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EXEMPLAR DE

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ASSINANTE

capa pesquisassinante137

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Ciência eTecnologia

no Brasil

Julho 2007 Nº 137 ■

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K HALED DESOUK I/AFP

IM A G E M D O M Ê S

A grande rainha Hatshepsut reinou no Egito por 21 anos no século X V a.C.Considerava-se faraó, título dado apenas aos reis e, conta a lenda, vestia-se como homem. Concentrou mais poderes do que todas as outras rainhas egípcias, inclusive as famosas Cleópatra e Nefertiti.Mas seu reinado foi relativamente pacífico, deixou contribuições para a arquitetura e promoveu até uma pioneira expedição de cunho antropológico.Uma múmia encontrada em 19 03 no Vale dos R eis foi finalmente identificada como sendo o cadáver da grande rainha.Um dente com o nome gravado de Hatshepsut, encontrado numa caixa de relíquias, encaixou-se com perfeição na mandíbula da múmia.A suspeita era antiga: a mão esquerda que repousava sobre o peito era um sinal de que se tratava de um membro da realeza.

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JU LH O 20 0 7

R EP R ODUÇ Ã O DO Q UADR O W O M E N A M U S IN G T H E M S E LV ES , ANÔ NIMO, C.SEC. X V II

MIGUEL BOYAYAN

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PADTEC

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> EN TR EV ISTA 10 Sérgio Mascarenhas

fala do impacto da física da matéria condensada sobre o mundo contemporâneo e relembra suas contribuições à área

C A PA

2 4 Desde o puxamento

da primeira fibra óptica no país, em 19 77, sua rede se expandiu até atingir 1 milhão de quilômetros 2 8 IN O V AÇ Ã O

P ipe faz dez anos e ganha reforço para a fase 3

> PO LÍTIC A C IEN TÍFIC A E TEC N O LÓ G IC A 2 2 FIB R A Ó PT IC A

FAP ESP e Padtec buscam soluções inovadoras para telecomunicações

> SEÇ Õ ES

2 9 D ISSEM IN AÇ Ã O

Parceria leva à internet transcrições do programa R oda V iva

> A M B IEN TE 3 0 D ESM ATAM EN TO

Setenta anos é o tempo mínimo para restaurar biomassa da floresta

> C IÊN C IA 3 8 C APA

Estudos revelam como cosméticos agem nos cabelos e, em muitos casos, os danificam

3 2 R EC UR SO S H ÍD R IC O S

P esquisadores de seis países buscam novas tecnologias de manejo da água

44 SAÚ D E M EN TAL

Filhos de portadores de esquizofrenia apresentam prejuízo de desenvolvimento mesmo sem ter a doença 4 8 B IO LO G IA M O L EC UL AR

Classificação racial segregacionista inibiu miscigenação nos Estados Unidos

3 IMAGEM DO MÊS 6 CAR TAS 7 CAR TA DA EDITOR A 8 MEMÓ R IA 17 ESTR ATÉGIAS 3 4 LABOR ATÓ R IO 5 6 SCIELO NOTÍCIAS .............................


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W W W .R EV IS T AP ES Q U IS A.FAP ES P .B R

MIGUEL BOYAYAN

EUDAR DO CESAR

LNLS

50

DIV ULGAÇ Ã O

90

66 86

5 0 EN TO M O LO G IA

Síndrome misteriosa causa sumiço de abelhas na América e na Europa 5 2 B IO LO G IA

Lagoa carioca abriga bactérias magnéticas formadas por várias células 5 4 AST R O N O M IA

Estudo identifica forma da bolha magnética que envolve o Sistema Solar

> TEC N O LO G IA 6 2 M IC R O EL ET R Ô N IC A

P rimeira fábrica de chips e criação de design houses transformam setor brasileiro

7 2 B IO QUÍM IC A

8 3 AN T R O PO LO G IA

Instituto Butantan firma contrato de licenciamento de patente de reagente neurológico

8 6 H IST Ó R IA 74 B IO T EC N O LO G IA

6 6 LUZ SÍN C R O T R O N

Acelerador de partículas do LNLS completa dez anos e amplia estações de trabalho e parcerias 7 0 EN G EN H AR IA AG R ÍC O L A

Biopesticida feito com sacarose e óleo de soja elimina pragas da agricultura

Novas questões colocam em xeque a masculinidade contemporânea

Empresa e Butantan inauguram Laboratório de Anticorpos Monoclonais

Lampião soube usar imagem para criar um mito imortal 9 0 C IN EM A

Nova edição de livro de Jean-Claude Bernardet mostra importância da crítica no Cinema Novo

> H U M A N ID A D ES 7 8 C O M UN IC AÇ Ã O

Governo define, neste mês, criação de nova rede de televisão

...........................5 8 LINHA DE P R ODUÇ Ã O 9 4 R ESENHA 9 5 LIV R OS 9 6 FICÇ Ã O 9 8 CLASSIFICADOS

CAPA MAYUMI OK UYAMA IMAG EM R EP R ODUÇ Ã O DE A SIC ILIA N P LAY IN G W ITH H ER H A IR , MICHELE CUSA/GETTY IMAGES


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C A R TA S cartas@ fapesp.b r

Especial C epids As reportagens de Pesquisa FAP ESP retratam a construção do conhecimento que será fundamental para o desenvolvimento do país. Acompanhe essa evolução.

N úm eros atrasados P reço atual de capa da revista acrescido do valor de postagem. Tel.(11) 3038 -14 38

Assinaturas, renovação e m udança de endereço Ligue:(11) 3038 -14 34 Mande um fax:(11) 3038 -14 18 Ou envie um e-mail: fapesp@ teletarget.com .br

O piniões ou sugestões Envie cartas para a redação de Pesquisa FAP ESP R ua P io X I, 1.5 00 São Paulo, SP 05 4 6 8 -9 01 pelo fax (11) 38 38 -4 18 1 ou pelo e-mail: cartas@ fapesp.br

Site da revista No endereço eletrônico w w w .revistapesquisa.fapesp.br você encontra todos os textos de Pesquisa FAP ESP na íntegra e um arquivo com todas as edições da revista, incluindo os suplementos especiais. No site também estão disponíveis as reportagens em inglês e espanhol.

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MIGUEL BOYAYAN

Ligue para:(11) 38 38 -4 008

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Parabéns à FAPESP e a todos os jornalistas que participaram da edição especial “Cepids: Difusão do conhecimento”, que circulou com o nº 135. O suplemento ficou bonito e gostoso de ler, seguindo a linha e a qualidade de Pesquisa FAPESP. A nosso ver, o mais importante foi justamente conhecer o trabalho e as atividades desenvolvidos pelos outros centros. Parceiros na difusão do conhecimento, que parte de pesquisadores e, por meio de diversas ações, chega à população, seja trabalhando com escolas, em exposições ao público, notícias no celular ou jogos interativos. Como a única publicação desde a criação dos Cepids em 2001, ela deixa o leitor com desejo de “quero algo mais”; seria interessante que esta se tornasse uma rotina, para que pudéssemos ser avaliados e para que os resultados fossem divulgados. MARISA RAMOS BARBIERI E EQUIPE CTC/CEPID Ribeirão Preto, SP

D iabetes Sempre que leio Pesquisa FAPESP parece que sou tomado por alguma mágica de Harry Potter, numa transposição imediata que nos tira da desigualdade social e leva à igualdade científica. A reportagem sobre células-tronco como caminho de enfrentamento ao terrível diabetes ou ainda os “nematóides do bem” para aplicação na cultura canavieira só me dão uma grande satisfação e uma enorme certeza: o Brasil é desafinado num monte de coisas, da educação básica ao sistema de saúde. Mas a cada novo movimento de amplitude tecnológica vai consolidando um rumo, uma rota pau-

latina, perspicaz e muitas vezes defendida “na marra”, para fazer valer o seu saber científico. ANTONIO CARLOS SALLES BRISTOL-MYERS SQUIBB São Paulo, SP

M arechal R ondon Na edição 134, a reportagem de Carlos Haag, “Um sertão chamado Brasil”, título do livro admirável de Nísia Trindade Lima (Casa de Oswaldo Cruz), não somente situa o legado de Rondon de modo extremamente cuidadoso, assinalando os aspectos polêmicos e os incontroversos, mas acaba por fazer uma ponte com a entrevista de Lilia Schwarcz, também de Haag. Os temas se somam de modo tão feliz que aos leitores se tornará possível um banho de história sobre as relações raciais, o pensamento social, a criação de símbolos de integração e construção da nação e a atividade estatal – conjunto de fatores que “pautavam” a Comissão Rondon. LUIZ A. DE CASTRO SANTOS INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL/UERJ Rio de Janeiro, RJ

C orreção A radiação ultravioleta pode causar melanoma, um dos tipos de câncer de pele, apenas em seres humanos e na cuíca. E não todos os tipos de câncer de pele, como deu a entender a nota “O genoma da cuíca” (edição 136). Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@ fapesp.br, pelo fax (11) 38 38 -4 18 1 ou para a rua P io X I, 1.500, São Paulo, SP, CEP 054 6 8 -9 01.As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.


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C A R T A D A E D IT O R A

45 ANOS

Investindo contra m itos

FU ND AÇ Ã O D E AMPAR O À P ES Q U ISA D O ESTAD O D E S Ã O PAU LO

CAR LOS V OGT

P R ES ID ENT E

MARILUCE MOURA – DIRETORA DE REDAÇÃO

MAR COS MACAR I

V ICE-P R ES ID ENT E C O N SEL H O SUPER IO R CAR LOS V OGT, CELSO LAFER , GIOVANNI GUIDO CER R I, HER MANN W EV ER , HOR ç CIO LAFER P IVA, JOSÉ AR ANA VAR ELA, JOSÉ TADEU JOR GE, MAR COS MACAR I, SEDI HIR ANO, SUELY V ILELA SAMPAIO, VAHAN AGOPYAN, YOSHIAK I NAK ANO C O N SEL H O T É C N IC O -AD M IN IST R AT IV O R ICAR DO R ENZO BR ENTANI

D IR ETO R P R ES ID ENT E CAR LOS HENR IQ UE DE BR ITO CR UZ

D IR ETO R CIENT ÍFICO JOAQ UIM J.DE CAMAR GO ENGLER

D IR ETO R AD MINIS T R AT IV O

ISSN 15 19 -8 774

CO NS ELH O ED ITO R IAL LUIZ HENR IQ UE LOP ES DOS SANTOS (COORDENADOR CIENTÍFICO), CAR LOS HENR IQ UE DE BR ITO CR UZ , FR ANCISCO ANTONIO BEZ ER R A COUTINHO, JOAQ UIM J.DE CAMAR GO ENGLER , Mç R IO JOSÉ ABDALLA SAAD, PAULA MONTER O, R ICAR DO R ENZO BR ENTANI, W AGNER DO AMAR AL, W ALTER COLLI

D IR ETO R A D E R ED AÇ Ã O MAR ILUCE MOUR A

ED ITO R CH EFE NELDSON MAR COLIN

ED ITO R A S Ê NIO R MAR IA DA GR AÇ A MASCAR ENHAS

ED ITO R ES EX ECU T IV O S CAR LOS FIOR AVANTI (LICENCIADO), CAR LOS HAAG (HUMANIDADES), CLAUDIA IZ IQ UE (POLÍTICA), MAR COS DE OLIV EIR A (TECNOLOGIA), R ICAR DO ZOR Z ETTO (CIÊNCIA - INTERINO)

ED ITO R ES ES P ECIAIS FABR ÍCIO MAR Q UES, MAR COS P IV ETTA (EDIÇÃO ON-LINE)

ED ITO R AS AS S IS T ENT ES DINOR AH ER ENO, MAR IA GUIMAR Ã ES

R EV IS Ã O Mç R CIO GUIMAR Ã ES DE AR AÚ JO, MAR GÔ NEGR O

ED ITO R A D E AR T E MAYUMI OK UYAMA

AR T E AR TUR V OLTOLINI, JOSÉ R OBER TO MEDDA, MAR IA CECILIA FELLI

FO T Ó G R AFO S EDUAR DO CESAR , MIGUEL BOYAYAN

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O

mercado brasileiro de xampus, condicionadores, tinturas, tonalizantes e afins cresceu 50% nos últimos três anos: o volume desses cosméticos para cabelos atingiu em 2006 o impressionante volume de 458 milhões de toneladas produzidas, enquanto o faturamento total do setor alcançou quase US$ 2,2 bilhões. Há xampu, condicionador e creme leave in para todo tipo de cabelo – seco, oleoso, liso, crespo, fino, quebradiço, tingido, alisado etc. etc. etc. E se toda essa fantástica produção se destinasse exclusivamente ao mercado interno chegaríamos ao espantoso consumo anual de 2,4 toneladas de cosméticos para cabelo por cada brasileiro. Nesse ambiente marcado por meganúmeros, surpreendente mesmo seria não haver pesquisa independente para informar com base científica se esses produtos em alguma medida tratam ou não, fazem bem ou fazem mal aos cabelos tupiniquins. Há pesquisa brasileira na área, sim, e o editor interino de ciência, Ricardo Zorzetto, foi buscar na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) um projeto consistente que, trabalhando na físico-química do cabelo, propõe que se os cosméticos funcionam para limpá-los e torná-los mais fáceis de pentear dificilmente têm qualquer efeito, por exemplo, de regeneração efetiva de fios danificados, diferentemente do que apregoa boa parte dos fabricantes desses produtos. O estudo é tão interessante que decidimos torná-lo objeto da reportagem de capa desta edição, a partir da página 38. Muito distante de uma certa leveza a que associamos esse assunto de cabelos, o drama de filhos de portadores de esquizofrenia, que crescem sem saber se herdarão ou não a doença que acomete um de seus pais, é outro tema de destaque na seção de ciên-

cia. Como mostra o relato do editor especial Fabrício Marques, a partir da página 44, a esquizofrenia costuma manifestar-se em 13% dos filhos de pacientes esquizofrênicos, enquanto na população em geral sua incidência é de 1%. A doença quase sempre dá as caras na fase adulta, portanto, há um longo período de incerteza, ou seja, de angústia e sofrimento psicológico ante uma dúvida crucial sobre o próprio futuro. Não bastasse isso, preconceito e outros dramas cercam quem tem pais vítimas da mais grave das doenças mentais. A reportagem que abre a seção de tecnologia da revista traz uma notícia, no mínimo, alvissareira: ainda na primavera deve ser inaugurada a primeira fábrica de circuitos integrados do país, os famosos chips, dispositivos fundamentais para o funcionamento de todos os equipamentos eletrônicos, tanto no processamento quanto na guarda das informações, conta o editor de tecnologia, Marcos de Oliveira, a partir da página 62. Na verdade, a produção desses circuitos em Porto Alegre e a criação de sete design houses em diferentes pontos do país iniciam a transformação da microeletrônica brasileira. Na seção de humanidades há assuntos de importância política crucial para o futuro do país, como o debate sobre a televisão pública. No entanto, termino destacando um outro texto do editor de humanidades, Carlos Haag, dado seu interesse de caráter universal, digamos assim. Refiro-me à reportagem, a partir da página 83, sobre um estudo que tenta cercar de forma aguda o que é ser homem contemporaneamente. Ou melhor, que noções de masculinidade estão bem entranhadas na identidade do homem em nosso tempo e em nosso país. É leitura que vale a pena, para homens e mulheres. PESQUISA FAPESP 137

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() R EP R ODUÇ Õ ES EDUAR DO CESAR /CTA

M E M Ó R IA

C onversão ao álcool Dos três carros que percorreram o país para divulgar o novo combustível em 1976, só resta um | N ELDSON M ARCOLIN

N

o dia 19 de outubro de 1976 três carros saíram do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos (SP), percorreram 8.500 quilômetros através de nove estados e voltaram ao ponto de partida 23 dias depois. Aparentemente comuns, o Dodge Polara 1800, o Fusca 1300 e o Gurgel Xavante causavam espanto no momento do abastecimento: todos funcionavam com álcool, em vez de gasolina. Os carros faziam parte da Caravana Pró-Álcool, nome popular do Circuito de Integração Nacional, criado para demonstrar a viabilidade do novo combustível. “Quando enchíamos o tanque juntava gente para ver se era álcool mesmo”, conta Adilson Cavichi do Amaral, motorista da

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caminhonete usada no reabastecimento, que acompanhava a comitiva ao lado de outro veículo encarregado da segurança. “Alguns faziam questão de molhar a mão e cheirar para ter certeza.” O Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, foi criado oficialmente em 1975 por meio de decreto como conseqüência da grande crise do petróleo, de 1973. A meta principal era reduzir a importação de petróleo, vendido a preços exorbitantes pelos países exportadores. Para a tarefa de desenvolvimento do motor a álcool, o secretário de Tecnologia Industrial do Ministério da Indústria e do Comércio, José Walter Bautista Vidal, recrutou o engenheiro Urbano Stumpf, então professor na Universidade de Brasília. Formado na primeira turma


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do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Stumpf já realizava pesquisas com o novo combustível desde os anos 1950. Com uma jovem equipe de engenheiros reunidos no CTA, ele começou os estudos para converter motores a gasolina. O primeiro trabalho do grupo foi descobrir quanto de álcool anidro se poderia misturar na gasolina sem perda de rendimento. Nos motores da década de 1970 podia se chegar a 15%, embora o ideal fosse 10%. Depois começaram os estudos para converter os motores – o Fusca foi o primeiro escolhido por ser o carro mais vendido. “Em um ano, de 1975 a 1976, conseguiu-se uma tecnologia de conversão confiável, e Stumpf teve a idéia de fazer a caravana para provar que o álcool poderia substituir o petróleo com a vantagem de ser mais barato”, conta o engenheiro Paulo

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P age 9

Ewald, chefe da Subdivisão de Motor a Pistão do Instituto de Aeronáutica e Espaço do CTA, que hoje tem o nome de Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial. Foi comprado um Fusca 1300, João Conrado do Amaral Gurgel, da Gurgel, cedeu por empréstimo um jipe Xavante (com motor Volkswagen 1300) e a Chrysler cedeu um Dodge 1800 – foi a única montadora que se interessou pelo projeto. Depois da caravana, o governo federal decidiu converter o motor dos carros das frotas de empresas estatais. Foram convertidos 731 Fuscas, no total. Só a Telesp, empresa paulista de telefonia, investiu em 400 deles. Apenas em 1979 uma montadora – a Fiat – passou a fabricar carros com motor original a álcool, o modelo 147. Dos três carros pioneiros só sobrou

o Dodge, enviado junto com o Fusca para leilão de sucata em 1986. “Mas fomos alertados pelo motorista Amaral e convencemos os diretores da época a aumentar o preço do Dodge para ele não conseguir comprador e voltar para o CTA”, diz João Bosco Teixeira de Souza, um dos pesquisadores da equipe de Stumpf. “Infelizmente não conseguimos salvar o Fusca, que virou sucata.” O Xavante também se perdeu. “Como a produção

da Gurgel era muito flexível, meu pai trocava o motor do carro com facilidade para testar novas peças”, diz Maria Cristina, filha de Gurgel. “Provavelmente ele pegou um carro da frota da fábrica, trocou o motor e depois converteu de novo para gasolina.” Desde 2004 o Dodge está no Museu Aeroespacial Brasileiro, em São José dos Campos, depois de passar 28 anos entre as garagens das várias divisões do CTA.

O s carros D odge e X avante saindo em caravana (página ao lado ), Fusca sendo abastecido (acim a ) e planilha com localidades: surpresa

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E N T R E V IS T A

Sérgio M ascarenhas

O

físico Sérgio Mascarenhas, 79 anos feitos em 2 de maio passado, recebeu em 4 de junho o Prêmio Conrado Wessel de Ciência Geral, hoje uma das mais significativas honrarias concedidas no país em ciência e cultura. Nos dias seguintes, longe de acomodarse sobre mais esse louro e curtir o reconhecimento merecido à sua fecunda contribuição científica à física e outras áreas, ele estava marcando encontros com Ruth Rocha, outra laureada deste ano da Fundação Conrado Wessel (FCW), na área de literatura, com Ricardo Brentani, o premiado em medicina, e os demais cientistas que dividiram com ele o palco da Sala São Paulo na elegante noite da premiação. Tinha uma instigante proposta de trabalho para cada um, e uma outra para todos: realizar em São Paulo um conjunto de conferências sob os auspícios da FCW, à imagem e semelhança das Nobel Conferences que se seguem à distribuição do Nobel, o mais prestigioso e invejável prêmio científico e literário do mundo. A entrega à atividade intelectual incessante, incansável, pragmática em larga medida, junto com uma imaginação fervilhante, um borbulhar de idéias sem fim, é a cara do professor Sérgio Mascarenhas, cuja biografia é, sem sombra de dúvida, uma das mais ricas e multifacetadas na comunidade científica brasileira. Assim, se entre suas contribuições para o conhecimento estão as descobertas dos Bioeletretos e de novos métodos de dosimetria e datação arqueológica, no plano da montagem e organização da infra-estrutura institucional do conhecimento há que se destacar a criação da área de pesquisa em física da matéria condensada no campus de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), ainda no final dos anos 1950, a criação da Embrapa Instrumentação

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Agropecuária, no final da década de 60, na mesma cidade, e a criação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no começo dos anos 70 – entre várias outras iniciativas a que ele faz referência nas páginas a seguir. Sérgio Mascarenhas hoje é professor aposentado da USP, ao mesmo tempo que dirige o Instituto de Estudos Avançados dessa universidade – em São Carlos, claro, a cidade que esse carioca de Copacabana adotou, determinado a dar substância a um campo da física a que não se atribuía muita importância no Brasil em meados do século passado, e que hoje é fundamento de algo que está na aparência e na essência do mundo contemporâneo: os computadores, a informática, a tecnologia da informação, as telecomunicações. Um pouco dos desdobramentos desse campo do conhecimento ao longo de meio século emerge das palavras do pesquisador brasileiro que trabalhou com respeitados colegas de outros países, vários deles Prêmio Nobel, em suas andanças pelas universidades de Princeton, Harvard e Londres, entre outras. Por esses dias, enquanto cuida de um novo portal de divulgação científica, Mascarenhas finaliza seu mais recente invento: um aparelho para medir de forma não-invasiva a pressão intracraniana. Uma doença inesperada o desafiou, e ele respondeu assim, em seu próprio campo, criativamente. A prosa de Sérgio Mascarenhas, personalidade fascinante e ser humano apaixonante, o reflete fielmente: é fecunda, generosa, está sempre a abrir novos campos, à maneira das mil e uma noites, ou de babuchkas invertidas, ou de telas modernas de computador que permitem o compartilhamento de múltiplas janelas numa mesma hierarquia. Em suas próprias palavras, é cheia de fractalismos – nada de


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A física do m undo presente

entediante pensamento linear com ele, melhor pensar numa conversa inteiramente radial, da qual a entrevista que se segue é uma amostra. ■ Vamos começar por suas contribuições ao conhecimento. Se não estou enganada, no começo da carreira sua especialidade era dielétricos, em especial o Efeito Termodielétrico, que tomou o nome de Efeito Costa Ribeiro. Em uma de suas experiências foi verificado o aparecimento de cargas elétricas durante a sublimação de um sólido, primeira de suas várias descobertas. Eu queria saber que peso isso tem para a física hoje. — Esse efeito termodielétrico – não se chamava ainda efeito Costa Ribeiro – se refere ao aparecimento de cargas elétricas durante mudanças de fase. Costa Ribeiro tinha verificado isso durante a fusão de um sólido, e eu pensava que esse era um efeito mais universal. Daí fui procurá-lo em outras mudanças de fase e o encontrei também na sublimação de certos materiais. Depois eu o encontrei em materiais biológicos. Assim, houve uma generalização do efeito Termodielétrico, e quando os meus trabalhos ficaram mais conhecidos, passei a chamá-lo efeito Costa Ribeiro, em homenagem a esse

meu querido professor que, aliás, faria 100 anos neste ano. O [César] Lattes, muito generoso, me disse que esse era o único efeito da física descoberto inteiramente no Brasil. Veja como era mesmo uma pessoa generosa: ele também fizera a descoberta de um grande efeito na área de partículas elementares, com os mésons pi. Mas como teve que sair do Brasil para isso, foi para a Inglaterra e depois para os Estados Unidos, reconheceu assim um grande mérito em Costa Ribeiro, sozinho no Rio, num ambiente muito menos favorável, ter feito essa descoberta de um efeito experimental.Veja, uma coisa é fazer a descoberta teórica no gabinete, e outra coisa é ver que a natureza está falando com você. Qual é a linguagem com que a natureza fala? São as interações físicas. Depois, tem que revestir aquilo com a linguagem matemática para a descoberta poder, então, voar pelos espaços teóricos, pelo espaço de novos efeitos. É fundamental, num país como o Brasil, se apossar do conhecimento pela criação do conhecimento experimental, como Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e outros fizeram. Mas não desprezo o conhecimento teórico, que é super importante para organizar o que descobrimos. Podemos entender isso estabele-

cendo uma linha entre Galileu e Newton. Galileu destruiu uma cultura de 2.500 anos com um experimento. E Newton veio e deu àquilo uma grande vestimenta teórica, que mais adiante se consolidou até mesmo numa filosofia, a filosofia kantiana. Então, parte-se do empírico-experimental, depois se veste aquilo com o arcabouço teórico, mais abstrato, e depois vem a consolidação num modelo de mundo, num modelo filosófico. Isso aconteceu várias vezes na história da ciência. Aconteceu com os gregos, com Arquimedes, Pitágoras etc., tudo consolidado depois na filosofia aristotélica, e mais adiante recuperado por Santo Agostinho e por Santo Tomás. ■ Permita-me interromper esse descortinar

filosófico para lhe perguntar o que, exatamente, caracteriza o efeito Costa Ribeiro? — Sua marca característica é que é um efeito tremendamente interdisciplinar, porque você pega uma coisa do calor, da termodinâmica e do estado sólido e transporta para um efeito elétrico.Vou dar um exemplo prático: você tem as nuvens; as nuvens têm água; a água congela. Se durante esse congelamento ocorrer a presença do efeito Costa Ribeiro, teremos aqueles efeitos maraPESQUISA FAPESP 137

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FOTOS MIGUEL BOYAYAN

M ARILUCE M OURA


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vilhosos de tempestades elétricas. Fui procurar o mesmo efeito em substâncias biológicas, como o DNA, proteínas... ■ E encontrou? — Encontrei em todas elas e, a meu ver, foi essa uma das contribuições maiores que dei: a criação do conceito de bioeletretos. Por que eletretos? Porque na mudança de fase o efeito Costa Ribeiro acabou criando um material que ficou eletricamente carregado. Na realidade, o significado da vida como nós encontramos na Terra está ligado àquelas estruturas das forças físicas mais importantes e às forças químicas, que vêm da interação dos elétrons, das cargas elétricas, interações também quânticas. Depois há as interações gravitacionais, que são importantes. Numa árvore, por exemplo, a subida da linfa pode atingir 40, 50 metros, e como ela sobe se a gravidade está puxando para baixo? São efeitos muito interessantes ligados à força de superfície e também a forças gravitacionais. Mas, veja bem, o efeito Costa Ribeiro é uma coisa, e o conceito de eletreto, embora relacionado, é outra coisa. Temos que tomar cuidado. ■ Quem introduziu o conceito de eletreto ? — Um físico japonês, bem antes de trabalharmos nisso. Costa Ribeiro e Bernardo Gross redescobriram esse nicho, e eu, como estudante deles, continuei. No caso do efeito Costa Ribeiro tínhamos efeitos elétricos em transição de fase, por exemplo, a eletricidade atmosférica, o aparecimento de cargas elétricas em semicondutores, em cristais, ou na sublimação. Quanto aos eletretos, isso foi o que, no fundo, induziu Costa Ribeiro a descobrir o efeito dele, dado que ele se interessou muito por materiais que ficavam carregados eletricamente quando eram fundidos. Como disse, os eletretos foram descobertos por um japonês, usando cera de carnaúba, e seu grupo chegou a fazer membranas eletrizadas que serviram para fazer microfones. ■ Isso se dá mais ou menos em 1950? — Entre 1943 e 1950, época em que Costa Ribeiro, Gross e outro grande professor, hoje mais ou menos olvidado, que é Armando Dias Tavares, estavam todos fazendo física experimental no Rio, na Faculdade Nacional de Filosofia, na antiga Universidade do Brasil, hoje Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Lá também eram professores Lattes, [José] Leite Lopes, [Jaime] Tiomno... Eu veria adiante que, ficando no Rio, não ia conseguir estruturar as minhas idéias, os meus sonhos, porque lá era terra dos raios cósmicos, das partículas elementares... Mas 12

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eu via, com uma clareza que até hoje não entendo, que o futuro da sociedade estava nos semicondutores do estado sólido. Aquilo que deu o transistor, e depois a explosão dos computadores. ■ Isso determinou sua vinda para São Carlos e a criação do primeiro grupo de pesquisas em física do estado sólido. — Sim, em 1956 iniciei o grupo ainda dentro da Engenharia da USP, que tinha sido criada um ano antes, porque não havia Instituto de Física. Cheguei com 26 ou 27 anos, com a Yvonne [P. Mascarenhas], que era mais nova ainda. Enfrentamos esse desafio de vir do nosso Rio de Janeiro tão amado porque víamos a possibilidade de abrir um novo caminho para a física no Brasil, que seria a física da matéria condensada, como é chamada hoje. E realmente fizemos o Primeiro Congresso de Física da Matéria Condensada aqui em São Carlos. Pensávamos que ela era portadora de futuro, e isso não era muito aceito na época porque os físicos a consideravam coisa de engenheiro. ■ Essa era uma visão vigente só aqui no Brasil ou internacionalmente? — Aqui. Internacionalmente isso deu o Nobel de Física em 1956 para três cientistas do Bell Labs, os inventores do transistor: Walter Brattain, John Bardeen e William Shockley. Digamos que aqui havia uma falta de visão, de perspectiva da grande inovação que estava ocorrendo numa área da física que não era tão respeitável e tradicional como a física de partículas, dos grandes aceleradores etc. Eu achava que via, cheirava, um caminho maior para o Brasil, e mais viável, mais fácil... E realmente, alguns anos depois, a física do estado sólido passou a representar 60%, 70% de todas as contribuições brasileiras na área. E hoje ela é ainda maior do que isso se considerarmos a interdisciplinaridade com biofísica, física dos materiais, com as engenharias, a biotecnologia, a nanotecnologia etc. Lembro que Bardeen, a quem conheci pessoalmente, depois partilhou outro Nobel pelas pesquisas da supercondutividade, e ele brincava dizendo que ganhou dois Nobel que somados não davam um porque os dividiu com outros cientistas! Mas a descoberta do transistor foi uma coisa que mudou a humanidade. Porque levou ao computador, e o computador levou a uma metalinguagem que não existia, a linguagem realmente globalizada dos bits, à teoria da informação. A teoria da informação levou a uma visão de mundo muito mais ampla, a uma Weltanschaung. Parece que você não gostou muito das minhas fractalizações, mas...

