairo, que conta com 120 mil peças em suas dependências, a coleção egípcia do Museu Nacional de aproximadamente 700 objetos funerários é a mais antiga e importante da América do Sul. “Quase todo mundo pensa que ela começou com dom Pedro II, mas seu início se deu com dom Pedro I”, conta Brancaglion. A coleção começou a ser formada em 1826, quando Pedro I adquiriu um grande lote de objetos do comerciante italiano Nicolau Fiengo. Esses lotes eram a recompensa de pilhagens feitas por ocidentais nos monumentos do antigo Egito. Oriundas basicamente de tumbas de funcionários do império, que integravam uma espécie de classe média no antigo Egito, as peças hoje no palácio da Quinta da Boa Vista tinham originalmente como destino final Buenos Aires, onde deveriam ter sido vendidas. Mas o primeiro monarca do império brasileiro conseguiu arrematá-las em um leilão no Rio de Janeiro, durante uma escala em terras fluminenses do mercador europeu. A maioria das peças é proveniente provavelmente da necrópole de Tebas. Além de Sha-amum-em-su, há mais três múmias inteiras de adultos, duas de crianças e partes embalsamadas de corpos humanos. A múmia de Kherima, uma PESQUISA FAPESP 215 | 21


Estela de Senusret-Iunefer, do final do século XIX a.C.: menção mais antiga em fonte egípcia do termo asiático

jovem que viveu no período de dominação romana do Egito entre os séculos I e II d.C., é considerada rara. Cada braço e perna foi enfaixado isoladamente, separado em relação ao resto do corpo. “Há apenas nove múmias conhecidas no mundo que receberam esse tratamento externo”, diz Brancaglion. A coleção também conta com tampas de caixão, máscaras, amuletos, vasos e estátuas. Só de um tipo de estatueta funerária, os shabtis, há mais de 200 exemplares, que estimularam uma ex-aluna de mestrado de Brancaglion a estudar esses objetos em museus do exterior (ver texto abaixo). Outra peça singular é a figura que aparece em uma estatueta de bronze de 18,5 centímetros de altura, que se encontra parcialmente destruída. Em seu saiote existe um hieroglifo que contém a única menção conhecida ao fato de o sacerdote Menkheperre, que viveu entre os séculos XI e X a.C., ter exercido o poder como faraó. “Por isso, a imagem mistura atributos reais e sacerdotais”, afirma Cintia Facuri, que faz mestrado em arqueologia egípcia no Museu Nacional.

Servidores a serviço da múmia no além A crença na vida eterna após a morte

madeira ou pedra, muitas vezes com

pessoa fazia um só shabti para ser

é um dos traços definidores da religião

aspecto semelhante ao de uma

enterrado com ela. A estatueta era

no antigo Egito e estimulou a adoção

minimúmia. “Demoraram uns 500 anos

como se fosse uma cópia dela e iria

de muitas práticas e amuletos

para que os faraós passassem a fazer

trabalhar em seu lugar após a sua

funerários que tinham como objetivo

suas estatuetas funerárias”, diz a

morte”, explica Cintia.

final permitir a ressurreição e tornar

arqueóloga paulista Cintia Alfieri Gama

mais leve uma segunda existência.

Rolland, que faz doutorado sobre os

adotar essa prática funerária, o

Os shabtis, estatuetas de 10 a 60

shabtis dos faraós na Escola Prática de

número de shabtis em suas sepulturas

centímetros que dividiam as

Altos Estudos da Sorbonne, em Paris.

se multiplicou e as estatuetas

sepulturas com as múmias, são um

Por que os homens mais poderosos

Quando os faraós passaram a

assumiram o caráter de servidores do

dos artefatos mais representativos

do antigo Egito, que não precisavam

falecido em vez de ser uma réplica do

dessas crenças, ainda que envoltos

trabalhar em vida, começaram a se

morto. Alguns faraós tinham um shabti

em mistérios. Sua função era bem

preocupar em ser enterrados com

por dia do ano – a cada jornada no

conhecida: trabalhar no lugar do

um séquito de servidores-estatuetas

além um servidor diferente assumiria

morto no além, mais especificamente

destinados a laborar em seu lugar no

o trabalho que originalmente deveria

arar os campos sagrados de Osíris,

além? Essa é a questão central que

ser feito por seu senhor – e até

o deus da vida após a morte e do

Cintia tentará responder em sua tese

estatuetas-capatazes, encarregadas

mundo subterrâneo.

depois de ter estudado no mestrado a

de zelar pelo cumprimento desse

Diferentemente de boa parte dos

coleção de 244 shabtis (originários de

esquema de trabalho. Na tumba de

hábitos religiosos no antigo Egito, que

túmulos de pessoas comuns e do faraó

Tutancâmon, o famoso faraó-menino,

costumam surgir primeiramente entre

Séthy I) do Museu Nacional. Durante o

foram encontrados 417 shabtis de

os faraós e depois se disseminam entre

Novo Império, entre os séculos XVI a.C.

madeira (com ouro), faiança,

o povo, a confecção de shabtis fez o

e XI a.C., período de esplendor do poder

alabastro, granito e quartzito. Até

caminho inverso. Por volta de 2.000

dos grandes faraós, a quantidade de

agora Cintia analisou 1.507 dessas

a.C., a elite começou a encomendar

shabtis enterrados com as múmias dos

estatuetas achadas em tumbas de

a artesãos a construção dessas

ricos e poderosos aumentou

faraós, que estão em museus da

pequenas figuras, feitas de barro,

significativamente. “Originalmente, uma

Europa, dos Estados Unidos e do Egito.

22 | janeiro DE 2014


Há ainda no acervo da instituição fluminense estelas funerárias, um tipo de monolito que contém desenhos e inscrições. Num desses blocos líticos, conhecido como estela de Haunefer, esculpido em rocha calcária entre 1300 e 1200 a.C. na antiga cidade de Ábidos (Egito central), há uma inscrição que é a primeira alusão conhecida a um ofício muito específico do antigo Egito: o de “fabricante das colchas listradas” do faraó. Na estela de Senusret-Iunefer, também de Ábidos mas do final do século XIX a.C., aparece o registro mais antigo do termo asiático numa fonte egípcia. Além de investir em trabalhos que empregam tecnologias modernas para estudar o mundo antigo dos egípcios, Brancaglion se dedica a formar mestrandos e doutorandos para a egiptologia, uma área de pesquisa em que o país não tem tradição. Nesse sentido, são úteis as parcerias e iniciativas internacionais que estão sendo

Shabtis do faraó Tutancâmon (à dir.) e exemplares de estatuetas funerárias do Museu Nacional: para todos os bolsos e classes

costuradas pela equipe do Museu Nacional. Ao lado da historiadora Violeta Pereyra, professora da Universidade de Buenos Aires e diretora da missão arqueológica argentina em Luxor, Brancaglion deve visitar ainda neste ano a tumba de Neferhotep, um alto funcionário do antigo império egípcio que foi contemporâneo do faraó Tutancâmon e morreu por volta de 1350 a.C. Situado perto do Vale dos Reis, numa área que faz parte da grande necrópole de Tebas, o túmulo é um dos maiores feitos por um indivíduo que não tinha sangue real nem era nobre. Após o óbito de seu construtor chegou a ser usado como tumba por outros indivíduos. Nos últimos dois séculos, foi explorado por equipes de arqueólogos da França, da Inglaterra e dos Estados Unidos e foi também palco de incêndios. Desde 1999, Violeta tem a “chave” da tumba e controla o acesso ao local. “Para ser sincera, consegui a tumba porque ninguém a queria. Ela estava toda mexida e suas pinturas escurecidas”, afirma Violeta, que, ao lado de colegas alemães, toca um trabalho pioneiro de restauração no interior do monumento. A fuligem que cobria parte dos hieroglifos e das pinturas das paredes, sobretudo um mural com a representação do templo de Amon em Karnak, vem sendo removida aos poucos, nos últimos anos, com o auxílio de um aparelho de laser. É a primeira vez que as autoridades egípcias autorizam o uso dessa tecnologia em um processo de restauro de monumentos antigos. “Precisamos de um arqueólogo em nosso grupo e convidamos o Brancaglion”, diz Violeta. Estudiosa das populações pré-históricas brasileiras, a arqueóloga e bioantropóloga Claudia Rodrigues-Carvalho, diretora do Museu Nacional, iniciou em 2009 um projeto de pesquisa interessante com a missão arqueológica italiana em Luxor: entender a ação dos ladrões que pilharam a grandiosa tumba de Harwa, situada na necrópole de El-Assasif, perto de Tebas. Esse personagem enigmático foi um alto funcionário imperial que, segundo novas interpretações, pode ter sido o governador de fato de todo o sul do Egito no início do século VII a.C. Durante a XXV dinastia, a região foi conquistada pelos núbios e houve a ascensão ao poder dos chamados faraós negros. Posteriormente, a tumba foi muito usada, ao longo da história, para abrigar novos sepultamentos. “Isso ocorreu durante muito tempo”, afirma Claudia, que tentará estabelecer uma cronologia da ocupação e da pilhagem do sepulcro. Pilhar peças da antiga terra dos faraós foi uma atividade que animou o colonialismo das grandes potências e a ganância e a esperteza de alguns indivíduos durante um bom tempo. Nada mais natural que a ação dos usurpadores de relíquias tenha virado hoje alvo de estudos. n PESQUISA FAPESP 215 | 23


léo ramos

entrevista Ernst Hamburger

Um corajoso cidadão paulistano Mariluce Moura e Bruno de Pierrro

E

m 2 de dezembro passado a Câmara de Vereadores de São Paulo concedeu ao professor Ernst Wolfgang Hamburger o título de cidadão paulistano. Já não era sem tempo. O garoto judeu que em 1936 chegou ao porto de Santos com 3 anos de idade, parte de uma família que tratava de escapar a tempo do horror nazista que varreria a Europa nos anos seguintes, vem contribuindo há mais de 50 anos com a produção do conhecimento, a educação e a divulgação da ciência no Brasil, com os pés bem plantados na cidade que tornou sua de fato. Tanto que sequer guarda memória de seus verdes anos na Alemanha. Físico, com trabalhos importantes em física nuclear, especialmente em espectroscopia nuclear, o professor Hamburger “teve papel fundamental em mudar o rumo do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) na direção de se preocupar com a educação e em disseminar as informações resultantes da pesquisa científica para a sociedade” , destacou o professor José Goldemberg, outro físico atuante na política científica brasileira, na saudação dirigida ao colega na cerimônia na Câmara de Vereadores. E foi aí mesmo que se mostrou “uma pessoa corajosa”, capaz de enfrentar as resistências, “os interesses criados” que todo esforço de transformação traz à cena. Cientista, o professor Hamburger muniu-se de sensibilidade para trabalhar também no sentido da superação do persistente hiato entre o conhecimento científico e aquele produzido pelas humanidades, segundo o professor Celso Lafer, presidente da FAPESP, que igualmente o saudou na cerimônia na Câmara, recorrendo ao tema da conferência “As duas culturas”, proferida pelo 24  z  janeiro DE 2014

físico e romancista inglês Charles Percy Snow (1905-1980) em Cambridge, Reino Unido, em 1959. O trabalho do professor Hamburger na Estação Ciência e em relação a outros museus de ciência inscreve-se, observou Lafer, justamente nessa busca da sutura de um hiato pouco favorável ao desenvolvimento das sociedades humanas. Em sua fala emocionada após receber seu mais novo diploma, o professor Hamburger insistiu que estamos longe ainda do que o país precisa atingir no campo da educação e no da divulgação da ciência. E com graça observou: “Estou com 80 anos, até os 100 anos ainda tenho muito trabalho pela frente”. Na sequência, os trechos principais da entrevista que ele concedeu a Pesquisa FAPESP cerca de três meses antes de se tornar por direito um cidadão de São Paulo. Professor, para começar, quais de seus trabalhos em física lhe parecem mais importantes? Fiz vários trabalhos de que gosto muito, mas nada de excepcionalmente importante, ao contrário de alguns colegas. Fiz investigações da estrutura nuclear, quer dizer, queria saber do que são formados os núcleos atômicos. Queria entender a relação entre sucessivos núcleos na tabela periódica, ou seja, como vão se formando os diferentes compostos da tabela. O berílio, por exemplo, é um átomo de lítio mais um próton. Isso é o que chamamos de espectroscopia nuclear. Comecei meu trabalho, ainda aluno de graduação, como estagiário na montagem do acelerador Van der Graaff, aqui na USP, no final dos anos 1950. Era bolsista – aliás, sem bolsa. Fui da primeira turma de bolsistas de iniciação científica do CNPq e, como o sistema

IDADE 80 anos ESPECIALIDADE Física nuclear e educação científica FORMAÇÃO Universidade de São Paulo (graduação), 1954 University of Pittsburgh: doutorado (1959) e pós-doutorado (1967) INSTITUIÇÃO Instituto de Física da USP PRODUÇÃO CIENTÍFICA 35 artigos publicados em revistas indexadas 10 livros publicados 7 orientações de doutorado


ainda estava sendo organizado, a bolsa demorou 18 meses para chegar. O senhor ficou esperando um ano e meio pela bolsa? Trabalhando de graça? Ganhando muita experiência. O laboratório era dirigido pelo professor Oscar Sala, os trabalhos eram muito interessantes e as turmas eram então muito pequenas. A nossa, que se formou em 1954, tinha 12 pessoas. A primeira turma foi a de 1938, mesmo ano em que Schemberg se formou na Politécnica. Nesta sala em que nos encontramos, a propósito, estão todos os acervos documentais de Mário Schemberg: textos em determinadas caixas, fotografias em outras. Estou continuando o trabalho que Amélia estava fazendo, que é tanto o acervo do Instituto de Física, anterior à vinda de Schemberg para essa unidade – naquela época, Departamento de Física da Faculdade de Filosofia – como o acervo dele mesmo, que a família passou aos cuidados dela aqui no instituto. Como o senhor conseguiu seu estágio? Naqueles anos éramos poucos, todo mundo se conhecia, era um ambiente muito familiar. No primeiro ano, conheci um aluno que estava se formando, amigo da família, e ele me contou que o Sala estava começando um laboratório onde talvez eu conseguisse um trabalho. Não havia ainda nada na Cidade Universitária, o laboratório era na avenida Brigadeiro Luiz Antônio, no centro da cidade. Mas em 1951 ou 1952 começou a construção do acelerador Van der Graaff e passamos para a Cidade Universitária, nesse mesmo local em que conversamos. Aqui tinha um laboratório anterior, do professor Marcello Damy de Souza Santos, que abrigava o acelerador Betatron.

estava entre as 20 melhores. Isso, graças a um professor americano que trabalhou aqui a convite do Sala e depois voltou para Pittsburgh. Foi mérito dele eu e Amélia conseguirmos a bolsa e irmos para lá. Casamos em 1956 e viajamos. Já namorávamos havia um ano. Éramos colegas no curso de física da Faculdade de Filosofia. Ambos fizeram o doutoramento em Pittsburgh? Ela fez o mestrado e eu fiz o doutorado. Amélia também trabalhava com física nuclear. No fim, já grávida, ela trabalhava com os dados colhidos no acelerador, mas não ia mais lá. Sua tese de doutorado foi ligada a essa experimentação com física nuclear,

mas produzimos também, através deles, o lítio 8, que é instável. Assim conseguimos entender melhor como a estrutura do lítio 7 – que é o lítio 6 com um nêutron a mais – está ligada à estrutura do lítio 6. Isso abria algumas questões: é simplesmente um nêutron a mais circulando ali no núcleo? Como essa partícula circula? Tirando esse nêutron, o que tem a mais é o puro estado do lítio 6 ou não é? Sua intenção era identificar como circulava especificamente esse nêutron a mais? Circular é uma palavra ligada ao modo de ver clássico. Na mecânica quântica, ele preenche todo o espaço, não é exatamente uma trajetória. Eu quero entender a estrutura do lítio 7, com 7 partículas, comparada com o lítio 6, com 6 partículas. Entender até que ponto a partícula a mais que se acrescenta modifica a estrutura do lítio 6. E qual foi a sua conclusão? Ela confirmou o modelo mais simples da física nuclear para núcleos leves, que é o modelo de camadas, de partículas independentes. Numa descrição muito aproximada, não exata, você pode imaginar que cada partícula dentro das sete partículas ali está se movendo por um campo de força produzido pelas outras seis livremente. Uma parte do tempo o núcleo de lítio 7 tem o núcleo de lítio 6 dentro dele num estado excitado, e não num estado fundamental, e podemos quantificar isso. Então você constrói a tabela periódica dos núcleos, um após o outro, comparando um com o outro. Mais tarde, comparando os núcleos mais pesados, comparei o chumbo 206 e o 207, o 207 e o 208, e o 208 e o 209.

O Sala estava começando um laboratório onde eu talvez conseguisse um trabalho

Quando o senhor se formou, foi para os Estados Unidos. Havia por aqui uma crise aguda e, quando Jânio Quadros foi eleito governador, os salários caíram e muita gente foi embora das universidades. Em 1956 fui para os Estados Unidos fazer doutoramento em Pittsburgh, que não é uma grande universidade, mas na área de física nuclear 26  z  janeiro DE 2014

não? Foi nesse momento que o senhor começou a trabalhar com reações de transferência de núcleo? Na prática foi. Eu tinha feito um pouco aqui em São Paulo, mas na maior parte do tempo em que fui estudante o acelerador estava sendo construído. Começou a funcionar em 1955. Então, as primeiras experiências completas que fiz foi em Pittsburgh, com uma máquina diferente, um cíclotron, em via de se tornar obsoleta, mas capaz ainda de produzir resultados interessantes, significativos. A tese de doutorado foi sobre reações nucleares de deutério, mais precisamente de dêuterons acelerados pelo cíclotron, incidindo sobre alvos de lítio. O lítio tem dois isótopos, lítio 6 e lítio 7, que são estáveis,

Ainda estava em Pittsburgh? Eu voltara ao Brasil e depois tinha retornado para Pittsburgh. Quando houve o golpe de 1964, todo mundo na Faculdade de Filosofia ficou muito desanimado porque alguns fundadores da Física estavam sendo expulsos. Voltamos para Pittsburgh, eu numa posição de professor assistente visitante, enquanto Amélia foi trabalhar na Carnegie Mellon e mu-


dou de campo: passou a trabalhar em física de estado sólido, uma passagem interessante. Quando vocês voltaram, já tinham quantos filhos? Em 1960 nasceu Esther, em 1961 nasceu Sonia, em 1962, Carlos, em 1964, Vera, um atrás do outro – e olhe que a Amélia tinha bastante coisas a fazer. O caçula, Fernando, nasceu em 1970. O senhor fez uma outra pesquisa com o isótopo de magnésio. Sim, mas não era inovador, outros trabalhos desse tipo já eram feitos, no lítio, depois no carbono, depois no magnésio, conforme o interesse dos resultados e a disponibilidade dos alvos. O magnésio tem vários isótopos estáveis que se pode usar como alvo, de forma similar ao lítio 6 e lítio 7, magnésio 24, 25 e 26, chumbo 207 e 208 e assim por diante. Seu interesse era sempre a estrutura do núcleo. Combinada com o que chamamos de mecanismo de rea­ção. Temos que entender como a reação nuclear se dá para poder extrair as informações características daquele núcleo e as informações que são do modo de interação. Todos os núcleos são excitáveis, mas uns são mais, outros são menos. Uns têm um estado que é facilmente excitado, então participa da reação, outros não têm. Então se tem que corrigir por todos esses fatores para extrair daí o que é característico do núcleo, e não da reação.

E quais são as principais contribuições propiciadas por essas experiências? A principal é exatamente a espectroscopia nuclear, que é conhecer a estrutura dos núcleos em termos dos seus componentes. Os primeiros modelos supunham um movimento ao acaso dos nêutrons e prótons. Isso foi sendo refinado e se verificou que há camadas de nêutrons e prótons se formando. Foi possível prever reações e usar essa informação na teoria da formação das estrelas e dos elementos numa hipótese tipo Big Bang, por exemplo. O senhor trabalhou também com raios cósmicos numa fase, não? Mas aí eu fiquei bem no começo. E foi bem mais tarde, nos anos 1990.

Gostaria de ouvi-lo comentar um episódio dos anos 1960, considerado polêmico, quando o senhor produziu alvo gasoso de trítio, um isótopo de hidrogênio que é radioativo. Na época a comunidade científica ficou um pouco preocupada. Foi o senhor quem fez questão de que o experimento fosse feito em São Paulo, não? O trítio era importado e o guardávamos com certa segurança. Ele é usado para fazer uma reação que produz nêutrons de 14 milhões de volts, que são usados para outras experiências. Comecei essa experiência com o professor Sala pouco antes de ir para os Estados Unidos. E quando voltei, não sabia mais onde estava o trítio, ele desapareceu, mas ninguém ficou doente que tenhamos sabido. Também não era uma grande quantidade como naquele acidente em Goiás, com o césio 137, em 1987. Nas histórias antigas da física há o caso de uma professora dos Estados Unidos que estava sempre anêmica e não se sabia por quê. Na gaveta dela havia uma fonte radioativa da qual ela não sabia. Em Pittsburgh, o professor Allen, responsável pelo cíclotron, perdeu parte da visão. No cíclotron tem uma câmara de vácuo, mais ou menos do tamanho de uma mesa, redonda, e as partículas são soltas no centro. Olhando pela janela na câmara, era possível ver que havia uma luzinha fraca azul onde as partículas circulavam, porque o vácuo não era perfeito e os nêutrons batiam nos átomos do gás. Allen ia lá, enfiava um pedaço de ferro aqui, outro ali, para ajustar. Estava sendo irradiado. Não ficou completamente cego, mas sua visão ficou muito prejudicada.

Meu interesse era sempre a estrutura do núcleo, combinada com o que chamamos mecanismo de reação

Quem eram os físicos de fora do Brasil que estavam seguindo esse mesmo campo? Havia centenas. O acelerador de Pittsburgh era muito ativo, era um cíclotron de 15 milhões de elétron-volts. Havia outros. Em Princeton, por exemplo, havia um, mas apesar de Princeton ser uma universidade muito melhor que Pittsburgh, nesse campo em particular eles não eram tão bons assim. Na Califórnia, em Paris, em Londres, estavam outros. Havia 10 ou 20 laboratórios fazendo esse tipo de coisa.

Na mesma época em que o professor Carlos Escobar estava indo para a Unicamp trabalhar com raios cósmicos? Exato. Ele trabalhou em colaboração com o pessoal da Argentina no Observatório Pierre Auger, que era um experimento muito mais ambicioso e complexo. A proposta do professor Elly Silva, com quem trabalhei, era fazer uma coisa que nós mesmos pudéssemos gerenciar, um contador que indicasse a direção de onde vinha o raio cósmico. Fizemos um contador pequeno e depois acabamos ganhando dos italianos um aparelho que eles não usavam mais. Nós o montamos no terreno do IAG [Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP] numa cúpula de um antigo telescópio óptico, mas a coisa não continuou.

Como teve início seu interesse pela física? Aliás, como foram os seus primeiros anos? Vim para o Brasil com 3 anos e não me lembro de nada da viagem nem da minha fase na Alemanha antes. Nasci em Berlim, em 1933, no ano que Hitler chegou ao poder. Meu pai era funcionário público, juiz de direito, e era ferido da Primeira Guerra Mundial. Tinha lutado no exército alemão e fora atingido por uma granada. Um braço fora amputado e o outro estava todo pESQUISA FAPESP 215  z  27


esfrangalhado. Apesar disso, conseguiu terminar os estudos de direito. Diferentemente de outros judeus, não foi imediatamente demitido porque era herói de guerra. Acabou sendo demitido em setembro de 1935 e nesse momento decidiu sair da Alemanha. O ano de 1936 era o da Olimpíada de Berlim e meu pai calculou que, nessa fase, os alemães ainda estariam querendo mostrar uma face civilizada às outras nações. Ele procurou emprego em outros países, mas, como era aleijado, era muito difícil. Nos Estados Unidos, por exemplo, não aceitavam. Quando estudante, meu pai tinha sido membro de uma fraternidade na faculdade de direito, das poucas que aceitavam judeus, e tinha um colega dessa época que havia emigrado para o Brasil, casara com uma brasileira, e de fora estava vendo muito claramente, já que tinham mais acesso às notícias, que eles precisavam sair. Fomos então para a Inglaterra, onde minha tia já tinha ido e, de lá, tomamos um navio para Santos. Chegamos em outubro de 1936. Toda a sua família conseguiu escapar do massacre dos judeus sob Hitler. A família mais próxima, sim. Um primo do meu pai, que tinha se convertido ao cristianismo, era pastor protestante, ainda assim foi preso e morto.

Onde o senhor estudou em seus primeiros anos paulistanos? Meus pais queriam uma educação mais europeia. Eu e meus irmãos fomos para a escola inglesa. Fiz primário e ginásio na Escola Britânica e no Ginásio Anglo-Paulistano, que ainda fica no Jardim Paulistano. Éramos quatro, três rapazes e uma moça. Eu era o caçula. Meu irmão mais velho, Hugo Hamburger, era engenheiro, se formou na Poli. Trabalhou numa firma de engenharia e depois teve

O que o senhor idealizava que dava para fazer com a física? Tendíamos a não nos entusiasmar com a física nuclear por causa da bomba. Mas ela estava no cume da sua importância na sociedade humana, então não foi estranho irmos para essa área. Moysés foi para a física teórica, eu para a física experimental. Quando o senhor voltou pela segunda vez dos Estados Unidos, em 1967, como foi sua inserção no Instituto de Física? Ainda não se chamava Instituto de Física e ainda pertencia à Faculdade de Filosofia. Fiz o doutorado nos Estados Unidos e em 1962 fiz a livre-docência, que é o próximo passo, na USP. E em 1967 fiz o concurso para titular, fui candidato único e entrei. Tinha 34 anos. Entrou como professor de física experimental? Sim, a cadeira que existia era do Marcello Damy, que tinha se aposentado, e era de física geral e experimental. Incluía física nuclear e muitas outras áreas da física. E a área de física experimental era responsável por todas as aulas de física para todos os alunos das carreiras de física, de química, de matemática, de biologia. Era a cadeira maior por causa das suas obrigações didáticas. Havia um acordo de que todos os professores do instituto, de diferentes departamentos, poderiam dar as aulas de outros departamentos. Nisso o Instituto de Física se distinguiu. O que tentamos fazer então foi melhorar os laboratórios de física, porque a parte experimental e a parte teórica eram feitas muito independentemente. O aluno não sabia que a experiência que ele estava fazendo estava ligada a uma teoria. Estimulei muito as experiências de demonstração, aquelas em que não é necessário cada aluno fazer, mas que professor faz em aula para mostrar um efeito ou um fenômeno. Isso torna as aulas mais interessantes e enriquece o cabedal dos alunos.

Meu pai era herói de guerra, mas era judeu. Quando foi demitido, decidiu sair da Alemanha

Sua família instalou-se em São Paulo... Instala-se com a ajuda do luis lorch, que era esse médico amigo do meu pai. E também sob os auspícios dele se forma a Congregação Israelita Paulista, a CIP. O emprego que meu pai conseguiu foi como secretário-executivo da CIP. lorch era o presidente. Minha mãe, Lotte, era dona de casa, mas muito ativa, e fundou com outra senhora, dona Ida Hoffman, no Bom Retiro, um Lar de Crianças para ajudar imigrantes alemães que estavam chegando em grande número, tinham que trabalhar e não tinham com quem deixar os filhos. Minha mãe era diretora, mas, como era dona de casa, não ficava lá presente e havia uma pessoa responsável que dormia no Lar. Toda noite falava por telefone com dona Ida sobre cada uma das 60 crianças inter28  z  janeiro DE 2014

nadas. Muita gente importante hoje foi criança do Lar. No começo, todos judeus, depois foram sendo admitidas crianças da região. Hoje, quase a totalidade das crianças não é judia, mas ainda existe o lar. Fica no Alto da Boa Vista.

a própria. Minha irmã, Adelaide, fez a Escola de Sociologia e Política, era socióloga. Migrou para os Estados Unidos, casou, teve filhos lá e já faleceu. Meu irmão imediatamente mais velho, Stefan, ainda é vivo, mas já aposentado. Como o senhor se interessou pela física? Depois que saí do Anglo-Paulistano, fui aluno do Colégio Estadual Presidente Roosevelt. Tive uma amizade muito forte com o Moysés Nussenzveig. Estudávamos física juntos e nos interessamos por física juntos. Ele não fez vestibular porque ganhou uma bolsa para um curso na França, voltou depois e entrou no curso de física. Eu fiquei aqui e entrei no curso de física.

Nesse tempo, nos anos 1970 e 1980, o senhor levava adiante o trabalho de professor e, paralelamente, o de pesquisador. Enquanto isso, o que Amélia estava fazendo?


Estava fazendo experiências também. Além disso, essa foi uma época de implantação da pós-graduação. O curso de física tinha dois ramos: bacharelado, voltado para pesquisa, e licenciatura, voltada para o ensino médio e ensino de ciências. Não havia pós-graduação para o pessoal da licenciatura. Havia uma possibilidade de fazer na Faculdade de Educação, mas com conteúdo de física muito pequeno, porque enfatizavam a pedagogia. Propus então, em 1969, antes da reforma, uma área na pós-graduação sobre o ensino de física. Depois foi ampliado para ensino de ciências e ficou sob responsabilidade da Faculdade de Educação e dos institutos de Física, Química e Biologia. Teve colaboração do professor Claudio Z. Did, da Física, e das professoras Carolina Bori e Maria Inês Rocha e Silva. Aí começa todo um trabalho seu e da Amélia também sobre o ensino de física e que depois vai se encontrar com a divulgação científica. Fale um pouco dessa atividade. Eu tive uma experiência prévia no início dos anos 1960, quando, junto com o Ibec [Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura], organizei uma série de aulas de física nuclear para o público. Fizemos uma série de experiências de radioatividade ali e isso teve bastante sucesso e repercussão. Encheu o auditório. Essa foi minha primeira experiência em divulgação científica e deve ter sido em 1962 ou 1963. E por que surgiu esse movimento forte em relação ao ensino? Naquela época, o salário do professor secundário não era tão ruim, de modo que muitos dos que saíam do Instituto de Física iam dar aula. Entre bacharelado e licenciatura, a segunda era mais procurada. Bacharelado era para ser pesquisador em física e professor universitário. Mas não era época ainda de muitas universidades. Quem se formasse bacharel não tinha um emprego certo nos anos 1970. Então em 1969 fizemos a pós-graduação em ensino, na época com a professora Carolina Bori. Hoje tem centenas de mestres e doutores no ensino de física. Nosso curso, inicialmente, formava mestres. Doutores só há 10 ou 15 anos.

