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Pesquisa FAPESP abril de 2018

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abril de 2018 | Ano 19, n. 266

As aplicações e os limites dos códigos criados por cientistas da computação para resolver grandes e pequenos problemas da sociedade

Ano 19  n.266

algoritmos Fábrica da Qualcomm poderá inserir o Brasil na cadeia produtiva do chip

Queda de meteorito há 250 milhões de anos no centro do país gerou terremoto e tsunami

A MEI, fórum de empresários, tornou-se protagonista no debate sobre inovação

Pesquisadores repensam lugar do modernismo paulistano na história da literatura brasileira

Nova política de biocombustíveis premia produtores mais eficientes e deve ampliar a oferta


O que a ciência brasileira descobre você encontra aqui

12 edições por R$ 100 Condições especiais para estudantes e professores

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fotolab

A beleza do conhecimento em imagens

Sua pesquisa rende fotos bonitas? Mande para imagempesquisa@fapesp.br Seu trabalho poderá ser publicado na revista.

Selfies na floresta Animais que circulavam pela floresta ou invadiam plantações de mandioca acionaram automaticamente câmeras presas a árvores na região do rio Juruá, oeste da Amazônia. O objetivo das armadilhas fotográficas instaladas por Mark Abrahams e Hugo Costa, estudantes de doutorado sob orientação do ecólogo paraense Carlos Peres, professor da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, era identificar os destruidores dos roçados: cutias, pacas e veados-mateiros (à esq.) foram os mais frequentes, em concordância com relatos dos ribeirinhos e com os índices de caça. Suçuaranas (no alto) e aves de rapina (à dir.), além de outros animais, passaram pelas estações de selfie mais raramente e sem danificar as plantações.

Imagens enviadas por Mark Abrahams, obtidas durante doutorado na Universidade de East Anglia

PESQUISA FAPESP 266 | 3


abril  266

CAPA Por que os algoritmos têm impacto crescente na sociedade p. 18

ENTREVISTA Elisa Reis Socióloga quer projetos comparativos para melhor entendimento dos fenômenos sociais p. 26

POLÍTICA DE C&T

CIÊNCIA

32 Bioenergia Nova política promete ampliar oferta de biocombustíveis

50 Geociências Meteorito causou terremoto e tsunami no centro do Brasil há 250 milhões de anos

37 Estudo mostra como produzir mais etanol na África e na América Latina 39 Cooperação MEI, fórum de empresários ligado à CNI, coordena diálogo sobre inovação 44 Ações afirmativas Universidades acolhem estudantes e pesquisadores transgêneros 48 Sensoriamento Ferramentas analisam dados de queimadas e incêndios florestais

54 Física Trabalho teórico propõe nova forma de parar a luz 56 Stephen Hawking indicou que buracos negros podem emitir radiação e encolher 60 Ecologia Extração de madeira e agropecuária reduzem biodiversidade da Caatinga 64 Cardiologia Primeiro transplante de coração no país faz 50 anos, mas ainda faltam doadores 68 Obituário Morreu Ruth Nussenzweig, pioneira das vacinas da malária

p. 60

TECNOLOGIA 70 Microeletrônica Fábrica da Qualcomm poderá colocar o Brasil no time dos produtores de semicondutores 76 Agricultura Nanocápsulas diminuiriam o uso de agroquímicos, mantendo a eficiência biológica


www.revistapesquisa.fapesp.br Leia no site todos os textos da revista em português, inglês e espanhol, além de conteúdo exclusivo

vídeo youtube.com/user/pesquisafapesp

p. 87

HUMANIDADES 82 Literatura Pesquisadores repensam a Semana de Arte Moderna de 1922

p. 56

87 Urbanismo Reforma no Rio de Janeiro, no começo do século XX, ainda é objeto de polêmica

11 Dados Publicações científicas sobre zika e microcefalia

SEÇÕES

78 Pesquisa empresarial Líder em medicamentos genéricos, a EMS investe no mercado de inovação radical

3 Fotolab 6 Comentários 7 Carta da editora 8 Boas práticas Especialistas propõem mais transparência na atribuição de autoria de papers

Mercúrio: ribeirinhos em risco Crescem níveis de mercúrio em peixes de áreas alagadas por hidrelétricas na Amazônia bit.ly/vmercuriberinhos

12 Notas

92 Memória Há 100 anos, gripe espanhola matou 30 milhões de pessoas em todo o mundo

Invertendo a seta do tempo Como uma partícula fria transfere calor para a quente sem violar princípios da termodinâmica bit.ly/vsetatempo

podcast  bit.ly/PesquisaBr

96 Carreiras Títulos universitários obtidos no exterior precisam ser revalidados no país

p. 96 Ilustração da capa Nik Neves

Médicos falam sobre a situação atual e as perspectivas da febre amarela no Brasil bit.ly/PBr16mar18


Revista impressa Reportagem on-line Galeria de imagens Vídeo Rádio

contatos revistapesquisa.fapesp.br redacao@fapesp.br PesquisaFapesp

comentários

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Desigualdade

Chega a ser ridículo a revista Pesquisa FAPESP representar a desigualdade de resultados escolares com um erro de ortografia previsível (“Expansão desigual”, edição 264). A posição implícita é bem séria, porque reflete a ignorância em relação aos fenômenos linguísticos e sociais que esta representação esconde. A revista poderia, em vez disso, noticiar estudos que apontam soluções até óbvias que nenhum governo leva em conta. Sírio Possenti Departamento de Linguística na Unicamp

pesquisa_fapesp

Avançamos na universalização do acesso à escola, mas continuamos reproduzindo desigualdades.

Juliana Reis

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6 | abril DE 2018

Frequentar a escola é o primeiro passo. Agora é trabalhar para melhorar a qualidade. Kátia Morinaga Honda

Epilepsia

Ao ler a reportagem “Marcas da epilepsia” (edição 265), verifiquei que ao final do texto aparecia uma série de dados do pesquisador e do projeto. Tendo em vista a importância dessas informações, inclusive quando existe o envio de dados ou materiais para o exterior, sugiro que a revista passe a incluir também a informação sobre a aprovação ética do projeto, indicando o número do parecer de aprovação e do Comitê de Ética em Pesquisa que aprovou. Dessa forma, penso que estaremos reforçando a importância dos procedimentos de avaliação ética, assim como da transparência das informações, como a

revista já o faz indicando os projetos e seu financiamento. Maria Mercedes Bendati

Vídeos

Sobre o vídeo “Mercúrio: ribeirinhos em risco”, seriam as hidrelétricas as vilãs ou elas que fazem aparecer o problema que está oculto? Temos que reconhecer urgentemente que a defesa da intocabilidade da Amazônia somente tem incentivado ocupação clandestina, desordenada e poluidora. Precisamos assumir esse fato e discutir o uso sustentável da região, gerando receita para ser revertida em recuperação e monitoramento.

Ricardo Molto Pereira

É um desafio tentar conciliar as necessidades econômicas das hidrelétricas com o custo ambiental que acarretam, especialmente a longo prazo. Junte-se a isso outras formas de exploração predatória da floresta amazônica e, se nada for feito, a própria produção de energia por parte das hidrelétricas será afetada, já que a preservação da floresta é fundamental para o ciclo de chuvas em todo o Brasil, não só na região amazônica. Lola Vita

É, no mínimo, comovente que, em meio a tantas dificuldades que circundam a produção científica em nosso país, os caras consigam desenvolver pesquisas como essas (vídeo “Invertendo a seta do tempo”). Moises Venicios

Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

A mais lida do mês de março no Facebook ecologia

As engrenagens da floresta bit.ly/engrenafloresta264

52.394 pessoas alcançadas 294 reações 6 comentários 464 compartilhamentos

ilustraçãO fabio otubo

Conteúdo a que a mensagem se refere:


Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

carta da editora

José Goldemberg Presidente Eduardo Moacyr Krieger vice-Presidente Conselho Superior Carmino Antonio de Souza, Eduardo Moacyr Krieger, Ignacio Maria Poveda Velasco, fernando ferreira costa, João Fernando Gomes de Oliveira, José Goldemberg, Marco Antonio Zago, Marilza Vieira Cunha Rudge, José de Souza Martins, Pedro Luiz Barreiros Passos, Pedro Wongtschowski, Vanderlan da Silva Bolzani Conselho Técnico-Administrativo Carlos américo pacheco Diretor-presidente

Algoritmos, chips e elites Alexandra Ozorio de Almeida |

diretora de redação

Carlos Henrique de Brito Cruz Diretor Científico fernando menezes de almeida Diretor administrativo

issn 1519-8774

Conselho editorial Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio Túlio Costa, Eugênio Bucci, Fernando Reinach, José Eduardo Krieger, Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Marisa Lajolo, Maurício Tuffani, Mônica Teixeira comitê científico Luiz Henrique Lopes dos Santos (Presidente), Anamaria Aranha Camargo, Ana Maria Fonseca Almeida, Carlos Américo Pacheco, Carlos Eduardo Negrão, Fabio Kon, Francisco Antônio Bezerra Coutinho, Francisco Rafael Martins Laurindo, José Goldemberg, José Roberto de França Arruda, José Roberto Postali Parra, Lucio Angnes, Luiz Nunes de Oliveira, Marie-Anne Van Sluys, Maria Julia Manso Alves, Paula Montero, Roberto Marcondes Cesar Júnior, Sérgio Robles Reis Queiroz, Wagner Caradori do Amaral, Walter Colli Coordenador científico Luiz Henrique Lopes dos Santos diretora de redação Alexandra Ozorio de Almeida editor-chefe Neldson Marcolin Editores Fabrício Marques (Política de C&T), Glenda Mezarobba (Humanidades), Marcos Pivetta (Ciência), Carlos Fioravanti e Ricardo Zorzetto (Editores espe­ciais), Maria Guimarães (Site), Bruno de Pierro (Editor-assistente) repórteres Christina Queiroz, Rodrigo de Oliveira Andrade e Yuri Vasconcelos redatores Jayne Oliveira (Site) e Renata Oliveira do Prado (Mídias Sociais) arte Mayumi Okuyama (Editora), Ana Paula Campos (Editora de infografia), Júlia Cherem Rodrigues e Maria Cecilia Felli (Assistentes) fotógrafos Eduardo Cesar e Léo Ramos Chaves banco de imagens Valter Rodrigues Rádio Sarah Caravieri (Produção do programa Pesquisa Brasil) revisão Alexandre Oliveira e Margô Negro Colaboradores Bernardo França, Bruno Algarve, Daniel Kondo, Fabio Otubo, Marcos de Oliveira, Marina Quintanilha, Nik Neves, Renato Pedrosa, Suzel Tunes, Victória Flório Revisão técnica Fernando Cendes, George Matsas, Francisco Laurindo, Luiz Augusto Toledo Machado, Luiz Nunes de Oliveira, Maria Beatriz Borba Florenzano, Plínio Barbosa de Camargo, Oswaldo Novais, Ricardo Trindade, Roberto Marcondes Cesar Junior, Sérgio Robles Reis Queiroz, Walter Colli

É proibida a reprodução total ou parcial de textos, fotos, ilustrações e infográficos sem prévia autorização Tiragem 27.000 exemplares IMPRESSão Plural Indústria Gráfica distribuição Dinap GESTÃO ADMINISTRATIVA FUSP – FUNDAÇÃO DE APOIO À UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO PESQUISA FAPESP Rua Joaquim Antunes, no 727, 10o andar, CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP FAPESP Rua Pio XI, no 1.500, CEP 05468-901, Alto da Lapa, São Paulo-SP Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia Governo do Estado de São Paulo

A

revista britânica The Economist publicou em dezembro passado trechos de um artigo escrito por um programa de inteligência artificial que havia sido alimentado com reportagens do semanário. O resultado mostrou o poder e as limitações do aprendizado de máquina: o texto imitava o estilo de escrita dos jornalistas e falava de temas frequentemente cobertos pela revista, usando frases gramaticalmente corretas –­ mas que não faziam sentido. Os algoritmos por trás dos programas ainda não são capazes de escrever este editorial, mas essas sequências de regras e procedimentos lógicos, aplicadas a um conjunto de dados, levam à solução de problemas cada vez mais variados: do caminho para casa com menos trânsito, passando pela recomendação de músicas e filmes até a compra e venda de ações na bolsa e o controle dos estoques, a manutenção e a logística de plantas industriais. A reportagem de capa desta edição (página 18) conta como são criados os algoritmos e traz algumas de suas aplicações presentes e futuras. Sua onipresença se deve à facilidade de coletar e armazenar grandes quantidades de informações (Big Data), processadas por computadores cada vez mais rápidos. Os chips, ou circuitos integrados, são o elemento básico de praticamente todos os equipamentos eletrônicos, incluindo os computadores. Em um mundo cada vez mais dependente desses equipamentos, integrar a indústria mundial de fabricação de chips é um passo importante para o desenvolvimento de equipamentos e soluções inovadores. A partir do anúncio da norte-americana Qualcomm de instalar no Brasil uma fábrica para produzir um chipset, ou série de chips, o repórter Yuri Vasconcelos apresenta um retrato abrangente (página 70) das tentativas brasileiras de entrar nesse segmento industrial.

A Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) nasceu para elevar a importância da inovação nas estratégias das empresas industriais. Fórum organizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a MEI completa 10 anos com uma agenda que busca fortalecer os esforços para incorporar a inovação no cotidiano das empresas. Sua atuação, objeto de reportagem à página 39, procura influenciar políticas públicas e o ambiente institucional, assim como compartilhar experiências de sucesso que permitam acelerar a adoção de estratégias de inovação. A MEI congrega a liderança empresarial do setor industrial; as elites brasileiras são o objeto de pesquisa da socióloga política Elisa Reis. A posição institucional é a chave do seu conceito de elite: ela é formada por pessoas que controlam recursos materiais e simbólicos, ocupando altos postos com capacidade de influenciar ou tomar decisões importantes. Em entrevista (página 26) ela fala do seu principal objeto de pesquisa: entender, frequentemente por meio de estudos comparativos com outros países, como a elite brasileira se relaciona com a pobreza e a desigualdade. Doutora pelo MIT em uma época na qual a instituição contava com poucas mulheres e estrangeiros, Reis é ativa em organizações científicas internacionais. Às vésperas de se aposentar, pretende manter a pesquisa e a docência – “um momento em que me sinto constantemente desafiada é quando dou aulas” – e defende a produção de conhecimento como um esforço coletivo. Reconhece o anseio pela originalidade, mas considera que a tendência contribui para uma fragmentação excessiva, que dificulta a consolidação e generalização de resultados: “O trabalho em equipe é fundamental para a pesquisa acadêmica”. PESQUISA FAPESP 266 | 7


Boas práticas

Crédito a quem merece Especialistas propõem estratégias para garantir o reconhecimento justo de todos os que contribuíram para a elaboração de um artigo científico Um painel de especialistas e editores de periódicos, reunido pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, divulgou um conjunto de recomendações para melhorar a transparência na atribuição de autoria de artigos científicos. As orientações foram publicadas em fevereiro em um artigo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e sua principal novidade é a proposta de disseminar uma metodologia criada em 2014, capaz de reconhecer 14 diferentes tipos possíveis de contribuição que um indivíduo pode fazer a um paper, mesmo que a ajuda tenha sido pequena e seu responsável nem chegue a assinar o artigo. As categorias incluem escrita, coleta de dados, realização de experimentos, desenvolvimento de softwares ou algoritmos, administração do projeto, obtenção de recursos, entre outros (ver Pesquisa FAPESP nº 221). Denominado CRediT (Contributor Roles Taxonomy), esse sistema foi proposto por um consórcio de especialistas dos Estados Unidos e do Reino Unido e já começou a ser adotado por vários periódicos, como os da plataforma de revistas científicas PLOS, Cell, Neuron e American Journal of Human Genetics. “Uma descrição mais sistemática das contribuições de autores é um pré-requisito para o crédito devido a papéis que são instrumentais para o processo científico, 8 | abril DE 2018

especialmente aqueles que frequentemente são ignorados ou desvalorizados”, escreveu em seu blog a bióloga Veronique Kiermer, editora executiva das revistas PLOS e uma das autoras do estudo. “Coletar dados, fazer curadoria, compartilhar um conjunto de informações e desenvolver uma abordagem metodológica que pode ser reutilizada por outros pesquisadores são contribuições-chave que nem sempre garantem a posição de primeiro autor, mas têm aplicações que vão além do artigo e merecem reconhecimento.” De acordo com o trabalho, não basta difundir a taxonomia. Também é preciso garantir que as informações sobre todas as contribuições estejam disponíveis nos metadados de cada artigo, que são as descrições das informações-chave do paper capazes de orientar sua classificação. Complementarmente, sugere-se combinar essa estratégia ao uso do identificador Orcid (sigla para Open Researcher and Contributor ID), uma assinatura digital e individual de 16 números que permite distinguir a produção científica de cada pesquisador, sem risco de confundi-lo com um homônimo (ver Pesquisa FAPESP nº 238). A associação do CRediT com o Orcid, de acordo com o grupo, ajudaria a recuperar de forma precisa e confiável o conjunto de contribuições de pesquisadores a publicações científicas, mesmo que eles não tenham sido incluídos


Quatro condutas reprovadas Sugestões da Academia Nacional de Ciências dos EUA para editores de periódicos

Autoria fantasma Autores que contribuem para o trabalho, mas não são mencionados, frequentemente para esconder algum conflito de interesses

› Recomendações

ilustração bernardo frança

Autor correspondente deve garantir que todos os que merecem ser autor assinem o artigo; declaração de conflito de interesses chancelada pelos autores

Autoria honorífica Indivíduos que, sem terem contribuído de forma substantiva para a pesquisa, assinam artigos apenas porque têm relevo ou influência

› Recomendações Periódicos devem exigir que cada autor tenha seu papel na produção do paper descrito de forma transparente

no rol de autores. Essa combinação, contudo, requer novos desenvolvimentos, pois os dados da taxonomia do CRediT ainda não são transferíveis para os registros do Orcid. De acordo com o painel de especialistas, agências de fomento poderiam ajudar, exigindo ou estimulando o uso desses métodos nos projetos que financiam. O trabalho é resultado de um workshop promovido pela Academia Nacional de Ciências em fevereiro de 2017 e tem como autora principal a geofísica Marcia McNutt, atual presidente da Academia e ex-editora da revista Science. As recomendações não se limitam à incorporação das metodologias. Segundo o texto, todas as revistas científicas deveriam adotar uma declaração padrão definindo os tipos de contribuição que qualificam um indivíduo a assinar um artigo (concepção e desenho do trabalho; coleta, análise e interpretação dos dados; criação dos softwares utilizados no estudo; entre outros). Essa declaração também deve estipular que todos os autores aprovaram o texto submetido,

Autoria órfã

Autoria forjada

Autores que contribuem materialmente para a pesquisa, mas têm seus nomes omitidos de forma injusta pela equipe

Autores involuntários que não participam da pesquisa, mas têm seus nomes incluídos sem autorização, em geral para melhorar índices de citação

› Recomendações Autor correspondente deve confirmar que todos os que merecem ser autor assinem o artigo; treinamento sobre boas práticas de autoria em universidades

concordaram com a participação que lhes foi atribuída e asseguraram que foram resolvidas eventuais questões relacionadas à integridade do trabalho detectadas antes da publicação, mesmo que não digam respeito à sua participação individual. Um alvo preferencial das recomendações é a figura do autor correspondente, aquele que assume a responsabilidade global sobre o artigo e se apresenta como interlocutor para a revista. Segundo as sugestões, deve fazer parte das obrigações do autor correspondente garantir que todos os autores aprovem o texto submetido e tenham acesso a dados registrados, análises e referências da literatura utilizados na pesquisa. Mas os editores não devem se contentar com isso. No caso da atribuição de autoria, devem eles próprios contatar todos os indivíduos que assinaram um artigo e assegurar que eles reconheçam o tipo de participação que lhes foi atribuída. Para desestimular o que o trabalho chama de “autoria fantasma”, define-se como obrigação do autor correspondente informar se o texto foi escrito com auxílio de algum

› Recomendações Periódico deve contatar todos os autores citados para confirmar que reconhecem sua contribuição para o artigo

profissional ou escritório de redação científica – se a participação de um ghost writer tiver sido decisiva, sugere-se adicioná-lo à lista de autores. A preocupação do painel, contudo, é com conflitos de interesses. Se uma empresa ou organização com interesse na divulgação dos dados ajudou a redigir o artigo, isso precisa ser declarado (ver quadro). Caso o nome de algum autor tenha sido suprimido em versões anteriores do manuscrito, isso também deve ser comunicado para prevenir a existência de “autores órfãos”, aqueles que contribuíram, mas foram esquecidos na elaboração do artigo. Instituições de pesquisa e ensino superior devem se juntar ao esforço, discutindo políticas sobre atribuição de autoria e garantindo que todos os seus pesquisadores sigam os critérios predefinidos. A Academia criou um site, intitulado “Transparência na contribuição de autores na ciência” (bit.ly/TACS266), em que informa quais periódicos já adotaram as recomendações. Os publicados pelo grupo Nature e pelo Public Library of Science (PLOS) estão entre os que seguem esses critérios. n

Artigo científico MCNUTT, M. et al. Transparency in authors’ contributions and responsibilities to promote integrity in scientific publication. PNAS. fev. 2018.

PESQUISA FAPESP 266 | 9


Getty Images for TechCrunch

Startup bilionária e fraudulenta Uma fraude no universo de startups do Vale do Silício foi alvo de punição severa. A Securities and Exchange Commission (SEC), agência federal que regula mercados de capitais nos Estados Unidos, acusou formalmente a empresa de biotecnologia Theranos, sua fundadora, Elizabeth Holmes, e o ex-presidente da companhia Ramesh Balwani de cometerem “uma fraude elaborada que durou anos, em que exageraram ou fizeram declarações falsas sobre a tecnologia, os negócios e o desempenho financeiro da empresa”. Para resolver o caso no âmbito da agência, Elizabeth Holmes aceitou pagar uma multa de US$ 500 mil e devolver os 18,9 milhões de ações da empresa que detinha. Dona de 50% da companhia, ela chegou a ter uma fortuna avaliada em US$ 4,5 bilhões e foi comparada a empreendedores como Steve Jobs e Mark Zuckerberg. Todo o dinheiro arrecadado pela empresa a partir de agora será destinado a indenizar investidores. Com sede em Palo Alto, na Califórnia, a Theranos dizia ter desenvolvido um equipamento para testes sanguíneos batizado de Edison, que seria capaz de fazer diversos tipos de exames, de colesterol a câncer, a partir da análise de poucas gotas de sangue. A startup chegou a levantar US$ 750 milhões de investidores, entre os quais Larry Ellison, fundador da Oracle. Há dois anos uma reportagem do The Wall Street Journal mostrou que a tecnologia não estava madura nem tinha escala. Os funcionários da empresa tinham dúvidas sobre a precisão dos exames – eles detectavam, por exemplo, índices mais baixos de colesterol do que os testes comuns. A promessa de chegar a um diagnóstico a partir de poucas gotas de sangue 10 | abril DE 2018

também era inflada, ainda que o método requeresse menos quantidade de sangue do que o usualmente necessário. Em uma ação fraudulenta, a empresa escondia estar utilizando métodos e equipamentos convencionais para produzir seus testes. Dos 240 tipos de exames oferecidos no site da Theranos, apenas 15 eram feitos pelo Edison. Em vez de gerar receitas prometidas de US$ 100 milhões em 2014, só alcançou a cifra de US$ 100 mil. “A história da Theranos é uma lição importante para o Vale do Silício”, disse Jina Choi, diretora do escritório regional da SEC em São Francisco, segundo a agência Reuters. “Empreendedores que se propõem a revolucionar ou produzir inovações disruptivas em um setor precisam falar a verdade aos investidores sobre o que sua tecnologia é realmente capaz de fazer, em vez de dizer o que se espera que ela faça um dia.”

Elizabeth Holmes em um evento em 2014: declarações falsas

Coleção de irregularidades A revista Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, publicada pela editora Hindawi, anunciou a retratação de um artigo científico divulgado em 2010 sobre os efeitos de um extrato homeopático utilizado por pacientes com câncer. Uma sucessão de motivos lastreou a decisão. A primeira foi a descoberta de informação incongruente: o artigo informava que o protocolo do estudo clínico havia sido aprovado em 2001 por um comitê de ética de uma clínica privada num subúrbio de Calcutá, na Índia, mas registros subsequentes davam conta de que o comitê só foi efetivamente criado em 2008. Os editores

solicitaram documentos que comprovassem a regularidade do protocolo e fizeram descobertas perturbadoras: o autor principal, Aradeep Chatterjee, havia sido preso em junho de 2017 por exercício ilegal da medicina –, não tinha a formação em homeopatia que alegava – assim como seu pai, o coautor Ashim Chatterjee, foi encarcerado em setembro. Ambos foram acusados de causar a morte de um paciente que tratavam. Outros três coautores foram procurados, mas a situação ficou ainda pior. Todos informaram que não sabiam da publicação do artigo nem haviam concordado com sua submissão.


Dados

Publicações científicas sobre zika e microcefalia

Número de publicações científicas

2.300

n Zika n Zika e microcefalia

Os surtos da febre zika na Polinésia Francesa (2013-14) e no Brasil

1.781

(iniciado em 2015) fizeram explodir o número de publicações científicas1 sobre a doença, que se espalhou pelas Américas (230 mil casos confirmados, sendo 137 mil apenas no Brasil, até final de 20172). Contribuiu para tal

390

a associação a doenças congênitas,

86

inclusive a microcefalia, detectada no segundo semestre de 2015 no Brasil3.

0

Até 2013

26

45

0

Todas as publicações

2016

Publ. ≥ 100 citações

Zika

Zika + microcefalia

303 71

1

2015

2014

378

2017

2018

Zika

Zika + microcefalia

Os 10 países com mais artigos sobre zika4 (2014-20181)

Total

4.455

840

79

35

O Brasil é o segundo nas listas

1

EUA

1.935

379

40

23

de países-sede de autores de

2

Brasil

674

212

22

16

3

China

346

57

2

2

trabalhos sobre zika ou sobre zika

4

França

269

43

14

4

5

Inglaterra

263

59

8

5

6

Itália

187

32

3

-

7

Índia

181

28

-

-

autores em 15% dos artigos sobre

8

Tailândia

178

11

5

2

o vírus, 25% naqueles sobre zika

9

Alemanha

158

23

-

-

e microcefalia, em 28% dos mais

10

Canadá

143

27

4

-

citados do primeiro grupo

19

Polinésia Francesa

55

10

15

4

e em 46% do segundo grupo.

Todas as publicações

e microcefalia, lideradas pelos Estados Unidos, inclusive entre artigos mais citados. O Brasil tem

Publ. ≥ 100 citações

Zika

Zika + microcefalia

Zika

Zika + microcefalia

As 10 instituições com mais artigos sobre zika5 (2014-20181) A Fiocruz, do Rio de Janeiro, é a

1

Fiocruz

218

69

11

8

2

Centro de Controle de Doenças (EUA)

202

34

10

3

3

USP

155

38

8

7

4 Univ. do Texas Med. Branch – Galveston

105

24

5

5

5

Universidade Harvard

103

22

4

3

6

Universidade Johns Hopkins

97

28

5

5

completam a lista das 10 instituições

7

Universidade de Londres

91

33

2

2

mais ativas em publicações: UFPE,

8

Universidade Emory

73

17

5

3

Unifesp, UFBA, Inst. Evandro Chagas,

9

Inserm (França)

73

14

4

-

Unicamp, UFMG e UFF (ordem

10

UFRJ

72

27

6

2

decrescente de participação).

organização que mais publicou sobre os dois temas no mundo e que tem as publicações mais citadas. No cenário nacional, além da Fiocruz, USP e UFRJ,

1 FonteS Web of Science Core Collection, todos os tipos de publicações, pesquisa em 17/03/2018, Coordenação de Indicadores de CT&I, FAPESP. 2 Até 04/01/2018, Organização Pan-americana da Saúde (OPAS). http://www.paho.org/hq/index.php?option=com_docman&task=doc_view&Itemid=270&gid=43297&lang=en. 3 Schuler-Faccini, L. et al., Possible association between Zika virus and microcephaly – Brazil, 2015. MMWR-MORBIDITY AND MORTALITY WEEKLY REPORT, V. 65, I. 3, p. 59-62, DOI: 10.15585/mmwr.mm6503e2, CDC, Atlanta, USA, Publ. 29/01/2016. 4 A Polinésia Francesa foi incluída por ser o país com a terceira maior participação entre artigos mais citados sobre zika e a quarta (com a França) entre os mais citados sobre zika e microcefalia. 5 Não estão incluídas agências de fomento, academias de ciências, redes de instituições e sistemas de universidades. As principais instituições das redes e dos sistemas foram consideradas.

PESQUISA FAPESP 266 | 11


Notas

O canto (quase) inaudível de um beija-flor 1

Comum em áreas montanhosas da Mata Atlântica brasilei-

Santa Teresa, no Espírito Santo, conhecida como terra

ra, no Uruguai e na Argentina, o beija-flor-preto (Florisuga

dos colibris, pela abundância dessas aves e por ser o

fusca) tem uma peculiaridade instigante: seu canto muito

local de nascimento do engenheiro-agrônomo Augusto

agudo atinge frequências que superam em muito a voz

Ruschi (1915-1986), estudioso de beija-flores e orquídeas.

de soprano (a mais aguda do ser humano) e é inaudível

Em 97% dos casos, o canto do beija-flor-preto consis-

para outras espécies de aves. Quarenta e oito espécies de

tia de três sílabas curtas. As aves em geral as emitiam

aves com perfil auditivo bem caracterizado são surdas ao

durante o voo, em interações com outros exemplares

canto de um Florisuga fusca. Elas ouvem bem sons agudos

da mesma espécie que estavam próximos a uma fonte

na faixa de 6 mil a 7 mil hertz (Hz), enquanto o canto

de alimento (Current Biology, 5 de março). Segundo os

principal do beija-flor-preto é formado por três sílabas

pesquisadores, a frequência dessas vocalizações é supe-

brevíssimas, com 6 centésimos de segundo cada uma,

rior à faixa auditiva já registrada para qualquer espécie

emitidas na frequência de 10 mil a 14 mil Hz, já próximo

de ave, inclusive as com boa audição como as corujas.

do limite auditivo humano. Havia relatos esporádicos

“Também registramos elementos harmônicos na faixa

de pesquisadores que observaram o beija-flor-preto

do ultrassom”, conta Mello. Ele e seu grupo ainda não

produzir sons muito agudos ou fazer com as mandíbulas

sabem por que essa espécie se tornou capaz de produzir

movimentos típicos de vocalização sem aparentemente

vocalizações tão agudas. “Talvez funcionem como um

produzir som. O grupo do neurobiólogo brasileiro Cláudio

canal de comunicação privado”, diz. Isso só deve ocorrer

Vianna de Mello, professor da Universidade de Saúde e

se o beija-flor-preto apresentar audição especializada

Ciência de Oregon, nos Estados Unidos, caracterizou o

em sons muito agudos. “Caso eles não tenham essa

canto do Florisuga fusca a partir de 887 registros sonoros

sensibilidade auditiva, essas vocalizações podem ter

de cerca de 50 exemplares das matas do município de

outras funções. Ambos os cenários são fascinantes.”

12 | abril DE 2018

Beija-flor-preto, que emite vocalizações mais agudas do que outras aves conseguem ouvir


Max Planck procura 20 novos diretores

autonomia para definir seus alvos de estudo, inclusive criar novos laboratórios, e recebem

fotos 1 sergio costa 2 Maximilian Dörrbecker / Wikimedia Commons  3 D. Willetts / Wikimedia Commons

financiamento para

Crianças em idade escolar no campo de refugiados de Kakuma, no Quênia

A Sociedade Max Planck

seus trabalhos até a

(MPG) da Alemanha

aposentadoria. “Há uma

iniciou um processo

liberdade incrível para

internacional de seleção

pesquisar o que quiser,

para contratar 20 novos

até mesmo mudar seu

diretores para suas

campo de estudos”,

unidades. A entidade, que

disse à revista Science a

faz pesquisa básica nas

bióloga alemã Christiane

áreas de ciências naturais

Nüsslein-Volhard,

e da vida e humanidades,

que ganhou o prêmio

publicou anúncios em

Nobel de Medicina em

revistas científicas

1995 quando era

divulgando os postos

diretora do Instituto

em aberto. As vagas

Max Planck de Biologia

abrangem áreas como

do Desenvolvimento

astrofísica e microbiologia

em Tübingen. A busca

terrestre. Fundada em

por novos diretores

1948, a MPG tem um

é uma oportunidade

orçamento anual de

para aumentar a

€ 1,8 bilhão (cerca de

representação feminina

R$ 7,4 bilhões) e 23 mil

no alto escalão das

funcionários, dos quais

unidades da MPG. Em

14 mil são pesquisadores,

2005, apenas 4,5% dos

distribuídos por 84

diretores de institutos

institutos situados em

eram mulheres.

território alemão e cinco

Atualmente, esse

A maioria dos países africanos, principalmente aqueles a

centros no exterior.

número chega a 15%,

leste e sul da África subsaariana, reduziu a desnutrição

Dezoito de seus

e a meta é atingir 18%

de crianças entre 2000 e 2015, embora cada país ainda

pesquisadores ganharam

em 2020. A MPG estima

apresente disparidades regionais. O Chade e a Somália

o Prêmio Nobel. Cada

que deverá trocar dois

receberam menor apoio internacional para a melhoria da

unidade de pesquisa é

terços dos seus 300

saúde infantil, viveram longos conflitos internos e apresen-

coordenada por um grupo

diretores de unidades

taram progressos mais modestos, segundo levantamento

de três a cinco diretores.

até 2030. A maioria dos

Os diretores são chefes

postos será aberta em

de grandes grupos de

razão da aposentadoria

pesquisa, contam com

de diretores.

3

O mapa da fome e da educação na África

Edifício da Sociedade Max Planck em Munique

sobre a desnutrição em 51 países africanos coordenados por Simon Hay, da Universidade de Washington, Estados Unidos (Nature, 28 de fevereiro). Realizado em colaboração com especialistas da Universidade de Oxford e do Imperial College London, ambos do Reino Unido, o estudo sobre

2

a nutrição e a saúde infantil indica que, no ritmo atual, nenhum país do continente atingirá a meta das Nações Unidas de acabar com a desnutrição até 2030. Trabalhando com dados de censos sobre peso e altura e nível educacional das crianças em milhares de vilas, os pesquisadores construíram mapas detalhados, que evidenciaram também grandes disparidades educacionais entre gêneros e localidades. Em uma região do Chade, os homens frequentam as escolas por cinco ou seis anos mais do que as mulheres. Na região centro-sul do Quênia, a escolaridade média é de 11 anos, enquanto nas comunidades rurais do nordeste do país a média cai para dois anos. Em um comentário publicado na mesma edição da Nature, o ganense Kofi Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas, afirmou que esse tipo de dado pode ajudar governos e agências internacionais a direcionar seus esforços para melhorar a educação e a alimentação na África. PESQUISA FAPESP 266 | 13


Sensores para línguas eletrônicas

laser para esculpir microssensores em filmes de grafeno ácido polilático, um polímero biodegradável e

1

Corpo mumificado do Homem de Gebelein A, visto sob luz natural, e as tatuagens no braço direito observadas sob luz infravermelha

2

As mais antigas tatuagens figurativas

Físicos de São Carlos e

bioabsorvente. “Uma das

de Campinas, no

vantagens da técnica é

interior de São Paulo,

poder processar sensores

desenvolveram uma

com geometrias

técnica de alta

complexas em diversas

precisão para fabricar

atmosferas, sem a

microssensores que

necessidade de salas

integram o sistema de

limpas ou máscaras”,

detecção de sabores

explica a física Kelly

das chamadas línguas

Tasso de Paula, aluna de

eletrônicas. Esse

doutorado de Mendonça

sistema é formado por

e primeira autora do

sensores microscópicos

estudo. Em testes iniciais,

que identificam

o microssensor distinguiu

diferenças nas

água pura de soluções

propriedades elétricas

contendo açúcar, sal de

de soluções aquosas.

cozinha e ácido clorídrico

O novo método de

(Optics and Laser

produção de

Technology, maio).

Adornar o corpo com tatuagens já era moda há mais

microssensores usa

tempo do que se imaginava. Dois corpos naturalmente

pulsos ultracurtos de

mumificados que integram o acervo do Museu Britânico,

laser para recortar filmes

em Londres, exibem o que os arqueólogos consideram

muito finos de um

ser as tatuagens figurativas mais antigas de que se tem

polímero à base de

notícia. As duas múmias (um homem e uma mulher)

grafeno depositado sobre

foram encontradas em covas rasas no fim do século

uma superfície de vidro.