■ Quem disse que eu não gostei? — Bom, então, vou passar por [Jacques] Lacan, que adoro. E se você prefere Freud, lembro que Lacan disse para a platéia de uma das suas famosas aulas: “Vocês podem ser lacanianos, mas eu sou freudiano”. Procurei estudar Lacan e vejo que hoje, se alguém é esperto e tem visão lateral, pode entrar na rede ignorante, às seis horas da tarde, e no outro dia ser PhD pelo Google. ■ E onde entra Lacan? — Você conhece a teoria dos três estágios, em que o Lacan dividiu a evolução humana sob o ponto de vista psíquico: temos ali o imaginário, o real e o simbólico. E desde antes, desde o feto na barriga da mãe, dando pontapé, chupando o dedo, fazendo a circuitaria na neocórtex, tudo é preparação para a coisa fundamental na biologia, que é a sobrevivência. Então, sobrevivência é construção de conhecimento, e isso é a base da estrutura da vida, a negentropia, a transformação de ruído em sinal.Vamos assim do imaginário para o real e mais tarde para o simbólico, que é realmente o que caracteriza o Homo sapiens sapiens. Na fala o bebê ascende ao simbólico, e aí completou a estrutura psíquica de humano. Mas acho que é possível estender Lacan para a nova linguagem da internet, dos bits, da globalização do simbólico numa metalinguagem que ele não conheceu porque morreu antes. E vejo esse campo do simbólico crescendo e se unificando pela articulação com a tecnologia da informação. Esse negócio de “penso, logo existo” é o maior erro de Descartes (segundo o grande Antonio Damásio). Eu existo, logo penso, aí vamos bem. Mas o que quero destacar é que ante a metalinguagem da rede, da globalização, o grande problema é que não temos ainda a cultura preparada para o que vivemos hoje. Permanecemos na cultura de 500 anos atrás. ■ Por que, em seu olhar, o computador e a rede de computadores ampliam essa noção do simbólico lacaniano? — Veja, o que quero destacar é que a tecnologia sempre vem na frente da cultura. É difícil harmonizar a cultura com o que a tecnologia anuncia,e que agora é: estamos voando para as esferas extraplanetárias. O homem, então, tem que mudar porque ele não vai ficar só aqui na Terra. Ele vai ter que ir para o Espaço, não tem dúvida. ■ Mas não lhe parece que o nosso destino está vinculado exclusivamente à Terra? — De jeito nenhum. A vida deve ter vindo, nos princípios, de fora da Terra. Essa é a visão do Carl Sagan, por exemplo.


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■ Vamos voltar à época de sua vinda para São

Carlos. Naquele momento ocorreu sua descoberta de um novo fenômeno: a variação da condutividade térmica de um dielétrico líquido sob a ação de um campo elétrico. Falemos sobre isso. — Foi uma coisa interessante, porque Costa Ribeiro e Gross pensavam no efeito inverso do efeito Costa Ribeiro: se eu puser um campo elétrico posso gerar uma mudança de fase? Uma fusão, por exemplo? Tentaram e constataram algum efeito. Se aplicava um campo elétrico numa fase sólida ou líquida e ela fundia mais rapidamente com o campo elétrico. Mas não acreditei naquilo e disse:“Espera aí, precisamos primeiro ver se o campo elétrico não afeta a condutividade térmica do líquido, porque aí ele joga mais calor no sólido, e funde não por causa do campo elétrico, mas por causa da condutividade térmica induzida”. Aí fui trabalhar no líquido e vi que a minha idéia era correta: quando apliquei campo elétrico ao líquido, mudou a condutividade térmica do líquido, ele virou uma passagem mais fácil para calor. ■ Na verdade, o campo elétrico dá uma fa-

cilitada no aumento da condutividade térmica do líquido. — Isso! Mas a condutividade térmica é um fenômeno complexo, há vários tipos. Há uma mais sutil, que é a da vibração dos átomos e moléculas. Assim como a luz tem fótons, um sólido ou líquido pode ter fônons, que são vibrações coletivas dos átomos, e eu acreditei que, lá no fundo, o campo elétrico poderia afetar esses fônons. E aí encontrei esse negócio e aconteceu uma coisa linda na minha vida, que me deu uma autoconfiança tremenda. Primeiro, eu estava na velha metodologia do Sócrates, “duvida que dá certo”, estava com Einstein, “o importante na vida é não parar de questionar” e então... ali me via ampliando o que meus professores propunham. ■ Que tipo de efeito prático isso teve? — Duas contribuições e bem práticas, porque num transformador ali no poste sempre tem líquido dielétrico lá dentro, e tem também um campo elétrico. Muito importante num transformador é se livrar do calor gerado ali para ele não aquecer demais, e com o campo elétrico ajuda-se a sair o calor. Isso foi publicado em russo:“Efeito descoberto por Mascarenhas”. Aí quando eu vi o artigo no livro russo, e nem entendi, me deu aquela emoção... E esse efeito me deu uma outra coisa maravilhosa... Teve um Prêmio Nobel chamado Lars Onsager, de Yale, um cara maravilhoso, de uma criatividade

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tremenda, considerado um monstro sagrado, que gostou muito da interpretação que eu dei ao trabalho. Ele tinha uma visão realmente ampla, interdisciplinar, e fez umas equações, um modelo que diz o seguinte: tudo o que acontece na vida comum são estados de equilíbrio. E esses estados não levam a muita coisa porque não se tem excitações, flutuações fora do equilíbrio. Ele começou a ver que importante na física era também o que saía do equilíbrio. Isso vale para muito mais conceitos e situações, claro, mas Onsager conseguiu relacionar quantitativamente, pela primeira vez, efeitos físicos fora do equilíbrio. Daí, eu apliquei as equações dele para entender quantitativamente aquele efeito que eu descrevera, e publiquei numa revista famosa naquele tempo, Il Nuovo Cimento. As contas que fiz com a equação do Onsager bateram com a parte experimental. E quando Onsager viu o meu trabalho dando base real às equações dele, gostou muito. Quando apresentei o trabalho na Europa, ele foi de uma imensa gentileza. E eu, de repente, me vi sentado à mesa num hotel, na Suíça, explicando as equações de Onsager para Onsager! Nossa Senhora! Só mesmo brasileiro e carioca! Ele calmo, quietinho, não ficou melindrado. Acabei ficando grande amigo dele. ■ Vocês chegaram a trabalhar juntos? — Sim, tenho a honra de ter publicado um trabalho com Onsager, um dos únicos trabalhos dele nessa área de transições de fase com aparecimento de campos elétricos. Me orgulho muito disso, porque ele era muito bom e muito generoso. Há cientistas assim e há outros muito arrogantes. Eu sou meio tragicômico, mas não sou arrogante. ■ Por que tragicômico, professor?

— Porque me divirto comigo mesmo, entende? Porque não acredito em gente que se olha de manhã no espelho e não sabe que é meio burro e que comete erros. Gosto dos ingleses, desse traço de gozarem de si mesmos... É um perigo se levar muito a sério. Tenho memórias muito emocionantes do Onsager. Lembro-me, por exemplo, depois que ele se aposentou de Yale e foi para a Universidade de Miami, de uma vez em que foi me buscar no aeroporto e me levou para a casa dele. E no jardim pegou uma laranja e descascou para mim. Fico emocionado até hoje com essa cena.

H avia aquium a falta de visão da grande inovação que estava ocorrendo num a área da física que não era tão respeitávele tradicionalcom o a física de partículas,dos grandes aceleradores etc. M as eu via um cam inho m aior para o Brasilna física do estado sólido

■ Qual era a diferença de idade entre vocês? — Pelo menos 20 anos, ele já era Prêmio Nobel quando o conheci. ■ Num resumo de seus trabalhos temos a inPESQUISA FAPESP 137

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formação de que sua teoria da eletrotermocondutividade foi desenvolvida usando a termodinâmica dos processos irreversíveis. — Cuja base é exatamente a grande contribuição estruturada teoricamente pelas equações de Onsager.

A área de efeitos de radiação em sólidos,em cristais,estava nascendo. Tínham os um m onte de idéias com isso,por exem plo,tentar fazer m em órias ópticas.A ífom os trabalhar com o grupo de Sm oluchovskiem Pittsburgh

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■ Um terceiro efeito estudado em sua produção foi o do aparecimento de enormes tensões elétricas de 50 quilovolts ou mais durante a formação de gelo seco — Na verdade, 100 quilovolts... eu estava na rota da intuição da transição de fase, em 1962, por aí. Esse foi um efeito descoberto por nós em São Carlos e que se transformou numa bela demonstração experimental no ensino da física: o gerador eletrostático de CO2. Ganhou destaque internacional no American Journal of Physics. ■ E suas pesquisas na área então nova de efeitos de radiações sobre materiais? — Nessa época, me compenetrei de que deveria fazer um pouco de trabalho nessa área que estava nascendo, a dos efeitos de radiação em sólidos, em cristais. Você irradia um cristal com raios X ou nêutrons, e ele fica colorido. São os chamados centros de cor. Agora vejo que isso já era nanotecnologia. O raio X dá uma pancada no átomo, deslocao, e o lugar onde ele estava fica vazio, mas ele não está mais compensando as cargas elétricas de onde saiu. Então há a captura de elétrons ou buracos-de-elêtrons (holes em inglês) que funcionam como se fosse um átomo virtual com níveis de excitação que podem absorver a luz. E, portanto, fica colorido. Tínhamos um monte de idéias com isso, por exemplo, tentar fazer memórias ópticas. Aí fomos eu e Yvonne para Pittsburgh, trabalhar com o grupo de Roman Smoluchovski. Lá tinha uma nuvem de gente espetacular, muitos deles ganharam Prêmio Nobel mais tarde. Então fiquei num ambiente onde esse pessoal todo estava de olho no futuro, cheirando o futuro. Aliás, o pai de Smoluchovski tinha inventado, um pouco antes de Einstein, um efeito importantíssimo na física, o Movimento Browniano. A teoria mesmo foi de Einstein, mas ele tinha uma grande admiração por Smoluchovski que descreveu o efeito antes dele. Quando Smoluchovski filho foi para os Estados Unidos, Einstein o recebeu lá em Princeton com uma pergunta: “What do you want to do?” Eu me lembro do Roman Smoluchovski imitando Einstein a torcer o cabelo e fumar. Ele respondeu que queria fazer física atômica. E Einstein: “Ah, então não é comigo, é com Wigner”. Esse é um outro monstro sagrado, outros dos húngaros que ganharam Prêmio Nobel. Não trabalhei diretamente com

Wigner, mas quando Smoluchovski foi para Princeton e me chamou, encontrei quem? Wigner, que era o chefe do grupo. Conversava, discutia minhas idéias com ele... esses caras grandes são tão construtivos, não? Só os pequenos precisam empurrar os outros para baixo para pensar que subiram. É o movimento relativo dos medíocres. ■ Mas falávamos dos centros de cor. — Sim. Cientificamente terminei dando uma dentro... Quando voltei para o Brasil vi que era possível competir com os gringos com a tecnologia que eu tinha aqui. Era fácil, era um tubo de raio X. A Yvonne pegava o tubo com que ela fazia refração de moléculas e cristais e irradiava os meus cristaizinhos. O Brasil é o país dos materiais, é cheio de cristais, aí eu os irradiava, fazia as amostras aqui mesmo. E na minha cabeça estava aquela idéia das memórias ópticas com centros de cor. Uma idéia ótima que não pude realizar, e é bom falar do que não deu certo também, para ficarmos um pouco menos arrogantes e as novas gerações entenderem como as coisas são.Voltei com um entusiasmo tremendo e com dinheiro. Porque tive sucesso lá da Fundação Fullbright quando propus que, em vez de umas bolsinhas isoladas, me dessem auxílio para um projeto inteiro, na verdade, um programa de três anos. Eu podia trazer estudantes americanos junto com os orientadores, mandar brasileiros para lá, tudo lindo! ■ Mas o que não deu certo, então? — Cismei de criar a pós-graduação em São Carlos com esse programa da Fullbright, e isso deu certo. O programa foi estendido por mais dois anos. Trouxe um monte de gente do Rio, o CNPq começou a me ajudar, depois, em 1962 foi criada a FAPESP... e a física do estado sólido crescendo aqui em São Carlos. O negócio subiu feito foguete, e de repente São Carlos ficou sendo o centro em que todos os jovens do Rio, de Belo Horizonte, Curitiba, Recife, Goiânia etc., queriam fazer a nova física do estado sólido. E mais peruanos, argentinos... Em 1967 descobri que podia fazer tudo aqui: irradiar cristais, criar os cristais, fazer crescimento como se fazia com silício nos Bell Labs. Comecei a ir e voltar dos Estados Unidos, criei uma relação internacional, fui para a Alemanha, para um monte de lugares, ficamos bastante conhecidos, começamos, eu e os alunos, a publicar nas melhores revistas da área... Enfim, São Carlos saía daquele caipirismo inicial e ia ganhando uma cultura científica de padrão internacional, a ponto de terem vindo americanos do Naval Research Laboratory fazer o doutorado comigo aqui.


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Alguns se tornaram importantes na ciência americana, como Herbert Rabin, chefe de pesquisas espaciais da marinha americana.Vi que poderíamos fazer memórias ópticas. O que é a coisa fundamental para uma memória? É poder escrever, ler e apagar. Já podia fazer essas três coisas com um cristalzinho, em nível atômico, uma memória muito maior do que a do silício. Vi que podíamos competir e os americanos resolveram financiar. Juntei meu grupo todo, entre 10 e 15 pessoas, Roberto Lobo, Milton Ferreira,Yvonne etc. e propus que nos concentrássemos nisso. E foi aí que aconteceu um desastre: como eu já era membro do CNPq a essa altura, resolvi consultar o Conselho a respeito dos recursos que os americanos estavam oferecendo para fazer a memória óptica. Estávamos em regime militar, eu estava sendo acusado de comunista, peguei até uma úlcera, tive depois tuberculose, alguns professores de minha equipe estavam sendo perseguidos, havia um grande medo de aqueles loucos de repente acabarem com tudo, aí apresentei o projeto. O presidente do CNPq era o general Mascarenhas, figura até legal, muito ligado ao Geisel. O projeto passou no CNPq e foi para o Conselho de Segurança Nacional. E aí não passou. Foi-me dito que o CNPq, de qualquer jeito, deveria financiar, mas nunca financiou. ■ E a memória óptica baseada nessa impres-

são da cor aqui nunca foi desenvolvida? — Foi desenvolvida fora e hoje é o máximo. Anos depois de meu pedido, a RCA, em Princeton, fez a primeira. Eu tenho tudo isso documentado. Informamos à marinha americana que não podíamos aceitar. ■ Foi uma perda para o Brasil?

— Mas nem há dúvida. ■ Perdemos esse bonde naquele momento. — E outros. Eu mesmo perdi outros bondes. Mas não perdi um de que me orgulho muito: ter criado o Programa Nacional de Centros Emergentes no CNPq. Foi aí que levei Sérgio Rezende para Recife, que hoje é um dos melhores centros de física. Também não me arrependo de ter criado a Embrapa de instrumentação de alta tecnologia, aí surgiu esse negócio todo em agropecuária que explodiu em menos de 25 anos. Não se faz nada em um ano ou dois, não há milagre. Há que ter continuidade, força para agüentar os desastres, as descontinuidades brasileiras. Jorge Sábato, um maravilhoso engenheiro de materiais argentino, irmão de Ernesto Sábato [autor de O escritor e seus fantasmas, entre muitos outros livros], criou um conceito, o Triângulo de Sábato: você só

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consegue deslanchar um mecanismo virtuoso para o desenvolvimento de um país se tiver empresa, fonte de conhecimento e governo interagindo.Hoje eu introduzo o Tetraedro: governos, empresas, universidades e institutos de pesquisa e, muito importante: as ONGs, o Terceiro Setor, sem o que não há sustentabilidade ambiental, social e até de uma ética global, como podemos ver pelos efeitos antrópicos devastadores. Mas volto ao programa dos Centros Emergentes. Além de Sérgio Rezende em Recife, levei um pessoal para Curitiba, que deu certíssimo, para Goiânia, Mato Grosso, Rio de Janeiro... Vi que o negócio era “florestar” o Brasil com gente boa. Foi aí que apareceu em São Carlos Ernesto Pereira Lopes, empresário e político, uma pessoa espetacular. Junto com um outro deputado, Lauro Monteiro da Cruz, propunham criar uma universidade federal em São Paulo. Aí fui a ele e disse que deveríamos criar uma universidade nova, com visão de futuro. Minha idéia era fazer uma universidade federal em São Carlos e criar uma nova engenharia na América Latina, a de materiais. Aí Reis Veloso, Pereira Lopes, Lauro Cruz me bancaram, toda a cidade me bancou, porque, sabe?, consegui me juntar à comunidade. ■ E criaram em 1969 a UFSCar. — Sim, fui o primeiro reitor, pró-tempore, da universidade. Se não fosse Pereira Lopes nunca eu teria conseguido isso. Nem sem Veloso. Ele me dizia que eu queria botálo na cadeia, porque queria que me arrumasse dinheiro por fora das regras do MEC. Ele dizia “eu não posso”, eu dizia, “Ô, Veloso, ou você quebra a casca do ovo ou vai continuar com essas porcarias dessas universidades iguais.” Então eu trouxe a engenharia dos materiais, trouxe o [José Galizia] Tundisi, quando ninguém falava ainda em meio-ambiente, em ecologia. Eu entendia que para fazer uma universidade nova fundamental era fazê-la pequena e de alta qualidade. Vários estudos nos Estados Unidos mostraram que universidades com mais de 5 mil alunos começam a degringolar. ■ Foi possível conciliar a reitoria da UFSCar com o trabalho na USP? — Nunca saí da USP. Trabalhava sem ganhar nada na UFSCar, porque eu tinha que ter moral para dizer que não estava atrás da posição, mas atrás de uma idéia. De uma visão de futuro. De tecnologia educacional, afinal, eu fui aluno do Anísio Teixeira. Por isso eu trouxe o criador do Basic, da famosa linguagem Basic, dos Estados Unidos para falar aqui, trouxe gente da Califórnia, da Inglaterra, da França.

■ Eu tenho uma dúvida: como foi o seu tra-

balho com laser em São Carlos? — Trabalhei em laser com Sérgio Porto na Bell, tenho trabalhos publicados nisso, mas quem fez esse primeiro laser foi Robert Lee Zimmerman, um americano que eu trouxe do MIT, tremendamente criativo e completamente exótico. Ele tinha um aviãozinho, veio voando dos Estados Unidos para cá, ia ver os festivais do Quarup, dos índios brasileiros. São muitos casos... ■ Como foi seu caminho até a física?

— Sob o ponto de vista familiar, sociológico, eu tenho a oferecer minha própria experiência. O meu pai era cego, minha mãe era secretária, de formação professora primária e a minha família foi desestruturada, separada, quando eu tinha 10 anos. Fui para um colégio interno, fui reprovado no terceiro ano de ginásio, no primeiro científico, matava aula, estava jogando a minha vida fora. E superficialmente. Então encontrei uma família na escola em que eu estava. Eram três meninos e três meninas, com outra educação, liam poesia de Drummond, ouviam música clássica, iam aos domingos ouvir o concerto da juventude, um dos rapazes era atleta, enfim, era um pessoal sério que virou a minha família. E aquele cara medíocre, reprovado, aquele camarada virou um individuo que descobriu um... O que eu descobri? Acho que a beleza do grupo, da família, através realmente do amor, da união entre as pessoas. Eu mudei. Completamente. E agora na minha velhice, com quase 80 anos, comecei a perceber que todos os computadores e todas as máquinas não bastam para uma verdadeira educação. A imensa violência na escola, com professoras que saem chorando das salas de aula, é culpa de uma sociedade desestruturada, violenta, onde se encontra o marido alcoólatra desempregado, a mulher que tem quatro filhos de quatro pais diferentes na periferia. Como as crianças na escola não reproduziriam essa violência social de que estamos embebidos? Há algum jeito? Não posso esperar que melhorem a família, isso é coisa para daqui a 200 anos. Posso melhorar essa criança agora? Posso. Desde que tenha uma pedagogia, uma metodologia pedagógica que entusiasme, que permita, como aconteceu comigo, acender a chama. ■ São muitas as vertentes por onde corre sua vida. — Sim, mas componho mais ou menos assim o meu cenário: primeiro, ciência básica e aplicada, e aí me encaminhei para áreas interdisciplinares. Primeiro trabalhei em ciênPESQUISA FAPESP 137

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cia básica mesmo, fundamental, depois eu fui para a parte de aplicações, e aí fui, por exemplo, para a física médica, em que me envolvi com o pessoal da medicina de Ribeirão Preto, com a Escola de Medicina de Harvard, e com grupos na Itália. Toda a parte de, por exemplo, imagens tomográficas, ou de cirurgia criogênica está nesse âmbito, em São Carlos, depois em Ribeirão Preto e também com o Hospital do Câncer em São Paulo. Quando me aposentei, Adib Jatene perguntou se eu não queria orientar um grupo de bioengenharia aplicada no Instituto Dante Pazzanesi. Aceitei. Ia lá e orientava uns dez engenheiros e físicos, uma beleza. Consegui fazer varias coisas lá, mas um dia disse ao Adib que todo dinheiro que entrava no instituto ia para gaze, comida do doente, e havia que ter uma fundação para dirigir recursos para pesquisa. Então acabei criando a Fundação Adib Jatene lá. Fui o primeiro presidente da fundação, fiquei uns dois anos, depois vim criar a Embrapa em São Carlos. Já estava com uma visão de ciência aplicada mais numa área de empresas e pensei que para realmente ajudar o desenvolvimento brasileiro precisava trabalhar num negócio em que o país é rei absoluto: agronegócio tropical, onde a Embrapa abrira fronteiras (e porteiras...). Mas aí eu comecei a ver que precisava trabalhar com moléculas no mundo microscópico, e não apenas no mundo dos sistemas orgânicos, complexos, não em física médica, mas em biofísica molecular. Bom, aí eu fui para Trieste, convidado pelo Salam, outro Prêmio Nobel, e passei a ser diretor da biofísica e da física médica lá em Trieste, lugar belíssimo. Passei 12 anos indo lá, organizando cursos para o mundo subdesenvolvido inteiro, ajudando Salam a criar a Third World Academy of Science, da qual sou membro também. Foi uma época realmente estupenda da minha vida. Resultado: continuei trabalhando em física médica, biofísica molecular, a idéia de bioeletretos, me perguntando sobre a origem da memória, que moléculas estão envolvidas na memória etc. ■ Essa passagem para a física médica foi por

causa do convite de Adib Jatene? — Não, vinha de muito antes. Quando tive tuberculose, fui para a Medicina de Ribeirão me tratar. Daí me vieram idéias. ■ Algo aplicado a ossos?

— Eu consegui fazer consolidação de fraturas ósseas com campos elétricos, aí fui convidado para o Departamento de Ortopedia do Children’s Hospital de Harvard. Isso porque eles viram que eu conseguia consolidar algumas fraturas na metade do 16

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tempo usual, por exemplo, fraturas da chamada pseudo-artrose, em que a criança nasce com o pezinho todo mole, só cartilagem. Publiquei uns artigos e orientei três teses em Ribeirão... Quando comecei a pensar nas moléculas e no negócio da memória, a introduzir a idéia dos bioeletretos, me chamaram para grandes conferências internacionais dessa área. Eram cinco, com meia dúzia de Prêmios Nobel, inclusive o Onsager. Aí eu consegui introduzir essa idéia do bioeletreto como uma idéia fundamental na Biologia. E hoje eu estou trabalhando nisso também com um pessoal da Unicamp que está fazendo o modelo teórico dessas minhas idéias. Publicamos um trabalho, ano passado, sobre sistemas biomoleculares fora do equilibrio... Aí entram fenômenos quânticos interessantíssimos. Trabalhei então com o grupo do professor Roberto Luzzi, da física da unicamp, fizemos vários trabalhos nessa área de biofísica molecular. Antes, havia criado em São Carlos um grupo de biofísica molecular, pós-graduação, convidei para trabalhar comigo uma porção de jovens, porque se Newton estava apoiado em ombros de gigantes, eu estou apoiado no pé da juventude. E fico oscilando entre a biologia molecular e física médica, física na agricultura, pecuária, dosimetria de radiações, instrumentação, tecnologia educacional, difusão científica, datação arqueológica, ciência e arte, política científica, uma verdadeira bagunça interdisciplinar... Agora eu fiquei doente, pela terceira ou quarta vez, tive uma doença que parecia Parkinson, mas um grande neurorradiologista e pesquisador da USP de Ribeirão Preto, Antonio Carlos Santos, me disse que na verdade era hidrocefalia de pressão normal, uma doença mais rara e difícil de diagnosticar. ■ E isso trouxe um novo campo de pesquisa?

— Li uns 200 trabalhos sobre esse negócio e resolvi operar em Ribeirão Preto. Operei. Parece que ligaram uma chave para o outro lado. Parou o negócio de andar torto, tontura só um pouquinho, mas saí da depressão que tive, porque mudaram a circuitaria neuronal. Fiz uma cirurgia em que puseram uma válvula e uma cânula de 6 centímetros em minha cabeça para jogar o excesso de líquido na cavidade peritonial. Mas esse sistema é precário. Pode entupir de repente. E aí tenho que correr para a cirurgia, porque se não vou ficar mais demente ou entrar em óbito. Como eu precisava me vingar dessa doença, tratei de conhecer a coisa melhor, fazer pesquisa. E estou há um ano e meio trabalhando nesse negócio. Tive cinco idéias diferentes para

medir a pressão intracraniana sem procedimento invasivo no cérebro. Três já estavam patenteadas, uma para a Nasa, outra para IBM e outra para uma Universidade da Lituânia com uma universidade americana lá. Bom, mas ainda sobraram duas, entende? E eu mandando ver. Aí comecei a pensar numa maneira brasileira, cheia de simplicidade, para fazer a medida. Daí me veio a idéia de que se há um aparelho para medir a deformação de uma viga chamado strain gage, (sensor de deformação) seria possível um aparelho para medir a pressão intracraniana por via da deformação que o excesso de líquido produz no crânio. Aí fui na engenharia, aqui de São Carlos, que é de altíssimo nível, preparei um teste com osso de boi, um medidor, para testar se ele iria ver ou não quando eu deformasse o osso com um peso e se eu poderia ler no instrumento a deformação que fosse equivalente à pressão interna craniana, produzida por líquidos, ou seja, sangue e líquido céfalo-raquidiano. ■ De quanto deve ser essa pressão?

— De 10 a 15 milímetros de mercúrio é normal. Se passa de 15, meu caso, já é patológico. De 20 para cima é perigoso, e pode até fazer a pessoa entrar em coma perto dos 30. O fato é que monitorar isso é importantíssimo. Peguei três crânios na Universidade Federal para estudar. Só que crânio é um problema terrível para estudar, ele é cheio de buracos. Daí tive a idéia de pegar um balãozinho de borracha dos meus netos, botei dentro do crânio, soprei. Isso vai pressionar o osso, o osso vai deformar, e eu vou medir com o quê? Com o tal chip. Peguei o meu aparelho de pressão arterial, desmontei o bicho, então já tinha a bombinha e o aparelhinho de medida. Só que agora ele está sendo usado para medir a pressão no crânio. Enchi, botei o sensor no mesmo lugar onde fizeram um buraco na minha cabeça. A pressão provocada pela bexiga simulou a pressão intracraniana, aí eu verifiquei que poderia medir isso de uma maneira supersimples. Desmontei o aparelho de pressão arterial, usei o aparelho que estava lá na Engenharia Civil. O gozado é que nesse mesmo dia estavam medindo uma viga do metrô de São Paulo com a mesmo aparelho. Estavam fazendo um laudo técnico. Eu morri de rir! Buraco no metrô em São Paulo e buraco na minha cabeça! A ciência é mesmo universal e a natureza “não sabe” que existe física, biologia, engenharia, somente os pobres cientistas unidisciplinares, os currículos e capítulos de livros didáticos... ■


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30/6/07

Segundo a revista Nature, a Universidade do Arizona em Tucson ainda tenta negociar com os novos donos a cessão da redoma para fazer experimentos climáticos. Nem tudo está perdido.

> O prim eiro coreano no espaço

> O país am eaçado pelo deserto

B iosfera 2 : depois de virar atração turística,o laboratório será cercado por residências

e estabelecer mecanismos de financiamento próprios”, disse ao site SciDev.Net Barage Moussa, professor de biotecnologia agrícola da Universidade Abdou Moumouni, em Níger.

> O triste destino do ecoexperim ento O Biosfera 2, gigantesco laboratório ambiental criado nos anos 1990, vai virar bairro de classe média. Um grupo imobiliário comprou por US$ 50 milhões a área no deserto do Arizona que abrigou o ecoexperimento

e planeja construir 1,5 mil residências nas redondezas de suas instalações. O projeto teve vida curta. Surgiu no início dos anos 1990 com a proposta de ser uma miniatura do planeta Terra (o Biosfera 1), onde grupos de seres humanos poderiam viver de forma autosuficiente, confinados numa redoma de 12 mil metros quadrados que reproduzia cinco ecossistemas naturais. A experiência foi desmoralizada em 1996, quando se tornou necessário injetar oxigênio para salvar os confinados. Depois disso, virou atração turística.

LAUR ABEATR IZ

Um grupo de países muçulmanos criou um fundo de US$ 370 milhões para ajudar Níger a combater o processo de desertificação que, em 25 anos, ameaça tomar todo o território do país, situado nas franjas do Saara. O fundo foi anunciado numa conferência internacional em Doha, no Catar, organizada pela Organização da Conferência Islâmica (OIC, na sigla em inglês) e o governo de Níger. Os principais países doadores são Catar, Brunei, Líbia e Malásia. O fundo vai patrocinar projetos em saneamento, meio ambiente e recursos hídricos. “Em vez de esperar pelas promessas de países ricos, aqueles em desenvolvimento precisam se articular

A Coréia do Sul define até setembro o nome de seu primeiro astronauta a entrar em órbita. Estão no páreo Ko San, pesquisador do Instituto Avançado de Tecnologia Samsung, e Yi So-yeon, do Instituto Avançado de Ciência da Coréia, que superaram outros 36 mil candidatos e já estão em treinamento no Centro de Treinamento de Cosmonautas Gagarin, na Rússia. O escolhido deverá viajar até a Estação Espacial Internacional em abril de 2008 a bordo de uma nave russa Soyuz. O governo da Rússia interveio diplomaticamente para viabilizar a viagem do astronauta coreano, mas ela acabou adiada para o ano que vem devido a um problema contratual. Ocorre que a Coréia do Sul não participa do consórcio de 16 países que está construindo a estação. Por isso, seu pleito não pôde ser tratado como prioritário.