Mas com a degradação de salários de professores dos ensinos fundamental e médio, esse pessoal que se engajou nos cursos de ginásio e científico foi para as faculdades... Ficavam algum tempo no colégio, mas quando começaram a surgir vagas na universidade eles foram procurar essas vagas. O ensino fundamental e médio se ressentem da falta de bons professores de ciência... Sem dúvida. Principalmente de física. É um problema de nossa época. Tanto na Faculdade de Filosofia quanto no Instituto de Física a evasão do curso de física é muito grande, e continua grande. Diminuiu um pouco, mas continua. Formá-

de vista pedagógico era engajá-lo numa pesquisa. A física é muito mal ensinada quando é ensinada como uma coleção de fórmulas que você tem que aplicar. Me lembro de que, no ginásio do Estado, tínhamos um professor de matemática chamado Antônio Alves Cruz. Ele dava as fórmulas da matemática e cada fórmula tinha um número. Ele chamava um aluno para resolver na lousa e dizia: “Fórmula número 23”. Você tinha que decorar a fórmula e o número dela. Ele era muito exigente. Das cinco turmas da primeira série, reduzia para uma na segunda série, reprovavam-se quatro. Era terrível. Os alunos que aguentavam entravam numa universidade. O colégio formava gente muito qualificada. Mas era muito ruim para os 80% que ele reprovava. Como evoluíram as iniciativas para formar professores de ciências? A Faculdade de Filosofia foi explicitamente fundada com duas finalidades: formar professores para o ensino complementar e formar pesquisadores. E deu toda a atenção para formar pesquisadores, o que foi ótimo, mas não conseguiu a outra parte. A USP não aceitou o desafio de formar professores para a rede estadual. Para isso tinha de ser uma escola bem maior e mais eficaz. Ela se especializou em ser uma escola de ponta e não de massa. Tinha de ser uma escola de massa de ponta, mas esse desafio não foi encarado. Agora estão tentando fazer isso com ensino a distância. Tomara que dê certo, mas é difícil.

Em 1960, junto com o Ibec, organizei uma série de aulas de física nuclear para o público vamos um terço dos ingressantes, agora chegamos à metade. Assim mesmo, metade das vagas são desperdiçadas. Tornar o curso muito interessante no primeiro ano pode ajudar o aluno a superar aquele desafio. A grande evasão se dá no fim do primeiro ano e no segundo ano. Foi por essa razão que o senhor deu uma grande atenção aos alunos de primeiro ano que se destacavam, colocando-os como coautores de artigos seus e os incentivando a fazer iniciação científica? Foi um dos mecanismos para segurar o bom aluno? Não foi tanto para segurar o bom aluno. Eu achava que o melhor jeito de fazer o aluno aproveitar o curso do ponto

Quando é que seu interesse pelo ensino se vincula com as atividades de divulgação científica? Comecei quando o José Goldemberg era reitor e o Museu de Tecnologia já existia. Foi construído pelo professor Francisco de Paula Machado de Campos, que conseguiu as verbas, construiu o prédio e nunca conseguiu fazer o museu. Até que um diretor da Cesp [Companhia Energética de São Paulo] inventou de fazer uma exposição sobre energia e convenceu Machado de Campos a abrigá-la. Eu fiquei responsável pela parte da USP pESQUISA FAPESP 215  z  29


nessa grande exposição. Construímos aqui no Instituto de Física uma série de aparelhos, fizemos painéis explicativos e a exposição foi um grande sucesso. Com 70 mil visitantes na época, ficou aberta seis meses. Antes disso também teve a passagem do cometa Halley, em 1986, e fizemos uma grande exposição sobre o cometa junto com o professor Augusto Damineli Neto, do IAG, e Roberto Kishinami, no prédio de Geografia e História. Teve 70 mil visitantes, formava fila de 10 ônibus aqui na USP. Depois foi mais ou menos natural eu ser convidado para a Estação Ciência. Como foi a experiência na Estação Ciên­cia? Foi muito interessante. A Estação Ciência está fechada, lamentavelmente. Não me arrependo do esforço que fiz ali. Foi interessante, mas não consegui implantar uma coisa mais permanente. Está fechada para reforma, não? É, para reforma, e não conheço qual a perspectiva. O pessoal que estava lá se espalhou por outros órgãos, então não sei o que vai ser.

ainda estão muito distantes da realidade das pessoas. E quando os alunos de rede pública vão é porque a escola leva. Ao mesmo tempo, exposições como aquela sobre Einstein em 2008, na Oca, têm recorde de público. É uma questão de classe, ou uma questão de novas linguagens na divulgação que acabam atraindo o público? É um conjunto. O Catavento vai muito bem, está sempre cheio, e é comandado por um diretor de banco. Então a questão da gestão talvez seja muito importante, na Estação Ciência foi. Mas mesmo o Catavento – o maior museu de São Paulo, em frequência, entre os estaduais – atrai 500 mil visitantes anuais, enquanto no maior museu do México este número atinge 2 milhões. Devíamos ter quatro vezes mais

O Catavento vai muito bem, está sempre cheio. É comandado por um diretor de banco

Há um problema com os museus de ciência no Brasil, não? Salvador teve o primeiro museu de ciência do país em 1978, o Museu de Ciência e Tecnologia no Parque de Pituaçu, criado pelo então governador Roberto Santos. Tão logo Antônio Carlos Magalhães reocupou a cadeira de governante fechou o museu. Aqui temos problemas com a Estação Ciência, enfim, em sua visão, qual é a questão com os museus de ciência no país? Isso vale para todos os museus, não só os de ciência. Veja o Museu do Ipiranga, que precisou ser fechado para reforma. Um dos aspectos, acho que era o Nélson Rodrigues que falava, é o nosso complexo de vira-lata, a falta de orgulho. Um bom museu mostra o orgulho de uma sociedade por seu passado.

visitantes. Conversando com Sérgio Freitas, o diretor do Catavento, ele diz que por enquanto acha outras coisas mais importantes e não pretende aumentar o número de visitantes. A área é limitada e é um problema de logística complicado. Tem que ter muito mais funcionários e monitores. Ao mesmo tempo, se você tivesse uma museologia mais moderna, ajudaria. Mas não tem. Não há um costume de ir a museus. Aqui as escolas são tão ruins que ganham prioridade em relação aos museus. Elas estão numa situação muito ruim. O museu pode ser formidável, mas na divisão das verbas recebe muito pouco.

Mas há estudos recentes sobre as dinâmicas dos museus que mostram que eles

Quando o senhor estava na Estação Ciência que dificuldades enfrentou?

30  z  janeiro DE 2014

Não senti grandes dificuldades. Mas, no caso da Estação, a situação dela dentro da USP não estava clara. O que eu mais sentia falta era da presença de professores e de pós-graduandos fazendo teses etc. Ela era um corpo estranho, não estava dentro da máquina acadêmica. Os próprios funcionários não se sentiam funcionários da USP porque o museu era longe da Cidade Universitária. Ela tinha que ter sido absorvida nas atividades acadêmicas. Tinha um grande número de monitores que eram estudantes de graduação. Tentamos fazer uma disciplina de aplicação prática para que eles tivessem créditos acadêmicos, isso chegou a ser aprovado no Conselho Universitário, mas nunca foi implementado. Qual o fato que o senhor destaca na administração da Estação Ciência? Teve muitas coisas. Teve uma exposição sobre a escravatura no Brasil, que foi muito importante, em 1995. Foi uma professora da Antropologia que cuidou. Eu fazia todo ano um grande encontro de ensino de ciên­cias em que cada grupo apresentava seus trabalhos, que era para tentar motivar escolas e fábricas de material didático. Tínhamos um site muito ativo, ganhou vários daqueles prêmios da época.

O senhor saiu em 2003. Continuou no conselho? Não aceitei, porque achei que nove anos eram suficientes. Mas o senhor não ficou como uma espécie de conselheiro? Eu frequentava a Estação. Logo depois de mim assumiu o professor Wilson Teixeira, da Geologia. Nessa época eu ainda estava responsável pelo projeto Mão na Massa, que também não continuou. É difícil entender como uma instituição grande e poderosa como a USP vai fazendo coisas que não entendemos. Quando o senhor olha os seus muitos anos de trabalho e múltiplas atividades, a qual parte se sente mais ligado afetivamente?


Todas são importantes e em nenhum dos meus trabalhos consegui uma coisa permanente. Eu contribuí nessas várias áreas, mas o ensino de física continua ruim e o número de alunos de física que se formam continua baixo. Você tem que ver tudo isso em perspectiva histórica. O número de professores de física aumentou muito. Não tanto quanto deveria, mas aumentou. O número de museus de ciência e a atividade deles aumentaram. Fui cofundador da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências, que nem existia. O país anda de uma forma não linear e você tem que confiar no ziguezague que vai indo na direção certa. Uma coisa curiosa é que, sendo o senhor físico e Amélia física, os seus filhos lidem com divulgação e comunicação. Todos eles. Esther ensina cinema na Escola de Comunicações e Artes, a Sonia é produtora de filmes, na Gullane, o Cao é diretor de filmes, a Vera é produtora cultural e o Fernando é fotógrafo.

O senhor fez um encontro no ano passado que reuniu familiares de várias partes do mundo... Foi em minha casa e também em Catuçaba. Eu moro aqui pertinho da USP, em frente à Casa do Bandeirante. Foi uma sorte conseguirmos comprá-la em 1967, hoje não conseguiríamos. Mas sobre o encontro: eu tinha dois primos, um físico e o outro químico. Um ficou na Inglaterra e o outro, um pouco mais velho, como os ingleses tinham medo que entre os emigrados tivessem espiões e mandaram todos nessa condição para o Canadá, foi mandado para o Canadá. Depois ele voltou, se alistou no exército inglês, lutou contra os nazistas, mais adiante foi intérprete nos julgamentos de Nuremberg. Voltou para a Alemanha

O ensino de física continua ruim e o número de alunos que se formam continua baixo

Qual foi o lado de vocês que influenciou esse caminho? Não sei. Tive um cunhado, irmão de Amélia, o cenógrafo e artista plástico Flávio Império, que certamente influenciou. Talvez nossas conversas no almoço sobre física e sobre a universidade não fossem sempre animadoras. Só Esther se aventurou na universidade e está muito bem. Vera agora vai fazer mestrado ou doutorado na Comunicações. Ela inventou um curso de direção de arte que fez muito sucesso aqui e no exterior.

O senhor diria que as trajetórias dos seus filhos de alguma forma motivavam também algumas iniciativas suas e da Amélia? Nesse sentido da divulgação, da escrita, de apresentar ao mundo o que faziam na ciência. Certamente tinha uma influência, mas eu nunca tinha pensado nisso. A gente sempre pensa que é origem e não consequência. Um exemplo é a série de filmes Minuto científico que meu filho Carlos (Cao) dirigiu para a TV Cultura e Estação Ciência.

Oriental, fez doutoramento e se tornou reitor na universidade. Os filhos dele moram em Berlim ainda. Um deles veio para esse encontro familiar. Isso foi ideia de uma prima dos Estados Unidos e vieram cerca de 50 pessoas ao todo, 25 daqui e 25 da Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. Ficamos num hotelzinho em Catuçaba, perto de São Luís do Paraitinga. Eles gostaram muito. Na sua família predominam os profissionais de ciências? Nos Estados Unidos não é o caso, na Alemanha também não. Tem uma prima que é professora num museu de biologia em Berlim. Outra prima é professora na Universidade de Potsdam, de sociologia. Mas

os outros não são cientistas. Tenho ascendentes. Meu avô, Hugo Liepman, foi neurologista importante. Foi o descobridor das relações entre afasia e apraxia. A família é muito antiga e os membros se acostumaram a escrever memórias. Minha mãe escreveu as memórias da família dela e do meu pai. Meu bisavô escreveu a da família dele. São coisas interessantes. Ele escreveu sobre o pai dele, que era filho de um mascate, no interior da Alemanha hoje, naquele tempo Prússia ou Polônia, não sei. O mascate vendia coisas, mas quem sustentava a família era a mãe, no fim do século XVIII. Aí a mãe morreu e a família resolveu que o pai não tinha condição de sustentar o filho, então ele foi mandado para Berlim às custas de outras famílias. Conseguiu ser aprendiz numa fábrica de tecidos. Os tecidos vinham de Manchester, então ele foi mandado para lá para conhecer a fábrica. Quando estava na Inglaterra foi decretado, por Napoleão, o bloqueio continental. Então David Liepman, tataravô, alugou um navio, encheu de tecidos, deu a volta na Europa, passou por Gibraltar e chegou na Turquia, que não dependia de Napoleão. Lá descarregou o navio, formou uma caravana e foi voltando por terra para o centro da Europa. Passou pela Itália, pegou a peste, sobreviveu, chegou a Viena. Como vendeu os tecidos todos por um preço muito bom, fundou a fortuna da família. O senhor já começou a escrever as memórias da sua família? Não. Quais são seus planos? Fiz uma lista de 20 coisas urgentes. Qual é a mais importante delas? Todas são. Tenho que fazer uns reparos na minha casa. Mas a mais urgente é colocar em ordem meus papéis, que incluem as cartas que minha avó trocou com uma amiga. Minha mãe guardou e são muito esclarecedoras e interessantes. Pedi ajuda a uma secretária que me ajudou, mas ficou um montede papéis para eu classificar. n pESQUISA FAPESP 215  z  31


política c&T  Financiamento y

Um salto consistente Recorde de concessões de auxílios no programa Pipe em 2013 mostra avanço do interesse das empresas de pequeno porte por inovação Fabrício Marques e Bruno de Pierro

U

ma plateia atenta e interessada composta por 150 empreendedores e pesquisadores de várias cidades paulistas esteve durante três horas no auditório da FAPESP, em São Paulo, na manhã do dia 18 de dezembro passado, para conhecer em detalhes o Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), uma iniciativa da FAPESP criada em 1997 que já desembolsou mais de R$ 180 milhões para apoio a 1.368 projetos inovadores desenvolvidos em microempresas e empresas de pequeno porte com sede no estado de São Paulo. Esse tipo de encontro, batizado de Diálogo sobre Apoio à Pesquisa para Inovação na Pequena Empresa, vem sendo realizado periodicamente para divulgar o programa e esclarecer dúvidas sobre a formulação de propostas – e é um dos fatores que ajudam a explicar o salto na quantidade de bons projetos aprovados no Pipe no ano passado. O número de concessões no programa Pipe em 2013 foi o maior da história do programa – foram 174 projetos em 2013, superando o recorde anterior, de 165 concessões em 2006 (veja quadro). “Houve um avanço tanto de empresas interessadas quanto de projetos com qualidade. O interesse em conhecer o programa e tirar dúvidas vem gerando mais propostas

32  z  janeiro DE 2014


Pesquisa em pequenas empresas Evolução das solicitações e das concessões de Auxílios à Pesquisa – Pipe 451

449

n Solicitações

388

369

n Concessões

349

333 319

281 217

220

206 ilustraçãO catarina bessel

284

229

165

174

156 77

96 31

30

101

97

35

40

58

61

72

108

98

110

89 69

54

73

1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

pESQUISA FAPESP 215  z  33


consistentes”, diz Sérgio Robles Reis de Queiroz, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp e coordenador adjunto da área de Pesquisa para Inovação da FAPESP.

O

utros fatores também ajudam a entender o interesse crescente pelo programa. Desde 2012 o Pipe passou a oferecer quatro oportunidades no ano para submissão de propostas – contra três ciclos de análise anteriormente. Muitos dos empreendedores que estiveram na FAPESP no dia 18 deverão apresentar propostas no primeiro ciclo de análise de 2014, que disponibilizará R$ 15 milhões para projetos e está aberta até o dia 3 de fevereiro. Sempre que um novo edital é lançado, a FAPESP publica anúncios em jornais da capital e do interior paulista divulgando a nova oportunidade, o que também vem contribuindo para ampliar a demanda. Uma parceria com o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) igualmente vem ajudando a divulgar o Pipe  no interior do estado – já houve projetos aprovados em 117 municípios paulistas, embora se registre uma concentração nas cidades de São Paulo, Campinas, São Carlos, Ribeirão Preto e São José dos Campos. “E há, naturalmente, uma preocupação crescente das empresas com inovação. Elas procuram cada vez mais os programas governamentais existentes de fomento à inovação. Por isso, para os próximos anos, eu apostaria num crescimento contínuo do Pipe”, diz Queiroz. “Em 2014, nosso desafio será garantir que o desempenho de 2013 se mantenha e revele uma tendência.” O Pipe apoia com recursos não reembolsáveis projetos de empresas que envolvam inovação tecnológica com potencial comercial e disponham de uma equipe de pesquisa com capacidade para enfrentar os desafios propostos.  Quem recebe os recursos da Fundação é o pesquisador responsável que trabalha dentro da empresa. Os projetos incluem desde os estudos sobre a viabilidade técnica e comercial de uma ideia criativa, conhecida como fase 1, com duração prevista de nove meses, até o desenvolvimento da pesquisa, a fase 2, com duração de até 24 meses. Na fase 1, o valor máximo de financiamento previsto é de R$ 200 mil para cada projeto. Na fase 2 chega a R$ 1 milhão. O pesquisador responsável 34  z  janeiro DE 2014

deve ter vínculo com a empresa e dedicar pelo menos 24 horas semanais ao projeto. Podem participar empresas com no máximo 250 empregados, com sede no estado de São Paulo, e que tenham um projeto de pesquisa a desenvolver que aponte para uma inovação. Uma fonte de inspiração para o Pipe foram os programas SBIR (Small Business Innovation Research), dos Estados Unidos. Estabelecidos por força de uma lei de 1982, que determinou a criação de iniciativas de fomento à inovação em pequenas empresas em agências com orçamento superior a US$ 100 milhões, eles existem atualmente em várias instituições que apoiam a pesquisa, como a Nasa, a National Science Foundation e os National Institutes of Health. O impacto econômico do Pipe foi medido por uma avaliação de seus projetos realizados entre 1997 e 2006, feita pelo  Grupo de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Geopi), vinculado à Cada R$ 1,00 alocado pela FAPESP Unicamp, e enno programa entre 1997 e comendado pela FAPESP. 2006 gerou R$ 10,50 de retorno Um artigo publicado em 2011 na revista  Research Evaluation, cujo autor principal foi Sérgio Sal- empreendedores conseguem implantar les Filho, professor da Unicamp e um uma cultura de pesquisa que acaba tendos coordenadores do Geopi, mostrou do reflexos positivos em outras áreas da que  cada R$ 1 alocado pela FAPESP no empresa”, diz Sérgio Queiroz. programa gerou R$ 10,50 de retorno. Uma das empresas que tiveram um Quando se contabilizam também os in- projeto Pipe aprovado em 2013 foi a vestimentos nos projetos feitos pelas InGene Biotecnologia, de São Paulo, próprias empresas e outras fontes, a rela- que busca desenvolver um novo teste ção é de R$ 5,98 para cada R$ 1 aplicado. de diagnóstico genético a ser utilizado por casais que querem ter filhos, para criação de empregos qualifica- avaliar se têm alguma mutação recesdos é outro fruto importante do siva em comum e por isto apresentam Pipe: as empresas com projetos risco aumentado de terem filhos com Pipe aumentaram em 29% o número de alguma doença genética. “Isso já existe empregados e criaram oportunidades no mercado, mas no nosso projeto estaprofissionais para pesquisadores. O cres- mos propondo uma metodologia nova, cimento do contingente de funcionários mais moderna, capaz de reduzir os cuscom nível de graduação foi de 60% e o tos do exame e ser mais acessível”, diz de profissionais com doutorado, de 91%. a biomédica Juliana Cuzzi, responsável Cerca de 60% dos projetos avaliados ge- pelo laboratório da empresa e uma das raram inovações tecnológicas, índice participantes do projeto, cujo pesquisaconsiderado bastante satisfatório. Há dor principal é o geneticista molecular resultados, porém, que só são percebidos Péricles Assad Hassun Filho, diretor da nas visitas que os coordenadores do Pipe empresa. O projeto aprovado é um Pipe fazem às empresas financiadas. “Alguns fase 1 e o objetivo é avaliar se o processo

A


ilustraçãO catarina bessel

é aplicável e viável – com término previsto para agosto de 2014. O projeto já havia sido apresentado em 2012, mas para um outro programa, o Pipe/Pappe, e foi denegado. “Depois da primeira tentativa, aprimoramos a proposta e tivemos sucesso”, diz Ana Carolina Laus, bióloga e pesquisadora do projeto. O programa Pipe/Pappe apoia projetos para a fase 3, em que a ideia e o protótipo já foram suficientemente desenvolvidos e a empresa se dedica, então, a investir num plano de negócios para lançá-lo. O Pipe/Pappe é resultado de um acordo de cooperação entre a FAPESP e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do governo federal. No plano nacional, atribui-se ao Pipe a inspiração para o surgimento de um programa semelhante em nível federal, o Programa de Apoio à Pesquisa em Empresas (Pappe), iniciativa da Finep lançada em 2004. No estado de São Paulo, em razão da existência do Pipe, FAPESP e Finep criaram um formato para a implementação do Pappe com características diferenciadas, que constituíram o programa Pappe-Pipe III, em que empresas financiadas pelo Pipe receberam recursos para a fase 3.

T

ambém há empresas com projetos aprovados recentemente que já tiveram experiências anteriores com o programa. A CFlex Computação Flexível Aplicada, de Campinas, desenvolveu em 2004 um algoritmo que auxilia na tomada de decisões sobre a organiza-

Nas empresas com projetos Pipe, o número de empregados cresceu 29% e o contingente de funcionários com doutorado subiu 91%

ção do tráfego de trens (ver Pesquisa FAPESP nº 136), em que recebeu auxílio do Pipe para desenvolvimento do projeto, além de duas bolsas para pesquisadores. O sistema computacional CFlex Movement Planner mostrou-se capaz de reduzir em até 18% o tempo de parada dos trens nos pátios para realizar cruzamentos e ultrapassagens, e foi adquirido por várias operadoras. No novo projeto, a empresa quer dar um passo adiante. “Queremos usar o software que temos hoje funcionando e criar uma nova infraestrutura sobre esse algoritmo, que permita tomar decisões com informações globais”, afirma Plínio Roberto Souza Vilela, pesquisador responsável pelo projeto. “Hoje nosso sistema permite ao algoritmo tomar decisões com base em informações locais, quando ele calcula um planejamento viável para os trens. Uma decisão local significa ter um recorte limitado do que o trem pode fazer. Com a pesquisa, queremos que seja possível gerar um planejamento que leve em conta informações globais sobre a circulação de trens.” A CFlex tem vínculos com a universidade desde o seu surgimento. No final dos anos 1990, a Vale encomendou a três professores da Unicamp, Fernando Gomide, Rafael Mendes e Luís Gimeno Latre, o desenvolvimento de um soft-

ware que ajudasse a planejar a circulação dos trens em sua malha ferroviária. O trabalho foi realizado e inspirou uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado que deram origem à empresa. “Um ponto altamente positivo de ter um projeto selecionado pelo programa Pipe é que a avaliação rigorosa feita por pares na FAPESP mostra ao mercado que estamos trilhando o caminho certo”, diz Plínio. A depender da capacidade da empresa, ela pode ter mais de um projeto Pipe aprovado simultaneamente, desde que envolvam desafios de pesquisa diferentes e pesquisadores responsáveis distintos. É o caso da Chemyunion Química, de São Paulo, que atualmente tem três projetos em andamento, todos de fase 1, envolvendo o desenvolvimento de um gel com líquido orgânico para aplicação em cosméticos e de um extrato vegetal que apresenta propriedades despigmentantes, e o uso de nanopartículas para aplicação num cosmético para o cabelo. “Já tivemos cinco projetos Pipe no passado, dois deles na fase 2, com produtos já lançados”, diz Cecília Nogueira, gerente de pesquisa e desenvolvimento da empresa. “A FAPESP deu um suporte significativo para alavancar a nossa pesquisa e hoje 6,5% do lucro é investido em inovação.” n pESQUISA FAPESP 215  z  35


Indicadores y

Ambiente adverso Cai proporção de empresas que produziram inovações, mas aumenta articulação para fazer pesquisa e desenvolvimento, mostra Pintec Fabrício Marques

A

Pesquisa de Inovação (Pintec) de 2011, divulgada em dezembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia a Estatística (IBGE), mostra que o resultado do esforço de inovação das empresas brasileiras, medido pelo aprimoramento de processos e o lançamento de produtos, foi menor no período de 2009 a 2011 quando comparado com os dados de 2006 a 2008. De um universo de 128.699 empresas pesquisadas, dos setores industrial, de serviços e de eletricidade e gás, 35,7% lançaram produtos ou implementaram processos considerados novos ou bastante aprimorados. No triênio anterior, a proporção de empresas inovadoras chegara a 38,1%. Tomando-se em separado as indústrias, que representam quase 90% da amostra, as inovadoras foram 35,6% do total da Pintec 2011, menos que os 38,1% observados na pesquisa de 2008. “As condições macroeconômicas, que eram mais favoráveis no período da Pintec anterior, de 2006 a 2008, deterioraram em 2009 e parecem ter exposto as empresas a um ambiente mais adverso”, diz o gerente da Pintec, Alessandro Pinheiro. A apreciação do câmbio também pode ter influenciado os resultados de 36  z  janeiro DE 2014

alguns setores. “Na indústria têxtil, siderúrgica e de papel há uma queixa sobre a desarticulação de cadeias produtivas causada pela concorrência da China”, afirma Pinheiro. Em contrapartida, a Pintec 2011 também mostra que a articulação e o investimento do setor privado para inovar melhoraram no triênio – o que o habilita a alcançar resultados melhores no futuro. No caso das indústrias, por exemplo, os dispêndios em atividades internas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) em relação à receita líquida de vendas chegaram a 0,71% em 2011, ante 0,62% medido em 2008. O apoio do governo e o suporte de políticas públicas à inovação avançaram. No período de 2006 a 2008, o percentual de empresas industriais inovadoras que utilizaram ao menos um instrumento de apoio governamental foi de 22,8%. Já no período de 2009 a 2011 esse quinhão cresceu para 34,6%. O economista André Tosi Furtado, professor da Unicamp, afirma que os dados da Pintec desmentem a percepção de alguns setores de que os estímulos do governo à inovação não surtem efeito. “O governo está chegando até essas empresas. Está claro que o aumento das atividades

internas de pesquisa e desenvolvimento das empresas está relacionado com políticas públicas”, diz, ressaltando ainda dados como o crescimento do percentual de indústrias que haviam cooperado com algum tipo de parceiro (10,1% em 20062008 para 15,9% em 2009-2011) e das empresas que estabeleceram vínculos com universidades (13,4% para 16,7%). Houve um comportamento desigual dos diferentes setores da indústria em relação à intensidade de pesquisa e desenvolvimento, observa André Furtado. “Há setores que avançaram bastante e outros que até retrocederam”, diz. Na indústria extrativa, por exemplo, os dispêndios em atividades internas de P&D em relação à receita líquida de vendas avançaram de 0,3% para 0,4%, comparando a Pintec de 2011 com a de 2008. “Talvez, nesse caso, não seja resultado de políticas públicas, mas do crescimento das exportações”, avalia. Em outros setores ligados a commodities, como a indústria de papel e celulose, o crescimento do dispêndio foi de 0,29% para 0,42%. Em setores de média intensidade tecnológica, diz o professor, também houve um aumento significativo. Na indústria metalúrgica, de 0,21% para


A taxa de inovação cai Percentual de empresas brasileiras que inovaram em produtos ou processos, segundo as três últimas edições da Pintec

38,6%

2008

35,7% 2011

34,4%

ilustração bruno nogueira

2005

0,42%. “Um destaque negativo ocorreu na indústria de alimentos, cujo investimento caiu de 0,24% para 0,12%”, observa. Já na indústria de produtos químicos foi de 0,55% para 1,11% – o grande destaque, nessa categoria, foi na fabricação de sabões, detergentes, produtos de limpeza, cosméticos, produtos de perfumaria e de higiene pessoal, que atingiu 3,68% de dispêndios em atividades internas de P&D em relação à receita líquida de vendas. A indústria de cosméticos, uma das que mais investem em P&D no país, é apontada como fundamental para esse desempenho. “As empresas se organizaram, contrataram pesquisadores e investiram mais recursos em inovação, o que é altamente positivo. Mas, devido a uma série de obstáculos, até perdemos competitividade”, diz Carlos Eduardo Calmanovici, presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei). Calmanovici chama a atenção para o aumento do custo para inovar. “Com a disputa entre as empresas por recursos humanos qualificados para fazer P&D, o custo de contratar ficou mais caro”, afirma. “Isso, somado a outros custos que atingem as empresas de modo geral, como o tributário e a falta de infraestrutura,

Fonte ibge

Investimentos em P&D crescem em vários setores da indústria Incidência sobre a receita líquida de vendas dos dispêndios realizados nas atividades internas de P&D em alguns setores industriais (%) 2,39