XIX em Gebelein, no sul do Egito. As duas múmias – e

Com duração de frações

Entre 55 pesquisadores

outras quatro escavadas no mesmo sítio arqueoló-

de segundo, esse tipo

eleitos neste ano para

gico – estão expostas há décadas, mas as tatuagens

de laser permite controlar

integrar a Academia

só foram identificadas em uma análise recente, parte

melhor a quantidade

de Ciências do Mundo em

de um novo programa de pesquisa e conservação do

de energia que atinge

Desenvolvimento (TWAS),

museu. Foi necessário usar câmeras que detectam luz

o filme, possibilitando

há cinco pesquisadores

infravermelha para observar as tatuagens, pouco visíveis

realizar cortes e

de instituições brasileiras.

sob iluminação natural. Conhecido como Homem de

perfurações mais

São eles: o biólogo

Gebelein A, a múmia masculina, de um jovem morto

precisos. Nos

molecular Carlos Menck,

experimentos, o grupo do

da Universidade de São

físico Cleber Mendonça,

Paulo (USP); o

professor da Universidade

epidemiologista Cesar

de São Paulo (USP)

Victora, da Universidade

em São Carlos, usou o

Federal de Pelotas

Microssensor esculpido em filme de grafeno ácido polilático usado em sistema de detecção de sabores

com uma facada nas costas, exibe no braço direito duas imagens de animais com chifres. Para os pesquisadores, elas representariam um touro e um carneiro e seriam símbolo de força e poder. Já a Mulher de Gebelein tem uma tatuagem no ombro e outra no braço direito – as

Mais cinco brasileiros na TWAS

mais antigas encontradas em um corpo feminino. Uma

(UFPel); a engenheira-

delas consiste em uma sequência de quatro símbolos

-agrônoma Tsai Siu Mui,

semelhantes à letra S (Journal of Archaeological Science,

do Centro de Energia

1º de março). A datação indica que o homem e a mulher

Nuclear na Agricultura

de Gebelein viveram entre 5.400 e 5 mil anos atrás,

(Cena) da USP; o

antes da unificação do Egito sob o comando do primeiro

matemático espanhol

faraó, Menés. Em um comunicado à imprensa, Daniel

Lorenzo Díaz Casado, da

Antoine, curador de antropologia física do museu, disse

Pontifícia Universidade

que o achado indica que a prática de tatuar o corpo

Católica do Rio de

começou na África um milênio antes do que se pensava.

Janeiro (PUC-Rio), e

Essas tatuagens figurativas são quase contemporâneas

o físico Sylvio Canuto,

à que ainda é considerada a mais antiga: os desenhos

da USP. Eles se unirão a

geométricos no corpo de Ötzi, o homem do gelo encontrado nos Alpes entre a Áustria e a Itália. 14 | abril DE 2018

131 brasileiros já 3

membros da TWAS.


4

Em Washington, raridades sobre o Brasil

Sucesso no financiamento coletivo

foram apresentados em março em um documento depositado no repositório do National Bureau of Economic Research

Cerca de 60 mil itens que podem interessar a

Pesquisadores da Itália,

(NBER), dos Estados

pesquisadores de literatura e história brasileira

da Alemanha e dos

Unidos. Segundo o

e portuguesa estão novamente disponíveis na

Estados Unidos

trabalho, parâmetros

Biblioteca Oliveira Lima, da Universidade Católica

analisaram 728

consagrados para

da América, em Washington, Estados Unidos. Rea-

campanhas de

mensurar a qualidade

berta em 31 de janeiro, após dois anos fechada,

financiamento coletivo

dos projetos, como a

(crowdfunding) de

avaliação por pares, não

projetos de pesquisa para

têm correlação com o

avaliar o que poderia

sucesso do financiamento

influenciar o resultado

coletivo. “Em

dessa forma de captação

desvantagem quando

de recursos. As iniciativas

submetem projetos a

de arrecadação estiveram

agências de fomento,

hospedadas entre 2012

pesquisadores com menos

de Mello, vice-reitora da universidade e responsável pela

e 2015 na Experiment,

experiência têm mais

reabertura da biblioteca. O centro deverá funcionar de modo

uma plataforma digital

apelo entre o público. Isso

articulado com departamentos da instituição, buscando

de crowdfunding de Nova

sugere que os doadores

ampliar o intercâmbio com universidades brasileiras em

York. Os resultados são

priorizam não o mérito

pesquisas sobre políticas públicas, diplomacia, estudos ibero-

curiosos. Pesquisadores

científico do projeto, mas

-americanos, história do Brasil, cultura e língua portuguesa.

em início de carreira

a sua contribuição na

A socióloga brasileira Nathalia Henrich, pesquisadora da

alcançavam as metas de

formação do pesquisador”,

biblioteca e curadora interina da coleção, trabalha em uma

arrecadação com mais

conclui o estudo.

biografia de Oliveira Lima. Criada em 1916, a biblioteca

frequência do que os

Os autores alertam,

começou a funcionar em 1924, quando foram reunidos os

seniores. De modo

no entanto, que o

livros do diplomata espalhados pelos países em que viveu

semelhante, as mulheres

crowdfunding é uma

com a mulher, Flora. Uma das raridades é o livro Rervm

também apresentaram

forma complementar

per octennivm in Brasilia, de 1647, do qual há três cópias

taxas de sucesso mais

de financiamento, uma

no mundo. Escrito pelo holandês Gaspar Barleus, relata

elevadas do que os

vez que as quantias

episódios da vida de Maurício de Nassau em Pernambuco.

homens. Os resultados

arrecadadas são baixas.

a biblioteca formada pelo diplomata, escritor e jornalista

Versão atualizada em 08/05/2018

fotos  1 e 2 Trustees of the British Museum 3 Kelly Tasso de Paula / IFSC-USP  4 Nathalia Henrich

pernambucano Manoel de Oliveira Lima (1867-1928), um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, tem em seu acervo 6 mil livros raros e 600 obras de arte, além da correspondência trocada com intelectuais e políticos brasileiros e estrangeiros. “Estamos reestruturando o espaço e transformando-o em um centro de estudos brasileiros e ibero-americanos”, explica a astrônoma brasileira Duília

A biblioteca Oliveira Lima e reprodução do livro Rervm per octennivm in Brasilia, de 1647, do qual existem três cópias no mundo

PESQUISA FAPESP 266 | 15


Uma superfamília de 13 milhões de pessoas

1

fatores ambientais e comportamentais (Science, 1º de março). Por exemplo, ter genes favoráveis à longevidade

Treze milhões de pessoas

aumentaria em cinco

ligadas por laços de

anos o tempo de vida,

sangue ou casamento ao

enquanto fumar pode

longo de cinco séculos

encurtá-la em 10 anos. A

integram a maior árvore

análise da mega-árvore

genealógica já construída.

genealógica permitiu

A partir de informações

observar flutuações na

de 86 milhões de pessoas

expectativa de vida

disponíveis no site de

associada a fatores

genealogias Geni.com,

históricos, como a

o geneticista Yaniv Erlich,

Primeira e a Segunda

pesquisador da

guerras mundiais, ou

Universidade Columbia,

socioeconômicos, como

nos Estados Unidos,

o aumento da sobrevida

selecionou nomes e dados

infantil a partir de 1900.

sobre gênero, data e lugar

O estudo coordenado

de nascimento e morte de

por Erlich, hoje

13 milhões de indivíduos

pesquisador-chefe da

Uma longa temporada no espaço promove alterações no

(a maioria de ascendência

empresa My Heritage,

organismo que podem persistir por meses, mesmo após

europeia) de 11 gerações.

dona do Geni.com, indica

o retorno à Terra. Alguns desses efeitos começam a ser

As informações da

ainda que o casamento

conhecidos com os resultados preliminares do Twins Study,

gigantesca árvore

entre parentes próximos

realizado pela agência espacial norte-americana (Nasa)

genealógica permitiram,

diminuiu a partir de

com os irmãos e astronautas Scott e Mark Kelly, que são

por exemplo, estimar

1850, possivelmente por

gêmeos idênticos e compartilham a mesma constituição

quanto os genes

ter se tornado tabu, e

genética. Entre 2015 e 2016, Scott passou 340 dias a

influenciam a

como os seres humanos

bordo da Estação Espacial Internacional, enquanto Mark

longevidade: eles

se dispersaram pelo

permaneceu em terra. Algumas consequências transitórias

explicam apenas 16% da

planeta nos últimos

da vida em ambiente de microgravidade – perda de massa

duração da vida, menos

500 anos. Esse estudo

muscular e óssea, aumento na estatura e alterações no

que os 25% estimados

e outros em andamento

sistema circulatório – já eram conhecidas de testes com

anteriormente em um

podem ajudar a

astronautas que ficaram mais tempo no espaço. Mas ainda

estudo com gêmeos na

identificar genes que

não se havia dimensionado esses e outros efeitos desse

Escandinávia. A maior

aumentam o risco

ambiente em pessoas com as mesmas características

parte é determinada por

de doenças.

O astronauta Mark Kelly (à esq.) e seu irmão gêmeo, Scott, que passou quase um ano no espaço

Efeitos de uma longa jornada no espaço

genéticas. Exames feitos antes, durante e após a missão, universidades norte-americanas. Há mudanças passageiras, como o aumento da extensão dos telômeros (extremidades dos cromossomos, associadas à maior longevidade) durante a viagem ou a redução na acurácia e na velocidade dos movimentos após o retorno. Outras duram mais. Níveis de inflamação se tornaram mais elevados durante o voo e continuavam meses mais tarde. Seis meses após a missão, a expressão de 7% dos genes de Scott ainda não haviam retornado aos níveis de antes da viagem. Houve mudanças na ativação de genes ligados aos sistemas imunológico e de reparo de DNA e dos que controlam a

2

formação óssea e respondem a baixos níveis de oxigênio. Segundo comunicado divulgado em março pela Nasa, são mudanças mínimas, que indicam como o organismo responde ao ambiente. “Estamos começando a entender como as viagens espaciais afetam o corpo humano no nível molecular.” O estudo é considerado um passo inicial para saber o que ocorreria em uma viagem de três anos a Marte. 16 | abril DE 2018

Árvore genealógica de 6 mil indivíduos de sete gerações

fotos 1 Robert Markowitz / Nasa 2 Universidade Columbia  3 Babak Tafreshi / ESO

estão sendo analisados por pesquisadores da Nasa e de


Acesso mais difícil aos telescópios do ESO Desde 1º de abril tornou-se um pouco mais di-

diâmetro. Também permitiria à indústria nacional

fícil para os astrônomos brasileiros competir

participar de editais para a construção de novos

por tempo de observação em alguns dos mais

equipamentos, como o Extremely Large Telescope

avançados telescópios do mundo. O conselho do

(ELT), que deve ser o maior telescópio óptico do

Observatório Europeu do Sul (ESO), consórcio

mundo. Em nota divulgada em 12 de março, o

de 15 países europeus que gerencia modernos

ESO informou que o processo de adesão estaria

e potentes equipamentos astronômicos situa-

suspenso até o Brasil “se encontrar em condições

dos no Chile, decidiu em 7 de março suspender

de executar o acordo” e afirmou que continua

temporariamente o acordo de adesão do Brasil

aberto a acolher o país. A suspensão não deve

ao grupo na posição de membro-pleno (o único

afetar as colaborações em andamento. Em nota,

não europeu além do Chile). A entrada do país

o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e

no consórcio havia sido aprovada pelo conselho

Comunicações informou que “defende a partici-

do ESO em dezembro de 2010 e ratificada pelo

pação do Brasil no ESO e que faz gestões junto

governo brasileiro. Referendado pelo Congresso

ao governo federal pela confirmação da adesão a

Nacional em maio de 2015, o acordo de adesão

essa entidade multilateral”. A restrição de acesso

dependia, desde então, da sanção presidencial e

aos equipamentos do ESO, porém, não deve im-

do início dos pagamentos. O país se comprometeu

pedir avanços da astronomia nacional. Acordos

a contribuir com € 270 milhões, desembolsados

realizados pela FAPESP garantem tempo de uso

ao longo de 10 anos. A posição de membro-pleno

no Giant Magellan Telescope (GMT), com espelho

garantiria aos astrônomos brasileiros disputar

de 24,5 metros; no Grande Arranjo Milimétrico

tempo de observação em pé de igualdade com

Latino-americano (Llama), que poderá funcionar

os europeus em equipamentos como o Atacama

associado ao Alma; no Cherenkov Telescope Array

Large Milimeter/Submilimeter Array (Alma), o

(CTA), que estudará raios gama de alta energia; e

maior conjunto de radiotelescópios do mundo,

no Javalambre Physics of the Accelerating Universe

ou o Very Large Telescope (VLT), formado por

Astrophysical Survey (J-PAS), que deve produzir

quatro telescópios com espelho de 8,2 metros de

um mapa tridimensional da matéria no Universo.

Observatório Paranal, do ESO, no deserto de Atacama, no Chile

PESQUISA FAPESP 266 | 17


capa

{ O mundo mediado

por algoritmos} Sistemas lógicos que sustentam os programas de computador têm impacto crescente no cotidiano Bruno de Pierro

18 | abril DE 2018

foto  léo ramos chaves ilustraçãO freepik

O

s algoritmos estão em toda parte. Quando a bolsa sobe ou desce, eles geralmente estão envolvidos. Segundo dados divulgados em 2016 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), robôs investidores programados para reagir instantaneamente ante determinadas situações são responsáveis por mais de 40% das decisões de compra e venda no mercado de ações no país – nos Estados Unidos, o percentual chegou a 70%. O sucesso de uma simples pesquisa no Google depende de uma dessas receitas escritas em linguagem de programação computacional, que é capaz de filtrar em segundos bilhões de páginas na web – a importância de uma página, definida por um algoritmo, baseia-se na quantidade e na boa procedência de links que remetem a ela. Na fronteira da pesquisa em engenharia automotiva, conjuntos de algoritmos utilizados por carros autônomos processam informações captadas por câmeras e sensores, tomando instantaneamente as decisões ao volante sem intervenção humana. Embora influenciem até mesmo atividades cotidianas prosaicas, como a procura de atalhos no trânsito com a ajuda de aplicativos de celular, os algoritmos costumam ser vistos como objetos intangíveis pela população em geral – que sente seus efeitos, mas não conhece ou compreende seu formato e modo de ação. Um


Como se constrói um algoritmo

1 Identificação do problema É preciso definir o objetivo do algoritmo. Se o desafio for usar imagens para detectar algum tipo de câncer de forma

O que é um algoritmo

mais precisa, o cientista da computação poderá criar uma estratégia levando em conta as características dos tumores,

É uma sequência lógica de

2

passos para resolver um problema, que é escrita em

Organização da solução

linguagem de programação

as bases de dados disponíveis e os métodos possíveis de diagnóstico

A etapa seguinte é estabelecer

de computador

a sequência de passos para resolver o problema. No caso de diagnóstico de câncer, vasculhar imagens médicas disponíveis, comparar tumores e seus volumes e levantar dados sobre a evolução da doença e sua mortalidade

3 Tradução e desenvolvimento A solução, então, é convertida para uma linguagem de programação. Cada passo é traduzido em linhas de código, com comandos necessários para a sua execução. Há algoritmos com milhões ou até bilhões de linhas de código

Quem faz A criação de um algoritmo pode envolver equipes com dezenas ou

2

centenas de especialistas, dependendo de sua complexidade

Outros profissionais O cientista da computação necessita da orientação

1

de profissionais que dominam o problema a ser

Cientistas da computação

enfrentado. Podem ser

Idealizam a solução

sociólogos, demógrafos,

e identificam os passos

economistas, médicos,

para construir um

a depender do objetivo

algoritmo. Fazem a

4

ponte com profissionais de outras áreas

Algoritmos

3

Programadores São incumbidos de desenvolver códigos responsáveis por pedaços específicos de um algoritmo, sem necessariamente saber quais são as outras partes

Há algoritmos capazes de desenvolver outros algoritmos, modificando códigos de programação feitos por humanos PESQUISA FAPESP 266 | 19


pressões  faciais A Hoobox Robotics, empresa fundada em 2016 por pesquisadores da Unicamp, desenvolveu um sistema para ser instalado em qualquer cadeira de rodas motorizada e permite que pessoas tetraplégicas possam controlar o veículo utilizando apenas as expressões faciais. O algoritmo presente no software, que leva o nome de Wheelie, traduz até 11 expressões faciais, como um sorriso e uma sobrancelha levantada, em comandos para seguir em frente, retroceder e virar à direita ou à esquerda. O programa está sendo testado em 39 pacientes nos Estados Unidos, onde a empresa mantém uma unidade de pesquisa no laboratório da Johnson&Johnson, em Houston. O sistema utiliza uma câmera 3D que capta dezenas de pontos no rosto. “O usuário pode configurar um comando para cada expressão. Um sorriso, por exemplo, pode mover a cadeira para frente, um beijo, para trás”, esclarece o cientista da computação Paulo Gurgel Pinheiro, diretor da Hoobox. Para assimilar as principais expressões, o algoritmo do Wheelie foi abastecido com um conjunto de dados faciais de 103 motoristas de caminhão. “Firmamos uma parceria com uma companhia de transporte para instalar câmeras em caminhões e registrar as impressões faciais dos voluntários ao longo de três meses”, explica Gurgel.

Algoritmo traduz expressões do rosto em comandos para movimentar cadeira de rodas motorizada

20 | abril DE 2018

foto  hoobox robotics

Ex

algoritmo nada mais é do que uma sequência de etapas para resolver um problema ou realizar uma tarefa de forma automática, quer ele tenha apenas uma dezena de linhas de programação ou milhões delas empilhadas em uma espécie de pergaminho virtual. “É o átomo de qualquer processo computacional”, define o cientista da computação Roberto Marcondes Cesar Junior, pesquisador do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP). Tome-se o exemplo da sequência de passos realizada pelo algoritmo do Facebook. A escolha do que vai aparecer no feed de notícias de um usuário depende, em primeiro lugar, do conjunto de postagens produzidas ou que circulam entre os amigos. Em linhas gerais, o algoritmo analisa essas informações, descarta posts denunciados como de conteúdo violento ou impróprio, os que pareçam spam ou os que tenham uma linguagem identificada como “caça-cliques”, com exageros de marketing. Por fim, o algoritmo atribui uma nota para cada uma das publicações com base no Robôs são histórico da atividade do usuáresponsáveis rio, tentando supor o quanto ele seria suscetível a curtir ou por 40% das compartilhar aquela informação. Recentemente, o algoritmo decisões no foi modificado para reduzir o alcance de publicações oriunmercado de das de sites de notícias. ações brasileiro A construção de um algoritmo segue três etapas (ver infográfico na página 19). A primeira consiste em identificar com precisão o problema a ser resolvido – e encontrar uma solução para ele. Nessa fase, o cientista da computação necessita da orientação de profissionais que entendam da tarefa a ser executada. Podem ser médicos, no caso de um algoritmo que analisa exames de imagem; sociólogos, se o objetivo for identificar padrões de violência em regiões de uma cidade; ou psicólogos e demógrafos na construção, por exemplo, de um aplicativo de paquera. “O desafio é mostrar que a solução do problema existe do ponto de vista prático, que não se trata de um problema de complexidade exponencial, aquele para o qual o tempo necessário para produzir uma resposta pode crescer exponencialmente, tornando-o impraticável”, explica o cientista da computação Jayme Szwarcfiter, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A segunda etapa ainda não envolve operações matemáticas: consiste em descrever a sequência de passos no idioma corrente, para que todos possam compreender. Por último, essa descrição é


Sistemas pouco estudados Na coleção de uma revista sobre inteligência artificial*, foram publicados mais artigos descrevendo novos algoritmos do que trabalhos sobre o comportamento de algoritmos existentes Número de papers

n Papers sobre novos algoritmos n Papers que analisam algoritmos existentes

5.000

4.000

3.000

2.000

1.000 p0

a

0

p3

1900

1995

2000

2005

2010

2015

p

a

p0 9

* Anais da Neural Information Processing Systems Conference 8 5

Fonte rahwan et al. chosing the ai knowledge gap. arxiv, 2018

traduzida para alguma linguagem de programação. Só assim o computador consegue entender f os comandos – que podem ser ordens simples, operações matemáticas e até algoritmos dentro a de algoritmos –, tudo em uma sequência lógica c e precisa.bÉ nesse momento que entram em cena os programadores, profissionais incumbidos de escrever os algoritmos ou trechos deles. A depender da complexidade da missão, equipes extensas de programadores trabalham em conjunto e dividem tarefas. p3

14

d

f

Para

a

14 d

b

c

f

p3

f

Em sua origem, algoritmos são sistemas lógicos tão antigos quanto a matemática. “A expressão vem da latinização do nome do matemático e astrônomo árabe Mohamed al-Khwarizmi, que no século IX escreveu trabalhos de referência sobre álgebra”, explica a cientista da computação Cristina Gomes Fernandes, professora do IME-USP. Eles ganharam novos propósitos na segunda metade do século passado com o desenvolvimento dos computadores – por meio deles, foi possível criar rotinas para as máquinas trabalharem. A combinação de dois fatores explica por que suas aplicações no mundo real vêm se multiplicando e eles se tornaram a base do desenvolvimento de softwares complexos. O primeiro foi a ampliação da capacidade de processamento dos computadores, que aceleraram a velocidade da execução de tarefas complexas. E o segundo foi o advento do Big Data, o barateamento da coleta e do armazenamento de quantidades gigantescas de informações, que deram aos algoritmos a possibilidade de identificar padrões imperceptíveis ao olhar humano em atividades de todo tipo. A manufatura avançada ou Indústria 4.0, com sua promessa de ampliar a produtividade de linhas de produção, depende de algoritmos de inteligência artificial para monitorar plantas industriais em tempo real e tomar decisões sobre recomposição de estoques, logística e paradas de manutenção. c

U

m dos efeitos da disseminação dos algoritmos na computação foi o impulso à inteligência artificial, um campo de estudo criado na década de 1950 que desenvolve mecanismos capazes de simular o raciocínio humano. Com cálculos computacionais cada vez mais velozes e acervos de informação com os quais é possível fazer comparações estatísticas, as máquinas ganharam a capacidade de modificar seu funcionamento a partir de experiências acumu-

identificar parasitas

Aprimorar o diagnóstico de parasitoses usando

microscópio. “O profissional geralmente

visão computacional é o objetivo de um

consegue avaliar umas seis lâminas por vez.

projeto executado no IME-USP em colaboração

A intenção é automatizar esse processo”,

com o Laboratory of Image Data Science

afirma Finger. Parece simples, mas, sabendo

(LIDS) da Unicamp. O cientista da computação

que os algoritmos buscam identificar padrões,

Marcelo Finger, do IME, está testando um

qualquer ruído pode se tornar um obstáculo

algoritmo capaz de identificar parasitas

para os pesquisadores. “Uma coisa é o

processando imagens de lâminas com fezes

algoritmo conseguir identificar o parasita

de pacientes. “Já conseguimos identificar

na foto de um livro, outra é fazer o mesmo a

15 parasitas em humanos e alguns em animais,

partir de uma imagem em que o parasita

como bois, gatos e cachorros”, conta. Hoje, o

está rodeado de sujeira”, ressalva o

diagnóstico é obtido pela análise das fezes em

pesquisador.

PESQUISA FAPESP 266 | 21


E

m vez de considerar milhões de possibilidades, o algoritmo do programa arp rumou uma estratégia mais restrita. Foi abastecido com dados de partidas de Go disputadas entre os melhores competidores, fez uma análise estatística identificando as jogadas mais comuns e eficientes e passou a trabalhar com um conjunto pequeno de variáveis, logo vencendo os jogadores humanos. Mas o feito não parou aí. No ano passado, a DeepMind apresentou um f novo programa, o AlphaGo Zero, que superou o AlphaGo. E dessa vez a máquina não aprendeu a com seres humanos, mas apenas com a versão anterior do programa. b c As aplicações práticas desse tipo de tecnologia são cada vez mais frequentes. Algoritmos de inteligência artificial desenvolvidos pelo cientista da

p0

a p3

0

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14

d

computação Anderson de Rezende Rocha, professor do Instituto de Computação da UniProgramadores versidade Estadual de Campidevem estar nas (Unicamp), têm auxiliado investigações feitas pela Polícia conscientes das Federal. Rocha especializou-se em criar ferramentas de comimplicações de putação forense e inteligência artificial capazes de detectar seus trabalhos, sutilezas em documentos didiz Nick Seaver da gitais muitas vezes imperceptíveis a olho nu. “A tecnologia Universidade ajuda o perito, por exemplo, a confirmar se determinada foto Tufts ou vídeo relacionados a um crime são genuínos”, diz Rocha. Um dos casos em que os algoritmos estão sendo utilizados é na automatização de investigações sobre pornografia infantil. Constantemente, os policiais apreendem grandes quantidades de fotos e vídeos no computador de suspeitos. Se existirem arquivos com pornografia infantil, o algoritmo ajuda a encontrá-los. “Expusemos o robô a horas de vídeos pornográficos da internet para extrair dados. Tivemos que ensinar a ele o que é pornografia”, conta Rocha. Depois, para que pudesse distinguir a presença de crianças, o algoritmo precisou “assistir” a conteúdos de pornografia infantil apreendidos. “Essa etapa foi realizada estritamente por técnicos da polícia. Nós da Unicamp não tivemos acesso a esse material”, salienta. Rocha conta que a análise dos arquivos era feita sem muita automação. “Ao tornar esse processo mais eficiente, os investigadores da Polícia Federal ganharam tempo e capacidade para analisar maiores quantidades de dados”.

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9

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Infinidade de comandos f

Quantidade de linhas de código de algoritmos embutidos em diferentes produtos e serviços a

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d Aplicativo simples de iPhone f

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Fonte mccandles, d. knowledge is beautiful. harper collins publishers, 2014

10 mil Boeing 787 14 milhões GRANDE COLISOR DE HÁDRONS (LHC) 50 milhões Facebook 62 milhões software de automóveis Google

22 | abril DE 2018

100 milhões

STR / AFP / Getty Images

ladas e melhorar seu desempenho, em um processo associativo que mimetiza a aprendizagem. A capacidade de computadores vencerem humanos em jogos de tabuleiro mostra como esse campo tem evoluído. Em 1997, o supercomputador Deep Blue, da IBM, conseguiu pela primeira vez vencer o então campeão mundial de xadrez, o russo Gary Kasparov. Capaz de simular aproximadamente 200 milhões de posições do xadrez por segundo, a máquina antevia o comportamento do adversário várias jogadas à frente. Mas essa estratégia não funcionava em um jogo de origem chinesa, o Go, porque os lances possíveis eram numerosos demais para serem antecipados – o rol de possibilidades é maior do que a quantidade de átomos no universo. Pois, em março de 2016, a barreira do Go foi vencida: o programa AlphaGo, criado pela DeepMind, subsidiária do Google, conseguiu superar o campeão mundial do jogo, o sul-coreano Lee Sedol.


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O projeto, uma parceria com a Faculdade de Medicina e o Instituto da Criança do Hospital das p Clínicas da USP, busca criar um modelo matemático que permita fazer uma análise mais acurada do fígado e do cérebro de recém-nascidos. Em geral, a interpretação de imagens geradas por ressonância magnética baseia-se em modelos criados em outros países para homens adultos e brancos, o que pode gerar diagnósticos imprecisos em recém-nascidos. Mas, para que isso seja f viável, é preciso resolver problemas teóricos. “Ainda não sabemos se conseguiremos obter um a algoritmo cuja aplicação seja eficiente. Estamos c ainda estudando propriedades com basebna teoria dos grafos”, diz, referindo-se ao ramo da matemática que estuda as relações entre objetos de um determinado conjunto, associando-os por meio de estruturas chamadas grafos. O impacto dos algoritmos é objeto de análise de outros campos do conhecimento. “Algoritmos já estão desempenhando um papel moderador. Google, Facebook e Amazon conquistaram um f poder extraordinário sobre o que encontramos hoje no campo cultural”, avalia Ted Striphas, professor de história da cultura e da tecnolo14 a gia na Universidade do Colorado, Estados Unif dos e autor do livro Algorithmic culture (2015), b c a influência dessas ferramentas. que examina O antropólogo norte-americano Nick Seaver, pesquisador da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, dedica-se atualmente a um projeto baseado em pesquisa etnográfica e entrevistas com criadores de algoritmos de recomendação de músicas em serviços de streaming. Seu interesse é compreender como esses sistemas são desenhados para atrair usuários e chamar a sua atenção, trabalhando na interface de áreas como aprendizado de máquina e publicidade on-line. “Os mecanismos que controlam a atenção e suas mediações técnicas tornaram-se objeto de grande preocupação. A formação de bolhas de interesse e de opinião, as fake news e a distração no campo político são atribuídas a tecnologias desenhadas para manipular a atenção dos usuários”, explica. Sistemas de recomendação controlados por algoritmos tornaram-se peças-chave na indústria de entretenimento na internet. Em um artigo publicado em 2015 no periódico ACM Transactions on Management Information Systems, o engenheiro eletrônico mexicano Carlos Gomez-Uribe descreveu o funcionamento de conjuntos de algoritmos desenvolvidos pelo serviço de streaming Netflix que fazem rankings personalizados de séries e 0

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O software AlphaGo, do Google, venceu em 2016 o sul-coreano Lee Sedol em uma partida do jogo de tabuleiro Go

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uitos cientistas da computação trabalham com propriedades matemáticas, teoremas e questões lógicas relacionadas a algoritmos, independentemente da perspectiva de aplicações imediatas. Em muitas situações que requerem algoritmos, os únicos algoritmos conhecidos são muito ineficientes, que não funcionam, na prática, com grandes massas de dados. Alguns exemplos disso, são a fatoração de inteiros em primos (com grande importância em criptografia), e a roteirização de um robô soldador por vários pontos de solda. Existe uma pequena esperança de que algoritmos eficientes venham a ser encontrados para esses problemas. A formulação precisa disso é a questão “P versus NP”, considerado, ao mesmo tempo, um dos maiores desafios da computação e da matemática. Embora exista mais programação do que ciência básica no desenvolvimento de boa parte dos algoritmos usados no cotidiano, avanços em conhecimento de fronteira são essenciais para que novas aplicações possam ser exploradas no futuro. Marcondes Cesar, da USP, coordena um projeto de visão computacional, um tipo de inteligência artificial que consegue extrair informações de imagens simulando o funcionamento da visão humana. Essa técnica está sendo incorporada em diversos setores, com destaque para a emissão de diagnósticos médicos. “A visão computacional permite detectar anomalias com mais precisão e avaliar sutilezas em imagens de ressonância magnética, por exemplo.”

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2 bilhões

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filmes condizentes com o perfil dos usuários. O desafio é levar o cliente a escolher um programa em menos de 90 segundos – depois desse tempo a tendência é frustrar-se e perder interesse. O sucesso do ranking valorizou o passe profissional de Gomez-Uribe, que em 2017 se tornou coordenador de algoritmos e de tecnologias de produtos da internet do Facebook. A influência e o poder das grandes empresas da internet não dependem apenas da criatividade de seus programadores. Tem a ver, igualmente, com o acesso ao Big Data que elas acumularam e é processado por seus algoritmos, gerando informações valiosas. “O que impede outra empresa de desenvolver um aplicativo como o da Uber? Isso já foi feito. Mas os dados que a Uber dispõe sobre o trânsito e o comportamento dos usuários acumulados ao longo do tempo pertencem apenas à empresa e são valiosos”, diz Marcondes Cesar, da USP.

O

Teste de um protótipo de carro autônomo da Uber em São Francisco (EUA)

O escândalo envolvendo o vazamento de dados de usuários do Facebook, que fez a empresa perder US$ 49 bilhões de seu valor no mês passado, revelou uma vulnerabilidade que se imaginava incomum – algoritmos utilizados pela empresa Cambridge Analytica conseguiram obter dados do comportamento de 50 milhões de usuários do Facebook e os utilizaram para orientar campanhas nas redes sociais pela saída do Reino Unido da União Europeia e em favor da candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, que acabaram vitoriosas. O caso do Facebook é exemplar dos desafios éticos gerados pela disseminação do uso de algoritmos, embora o vazamento e uso indevido dos dados sejam apenas uma parte do problema. A oferta de dados tornou-se tão importante na construção de algoritmos quanto o desafio de programá-lo. “Analisar as características dos dados ofertados é fundamental na hora de construir um algoritmo, porque descuidos nesse momento podem provocar vieses nos resultados”, afirma Marcondes Cesar. Também é comum que, ao se balizarem por comportamentos humanos, os algoritmos reproduzam preconceitos. O Cloud Natural Language API, uma ferramenta criada pelo Google que revela a estrutura e o significado de textos por meio de aprendizado de máquina, desenvolveu tendências preconceituosas. Um teste feito pelo site norte-americano Motherboard mostrou que, ao analisar parágrafos de textos para determinar se eles apresentavam sentidos “positivos” ou “negativos”, o algoritmo classificou declarações do tipo “eu sou homossexual” e “eu sou uma mulher negra gay” como negativas. “Programadores que criam algoritmos inteligentes precisam estar conscientes de que o trabalho deles tem implicações sociais e políticas”, diz Nick Seaver,

2

peso do boi

Há algoritmos talhados para ajudar

com base em técnicas de visão

pecuaristas. A Projeta Sistemas,

computacional associando às

startup localizada em Vitória (ES),

imagens dos bois feitas por câmeras

criou um sistema computacional

seus respectivos pesos. Para isso,

chamado “Olho do Dono”, que se

foi necessário formar uma base de

baseia em imagens 3D para estimar

dados robusta. “Acompanhamos

o peso de um boi. “O processo de

pesagens de gado em fazendas

pesagem dos animais é muito

em todo o Brasil. A partir do registro

custoso e demorado, implicando

de milhares de imagens, pudemos

deslocamento dos bois, que podem

desenvolver nosso algoritmo”,

ficar estressados e até perder peso”,

diz Coutinho. O software começou

explica o cientista da computação

a ser desenvolvido em 2015 e

Pedro Henrique Coutinho, diretor da

começará a ser comercializado

Projeta. O software foi desenvolvido

em setembro.