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M UNDO

Na ante-sala de Marte PAT R AW LINGS/NASA

PESQUISA FAPESP O N L IN E Acesse w w w .revistapesquisa.fapesp.br e veja o que você só encontra em nosso site

O m elhor das R evistas R epresentação de astronauta no planeta verm elho:preparação

Depois dos norte-americanos, os europeus também ensaiam os primeiros passos para enviar missões tripuladas a Marte. A Agência Espacial Européia (ESA) procura voluntários para participar de uma missão simulada com 520 dias de duração. O período é considerado suficiente para a viagem de ida e volta, mais o tempo de exploração na superfície marciana. Os candidatos devem ter entre 25 e 50 anos e residir em países que integram a ESA. Os exercícios serão conduzidos em Moscou, começando por um período preliminar de 105 dias, seguidos pelos 520 dias da simulação e outros 105 dias de estudos posteriores. A ESA procura por 12 voluntários, quatro para cada fase. Os selecionados passarão por ambientes de microgravidade e se alimentarão como os integrantes da Estação Espacial Internacional. 18

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Os critérios de seleção serão semelhantes aos da escolha de astronautas, mas haverá ênfase maior em fatores psicológicos e na resistência ao estresse, devido à duração do experimento.

> Escola cubana é reconhecida Após oito anos de negociações, autoridades da Argentina e de Cuba assinaram um acordo de reconhecimento mútuo de qualificações de nível superior. Segundo a agência de notícias Prensa Latina, o acordo permitirá que possam trabalhar em seu país os cem argentinos que se graduaram e outros mil que estão estudando na Escola Latino-Americana de Medicina (Elam), criada em 1999 pelo líder Fidel Castro para difundir a pesquisa médica cubana em todo o continente.

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Semanalmente a seção de notas destaca os principais trabalhos publicados nas duas mais influentes revistas científicas, N ature e Science.

C oluna D ireto de H arvard

P rofessor na famosa universidade norteamericana, o médico brasileiro Antonio Bianco escreve sobre a ciência nos EUA e o seu campo de estudos, a glândula tireóide.

Pesquisa B rasil Toda segunda-feira a mais recente edição do programa semanal de rádio de Pesquisa FA P ESP pode ser ouvido online ou baixado no computador.


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Angra 3 será concluída

> O centenário

Canteiro de obras da futura usina de Angra 3:U S $ 7 bilhões até 2 0 13 O Conselho Nacionalde P olítica Energética (CNP E) aprovou,por oito votos a um ,a retom ada das obras da usina nuclear de Angra 3,cuja construção estava paralisada há m ais de 2 0 anos.O único voto contrário foio do secretário-executivo do Ministério do Meio Am biente,J oão P aulo Capobianco.A nova usina de-

verá ficar pronta em 2 0 13 . Em funcionam ento,adicionará ao sistem a elétrico nacional1.35 0 m egaw atts (MW ).O projeto foi contratado em 19 8 4 e já consum iu U S $ 75 0 m ilhões em equipam entos cuja m anutenção custa algo em torno de U S $ 20 m ilhões por ano.A sua conclusão exigirá investim entos da ordem de

> D ivulgador

NJR DC

O jornalista e pesquisador José Reis (1907-2002) teria completado 100 anos no dia 12 de junho. Especialista em microbiologia e pioneiro da divulgação científica no país, Reis foi um dos idealizadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da FAPESP. “A ciência é bonita e profundamente estética; portanto devemos exibi-la à sociedade”, dizia Reis, cujo trabalho de divulgador teve início no Instituto Biológico de São Paulo, em 1929. Em 1947 Reis passou a colaborar com o grupo de jornais hoje liderado pela Folha de S. Paulo, para a qual escreveria até o fim da vida. Em sua homenagem, a Escola de Comunicações e Artes da USP fundou em 1992 o Núcleo José Reis de Divulgação Científica. A FAPESP, em 1999, criou o Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Prêmio José Reis de Divulgação Científica (leia nota à dir.).

ELETR ONUCLEAR

de José R eis

da ciência

R eis:pesquisador e pioneiro da divulgação científica

Jeter Jorge Bertoletti, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), foi o vencedor da 27ª edição do Prêmio José Reis de Divulgação Científica, concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O prêmio deste ano foi atribuído à categoria Divulgação Científica,

U S$ 7 bilhões.Aprovada a retom ada do projeto,será necessário projetar o valor da tarifa da energia proveniente da central nuclear – que no ano passado estava estim ado em R $ 13 8 ,14 por m egaw att-hora (MW h) – e avançar no processo de licenciam ento am bientalque já está em andam ento no Ibam a.

voltado a pesquisadores ou escritores. Bertoletti fundou em 1967 e dirige até hoje o Museu de Ciências e Tecnologia da PUC/RS, que segue uma linha diferenciada de ensino, baseada na interatividade. Desde 1998, quando ganhou novo espaço para exposições, já recebeu mais de 1 milhão de visitantes. “Povo educado científica e tecnologicamente é povo esclarecido, capaz de enfrentar barreiras e competir com nações mais evoluídas”, diz Bertoletti.

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ao passar a direção para o físico Ennio Candotti, Glaci disse que a atuação política da sua gestão foi pautada “pelo espírito construtivo de contribuir com críticas e sugestões para o aprimoramento do sistema de ciência e tecnologia”, como a defesa dos orçamentos para a área, formulação de leis e a preocupação com as reformas do sistema educacional. Glaci publicou trabalhos com ênfase em bioquímica dos microorganismos e enzimologia. Na despedida da amiga, o professor e lingüista Carlos Vogt, presidente da FAPESP, escreveu um poema em sua homenagem, do qual citamos um pequeno trecho que resume sua importância como cientista: “Pesquisadora insistente atrás da verdade por trás do banal”.

> Para aperfeiçoar o SU S

A nova fase da Faperj O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, assinou um decreto que determina um repasse de 2% da receita tributária líquida do estado para a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). De acordo com Ruy Marques, diretor presidente da Faperj, a iniciativa representa uma “revolução para a ciência e a tecnologia do Rio de Janeiro”. A média do orçamento da instituição nos últimos seis anos foi de cerca de R$ 91 milhões. Com a medida, a previsão para 2007 passa a ser de R$ 198 milhões. “A ação não tem 20

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precedentes na história do Rio de Janeiro. A medida só tem paralelo na atitude do governador paulista Carvalho Pinto, que na década de 1960 determinou a destinação à FAPESP de um porcentual da receita paulista – uma iniciativa decisiva para a ciência brasileira”, disse Ruy Marques à Agência FAPESP. Uma emenda constitucional estadual promulgada em 2003 previa o repasse de verbas com base em uma porcentagem então não definida. Com o decreto anunciado no mês passado, o governo fluminense garante efetivamente a liberação de 2%.

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> Morre ex-presidente da SB P C Glaci Zancan, doutora em bioquímica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, faleceu no dia 29 de junho, aos 72 anos, em decorrência de esclerose lateral amiotrófica. Gaúcha de São Borja, iniciou sua carreira na Universidade Federal do Paraná em 1962, onde permaneceu por 41 anos até sua aposentadoria, em 2003. Foi eleita por duas vezes presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), cargo que exerceu de 1999 a 2003. No seu discurso de despedida,

Estão abertas até o dia 10 de agosto as inscrições para o Prêmio de Incentivo em Ciência e Tecnologia para o SUS 2007. Serão distribuídos R$ 40 mil em prêmios nas seguintes categorias: tese de doutorado, dissertação de mestrado, trabalho científico publicado e monografia de especialização ou residência. Estão aptos a participar do prêmio pesquisadores e profissionais da saúde e áreas afins, com trabalhos publicados ou aprovados em banca no período de 1º de junho de 2006 a 17 de junho de 2007. O objetivo é promover a produção científica e acadêmica que possa aprimorar os serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).


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> U m relatório a m enos A FAPESP reduziu de três para dois o número de relatórios científicos exigidos durante a vigência das bolsas de mestrado. Os bolsistas deverão apresentar a penas um relatório de acompanhamento, no 12º mês de vigência da bolsa, e o relatório final no 24º mês. A norma é válida para as bolsas concedidas a partir de junho de 2007 e para os mestrados em andamento e que ainda deveriam entregar o relatório científico no 18º mês de vigência, que será automaticamente cancelado.

> A produção do continente A FAPESP assinou um acordo de cooperação técnica com a Fundação Memorial da América Latina para o início da criação da Biblioteca Virtual da América Latina (BV@L). A parceria busca promover a indexação, a preservação e a disseminação de informações sobre a produção técnica, científica, cultural e artística dos países da região, geradas pelo Memorial da América Latina e por outras instituições do exterior que tenham coleções sobre o continente para

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> Currículos

fins de pesquisa, ensino e extensão. A primeira iniciativa do convênio deverá ser o desenvolvimento da plataforma tecnológica necessária para a implementação da BV@L no Memorial. “O protocolo de intenções nos dá o direito de utilizar toda a experiência técnica acumulada pela FAPESP na formação de sua Biblioteca Virtual”, disse Fernando Leça, diretorpresidente da Fundação Memorial da América Latina.

confiáveis

> Cooperação acadêm ica Brasil e Índia assinaram um convênio de cooperação acadêmica na viagem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez a Nova Délhi. Estão previstos intercâmbios nas áreas de biotecnologia, ciências da computação e engenharias. Também serão implementadas quatro cátedras em temas relacionados a ciências sociais, duas em cada país: doutores brasileiros darão aulas na Índia e doutores indianos virão ao Brasil. Seminários sobre assuntos econômicos e energéticos serão realizados em ambos países. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) será responsável pela

organização dos encontros. Segundo o presidente da Capes, Jorge Guimarães, o programa permitirá que estudantes brasileiros façam parte de seu doutorado na Índia, e vice-versa.

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) celebrou uma parceria para aumentar a credibilidade das informações publicadas na Plataforma Lattes. O acordo foi firmado com a International Digital Object Identifier Foundation para implantar o sistema Digital Object Identifier (DOI) nos currículos acadêmicos. O DOI é um identificador de objetos de propriedade intelectual, que já havia sido inserido na plataforma para fins de certificação. A partir de setembro, novos recursos deverão permitir o preenchimento automático das publicações científicas simplesmente a partir do DOI da publicação, que é um registro adotado pela maioria dos títulos. A digitação pelo pesquisador do DOI do artigo permitirá à plataforma acessar a base de dados da DOI Foundation e preencher automaticamente o título, ano, volume, fascículo, páginas da publicação e o nome do primeiro autor. A International DOI Foundation, que mantém o sistema, é sediada no Reino Unido e tem mais de 28 milhões de objetos digitais registrados.

ILUSTR AÇ Õ ES LAUR ABEATR IZ

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Fibra óptica: inform ações em alta velocidade para atender novas dem andas do m ercado


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P O L ÍT IC A C IE N T ÍF IC A E T E C N O L Ó G IC A

F IB R A Ó P T ICA

Inform ação num feixe de LA SER FAP ESP e Padtec buscam soluções inovadoras para telecomunicações C L AU D I A I Z I Q U E

PADTEC

A

fibra óptica é um filamento de vidro ou de materiais poliméricos flexíveis que transporta um sinal de luz. É considerada a única tecnologia capaz de fazer trafegar informações em alta velocidade, compatível com a demanda de sistemas de comunicações complexos, que envolvem voz, dados e internet. Essa tecnologia movimenta um mercado mundial de US$ 80 bilhões, dentro de um negócio total de telecomunicações de US$ 3 trilhões. No Brasil, apesar da competência acumulada ao longo de mais de 30 anos (ver página 24), ela é responsável por uma receita de US$ 200 milhões, dentro do faturamento total de equipamentos de telecomunicações de US$ 8 bilhões. “E ainda é decrescente”, diz Jorge Salomão, presidente da Padtec S.A., empresa sediada no Pólo de Tecnologia do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD).“A pesquisa em comunicação óptica não criou uma base industrial expressiva.” A Padtec, porém, cresce na contramão do mercado: é o maior fabricante de equipamentos para comunicação óptica do Brasil e o seu faturamento dobra a cada ano, desde 2004. A empresa – que é uma espécie de “braço industrial” do CPqD – aposta agora no desenvolvimento de tecnologias e soluções relacionadas a redes ópticas. No dia 12 de junho firmou convênio por um período de cinco anos com a FAPESP, no valor de R$ 40 milhões – divididos entre os dois parceiros. O acordo foi firmado no âmbito do programa Pesquisa em Parceria para a Inovação Tecnológica (Pite) e tem o objetivo de apoiar pesquisas em telecomunicações e comunicação óptica e formar recursos huma-

nos. Os projetos envolverão universidades de institutos de pesquisa paulistas e serão desenvolvidos de forma cooperativa com a equipe de especialistas da Padtec. A primeira chamada de propostas contará com recursos de R$ 8 milhões. “É o maior acordo de cooperação entre a FAPESP e uma empresa”, sublinhou Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação, durante cerimônia de assinatura do convênio, no dia 12 de junho, a que também esteve presente o vice-governador, Alberto Goldman. “O convênio é ambicioso e oferece prazos e investimentos que permitem busca de pesquisas muito sofisticadas na área”, sublinha Brito Cruz. A expectativa é que o acordo resulte na geração de novas tecnologias para o mercado de telecomunicações, atualmente disputado por empresas globais. “A parceria com a FAPESP aumenta a possibilidade de desenvolvermos novos produtos, afinal os pesquisadores brasileiros são capazes de vencer qualquer desafio em comunicação óptica”, afirma Hélio Graciosa, presidente do CPqD. O convênio com a FAPESP será uma espécie de catalisador entre a pesquisa científica e as necessidades de mercado, alinhando-se assim a um dos princípios que orientam a atuação da Fundação, o de apoiar pesquisas conectadas à sua aplicação.“Esse acordo revela o papel estratégico que a FAPESP tem tido no desenvolvimento da economia de São Paulo e do Brasil”, afirmou Goldman. Os projetos de pesquisa terão como foco o desenvolvimento de sistemas com tecnologia de multiplexagem por divisão de comprimento de onda densa, conhecida como DWDM, da sigla em in-

glês, que consiste na transmissão de múltiplos canais ópticos em uma única fibra, multiplicando a sua capacidade de transmissão de dados em terabits por segundo.“A internet moderna precisa cada vez mais de velocidade de transmissão para ser eficiente”, diz Salomão. Parceiros qualificados - Desde a sua criação, em 2001, a Padtec busca soluções inovadoras para o mercado de comunicação óptica, soluções para redes de alto desempenho, incluindo sistemas metropolitanos, acesso e storage. A empresa é parceira tanto de grandes operadoras de telecomunicações, concessionárias públicas e privadas e de empresas integradoras de sistemas quanto de institutos de pesquisa, como o de Física e de Engenharia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A FAPESP também já apóia vários projetos de pesquisa na área de comunicação óptica, como o KyaTera – no âmbito do Programa Tidia (Tecnologia da Informação no Desenvolvimento da Internet Avançada) –, que interliga por meio de fibras ópticas dezenas de laboratórios no estado, permitindo o desenvolvimento de pesquisas sobre aplicação de internet avançada, e o Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (CePOF), em Campinas, um dos 11 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid). “Hoje exige-se maior largura de banda e a única saída é a fibra óptica”, diz Brito Cruz. “Esperamos dos pesquisadores uma resposta ousada, de grande impacto. Se escolhermos bem os projetos, e se um ou dois resultarem em bons produtos para o mercado, a Padtec ganhará competitividade internacional”, prevê Brito. ■ PESQUISA FAPESP 137

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Da esquerda para a direita, peltier, fotodetector, laser e fibra 贸ptica. No detalhe, microlente, com apenas 50 m铆crons, se aproximando do laser


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U m a história de vidro e luz Desde o puxamento da primeira fibra óptica no país, em 1977, sua rede se expandiu até atingir 1 milhão de quilômetros M ARILUCE M OURA

CP Q D

A

ambição de competir com vigor no mercado global de equipamentos para comunicação óptica, em meio a gigantes como a Siemens, a Ericsson, a Lucent ou a Alcatel, manifestada por uma empresa brasileira instalada num galpão de apenas 1.500 metros quadrados – preparando-se agora, é verdade, para se expandir por mais 1.800 m2 – , pode soar em alguns ouvidos como delírio típico de perigosa megalomania. Mas esse propósito da Padtec S.A., empresa implantada desde 2001 em Campinas, no pólo de alta tecnologia do CPqD, e que assinou no mês passado um convênio com a FAPESP voltado à pesquisa de soluções inovadoras relacionadas a redes ópticas (ver página 23), longe de um sonho alucinado, encontra fundamentos bem razoáveis na performance da empresa e, principalmente, na competência acumulada pelo Brasil no campo das fibras ópticas, ao longo de três décadas, à qual ela está, de fato, vinculada. Entre altos e baixos do panorama das telecomunicações no país, o que usualmente se toma como marco inicial dessa história tecnológica dos sistemas de comunicação óptica é a inauguração do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Empresa Brasileira de Telecomunicações, o CPqD da Telebrás, em agosto de 1976, à frente o general José Antonio de Alencastro e Silva, presidente da empresa, e o então ministro das Comunicações do governo Geisel, Euclides Quandt de Oliveira. Mas há quem ache mais adequado fazer coincidir o ponto de partida dessa trajetória com um dia de abril de 1977 em que, à semelhança de um renovado e revolucionário sopramento de vidro, foi puxada a primeira fibra óptica no país, numa torre de 2 metros de al-

tura do Instituto de Física Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A rigor, fibra óptica, Unicamp e CPqD imbricam-se numa composição singular na história contemporânea da tecnologia no Brasil e remetem a uma personagem-chave dessa narrativa que guarda, certamente, alguns momentos épicos entre outros angustiantes: José Ripper Filho. “As coisas nunca acontecem da forma planejada como aparecem nos relatos posteriores. Nada é tão organizado quanto a história faz crer”, ressalva Ripper, antes de explicar como, ao retornar ao Brasil em 1971, depois de quatro anos de doutorado no Instituto de Tecnologia Massachusetts (MIT) e de cinco anos nos Laboratórios Bell, pôs-se a tentar convencer muita gente de que o país, se aproveitasse dois desenvolvimentos que no ano anterior haviam ocorrido em laboratórios norte-americanos, estaria diante de uma rara oportunidade de crescimento.“Os Bell Labs tinham conseguido o primeiro laser que podia operar continuamente em temperatura ambiente. E a Corning anunciara a primeira fibra óptica da história. Ora, era claro para mim naquele momento que seria inevitável o impacto dessas inovações nas telecomunicações. Mas eu também sabia que ia demorar uns 15 anos até que seu efeito se apresentasse no mercado. O Brasil tinha, portanto, todo esse tempo para se preparar e se tornar competitivo numa área crucial para o desenvolvimento”, relembra. O ex-professor da Unicamp, hoje presidente da AsGa, empresa que produz equipamentos para transmissões via fibra óptica, observa que,“preto no branco, desprezando os infinitos cinza do processo”,as inovações sempre se dão por uma evolução ou por uma revolução. No primeiro caso,

acrescenta,quem está no mercado leva uma vantagem enorme em termos de negócios. “Mas quando o processo é revolucionário quem está no mercado resiste a aceitar a inovação”, daí por que é tão freqüente que os responsáveis por determinado desenvolvimento dentro de uma empresa, após realizá-lo, saiam e criem uma nova empresa. A percepção sobre o significado de determinada inovação revolucionária, como a da fibra óptica, às vezes é mais fácil para quem observa as coisas a partir do laboratório, diz ainda Ripper, tentando minimizar a importância de sua visão a respeito do que estava começando a se dar no campo das telecomunicações em 1970. Apresentação de idéias - Depois de uma

escassa repercussão inicial à sua pregação, Ripper, que chegara à Unicamp junto com outros professores “liderados informalmente pelo físico Rogério César Cerqueira Leite”, recebeu de José Pelúcio Ferreira, presidente da recém-criada Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a sugestão de apresentar suas idéias à Telebrás, que também mal acabara de ser implantada.“Funcionou”, lembra ele, que, em 1973, já entregava à Telebrás um documento com 145 páginas, incluindo a bibliografia e alguns desenhos esquemáticos de sua proposta. Na folha de rosto, marcada no alto com a logomarca da Unicamp, o título era “Sistemas de comunicações por laser”. O subtítulo na folha seguinte explica que se tratava de um “projeto de pesquisas e desenvolvimento submetido à Telecomunicações Brasileiras S. A. pelo grupo de dispositivos semicondutores do instituto de Física Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas”. Seguem-se a isso os nomes do reitor, Zeferino Vaz, do diretor PESQUISA FAPESP 137

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P hotophone de G raham B ell e artigo do New Y ork T im es, de 18 8 0 : inovações revolucionárias são recebidas com ceticism o

do Instituto, Cerqueira Leite, e do executor do projeto, José E. Ripper Filho. O terceiro parágrafo da introdução desse documento, explicando os sistemas que vinham sendo sugeridos para substituir os de microondas para a buscada transmissão de alta capacidade – e cujo original amarelado encontra-se no CPqD –, resume bem por onde Ripper seguiria. Diz ele: “O segundo sistema em desenvolvimento utiliza como portadora onda de freqüência bem mais elevada (1014 a 1015 Hz) na região do espectro visível ou do infravermelho próximo. Este sistema está mais atrasado que o anterior; porém devido a desenvolvimentos recentes de pesquisa possui um custo potencial muito inferior ao das ondas milimétricas. Os dois principais desses desenvolvimentos foram a fabricação de fibras de vidro de baixíssima perda pela Corning Corp. e o desenvolvimento, do qual participou o autor deste projeto, de lasers de semicondutor capazes de operar continuamente até em temperaturas bem acima da temperatura ambiente.As fibras de vidro são um meio de transmissão barato de fácil instalação, uma vez que permitem curvas de raio menores que 1 metro, e por terem diâmetros muito pequenos (décimos de mm) outras fibras podem ser facilmente instaladas em paralelo multiplicando a capacidade do sistema. Os lasers são usados tanto nos transmissores como nos repetidores e são ele26

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mentos baratos, podendo ser modulados com grande faixa de passagem”. Muitos anos depois da apresentação dessa proposta, num encontro casual com Quandt de Oliveira, Ripper lhe perguntou se quando a aprovou, na condição de presidente da Telebrás, cargo que ocupou de 1972 a 1974, ele realmente acreditara no projeto. “Ele respondeu que achara uma completa ‘porra-louquice’, mas tinha consciência de que o país precisava de gente na área de telecomunicações, e achava que eu ia formar muitos especialistas”, relembra. D esenvolvim ento - Os anos que se seguiram à constituição do CPqD, observa seu atual presidente, Helio Graciosa, foram de desenvolvimento intenso para a comunicação óptica no país.“Em 1978 a Telebrás conseguiu formatar um programa cuja meta era colocar em operação no Brasil,no início de 1985, um sistema de comunicações ópticas com tecnologia brasileira. Para surpresa geral, isso terminou sendo antecipado para agosto de 1984.” Foi aí que na Companhia Telefônica do Brasil Central,em Uberlândia, Minas Gerais, entrou em operação a primeira parte desse sistema.Isso foi possibilitado também pelo trabalho da ABC X-Tal,empresa nacional que contratara pesquisadores do Grupo de Fibras Ópticas da Unicamp, assinara um contrato de US$ 6 milhões com a Telebrás para a produção de 2 mil quilômetros de fibra óptica e conse-

guira entregar em agosto o primeiro lote de 500 quilômetros. Há que se acrescentar o nome da Elebra, outra empresa brasileira que forneceu o equipamento de laser e a Brascel, fornecedora dos cabos. Graciosa e Antonio Carlos Bordeaux Rego, hoje diretor de inovação tecnológica do CPqD e que também se juntara ao grupo de Ripper na Unicamp naqueles anos pioneiros, lembram que antes disso, em julho de 1982, um teste de campo importante para as comunicações ópticas foi feito junto com a Cetel do Rio de Janeiro. “Era uma ligação de 7 quilômetros entre a Cidade de Deus e Jacarepaguá e testávamos 480 canais telefônicos numa fibra óptica. Havia uma central em Jacarepaguá, ali estavam equipamentos de transmissão, equipamentos de recepção, a mesma coisa lá na Cidade de Deus, e tínhamos um cabo experimental revestido por kevlar, enterrado à profundidade entre 1,5 metro e 2 metros. De 2 em 2 quilômetros tínhamos uma caixa pela qual puxávamos o cabo e a coisa funcionou.” Os grandes desafios no teste, segundo Graciosa e Bordeaux, eram, primeiro, instalar os cabos nos dutos subterrâneos e em segundo lugar garantir condições para operar o equipamento de laser na central mesmo que o ar-condicionado naquele ambiente de grande calor não funcionasse. “Montamos uma espécie de minigeladeira para colocar sobre ela o equipamento do laser e isso era fundamental,


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Henrique de Oliveira, seu presidente até 2004. A partir daí, coube a Jorge Salomão, uma das figuras centrais daquele grupo inicial, responsável durante anos no CPqD por toda a parte de inovação em comunicações ópticas, presidir a empresa, que conseguiu vencer as grandes dificuldades que o setor enfrentou entre 2002 e 2003, e desde então crescer de maneira significativa, inclusive com investimentos de um sócio importante, o Banco Pactual. “É muito difícil para uma empresa que não seja grande vender equipamentos para o núcleo das operadoras, e nós vendemos”, comenta Salomão. Isso indica uma expectativa do mercado de que a Padtec veio para ficar e crescer, segundo ele. Se em 2003 a empresa queimou suas reservas, em 2004 ela dobrou o faturamento em relação ao ano anterior e fez o mesmo nos anos seguintes. Hoje a empresa fatura por ano R$ 80 milhões e tem 150 empregados. Em 2005 ela criou um equipamento chama-

do de Transponder Optical Transport Network (OTN) capaz de aumentar o tráfego de dados nas fibras ópticas e substituir os multiplexadores de hierarquia digital síncrona, SDH na sigla em inglês. Cuida-se agora de outras frentes: por exemplo, uma tecnologia para envelopamento da informação que passa por dentro da fibra óptica e que permite, em qualquer ponto de seu trânsito,corrigir eventuais degradações dessa informação. Cuida-se de fazer com que cada feixe de luz, dentro de aproximadamente um ano, em vez de transportar 10 gigabits por segundo, possa transportar 40 gigabits. Cuida-se de fazer com que a comunicação por fibra óptica possa se tornar mais barata e chegar ao usuário final, para que não permaneça um privilégio de poucos.Assim, vai se estimular a chamada tecnologia DIY (do it yourself). Há hoje no país 1 milhão de quilômetros de fibras ópticas, mas sua história ainda está bem longe de ter atingido o ponto de maturidade. ■

R EP R ODUÇ Ã O

porque a temperatura ambiente na central de Jacarepaguá, quando o ar-condicionado pifou, foi a quase 70 graus Celsius.”Na verdade, todos os equipamentos usados no teste foram produzidos no Brasil e esse domínio raro da tecnologia que o Brasil demonstrava chamou atenção no mundo inteiro.“Isso foi destacado até pelo New York Times”, comenta Bordeaux. A história das comunicações ópticas no país vai se contando com lances assim até o final da década de 1980. Com a mudança clara do modelo de política industrial, da substituição de importações para a chamada inserção competitiva, transformações radicais iam começar no setor de telecomunicações. Com a privatização do setor, incluindo a Telebrás, o CPqD sofreu uma completa reestruturação, tornandose uma fundação de direito privado. E dessa fundação saiu em 2001 a Padtec, de início uma pequena empresa montada por um grupo de seis pessoas, entre elas José

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Infinidades de fios de cobre usados para com unicação são aos poucos substituídas por fibras ópticas PESQUISA FAPESP 137

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> INO V AÇ Ã O

P assaporte para o

m ercado externo Pipe faz dez anos e ganha reforço para a fase 3

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Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe) foi criado no dia 18 de junho de 1997, há dez anos, com um objetivo até então inédito: apoiar o desenvolvimento de pesquisa inovadora em ambiente empresarial. Desde então, o programa já financiou mais de 700 projetos que incluem desde os estudos sobre a viabilidade técnica de uma idéia criativa, conhecida como fase 1, até o desenvolvimento da pesquisa propriamente dita e do protótipo de seu resultado, a fase 2. O grande desafio sempre foi o financiamento da fase 3 – a de desenvolvimento de novos produtos para o mercado –, que a FAPESP, por razões estatutárias, não pode apoiar. Esse empecilho foi parcialmente contornado em 2004, quando a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), por meio de acordo com a FAPESP, destinou recursos do Programa de Apoio à Pesquisa em Empresas (Pappe), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), a 20 empresas que, na época, tinham concluído com sucesso as fases 1 e 2 do Pipe, com o objetivo de apoiar engenharia de produção e desenvolvimento do negócio, por um período de dois anos. A contrapartida da FAPESP, prevista no acordo com a Finep, equivaleu aos investimentos nas duas primeiras fases do Pipe, período em que os pesquisadores desenvolveram o projeto, realizaram a pesquisa e elaboraram o plano de negócios. A fase 3 do programa será agora retomada. Além dos recursos provenientes de um novo acordo com a Finep, as empresas do Pipe poderão contar com mais uma modalidade de apoio para o desenvolvimento de produtos inovadores. A FAPESP firmou convênio com a

Imprimatur Capital Limited, uma empresa internacional de capital de risco, com sede em Londres, especializada em propriedade intelectual e licenciamento de tecnologias, que também apóia o planejamento de negócios e a prospecção de mercados para pequenas empresas de base tecnológica. Essa parceria permitirá à Fundação ampliar as oportunidades às empresas que concluírem a fase 2 do Pipe, em especial no mercado externo, já que a Imprimatur tem escritório em Hong Kong, Cingapura, Kiev e Riga, e também atua na Hungria. C apitalde risco - Pelo acordo, a Imprimatur apoiará a FAPESP na avaliação, comercialização e financiamento de projetos para a fase 3 do Pipe. Os projetos serão analisados por um comitê formado por assessores da FAPESP e da empresa parceira. As propostas aprovadas contarão com recursos de bolsa auxílio a pesquisa, do lado da FAPESP, e investimentos de risco, do lado da Imprimatur. Excepcionalmente, poderão ser apoiadas apenas pela FAPESP – com recursos da Finep e na forma de auxílio a pesquisa –; ou contar exclusivamente com investimentos de risco da Imprimatur. Os projetos terão duração de 24 meses e um orçamento de até R$ 500 mil. Além de investimentos, a Imprimatur oferecerá às empresas serviços como planejamento de negócios; pesquisa de mercado; gerenciamento de atividades; e até capital semente. E pagará à FAPESP 30% de todos os ganhos na comercialização de patente ou produto, reconhecendo assim os investimentos da Fundação na formação do capital intelectual e no desenvolvimento do projeto nas duas primeiras fases do programa, que serão destinados ao financiamento de novos projetos. ■


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> D IS S EMINAÇ Ã O

A rm azém de idéias Parceria leva à internet transcrições do programa Roda V iva

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FAPESP e a TV Cultura celebraram um acordo de cooperação para colocar no ar o Portal Roda Viva-FAPESP, por meio do qual o público terá acesso às transcrições de mais de mil entrevistas realizadas pelo programa Roda Viva, produzido há 21 anos pela rede de televisão pública paulista. A versão piloto do portal já funciona em caráter experimental no endereço www.tvcultura.com.br/portalrodaviva. Por enquanto, exibe as primeiras páginas transcritas de 16 entrevistas, entre as quais a de nomes como o líder cubano Fidel Castro, o dramaturgo Plínio Marcos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o presidente venezuelano Hugo Chávez, o publicitário Oliviero Toscani e o escritor José Saramago. Dentro de cerca de dois meses, quando os testes estiverem concluídos,será lançada a versão definitiva do portal. “Daqui a um ano, todas as entrevistas já deverão estar transcritas e disponíveis na íntegra. O portal funcionará como uma espécie de enciclopédia das temáticas tratadas no programa”, afirmou o jornalista Paulo Markun, apresentador do programa e novo presidente da Fundação Padre Anchieta, entidade que mantém a TV Cultura e as rádios Cultura AM e FM. Cada entrevista será acompanhada de um vídeo de dois minutos com trechos do depoimento.“O portal terá uma importância cultural, científica e jornalística fantástica, dando acesso universal aos conteúdos do Roda Viva de forma organizada”, afirmou o presidente da FAPESP, Carlos Vogt. Trata-se de um material que ajuda a compreender o processo de desenvolvimento do país, que será bastante útil, por exemplo, para a educação em sala de aula e para a pesquisa em ciências sociais.