Farmoquímicos e farmacêuticos

1,44 1,39 1,29

Informática, eletrônicos e ópticos Veículos automotores, reboques e carrocerias

1,28 1,51

Coque, derivados de petróleo e biocombustíveis

0,87

1,11

Produtos químicos

0,59

Máquinas, aparelhos e materiais elétricos

1,01 1,01 0,73

Máquinas e equipamentos

0,46 0,60 0,72

Fumo Metalurgia Papel e celulose Extrativas Produtos de metal Têxteis

n 2011 n 2008

0,45 0,21 0,42 0,29 0,40 0,13 0,39 0,27 0,25 0,17

Bebidas

0,22 0,08

Móveis

0,17 0,16

Alimentos

1,12

0,12 0,24

Fonte  pintec 2011

pESQUISA FAPESP 215  z  37


os principais gargalos Importância atribuída aos problemas e obstáculos para inovar, pelas empresas que implementaram inovações de produto ou processo entre 2009 e 2011

81,5 83,2 81,7

Elevados custos de inovação 48,2

Rigidez organizacional

81,5

34,8 73,6

Riscos econômicos excessivos

71,3

Falta de pessoal qualificado Escassez de fontes de financiamento

4,3

63,1

11,1

32,2 46,1 43,5 41,6

11,9

7,4

1,7

30,0 46,1 28,1 37,7 36,1 36,5

n Serviços selecionados n Eletricidade e gás

2,8 0,0 1,9

fez com que as empresas investissem mais sem obter resultados proporcionais ao investimento.” Segundo a Pintec, o número de pesquisadores nas indústrias, entre graduados e pós-graduados, foi de 37.737 profissionais em 2011 e cresceu 29% em relação à Pintec anterior. É certo que a amostra de indústrias entrevistadas foi ampliada, mas numa proporção menor: 15,1%. Segundo a pesquisa, a queixa sobre a falta de pessoal qualificado ganhou importância no ranking de gargalos à inovação. No caso da indústria, o problema era o sexto mais relevante no período de 2003 a 2005. Passou a ocupar a terceira posição no período 2006-2008. Já na Pintec 2011 foi o segundo mais importante para a indústria: 72,5% delas atribuíram importância alta ou média à falta de pessoal qualificado, obstáculo apenas superado pelo custo de inovar, apontado por 81,7% das empresas do mesmo segmento. 38  z  janeiro DE 2014

44,4

3,6

Falta de informação sobre mercado

Centralização da atividade inovativa em outra empresa do grupo

46,7

16,6

Falta de informação sobre tecnologia

Fraca resposta aos consumidores

72,5 68,5

Dificuldade para se adequar a padrões

Escassas possibilidades de cooperação

72,1

23,5

Escassez de serviços técnicos

80,0

n  Indústria Fonte  pintec 2011

Contradições

Para o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, os resultados da Pintec refletem contradições das políticas brasileiras no campo da inovação. “Por um lado, a mão esquerda dessas políticas oferece às empresas programas de apoio e de estímulo à inovação como nunca ofereceu antes”, afirma, referindo-se a programas de subvenção econômica da Finep, aos programas da FAPESP de parcerias com empresas, a programas de inovação em pequenas empresas e a parcerias da Finep com fundações estaduais de apoio à pesquisa. “Já a mão direita do governo torna o uso desses instrumentos difícil ou impossível por parte das empresas, pois elas se veem diante de obstáculos macroeconômicos. Há instabilidade das regras da economia, que mudam com frequência, dependendo do que o governo precisa fazer para

controlar a inflação. As empresas também enfrentam o custo Brasil, que se traduz em infraestrutura precária e custo trabalhista. Os efeitos desses obstáculos são maiores que os efeitos dos estímulos”, afirma Brito Cruz. Tudo isso, ele observa, dificulta a busca por inovação no tecido empresarial brasileiro. “Há empresas com estratégias para inovar que conseguiram avançar. Outras também tinham estratégias, mas tiveram de reduzir. O exemplo clássico é a Petrobras, que passou a enfrentar problemas de caixa. A Pintec reflete essas contradições”, afirma. Brito Cruz observa que o dispêndio empresarial em P&D, como percentual do PIB, caiu em relação a 2000. Em 2000, o dispêndio empresarial era de 0,5%. Em 2011 oscilou para 0,48%. “Há diferença entre o que acontece em São Paulo e nos demais estados do país. Em São Paulo, o percentual cresceu de 0,8% para 1%, no resto do Brasil caiu de 0,34% para 0,23%. E na FAPESP observamos um aumento de interesse de empresas em atividades de pesquisa e desenvolvimento cooperativas com universidades, inclusive com substancial avanço qualitativo para projetos mais ousados e de longa duração”, afirma. Os Indicadores de ciência, tecnologia e inovação da FAPESP projetavam para 2011 um valor despendido em atividades internas de P&D por empresas brasileiras de R$ 19,855 bilhões. O valor aferido pela Pintec ficou muito próximo dessa projeção: R$ 19,545 bilhões. “Sabemos que existe uma relação do dispêndio de P&D com a formação bruta de capital fixo, e o adotamos na metodologia dos nossos indicadores”, diz Brito Cruz, referindo-se ao indicador que mede o quanto as empresas aumentaram os seus bens de capital. Já as projeções dos Indicadores do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação eram superiores ao dado da Pintec, em torno de R$ 23,591 bilhões para 2011. O número de empresas que inovaram apenas aprimorando seus processos aumentou em relação à Pintec anterior: elas eram 15,3% do total e passaram a 18,3% em 2011. Já as empresas que inovaram apenas em produto, que eram 6% do total em 2008, caíram para 3,9%. Empresas que inovaram tanto em produto quanto em processo decresceram de 16,8% em 2008 para 13,4% em 2011. A queda no resultado atingiu com mais intensidade, por exemplo, as empresas maiores,


O peso das parcerias Importância atribuída aos parceiros em relações de cooperação, pelas empresas que implementaram inovações de produto ou processo entre 2009 e 2011

Fornecedores

Centros de capacitação e assistência técnica

62,5

16,2

29,1 46,2

10,3

59,4

6,9

37,9

9,0

14,7

19,6 36,3 22,4 23,6

Instituições de testes, ensaios e certificações

Concorrentes

70,4

30,5

Empresas de consultoria

Outra empresa do grupo

76,5

18,7

Universidades ou institutos de pesquisa

Clientes e consumidores

39,7

27,9

16,9

35,3

n Serviços selecionados n Eletricidade e gás

23,0

n  Indústria

25,9

Fonte  pintec 2011

"Os efeitos dos obstáculos são maiores do que os efeitos dos estímulos", afirma Brito Cruz, diretor científico da FAPESP aquelas com mais de 500 funcionários. O percentual de inovadoras nesse estrato caiu de 71,9% do total em 2008 para 55,9% em 2011. “Com a sobrevalorização do real em relação ao dólar no período, setores mais sujeitos à concorrência de produtos importados certamente foram os mais penalizados, o que comprometeu principalmente a inovação em produto”, analisa Calmanovici, da Anpei. qualidade dos dados

O economista João Furtado, professor da Escola Politécnica da USP, enxerga duas hipóteses possíveis para os resultados da Pintec. A primeira: como as áreas de inovação das empresas se estruturaram mais nos últimos anos, a qualidade dos dados informados à Pintec melhorou – e isso pode ter tido um impacto no resultado, revelando uma situação menos favorável e mais próxima da realidade

do que nas pesquisas anteriores. “Como a estruturação das equipes de P&D significa contratar pessoas mais aptas, que acompanham editais e se dedicam a essa função, é possível que as respostas atuais tenham mais acurácia”, afirma. A segunda hipótese é que, apesar de o esforço governamental e privado ter crescido, o ambiente segue pouco propício à inovação. “A gente gostaria de acreditar que a ciência tem o condão de empurrar o processo de inovação, mas a principal fonte de inovação para a maioria das empresas é a percepção de mudanças no mercado. Há setores que se tornaram extremamente dinâmicos porque o mercado consumidor cresceu”, diz ele, citando o exemplo da indústria de cosméticos. “Trata-se de um setor que cresce a taxas de dois dígitos há mais de 10 anos, porque os mais pobres passaram a consumir produtos dessa natureza”, afirma.

A indústria de cosméticos, observa João Furtado, também fornece um exemplo simbólico das dificuldades de inovar. “O Brasil é o segundo maior produtor do mundo de esmalte para unha, mas não fabrica um único frasquinho de vidro para esmalte, porque o preço da energia inviabiliza essa produção. O que há de errado num país que precisa importar 700 milhões de vidrinhos?”, indaga. “O preço da energia é um dos problemas. Mas há outros, como o custo de fazer pesquisa e desenvolvimento nas empresas, maior no Brasil do que na China ou na Índia”, diz. João Furtado acredita que falta ambição às políticas brasileiras de inovação. “Na Coreia do Sul, por exemplo, o governo estabeleceu metas ambiciosas, pensando em quais setores da indústria o país se tornaria líder. No Brasil ainda não há nada parecido”, diz. Ele cita o dado da Pintec segundo o qual 65,4% das inovações em produtos das empresas de eletricidade e gás são feitas em parceria com outras empresas e instituições de pesquisa, ante um índice de apenas 5,6% das indústrias. “O percentual é alto porque a legislação estabelece gasto compulsório em pesquisa e desenvolvimento no setor elétrico. A política pública tem um forte efeito indutor nesse caso, mas os investimentos são feitos de forma pontual, porque a lei determina assim. Mas poderia haver um desenho diferente. Em vez de pulverizar os recursos e produzir inovações de baixo risco, uma parte do dinheiro poderia ser canalizada para 10 grandes projetos de pesquisa em energia. A ousadia e a articulação com o futuro seriam diferentes”, afirma. Carlos Calmanovici, o presidente da Anpei, acredita que os resultados da próxima Pintec possam ser mais favoráveis. “Alguns obstáculos, como a apreciação do câmbio, foram amenizados, e surgiu um programa ambicioso, o Inova Empresa, da Finep e do BNDES, com chamadas públicas em setores estratégicos”, afirma. Mas ele antevê um esgotamento na estratégia do governo federal de fomentar a inovação nas empresas, com a redução das fontes de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). “Depois de 2014, o orçamento do FNDCT vai perder 40% de seus recursos. A divulgação dos resultados da Pintec é bom momento para estimular uma reflexão profunda desse sistema de financiamento”, afirma. n pESQUISA FAPESP 215  z  39


Tecnologia de informação y

Ciência no palheiro Programa em eScience busca extrair novos conhecimentos em meio a volumes gigantescos de dados

40  z  janeiro DE 2014

Serão disponibilizados R$ 4 milhões para apoiar projetos que envolvam modelos matemáticos, repositórios digitais e gerenciamento de dados, novos hardwares, softwares, protocolos, ferramentas e serviços, voltados para atender a demandas de pesquisas nas áreas de ciências agrárias; artes, humanidades e ciências sociais; engenharia e física, clima e ciências da Terra, e à prática e educação em eScience. As ideias iniciais surgiram de dois workshops organizados pela FAPESP que contaram com pesquisadores em computação e em outras áreas (das exatas às humanidades). “Toda a discussão levou à conclusão de que o ideal seria uma iniciativa em eScience”, diz Claudia Bauzer Medeiros, professora do Instituto de Computação da Unicamp e membro da Coordenação da área de Engenharia e Ciência da Computação da FAPESP. “Os detalhes foram sendo amadurecidos e culminaram em uma proposta de

programa redigida pela Coordenação de Computação da FAPESP.” O edital tem um aspecto pioneiro no país ao exigir dos proponentes a submissão de um Data Management Plan, que descreve como o projeto pretende gerenciar, proteger, preservar e divulgar seus dados. “Muitos países, como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Canadá, estão discutindo como garantir tais planos em todo projeto de pesquisa, pois é consenso que uma das partes mais valiosas de qualquer pesquisa são os dados gerados, que precisam ser preservados e divulgados adequadamente”, observa Claudia Bauzer Medeiros. “Para a FAPESP, avançar em eScience é fundamental, pois ela tem programas que geram uma quantidade inimaginável de dados de interesse científico que necessitam de um tratamento adequado e devem ser compartilhados”, diz Marcondes César, referindo-se a programas como o

fotos  eduardo cesar e léo ramos

A

FAPESP lançou uma chamada de propostas que inaugura seu Programa de Pesquisas em eScience, expressão que resume o desafio de pesquisa conjunta em computação e outras áreas do conhecimento, para organizar, classificar e garantir acesso ao gigantesco volume de dados gerados constantemente em todos os campos de pesquisa, visando extrair novos conhecimentos e fazer análises abrangentes e originais. O objetivo principal do programa é integrar grupos envolvidos com pesquisas sobre interfaces, algoritmos, modelagem computacional e infraestrutura de dados com cientistas de áreas em que aplicações de eScience são especialmente necessárias no país, das ciências agrárias às sociais. “A intenção é colocar pesquisadores dessas duas frentes trabalhando juntos para gerar conhecimentos novos tanto em ciência da computação como em aplicações nessas disciplinas”, diz Roberto Marcondes César Júnior, professor do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo e coordenador adjunto de Ciências Exatas e Engenharias da FAPESP. A primeira chamada receberá propostas nas modalidades Projeto Temático ou Auxílio Regular até 28 de abril de 2014. A Fundação espera que as universidades ofereçam contrapartida de recursos humanos, contratando programadores e analistas de banco de dados, entre outros.


Pesquisas sobre a internet

Biota, de identificação da biodiversidade paulista, o Bioen, de pesquisa em bioenergia, o Programa FAPESP sobre Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais ou o Cinapce, de pesquisas sobre o cérebro. A experiência dos 46 projetos de pesquisa, 32 deles já concluídos, do Instituto Microsoft Research-FAPESP de Pesquisas em Tecnologia de Informação, iniciativa que busca aplicações de alcance social em tecnologia de informação, sinaliza que há uma comunidade de pesquisadores apta a participar do novo programa. Planilhas

O advento do eScience se relaciona com mudanças na forma de fazer ciência. “Até poucos anos atrás, um doutorado em biologia, por exemplo, dependia de um conjunto de experimentos nos dois ou três primeiros anos, compilados depois numa planilha cujos dados eram analisados no último ano. Já hoje é comum que

A FAPESP e os ministérios da Ciência,

Ponto BR (NIC.br). “Em 1998, a internet no

Tecnologia e Inovação (MCTI) e das

Brasil contava com 27 mil domínios. Hoje são

Comunicações firmaram um convênio de

mais de 3 milhões”, pontuou o presidente da

cooperação no valor de R$ 98 milhões,

FAPESP, Celso Lafer. “A FAPESP abriu-se para

no dia 18 de dezembro passado, para apoiar

ajudar o CGI num momento em que ainda não

pesquisas científicas e tecnológicas que

existia o NIC.br, e esse apoio foi fundamental”,

contribuam para o desenvolvimento da

ressaltou o ministro Marco Antonio Raupp,

internet no Brasil. O valor corresponde aos

do MCTI. Os recursos serão distribuídos entre

recursos remanescentes do período em que a

projetos apresentados por pesquisadores de

FAPESP, por delegação do Comitê Gestor da

todo o país, proporcionalmente ao número

Internet no Brasil (CGI.br), geriu as atividades

de registros de domínios solicitados por cada

de registro de domínio e alocação de

estado naquele período. São Paulo contará

endereços IP no país, entre 1998 e dezembro

com 47% dos R$ 98 milhões para apoiar

de 2005, quando essa tarefa foi assumida

projetos no âmbito do convênio que envolve

pelo Núcleo de Informação e Coordenação do

os dois ministérios e a FAPESP.

no primeiro ano o aluno tenha acesso a centenas de planilhas sobre um determinado experimento disponíveis na internet e seu desafio seja descobrir conhecimento novo em meio àquele volume de informações”, explica o professor. “O problema de pesquisa se transformou. Trata-se de extrair conhecimento de um volume grande de informações, na maioria das vezes com dados heterogêneos.” Diversas iniciativas internacionais enfrentam os desafios de eScience, caso do Institute for Data Sciences and Engineering, da Universidade de Colúmbia. Organizado em temas interdisciplinares, pesquisa formas de extrair informações de mídias on-line, de monitorar e melhorar o uso da infraestrutura urbana ou de aprimorar o sistema de atendimento de saúde utilizando dados de pacientes e registros de saúde pública. Outro exemplo é o eScience Institute, da Universidade de Washington, EUA, que abriga pesquisas que vão desde astronomia até biologia marinha. Há também telescópios virtuais, como o SkyView, da Nasa, que permitem que milhões de pessoas acessem dados astronômicos do universo. Existe ainda a iniciativa mundial de observatórios astronômicos vir­tuais, para processar dados astronômicos mundialmente, permitindo que milhões de pessoas acessem o universo. Outro exemplo é o LHC, o maior acelerador de partículas do mundo, cujos resultados são processados mundialmente. A expertise que os cientistas buscam para extrair informações em meio a gran-

des volumes de dados já foi alcançada pelo setor privado, observa Gilberto Câmara, pesquisador de geoinformática e modelagem ambiental do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e diretor da instituição entre 2005 e 2012. “Bancos e sites de comércio eletrônico criaram uma estrutura de gerenciamento de dados gigantesca para obter informações sobre os clientes e seus hábitos e prestar serviços, mas a forma como estão organizados arquivos científicos mudou muito pouco”, afirma, citando como exemplo as 500 mil imagens de satélite oferecidas gratuitamente pelo Inpe. “Eu posso baixar uma por uma, mas quem precisa gerenciar mais de 200 fotos pessoais sabe a dificuldade que isso gera. Um desafio do eScience é fazer com que o conjunto delas possa ser analisado sem que eu precise baixá-las”, afirma. Câmara cita um artigo da revista Science, publicado em novembro passado, com os resultados da pesquisa de um grupo que mapeou as mudanças na cobertura de florestas do mundo entre 2000 e 2010, a partir de 650 mil imagens do satélite Landsat. “O Google, que tem uma infraestrutura poderosa em sistemas de armazenamento e está na liderança nesse campo, franqueou ao grupo de pesquisa o acesso às imagens. Há uma revolução em andamento no tratamento de dados científicos. Ela vai permitir que se faça ciência de um jeito diferente, em que será possível levar o pesquisador até os dados e não mover os dados para o pesquisador.” n Fabrício Marques pESQUISA FAPESP 215  z  41


Políticas públicas y

1991

Quarta edição do Inventário florestal ampliará em 100 vezes a resolução espacial da vegetação nativa em São Paulo Carlos Fioravanti

O

Instituto Florestal de São Paulo (IF) deve começar a produzir neste mês de janeiro a quarta edição do Inventário florestal da vegetação natural do estado de São Paulo, que delimita as áreas de vegetação nativa ou de reflorestamento no território paulista. Em vez de imagens de satélite, como nas versões anteriores, a equipe do Florestal usará fotografias aéreas, cedidas pela Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa), desse modo ampliando a resolução espacial em 100 vezes, em comparação com a terceira edição, concluída em 2009. O ganho de resolução espacial deverá ampliar o tamanho conhecido da área de vegetação nativa – mata atlântica, cerrado e manguezais – em São Paulo. Na terceira versão do inventário, o uso de imagens de satélite com uma resolução quatro vezes maior que a da edição anterior permitiu a visualização de áreas que passavam despercebidas e aumentou em 25% a área de campos e florestas em diferentes estágios de conservação, hoje de 4,34 milhões de hectares, o equivalente a 17,5% do território paulista. Outros estados, como Rio de Janeiro e Minas Gerais, fizeram estudos semelhantes,

42  z  janeiro DE 2014

embora em uma escala não tão detalhada (ver Pesquisa FAPESP nº 170). “Foi o próprio secretário de Meio Ambiente do estado, Bruno Covas, que pediu para fazer uma versão atualizada do inventário, em maio de 2013”, relata Marco Aurélio Nalon, pesquisador do IF e coordenador do trabalho. O Inventário florestal tornou-se um documento fundamental para a definição de diretrizes oficiais capazes de auxiliar as políticas ambientais e para os estudos sobre biodiversidade no estado. A segunda edição, lançada publicamente em 2003 com apoio do Programa Biota-FAPESP, motivou a criação de uma lei de proteção dos remanescentes de vegetação nativa no território paulista (ver Pesquisa FAPESP nº 91). Um Mapa A cada dois meses

O planejamento da quarta edição, orçada em R$ 2 milhões, prevê a produção de um mapa simplificado a cada dois meses, por bacia hidrográfica, para auxiliar as atividades em campo de órgãos de fiscalização como a Polícia Ambiental e o Departamento de Proteção de Recursos Naturais. Outra novidade é que a produção dos mapas, pela primeira vez, será terceirizada. A empresa deverá ser

escolhida no início de janeiro por meio de pregão eletrônico e imediatamente começar a produção dos mapas, sob supervisão da equipe do instituto. “As imagens que usaremos já estão aqui”, diz Nalon, indicando um dos três hard discs sobre sua mesa de trabalho, entre três monitores de computador; nas paredes estão as fotos de montanhas dos Estados Unidos que ele escalou ao longo de sua carreira de montanhista iniciada em 1985. “São 1.292 ortofotos aéreas do estado de São Paulo, na escala 1 para 25 mil, com resolução espacial de 1 metro.” Ele compara: nas duas primeiras versões do inventário, a área mínima analisada era de 2 a 3 hectares, equivalente a dois ou três campos de futebol. Em 2010, na terceira edição, a área mínima encolheu para 2.500 metros quadrados (m2), um quarto de um campo de futebol, com muito mais detalhes. Agora, segundo ele, com as fotos aéreas, a área mínima será de 900 a 1.000 m2, ou um décimo de um campo de futebol. “Esse é o material de nossos sonhos”, comemora. O aumento de resolução e o novo modelo de organização, que permitirá a produção contínua de mapas ao longo de um


2008

Cada vez mais perto: 20 anos de uma mesma área de Dracena, região do noroeste paulista com um dos menores índices de vegetação nativa no estado de São Paulo

imagens  instituto florestal do estado de são Paulo

2014

ano, representam um avanço e tanto sobre a primeira edição do Inventário florestal, em 1993. O primeiro mapa produzido a partir de imagens do satélite Landsat, depois de dois anos de trabalho manual, tem 4 metros de largura por 3 metros de altura e ocupa hoje uma das salas do Laboratório de Geoprocessamento do instituto. “A gente colava na parede 416 cartas topográficas do IBGE, emendava, fo-

tografava e fazia redução para escala 1 para 250 mil”, relembra Nalon. “Quando alguém por aqui começa a reclamar da vida, eu pergunto: ‘Quer pintar?’. E mando ver o mapa. Hoje as imagens são todas escaneadas e a interpretação é semiautomática, mas já pintei muito mapa, como este, com caneta hidrográfica.” Visto de perto, o mapa é claramente artesanal: as áreas de vegetação – mata atlântica,

manguezal e cerrado – e de reflorestamento de pínus e eucalipto estão pintadas a mão em diferentes cores, as áreas urbanas estão em branco, papeizinhos datilografados nomeiam as unidades de conservação. Nalon, físico de formação, recebeu em 1991 a tarefa de modernizar a produção do mapa de vegetação nativa do estado de São Paulo usando computação gráfica e programas de interpretação de imagens. Pelo método anterior, totalmente manual, era difícil ver se uma área de cobertura vegetal tinha crescido ou diminuído de um ano para outro. “Colocávamos a imagem de satélite em uma mesa de luz, depois uma folha transparente sobre a imagem, e, com nanquim, desenhávamos os fragmentos de vegetação nativa, fazíamos a mão os contornos e um aparelho nos dava a área de cada fragmento”, ele recorda. “Fazíamos as fichas dos fragmentos, cada um com um número, e digitávamos em uma planilha eletrônica, no computador.” n

Publicações KRONKA, F.J.N. et al. Inventário florestal do estado de São Paulo. IF, 1993. KRONKA, F.J.N. et al. Áreas de domínio do cerrado no estado de São Paulo. IF, 1998. KRONKA, F.J.N. et al. Inventário florestal das áreas reflorestadas do estado de São Paulo. IF, 2002. KRONKA, F.J.N. et al. Inventário florestal da vegetação natural do estado de São Paulo. IF, 2005. KRONKA, F.J.N. et al. Inventário florestal da vegetação natural do estado de São Paulo: Regiões Administrativas de São José dos Campos (Litoral), Baixada Santista e Registro. IF, 2007.

pESQUISA FAPESP 215  z  43


ciência  Endocrinologia y

44  z  janeiro DE 2014


Despertar precoce Pesquisadores brasileiros identificam o primeiro gene associado a forma hereditária de puberdade prematura

Ricardo Zorzetto

ilustrações sandra javera

H

á cerca de 7 anos a médica Ana Claudia Latronico atendeu no ambulatório de endocrinologia pediátrica do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo um caso que lhe chamou a atenção e acabou por conduzir à identificação, em meados de 2013, do primeiro gene associado à puberdade precoce de origem hereditária. Era uma menina de 5 anos que já apresentava os primeiros sinais da puberdade. As mamas começavam a se formar e os pelos cresciam mais espessos nas axilas e na região pubiana, dois sinais de que os hormônios sexuais, produzidos em maior quantidade só no final da infância, já circulavam em níveis elevados no corpo da garota. Pouco frequentes na população, casos como esse de puberdade que ocorre muito antes do tempo adequado até são comuns no maior hospital da América Latina, para onde são encaminhados os problemas mais raros e complexos do país. O que despertou o interesse de Ana Claudia, no entanto, foi outro motivo. A menina havia chegado ao hospital por iniciativa da avó paterna, então uma senhora de 69 anos, que tinha entrado na puberdade cedo e menstruado pela primeira vez aos 9 anos. Semanas mais tarde a avó retornou com uma segunda neta, filha de outro filho, e anos depois com uma terceira, nascida do pESQUISA FAPESP 215  z  45


Infância roubada Defeitos no gene MKRN3 antecipam a liberação de hormônio que regula o amadurecimento sexual

cérebro

1 Alterações no gene MKRN3 geram versões

defeituosas de proteína que deveria bloquear a produção do hormônio GnRH, que comanda o amadurecimento sexual Hipotálamo

2 Sem esse freio, o GnRH fabricado

no hipotálamo chega Glândula pituitária

gônadas

à hipófise induzindo a produção de dois hormônios, o LH e o FSH

3 Nos ovários e nos

testículos, o LH e o FSH estimulam a produção de hormônios que fazem o corpo crescer e os genitais amadurecerem Fonte  ana claudia latronico / usp

segundo casamento do primeiro filho. Em comum, todas apresentavam as mudanças corporais da puberdade bem antes da hora em que costumam surgir na maioria das crianças: a partir dos 8 anos nas meninas e dos 9 anos nos meninos.

E

ssa sequência de casos na mesma família – mais tarde chegariam a seis – levou Ana Claudia a desconfiar de uma origem genética para o problema, algo em que poucos especialistas pensavam na época, e a iniciar uma procura ativa entre os parentes das crianças atendidas por ela e sua equipe no HC. “Passamos a conversar com as mães, que em geral são quem leva as crianças às consultas, sobre a puberdade do pai, dos tios e dos avós”, lembra a endocrinologista. Perguntas como “com que idade a avó menstruou pela primeira vez?” ou “na família há casos de homens que começaram a fazer a barba muito cedo?” ajudaram esse grupo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) a encontrar mais 11 famílias brasileiras com mais de um caso de puberdade precoce entre os parentes de primeiro grau. Exames clínicos e testes hormonais confirmaram que nessas 12 famílias brasileiras e em outras 3 estrangeiras havia 32 pessoas que tinham entrado na puberdade muito cedo, em média aos 6 anos. Em todos esses casos, apresentados

46  z  janeiro DE 2014

em junho de 2013 em um artigo no New England Journal of Medicine (NEJM), o desenvolvimento acelerado do corpo que marca a transição da infância para a idade adulta havia começado antes do tempo por causa do aumento prematuro na produção do hormônio liberador das gonadotrofinas: o GnRH, que comanda o amadurecimento sexual do organismo – esses casos são chamados de puberdade precoce central ou verdadeira. Produzido no cérebro por um pequeno grupo de neurônios do hipotálamo, o GnRH funciona como o acelerador de um carro. Esse hormônio é liberado em pulsos mais rápidos na puberdade, induzindo a glândula hipófise a produzir dois outros hormônios sexuais: o homônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo estimulante (FSH). Esses hormônios são lançados na corrente sanguínea e viajam até os ovários e os testículos, onde ativam a liberação de outros hormônios sexuais que fazem o corpo crescer e amadurecer do ponto de vista reprodutivo (ver infográfico acima). Com os dados daquelas 32 pessoas em mãos, faltava descobrir o que havia levado o corpo delas a secretar mais GnRH antes da hora. O grupo de Ana Claudia, em parceria com pesquisadores da Santa Casa de São Paulo, da Universidade Federal de Minas Gerais, da Universidade de Leuven, na Bélgica, e da Universidade Harvard, nos Estados


Unidos, decidiu sequenciar o material genético desses participantes em busca de alterações que pudessem explicar o início antecipado da puberdade. Um terço deles (oito pessoas) apresentou defeitos em um mesmo gene: o MKRN3, hoje considerado o primeiro gene responsável por uma forma hereditária de puberdade precoce. “Esse resultado é importante porque os determinantes do início da puberdade permanecem um dos mistérios não resolvidos da biologia”, comenta o endocrinologista Jean-Claude Carel, da Universidade Paris Diderot e do Centro de Referência em Doenças Endócrinas Raras do Crescimento, na França. Especialista de renome internacional que investiga a puberdade precoce central, Carel observa: “A puberdade está associada a uma série de desfechos físicos e psicológicos de longo prazo, e compreender melhor o que define seu início cria a oportunidade de contribuir para questões de saúde como câncer, comportamentos de risco e abuso de drogas”. Para Erica Eugster, da Universidade da Saúde de Indiana, Estados Unidos, “esse achado representa um avanço importante na determinação da base genética da puberdade precoce central”, em especial por envolver uma forma até então desconhecida de controle da produção do GnRH. Ana Claudia conta que jamais imaginou encontrar um gene que estivesse alterado em 33% das pessoas com a forma hereditária de puberdade precoce. “Em geral, as alterações em genes não afetam mais do que 10% das pessoas com determinada doença genética”, explica. Além de muito frequentes nos casos em que a puberdade precoce se manifesta em mais de uma geração da mesma família, as mutações no MKRN3 também estão se revelando comuns nas pessoas com puberdade precoce central sem origem hereditária.