24 | abril DE 2018

Sistema utiliza técnica de visão computacional para estimar o peso do gado


O CrowdPet é um aplicativo para smartphone

foto do animal perdido”, diz Fabio Rogério c

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d

por geolocalização do local onde foi feita a Piva, cientista da computação e diretor da

meio de um algoritmo, o sistema cruza dados

SciPet. O Centro de Controle de Zoonoses

referentes a fotos de animais perdidos

do município paulista de Vinhedo começou

cadastradas por seus donos e imagens de

a utilizar o aplicativo no ano passado para

animais avistados nas ruas por voluntários.

cadastrar animais durante campanhas de

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a

SciPet, empresa originada na Unicamp. Por

“O aplicativo permite a correspondência entre

bem-estar animal. A SciPet desenvolveu um

as duas imagens por meio de métodos de

protótipo capaz de diferenciar, com 99% de

reconhecimento visual e faz o rastreamento

acerto, cães e gatos de outros animais.

da Universidade Tufts. Alguns cursos de graduação e pós-graduação em ciência da computação já oferecem disciplinas que abordam ética computacional. É o caso da USP, no Brasil, e da Universidade Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.

fotos 1 Dllu / wikimedia commons 2 projeta sistemas

O

utro debate em ebulição relaciona-se à transparência de algoritmos avançados. Ocorre que detalhes do desenvolvimento dessas ferramentas frequentemente são mantidos em segredo por seus criadores. Em outros casos, a complexidade do código é tamanha que um observador não consegue entender como ele produz uma decisão e quais são suas implicações. Sistemas opacos ao escrutínio externo ganham o apelido de “algoritmos caixa-preta”. A discussão ganhou impulso com a investigação sobre uma ferramenta utilizada experimentalmente no judiciário norte-americano, o Compas (Correctional Offender Management Profiling for Alternative Sanctions) – seu algoritmo sugere a pena do condenado e ainda vaticina sobre a possibilidade de reincidência. O estudo, feito em 2016 pela organização ProPublica revelou que, ao passarem pelo crivo do Compas, acusados negros têm 77% mais probabilidade de serem classificados como possíveis reincidentes do que acusados brancos. A Northpointe, empresa privada que criou o algoritmo, recusou-se a divulgar o código do Compas. “Algoritmos de dimensão pública não devem ser criados nem desenvolvidos sem a participação dos gestores e administradores públicos, pois não são neutros”, destaca Sérgio Amadeu da Silveira, pesquisador do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do ABC (UFABC). Em 2017, Kate Crawford, líder de pesquisa da Microsoft Research, e Meredith Whittaker, diretora do Open Research, ligado ao Google, fundaram o AI Now Institute, organização dedicada a

investigar o impacto da inteligência artificial na sociedade. Com sede na Universidade de Nova York, Estados Unidos, a instituição investe em uma abordagem que integra análises de cientistas da computação, advogados, sociólogos e economistas. Em outubro, divulgou um relatório com orientações sobre o uso de algoritmos de inteligência artificial. Uma das recomendações é que órgãos públicos responsáveis por setores como justiça, saúde, assistência social e educação evitem usar algoritmos cujos modelos não sejam bem conhecidos. O documento recomenda que os algoritmos caixa-preta passem por auditorias públicas e testes de validação como forma de instituir mecanismos de correção quando necessário. Liberar seres humanos de atividades repetitivas é outro presságio dos algoritmos de inteligência artificial – e o debate sobre as implicações dos softwares inteligentes no mercado de trabalho ganha corpo. O relatório “O futuro do emprego”, publicado em 2013 pelos economistas Carl Frey e Michael Osborne, da Oxford Martin School, avaliou que algoritmos sofisticados podem substituir 140 milhões de profissionais que atuam em atividades intelectuais em todo o mundo. O documento menciona exemplos como a crescente automatização das decisões tomadas no mercado financeiro e até mesmo o impacto no trabalho dos engenheiros de software – por meio do aprendizado de máquina, a programação pode ser aperfeiçoada e acelerada com o auxílio de algoritmos. “Atividades intelectuais procedurais, que envolvem repetição de padrões, como traduzir documentos, têm uma possibilidade enorme de serem executadas por algoritmos”, avalia Sérgio Amadeu, da UFABC. O debate sobre os efeitos colaterais da inteligência artificial é necessário, avalia Marcondes Cesar, da USP, mas por enquanto está longe de se contrapor às notáveis contribuições dos algoritmos na solução de problemas de todo tipo. n PESQUISA FAPESP 266 | 25

Versão atualizada em 20/04/2018

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que identifica animais perdidos criado pela

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perdidos

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Animais


entrevista Elisa Pereira Reis

Olhar pioneiro sobre a

desigualdade social Estudiosa das elites, pesquisadora defende o desenvolvimento de projetos comparativos para melhor entendimento dos fenômenos sociais Christina Queiroz  | 

retrato 

E

Léo Ramos Chaves

m um momento no qual a temática da pobreza mobilizava os pesquisadores de sua área, a socióloga política Elisa Pereira Reis desenvolveu estudos inovadores sobre desigualdade social. A partir de análises comparativas da situação de diferentes nações, seus trabalhos têm influenciado o modo de pensar o desequilíbrio na distribuição de recursos, não apenas no Brasil como também no mundo. Ao se debruçar sobre as perspectivas que as elites têm do problema, Elisa propiciou o desenvolvimento de uma nova compreensão acerca das disparidades sociais. Em sua concepção, constituem a elite pessoas que ocupam altos postos em determinadas instituições, controlando recursos materiais e simbólicos. Ou seja, não apenas dinheiro mas também a capacidade de influenciar decisões alicerça o poder das elites. Descendente de latifundiários, a mineira de Araxá está casada há mais de quatro décadas com o economista Eustáquio José Reis, pesquisador da Diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Aos 20 anos, graduou-se em sociologia e política pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (FCE-UFMG), em Belo Horizonte, e em 1979 defendeu seu doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

26 | abril DE 2018

idade 72 anos especialidade Sociologia política formação Graduação em sociologia e política na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG (1967), doutorado em ciência política pelo MIT (1979) instituição Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) produção científica Cerca de 50 artigos científicos e 11 livros escritos ou organizados


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Professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Elisa atualmente concilia seu tempo entre dois projetos de pesquisa de amplitude global, atividades de política científica e magistério. “Um momento em que me sinto constantemente desafiada é quando dou aulas. Minha primeira experiência docente aconteceu no último ano da graduação, quando lecionei introdução à sociologia para uma turma de ciências sociais que passou no vestibular de 1967 da Faculdade de Filosofia da UFMG”, conta. “Estou me aposentando da UFRJ, mas quero seguir dando aulas, inclusive para a graduação.” Na entrevista abaixo, a pesquisadora falou sobre seus estudos a respeito da desigualdade e dos projetos atuais. Sua trajetória na academia pode ser considerada híbrida, pois suas reflexões passam tanto pela política quanto pela sociologia. De onde vem seu interesse pelas ciências sociais? Saí da casa dos meus pais aos 14 anos para fazer o curso científico [atual ensino médio] em Uberaba e me preparar para estudar engenharia. Nos primeiros meses do curso, no entanto, fui arrebatada pela questão da justiça social e me envolvi com política estudantil secundarista. Isso me estimulou a optar pelas ciências sociais. Como muitos outros da minha geração, fui motivada pela ideia de mudar o mundo. Fiz a graduação na FCE da UFMG, em Belo Horizonte. Na época, pensava que ciência política, economia e sociologia eram o mesmo campo de estudos. Hoje me defino como pertencendo à área da sociologia política, mas jamais vou perder a marca da ciência política na minha formação. Como chegou ao MIT? Prestei vestibular em 1964. Sempre gostei de estudar as pessoas que controlam recursos materiais e suas relações com o Estado. Minha dissertação de mestrado procurou mostrar como, em 1930, o Estado subordinou a elite cafeicultora para poder patrocinar a elite industrial. Tive uma formação próxima da economia política, pois fui da última turma do curso de graduação em sociologia e política que existiu na FCE. Tive aulas de direito internacional, constitucional, economia e história do pensamento econômico, mas não disciplinas sobre pensa28 | abril DE 2018

aluna de bibliografia é bom porque você desmitifica a pessoa e passa a acreditar que é possível chegar longe.

Trabalho com um conceito de elite que envolve as pessoas que controlam recursos materiais e simbólicos

mento social, por exemplo. A formação era mais hard, se comparada aos cursos de ciências sociais. Os cursos de economia eram muito mais politizados do que hoje. O ambiente da faculdade, naquela época, pode ser considerado lendário, entre outros motivos, pela introdução pioneira do sistema de bolsas por concurso para alunos da graduação, pelos investimentos em livros e periódicos e pelo funcionamento intenso das salas de leitura e da biblioteca. Eu vivia sem família na cidade e considerava a faculdade minha casa. Me formei em 1967, aos 20 anos. No ano seguinte, durante minha licenciatura em sociologia do desenvolvimento pelo Instituto Latinoamericano de Doctrina y Estudios Sociales [Ilades], no Chile, convivi com gente de todo o mundo e com muitos exilados das ditaduras latino-americanas. A ideia de produzir estudos comparados, que tanto me agrada, partiu dessa experiência chilena. Quando cheguei ao MIT, em 1972, para cursar o doutorado, a instituição contava com poucas mulheres e estrangeiros no curso de ciência política. Logo comecei a ter aulas com professores que eram minhas referências bibliográficas como Samuel Huntington, Hayward Alker, Daniel Lerner e Barrington Moore. Ser

O que estudou no doutorado? No doutorado me empenhei em responder por que o Brasil tinha tanta dificuldade em consolidar a democracia. Para isso, elaborei um estudo macro-histórico que contemplou o período que vai da Abolição da escravidão até a Revolução de 1930. Nele, busquei mostrar com dados empíricos como se criaram as condições para que Getúlio Vargas [1882-1954] levasse adiante sua revolução autoritária. Na tese, defendo que a Revolução de 1930 não foi burguesa, mas gestada pelas elites agrárias durante a República Velha, criando as condições para que Vargas instaurasse uma ditadura modernizante. Nesse momento do meu doutorado, muitos pesquisadores das ciências sociais estavam preocupados em explicar por que o Brasil era autoritário. Muitos de nós, como Simon Schwartzman, Otávio Velho e Luiz Werneck Viana, desenvolveram teses macro-históricas para entender a ditadura. Essa era a questão da época. Nunca publiquei minha tese, mas escrevi diversos artigos que derivaram dela. Um dos mais lidos, “O Estado nacional como ideologia: O caso brasileiro” (Estudos Históricos, 1988), considero um texto precoce. Nele, trabalhei com uma ideia inédita de nação, que já havia sido abordada por Benedict Anderson [19362015] no seu livro de 1985 Nação e consciência nacional, que eu desconhecia. Quando começou a se interessar pelos estudos sobre desigualdade? Continuei trabalhando sobre a relação entre governo e mercado, disposta a entender como interesses econômicos fizeram parte da construção do Estado no Brasil. Aos poucos, meu foco foi mudando por causa da inquietação em estudar a desigualdade. Sempre tive uma preocupação macro-histórica muito teórica, diferentemente da tradição do Rio de Janeiro e de São Paulo. Passei a integrar o comitê de teoria sociológica da Associação Internacional de Sociologia. Nesse momento, fiz a conversão da ciência política para a sociologia, e continuei centrada nas relações entre Estado, sociedade e mercado. Em uma outra pesquisa, criei um banco de dados para mapear as relações de organizações


léo ramos chaves

Tive dificuldades em convencê-los de que era preciso incluir a palavra “desigualdade” no título da obra. Hoje, o que mais chama a atenção no livro é justamente o fato de ele trabalhar com a ideia da desigualdade. Acabei de voltar de uma banca de doutorado na London School of Economics and Political Science em que a aluna analisou as percepções que 1% da população mais rica de Londres tem da desigualdade e da pobreza. Ela elaborou sua tese apoiada nesse livro que Mick Moore e eu editamos. Entre 2013 e 2014, desenvolvi o mesmo estudo, com outra equipe de pesquisadores, para avaliar as percepções das elites no Brasil, na África do Sul e no Uruguai. Foram aplicados questionários em 180 pessoas em cada um desses países. A ideia era avaliar se com o passar do tempo houve mudanças e quais foram. Ainda não publicamos os resultados do projeto. Estou atrasada com ele porque me envolvi em outra iniciativa grande, que mais me mobiliza atualmente. Pesquisadora procura entender como pessoas que não são pobres convivem com a miséria

não governamentais [ONGs] com o governo. Apliquei questionários em 300 ONGs envolvidas com política social em cinco estados brasileiros e também em um grupo de beneficiários de programas dessas organizações. Meu objetivo foi avaliar como dirigentes dessas instituições se relacionavam com o Estado e o mercado e como os beneficiários enxergavam essas organizações. O que pesquisa hoje? Estou trabalhando em duas frentes. Uma pesquisa é o meu projeto pessoal de investigar a percepção das elites sobre pobreza e desigualdade. A primeira etapa dessa iniciativa foi desenvolvida entre 1993 e 1995 por um grupo do antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro [Iuperj], hoje Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp/Uerj), como parte do projeto “Elites estratégicas e consolidação democrática”, que se debruçou sobre o processo de redemocratização no Brasil. Entrei nessa equipe para fazer perguntas às elites sobre suas per-

cepções da desigualdade. Realizamos um questionário com políticos, burocratas, líderes empresariais e sindicais de todo o país. Depois, dei continuidade a essa pesquisa em um projeto desenvolvido em parceria com colegas europeus, inclusive o sociólogo holandês Abram de Swaan, professor emérito da Universidade de Amsterdã. Montamos um grupo para investigar as percepções dessas pessoas sobre a pobreza no Brasil, na África do Sul, nas Filipinas, em Bangladesh e no Haiti. Elaboramos um questionário para entrevistar 80 representantes das elites em cada um desses países. Os resultados foram publicados em 2005 no livro Elite perceptions of poverty and inequality, que editei com Mick Moore, professor do Institute of Development Studies da Universidade de Sussex, no Reino Unido. A obra foi bem recebida pelos especialistas, mas ganhou visibilidade apenas recentemente. Naquela época, a desigualdade não era a principal preocupação dos meus parceiros, mais centrados em analisar questões relativas à pobreza.

Como surgiu o interesse pelas elites como objeto de pesquisa? O conceito de elite comporta muitas definições. Em vez de adotar, por exemplo, um conceito formado por renda ou riqueza, ou notoriedade e celebridade, adoto um critério posicional, ou seja, posição institucional. Com isso, suponho que aqueles que estão no topo de determinadas instituições controlam recursos materiais e simbólicos. Por volta dos anos 1990, depois da ditadura, o cenário político brasileiro estava otimista. Havia, porém, a percepção de que a desigualdade era generalizada e de que nada se fazia para mudar o panorama. Comecei a me preocupar sobre como é possível conviver com essa situação. Como organizamos nosso pensamento em uma sociedade com tanta diferença em termos de perspectiva de vida? Nessa época, já tinham sido feitos diversos estudos sobre pobreza e estratégias de sobrevivência em condições precárias. Mas eu não queria abordar o assunto a partir desse ponto de vista. Queria entender como as pessoas que não são pobres convivem e justificam a existência da pobreza. E conseguiu? A maior parte das pessoas que estuda pobreza e desigualdade defende que para reduzir disparidades na sociedade é PESQUISA FAPESP 266 | 29


preciso contar com a boa vontade das elites, apostando na filantropia para atingir esse objetivo. Concordo que a filantropia pode ser um caminho. Porém, no projeto, quis identificar os motivos que poderiam despertar o interesse das elites em investir na redução das desigualdades. Na primeira etapa da pesquisa, cujos resultados foram publicados em 2005, identificamos, em linhas gerais, que as elites do Brasil, da África do Sul, das Filipinas, de Bangladesh e do Haiti entendiam a pobreza e a desigualdade como problemas que as afetavam. Segundo os questionários que aplicamos, preferiam proteger suas propriedades individualmente, investindo em segurança, muros, alarmes, mas sem se aliar ao Estado. No esforço de entender como a elite brasileira se mobiliza para fazer algo pelos mais necessitados, baseei minha pesquisa no modelo de Swaan. Ele defende que o estado de bem-estar foi construído na Europa porque as elites pensavam que deveriam envolver o governo na proteção de seus interesses. Para Swaan, as elites agem reativamente e apoiaram a criação desse Estado de bem-estar social porque se sentiam ameaçadas. Durante a pesquisa, constatei que essa motivação pode estar fundada no medo da violência ou na ameaça aos bens materiais. Isso me permitiu afirmar que o estímulo para reduzir desigualdades pode ser tanto filantrópico como defensivo. Na busca por garantir uma posição na esfera política, intelectual, empresarial ou na burocracia, a elite precisa considerar que a desigualdade e a pobreza também trazem riscos a ela. Qual foi a constatação em relação ao Brasil? Na etapa da pesquisa desenvolvida em 2013 e 2014, observei uma postura diferente no Brasil. O país vivenciava um momento de prosperidade econômica e social e as elites perceberam que, se houvesse redistribuição de renda, elas também se beneficiariam, pois o mercado de consumo se tornaria mais dinâmico e a mão de obra mais qualificada. Com isso, começaram a apostar no progresso social como algo que também gerava benefícios para elas próprias. Comparando os dados brasileiros com os da África do Sul, notamos diferenças significativas. No estudo original, as elites dos dois países pensavam de maneira semelhante. Mais 30 | abril DE 2018

tarde, no Brasil, as pessoas que ocupavam essas posições ainda consideravam o crescimento econômico como o mais importante à nação, mas reconheciam que se houvesse progresso social para os mais pobres a possibilidade de avanços econômicos, para todos os grupos, aumentava. Aqui, as elites se posicionaram a favor de medidas econômicas progressistas como o programa Bolsa Família. Na África do Sul, seguiam defendendo que primeiro era preciso a economia crescer para depois redistribuir a renda. Do que se trata o outro projeto com o qual está envolvida? Com outros pesquisadores, estou coordenando o desenvolvimento de um painel mundial para avaliar o progresso social em países distintos, sobretudo nos últimos 50 ou 60 anos. Também para mapear os problemas que nos afetam no presente e as graves ameaças à continuidade do progresso. A preservação do meio ambiente, a questão das armas químicas e biológicas, o imperativo do crescimento sustentável são alguns dos enormes desafios com que nos confrontamos. Faço parte do comitê científico e coordeno um

Estímulos para reduzir as desigualdades podem ser tanto filantrópicos como defensivos

dos capítulos, junto com o historiador holandês Marcel van der Linden. O painel envolve cerca de 300 pesquisadores e está sendo elaborado sem ajuda financeira de governos porque quisemos manter autonomia em relação a possíveis pressões políticas. Três livros com os resultados desse projeto serão publicados em julho, pela Cambridge University Press. Além disso, seis de nós que integramos a coordenação do projeto escrevemos uma pequena obra, apresentando os resultados do painel para o público não acadêmico e que também será publicada pela Cambridge University Press ainda este ano. A pesquisa sobre as elites e o painel sobre progresso social são as duas atividades intelectuais que mais me ocupam hoje. O painel identificou algum progresso social? Claro, não há como negar que a humanidade experimentou imensos progressos materiais, entre eles melhorias no campo da saúde e na expectativa de vida. Entretanto, esses ganhos não são igualmente distribuídos e condições miseráveis são a realidade de milhões de pessoas. É preciso levar em conta também questões que dizem respeito à igualdade e ao reconhecimento das diferenças. Não há dúvida, por exemplo, que em muitos contextos a dominação patriarcal declinou significativamente, mas muito resta a ser feito. Milhares de mulheres no mundo ainda precisam lutar pelo mero direito de frequentar uma escola, tal como mostram os exemplos do Paquistão e do Afeganistão. A liberdade religiosa é brutalmente negada para muitas minorias como a dos cristãos na Nigéria. Homossexuais são punidos com prisão e, segundo relatórios recentes, até mesmo com pena capital em países como o Sudão, o Irã, a Arábia Saudita e o Iêmen. Além disso, recentemente, assistimos à ascensão de tendências autoritárias que ameaçam conquistas democráticas que estávamos acostumados a pensar como duradouras e em contínua expansão. A crise da democracia que vem se configurando indica que precisamos urgentemente encontrar novos formatos institucionais para assegurar a representação e a participação política. A onda populista que cresce no mundo se alimenta da insatisfação de parcelas significativas da população com o establishment político, que ignora seus anseios. Nesse contexto


muitos se deixam seduzir pelas falsas promessas salvacionistas de lideranças oportunistas. Como está o Brasil nesse cenário? No caso da sociedade brasileira, é notável o divórcio entre a política oficial e as demandas da cidadania. O clima de frustração se propaga, crescem ressentimentos e intolerâncias inviabilizando o diálogo e contribuindo para o retrocesso de diversas conquistas sociais. A situação no Brasil pode ser vista quase como uma parábola do que acontece no mundo. Parece que estamos com dificuldade de entender algo muito simples: se os direitos de que desfrutam alguns não se generalizam para todos, estamos falando de privilégios e não de direitos. A pauta democrático-liberal por definição deve ser universal. A resistência a incluir novos setores da sociedade fomenta não apenas a insatisfação dos excluídos, mas também a defesa irracional do status quo e muitas vezes do próprio retrocesso. A consequência para todos é a perda da convivência democrática. A magnitude das desigualdades, por um lado, e a negação do respeito a tantos, por outro, têm levado a uma grave crise da sociabilidade entre nós. Todos perdemos com o encolhimento da solidariedade social. Mas não se deduza da crise do presente que estamos condenados à decadência e à barbárie. O que motiva a iniciativa do painel é justamente a convicção de que, como atores dotados de racionalidade e volição, temos o desafio moral de pensar alternativas para assegurar que a ciência, a tecnologia e a inovação sejam parceiras efetivas no avanço das conquistas sociais.

O Brasil nasceu como Estado autoritário, mas não penso que está fadado a seguir como tal

problemas sociais conjuntamente e não de forma separada, por disciplinas. Discutimos essa fusão durante dois anos. No final de 2017, concluímos a discussão para unificar os dois conselhos em uma nova organização. Esse foi um assunto que me ocupou muito nos últimos anos.

Com uma trajetória de pesquisas tão longa e intensa, o que ainda falta fazer? Coordeno o Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Desigualdade, o Nied, que existe há 20 anos. Realizamos uma série de pesquisas e incomodava-me o A senhora também tem estado bastan- fato de jamais ter estudado a desigualte envolvida em atividades de política dade de cor no Brasil. Então, em 2004, a socióloga Michèle Lamont, professora científica. Quais são elas? Desde 2013, sou vice-presidente do Inter- em Harvard, me convidou para particinational Social Science Council (ISSC). par de um projeto comparativo nessa Existiam dois conselhos até recente- área. A ideia era entender como negros mente: o ISSC para as ciências sociais­ nos Estados Unidos, no Brasil e minorias e o International Council of Sciences em Israel lidam com a desigualdade, os (ICSU), que envolvia as chamadas ciên- preconceitos e os estigmas. No Brasil, as cias duras. Essas duas organizações estão pesquisas sobre esse assunto costumam se unindo para formar um conselho úni- se concentrar no estudo de casos indico, o International Science Council (ISC). viduais e em histórias de vida. Quando Em junho teremos a primeira assembleia recebi o convite, fiquei insegura, pois da nova organização, que inclui todas as não sou especialista em raça. Michèle ciências. A ideia de unificar as organiza- propôs que eu trabalhasse com Graziella ções ocorreu porque existe uma percep- Moraes Silva, atualmente professora no ção crescente de que temos de pensar os Graduate Institute of International and

Development Studies em Genebra, Suíça, que desenvolveu uma tese em Harvard comparando profissionais liberais negros no Brasil e na África do Sul. Levamos 10 anos para concluir esse estudo e publicamos um livro no final de 2016 apresentando os resultados, intitulado: Getting respect: Dealing with stigmatization and discrimination in the United States, Brazil and Israel (Princeton University Press, 2016). Quero publicar esse livro no Brasil, mas por enquanto é só um projeto. No artigo “O Estado nacional como ideologia: O caso brasileiro”, a senhora chama a atenção para o fato de o autoritarismo estar na gênese do Estado brasileiro. Mesmo assim, é possível construir um novo projeto de nação? Esse é um assunto que me mobiliza muito. Tenho um pé na sociologia macro-histórica, mas não considero a gênese de uma sociedade como um “pecado original”. Se eu pensasse que porque nascemos como Estado autoritário estamos fadados a seguir como tal, não teria feito ciências sociais. Optamos por essa carreira quando entendemos que é possível mudar algo. Às vezes, os trabalhos históricos são lidos como se fossem testemunhos de que temos um destino manifesto autoritário. E não temos. Escolhemos as coisas. É comum escutar que, no Brasil, há desigualdade de cor hoje porque tivemos a escravidão no passado. Concordo que a origem do problema é essa, mas a desigualdade e aspectos discriminatórios e elitistas da nossa sociedade são recriados e reativados constantemente. A situação não permanece igual espontaneamente. Precisamos saber explicar por que ela não muda. Como a senhora enxerga a atual produção em ciências sociais no Brasil? Quando era estudante, aprendi que devia trabalhar com distanciamento do objeto de pesquisa e que tínhamos de escolher temas com os quais não mantivéssemos relação afetiva. Mas isso foi mudando e eu me rendi. Escolher um tema porque ele nos sensibiliza não é um problema. Também é preciso reconhecer que todos queremos ser originais na escolha de nossos objetos, mas penso que essa tendência às vezes é extremada e contribui para gerar uma fragmentação excessiva, que torna difícil consolidar e generalizar resultados. O trabalho em equipe é fundamental para a pesquisa acadêmica. n PESQUISA FAPESP 266 | 31


política c&T  Bioenergia y

Impacto no mercado RenovaBio, uma nova política nacional de biocombustíveis, vai premiar produtores eficientes e promete ampliar a oferta Fabrício Marques

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m decreto federal deu um passo importante para concretizar a nova Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), que busca revigorar a indústria de bioenergia do país, além de reduzir as emissões de gases estufa conforme compromisso assumido pelo Brasil na Conferência de Paris, em 2015. Gestada nos últimos dois anos por técnicos do Ministério de Minas e Energia (MME), a RenovaBio foi aprovada pelo Congresso no final do ano passado. Seu decreto de regulamentação, assinado no dia 14 de março pelo presidente Michel Temer em uma cerimônia em Ribeirão Preto (SP) que marcou a abertura da safra de cana-de-açúcar, definiu um cronograma para que a política passe a vigorar em um prazo de dois anos. O Conselho Nacional de Política Energética, que assessora o governo, irá determinar até junho as metas compulsórias para a redução de emissões de carbono no uso de combustíveis no país, que serão válidas para o período de 2018 a 2028. Em seguida, a Agência 32  z  abril DE 2018

Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis irá desdobrar essas grandes metas em objetivos individuais a serem cumpridos por cada uma das distribuidoras de combustível brasileiras a partir do dia 24 de dezembro de 2019. A principal inovação da política é a criação de um mecanismo que gera um ativo financeiro para os produtores de biocombustíveis, como etanol, biodiesel, biogás ou bioquerosene, proporcional ao volume produzido e que se baseia em critérios de eficiência. Quem fabrica biocombustíveis terá direito a Créditos de Descarbonização (CBIOs), títulos negociados em bolsas que constituirão uma nova fonte de renda para o setor. Já as distribuidoras serão obrigadas a comprar esses papéis em quantidade correspondente a sua participação no mercado de combustíveis fósseis. “O objetivo desse mecanismo é descarbonizar gradualmente a matriz energética brasileira”, diz o economista Miguel Ivan Lacerda de Oliveira, diretor de biocombustíveis da Secretaria de Petróleo e Gás do MME, um dos artífices da nova política.


Os créditos de descarbonização por biocombustíveis (CBIOs) Como os certificados criados pela RenovaBio serão comercializados

Produtores Cada produtor de biocombustível terá direito a uma quantidade de créditos calculada com base no tamanho de sua produção e em suas emissões de carbono. Quanto mais limpo o processo, maior o número de CBIOs

foto  eduardo cesar  infográfico ana paula campos  ilustração freepik

negociação Os créditos serão comercializados em bolsas de valores. Seus preços vão oscilar segundo a oferta e a procura

distribuidorAs As distribuidoras serão obrigadas a adquirir créditos para compensar a venda de combustíveis fósseis. O número de CBIOs a ser comprado dependerá da meta de redução de emissões estabelecida para cada distribuidor

metas As metas das distribuidoras começam a vigorar em 2019. Somadas, comporão a meta nacional de redução de emissões para combustíveis


O aproveitamento do bagaço de cana para geração de eletricidade vai gerar créditos extras para as usinas de etanol

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Como resultado dessa política, o governo prevê ampliar a produção de etanol dos atuais 30 bilhões de litros para cerca de 50 bilhões de litros em 2030 e elevar a de biodiesel de 4 bilhões para 13 bilhões de litros no mesmo período. Ao mesmo tempo, calcula uma economia de 300 bilhões de litros de gasolina e diesel importados nos próximos anos. Projeta-se também um aumento de 10 milhões de hectares na área plantada dedicada à bioenergia. Os idealizadores do programa ressaltam que o Brasil tem hoje 198 milhões de hectares em pastagens, boa parte delas de baixa produtividade, que poderiam ser empregadas na produção dessas culturas.

O

mecanismo proposto também busca estimular um aumento de produtividade das áreas já plantadas. O fabricante de biocombustíveis, sempre que fizer uma venda, terá direito a emitir CBIOs, mas a quantidade de créditos a que cada um terá direito dependerá de uma análise de seus processos de produção – quanto menor o balanço de emissões de gases estufa da empresa, mais créditos ela poderá receber. Essa avaliação vai reverter em uma nota de eficiência energético-ambiental atribuída a cada produtor. Um software, o Renovalc, está sendo desenvolvido para fazer cálculos precisos. Espera-se que essa lógica estimule as usinas a utilizar as melhores práticas de plantio e de geração de bioenergia, além de adotar novas tecnologias. Usinas que, além de produzir etanol, também queimam resíduos da cana para gerar eletricidade ou produzem biogás para substituir 34  z  abril DE 2018

Governo projeta aumento de 10 milhões de hectares na área plantada no país dedicada à bioenergia

o diesel usado nas máquinas poderão obter mais créditos do que as que não aproveitam a palha, o bagaço ou a matéria orgânica da vinhaça. “Sabemos que o etanol é sustentável, que emite em média 80% menos carbono do que combustíveis fósseis, mas alguns produtores têm indicadores econômicos e ambientais melhores do que outros e é justo que sejam reconhecidos”, explica o agrônomo Heitor Cantarella, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (Bioen). “Com a RenovaBio, será possível mudar a forma como produzimos bio­ energia e mostrar que o segundo maior produtor de etanol e de biodiesel do mundo está engajado em fabricar combustíveis ainda mais limpos.” Segundo Cantarella, a nova política deve dar impulso a uma vertente de pesquisa em bio­ energia que busca alternativas tecnológicas para reduzir emissões. Em um artigo de opinião que publicou em fevereiro no jornal britânico Financial Times, ele chamou a atenção para o peso do uso de certos fertilizantes no balanço


fotos 1 eduardo cesar  2 José Eduardo Marcondes de Almeida / Instituto Biológico-SAASP

Qui voluptatur aliscia cusanditas dolestiosam inulpar itationem ipsuntotas molorep ereperunt

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Efeitos esperados da nova política incluem investimento de R$ 50 bilhões até 2030 na produção de etanol de cana-de-açúcar

de emissões de carbono em plantações de cana e para as alternativas capazes de reduzir esse impacto, como o uso de substâncias que inibem a liberação de óxido nitroso, um gás de efeito estufa liberado por adubos nitrogenados. “Qualquer tipo de redução de emissão será bastante valorizado a partir de agora.” Alguns projetos apoiados pelo programa Bioen há tempos investigam a natureza das emissões de carbono. “O uso rotineiro de palha e vinhaça como fertilizantes nos canaviais tende a aumentar as emissões, mas há grupos de pesquisadores procurando formas de atenuar isso”, afirma. “De todo modo, as emissões no Brasil causadas por uso de fertilizantes são inferiores aos índices médios considerados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, o IPCC.” Também se espera que a nova política incentive a superação de obstáculos tecnológicos e a busca de viabilidade econômica para implantar métodos mais sustentáveis de produção de bioenergia, notadamente o etanol de segunda geração, obtido a partir de celulose e de resíduos orgânicos. “A expectativa é de que a RenovaBio se transforme também em um driver de desenvolvimento tecnológico”, diz o engenheiro-agrônomo Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos fundadores da

Granbio, empresa que inaugurou a primeira usina de etanol de segunda geração no Brasil, instalada em 2014 em São Miguel dos Campos, em Alagoas. Amarante, que deixou a empresa em 2016, diz que os problemas tecnológicos da linha de produção foram resolvidos e que a empresa agora trabalha para equacionar questões financeiras para implantar novas soluções e ampliar a operação. “A alta do preço do petróleo atrapalhou e afugentou os investidores em bioenergia, mas é esperado que agora, com a RenovaBio, surja uma nova onda de financiamento.” O MME projeta um crescimento do interesse privado na indústria de biocombustíveis e prevê investimentos de R$ 90 bilhões até 2030 apenas na produção de bioetanol.

L

uciano Rodrigues, responsável pela área de economia e análise setorial da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), vislumbra dois impactos principais da RenovaBio. “Ela vai dar mais previsibilidade a todos os agentes do mercado, dizendo a cada um deles qual será o papel dos biocombustíveis no futuro”, diz. O segundo impacto está relacionado aos CBIOs. “Os biocombustíveis têm o que chamamos de externalidades positivas: quando alguém usa um combustível renovável, isso gera um benefício para toda a sociedade, com uma emissão menor de gases estufa. O mecanismo criado reconhece pESQUISA FAPESP 266  z  35


essas externalidades, recompensa a produção de biocombustíveis e tende a ampliar a sua oferta. A produção de biocombustíveis vai crescer com a busca de eficiência ambiental e econômica.”

A

nova estratégia surge em um momento em que a indústria brasileira de biocombustíveis tenta superar uma fase de crise e baixo investimento. Segundo um levantamento da consultoria RPA, de Ribeirão Preto, especializada em negócios da cana, 76 das 444 usinas do país estavam paradas no segundo semestre do ano passado, parte delas em situação de insolvência. “A RenovaBio criou uma demanda nova para os produtores de biocombustíveis. Não é por acaso que está sendo comemorada pela indústria canavieira”, diz Daniela Stump, especialista em direito ambiental da Machado Meyer Advogados. “Ao mesmo tempo, gerou uma grande novidade na política ambiental brasileira, que vinha perdendo efetividade há alguns anos. É a primeira vez que se criam metas compulsórias para redução de emissões. Eu nunca tinha visto um compromisso tão firme”, ressalta Daniela, que faz, contudo, um alerta: “É preciso agora criar metas para outros setores da economia. Não é justo eleger apenas um setor para o papel de vilão. Todos devem participar do esforço de proteção ao clima, de acordo com as suas emissões de gases de efeito estufa e capacidade de redução”. Os idealizadores da RenovaBio adaptaram políticas adotadas nos Estados Unidos e na União Europeia. “Há estratégias testadas há mais de 10 anos e uma boa literatura sobre o assunto mostrando o que deu certo e o que deu errado. Aproveitamos essa experiência”, diz Miguel Ivan de Oliveira, do MME. A principal inspiração veio do Low Carbon Fuel Standard (LCFS), política pública em vigor no estado da Califórnia. O LCFS define metas de redução de emissões e rotas para alcançá-las utilizando diferentes tecnologias e combustíveis – e também estabelece recompensas específicas para cada rota. Já a RenovaBio não delimita trilhas tecnológicas e os créditos de descarbonização terão um valor único, a ser definido pelo mercado. “Na RenovaBio, não são eleitos a priori quais serão os ‘campeões’. Cada biocombustível competirá para atingir a meta de

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descarbonização. A produção de biocombustível que for mais eficiente do ponto de vista energético e ambiental é a que vai poder emitir mais créditos e, portanto, será mais recompensada”, escreveu o economista Plínio Nastari, presidente da consultoria DataAgro, em um artigo publicado no jornal Folha de Pernambuco. Embora a lei da RenovaBio tenha sido regulamentada com rapidez, ainda há variáveis sem definição, a exemplo das metas individuais impostas às distribuidoras e a forma de calcular a eficiência dos produtores. Como a cotação dos CBIOs vai oscilar de acordo com a oferta e a procura, é difícil antever como será o funcionamento do mercado antes de conhecer as metas. “Mas é possível imaginar que o valor dos créditos cairá se houver um aumento do preço do petróleo, porque isso já seria um desestímulo ao consumo de combustíveis fósseis”, diz Luciano Rodrigues, da Unica. Na avaliação de Gonçalo Amarante, os créditos devem ter boa liquidez. “Se investidores hoje compram moedas virtuais cujo lastro é obscuro, certamente haverá interesDistribuidoras se em créditos de carbono poderão adiar emitidos com base em uma produção sustentável.” para o ano A permissão para que qualquer pessoa participe seguinte o da compra e venda de créditos é alvo de controvércumprimento sia. A medida, que busca de até dar liquidez ao mercado, é vista com desconfiança 15% de sua pelas distribuidoras, que temem especulação com meta individual os títulos. Caso o custo das CBIOs fique muito pesado para as empresas, existe o risco de que elas optem por pagar a multa pelo descumprimento da meta, que durante a tramitação do projeto da RenovaBio no Congresso foi reduzida de R$ 500 milhões para R$ 50 milhões no máximo por distribuidora. É certo que as empresas terão alguma flexibilidade. Uma pequena parte da meta individual, de no máximo 15% do total, poderá ter seu cumprimento adiado para o próximo ano, mas não será possível utilizar o recurso logo em seguida. As distribuidoras ficarão isentas da obrigação de comprovar a descarbonização se firmarem contratos de compra de créditos por períodos longos – o objetivo é ajudar a estruturar o mercado de CBIOs. “Temos o alicerce de uma nova política, mas falta organizar adequadamente a sua aplicação. Será preciso criar mecanismos para evitar que se burle o sistema”, diz Rodrigues. n


Fronteiras do etanol de cana-de-açúcar

Projeto traça cenários para aumentar a produção de biocombustíveis na África e na América Latina

Cortador de cana na África do Sul: bioenergia estagnou no continente por falta de investimentos e por problemas fundiários

Helena Hugo / wikimedia commons

M

ais de 100 nações exploram a cana-de-açúcar, mas o desempenho do Brasil nesse campo da agroindústria é singular. O país é o maior produtor mundial, com 646 milhões de toneladas colhidas na safra de 2017/2018, e as usinas do país têm rendimento elevado, fabricando açúcar e etanol em larga escala e recorrendo à queima de resíduos de cana para gerar eletricidade. Um grupo de pesquisadores do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade Estadual de Campinas (Nipe-Unicamp) dedicou os últimos cinco anos a estudar por que o modelo adotado no Brasil não teve o mesmo sucesso em outras nações de clima tropical e quais seriam as condições necessárias para que a América Latina e a África consigam ampliar a produção de bioenergia. “A formação de

uma rede robusta de países produtores do etanol de cana é importante para consolidar o mercado de biocombustíveis”, explica o engenheiro agrícola Luis Cortez, professor da Unicamp. “O objetivo do nosso projeto é gerar conhecimento para orientar estratégias desses países.” Cortez é o líder do Lacaf (Bioenergy Contribution of Latin America & Caribbean and Africa to the GSB Project), projeto temático iniciado em 2013 e vinculado ao Global Sustainable Bionergy (GSB), iniciativa para discutir a viabilidade da produção de biocombustíveis em larga escala e em nível mundial (ver Pesquisa FAPESP nos 162 e 163). O Lacaf foi estruturado para dar resposta a três perguntas. A primeira é: por que um país latino-americano ou africano se interessaria em produzir etanol? “A experiência do Brasil, que criou uma indústria do bioetanol e

utiliza o combustível para adicionar à gasolina, responde em parte a essa pergunta”, afirma o engenheiro Luiz Horta Nogueira, pesquisador da Universidade Federal de Itajubá e do Nipe. “Mas há um pano de fundo, que são as assimetrias no desenvolvimento. América Latina e África estão ficando mais distantes de sociedades industrializadas na Ásia. A bioenergia ajudaria essas regiões a ganhar fôlego.” A segunda pergunta do projeto foi: quanto etanol poderia ser produzido de modo sustentável? Os pesquisadores testaram cenários conservadores. Em artigo publicado em janeiro na revista Renewable Energy, o grupo constatou que países como Guatemala, Nicarágua e Cuba poderiam substituir por etanol 10% da gasolina e entre 2% e 3% do diesel que consomem apenas por meio de ganhos de produtividade em usinas e destilarias, pESQUISA FAPESP 266  z  37


38  z  abril DE 2018

Plantio de cana no Vale do Cauca, na Colômbia: alta produtividade e modelo semelhante ao do Brasil

do Cauca, na Colômbia, com campos de cana irrigada, têm produtividade elevada”, informa Leal. Existem formas distintas de uso da terra em que a matéria-prima é produzida. No Brasil, em média, um terço da cana é plantado em propriedades da usina, outro terço em terra arrendada e o terço final é adquirido de produtores independentes. “Mas nem todas as usinas são assim e há lugares, como Índia e Tailândia, em que 100% da cana é fornecida por pequenos produtores”, explica Leal. assistência e Insumos

Os pesquisadores visitaram vários países, mas concentraram sua análise em dois deles: Moçambique e Colômbia. “A Colômbia está bem mais avançada, inclusive com centros de pesquisa para aperfeiçoar a produção”, conta Luis Cortez. Já em Moçambique o cenário é de estagnação. Um caso excepcional é o da açucareira Xinavane, na província de Maputo. “Instalada pelos portugueses, a empresa foi paralisada durante a guerra civil [1977-1992] e mais tarde reabilitada por um grupo sul-africano. A usina implementou um sistema no qual pequenos produtores fornecem parte da cana e recebem em troca assistência e insumos”, explica Leal. As dificuldades

Projeto Contribuição de produção de bioenergia pela América Latina, Caribe e África ao projeto GSB-Lacaf-Cana-I (nº 12/00282-3); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Luis Augusto Barbosa Cortez (Unicamp); Investimento R$ 1.418.993,89.