Financiado pela FAPESP, o projeto do portal foi apresentado pelo Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (Nepp) e está sendo executado em parceria com o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Pesquisadores trabalham na transcrição e na edição dos programas, sob a coordenação do professor Pedro Luiz Barros e Silva, do Nepp, e do professor Carlos Vogt, do Labjor. O projeto aprovado pela FAPESP para a preparação do conteúdo e o desenvolvimento do portal é da ordem de R$ 277.269,05. A intenção do projeto é facilitar o acesso ao notável acervo de depoimentos do Roda Viva, que é o mais antigo e um

dos mais respeitados programas de entrevistas da televisão brasileira.“Quem procura o Roda Viva está interessado no conteúdo discutido com os entrevistados. A melhor maneira de se apropriar desse conteúdo é o formato de texto, que permite copiar livremente e utilizar o material de muitas formas”, disse Paulo Markun, que já testara o formato, com boa aceitação, na coletânea de entrevistas O melhor do Roda Viva (Editora Conex). Na internet, a pesquisa das entrevistas será facilitada por um mecanismo de buscas que identifica palavras-chave e remete aos programas em que tais temas foram abordados. Informações complementares, na forma de hipertextos, também estarão disponíveis nas transcrições. ■ PESQUISA FAPESP 137

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Lenta

convalescença Setenta anos é o tempo mínimo para restaurar biomassa da floresta

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FABIO COLOMBINI

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om o tempo, áreas desmatadas de florestas tropicais conseguem restabelecer seu ciclo de nitrogênio, que tem um papel fundamental na restauração da própria floresta. Há tempos os pesquisadores colecionam evidências de que a recuperação é factível, mas, pela primeira vez, um grupo conseguiu comprovar o fenômeno e também mensurar a velocidade da recuperação. Se a boa notícia é que a floresta pode, sim, restaurar-se, o dado desalentador é que esse processo demora pelo menos 70 anos para dar passos consistentes, revela o artigo “Recuperation of nitrogen cycling in Amazonian forests following agricultural abandonment”, publicado na revista Nature. Para compreender o fenômeno, a equipe de pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), de Piracicaba, do Museu Paraense Emílio Goeldi e da Embrapa Amazônia Oriental (PA) estabeleceu o que chamam de cronosseqüência. Em fazendas nos municípios paraenses de São Francisco do Pará e de Capitão Poço, no cinturão de desmatamento da Amazônia, os cientistas delimitaram 12 lotes de mil metros quadrados em áreas desmatadas, mas que começaram a se regenerar depois de terem sido abandonadas por agricultores. Com a ajuda dos proprietários das terras, o grupo conseguiu determinar há quanto tempo cada área tinha sido abandonada. Dessa forma, foram identificados lotes em que a mata estava se recuperando havia 3, 6, 10, 20, 40 e 70 anos, além de pedaços também de floresta nativa. Segundo os dados obtidos pela pesquisa, a recuperação da biomassa chegava a 70% ou 80% do original. “Setenta anos é o prazo mínimo da recuperação. Se tivéssemos encontrado sítios desmatados há mais tempo, talvez chegássemos a um prazo de recuperação mais acurado”, diz Luiz Antonio Martinelli, do Cena, um dos autores do trabalho. “Se deixarmos o sistema em paz, ele se renova sozinho.” Uma evidência da recuperação foi o aumento nas emissões de nitrogênio pelo solo, na forma do gás óxido nitro-

so (N2O).“A partir do momento em que o sistema se torna rico em nitrogênio, ele se dá ao luxo de perder esse elemento na forma gasosa”, explica Martinelli. O estudo contou ainda com a participação de Eric Davidson, do Centro de Pesquisa Woods Hole (EUA). B iodiversidade - Estima-se que entre 30% e 50% da área desmatada na Amazônia deixou de ser explorada e está se recuperando. As florestas tropicais costumam ser ricas em nitrogênio. Mas a agricultura reduz muito os níveis desse nutriente no solo. O achado da pesquisa é auspicioso, mas o fato de a floresta recuperar-se não significa que retomará a riqueza da biodiversidade original. A vegetação nunca é tão rica quanto a antiga cobertura e a volta das espécies animais dependerá de sua manutenção nas redondezas. “Mas a recuperação da floresta é um indicador de que ela pode voltar a ser habitada”, diz Martinelli. A pesquisa também é importante por sinali-


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D etalhe da devastação na Am azônia: os nutrientes voltam , m as dem oram

zar formas de acelerar a regeneração. O plantio de leguminosas, que se caracterizam por fixar nitrogênio no solo, é uma das estratégias cogitadas. Se a floresta desmatada demora a recuperar o nitrogênio, nas áreas agrícolas o problema é de natureza diversa. O homem despeja anualmente 85 milhões de toneladas de nitrogênio no solo, principalmente em virtude da intensa aplicação de adubos e de fertilizantes químicos. Como as plantas não conseguem absorver boa parte dessa dose extra, o resultado final é que o nitrogênio em excesso acaba invadindo outros ambientes, poluindo os rios e lençóis freáticos e retornando para a atmosfera, onde contribui de forma significativa com o aqueci-

mento global, ajudando ainda a provocar chuvas ácidas. “Estamos sobrecarregando o ambiente com quantidades gigantescas e desnecessárias de nitrogênio. As conseqüências são terríveis e precisam ser mais bem conhecidas e combatidas com urgência”, afirma Martinelli. C ontradições - Em 2002 o consumo de

adubos na China chegou a 25 milhões de toneladas; nos Estados Unidos atingiu quase 11 milhões de toneladas. Na outra ponta da tabela, o consumo bruto na Namíbia e em Serra Leoa, em 2002, foi de apenas 100 toneladas para cada país. Esse cenário de contradições será alvo de debates na Conferência Internacional sobre Nitrogênio, que será realizada de 1º a

5 de outubro, na Costa do Sauípe, na Bahia, cujo comitê é coordenado por Luiz Martinelli. Ele pretende aproveitar a presença de mais de 500 participantes do Brasil e do exterior para aprofundar a discussão sobre as formas de combater o excesso – ou a falta – de nitrogênio. Para o brasileiro, ações simples, como a redução das queimadas e o sistema de rotação de culturas, podem ser importantes. Além disso, garante, qualquer bom engenheiro agrônomo sabe dizer qual a quantidade equilibrada de fertilizante que deve ser usada em determinado solo e cultura. “Nossa principal missão é conseguir maximizar os efeitos benéficos do nitrogênio e minimizar suas conseqüências nefastas”, resume. ■ PESQUISA FAPESP 137

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R ECU R S O S H ÍD R ICO S

O risco da

escassez Pesquisadores de seis países buscam novas tecnologias de manejo da água

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aquecimento global não é a única ameaça à vida no planeta. Está em curso o que os especialistas qualificam de “crise da água” e que já compromete as condições de vida e saúde de uma ampla parcela da população. Calcula-se que pelo menos um terço da população mundial já tenha dificuldades, entre severas e moderadas, de acesso à água, sobretudo nas regiões setentrional e norte da África. Mais precisamente: 1,3 bilhão de pessoas não dispõem de água potável e 2 bilhões não são atendidas por serviços de esgotamento sanitário. Isso sem falar na poluição dos rios, lagos e outras fontes de abastecimento que provoca milhões de mortes – notadamente de crianças – que poderiam ter sido evitadas. Ao longo de milhares de anos a civilização sobreviveu consumindo a água disponível na superfície do planeta. No último século, com o avanço da tecnologia, a humanidade passou a consumir também a água subterrânea, armazena-

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da em lençóis freáticos, aqüíferos, entre outros. O problema é que nas áreas áridas, semi-áridas e nas grandes cidades esse estoque de água começa a ficar comprometido. O quadro se agrava com a longa história de uso inadequado dos recursos hídricos, poluição de mananciais e manejo irresponsável e deverá complicar-se ainda mais nos próximos anos, com o crescimento de países, o aumento da concentração urbana e a conseqüente demanda por água potável.“Em 2025 existirão em todo o mundo 30 megacidades, com mais de 8 milhões de habitantes, e 500 cidades com 1 milhão de habitantes”, prevê José Galizia Tundisi, presidente do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos, um dos maiores limnologistas do país. Para responder a esse desafio, a Academia Brasileira de Ciências ( ABC) propôs ao InterAcademy Pannel (IAP) – que reúne 96 academias de ciências de todo o mundo em torno de projetos de grande impacto para o avanço do conhecimento – a criação do Water Program-

me, um programa internacional de pesquisa e inovação sobre recursos hídricos. Desde 2005 a proposta já obteve a adesão de 62 países. Seis deles – Brasil, Jordânia, África do Sul, Polônia, China e Rússia – criaram institutos de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias sobre o uso da água que, no âmbito do IAP, ganharam a denominação de Centro Internacional de Inovação, Pesquisa e Capacitação em Recursos Hídricos. O Programa da Água do IAP parte do princípio de que a água – tanto a superficial como a subterrânea – deve ser tratada como uma unidade integrada. Essa visão exige que geólogos, limnologistas, engenheiros e ecologistas, entre outros, trabalhem juntos para desenvolver abordagens regionais e otimizar investimentos, de forma a garantir que a água siga cumprindo o papel crítico que tem no funcionamento natural do planeta. Tundisi enfatiza ainda que é preciso adequar a abordagem científica à gestão dos recursos hídricos propriamente dita, de forma a promover a educação de


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pessoas para a utilização adequada dos recursos, providenciar técnicas mais baratas de tratamento da água e estimular a conservação das fontes naturais.“A água de boa qualidade é a base para o desenvolvimento e para a melhoria da qualidade de vida. Mas o desenvolvimento tem como conseqüência o aumento da pressão para múltiplos usos da água”, sublinha Tundisi. Cada um dos institutos de água terá uma linha de investigação específica. Na Jordânia, por exemplo, a missão será desenvolver tecnologias de reciclagem da água; na África do Sul as investigações terão como foco o uso da água na agricultura de subsistência; e no Brasil se concentrarão na utilização de recursos hídricos e biodiversidade em regiões metropolitanas. O centro brasileiro – batizado como Instituto de Biodiversidade e Recursos Hídricos – foi inaugurado há dois meses e terá sede em Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo.“Por enquanto ocupa um escritório no centro da cidade, mas em breve será transferido para uma área de 40 alqueires doada pela Universidade Metropolitana

de São Paulo, em Guarulhos”, adianta Tundisi, que também preside o instituto em Guarulhos. Quando pronto, estará equipado com laboratórios, bibliotecas e uma área de residência para abrigar pesquisadores de outros países. A Argentina e o México pleiteiam o ingresso no programa, muito provavelmente para desenvolvimento de investigação semelhante à do Brasil, sobre o uso da água em áreas metropolitanas. Para tanto, terão que apresentar uma proposta de investigação sobre o tema. Também está sendo articulada uma rede de estudos no Caribe, região formada por ilhas com problemas muito específicos, como infiltração, degradação de terrenos, entre outros, observa Tundisi. R ecursos para pesquisa - Cada um dos

países participantes deve buscar recursos para financiar o programa e a instalação dos institutos. O centro de pesquisa jordaniano, por exemplo, já conta com recursos do Royal Jordanian Society, uma espécie de CNPq local.“No Brasil estamos negociando com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e com agências de fomento”, diz

Tundisi. Paralelamente, por meio do IAP, busca-se apoio do Banco Mundial para “movimentar” a rede internacional de pesquisadores. “Precisamos de financiamento para promover o intercâmbio de pesquisadores de vários países”, explica. No ano passado, o IAP organizou quatro encontros regionais no Brasil, Polônia, China e África do Sul. Nesses debates discutem-se os rumos do programa. Já está definido que as pesquisas enfatizarão o desenvolvimento de tecnologias de baixo custo para o tratamento de água; novas tecnologias de conservação da água; integração de gestão de múltiplos usos; gestão de lençóis subterrâneos; monitoramento e avaliação de recursos hídricos superficiais e subterrâneos, entre outros. O programa também planeja “somar esforços”, como diz Tundisi, com a Convenção da Biodiversidade e o Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC), onde se debatem saídas para o aquecimento global.“Pretendemos reunir ao todo 15 programas. Os projetos do Instituto Internacional de São Carlos serão incorporados.” ■

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> No balanço dos afetos

GAR Y M STOLZ /US FISH AND W ILDLIFE SER V ICE

Cão que abana o rabo está feliz. Parece óbvio, mas um grupo italiano, das universidades de Bari e de Trieste, mostrou que não é tão simples assim. A equipe colocou 30 cachorros – um de cada vez – em uma caixa de onde conseguiam espiar o dono, uma pessoa desconhecida, um gato ou um cachorro dominante. Os pesquisadores verificaram que, ao ver o dono, os cães abanavam o rabo mais

marcadamente para a direita (Current Biology). Uma pessoa desconhecida também despertava balanços mais intensos para a direita do que para a esquerda, mas com uma diferença menor. Já os gatos não pareceram emocionar os cachorros, que mantiveram suas caudas quase paradas, com uma leve inclinação para a direita. Já diante de um cão dominante a cauda vai mais para o lado esquerdo. Esses resultados podem servir como termômetro de emoções caninas. Mas não só. A assimetria no movimento ajuda a compreender a divisão das emoções entre os hemisférios

do cérebro. O movimento para o lado direito do corpo, controlado pelo hemisfério esquerdo, indica que é nesse lado do cérebro que são processadas as emoções relacionadas à aproximação. Emoções que levam a um recuo parecem ter seu endereço no lado direito do cérebro.

> Identidades trocadas A essência de um organismo está em seu DNA, acreditam o biólogo Craig Venter e sua equipe, do Instituto J. Craig Venter, nos Estados Unidos. Ao menos, no caso de algumas bactérias. Em artigo

publicado em 28 de junho na Science, o grupo relata ter transformado uma espécie de bactéria (Mycoplasma capricolum) em outra (M. mycoides) simplesmente adicionando o material genético da segunda ao meio no qual a primeira era cultivada. Ainda não se sabe como a transformação se dá. Algumas bactérias não só assimilaram o DNA da outra espécie como perderam o seu próprio material genético – passando a produzir só as proteínas típicas da bactéria doadora. Venter comemora o feito como um passo rumo à descoberta de como criar um organismo sintético em laboratório.

Passeios furtivos G uepardo fêm ea:longas cam inhadas e m uitos parceiros

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As fêm eas de guepardo (Acinonyx jubatus) não são nada caseiras.Cada um a percorre em m édia m ais de 8 0 0 quilôm etros quadrados,enquanto os m achos circulam por territórios com 5% dessa área.D ada G otellie colegas da Sociedade Z oológica de Londres realizaram testes de paternidade em 4 7 ninhadas am ostradas ao longo de nove anos no P arque Nacionaldo S erengeti,na Tanzânia. D escobriram que,em quase m etade das ninhadas com m ais de um filhote,a prole descendia de m ais de um pai– m uitos dos quais viviam além dos lim ites do parque.P ublicados nos P roceedings ofthe R oyalSociety B ,os resultados revelam um com portam ento reprodutivo atípico entre os carnívoros,grupo de anim ais no qualum ou poucos m achos costum am dom inar o acesso às fêm eas.Segundo os pesquisadores,iniciativas para a preservação dos guepardos devem levar em conta essa estratégia reprodutiva,que aum enta a diversidade genética do grupo.


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        m usicais Por que a maioria dos povos escolheu, entre todos os intervalos possíveis de uma onda sonora, os 12 que compõem a escala cromática? Para responder a essa pergunta, Deborah Ross, Jonathan Choi e Dale Purves, do Departamento de Neurobiologia da Universidade Duke, nos Estados Unidos, analisaram o som da fala de dez pessoas cuja língua nativa era o inglês dos Estados Unidos (cinco homens e cinco mulheres) e de seis que originalmente falavam mandarim (três homens e três mulheres). Os resultados mostram que para reproduzir diferentes vogais o nosso aparelho fonador atinge os mesmos picos de freqüências sonoras que as 12 notas da escala cromática. Outra conclusão interessante: dos intervalos encontrados nessas gravações de voz, 70% eram da escala pentatônica, de cinco notas, usada como base da música tradicional por diversas culturas do globo.

fins terapêuticos – laxantes de óleo de castor, açafrão contra reumatismo, romã para eliminar tênias e babosa para tratar problemas de pele –, alguns usados ainda hoje ou até recentemente. “Encontramos prescrições comparáveis com as de medicamentos atuais, muitas com mérito terapêutico”, diz Jack Campbell. O grupo britânico pretende examinar aspectos genéticos e químicos das plantas medicinais do Egito antigo para comparálas com variedades atuais e investigar semelhanças com remédios tradicionais usados atualmente na África.

> Santuários Com o aumento da temperatura do planeta, as plataformas de gelo da Antártida estão derretendo e se partindo. Como conseqüência, milhares de icebergs estão invadindo o mar de Weddell, um braço do Atlântico Sul na região. A surpresa é que esses icebergs são mais do que ilhas de gelo desertas à deriva. Ricos em nutrientes trazidos do continente, os icebergs estão mudando a ecologia e a química da água em suas vizinhanças e se

> Medicina dos faraós Pesquisadores da Universidade de Manchester, na Inglaterra, examinaram papiros médicos egípcios escritos em 1.500 a.C. De acordo com os documentos, descobertos no século XIX, os egípcios usavam uma variedade de substâncias com

transformando em verdadeiros santuários de biodiversidade: eles atraem aves marinhas, além de fitoplâncton, microcrustáceos e peixes em um raio de até 3 quilômetros, informaram pesquisadores norte-americanos em estudo publicado em 21 de junho na Science. Segundo Timothy Shaw, da Universidade da Carolina do Sul, um dos autores do estudo, os icebergs do Atlântico Sul funcionam como estuários de rios em outras partes do planeta, transportando nutrientes para o oceano.

à deriva

> Am am entação R OB SHER LOCK

> Vogais

Fertilizante natural:degelo nutre vida ao redor de iceberg



sem risco Das 700 mil crianças infectadas a cada ano pelo HIV, o vírus da Aids, estima-se que 40% sejam contaminadas por leite materno. Um estudo publicado em julho no Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes traz esperanças às mães que temem transmitir o vírus a seus filhos. Pesquisadores dos Estados Unidos e da África do Sul encontraram uma forma simples de esterilizar o leite materno: aquecê-lo num vidro destampado em banho-maria até que a água ferva. Testes com 30 amostras de leite contendo HIV mostraram que a técnica eliminou o vírus e preservou as propriedades nutritivas e imunológicas do leite. Resta saber se é viável implantá-la em comunidades africanas com recursos parcos.

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B R A S IL

Em busca da origem

Q uebrada Apacheta (esquerda),nos Andes peruanos: possívelorigem do rio Am azonas

Entre o finalde m aio e o início de junho,pesquisadores brasileiros e peruanos percorreram um a área com cerca de 10 0 quilôm etros quadrados dos Andes peruanos m apeando os cinco córregos — lá conhecidos com o quebradas — que deságuam no Lloqueta,prim eiro nom e do rio que se torna o Am azonas no B rasil.O objetivo da expedição era identificar a nascente de cada um dos córregos e iniciar estudos para definir qualdeles contribuicom m aior volum e de água para o Am azonas — ou seja,qualoriginaria um dos m aiores rios do planeta.A hipótese m ais aceita é que seja a quebrada Carhuasanta.Mas os pesquisadores do Instituto Nacionalde P esquisas Espaciais (Inpe) investigam a hipótese de que a m aior contribuição venha do córrego Apacheta.“O Carhuasanta está encaixado em um vale de 30 0 m etros de largura,enquanto o Apacheta tem um a área de captação de águas bem m aior,form ada por quatro vales”,diz O ton B arros Neto,do Inpe,integrante da expedição.Com o o volum e de água dos córregos varia ao longo do ano, serão necessários anos de m edições pela Agência Nacionalde Á guas,que participou da expedição com um grupo do Instituto B rasileiro de G eografia e Estatística,para definir a nascente do Am azonas.

> Leishm anioses INP E

sob escrutínio

> O ra (direis) ouvir estrelas! “Como nos versos de Olavo Bilac [do poema que empresta o título a esta nota], estudar os astros pode ser insensato para muitos, ou, pelo menos, desperdício de tempo.” Quem escreve é a astrônoma Sueli Viegas, no livro No coração das galáxias, publicado este ano pela Editora da Universidade de São Paulo na coleção Desvendando a Ciência. A autora parte de situações cotidianas para apresentar ao público leigo, 36

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com a ajuda de diagramas e fotos, o conhecimento mais recente da física e da astronomia sobre a estrutura e o funcionamento do Universo. Com uma revisão de como esses estudos avançaram desde o século XIII até anos recentes, ela mostra que olhar e ouvir estrelas, longe de ser insensato, não é privilégio de românticos. Além de fascinante, esse conhecimento levou ao desenvolvimento de sistemas de orientação que tornaram possíveis a navegação e o comércio.

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A genômica agora promete ajudar a medicina a compreender melhor os diferentes tipos de leishmaniose, doença causada por algumas espécies do protozoário Leishmania, que faz 2 milhões de novas vítimas por ano – não existe vacina contra a leishmaniose e poucos medicamentos a combatem com eficiência. Em artigo publicado na Nature Genetics, uma equipe internacional que inclui pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto apresenta o seqüenciamento do genoma de duas espécies do gênero

Leishmania: L. infantum e L. braziliensis. O grupo comparou os dados novos com os do genoma de L. major, seqüenciado anteriormente, e encontrou mais semelhanças do que o esperado. Agora os pesquisadores pretendem identificar genes exclusivos de cada espécie e desvendar como são regulados por interferência de RNA. Desse modo, eles esperam contribuir para o entendimento dos três tipos de leishmaniose – visceral, cutânea e mucocutânea –, além de identificar trechos de DNA comuns apenas a essas espécies do protozoário que possam ser usados em medicamentos ou vacinas.

R ICAR DO Z OR Z ETTO

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> P om ar na Mata Atlântica

IMAGE*AFTER

Quem estuda macacos passa muito tempo olhando para o alto. Como nem sempre conseguem encontrá-los nas árvores nem capturá-los, os primatólogos às vezes têm de se contentar com o que encontram no chão: restos de frutos descartados ou fezes. A bióloga da Universidade de São Paulo Milene Martins fez isso tudo com bugios e muriquis, no interior de São Paulo. Com ajuda de um assistente de campo, ela observou por um ano mais de 2 mil eventos de alimentação, recolheu 250

Contra o m edo:im agens que lem bram aranhas ajudam a tratar aracnofobia

MIGUEL BOYAYAN

ocultas

Muriqui:na falta de frutos carnosos,com e outros tipos

amostras de fezes e estudou os frutos consumidos pelos macacos. Milene descobriu que, apesar de ocuparem a mesma área, os maiores macacos brasileiros divergem na escolha dos frutos. O bugio come mais folhas e é seletivo. Já o muriqui lida melhor com frutos secos ou espinhudos e se alimenta de uma maior variedade deles, segundo estudo publicado na Primates. O artigo ajuda a entender como esses animais convivem em um ambiente cada vez mais reduzido.

O que há em comum entre as fotografias acima? Segundo estudo feito na Universidade de São Paulo (USP) e publicado na Neural Plasticity, elas têm características de aranha – tão sutis que passam despercebidas – e fazem parte de um tratamento que Laura Granado, Ronald Ranvaud e Javier Ropero Peláez, da USP, testaram contra a aracnofobia, o medo de aranhas. Treze voluntários do grupo experimental e 12 do grupo placebo receberam um CD com imagens que deveriam olhar duas vezes ao dia – no caso do grupo placebo eram imagens neutras, que não lembravam aranhas. A terapia desenvolvida pelo grupo ativa uma das áreas do cérebro ligadas às reações de medo, o tálamo, mas não a outra, a amígdala. Para provocar medo é preciso que ambas entrem em ação. Como no tratamento isso não ocorre, aos poucos a conexão entre as duas regiões se torna menos intensa e a fobia também. Com quatro

semanas de terapia, 42% dos pacientes foram considerados curados. Passados seis meses de sua conclusão o sucesso foi maior: 92% dos que temiam esses seres de longas pernas já não tinham problemas em enfrentá-los. O efeito retardado se explica: é preciso encontrar uma aranha em situação cotidiana para se perceber que a fobia já não existe.

> V inhedos nas alturas A altitude do vinhedo tem grande influência sobre o perfil aromático dos vinhos feitos com a variedade de uvas Cabernet Sauvignon em Santa Catarina, um dos mais recentes pólos da vitivinicultura nacional. Segundo um estudo feito por Leila Denise Falcão, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e publicado na edição de 2 de maio do Journal of Agricultural and Food Chemistry, os tintos produzidos com frutas provenientes de parreirais situados em zonas altas, em torno dos 1.400 metros de

altitude, apresentam maiores concentrações de um composto, o MIBP, cujo aroma lembra o de pimentãoverde. Já os vinhos elaborados com uvas originárias de vinhedos mais baixos, entre 770 e 960 metros de altitude, exibem níveis mais elevados de moléculas associadas a aromas de frutas vermelhas e geléias. A pesquisadora analisou vinhos das safras 2004 e 2005, provenientes de cinco vinhedos de distintas altitudes. O estudo também contou com apoio da Embrapa Uva e Vinho, de Bento Gonçalves (RS), e de pesquisadores franceses. EMBR APA UV A E V INHO

> Aranhas

Cabernet Sauvignon:arom a m uda com altitude do cultivo

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Testes revelam como cosméticos, em muitos casos, danificam o cabelo R ICARD O Z ORZET TO


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nrolado em forma de concha, o penteado da atriz Kim Novak em Um corpo que cai é um ícone do poder de sedução do cabelo. No suspense de 1958 de Alfred Hitchcock, seu coque louro-platinado arrebatou o coração do detetive interpretado por James Stewart, em uma cena que não se restringe às telas de cinema. No mundo todo cabelos fartos e brilhantes atraem a atenção de homens e mulheres e são considerados símbolo de juventude, saúde e poder – inclusive por pesquisadores brasileiros que começam a descobrir como os cosméticos agem sobre os fios. Assim como o personagem bíblico Sansão perdeu sua força descomunal quando Dalila cortou-lhe os cabelos, a queda progressiva dos fios reduz a autoestima, faz as pessoas se sentirem menos atraentes e as torna socialmente retraídas – problema que, segundo estudos europeus, afeta mais intensamente as mulheres e os homens mais jovens. Além da importância para o bem-estar psicológico, comenta a dermatologista Fabiane Mulinari Brenner, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o cabelo está impregnado de significados socioculturais. O estilo definido por um corte ou penteado indica a que grupo social uma pessoa pertence e, por vezes, a posição que ocupa, motivo por que em geral se impõe a raspagem dos cabelos a recrutas militares, criminosos e prisioneiros de guerra como forma de eliminar a individualidade e subjugá-los à autoridade, lembra o psicólogo norte-americano Thomas Cash em análise sobre o assunto publicada anos atrás. Ante tantos valores atribuídos à cabeleira, parece natural que quem exibe cabelos atraentes queira preservá-los – e quem não tem queira transformá-los em madeixas à la Gisele Bündchen ou Rodrigo Santoro – com a ajuda de xampus, condicionadores e outros tratamentos de beleza. A indústria de cosméticos, claro, há tempos identificou esse filão e investe pesado no lançamento de produtos que prometem restaurar os fios ou deixá-los mais volumosos e brilhantes, como se nota nas revistas femininas ou nos comerciais de televisão. Os dados mais recentes da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, que reúne as maiores empresas dessa área, reafirmam o suces-

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so comercial do setor: a produção de cosméticos para cabelos cresceu cerca de 50% de 2003 a 2006, alcançando 458 milhões de toneladas, e as vendas mais que dobraram, atingindo US$ 2,2 bilhões no ano passado. Mas será que todos esses produtos de fato funcionam? A resposta que começa a emergir de estudos conduzidos por instituições de pesquisa sem conexão com a indústria nem sempre agrada os fabricantes de cosméticos. Em alguns casos, corrobora impressões que as mulheres adquiriram ao longo de anos em salões de beleza; em outros, destrói mitos sedutores construídos por campanhas publicitárias. Testes feitos pela equipe da química Inés Joekes, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostram que xampus e condicionadores funcionam para limpar os cabelos e deixá-los mais fáceis de pentear, mas não promovem a recuperação dos fios danificados a que se propõem diversos produtos. Nem poderiam. “O fio de cabelo é um tecido morto, incapaz de se regenerar depois de formado”, lembra Fabiane, especialista em doenças do couro cabeludo. Por essa razão, a melhor forma de manter uma cabeleira vistosa e bem-nutrida é por meio de uma dieta equilibrada e rica em proteínas e ácidos graxos, afirma a derma-

tologista paranaense. Há quatro décadas pesquisas demonstraram que a carência de nutrientes como o ferro favorecia a queda de cabelos, mesmo em mulheres que não sofriam de anemia, além de deixar a pele e os próprios cabelos ressecados, com a textura de palha. Mais recentemente estudos associaram a carência do aminoácido lisina – um dos componentes das proteínas, encontrado em carnes vermelhas, peixes e ovos – à perda desses preciosos fios. Dona de longas mechas castanhas, Fabiane adverte, porém, que é preciso cuidado com os excessos: “Vitamina A além do recomendado aumenta a queda de cabelo e não deve ser consumida sem orientação de um médico ou nutricionista”. O simples uso diário de xampu faz mais do que eliminar as partículas de sujeira, de poluição e o sebo do couro cabeludo que se acumula nos fios. Ele é tão eficiente que remove até mesmo pequenas partes do próprio fio, contribuindo para produzir danos microscópicos em sua estrutura, alterar a cor e torná-lo mais quebradiço, em especial nas pontas, como comprovaram Inés e a química Carla Scanavez. Em experimentos no laboratório de físico-química aplicada da Unicamp, Carla decidiu verificar o que cuidados simples diários, como a lavagem com

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Medula: estrutura esponjosa que torna os fios m ais resistentes


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xampu, a escovação e o uso de secador, faziam com o cabelo. Em uma primeira bateria de testes, ela colocou mechas de cabelos castanhos que nunca haviam passado por tratamento químico de molho por 8, 16, 24 e 32 horas em um recipiente com água a 40 graus Celsius e uma pequena dose do principal componente ativo dos xampus, o detergente lauril sulfato de sódio. Analisando os fios ao microscópio eletrônico, Carla constatou que a partir de 16 horas de lavagem – ou dois meses de banhos diários de 15 minutos – surgiram buracos e trincas na cutícula, a parte mais externa dos fios, composta por 6 a 18 camadas de placas sobrepostas como escamas.