O

grupo de São Paulo e seus colaboradores acompanham 215 crianças – atendidas em São Paulo, Ribeirão Preto, Campinas e na Macedônia, no Leste Europeu – em que a puberdade prematura se manifestou de modo isolado, sem afetar outras pessoas da família. Mesmo assim, segundo estudo submetido para publicação no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, a proporção de pessoas com o gene MKRN3 defeituoso é elevada: cerca de 3%. “Ainda que as alterações nesse gene expliquem só 3% dos casos, já é um grande avanço”, afirma o pediatra Gil Guerra Junior, da Univesidade Estadual de Campinas, colaborador de Ana Claudia. “Todo serviço de endocrinologia pediátrica recebe casos de puberdade precoce e a maior frustração dos médicos é não descobrir a origem do problema na maior parte das vezes”, diz. No Brasil faltam levantamentos populacionais sobre os casos de puberdade precoce, que é 10 ve-

Herança incomum Alteração genética só se manifesta se transmitida pelo pai

Puberdade precoce

Puberdade normal

zes mais comum em meninas do que em meninos. Mas estatísticas internacionais indicam que em média uma criança em cada grupo de 5 mil ou 10 mil entra na puberdade muito antes do esperado. Em 90% das vezes ignora-se a causa da puberdade antecipada e os médicos têm de se contentar em dizer que a origem é idiopática (desconhecida). Quase sempre esses casos se manifestam isolados, em apenas uma pessoa da família, o que elimina a suspeita de hereditariedade. Análises genéticas até costumam revelar alterações em um gene ou outro. Mas, até onde se sabe, são defeitos surgidos ao acaso, sem evidências de que foram trasmitidos pelos pais. Ao menos, era o que se pensava. A partir do trabalho do NEJM, os pesquisadores começaram a suspeitar de que muitos casos familiares podem ter passado despercebido porque os médicos não perguntam sobre o restante da família. “Nossos dados indicam que os casos de origem familiar não são tão raros assim”, comenta a médica Berenice Bilharinho de Mendonça, da USP. Foi ela quem, nos anos 1980, criou no HC a Unidade de Endocrinologia do Desenvolvimento, onde, além dos casos de puberdade precoce, são atendidos e tratados os distúrbios da diferenciação sexual e do crescimento. Trabalhando com Berenice desde 1987, Ana Claudia e seu grupo já haviam identificado mupESQUISA FAPESP 215  z  47


tações em outros dois genes ligados à via bioquímica de produção do GnRH. Essas mutações também provocavam o início precoce da puberdade. Mas, recorda Ana Claudia, em “casos isolados”. Um desses genes alterados foi encontrado em um menino de apenas 1 ano que já apresentava crescimento de pelos pelo corpo, aumento do volume dos testículos e do tamanho do pênis. A radiografia das mãos indicava que seus ossos eram tão desenvolvidos quanto os de uma criança de 3 anos. Num período que passou no laboratório de Ursula Kaiser, em Harvard, a médica Letícia Gontijo Silveira verificou que as células do garoto traziam cópias danificadas do gene que codifica a kisspeptina-1, proteína cerebral que ativa a liberação de GnRH. Dois anos antes Milena Teles, também da equipe de Ana Claudia, havia encontrado em uma menina que começara a desenvolver as mamas no primeiro ano de vida e aos 7 anos já as tinha formadas uma mutação em outro gene dessa mesma família, que codifica o receptor da kisspeptina-1. Nos dois casos, a versão defeituosa do gene aumentava precocemente a liberação do GnRH e antecipava a puberdade. Essas mutações funcionavam como um pisão no acelerador do carro.

S

e a kisspeptina-1 e seu receptor integram o sistema de aceleração, a proteína produzida pelo gene MKRN3 parece atuar na frenagem. Esse papel só começou a ficar claro com o trabalho da médica Ana Paula de Abreu, da equipe da USP. Na parte de seu pós-doutorado feita em Harvard, ela registrou a expressão do MKRN3 no cérebro de camundongos do 10º ao 60º dia de vida, período correspondente à infância e ao início da idade adulta de uma pessoa. Por volta do 20º dia, no início da puberdade, a expressão do gene caiu para 5% do nível inicial. Para Ana Paula, esse dado reforça a ideia de que a proteína produzida pelo MKRN3 saudável funciona como um bloqueador temporário da puberdade. Já as nove alterações encontradas em casos familiares e isolados de puberdade precoce produzem o efeito contrário: seriam como a perda do freio. A análise dos casos familiares revelou um padrão incomum de herança e manifestação desses defeitos. Basta uma cópia alterada do gene (há duas em cada célula) para adiantar a puberdade. Mas essa cópia tem de ter vindo do pai. “As cópias de origem materna são silenciadas por mecanismos epigenéticos”, conta Ana Claudia. Mesmo nos casos considerados isolados, sem história familiar, os pesquisadores verificaram que o gene defeituoso havia sido herdado do pai. “Os pais são portadores assintomáticos”, conta Ana Paula. “Esses dados mostram que os casos considerados esporádicos do ponto de vista clínico são, na realidade, hereditários.” 48  z  janeiro DE 2014

O problema de perder o freio é que, no início da infância, o carro não está preparado para correr. “O aumento precoce na produção de GnRH acelera o Com o início crescimento muito cedo, mas a criança antecipado cresce por menos tempo”, conta Guerra. Entre os primatas, os seres humanos são da puberdade, os que levam mais tempo para atingir a maturidade. “O ser humano cresce do a criança nascimento até os 20 anos”, diz o pediatra. “Imagine as consequências de parar começa a crescer de crescer aos 8 ou 9 anos.” mais cedo, Os primeiros sinais da puberdade observados pelos pais e pediatras, além mas cresce por dos pelos, é o desenvolvimento das mamas, nas meninas, e dos genitais, nos menos tempo meninos. Quase sempre, porém, o corpo todo já cresce num ritmo mais acelerado – é o estirão de crescimento, que na puberdade normal ocorre no fim da primeira década de vida. O aumento nos níveis do estradiol, um dos hormônios sexuais, faz os ossos se alongarem mais rapidamente. Mas suas extremidades se consolidam mais cedo, cessando o crescimento. “Se a puberdade não for bloqueada no início, a criança pode não atingir todo o seu potencial de crescimento e, quando adulta, ficar de 10 a 12 centímetros mais baixa do que as pessoas da mesma idade”, conta Ana Claudia. A transformação do corpo vem acompanhada de mudanças no comportamento. “Muitas crianças assumem atitudes de pré-adolescentes”, diz a psicóloga Marlene Inácio, que há mais de 20 anos acompanha os casos atendidos no HC. Bem antes do normal, elas passam a questionar os pais e a querer mandar nas crianças da mesma idade.


Marlene conta que é comum as meninas irem às consultas com as unhas pintadas e usando maquiagem. Os meninos se tornam retraídos e mais inquietos e agressivos. “A criança percebe que o corpo mudou, mas não compreende a transformação do ponto de vista subjetivo”, explica. “Durante a infância meninas e meninos agem como inimigos”, conta o pediatra Durval Damiani, do Instituto da Criança da USP. Mas, assim que a puberdade começa, surge o interesse pelo sexo oposto. “A menina, por exemplo, passa a gostar do coleguinha de classe”, conta. E os pais, em especial das meninas, passam a temer o risco de violência sexual e uma possível gravidez.

E

mbora haja uma tendência de antecipação da puberdade nos países ocidentais nos últimos tempos – dados europeus indicam que a idade da primeira menstruação passou de 17 anos no início do século XIX para 13 anos em meados do século XX –, nem sempre esse avanço antecipado no desenvolvimento do corpo representa um problema de saúde. “Muitos casos de puberdade precoce são uma variante do normal e não precisam ser tratados”, afirma Damiani. “Muitas vezes a criança começa a apresentar aos 7 anos os primeiros sinais de puberdade, como o desenvolvimento das mamas, mas a idade óssea é normal e ela só vai menstruar aos 12.” Nessas situações, o ideal é acompanhar o caso de perto. Numa idade em que o comum é a interação com outras crianças, as que entram na puberdade cedo demais podem se sentir rejeitadas. As meninas que menstruam muito cedo, por exemplo, passam a evitar ir ao banheiro com as colegas com medo de que descubram. “Ser diferente nessa idade traz sofrimento emocional”, conta Ana Claudia.

Tão logo identificam sinais da puberdade antecipada e confirmam a necessidade de tratamento, os médicos receitam injeções mensais ou trimestrais de um composto com estrutura química semelhante à do GnRH. Fornecida pelo sistema público de saúde e considerada de alto custo – R$ 500,00 a R$ 800,00 por mês –, essa medicação interrompe temporariamente a ação do hormônio. O objetivo do tratamento, que dura até por volta dos 12 anos, é preservar a capacidade de crescimento da criança e fazer os sinais da puberdade regredirem. “Alguns meses após o início do tratamento, a criança volta a se comportar como as outras de sua idade”, conta Marlene. Recentemente o endocrinologista Vinicius Nahime de Brito e a psicóloga Tais Menk iniciaram no HC um estudo com 60 meninas com idade entre 6 e 11 anos para avaliar como as transformações antecipadas no corpo afetam o desenvolvimento emocional. Por meio de testes psicológicos, eles avaliaram a personalidade e o grau de estresse antes, durante e depois do tratamento. Os resultados preliminares sugerem que as meninas com puberdade precoce apresentam imagem corporal inadequada, isolamento social e sexualidade exacerbada, além de medo e sentimento de inferioridade mais intensos do que as crianças da mesma idade com desenvolvimento normal, sinais que amenizam com o bloqueio do GnRH. “O nível de estresse era maior no grupo pré-tratamento do que no pós-tratamento”, conta Tais. “Embora o número de crianças avaliado ainda seja pequeno”, completa Brito, “os dados reforçam nossa hipótese de que a puberdade precoce provoca um nível de estresse mais elevado.” Cuidando de casos de puberdade precoce há quase três décadas, Berenice avalia a identificação dos defeitos no gene MKRN3 como um trunfo. “Até então, só conhecíamos alterações genéticas com ação estimuladora sobre o GnRH”, explica Berenice. “Essa descoberta abre a possibilidade de um dia conseguirmos atuar na via inibitória.” Embora o tratamento atual seja eficaz, 5% das crianças têm alergia à medicação. Caso essa linha de pesquisa tenha sucesso, talvez se torne possível retardar a puberdade não só tirando o pé do acelerador, mas também pisando no freio. n

Projeto Caracterização molecular das doenças endócrinas congênitas que afetam o crescimento e o desenvolvimento (05/04726-0); Modalidade Projeto Temático; Coord. Ana Claudia Latronico - FM/USP; Investimento R$ 1.372.370,77 (FAPESP).

Artigos científicos ABREU, A. P. et al. Central precocious puberty caused by mutations in the imprinted gene MKRN3. New England Journal of Medicine. 27 jun. 2013. TELES, M. G. et al. A GPR54-activating mutation in a patient with central precocious puberty. New England Journal of Medicine. 14 fev. 2008.

pESQUISA FAPESP 215  z  49


cérebro com alzheimer e sem demência

cérebro com alzheimer e com demência

cérebro saudável

sintomas do alzheimer e alterações no córtex, no hipocampo e nas amídalas

Quantidade

8,49 bilhões de neurônios

de placas neuríticas

11,34 bilhões de neurônios

Quantidade de neurônios no córtex,

3,49 células da glia/neurônio

12,07 bilhões de neurônios

no hipocampo e nas amídalas

1,80 célula da glia/neurônio

Córtex Número de células

1,72 célula da glia/neurônio

da glia para cada neurônio no córtex, no hipocampo e nas amídalas

Hipocampo

Amídala


NEUROCIÊNCIA y

Pesquisadores querem entender o que faz o cérebro de algumas pessoas resistir aos efeitos do mal de Alzheimer Igor Zolnerkevic

infográficos ana paula campos  ilustrações  fabio otubo

O

s cérebros de quatro senhoras com idades entre 80 e 82 anos que morreram recentemente em São Paulo contam um pouco mais sobre a complexidade do mal de Alzheimer. Amostras desses cérebros, doados ao banco de encéfalos da Universidade de São Paulo (USP), foram analisadas ao microscópio e revelaram o amontoado de placas e emaranhados de proteínas que são a marca típica dos estágios avançados do Alzheimer. Era de esperar, portanto, que essas mulheres tivessem sofrido na última década de vida sérios problemas de perda de memória e de cognição, como dificuldade de se expressar e de perceber o espaço a sua volta. Entrevistas com familiares e cuidadores das idosas, porém, provaram que elas viveram lúcidas até o fim. “Ninguém entende exatamente por que essas pessoas não desenvolveram demência”, admite o neuroanatomista Carlos Humberto Andrade-Moraes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seu doutorado, feito sob a supervisão do neurocientista Roberto Lent, da mesma universidade, é o primeiro no mundo a analisar o número total de células do cérebro de idosos conhecidos como doentes de Alzheimer assintomáticos. O estudo, publicado com outros pesquisadores da UFRJ e da USP

em dezembro na Brain, concluiu que o número de neurônios dos assintomáticos é praticamente igual ao de idosos saudáveis, diferentemente do que se vê no cérebro de pessoas com Alzheimer que desenvolvem demência, a perda de memória e da capacidade cognitiva. Na demência há uma redução drástica de neurônios no hipocampo e no córtex, as regiões cerebrais responsáveis pela consolidação da memória e pelo raciocínio. Em média, uma em cada 10 pessoas com mais de 65 anos apresenta os sinais clínicos do Alzheimer. A doença se manifesta primeiro com pequenos deslizes de memória, que com o tempo ficam mais frequentes, seguidos de falhas no julgamento moral, na percepção do espaço e do tempo e do aumento na dificuldade de se comunicar. A sobrevida média é de oito anos, ao longo dos quais os sintomas se agravam até a incapacitação total. Há algum tempo se sabe que a demência é provocada pela destruição das sinapses, os trilhões de conexões entre os 86 bilhões de neurônios, as células cerebrais que armazenam e transmitem informações, das quais emergem as memórias e os pensamentos. Um neurônio saudável recebe até 10 mil sinapses de outros neurônios, trocando sinais elétricos e substâncias que o mantêm vivo. Impedidos de manter as sinapses no Al-

zheimer, os neurônios atrofiam e morrem. Como consequência, o volume do hipocampo e a espessura do córtex diminuem, o que pode ser visto em imagens de ressonância magnética. Segundo o neurologista Márcio Balthazar, que atende pessoas com Alzheimer no Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), as neuroimagens podem ajudar no diagnóstico da doença, mas ainda não substituem os testes laboratoriais, clínicos e psicológicos. Em parceria com o neurologista Fernando Cendes, da Unicamp, Balthazar e seus colaboradores vêm apostando no aperfeiçoamento de uma nova forma de identificar o Alzheimer precocemente: o uso de neuroimagens para avaliar a atividade cerebral, e não apenas a anatomia. A ideia é observar em imagens de ressonância magnética funcional a atividade do cérebro quando os pacientes estão relaxados, sem pensar em nada. “Mesmo com a pessoa em repouso, vemos que algumas áreas do cérebro são ativadas simultaneamente, pulsando em uma mesma frequência, o que sugere que sejam grupos de neurônios se comunicando”, explica Balthazar. “Uma pessoa com Alzheimer tem essa rede menos conectada.” Em artigo publicado em novembro na Psychiatric Research: Neuroimaging, o pESQUISA FAPESP 215  z  51


A proteína do esquecimento Amontoados de beta-amilioide interrompem conexões entre neurônios 1  molécula defeituosa

Versões deformadas da proteína beta-amiloide se acumulam dentro e fora do neurônio, formando oligômeros (pequenos aglomerados) e placas neuríticas (grandes aglomerados)

2 SINAPSEs interrompidas

Acredita-se que um mecanismo desconhecido tente eliminar os oligômeros, muito tóxicos, agregando-os em placas neuríticas

3 

Os oligômeros interferem na troca de neurotransmissores entre neurônios, interrompendo as sinapses

morte celular

Sem sinapses para trocar neurotransmissores, o neurônio isolado atrofia

No interior dos neurônios, os emaranhados neurofibrilares contribuem para a sua morte

Fonte carlos alberto andrade-moraes / ufrj

grupo da Unicamp conseguiu distinguir com cerca de 70% de acerto as neuroimagens da atividade cerebral em repouso de pessoas com sintomas moderados de demência daquelas de idosos saudáveis. Os pesquisadores observaram ainda uma relação entre as falhas de conexão da rede e o grau de perda de memória. quanto mais cedo melhor

“Esperamos aperfeiçoar o método para realizar o diagnóstico cada vez mais precocemente”, conta Balthazar. Apesar de o Alzheimer permanecer sem cura, quanto antes o diagnóstico for feito mais eficazes são as intervenções que aliviam os sintomas: o uso de inibidores de acetilcolinesterase e a realização de terapia ocupacional, reabilitação psicológica e atividade física, além do planejamento da família para o futuro. Como a demência senil pode ter outras causas – problemas vasculares e outras doenças degenerativas –, o diagnóstico do Alzheimer em geral só é confirmado após a morte. A autópsia do tecido cerebral revela um excesso das chamadas placas neuríticas, ancoradas em ramificações dos neurônios, e dos emaranhados neurofibrilares, no interior dos neurônios atrofiados. Esses sinais são encontrados especialmente no hipocampo e no córtex cerebral. Até alguns anos atrás, a maioria dos pesquisadores acreditava que as placas neuríticas eram 52  z  janeiro DE 2014

as responsáveis pelas disfunções sinápticas. Mas estudos recentes feitos pela equipe da neurocientista Fernanda De Felice e do bioquímico Sergio Teixeira Ferreira, ambos da UFRJ, vêm demonstrando que as placas, apesar de tóxicas, não são a causa principal da eliminação das sinapses e da morte dos neurônios (ver Pesquisa FAPESP n. 157). De fato, as placas são formadas pelo acúmulo de pequenas moléculas de beta-amiloide. Normalmente produzida pelo cérebro, essa proteína sofre deformações no Alzheimer. Muitos pesquisadores, porém, hoje acreditam que são amontoados bem menores de beta-amiloide – os oligômeros, capazes de se difundir para dentro e para fora dos neurônios – os responsáveis por interferir nas sinapses. Outras pesquisas sugerem que esses oligômeros também formam os emaranhados neurofibrilares, que impedem o transporte de substâncias dentro dos neurônios e contribuem para a sua morte. Segundo esse raciocínio, a formação das placas seria uma tentativa do organismo de varrer os oligômeros para fora das células e para longe das sinapses. “As placas seriam protetoras e não causadoras da demência”, diz Andrade-Moraes. A descoberta dos doentes de Alzheimer assintomáticos reforçou essa hipótese. As primeiras descrições desses casos surgiram em estudos que acompanharam centenas de idosos nos Estados Unidos.

A comparação dos exames clínicos a que essas pessoas eram submetidas periodicamente com a análise de seus cérebros após a morte revelou que de 25% a 40% dos casos diagnosticados histologicamente como sendo Alzheimer não haviam desenvolvido demência. “Embora permaneça duvidoso se esses indivíduos continuariam clinicamente normais se tivessem vivido mais tempo, eles parecem ter sido capazes de compensar ou atrasar o aparecimento dos sintomas de demência”, escreveu em 2012 o neuropatologista Juan Troncoso, da Universidade Johns Hopkins, Estados Unidos, um dos primeiros a chamar a atenção para os pacientes assintomáticos. Segundo Andrade-Moraes, antes do estudo publicado na Brain nenhum trabalho sobre o impacto do Alzheimer no número de células do cérebro havia comparado indivíduos com e sem demência. “Queríamos saber se os assintomáticos teriam alguma alteração na composição das células cerebrais”, ele diz. A pesquisa foi feita em parceria com a equipe da neuropatologista Lea Grinberg, coordenadora do Banco de Encéfalos Humanos da USP, que, além de analisar os cérebros de idosos mortos em São Paulo, investiga, por meio de questionários com familiares e cuidadores, como era o desempenho cognitivo dessas pessoas até 10 anos antes de sua morte. Os pesquisadores da USP e da UFRJ selecionaram 14 cérebros de mulheres que


imagens 1 a 3 ANDRADE-MORAES, C.H. et al. Brain, 2013 4 balthazar, m.l. et al. Psychiatry research, 2013

Cérebro saudável

1

Cérebro com alzheimer sem demência

2

3

Córtex ao microscópio: as setas indicam os emaranhados neurofibrilares e os círculos, as placas neuríticas. As áreas verdes e azuis na imagem ao lado mostram conexões que começam a falhar na demência

4

morreram entre os 71 e os 88 anos (a prevalência do Alzheimer é um pouco maior entre as mulheres). Cinco tinham um nível de placas considerado normal para a idade, enquanto as demais apresentavam o excesso característico do Alzheimer. Dessas últimas, cinco apresentavam sinais de demência e quatro eram assintomáticas. menos neurônios, mais glia

Os cérebros foram processados na UFRJ em uma máquina, o fracionador isotrópico automático, construído pela equipe de Lent (ver Pesquisa FAPESP nº 192). A máquina transforma porções de cérebro em uma suspensão homogênea, contendo o núcleo das células. Anticorpos coloridos que se ligam ao núcleo dos neurônios permitem distingui-los das demais células do cérebro, as células da glia. Como esperado, o hipocampo das mulheres com demência tinha metade do número de neurônios encontrado no hipocampo das saudáveis e das assintomáticas – aquelas com demência também tinham menos neurônios no córtex todo. Ao mesmo tempo, o cérebro das pessoas com demência tinha uma proporção maior de células da glia (ver infográfico na página 50). “Essas células aumentam de número para proteger os neurônios, mas com o progresso da doença provocam uma inflamação que piora os sintomas de demência”, explica Andra-

Cérebro com alzheimer com demência

Cérebro de idosos saudáveis e de idosos com Alzheimer assintomáticos apresentam números semelhantes de células de-Moraes. Ele, porém, não encontrou diferença significativa ­– no número de neurônios e de células da glia – entre o cérebro de idosos saudáveis e o de idosos com Alzheimer assintomáticos. “Os assintomáticos devem possuir algum mecanismo fisiológico desconhecido que protege suas redes de neurônios dos efeitos dos oligômeros”, suspeita. “Algo afasta os oligômeros das sinapses, agregando-os rapidamente em placas.” Para ele, um candidato a explicar esse mecanismo é a atuação mais eficiente da insulina no cérebro dos assintomáticos. Diferentemente do que ocorre em outros órgãos, o papel da insulina no cérebro parece não ser o controle do metabolismo de açúcar, mas a consolidação da memória e a formação de novas sinapses. Experimentos in vitro e com animais feitos por Fernanda De Felice e Sérgio Ferreira vêm

demonstrando que a insulina protege os neurônios da ação dos oligômeros. Em artigo publicado em dezembro na Cell Metabolism, eles apresentaram novos mecanismos neuronais que provocam a perda de sinapses em camundongos e macacos com sinais semelhantes aos de Alzheimer. Parte do doutorado de Mychael Lourenço, esse trabalho mostrou ainda que um remédio usado para tratar diabetes tipo 2, a liraglutida, bloqueou os danos neuronais em modelos animais de Alzheimer. Atualmente uma equipe do Imperial College de Londres testa a liraglutida em 200 pessoas com Alzheimer. Outra hipótese é que os assintomáticos possuem uma maior reserva cognitiva, talvez resultado de uma rede de sinapses mais complexa do que a dos que desenvolvem demência. Essa reserva permitiria resistir mais aos efeitos dos oligômeros. Essa ideia vem da observação de que os assintomáticos costumam ser pessoas com um nível de escolaridade maior ou que aprenderam a falar e a escrever cedo na infância. Na Unicamp, Balthazar tenta confirmar o efeito protetor da reserva cognitiva comparando a conectividade das redes neuronais em pacientes idosos com diferentes graus de escolaridade, hábitos de leitura e vida social. n Projetos Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia – Brainn (n° 2013/07559-3); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Coord. Fernando Cendes – FCM/ Unicamp; Investimento R$ 13.621.302,32 (FAPESP).

Artigos científicos ANDRADE-MORAES, C.H. et al. Cell number changes in Alzheimer’s disease relate to dementia, not to plaques and tangles. Brain. dez. 2013. LOURENCO, M.V. et al. TNF- Mediates PKR-dependent memory impairment and brain IRS-1 inhibition induced by Alzheimer’s ß-amyloid oligomers in mice and monkeys. Cell Metabolism. 3 dez. 2013. BALTHAZAR, M.L. et al. Whole cortical and default mode network mean functional connectivity as potential biomarkers for mild Alzheimer’s disease. Psychiatry Research. 11 nov. 2013.

pESQUISA FAPESP 215  z  53


Genética y

A origem do povo dos lagos Estudo revela que os Uro atuais podem descender dos primeiros habitantes do altiplano andino Maria Guimarães

U

ma forma curiosa de agrupamento humano chama a atenção na porção peruana do lago Titicaca. São as aldeias do povo Uro, construídas com a palha do junco-totora que cresce naquelas águas. Elas formam ilhas flutuantes com casas e balsas atracadas – tudo feito desse material. “Eles usam o junco para tudo e até comem certas partes dele”, conta o geneticista Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele coordena o Projeto Genográfico na América do Sul, parte de um consórcio internacional que usa a genética para contar a história das migrações humanas desde a sua origem na África, e chegou a uma conclusão importante em seu estudo sobre os Uro: “Do ponto de vista genealógico, eles mantêm uma pegada dos seus ancestrais que é bem distinta das outras etnias andinas.” Isso significa que os habitantes das aldeias flutuantes – assim como os Uro bolivianos, que vivem em lagos menores e não constroem ilhas de junco – são descendentes daqueles que provavelmente foram os primeiros habitantes do altiplano andino. Essa conclusão, publicada em setembro na revista PLoS One, refuta a suspeita de que os povos que atraem turistas nas ilhas flutuantes seriam descendentes dos

54  z  janeiro DE 2014

Aimará travestidos de Uro para atrair visitantes e lucrar com o turismo. A desconfiança de que esses povos não seriam Uro originais surgiu anos atrás, quando um estudo antropológico revelou que o último indivíduo que falava uruquilla, a língua original dos Uro, teria morrido nos anos 1950. Separadas por mais de 400 quilômetros, as comunidades atuais dos Uro, instaladas no lago Titicaca, no Peru, e nos lagos Poopó e Coipasa, na Bolívia, em geral falam aimará e espanhol. “Por serem descendentes de povos pescadores e coletores, provavelmente os primeiros habitantes do altiplano andino, os Uro nunca fundaram grandes cidades e se mantiveram em grupos isolados, vivendo sempre junto à água”, conta Santos. Reconstrução genealógica

A amostragem feita pelo Projeto Genográfico, que busca traçar a ancestralidade humana, ajuda a desenredar as origens dos grupos de etnias distintas. Antes de recolher o material genético, os pesquisadores aplicam questionários que garantem a participação apenas de voluntários cujos pais e avós pertencem à mesma comunidade e falam a língua indígena tradicional. “Às vezes encontramos 200 pessoas querendo participar do estudo, mas são quase todas da mesma

família”, diz Santos. “Como buscamos uma representatividade das diferentes famílias, pedimos a participação de só uma pessoa de cada uma delas.” Essa estratégia reduz a probabilidade de viés na amostra e aumenta a informação genealógica disponível de cada comunidade. O grupo da UFMG trabalhou em parceria com o de Ricardo Fujita, da Universidad San Martín de Porres, no Peru, e o de Susana Revollo, da Universidad Mayor de San Andrés, na Bolívia, e contou com o crivo de integrantes do Projeto Genográfico mundial antes da publicação. O estudo analisou o DNA de 388 Uro do altiplano andino, uma região árida com altitude média de 3.750 metros, entre a porção ocidental e a oriental da cordilheira dos Andes. Essa amostragem incluiu populações das margens peruanas do Titicaca, onde vivem cerca de 2 mil pessoas, e dos lagos bolivianos, que abrigam por volta de 2.600 Uro. Os dados de variações genéticas do cromossomo Y e das mitocôndrias permitiram reconstruir respectivamente as linhagens paterna e materna e mostraram uma grande heterogeneidade entre os diferentes grupos dos Uro. Isso até era esperado. As comunidades dos Uro do Peru e da Bolívia estão isoladas do ponto de vista genético – não há


foto  fabrício santos / ufmg  mapa sandoval et al. plos one 2013

Entre lagos e montanhas Mapa mostra a localização das 22 comunidades andinas estudadas Brasil Bolívia

Peru

A vida no Titicaca: mulher de uma comunidade dos Uro usa canoa para se deslocar entre moitas de junco-totora

Lago Titicaca

Povos   Uro   Quéchua   Aimará   Aruaque Chile

casamento entre integrantes de comunidades distintas – e hoje são separadas por uma grande distância geográfica. Mesmo assim foi possível observar que eles têm raízes distintas das outras etnias. “Os Uro são em geral mais diferentes dos Quéchua e dos Aimará do que os Aruaque, que falam línguas amazônicas e vivem no sopé dos Andes”, diz Santos. Os dados genéticos não permitem inferir uma data para a colonização do altiplano, mas são compatíveis com os indícios históricos e arqueológicos de que os Uro chegaram àquela região antes

dos outros povos que lá estão hoje, como os Quéchua e os Aimará, descendentes dos Incas. “Os arqueólogos estimam que a colonização do lago Titicaca por não agricultores, como os Uro do passado, aconteceu por volta de 3.700 anos atrás”, conta Santos. Do ponto de vista genético, as análises mostram uma assinatura de expansão populacional apenas para os grupos agricultores, que há cerca de 3 mil anos espalharam suas plantações de milho e batata pelos Andes. Os pescadores permaneceram onde estavam, em grupos pequenos e esparsos.