Artigos científicos SOUZA, S. P. et al. Sugarcane can afford a cleaner energy profile in Latin America & Caribbean. Renewable Energy. v. 121, p. 164-72. jun. 2018. SOUZA, S. P. et al. Potential of sugarcane in modern energy development in Southern Africa. Frontiers in Energy Research. v. 4. dez. 2016.

Andres Garzon / wikimedia commons

sem precisar ampliar a área plantada de cana. Já a Bolívia, com um pequeno avanço dos canaviais sobre áreas de pasto, conseguiria substituir 20% da gasolina e do diesel e ainda exportar etanol excedente. O uso do bagaço para produzir eletricidade poderia suprir as necessidades de um terço dos 11% da população boliviana sem acesso à eletricidade. Na África, os impactos seriam ainda mais diversos. Um paper publicado pelo grupo em 2016 na Frontiers in Energy Research mostrou que a expansão da cana em 1% das áreas de pastagens em Angola, Moçambique e Zâmbia geraria um volume de combustível capaz de substituir 70% da madeira usada em fogões a lenha que enfumaçam as cozinhas e causam danos à saúde. A queima de resíduos da cana poderia ampliar em 10% a geração de eletricidade em Moçambique, Malawi, e Zâmbia, e em 20% em Angola. Ao responder à terceira pergunta – como, então, ampliar a produção? –, os pesquisadores constataram que não existe um caminho único, ainda que o modelo do Brasil possa servir de inspiração. Colômbia, Argentina, Guatemala e Paraguai adotaram um sistema semelhante ao brasileiro, com usinas de grande porte produzindo etanol, açúcar e energia. “Isso de certa forma é uma comprovação de que o modelo é sustentável”, diz o engenheiro Manoel Régis Leal, pesquisador do Nipe-Unicamp. É certo que a escala de produção não é comparável: estima-se que o Brasil seja responsável por três quartos da produção de cana do continente, enquanto os demais países dividem os 25% restantes. “Mas regiões como o Vale

em Moçambique, ele observa, têm a ver com uma estrutura fundiária complexa. “A terra pertence ao governo e a cessão é intermediada por chefes tribais.” Apesar disso, indicadores econômicos tendem a melhorar quando uma usina é construída. “As populações passam a ter acesso a mais empregos e há ganhos em infraestrutura, incluindo linhas de eletricidade, hospitais e escolas”, afirma Leal. Os estudos de caso sugerem que a viabilidade econômica do bioetanol está relacionada com a produção em larga escala. “Um modelo baseado apenas na agricultura familiar não funciona. Usinas de um certo porte garantem a produtividade adequada”, diz Luiz Horta Nogueira. Segundo ele, vários motivos explicam a dificuldade de o bioetanol se consolidar em outros países. “Um deles é a limitação de recursos para grandes projetos. Mas também persiste um nível de desinformação alto”, afirma. “Temos usado há décadas etanol em motores de automóveis, mas em alguns países ainda se diz que o combustível provoca corrosão.” A dúvida mais recorrente envolve a ideia de que, se a terra for usada para produzir energia, pode faltar espaço para produzir alimento. “Isso não faz sentido. Em Moçambique, fizemos as simulações avançando sobre 1% de terras de pastagens”, afirma. “Desde o pós-guerra, a disponibilidade de alimentos por pessoa aumentou muito. Há problemas localizados associados à renda, não à falta de comida.” Para partilhar o conhecimento, o gru­­po realizou workshops nos Estados Unidos e na África do Sul e convidou pesqui­ sadores e autoridades de vários países. “Apresentamos mapas e estudos de modelagens. O impacto foi bom. Os colombianos convidaram o nosso pessoal para voltar”, diz Cortez. Os resultados do projeto serão divulgados em um livro, a ser lançado pela editora britânica Taylor & Francis. n Fabrício Marques


Cooperação y

Laboratório de montagem eletrônica do Senai/Cimatec, em Salvador

Catalisador do debate Há 10 anos, a Mobilização Empresarial pela Inovação orienta rafael martins / sistema fieb

estratégias das corporações e coordena o diálogo entre governo, setor privado e universidades

O

esforço para incorporar a inovação no cotidiano das empresas brasileiras ganhou fôlego e articulação há 10 anos com o surgimento da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), um fórum organizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) que reúne hoje mais de duas centenas de presidentes de corporações. Um balanço da primeira década dessa iniciativa mostra resultados tangíveis. Com uma agenda direcionada ao aperfeiçoamento de leis e políticas públicas, um trabalho permanente de aconselhamento das empresas e uma interlocução forte com autoridades e pesquisadores, a MEI obteve sucesso em mostrar a importância da inovação para a competitividade, ao mesmo tempo que criou uma inédita plataforma de colaboração entre governo e setor privado. As reuniões do Comitê de Líderes do fórum, que ocorrem a cada três meses, sempre têm a presença de autoridades – em uma reunião no final de 2017, estiveram juntos os titulares das pastas da Saúde, da Indústria e Comércio, e da Ciência, pESQUISA FAPESP 266  z  39


Tecnologia, Inovações e Comunicações. “A participação de ministros, secretários executivos e até do presidente da República nas reuniões de líderes sinaliza um reconhecimento do governo da importância da inovação no país”, afirma o engenheiro Pedro Wongtschowski, vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo Ultra, um dos coordenadores da MEI desde a sua criação. “O convívio é importante para mantermos um diálogo permanente entre os setores público e privado.” As quatro reuniões realizadas em 2017 atraíram representantes de 273 empresas. Em 179 delas, foi o CEO quem participou do encontro. Foram debatidos temas como o futuro da manufatura avançada, problemas do sistema de proteção à propriedade intelectual e alternativas para amenizar os cortes no orçamento federal de ciência, tecnologia e inovação.

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ideia de criar a MEI inspirou-se na experiência de países como França, Alemanha e Estados Unidos, que nos anos 2000 mobilizaram suas indústrias em torno de agendas de inovação e competitividade. Uma das ambições da iniciativa brasileira era envolver os dirigentes das empresas – a importância da inovação era reconhecida apenas em escalões intermediários, como os responsáveis por pesquisa e desenvolvimento (P&D). Deu certo. “Começamos com um grupo pequeno, de 30 a 40 empresários, que fez um trabalho de catequese eficiente. Formou-se um círculo virtuoso, incorporando exclusivamente gente com poder de decisão. Hoje alcançamos mais de 200 CEOs, que formam um clube de relacionamento valorizado, tanto pelo vínculo que se cria entre os pares quanto pela influência na formulação de políticas públicas”, diz Rafael Lucchesi, diretor de educação e tecnologia da CNI e diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). A MEI, sob a coordenação da CNI, foi criada na gestão do então presidente Armando Monteiro Alves, com a participação de líderes empresariais como Pedro Wongtschowski, Pedro Passos, da Natura, Horácio Lafer Piva, da Klabin, Bernardo Gradin, então na Braskem, Ricardo Pelegrini, à frente da IBM, entre outros. Um dos marcos da história da MEI foi o manifesto “Inovação: A construção do 40  z  abril DE 2018

futuro”, de 2009, que propunha um forte entrosamento entre governo e setor privado no apoio à inovação, mas deixava claro que essa agenda, embora fosse de interesse de toda sociedade, pertence primordialmente às empresas. “A ideia-chave era de que as empresas são as protagonistas no processo de inovação porque dependem dele para sua sobrevivência”, diz o economista Carlos Américo Pacheco, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que assessorou a CNI na elaboração do manifesto. “Empresas inovam por necessidade e inovam naquilo que o mercado demanda delas. Não inovam porque o governo deseja ou para aproveitar conhecimento gerado em universidades.” Na avaliação de Pacheco, que hoje é diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP, a MEI teve sucesso em disseminar a agenda inovação, apesar dos avanços restritos em levar essa agenda à prática nas empresas. “A dinâmica econômica dos

Reunião do Comitê de Líderes da MEI em julho de 2016 com a presença do presidente da República: interlocução permanente com o setor público sobre temas de inovação


Sérgio Lima

Guia da MEI atualizado quatro vezes ao ano informa a empresários quais são as fontes de financiamento à inovação disponíveis

últimos anos atrapalhou bastante, mas a consciência das empresas sobre a importância de inovar ficou muito maior.” Se a CNI já mantinha diálogo com os ministérios da Fazenda e da Indústria e Comércio, a MEI ampliou essa interlocução com gestores de ciência e tecnologia, em temas como propriedade intelectual, financiamento à inovação e formação de recursos humanos. Também se articulou para remover obstáculos legais que atrapalham as empresas. Um exemplo foi a recente regulamentação das mudanças no arcabouço jurídico sobre ciência e tecnologia aprovadas em 2016 (ver Pesquisa FAPESP nº 265). O fórum, que já havia participado ativamente do debate sobre a elaboração da lei, produziu duas propostas para orientar a regulamentação: a primeira há dois anos, em caráter individual, e a segunda, mais recentemente, em parceria com outras entidades empresariais. “Ajudamos a construir propostas capazes de impulsionar o uso

de ferramentas que são comuns em países avançados, como o bônus tecnológico e as encomendas tecnológicas”, diz a economista Gianna Sagazio, superintendente nacional do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), diretora de inovação da CNI e coordenadora da MEI. O fórum também discutiu com governo e Parlamento formas de melhorar o ambiente de inovação nas empresas, em tópicos como a reformulação da Lei de Informática e a tributação de investimentos em startups.

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ara promover a inovação, a MEI criou estratégias que vão da premiação de casos exemplares de empresas e difusão de suas práticas à oferta de informação sobre instrumentos de financiamento e instituições de pesquisa capazes de estabelecer boas parcerias. Um exemplo é a MEI Tools, um guia atualizado quatro vezes por ano que reúne fontes e programas de fomento disponibilizados por bancos,

agências e instituições, e dá orientação sobre como aproveitá-los. Em uma iniciativa estimulada pela MEI, a CNI criou institutos de tecnologia e de inovação, dedicados a apoiar o setor industrial. Hoje, estão em funcionamento 51 Institutos Senai de Tecnologia em 17 estados, que já atenderam as demandas de mais de 15 mil empresas em serviços de técnicos e de consultoria e na realização de ensaios e testes. Também estão em operação 21 Institutos Senai de Inovação, que realizam pesquisa aplicada para desenvolver novos produtos e tecnologias, além de novos protótipos e plantas-piloto. Cada instituto se dedica a um campo específico, como microeletrônica, biomassa, química verde, manufatura avançada, entre outros. No final do ano passado, havia cerca de 200 projetos sendo executados nos institutos de inovação. Metade deles atendia grandes empresas. A outra metade se dividia entre médias e pequenas empresas e startups. “Essa estrutura pESQUISA FAPESP 266  z  41


foi discutida na MEI como um grande projeto para ampliar a competitividade da indústria dentro do Senai”, explica Gianna Sagazio.

O

s coordenadores da MEI tiveram papel de destaque na criação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), organização social ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) criada em 2014. “O Conselho de Administração da Embrapii, que presido, é formado por outros líderes da MEI. Participamos de todo o debate sobre a criação da organização”, diz Pedro Wongtschowski. Cerca de 340 projetos de empresas brasileiras já tiveram acesso a recursos não reembolsáveis da Embrapii para realizar projetos de P&D em instituições científicas e tecnológicas 1 especializadas. O modelo de financiamento é tripartite. A empresa proponente e a Embrapii investem valores equivalentes no projeto. O Documento com sugestões para fortalecer terceiro pilar são as unidao ensino de engenharia está sendo avaliado des credenciadas, formadas por equipes ligadas a labopelo Conselho Nacional de Educação ratórios de universidades ou de instituições tecnológicas (ver Pesquisa FAPESP nº 260). O presidente da EmAntes de cuidar do programa de imerbrapii, Jorge Guimarães, lembra que a a países como Alemanha, Suécia e Estados ideia de criar uma “Embrapa da indús- Unidos. Mais de uma centena de pessoas são, Pelegrini foi convidado a coordenar tria” foi proposta em 2010 em um estu- participaram da iniciativa no ano passa- a iniciativa da CNI para estimular a atrado encomendado pela Coordenação de do. Uma das etapas aconteceu no país e ção para o país de centros de pesquisa Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Su- levou os participantes a institutos de ino- de empresas multinacionais. A missão perior (Capes) à Sociedade Brasileira de vação do Senai e a unidades da Embrapii aproveitava sua experiência – há sete Física. “A CNI e outras instituições liga- em cidades como Porto Alegre, Joinville, anos, ele conseguiu trazer para o Brasil o das à inovação abraçaram a ideia e ajuda- Curitiba, Rio de Janeiro e Salvador. As ou- nono centro internacional de pesquisa da ram a convencer o governo a implantá-la. tras duas foram no exterior. Em setembro, IBM, disputado por 70 países. “Quando Os recursos de um programa-piloto da um grupo de 25 empresários passou qua- havia só mais dois competidores, a AusEmbrapii vieram de uma parceria entre a tro dias nos Estados Unidos e fez visitas trália e os Emirados Árabes, fui defender Finep [Financiadora de Estudos e Proje- técnicas a empresas como Cisco, Google a candidatura brasileira na sede da IBM tos] e a CNI”, diz. A sede da organização, e Intel, e a instituições como o Stanford e usei o exemplo da MEI para mostrar em Brasília, funciona em instalações da Research Institute e Lawrence Livermore que existia no Brasil um foco crescente National Laboratory, na Califórnia. E em em inovação e uma consciência em relaCNI, que não cobra aluguel. Em 2015, a CNI consultou empresas de outubro os empresários foram à Suécia, ção à importância de inovar.” Dois vicegrande e médio portes sobre seu estágio de cumprindo um roteiro de visitas a par- -presidentes da IBM vieram ao Brasil e inovação e perguntou quais eram os paí- ques tecnológicos e a empresas como a conheceram instituições, entre as quais a ses em que elas se balizaram para avaliar Saab e a aceleradora de startups Epicen- FAPESP. “O fato de haver uma fundação o futuro. Os resultados ajudaram a MEI a ter. “Vários participantes relataram que a em São Paulo com uma estrutura comorganizar um programa, chamado Imer- experiência é transformadora e os ajudou plementar à esfera federal de financiasão em Ecossistemas de Inovação, que a ter novos insights sobre como trabalhar mento à ciência e tecnologia colaborou leva empresários e executivos a conhecer a inovação”, explica Ricardo Pelegrini, o para formar uma imagem positiva do centros de pesquisa e empresas inovadoras responsável pela organização do progra- país”, diz Pelegrini. Para municiar o debate sobre a inovano exterior – e também no Brasil. Criada ma, que foi presidente da IBM Brasil e é ção, a MEI incentiva a produção de esem 2016, a iniciativa já promoveu viagens um dos líderes da MEI. 42  z  abril DE 2018


No programa de imersão em ecossistemas de inovação da MEI, empresários visitaram laboratórios como o Lawrence Livermore, na Califórnia (página ao lado), e o centro de absorção atômica dos Institutos Lactec, em Curitiba (à esq.)

fotos 1 Damien Jemison – LLNL 2 Miguel Ângelo /CNI

2

tudos e indicadores. Deve ser concluído neste mês um estudo feito por economistas das universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Estadual de Campinas (Unicamp) para a CNI com o objetivo de avaliar os impactos de tecnologias emergentes sobre a competitividade da indústria brasileira nos próximos 10 anos (ver Pesquisa FAPESP nº 264). O projeto Indústria 2027 foi um tema recorrente em reuniões de líderes da MEI no ano passado. Outra ação de destaque foi a parceria firmada com as organizações responsáveis pelo Índice Global de Inovação (GII), que permitirá a participação do Brasil na construção dos indicadores do relatório. No ranking que avalia o grau de inovação de 140 países, o Brasil aparece em 69º lugar, atrás de outras economias emergentes, como Índia e China (ver Pes-

quisa FAPESP nº 257). “Essa posição não é compatível com o posto de oitava economia do mundo. Nossa participação no índice vai nos ajudar a conhecer melhor nossas deficiências”, diz Gianna Sagazio.

A

preocupação com recursos humanos talhados para a inovação levou a MEI a articular-se com a Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge) na elaboração de um documento com sugestões para fortalecer a formação de engenheiros – o texto propõe mudanças nos currículos e em metodologias de ensino, além de medidas para melhorar a qualidade do corpo docente. A proposta foi levada ao Conselho Nacional de Educação. “Quem faz inovação nas empresas são os engenheiros”, diz Vanderli Fava de Oliveira,

professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e presidente da Abenge, que reúne as escolas de engenharia do país. O número de engenheiros formados cresceu bastante no país nos últimos anos – eram 25 mil no ano 2000 e passaram de 100 mil em 2016. As recomendações feitas por um grupo de trabalho da MEI e da Abenge têm como foco formar profissionais de alto nível. “Boa parte dos cursos de engenharia são privados e não têm a mesma qualidade dos cursos em universidades públicas”, explica Oliveira. “Uma mudança necessária para formar engenheiros mais completos será a criação de um sistema de residência dos estudantes em empresas, semelhante ao da medicina.” A formulação conjunta deu mais consistência à proposta, segundo ele: “O documento tem a visão de quem forma e a visão de quem precisa utilizar a mão de obra dos engenheiros”. Andre Clark, presidente e CEO da Siemens no Brasil e um dos líderes da MEI, considera que a iniciativa tende a assumir um papel importante na criação de novas políticas industriais. “O fórum ajudou a coordenar elementos de políticas de Estado, o conhecimento gerado na academia e as estratégias empresariais”, afirma. “Agora, é necessário aumentar o conteúdo de inovação da indústria e a MEI se propõe a discutir isso de uma forma horizontal, sem defender benefícios para setores específicos nem protecionismo, mas melhorando o ambiente para todos.” Para Pedro Wongtschowski, um dos desafios da MEI é ajudar a levar à prática as mudanças viabilizadas pela legislação recente em inovação. “Com a redução do orçamento federal de ciência e tecnologia, também temos a tarefa de propor novas formas de financiar a inovação que resgatem a capacidade de investimento de órgãos fundamentais co­mo a Finep”, afirma. n Fabrício Marques pESQUISA FAPESP 266  z  43


Ações afirmativas y

Ambiente diverso Universidades investem em políticas de inclusão e acolhimento de estudantes e pesquisadores transgêneros Rodrigo de Oliveira Andrade

A

conquista de direitos pelos transgêneros começa a reverberar nas universidades brasileiras. Algumas delas estão criando políticas de inclusão, acolhimento e permanência de alunos e pesquisadores cuja identidade de gênero se opõe a de seu sexo biológico, a exemplo do que acontece em diversas instituições do exterior. O caso mais recente é o da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que em 2017 assegurou a professores, servidores técnico-administrativos e alunos transgêneros, inclusive visitantes e participantes de eventos, o direito do uso do nome social em registros funcionais e acadêmicos e em eventos públicos e oficiais. No caso de documentos para uso externo, como histórico escolar, ata de colação de grau, diploma e declarações, o nome social precederá o civil, que aparecerá entre parênteses. A decisão da Unesp se soma a outras iniciativas recentes, como as das universidades Federal da Bahia (UFBA) e Estadual do Piauí (UESPI), que em 2014 44  z  abril DE 2018

aprovaram resoluções permitindo o uso do nome social a estudantes cujo registro civil não reflita o gênero com que se identificam. Mais recentemente, esse direito foi garantido a alunos de educação básica. Em janeiro o Ministério da Educação (MEC) homologou uma norma autorizando estudantes transgêneros a fazerem matrícula e registros usando nomes sociais – se forem menores de idade, o pedido deve ser encaminhado pelos responsáveis. Desde 2011, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) permite que travestis e transexuais usem o nome social no currículo Lattes. Há alguns anos, a FAPESP lidou com o caso de um ex-bolsista que, depois de mudar de sexo, pediu judicialmente a mudança de nome nas bases de dados da Fundação. Em fevereiro, o Conselho Técnico Administrativo da FAPESP aprovou um parecer que normatiza a adoção de nome social em seus registros acadêmicos. O uso do nome social é uma reivindicação antiga de travestis e transexuais, que


ilustração marina quintanilha

o consideram essencial para o reconhecimento da identidade. Na Unesp, uma das participantes da comissão responsável pela resolução aprovada pelo Conselho Universitário foi uma pesquisadora transgênero, a física Daniela Mourão, professora da Faculdade de Engenharia, campus de Guaratinguetá. Segundo ela, a norma será aplicada em mudanças de nomes masculinos para femininos ou vice-versa e não se estende a sobrenomes. “Queremos evitar que seja usada em gracejos, trotes ou protestos ideológicos”, afirma. De acordo com ela, um dos principais desafios para a inclusão de transgêneros no ensino superior é a sua aceitação pelos colegas e professores. Por isso, a Unesp também criou outras políticas de estímulo ao acolhimento, como o projeto “Educando para a diversidade”, lançado no início do ano. “A iniciativa prevê o envolvimento de todos os setores da Unesp e a realização de palestras e debates para a promoção do respeito e da institucionalização do combate à violência contra minorias na instituição”, explica a física. Daniela usou até dois anos atrás seu nome masculino, que não gosta de mencionar, mas diz que sempre se percebeu como mulher. Em 2016, iniciou o processo de mudança de gênero. “Por não entender e pensar que era uma aberração, sempre mantive tudo escondido”, conta. “Com o tempo, o medo se somou à vergonha e à ideia de ser portadora de uma doença que arruinaria a mim e a minha família”, comenta. Ainda com identidade masculina, Daniela formou-se em física, fez mestrado e doutorado, este último em engenharia e tecnologia espaciais no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Trabalhou dois anos como professor visitante no Instituto de Física da Universidade de Brasília (UnB) antes de ingressar na Unesp em 2009 como professor assistente. Problemas envolvendo seu transexualismo intensificaram-se em 2014. À época, Daniela desenvolveu depressão, o que a afastou das atividades profissionais. Com ajuda psicológica, decidiu pela mudança. Voltou ao trabalho em fins de 2016, já com a identidade feminina. “Para minha surpresa, não houve reações negativas ou preconceituosas, o que me encorajou a seguir em frente”, comenta. Ela iniciou o processo de alteração institucional do nome após conversar com o chefe de seu departamento e a própESQUISA FAPESP 266  z  45


Em fevereiro, Amara Moreira tornou-se a primeira travesti a obter o título de doutora na Unicamp usando o nome social

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-reitora de Graduação. Dessas conversas, surgiu a ideia de formar uma comissão que mais tarde estabeleceria as novas normas da Unesp. Desde a aprovação da resolução houve várias solicitações por parte dos estudantes. Situações como essa ainda não são muito comuns no Brasil. “Boa parte dos ambientes educacionais não está preparada para lidar com as diferentes formas de expressão que a sexualidade pode assumir”, afirma Keila Simpson, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), que articula quase 200 instituições brasileiras com ações voltadas à promoção da cidadania dessa população. Segundo ela, estima-se que 80% dos travestis e transexuais que abandonam o ensino médio no mundo estejam no Brasil. “A dificuldade em entrar no ensino superior é o fim de um percurso de exclusão que essa população sofre durante toda a trajetória escolar”, diz. É difícil avaliar o contingente de transgêneros que conseguem ingressar no ensino superior, pois a maioria não se matricula usando o nome social. Esse foi o caso de Amara Moreira, que se define como travesti e em fevereiro se tornou a primeira pessoa a obter o título de doutora na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) usando o nome social. “Comecei minha transição aos 29 anos, no primeiro ano do doutorado em crítica literária”, diz ela, cuja tese, intitulada “A indeterminação de sentidos 46  z  abril DE 2018

no Ulysses de James Joyce”, foi orientada por Suzi Frankl Sperber, professora do Instituto de Estudos de Linguagem (IEL). “Precisamos repensar o modelo de universidade que estamos construindo, se se trata de um modelo que acolhe todo tipo de pessoa ou se apenas aquelas que se adequem aos padrões de gênero considerados legítimos pela sociedade.” Para combater a violência contra estudantes lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT), em 2015 a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) criou uma diretoria dedicada à elaboração de políticas de acolhimento e permanência dessa população. “A primeira medida que tomamos foi a aprovação de uma portaria que garanta o uso do nome social a tra-

vestis e transexuais, inclusive nos casos de estudantes com menos de 18 anos, e o uso de banheiros a partir da identificação de gênero adotada por cada um”, destaca a professora Luciana Vieira, diretora de políticas LGBT da UFPE. Outra medida foi a concessão de bolsas a alunos LGBT para que trabalhem em campanhas de conscientização de funcionários e discentes da universidade ou na “Zona multicor”, programa de temática LGBT desenvolvido em parceria com o Núcleo de Televisão e Rádio da instituição. No Hospital das Clínicas dessa universidade também foi criado um espaço de apoio para transgêneros que querem iniciar o processo de mudança de identidade, com acompanhamento de endocrinologistas, psicólogos, fonoaudiólogos e cirurgiões. Experiência do exterior

Estudantes de graduação transgêneros enfrentam um ambiente especialmente adverso em certas áreas do conhecimento, segundo um estudo com 4 mil universitários de 78 instituições de ensino superior dos Estados Unidos publicado em março na revista Scientific Reports. A partir de informações de uma pesquisa nacional feita com estudantes LGBT em seu primeiro e último ano na universidade, os pesquisadores verificaram que eles 2

O caso da física Daniela Mourão inspirou a criação de uma comissão que aprovou o uso de nome social por alunos e professores na Unesp


fotos 1 léo ramos chaves 2 amanda fernandes  3 divulgação

A pesquisadora da Universidade de Michigan Lynn Conway em 1977, após a transição de gênero

são 8% mais propensos a deixar a área conhecida como Stem (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) do que os colegas heterossexuais, possivelmente por se sentirem excluídos. Dados de 2016 da American Physical Society indicavam que, também nos Estados Unidos, um em cada cinco físicos LGBT enfrenta exclusão e assédio no trabalho. Transgêneros eram os mais afetados. A principal implicação acadêmica desse fenômeno, segundo os autores do relatório, é a exclusão de estudantes e pesquisadores qualificados. Esses trabalhos também apontam que os pesquisadores LGBT ainda convivem com comentários homofóbicos, exclusão, estereótipos e expectativas de incompetência dentro da academia, ainda que outro artigo, publicado em 2015 na revista Journal of Homosexuality, tenha sugerido que os cientistas americanos LGBT se sentiam mais aceitos em seu ambiente de trabalho do que profissionais de outras áreas. O estudo também constatou que os entrevistados que trabalhavam em áreas com presença maior de mulheres, como as ciências sociais, sentiam-se mais integrados ao ambiente acadêmico do que colegas que atuavam em áreas predominantemente masculinas, como as engenharias. Muitas instituições norte-americanas têm investido em políticas de inclusão específicas para o grupo. Por lá já existem rankings das universidades que oferecem ambientes mais receptivos aos transgêneros, o que inclui banheiros unissex na maioria dos prédios do campus, alojamentos apropriados, direito ao uso do nome social e cobertura de despesas médicas envolvendo o processo de mudança de gênero. Um dos destaques é a Universidade de Indiana, reconhecida por oferecer acompanhamento psicológico a estudantes transgêneros ou em processo de mudança de gênero, orientando-os na busca por terapias. A instituição também sedia o Instituto Kinsey, que desde 1947 promove pesquisas sobre sexualidade, gênero e reprodução humana. Em outra frente, a ONG Cam-

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Nos Estados Unidos, há um ranking das universidades com ambiente mais acolhedor para alunos transgêneros

pus Pride elaborou uma lista com 1.036 universidades dos Estados Unidos que adotaram políticas de promoção de um ambiente acadêmico mais seguro para os estudantes LGBT (bit.ly/campride). mudança do nome

Preocupada com a inclusão dos transgêneros no ambiente científico, a National Science Foundation (NSF), principal agência de fomento à pesquisa básica dos Estados Unidos, promoveu em 2015 uma conferência com a cientista da computação Lynn Conway, uma das principais ativistas transexuais daquele país. Lynn trabalhou na IBM na década de 1960 e foi demitida em 1968, ao revelar que faria a transição de gênero. Já como mulher, recomeçou a carreira atuando como

programadora na Xerox, em 1973, onde desenvolveu o VLSI, sistemas que abrigam milhões de componentes eletrônicos em pequenos chips. Em 1989, tornou-se professora na Universidade de Michigan e foi eleita para a Academia Nacional de Engenharia dos Estados Unidos por suas contribuições envolvendo o VLSI. Outro caso conhecido naquele país é o de Joan Roughgarden, professora na Universidade Stanford, Califórnia, e uma das mais influentes ecólogas no mundo. Joan nasceu Jonathan e decidiu pela mudança de gênero em 1998. O expediente de adotar um prenome com a mesma letra inicial da identidade pregressa é frequente entre pesquisadores transgêneros e busca evitar confusões relacionadas à autoria da produção científica anterior à transição. “É imperativo pensar políticas públicas que busquem corrigir as desigualdades envolvendo essa população”, afirma a psicóloga Cássia Virgínia Bastos Maciel, pró-reitora de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil da UFBA. Ela explica que a inclusão de transgêneros amplia a diversidade no ambiente acadêmico e a possibilidade de produzir conhecimento a partir de perspectivas e vivências diferentes. “Também pode auxiliar a criação de estratégias e políticas públicas que melhorem as condições de vida dos LGBT.” Segundo Cássia, a inserção desse grupo na universidade também é importante para ampliar a produção acadêmica sobre transgêneros, que, por sua vez, pode ser revertida na elaboração de políticas para essa população. n pESQUISA FAPESP 266  z  47


Combate de incêndio no Parque Indígena do Xingu (MT) em 2016

Sensoriamento y

O

Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) incrementou seu sistema de divulgação e análise de informações sobre queimadas após um processo de modernização concluído em dezembro de 2017. O banco de dados disponível no site da instituição (inpe.br/queimadas) ganhou funcionalidades como a geração instantânea de gráficos que mostram focos de incêndio em todo o país nos últimos 20 anos. Também foi feita a integração com a ferramenta Google Maps, o que permite identificar com precisão se o fogo atingiu uma área florestal ou agrícola. “A evolução dos sistemas geográficos de informação e da internet obriga o instituto a atualizar a cada cinco anos seus mecanismos de divulgação e processamento de imagens de satélites”, explica o engenheiro Alberto Setzer, coordenador do Programa de Queimadas do Inpe. Outra novidade é o lançamento da plataforma TerraMA2Q, que adapta os dados de monitoramento de queimadas às ne-

48  z  abril DE 2018

Apoio para enfrentar o fogo Estados começam a utilizar novas ferramentas para analisar dados de queimadas e incêndios florestais Bruno de Pierro

cessidades de cada usuário. “O software dá mais autonomia para gestores municipais e estaduais acompanharem a ocorrência de fogo irregular”, explica Setzer. O TerraMA2Q possibilita a verificação em tempo real da situação de uma região, integrando dados fornecidos por satélites com informações meteorológicas ou a localização de carros de bombeiros. O financiamento desses projetos foi feito pelo Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido, que por meio do Banco Mundial concedeu US$ 1,53 milhão ao Inpe.

A plataforma TerraMA2Q foi adotada pelas secretarias estaduais de Meio Ambiente do Acre, do Tocantins e do Piauí. Por meio da ferramenta, é possível sobrepor dados gerados pelo Inpe aos de órgãos públicos dos estados, diz Maria Amélia Maciel, gerente de Informações e Inteligência Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Tocantins. “Algumas instituições de pesquisa sediadas em Tocantins fazem coletas locais e isso ficava de fora da fiscalização feita pela secretaria”, conta Maria Amélia. Essas informações regio-


fotos  1 flickr /Vinícius Mendonça/Ibama 2 INPE

nais, ela explica, muitas vezes são mais refinadas e dizem respeito a variações de temperatura e umidade. “Agora, é possível inserir esses dados gerados localmente na nova plataforma e, com isso, obter um quadro mais detalhado dos efeitos das queimadas.” A gerente diz que o novo software possibilita identificar a chamada “cicatriz do fogo” com mais exatidão, isto é, medir o seu impacto na biodiversidade e na vegetação. O Inpe oferece treinamentos a funcionários dos órgãos estaduais que usam suas ferramentas de acompanhamento. Vera Reis, diretora técnica do Instituto de Mudanças Climáticas da Secretaria de Meio Ambiente do Acre, conta que a plataforma TerraMA2Q dispõe de mais recursos que podem ajudar na elaboração de estratégias para combater e prevenir incêndios irregulares. “Antes de aderir a esse sistema, a secretaria obtinha dados apenas sobre focos de calor, disponíveis no site do Inpe. Fazíamos manualmente uma distribuição espacial das queimadas no mapa”, diz. “Conseguimos estimar o risco de fogo na região ao cruzar dados meteorológicos como indicadores de seca e de acúmulo de chuvas. E agora também é possível avaliar o perigo de inundações.” O banco sobre queimadas do Inpe oferece dados regionais desde 1998, mas isso era feito até agora de maneira limitada. Entre os principais órgãos interessados nessas informações estão os responsáveis por fiscalizar e combater incêndios florestais, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e os governos estaduais. O governo do estado de São Paulo desenvolve desde 2011 a Operação Corta Fogo, que utiliza dados do Inpe para nortear o trabalho da Polícia Militar Ambiental na fiscalização do uso irregular do fogo em áreas agrícolas e florestais. No ano passado, o valor das multas aplicadas no estado ultrapassou R$ 25 milhões. O Inpe recebe cerca de 250 imagens por dia, enviadas de 10 satélites estrangeiros. Parte deles é de satélites geoestacionários, como o Goes-16, que orbita a Terra a 36 mil quilômetros (km) da superfície – os demais são os de órbita polar e estão a 850 km de altitude. Por estarem mais distantes, os geoestacionários costumam produzir imagens com resolução mais baixa, de 2 km. A vantagem é que esses satélites enviam imagens a

Os pontos vermelhos no mapa são focos de fogo irregular detectados por satélites, registrados no banco de dados do Inpe e integrados à ferramenta Google Maps

cada 15 minutos e conseguem detectar queimadas de grandes proporções, como incêndios florestais que podem se propagar por dezenas de quilômetros.