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s danos aos fios aumentaram quando, numa segunda etapa, Carla tentou reproduzir uma situação mais próxima à que as mulheres enfrentam no cotidiano. Em vez de deixar as amostras de cabelo de molho, ela passou a esfregálas suavemente com xampu por dois minutos, antes de enxaguá-las com água quente. Em seguida escovou as mechas molhadas, secou-as com um secador de cabelos e tornou a penteá-las. Desta vez os prejuízos apareceram mais cedo. “A partir de 20 repetições começa a haver danos nas cutículas”, conta Carla. Executado 120 vezes, o equivalente a quatro meses de lavagens, escovações e secagens diárias, esse tratamento praticamente eliminou as cutículas. Afetou também o córtex, região interna do fio que concentra 80% da queratina do cabelo, proteína que lhe confere uma resistência à tração maior que a do aço – só se rompe facilmente um fio de cabelo por causa de seu reduzido diâmetro, que varia de 50 a 100 micrômetros (milésimos de milímetro). Um mês de banhos com essa mesma duração deixou o cabelo perceptivelmente mais claro. Nos estudos sobre os efeitos da limpeza do cabelo, publicados na Colloids and Surfaces B, Carla e Inés apresentam a explicação completa de como o detergente do xampu afeta a integridade e a cor dos fios. A água penetra por espaços entre as cutículas, levanta-as e dissolve o material depositado entre elas – em geral, restos de células mortas –, originando pequenas cavidades. O detergente do xampu acelera a formação de buracos nas camadas internas das cutículas e extrai as gorduras naturais do fio.

Adeus às curvas: alisam ento desfaz torção de cabelo crespo e produz trincas

Com o tempo, as cutículas começam a se desprender e deixam a superfície do cabelo irregular. Esses danos facilitam o ataque da água e do xampu ao córtex, originando cavidades no interior do fio pela remoção de proteínas e do cimento celular que mantém os feixes de queratina unidos. Além de mais ásperos ao toque, os fios tornam-se progressivamente mais claros. Dois processos contribuem para a mudança de tom do cabelo: o surgimento das cavidades e a destruição da melanina, proteína responsável pela cor dos fios – é a quantidade total de melanina que determina se um cabelo é louro, ruivo, castanho ou negro.

No caso dos cuidados diários, os buracos na cutícula e no córtex do fio são os responsáveis pela mudança de cor do cabelo, por alterar suas propriedades ópticas. É que quanto mais cavidades há no fio, mais luz é refletida para o ambiente e menos é absorvida pelos grãos de melanina. Nos estágios avançados ocorre a destruição dos grânulos de melanina, deixando o cabelo amarelado. Quem sente mais esses efeitos são as pessoas com cabelos longos: seus fios apresentam desgaste maior principalmente nas pontas, que pode ser agravado pela forma como se lava a cabeça. Rita Wagner, outra química da equipe de PESQUISA FAPESP 137

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e o uso de xampu limpa os fios, mas os danifica a ponto de se tornarem mais opacos, embaraçados e quebradiços ao pentear, a saída seria deixar de lavar os cabelos? Felizmente, nada tão radical. O ideal é lavar a cabeça o menor número possível de vezes ao longo da semana. “A decisão de quando se deve lavar o cabelo depende da percepção pessoal de que o cabelo está sujo e precisa ser lavado”, afirma Inés. E não há regras, uma vez que as características dos fios e do couro cabeludo variam de uma pessoa para outra, assim como é diferente o nível e o tipo de poluição a que se está exposto diariamente.“Embora quase não haja diferença de eficácia entre os produtos no mercado, o xampu adotado deve ser o que melhor se adapta ao seu cabelo e ao couro cabeludo”, recomenda Inés, que diz não tomar cuidados especiais com seus longos cabelos louros. Para quem gosta de ensaboar a cabeça com freqüência, ela sugere o uso de xampus infantis, que contêm detergentes menos agressivos aos cabelos. Outras dicas são: friccionar o menos possível os fios, tomar banho morno, secar pouco com toalha e pentear o mínimo necessário, de preferência, com pentes de dentes largos, além de, claro, não exagerar no xampu.“Também é possível usar produtos que minimizem os danos da lavagem”, lembra Carla, que após anos de pesquisa na Unicamp foi recentemente contratada por uma empresa do setor.

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Inés, formada quase só por mulheres, submeteu cabelos castanhos e louros a dois tipos de lavagem: imersão em água com xampu (sem atrito) ou a fricção dos fios. As duas formas de limpeza foram repetidas a temperaturas diferentes, que simulavam banhos quentes e frios. Em um teste inicial, Rita observou que só a água já era suficiente para retirar proteínas do cabelo, perda que dobrava quando se adicionava xampu. O mais nocivo, porém, foi ensaboar os fios, descreve a pesquisadora em outro artigo da Colloids and Surfaces B. “A fricção é responsável por 90% dos danos à cutícula”, afirma Rita, efeito que aumenta progressivamente com a elevação da temperatura da água. De acordo com Inés, o primeiro sinal de desgaste das cutículas detectável a olho nu são as pontas duplas, que surgiriam depois de um ano de lavagens massageando o cabelo.

D anos evidentes: lavagem com xam pu acelera destruição das cutículas

Alguns xampus trazem em sua formulação pequenas quantidades de silicone – um dos mais conhecidos é a dimeticona –, polímero que recobre os fios lubrificando-os e deixando-os mais brilhantes.“O silicone do xampu forma um filme sobre os fios e reduz a perda de proteínas por fricção”, afirma Rita. Ela descobriu recentemente que um terceiro componente do cabelo, a medula, altera a cor e a resistência dos fios. O silicone, no entanto, não é completamente inócuo: ele adere ao fio e não sai facilmente no enxágüe. Desse modo, fa-

O PR O J ETO Físico-química do cabelo: diferenças com o tipo étnico M O D AL ID AD E

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cilita o acúmulo de sujeira e exige o uso de mais detergente na próxima lavagem. “Muitas pessoas que acreditam ter cabelo oleoso, na verdade, não têm”, diz Inés. “Essa oleosidade se deve ao uso de xampu inadequado, contendo silicone.” O cosmético que mais ameniza a ação nociva dos xampus são os condicionadores. Formulados à base de gorduras e de um detergente diferente dos usados nos xampus, os condicionadores preenchem as cavidades abertas na superfície e no córtex do cabelo e fecha as cutículas, aumentando a capacidade dos fios de refletirem a luz – razão por que parecem mais brilhantes. Inés comprovou também que o condicionador altera as propriedades mecânicas do cabelo. “Esse cosmético deixa os fios mais homogêneos no que diz respeito à capacidade de resistir ao estiramento”, explica. Como resultado, menos fios frágeis se rompem no pentear. Mas nem os condicionadores restauram um dos tratamentos mais agressivos que Inés já viu desde que começou a investigar a eficiência de cosméticos de cabelo em 1983: o alisamento dos fios, feito por pessoas que têm cabelo crespo ou ondulado e desejam deixá-los impecavelmente lisos. Carla aplicou em mechas de cabelos crespos dois tipos de cremes alisadores encontrados no mercado – um à base de tioglicolato de amônia e outro com hidróxido de cálcio ou lítio. Em seguida, deixou agir por 20 minutos, tempo de uma sessão de alisamento, e 60 minutos (três sessões), antes de analisar os fios ao microscópio. Ainda que usados em baixas concentrações, esses compostos deformam de maneira irreversível a estrutura microscópica do cabelo. Diferentemente do cabelo liso, de formato cilíndrico, o cabelo crespo é achatado e com torções naturais, como uma escada em caracol. Tanto o tioglicolato como o hidróxido – também usados por quem tem cabelo liso e quer deixá-lo encaracolado com um tipo de penteado chamado permanente – destroem as ligações das fibras de queratina, desfazendo as voltas microscópicas do fio. O cabelo fica liso e mais frágil, como um fio de alumínio retorcido que é esticado. “Surgem trincas e sulcos que reduzem a menos da metade a resistência dos fios ao alongamento”, explica Inés. Algo semelhante acontece no alisamento térmico em que, em vez de cre-


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mes, prende-se o cabelo entre duas chapas aquecidas de um pequeno aparelho – a famosa chapinha, versão moderna de passar o cabelo a ferro. “O cabelo fica mais opaco e áspero ao toque”, diz Carla. “Para melhorar sua aparência, é preciso usar muito condicionador, cremes para pentear e compostos oleosos, que funcionam como um lustra-móveis em uma mesa riscada: preenchem-se os buracos, mas não se eliminam os danos.”

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e não dá para restaurar os defeitos que os cuidados diários e os tratamentos cosméticos produzem nos fios, também não é possível prevenir de forma adequada, ao menos por ora, as alterações causadas pela exposição ao sol. A engenheira química Ana Carolina Nogueira expôs ao sol durante 91 horas, o equivalente a um mês de férias na praia, amostras de cabelo branco, louro, ruivo e castanho – e repetiu o teste com luz artificial. Ela constatou que os diferentes tipos de radiação ultravioleta – ultravioleta A (UVA) e ultravioleta B (UVB) – danificam de forma distinta os fios de cabelo. De modo ainda não compreendido, a radiação UVA degrada a melanina, pigmento que determina a coloração do cabelo, deixando-o mais claro. E quanto mais claro o cabelo, mais claro ele fica, descreveu Ana Carolina no Journal of Photochemistry and Photobiology B. Já a radiação UVB destrói as moléculas de queratina e deixa os fios mais frágeis. Segundo Ana Carolina, os atuais filtros solares não protegem completamente o cabelo. “Eles formam um filme em torno dos fios. Como este filme contém proteínas, reduz os efeitos dos raios UVB, mas ainda se encontram em desenvolvimento produtos que reduzam a ação de raios UVA”, diz a pesquisadora, que hoje trabalha em uma fornecedora de matéria-prima para a indústria de cosméticos e, com Lelia Dicelio, da Universidade de Buenos Aires, identificou um efeito inesperado dos raios UV sobre os cabelos brancos: em vez de amarelá-los, como se pensava, o sol os torna mais brancos. O que os deixa amarelos é o calor (radiação infravermelha), explica em artigo a ser publicado. Para Inés, chegouse a um estágio em que é preciso conhecer melhor como se comporta o cabelo do ponto de vista físico e químico para que a indústria possa fabricar cosméticos que façam alguma diferença. ■ PESQUISA FAPESP 137

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Filhos de portadores de esquizofrenia apresentam prejuízo de desenvolvimento mesmo sem herdar a doença | FABRÍCIO M ARQUES PESQUISA FAPESP 137

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s vítimas da esquizofrenia legam a seus filhos o peso de uma dúvida e as dores de um estigma. As crianças crescem sem saber se herdarão ou não o grave transtorno do funcionamento cerebral que produz pensamentos desconexos, alucinações, delírios de perseguição e, em casos extremos, um completo alheamento. Ocorre que a esquizofrenia costuma manifestar-se em apenas 13% dos filhos de pacientes, em contraste com o risco de 1% encontrado na população em geral, e demora a emitir seus primeiros sinais, que despontam principalmente na faixa dos 20 aos 29 anos. Só depois dessa fase os que têm pai ou mãe com a doença começam a respirar com algum alívio, ainda que, em casos raros, a doença possa manifestarse mais tarde. Pesquisas recentes revelam, contudo, que os efeitos do estigma, resultantes do preconceito e do isolamento social, são persistentes e atingem a todos, inclusive os filhos que não apresentam a doença. Criados geralmente em ambientes desestruturados, nos quais a referência paterna ou materna é ausente ou francamente perturbada, eles não raro assumem a responsabilidade de cuidar do pai ou da mãe doentes e acumulam prejuízos em seu desenvolvimento. A medicina estabeleceu parâmetros capazes de monitorar os filhos de portadores da esquizofrenia na tentativa de identificar precocemente sinais da doença e estabelecer intervenções capazes de minimizar os efeitos. Já aqueles que não desenvolvem a moléstia são solenemente ignorados pelas políticas de saúde pública. “Eles sofrem desajustes em vários aspectos de suas vidas, mas é como se isso não existisse”, afirma a psiquiatra Angela Cristina César Terzian, professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).“Os pais portadores da doença mental e suas famílias têm uma interação complexa, mas isso não é levado em consideração na formação dos profissionais de saúde mental, nas intervenções dos serviços públicos nem nas discussões do planejamento de novas ações de saúde em nosso país.” Angela coordenou uma pesquisa pioneira no país com famílias de portadores de esquizofrenia que, além de municiar sua tese de doutoramento defendida em 2006, revelou o impacto da doença na vida dos filhos dos pacientes, tra-

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duzido em desajustes mesmo sem herdar o mal. Tal pesquisa é parte do projeto “Maternidade e paternidade na esquizofrenia: o impacto da doença na vida de pacientes e seus filhos”, coordenado pelo professor Jair de Jesus Mari, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que obteve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Padrão reprodutivo - Em dois artigos

científicos, Angela apresentou dados preocupantes. Num dos estudos, divulgado no ano passado na Revista Brasileira de Psiquiatria, analisou as taxas de fertilidade e fecundidade numa amostra de pacientes com esquizofrenia atendida num ambulatório da Unifesp, na capital paulista. No segundo estudo, publicado em abril deste ano nos European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, ela fez um levantamento com 489

Criados geralmente em ambientes desestruturados, nos quais a referência materna ou paterna é ausente, os filhos de portadores de esquizofrenia não raro assumem a responsabilidade de cuidar do doente da família

pacientes tratados em serviços de saúde mental da Região Metropolitana de Cuiabá, Mato Grosso. A comparação entre os dois universos permitiu enxergar que o baixo padrão reprodutivo dos pacientes com esquizofrenia registrado em países desenvolvidos repete-se no Brasil urbano (São Paulo), mas provavelmente não se aplica à realidade do interior do país, como se observou no exemplo de Cuiabá. Na amostra paulistana de 167 pacientes, apenas 32 tiveram filhos. Já entre as 489 pessoas avaliadas na capital de Mato Grosso, 294 eram pais ou mães – o equivalente a 60% da amostra. Os índices registrados em países desenvolvidos são significativamente menores, em torno de 30%. Ao todo, os pacientes cuiabanos tiveram 828 filhos, uma média de 3,3 por paciente com esquizofrenia. O levantamento feito em Cuiabá permitiu mapear o prejuízo que essa geração de filhos de portadores de esquizofrenia carrega para o resto da vida. A pesquisadora selecionou 431 deles, com idade entre 18 e 55 anos, que responderam a um questionário. Angela pôde mensurar dois tipos de problema. De um lado, a situação profissional dos filhos de pacientes mostrou-se anormalmente precária. Apenas 50,8% das mulheres estavam empregadas – ante uma média de 62,4% da população feminina brasileira. Entre os homens, o problema era menor, mas ainda visível. Cerca de 79,7% tinham emprego, ante 89,7% da média dos homens brasileiros. Outro prejuízo diagnosticado diz respeito à situação conjugal, mas, nesse caso, quem sofre mais são os homens. Apenas 54,7% deles casaram-se alguma vez na vida, ante uma média nacional de 66%. Já entre as mulheres a diferença é estatisticamente desprezível. O estudo procurou problemas relacionados à educação, mas não encontrou distinção significativa de atraso escolar entre os filhos de pacientes e a população em geral. “Ocorre que este parâmetro é ruim em toda a população brasileira”, diz Angela Terzian. Mesmo assim há sinais indiretos que apontam para um comprometimento também nessa área. Nenhum dos filhos de pacientes entrevistados em Cuiabá conseguira obter diploma superior. A média brasileira é de 8% de população graduada. Ainda está muito distante o consenso sobre as causas da esquizofrenia. O


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mais provável é que se trate de um conjunto de doenças associadas causadas por múltiplos fatores. Os mais citados são a predisposição genética e as alterações bioquímicas e estruturais do cérebro. Estudos recentes mostram que infecções e até o estresse causado pela vida urbana e as migrações podem ajudar a desencadear a doença (ver Pesquisa FAPESP edição 95). É certo que descendentes de portadores de esquizofrenia têm propensão maior a desenvolver a moléstia, mas a hereditariedade, sozinha, é incapaz de explicar todas as manifestações da doença. Esse mosaico de possibilidades torna difícil também esquadrinhar as causas dos prejuízos no desenvolvimento neuropsicomotor dos filhos que não manifestam o transtorno mental. Novamente, não se descarta algum tipo de ingrediente genético e que tais comprometimentos resultem de uma expressão incompleta da doença.“Pode ser genética, mas também pode envolver fatores ambientais ou ser causada pela falta de estímulo ao desenvolvimento da criança decorrente da situação do pai ou da mãe”, diz Angela Terzian. Certos prejuízos têm origem claramente cultural. É provável que as filhas de pacientes não tenham emprego formal porque ainda recai mais sobre as mulheres a responsabilidade de cuidar do pai ou da mãe doentes. A situação conjugal se explica pelo preconceito e pelo isolamento. “Persiste o estigma de ‘filho de paciente doente mental’ que prejudica as relações sociais”, afirma a pesquisadora. Relatos de filhos de pacientes colhidos pela pesquisadora revelam de forma aguda o drama descrito nas estatísticas. São casos como o de Vinícius, de 36 anos, que cuida da mãe doente até hoje: “Não lembro de minha mãe fazendo um carinho comigo. Quando eu tinha 11 anos ela foi internada e fiquei três anos sem ver minha mãe. Não pude estudar, tinha que trabalhar, não tive amigos. Hoje eu cuido dela, ela mora comigo, minha mulher e meus filhos. Tenho minha profissão, mas foi muito sofrimento. Vou vivendo a vida, tentando recuperar a vida que eu perdi lá atrás, vivendo agora...”. Outra entrevistada pela pesquisa, Silvia, de 38 anos, lembrou o drama de sua infância e adolescência, convivendo com o pai vitimado pela doença.

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O objetivo da pesquisa é fornecer dados que ajudem a criar estratégias de saúde pública para as vítimas da esquizofrenia e seus parentes, como o acompanhamento escolar e o acesso ao planejamento familiar

“Quando eu tinha 6 anos meu pai teve uma crise. Ele não trabalhava e ficava em casa cuidando de mim e do meu irmão que tinha 8 anos. Aí ele teve esta crise e deixou a gente sozinho e sumiu. Demorou três dias para a gente saber dele. Ele foi internado e ficou oito meses no hospital. Quando ele estava em casa, a gente ficava triste porque sabia que ele ia brigar com a gente. Não era aquele pai que dava um ou dois tapinhas, dava dez, 12 tapas de verdade, qualquer coisinha que não agradava, ele não conversava... Hoje ele está bem tratado, vai direto no serviço de saúde, toma remédio, faz terapia e aprendeu a fazer tapete. Eu e meu irmão, a gente se reveza pra cuidar dele, mas ele ajuda até a cuidar dos meus filhos. Eu não tenho raiva. O que eu puder fazer, eu faço por ele hoje.” Um dos objetivos da pesquisa de Angela é fornecer dados e reflexões que ajudem a criar estratégias de saúde pública voltadas para as vítimas da esquizofrenia e suas famílias.“As políticas públicas até hoje não contemplam a idéia de que os pacientes expressam o desejo e

exercem o direito de ter relacionamentos amorosos e sexuais, de constituir família, de ter filhos e de cuidar plenamente de suas crianças. Talvez isso seja um resquício do tempo em que não se dava aos pacientes outra alternativa senão a internação em instituições manicomiais”, diz Angela Terzian. “Atualmente, com o acesso a tratamentos que garantem uma melhor qualidade de vida e maior convívio social, é preciso compreender que não basta dar remédio. O paciente tem o direito de escolher se quer ou não ser pai ou mãe e o sistema de saúde precisa se preparar para dar uma resposta a essa demanda, seja oferecendo esquemas de planejamento familiar, seja monitorando os filhos e promovendo intervenções sociais para compensar os prejuízos identificados nas pesquisas. Se eles têm dificuldades de aprendizagem, por exemplo, é preciso trabalhar isso nas escolas”, afirma a pesquisadora. “G ente da roça” - Dois relatos de pacientes colhidos pela pesquisadora são reveladores da realidade dos pacientes no interior do Brasil e de como isso pode ser mudado. Um deles é o da paciente A.A.C., de 54 anos, que, a despeito da doença, teve 11 filhos: “A gente da roça é assim, tem um montão de filhos, todo mundo ajuda a cuidar, os parentes, conhecidos... Eu tive meu primeiro filho com 18 anos, depois com 19, 21 e 22. Aí eu fiquei doente e tive que me tratar e só fui ter meu quinto filho com 28 anos. No último, que tem agora 18 anos, o médico disse que era melhor eu parar, porque do jeito que ia eu podia ainda ter muito mais filhos. Eu não queria, mas o marido achou melhor. Todos têm saúde e agora eles ajudam a cuidar de mim”. O segundo relato é de M.P.N., de 23 anos, casada e mãe de um filho planejado, que mantém a doença sob controle com a ajuda de medicamentos: “Fiquei grávida há dois anos, já estava tomando remédio para esquizofrenia, um remédio novo, eu estava muito bem e eu e marido planejamos a gravidez. Meu filho é lindo, normal, superesperto. Nós queremos mais filhos, mas agora ainda não sei quando. Eu estou estudando, preciso arrumar um emprego para ajudar em casa. Atualmente estou tomando pílula anticoncepcional e os remédios pra minha doença”. ■ PESQUISA FAPESP 137

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Classificação racial segregacionista inibiu miscigenação nos Estados Unidos

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s Estados Unidos orgulhamse de haver assimilado um caldeirão de culturas e raças – o melting pot é freqüentemente apontado como uma das alavancas do progresso da grande potência. Daí a surpresa do geneticista Sérgio Danilo Pena, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ao analisar seqüências de DNA mitocondrial de norte-americanos caucasianos armazenados no banco de dados de uso forense do FBI, a polícia federal do país, em busca da origem genética dos brancos dos EUA. O pesquisador encontrou um índice de miscigenação excepcionalmente baixo.Apenas 3,1% das amostras revelavam algum traço de ascendência africana ou indígena. Foram analisadas amostras de 1.387 indivíduos.Apenas 31 exibiam traços genéticos asiáticos e ameríndios, enquanto outras 13 tinham linhagens de DNA africanas. O número contrasta fortemente com os achados em populações que se declaram brancas no Brasil e em países da América Latina e também na população negra norte-americana. Nesses grupos, a miscigenação se caracteriza por um componente africano mais evidente do lado materno, mas uma contribuição européia no lado dos genes masculinos, um sinal também de exploração sexual das mulheres negras pelos homens brancos na época da escravidão. No artigo “Sex-biased gene flow in african americans but not in american caucasians”, recém-publicado na revista brasileira Genetics and Molecular Research, Pena e sua equipe do Departamento de Bioquímica e Imunologia da UFMG dão uma resposta singela para a discrepância: a miscigenação é baixa por causa da rígida classificação racial seguida nos Estados Unidos, herança dos tem-

pos de escravidão e segregação explícita. Tal critério vigorou do século XVIII até o final da década de 1960, quando foi declarado inconstitucional, mas ainda influencia os costumes do país. Conhecida como one drop rule – uma única gota de sangue negro torna o indivíduo negro –, essa forma segregacionista de categorização segundo a qual mesmo um distante trisavô negro (a proporção é de 1/32 de ascendência africana) define que o indivíduo é negro, a regra foi adotada com o pretexto de decidir o destino dos filhos de escravos com brancos, mas se tornou uma das pedras fundamentais do racismo nos EUA ao desestimular fortemente os casamentos inter-raciais. “Faz todo o sentido que aquelas amostras tenham traços tão escassos de antepassados negros ou índios. Se contivessem, não teriam sido classificados como brancos”, afirma o pesquisador. No Brasil escravista, ao contrário, a definição de raça dependia muito da aparência do mestiço – se fosse claro, ganhava até o direito de morar na casagrande.“As práticas sociais dos Estados Unidos e da América Latina divergem consideravelmente. Esta pesquisa mostra que a classificação racial pode desempenhar um papel importante nas relações inter-raciais e que a genética molecular é uma aliada poderosa das ciências sociais”, diz Pena. T raços do rosto - A pesquisa com os

caucasianos norte-americanos deixou uma lição para o professor da UFMG: “É mais fácil explicar um fenômeno do que prevê-lo”. No final dos anos 1990, ele também não fazia idéia do que iria encontrar quando começou a pesquisar a origem genética de 200 brasileiros brancos, de diversas origens e regiões do


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Negro é expulso de vagão de trem na Filadélfia: desenho de autor desconhecido publicado em 18 5 6 na revista Illustrated London N ew s

BIBLIOTECA DO CONGR ESSO DOS ESTADOS UNIDOS

país. Como marcadores biológicos, os pesquisadores examinaram a variação do cromossomo Y, exclusivamente masculino, e o DNA mitocondrial, encontrado nas mitocôndrias, e considerado um dos indicadores mais precisos da herança materna. Verificou-se que, entre os brancos brasileiros, cerca de 60% das linhagens maternas são de origem ameríndia ou africana, enquanto a vasta maioria, mais de 95%, das linhagens paternas dos brancos brasileiros é de origem européia – portanto, menos que um em cada 20 brasileiros brancos tem um ascendente paterno negro ou índio. Entretanto, pelo lado materno, seis em cada dez têm ascendência negra ou índia. Mesmo que não se traduza necessariamente em traços do rosto ou na cor da pele, a miscigenação entre os povos formadores do Brasil é mais intensa do que se imaginava. A pesquisa foi divulgada em 2000, durante as comemorações dos cinco séculos da chegada dos portugueses. Mais recentemente estudou-se a herança genética encontrada nos negros brasileiros (ver Pesquisa FAPESP 134). A análise do material genético feita por Pena e Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mostra: 85% dos pretos brasileiros têm uma ancestral africana, mas só 47% guardam linhagens africanas herdadas de homens – o restante tem ancestrais europeus do lado masculino. ■

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preço do mel vai aumentar muito nos próximos anos”, avisa a vendedora Raquel ao oferecer o produto numa feira livre em Campinas, no interior de São Paulo. O assunto em torno de sua barraca era o programa de televisão que dias antes alertava para o desaparecimento em diferentes regiões do mundo das abelhas da espécie Apis mellifera, responsáveis pela produção comercial de mel. Detectado inicialmente na Europa em 2006, o problema já se alastrou pelos Estados Unidos – onde atinge 30 dos 50 estados, o suficiente para ser considerado uma epidemia – e começa a ser observado, embora em menor escala, nas regiões produtoras de mel no Brasil. “A morte em massa de abelhas não é novidade e acontece periodicamente”, conta Constantino Zara Filho, presidente da Associação Paulista de Apicultores Criadores de Abelhas Melíficas Européias (Apacame). Mas a mortandade observada nos últimos meses nos Estados Unidos e na Europa chama a atenção pelo número de colméias dizimadas: alguns criadores tiveram mais de 80% das colméias completamente esvaziadas por causa da morte súbita das abelhas. No Brasil, David de Jong, especialista em patologia de abelhas do Departamento de Genética da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (FMRPUSP), investiga os indícios desse distúrbio do colapso das colônias (CCD, na sigla em inglês) e constata que houve um agravamento nas doenças das abelhas no

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país, com alguns dos sintomas de CCD. Mas até o momento o impacto foi menor porque, diz ele, “temos uma abelha mais rústica e resistente”. Algumas características dessa síndrome deixam os especialistas intrigados. Uma delas é que as abelhas simplesmente somem sem deixar sinais – não são encontradas mortas na entrada da colméia como acontece em outras doenças. Outra característica é que num primeiro momento a síndrome elimina somente abelhas especializadas em buscar pólen e néctar. “Inicialmente encontramos a rainha, pouquíssimas abelhas adultas e bastante cria (larvas e pupas), mas, sem as adultas para coletar alimento e cuidar da cria, a colônia rapidamente definha e morre”, explica De Jong. Insetos preciosos - A morte súbita de colméias inteiras não é um problema só para quem gosta de própolis e mel. Abelhas são essenciais para a polinização de vários tipos de planta. Por isso uma queda populacional muito acentuada pode gerar graves conseqüências ecológicas e econômicas. Nos Estados Unidos, o valor dos cultivos que dependem de polinização pelas abelhas é estimado em mais de US$ 14 bilhões – só as plantações de amêndoa da Califórnia mobilizam 1,4 milhão de colméias, alugadas pelos agricultores durante a floração. Segundo De Jong, há poucos anos o aluguel de cada colméia por um mês custava cerca de US$ 40. Agora esse preço varia entre US$ 150 e US$ 200. “E faltam

colméias”, garante. Por isso os apicultores americanos têm importado milhares de abelhas australianas por ano. São vários os suspeitos pela mortandade das abelhas. Já se acusaram – sem o apoio de dados científicos – a radiação de telefones celulares e o pólen dos cultivos transgênicos. Mais recentemente um esforço conjunto de pesquisadores tem levado a causas mais palpáveis, tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Uma delas chegou recentemente às Américas – o protozoário Nosema ceranae, descoberto em abelhas asiáticas, que De Jong afirma já ser comum no Brasil, nos Estados Unidos e em partes da Europa. Uma outra espécie do mesmo protozoário que ataca o sistema digestivo das abelhas – Nosema apis – já é um velho conhecido dos insetos fabricantes de mel. “Esse parasita sempre existiu no Brasil e pode matar”, diz Zara Filho. “Mas não é preciso medicar as abelhas porque as abelhas africanizadas do Brasil têm uma boa resistência à infecção por esse microorganismo.” As abelhas do lado de cá do Atlântico não têm defesas contra o protozoário asiático e por isso, mesmo que não morram, se tornam mais suscetíveis a outras infecções, sobretudo por vírus. Outro agressor identificado em colméias dizimadas é o ácaro Varroa destructor, que ataca até 10% das abelhas africanizadas brasileiras. Em condições normais a abelha usada na apicultura brasileira – que surgiu pela mistura de uma subespécie européia e uma africana – consegue resistir ao ácaro. De Jong afir-