As conclusões foram bem recebidas pelas comunidades estudadas, a quem os pesquisadores apresentaram os resultados em maio de 2013, antes da publicação do artigo científico, cujo primeiro autor é o peruano José Sandoval, um Aimará. Para deixar claro o significado dos achados genéticos a seus anfitriões, Santos afirmou: “A genética traz apenas uma informação sobre a ancestralidade dos Uro, que, a critério da comunidade, pode servir de apoio para a sua identidade cultural, que é bem documentada”. Para o geneticista mineiro, o modo de vida de uma comunidade é o mais importante para determinar sua identidade cultural e, no caso dos Uro, parte disso foi finalmente reconhecido: no início de 2013 o governo peruano classificou os costumes dos Uro como patrimônio cultural da nação, pelo uso de práticas ancestrais no manejo do junco-totora. “A genética pode revelar dados significativos do passado desconhecido de um povo”, diz Santos. “Com o auxílio da ciência, precisamos reconstituir a história dos povos nativos das Américas e apresentá-la para a sociedade.” n Artigo científico SANDOVAL, J. R. et al. The genetic history of indigenous populations of the Peruvian and Bolivian Altiplano: the legacy of the Uros. PLoS One. v. 8, n. 9, e73006. set. 2013.

pESQUISA FAPESP 215  z  55


ecologia y

Viagem D sem volta Fêmeas de pinguins-de-magalhães morrem mais que machos durante migração anual

Rodrigo de Oliveira Andrade

Bichos frágeis: animais de cativeiro como este são vulneráveis à malária aviária 56  z  janeiro DE 2014

urante sete anos, biólogos e veterinários de São Paulo e do Rio Grande do Sul recolheram 528 pinguins-de-magalhães nas praias do extremo sul do país. A maioria estava viva, embora muitos tão debilitados que morreram logo depois; outros já estavam mortos, em decomposição. Em laboratório, fizeram a identificação do sexo e verificaram que as fêmeas eram a maioria dos animais mortos e dos que morreram durante a reabilitação, possivelmente por estarem mais fracas que os machos. A inesperada constatação representava uma possível explicação para o excedente de machos nas colônias de pinguins dessa espécie, um fenômeno bastante conhecido, mas nunca devidamente esclarecido. Muitos pinguins também estão morrendo por causa da malária aviária, uma doença que preocupa os especialistas porque as mudanças do clima podem aumentar a distribuição geográfica dos mosquitos que a transmitem em áreas próximas às colônias das aves. A malária aviária tem sido uma ameaça também para pinguins mantidos em cativeiro ou em reabilitação, já que muitos animais chegam com baixa resistência a infecções. Em 2007, a malária infectou quatro dos cinco pinguins-de-magalhães — todos fêmeas — do zoológico de São Paulo; dois morreram em consequência da malária e os outros três por outras causas. Hoje a Sabina Escola Parque, de Santo André, é o lugar com o maior número de pinguins dessa espécie na Grande São Paulo — ali são 23, talvez sejam 24 neste ano, se nascer o primeiro filhote. Depois de quatro anos de trabalho, os biólogos e veterinários que cuidam do aquário parecem ter encontrado as melhores condições para o desenvolvimento do ovo fecundado. Os pinguins-de-magalhães (Spheniscus magellanicus) têm em média 70 centímetros de altura, podem pesar até 5 quilogramas (kg) e são comumente identificados por um colar de penas brancas no pescoço coberto de penas pretas. Outra peculiaridade: não gostam do frio, diferentemente de outras espécies, como o famoso pinguim-imperador, com até 1,20 metro, 35 kg e manchas amareladas ao redor da cabeça. Todo ano os pinguins-de-magalhães formam colônias — muitas vezes com mais machos do que fêmeas —, se reproduzem e têm filhotes em regiões secas ao sul da Argentina e do Chile. Estima-se que a população de pinguins-de-magalhães seja de aproximadamente 3 milhões de indivíduos, distribuídos em colônias com até 100 mil casais. Em abril, quando a temperatura cai e o alimento se torna escasso, centenas de pinguins pulam na água, atrás de cardumes de peixes, e começam um trajeto errático


Ao sul da América Pinguins-de-magalhães deixam as colônias em abril e voltam em setembro

Colônias reprodutivas e ninhos (de setembro a abril)

Brasil

Uruguai Chile

Argentina

Área de coleta de pinguins de 2002 a 2009

eduardo cesar

fonte FMVZ-USP


2 Um dos animais no aquário de Santo André

de milhares de quilômetros ao longo de meses, rumo ao norte, pelas águas frias da corrente das Malvinas. Muitos morrem no mar, outros chegam vivos ao litoral brasileiro. Alguns se afastam tanto do bando que já foram vistos até no litoral do Ceará. Os encontrados nas praias do Rio Grande do Sul quase sempre estão mortos ou quase mortos, de tão exaustos. “Em geral, os pinguins que sobrevivem à viagem estão desidratados e hipoglicêmicos, não conseguem sequer erguer a cabeça”, relatou Ralph Vanstreels, pesquisador da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP). “Alguns, cobertos de óleo que vaza de navios, apenas esperam para morrer.” O petróleo é uma das principais causas de morte desses animais. Na costa da província de Chubut, na Argentina, ao lavar os tanques, os navios petroleiros descartam os resíduos no oceano, causando a morte de 20 mil pinguins adultos todos os anos. Outros pinguins morrem porque ingerem lixo que chega ao oceano. Pesquisadores do Rio de Janeiro encontraram restos de plástico no estômago e 58  z  janeiro DE 2014

no intestino de 15% dos 175 pinguins-de-magalhães encontrados mortos na Região dos Lagos, litoral do Rio. Coletados de 2002 a 2009, os 528 pinguins-de-magalhães que Vanstreels examinou podem dar algumas respostas sobre os hábitos e a mortalidade dos animais durante a migração anual. Ele e os técnicos do Centro de Reabilitação de Animais Marinhos da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) percorriam em média 200 quilômetros por dia, a bordo de uma caminhonete, coletando animais na praia próxima à lagoa dos Peixes, no município de Rio Grande. Os pinguins vivos eram colocados em gaiolas e levados para o centro de reabilitação, onde eram lavados, alimentados e medicados. Os mortos seguiam para análise e identificação do sexo. O sexo dos pinguins

Não é fácil diferenciar machos de fêmeas, à primeira vista muito semelhantes. Vanstreels dá como exemplo o bico dos machos, levemente mais largo e apenas alguns milímetros maior que o das fêmeas. Com os animais mortos, é ainda mais difícil, por causa do estado de decomposição — alguns não tinham mais bico. Nesses casos, os pesquisadores usam marcadores genéticos ou simplesmente abrem o bicho para ver testículos ou ovários.

Dos 409 animais encontrados vivos na praia, 211 morreram e, destes, mais da metade (126) era fêmea. Entre os 118 encontrados mortos, 88 eram fêmeas. Os pesquisadores acreditam que o fato de aparentemente morrer mais fêmeas do que machos durante a migração deve prejudicar o crescimento das populações de pinguins dessa espécie. Como os pinguins são monogâmicos, é provável que muitos fiquem sozinhos. Na Argentina, segundo Vanstreels, já foram vistos machos sem parceiras, criando conflitos com os que formavam casais e muitas vezes quebrando os ovos dos ninhos. Vanstreels e seu orientador de doutorado, José Luiz Catão-Dias, acreditam que o maior número de fêmeas encontradas mortas se deve a diferentes estratégias de busca por alimento adotadas por machos e fêmeas durante a migração. Quando há mais peixe, todos caçam da mesma forma, em regiões mais superficiais do mar. As diferenças aparecem quando o alimento se torna escasso. Segundo Vanstreels, os machos devem mergulhar à procura de peixes de regiões mais profundas, enquanto as fêmeas se mantêm mais à superfície, em rondas amplas. Por nadar em uma área maior, explica Catão-Dias, elas poderiam estar mais sujeitas à contaminação por petróleo que os machos.

fotos 1 Ralph van streels 2 eduardo cesar

1

1 Colônia de pinguins no sul da Argentina


A pesca excessiva de peixes pequenos como sardinhas e anchoítas, as espécies prediletas dos pinguins-de-magalhães, pode ser uma das causas da escassez de alimento que os força a nadar mais fundo, no caso dos machos, e mais longe, no caso das fêmeas. Pesquisadores da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, verificaram que pinguins jovens encontrados mortos nas praias tinham muito pouca gordura sob a pele e, no estômago, apenas restos de moluscos de baixo teor nutricional. Pode ser também que as fêmeas já saiam debilitadas das colônias, suspeitam os pesquisadores. Em visita às colônias de pinguins na Patagônia, Vanstreels e Catão-Dias observaram que os filhotes machos tomam das fêmeas a comida que os pais haviam levado para toda a prole. “É possível que as fêmeas estejam deixando as colônias numa condição física pior que a dos machos”, cogita Vanstreels. Ainda não se sabe quantos pinguins deixam as colônias todos os anos, nem quantos conseguem voltar. No zoológico

A bióloga Karin Kirchgatter, atualmente no Laboratório de Malária da Superintendência de Controle de Endemias da Secretaria da Saúde de São Paulo, foi uma das responsáveis pelo diagnóstico dos pinguins infectados com malária aviária em 2007 no zoológico de São Paulo. A veterinária Marina Galvão

Bueno, hoje no Instituto Mamirauá, no Amazonas, coordenou o tratamento dos animais. Segundo Karin, antes de apresentarem os primeiros sinais, alguns pinguins foram diagnosticados com uma inflamação causada por bactérias nos pés, provavelmente desenvolvida porque passavam bastante tempo fora d’água, como forma de evitar o contato com mosquitos transmissores de doenças. Por essa razão, ela diz, foram liberados para nadar à noite – e foi quando foram infectados pelo parasita da espécie Plasmodium relictum, transmitido pelos mosquitos do gênero Culex, de hábitos noturnos. “Os pinguins que conseguimos tratar a tempo e não morreram de malária morreram, entre outras causas, de aspergilose pouco tempo depois”, diz Karin, se referindo à infecção pulmonar causada por um fungo.

Depois de tratados, os animais são soltos e voltam às colônias, às vezes levando protozoários da malária

Meses após os primeiros sinais de malária, os cinco pinguins estavam mortos. Depois disso, o zoológico preferiu não manter outros animais dessa espécie por causa do elevado risco de infecções. “Qualquer lugar ou planta que acumule água pode funcionar como um criadouro de mosquitos”, diz Karin, que coordena um projeto de identificação de plasmódios em aves do zoológico. Sob sua orientação no Instituto de Medicina Tropical da USP, a bióloga Carolina Chagas coletou cerca de 800 amostras de sangue de quase 100 espécies de aves e identificou uma espécie de protozoário, Plasmodium nucleophilum, diferente da que causou a morte dos pinguins e igualmente fatal. Vanstreels e Catão-Dias encontraram outra espécie pouco comum, Plasmodium tejerai, em dois pinguins-de-magalhães que morreram em 2009 em um centro de triagem de animais silvestres de Santa Catarina. Até então o parasita tinha sido identificado apenas uma vez, há mais de 30 anos, em aves da Venezuela. Estudos como esses indicam como lidar melhor com os pinguins-de-magalhães e evitar que as doenças cheguem às colônias: depois de tratados nos centros de reabilitação, os animais são soltos novamente no mar. “A liberação dos pinguins na natureza deve seguir critérios mais rigorosos quanto ao estado de saúde do animal, impedindo que os indivíduos infectados sejam liberados e favoreçam a transmissão de patógenos entre os animais da colônia”, diz Catão-Dias. “Quanto menos tempo esses animais ficarem em recuperação, menores serão as chances de serem infectados.” n

Projetos 1. Malária aviária e pinguins no Brasil: estudo epidemiológico e patológico de uma enfermidade com potencial risco à conservação da avifauna (nº 10/51801-5); Modalidade Projeto Temático; Coord. José Luiz Catão-Dias/ FMVZ-USP; Investimento R$ 665.198,08 (FAPESP) 2. Plasmodium spp. em aves silvestres da Fundação Parque Zoológico de São Paulo: identificação de espécie por microscopia e código de barras de DNA (nº 12/514271); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Coord. Karin Kirchgatter/Sucen-SES/SP; Investimento R$ 52.328,50 (FAPESP)

Artigos científicos

2

BUENO, M. G. et al. Identification of Plasmodium relictum causing mortality in penguins (Spheniscus magellanicus) from São Paulo Zoo, Brazil. Veterinary Parasitology. v. 173, n. 1-2, p. 123-27. 2010 VANSTREELS, R. E. T. et al., Female-biased mortality of Magellanic Penguins (Spheniscus magellanicus) on the wintering grounds. Emu. v. 113, n. 2, p. 128-34. mai. 2013

pESQUISA FAPESP 215  z  59


biodiversidade y

De olho no gato Pesquisadores se mobilizam para aumentar em 20% a população de onças-pintadas na mata atlântica em cinco anos Carlos Fioravanti, de Atibaia e Ricardo Zorzetto, de Campinas

O

veterinário Ronaldo Morato pretende sair logo atrás de onças-pintadas, se possível já em maio, quando passarem as chuvas do início de ano. Seu plano é colocar um colar especial em cinco onças dessa espécie que vivem nas florestas do sul do estado de São Paulo para acompanhar seus movimentos a distância e conhecer seus espaços favoritos. A definição de áreas prioritárias para a conservação desses animais faz parte de um plano estabelecido em setembro em Campinas para ampliar em 20% a população de onças-pintadas – os maiores felinos das Américas – na mata atlântica, o ambiente florestal em que são mais raras. O plano propõe a redução da caça, o monitoramento das populações remanescentes, o uso de técnicas como inseminação artificial e a formação de um banco de sêmen de onças-pintadas da mata atlântica. Participantes da reunião – pesquisadores acadêmicos e representantes de empresas e de órgãos do governo – reconheceram que o esforço concentrado em um único ecossistema com metas de curto prazo deve facilitar 60 | janeiro DE 2014

o trabalho e aumentar a chance de sucesso do plano de ação. Já existe um plano nacional de preservação das onças-pintadas, publicado em dezembro de 2010 no Diário Oficial, com ações previstas até 2020. Em uma avaliação recente, os especialistas verificaram que parte dos objetivos tinha sido atingida e concluíram que trabalhar separadamente nos diferentes ambientes brasileiros poderia ser mais produtivo. “Se conseguirmos reduzir as pressões atuais, como a caça e a fragmentação da floresta, pode já ser o bastante para aumentarmos a população de onça-pintada na mata atlântica”, diz Morato, coordenador do Centro Nacional de Pesquisas e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Em sua sala de trabalho, em um prédio de dois pisos com amplas janelas de vidro e vigas de madeira próximo à rodovia Dom Pedro I, em Atibaia, ele acompanha pelo computador o movimento de oito onças-pintadas nas matas do norte do pantanal. Várias vezes ele sentiu medo e fascínio ao se ver em campo diante desses felinos, que podem chegar a 2,70

metros de comprimento e podem atacar quando se sentem acuados. A primeira vez foi em 1992, recém-formado em veterinária, para anestesiar uma onça-preta e acompanhar outros pesquisadores colocando um colar de monitoramento no animal, ainda como estagiário do biólogo Peter Crawshaw, um dos pioneiros na preservação de felinos silvestres no Brasil. “E nunca mais me desprendi das onças”, diz Morato, aos 47 anos. “Temos de trabalhar juntos e acreditar que o plano vai dar certo”, ele ressalta. Reduzir a caça e a fragmentação, como ele propõe, exigirá uma atenção permanente dos órgãos de fiscalização ambiental nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia, por onde a mata atlântica se espalha. Em todo o país, a caça – para a retirada e venda de pele ou como retaliação, quando as onças atacam os rebanhos – ainda é intensa, embora proibida e classificada como crime inafiançável. Em 2013, ele e Elildo Carvalho Jr., outro pesquisador do Cenap, em colaboração com o Instituto Pró-Carnívoros, verificaram que pelo menos 60 onças-pintadas (Panthera onca) e pardas (Puma concolor) foram


adriano gambarini

O maior felino das Américas: com baixa diversidade genética e ameaçado pela caça intensiva PESQUISA FAPESP 215 | 61


mortas por caçadores nos últimos dois anos, com base em informações de 100 gestores das unidades de conservação ambiental administradas pelo governo federal. Estima-se que 5.500 representantes dessa espécie se escondam nas florestas brasileiras, principalmente na Amazônia e no pantanal. Mesmo assim, a onça-pintada é considerada vulnerável ao risco de desaparecimento, por causa do declínio populacional. Na reunião de setembro em Campinas e em uma carta publicada na revista Science em novembro, pesquisadores de várias instituições do país alertaram que a mata atlântica, se nada for feito, pode ser o primeiro ambiente florestal brasileiro a perder essa espécie de felino – ali, a onça-pintada já é classificada como criticamente ameaçada de extinção. Estima-se que a floresta atlântica abrigue apenas 250 onças-pintadas, total considerado baixo para a manutenção das populações. Além do pequeno número de animais, outro problema é a baixa diversidade genética. Os estudos do grupo de Eduardo Eizirik da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul indicaram que os 250 animais, em consequência de cruzamentos entre eles, correspondem a apenas 50 indivíduos efetivos, geneticamente distintos.

A

s onças-pintadas ocupam apenas 7% da área total da mata atlântica. Se houvesse mais animais dessa espécie – e também mais oferta de sua dieta favorita, as queixadas, uma espécie de porco selvagem bastante caçada por causa da carne, mas indesejada porque anda em bandos e destrói plantações –, a área ocupada poderia ser três vezes maior, de acordo com as pesquisas do grupo de Mauro Galetti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Seus estudos indicaram que a falta de onças-pintadas, os predadores de topo de cadeia alimentar, pode causar vários tipos de desequilíbrios ecológicos, deixando animais herbívoros como a anta – ou mesmo roedores – se multiplicarem livremente ou favorecendo o crescimento de gramíneas e outras plantas baixas no lugar das árvores. Valéria Conforti, professora da Universidade de Franca (Unifran), disse que saiu otimista da reunião de setembro em Campinas. “Todos estavam chocados com a situação das onças-pintadas na mata atlântica e se mostraram dispostos 62 | janeiro DE 2014

O apoio dos moradores de áreas próximas a matas com onças é fundamental para os planos funcionarem

a correr riscos e testar o que achamos que pode dar certo”, ela observou. Um de seus planos para este ano é testar, em onças-pintadas mantidas em zoológicos paulistas, uma técnica de inseminação artificial que ela aplicou experimentalmente em gatas domésticas e outros felinos no zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos. Essa abordagem consiste em medir a variação hormonal das onças fêmeas por meio da análise de fezes, identificar o momento mais adequado, induzir a ovulação e fazer a inseminação artificial, depositando sêmen por meio de uma laparoscopia na tuba uterina, em vez do útero, como já se faz, para facilitar o acesso do espermatozoide ao óvulo e aumentar a chance de fertilização. A inseminação artificial já foi aplicada a outros felinos, mas ainda não a onças-pintadas. Se os testes derem certo, Valéria pretende aplicar essa técnica em animais de vida livre em 2015, como forma de aumentar a probabilidade de geração de filhotes sadios e evitar o risco de cruzamento entre animais aparentados. A transferência de animais de uma mata para outra é uma possibilidade cogitada para repovoar as matas com onças-pintadas. Trata-se, porém, de uma alternativa de custo alto e muitas dificuldades, que exige o apoio de comunidades rurais e fazendeiros que aceitem ter uma onça perto de suas casas ou pastagens. Vários estudos, como os

do biólogo Sílvio Marchini, pesquisador da Escola da Amazônia e da Universidade de São Paulo (USP), mostraram que o apoio dos moradores de áreas rurais próximas a matas ocupadas por onças é fundamental para os planos de ação funcionarem. No pantanal, com resultado de um experimento-piloto do Cenap com uma pousada, ganha adesões o argumento de que o lucro com o turismo de observação de onças pode ser maior que a perda de um ou outro boi.

H

á relatos de êxito de transferência de felinos nos Estados Unidos e na Espanha, mas no Brasil as poucas tentativas feitas até agora, em florestas a serem cobertas por reservatórios de hidrelétricas, não deram certo. Os animais transferidos não se adaptaram, começaram a comer bois e foram mortos por caçadores ou voltaram a seus locais de origem, a dezenas de quilômetros de distância. Em um dos debates no encontro de setembro em Campinas, os pesquisadores observaram que, nos próximos cinco anos, talvez a criação de conexões – ou corredores – entre os fragmentos de floresta seja uma alternativa mais viável que a inseminação artificial ou a transferência de animais para ampliar as populações de onças-pintadas na mata atlântica. Todos concordaram que se trata de um problema urgente. “Não podemos esperar muito”, disse Valéria Conforti. A onça-pintada já é considerada extinta no Uruguai e nos pampas do Sul do Brasil. n

Projetos 1. Uso e ocupação do espaço, movimentação e seleção de hábitat por onça-pintada (Panthera onca) na mata atlântica e caatinga: uma análise comparativa (2013/100296); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Coord. Ronaldo Gonçalves Morato – Cenap; Investimento R$ 110.627,80 (FAPESP). 2. O uso de método não invasivo para monitoramento da função ovariana em onças-pintadas (Panthera onca) via ensaio imunoenzimático e caracterização dos metabólitos de esteroides fecais por meio de cromatografia líquida de alta eficiência (13/12757-9); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Coord. Valeria Amorim Conforti – Unifran; Investimento R$ 35.780,00 (FAPESP).

Artigos científicos CARVALHO Jr., E.A.R. de e MORATO, R.G. Factorsaffecting big cathunting in Brazilian protectedareas. Tropical Conservation Science. v. 6, n. 2, p. 303-10. 2013. CONFORTI, V. A. et al. Laparoscopic oviductal artificial insemination improves pregnancy success in exogenous gonadotropin-treated domestic cats as a model for endangered felids. Biology of Reproduction. v. 88, p. 112.105353. 2013.


fotos 1 CLAUDIA B. CAMPOS 2 Alexandre Anézio

Um poço para salvar as onças Mais apreensiva do que quando

logo depois e os novos

olhou para os examinadores

cercados, construídos a partir

de sua banca de doutorado,

de fevereiro. Se tudo der certo,

a bióloga Claudia Campos

os animais terão alimento ao

observou os 50 sertanejos à sua

longo de todo o ano, como

frente na igreja do povoado de

já se faz em outras partes do

Queixo Dantas, norte da Bahia,

sertão do nordeste, e não

na tarde de um domingo de julho

precisarão mais pastar nas

de 2012. Nervosa, mas com

áreas de mata nativa durante

voz firme, ao lado dos amigos

a seca, reduzindo as chances

Claudia Martins, Carolina

de encontro com as onças;

Esteves e Alexandre Anézio,

os moradores as matam para

ela sugeriu aos homens que

evitar que ataquem seus

fizessem cercados para manter

animais de criação.

suas cabras e ovelhas, em vez

Claudia chegou a Petrolina,

Manuel Silva, morador da região de Boqueirão da Onça (acima), Alessandra e a filha Sara, Cailane Ferreira (ao fundo) e Claudia Campos: diálogo constante 

de deixar os animais soltos na

Pernambuco, em outubro de

caatinga na época de seca, sob

2006, como pesquisadora do

o risco de serem atacados por

Centro Nacional de Pesquisas

nenhum. Conversando muito,

carnívoros e vice-presidente

onças. Os criadores reagiram:

e Conservação de Mamíferos

ela venceu a desconfiança.

da Panthera, organização que

como poderiam deixar os animais

Carnívoros (Cenap) do Instituto

“Todos estão cansados de ouvir

apoia o trabalho na Bahia,

presos sem água nem comida, se

Chico Mendes de Conservação

do governo coisas que poderiam

percorreu a região e reforçou

não chovia há três anos? Se eles

da Biodiversidade, um dos

ajudar a vida deles e nunca

sua hipótese ao dizer que seria

aceitassem, ela disse, poderiam

braços antigos do Ibama,

aconteceram”, ela observou.

impossível preservar animais

construir um poço para tirar água

para detalhar a distribuição

“Já visitei 140 dos quase

silvestres sem a participação

e cultivar plantas para alimentar

geográfica e os hábitos da

150 povoados da região.”

dos moradores locais. Claudia

os animais. Oito deles aderiram

onça-pintada em uma região

ao plano.

de 900 mil hectares conhecida

que teria de cuidar dos conflitos

50 onças-pintadas – ainda não

como Boqueirão da Onça.

entre os moradores e os

viu nenhuma, apenas vê as

artesiano estava prevista para o

Ao verem a forasteira chegando

animais silvestres. Em 2009,

pegadas durante o dia e

final do mês passado, as plantas

em um carro com o logotipo

aos 76 anos, o zoólogo George

sente que os animais passam

que serviriam de alimento para

do Ibama, os moradores logo

Schaller, pioneiro mundial na

por perto quando ela tem

os caprinos seriam semeadas

diziam que não caçavam bicho

conservação de grandes

de dormir no meio da caatinga.

A perfuração do poço

Aos poucos ela concluiu

estima que por ali vivam

PESQUISA FAPESP 215 | 63


Oceanografia y

Foz do rio da Prata: fonte de sedimentos para o litoral sul e sudeste do Brasil

A lama que vem do sul Sedimentos do rio da Prata viajam quase 2 mil quilômetros e chegam até o litoral de São Sebastião

64  z  janeiro DE 2014

U

ma mudança gradual no clima – de seco para úmido – e nos padrões de precipitação, com chuvas mais intensas e frequentes, no interior da América do Sul, nos últimos 6 mil anos, deve ter alterado a influência e a descarga de sedimentos do caudaloso rio da Prata sobre o oceano Atlântico. Estudos recentes de oceanógrafos e geólogos do Brasil, da Alemanha e do Uruguai indicam que os grãos finos de areia, a lama e o material orgânico, carregados pelo rio e depois embalados pelas correntes marinhas, começaram a chegar nessa época – e ainda chegam – até o fundo do mar próximo à ilha de São Sebastião, no litoral paulista, a 2 mil quilômetros de Montevidéu, a capital do Uruguai e uma das últimas cidades

banhadas pelo rio antes de suas águas se misturarem com as do mar. Há mais de 10 anos, a equipe liderada por Michel Mahiques, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), analisa amostras de sedimentos do fundo do mar do litoral brasileiro e do estuário do Prata, para confirmar essa hipótese. Agora os resultados obtidos com a análise física e química dos sedimentos indicam que existem duas regiões distintas, chamadas de províncias geoquímicas: uma ao sul e outra ao norte de São Sebastião. As características físicas e químicas dos sedimentos ao sul de São Sebastião são próximas das registradas no rio da Prata e diferem das amostras obtidas entre a ilha de São Sebastião e Cabo Frio, no litoral do


Rio de Janeiro. Mahiques e os seus colaboradores concluíram que, provavelmente, os rios Doce e Paraíba do Sul são os dois principais rios que contribuem para a deposição de sedimentos ao norte de São Sebastião, enquanto o rio da Prata abastece com sedimentos o litoral sul e parte do sudeste brasileiro, até São Sebastião. Mesmo que o rio da Prata esteja a mais de mil quilômetros de São Paulo, conhecer sua possível influência sobre o litoral paulista pode ser importante para a gestão marinha. “Qualquer impacto ambiental que ocorrer na bacia do rio da Prata”, cogita Mahiques, “certamente trará um impacto ao litoral paulista”, referindo-se ao potencial de transporte de elementos radioativos de origem antrópica, já medidos. O mesmo raciocínio é válido, diz ele, na hipótese de ocorrer algum evento que possa interferir nos recursos vivos marinhos do sul e sudeste do Brasil. Para fazer a diferenciação dos tipos de sedimento, os oceanógrafos e geólogos recorrem a várias análises de laboratório, medindo, por exemplo, os teores de argila, de matéria orgânica, de césio, isótopos de neodímio e chumbo, e o tamanho dos sedimentos marinhos, neste caso coletados em três lugares: na altura da cidade de Santos, na Baixada Santista; na altura da cidade de Cananeia, litoral sul paulista; e ao largo de Itajaí, em Santa Catarina. A areia ou lama da parte supe-

rior das amostras coletadas representa os sedimentos mais recentes, porque se depositaram por último, enquanto o material do fundo é o antigo, porque chegou antes aos locais amostrados. Testemunhos do rio

Cada partícula de sedimento tem uma espécie de assinatura geoquímica, como gostam de dizer os pesquisadores. Neste caso, conjuntos iguais de assinaturas formam um mesmo grupo. Quando esses agrupamentos foram distribuídos sobre um mapa, apareceram as duas grandes províncias, divididas, em termos geográficos, no litoral norte paulista. O mapa geoquímico que resultou dessas avaliações evidenciou as diferenças e, portanto, as origens distintas dos sedimentos. “As fontes dos grãos, ou seja, as rochas que foram desgastadas pela chuva ou pelo vento para dar origem ao sedimento, que depois foi carregado rio abaixo, são diferentes”, diz Mahiques. Para confirmar os resultados obtidos com os sedimentos superficiais, os grupos de pesquisa recorreram aos chamados testemunhos geológicos, que conseguem gerar dados de milhares de anos antes do presente. Esses testemunhos são colunas de areia e lama retiradas do fundo do mar por meio de um cano de metal. “É possível perceber uma notável mudança de padrão de deposição de sedi-

Arrastão no litoral ná

rio Paraíba do Sul

Pa

Rio de Janeiro

rio

2.000 a 1.000 300 a 100 75 0   0-3 -100 -500 a -4.000

ra

elevação (m)

sedimentos Areia terrígena Lama Areia carbonática

brasil

São Sebastião

Cabo Frio

Projetos Divisor de águas

Sedimentos levados pela corrente da costa

argentina rio Paraíba do Sul

ai rugu rio U

foto De Agostini / N. Cirani  infográfico  ana paula campos  ilustração daniel das neves

Sedimentos do sul e do norte param em São Sebastião

uruguai

Cabo Frio Rio de Janeiro

Rio da Prata

1. Variações holocênicas na paleoprodutividade da plataforma continental sudeste do Brasil (10/06147-5); Modalidade Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais; Coord. Michel Michaelovitch de Mahiques – IO/USP; Investimento R$ 15.451.697,60 (FAPESP). 2. Incremento da capacidade de pesquisa em oceanografia no estado de São Paulo (03/10740-0); Modalidade Linha regular de auxílio a projeto de pesquisa; Coord. Michel Michaelovitch de Mahiques – IO/USP; Investimento R$ 321.619,03 (FAPESP).