O

Inpe tem conseguido mostrar que esse tipo de degradação avançou no país nos últimos anos. Em 2017, a instituição registrou um número recorde de mais de 200 mil focos em todo o país, sendo que a maior parte deles estava concentrada na Amazônia. Esse número é próximo aos de outros anos recentes com muitas detecções, como 2015 e 2012. O número elevado se explica não só pelo clima, que cria condições para a propagação do fogo em períodos mais secos, mas principalmente pela ação humana. Um exemplo é a prática de corte e queima de restos de culturas com a finalidade de preparar o terreno para um novo plantio. O método, usado tradicionalmente por agricultores de subsistência, é uma das principais causas de incêndios florestais – quando não controladas, as chamas podem invadir a vegetação natural. Outro exemplo é o preparo para desmatamento com a maior remoção possível da vegetação natural, e a conclusão com a queima das árvores derrubadas. Luiz Aragão, pesquisador da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe, explica que, se o fogo progride pelo chão de uma floresta e a copa das árvores é muito densa, o sensor termal de alguns

satélites pode não detectar o calor. Um estudo publicado em fevereiro por Aragão e pesquisadores dos Estados Unidos na revista Nature Communications mostrou que, entre 2003 e 2015, o Brasil reduziu em mais de 70% as emissões de gases estufa que vêm de queimadas de áreas agrícolas. Contudo, no mesmo período, houve um aumento de 30% na liberação de poluentes relacionados ao alastramento dos incêndios para florestas próximas às áreas desmatadas. “Isso significa que as políticas que o Brasil está implementando para mitigar o desmatamento não são eficientes para combater os efeitos do fogo”, afirma Aragão. Os pesquisadores analisaram dados fornecidos pelos satélites Terra e Aqua, que fazem parte do Sistema de Observação da Terra (EOS), coordenado pela Nasa, a agência espacial norte-americana. Ambos são equipados com o sensor Modis, capaz de produzir imagens com resolução de 250 metros e cobrir dezenas de bandas espectrais. A principal vantagem do Modis é que ele consegue identificar tanto focos de calor, por meio da detecção de energia termal, quanto alterações na superfície da vegetação, ao utilizar um sensor óptico. Para detectar as queimadas, geralmente o monitoramento utiliza as imagens produzidas pela banda termal do sensor, que capta comprimentos de onda capazes de mostrar a temperatura de uma certa localidade. Emissões termais de atividades industriais, como os fornos utilizados na produção de aço em siderúrgicas, também se destacam no Modis. “Por isso, é preciso fazer sempre uma filtragem das imagens dos satélites”, completa Setzer. n pESQUISA FAPESP 266  z  49


ciência  geociências y

Cicatrizes de um cataclismo no

Brasil Central Rochas encontradas em Mato Grosso, Goiás e São Paulo guardam registros de terremoto e tsunami causados por meteorito há cerca de 250 milhões de anos

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ntre 2012 e 2015, o geólogo norte-americano Eric Tohver rodou milhares de quilômetros por São Paulo, Goiás e Mato Grosso. Então pesquisador da Universidade da Austrália Ocidental, ele visitou pedreiras e paredões rochosos às margens de estradas brasileiras à procura de formações rochosas de 250 milhões de anos atrás. Tohver suspeitava ser possível encontrar estruturas que testemunhassem o poder destrutivo do impacto do meteorito que abriu a maior cratera da América do Sul. Há pouco mais de 250 milhões de anos, um corpo celeste com estimados 4 quilômetros (km) de diâmetro, que possivelmente se deslocava a 17 quilômetros por segundo, caiu onde hoje é o coração do Brasil e deixou uma cratera de 40 km de diâmetro na qual estão localizados os municípios de Araguainha e Ponte Branca, em Mato Grosso. Anos atrás, Tohver e pesquisadores do Brasil, do Reino Unido e da Austrália haviam estimado que esse impacto altamente destrutivo – que liberou uma quantidade de energia milhões de vezes maior que a das bombas atômicas lançadas sobre

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o Japão no fim da Segunda Guerra Mundial – tenha aniquilado instantaneamente o que havia em um raio de até 250 km. A força do choque também teria lançado para a atmosfera uma imensa quantidade de poeira e vapor-d’água, além de 1.600 gigatoneladas de metano, um gás de efeito estufa que pode ter contribuído para o aumento das temperaturas, então mais elevadas, e a morte em massa que marcou a maior das extinções registradas no planeta (ver Pesquisa FAPESP nº 211). Em um artigo publicado em janeiro deste ano na revista Geological Society of America Bulletin, o geólogo norte-americano e seus colaboradores apresentam cicatrizes dessa destruição encontradas a quase 1.000 km de distância da cratera. “Nos trabalhos anteriores, já supúnhamos que os danos pudessem ter chegado tão longe”, conta Tohver, professor visitante do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP). “Agora, temos evidências de que ocorreram de fato.” No ponto de colisão, o bólido escavou um buraco de 2 km de profundidade e fez emergir um grande

foto  elder yokoyama / unb imagem de radar Manfred Gottwald / DLR

Ricardo Zorzetto


Imagem de radar da região onde caiu um meteorito por volta de 253 milhões de anos atrás. O círculo branco marca os limites da cratera aberta pelo impacto. Ao lado, a serra da Arnica, formada no ponto em que ocorreu o choque

pESQUISA FAPESP 266  z  51


corpo de granito que forma parte da serra da Arnica, no centro da cratera (ver Pesquisa FAPESP nº 140). Nos instantes seguintes ao impacto, um megaterremoto com magnitude de até 10,5 graus na escala Richter, dezenas de vezes mais elevada que a dos sismos mais arrasadores do planeta, teria feito o chão tremer a até milhares de quilômetros de distância. Na época, os continentes estavam agrupados em uma única massa de terra firme, a Pangeia, que se estendia de norte a sul do planeta. Os blocos rochosos que formariam o Brasil ficavam a sudoeste do supercontinente, com o território que vai de Mato Grosso e Goiás ao norte da Argentina coberto por água. A trepidação causada pelo sismo teria agitado as camadas de lama e areia no fundo dessa imensa massa d’água e gerado estruturas que, depois de solidificadas, recebem o nome de diques clásticos e aparecem no registro geológico como veios verticais de um tipo de rocha seccionando um corpo rochoso maior (ver infográfico na página ao lado). diques clásticos e tsunamitos

Nas viagens pelo interior do país, Tohver, o geólogo alemão Martin Schmieder e os geólogos brasileiros Claudio Riccomini, da USP, Lucas Warren, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro, e Cristiano Lana, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), encontraram diques clásticos da época do impacto dispersos por uma vasta região do que teria sido o fundo de um mar raso ou uma laguna, hoje soterrado pela bacia sedimentar do Paraná. Eles identificaram essas estruturas no município de Alto Araguaia, em Mato Grosso, a 50 km em linha reta do centro da cratera, e até quatro vezes mais distante em Mineiros e Montividiu, em Goiás. Também encontraram diques clásticos daquele período em maior quantidade nos municípios paulistas de Rio Claro, Piracicaba e Limeira, a quase 1.000 km de onde ocorreu o choque, e há indícios de que esses diques também existam no Paraná e em Santa Catarina. “Se os efeitos observados a tamanha distância de Araguainha tiverem mesmo sido causados pela vibração do impacto do corpo celeste, o sismo ocasionado pelo choque pode ter alcançado intensidade igual ou até superior à magnitude 10”, comenta o sismólogo Marcelo Assumpção, que coordena o Centro de Sismologia da USP e não participou da pesquisa. Na camada de rocha imediatamente superior à dos diques, Tohver e seus colaboradores encontraram um tipo de rocha que denuncia outro efeito secundário do impacto: um potente tsunami. Com o nome óbvio de tsunamitos, essas rochas contêm detritos e pedaços de rochas, algumas estranhas à região em que estão depositadas. “Nos minutos que se sucederam à propagação do sismo, um 52  z  abril DE 2018

gigantesco tsunami teria varrido uma região de milhares de quilômetros”, supõe Tohver. Os tsunamitos atraem a atenção dos pesquisadores porque, além serem indícios de fenômenos específicos, podem abrigar cristais de zircão, um mineral muito resistente (os mais antigos têm quase a idade do planeta) que funciona como um relógio geológico. Cristais microscópicos de zircão extraídos de tsunamitos encontrados próximo a Porangaba, em São Paulo, e em Santa Rita do Araguaia, em Goiás, formaram-se por volta de 253 milhões de anos atrás, segundo a datação feita por Tohver. Esse valor é bem próximo à idade (254,7 milhões de anos) que ele e outros pesquisadores haviam estimado para o impacto ao datar rochas do interior da cratera. “É difícil conhecer a idade da cratera porque a imprecisão dos métodos de datação para essa faixa de idades ainda é grande, da ordem de 3 milhões de anos”, explica o geólogo Alvaro Crósta, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um Cristais dos maiores especialistas em crateras encontrados do país. “Acredito que o valor obtido agora seja bem próximo à idade do em rochas impacto.” No início dos anos 1980, Crósta demonstrou que Araguainha formadas após se formara pelo impacto de um meteorito e estimou a idade em 285 mio impacto têm lhões de anos. “Na época, eu sabia idade próxima que devia haver erro porque a técnica disponível não era a mais adequada.” à da maior Tohver se anima com a possibilidade de que a idade mais provável do extinção de impacto seja de 253 milhões de anos. vida do planeta Ela aproximaria mais a queda do meteorito da extinção que eliminou cerca 90% das formas de vida do planeta 252 milhões de anos atrás e marcou o fim do período geológico Permiano e o início do Triássico. Com Riccomini, Lana e outros colaboradores, Tohver propôs em 2013 que o choque que abriu a cratera de Araguainha não seria a causa imediata da extinção, mas o disparador de alterações climáticas em escala global que teriam eliminado quase toda a vida. Seus efeitos indiretos teriam sido tão devastadores quanto os do corpo celeste que mais tarde abriria a cratera de Chicxulub, com 180 quilômetros de diâmetro, no golfo do México, contribuindo para a extinção dos dinossauros 65 milhões de anos atrás. “É plausível que o impacto de Araguainha, acompanhado do terremoto, do tsunami e da expulsão de metano, tenha sido o gatilho de uma grande extinção”, diz Warren, que também trabalha com paleontologia. É uma proposta controversa. Prevalece entre geólogos e paleontólogos a ideia de que a extinção do Permiano decorreu de alterações no clima provocadas por um extenso derrame de lava na


Danos de um grande impacto Queda de corpo celeste teria gerado perturbações em vasta área do supercontinente Pangeia PANGEIA Cerca de 250 milhões de anos atrás

Sibéria

1

Oceano Pantalássico BACIA SEDIMENTAR DO PARANá

América do Sul

África

Mar de Tétis Local da queda

Austrália Antártida Local da queda

Há 253 milhões de anos, a colisão de um meteorito abriu uma cratera de 40 quilômetros de diâmetro na superfície da Terra. O choque gerou sismos e tsunamis que teriam deixado vestígios (tsunamitos, diques clásticos e cristais de zircão deformados) na Bacia do Paraná a até

fotos  1 e 2 eric tohver / usp 3 claudio riccomini / usp  ilustraçãO fabio otubo  infográfico ana paula campos

Fonte  tohver, e. et al. geolocial society of america bulletin. 2018.

Sibéria. Também já foi proposto que outras supostas crateras de impacto – contemporâneas a Araguainha, mas maiores, como Wilkes Land, na Antártida, e Bedout, na costa da Austrália – tenham contribuído para a catástrofe. Mas nunca se comprovou a origem delas. “O impacto de Araguainha certamente causou uma grande mudança local e até extinção seletiva de algumas espécies da fauna e da flora em escala regional, mas não diria que foi gatilho de uma extinção em massa”, diz o geólogo Elder Yokoyama, professor da Universidade de Brasília (UnB), que já estudou a cratera. Para Max Langer, professor de paleontologia da USP em Ribeirão Preto, a nova datação de Araguainha pode estimular uma revisão das hipóteses sobre a extinção do Permiano. “Até a descoberta de Chicxulub”, diz, “havia vários cenários para explicar a extinção dos dinossauros”. n

Tsunamito Rocha formada a partir de sedimentos e pedaços de outras rochas transportados pela correnteza de tsunamis

1.000 km do local da queda

2

Deformações em cristais de zircão Marcas (setas) em cristais microscópicos de zircão decorrentes de fenômenos que liberam grande quantidade de energia, como a queda de um meteorito 3

Diques clásticos

Artigo científico tohver, E. et al. End-Permian impactogenic earthquake and tsunami deposits in the intracratonic Paraná Basin of Brazil. Geological Society of America Bulletin. 2 jan. 2018.

Depósitos de sedimentos que, liquefeitos, penetram em frestas e fraturas de sedimentos mais densos e compactos e se solidificam (veios claros na vertical). São evidência de terremotos ocorridos no passado

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física y

Trabalho teórico propõe nova forma de parar a luz Victória Flório

Eduardo Cesar

Brilho M congelado

ais veloz do que tudo que se move no Universo, a luz pode ser brecada por completo em meio a suas andanças pelo espaço. Esse é o resultado obtido por um método teórico proposto por três pesquisadores, um dos quais radicado no Brasil. Usando simulações numéricas, eles afirmam que seria possível parar pulsos de luz desde que sua trajetória fosse confinada por guias de onda, estruturas físicas que conduzem a luz (fibras ópticas ou canaletas), dispostos de forma a criar singularidades. Esse conceito matemático se refere a pontos excepcionais de um sistema (no caso, a luz passando pelas guias de onda) nos quais emergem propriedades não usuais, indefinidas ou peculiares. Ao passar por esses pontos, a velocidade de um pulso de luz seria igual a zero, segundo cálculos do matemático Alexei Mailybaev, do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), do Rio de Janeiro, e dos físicos Nimrod Moiseyev, do Instituto de Tecnologia de


Israel (Technion), e Tamar Goldzak, que faz estágio de pós-doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. O novo método apresenta um diferencial em relação a outras abordagens que perseguem o mesmo objetivo: os pulsos de luz desacelerariam totalmente sem perder sua intensidade original, de acordo com o artigo publicado pelo trio de pequisadores em 3 de janeiro na revista científica Physical Review Letters. A luz se enfraquece antes de ser totalmente brecada, limitação hoje não contornada por outras técnicas. Nos pontos excepcionais, as várias ondas que constituem o pulso de luz se comportariam como se fossem uma só, truque indispensável para que, ao mesmo tempo, o feixe pare e mantenha sua intensidade. Entretanto, Mailybaev lembra que há limitações técnicas para colocar a ideia em prática. “Seria difícil registrar se, de fato, a luz parou”, explica o matemático russo naturalizado brasileiro, que colabora há oito anos com o grupo de Nimrod Moiseyev. “É complicado registrar onde o sinal está em cada momento dentro da guia de onda e, assim, calcular a mudança de velocidade. Mas essas dificuldades técnicas talvez possam ser resolvidas.” A luz resulta de vibrações de campos elétricos e magnéticos. Os físicos representam matematicamente, por meio de equações, as propriedades dessas ondas, como frequência, amplitude, energia e velocidade de propagação. Mailybaev conta que a ideia de trabalhar com a questão de parar a luz surgiu enquanto os três discutiam fenômenos físicos que emergem de singularidades em cálculos matemáticos. “Por curiosidade, cogitamos o que aconteceria com a luz nessas situações não usuais”, recorda-se o pesquisador do Impa. Eles fizeram as contas e viram que, ao passar pelos chamados pontos excepcionais, a velocidade do pulso de luz seria igual a zero. A partir de então, começaram a investigar maneiras de criar pontos excepcionais em estruturas que direcionam a luz – as guias de onda – e formularam uma proposta. Se duas guias forem colocadas próximas uma da outra e suas configurações forem ajustadas para que a intensidade do pulso cresça em uma delas enquanto diminui na outra, surgiriam os tais pon-

Os pulsos de luz desacelerariam totalmente sem perder sua intensidade e formas originais, de acordo com o novo método

tos excepcionais – e o feixe de luz pararia de se movimentar nessas regiões. Isso porque uma guia de onda dissipa energia exatamente na mesma taxa em que a outra ganha. “A vantagem da nossa proposta é abranger uma grande quantidade de parâmetros em uma estrutura que podemos modificar”, comenta Tamar Goldzak. Luz mais lenta

No vácuo a luz apresenta velocidade constante e atinge seu valor máximo, de cerca de 300 mil quilômetros por segundo (km/s), mas, quando se propaga em outros meios, como no ar ou na água, desacelera naturalmente. A formação de um fenômeno como o arco-íris, por exemplo, não ocorreria se a velocidade da luz na água (de aproximadamente 225 mil km/s) e no ar (onde se move ligeiramente mais devagar do que no vácuo) fosse igual. Nas últimas duas décadas, os físicos vêm tentando domar a luz e obtiveram resultados surpreendentes. Em 1999, o grupo da matemática e física dinamarquesa Lene Hau, da Universidade Harvard, Estados Unidos, reduziu experimentalmente a velocidade da luz para 17 metros por segundo ao controlar um pulso de laser dentro de um gás ultrafrio de átomos de sódio, estado da matéria conhecido como condensado de Bose-Einstein. Em 2001, a equipe deu um passo além e parou por 1 segundo a luz dentro de um sistema semelhante.

O método de Hau permitiu, desde então, virar a luz de ponta-cabeça; desacelerá-la, acelerá-la ou armazená-la. Mas, até atingir a velocidade zero, o sinal de luz acaba extinto, sua intensidade se perde e sua forma fica praticamente toda impressa na estrutura dos átomos; uma espécie de digital da luz. “Diminuir a velocidade da luz em gases ultrafrios é ótimo para a pesquisa fundamental, mas dificilmente vai gerar aplicações”, avalia o físico Thomas Krauss, da Universidade de York, Reino Unido. Já Mailybaev, Moiseyev e Goldzak dizem que sua proposta teria maior potencial aplicado porque os pontos excepcionais poderiam ser utilizados para controlar a propagação de qualquer tipo de onda (da luz, do som e outras) independentemente do meio em que elas se movem. Até mesmo a onda na água poderia ser controlada por esse método, segundo os pesquisadores. “A luz mais lenta interage mais com a matéria”, pontua Emiliano Martins, especialista em ondas guiadas da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP). “Essa característica é indispensável para o desenvolvimento das telecomunicações e do processamento de dados ópticos.” n

Artigo científico GOLDZAK, T., MAILYBAEV A. A. e MOISEYEV, N. Light stops at exceptional points. Physical Review Letters. v. 120, n. 1. 3 jan. 2018.

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O legado de

Hawking Análises do físico britânico indicaram que buracos negros podem emitir radiação e encolher de tamanho Marcos Pivetta

Q

uase sempre ofuscado por sua persona midiática, o físico britânico Stephen Hawking, que morreu, aos 76 anos, em 14 de março depois de viver por mais de meio século com esclerose lateral amiotrófica (ELA), foi um teórico que deu contribuições importantes para o entendimento sobre a origem do Universo e a física dos buracos negros. Em 1963, ele soube que tinha a doença neuromotora, que lhe reduziria progressivamente os movimentos e o confinaria por décadas a uma cadeira de rodas. Seu período considerado o mais produtivo para a ciência são os 10 ou 15 anos seguintes ao recebimento do diagnóstico, ainda antes de adquirir fama planetária. “Até meados dos anos 1970, Hawking fez trabalhos muito sólidos”, avalia o físico George Matsas, do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (IFT-Unesp). “Depois, sua produção científica ganhou tons mais especulativos.” Hawking nasceu em Oxford e cursou física na famosa universidade local. Mas,


fotos 1 ANDREW COWIE /AFP / Getty Images 2 nasa

O cientista e a representação de um buraco negro, um de seus principais objetos de estudo

com 20 anos, depois de formado, transferiu-se para a Universidade de Cambridge, histórica rival de Oxford, para fazer doutorado em física, mais especificamente em cosmologia. Obteve o PhD em 1966 com a tese “Propriedades de universos em expansão”. Seu primeiro trabalho de peso veio a público em 1970 em coautoria com o matemático britânico Roger Penrose, então professor do Birkbeck College da Universidade de Londres e 10 anos mais velho. Em um artigo publicado em 27 de janeiro daquele ano no periódico Proceedings of the Royal Society A, Hawking e Penrose apontaram uma implicação da teoria geral da relatividade de Einstein, que trata a gravitação como uma propriedade geométrica do espaço-tempo. Segundo a dupla, as ideias do físico alemão levavam inexoravelmente à conclusão de que o Universo tinha de ter começado no passado distante por meio de uma singularidade gravitacional, um ponto do espaço-tempo com curvatura infinita.

“Eles mostraram matematicamente que, se a seta do tempo for revertida, surgirá uma singularidade clássica”, explica Daniel Vanzella, do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP). Essa singularidade inicial, em que toda a matéria estaria colapsada em um ponto de densidade infinita, seria o chamado Big Bang, o início do Universo. A ideia de que houve Big Bang é anterior ao artigo de Hawking e Penrose. O que eles fizeram foi provar que a relatividade geral tornava essa singularidade inicial inevitável dentro do contexto clássico (ou seja, sem se levar em conta ingredientes quânticos). Ainda trabalhando com a relatividade geral e o conceito de singularidade, Hawking logo em seguida, nos primeiros anos da década de 1970, dedicou-se a pesquisar um dos objetos mais misteriosos do Cosmo, os buracos negros. Os primeiros estudos do físico corroboraram a visão clássica sobre esse tema. Definidos como regiões do espaço-tempo extremamente

compactas, onde a gravidade é tão forte que nada lhe escapa, nem a luz, os buracos negros emergem desses trabalhos iniciais como entidades indestrutíveis. Toda matéria ou energia que cruza o horizonte de eventos, limite que demarca a fronteira de não retorno ao redor do buraco, é sugada para seu interior. Segundo essa interpretação, a massa dos buracos negros só aumentaria e nunca poderia diminuir. A questão se tornou bem mais complexa e tomou um rumo inesperado quando Hawking passou a levar em conta, além da relatividade geral, as ideias da mecânica quântica em suas análises e cálculos sobre a dinâmica dos buracos negros. Em um trabalho assinado sozinho publicado em 1º de março de 1974 na revista Nature, ele expôs pela primeira vez a ideia de que os buracos negros deveriam emitir partículas subatômicas, proposta teórica que viria a ser conhecida como radiação Hawking. “Enquanto um buraco negro emite essa radiação térmica, espera-se pESQUISA FAPESP 266  z  57


Efeitos quânticos fariam partículas virtuais se tornarem reais e levariam um buraco negro a perder energia e até evaporar No vácuo, partículas e antipartículas seriam criadas e aniquiladas aos pares de forma tão rápida que, segundo uma lei da mecânica quântica, não poderiam ser observadas diretamente: seriam partículas virtuais

Radiação Hawking Buraco Negro

Horizonte de eventos

Mas, às vezes, uma partícula surgiria no horizonte de eventos com energia negativa e a outra, fora, com energia positiva. Nesse caso, as partículas seriam reais e não virtuais. A de fora seria observada como radiação Hawking e a do interior faria o buraco negro perder energia e encolher Fonte  George Matsas

que ele perca massa”, escreveu o físico de Cambridge em seu paper. Essa radiação seria, portanto, um efeito quântico que faria os buracos negros perder energia (e massa) aos poucos. Ela seria uma evidência de que, diferentemente do que postulava a relatividade geral, os buracos negros poderiam encolher e evaporar. Ou seja, poderiam ser destruídos. “Quanto menor o tamanho do buraco negro, maior seria a temperatura da radiação emitida”, comenta o físico teórico André Landulfo, da Universidade Federal do ABC (UFABC). Como diria o próprio Hawking mais tarde, os buracos negros não seriam tão negros. Partículas virtuAIS

O mecanismo responsável pela criação da radiação Hawking envolveria o que os físicos denominam partículas virtuais. O vácuo seria povoado de partículas e antipartículas, que seriam rapidamente criadas e aniquiladas aos pares. Isso ocorreria tão velozmente que, de acordo com o princípio de Heisenberg, uma das leis básicas da mecânica quântica, essas partículas não poderiam ser observadas diretamente. Daí sua definição de virtuais. No entanto, próximo do horizonte de eventos de um buraco negro, ocorreria às vezes algo especial: uma das 58  z  abril DE 2018

O físico mostrou que, segundo a relatividade geral, o Universo só poderia ter começado com o Big Bang

partículas do par surgiria no interior do buraco negro com energia negativa enquanto sua companheira apareceria fora dele com energia positiva. As partículas, nesse caso, seriam reais e não virtuais. A partícula fora do horizonte de eventos seria observada no infinito como radiação térmica, a famosa radiação Hawking. A do interior levaria o buraco negro a perder energia, fazendo-o encolher. “No final desse processo, tudo se passa como

ilustração fabio otubo

Como surgiria a radiação Hawking

se o buraco tivesse evaporado pela emissão de radiação”, explica Matsas. Desde então, o conceito da radiação Hawking, embora nunca confirmada de forma experimental, firmou-se como uma das ideias mais importantes sobre o funcionamento dos buracos negros. Ela é considerada a maior contribuição científica do físico britânico. “Para qualquer buraco negro que deve surgir em processos astrofísicos normais, a radiação Hawking, no entanto, seria extremamente pequena e certamente não observável de forma direta por qualquer técnica hoje conhecida”, comentou Roger Penrose, hoje professor emérito da Universidade de Oxford, em artigo publicado no diário londrino The Guardian logo após a morte do colega. Matsas observa que, em outras áreas da física, foram encontrados efeitos análogos à radiação Hawking, como ondas sonoras que escapam de buracos negros acústicos, nuvens de átomos superfrios das quais o som não deveria sair. Temas como a origem do Universo, do tempo e do espaço, e a natureza dos buracos negros continuaram presentes tanto na obra científica como nos trabalhos de divulgação, para um público mais amplo, ao longo da vida de Hawking. No entanto, novas questões, algumas de caráter mais especulativo, como as dimensões extras previstas na teoria das supercordas ou a existência de outros universos (além do nosso), também passaram a ocupar a mente do físico celebridade. Depois do alemão Albert Einstein (1879-1955), o cientista mais conhecido do século XX, poucos físicos se tornaram tão populares entre o público leigo como Hawking. Autor de livros de divulgação da física, como o best-seller internacional Uma breve história do tempo (editora Intrínseca, 1988), que vendeu 10 milhões de cópias e foi traduzido em 40 idiomas, o britânico nunca se constrangeu em aparecer em público. Participou de seriados da televisão norte-americana, como Star Trek: The next generation e The Big Bang theory. Foi retratado no desenho animado Os Simpsons. Colocou sua voz sintetizada em duas músicas do grupo de rock britânico Pink Floyd. E sua vida foi alvo de documentários e até de um filme de cinema, A teoria de tudo, de 2014, que rendeu um Oscar ao ator britânico que o interpretou, Eddie Redmayne. n


Meio século com ELA Stephen Hawking pode ter sido o paciente que mais tempo viveu com esclerose lateral amiotrófica

divulgação editora intrínseca

N

ão há registro de que alguém tenha vivido tanto tempo com esclerose lateral amiotrófica (ELA) – nome genérico para um conjunto de doenças degenerativas que lesa progressivamente os neurônios motores e leva à atrofia muscular – quanto o físico britânico Stephen Hawking. Entre o momento em que recebeu o diagnóstico, em 1963, quando os médicos estimaram sua sobrevida em dois anos, e o de sua morte, em março de 2018, passaram-se 55 anos. “Na época, pensei que minha vida tivesse terminado e que nunca concretizaria o potencial que acreditava possuir”, escreveu Hawking em sua autobiografia Minha breve história (Intrínseca, 2013). O pesquisador, que nasceu em 1942 e passou a maior parte de sua existência confinado em uma cadeira de rodas, atingiu 76 anos. A história do cientista é um caso único de longevidade entre os pacientes de ELA, que acomete entre uma e duas pessoas a cada 100 mil habitantes, com uma incidência cerca de 20% maior entre os homens. Após a identificação da doença, apenas 10% das pessoas vivem 10 anos. A sobrevida média é de três a cinco anos, segundo dados da associação norte-americana de ELA. Não é muito difícil encontrar pacientes mais velhos do que o físico com a doença, mas não com o mesmo tempo de sobrevida. Até porque, na maioria dos casos, o diagnóstico da esclerose lateral amiotrófica ocorre em uma fase mais tardia da vida, geralmente entre os 50 e 70 anos de idade, quando os sintomas associados à enfermidade costumam

Com um lenço na mão, um Hawking jovem e sadio se diverte com os colegas do clube de remo da Universidade de Oxford

aparecer, como dificuldade para andar e, depois, mastigar, falar e respirar. Hawking soube da doença quando tinha 21 anos. As causas da ELA são pouco conhecidas. Em 90% dos casos, o mecanismo que a ocasiona é ignorado. Várias hipóteses são levantadas para tentar explicar essas ocorrências, como infecções virais, exposição a toxinas, alterações hormonais ou no sistema imunológico ou ainda uma combinacão de mutacões genéticas, cada uma delas produzindo um pequeno efeito. Esses casos são classificados como ELA esporádica. Em 10% das ocorrências, a doença surge de alterações genéticas que podem ser transmitidas para os descendentes de um paciente. Nesses casos, é possível haver um diagnóstico genético da doença, para a qual não há cura ou tratamento. Alguns médicos afirmam que Hawking pode ter tido uma variante de ELA de progressão vagarosa, o que explicaria sua longevidade estendida. No entan-

to, o avanço da doença não parece ter sido especialmente lento em seu caso (Hawking teve de recorrer ao auxílio de uma cadeira de rodas ainda na década de 1960). “Minha hipótese é de que ele sempre foi muito bem cuidado, sob a supervisão de equipes médicas, com o auxílio de um respirador e alimentação especial”, opina a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-tronco (CEGH-CEL) da Universidade de São Paulo (USP), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão financiados pela FAPESP. Em 2004, a equipe de Mayana descobriu uma mutação no gene VAP-B que causa uma variante atípica de esclerose lateral amiotrófica. Os pacientes com essa forma da doença, denominada ELA8, demoram mais tempo para apresentar os primeiros sintomas. Em alguns, no entanto, a progressão da enfermidade é rápida e em outros lenta. “Estudamos centenas de pessoas com a mutação e estamos tentando descobrir se algumas delas têm algum mecanismo protetor que favoreça uma evolução mais lenta da doença”, explica Mayana. Hoje se sabe que essa mutação também está implicada em outras formas da enfermidade, além da ELA8. n Marcos Pivetta pESQUISA FAPESP 266  z  59


ecologia y

A corrosão da Caatinga Extração de madeira e uso da terra para roças e pastagens reduzem biodiversidade e transformam a paisagem do sertão

Carlos Fioravanti

Ricardo Azoury / olhar imagem

D

urante três dias de sol forte, na segunda semana de março de 2018, uma equipe da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) cavou crateras na terra seca de roças abandonadas no Parque Nacional do Catimbau, na região central de Pernambuco, para examinar o interior de ninhos de saúva. Os pesquisadores viram que, em áreas de solo raso como as que escavavam, as formigas guardavam matéria orgânica a até 3 metros (m) de profundidade, dificultando o acesso das plantas a nutrientes e retardando a regeneração da vegetação original. Em outras expedições, já tinham observado que a densidade das colônias de saúva aumentava de duas por hectare (ha) nas áreas de vegetação nativa para 15 por ha (1 ha corresponde a 10 mil metros quadrados) nos trechos usados

60  z  abril DE 2018

para cultivo agrícola ou pastagem. As saúvas sobrepõem-se a outras espécies de formigas à medida que a vegetação nativa é retirada. A proliferação dos ninhos de saúva evidencia o empobrecimento da Caatinga causado pela retirada lenta e contínua de árvores e de animais das matas. Por consistir na extração de pequenas porções de recursos naturais, esse processo escapa das imagens de satélite, mas, em silêncio, transforma a paisagem do sertão nordestino e aumenta o risco de desertificação. Outro sinal visível da metamorfose é a proliferação de plantas invasoras como a algaroba (Prosopis juliflora), árvore nativa dos Andes usada para extração de madeira e alimentação do gado. As invasoras crescem com rapidez em ambientes mais abertos e tornam-se dominantes em roças ou pastos abandonados.


Retirada de lenha no interior de Pernambuco

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Situado no município de Buíque, com 622 quilômetros quadrados (km2), o parque do Catumbi abriga cerca de 1.500 pessoas, que já viviam ali no momento de sua criação, em 2002. Os moradores usam as áreas de mata para plantar milho e feijão, criar cabras, retirar madeira para fazer cerca ou cozinhar e caçar para se alimentar. Ali, concluíram os pesquisadores da UFPE, as intervenções dos pequenos produtores rurais causaram a perda de pelo menos um terço da biodiversidade, principalmente de plantas. “Não é um quadro isolado”, diz o ecólogo Marcelo Tabarelli, da UFPE, coordenador do grupo de pesquisa. “A trajetória da degradação, com a transformação da floresta em uma vegetação dominada por arbustos e depois por herbáceas, ocorre em toda a Caatinga. Quanto maior a pressão humana sobre a vegetação nativa e quanto menos água, mais pobres serão o ambiente e as pessoas que vivem dele.” A ação humana sobre a vegetação nativa do interior do Nordeste é antiga. No século XVI, o sertão produzia carne e alimentos para os moradores do litoral,

que priorizavam a produção de cana-de-açúcar. Como resultado de cinco séculos de exploração econômica, quase metade (45%) da área original da Caatinga – 826 mil km2, o equivalente a 11% do território nacional – já foi desmatada, como resultado principalmente da ação dos grandes produtores rurais. Na introdução ao livro Caatinga – The largest tropical dry forest region in South America, publicado em 2017, Tabarelli, os biólogos Inara Leal, também da UFPE, e José Maria Cardoso, da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, observaram que os moradores de comunidades rurais da Caatinga dependem da vegetação nativa para sobreviver, o que causa uma lenta e contínua alteração do ambiente. Segundo eles, somando a ação dos moradores do sertão com os grandes projetos de infraestrutura e a agricultura comercial, pelo menos 63% da Caatinga já deve ter sofrido os efeitos da ação humana. Das 89 famílias que vivem no parque do Catimbau, 85% dependem da extração da madeira para cozinhar, de acordo com um levantamento de 2012 da bióloga da UFPE Laís Rodrigues. O consumo médio

de lenha foi de 606 quilogramas (kg) por ano por pessoa, o que equivale a 10 ha por ano, somente para abastecer os fogões a lenha. “Dentro do parque”, observa o biólogo Felipe Melo, professor da UFPE, “como o governo impõe restrições ao uso da terra, as famílias são mais pobres e mais dependentes dos recursos naturais que as de fora, mas também não conseguem sair de lá porque não têm para onde ir”. Fora das áreas de proteção ambiental, há também a extração de lenha para abastecer as empresas de produção de gesso, olarias, padarias e pizzarias. O consumo doméstico e comercial implica uma perda estimada em 30 milhões de metros cúbicos por ano de mata nativa, segundo o Ministério do Meio Ambiente. A situação é similar na Mata Atlântica no Nordeste. Um estudo de 2015 na Global Ecology and Conservation, com base em 270 famílias de sete comunidades de Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba, registrou um consumo médio de 686 kg de lenha por ano por pessoa, o que implicaria a retirada de 2 mil ha de mata por ano nos 270 municípios da região com esse tipo de vegetação. “Quanto menor a renda das famílias, maior a dependência e a retirada de lenha”, diz Melo. Florestas de clima semiárido ou desértico da África e da Índia que abrigam comunidades humanas registram o mesmo fenômeno. Menos espécies nativas

Mantidas em cercados, as cabras alimentam-se de plantas da Caatinga, dificultando a regeneração da vegetação 1

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No Catimbau, espécies típicas como aroeira (Myracrodruon urundeuva) e angico-branco (Anadenanthera colubrina) são as mais extraídas para construção de cercas ou casas, de acordo com um estudo de fevereiro deste ano na Environmental Research Letters. Em Parnamirim, município pernambucano a 350 km a oeste do Catimbau, cujos 20 mil moradores vivem da extração de madeira e de plantas, os pesquisadores verificaram que as espécies de árvores típicas tendem a ser substituídas por outras, que crescem com rapidez e suportam as alterações provocadas pelas roças e pastos itinerantes, como marmeleiro-do-mato (Croton sonderianus) e jurema-preta (Mimosa tenuiflora). As cabras, por sua vez, comem os galhos de árvores com folhas mais macias, deixando de lado arbustos menores e plantas herbáceas com folhas mais duras, que se tornam as predominantes em áreas de pastagens.