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C O LM É IA S À S M O S C A S Síndrome misteriosa causa sumiço de abelhas na América e na Europa

ma que, embora quase todas as colméias do Brasil estejam infectadas por esses parasitas, o ideal é não medicar as abelhas. A suscetibilidade a doenças tem um forte componente hereditário e, ao introduzir medicamentos, o apicultor favoreceria a sobrevivência das abelhas que sucumbem a esses problemas. “A natureza faz seleção para resistência a doenças melhor do que nós, pois mantém a variabilidade genética, eliminando somente os menos aptos”, lembra. Nesse caso, se o apicultor quiser dar uma mão à natureza, De Jong propõe substituir a rainha das colméias doentes – como ela é a mãe da colônia inteira, uma nova rainha trará à colméia um conjunto genético diferente, que pode contribuir para eliminar os genes responsáveis pela suscetibilidade a doenças. Os parasitas, no entanto, não parecem ser os únicos responsáveis pela eliminação das abelhas. O consumo de grãos de pólen tóxicos como o barbatimão e infecções virais também têm uma parcela de culpa. De Jong vem investigando todos esses aspectos em colaboração com Dejair Message, da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, num projeto que investiga doenças virais de abelhas. Eles têm visto também que por aqui essa síndrome ainda não completamente explicada afeta não só Apis mellifera, mas abelhas sociais nativas, conhecidas como meliponíneas ou abelhas-sem-ferrão. Os sintomas apresentados pelas abelhas agonizantes, porém, levam De Jong

a suspeitar de que novos inseticidas usados na agricultura – o fipronil, vendido no Brasil como Regent, e o imidacloprid, Gaucho – sejam os inimigos mais implacáveis das colméias. Ambos são extremamente tóxicos para abelhas, razão por que a França, aliás, proibiu a comercialização do fipronil. Síndrom e nacional- Uma mortalidade inesperada aconteceu no meliponário Nogueira Neto em São Simão, interior de São Paulo, e foi observada dentro do projeto coordenado por Vera Lúcia Imperatriz Fonseca, da USP, que investiga o papel de abelhas nativas na polinização. De Jong examinou as colméias e abelhas mortas e não achou vestígios de doenças. “Os sintomas das abelhas que vi morrer foram similares aos observados na morte decorrente de inseticida: tentando voar, girando em círculos”, relata. Ele conta que pelo menos quatro espécies de abelhas nativas foram afetadas, além de colméias de abelhas africanizadas numa fazenda próxima. “Não há doença que atinja tantas espécies ao mesmo tempo”, afirma o geneticista da USP. Zara Filho, da Apacame, atribui o aumento do efeito de inseticidas sobre abelhas à expansão das plantações de canade-açúcar.“O pesticida é pulverizado de avião e se espalha por uma área ampla.” No Brasil as reclamações ainda são esparsas, mas vêm se tornando mais freqüentes. A Apacame registrou mortandades em vários pontos do interior de São Paulo, distantes uns dos outros. De

acordo com De Jong, os relatos de esvaziamento das colméias semelhantes ao colapso das colônias até agora se restringem às áreas onde a apicultura é intensiva: de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul.“Estive recentemente no Nordeste e lá não parece haver problemas”, conta o pesquisador. Até o momento, o colapso das colméias é um quebra-cabeça cujas peças não se encaixam completamente. Embora haja semelhanças entre os sintomas observados no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, os especialistas ainda não podem afirmar que se trate da mesma síndrome. Para Fábia Mello, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Meio-Norte (Embrapa Meio-Norte), os rumores de sumiço de abelhas no Rio de Janeiro, Minas Gerais e no sul do país podem ser reflexo dos alarmes que vêm de outros países.“É importante que boatos sejam imediatamente desmentidos, pois deixam apicultores alarmados e acabam por prejudicar a comercialização do produto. Agora, caso seja diagnosticado o colapso das colméias no Brasil, é necessário que a notícia seja divulgada oficialmente aos apicultores e pesquisadores”, diz Fábia. “Estamos acompanhando de perto a situação nos Estados Unidos. Também interessa a eles acompanhar o que se passa aqui para compreender o que acontece por lá”, diz De Jong, que há pouco participou de reuniões de especialistas nos Estados Unidos – e mesmo assim continua longe de uma conclusão final. ■ PESQUISA FAPESP 137

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stima-se que mais de um terço da massa de seres vivos na Terra sejam organismos microscópicos que ocupam todos os cantos, dentro e fora de outros organismos. Na maior parte das vezes são bactérias compostas por uma única célula. Mas nem sempre. Agora a equipe de Ulysses Lins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acaba de descrever na revista International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology uma bactéria descoberta na lagoa de Araruama, no litoral do estado do Rio de Janeiro, que batizaram de Candidatus Magnetoglobus multicellularis. Como o nome indica, são bactérias esféricas com propriedades magnéticas – chamadas de magnetotáticas – e compostas por muitas células. “Não é a primeira bactéria multicelular nem a única”, explica Lins,“o que ela tem de novo é o fato de não ter uma etapa unicelular no seu ciclo de vida, não ser capaz de responder ao campo magnético quando as células se separam do microorganismo e apresentar uma motilidade que é uma característica do conjunto e não das células individuais”. A alta salinidade das águas da lagoa de Araruama, uma das maiores lagunas costeiras hipersalinas do mundo, é um desafio à vida. Ainda assim, bactérias conseguem colonizar essas águas hostis,

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que são por isso um prato cheio para microbiólogos como Lins. O grupo recolhe amostras de água que guarda em frascos fechados até que se formem camadas visíveis, com água no alto e sedimento mais espesso no fundo. Periodicamente a equipe põe uma gota de sedimento numa lâmina e a encaixa em um microscópio, com um ímã ao lado. As bactérias magnetotáticas têm em seu interior minúsculas partículas metálicas que se alinham e funcionam como se fossem ímãs internos. Essa bússola as ajuda, por exemplo, a distinguir para que lado estão as camadas mais profundas e menos oxigenadas do sedimento, seu ambiente favorito. No hemisfério Sul elas nadam sempre para o sul, então um ímã com a extremidade norte apontada para a lâmina atrai as bactérias, que são assim flagradas pelas lentes do microscópio. Para em seguida estudá-las em detalhe é preciso purificar a amostra, o que os pesquisadores fazem prendendo um pequeno ímã à lateral de um tubo de plástico que contém sedimento e enxaguando o aparato com água esterilizada da lagoa. Depois desse processo só bactérias magnetotáticas restam no tubo, e os microbiólogos podem então observá-las ao microscópio eletrônico e filmá-las ao microscópio óptico.

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B ússolas vivas Lagoa carioca abriga bactérias magnéticas formadas por várias células

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Foi com essa técnica que Lins e sua equipe, que inclui outros pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas no Rio de Janeiro e do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), puderam descrever em detalhe as características de Candidatus Magnetoglobus multicellularis. Eles encontraram um conjunto único de arquitetura celular, ciclo de vida, propriedades magnéticas, movimentação coordenada e tipo de hábitat. Além disso, dados genéticos confirmam que a bactéria deve ser classificada como uma nova espécie.Isso ainda não aconteceu, como denota o “Candidatus” antes do nome proposto, pois para que a espécie seja validada é preciso que seja isolada do ambiente e mantida em meio de cultura. Uma tarefa mais difícil do que parece, que ainda não foi bem-sucedida para Candidatus Magnetoglobus multicellularis.“Provavelmente não sabemos cultivar porque não conhecemos o metabolismo dessas bactérias e portanto não sabemos muito de suas necessidades nutricionais”, explica o pesquisador da UFRJ. D etalhes revelados – A bactéria carioca tem a forma de uma esfera oca de mais ou menos 4 milésimos de milímetro,composta por várias células organizadas em espiral. O número de células é variável, entre dez e 40, e todas elas têm contato com o meio externo e com a cavidade interna.Essas células são cobertas de flagelos, minúsculos rabinhos que ao balançar funcionam como remos e fazem o organismo avançar.Se cada célula fosse uma bactéria independente, os flagelos bateriam cada um à sua maneira e o conjunto ficaria no mesmo lugar ou se moveria de forma aleatória. Não é o que acontece com essas habi-


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tantes da lagoa de Araruama. Cada uma das células tem por volta de 30 flagelos,um total de até 1.200 por bactéria,e todos funcionam de maneira sincronizada. Lins acredita que o segredo esteja em junções especializadas que ligam as células e de alguma forma permitem que elas se comuniquem entre si. É surpreendente, porque esse tipo de estrutura até agora não tinha sido descrito em bactérias – só em organismos mais complexos. Cada uma das células contém entre 60 e cem magnetossomos, esferas ligeiramente ovaladas que medem menos de 1 milímetro dividido por 10 mil. São eles os responsáveis por orientar a bactéria, a tal bússola interna. Na fase de reprodução cada célula multiplica ou aumenta suas partículas internas, inclusive os magnetossomos, e em seguida se divide em duas. A esfera, então com o dobro de células, forma uma constrição que afinal dá origem a duas esferas idênticas, cada uma com metade das células da bactéria-mãe. Todo o processo acontece sem que a cavidade interna tenha contato com o meio exterior e, ao contrário de outras bactérias multicelulares, Candidatus Magnetoglobus multicellularis nunca passa pelo estágio de uma célula.Assim como o movimento, a reprodução exige coordenação entre as células e é isso que torna única a descoberta da lagoa de Araruama. Se

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uma célula é isolada do organismo ela simplesmente morre, o que comprova a necessidade do conjunto íntegro para que possa viver. Essas características eram, até agora, consideradas exclusivas de eucariontes, o tipo de organismo multicelular de que fazem parte todos os seres vivos que se vê a olho nu. R um os bacterianos – Candidatus Mag-

netoglobus multicellularis até agora mostrou ter quatro tipos diferentes de locomoção. Em um campo magnético uniforme os pesquisadores viram o que chamaram de movimento livre, em que as bactérias nadam em linha reta ou em espiral. Já quando estão na borda da gota em que são observadas ao microscópio, elas giram sobre seu próprio eixo: é a rotação. Na interface entre a água e o ar, no alto da gota, elas “caminham” (caminhada é o termo usado pela equipe de Lins) em trajetórias complexas, sempre com a mesma face para a frente. Mas o movimento que os pesquisadores consideraram mais peculiar foi o de fuga, também chamado de pinguepongue, em que a bactéria recua rapidamente e depois avança em outra direção. É tentador imaginar que a descoberta surpreendente possa revelar como se deu a transição entre as primeiras bactérias e os organismos mais complexos, nos primórdios da evolução. Tentador mas nem sempre correto, alerta Lins.“Acredita-se que a multicelularidade tenha surgido várias vezes, de maneiras independentes, ao longo da evolução da vida, em bactérias ou em organismos eucariontes. As bactérias multicelulares são uma dessas incursões”, explica o microbiólogo. Ele não descarta que as bactérias multicelulares sejam semelhantes às que deram origem ao longo trajeto evolutivo que levou a insetos, vertebrados, plantas e outros organismos visíveis. Mas não foi necessariamente assim. “É perfeitamente possível imaginar que uma célula eucariótica (não-bacteriana) se tenha associado a outras do mesmo tipo para formar um organismo pluricelular, de maneira independente das bactérias.” ■

Ao m icroscópio eletrônico de varredura, a bactéria m agnética de Araruam a m ostra suas células

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> o Sol e a Terra, que os astrônomos chamam de unidade astronômica – para compará-los com os resultados de suas simulações de computador. “Demorou para descobrirmos como usar o programa de forma criativa para extrair informação dos dados”, conta a astrofísica. A cem unidades astronômicas de distância do Sol, as Voyagers têm mais 50 unidades astronômicas pela frente até o nariz da heliopausa. Hoje se encontram na vizinhança de outra região interessante, quase esférica, onde o vento solar se choca contra o gás do meio interestelar. Ali, a velocidade do vento cai abruptamente, de 400 para 40 quilômetros por segundo.“É como as águas das cataratas da foz do Iguaçu, cuja velocidade é drasticamente reduzida depois da queda”, compara Merav. Em dezembro de 2004, a Voyager 1 adentrou o hemisfério norte dessa região turbulenta, onde a cachoeira de vento solar encontra as águas calmas interestelares. O turbilhão e o campo magnético do vento solar concentrado aceleram partículas eletricamente carregadas, que a Voyager 1 deveria detectar em quantidades iguais de todas as direções ao se aproximar dessa região. Contrariando a expectativa, porém, a sonda recebeu mais partículas no seu lado esquerdo. O modelo de Merav mostrou que os dados da Voyager 1 só podiam ser explicados se a

ASTRONOMIA

O Sol que nos protege Estudo identifica forma da bolha magnética que envolve o Sistema Solar | I GOR Z OLNERKEVIC

A

astrofísica brasileira Merav Opher, da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, descobriu como se parece o Sistema Solar visto de longe. A imagem de “nossa casa na galáxia”, como ela descreve, é uma espécie de imensa bolha que contém o Sol e os planetas e funciona como um escudo que impede a invasão de raios cósmicos galácticos, um dos tipos mais energéticos de partículas, mortais para astronautas em viagens interplanetárias. Essa bolha, chamada de heliopausa, é inflada pelo vento de partículas emitidas pelo Sol no meio do gás extremamente rarefeito que existe entre as estrelas. Na viagem do Sistema Solar ao redor do núcleo da galáxia, a heliopausa choca-se contra uma gigantesca nuvem interestelar de gás e poeira em movimento que cruza seu caminho. Como resultado, esse choque faz a heliopausa assumir uma forma semelhante à dos cometas que viajam contra o vento solar, com um nariz, à frente, seguido de uma longa cauda. Em parceria com Edward Stone, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), Merav publicou em maio na Science um mapa do nariz da heliopausa, analisando como o meio interestelar o distorce. A tarefa exigiu mais do que o esforço da análise de dados. De 2001 a 2004, Merav trabalhou no Laboratório de Propulsão a Jato da agência espacial norte-americana (Nasa), no Caltech, e atravessou o país diversas vezes, da Califórnia, no extremo oeste, até a Universidade de Michigan, na região dos Grandes Lagos. O objetivo era aprender com Tamas Gombosi a usar um programa de computador desenvolvido por ele, capaz de simu-

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lar em três dimensões a interação entre campos magnéticos e partículas eletricamente carregadas. Após o aprendizado, Merav adaptou o programa para reproduzir as condições físicas da fronteira do Sistema Solar e convenceu Stone, físico experimental veterano avesso a novas colaborações e diretor científico da missão Voyager, a trabalhar no modelo teórico dela. “Stone percebeu que precisava examinar a teoria mais de perto se quisesse entender melhor os dados das Voyagers”, diz Merav. Da mesma forma, ela precisava da experiência dele com os dados da Voyager 1 e 2 – atualmente a uma distância do Sol cem vezes maior que a observada entre

Escudo solar Nuvem interestelar Heliopausa

Voyager 1 Sistema Solar

Voyager 2 Zona de choque

Campo magnético interestelar deforma a heliopausa, bolha inflada pelo vento solar que reduz a incidência de raios cósmicos nos planetas


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forma de esfera da zona de choque fosse meio amassada. O mais surpreendente é que a deformação é causada pelo campo de forças magnéticas do meio interestelar que envolve a heliopausa. Ninguém esperava que algo tão distante pudesse influenciar a zona de choque. Simulações – Para entender a deformação na zona de choque, Merav e Stone tinham de determinar a direção precisa do campo magnético em nossa vizinhança interestelar. Debruçaram-se, então, sobre uma faixa no céu em que as Voyagers detectaram sinais de rádio vindos da heliopausa, onde o campo magnético solar e o galáctico se tocam. Em suas simulações, Merav variou a inclinação do campo magnético interestelar até que a faixa de emissões de rádio coincidisse com o observado pelas Voyagers.“Tentei cerca de 90 modelos diferentes”, conta. Estudos anteriores sugeriam valores muito distintos para a inclinação do campo magnético do meio interestelar em relação ao plano do Sistema Solar – um indicava 60 graus e outro, 90. O trabalho de Merav e Stone resolveu a contradição, mostrando que os experimentos anteriores sugeriam valores extremos possíveis para a inclinação do campo. Segundo Merav, com a precisão e os dados disponíveis, só se pode afirmar que o campo magnético interestelar naquela região está inclinado entre 60 e 90 graus. Essa inclinação do campo empurra tanto a heliopausa quanto a zona de choque para dentro do Sistema Solar em seu hemisfério sul. Dados enviados pela Voyager 2, que viaja ao sul do Sistema Solar, confirmam o modelo de Merav. Em 2006 a sonda começou a dar sinais de que se aproxima da zona de choque, a uma distância menor que a que seria de esperar caso essa região não fosse deformada. Os cálculos indicam que a Voyager 2 deve adentrar essa região ainda este ano, 9 unidades astronômicas antes do que a Voyager 1, no hemisfério norte. Estudar a região de influência do Sol, a heliosfera, e a sua fronteira ensina muito sobre outras estrelas. “É a única maneira de saber como as estrelas interagem com seu meio”, explica Merav. A sensibilidade inesperada da heliosfera ao campo magnético galáctico descoberta por ela indica que, em estrelas com campos magnéticos mais fortes, os efeitos devem ser ainda mais intensos. ■


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Biblioteca de Revistas Científicas disponível na internet www.scielo.org

Notícias O novo Sistema SciELO de Publicação cobre todo processo de publicação de revistas científicas, desde a submissão de manuscritos até a publicação em linha na coleção SciELO, incluindo o seguimento de uso e impacto assim como links com fontes de informação nacionais e internacionais. Baseado no princípio de código aberto Open Journal Systems (OJS), o sistema foi desenvolvido pelo Public Knowledge Project e utiliza a Document Type Definition (DTD) do Pubmed Central para a estruturação dos textos.

Ambiente

Chuva ácida Em razão da crescente demanda de utilização do aço inoxidável na arquitetura como material de revestimento externo e considerando a preocupação dos órgãos de controle ambiental com a poluição no meio urbano,foram avaliados os efeitos da chuva ácida nas condições superficiais do aço inoxidável colorido e na lixiviação de cromo para o ambiente.Esse trabalho gerou o artigo “Efeito da chuva ácida em aços inoxidáveis coloridos”, de Célia Regina de Oliveira Loureiro,Ciomara Rabelo de Carvalho,José Antônio Cardoso e Rosa Maria Rabelo Junqueira,pesquisadores da Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais/Cetec. Foram realizados ensaios de imersão de chapas de aço inoxidável colorido e natural em solução simulada de chuva ácida, sendo avaliadas a liberação de cromo para a solução e a alteração da aparência superficial das amostras em tempos de exposição de 1,3,7,14 e 28 dias.Nas amostras de aço inoxidável,com e sem coloração, foram medidos a cor e o brilho e,para soluções ácidas remanescentes, realizadas análises de cromo total e cromo hexavalente.Os resultados obtidos mostraram que,independentemente do tempo de contato do aço inoxidável colorido com a solução de chuva ácida, houve preservação da aparência do material,sem alteração das condições superficiais,e o teor de cromo hexavalente na solução se apresentou em níveis muito inferiores aos estabelecidos pelo Conselho de Política Ambiental de Minas Gerais. REVISTA ESCOLA DE MINAS – VOL. 60 – Nº 1 – OURO PRETO – JAN./MAR. 2007 www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo137/ambiente.htm

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Endocrinologia

Balanço energético A prevalência da obesidade vem crescendo nas últimas décadas.Associada a esse fato tem-se observado uma mudança no padrão dietético da população em geral,no que diz respeito a um maior consumo de carboidratos.Segundo alguns autores,o índice glicêmico (IG) dos alimentos afeta a composição e o peso corporal.O artigo “Efeitos do índice glicêmico no balanço energético”,de Ana P. M.Guttierres e Rita de Cássia G.Alfenas,da Universidade Federal de Viçosa,uma revisão da literatura,teve como objetivo avaliar os efeitos do IG sobre apetite,saciedade e composição corporal.A partir das evidências científicas analisadas foi possível constatar que a maioria dos estudos que atribuem efeitos positivos ao IG é cercada de limitações metodológicas.Estudos bem delineados não observaram benefícios do IG sobre os parâmetros citados acima.Diante disso conclui-se que o IG apresenta pouca aplicabilidade na prática clínica,como uma ferramenta capaz de controlar a saciedade,reduzir o apetite e,conseqüentemente,a prevalência de obesidade. ARQUIVOS BRASILEIROS DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA – VOL. 51 – Nº 3 – SÃO PAULO – ABR. 2007 www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo137/endocrinologia.htm

Nutrição

Auto-serviço O objetivo do estudo “Atitudes de risco do consumidor em restaurantes de auto-serviço”foi avaliar as possibilidades de contaminação dos alimentos no balcão de distribuição,causada por usuários de Unidades Produtoras de Refeições.O trabalho é de autoria de Renata Puppin Zandonadi, Raquel Braz Assunção Botelho,Karin Eleonora Oliveira Sávio,Rita de Cássia Akutsu e Wilma Ma-


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ria Coelho Araújo, do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília.A coleta de informações foi realizada em dez Unidades Produtoras de Refeições do Distrito Federal, via observação direta de 12 atitudes de risco cometidas pelos consumidores no período de outubro de 2003 a setembro de 2004. O horário selecionado para observação das atitudes foi o de maior movimento de cada unidade e a amostra foi sistematizada a cada cinco consumidores. O instrumento para coletar os dados relacionava as possíveis atitudes de risco de contaminação no momento em que cada consumidor montava sua refeição. Os resultados obtidos demonstram que, em 96% dos casos observados, os usuários não costumavam lavar as mãos antes de se servirem. Observou-se também que não houve preocupação com o uso exclusivo de utensílios de servir por parte de 50% desses consumidores, enquanto 56% conversavam ou falavam sobre as preparações. Conclui-se que é necessário conscientizar os consumidores para evitar a contaminação de alimentos e as intoxicações alimentares.

Literatura

Um escritor nato “Jorge Luis Borges: história social de um escritor nato”, artigo de Sérgio Miceli, da Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas e Letras da Universidade de São Paulo, examina condicionantes e práticas sociais que viabilizaram a trajetória literária do escritor argentino, autor que teria logrado apagar as marcas de sua vida pessoal. Por meio da análise dos textos da juventude, das relações familiares e do campo literário argentino no início do século XX, o artigo explicita novas chaves para compreender a obra borgiana. FOTOS EDUARDO CESAR

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NOVOS ESTUDOS – CEBRAP – Nº 77 – SÃO PAULO – MAR. 2007 REVISTA DE NUTRIÇÃO – VOL. 20 – Nº 1 – CAMPINAS – JAN./FEV. 2007

www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo137/literatura.htm

www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo137/nutricao.htm ■

Etnografia

Álcool e índios

Neurociência

Estigma da epilepsia

O texto “Quando, como e o que se bebe: o processo de alcoolização entre populações indígenas do alto rio Negro, Brasil” analisa o processo de alcoolização em populações indígenas do alto rio Negro,Amazonas. Baseando-se num enfoque compreensivo sobre o que se bebe, como se bebe e quando se bebe, a etnografia privilegia o estudo do contexto sociocultural e histórico no qual se dá o consumo de álcool e a interpretação nativa sobre a questão; discute as transformações históricas nas formas de beber e suas correlações com as permanências e mudanças da vida social. Os pesquisadores Maximiliano Loiola Ponte de Souza, do Centro de Pesquisa Leônidas & Maria Deane, Fundação Oswaldo Cruz, Manaus, e Luiza Garnelo, da Universidade Federal do Amazonas, concluem que as formas atuais de consumo de álcool estão ligadas à adoção de comportamentos e valores engendrados na fronteira das relações interétnicas e às ressignificações da cultura tradicional que hoje enfrenta dificuldade para oferecer parâmetros para a ação e para a simbolização da vida social pelas gerações mais jovens, diante dos desafios do mundo contemporâneo.

Pessoas com epilepsia sofrem com o estigma da doença, muitas vezes mais prejudicial que a própria condição em si. A epilepsia é uma das condições que mais afetam o comportamento e a qualidade de vida não só da pessoa que tem a doença, mas também da família. Por isso, os especialistas dizem que a epilepsia causa um impacto biopsicossocial na vida das pessoas. Porém esse aspecto do estigma é pouco abordado, especialmente no Brasil, onde superstições, atitudes negativas e falta de informação dificultam a relação da comunidade com a epilepsia. O artigo “Percepção de estigma na epilepsia”, de Paula Teixeira Fernandes e Li Min Li, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, teve o objetivo de discutir aspectos relevantes do tema: conceituação e modelos de estigma na área médica e social; estigma e qualidade de vida; fatores operantes; aspectos neurobiológicos e estratégias para se lidar com o estigma na epilepsia. Pelo fato de ser um conceito multifatorial, o combate ao problema requer também uma intervenção ampla, envolvendo as áreas médica, psicológica e social. O entendimento do processo contribui para uma mudança da interpretação social da epilepsia.

CADERNOS DE SAÚDE PÚBLICA – VOL. 23 – Nº 7 – RIO DE JANEIRO – JUL. 2007

JOURNAL OF EPILEPSY AND CLINICAL NEUROPHYSIOLOGY – VOL. 12 – Nº 4 – PORTO ALEGRE – DEZ. 2006

www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo137/etnografia.htm

www.revistapesquisa.fapesp.br/scielo137/neurociencia.htm

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M UNDO Fç BIO COLOMBINI

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P lantação de sorgo:nova variedade é alternativa de baixo custo para produção de álcoolcom bustívelna Índia

> Á lcool de sorgo Um futuro concorrente para o álcool combustível feito de cana-de-açúcar está surgindo na Índia. Uma destilaria indiana do estado de Andhra Pradesh produziu, em junho, o primeiro carregamento de etanol fabricado a partir do talo de uma nova variedade de sorgo açucareiro híbrido, uma planta da mesma família da cana, as gramíneas. Os pesquisadores do Instituto Internacional de Pesquisa Agrícola para o Semi-Árido dos Trópicos (Icrisat), responsáveis pela inovação, garantem que o biocombustível apresenta diversas vantagens sobre o álcool da cana, como baixo custo de manutenção da plantação – um quinto do valor dos canaviais – e o reduzido consumo de água, 58

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equivalente a um oitavo do que se gasta na cultura similar. Além disso, quando misturado com a gasolina, o etanol de sorgo emite menos poluentes que o de cana. Um fator importante é que o novo híbrido produz o mesmo teor de açúcar em todas as estações do ano. Confiante na inovação, uma associação de agricultores indianos planeja plantar grandes áreas do novo híbrido.

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> Energia sem fios Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dos Estados Unidos, conseguiram enviar energia elétrica de um ponto a outro de uma sala e acender uma lâmpada de 60 watts, sem usar nenhum fio ou cabo. Na experiência, que teve a participação do físico brasileiro André Kurs, duas

bobinas de cobre, uma ligada à rede elétrica e a outra à lâmpada, fizeram o papel de transmissores. A bobina envia a energia e forma um campo magnético que oscila a uma determinada freqüência. Como as duas bobinas são desenhadas para reverberar na mesma freqüência, o campo magnético induz uma corrente na bobina receptora, acendendo a lâmpada. Agora os pesquisadores têm como desafio aumentar a distância entre as bobinas sem prejudicar a transmissão de energia. Eles também precisam melhorar a eficiência da transmissão, porque de cada 100 watts enviados pela bobina emissora apenas 55 chegam à receptora. Quando o sistema for aperfeiçoado, será possível carregar, simultaneamente, as baterias de vários aparelhos.


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> D iam ante

piloto várias informações, como a energia ainda disponível nas baterias e a velocidade de deslocamento do veículo.

quântico

> Minicélula a com bustível

ILUSTR AÇ Õ ES LAUR ABEATR IZ

Inglaterra, além da Universidade de Stuttgart, na Alemanha, além da empresa britânica Element 6. Ela vai fornecer os diamantes sintéticos e vários níveis de pureza produzidos pela técnica de deposição química de vapor (CVD).

> Motocicleta do Sol Com um visual futurista e exótico, a motocicleta movida a energia solar criada pela empresa espanhola Sun-Red é mais uma alternativa para redução dos

gases causadores do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. O protótipo, premiado no 34º Salão Internacional do Automóvel de Barcelona, em junho deste ano, possui painéis solares que atingem uma área de 3,1 metros quadrados quando o veículo está parado. A energia captada, garante o fabricante, é suficiente para uma autonomia aproximada de 20 quilômetros a uma velocidade máxima de 50 quilômetros por hora. Um sistema computadorizado e um visor de LCD instalado no painel da moto dão ao

Uma célula a combustível com o volume de apenas 1 centímetro cúbico, o tamanho de um cubo de açúcar, foi recentemente apresentada por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Industriais Avançadas do Japão, Aist na sigla em inglês. O artefato, do tipo Sofc, de solid oxide fuel cell, ou célula a combustível de óxido sólido produzida com material cerâmico, é apontado como um gerador de eletricidade de grande potencialidade para um futuro próximo, abrindo a perspectiva para o desenvolvimento de fontes de geração de energia limpa e ultracompactas com capacidade de corrente e tensão diversas. As minicélulas poderão suprir energia para os mais diversos equipamentos. Testes realizados pelos pesquisadores japoneses confirmaram a geração de 2 watts de potência por centímetro cúbico. SUNR ED

Num futuro ainda distante, os diamantes sintéticos poderão ser os elementos básicos para computadores quânticos, candidatos a uso da física quântica (que trata das partículas atômicas) no processamento de informações, de forma muito mais rápida e eficiente. Para estudar a função do diamante na computação quântica, pesquisadores europeus de institutos de pesquisa e de empresas que são financiados pela Comissão Européia estão reunidos no Engineered Quantum Information in Nanostructured Diamond (Equind), ou Informação Quântica no Diamante Nanoestruturado. Esse grupo pertence a um projeto maior chamado de Programa de Financiamento para Tecnologias Futuras e Emergentes, FET na sigla em inglês, que estuda o potencial de tecnologias futuras e emergentes com possibilidade de impacto na sociedade. Entre as instituições, sob a coordenação da Escola Normal Superior de Cachan, na França, estão a Universidade de Warwick e Universidade de Bristol, na

O painelsolar retrátil,que supre de energia elétrica o m otor da m oto S unR ed,só é acionado quando ela está parada PESQUISA FAPESP 137

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Marca-passo nacional U m a parceria entre o G enius,instituto privado de pesquisa,a D ixtalB iom édica,em presa especializada em soluções para a área m édica,e a D ivisão de B ioengenharia do Instituto do Coração (InCor) resultou no prim eiro chip com ercialbrasileiro para m arca-passos,equipam ento indicado para pessoas com arritm ia cardíaca.Essa é a prim eira etapa do projeto de desenvolvim ento em m icroeletrônica que poderá levar a um produto totalm ente nacional.Agora o projeto está na segunda fase,de desenvolvim ento do protótipo industrial do m arca-passo,que deverá durar 18 m eses.D epois disso será necessário m iniaturizar o protótipo industriale dar início aos testes clínicos para confirm ar sua eficácia.Na década de 1970 o B rasilchegou a dom inar a tecnologia de produção de m arca-passos,m as hoje é totalm ente dependente do exterior.Em 20 0 5 o país im portou, dos Estados U nidos e de países europeus,18 m ilm arca-passos para o Sistem a Ú nico de Saúde (SU S),ao custo de R $ 165 m ilhões,o que corresponde a m ais da m etade da dem anda.A prim eira fase do projeto de desenvolvim ento do produto nacionalcustou R $ 2,5 m ilhões,financiados pela D ixtale pela Financiadora de Estudos e P rojetos (Finep).