Artigo científico

Montevidéu Buenos Aires

mentos por volta de 2.800 anos antes do presente”, diz Mahiques. A análise dos testemunhos indicou que, enquanto o rio da Prata despejava uma carga elevada de sedimentos no litoral catarinense até 2.800 anos atrás, apenas a partir desse período é que a areia gerada pela bacia do Paraná, a partir de sedimentos de basaltos típicos da região, começa a aparecer na altura da cidade de Santos. “Como a bacia do Paraná começou a receber mais chuva, o sistema de correntes marinhas passou a ter mais água para carregar o sedimento mais para longe”, diz ele. “Conseguimos, assim, definir o início da influência do rio da Prata sobre o litoral paulista.” Resolvida uma dúvida, surgem outras. Se muita lama é exportada pelo rio da Prata até São Paulo, em áreas próximas ao litoral, será que esse material não poderia chegar ao oceano profundo, a 3 mil metros de profundidade? Os pesquisadores pretendem obter a resposta nos próximos anos, agora com a preciosa ajuda do navio de pesquisas oceanográficas Alpha-Crucis, que começou a ser usado neste ano para coleta de sedimentos em áreas mais distantes e profundas do litoral paulista (ver Pesquisa Fapesp nº 206). Os levantamentos preliminares feitos por meio de equipamentos do Alpha-Crucis delinearam uma estrutura semelhante a um grande escorregamento, por meio do qual a lama e a areia da região mais rasa, a plataforma continental, chegariam às áreas mais profundas. O declive ajudaria a entender o acúmulo de sedimentos além das regiões mais rasas do litoral paulista, sabidamente pobres em sedimentos. A lama e a areia aparentemente escorregam centenas de metros por meio de grandes cânions submersos, acreditam os cientistas. n

Fonte Adaptado de Gyllencreutz et al (2010)

BURONE L. et al. A multiproxy study between the Rio de la Plata and the adjacent South-western Atlantic inner shelf to assess the sediment footprint of river vs. marine influence. Continental Shelf Research. v. 55, p.41-54. 2013.

pESQUISA FAPESP 215  z  65


Físicay

Informação em dobro Técnica duplica quantidade de dados que podem ser recuperados em um sistema quântico

U

ma equipe de físicos brasileiros demonstrou que o emprego de uma técnica alternativa para recuperar a informação armazenada em partículas de luz, os fótons, dobra a capacidade de transmitir dados em sistemas quânticos, um aprimoramento que poderá ser útil para acelerar o desenvolvimento da computação movida a bits quânticos. As características e o potencial do método, denominado medida assistida por cavidade, foram descritos em dois artigos simultaneamente publicados em 14 de novembro na versão on-line de um par de revistas científicas, a Physical Review Letters e a Physical Review A. “A técnica permite resgatar uma parte da informação que antes se perdia no sistema”, diz Marcelo Martinelli, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), membro do grupo que produziu os trabalhos, feitos no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Informação Quântica (INCT-IQ), uma parceria da FAPESP e do CNPq. Também assina os artigos o físico francês Claude Fabre, da Universidade Pierre e Marie Curie-Paris 6, que colabora com os brasileiros em um projeto bancado pela

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Fundação e pelo Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). O melhor desempenho do método – que não é novo, mas foi aprimorado por Martinelli e seus colegas – deriva de sua maior capacidade de contornar uma espécie de ruído de comunicação que limita a decodificação de toda a informação armazenada em processos como a criptografia e o teletransporte quânticos. Fótons que se encontram em estados quânticos similares, mas com padrões de oscilação ligeiramente distintos em seu espectro de frequência, não são diferenciados pela técnica conhecida como detecção homódina, hoje usualmente empregada para “ler” dados nesse tipo de sistema. A adoção da medida assistida por cavidade – que faz um feixe de luz passar por um conjunto de espelhos formando uma “caixa de ressonância” antes de sua detecção – possibilita medir as mais tênues flutuações quânticas presentes nos fótons. Dessa forma, é possível distinguir partículas de luz quase idênticas, que, pelo método da detecção homódina, são registradas como se tivessem as mesmas características. “Com a técnica anterior, éramos intrinsecamente incapazes de reconstituir toda a informação armaze-

nada”, comenta Paulo Nussensveig, também do IF-USP, outro autor dos artigos. Os pesquisadores fazem um paralelo entre o efeito produzido na quântica pelo emprego da medida assistida por cavidade e a repercussão causada no setor de áudio pela adoção de aparelhos capazes de reproduzir o som estéreo. Uma estação de FM, por exemplo, transmite músicas registradas em dois canais de som independentes e simultâneos, que operam em frequências extremamente próximas, mas ligeiramente distintas. Assim cada canal pode disseminar ao mesmo tempo informações diferentes. Numa música instrumental, o baixo e a bateria podem estar registrados no canal direito enquanto o piano e a guitarra estão gravados no esquerdo. Ocorre algo semelhante num feixe de laser com fótons entrelaçados, às vezes também denominados emaranhados, um tipo de correlação quântica que pode ser explorada para armazenar, processar e transmitir informação. Em experimentos feitos na USP, os físicos geraram um sistema com três feixes entrelaçados de diferentes cores e, portanto, de distintos comprimentos de onda. Os brasileiros, aliás, foram os primeiros a conseguir pro-

eduardo cesar

Marcos Pivetta


duzir e em parte controlar um sistema emaranhado com essas características (ver Pesquisa FAPESP nº 164, de outubro de 2009). A frequência de cada feixe era de cerca de 300 terahertz, 1 milhão de vezes maior do que a de uma transmissão de rádio FM. A rigor, a informação quântica não é armazenada e transmitida por esse canal principal de luz, mas, sim, por dois pequenos campos ou canais de 20 megahertz situados ligeiramente acima e abaixo da frequência central. em vez de Mono, estéreo

Como no caso do sistema estereofônico de rádio, cada canal secundário é capaz de carregar informações específicas. “A técnica da detecção homódina não registra de forma independente esses canais”, diz Alessandro Villar, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), outro autor dos estudos. “Ela faz uma média dos dados presentes em ambos os campos. Sabíamos que ela não era o ideal, mas não havia alternativa a ela.” Retomando a comparação radiofônica, é como se alguém usasse um reprodutor de sons que só tocasse um canal, no modo mono, para ouvir uma transmissão em estéreo. Mesmo em mono é possível entender a emissão? Sim, mas alguns detalhes são perdidos. É mais ou menos isso o que ocorre quando se resgata a informação quântica num sistema com a técnica tradicional, da detecção homódina, segundo os pesquisadores. Ou seja, enquanto no experimento feito pelos brasileiros com três feixes de laser o método convencional registrava apenas três canais de informação quântica no sistema, a medida assistida por cavidade flagrava seis, um par de campos de dados por feixe. n

Projetos

Feixes entrelaçados de laser: conjunto de espelhos que formam uma espécie de caixa de ressonância permite medir oscilações tênues dos fótons

1. Quantum information processing with continuous variables (2010/52282-1); Modalidade Cooperação FAPESP-CNRS; Coord. Marcelo Martinelli – USP e Claude Fabre, da Universidade Pierre e Marie Curie-Paris 6; Investimento R$ 34.859,16 (FAPESP) e R$ 35.000 (CNRS); 2. Teletransporte de informação quântica entre diferentes cores (2009/52157-5); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Coord. Marcelo Martinelli – USP; Investimento R$ 171.938,32 e US$ 43.800,00 (FAPESP).

Artigos científicos BARBOSA, F.A.S. et al. Beyond spectral homodyne detection: complete quantum measurement of spectral modes of light. Physical Review Letters. 14 nov. 2013. BARBOSA, F.A.S. et al. Quantum state reconstruction of spectral field modes: Homodyne and resonator detection schemes. Physical Review A. 14 nov. 2013.

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tecnologia  pesquisa empresarial y

Casa nova Recém-inaugurado, o BRF Innovation Center pretende se tornar referência na criação de novos negócios Yuri Vaconcelos

R

econhecida como uma das 100 empresas mais inovadoras do planeta pela publicação de negócios Forbes, a multinacional brasileira BRF, uma das gigantes globais do setor de alimentos, inaugurou em junho de 2013 seu novo centro de pesquisa e desenvolvimento. Com 10 mil metros quadrados de área, a instalação, batizada de BRF Innovation Center, foi construída em Jundiaí, a cerca de 60 quilômetros da capital paulista, de acordo com os princípios da arquitetura sustentável e conta com laboratórios e equipamentos de última geração, cozinhas experimentais e minifábricas para produção-piloto. A unidade será responsável pelas inovações em carnes e pratos prontos, margarinas e proteínas vegetais. Os projetos do setor agropecuário permanecerão distribuídos entre várias unidades produtivas. Segundo Nilvo Mittanck, vice-presidente de operações e tecnologia da BRF, o Innovation Center foi planejado para ser um marco em desenvolvimento tecnológico no setor de alimentos no Brasil e no mundo. “Ele será uma referência dentro e fora da companhia, tanto na criação de novos negócios quanto na solução de problemas. Nosso objetivo é ganhar tempo nos projetos e no atendimento aos clientes.” O novo centro de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) foi montado no mesmo complexo onde já operavam um centro de distribuição e o labora68  z  janeiro DE 2014

tório de referência da companhia. A BRF é uma associação da Sadia e da Perdigão instituída em 2009. A unidade de Jundiaí reúne as atividades que antes eram executadas nos centros de pesquisa da Perdigão, em Videira, Santa Catarina, e da Sadia, no bairro paulistano de Vila Anastácio. A concentração das atividades de inovação em um único local, de acordo com a companhia, favoreceu a sinergia entre os pesquisadores e a equipe de marketing, que está baseada em São Paulo. “Com isso, ficamos mais sintonizados com as expectativas do consumidor”, diz Ralf Piper, diretor de P&D e qualidade da BRF. Outra vantagem do Innovation Center é sua localização estratégica junto a importantes polos tecnológicos e mercados consumidores. “O fato de Jundiaí estar próxima de grandes centros de pesquisa e universidades, como USP [Universidade de São Paulo], Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], IPT [Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo] e unidades da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], também foi um fator relevante na hora de escolher a cidade como sede de nosso centro de inovação”, explica Piper, que é graduado em medicina veterinária e começou a trabalhar na Sadia em 1991. O novo centro de pesquisas custou R$ 58 milhões e emprega 150 profissionais, entre engenheiros de alimentos, nutricionistas, químicos, farmacêuticos e veterinários.

A partir da esquerda: Gustavo Ribeiro, Paulo Guarnieri, Adriana Martin, Maria Cristina Lui, José Roberto Gonçalves e Ralf Piper


eduardo cesar

empresa O projeto do BRF Innovation Center faz parte da meta da companhia de duplicar, até 2015, os investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação – a empresa não divulga o valor total investido na área. Dividido em quatro áreas – criação e pesquisa, aplicação, cozinha e análise sensorial –, a maior novidade de sua estrutura é a existência de uma planta-piloto na área de aplicação, composta por minilinhas de produção para realização de testes e acompanhamento das diversas fases de desenvolvimento de projetos de produtos e embalagens. “Agora não precisaremos mais depender das unidades produtivas para realizar essas avaliações. Podemos simular produção em larga escala, projetar custos e testar parâmetros de processos e características de qualidade dos novos produtos”, ressalta Mittanck.

A planta-piloto abriga linhas de processamento de produtos à base de carne como embutidos e produtos empanados, margarinas, massas e doces, além de embalagens. Os ambientes são personalizados e adaptáveis a diferentes tipos de equipamentos e processos. “Essa nova instalação trará ganhos de produtividade, porque permitirá transformar uma produção em escala-piloto em industrial. Isso nem sempre é fácil de fazer numa fábrica, porque é preciso aguardar o momento ideal na linha de produção para testar a inovação”, conta José Roberto Gonçalves, gerente de planejamento da qualidade e gestão do conhecimento do BRF Innovation Center. Outro diferencial do complexo são as cinco cozinhas experimentais destinadas a clientes estratégicos do grupo, entre eles McDonald’s, Burger King,

BRF Innovation Center Jundiaí, SP

Nº de funcionários no centro 150

Principais produtos Carnes (aves, suínos e bovinos), alimentos industrializados (margarinas e massas) e produtos lácteos

Faturamento da empresa em 2012 R$ 28,5 bilhões

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1

3

2

Pizza Hut e Subway. “Criamos cozinhas específicas para contas globais. Nelas reproduzimos a instalação dos clientes, com equipamentos semelhantes, e fazemos o desenvolvimento de produtos em conjunto”, afirma Gonçalves. Essas cozinhas também são espaço para realização de treinamentos, ações de divulgação e testes sensoriais. “Fazemos testes cegos dos nossos produtos com funcionários treinados capazes de perceber pequenas diferenças de sabor, odor e textura. Em São Paulo é realizada a análise sensorial com o consumidor final”, explica. Lançamentos Inovadores

1 Placa com cultura de bactérias 2 Análise e verificação de peso de produto 3 Nos tubos, meio de cultura de sementes 4 Amostras de alimentos para medição de pH

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Proprietária das marcas Perdigão, Sadia, Batavo e Elegê, entre outras, a BRF, que no início de suas atividades tinha o nome de Brasil Foods, é um dos maiores participantes globais no setor alimentício. Com uma receita líquida de R$ 28,5 bilhões em 2012, ela atua nos segmentos de carnes (aves, suínos e bovinos), alimentos processados de carnes, lácteos, margarinas, massas, pizzas e vegetais congelados. A empresa emprega 114 mil funcionários e opera 50 fábricas no país. Além delas, conta com nove unidades industriais na Argentina e duas na Europa, sendo uma na Inglaterra e outra na Holanda. Uma nova unidade fabril está programada para ser inaugurada em Abu Dabi, nos Emirados Árabes Unidos, no primeiro semestre de 2014. A decisão de se instalar no Oriente Médio é justificada pelo fato de essa região ser um mercado fundamental para a companhia, que exporta seus produtos para mais 120

países dos cinco continentes. Na China, a BRF consolidou recentemente uma joint-venture com a Dah Chong Hong Limited para distribuição de seus produtos no mercado daquele país. O centro de P&D de Jundiaí será responsável por boa parte dos novos lançamentos que a BRF colocará no mercado brasileiro e mundial nos próximos anos. A empresa tem em seu portfólio mais de 3 mil produtos, dos quais 450 lançados em 2012. Em 2013 entregou ao mercado, até o terceiro trimestre, 169 produtos, além das extensões de linha que representam um número bem maior. Desses, nem todos representam produtos inovadores e diferenciados, como explica o diretor Ralf Piper. “Podem ser um iogurte com novo sabor ou uma lasanha que passou a ser fabricada em outro tamanho. Os produtos inovadores, realmente diferenciados, são chamamos de plataforma de ruptura.” Exemplos desses produtos são a linha de maionese fabricada com óleo de girassol da Perdigão, a família de lasanhas da Sadia produzidas com massa integral e o iogurte grego líquido da Batavo, o primeiro do gênero lançado no país. As novidades da BRF, no entanto, não se limitam ao lançamento de novos produtos. A companhia também investe em processos tecnológicos inovadores e em pesquisas para redução de sódio, gordura e açúcar em seus produtos. “A busca por alimentos mais saudáveis é um desafio permanente do setor de inovação”, diz Piper. Por meio do trabalho de um grupo de pesquisadores liderado pelo engenheiro químico Paulo Donizeti Guar-


fotos  eduardo cesar

nieri, a empresa obteve avanços no desenvolvimento de uma substância que pode substituir o sal em seus alimentos. “Além de conferir sabor à comida, o sal também é importante para conservação dos alimentos. Ele mantém a estabilidade do produto, garantindo o prazo de validade”, explica Guarnieri. O problema é que seu consumo em excesso está associado a algumas doenças crônicas, entre elas a hipertensão. Isso fez com que o Ministério da Saúde e a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos (Abia) firmassem em 2011 um pacto para redução do teor de sódio em alimentos industrializados. “Não podemos revelar maiores detalhes, mas posso dizer que essa substância alternativa ao sal já é aplicada experimentalmente em nossos produtos”, revela o diretor de P&D.

4

Alta pressão

Outra inovação recente, na área de processos, está relacionada à esterilização de produtos fabricados à base de carnes. A equipe coordenada pelo consultor técnico Gustavo Menengoti Ribeiro testa há meses um novo equipamento responsável por um processo de pasteurização a frio. “Seremos a primeira empresa de carnes do Brasil e a segunda em todos os setores a adotar a tecnologia HPP, sigla em inglês para high pressure pasteurization [pasteurização a alta pressão]”, conta Ribeiro. Segundo ele, a vantagem desse processo de pasteurização a frio é que ele mantém as características sensoriais do alimento, alterando minimamente seu sabor e textura. “Essa tecnologia deverá ser aplicada em alguns produtos de maior valor agregado entre

Um projeto na área de processos é o primeiro dentro da política de inovação aberta da empresa dois e quatro anos”, diz o pesquisador da BRF. “Ela pasteuriza qualquer alimento. É como se o produto fosse mergulhado numa coluna d’água de 60 quilômetros de profundidade, reduzindo de forma drástica a presença de microrganismos.” Um dos pilares da inovação da empresa é o trabalho conjunto com universidades e centros de pesquisa. A área de inovação aberta é coordenada pela engenheira de alimentos Maria Cristina Youn Lui e pela química Adriana Regina Martin. “Temos

Instituições que formaram os pesquisadores da empresa Ralf Piper, médico veterinário, diretor em P&D e qualidade

Universidade Federal do Paraná (Ufpr): graduação; Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc): mestrado

José Roberto Gonçalves, engenheiro de alimentos, gerente de planejamento, qualidade e gestão

UFSC: graduação; Fundação Getúlio Vargas (FGV): MBA

Paulo Donizeti Guarnieri, químico e engenheiro químico, consultor técnico de P&D

Universidade de São Paulo (USP): graduação; USP: mestrado

Maria Cristina Youn Lui, engenheira de alimentos, especialista em P&D

Universidade Estadual de Campinas (Unicamp): graduação; Unicamp: mestrado; FGV: MBA

Adriana Regina Martin, química, especialista em inovação

Universidade Federal de São Carlos (UFSCar): graduação; UFSCar: Mestrado; UFSCar e Universidade de Wisconsin (EUA): doutorado UFSCar: pós-doutorado

Gustavo Menengoti Ribeiro, engenheiro mecânico, consultor técnico de P&D

UFSC: graduação; USP e Unicamp: MBA

entre 20 e 30 projetos de inovação aberta estabelecidos com instituições de ponta, entre elas USP, Unicamp, Universidade de Santa Maria [UFSM], no Rio Grande do Sul, IPT e Embrapa Agroindústria, no Rio de Janeiro. Buscamos financiar projetos focados em pesquisa aplicada e no desenvolvimento de novas tecnologias e processos”, diz Adriana. A área também é responsável por obter recursos para inovação com órgãos de fomento à pesquisa como Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A primeira parceria firmada desde que a política de inovação foi formalizada, há três anos, aconteceu com o Departamento de Tecnologia de Alimentos da UFSM. “Não posso dar detalhes sobre o projeto, por ser sigiloso. Mas posso afirmar que se tratou de uma inovação da área de processos”, diz Maria Cristina. “Ao se aproximar da academia, que é onde se faz pesquisa de ponta, compartilhamos recursos humanos e aceleramos a formação de nossos profissionais. Os projetos, que consolidam a inovação na BRF, são positivos para a companhia e para as instituições parceiras”, diz Ralf Piper. n pESQUISA FAPESP 215  z  71


ÓPTICA y

Campo iluminado

Saída do laser

Grupo de São Carlos constrói equipamento robótico com laser para análise de elementos

Espectômetro

químicos presentes no solo e nas folhas Marcos de Oliveira

P

equenos feixes de luz laser dirigidos sobre a folha de uma planta ou porção de solo podem se tornar comuns nas lavouras dentro de alguns anos. O laser está se tornando um meio confiável para analisar elementos químicos presentes em um vegetal e trazer informações importantes sobre a adubação, por exemplo. O melhor é que o teste pode ser feito em tempo real no próprio campo, em poucos minutos, contando inclusive com o suporte de localização por GPS. Chamada de espectroscopia de emissão com plasma induzido por laser (Libs na sigla em inglês), essa tecnologia está sendo utilizada pelo robô Curiosity, da Nasa, em Marte, para verificação de elementos como ferro, carbono e alumínio das rochas marcianas. Um equipamento semelhante foi desenvolvido na Embrapa Instrumentação, localizada em São Carlos, no interior paulista. “É o primeiro sistema Libs embarcado construído no Brasil”, diz a pesquisadora Débora Milori, da Embrapa, coordenadora do projeto dentro do Centro de Pesquisas em Óptica e Fotônica, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP.

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Além do Cepid, a fundação apoia a pesquisa com uma bolsa de pós-doutorado do físico Jader Cabral. Uma versão mais sofisticada da técnica Libs é a com duplo pulso. Neste caso, existe um atraso entre os dois feixes de lasers de nanossegundos a microssegundos. A vantagem sobre o sistema de um pulso, mais utilizado pela comunidade científica, é a possibilidade de aumentar em várias vezes a intensidade do sinal, melhorando o limite de detecção da técnica para quantificação dos elementos. A Embrapa também construiu recentemente um sistema Libs com duplo pulso com a colaboração do físico Gustavo Nicolodelli e bolsista de pós-doutorado da Fapesp. “Há vários trabalhos demonstrando que o sistema Libs com duplo pulso proporciona melhor desempenho analítico, com aumento de sensibilidade e limites de detecção entre duas e 20 vezes melhores que os obtidos nos métodos que empregam configurações com um pulso do laser”, diz o professor Francisco Krug, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP. Ele coordenou um projeto financiado pela FAPESP entre 2005 e 2009 que avançou

O sistema Libs funciona com lasers pulsados, em frações de segundos, focados nas amostras e posterior leitura da luz emitida

no conhecimento e desenvolvimento da análise de folhas e solo via espectrometria com plasma induzido por laser. O projeto contou com a participação de Débora e de outros pesquisadores da Embrapa. “Em geral, Libs com duplo pulso requer instrumentação um pouco mais complexa, mas ambos são relativamente simples. Atualmente, os sistemas portáteis, disponíveis no mercado, baseiam-se em medidas geradas por um pulso do laser”, diz Krug. “De qualquer forma, certamente a tecnologia com duplo pulso incorporada aos equipamentos portáteis ampliará ainda mais o número de aplicações analíticas”, diz. “Já existem equipamentos comerciais que exploram outras áreas da espectroscopia instalados em máquinas agrícolas que possibilitam análise de solos em tempo real, e espera-se que o Libs


Brilho revelador Utilizando a espectroscopia de emissão com plasma Induzido por laser (Libs), pesquisadores conseguem identificar os elementos químicos de uma folha plasma resfria e emite luz

aquecimento, evaporação e formação do plasma 1os nanossegundos

Temperatura até 50.000 K

Moléculas do material se desprendem

Elétrons se desprendem das moléculas

Evaporação

Temperatura 5.000 a 15.000 K Plasma contendo átomos, íons e elétrons

1os microssegundos

Linhas de emissão de luz diferentes para cada elemento químico

e-

Luz viaja de volta para o Libs e é captada pelas lentes do espectrômetro, que faz a identificação dos elementos

foto  débora milori / embrapa infográfico ana paula campos  ilustração alexandre affonso

Fonte DÉbora Milori /embrapa

possa contribuir muito em breve para avaliação do estado nutricional das culturas agrícolas também em tempo real.” O Grupo de Espectrometria Atômica do Cena-USP, sob a coordenação de Krug, é especializado no desenvolvimento e validação de métodos quantitativos para análise direta de amostras de interesse agronômico e ambiental. “A quantificação pode ser feita por meio de modelos de calibração utilizando-se amostras de referência. A intensidade da emissão dos elementos é proporcional à concentração que ele tem na amostra. A calibração é bastante dependente da matriz, ou seja, é preciso construir um modelo para quantificar carbono no solo e outro para o carbono em plantas”, diz Débora. A análise com laser também é vantajosa em relação ao menor tempo gasto se comparada aos testes convencionais realizados em laboratórios, onde existe a necessidade de preparação da amostra com reagentes químicos. Sem esses produtos, o uso do Libs contribui para diminuir a geração de resíduos. “É uma técnica limpa”, diz Débora. O objetivo dos pesquisadores da Embrapa foi construir um equipamento por-

tátil e adaptá-lo a uma espécie de carrinho semelhante a um robô que pode ser levado ao campo. “Montamos um sistema robótico para demonstrar o conceito com a colaboração dos professores Marcelo Becker e Daniel Magalhães, da EESC [Escola de Engenharia de São Carlos] da USP.” Quebra de moléculas

No robô, um laser pulsado é focalizado em amostras de folhas ou do solo. O local é aquecido e a temperatura chega aos 50.000 Kelvins (K). O efeito térmico provoca uma quebra das moléculas presentes no material e uma evaporação, formando assim um plasma, ou seja, uma densa nuvem gasosa de átomos, íons e elétrons. Depois de alguns microssegundos, o plasma esfria para temperaturas da ordem de 5 a 15.000 K e aparecem linhas de emissão de luz características de cada elemento químico presente na amostra. Essa luminosidade é captada por um conjunto de lentes instaladas no equipamento e focadas em um espectrômetro. No espectrômetro a luz será detectada por um sistema optoeletrônico também presente em câmeras fotográficas digi-

tais para captar as imagens. Conforme o espectro de luz emitido, é possível classificar no aparelho os elementos presentes na amostra, como fósforo, carbono e cobre, por exemplo. “As emissões produzidas pelos átomos e íons representam a impressão digital de cada elemento químico”, diz Débora. A análise com laser se insere dentro do conceito de agricultura de precisão, que utiliza cada vez mais instrumentos e recursos da tecnologia da informação como computadores, GPS e redes sem fio para implementar melhorias no âmbito da produção agrícola. n

Projetos 1 Desenvolvimento e avaliação de um sistema Libs com pulso duplo: Aplicação em caracterização de solos (n° 2012/24349-0); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado Bolsista Gustavo Nicolodelli/Embrapa; Coord. Débora Milori/Embrapa; Investimento R$ 163.082,88 (FAPESP) 2 Análise de solos utilizando técnicas fotônicas visando ao desenvolvimento de equipamentos portáteis para medidas in situ (nº 2012/22196-1); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Bolsista Jader de Souza Cabral/Embrapa; Coord. Débora Milori/Embrapa; Investimento R$ 163.082,88 (FAPESP) 3 Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (Cepof) (n° 2013/07276-1); Modalidade Programa Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Coord. Vanderlei Bagnato/ USP; Investimento R$ 1.000.000,00 por ano (FAPESP)

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química y

Imagens da fraude Teste com escâner indica se o leite está adulterado Evanildo da Silveira

U

m computador e um escâner comum, desses que muitas pessoas têm em casa, são as novas ferramentas para detectar a adulteração do leite, fraude que acontece com frequência no Brasil e em outros países. A ideia desse método surgiu no Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) motivada pelas frequentes notícias na imprensa sobre falsificações de leite em várias regiões do país. A equipe coordenada pelo professor Edenir Rodrigues Pereira Filho conseguiu com o novo método identificar e quantificar os principais adulterantes, em diferentes concentrações, como água, peróxido de hidrogênio (água oxigenada), soro, leite e urina sintéticos, ureia e soda cáustica. O estudo, que teve financiamento da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), começou em 2009 a partir do projeto de doutorado da então aluna de Pereira, Poliana Macedo dos Santos. O uso de imagens digitais para análise de alimentos já está registrado na literatura científica. Pode ser usado no controle da qualidade de presunto, na contagem de lactobacilos em leite fermentado e também para determinar o tamanho de grãos de arroz. A partir desses exemplos, o grupo da UFSCar obteve amostras de leite, cedidas por uma em-

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presa de laticínio da região de São Carlos, e fez as adulterações com as cinco principais substâncias normalmente usadas pelos fraudadores, em concentrações de 5% a 50%. Um deles, a água de torneira, é utilizada para aumentar o volume e, com isso, gerar ganho econômico para os falsificadores. O soro, por sua vez, um subproduto da fabricação de queijo, é adicionado ao leite para mascarar a adição de água e manter a concentração de proteína dentro do que determina a legislação nacional (2,9%). O mesmo papel tem a urina sintética usada no experimento – uma mistura de sais, água e outras substâncias comumente encontradas na urina, como ureia e creatinina. O objetivo principal é encobrir o acréscimo de água. A quarta substância fraudadora é leite sintético, um adulterante formado por uma mistura de água, detergente, óleo e ureia, utilizado com a mesma função do soro. O último produto usado nas fraudes, o peróxido de hidrogênio, serve para inibir a proliferação de bactérias e, dessa forma, prolongar o tempo de conservação do produto. Depois de adulteradas, as amostras foram colocadas em copos de vidro e receberam gotas de bromofenol, um corante azul, para possibilitar um melhor contraste das cores entre as porções fal-

sificadas e normais de leite porque o tom azulado varia conforme a concentração do adulterante. “Os copos foram colocados sobre o vidro de um escâner de uma impressora para gerar uma imagem digital de cada um deles”, explica Pereira. Cada uma das misturas gerou uma imagem em formato Joint Photographic Experts Group (JPG). Foram obtidas, dessa forma, cerca de mil imagens, cada uma correspondendo a um tipo de adulteração. comparação de imagens

As imagens foram armazenadas em um computador. Quando se quer testar uma amostra, é preciso digitalizar o copo com um pouco de leite, gerando uma imagem. Por meio de um software especializado, ela é comparada com as mil previamente armazenadas. Assim, é possível identificar se a nova amostra é igual à testada e descobrir a fraude. Se o adulterante não corresponder a uma imagem armazenada, o programa não consegue identificá-lo. Mas conseguirá dizer que o leite não é puro. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção de leite no Brasil em 2012 foi de 32,3 bilhões de litros. Em relação a fraudes, não há dados precisos. “Geralmente a porcentagem é da ordem de 10%”, diz Pereira. “Somente temos in-


Teste rápido do leite Previamente, os pesquisadores obtiveram cerca de mil imagens de misturas de leite normal e com adulterantes em várias concentrações

1

Bromofenol [corante azul que melhora o contraste das imagens]

5 ml do leite que se quer analisar é colocado num copo usado em laboratório, ao qual é adicionado o bromofenol

2 3

O copo com leite é escaneado num aparelho comum. O resultado é uma imagem digital do leite, no formato JPG

foto  eduardo cesar infográfico  ana paula campos  ilustração  pedro hamdan

Essa imagem é transferida para um computador onde um software a compara com as mil imagens de adulterações previamente armazenadas

formações do que é divulgado na mídia.” Em termos mundiais, no entanto, há mais dados. Poliana cita em sua tese um estudo realizado na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, que revelou ser o leite um dos sete alimentos mais suscetíveis à adulteração, junto com azeite, mel, açafrão, café, sucos de maçã e laranja. No Brasil, a fiscalização da qualidade do produto é feita por órgãos municipais, estaduais e federais. As empresas que possuem registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF) são autorizadas a fazer o comércio interestadual ou internacional e são fiscalizadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento por meio de inspeções periódicas ou auditorias. Nessas inspeções são verificadas as linhas de produção, o atendimento das boas práticas de fabricação e procedimentos operacionais padronizados. Além disso, o programa de Combate à Fraude do

Leite do ministério abrange, entre outras, análises de água oxigenada, amido, cloretos, neutralizantes de acidez, sacarose, álcool etílico e soro. Em sua tese, Poliana diz que as análises da qualidade do leite no Brasil se baseiam na determinação de algumas propriedades físico-químicas do produto, como acidez, gordura, extrato seco, entre outras. Mas muitas vezes esses métodos são incapazes de detectar, de uma forma direta, se houve adulteração. Além disso, os testes são demorados, consomem muitos reagentes químicos e necessitam de equipamentos específicos e de custo elevado. Por isso, segundo os pesquisadores da UFSCar, o método desenvolvido apresenta como vantagem sobre outras técnicas de análise a rapidez, possibilitando a realização de testes em tempo real. “Além disso, o procedimento criado por nós tem grandes chances de ser por-

tátil e utilizado no campo. As amostras suspeitas poderiam ser encaminhadas para laboratórios especializados para testes mais aprofundados”, diz Pereira. Para chegar ao mercado, o método ainda precisa de uma empresa interessada em desenvolvê-lo como produto e comercializá-lo. n

Projeto Aplicação de imagens digitais e técnicas espectroanalíticas combinadas com quimiometria para detecção e quantificação de adulteração em leite bovino (nº 2009/01345-6); Modalidade Bolsa de Doutorado; Bolsista/Coord. Poliana Macedo dos Santos /Edenir Rodrigues Pereira Filho; Investimento R$ 111.668,91 (FAPESP).