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fotos 1 Inara Leal / UFPE 2 Katia Rito / UNAM

Vista geral do Parque Nacional do Catimbau (PE), com áreas de roças e pastos abandonados com solo exposto, em primeiro plano

Além da proliferação de saúvas, a ação humana altera as interações de outros grupos de formigas e insetos com as plantas. “Vimos que se perdem dois tipos de serviço que as formigas prestam às plantas: a proteção contra insetos herbívoros e a dispersão de sementes”, diz Inara. No primeiro caso, segundo ela, por sofrerem mais estresse em áreas mais abertas, as plantas acumulam menos néctar em seus nectários extraflorais, que atraem formigas. Por sua vez, as formigas se alimentam de insetos herbívoros, que, sem elas, atacariam as plantas. Com menos néctar e menos formigas, as plantas tornam-se mais vulneráveis aos insetos herbívoros. No segundo caso, as ações humanas causam uma redução das populações e da atividade de espécies de formigas consideradas boas dispersoras de sementes, como a tocandira (Dinoponera quadriceps). “Em consequência”, diz Inara, “as sementes são dispersas em menor quantidade e por menores distâncias.”

Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a bióloga Gislene Ganade pode ter encontrado uma solução para um antigo problema da recomposição da Caatinga: as árvores plantadas em campo dificilmente sobrevivem ao clima seco, apesar de adaptadas a ambientes inóspitos. Em seus experimentos, árvores de 16 espécies foram inicialmente cultivadas em tubos plásticos até as raízes atingirem 1 m de comprimento. Depois, foram plantadas em uma cova regada com 4 litros de água, na Floresta Nacional de Assu, no Rio Grande do Norte, em junho de 2016. “Com água para abastecer as raízes, as árvores mantiveram-se verdes por dois meses, mesmo na seca, e depois de oito meses, quando choveu, produziram folhas novas e frutos”, Gislene observou. Segundo ela, um ano após o plantio, 75% das árvores tinham sobrevivido. Com base nesse método, as equipes da UFRN e da UFPE pretendem recompor a vegetação do Catimbau. O plano é criar uma área experimental de 5 ha com árvores que possam servir para a produção de mel ou de alimento para os moradores do parque e para os animais de criação.

A integração entre a criação de cabras, a agricultura e o plantio de espécies de árvores usadas como lenha é outra estratégia cogitada para evitar a degradação ambiental e favorecer a renda dos proprietários rurais. “Como não haveria recursos próprios para implementar os sistemas integrados do tipo lavoura-pecuária, a participação dos órgãos governamentais é essencial, por meio de linhas de crédito e do apoio a pesquisas”, diz o engenheiro-agrônomo Luiz Antonio Martinelli, professor da Universidade de São Paulo. Políticas públicas já em vigor têm ajudado a preservar a Caatinga, observa Tabarelli, que desde 2012 percorre com frequência o Catimbau. “Os programas de transferência de renda, principalmente a aposentadoria rural, desaceleraram a exploração da Caatinga e deixaram as famílias menos dependentes dos recursos naturais”, observa. “Em vez de caçar, os sertanejos podem comprar frango e, em vez de tirar lenha da mata, podem comprar gás para cozinhar.” n

As referências completas dos artigos e livros citados estão na versão on-line desta reportagem.

pESQUISA FAPESP 266  z  63


cardiologia y

Corações trocados Cinquenta anos depois do primeiro transplante cardíaco, a sobrevida aumentou, mas ainda faltam doadores

E

m 26 de maio completam-se 50 anos do primeiro transplante de coração realizado no Brasil. Por falta de medicamentos que evitassem a rejeição do organismo ao órgão, o primeiro paciente viveu apenas 28 dias, mas o conhecimento adquirido em cinco décadas e o desenvolvimento de novas drogas permitem que, hoje, metade das pessoas tenha uma sobrevida de pelo menos 10 anos após receberem um coração melhor do que tinham. O número de transplantes cresceu e chegou a 380 em 2017 – um recorde, mas ainda distante dos 1.600 necessários para atender a demanda no país. Os Estados Unidos realizaram 3.190 cirurgias desse tipo em 2016, embora também sem atender a toda demanda. “Poucas intervenções médicas são tão reabilitantes quanto o transplante cardíaco”, diz o cardiologista Fernando Bacal, diretor do núcleo de transplantes do Instituto do Coração da Faculdade de 64  z  abril DE 2018

Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-FM-USP), o centro mais atuante nessa área, com 69 cirurgias desse tipo em 2017. “Antes do transplante, os pacientes sentem falta de ar mesmo em repouso, dificuldade para tomar banho e uma baixa expectativa de vida. Depois, podem até fazer esportes.” Como há 50 anos, o transplante continua a ser indicado para pessoas com insuficiência cardíaca irreversível e resistente a qualquer tratamento, “mas apenas quando o organismo ainda tem condições de reagir”, ressalta o cirurgião Fábio Jatene, diretor do setor de cirurgia cardiovascular do InCor. “É importante mostrar que se trata de uma forma eficiente de tratamento, para que o número de doadores continue crescendo.” De 1968 até 2016, foram realizados 3.984 transplantes de coração no Brasil, total superado, no mesmo período, pelos de rim (80.894) e fígado (21.451), de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (Abto). Atual-

Ventrículos artificiais, desenvolvidos no InCor e usados como corações provisórios por quem espera um transplante


léo ramos chaves

mente, o transplante é a quinta cirurgia cardíaca mais comum, com 1,6% do total de 1.722 pacientes operados em 17 hospitais de 10 estados entre agosto de 2014 e dezembro de 2016, de acordo com um estudo de 2017 da Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. Nesse levantamento, a cirurgia de revascularização do miocárdio, mais conhecida como ponte de safena, é a mais comum, com 48,8% do total, seguida pela cirurgia de implantação de válvulas, com 23,9%.

Ainda há problemas. “Faltam doadores e centros médicos com capacidade para fazer transplantes no país”, diz o cardiologista Roberto Kalil Filho, diretor-geral do InCor. Centros médicos de apenas quatro estados – São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Distrito Federal – realizam mais de 30 cirurgias desse tipo por ano. Além de uma complexa estrutura logística, um dos obstáculos para o aumento do número de doadores de órgãos – não

apenas de coração – é a alta taxa de recusa familiar, de 44% em 2015, segundo a ABTO. Uma das razões pode ser o despreparo das equipes médicas em explicar o conceito de morte encefálica às famílias, de acordo com um estudo d ​ e 2015 da Universidade Federal de São Paulo (ver Pesquisa FAPESP no 237). Outras barreiras incluem falhas na identificação e notificação de potenciais doadores, contraindicações médicas e dificuldades de transporte entre hospitais. pESQUISA FAPESP 266  z  65


Realizados em 1968 e 1969 no Hospital das Clínicas (HC) da FM-USP, os três primeiros transplantes favoreceram a formação e o reconhecimento de profissionais da área médica, de instituições e de empresas. “O InCor é fruto do João Boiadeiro”, diz, aos 80 anos, o cirurgião cardíaco Domingo Marcolino Braile, referindo-se ao apelido do mato-grossense João Ferreira da Cunha, primeiro brasileiro e 17ª pessoa no mundo a trocar de coração, aos 23 anos. Sua operação ocorreu cinco meses depois de o cirurgião sul-africano Chris­ tiaan Barnard (1922-2001) ter feito o primeiro transplante cardíaco do planeta, em um hospital da Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, em 3 de dezembro de 1967, aplicando técnicas aprendidas com o cirurgião norte-americano Norman Edward Shumway (1923-2006) na Universidade Stanford, Estados Unidos. O paciente de Barnard, Louis Washkanski – que hoje dificilmente passaria por esse tipo de operação por ter pressão alta nas artérias dos pulmões – sobreviveu 18 dias após a cirurgia. Mesmo assim, o primeiro transplante teve uma repercussão internacional imediata. O impacto do transplante de João Boaideiro também foi grande no Brasil, sexto país a fazer esse tipo de operação, após a África do Sul, Estados Unidos, Índia, França e Reino Unido. O cirurgião Euryclides de Jesus Zerbini (1912-1993)

Em ritmo de crescimento

380 353 311

Total de transplantes de coração realizados no Brasil, por ano

271 228

204

201

196

201 166

161 147

128

92

82 89

160

149

145

119 110 77

0 1995*

1997

1999

2001

2003

2005

2007

2009

2011

* Primeiro ano dos registros anuais de transplantes da Abto

chefiou a equipe que realizou a cirurgia, concluída na manhã do dia 26 de maio de 1968 no Hospital das Clínicas da USP. “Zerbini batalhava pelo Instituto do Coração havia pelo menos 10 anos, mas não saía do papel”, escreveu o cirurgião Euclydes Marques, assistente de Zerbini na década 1960, no livro A face oculta dos

1

2013

2015

2017

Fonte ABTO

transplantes. Logo depois do transplante, a verba para construir o InCor foi liberada. O prédio começou a ser erguido pouco depois e foi inaugurado em 1975. O transplante é que não correu tão bem. Dezoito dias após a cirurgia, João Boiadeiro começou a apresentar sinais de que seu organismo estava rejeitando o coração que recebera. A rejeição se agravou, o órgão implantado parou de funcionar e o mato-grossense morreu no 28º dia após a cirurgia. Em setembro de 1968 a equipe do InCor fez o segundo transplante, em Hugo Orlandi, paulista de 48 anos, que morreu 378 dias depois, também por rejeição. “O arsenal de medicamentos para combater a rejeição, na época, era bastante limitado”, conta Bacal. O terceiro transplantado, Clarismundo Praça, paulista de 52 anos, não apresentou rejeição, mas morreu 83 dias após a cirurgia, realizada em janeiro de 1969, por causa de uma infecção generalizada iniciada em uma ferida cirúrgica.

Equipe médica observa o paciente submetido ao primeiro transplante de coração no Brasil, realizado no Hospital das Clínicas da USP em 1968 66  z  abril DE 2018

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Máquina de circulação extracorpórea usada em cirurgias cardíacas nas décadas de 1950 e 1960

fotos 1 DIVULGAçÃo HC-USP / reproduçÃO EDUARDO CESAR 2 léo ramos chaves

2

Por causa da dificuldade em controlar a rejeição, que implicava uma sobrevida baixa para as pessoas operadas, os transplantes praticamente pararam de ser feitos no mundo inteiro até a década de 1980. O que permitiu a retomada foi a descoberta da ciclosporina, composto isolado de um fungo pelo bioquímico suíço Jean-François Borel que se revelou um poderoso imunossupressor, capaz de reduzir as reações que causam a rejeição de órgãos transplantados. A ciclosporina logo foi adotada nos transplantes, em conjunto com os corticoides e a azatioprina, os medicamentos usados até então. O InCor voltou a fazer transplantes em 1985, um ano depois de o cirurgião Ivo Nesralla ter feito no Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul o primeiro transplante brasileiro da era pós-ciclosporina. A partir daí o número de transplantes de coração começou a crescer continuamente (ver gráfico). TRANSPLANTES EM CÃES

Euclydes Marques, de 82 anos, lembrou-se de quando fazia parte da equipe que se preparava para fazer os primeiros transplantes cardíacos em pessoas. Ele liderava o grupo de estudantes de medicina que fez mais de 100 transplantes em cães em 1967 e 1968. “Zerbini apoiava, mas meio de longe, porque não acreditava na viabilidade do transplante naquela época”, afirma Marques. “Se acreditasse, teria agido antes.” Foi só ao saber do primeiro transplante na África do Sul,

segundo Marques, que o cirurgião se interessou pelos transplantes em cães, fez alguns nos animais e depois outros em cadáveres até se sentir seguro. Em seu livro, Marques conta que ele encontrara uma candidata aparentemente adequada para um transplante, em 1967: uma mulher de 36 anos com um tumor no coração, chamado de rabdomiosarcoma. Ele propôs a cirurgia em uma reunião com outros médicos, e Luiz Venere Décourt (1911-2007) lhe perguntou quantos cães tinham sobrevivido ao transplante. Marques teve de reconhecer: nenhum. No ano seguinte, ao responder à mesma pergunta de Décourt, Christiaan Barnard, já famoso, em visita ao InCor, contou que nenhum dos cães que ele havia operado tinha sobrevivido. Fábio Jatene comentou: “O cão era um modelo empregado para treinar a técnica cirúrgica, embora não sobrevivesse ao final. Há anos não utilizamos mais cães com essa finalidade”. Desde os anos 1950, a equipe que viria a compor o InCor fortaleceu a pesquisa e desenvolvimento de aparelhos e dispositivos usados na cirurgia cardíaca. Para incentivar essa área, Zerbini trouxe de volta ao HC seu ex-estudante Adib Jatene (1929-2014), cirurgião, então em Uberaba, Minas Gerais, reconhecido tanto por sua competência médica quanto pela habilidade em construir máquinas. Em 1958, Jatene e Braile, então no segundo ano do curso de medicina, construíram a máquina de circulação extracorpórea, que funcionava

como um pulmão e coração mecânico para manter o sangue em movimento durante as operações e era usada em cirurgias cardíacas e nos primeiros transplantes (ver Pesquisa FAPESP nº 154). Zerbini tinha importado uma, mas a substituição de peças era difícil. Foi ele também que motivou a equipe da oficina do HC a produzir válvulas de controle de fluxo sanguíneo, já que o preço das importadas era muito alto. O desejo de autonomia se mantém. Instalada no segundo subsolo, a Divisão de Bioengenharia produz válvulas, cateteres, chips de marcapasso, entre outros dispositivos, e, em caráter experimental, um ventrículo artificial, usado como coração provisório pelas pessoas que aguardam um transplante. Em 1961, Jatene mudou-se para o Instituto Dante Pazzanese, onde criou a oficina de bioengenharia para desenvolver instrumentos e aparelhos. Ali ele fez o primeiro marcapasso nacional, que não avançou por causa da dificuldade em obter os componentes eletrônicos. Em 1983, ele voltou ao InCor para ocupar a vaga de professor titular de Zerbini, recém-aposentado. Braile, depois de formado, em 1962, voltou para sua cidade, São José do Rio Preto, no interior paulista, formou equipes de cirurgia cardíaca e, em 1983, sua própria empresa, que produz válvulas cardíacas e outros dispositivos para cardiologia e oncologia (ver Pesquisa FAPESP nº 176). “Zerbini era muito modesto e dizia que se orgulhava de os alunos dele terem ido mais longe que ele”, recorda Braile. n Carlos Fioravanti

Artigos científicos DÉCOURT, L. V. e ZERBINI, E. J. Transplante de coração humano: Considerações sobre três casos. Revista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo. v. 25, n. 4, p. 207-26. jul.-ago. 1970. GOMES, W. J. et al. The Brazilian registry of adult patient undergoing cardiovascular surgery, the BYPASS Project: Results of the first 1,722 patients. Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. v. 32, n. 2, p. 71-5. mar.-abr. 2017.

Livro MARQUES, E. A face oculta dos transplantes. São Paulo: Holos, 2012.

pESQUISA FAPESP 266  z  67


obituário y

1

A pioneira das vacinas contra a malária Ruth Nussenzweig morreu em Nova York aos 89 anos, em consequência de uma embolia pulmonar

A

imunologista brasileira Ruth Nussenz­ weig não terá a chance de conhecer o desempenho na vida real de uma vacina contra a malária produzida a partir dos estudos que ela e seu marido, o também imuno­ logista Victor Nussenzweig, desenvolveram nas últimas décadas. Produzida por uma empresa farmacêutica multinacional a partir da fusão de uma proteína da superfície do parasita causador da malária (Plasmodium falciparum) e outra da superfície do vírus da hepatite B, a vacina será aplicada a partir deste ano em 360 mil bebês de áreas com alta incidência de malária de Gana, Malauí e Quênia. Pioneira no estudo de diferentes imunizantes contra a malária, Ruth morreu na noite de domingo, 1º de abril, em consequência de uma embolia pulmonar em Nova York, onde o casal vivia desde meados dos anos 1960, após deixar o Brasil no regime militar. Ela tinha 89 anos e estava com a saúde debilitada havia alguns anos, desde que sofreu uma fratura grave após uma queda. Filha do casal de médicos de origem judaica, Eugenia e Baruch Sonntag, Ruth nasceu na Áus­ tria em 20 de junho de 1928 e emigrou com os pais para o Brasil pouco após seu país natal ter sido anexado pela Alemanha nazista, em 1938. Graduou-se em medicina na Universidade de São 68  z  abril DE 2018

Paulo (USP), onde conheceu Victor, seu marido e companheiro por toda a vida. Ainda no curso médico, ambos iniciaram a carreira de pesquisa­ dor no mesmo laboratório, estudando a doença de Chagas. Depois de um estágio na França, Ruth e Victor retornaram a São Paulo para, em 1963, embarcar para outra temporada de estudos no exterior, desta vez em Nova York. Ruth traba­ lhou com o imunologista húngaro Zoltán Óváry e Victor com o imunologista venezuelano Baruj Benacerraf, ambos na Universidade de Nova York (NYU). O casal tentou voltar para o Brasil após o golpe militar de 1964, mas, diante do ambiente pouco favorável na Faculdade de Medicina da USP, retornou para a NYU. Lá, Benacerraf conseguiu para cada um o posto de professor assistente. Foi na NYU, de onde quase nunca mais saiu, que o casal produziu suas contribuições cientí­ ficas mais importantes para o desenvolvimento de compostos candidatos a vacina contra a ma­ lária. Em um artigo publicado na revista Nature em 1967, Ruth demonstrou, de modo pioneiro, que seria possível obter imunidade contra o pro­ tozoário causador da malária. Ela tratou com raios X exemplares do protozoário Plasmodium berghei, que infecta roedores, e depois os injetou em camundongos, que se tornaram imunes aos

Ruth, durante visita a São Paulo em 2012


parasitas enfraquecidos. Testes posteriores, feitos com um número pequeno de pessoas saudáveis, indicaram que seria possível tentar usar essa estratégia para produzir uma vacina contra a forma mais letal de malária, causada pelo Plasmodium falciparum, comum na África. Esses trabalhos levariam, décadas mais tarde, o pesquisador Stephen Hoffman a criar a empresa de biotecnologia Sanaria, que produz parasitas atenuados para serem usados como imunizantes. Estudos publicados nos últimos anos, no entanto, sugerem que a proteção gerada por essa estratégia ainda é baixa. Nas décadas seguintes, Ruth e Victor conseguiriam identificar qual proteína do protozoário – a circunsporozoíta – ativava o sistema de defesa dos mamíferos. Eles clonaram seu gene e a produziram em laboratório usando bactérias como biofábricas. Publicado em 1984 na Science, esse trabalho levaria ao desenvolvimento de outra linha de compostos candidatos a vacina, entre os quais o RTS,S, que será testado em bebês na África, produzido a partir de uma proteína do plasmódio e outra do vírus da hepatite B. “Sem a estrutura gênica da proteína circunsporozoíta não se chegaria à vacina RTS,S”, afirma a imunologista Silvia Boscardin, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP que trabalhou com o imunologista Michel Nussenzweig, filho de Ruth e Victor. “Ruth era uma pessoa extremamente persistente, acreditou muito na vacina.”

Na NYU, Ruth e Victor formaram uma legião de imunologistas que hoje trabalham no mundo todo. Saudosa do Brasil, Ruth sempre demonstrou desejo de retornar. “Meus amigos estão aqui”, afirmou em uma entrevista que ela e o marido concederam a Pesquisa FAPESP em 2004 (ver Pesquisa FAPESP nº 106). Até houve tentativas de se fixar novamente no país, mas nenhuma foi duradoura. breve retorno

A partir de 2010, Ruth e Victor passaram a frequentar o Brasil algumas vezes por ano para desenvolver um trabalho com um antigo colaborador, o imunologista Maurício Martins Rodrigues, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que havia feito pós-doutorado sob a supervisão de Ruth nos anos 1990. “Ruth e Victor estavam convencidos de que era preciso tentar desenvolver uma vacina também contra o Plasmodium vivax, causador da maior parte dos casos de malária nas Américas”, conta a imunologista Irene Soares, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e viúva de Rodrigues, morto em 2015, aos 53 anos, em consequência de complicações decorrentes de um transplante de rim. Da cooperação surgiu um composto precursor de uma vacina que Irene e colaboradores testam atualmente – os resultados mais recentes foram publicados em janeiro na Scientific Reports, em um artigo assinado também por Ruth.

Em 2012, Victor e Ruth obtiveram um financiamento da FAPESP na modalidade São Paulo Excellence Chairs (Spec) para coordenar na Unifesp a caracterização de enzimas essenciais para o desenvolvimento do plasmódio e buscar inibidores com potencial de combater a malária. “Tínhamos a expectativa de que Ruth pudesse ganhar o Nobel por seus estudos que mostraram ser possível produzir imunizantes contra a malária”, diz Irene. “Ruth sempre foi uma líder, apostava nas pessoas e formou um departamento de parasitologia de prestígio na NYU, que dirigiu até alguns anos atrás”, conta o parasitologista Sergio Schenkman, professor da Unifesp que estagiou sob a orientação de Victor Nussenzweig nos anos 1980. “Ela era uma pessoa arrebatadora, que conseguia convencer pesquisadores, diretores de empresa e políticos de que era preciso tentar desenvolver uma vacina para combater a malária.” Na carreira, Ruth e Victor acumularam prêmios e homenagens. Em 2013, ela foi a primeira pesquisadora brasileira eleita membro da Academia de Ciências dos Estados Unidos. Em 2015, ela, Victor e a farmacologista chinesa Tu Youyou receberam o prêmio da Fundação Warren Alpert, entregue a pesquisadores que contribuem para prevenção, tratamento ou cura de doenças humanas. Ruth deixa o marido e os filhos Michel, André e Sonia, todos pesquisadores. n Ricardo Zorzetto

fotos 1 léo ramos chaves 2 Acervo família Nussenzweig

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Ruth e Victor Nussenzweig (à esq.) casam-se na biblioteca da Faculdade de Medicina da USP


tecnologia  microeletrônica y

O sonho do chip Nova fábrica de circuitos integrados da Qualcomm poderá colocar o Brasil no time dos produtores globais de semicondutores Yuri Vasconcelos

70  z  abril DE 2018


Detalhe do wafer, o disco de silício cristalino que é a matéria-prima para fabricação de chips

léo ramos chaves

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entro de dois anos, se tudo correr como planejado, o Brasil deverá começar a produzir módulos de semicondutores de última geração para equipar smartphones e aparelhos eletrônicos da chamada Internet das Coisas (IoT). A norte-americana Qualcomm, quinta maior empresa de semicondutores do planeta, anunciou em fevereiro a intenção de construir na região de Campinas, interior de São Paulo, uma unidade para produção de uma nova tecnologia batizada de QSiP (sigla de Qualcomm System in a Package). O componente, novidade no mercado global, foi criado pela companhia e será produzido em parceria com a fabricante taiwanesa de semicondutores USI, subsidiária do ASE Group, uma das maiores montadoras de chips do mundo. “Decidimos trazer para o país um chipset [conjunto de chips] que não existe ainda no mundo, no lugar de instalar uma fábrica para produzir circuitos integrados como os que já são produzidos na Ásia”, destaca Rafael Steinhauser, presidente da Qualcomm para a América Latina. “O Brasil deve ser um dos

primeiros países a habilitar essa tecnologia.” O novo dispositivo da Qualcomm é um módulo composto por cerca de 400 elementos, entre eles memória, processador, dispositivos de conectividade e sistemas de comunicação. “As principais vantagens do QSiP são a simplificação do projeto de smartphones, a rapidez no processo de lançamento de novos produtos e a economia de espaço [nos celulares], abrindo a possibilidade de fabricação de aparelhos mais finos, com apenas 6 milímetros, e o uso de baterias maiores”, explica Steinhauser. Em visita à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no mês passado para participar da aula inaugural da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (Feec), onde se graduou, o presidente global da Qualcomm, o brasileiro Cristiano Amon, esclareceu que a companhia será a parceira tecnológica do negócio e a USI ficará responsável pela montagem e gestão da fábrica. A escolha do local da unidade deve ocorrer ainda este ano e, mesmo sem a instalação da linha de montagem, a planta já começará a desenpESQUISA FAPESP 266  z  71


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72  z  abril DE 2018

ro eletrônico Rogério Nunes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi). “Vejo com muito bons olhos a chegada da joint venture Qualcomm e USI. É interessante que elas venham produzir localmente um produto 1 inovador do ponto de vista global.” Para Nunes, o Brasil precisa participar de forma mais intensa da cadeia produtiva da indústria de semicondutores, que obteve uma receita mundial de US$ 419 bilhões no ano passado. A Abisemi estima que seus 11 associados – quatro deles voltados ao design de chips e sete dedicados à montagem de circuitos integrados – faturem por volta de US$ 1,5 bilhão anualmente, o que representa apenas 0,36% do faturamento global. “É muito pouco. Como o mercado brasileiro de tecnologia da informação [TI] é de cerca de 3,5% do montante global, em teoria temos espaço para aumentar em 10 vezes o faturamento do setor de semicondutores apenas considerando o mercado local”, sustenta Nunes. déficit comercial

A baixa inserção brasileira nesse segmento, segundo especialistas, tem um custo elevado. O país importa anualmente cerca de US$ 3,6 bilhões em semicondutores e em 2017 teve um saldo negativo de US$ 23,8 bilhões na balança comercial do setor eletroeletrônico. “Além de gerar grande déficit para o país, a falta de um polo industrial forte de semicondutores torna o Brasil tecnologicamente vulnerável”, opina o físico Luís Fernandez Lopez, coordenador da rede ANSP (Academic Network at São Paulo), responsável pelo acesso das instituições paulistas de educação e pesquisa à internet. “A indústria de TI é uma das que mais crescem no mundo, e o chip é seu elemento básico. É fundamental sabermos projetar, construir e fabricar circuitos integrados.” A cadeia produtiva do setor de semicondutores é formada por três elos. O projeto do esquema elétrico e o desenho dos circuitos impressos nos chips são feitos pelas design houses. A manufatura do wafer – o disco ultrafino de silício, de até 300 milímetros (mm) de diâmetro e com alto grau de pureza, que dá origem ao chip – cabe a indústrias conhecidas globalmente como foundries (do termo fundição, em inglês). Já a montagem final do produto, que inclui o encapsulamento (proteção física do chip para garantir uma conexão segura entre ele e as placas do circuito impresso) e a realização de testes, é executada por empresas de

fotos 1 eduardo cesar 2 Nabor Goulart / Agência Freelancer  3 léo ramos chaves  ilustraçãO fabio otubo

Protótipo do módulo (acima) que será produzido no país pela Qualcomm e USI; técnicos da Ceitec durante estágio da fabricação de chips

volver algumas atividades, como o teste de componentes fabricados em outras unidades da USI. “Queremos que os primeiros smartphones com essa tecnologia estejam no mercado até o fim deste ano”, informou Amon. Para isso, os módulos QSiP terão de ser inicialmente importados da China. A criação da joint venture deve gerar em torno de 800 empregos, a maioria deles qualificados, e demandar investimentos de US$ 200 milhões (R$ 660 milhões) em cinco anos. Para se instalar no país, as empresas terão redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS) e incentivos fiscais vinculados ao Processo Produtivo Básico (PPB), programa federal que concede benefícios a companhias que implantam no país parte de sua linha de fabricação. O anúncio da nova fábrica animou o setor brasileiro de microeletrônica. Há algumas décadas o Brasil tenta, sem sucesso, tornar-se competitivo no mercado global de semicondutores. “Sem dúvida, essa indústria está muito atrasada no país. O setor foi extinto nos anos 1990, com o fim da reserva de mercado de informática decretada no governo Collor, e, apesar de ainda ser muito incipiente, passa hoje por seu melhor momento, seja em termos de faturamento, número de empresas ou tecnologias disponíveis”, aponta o engenhei-


3

Etapa final da produção de circuito integrado no laboratório do Instituto de Pesquisas Eldorado

packaging – a unidade da Qualcomm se enquadra nessa categoria (ver infográfico). “Um estudo internacional contratado pelo BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] no início dos anos 2000 revelou a importância do Brasil fazer parte da cadeia de semicondutores para buscar adensamento tecnológico e empregos de qualidade”, informa Maurício Neves, superintendente da Área de Planejamento do BNDES. “O diagnóstico mostrou que era preciso apoiar investimentos em todos os elos do ecossistema, ou seja, em design houses, no encapsulamento [ou packaging] e em foundries. E foi o que o banco fez.” Neves destaca que nenhum país do mundo conseguiu desenvolver sua indústria de semicondutores sem a presença e o apoio de longo prazo do governo. Os esforços do BNDES surtiram resultado, segundo o engenheiro eletricista Jacobus Swart,

professor da Feec-Unicamp. “O Brasil está bem em termos de design houses e empresas de encapsulamento, mas estamos longe de ter uma foundry capaz de produzir wafers. As duas empresas criadas nos últimos anos no país com esse objetivo, a estatal Ceitec e a privada Unitec, enfrentam dificuldades”, conta Swart. “Essas companhias já receberam muito dinheiro do BNDES e da Finep [Financiadora de Estudos e Projetos], em forma de participação ou empréstimo, mas ainda não deslancharam em termos de produção de wafers.” A Ceitec foi criada pelo governo federal em 2008 com o objetivo de ser a primeira fábrica brasileira de circuitos integrados (ver Pesquisa Fapesp nº 137). Dez anos depois, esse objetivo ainda não foi atingido. “Em geral, o projeto de novos chips é feito no Brasil, a fabricação do wafer é realizada fora e o final da produção acontece na Ceitec, além do encapsulamento, em certos casos”, esclarece o engenheiro mecânico Paulo de Tarso Mendes Luna, presidente da empresa. Situada em Porto Alegre, a fábrica domina a produção de chips de 600 nanômetros (nm), classificados pelo mercado como de baixa densidade. “Para chips menores, uma parte do processo é executada fora do Brasil”, informa Luna – os módulos que a Qualcomm planeja produzir no país são de alta densidade. “A densidade do chip está relacionada à sua miniaturização. Quanto menor ele é, maior é o número de transistores e mais ampla sua funcionalidade. Computadores e telefones celulares utilizam normalmente chips de alta densidade”, explica Swart, da Unicamp. Ele destaca, no entanto, que há mercado no Brasil para circuitos integrados menos complexos, como os fabricados pela Ceitec. “É possível criar tecnologias mais simples, menos custosas, com esse nível de miniaturização. Poucas empresas no mundo fabricam semicondutores de alta densidade.”

As etapas do processo produtivo A cadeia dos circuitos integrados é composta basicamente por três estágios

PROJETO O desenho e a concepção do esquema elétrico do chip são feitos pelas design houses. No Brasil: Instituto Eldorado, Chipus, Idea!, SMDH

FABRICAÇÃO A produção em larga escala de circuitos integrados em discos de silício, os wafers, fica a cargo das foundries. No Brasil: Ceitec e Unitec (ambas operando parcialmente)

MONTAGEM A etapa final (encapsulamento e teste) acontece em empresas de packaging. No Brasil: Smart Modular, HT Micron, Adata, Multilaser, Cal-Comp e Qualcomm (em projeto)

PROCESSO VERTICAL Algumas empresas, conhecidas como fabricantes de dispositivos integrados, dominam todas as etapas da produção. No mundo: Intel, Samsung, Toshiba pESQUISA FAPESP 266  z  73


Com capacidade para produzir cerca de 20 milhões de chips por mês, a Ceitec tem em seu portfólio sete circuitos integrados voltados à identificação de animais, pessoas e veículos, gestão de inventário, controle de ativos, entre outros. O governo destinou por volta de R$ 800 milhões ao negócio. “É um valor inferior ao que se investe para se implantar uma indústria desse segmento, que remonta a mais de US$ 1 bilhão”, sustenta Luna. A empresa acumula prejuízo de R$ 40 milhões, mas espera tornar-se lucrativa em 2021. “A indústria de semicondutores leva, em geral, de 10 a 15 anos para atingir seu ponto de equilíbrio.”

Por dentro do segmento Confira a evolução da receita da indústria global de semicondutores e a relação das maiores companhias

MERCADO EM ALTA Faturamento do setor superou a barreira de US$ 400 bilhões em 2017 451* 419 300 306 227

fÁBRICA DE WAFERS

Outro projeto ambicioso da área que ainda não decolou é a Unitec Semicondutores. Com sede em Ribeirão das Neves, nos arredores de Belo Horizonte, a empresa, criada em 2012, fazia parte do conglomerado do empresário Eike Batista e nasceu como Six Semicondutores. Em 2014, quando os negócios de Batista entraram em crise, sua parte no empreendimento (33%) foi vendida ao grupo argentino Corporación América, que controla os aeroportos de Brasília e Natal. “A Unitec foi projetada para atuar em todo o processo produtivo de chips, desde o projeto até sua aplicação em soluções inteligentes. Hoje, operamos por meio das etapas de design e encapsulamento”, ressalta Frederico Blumenschein, presidente da empresa. A operação parcial ocorre porque a fábrica ainda não está concluída, apesar de já ter recebido investimentos de cerca de R$ 1 bilhão, dos quais R$ 245 milhões do BNDES, dono de 33% do negócio. A Unitec tem expectativa de obter novos investimentos para conclusão de sua planta fabril. Quando estiver totalmente operacional, a Unitec poderá fabricar até 130 mil wafers por ano – cada placa dá origem a milhares de chips. Ela será especializada na produção de circuitos integrados de 90 nm e 130 nm com tecnologia CMOS (Complementary Metal Oxide Semiconductor), licenciada da IBM Corporation, multinacional da área de TI que detém 18,8% das ações da empresa. “Base dos circuitos digitais modernos, a tecnologia CMOS é mais comumente utilizada em microprocessadores, memórias e blocos de comunicação por radiofrequência”, explica o presidente da Unitec. A companhia já tem dois projetos de chips, um voltado para rastreamento logístico e outro para iluminação pública. “Os protótipos demonstraram sucesso na fase de testes. Em um primeiro momento, poderão ser produzidos com apoio de parceiros. Assim que a fábrica for concluída, serão feitos em Ribeirão das Neves.” Segundo Ricardo Rivera, chefe do Departamento de Indústrias de Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) do BNDES, a Unitec 74  z  abril DE 2018

139

256

Vendas em US$ bilhões

343 *Estimativa

226

166

2001 2003 2005 2007 2009 2011 2013 2015

2017 2018

Fonte  Gartner, Inc. e Statista

DISPUTA ACIRRADA A Samsung liderou o ranking das empresas de semicondutores depois de ultrapassar pela primeira vez a Intel no ano passado Receita em US$ bilhões

1

Samsung

Coreia do Sul

61,2

2

Intel

EUA

57,7

3

SK Hynix

Coreia do Sul

26,3

4

Micron Technology

EUA

23,1

5

Qualcomm

EUA

17,1

6

Broadcom

EUA

15,5

7

Texas Instruments

EUA

13,8

8

Toshiba

Japão

12,8

9

Western Digital

EUA

9,2

NXP

Holanda

8,7

10

não foi concebida para ser uma foundry pura nos moldes das tradicionais existentes na Ásia, que produzem chips em larga escala para o mercado de computadores e smartphones. “A Unitec é um modelo híbrido, uma fabless com capacidade fabril. Do ponto de vista do posicionamento de mercado, para ela dar certo é muito importante que tenha capacidade de design para desenvolver chips que atendam a diversos segmentos, que podem ir do IoT ao automotivo e saúde”, declara. Ao mesmo tempo, defende Rivera, uma vez que ela trabalha com uma tecnologia de processos que não é de última geração, é preciso que tenha um mix de produtos que não seja exclusivamente de baixo valor agregado. Fabless são empresas que projetam chips, colocam neles sua marca e gerenciam todo o negócio, mas fazem a fabricação dos produtos com terceiros, já que não têm

Fonte  Gartner, Inc.


unidade fabril – esse é o modelo em que a Qualcomm usualmente se encaixa. Embora ainda esteja longe de possuir uma foundry totalmente operacional, o Brasil já conta com uma rede formada por design houses e empresas de encapsulamento, em diferentes graus de maturação. No primeiro grupo, um dos destaques é o Instituto de Pesquisas Eldorado, de Campinas, organização sem fins econômicos referência em pesquisa e desenvolvimento na área de TI. “Somos especializados em projetos de ponta de circuitos integrados. Para isso, contamos com 60 projetistas, sendo a maioria deles formada pelo programa CI Brasil”, conta o engenheiro eletricista José Eduardo Bertuzzo, gerente executivo da área de Tecnologia do Eldorado. O CI Brasil foi uma iniciativa implementada em 2005 pelo governo federal com empresas e o setor acadêmico com o objetivo de criar um ecossistema em microeletrônica capaz de inserir o país no cenário mundial de semicondutores. Um de seus eixos era expandir a formação de especialistas em design de chips. “O programa formou mais de 800 projetistas e deu origem a cerca de duas dezenas de design houses”, declara Bertuzzo. “O projeto de circuitos integrados é uma área em que podemos nos destacar, pois temos projetistas talentosos no Brasil.”