> Arte e

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> Mestrado autom obilístico Um curso de mestrado em que o aluno vai desenvolver seu trabalho em conjunto

com profissionais da indústria automotiva é o objetivo de um programa de pós-graduação promovido pela SAE Brasil, associação de engenheiros do setor da R OBOAR TE

Equipamentos que aliam arte e tecnologia têm atraído a atenção dos visitantes na Escola Parque do Conhecimento Sabina, em Santo André, na Grande São Paulo, inaugurada em maio. O espaço de 24 mil metros quadrados tem entre suas atrações uma réplica de um dinossauro em tamanho real, com nove movimentos diferentes e que emite sons programados e controlados. Um pequeno robô que interage com as crianças, um braço robótico de manipulação para jogos em grupo e dois simuladores, uma nave que vai até a serra do Mar mostrando a beleza natural do percurso e um equipamento que simula terremotos e vulcões são os outros aparelhos concebidos e desenvolvidos pela Roboarte Mecatrônica em parceria com a Criato Imagem e Comunicação, para a organização social Amigos da Estação Ciência, que tem como diretor executivo o biólogo geneticista Crodowaldo Pavan.

GENIUS

robótica

C hip para m arca-passo desenvolvido em parceria

mobilidade. O mestrado foi desenvolvido em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Os candidatos devem atuar no setor automotivo e contar com apoio de uma empresa do setor. Mais informações no site www.saebrasil.org.br ou no telefone (11) 3287-2033.

> P rodução de inovações

R obô interativo é atração do P arque do Conhecim ento

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Algumas das mais importantes transformações em curso na operação das empresas e da economia mundial estão analisadas no livro Empresas transnacionais e a internacionalização da P&D, de Rogério Gomes,


lançado pela Editora Unesp. Nas duas últimas décadas, os laboratórios de pesquisa vinculados às empresas transnacionais aumentaram sua participação na produção de inovações e assumiram uma forte posição nas diretrizes a serem seguidas na criação de produtos. As empresas privadas são a fonte de mais de 80% dos recursos comprometidos com a pesquisa e o desenvolvimento nas principais economias. O autor analisa ainda as atividades dos laboratórios de P&D da indústria de equipamentos de telecomunicações e do setor automotivo do Brasil.

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> R esíduos geram energia elétrica

Larvas do m osquito transm issor da dengue

> B ioinseticida contra a dengue

Transform ações m undiais em análise

A cidade de São Sebastião, no Distrito Federal, iniciou em janeiro uma inovadora campanha de combate à dengue. O combate ao Aedes aegypti, mosquito transmissor da doença, foi feito em 20 mil residências apenas com o Bt-horus, bioinseticida desenvolvido pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia,

unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária sediada em Brasília, em parceria com a empresa Bthek Biotecnologia, a partir da bactéria Bacillus thuringiensis. Uma única gota do bioinseticida colocada em 1 litro de água é suficiente para matar as larvas do Aedes em 24 horas. Ao término da campanha, em junho, o índice de infestação, que era de 4%, caiu para 1%.

Caroços de açaí, restos de plantio de soja, milho e algodão e casca de arroz são as matérias-primas testadas e aprovadas para produção de energia elétrica por um gaseificador desenvolvido na Universidade de Brasília (UnB). Ligado a uma bateria, usada apenas para acionar o equipamento, o gaseificador permite a queima e a transformação de biomassa em gás. O equipamento será utilizado dentro do programa Luz para Todos do Ministério de Minas e Energia. A primeira unidade será instalada até o fim de julho em uma comunidade no município de Correntina, no interior da Bahia, e terá capacidade de geração de 5 quilowatts-hora (kWh). Hoje essa comunidade com dez famílias vive com apenas 1 kWh, suficiente para atender a casa do líder local. O gaseificador tem capacidade para gerar até 20 kWh, o suficiente para abastecer 80 famílias.

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D a universidade para a em presa U m colírio à base de insulina desenvolvido por pesquisadores da U niversidade Estadualde Cam pinas (U nicam p),indicado para tratam ento de lesões e síndrom e do olho seco,será produzido pela em presa Increm entha,abrigada no Centro Incubador de Em presas Tecnológicas (Cietec) na Cidade U niversitária.O olho seco é um a doença crônica que,em 9 0 % dos casos,está relacionada à redução da produção de lágrim as ou à deficiência em sua com posição.P elo contrato de licenciam ento de tecnologia,a em presa pode-

rá explorar com ercialm ente o produto por 20 anos,o m esm o período de validade da patente.Ainda são necessários testes clínicos para que o colírio chegue ao m ercado,o que está previsto para ocorrer dentro de cinco anos.O m edicam ento foi desenvolvido pelo oftalm ologista Eduardo Melani R ocha, sob a orientação do professor Lício Velloso,da Faculdade de Ciências Médicas da universidade.

Novo colírio vaicom bater a síndrom e do olho seco

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MICR O EL ET R Ô NICA

F ábrica de chips A produção de circuitos integrados, em Porto Alegre, e sete design houses iniciam a transformação da microeletrônica brasileira M ARCOS

DE

O LIVEIRA

O

início da primavera em setembro poderá marcar também uma nova e esperançosa etapa do setor de microeletrônica no país com a inauguração, prevista até o final do ano, da primeira fábrica de circuitos integrados. Também chamados de chips, esses dispositivos são fundamentais para o funcionamento de todos os equipamentos eletrônicos tanto no processamento como na guarda das informações. A fábrica instalada em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, fica no Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), um empreendimento público formado desde 2003 pelos governos federal, estadual e municipal com a colaboração de várias universidades, além da empresa Motorola. Ao mesmo tempo o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) está incentivando a criação e o funcionamento de sete design houses em instituições de pesquisa brasileiras com o objetivo de desenvolver e desenhar os circuitos que serão impressos nos chips a serem produzidos tanto no Ceitec, já possuidor de uma dessas unidades, como no exterior ou em outras fábricas a serem instaladas no país. Nesse primeiro momento não serão fabricados chips para computadores, laptops e celulares, equipamentos que exigem produtos de ponta, de tamanho menor, feitos atualmente pelas empresas Intel e Advanced Micro Devices (AMD), entre outras. “Os chips fabricados no Brasil terão nível tecnológico de padrão para 85% do mercado nacional e poderão ser


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Nononono em form a de gel elim ina form igas em residências

usados em televisores, inclusive digitais, e em equipamentos de transmissão das emissoras, na indústria automobilística, em sistemas para a área de segurança e para a agropecuária”, diz o engenheiro eletricista Sergio Souza Dias, diretor presidente do Ceitec.“O Centro não vai produzir circuitos com tecnologia de ponta, mas sim dispositivos para aplicações em nichos específicos, com tecnologia viável para competir nesse momento”, explica o professor Jacobus Swart, atual diretor do Centro de Pesquisa Renato Archer (Cenpra) e professor da Faculdade de Engenharia Elétrica da Universidade Estadual de Campinas. Ele participou da elaboração do Programa Nacional de Microeletrônica, apresentado em 2002, que indicou a necessidade de fábricas de chips e de design houses. A produção de chips desenhados e produzidos no país poderá facilitar a industrialização de produtos inovadores idealizados por empresas e pesquisadores brasileiros. “A iniciativa deve facili-

tar a inovação de produtos eletrônicos em áreas diversas. Também representa oportunidade para incorporar conhecimento, formar recursos humanos e tecnologia produzida nas instituições de pesquisa brasileira. Acredito que esse é um passo importante para a geração de um ambiente ou ecossistema de microeletrônica no Brasil. No exterior esse tipo de iniciativa gerou novas empresas. Espera-se que o mesmo aconteça aqui”, diz Swart.

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m dos fatos relacionados à produção de circuitos integrados no Brasil é a diminuição do déficit comercial, que é a exportação menos importação, no setor de eletroeletrônicos. Em 2006, esse déficit foi de US$ 9,5 bilhões. Os componentes elétricos e eletrônicos responderam por 63% dos US$ 18 bilhões do total de produtos importados no setor, segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). Desse total, US$ 3,4 bilhões são especificamente semicondutores. Estimativas

da entidade indicam que o déficit em 2007 deve crescer para US$ 12,3 bilhões. Cenários semelhantes de déficit como esse foram detectados na Índia e na China no início dos anos 1990 e, no decorrer do tempo, os dois países construíram centros de design e fabricação de chips que promoveram o desenvolvimento de infraestrutura e recursos humanos para um complexo de produção de circuitos integrados avançados e demais equipamentos eletrônicos, embora se beneficiem da mão-de-obra barata.“Depois desse início, a Índia recebeu a instalação de uma fábrica da AMD de US$ 3 bilhões e a China, que possui as maiores produtoras mundiais de semicondutores, exportou US$ 180 bilhões em 2004 em produtos tecnológicos (semicondutores mais produtos de consumo final), ultrapassando a Europa, o Japão e os Estados Unidos”, relata Dias. No mundo atual, o mercado de semicondutores gira em torno de US$ 300 bilhões, um montante considerável para nenhum país querer ficar de fora. PESQUISA FAPESP 137

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tes de chips e outros produtos semicondutores, além de serviços correlatos como, por exemplo, o encapsulamento dos chips na fase final da produção.“Em outros locais do mundo a concentração de muitas empresas propicia uma logística mais fácil para todos.” Dias vê com bons olhos também uma possível segunda fábrica de semicondutores que poderá ser instalada em Minas Gerais, na cidade de Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Batizada de Companhia Brasileira de Semicondutores (CBS), ela foi idealizada pelo consultor de empresas Wolfgang Sauer, ex-presidente da Volkswagen do Brasil. Os investimentos dessa possível fábrica devem atingir US$ 500 milhões e as negociações estão sendo feitas com grupos empresariais brasileiros e estrangeiros, com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e os governos federal e de Minas Gerais. “Não será uma competição com o Ceitec, porque eles vão fabricar outros tipos de chips e em alta escala”, diz Dias. A intenção da CBS é produzir alguns tipos de circuitos que atendam a computadores e celulares. A instalação dessa fábrica, que está em negociação, deverá ser beneficiada pela Medida Provisória 352, agora Lei 11.484, aprovada em março pelo Congresso Nacional e em maio pela Presidência da República, que instituiu o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis). A lei fornece incentivos fiscais para a instalação de empresas produtoras de materiais semicondutores no país, como isenção de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins), Contribuição sobre Intervenção no Domínio Econômico (Cide), Programa de Integração Social (PIS) e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). “Essas condições são fundamentais para desonerar os investimentos, e sem elas não é possível conseguir investidores em iguais condições a outros países. 64

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Im pressão dos circuitos no chip contribui para inovação no país

Se uma empresa já possui fábricas num país, é mais fácil, com incentivos fiscais, expandir por lá mesmo. Agora nós temos a possibilidade de discutir, antes nem isso tínhamos”, diz Henrique de Oliveira Miguel, coordenador-geral de microeletrônica do MCT. As facilidades para a implantação de indústrias vinculadas à microeletrônica também estão explicitadas na Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (Pitce), que priorizou quatro setores em 2003, bens de capital, software, fármacos e semicondutores, e no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que deve focar investimentos também nesse setor.

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fábrica de Porto Alegre vai produzir chips importantes para alguns setores específicos, como demonstrou o primeiro chip projetado no Ceitec que foi entregue, para a empresa Altus, de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, em abril deste ano. “Desenvolvemos o chip no nosso centro de design e enviamos o

projeto para uma empresa na Alemanha, que depois nos remeteu o produto pronto. Quando a fábrica estiver terminada, ele poderá ser feito aqui”, diz Dias. O chip será usado em equipamentos de automação, chamados de controladores lógicos programáveis, nas plataformas marítimas da Petrobras. Outro produto que saiu do centro de design do Ceitec foi um sistema de etiqueta eletrônica inteligente chamado de RFID, do inglês radio frequency identification, ou identificador por radiofreqüência. Esse sistema, composto por um chip, microantenas e leitores de freqüência, permite o armazenamento de informações como, por exemplo, localização, preço, data, hora e as características do produto. A entrada e a leitura dessas informações são feitas por microleitores via sinal de rádio ou antenas instaladas em qualquer ambiente. Um exemplo prático do uso do RFID, que em breve poderá se tornar realidade, é a colocação de produtos num carrinho de super-


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mercado e não precisar tirá-los no momento de passar no caixa. Apenas a passagem do carrinho pelo terminal já seria suficiente para registrar as compras, porque cada produto teria uma etiqueta RFID. Automaticamente, o produto comprado terá sua baixa dada no estoque do supermercado.

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tualmente as etiquetas RFID estão em uso mais em empresas de logística, na movimentação de carga, mas podem também ser utilizadas para rastrear pacotes, equipamentos em trânsito e animais, além de livros em bibliotecas, bagagens em aviões, automóveis, ingressos e passaportes. O projeto de RFID do Ceitec foi realizado em conjunto com o Grupo de Sistemas Embarcados (GSE) da Faculdade de Informática da PUC-RS, onde foi criada a empresa Innalogics, instalada na incubadora do TecnoPUC, pólo tecnológico da universidade, que vai utilizar a etiqueta no setor de logística. A produção na fábrica do Ceitec deverá começar no primeiro semestre de 2008, quando os equipamentos estiverem instalados e testados. A fábrica possui uma sala limpa com controle preciso de partículas no ar, de classe 100, onde se tolera apenas 100 partículas maiores que 0,5 mícron (1 mícron é igual a 1 milionésimo do metro) por pé cúbico de ar. Esse ambiente, com temperatura e pressão controladas também, é essencial para a fabricação de semicondutores. A maior parte dos equipamentos do Ceitec foi doada pela Motorola com apoio da sua empresa Freescale, da área de semicondutores. “A Motorola estava transformando uma fábrica em Austin, nos Estados Unidos, e doou os equipamentos em 2002”, conta Dias.“Em 2000,

numa estratégia da empresa, a Motorola resolveu transferir para outros países, como Índia e China, parte da produção de semicondutores. O governo do Rio Grande do Sul teve interesse e começou a negociar a instalação da fábrica. O problema é que, se fossem comprados no mercado, os equipamentos valeriam R$ 15 milhões, enquanto a infra-estrutura necessária para produção ficava em R$ 150 milhões.” O cenário começou a mudar em 2003, quando o MCT decidiu investir pesado na microeletrônica e o Ceitec, já criado, solicitou o auxílio de consultores, inclusive a própria Freescale, para atualizar alguns equipamentos e melhorar o processo de produção. Para montar a fábrica foi necessário um amplo entendimento institucional gaúcho e do governo federal. O MCT investiu R$ 200 milhões na construção da fábrica e na formação da design house. Uma área de 5,6 hectares, cerca de 50 mil metros quadrados, foi doada pela prefeitura de Porto Alegre, avaliada em cerca de R$ 5 milhões. O governo do estado fez projetos de infra-estrutura de energia elétrica e de água, num valor que atinge quase R$ 4 milhões. Também contribuíram recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) no valor de R$ 7 milhões, não reembolsáveis, e bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de R$ 2 milhões.

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ara fabricar os chips, o Ceitec vai importar as lâminas de silício com alto nível de pureza. Com o design pronto, é feita a impressão dos circuitos na lâmina, a chamada fase de prototipagem, a parte mais nobre e cara de todo o processo. Em seguida, o corte que vai separar cada pedacinho da lâmina em um chip. A última etapa é o encapsulamento, que por enquanto será feito fora do país. O Ceitec está se preparando para produzir 4 mil lâminas de chips por mês, que devem reverter num faturamento de R$ 40 milhões por ano. O centro de design deve resultar em mais R$ 20 milhões anuais. “A nossa idéia é empatar a receita e a despesa em três a quatro anos”, diz Dias. Atualmente o Ceitec é uma empresa pública. Quem sabe no futuro poderemos abrir o capital.” Inicialmente, o Ceitec vai ter de 200 a 250 funcionários,

CEITEC

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C hip R FID projetado no Ceitec, acim a. Abaixo, chip encapsulado

sendo que desses 120 estarão na design house. “Repatriamos seis profissionais brasileiros que trabalhavam em empresas de microeletrônica na Alemanha, Estados Unidos, França e Portugal. São pessoas com conhecimento técnico e comercial muito bons.” A mão-de-obra especializada é uma preocupação do setor que está se instalando aqui.“Faltam profissionais de projeto no Brasil, embora se paguem bons salários”, diz Miguel, do MCT. Os profissionais que estão saindo das universidades estão sendo bem aproveitados. “Em setembro teremos 80 projetistas nas sete design houses brasileiras apoiadas pelo MCT.” Ao todo, elas receberam R$ 12 milhões desde 2005. Além do Ceitec, as primeiras unidades estão instaladas no Cenpra, em Campinas, no Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), em Pernambuco, no Centro Tecnológico do Pólo Industrial de Manaus (CT-Pim), no Amazonas, no Laboratório de Sistemas Integráveis Tecnológico (LSITec) ligado à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), na capital paulista. O Laboratório para Integração de Circuitos e Sistemas (Lincs) do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene), em Recife, e o Centro Werner von Braun, de Campinas, em São Paulo, completaram recentemente as sete houses.“Esperamos um crescimento considerável de projetos de chips e que, no futuro, o Brasil possa inclusive exportálos”, diz Swart, do Cenpra. ■ PESQUISA FAPESP 137

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Fonte de luz em um a das estações de trabalho do LNLS

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M ergulho no

universo invisível Acelerador de partículas faz dez anos, aumenta número de equipamentos e amplia parcerias com empresas D INORAH E RENO


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uas novas linhas de luz mais potentes, destinadas a experimentos na área ambiental, de avaliação de eficácia de catalisadores, indispensáveis para acelerar determinadas reações químicas nos processos industriais, e de pesquisas sobre estruturas de proteínas são algumas das novidades do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), de Campinas, no interior paulista, ao completar dez anos de atividades neste mês de julho. Esses dois equipamentos se somam a mais 11 já instalados, totalizando 13 estações de trabalho. Além das instituições de pesquisa e universidades, várias empresas também se utilizam dos sofisticados equipamentos do laboratório, por meio de convênios ou de pesquisas sob encomenda. No final de junho, surgiu outro anúncio importante para o LNLS. O Diamond Light Source, do Reino Unido, formalizou uma parceria com o laboratório para desenvolvimento de pesquisas com luz síncrotron. A parceria abre a possibilidade para a realização de programas de pesquisa e desenvolvimento técnicos conjuntos, além de intercâmbio entre os pesquisadores dos dois laboratórios. Os objetos de estudo da luz síncrotron são os mais variados, desde estruturas orgânicas, como proteínas, até sistemas inorgânicos de dimensões nanométricas (medida que corresponde a 1 milímetro dividido por 1 milhão de vezes), examinadas em detalhes com o auxílio de um acelerador de partículas capaz de produzir luz em um amplo espectro eletromagnético, incluindo a luz visível, os raios X, o ultravioleta e o infravermelho. A luz síncrotron é emitida por elétrons altamente energéticos que circulam em um acelerador circular, ou anel de armazenamento, de onde ela é distribuída para as 13 estações de trabalho onde os pesquisadores fazem os experimentos. Concebido em 1987 para atuar como uma instituição aberta e multidisciplinar, o laboratório, vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, foi construído pelos próprios pesquisadores brasileiros. Para isso, engenheiros e pesquisadores fizeram várias visitas técnicas de curta duração a laboratórios no exterior e também receberam visitas de colegas estrangeiros. Foram necessários

dez anos de trabalho para projetar e construir a fonte de luz síncrotron, o coração do laboratório. O equipamento ficou pronto no final de 1996, e em julho de 1997 o laboratório começou a receber os primeiros usuários. “Em 2006, mais de mil pesquisadores trabalharam no laboratório em 683 projetos de pesquisa”, diz o físico José Antonio Brum, diretor-geral do LNLS. Cinco anos antes, em 2001, eram 267 projetos. Cerca de 15% dos usuários são estrangeiros, principalmente da América Latina, mas também da África do Sul e até mesmo da Europa e dos Estados Unidos. Uma equipe de 16 pesquisadores próprios, responsável pelos equipamentos e pelo apoio aos usuários externos, desenvolve programas de pesquisa. O crescimento no número de usuários é também reflexo da ampliação nas instalações do síncrotron. Entre 1999 e 2006, por exemplo, o laboratório passou de oito para 11 linhas de luz e neste ano ganhou outras duas. Uma delas é a de absorção de raios X, destinada principalmente a pesquisadores da área de ciências dos materiais.“Nós já temos uma instalação desse tipo, mas a demanda chega a ser três a quatro vezes maior que a nossa capacidade de atendimento”, diz Brum. A nova linha tem um fluxo de raios X mais intenso, que permite fazer outros tipos de experimento na área ambiental, de estudos de materiais magnéticos e de catalisadores químicos. A outra linha destina-se a estudos da estrutura de proteínas. A diferença em relação à fonte de luz também usada para essa finalidade, uma das primeiras a serem instaladas no laboratório, é que, além de ter um maior fluxo de fótons, possui uma instrumentação mais sofisticada. É a primeira linha do síncrotron alimentada por um dispositivo de inserção, chamado wiggler, capaz de emitir muito mais luz. Com maior fluxo foi possível desenvolver uma técnica de difração para a cristalografia de proteínas que permite estudar moléculas cuja estrutura tridimensional é completamente original.“É a primeira vez que será possível fazer esse tipo de experimento na América Latina, o que vai proporcionar um salto qualitativo na pesquisa de biologia e de biotecnologia”, diz Brum.

Além dessas duas, está em fase de finalização uma terceira linha, na faixa do espectro do visível e ultravioleta, que permite olhar para o tempo de vida de alguns processos que envolvem proteínas. “É uma linha diferenciada, que consegue olhar para a dinâmica de alguns sistemas biológicos e químicos”, diz o diretor do LNLS. A grande inovação é o fato de ela ser produzida por um ondulador de polarização elíptica (EPU), equipamento fabricado pelos pesquisadores do LNLS que recebeu em maio o prêmio Inventor do Mês, concedido pela Autodesk, empresa norte-americana de softwares de engenharia. O ondulador de 6 toneladas é o primeiro fabricado no Brasil. Fonte com petitiva – Controlando os diversos tipos de luz, os pesquisadores podem “enxergar” objetos em escalas invisíveis.“Particularmente na faixa de raios X duros, uma luz com comprimento de onda mais curto, que penetra mais fundo na matéria, somos uma fonte muito competitiva em relação às fontes convencionais instaladas nos laboratórios de menor porte”, diz o físico Pedro Tavares, diretor associado do LNLS e membro da equipe pioneira que desenvolveu o síncrotron brasileiro. Isso porque o usuário pode sintonizar exatamente o que deseja, mudando o comprimento da onda. Essa é uma característica muito peculiar dos síncrotrons. “O que pode demorar duas semanas para ser analisado em outros lugares aqui fazemos em minutos ou horas”, ressalta Tavares. Como o fluxo de luz produzido é muito grande no síncrotron, é possível ver em nível atômico tanto materiais orgânicos (proteínas, por exemplo) como inorgânicos (semicondutores, ligas metálicas e outros). “Entendendo como funcionam suas propriedades, podemos fazer a síntese do material por conta de determinada propriedade que se quer explorar”, diz Brum. Um convênio assinado com a Petrobras no final do ano passado, por exemplo, tem como objetivo avaliar materiais, com ênfase em catalisadores, indispensáveis para o refino de petróleo. Isso significa não apenas fazer a caracterização do material pronto, mas principalmente entender o que ocorre durante o processo de síntese.“Estamos PESQUISA FAPESP 137

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Anel de arm azenam ento do síncroton tem 9 0 m etros de circunferência

começando a desenvolver experimentos específicos nas linhas de luz para fazer a caracterização in situ. Isso significa que, ao mesmo tempo que o material passa por suas transformações, ele é também analisado com raio X, o que permite correlacionar as modificações ocorridas com a sua eficiência como catalisador”, ressalta o diretor do laboratório. O LNLS também tem um convênio com a Oxiteno para a caracterização de catalisadores desenvolvidos pela empresa. O primeiro contrato foi assinado em 2005 e renovado em 2006. “Analisamos várias famílias de catalisadores em vários estágios”, diz Daniela Zanchet, pesquisa-

dora do LNLS. Alguns deles ainda estão na fase de laboratório e outros estão bem próximos da etapa final. Um deles já saiu da escala piloto e foi para a indústria. A Oxiteno fabrica catalisadores tanto para uso próprio como para outras empresas. “Dentro dessas famílias em que estamos trabalhando em parceria, a empresa faz a síntese do material e a catálise, enquanto nós fazemos a caracterização”, diz Daniela. A tecnologia síncrotron permite entender com precisão o que ocorre com as partículas durante a reação. A geração de conhecimento resultante dessa parceria é importante para a empresa identificar rapidamente e solucionar

problemas que possam surgir futuramente com o produto. Enquanto na escala inicial de laboratório os testes duram algumas horas e são feitos com reagentes ultralimpos, na indústria o catalisador funciona em condições completamente diferentes e por vários anos. Nos casos de amostras muito pequenas ou diluídas, o fluxo de luz do síncrotron é essencial para a obtenção de resultados precisos. “Fizemos um estudo de análise de água e sedimentos na represa Billings e constatamos a presença de cromo, níquel e chumbo em concentrações bem elevadas, acima do limite estabelecido pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb)”, diz a professora Silvana Moreira, da Faculdade de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenadora da pesquisa. O trabalho foi feito na linha de fluorescência de raios X, que permite quantificar os metais mesmo em quantidades ínfimas. Um outro estudo do mesmo grupo avaliou a concentração de metais nos anéis de crescimento das árvores, que incorporam a poluição ambiental ao longo dos anos. “Como as amostras são muito pequenas, com massa de 20 a 30 miligramas, dificilmente o método convencional conseguiria detectar os metais pesados”, diz Silvana. O estudo comparou árvores em uma região com pouco fluxo de veículos e outra com tráfego intenso na região de Campinas. “Nesse caso, notamos, além dos poluentes, que a concentração de chumbo diminuiu a partir de 1990, quando começou a vigorar a lei proibindo o uso dessa substância como aditivo da gasolina”, relata a pesquisadora. Além da fonte de luz, o LNLS conta com um conjunto adicional de infra-estrutura para pesquisa, como o Centro de

Elétrons percorrem curvas e retas A luz síncrotron é gerada num anelde arm azenam ento com 9 0 m etros de circunferência,form ado por retas e curvas. P roduzidos por um acelerador de partículas,feixes de elétrons se deslocam num tubo de vácuo a velocidades próxim as à da luz.O s elétrons são defletidos por ím ãs dipolares,em itindo a luz síncrotron.Esse gerador de luz síncrotron em ite um a luz branca, com todas as faixas do espectro.Além da luz visível,agrupa de form a condensada outras ondas eletrom agnéticas que não são detectadas pelo olho hum ano,com o o raio X e as radiações 68

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infraverm elha e ultravioleta.A luz,que saipor diversos pontos distribuídos ao redor do anel,é distribuída para as estações de trabalho.As 13 linhas de luz são os equipam entos que ficam acoplados ao acelerador circular de elétrons e recebem a luz síncrotron da m áquina.Além de 12 ím ãs dipolares distribuídos em torno do anelde arm azenam ento,que fazem a luz circular,dois dispositivos de inserção — um a série de ím ãs que produzem desvios nas retas do grande tubo — foram instalados para estim ular a em issão de luz.