Artigos científicos Santos, P.M. et al. Digital image analysis – an alternative tool for monitoring milk authenticity. Analytical Methods. v. 5, p. 3.669-74. ago. 2013. Santos, P. M. et al. Escâner digital images combined with color parameters: a case study to detect adulterations in liquid cow’s milk. Food Analytical Methods. v. 5, p. 89-95. 2012.

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Engenharia genética y

Mutações benéficas Novas linhagens da tradicional levedura e microrganismos silvestres podem aumentar a produção de etanol Dinorah Ereno

U

ma das formas de aumentar a produção de etanol com o mesmo hectare de cana é criando novas linhagens e melhorando o desempenho produtivo da levedura Saccharomyces cerevisiae responsáveis por transformar o açúcar em álcool na etapa de fermentação. Na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), as pesquisas conduzidas pelo professor Anderson Cunha concentram-se em seis linhagens de leveduras, sendo duas termotolerantes, ou seja, resistentes a altas temperaturas nas dornas de fermentação – característica importante para regiões tropicais – e quatro linhagens resistentes ao próprio etanol, que durante o processo torna-se tóxico para elas. “O foco é encontrar os genes de resistência ao calor e ao etanol para transferi-los a linhagens bem adaptadas ao processo industrial”, diz Cunha, que coordena um projeto financiado pela FAPESP na modalidade Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite), em parceria com a ETH Bionergia. Ou até mesmo utilizar essas leveduras isoladas se forem adequadas e mostrarem alta eficiência fermentativa. Como o processo é aberto, as dornas recebem leveduras que vêm do ar e da própria cana-de-açúcar e invadem a fermentação.

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ilustraçãO abiuro

A pesquisa que resultou no projeto Pite teve início em 2009, quando Cunha se associou à usina São Luís, de Ourinhos, no interior paulista, para acompanhar o processo de produção de etanol durante a safra. Desde então, a cada 15 dias durante as safras são retiradas amostras de leveduras das dornas de fermentação e selecionadas posteriormente em laboratório. “Escolhemos as leveduras morfologicamente diferentes das industriais”, diz Cunha. Depois elas foram testadas em relação à resistência a etanol e temperatura. Como a temperatura no processo tem que ficar em torno de 30ºC, para que se mantenha constante é preciso manter um sistema de resfria-

mento nas dornas, o que representa um custo adicional. “Por isso, se conseguirmos isolar linhagens resistentes a 40ºC, elas não precisariam ser resfriadas.” Além da seleção e dos testes para encontrar as linhagens de interesse, foram feitos também testes de fermentação. Como resultado dessa coleta na usina foi criado um banco de leveduras, que conta atualmente com cerca de 400 linhagens com características fermentativas distintas, das quais foram escolhidas seis com capacidade de fermentar em altas temperaturas e altas concentrações de etanol. As outras estão sendo testadas para outras finalidades. Além de avançar na produção cada vez maior da tradicional Saccharomyces cerevisiae outras linhas de pesquisa buscam outros microrganismos que possam ajudar nesse processo e aumentar a produção do etanol. Resultados bastante promissores aparecem nos estudos sob a coordenação do professor Francisco Maugeri Filho, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a partir de leveduras silvestres isoladas de biomas brasileiros – floresta amazônica, mata atlântica, cerrado e pantanal – em um projeto financiado pela FAPESP. “Conseguimos isolar mais de 300 microrganismos nesse projeto”, diz Maugeri. “O objetivo inicial era isolar somente leveduras, mas posteriormente verificamos por identificação molecular que alguns microrganismos eram fungos polimórficos”, relata. No processo de identificação foram encontradas leveduras verdadeiras – fungos com forma unicelular – e fungos polimorfos que em meios líquidos se parecem com leveduras, como o Acremonium strictum,

capaz de produzir enzimas celulolíticas, ou seja, que fazem a hidrólise da celulose, uma característica interessante para o etanol de segunda geração. Após a identificação dos genes que produziam essas enzimas, eles foram clonados inicialmente na bactéria Escherichia coli, um microrganismo-modelo, e posteriormente na levedura Saccharomyces cerevisiae, para que ela pudesse degradar a celulose em glicose, convertendo-a em seguida em combustível. A pesquisa fez parte do doutorado de Rosana Goldbeck na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, orientado por Maugeri, responsável pela linha de pesquisa de engenharia de bioprocessos, e co-orientado pelo professor Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, do Instituto de Biologia da universidade. “Os resultados foram bastante interessantes, mas ainda há um longo caminho para a sua utilização em processos industriais”, diz Maugeri. Para a próxima etapa estão previstos testes com leveduras industriais, como a Pedra e Pedra 2, reconhecidas pela alta produtividade na fermentação de etanol. n

Projetos 1. Estudo genético e do potencial de leveduras silvestres isoladas de diversas regiões brasileiras visando a produção de bioetanol (nº 2009/52198-3); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Coord. Francisco Maugeri Filho/Unicamp; Investimento R$ 184.029,82 (FAPESP). 2. Análise genômica e transcriptômica de linhagens termotolerantes e etanol resistentes de Saccharomyces cerevisiae isoladas durante o processo de produção de etanol – Construção de plataformas biológicas para uso industrial (nº 2012/50064-2); Modalidade Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite); Coord. Anderson Ferreira da Cunha/UFSCar; Investimento R$ 330.557,02 (FAPESP e ETH Bioenergia).

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Computação y

No fundo do

olh U

m cuidado indispensável com portadores de diabetes é identificar ou não se eles têm retinopatia diabética, uma enfermidade nos olhos que pode levar à cegueira. O risco aumenta se o controle da glicemia não for adequado e o paciente não procurar um oftalmologista. O diagnóstico é feito por mapeamento da retina ou por análise de fotografias coloridas produzidas por um aparelho chamado retinógrafo. Para auxiliar nessa análise e tornar o diagnóstico mais rápido, pesquisadores do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (IC-Unicamp) desenvolveram uma solução computacional que poderá ajudar na detecção e tratamento da doença. O software é capaz de analisar automaticamente imagens na retina, no fundo do olho, de pacientes diabéticos e indicar de forma precoce anomalias como hemorragias, alterações vasculares, cicatrizes e sinais de processos inflamatórios. A novidade ganha importância porque essa doença é a principal causa de cegueira na população ativa – entre 20 e 74 anos – em países desenvolvidos. “De acordo com a Federação Internacional de Diabetes, atualmente o mal afeta 366 milhões de pessoas em todo o mundo e 78  z  janeiro DE 2014

Software contribui para a detecção e análise precoce da retinopatia diabética

é estimado que este número cresça para aproximadamente 552 milhões até 2030”, diz o professor Anderson Rocha, do IC-Unicamp, coordenador do projeto. No Brasil, estima-se que cerca de 5% da população, ou perto de 10 milhões de brasileiros, são diabéticos, parte dos quais poderá vir a desenvolver a retinopatia diabética. Por enquanto, o software funciona apenas em computadores comuns, mas a ideia é desenvolver, em parceria com empresas especializadas, no futuro um retinógrafo portátil e equipá-lo com o novo sistema. O oftalmologista ou mesmo um enfermeiro poderá capturar a imagem da retina do paciente. “Os diabéticos que vivem em comunidades rurais e remotas seriam muito beneficiados se um equipamento portátil fosse desenvolvido e levado até eles”, diz Rocha. “Isso tornaria acessível um atendimento para verificação de necessidade de consulta médica presencial.” O aparelho também poderia detectar a doença em estágio inicial, medida essencial para se evitar a cegueira. Além disso, um retinógrafo portátil seria mais ágil e deixaria mais tempo para o oftalmologista atender os pacientes. O software trabalha com quatro etapas: avaliação da qualidade da imagem, detecção de lesões, triagem e verificação da ne-

cessidade de tratamento. “Ele é capaz de acusar erros na captura da imagem como partes da retina que não são consideradas ideais para detecção de retinopatia ou mesmo se o paciente piscar”, diz o cientista da computação Ramon Pires, doutorando na equipe de Rocha. Assegurada a qualidade mínima da imagem para análise, entram em ação os detectores individuais de lesões associadas à retinopatia diabética. A imagem da retina do paciente passa no software por seis detectores de lesões, e cada um deles define uma pontuação que indica qual a probabilidade de um paciente ter uma delas. “A imagem passa a ser representada em alto nível, por meio de um conjunto de valores numéricos, um para cada lesão, e essa nova representação permite verificar se o paciente apresenta tais problemas associados à retinopatia diabética, se a doença está em estágio avançado e se é necessário agendar uma consulta com o oftalmologista nos 12 meses seguintes”, explica Rocha. Entre os sinais e as lesões que indicam retinopatia diabética e que podem ser detectadas pelo software estão a presença de gordura, lesões vermelhas, hemorragias leves e profundas, manchas parecidas com algodão e microaneurismas. “Alcançamos resultados de classifi-


imagens Anderson Rocha / Unicamp

Retinas normais em imagens obtidas do retinógrafo

Vasos sanguíneos Disco óptico Localizado na camada central da retina

mácula Centro da retina, que é a camada posterior do olho

Lesões em retinas Hemorragias e manchas indicam a presença da retinopatia diabética

cação acima de 90% nos trabalhos atuais, compatíveis com os melhores resultados da literatura científica”, conta Rocha. Grupos de Apoio

As pesquisas que levaram ao software começaram em 2009, com um projeto financiado pelo convênio entre o Instituto Microsoft Research e a FAPESP, com a supervisão do professor Jacques Wainer, também do IC-Unicamp. Em 2011, o trabalho recebeu novo apoio da Fundação, agora para o mestrado de Pires, e a partir do segundo semestre de 2013, tem a colaboração da Samsung. Além de Rocha e de Pires, o

grupo conta com os professores Siome Goldenstein e Wainer, do IC, e Eduardo Valle, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Unicamp. “Esse software pode ser de grande valia no auxílio do diagnóstico da retinopatia diabética”, diz o médico Sérgio Gianotti Pimentel, professor do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “Há vários programas semelhantes relatados na literatura”, diz. O mesmo ocorre quanto a retinógrafos portáteis. “Recentemente alguns pesquisadores começaram a se interessar por essa linha

de pesquisa”, diz Rocha. “Já para aparelhos portáteis automatizados, como o que pretendemos desenvolver, até o momento não temos conhecimento de nenhum trabalho em andamento. Estamos buscando parcerias e acabamos de fechar uma com o Hospital de Clínicas de Unicamp.” n Evanildo da Silveira

Projeto Triagem automática de retinopatias diabéticas: tecnologia da informação contra a cegueira prevenível (n° 2008/ 54443-2); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa - Convênio Microsoft; Coord. Jacques Wainer/Unicamp; Investimento R$ 176.198,75 e US$ 75.855,79 (FAPESP).

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léo ramos

humanidades   divulgação científica y

80  z  janeiro DE 2014


Do macaco ao homem Exposição permanente sobre evolução humana entra em cartaz no Catavento Cultural, em São Paulo Marcos Pivetta

T

oumai, Lucy, um neandertal e outros hominídeos do passado distante estão chegando a São Paulo. Ou melhor, réplicas fiéis de seus esqueletos e representações artísticas de seus prováveis traços faciais são as estrelas de uma nova exposição permanente sobre a evolução humana. Intitulada Do macaco ao homem, a mostra entra em cartaz entre o final deste mês e o início de fevereiro no Catavento Cultural, espaço para difusão da ciência e do conhecimento mantido pelo governo do estado de São Paulo no centro da capital paulista. Concebida em parceria com o arqueólogo e antropólogo físico Walter Neves,

coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo (USP), a exposição traça um panorama de uma longa e intrincada história, cujo início não se sabe ao certo, mas que hoje contabiliza ao menos 7 milhões de anos. Essa é a idade estimada de Toumai, apelido de um crânio da espécie Sahelanthropus tchadensis, encontrado em 2001 no Chade, centro-norte da África. Trata-se do mais antigo hominídeo conhecido, uma linhagem provavelmente evoluída de parentes dos chimpanzés. Toumai pertenceu ao primeiro grupo de hominídeos a caminhar em pé. Durante um bom tempo, a primazia do bipedalismo

Réplicas de esqueletos de gorila, do homem moderno e de chimpanzé: o Homo sapiens e seus parentes próximos dentro da ordem dos primatas

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N

o Catavento Cultural, que se interessou prontamente pelo projeto, Do macaco ao homem inaugura um novo espaço didático no interior do Palácio das Indústrias, o prédio histórico da instituição: as arcadas no subsolo. “Uma exposição sobre evolução humana casa bem com os subterrâneos”, diz Sérgio de Freitas, presidente do conselho de administração da organização social Ca82  z  janeiro DE 2014

tavento Cultural e Educacional, responsável pela direção do museu de ciências. De fato, as pessoas que passarem pela exposição terão uma sensação de leve aperto, devido ao teto não muito alto e à relativa escassez de espaço nas arcadas do subsolo. É quase como se estivessem entrando em uma caverna, um ambiente que tem tudo a ver com uma breve viagem pela história da evolução humana. O ponto alto da mostra é a quantidade e a qualidade das réplicas de esqueletos de hominídeos e de grandes símios – ao lado de uma ossada completa de Homo sapiens, há outra de chimpanzé e uma terceira de gorila, nossos parentes mais próximos na ordem dos primatas – Ao lado, cópias das pinturas rupestres encontradas nas cavernas de Lascaux e Chauvet, representação artística de como teria sido o rosto de um neandertal e de um H. sapiens e reconstituição de um sepultamento humano de 28 mil anos na Rússia. Riqueza de detalhes das peças é o ponto alto da exposição

e de artefatos de pedra lascada e de osso cunhados pelo homem moderno e seus antepassados. “Noventa por cento das réplicas foram feitas a partir de peças da nossa coleção que está na USP”, comenta Neves. As cópias de Lucy e dos macacos vieram dos Estados Unidos. Há também reproduções das representações artísticas feitas pelo homem moderno durante o que Neves denomina a “explosão criativa do Paleolítico Superior”, por volta de 45 mil anos atrás. Para ilustrar esse momento-chave da evolução humana, foram destacadas cópias de trechos de famosas pinturas rupestres, como os murais das grutas de Lascaux e Chauvet na França e de Altamira na Espanha.

fotos  léo ramos

foi atribuída a Lucy, como é chamado o esqueleto parcial de uma fêmea de Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos, provavelmente o fóssil de hominídeo mais famoso de que se tem notícia. Lucy foi resgatada em 1974 na Etiópia, também na África, continente igualmente berço do homem moderno, o Homo sapiens, que ali se originou há cerca de 200 mil anos. “Nas últimas três ou quatro décadas, foram encontrados muitos fósseis de hominídeos na África e em outras partes do Velho Mundo”, diz Neves. “O principal objetivo da exposição é mostrar que os conhecimentos sobre o processo que levou ao surgimento dos hominídeos e do homem moderno já estão bastante avançados. Agora podemos caracterizar, com um elevado grau de certeza, os principais passos de nossa linhagem evolutiva.” O pesquisador da USP demorou sete anos para organizar a mostra, que inicialmente fora pensada para a Estação Ciência, espaço de divulgação de ciências da USP atualmente fechado para reformas.


Noventa por cento das peças da mostra foram feitas pela equipe de Walter Neves, da USP

Reproduções do esqueleto de Lucy e do Garoto de Turkana (um Homo erectus de 1,6 milhão de anos), de crânios de hominídeos e da dentição de antepassados do homem moderno

U

ma cena instigante da exposição é a reconstituição de um sepultamento de um humano moderno ocorrido 28 mil anos atrás no solo gelado do que hoje é a Rússia. Os organizadores da mostra cavaram um buraco no chão, dentro do qual foi colocada a ossada, e fecharam a cova com um vidro transparente. Dessa forma, o visitante pode andar sobre a sepultura e ver os restos de seu ocupante. Um desenho de como pode ter sido enterrado esse exemplar de Homo sapiens se encontra ao lado do sepultamento. A exposição é dividida em oito módulos autocontidos, cada um com temática independente dos demais pontos de parada. Não é necessário percorrer toda a

mostra para acompanhar as informações passadas em uma de suas partes. “Quando se está em um módulo, não é possível ver o conteúdo da etapa seguinte”, diz o biólogo Murilo Reginato, do Catavento, que auxilia na montagem da mostra. “Dessa forma, o visitante não dispersa sua atenção.” Dentro da cada módulo, os temas são explorados de acordo com uma sequência cronológica de eventos. A posição do homem no reino animal; a evolução da locomoção, da dentição, do cérebro e da aparência física; o uso das tecnologias de pedra lascada; o surgimento do conhecimento simbólico e de produção artística – todas essas questões figuram em alguma das paradas da exposição.

Complementam ainda esse pequeno passeio pela evolução humana dois breves documentários: um de três minutos sobre como os ancestrais do homem moderno lascavam a pedra para dar forma a seus artefatos, outro de sete minutos a respeito do trabalho de campo e de laboratório dos arqueólogos e antropólogos que lidam com ossos humanos. Ao deixar as arcadas subterrâneas do Palácio das Indústrias, o visitante tem a chance de ouvir trechos de Magnificat de Bach, um belo exemplar da criatividade de nossa espécie. Para montar Do macaco ao homem, foram gastos aproximadamente R$ 1 milhão, dos quais R$ 140 mil vieram do CNPq e o restante do Catavento. n

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demografia y

fluxos paulistas Núcleo de Estudos de População da Unicamp lança atlas sobre os 200 anos de imigração em São Paulo Carolina Rossetti de Toledo

A

o longo de mais de 200 anos, o tecido social paulista foi moldado de maneira singular pela chegada de mais de 5 milhões de migrantes de várias nacionalidades e regiões do Brasil. As idas e vindas dessas comunidades provocaram profundas alterações na dinâmica social e serviram como potentes motores econômicos da indústria e da agricultura do estado. A capital paulista foi espaço privilegiado deste movimento. Seus bairros mais tradicionais são testemunhos vivos do desenvolvimento urbano pautado por influxos italianos, japoneses, portugueses e, mais recentemente, bolivianos, coreanos, senegaleses e haitianos. A qualidade cosmopolita e empreendedora de São Paulo tem como raiz a herança imigrante. Com o objetivo de mapear a dinâmica migra84  z  janeiro DE 2014

tória de 1794 a 2010, revelando as mudanças e particularidades das trajetórias migrantes nos vários períodos econômicos do estado paulista, o Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas (Nepo-Unicamp) lançou, em dezembro, o Atlas temático do Observatório das Migrações em São Paulo. A iniciativa é coordenada pela cientista social da Unicamp Rosana Baeninger e teve apoio da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O Atlas é resultado de um projeto temático iniciado em 2009 e que concluiu sua primeira fase em 2013. O estudo das migrações em São Paulo envolveu 16 pesquisadores do Nepo, do Instituto de Economia, do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas e da Faculdade de Ciências Aplicadas

Trem levava imigrantes do porto de Santos para as lavouras de café no interior do estado (foto de 1920)


banco de imagens observatório das migrações em são paulo

da Unicamp e das universidades Estadual Paulista (Unesp), Federal de São Carlos (UFSCar), Federal de São Paulo (Unifesp) e da Faculdade Anhembi-Morumbi, além de 40 estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. O trabalho incluiu mais de 500 entrevistas com famílias de imigrantes e a coleta de dados censitários, registros do porto de Santos, estudos demográficos e certidões de casamento. O próximo passo da pesquisa é avançar no estudo das migrações contemporâneas, investigando o impacto social, econômico e urbano das novas levas imigrantes em São Paulo, como os coreanos instalados da região industrial de

Piracicaba e no setor de semijoias em Limeira, os haitianos na construção civil de Campinas e Franca, e os bolivianos nas confecções de São Paulo, Americana e Indaiatuba. “O Observatório das Migrações notou que, depois de 200 anos de imigração, São Paulo continua sendo a porta de entrada das imigrações internacionais no Brasil”, diz Rosana. Reflexos na economia

O objetivo do Atlas é recuperar as distintas fases das migrações do estado desde 1794 até os dias atuais e articular as levas imigrantes e seus reflexos nas diversas fases da economia paulista. O primeiro período histórico contemplado no Atlas,

de 1794 a 1888, envolve as migrações internas de cerca de 500 mil homens livres e escravos, bem como os primeiros imigrantes europeus, trazidos para trabalhar nas lavouras de café. A falta de censos demográficos desse período levou os pesquisadores a investigar os registros de casamentos e dados paroquiais de Campinas e São Carlos, por meio dos quais perceberam que parte significativa dos escravos dessas regiões vinha do quadrilátero do açúcar e do sul de Minas Gerais, assim como das províncias do Rio de Janeiro e da Bahia. O levantamento revelou a intensa mobilidade espacial das migrações internas no estado, um aspecto até então pouco estudado da história pESQUISA FAPESP 215  z  85


Distribuição no estado Os japoneses se concentraram primeiro no oeste de São Paulo e depois se pulverizaram por todas as regiões JAPONESES

1920

N = 24.435 n 0% n  0,01% - 1% n  1,01% - 5% n  5,01% - 12,09%

2010

N = 23.904 n 0% n  0,01% - 1% n  1,01% - 5% n  5,01% - 43,25% Fonte observatório das migrações em são paulo

de São Paulo no século XIX. “Procuramos cobrir uma lacuna na literatura e mostrar como a migração interna e externa são fenômenos muito interligados que continuam a impactar a formação social paulista”, explica Rosana. Durante 1885 e 1927 entraram em terras paulistas por volta de 2,5 milhões de imigrantes estrangeiros atraídos pela expansão da cafeicultura e crescente urbanização. A primeira expansão da cafeicultura foi concentrada inicialmente nas regiões de Campinas até Araraquara. No início do século XX, o plantio do café se expande rumo à ocupação do território para o oeste do estado. Trabalhadores recém-desembarcados em Santos ra-

pidamente ocupam as novas fronteiras agrícolas. Esse foi o grande período das imigrações europeias incentivadas pelo governo brasileiro. A maior comunidade a chegar a São Paulo entre os anos de 1872 e 1929 foi a italiana, seguida pela portuguesa, espanhola, alemã e japonesa. Padrões de ocupação

Cada nacionalidade assumiu um padrão de ocupação diferente. Enquanto a de portugueses em São Paulo acompanhou a expansão da fronteira agrícola para oeste, os japoneses tiveram uma dispersão maior pelo estado, reunindo suas famílias nas cidades próximas ao porto de Iguape, no Vale do Ribeira, até a região

entre Araçatuba e Presidente Prudente. O rico conjunto de mapas que compõe o Atlas detalha a dinâmica de imigração de todas as nacionalidades de imigrantes entre os anos de 1920 e 2010. Em 1927 foi encerrado o subsídio à imigração internacional e a crise econômica global alterou a dinâmica imigratória. A elite industrial paulistana cresceu e o empresariado de origem imigrante estabeleceu raízes em Ribeirão Preto, Franca, São Carlos e Bauru, criando ricos polos industriais nas regiões. Os anos 1970 testemunharam a crescente pulverização dos fluxos migratórios rumo ao interior, padrão que continua até hoje por conta da melhor qualidade e menor custo de vida. Em razão da modernização agrícola e difusão da indústria, orientada pela instalação de eixos rodoviários do estado, o interior vem ganhando progressivamente uma relevância populacional, política e econômica. “As cidades interioranas têm forças endógenas e seu desenvolvimento se deve muito aos fluxos migratórios”, diz Rosana. A pesquisa mostra, por exemplo, como a presença de libaneses e japoneses estimulou o florescimento de zonas de comércio, ao passo que os italianos, portugueses e alemães cultivaram a agricultura e impulsionaram a indústria de São Paulo. Entre 1872 e 1950 estima-se que mais de 1 milhão de

Bolivianos em São Paulo, em 2012: leva mais recente de imigrantes 86  z  janeiro DE 2014


banco de imagens observatório das migrações em são paulo

italianos entraram no estado, seguidos Os portugueses sempre ocuparam todo o território por 1 milhão de portugueses, 600 mil paulista, embora em maior número no passado espanhóis, 200 mil japoneses, 200 mil alemães e 100 mil libaneses. portuguESES Os conflitos políticos na Europa em meados do século XX provocaram grandes movimentos de 1920 dispersão populacional. Nesse período, São Paulo testemunhou a chegada de novas nacionalidades. A diversidade N = 167.198 n 0% “A partir de 1930, os migratória n  0,01% - 1% especialistas tinham n  1,01% - 5% um olhar mais centran  5,01% - 38,69% atual vai do na imigração interna de nordestinos que demandar vieram trabalhar em São Paulo, mas nossa uma estrutura 2010 pesquisa mostra codiferenciada mo foi importante a chegada de uma nova de políticas leva de imigrantes de mão de obra qualificapúblicas N = 53.414 da, especialmente den 0% n  0,01% - 1% pois da guerra, como n  1,01% - 5% os gregos, poloneses, n  5,01% - 56,30% russos e ucranianos que chegaram ao estado impulsionados por dar o conhecimento como bolivianos, peruanos, paraguaios, conjunturas políticas sobre as imigrações coreanos, chineses e senegaleses, angomuito específicas”, exe, assim, auxiliar na lanos que chegaram para trabalhar na plica a pesquisadora. implementação de indústria têxtil e no comércio. Estima-se Diferentemente dos políticas públicas que esses contingentes cheguem a mais períodos anteriores, a mais eficientes. Di- de 500 mil pessoas vivendo na cidade. imigração do pós-Seferentemente dos “Temos uma diversidade maior do que gunda Guerra Mundial fluxos anteriores, a em outras épocas. Isso vai demandar é quase inteiramente imigração contem- uma estrutura diferenciada de políticas urbana e serviu para porânea é pautada públicas que reflitam sobre a segunda acelerar o crescimento por maior mobili- geração desses fluxos de imigração, asdas cidades paulistas dade. Os imigrantes sim como sobre a interiorização da imiem um ritmo inédito. agora viajam com gração internacional e as sucessivas idas Ao longo da década de maior velocidade e vindas das comunidades imigrantes.” 1950 houve um elevae nem sempre vêm O Observatório das Migrações também do crescimento populacional na Região com a intenção de se estabelecer defi- concluiu em 2013 a publicação dos últiMetropolitana da capital, que passou nitivamente, como entre 1850 e 1950. mos volumes de uma série de 12 estudos de 2.653.860 habitantes em 1950 para “A rotatividade migratória depende sobre as dinâmicas migratórias de São 4.739.406 em 1960, onde as migrações de onde o capital internacional tem ex- Paulo. A coleção Por Dentro do Estado rurais e urbanas, em especial de nordes- cedentes. Hoje, com um Nordeste mais de São Paulo mapeia o impacto dos fluxos tinos, permitiram que a metrópole tivesse dinamizado, o fluxo de trabalhadores migratórios em várias regiões do estado e mão de obra disponível para fazer des- desta região tende a diminuir, por exem- está disponível em www.nepo.unicamp. lanchar sua próxima etapa econômica. plo. Ao entender essa dinâmica do fluxo br/publicacoes/_colecao.html. n A chegada de imigrantes ajudou no de capital global é possível perceber a desenvolvimento econômico e expansão demanda por mão de obra nas cidades demográfica, mas encontrou um cresci- paulistas e as necessidades mais pontuais Projeto Observatório das Migrações em São Paulo (Fases e faces mento urbano desorganizado gerando, por políticas de atendimento à saúde e do fenômeno migratório no estado de São Paulo) (nº consequentemente, maior demanda por educação”, diz Rosana. Para ela, existe 2009/06502-2); Modalidade Projeto Temático; Coord. serviços públicos. Um dos objetivos do hoje um contingente populacional de Rosana Aparecida Baeninger/Unicamp; Investimento R$ 368.845,20 (FAPESP) / R$ 37.000,00 (CNPq) Observatório das Migrações é aprofun- imigrantes “invisíveis” em São Paulo, pESQUISA FAPESP 215  z  87


memória

Retratos fidedignos Desenhista, pintor, ceroplasta, Augusto Esteves foi o primeiro ilustrador científico do Instituto Butantan Neldson Marcolin

A Desenho da jararacuçu (Bothrops jararacussu) inteira e dissecada: objetivo foi mostrar a relação entre a glândula de veneno e a presa

88 | janeiro de 2014

ntes do pleno desenvolvimento da fotografia no final do século XIX, o único meio que os cientistas – em especial os naturalistas – dispunham para registrar a fauna e a flora eram a pintura e o desenho. Muitos deles, quase todos europeus, se tornaram mestres nessa arte, o que levou os museus de história natural e institutos de pesquisa a ter desenhistas técnicos entre seus funcionários. No Brasil ocorreu o mesmo. O Instituto Oswaldo Cruz e o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, o Museu Paranaense Emílio Goeldi, em Belém, e os institutos Biológico e Butantan, em São Paulo, utilizavam os serviços dos ilustradores científicos. Augusto Esteves (1891-1966) foi um desses artistas que emprestaram seu talento para colaborar com a ciência. Em 1912, ele foi o primeiro desenhista contratado por Vital Brazil para retratar répteis no Instituto Butantan. Anos depois Esteves se tornou ceroplasta (fazia moldagem em cera) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). No Butantan Augusto Esteves retratava serpentes usando bico de pena e óleo ou aquarela. Seus desenhos tinham uma característica única para a época. “As pranchas eram coloridas e sombreadas, algo que ninguém fazia quando desenhava


fotos  1 e 3 Instituto Butantan

animais”, diz Osvaldo Augusto Sant’Anna, pesquisador do Laboratório de Imunoquímica do Butantan e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Toxinas. “Os principais centros especializados em soros antiofídicos do mundo eram o Instituto Pasteur, na França, e o comandado por Vital Brazil aqui em São Paulo. Vi os desenhos em bico de pena dos desenhistas franceses e não achei nada parecido com o que Esteves fazia aqui.” Sant’Anna é neto do desenhista e o bisneto mais velho de Vital Brazil, além de ser um dos poucos descendentes do cientista que se tornou pesquisador. Ele conta que Esteves é paranaense de São José da Boa Vista e completou seu primeiro ano de idade na cidade de Avaré; veio para São Paulo aos 13 anos com o irmão Lindolpho, onde trabalhou no comércio e estudou à noite fazendo cursos de pintura. Aos 17 anos ganhou a medalha de prata da Exposição do Centenário da Abertura dos Portos, realizada no Rio de Janeiro. Começou então a ter aulas com Pedro Strina, pintor conhecido por suas paisagens e retratos. Como não podia pagar, fazia os serviços de limpeza no ateliê do artista. Quando conheceu a família Brazil, Esteves encantou-se com Alvarina, a segunda filha de Vital. Os dois se casaram em 1919 e tiveram seis filhas. Nesse mesmo ano, toda a família mudou-se para Niterói, onde o cientista apostou numa empreitada privada: fundar o instituto que leva seu nome, para pesquisar e produzir produtos veterinários, biológicos

1

1 Acima, detalhes da cascavel (Crotalus terrificus terrificus) 2 Augusto Esteves em autorretrato 3 Coral (Micrurus lemniscatus): sombras do desenho ajudam a mostrar o movimento da cobra

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e farmacêuticos. Esteves foi nomeado diretor administrativo pelo sogro. Em 1934, o artista voltou para São Paulo e trabalhou no Instituto Pinheiros, na Santa Casa de Misericórdia e no Departamento de Dermatologia da FMUSP. Sua missão era reproduzir lesões dermatológicas em moldes de cera (ceroplastia) para auxiliar os professores nas aulas. “Seus moldes foram muito usados nos cursos de medicina legal e para perícias, tal a semelhança com os originais”, diz Sant’Anna. Muitas das centenas de peças feitas por ele podem ser vistas no Museu Histórico da FMUSP. Esteves também realizou exposições individuais, expondo quadros com outros temas, como paisagens e retratos, e cultivava as lembranças do interior ao compor poemas caipiras, escritos utilizando a fonética regional.