Eduardo Rocha / RR Foto

LABORATório de ponta

No final de 2017, o Eldorado inaugurou um laboratório para prototipagem de chips resultado de um convênio de cooperação tecnológica com a Smart Modular Technologies, de Atibaia (SP), uma das principais companhias de encapsulamento do país, especializada na produção de memórias para computadores e celulares. Dotado de salas limpas (ambiente superfiltrado com quantidade mínima de partículas por metro cúbico) como as usadas para manufatura e testes de chips, a unidade está sendo utilizada para desenvolvimento de novas tecnologias em semicondutores e capacitação de recursos humanos. A instalação do laboratório integra o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis), outra iniciativa do governo federal para incentivar a indústria nacional de chips. Sediada em Newark, nos Estados Unidos, a Smart possui unidades em oito países. A fábrica brasileira é a única que executa as etapas de corte, encapsulamento e teste de circuitos integrados, com tecnologia nacional. Seu principal produto é um chip avançado de memória para smartphone chamado EMCP (Embeded Multimedia Chip Package). O Complexo Tecnosinos, localizado dentro da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), a 35 quilômetros de Porto Alegre, é a sede de outra empresa dedicada ao encapsulamento e teste de

O programa CI Brasil formou mais de 800 projetistas de chips e deu origem a design houses circuitos integrados. Joint venture formada pela brasileira Parit Participações e a sul-coreana Hana Micron, a HT Micron foi criada em 2009 com apoio do governo brasileiro (via BNDES e Finep) para ser uma das grandes do setor. Em 2014, inaugurou sua fábrica com a expectativa de produção de 360 milhões de chips por ano, a partir de dois ou três anos. Até agora isso não se concretizou. De acordo com o site da empresa, que não respondeu aos pedidos de entrevista da reportagem, “já foram investidos R$ 110 milhões no empreendimento, sendo previstos mais R$ 260 milhões ao longo dos próximos anos”. No início de 2017, como resultado das dificuldades operacionais que a HT Micron vinha enfrentando, o engenheiro elétrico Ricardo Felizzola, que havia comandado a empresa por seis anos, foi substituído na presidência pelo sul-coreano Chris Ryu, ainda à frente do negócio. Para Luís Fernandes Lopez, da Rede ANSP, os percalços sofridos nos últimos anos pela maioria dos projetos na área de semicondutores desenvolvidos no país se deve, em boa medida, à falta de uma política de Estado. “Uma indústria de semicondutores, que é uma indústria de base, leva anos para se estabelecer. Sem uma política industrial coordenada que suporte esse ciclo de maturação, com o comprometimento de desembolsos a médio e longo prazo e o estabelecimento de metas por parte das empresas, é muito difícil desenvolver essa indústria”, afirma Lopez. “Sem isso, estaremos sempre patinando num setor tão vital como o de semicondutores.” n

Funcionário da Unitec trabalha no encapsulamento de etiquetas de identificação por radiofrequência

pESQUISA FAPESP 266  z  75


Agricultura y

Quanto menor, melhor Nanopartículas e nanocápsulas poderão diminuir o uso de agroquímicos, mantendo a eficiência biológica Marcos de Oliveira

U

ma das possibilidades da nanotecnologia é a substituição ou diminuição da quantidade de fertilizantes, herbicidas e inseticidas utilizados na agricultura, reduzindo impactos ambientais sem perder eficiência. Um experimento realizado por pesquisadores paulistas mostrou que o uso do óleo de citronela, planta que tem efeito repelente contra alguns insetos e ácaros, inserido em nanopartículas de zeína, uma proteína extraída do milho, pode ser útil para a agricultura. “Desenvolvemos nanopartículas de 150 a 200 nanômetros [1 nanômetro equivale a 1 milímetro dividido por 1 milhão] de óleo de citronela, que servem para proteger e liberar mais lentamente a substância nas folhas das plantas. A pulverização desse repelente de forma tradicional faz com que ele se volatilize rapidamente pela ação dos raios solares ou por altas temperaturas e não promova o efeito desejado por muito tempo”, explica o químico Leonardo Fraceto, professor no Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Sorocaba. Ele coordena um grupo que inclui pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), outras unidades da Unesp, universidades de Sorocaba e Estadual de Londrina.

76  z  abril DE 2018

O repelente mostrou-se eficaz em evitar a aproximação em plantas de feijão do alvo escolhido pelos pesquisadores, o ácaro-rajado (Tetranychus urticae), artrópode que ataca também outras culturas, como as de soja e tomate. “Esse tipo de pesticida poderia ser usado para controlar ácaros, principalmente na agricultura orgânica”, diz Leonardo Fraceto. Como esperado pelos pesquisadores, a formulação mostrou uma volatilização lenta e tornou o efeito do óleo essencial mais eficaz. O estudo foi publicado em janeiro deste ano na revista Journal of Agricultural and Food Chemistry.

Nanopartículas de ureia, que leva nitrogênio ao solo, envoltas em argila

A mesma preocupação ambiental têm os pesquisadores do Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (LNNA) da Embrapa Instrumentação, em São Carlos (SP). “Uma das nossas estratégias é utilizar nanopartículas de argila e hidroxiapatita [substância formada por cálcio e fosfato presente nos ossos e dentes que pode ser sintetizada em laboratório] para formular um nanocompósito com ureia, um fertilizante rico em nitrogênio”, conta o engenheiro de materiais Cauê Ribeiro, pesquisador da Embrapa e coordenador da Rede de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio (Rede AgroNano). A ureia é também uma substância volátil e emite nesse processo óxido nitroso, substância que contribui com o efeito estufa do planeta. O período em que a ureia tradicional em forma de pellets – pequenas pastilhas – fica no solo é de 14 dias. Com as nanopartículas, esse período chega a 42 dias ou mais, com até 50% a menos de perda para o ambiente na forma volatilizada. As nanopartículas encapsuladas por argila, hidroxiapatita ou polímeros podem ser produzidas com equipamentos utilizados na indústria do plástico, por exemplo, e, como outros produtos, ser oferecidas na forma de pellets. O processo produtivo é semelhante. Ribeiro explica que outra vantagem desse processo tecnológico é a diminuição de fertilizantes sendo levados para o campo. “O frete é o principal custo, em relação aos fertilizantes tradicionais, para os agricultores. Se conseguirmos um material com alta quantidade de fertilizante em nanopartículas por grama do produto final em pellets, que fique no solo por mais

1


Produção de nanorrepelente O óleo de citronela poderá ser usado como pesticida acondicionado em nanocápsulas feitas com uma proteína extraída do milho, a zeína

1

2

produção

Extração da proteína

3

Repelente pronto

Citronela

Zeína

Nanocápsula de zeína

Nanocápsula de zeína

4

pulverização

Extraída do milho,

O repelente

Mesmo diluídas

a proteína será a

é colocado

em água, as

matéria-prima

no invólucro

nanocápsulas

O repelente aplicado sobre as plantas oferece uma proteção duradoura, pois a citronela

continuam íntegras

da nanocápsula

é liberada gradualmente pelas nanocápsulas

2

fotos 1 Embrapa  2 freepick

fonte  Leonardo Fraceto /Unesp

tempo, será possível diminuir o custo de transporte”, afirma o pesquisador. Fertilizantes ou inseticidas feitos com nanotecnologia ainda não são comercializados. “As pesquisas concentram-se em países de agricultura tropical como Brasil e Índia, que têm problemas agrícolas semelhantes.” Aqui, ao contrário dos Estados Unidos e da Europa, a maioria dos agricultores não revolve a terra para adubar e plantar porque existe o risco de esse procedimento acelerar erosões, além de não se aproveitar os nutrientes sobre o solo. No Brasil predomina a deposição do adubo sobre a terra, sem enterrá-lo, o que leva à volatilização e a maior dispersão dos fertilizantes e outros insumos pela irrigação e chuva. “A atenção de pesquisadores e empresas de países desenvolvidos sobre essa área ainda é recente.” O trabalho realizado pelo grupo de Ribeiro resultou em duas parcerias. Uma delas com a empresa de origem australiana Nufarm para o desenvolvimento de um defensivo agrícola contra nematoides, vermes que atacam as raízes das plantas, e um dos principais problemas fitossanitários da agricultura brasileira. Sem poder contar detalhes por for-

ça contratual, Ribeiro diz apenas que o pesticida, agora envolto em um polímero biodegradável, está há muitos anos em uso. O objetivo é atacar rapidamente o verme, evitando a necessidade de se usar mais agroquímicos no solo. Além do Brasil, o produto deverá ser distribuído em vários países. A outra parceria é com a Domínio Tecnologia Química, de Pindorama (SP). “Estamos desenvolvendo com eles um nanocompósito de enxofre para carrear micronutrientes, como zinco, cobre e boro, no solo.” Patente

O grupo de Fraceto também poderá ter um produto no mercado. A universidade está negociando com uma empresa o licenciamento de uma patente em parceria com a Unicamp. Trata-se de nanocápsulas contendo atrazina, um herbicida tradicional envolto em um polímero biodegradável chamado de policaprolactona. “Esse herbicida é proibido na Europa, mas aceito no Brasil e Estados Unidos. Com as nanocápsulas, temos como diminuir a quantidade de uso e os impactos ambientais, com a mesma eficiência”, explica Fraceto.

Em outro campo de estudo com a mesma nanocápsula, Fraceto desenvolve com pesquisadores do Imperial College, do Reino Unido, pesquisas para determinar a toxicidade desse nanocompósito em relação à rota de aplicação por pulverização. “Estamos analisando com modelos de células pulmonares se essas nanopartículas de atrazina poderão trazer malefícios à saúde das pessoas que aplicam o produto no campo.” Na aplicação tradicional, é preciso usar máscaras e roupas especiais. A expectativa é o uso do produto com nanopartículas da mesma forma, com os aplicadores utilizando equipamentos de segurança. n

Projetos 1. Nanopartículas como sistema carreadores de compostos bioativos visando aplicações em agricultura (nº 13/12322-2); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Leonardo Fernandes Fraceto (Unesp); Investimento R$ 165.854,53. 2. Desenvolvimento de nanocompósitos à base de enxofre elementar para veiculação de micronutrientes em solo (nº 16/15482-9); Modalidade Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável Fábio Plotegher (Domínio); Investimento R$ 130.334,40. Os artigos consultados para esta reportagem estão listados na versão on-line.

pESQUISA FAPESP 266  z  77


pesquisa empresarial

Salto para o desconhecido Líder no segmento de genéricos, a farmacêutica EMS investe em inovação radical Suzel Tunes

O

s medicamentos genéricos, cópias de remédios cujas patentes já expiraram, são um dos principais responsáveis pelo crescimento da empresa farmacêutica EMS. Segundo dados da IQVIA, consultoria especializada na área da saúde, o laboratório é o maior do país em faturamento no mercado de fabricantes de genéricos, e lidera o mercado farmacêutico total (remédios de marca e aqueles vendidos para hospitais, clínicas e governo). “A EMS foi a primeira farmacêutica no país a produzir e comercializar genéricos, em 2000, e desde 2013 é líder isolada desse segmento”, afirma o vice-presidente institucional Marcus Sanchez. Agora, o objetivo é disputar o mercado de medicamentos resultantes de inovação radical, ou seja, da pesquisa e desenvolvimento (P&D) de novos princípios ativos. Com esse propósito, a EMS fundou, em 2013, a Brace Pharma, nos Estados Unidos, país que é responsável por mais de 70% do desenvolvimento de novos fármacos no mundo. Situada em Rockville, estado de Maryland, a Brace Pharma recebe um investimento de U$ 300 milhões. Aplica 80% de seus recursos em projetos de fase clínica, com potencial para chegar ao mercado em até cinco anos, e 20% em projetos pré-

78  z  abril DE 2018

empresa Ems

Nº de funcionários 5 mil

Centro de P&D Hortolândia (SP)

Funcionários de P&D 400, entre pesquisadores, técnicos e pessoal administrativo

Principais produtos Medicamentos genéricos


eduardo cesar

Funcionário em laboratório da empresa, em Hortolândia

-clínicos, que podem estar disponíveis em até sete anos. Segundo Marcus Sanchez, a empresa está voltada, sobretudo, a medicamentos para doenças com “alto grau de necessidade médica não atendida e com opções de tratamento insuficientes”. Para atingir seus propósitos, a Brace firmou, até o momento, 12 parcerias nas áreas de oncologia, virologia, pneumologia, cardiologia, hematologia, entre outras. Um dos objetivos da Brace é registrar terapias inovadoras primeiramente na Food and Drug Administration (FDA), agência que regula o comércio de alimentos e remédios nos Estados Unidos, e, na sequência, submetê-las ao registro e à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e demais órgãos reguladores de outros países da América Latina. O primeiro produto da

Brace deve ser protocolado ainda este ano. Trata-se de uma nova geração de óxido nítrico inalatório para doenças pulmonares e cardíacas que pode ser administrado por meio de um dispositivo portátil – hoje, o fornecimento de óxido nítrico para inalação se faz por meio de grandes cilindros de gás pressurizado. O produto está sendo desenvolvido em parceria com a norte-americana GeNO, uma biofarmacêutica, isto é, uma farmacêutica especializada em biotecnologia. Para Reinaldo Guimarães, ex-vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (Abifina), investir na área de biotecnologia é uma questão de sobrevivência das empresas do ramo farmacêutico. “A biotecnologia é o futuro da indústria farmacêutica. Ela está crescendo em ritmo acelerado e quem ficar

só na síntese química vai perder muito mercado nos próximos 10 anos”, projeta o médico, que foi secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, de 2007 a 2010. Na opinião do químico Adriano Andricopulo, professor do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), a criação da Brace é uma das iniciativas mais promissoras do setor farmacêutico brasileiro nos últimos anos. “Será uma forma de desenvolver novos compostos e tecnologias utilizando o know-how americano, que é o mercado mais importante de P&D no mundo”, diz ele, que é coordenador de Transferência de Tecnologia do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP. pESQUISA FAPESP 266  z  79


Andricopulo espera que os cientistas brasileiros se beneficiem, sobretudo, do intercâmbio com alguns dos renomados pesquisadores da atualidade no desenvolvimento de fármacos, que fazem parte do Comitê Científico da Brace: o prêmio Nobel de Medicina de 2000, Eric Kandel; Samuel Broder, codesenvolvedor dos primeiros medicamentos para o tratamento da Aids; Raymond Schinazi, descobridor de fármacos para hepatite e Aids; e Peter Hirth, que tem experiência em biotecnologia como pesquisador e executivo de farmacêuticas norte-americanas. “Mas seria interessante também conseguir que projetos de inovação radical ocorressem no Brasil, por meio de transferência de

tecnologia entre empresas e universidades”, diz o químico, que é ex-presidente da Sociedade Brasileira de Química. Inovação incremental

Além de tomar a decisão de investir na Brace Pharma, a EMS tem apostado tam-

equipe de Pesquisadores Confira alguns dos profissionais que fazem P&D no EMS e conheça as instituições acadêmicas responsáveis por sua formação Ana Luiza Degani, diretora adjunta do Departamento Analítico (P&D)

Universidade Federal de São Carlos (UFSCar): graduação, mestrado e doutorado em química

Patricia Juliato, pesquisadora do Departamento Analítico (P&D)

Universidade Federal de Alfenas (Unifal): graduação em farmácia Universidade Estadual de Campinas (Unicamp): mestrado em farmácia

Carlos Alberto Fonseca de Moraes, diretor do Centro de P&D

Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Camp): graduação em farmácia industrial Fundação Getulio Vargas (FGV): MBA em gestão industrial

Roberto Bleuel Amazonas, diretor da Área Médica e Portfólio

Universidade Federal de Pernambuco (UFPE): graduação em medicina FGV: MBA em marketing Unicamp: doutorado em clínica médica

Gustavo Souza Pessoa, pesquisador do Departamento de Pré-Formulação (P&D)

Unifal: graduação em ciências biológicas, mestrado em ciências farmacêuticas Unicamp: doutorado e pós-doutorado em química analítica

Cilene Marquissolo, pesquisadora de Documentação Técnica – Fabricantes Insumos Farmacêuticos

Unicamp: graduação em química e mestrado em síntese orgânica

80  z  abril DE 2018

bém no desenvolvimento de genéricos de alta complexidade, medicamentos que exigem o desenvolvimento de novas metodologias analíticas para comprovação de sua eficácia. Um dos genéricos de alta complexidade presente no portfólio da empresa é a ciclosporina microemulsão genérica, um imunossupressor utilizado no combate à rejeição de órgãos transplantados. Segundo Marcus Sanchez, esse medicamento é produzido exclusivamente pela EMS em toda a América Latina há mais de 17 anos, constituindo-se em um dos principais produtos exportados pelo laboratório para outros países. A empresa tem atuado também no campo da inovação incremental, procurando formulações mais eficientes para medicamentos de referência (produto inovador, registrado e comercializado no país, cuja eficácia, segurança e qualidade foram comprovadas cientificamente). É o caso, por exemplo, do Patz SL, lançado em 2012 e desenvolvido a partir do princípio ativo zolpidem, usado para insônia. No lugar da tradicional administração do comprimido, a farmacêutica criou uma versão sublingual, na qual o medicamento vai direto para a via sistêmica, o que permitiu ao laboratório usar metade da dose, com efeito mais rápido.

fotos  eduardo cesar

A empresa investe no desenvolvimento de genéricos muito complexos


Central de Cromatografia Gasosa, onde é feita a separação e quantificação de compostos voláteis

Profissional trabalha no reator de emulsão, usado no encapsulamento de micropartículas

Outra forma de inovação incremental tem sido a associação de diferentes princípios ativos, como a que a EMS fez para o desenvolvimento do medicamento Esogastro IBP, utilizado no combate da Helicobacter pylori, bactéria que provoca gastrite crônica. A empresa reuniu, exclusivamente, em uma mesma formulação, o esomeprazol, para controle da acidez gástrica, e dois antibióticos (a amoxicilina e a claritromicina), criando um medicamento novo a partir de princípios ativos já bastante conhecidos. A inovação incremental e os genéricos de alta complexidade estão sendo desenvolvidos no Centro de P&D da EMS, que tem recebido investimentos anuais de 6% do faturamento da empresa. No ano de 2016, o faturamento total foi de R$ 10,7 bilhões. “Atualmente, a empresa, por meio de sua P&D, tem cerca de 50 projetos em diversas fases de desenvolvimento, com uma meta de ter de 12 a 15 novos projetos finalizados ao ano”, afirma Sanchez. O Centro de P&D tem cerca de 400 pessoas – entre pessoal administrativo, técnicos e pesquisadores – e está localizado no complexo fabril de Hortolândia, no interior paulista, onde fica também a sede da empresa. Além de Hortolândia, a EMS tem fábricas em São Bernardo do Campo e Jaguariúna, ambas em São Paulo, Manaus (AM) e Brasília (DF). Juntas, as cinco unidades empregam 5 mil pessoas e têm capacidade total para produzir 1 bilhão de caixas de medicamentos por ano. n

Cooperação com a OMS A EMS exporta para mais de 40 países, sobretudo do continente europeu. Em breve, seus medicamentos também chegarão a países da África, da Ásia, da América Latina e do Pacífico afetados pela bouba, uma infecção provocada pela bactéria Treponema pallidum pertenue e classificada entre as Doenças Tropicais Negligenciadas. Em abril de 2017, a EMS oficializou um acordo de cooperação com a Organização Mundial da Saúde (OMS) para a doação, apenas no primeiro ano de parceria, de 40 milhões de comprimidos do antibiótico azitromicina, que serão usados em uma ampla campanha de erradicação da doença no mundo. Até 2012, a bouba – doença que lesiona a pele e, nos casos mais avançados, também ossos e cartilagens – era tratada com injeções de penicilina benzatina. Descobriu-se então que uma dose única de azitromicina por via oral elimina completamente a doença. Pela facilidade de administração desse tratamento, que dispensa a necessidade de pessoal treinado na aplicação das injeções, a OMS espera erradicar a bouba até 2020. No ano passado, a companhia também realizou uma doação ao Hospital do Rim, em São Paulo. Forneceu mais de 40 mil comprimidos de micofenolato de sódio, indicado para prevenir a rejeição de órgãos transplantados. Esse medicamento é um genérico de alta complexidade desenvolvido a partir de uma parceria com o laboratório italiano MonteResearch. “Essas doações constituem-se ativos intangíveis da empresa, um investimento na imagem institucional que não chega a arranhar o orçamento”, diz Reinaldo Guimarães, ex-vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades. Segundo o especialista, as doações não se revertem diretamente em contratos ou privilégios dentre os concorrentes, mas são ações de ética empresarial que devem ser replicadas, sempre que possível.

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humanidades   literatura y

Modernismo revisitado Pesquisadores repensam o lugar do movimento vanguardista paulistano na cena cultural brasileira Christina Queiroz

O

bjeto de estudo de críticos, historiadores e pesquisadores da área de literatura durante quase um século, a Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo, tem seu protagonismo no cenário cultural brasileiro revisto. Na esfera literária, estudos recentes indicam que a semana faz parte de um processo iniciado no final do século XIX, envolvendo o trabalho de autores até então pouco conhecidos, que atuaram em diferentes regiões do país e não estavam restritos ao meio intelectual paulistano. Inspirado por vanguardas europeias, o modernismo foi um movimento artístico que procurou romper com características estéticas então consideradas tradicionais. Na literatura brasileira, a abolição de versificações utilizadas pelos poetas parnasianos e a produção de textos sobre a identidade nacional, em uma linguagem popular, foram algumas de suas diretrizes mais significativas.

82  z  abril DE 2018

Na historiografia literária nacional, a Semana de Arte Moderna é considerada o ponto de partida no processo de renovação das letras. Sob a liderança de Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954) e Menotti Del Picchia (1892-1988), dezenas de intelectuais, principalmente paulistanos e cariocas, participaram do evento, proferindo conferências e fazendo a leitura de textos e poemas. Em comum, o desejo de transgredir e superar os temas e as formas que permeavam a literatura produzida até então. Maria Arminda do Nascimento Arruda, professora do Departamento de Sociologia e diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), recorda que as revisitações críticas ao modernismo ganharam corpo somente a partir dos anos 1990. “Até os anos 1980, principalmente no cenário acadêmico paulistano, o movimento foi tratado como se estivesse acima de qual-

quer avaliação crítica”, conta. Segundo Maria Arminda, que desde 2011 desenvolve o projeto de pesquisa “Trajetos do modernismo no Brasil: O romance de 1930 e a sombra do passado no trânsito do moderno”, isso aconteceu, em parte, porque a criação da USP envolveu pessoas ligadas ao cenário cultural modernista. Esses intelectuais passaram a refletir sobre o modernismo paulistano, tratando-o como ponto de inflexão na cultura do Brasil e contribuindo para difundir a tese de que ele teve papel central no processo de renovação do campo literário. A disseminação de abordagens da história a partir da vida cotidiana permitiu um novo olhar sobre o modernismo, propõe Mônica Pimenta Velloso, historiadora e pesquisadora na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. A história passou a ser pensada também da perspectiva da cultura, das práticas e representações construídas pelos diferentes grupos sociais que compõem a vi-


ilustrações  daniel kondo

pESQUISA FAPESP 266  z  83


1

da cotidiana. “A mudança influenciou as análises sobre o modernismo brasileiro, que passaram a priorizar as diversidades urbanas e regionais”, diz. Autora dos livros Modernismo no Rio de Janeiro (KBR, 2015) e História e modernismo (Autêntica, 2010), Mônica considera que essa mudança de perspectiva permitiu que estudiosos do movimento vissem que as relações entre centro e periferia eram mais complexas do que se pensava e que autores considerados de menor importância também tiveram participação significativa no desenvolvimento do modernismo no Brasil. O ano de 1922 foi emblemático à criação de memórias no país, por causa das comemorações do centenário da Independência, afirma Mônica. Além da Semana de Arte Moderna, o Brasil realizou a Exposição Internacional, evento oficial organizado no Rio para exibir ao mundo o progresso da indústria brasileira. O evento foi objeto de críticas das revistas semanais de humor. Diferentemente da Exposição Internacional, a Semana de 22 foi bem-sucedida em sua pretensão de transformar-se em marco histórico. A leitura consagradora de crí-

ticos e historiadores contribuiu para a construção dessa posição no imaginário cultural brasileiro. Maria Arminda lembra que a primeira revisão do movimento já aconteceu na década de 1930, com a emergência de autores do romance social do Nordeste, como José Lins do Rego (1901-1957) e Jorge Amado (1912-2001). A crítica leu esses romancistas como representantes da segunda geração modernista, denominação que pressupõe que eles partiram dos ideais da primeira geração para compor seu universo narrativo. Porém, os líderes do modernismo paulista – Mário de Andrade e Oswald de Andrade – percebiam que essa literatura se distanciava das propostas experimentais que caracterizaram o momento inicial do movimento em São Paulo. “Oswald de Andrade, por exemplo, passou a usar o termo ‘búfalos do Nordeste’ para se referir a esses autores, aludindo à sua literatura de denúncia social e tom sóbrio, que diferia daquela produzida pelos intelectuais em 1922, mais interessada em captar a velocidade das metrópoles com viés transgressor”, compara. Pesquisas recentes procuram contradizer leituras que colocam a literatura da década de 1930 como repercussão do modernismo paulistano. Essa proposição é corroborada por Mônica, ao indicar que

Vanguarda argentina O movimento vanguardista paulistano

político no qual a revista estava inserida e

não é o único que passa por um processo

reflete sobre o processo de consagração

envolve a comparação com o romance social

de revisão. Em livro recém-publicado, o

desses intelectuais como ícones da literatura

brasileiro da década de 1930. Para ele, as

sociólogo Sérgio Miceli, professor da

vanguardista argentina. Um dos efeitos desse

atividades literárias dos escritores reunidos

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências

processo, conforme o pesquisador, foi ter

em torno da revista Sur levaram Buenos Aires

Humanas da USP, faz uma análise crítica

encoberto, em um primeiro momento, o

a se tornar o epicentro cultural do mundo

de escritores consagrados do movimento de

trabalho de escritores e poetas de classes

hispânico. Entre outros motivos, isso ocorreu

vanguarda argentino. Em Sonhos da periferia:

sociais menos abastadas, entre eles Alfonsina

por causa do idioma. Publicados em espanhol,

Inteligência argentina e mecenato privado, o

Storni (1892-1938) e Horacio Quiroga

os livros desses intelectuais circulavam em

pesquisador se debruça sobre as atividades

(1878-1937). “Esses escritores faziam

diferentes países da América Latina e

intelectuais que aconteceram em torno da

sucesso ao publicar textos na grande

também na Espanha. Miceli explica que os

revista Sur. Criada em 1931, a publicação

imprensa e sua exclusão do ambiente de Sur

temas abordados nas obras tinham caráter

teve a escritora Victoria Ocampo

não teve a ver com ausência de qualidade

universal, atraindo a atenção de leitores de

(1890-1979) como uma de suas principais

literária. Foi a distância social que motivou

distintas nacionalidades. Diferentemente do

patrocinadoras e Jorge Luís Borges

esse rechaço”, afirma. Segundo o sociólogo,

grupo de Sur, os escritores brasileiros do

(1899-1986) como seu autor mais célebre.

estudos recentes sobre a historiografia

romance social da década de 1930 baseavam

literária argentina passaram a perceber o

suas narrativas no desenvolvimento de sagas

publicação a partir de duas perspectivas. Na

papel significativo desses autores, que se

autobiográficas, misturando histórias pessoais

primeira, reconstitui o panorama social e

tornaram reconhecidos pela crítica.

com a história social da nação.

No livro, Miceli analisa a história da

84  z  abril DE 2018

O segundo ponto de atenção de Miceli

fotos 1 Acervo Fundação Biblioteca Nacional  2 wikimedia commons

Estudo sobre revista editada em Minas Gerais permitiu revelar aspecto ambivalente do modernismo


Manaus, Belém e Recife tiveram acesso à cultura vanguardista europeia sem a mediação de São Paulo ou do Rio. “Hoje sabemos que o moderno brasileiro resulta de um amálgama complexo envolvendo distintas tradições e releituras, combinando localismo, nacionalismo e cosmopolitismo.” Segundo ela, esse processo de renovação não teve apenas a Semana de 22 como marco: “Localizo em intelectuais da geração anterior algumas dessas vozes, entre eles Silvio Romero [1851-1914] e Euclides da Cunha [1866-1909]”. Mônica lembra que, em sua trajetória, Romero fez um mapeamento da cultura brasileira, criando instrumentais de pesquisa para poder estudá-la. “O projeto de organizar e mapear a cultura nacional antecede e dialoga com o histórico de estudos considerados pioneiros que Mário de Andrade desenvolveu a partir dos anos 1930 sobre o folclore brasileiro”, detalha. Além disso, ela considera que Euclides da Cunha já buscava criar símbolos da identidade nacional ao recorrer ao imaginário do sertanejo em suas narrativas. “Antes do século XX já existia uma geração intelectual movida por uma sensibilidade modernista”, argumenta.

E

m um projeto de pesquisa recém-concluído, Humberto Hermenegildo de Araújo, professor aposentado no Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), identificou a existência de um esforço de renovação literária na região anterior à Semana de 22. Como exemplo, ele lembra que a primeira tradução e publicação do Manifesto futurista, do italiano Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), que difundia ideais estéticos vanguardistas europeus inspiradores dos paulistanos em seu programa modernista, aconteceu no Rio Grande do Norte, em 1909. Além disso, Araújo conta que os primeiros voos comerciais da Europa para a América do Sul chegavam a Natal, mobilizando poetas da cidade como Jorge Fernandes (18871953) a escrever versos sobre aviões e os progressos da civilização, temática que também permeou a poética de modernistas da primeira geração. “Havia um interesse pelo novo em todo o Brasil. Naquele momento, o país recebia estímulos extraliterários e se relacionava com a modernidade, com a valorização das máquinas, do mundo urbano e da ideia de progresso”, afirma Araújo.

2

Intelectuais da revista Sur: ícones da literatura vanguardista argentina ganharam projeção internacional

tampouco encontra paralelos no Brasil. “No modernismo brasileiro, as poucas escritoras ocupavam uma posição marginal na cena literária, como foi o caso de Patrícia Galvão, a Pagu, que só teve seu trabalho reconhecido após falecer”, detalha. Como ponto em comum entre as dinâmicas literárias dos dois países, Miceli aponta a incorporação de referências das

Na visão de Miceli, tal literatura era

cosmopolita, capaz de agenciar universos de

vanguardas europeias, assim como a

permeada por temas locais, restringindo o

experiência representativos de uma pretensa

existência de um movimento de flutuação

interesse de leitores estrangeiros pelos livros.

condição humana”. O pesquisador afirma que,

no processo de reconhecimento de

“Graciliano Ramos converte sua realidade em

enquanto autores como Borges ganharam

escritores e poetas, que muda à medida

matéria ficcional, enquanto Borges satiriza

projeção internacional, os escritores

que avançam os estudos sobre intelectuais

estereótipos relacionados à identidade

brasileiros ficaram confinados à cena

menos conhecidos. “Aqui, como lá,

nacional”, compara. Com isso, a literatura do

doméstica. Miceli destaca ainda que Victoria

a consagração de autores tem oscilado

autor argentino se distancia do que aqui se

Ocampo e outras intelectuais mulheres

em função de circunstâncias que não

tornaria o “paradigma realista” brasileiro, e

que orbitavam ao redor de Sur eram

necessariamente guardam relação com a

ele “foi alçado ao pódio de escritor mundial,

protagonistas na cena cultural, algo que

qualidade das obras”, conclui.

pESQUISA FAPESP 266  z  85


deixou de ser considerado significativo nas décadas seguintes, por não se encaixar na narrativa que coloca o grupo paulistano como central no processo de renovação da literatura nacional”, afirma.

O No caso do único livro de poemas publicado por Jorge Fernandes, resenhado por Antônio de Alcântara Machado (1901-1935), importante escritor e crítico literário da época, Araújo explica que, ao mesmo tempo que eram motivados por elementos culturais tradicionais de Natal, seus versos continham aspectos vanguardistas da poesia visual, que só viria a ser desenvolvida no Brasil pelos concretistas na década de 1950. Embora participasse da vida intelectual do país, tendo recebido Manuel Bandeira (18861968) e Mário de Andrade quando estiveram no Nordeste, e publicado poemas na Revista de Antropofagia, editada em São Paulo no final da década de 1920, Fernandes ficou esquecido até meados dos anos 1970, quando foi revisitado por estudos empenhados em desvendar movimentos literários para além do eixo Rio-São Paulo. “As culturas regionais repercutiram no modernismo paulistano e pesquisas recentes mostram como lugares considerados periféricos produziram conhecimento que foi absorvido por áreas centrais”, enfatiza Araújo. Em estudos que relativizam a centralidade dos intelectuais paulistanos no processo de renovação literária, o pesquisador lembra que Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), historiador e folclorista potiguar, foi o principal divulgador do modernismo de 22 no seu estado, da mesma maneira que ajudou a difundir a cultura regional entre autores paulistanos. Segundo Araújo, quando Mário de Andrade empreendeu viagens etnográficas pelo Brasil no final da década de 1920, Cascudo o recebeu e o guiou pelo Rio Grande do Norte e as visitas permitiram ampliar a visão que o paulistano tinha do Brasil, até então mais centrada nos meios urbanos de São Paulo e do Rio de Janeiro. Macunaíma, publicado por Mário de Andrade em 1928, foi escrito após essas viagens. Para Araújo, as atuais pesquisas que buscam revelar autores, obras ou aspectos desconhecidos do modernismo pri86  z  abril DE 2018

Lugares periféricos produziram conhecimento literário que também foi absorvido por áreas centrais

vilegiam o estudo de documentos que vão além do texto literário, como diários, correspondências e periódicos regionais, entre eles Leite criôlo, que circulou em Belo Horizonte em 1929. Miguel de Ávila Duarte, doutor em estudos literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), participou do processo de edição, em 2012, de um livro contendo 19 edições fac-símile desse periódico. Segundo ele, nos anos 1920, Leite criôlo teve participação significativa na rede de revistas modernistas. “Prova disso é que vários poemas do paulista Raul Bopp [1898-1984] foram publicados no periódico mineiro, sob o pseudônimo Jacop Pim Pim, ao lado de versos de autores de outros estados, como Pará e Paraná.” Duarte explica ainda que Leite criôlo é mencionado repetidas vezes na Revista de Antropofagia, publicação que se tornou uma das mais conhecidas na história do movimento. “Apesar da importância no início do modernismo, Leite criôlo

pesquisador mineiro relembra que após a revisão feita entre os anos 1930 e 1940 pelos próprios autores que participaram da Semana de 22, o modernismo paulistano voltou a ser objeto de estudos acadêmicos na década de 1950, quando emergiram análises aprofundadas sobre obras como Macunaíma. Na comemoração dos 50 anos da Semana, o modernismo paulistano consolidou sua posição hegemônica na historiografia com a edição de obras completas e publicações em fac-símile de revistas como Klaxon, que circulou em São Paulo entre 1922 e 1923. No ensaio “Estéticas da ruptura”, Eneida Maria de Souza, professora de teoria literária da UFMG, defende que o culto à novidade e o impulso de romper com movimentos anteriores balizou o discurso crítico na análise das obras literárias. “A ditadura do novo representou uma tendência comum às teorias vanguardistas brasileiras que, inspiradas pelas europeias, pretendiam acompanhar no âmbito cultural as transformações modernizantes da técnica e da revolução industrial”, escreve a pesquisadora. Com isso, obras que ficavam à margem dessa “estética da ruptura” foram menos privilegiadas no discurso crítico, que passou a valorizar trabalhos alinhados à ideia de vanguarda, em detrimento da literatura com características estéticas associadas a movimentos anteriores, como o parnasianismo. A atual dinâmica de revisitações do modernismo literário advém da relação que ele estabelece com o processo de modernização do Brasil, avalia Maria Arminda. “Nossa modernização se encontra hoje em uma encruzilhada. A ideia de que a sociedade caminha em constante progresso foi posta em dúvida”, observa. “Esses questionamentos nos têm feito repensar nosso ideal de modernidade e a forma como o modernismo foi tratado pela historiografia literária.” n

Artigo Arruda, M. A. N. El concepto de formación en tiempos críticos: Esbozo de reflexión. Sociológica. v. 90, p. 47-68. 2016.


Avenida Central: Paris teria inspirado a criação das fachadas

urbanismo y

Prefeito ambivalente Estudo defende que reforma de Pereira Passos, no começo do século passado, pretendia integrar população

coleção particular /reprodução de lentes da memória / editora bazar do tempo

de baixa renda ao centro do Rio de Janeiro

A

partir de análises centradas nas reformas urbanas empreendidas na então capital federal do Brasil, o livro A grande reforma urbana do Rio de Janeiro: Pereira Passos, Rodrigues Alves e as ideias de civilização e progresso atribui nova possibilidade interpretativa à figura de Francisco Pereira Passos (1836-1913), prefeito do Rio de Janeiro entre 1902 e 1906. Na obra, André Nunes de Azevedo, professor de história na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), refuta interpretação corrente na primeira metade dos anos 1980, que confere ao político o papel de ter colocado a expulsão da população de baixa renda do centro da cidade como premissa de seu projeto reformista. Distanciando-se dessa visão, Azevedo traça um perfil ambivalente de Pereira Passos, ao sustentar que ele pretendia “civilizar” a população humilde, motivando-a a frequentar o núcleo urbano central recém-repaginado.

pESQUISA FAPESP 266  z  87


As reformas urbanas do Rio, em discussão desde 1843 por Henrique de Beaurepaire Rohan, então diretor de obras municipais, foram planejadas e articuladas pelo prefeito e a equipe de engenheiros designada por Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919), presidente do Brasil entre 1902 e 1906. O grupo foi comandado por Paulo de Frontin, presidente do Clube de Engenharia, associação civil fundada em 1880 para fomentar o desenvolvimento do setor. O governo federal ficou responsável por reconstruir o porto e as ruas do entorno, para melhorar o escoamento das mercadorias importadas pela rede de comércio do centro e incentivar a exportação agrícola. Também se incumbiu da abertura e do embelezamento da avenida Central (atual avenida Rio Branco), que começa onde hoje fica a praça Mauá. Como parte da ação federal, também foram edificadas instituições que se tornaram emblemáticas à paisagem urbana: a Escola Nacional de Belas-Artes, a Biblioteca

Nacional e o Palácio Monroe, demolido em 1976. Já o projeto de Pereira Passos envolvia a construção do Teatro Municipal, a canalização de rios, a abertura de novas vias no centro da cidade, a criação de avenidas para conectar subúrbios com o centro e a instalação de infraestrutura urbana. “Essas grandes reformas foram tentativas dos governos de superar o chamado ‘paradigma escravista’ para o fornecimento de infraestrutura urbana”, considera Azevedo. Por paradigma escravista entenda-se a utilização de mão de obra escrava na realização de tarefas como carregamento de água potável, escoamento do esgoto e transporte de pessoas e mercadorias, que se relaciona com a chegada da família imperial ao Rio em 1808. “A solução criada pela corte para sanar as demandas de infraestrutura foi retomar a tradição secular do Brasil Colônia, ou seja, utilizar escravos no desenvolvimento dessas tarefas”, reforça Azevedo.

Avenida Central (à esq.) em 1913, hoje avenida Rio Branco, no cruzamento com a praça Mauá: o governo federal criou projeto para ampliar essa região e trabalhou de maneira articulada com o prefeito Pereira Passos

2


fotos 1 coleção particular /reprodução de lentes da memória / editora bazar do tempo 2 brown university / wikimedia commons

1

Naquele momento, o Rio se tornou a cidade com a maior quantidade de escravos no Ocidente. “Em 1840, mais da metade da população carioca era escrava”, afirma o pesquisador. Com a Abolição e a proclamação da República, os governantes tiveram de repensar os modos de organização dos serviços urbanos, em um contexto de aumento populacional progressivo. Se em 1890 o município tinha 525 mil pessoas, 16 anos mais tarde chegava a 811 mil habitantes. O arquiteto Nireu Cavalcanti, pesquisador da história do Rio e autor de livros sobre o tema, lembra que, na virada do século XIX para o XX, a visão dos gestores em relação à saúde pública ainda era tributária do higienismo, embora o movimento tivesse nascido na passagem do século XVIII para o XIX. Com base nessa perspectiva, uma das preocupações era aumentar a ventilação das cidades, por meio do alargamento de ruas, o aterramento de logradouros para

elevar seu nível em relação ao da maré e o desmonte de morros. Acreditava-se que essas ações ajudariam a reduzir a disseminação de doenças. A demolição de casarões e cortiços ocupados por diversas famílias, que compartilhavam um único banheiro, também balizou ações. “A implantação do sistema de esgoto no município aconteceu a partir de 1886. Em 1874, foi adotada legislação determinando que todas as casas tivessem banheiros e fossas individuais, o que levou à demolição de edificações fora dessas condições”, detalha Cavalcanti. Uma carta cadastral, que continha a localização de logradouros, edifícios e imóveis, foi desenvolvida naquele ano por uma comissão de engenheiros e utilizada como referência nas reformas. Modernização conservadora

Além de responsáveis por tarefas diferentes no processo das reformas, as iniciativas federal e municipal também

se desenvolveram com base em valores distintos, conforme a pesquisa de Azevedo. Segundo ele, Rodrigues Alves pretendia redimensionar o Rio e acabar com a imagem de cidade pestilenta, sede de epidemias e endemias, propiciando novo fôlego à imigração europeia. “O presidente era membro de uma das principais famílias produtoras de café em São Paulo, setor que enfrentava crise de mão de obra desde a proibição da escravidão”, conta Azevedo. Rodrigues Alves também desejava modernizar o porto para equilibrar as contas públicas, uma vez que a maior parte da arrecadação federal provinha dos impostos de importação. Na avaliação de Azevedo, a reforma urbana federal tinha como valor maior a noção de progresso, centrado na ideia de desenvolvimento material, enquanto a municipal prestigiava a ideia de processo civilizatório, priorizando noções de coesão social e de acesso à cultura, por exemplo. “Isso envolvia o entendimento de polidez, como a proibição de urinar em espaços públicos, escarrar nos bondes, andar sem camisa e vender qualquer tipo de mercadoria pelas ruas”, detalha. Azevedo chegou a essas conclusões após pesquisas em fontes primárias, dentre múltiplos documentos oficiais armazenados no Museu da República, Biblioteca Nacional, Fundação Casa de Rui Barbosa, Academia Brasileira de Letras e no Arquivo Nacional e Arquivo Geral da Cidade do Rio. “Nos discursos e cartas de Rodrigues Alves, a palavra progresso era empregada com sentido de valor máximo para empreender a reforma, enquanto em Pereira Passos o termo ressaltado era civilização”, relata o pesquisador. Partindo da hipótese de que Pereira Passos adotou a ideia de civilização como valor máximo do seu projeto, Azevedo defende que o prefeito não pretendia expulsar a população de baixa renda do centro, conforme a leitura que a historiografia faz de sua reforma. Apesar de os alargamentos de ruas e a demolição de cortiços terem gerado a expulsão dessas famílias do centro, essa não teria sido sua intenção primordial: “A freguesia do Espírito Santo no centro era a região que contemplava a maior quantidade de pessoas miseráveis e, mesmo assim, ficou intacta na reforma. Diferentemente dela, as freguesias da Candelária e do SacrapESQUISA FAPESP 266  z  89


1

Palácio Monroe inacabado em 1906, diferentemente do que mostra fotopintura (abaixo)

Olhar amador

mento, que abrigavam as camadas médiaalta e alta, foram destruídas”, argumenta. Para o pesquisador, Pereira Passos empreendeu uma “integração conservadora”, criando uma estrutura viária concebida para ter quatro ligações entre o centro e os caminhos que conduziam ao subúrbio. Três dessas avenidas foram executadas. No entorno do centro, também foram construídas três vilas operárias, para que o trabalhador pudesse se deslocar a pé. “Passos pretendia que a população de baixa renda visitasse o novo núcleo urbano e incorporasse a cultura que emanava de teatros e bibliotecas. Construiu coretos nas praças para oferecer apresentações de música clássica a essas famílias. Exigia que andassem asseadas e bem-vestidas. Nesse sentido, adotou o conceito de civilização da burguesia ilustrada europeia”, explica. Segundo Azevedo, esse ideal não era compatível com a tradição e as condições de ex-escravos e operários, que andavam pelas ruas cheios de fuligem por conta dos trabalhos braçais que desempenhavam. “Sua proposta era conservadora porque sugeria uma integração a padrões exógenos à historicidade desses grupos sociais mais pobres e sem democratizar o acesso às riquezas”, justifica.

As imagens que ilustram esta

em 1906, por exemplo, uma

reportagem foram descobertas pela

fotopintura mostra o palácio pronto

historiadora Adriana Martins Pereira e

anos antes da conclusão da obra.

analisadas em sua tese de doutorado,

Essa diferença se deve sobretudo pelo

defendida na Faculdade de Filosofia,

fato de Sampaio olhar a cidade pela

Letras e Ciências Humanas da

perspectiva amadora e não por

Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

eventual visão crítica da inauguração

Debate historiográfico

A pesquisa deu origem ao livro

incompleta do palácio. “Sampaio não

Lentes da memória – A descoberta da

tinha a ambição de exibir essas fotos

fotografia de Alberto de Sampaio

nem mesmo nas exposições dos clubes

(1888-1930). Nos clubes de fotografia

amadores. Pretendia guardá-las em

amadora da época, com os quais

álbuns familiares.” Embora os acervos

Sampaio estava envolvido, eram comuns

de fotografia amadora normalmente

os retratos de personagens e fotos de

sofram com conservação precária,

paisagens. O registro do meio urbano

o legado de Sampaio permaneceu

não era comum. De forma inovadora,

intacto. Entre outros motivos, explica

Sampaio fotografou eventos realizados

Adriana, porque a família do fotógrafo

no centro do Rio de Janeiro, entre eles

ainda vive na mesma casa

a inauguração do Palácio Monroe

centenária e durante décadas o acervo

em 1906, como parte da reforma

permaneceu no mesmo lugar.

A compreensão de Pereira Passos como um político que buscou expulsar a população de baixa renda do centro do Rio deriva de análises desenvolvidas sobretudo nos anos 1980, por corrente historiográfica baseada em teorias neomarxistas e estruturalistas, explica Margareth da Silva Pereira, professora do Programa de Pós-graduação em Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Um marco desse momento foi a dissertação de mestrado do historiador Jaime Larry Benchimol, hoje pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Defendida na UFRJ em 1982, sua pesquisa associava a reforma de Pereira Passos àquela empreendida pelo então prefeito de Paris Georges-Eugène Haussmann (1809-1891) entre 1852 e 1870. No artigo “O passado como construção: Perfis da historiografia sobre o Rio de Janeiro – Temas e problemas (19781992)”, publicado nos anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo da Universidade de Brasília

empreendida por Pereira Passos. As 19 imagens que captou naquele dia mostram uma visão distinta daquela que balizou a tônica dos registros profissionais. “As imagens de Sampaio evidenciam que, no dia da inauguração, o palácio ainda não havia sido concluído. Nas fotografias publicadas por profissionais, entretanto, ele aparece como se já tivesse sido finalizado”, afirma Adriana. Em imagem que saiu na revista Kosmos

90  z  abril DE 2018

2


fotos  1,2 e 4 reprodução de lentes da memória / editora bazar do tempo  (1 e 4 coleção particular, 2 Revista kosmos /acervo ieb/usp 3 museu da república

(Brasília, 2014), Margareth, que defendeu em 1988 uma tese ainda não publicada, sobre o Rio no século XIX, explica que, até o final dos anos 1970, os estudos urbanos eram feitos por economistas e sociólogos. A dissertação de Benchimol integra um novo conjunto de pesquisas sobre o assunto, desenvolvidas principalmente por historiadores. A dissertação de mestrado de Sérgio Lamarão, defendida em 1984 no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, constitui outra referência. Centrada na remodelação do porto, destaca a complementariedade das atribuições do governo federal e da administração municipal nas reformas. Lamarão lembra que durante a remodelação de Pereira Passos foi organizado um concurso de fachadas para os prédios da avenida Central e que muitos dos participantes inspiraram seus projetos em construções parisienses. Na avaliação do historiador, edifícios como o Teatro Municipal são exemplares dessa influência. “Porém, na avenida Central, essa memória parisiense foi desmontada. Restaram poucas evidências nessa via, que já está na terceira ou quarta geração de edifícios”, diz. As demolições tiveram início em 1910, apenas quatro anos após a inauguração oficial da avenida Central, segundo Margareth. Na avaliação de Cavalcanti, há poucos indícios que permitem confirmar a influência de Paris no modelo da avenida Central. “As vias com canteiro central feitas no período de Rodrigues Alves, por exemplo, não encontram paralelos

3

Pereira Passos (com a mão no queixo) e Rodrigues Alves a seu lado: reformas modernizaram o Rio

na reforma parisiense”, afirma o arquiteto. Mas ele identifica na bibliografia francesa e alemã, utilizada nos cursos de graduação em engenharia e arquitetura, uma das origens dessa associação. Sobre o deslocamento da população de baixa renda, Lamarão diz que o processo de hierarquização espacial do Rio já estava em curso quando as reformas de Pereira Passos começaram. As obras aceleraram esse processo. “O que estava no eixo da avenida Central foi demolido, incluindo cortiços, pequenas lojas e fábricas, e ele acabou ganhando o apelido de ‘bota abaixo’. Até peças de teatro sobre o assunto foram produzidas na época”, conta. Apesar de reconhecer a influência europeia na concepção do prefeito carioca sobre o conceito de civilização, pa-

4

ra Azevedo, diferentemente do projeto executado no Rio, a iniciativa parisiense procurava manter a população de baixa renda afastada. “O plano de reforma parisiense foi feito com base na construção de avenidas radiais que formam semicírculos, para evitar a presença dessa população no centro, enquanto no Rio os planos indicam uma intenção oposta”, diz. Já Margareth afirma que, como o plano de Haussmann, o de Pereira Passos privilegiou a higiene, o embelezamento e a circulação e também deixou em segundo plano o quarto pilar do urbanismo nascente - a justiça social. Apesar das divergências entre os pesquisadores, ela avalia que as visões sobre as reformas se complementam: “Não se trata de opor historiografias, mas sim de mostrar as contribuições e os limites de cada vertente”. Em relação ao legado da reforma de Passos, Azevedo destaca o bonde nos arcos da Lapa. “Passos fez o bonde, veículo moderno à época, passar por cima de um monumento histórico tradicional, obra de um governante português do século XVIII. Construiu o acesso ao Corcovado, para que a população tivesse uma vista superior da cidade, criou a avenida Atlântica, em Copacabana, e fez a beira-mar. Essas obras são, até hoje, cartões-postais do Rio.” n Christina Queiroz

Livro

Morro do Castelo, demolido em 1920: famílias de baixa renda migraram para os subúrbios

AZEVEDO, A. N. A grande reforma urbana do Rio de Janeiro: Pereira Passos, Rodrigues Alves e as ideias de civilização e progresso. Rio de Janeiro: Editora da PUC-Rio/Mauad X, 2016.

pESQUISA FAPESP 266  z  91


memória

1

Senhora

do caos Há 100 anos, gripe espanhola assolava o mundo, matando 30 milhões de pessoas, 35 mil somente no Brasil Rodrigo de Oliveira Andrade

92 | abril DE 2018

U

m sopro virulento vindo da África e da Europa se abateu sobre o Rio de Janeiro em agosto de 1918. De diagnóstico incerto e sintomas variados, o estranho mal tomou de súbito os cariocas, espalhando-se rapidamente para outras regiões do Brasil. Logo se converteu em uma calamidade de proporções inimagináveis. Estima-se que a gripe espanhola, como ficou conhecida, tenha matado 35 mil pessoas no Brasil, entre elas o presidente eleito Rodrigues Alves (1848-1919). No mundo, a moléstia dizimou aproximadamente 30 milhões de pessoas — quase quatro vezes mais que os mortos durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), estimados em 8 milhões. Um século após a maior pandemia de gripe já conhecida, não se sabe ao certo como tudo começou. Alguns historiadores argumentam que o vírus surgiu na América do Norte e foi levado para a Europa com as tropas que lutaram na guerra. Outros sustentam que o agente infeccioso apareceu na China, em 1917, seguiu para os Estados Unidos e, de lá, foi para a África e Europa, espalhando-se pelo resto no mundo. No Brasil, as primeiras notícias sobre o estranho mal que atingia o mundo começaram a aparecer nos jornais em agosto


fotos 1 Acervo do Memorial do Colégio Marista Arquidiocesano 2 acervo do centro pró-memória do club athletico paulistano  3 acervo da revista da semana na hemeroteca digital brasileira

Em fins de 1918, o Colégio Arquidiocesano (à esq.) e o Club Athletico Paulistano, ambos em São Paulo, foram convertidos em hospitais provisórios

2

de 1918, sem, no entanto, despertar a atenção das autoridades públicas. Vários países censuraram as notícias sobre a epidemia, já que a gripe tinha afetado seus exércitos. Isso fez com que a moléstia fosse conhecida em um primeiro momento como “febre das trincheiras”. Devido à sua posição de neutralidade durante a guerra, a Espanha foi o único país cuja imprensa não fez segredo sobre os estragos causados pela chamada “fiebre de los três días”, a qual passou a ser conhecida mundialmente como gripe espanhola. Os primeiros relatos sobre a doença foram ignorados no Brasil ou tratados com descaso ou em tom pilhérico, conforme verificou a historiadora Adriana da Costa Goulart, em artigo publicado em abril de 2005 na revista História, Ciência, Saúde — Manguinhos sobre os impactos políticos e sociais da epidemia de gripe espanhola no Rio, então capital federal.

Presos recrutados para trabalhar como coveiros e no transporte de cadáveres

A situação começou a mudar com os rumores de contaminação dos tripulantes de dois grupos brasileiros auxiliares dos aliados na Primeira Guerra Mundial: a Esquadra de Patrulha, comandada pelo almirante Pedro Max de Frontin (1867-1939), e a Missão Médica, chefiada por Nabuco de Gouveia (1872-1940), infectados na Europa e na África, respectivamente. A repercussão das notícias sobre a gripe ganhou ainda mais destaque no país quando os tripulantes de outra missão médica a

caminho do Senegal, a bordo do navio La Plata, adoeceram um a um do misterioso mal. Os relatos sugerem que médicos, soldados e oficiais do La Plata se contaminaram em Freetown, em Serra Leoa, em 29 de agosto de 1918. Em 9 de setembro os primeiros corpos foram jogados ao mar. Pouco depois chegaram ao Rio de Janeiro telegramas contando as desgraças da missão. À época, no entanto, é provável que o vírus já circulasse entre os brasileiros, que ainda não haviam percebido a dimensão que a epidemia viria a ter no país.

3

PESQUISA FAPESP 266 | 93


1

Alguns autores sustentam que o agente causador da espanhola, como também era chamada, aportara dias antes no Brasil a partir do paquete inglês Demerara, que deixou passageiros contaminados nos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Seja como for, a gripe rapidamente se espalhou. Apresentava-se com sintomas que iam de barulho nos ouvidos, dores de cabeça e febre a calafrios, vômitos com sangue acompanhados de perturbações nos nervos cardíacos, infecções no intestino, nos pulmões e nas meninges. Acometia sobretudo os indivíduos entre 20 e 40 anos, levando as vítimas, em poucos dias, a sufocações, diarreias, dores lancinantes e, no extremo, ao coma e à morte. Os médicos não sabiam como lidar com a doença. “Receitavam sobretudo o quinino para tentar conter a epidemia”, diz o historiador Claudio Bertolli Filho, do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Os institutos Oswaldo Cruz e Butantan também anunciaram o desenvolvimento de uma vacina contra a moléstia, que nunca ficou pronta”, diz o pesquisador, autor do 94 | abril DE 2018

livro A gripe espanhola em São Paulo, 1918: Epidemia e sociedade (Paz e Terra, 2003). Diante da ineficiência das drogas indicadas nos receituários, práticas caseiras antigas ganharam força. Vários médicos aproveitaram para fazer dinheiro. Isso desencadeou o aparecimento de remédios nunca vistos, ou que durante a epidemia ganharam atribuições curativas para a influenza. Já as autoridades públicas limitavam-se a orientar a população a evitar lugares de aglomeração. Logo as principais cidades do país se viram perto de um colapso. Como na Paris de 1889, quando uma epidemia de gripe atirou ao leito dois terços da população, no Rio, a doença derrubou três quintos dos cariocas. “Em uma cidade com quase 1 milhão de habitantes, 600 mil pessoas ficaram enfermas, das quais 15 mil morreram”, ressalta o historiador Ricardo Augusto dos Santos, da Casa Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz (COC-Fiocruz). “As pessoas morriam em casa, na rua e no trabalho”, conta o pesquisador, autor de um artigo publicado em março de 2006 na revista História, Ciência, Saúde — Manguinhos sobre as manifestações simbólicas coletivas acerca da espanhola no Rio.

Manchete do jornal Correio da Manhã no auge do surto de gripe espanhola, em outubro de 1918

Na capital federal, a epidemia foi encarada como fruto de descaso e incompetência administrativa do governo

Os relatos da época são terríveis: famílias desamparadas, muitos com fome, crianças esfomeadas sugando o seio da mãe morta, ataques às padarias, armazéns e bodegas por aglomerados de esfaimados, que roubavam enquanto tossiam. “Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível já não era o número de causalidades, mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse aos cemitérios, quem abrisse covas e enterrasse os mortos”, escreveu o médico e memorialista mineiro Pedro Nava (1903-1984) em seu livro Chão de ferro (1976). “Era muito defunto para os poucos coveiros do trivial — assim mesmo desfalcados pela doença. Foram contratados amadores a preços vantajosos. Depois vieram os detentos.” O escritor se referia aos presos recrutados para trabalhar como coveiros e no transporte de cadáveres. A doença chegou a São Paulo em meados de outubro, com uma equipe de futebol vinda do Rio. “Assim como fez nos outros estados do Brasil, o Serviço Sanitário paulista


fotos 1 e 3 acervos do correio da manhã e da revista da semana na hemeroteca digital brasileira 2 wikicommons

apressou-se em afirmar que estava apto a socorrer os adoentados e a precaver a sociedade da infecção pela moléstia”, diz Bertolli Filho. “No entanto, como no Rio, a gripe logo expôs a inoperância da política de saúde de São Paulo e a ignorância do saber médico sobre a terapêutica e a forma de transmissão.” Pouco mais de 12 mil pessoas morreram no estado de São Paulo durante os dois meses em que a epidemia permaneceu ativa no Brasil. Segundo os relatos da época, carroças passavam pelas ruas do centro da cidade recolhendo cadáveres nas casas e ruas, onde os corpos permaneciam à espera de sepultamento. As igrejas interromperam seus rituais, enquanto nos cemitérios se abriam valas comuns para enterrar, sem caixões, os corpos amortalhados em lençóis. À época, clubes de lazer, colégios e igrejas se transformaram em hospitais provisórios para atender os enfermos, como é o caso do Club Athletico Paulistano, que ficou fechado por conta da epidemia entre novembro e dezembro de 1918. Em seu salão de festas foi montado um hospital temporário.

2

Alojamento em campo de treinamento do Exército dos Estados Unidos no estado do Kansas tomado por vítimas da influenza

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Caixões empilhados em cemitério do Rio à espera da abertura de novas covas

A situação instaurada pela espanhola foi encarada como fruto de negligência, descaso e incompetência administrativa do governo, que não sabia lidar com as ameaças que intimidavam o país, argumenta Adriana Goulart. “A morosidade em estabelecer medidas profiláticas e as limitações estruturais que afetavam as instâncias de saúde durante o combate à epidemia de gripe despertaram a ira popular sobre diversos personagens do governo, sobretudo o presidente Wenceslau Braz (1868-1966) e o então diretor da Saúde Pública, Carlos Seidl (1867-1929)”, escreveu. Seidl foi classificado pelos jornais da época como um “cretino, relapso e sedicioso”, que apenas contava o tempo para sua aposentadoria, e cuja “inveterada inércia e dogmatismo de velho burocrata possibilitaram que a epidemia fosse recebida festivamente pela Saúde Pública”, deixando a população entregue à própria sorte. A proporção alcançada por essas críticas fez com que a moléstia passasse a ser conhecida no Rio como “mal de Seidl”.

Ele foi demitido em outubro de 1918 e substituído pelo médico Theóphilo de Almeida Torres (1863-1928), que nomeou o médico Carlos Chagas (1879-1934) para encabeçar os serviços de combate à influenza espanhola. Diante do fracasso em descobrir o agente causador da gripe, Chagas fez o possível na emergência: dotou a cidade de maior número de leitos para os desamparados, estabeleceu regimes de quarentenas e isolamento para os navios que aportavam no país e notificações compulsórias de casos da doença. Assim como veio, a gripe espanhola foi embora. Seu ciclo epidêmico se esgotou nos primeiros meses de 1919. Se por um lado a moléstia provocou milhões de mortes e insatisfação com as elites governantes, por outro desencadeou uma revalorização do conhecimento sanitário. O vírus da influenza só foi isolado em 1933. Em 1944 pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, desenvolveram a primeira vacina contra gripe. n PESQUISA FAPESP 266 | 95


carreiras

reconhecimento

Diploma à brasileira Certificados de graduação e pós-graduação obtidos no exterior precisam ser revalidados no país A perspectiva de fazer graduação ou pós-graduação no exterior costuma ser bastante valorizada, seja por propiciar o acesso a instituições internacionais, pelo aprendizado ou aperfeiçoamento de mais um idioma, pela construção de uma rede de contatos global ou pelo convívio com novas culturas, entre outros fatores. Antes de se matricular em uma universidade fora, no entanto, é preciso considerar que nenhum diploma estrangeiro é reconhecido automaticamente no Brasil. Quem obtém um título de graduação, mestrado ou doutorado no exterior, obrigatoriamente terá de revalidá-lo ao voltar ao país. No caso dos cursos de graduação, a revalidação só pode ser feita por universidades públicas reconhecidas pelo Ministério da Educação (MEC) e que ofereçam cursos iguais ou similares ao frequentado no exterior. Já o reconhecimento de um diploma de pós-graduação pode ser feito também por instituições 96 | abril DE 2018

privadas, desde que sejam reconhecidas pelo ministério. Em ambos os casos, o processo é de competência das instituições credenciadas, que definem os próprios requisitos de avaliação. “A exceção são os cursos de medicina, para os quais existe o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos [Revalida]”, explica Ruane Santos, porta-voz do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão responsável pelo Revalida. O exame avalia as competências e habilidades dos médicos formados no exterior no âmbito de cinco áreas de exercício: cirurgia, medicina de família e comunidade, pediatria, ginecologia-obstetrícia e clínica médica. Desde 2011, o Revalida recebeu solicitações de 7.821 médicos – a maioria brasileiros, argentinos, bolivianos, colombianos e peruanos –, sendo que 47,4% deles foram reprovados em pelo menos uma edição do exame, que tem duas etapas. Na primeira, o candidato

responde a questões de múltipla escolha e faz uma prova discursiva. Na segunda, executa tarefas para uma banca, que examina suas habilidades para o exercício da medicina. Sem o Revalida, os formados no exterior não podem exercer o ofício no país. Para todos os outros cursos de graduação, recomenda-se que os candidatos avaliem a grade curricular do curso no exterior e a comparem com os conteúdos ministrados pela universidade em que pretendem ingressar com o requerimento de revalidação. Lançado em fins de 2016, o Portal Carolina Bori hoje unifica todos os pedidos de validação de diploma de graduação e pós-graduação emitidos no exterior. Não há um percentual de similaridade ou parâmetro quantitativo de análise para deferimento dos diplomas. A revalidação costuma se basear na análise do mérito e das condições acadêmicas do programa cursado no exterior, levando em conta


ilustração  bruno algarve

as diferenças entre os sistemas educacionais, as instituições e os cursos oferecidos em cada país. São exigidos pelo menos 10 documentos. As universidades credenciadas costumam divulgar a lista completa em suas páginas na internet. Ao ingressar com a solicitação, o candidato deve apresentar uma cópia do diploma e documentos referentes à instituição que o expediu, à duração e ao currículo do curso, com o conteúdo programático, a bibliografia e o histórico escolar. A decisão sobre a validação do diploma não pode demorar mais de 180 dias, a contar da data de emissão do protocolo na instituição revalidadora. Além da documentação, também é necessário pagar uma taxa que pode variar entre R$ 400 e R$ 2 mil. Desde março, refugiados domiciliados no estado de São Paulo estão isentos do pagamento das taxas de revalidação de seus diplomas nas universidades estaduais paulistas. Após receber a solicitação, a universidade nomeia uma comissão para analisá-la. Cada comissão é composta por professores da universidade escolhida que tenham qualificação compatível com a área do conhecimento e com o nível do título a ser revalidado. Se for o caso, a instituição pode solicitar a participação de especialistas de fora de seu quadro de professores e pesquisadores para compor a comissão. Também poderão ser solicitadas informações adicionais, como traduções juramentadas, conforme esclarece a diretoria acadêmica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Concluída a análise, a comissão poderá decidir pela equivalência integral ou parcial do diploma. No primeiro caso, não há necessidade de cursar disciplinas ou realizar provas. No segundo, a revalidação fica condicionada à aprovação do candidato em exames ou estudos complementares. Finalizado o processo, produz-se um termo de revalidação que é anexado ao diploma original. Esse registro deve ser apresentado sempre que o

candidato precisar comprovar a titulação no Brasil, para efeitos de trabalho ou concurso, por exemplo. No caso dos diplomas de pós-graduação, a revalidação costuma ser mais rápida. Isso porque os cursos de mestrado e doutorado são específicos e geram dissertação ou tese, documentos mais fáceis de serem avaliados. Para reconhecer um diploma de pós-graduação, a universidade precisa ter um programa de nível igual ou superior na mesma área do conhecimento, mas não necessariamente ter um programa similar ao do exterior. A revalidação pode ser federal, válida para todo o país, ou interna, aceita apenas na universidade revalidadora e eventualmente gratuita. Foi o que aconteceu com o título do arqueólogo André Strauss. Em 2016, ele concluiu o doutorado em arqueologia na Universidade de Tübingen, na Alemanha. No ano seguinte, para prestar concurso para professor do Museu de

Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), precisou revalidar seu diploma de doutor. “Como ia prestar concurso na USP, optei pela revalidação interna, mais rápida e gratuita”, diz. O mesmo fez a arquiteta Vanessa Grossman. Em 2008, ela concluiu o mestrado em história da arquitetura na Universidade de Paris 1, na França. À época, pensava em fazer o doutorado na USP. “Por isso, optei por validar meu diploma apenas no âmbito da universidade”, conta. O processo foi concluído em quatro meses, segundo ela. Seja como for, a revalidação dos diplomas de graduação e pós-graduação não supõe um novo diploma nem iguala a formação obtida no exterior à formação oferecida pela instituição revalidadora. Apenas garante que a formação que o candidato recebeu é equivalente a que se supõe necessária para o mesmo nível de formação no Brasil. n Rodrigo de Oliveira Andrade PESQUISA FAPESP 266 | 97


perfil

Conhecimento para todos

O biólogo Filipe Oliveira começou a se interessar pela biologia evolutiva do desenvolvimento em 2009, após um curso de verão na Universidade de São Paulo (USP). Na época, esse campo das ciências biológicas que compara os processos de desenvolvimento dos embriões para entender a origem ancestral de padrões biológicos ainda era incipiente no Brasil. Oliveira estava na graduação na Universidade Federal de Viçosa (UFV) e encontrou na Universidade de Uppsala, na Suécia, a oportunidade de se aprofundar sobre o assunto em um mestrado no âmbito do Programa Erasmus Mundus, financiado pela União Europeia. Oliveira mudou-se para a Suécia no início de 2010, aos 23 anos. O programa permitia cursar alguns semestres em diferentes instituições. Optou pelas universidades de Munique Ludwig-Maximilians, na Alemanha, e Harvard, nos Estados Unidos. “Defendi duas dissertações”, ele conta. “Uma na Alemanha, sobre a evolução das vértebras cervicais em aves, e outra, feita nos Estados Unidos e defendida em Uppsala, sobre a evolução do bico das aves.” Com o fim dos mestrados, em 2012, Oliveira voltou ao Brasil para

participar de um curso sobre evolução orgânica oferecido pela Escola São Paulo de Ciência Avançada (Espca), modalidade de apoio da FAPESP destinada a pós-doutorandos e a alunos de mestrado e doutorado do Brasil e do exterior. Poucas semanas depois, ele se envolveu em um novo projeto, com bolsa do Departamento de Biologia Geral da UFV, de estudo da mandíbula de embriões de abelhas com microscopia de varredura. “Paralelamente, eu e alguns estudantes da graduação criamos o folhetim Miró em Darwin, que se transformou em uma oportunidade de colocar em prática meu interesse em conectar ciência e sociedade”, diz. O biólogo ficou pouco tempo em Viçosa. Em 2013, candidatou-se para uma vaga de assistente de pesquisa no Instituto de Biotecnologia da Universidade de Helsinki, na Finlândia, onde meses depois iniciou o doutorado no estudo do crânio de embriões de serpentes e lagartos. “No projeto, aprofundei minhas atividades acadêmicas com museus na Finlândia, Alemanha e Estados Unidos”, relembra. “Essas experiências me estimularam a pensar em processos que conectassem as pessoas à ciência e às suas tecnologias”, relembra.

Microscópio acoplado a celular construído a partir de resíduos eletrônicos durante uma das oficinas do Conector Ciência 98 | abril DE 2018

No Lungi, programa de empreendedorismo da Helsinki Think Company, ele conseguiu estruturar suas ideias sobre o projeto social. Em 2016, Oliveira trancou o doutorado e decidiu voltar para o Brasil para iniciar seu empreendimento, o Conector Ciência. Ele e o companheiro, o designer finlandês Tuomas Saikkonen, instalaram-se em Lençóis, na Chapada Diamantina, Bahia, onde desenvolveram os primeiros projetos sociais de democratização da ciência nas escolas a partir da reutilização de microprocessadores e sensores na montagem de tecnologias. “A ideia era promover oficinas com a comunidade escolar e colocar em prática a criatividade e o pensamento inovador, por meio da experimentação científica e tecnológica”, explica o biólogo. Ao todo, mais de 34 oficinas já foram realizadas, com pouco mais de 800 participantes. E o projeto que começou em Lençóis vai aos poucos ampliando seu alcance. Com sede no Rio de Janeiro, o Conector Ciência já promoveu oficinas em universidades, escolas e unidades do Sesc pelo país. Mais recentemente, eles firmaram uma parceria com a Prometheus Science, da Alemanha. “Estamos agora focados na fabricação e no uso de microscópios digitais de qualidade didática e científica. O objetivo é estimular a capacidade das pessoas em desenvolver produtos, pesquisas e negócios inovadores”, ele destaca. “Queremos engajar jovens, crianças, pais e educadores na construção de uma ciência mais prática nas escolas.” n R.O.A

fotos  arquivo pessoal

O biólogo Filipe Oliveira interrompeu o doutorado na Finlândia para iniciar projeto de democratização da ciência no Brasil


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