Em 2012 foi lançado o livro Serpentes, de Henrique Moisés Canter, em edição do próprio Instituto Butantan, como uma homenagem aos nove artistas que passaram pela instituição registrando répteis em desenhos acurados. Augusto Esteves é o que abre a obra por ter sido o primeiro deles e pela qualidade das ilustrações. Hoje as instituições de pesquisa praticamente extinguiram o posto de desenhista científico – para encontrá-los é preciso recorrer aos sites de busca da internet. “É uma pena”, lamenta Nelson Papavero, pesquisador aposentado do Museu de Zoologia da USP. “Para retratar alguns animais e plantas o desenho é insubstituível, porque só com ele é possível ver detalhes mais nítidos do que nas fotos.”

3

PESQUISA FAPESP 215 | 89


Arte

Tragédia em tom menor Longa de estreia de Caru Alves de Souza aborda questões sociais de um ponto de vista subjetivo Márcio Ferrari

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O

desafio que a diretora Caru Alves de Souza se impôs em seu primeiro longa-metragem, De menor, com estreia prevista para este semestre, foi abordar questões frequentes no debate sobre a realidade brasileira, mas sem aderir às facilidades com que costumam ser tratadas. No filme, fala-se de menores infratores e de um Estado punitivo que não cumpre suas funções primordiais. Em vez de certezas e condenações, De menor opta pela ambiguidade e abre mão do institucional para se concentrar nas repercussões subjetivas desses assuntos “maiores”. “A sociedade brasileira está julgando muito facilmente, por isso decidi criar situações que o espectador e os personagens não têm total capacidade de julgar”, diz Caru. “Abri possibilidades de que eles estejam errados.” O efeito dessas escolhas tem se mostrado poderoso – em outubro, De menor dividiu o prêmio de melhor longa do Festival do Rio com O lobo atrás da porta, de Fernando Coimbra. “O filme consegue, de modo muito bem pensado e expressivo, evitar que a tragédia social


do menor infrator se transforme em espetáculo”, diz o cineasta Eduardo Escorel, coordenador do curso de pós-graduação em cinema documentário da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. A história do filme passou por um processo de pesquisa e mudança até chegar ao que Escorel definiu como “uma sensível transfiguração ficcional” do funcionamento da Justiça no Brasil. A primeira aproximação de Caru aos temas do longa foi por meio das histórias reais contadas por uma prima que trabalha como defensora pública em Santos (SP). Entre outras coisas, a cineasta se impressionou com o envolvimento pessoal entre a advogada e os menores infratores. Conseguiu obter permissão para assistir a algumas audiências, observou que “as histórias se repetiam e nenhuma tinha final feliz” e os menores, na maioria, eram negros e pobres. De início, a ideia era polarizar o roteiro entre a advogada e um ou vários dos infratores que só viera a conhecer profissionalmente.

fotos  Divulgação

Antagonista íntimo

Havia aí, em termos dramatúrgicos, os riscos de determinismo e obviedade. Para Caru, seria mais interessante diminuir – ou eliminar – a distância entre a advogada e os réus. Os dilemas de Helena (Rita Batata) em relação aos menores infratores chegaram ao ponto ideal de subjetividade quando seu irmão, Caio (Giovanni Gallo) – um personagem secundário na primeira versão do roteiro –, ganhou o perfil de um adolescente suspeito de crime e sob investigação, só que branco e de classe média. Caio tornou-se uma espécie de antagonista íntimo (ele e Helena são órfãos e moram sozinhos na mesma casa). “A história dos dois irmãos passa a ser a mesma”, diz Caru. “Eliminamos a possibilidade de que o filme viesse a ser sobre uma advogada idealista que defende pessoas que não têm nada a ver com a realidade dela.” Num dado momento, Helena chega a evocar privilégios de classe para tentar convencer o juiz (Caco Ciocler) a não encarcerar o irmão. A virada no argumento levou Caru a buscar um colaborador, o corroteirista Fábio Meira. Para que a narrativa levasse o espectador aos mesmos conflitos da advogada, o ponto de vista é exclusivamente dela (exceto em uma cena, que pode ou não ser pro-

Helena (Rita Barata), à esq. e Caio (Giovanni Gallo), abaixo, personagens de De menor: opção pela ambiguidade

jeção da personagem). “Helena começa o filme olhando para fora e não percebe que seu mundo interno está desmoronando”, diz Escorel. “Caru adotou indicações visuais muito felizes ao mostrar a personagem no início diante de um mar aberto e no fim voltada para o próprio corpo numa banheira.” A desorientação que Helena vive ao longo do filme foi construída em detalhes com a equipe. A encenação e a fotografia (de Jacob Solitrenick) se constroem de zonas de luz e de sombra, muitas vezes desconcertando o espectador. “A câmera gruda na personagem, os planos são fechados, reforçando a ideia de que nossa percepção do mundo é sempre parcial”, diz Caru. Ao espectador é dado entender as coisas aos poucos. “No início, a relação de Helena com o garoto pode ser qualquer uma”, diz Escorel. Também as cenas entre a defensora, o juiz e o promotor (Rui Ricardo Diaz) guardam forte ambiguidade. São personagens cujo papel profissional é de atrito, mas que, por sempre se encontrarem, têm uma relação rotineira e afetuosa. O modo de retratar a tensão nessas cenas foi filmar integralmente cada uma das falas dos personagens em separado, o que permitiu montá-las segundo a “troca de olhares”. A fase da montagem serviu como prova das linhas adotadas no roteiro e na filmagem. “Os tempos são esgarçados por princípio, mas o filme tinha que ser sem gorduras, concentrado nos dois personagens”, diz Caru. A versão final foi cortada até chegar a 77 minutos. O formato enxuto dá ainda mais força e significado às tensões do enredo. “É como se a sociedade se desmontasse como um todo”, diz Escorel. n

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conto

A suspeita

–N

ão me venham com bobagem; eu também estou convencido de que erramos feio, não há dúvida, mas daí a concluir que nós o levamos à loucura é demais! Uma pessoa assim já nasce de parafuso solto, vive um equilíbrio instável, basta uma tensão súbita e o sujeito desaba, o equilíbrio se rompe. Além disso, pelo que vocês estão dizendo, o diagnóstico foi feito agora e já se passaram oito anos desde que tudo aconteceu. O grupo pequeno e compacto escuta atentamente o homem alto de cabelos grisalhos, que lhes fala da porta da sala em tom de autoridade incontestável. Sua voz é forte e de timbre grave. Estão todos de pé e parecem nervosos. Um deles faz uma pergunta que mal se ouve. O homem alto responde. – Eu discordo. Em primeiro lugar, oito anos é muito tempo. Por que agora e não antes? Muita coisa deve ter acontecido com ele nesses oito anos. Em segundo lugar, a tensão que havia era da época, não foi uma tensão provocada por nós, as coisas foram acontecendo quase sem a gente perceber, ninguém combinou nada, quando ele se aproximava a gente só mudava de conversa, sem nenhuma agressão, nenhuma acusação. – Começou por causa daquele sorriso enigmático dele – diz alguém da roda. – Exatamente, um sorriso idiota; prestava atenção nas conversas e não falava nada, só sorria. Podia ser uma notícia ruim, aliás, era só notícia ruim, prisão, cassação. Mesmo assim, ele parecia achar graça. Um escárnio. Se alguém lhe dirigia o olhar, mostrava ainda mais os dentes. Pensem bem: nunca opinava, nunca se soube o que ele pensava daquilo tudo. Mas ele estava sempre ali, ouvindo. Como é que não se ia desconfiar de um cara assim? Silêncio. Ninguém diz nada. Passam-se cinco segundos, dez. O homem alto volta a falar:

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– Também nunca se soube de onde ele veio. Vocês estão dizendo que ele foi internado em Santos, que a família é de lá. Mas, para nós, naquele tempo, ele era um cara sem passado, sem referências. É verdade que nunca perguntamos diretamente. Mas quando os rumores começaram, tentamos mapear, investigar um pouco aqui e ali; nem o Mario que dividia o alojamento com ele sabia de onde ele era, em que cidade nasceu, quem eram os pais dele. Era um tipo soturno, não tinha amigos, não tinha mulher. Tirando o Nestor, quem andava com ele? Ninguém. E Nestor era mais um parceiro de pesquisa do que propriamente amigo – O que o Nestor dizia dele? – Pergunta alguém. – Dizia que ele era mais um esquisitão, dos tantos gênios e disléxicos que pululam aqui na Física, e que ele era crânio em analítica. – Então quem foi que lançou a suspeita? – Eu sei lá quem foi? Pode ter sido qualquer um de vocês. Eu é que não fui. Nem eu nem o Nestor. Alguém o teria visto entrando na sala do tal de Vitor, o cara do SNI, que se instalou na Reitoria. Ou saindo da sala. E daí? Ele pode ter entrado na sala errada, ou pode ter sido chamado por algum motivo explicável. Ou pode nem ter sido ele, a informação não era categórica. Foi assim que começou, como um rumor. Mas o motivo mesmo foi o sorriso bobo. Foi como se, de repente, o rumor explicasse o sorriso que até então ninguém conseguia entender. De repente tudo se encaixava: ele era um informante. Alguém diz: – O Nestor explicou que ele tinha medo de falar porque só entendia de ciência, o sorriso forçado dele era uma defesa quando a conversa era outra. – E sempre era outra, não é mesmo? Ninguém discute ciência em rodinha de corredor, discute

zé vicente

B. Kucinski


num seminário, não na hora do cafezinho, e só as pessoas da área. – Demorou para ele perceber o gelo? – Pergunta um rapaz da roda que parece mais jovem que os demais. – Demorou, até nisso ele era devagar. Ele foi se afastando aos poucos, até que passou a só conversar com o Nestor, mesmo assim, pouco. – Disse o Mário que ele começou a beber. Primeiro, uns tragos à noite, depois de modo descontrolado. Então teve aquele episódio de convulsão e ele parou de beber; foi quando pediu a transferência. – Uma perda, sem dúvida, eu li os trabalhos dele, tem cabeça boa demais para se enfiar naquele campus avançado, no meio do nada. – Tem não, tinha... um esquizofrênico não tem uma cabeça, tem duas... Novo silêncio. Continuam todos de pé, parecem petrificados. Passados quinze segundos de absoluto silêncio, o homem alto e grisalho volta a falar, agora em tom ainda mais peremptório. – Já admiti que cometemos uma grande injustiça. Foi um comportamento de grupo, talvez nos tenha faltado maturidade, discernimento, ouvir melhor o Nestor; mas a culpa mesmo foi da situação, do clima, do medo, a gente se fechava, cada grupinho era um gueto. E do sorriso cretino dele. Foi uma espécie de efeito colateral da ditadura. É como diz o filósofo, o homem e suas circunstâncias. O sorriso era do homem, o DNA da loucura também já estava nele, as circunstâncias foram da ditadura. E ponto final. B. Kucinski é professor aposentado da ECA/USP, jornalista e escritor. É autor de Jornalistas e revolucionários e Jornalismo econômico, entre outros livros. Sua primeira ficção, K., foi finalista de vários prêmios literários. Este conto faz parte da antologia Você vai voltar pra mim, que está sendo publicada pela Cosac Naify.

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resenhas

Vencedores e perdedores Antonio Corrêa de Lacerda

No mundo em que mandam os mercados.... os cidadãos estão divididos entre vencedores e perdedores. Os primeiros, ao acumular capital financeiro, gozam do “tempo livre” e do “consumo de luxo”. Os demais se tornam dependentes crônicos da obsessão consumista e do endividamento, permanentemente ameaçados pelo desemprego e, portanto, obrigados a competir desesperadamente pela sobrevivência Luiz Gonzaga Belluzzo

O capital e suas metamorfoses Luiz Gonzaga Belluzzo Editora Unesp, 192 páginas, R$ 32,00

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que as crises do capitalismo têm a ver com a financeirização em curso na economia mundial? Como a hegemonia da corrente principal do pensamento econômico tem influenciado as decisões no âmbito da política econômica, a concentração do capital, e a exploração do trabalho? A partir de indagações como essas Belluzzo nos oferece importante reflexão utilizando-se do método e da interpretação próprios da economia política, recorrendo às ideias econômicas de Marx e Keynes, mas indo além na sua análise interdisciplinar incorporando visões, entre outros, de filósofos como Berman e Marcuse. No primeiro dos cinco ensaios, “Introdução à democracia radical de Marx, pensador da modernidade”, o autor faz uma análise crítica do capitalismo, principalmente a partir da inspiração marxista e keynesiana, revelando sua contemporaneidade para a compreensão da economia capitalista, suas nuances e peculiaridades. Em “O capital e a ontologia do ser social”, segundo ensaio, pode-se apreender uma reflexão da economia política, ainda em Marx, agregando Lukács. Evidencia-se aqui um contraponto essencial na relação poupança e investimento da visão ortodoxa, lembrando que “para Marx, como para Keynes, a acumulação de capital, o investimento, gera poupança e não ao revés, como pretendem as teorias convencionais” (p. 84). Isso faz muita diferença, pois, no diagnóstico da ortodoxia, é preciso abrir mão do consumo presente para gerar poupança e daí o investimento. Na visão da economia política ali desenvolvida, o processo é justamente o contrário. O investimento é incentivado via crédito e a atividade daí gerada é que proporcionará, como um resultado do processo, a poupança. Por sua vez, o terceiro ensaio “Concorrência, crédito e crise: considerações a partir de Marx”,

há uma interessante análise da financeirização da economia e um contraponto ao que considera uma visão equivocada de parte relevante de analistas de esquerda, que tende a separar capital produtivo e financeiro. “O capital a juros, como forma de existência do capital, realiza a necessidade de perpétua expansão e valorização do capital para além dos limites de seu processo mais geral e ‘elementar’ de circulação da produção” (p. 88). O processo descrito, destaca, é a única forma de o capital manter-se reproduzindo-se aliando a renovação tecnológica e a concentração. Não há, portanto, para Belluzzo, dois mundos distintos, um no campo produtivo, outro financeiro, mas ao contrário um único que se autossustenta, se mantém e se reproduz. Interligando este ensaio com o anterior, “A transfiguração neoliberal e a construção da crise de 2008”, o autor aprofunda a análise da crise norte-americana de 2008, suas causas e efeitos. Ultimando a reflexão, no quinto ensaio, “Do Estado de bem-estar às portas da barbárie”, Belluzzo discute a ausência de uma ordem econômica no pós-guerra que crie as condições para um desenvolvimento. É a partir dessas análises que o autor vai buscar elementos para uma reflexão sobre o indivíduo e a sociedade. A grande transformação em curso limita as escolhas e a essência da individualidade. Isso vale tanto para o seu papel de trabalhador quanto para o de consumidor. O trabalhador, agora muitas vezes conectado 24 horas e a “flexibilização” do horário móvel ou do “trabalho em casa”. O consumidor, assediado pela propaganda fomentadora da “mimetização dos padrões de consumo”, na expressão de Celso Furtado – uma infindável sensação de necessidades não satisfeitas e um incentivo ao endividamento. É uma armadilha em que a visão de bem-estar está excessivamente dependente da posse, ou “acesso” a mais bens e serviços, o que é, obviamente, inviável para a grande maioria das pessoas. Não obstante, impelidas a tal, sob pena de se sentirem, elas próprias, obsoletas em um mundo de aparência, imediatismo e frugalidade. Antonio Corrêa de Lacerda, professor-doutor e coordenador do Programa de Estudos Pós-graduados em Economia Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é doutor pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).


fotos  eduardo cesar

O dia seguinte ao bóson de Higgs

Contribuição para a história do rádio

U

A

m problema comum em livros de divulgação científica escritos por pesquisadores é a pequena distinção que os autores fazem entre o que se sabe e as teorias ainda especulativas que o autor quer defender. Nas obras de física isso é ainda mais comum, de forma que O cerne da matéria, de Rogério Rosenfeld, é um desejado sopro de ar fresco nesse tema. O físico teórico da Unesp relata a incrível história da evolução da chamada física de altas energias, que busca compreender as partículas e forças que compõem o Universo. Essa narrativa culminou com a descoberta do bóson de Higgs, anunciada com pompa em 2012. E ainda não tem data para terminar, com grandes questões em aberto, como a natureza desconhecida da matéria escura – que, ao que parece, é muito mais representativa do conteúdo total do Universo do que os constituintes da matéria convencional, descritos no modelo padrão da física de partículas. Com didatismo e capítulos bem delimitados, Rosenfeld conduz como poucos a história entrelaçada da evolução do conhecimento sobre a matéria e dos surtos tecnológicos exigidos para sondar níveis de energia cada vez maiores, culminando com a construção do LHC (Large Hadron Collider), o acelerador de partículas do Cern onde o bóson de Higgs foi identificado. O físico admite que, apesar de todo o oba-oba que se faz em torno do futuro da física e da busca de uma “teoria final”, é possível que o LHC acabe não entregando novas pistas para essa busca. “É concebível que o LHC descubra apenas o bóson de Higgs e mais nada. Esse é o pior pesadelo de um físico de partículas”, escreveu. Rosenfeld afirma que até agora nenhum indício de modelos que vão além do modelo padrão foi encontrado. Isso era inesperado, por exemplo, para os físicos teóricos defensores da supersimetria, que esperavam achar partículas novas previstas pela teoria. “O clima na Divisão de Teoria do Cern após 4 de julho de 2012 é o que eu chamo de pHd: post-Higgs depression”, brinca o físico, asseverando que isso pode mudar se uma novidade aparecer no LHC. Salvador Nogueira

O cerne da matéria Rogério Rosenfeld Companhia das Letras 216 páginas R$ 39,50

Túlio de Lemos e seus admiráveis roteiros: rádio, arte e política Irineu Guerrini Júnior Terceira Margem 229 páginas R$ 38,90

o procurar material antigo sobre a Rádio Gazeta de São Paulo (1943-1960), Irineu Guerrini Júnior descobriu por acaso o que classifica de “verdadeiro tesouro”. Ele achou cerca de 8 mil páginas de roteiros de programas de rádio e televisão escritos entre 1941 e 1956 por um dos grandes roteiristas do período, Túlio de Lemos, nome que caiu no esquecimento. Os milhares de folhas mimeografas estavam armazenados na biblioteca do Museu Lasar Segall, especializada em comunicação, e haviam sido doados provavelmente há décadas por parentes. Guerrini, pesquisador do Centro Interdisciplinar de Pesquisas da Faculdade Cásper Líbero, começou então um trabalho de análise dos roteiros que resultou no livro Túlio de Lemos e seus admiráveis roteiros: rádio, arte e política. Lemos (1909-1978) foi um promissor cantor de música lírica nascido em Ponta Grossa, no Paraná, que desistiu da carreira depois de ter tuberculose óssea. Fez carreira como radialista em São Paulo, especialmente na Rádio Tupi e na TV Tupi, ambas do grupo dos Diários e Emissoras Associadas. Na rádio, escreveu centenas de roteiros; na TV, pelo menos dois programas roteirizados por ele causaram sensação nos anos 1950: Antarctica no mundo dos sons, superprodução musical que ia ao ar aos sábados à noite, e O céu é o limite, com perguntas e respostas, baseado no americano The 64,000 dollar question. Uma das características dos roteiros analisados é o uso contínuo da dramatização, “mesmo aqueles que documentam aspectos da realidade da sua época”, com personagens, música e efeitos sonoros. O pesquisador também lista outras propriedades dos roteiros de Lemos: inovação da linguagem radiofônica, crítica social e de costumes, reflexões sobre o próprio rádio e tratamento inventivo dos temas musicais. Sobre esse último item, Guerrini conclui: “Túlio praticamente esgotou os usos possíveis de música no rádio, ao menos nos limites estéticos e técnicos do seu tempo”. O livro é uma boa – e rara – contribuição à história do rádio em São Paulo. Neldson Marcolin PESQUISA FAPESP 215 | 95


carreiras

Empreendedorismo  |  Mudança de rumo

Candidatos a empreendedores Especialista em incubadora indica o caminho para novos empresários de tecnologia Em uma recente palestra no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), Sergio Risola, gerente do Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), localizado na Cidade universitária, perguntou à plateia, formada por alunos da graduação ao doutorado, quem gostaria de ter a sua própria empresa. “Para minha surpresa e de todos da mesa, acima de 50% dos quase 250 alunos responderam sim a minha pergunta”, conta Risola. Para ele isso demonstra que as universidades e os professores deveriam se engajar mais na formação de seus alunos para serem empreendedores. À frente da incubadora de empresas, ele tem uma experiência rica em 96 | janeiro DE 2014

receber candidatos a empresários que querem desenvolver tecnologia e fazer inovação. Já passaram pelo Cietec, em 15 anos, mais de 500 empresas, sendo que 130 saíram da incubadora e caminham com as próprias pernas mantendo um nível de sobrevivência acima de 90%. “Cerca de um terço das empresas incubadas no Cietec é de pessoas que vieram da vida acadêmica, com mestrado, doutorado, pós-doc e com passagem pelos ICTs [institutos de ciência e tecnologia]”, diz Risola. “No início são pessoas com ideias mas sem empresa.” As incubadoras são o ambiente mais propício para esses iniciantes porque, além da riqueza da rede de contatos formada

entre as próprias start-ups, empresários e investidores que frequentam essas instituições, contam com as consultorias gratuitas e espaço a um custo menor que o de mercado. Antes de tudo, o Cietec e outras instituições congêneres pedem aos interessados um plano de negócio em que seja explicitado

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Risola: dedicação e paixão pelo negócio são fundamentais para o sucesso


fotos 1 cietec 2  eduardo cesar  ilustraçãO  daniel bueno

o que será feito e em quanto tempo, se há propriedade intelectual e qual a percepção da inovação, se incremental, quando algum conhecimento novo foi agregado a um produto, processo ou sistema, ou radical, quando a inovação é inédita. “Nós queremos saber qual a necessidade de buscar conhecimento.” No caso dos candidatos a empresário que saíram da universidade sempre deve existir uma complementaridade do conhecimento nas universidades e ICTs, no Brasil ou no exterior. Ao se candidatarem ao Cietec, os futuros empreendedores passam por um curso de 40 horas para decidir se querem seguir esse caminho. “Pedimos ao candidato para fazer uma reprogramação na vida profissional e também mostramos o que ele vai enfrentar. Muitos desistem ou percebem que ainda não estão preparados e voltam mais tarde”, diz Risola, que também é professor do curso de empreendedorismo e novos negócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. Entre as características pessoais para um novo empreendedor, Risola diz que ser um bom formador de equipe, saber liderar, delegar, insistir, não ter medo de errar, além de não desistir diante das dificuldades, tudo isso tem sentido, mas o mais importante é a dedicação e paixão pelo sucesso do negócio. Outra coisa lembrada por Risola é a escolha dos sócios. As brigas entre eles são responsáveis por quase 5% da mortalidade de empresas na incubadora, e seria maior se não houvesse a adequada intervenção dos gestores nas situações de falta de entendimento entre os sócios. Para Risola, é preciso escolher bem porque ninguém chega ao sucesso sozinho e as tarefas da empresa são variadas e exigem tempo.

Mudança de rumo

Divisor de águas Executivo decide deixar grandes empresas para dar aulas O percurso de Esteban Ferrari, de 43 anos, um professor realizado profissional e pessoalmente, começou com o curso de engenharia mecatrônica na 2 Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Depois passou por duas grandes empresas multinacionais e agora dá aulas em cursos de pós-graduação em instituições como a Fundação Instituto de Administração (FIA) da USP e a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), na capital paulista, além de trabalhar como coach executivo e de carreira. “A única ocasião em que trabalhei como engenheiro foi durante um estágio de um ano que fiz na área técnica na Cofap, tempo suficiente para saber que não era o que eu queria fazer.” Depois trabalhou durante seis anos na Allison Transmission, fabricante de câmbios automáticos para ônibus e caminhões, divisão da GM do Brasil. Durante três anos foi instrutor técnico na área de pós-venda, no treinamento de distribuidores e concessionários, e por mais três anos coordenou os serviços de pós-vendas. “Era uma área muito operacional e eu queria trabalhar com estratégia e planejamento. Em 1999 decidiu fazer um curso de especialização em administração na Fundação Getúlio Vargas. Foi então trabalhar na Telefônica como analista sênior na área de marketing. Durante 10 anos na empresa, ocupou os cargos de gerente e superintendente de

marketing. A vida profissional ia muito bem, mas a longa jornada de trabalho como executivo impedia que se dedicasse aos dois filhos. “Foi quando comecei a me questionar se queria mesmo seguir carreira em empresas.” Entre as ideias de mudança uma lhe agradava especialmente, a de dar aulas, porque gostava de temas ligados à área de gestão de pessoas e comportamental, disciplinas cursadas na especialização na FGV e no MBA empresarial feito na Fundação Dom Cabral em 2002. “Era um caminho possível, mas para mudar era preciso coragem e eu estava acomodado.” Em suas férias em maio de 2009 decidiu fazer o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. “Foi um marco na minha vida, um divisor entre o antes e o depois.” Em São Paulo ficaram mulher, filhos e todo o estilo de vida a que estava acostumado. Durante 30 dias ele caminhou 800 quilômetros por um percurso que, segundo ele, não tem nada de místico. “É um caminho de autorreflexão, em que tive a oportunidade de me conhecer melhor”, diz. Na volta, comunicou sua decisão de se desligar da empresa. Em fevereiro de 2010 começou seu mestrado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e o seu tema de pesquisa foi transições de carreira. “Estudei um fenômeno e me analisei ao mesmo tempo”, diz. Ferrari diz sempre uma frase a seus alunos: “A resposta para o que queremos fazer no futuro está quase sempre relacionada com alguma coisa que fizemos no passado e nos deu muito prazer”. PESQUISA FAPESP 215 | 97


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