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Biologia Molecular Estrutural (Cebime), que faz parte do Centro de Biotecnologia Molecular e Estrutural (CBME), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP. No Cebime as pesquisas estão concentradas em três temas. Um deles trata das proteínas de Trypanosoma cruzi, agente causador da doença de Chagas, que atinge cerca de 5 milhões de brasileiros. O projeto, feito em colaboração com o Instituto de Biologia Molecular do Paraná, ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e mais cinco universidades, além do Instituto Pasteur, na França, tem como objetivo analisar a função e a estrutura das proteínas que são produzidas pelo protozoário diferencialmente em cada fase do ciclo de vida do parasita. Com isso, os pesquisadores esperam identificar as proteínas que controlam as mudanças de fase. “Posteriormente, explorando o fato de que algumas proteínas ligam pequenas moléculas, teremos a possibilidade de modificálas para reprimir a função de uma proteína que pode levar à inibição da propagação do parasita”, diz o pesquisador Nilson Zanchin, do Cebime. O segundo tema tem como objetivo identificar, inicialmente, os genes que têm papel importante na geração e manutenção de leucemias e, numa segunda fase, caracterizar a função das proteínas codificadas por estes genes, para gerar formas de neutralizá-las. O trabalho é feito em colaboração com o Centro Infantil Boldrini, de Campinas. O terceiro tema diz respeito à interação entre bactérias e parasitas de plantas, como a Xanthomonas axonopodis citri, que provoca o cancro cítrico, e a Xylella fastidiosa, causadora de doenças nos laranjais. Ao compreender a forma como as bactérias infectam as plantas cítricas, os pesquisadores abrem caminho para tentar bloquear a infecção provocada pelo invasor. No síncrotron estão as linhas de luz onde são coletados os dados de difração de raios X para resolução da estrutura. Para isso é necessário primeiro obter um cristal dessa proteína. Em geral, o processo completo envolve a clonagem da proteína. Depois ela é purificada e são feitos ensaios de cristalização, necessários para organizar as moléculas das proteínas em três dimensões no cristal. Os cristais, da ordem de 100 micrômetros, ou um décimo de milímetro, são estuda-

dos com um feixe de raios X de alta intensidade. Mas o processo para chegar aos cristais não é fácil.“O estudo de uma proteína pode ser equivalente a uma tese de doutorado”, diz Zanchin. Algumas proteínas demoram dois anos para cristalizar, outras cinco anos e para algumas os pesquisadores não conseguem completar o processo. Quando isso ocorre, é possível usar um método alternativo para o estudo da sua estrutura, baseado em equipamentos de ressonância magnética nuclear que têm centenas de vezes o campo magnético da Terra. Processos industriais - As pesquisas

no síncrotron englobam grande diversidade de temas. Na área de nanotecnologia, por exemplo, a microscopia eletrônica complementa os estudos feitos nas linhas de luz. No laboratório de microscopia são feitos estudos de física e química com nanotubos de carbono, nanopartículas metálicas para catalisadores, semicondutores e células a combustível, além de pesquisas sobre crescimento de pontos quânticos em colaboração com outros laboratórios. Um dos estudos feitos entre 2004 e 2006, por exemplo, foi encomendado e pago por um conglome-

rado de empresas norte-americanas e européias, grandes fabricantes de produtos usados nos processos industriais de soldagem, por intermédio de um escritório de advocacia dos Estados Unidos. “Fizemos um estudo dos vapores resultantes dos processos industriais que envolvem soldagem de materiais. Eles carregam alguns elementos metálicos que podem ser prejudiciais à saúde dos trabalhadores, como o manganês, causador de uma doença chamada manganismo”, diz Antonio José Ramirez, pesquisador do Laboratório de Microscopia Eletrônica. O estudo consistiu na caracterização dos vapores que, ao serem expelidos nos processos industriais, se condensam e formam nanopartículas sólidas. No caso em estudo, elas eram compostas de um núcleo de magnetita (óxido de ferro) dopada com manganês. “Descobrimos que elas tinham uma camada externa de óxido de silício que funciona como uma cápsula de proteção, minimizando o efeito do manganês, o que pode explicar a falta de vínculo com o aparecimento da doença”, diz Ramirez. Ainda são necessários outros estudos físicos, químicos e biológicos para entender melhor esse fenômeno. ■ LNLS

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Cristais de proteína da Xylella fastidiosa, que causa doença nos laranjais PESQUISA FAPESP 137

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> ENG ENH AR IA AG R ÍCO L A

M orte por desidratação Biopesticida à base de sacarose e óleo de soja elimina pragas da agricultura

Y URI VASCONCELOS

U

m biopesticida capaz de controlar diversas pragas agrícolas sem causar danos ao ambiente e com diversas vantagens em relação aos agrotóxicos convencionais foi desenvolvido nos laboratórios da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Os resultados laboratoriais e no campo mostraram a eficiência do produto e despertaram o interesse da empresa paulistana Technes Agrícola, que já firmou um contrato de transferência da tecnologia com a universidade. O produto deverá estar disponível para os agricultores brasileiros em cerca de três anos. “O biopesticida é feito a partir de fontes renováveis, não é tóxico a mamíferos e, portanto, não oferece riscos à saúde de quem manipula o produto ou consome os alimentos protegidos por ele. É também biodegradável, não polui o ambiente e não interfere no desenvolvimento da planta”, explica o químico Maurício Boscolo, professor do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), da Unesp de São José do Rio Preto, no interior paulista, que coordenou os estudos de desenvolvimento do praguicida. O produto é um composto da classe dos ésteres de sacarose, substâncias compostas pela reação de um ácido, no caso os ácidos graxos do óleo de soja, e açúcar. O processo utiliza a sacarose da cana-de-açúcar e os compostos formados são denominados como sucroésteres. Segundo Boscolo, todos os testes realizados até então mostraram que, apesar

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de ser produzido com reagentes comuns e de origem vegetal, o biopesticida é eficiente, possui grande potencial econômico e não gera resíduos ao longo do processo industrial. No contrato assinado entre a Unesp e a Technes, além da transferência de tecnologia também está garantida a cooperação técnica para produção em larga escala do praguicida com a empresa, que é especializada no desenvolvimento de fertilizantes orgânicos e minerais, suplementos e outros produtos para o campo. O acordo prevê um repasse, de porcentual não divulgado, sobre a venda dos produtos, e a construção, por parte da empresa, de um novo laboratório no Ibilce, além da reforma do Laboratório de Ecologia Aplicada da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), no campus de Jaboticabal, que também

O PR O J ETO D esenvolvimento de derivados de sacarose.Síntese e estudo de suas propriedades físico-químicas M O D AL ID AD E

Programa de Apoio a Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes C O O R D EN AD O R

MAUR ÍCIO BOSCOLO – Unesp IN V EST IM EN TO

R $ 149.238 ,9 9 e US$ 8 9.374 ,06 (FAP ESP )

tem pesquisadores participantes do desenvolvimento do biopesticida, num valor total de R$ 155 mil. “O produto é muito bom e gostaríamos de colocá-lo no mercado rapidamente. Mas estimamos que ele só começará a ser vendido em três anos. Esse é o tempo médio para se conseguir o registro de um novo pesticida nos ministérios da Saúde, da Agricultura e do Meio Ambiente”, diz Edson Tsuzuki, sócio da Technes Agrícola. O preço final do produto e o nome comercial ainda não estão definidos, mas Tsuzuki garante que ele terá um valor competitivo. O volume inicial de produção, segundo estimativas da empresa, será de 5 mil a 10 mil litros por mês. Proteção de gordura -A principal ca-

racterística do praguicida é ser um detergente ou tensoativo, substância capaz de reduzir a tensão superficial quando dissolvida em água. Ele age diretamente na cutícula protetora do corpo de certas pragas, como ácaros e alguns insetos, que possuem um esqueleto externo (exoesqueleto) com uma fina capa de gordura, uma proteção natural cuja principal função é evitar a perda de água. Os estudos realizados pelo grupo de Boscolo, formado também pelo engenheiro agrônomo Odair Aparecido Fernandes, professor da FCAV, e pelo biólogo Reinaldo Feres, professor do Ibilce, demonstraram que as pragas estudadas definham após a pulverização com sucroésteres. Exames de microscopia revelaram que isso acontece porque o exoesqueleto foi afetado e, por conseqüência,


FOTOS UNESP

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como por exemplo: Calacarus heveae, Tehouve perda de água.“Eles morrem por tâncias petroquímicas, são iônicos. Os tranychus urticae e Tetranychus ogmodesidratação”, diz Boscolo. “Nosso biopesquisadores também queriam desenphallos, que atacam as seringueiras, planpesticida atua da mesma maneira que os volver polímeros e outros derivados.“Cotas ornamentais e lavouras de amendetergentes usados para lavar louça. Enmo sabíamos que alguns sucroésteres endoim, respectivamente. quanto estes dissolvem a gordura dos contrados em vegetais apresentavam atipratos, o nosso dissolve a gordura das vidade biológica, surgiu a idéia de testar pragas, além de possuir um efeito adesios produtos que estávamos desenvolvenC ontrole am pliado - Uma das primeivo que imobiliza alguns insetos e aracdo na forma de controladores biológiras empresas a se beneficiar do novo bionídeos, como os ácaros.” cos”, diz Boscolo. pesticida foi a Athena Mudas, de São José Outra importante característica da Os primeiros testes de atividade biodo Rio Preto, que fatura US$ 6 milhões substância é a ação seletiva, que atinge lógica foram realizados com a moscaexportando mudas de plantas ornamenpreferencialmente os organismos danobranca (Bemisia tabaci), considerada tais para mais de dez países da América sos às plantações.“Ele pode ser usado na uma das principais pragas do século XX do Norte e da Europa. Ao longo de 2006, fruticultura, por exemplo, sem provocar e responsável por prejuízo de dezenas de ainda durante o desenvolvimento da a morte de abelhas na faixa de concentramilhões de dólares no país. Ela tem alto substância, o biopesticida foi testado, isoção do produto utilizada para o contropoder de destruição e capacidade de ladamente ou em conjunto com outros le das pragas”, afirma Boscolo. Não é posadaptar-se a mais de 700 tipos de culpesticidas convencionais, e mostrou-se sível dizer ainda quais os grupos de intivo, como plantas ornamentais, soja, alcapaz de controlar várias pragas, espesetos ou de aracnídeos em que o biopesgodão, feijão, melão, tomate, batatacialmente a mosca-branca e o ácaro-raticida será eficiente.“Não jado (Tetranychus urtifizemos testes com forcae). “Quando utilizamigas, por exemplo. Samos o produto sozinho, bemos, em relação aos percebemos que os efeiácaros, que o produto age tos são sentidos no loncom maior eficiência nago prazo. Já quando o queles classificados como empregamos com outros fitófagos, que se alimenpesticidas, vimos que ele tam de plantas, do que potencializa a ação denos ácaros predadores, les”, afirma o engenheiro que atacam insetos, posagrônomo José Carlos suidores de exoesqueleto Salvador Sobrinho, coormais resistente.” denador do departaDe acordo com o pesmento técnico da Athequisador, não existe nena. Com o uso da subsnhum outro produto fatância, a Athena espera bricado no Brasil com as reduzir em cerca de US$ mesmas características 100 mil o prejuízo anual do seu biopesticida.“Até com mudas infestadas onde sabemos, existe um por pragas. produto similar produO uso do biopesticizido nos Estados Unidos, da por parte da Athena é mas que emprega solfeito em caráter experiventes tóxicos em seu mental. A Unesp assinou Estufa de plantas da em presa Athena livre de ácaros: na página anterior, saudável e, abaixo, m orto pelo biopesticida processo de fabricação, um contrato por seis megerando resíduos”, desses, em julho de 2006, que taca Boscolo. foi renovado por mais Assim como costuma ocorrer com um ano em janeiro de 2007. Pelo contradoce, entre outros. Testes de laboratório muitas inovações, a descoberta do bioto a universidade fornece o biopesticie em cultivos protegidos, coordenados pesticida aconteceu quase por acaso.“O da e a Athena paga os custos de produpelo agrônomo Odair Aparecido Ferobjetivo inicial do projeto, que começou ção e duas bolsas para pesquisadores do nandes, mostraram um controle muihá cinco anos, era outro. Eu havia receprojeto, uma de mestrado e outra de inito eficiente. “Entre 90% e 100% da pobido uma bolsa de Jovem Pesquisador da ciação científica. A aplicação do produpulação do inseto – que, apesar do noFAPESP e estudava o desenvolvimento to é monitorada e serve para avaliação me, é do grupo das cigarras – foi elimide produtos derivados de sacarose em da eficiência do projeto. Os resultados nada. Em alguns casos, a morte da prauma subárea da química chamada sutambém servirão para aprovaga se deu em duas horas após a aplicacroquímica”, conta. Inicialmente, a inção do biopesticida nos ção do biopesticida”, diz Fernandes. Em tenção era produzir detergentes não-iôórgãos que fornecem seguida, foram feitos testes, igualmennicos biodegradáveis. Aqueles utilizados licença de uso para te bem-sucedidos pelo biólogo Feres, na cozinha, produzidos a partir de subsesse tipo produto. ■ com ácaros-praga de diversas culturas,


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> B IO Q U ÍMICA

R eagente neurológico Butantan firma contrato de licenciamento de patente de anticorpo com a empresa Millipore

N

este mês, dois pequenos frascos de 10 mililitros (ml) contendo anticorpos policlonais produzidos no Instituto Butantan, em São Paulo, serão enviados para a empresa Millipore, nos Estados Unidos, especializada na distribuição mundial de reagentes de uso científico. O produto é inédito e vai servir para pesquisas na área de neurologia, inclusive em testes para o desenvolvimento de futuros medicamentos. O anticorpo reconhece seletivamente a enzima Endooligopeptidase A, também conhecida como Eopa ou Endo A, ou ainda como Nudel, sigla de nuclear distribution eslement-like, ou elemento símile de distribuição nuclear. Essa molécula participa do transporte intracelular no sistema nervoso central e no rearranjo de neurônios durante a formação do embrião. “No sistema nervoso central, a Endo A é encontrada nos neurônios e existem evidências de que ela tenha um papel importante na esquizofrenia, na lissencefalia, também conhecida como a doença do cérebro liso, e em doenças neurodegenerativas”, explica a farmacêutica Mirian Hayashi, professora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do projeto da patente financiado pela FAPESP. Boa parte desse trabalho foi desenvolvida no Instituto Butantan, onde Mirian trabalhou por mais de dez anos, nos laboratórios do Centro de Toxinologia Aplicada (CAT), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP.

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A Endo A tem duas funções conhecidas. Uma é se ligar a outras proteínas expressas nos neurônios do sistema nervoso, permitindo o transporte intracelular e o rearranjo desses neurônios no cérebro. Assim, a grave patologia conhecida como cérebro liso, caracterizada pela ausência de reentrâncias nesse órgão, chamadas de giros corticais, apresenta disfunção na ligação da Endo A com outra proteína chamada Lis1, geneticamente relacionada a essa enfermidade. “Os neurônios não se distribuem na superfície do cérebro e os giros corticais não são constituídos durante a formação do embrião”, explica Mirian. Dessa forma, a criança morre no útero ou nasce com profundo retardo mental e geralmente não passa dos 3 anos de vida. Os pesquisadores sabem que a ligação da Endo A com uma outra proteína chamada DISC1, relacionada à esquizofrenia, tam-

O PR O J ETO Solicitação de patente da Endooligopeptidase A M O D AL ID AD E

P rograma de Apoio à P ropriedade Intelectual (Papi) C O O R D EN AD O R A

MIR IAN HAYASHI – Unifesp IN V EST IM EN TO

R $ 34 .261,67 e US$ 57.4 17,78 (FAP ESP )

bém apresenta um papel fundamental para o mecanismo molecular dessa doença. Os pacientes afetados expressam uma proteína com mutação que não se liga com a Endo A. Essa não-ligação também está diretamente relacionada com a segunda função da molécula, que é a quebra de peptídeos (fragmentos de proteínas). Tudo indica que essa atividade está relacionada à fisiopatologia de doenças neurológicas, embora não tenha sido possível, até agora, identificar quais peptídeos são destruídos pela Endo A no cérebro de um organismo vivo. D escoberta inicial- “A Nudel pode es-

tar envolvida, inclusive, em doenças como o mal de Alzheimer e o mal de Parkinson, porque ela é importante para o transporte celular e pode influir na conexão entre neurônios”, diz o professor Antonio Carlos Martins de Camargo, coordenador do CAT. Ele foi o pesquisador que descobriu esta enzima, ainda em 1967. Embora tenha sido o primeiro a descrever a Endo A e também a Endo B, igualmente identificada pela sua capacidade de degradação de neurotransmissores, e a escrever quase uma centena de artigos científicos, além de ter orientado dezenas de teses sobre essas proteínas, a atenção da comunidade científica para essa enzima especificamente só ocorreu em 2000, quando pesquisadores norte-americanos e japoneses isolaram a mesma proteína e publicaram uma série de artigos na revista Neuron sobre o achado, além de renomearem a Endo A como Nudel. Tudo is-


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so sem citar Camargo e sua equipe. Mas, em 2002, depois de uma revisão na literatura, pesquisadores da indústria farmacêutica inglesa Merck Sharp & Dohme (MSD) reconheceram a importância do grupo brasileiro e pediram uma consultoria para o desenvolvimento de estudos com a Nudel. O resultado desse trabalho foi apresentado em conjunto, três anos depois, em um artigo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), onde foi comprovado que a Endo A e a Nudel eram a mesma proteína. Foi demonstrado também o papel dessa molécula na migração dos neurônios e comprovada a atividade enzimática de quebra de peptídeos e neuropeptídeos dessa proteína. Os estudos em parceria com a Merck só não continuaram porque a empresa fechou o centro de pesquisa na Inglaterra, em razão dos problemas financeiros enfrentados após a suspensão da comercialização do antiinflamatório Vioxx. Com a identidade e a importância comprovadas da Endo A, o preparo de bons anticorpos para essa proteína passou a ser de grande importância porque ele funciona como uma ferramenta para identificar e inibir a enzima. Dois fatores que são essenciais nos estudos laboratoriais para verificar as causas e entender os mecanismos moleculares de algumas doenças neurológicas. O anticorpo, como produto, pode ser comercializado como um reagente de laboratório e servir como meio para estudos que permitam o desenvolvimento de novos medicamentos. Para isso, a Millipore e sua subsidiária Upstate, que possui um catálogo de produtos dedicado à venda de anticorpos, vão receber 10 ml de anticorpos para Nudel de ratos e 10 ml de anticorpos para Nudel humana. Esse material será fracionado e reem-

INSTITUTO BUTANTAN

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Células nervosas de rato sob efeito do reagente Nudel. Em azul estão os núcleos dos neurônios e, em am arelo ou verm elho, a ação da proteína Endo A

balado pela empresa e vendido em doses menores, de aproximadamente 0,1 ml. “Vamos ver como será a procura pelo produto e, se for necessário, vamos produzir mais”, diz Mirian.

L in h agem especial - Para essa tarefa, Mirian conta com a colaboração de Osvaldo Sant’Anna, também pesquisador do Instituto Butantan, que ofereceu a sua linhagem de camundongos especialmente selecionados para o preparo de anticorpos com alta especificidade. A produção de 10 ml envolve cinco a seis camundongos especialmente desenvolvidos para esse fim. A Endo A injetada no camundongo, que desenvolve o anticorpo (depois extraído do sangue do animal e purificado), foi produzida de forma recombinante. Nessa técnica, os genes da Nudel humana e de rato foram clonados e multiplicados por meio da técnica de DNA recombinante, em que a bactéria Escherichia coli é empregada para produzir a enzima. Os direitos da equipe nesse processo estão garantidos por uma patente internacional que tem como inventores, além de Mirian e Camargo, a pesquisadora Fernanda Portaro e o doutorando Juliano Guerreiro. O contrato de licenciamento foi analisado e negociado pelo Núcleo de Patenteamento e Licenciamento de Tecnologia (Nuplitec) da FAPESP. Os termos das negociações são confidenciais e o período do contrato é de dez anos. “Acredito que futuramente será possível diagnosticar doenças neurológicas por meio da Nudel. Aí será possível licenciar também o direito de produzir kits de diagnóstico, também considerado na patente depositada, algo obviamente muito mais rentável”, diz Camargo. ■

M ARCOS PESQUISA FAPESP 137

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O LIVEIRA

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MIGUEL BOYAYAN

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Instituto Butantan de São Paulo e a empresa Recepta Biopharma inauguraram em junho o Laboratório de Anticorpos Monoclonais. Lá será desenvolvido um projeto cujo objetivo é dominar a tecnologia de geração de linhagens celulares de anticorpos monoclonais a serem utilizadas em terapias contra câncer. A iniciativa é inédita no país – no mundo, poucas empresas dominam a tecnologia de produção de anticorpos monoclonais em escala comercial. A terapia com anticorpos monoclonais vem se afirmando como uma importante opção terapêutica no tratamento de câncer, usada sozinha ou em associação com a quimioterapia. Hoje há apenas nove deles no mercado dirigidos para o tratamento de câncer e mais de cem em desenvolvimento. Os anticorpos monoclonais reconhecem e se ligam de forma seletiva a antígenos específicos presentes nas células tumorais. Dessa forma, ativam o sistema imunológico para destruir essas células. Os anticorpos têm apresentado bons resultados no controle e prevenção de metástases porque elas apresentam os mesmos antígenos do tumor original. Achar os anticorpos que sejam realmente eficientes contra determinado tumor é tarefa árdua. O Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer vem se dedicando ao tema há vários anos e conseguiu identificar alguns anticorpos muito promissores. A empresa Recepta fechou um acordo com o instituto obtendo os direitos exclusivos e internacionais para pesquisar, desenvolver, realizar testes clínicos e comercializar quatro deles. Esses primeiros anticorpos monoclonais demonstraram potencial eficácia para tratamento de tumores de ovário, colorretal, bexiga e gástricos, entre outros. “Até chegar a um medicamento eficaz há um longo caminho a ser percorrido”, diz o professor José Fernando Perez, presidente da Recepta e exdiretor científico da FAPESP. “Teremos de fazer uma plataforma tecnológica de grande reprodutividade, algo difícil e ainda muito restrito no mundo”, completa a pesquisadora do Butantan Ana Maria Moro, diretora do Laboratório de Anticorpos Monoclonais. No laboratório de 600 metros quadrados – 200 deles de área biolimpa – serão produzidas linhagens celulares de anticorpos monoclonais, que serão humanizados. Explica-se: as linhagens são geradas a partir de camundongos, mas só podem ser usadas em seres humanos depois de se alterar os genes que produzem os anticorpos para torná-los mais parecidos com anticorpos produzidos pelo homem, reduzindo reações imunológicas.“Manter a afi-


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> B IO T ECNO L O G IA

U nião contra o câncer

Empresa e instituto inauguram Laboratório de Anticorpos Monoclonais

nidade entre anticorpos e antígenos depois da alteração e conseguir uma produção grande, com qualidade, é um dos nossos maiores desafios”, diz Ana Maria. Entre os quatro anticorpos licenciados pelo Ludwig, um é especialmente promissor. O anti-LeY, com potencial para tratamento de câncer de ovário, passou por ensaios clínicos fase 1 – com seres humanos – na Austrália e nos Estados Unidos. Os testes da fase 1 são para verificar o nível de segurança do produto em gente. A Recepta e seus parceiros trabalham agora com o LeY na fase 2, para medir a eficácia.“Será o primeiro teste clínico desse tipo projetado e realizado por uma empresa brasileira para tratamento de câncer. É importante começar com um produto que já tem uma parte de seu desenvolvimento pronto porque ganharemos tempo”, observa Perez. Os outros três anticorpos estão em um estágio anterior de desenvolvimento e serão submetidos a estudos de imunoistoquímica e a testes pré-clínicos e clínicos. Até agora anticorpos monoclonais vinham sendo produzidos no país apenas para uso em kits de diagnóstico. Parcerias - Um outro aspecto que chama

Cultivos celulares em diferentes estágios de clone produtor de anticorpo m onoclonal: longo cam inho pela frente

a atenção na iniciativa é como se chegou ao atual grau de colaboração entre as partes envolvidas no trabalho. A Recepta Biopharma tem dois investidores pessoa física – os empresários Jovelino Mineiro e Emílio Odebrecht –, mas se tornou viável baseada em parcerias. Na sede da empresa ficam permanentemente apenas o presidente, Perez, o diretor financeiro, José Barbosa Mello, e o diretor científico, Oswaldo Keith Okamoto – este, em meio período. Keith é o responsável pela coordenação e integração da rede de 43 pesquisadores, entre doutores, mestres e médicos, que se dedicam ao projeto por meio das parcerias com universidades, hospitais e institutos de pesquisa. O principal parceiro é o Instituto Ludwig de Nova York, que passou a deter ações da empresa ao licenciar os quatro anticorpos monoclonais. O Ludwig dá todo o apoio para transferência de tecnologia e garante um intercâmbio constante de pesquisadores entre os dois países. O braço brasileiro do instituto também participa do trabalho de pesquisa, em São Paulo, identificando novos alvos e geran-

do novos anticorpos para posterior desenvolvimento pela Recepta e seus parceiros. O Butantan é o outro parceiro fundamental para o projeto. É lá que está instalado o laboratório recém-inaugurado e onde serão gerados anticorpos monoclonais para a realização dos testes clínicos e demonstrada a viabilidade de sua produção comercial. A Recepta associou-se ainda à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), para a realização de ensaios de imunoistoquímica, e a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, para ensaios pré-clínicos. Outros sete hospitais públicos e privados de São Paulo, Rio e Belo Horizonte participarão dos testes clínicos fase 2. Para a construção e manutenção do Laboratório de Anticorpos Monoclonais, realização de ensaios de imunoistoquímica e condução do teste clínico fase 2 está previsto um investimento total de R$ 8 milhões. A Recepta entrou com R$ 2 milhões e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) com os outros R$ 6 milhões, por meio do programa Inovação de Produtos Terapêuticos e Diagnósticos. “Essa parceria público-privada tem todas as características para dar certo”, afirma Isaias Raw, presidente da Fundação Butantan. “Não se trata só de pesquisa pública apropriada pela iniciativa privada, mas sim de uma oportunidade para tentar resolver um problema grave de saúde da sociedade, que é o câncer, a um custo realista.” Perez é enfático ao dizer que todos ganharão,e não apenas sua empresa:“É um tipo de parceria ganha-ganha. Ganham as instituições associadas, que farão pesquisa na fronteira do conhecimento, publicarão resultados e adquirirão domínio tecnológico de algo totalmente novo”. O ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, mostrou-se um entusiasta desse modelo de empreendimento.“O capital de risco está crescendo e o sistema de ciência e tecnologia amadureceu muito”, avaliou. “Hoje há muito mais condições para os pesquisadores que desejam empreender.” O secretário estadual de Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, comemorou a união dos pesquisadores de institutos e universidades na busca de um objetivo comum. “É a reunião em torno do conhecimento em prol da saúde dos brasileiros”, comentou Barradas. ■ PESQUISA FAPESP 137

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* Fonte: IBOPE Target Group Index - BrY7 W2 + Y8 W1 (fev. 2006 a jan. 2007) - Leitores Recentes - todos os dias

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Há público para uma TV pública? Governo define, neste mês, criação de nova rede de televisão | C ARLOS H AAG

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u acho televisão uma coisa muito educativa. Toda vez que alguém liga um aparelho, eu vou para a sala ao lado ler um livro.” A frase, de Groucho Marx, soa como um desafio ao lançamento, no início de dezembro, da TV pública, programada para entrar no ar com as primeiras transmissões da TV digital. Neste mês ou no próximo, o governo deve enviar ao Congresso uma medida provisória ou um projeto de lei determinando a criação da nova rede, que, segundo o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Franklin Martins, deverá contar com um orçamento de R$ 350 milhões. “Deus me deu o segundo mandato para fazer coisas novas e uma delas é a TV pública”, afirmou o presidente Lula, para quem a nova TV será o início de um “PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) cultural”. Segundo o presidente, “hoje, em nenhum estado brasileiro, com raras exceções, você tem um programa de debate”. Ele, porém, avisa que “nós não queremos TV chapa-branca, porque ela se desmoraliza por ela mesma, não duraria três meses. Não é uma coisa para falar bem ou mal do governo, é para informar”. Qual o formato da TV pública ainda permanece um mistério (há possibilidade de que as TVEs existentes sejam reunidas numa rede, servindo como “embrião” da nova TV), há muita con-

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fusão entre “TV pública” e “TV estatal” e tampouco se sabe como a rede será financiada e qual será o seu direcionamento. Há mesmo dilemas técnicos: não existe “espaço” no espectro eletromagnético da radiodifusão para se criar canais públicos com transmissão digital em São Paulo.“Caso o processo de transformação do modo analógico se iniciasse hoje, eles estariam fora”, afirma a superintendência da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), já que durante o processo de migração cada canal vai ocupar o espaço de dois canais, o já existente, analógico, e o novo, digital. De certo há apenas declarações de Martins, assegurando que seguirá alguns pontos da “Carta de Brasília”, documento com recomendações e propostas resultante do Primeiro Fórum Nacional de TVs Públicas, realizado em maio de 2006. A carta prevê uma “nova rede pública organizada pelo governo federal que deve ampliar e fortalecer, de maneira horizontal, as redes educativas públicas já existentes”. O documento insiste que “a nova rede deve ser independente e autônoma em relação ao mercado, devendo ter seu financiamento em fontes múltiplas, com a participação significativa de orçamentos públicos”. Sua missão seria complementar a programação da TV comercial, aberta ou a cabo, “contemplando a produção regional, fomentando a produção independente e se destacando pelo estímulo à produção de con-

teúdos digitais de qualidade elevada, interativos e inovadores”. “No Brasil, a idéia de serviços públicos de radiodifusão foi sempre subordinada ao modelo comercial”, analisa o sociólogo Laurindo Leal Filho, membro do conselho de profissionais reunidos para idealizar a TV pública. A primeira iniciativa do gênero ocorreu em 1923, quando Roquete Pinto criou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, cuja função seria “levar a todos os lares o conforto moral da ciência e da arte pelo rádio”. Por alguns meses, o brasileiro antecipou-se à criação da BBC britânica, nascida sob o mesmo espírito, mas financiada por uma licença paga pelos ouvintes, o que lhe garantia independência financeira. “No Brasil deu-se o contrário: o modelo sucumbiu ao comércio e, em 1932, o governo autorizou as emissoras a ocuparem 10% de suas programações com anúncios. Vargas, embora centralizador, tinha que compor com o capital privado, que possuía interesse nesse setor. Mesmo a Rádio Nacional, do governo, funcionava nos moldes de uma empresa privada”, observa Leal. Essa curiosa reunião, avalia o sociólogo Renato Ortiz, foi “a gênese da absoluta falta de limites entre o público e o privado na radiodifusão brasileira, que se perpetua até hoje, com financiamento dado pelo Estado às emissoras privadas de TV, sob a forma de publicidade e patrocínios”.


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Em 1968 houve uma nova tentativa de reverter esse quadro com a criação da Fundação Padre Anchieta, reproduzindo o modelo da BBC em que um conselho curador representativo da sociedade e com autonomia de gestão dirigia a emissora.“Só que se o conselho britânico funciona com 12 membros, em São Paulo, na TV Cultura de hoje, temos 45 deles, o que dilui a responsabilidade e fragiliza a autonomia da rede”, pondera Leal. A terceira chance, acredita o sociólogo, foi perdida na Constituição de 1988, com o artigo 233 dando competência ao Executivo para outorgar e renovar concessão e permissão para o serviço de radiodifusão de sons e imagens. “O Brasil se manteve com um modelo comercial hegemônico, com reduzido serviço estatal de rádio e TV e com a solitária experiência da Cultura de São Paulo, sempre às voltas com crises.” Para Beth Carmona, diretora da TVE e também integrante do conselho da TV pública,“é recente o entendimento e a prática dos conceitos de rede pública no país”. Segundo ela,“o Brasil optou desde o início pelo caminho da cessão de concessões para exploração dos sinais de televisão pelo setor privado, sem nenhuma política estratégica sobre a utilização dos veículos com objetivos sociais”. O Estado, continua, só se inseriu na questão durante os anos 1970, quando foi implantado um sistema educativo de rádio e televisão, irregular e frágil, nos vários estados.“A TV brasileira desenvolveu-se num clima liberal, alinhada por parâmetros comerciais que visam ao mercado de consumo, tendo como objetivo a lucratividade, quase sem limites de conteúdo”, avalia a diretora da emissora carioca. “Hoje a população e o Estado se dão conta da necessidade de uma TV voltada para a população, com uma programação que valorize o público não apenas como consumidor, mas também como cidadão. Um sistema público de comunicação é necessário para a democracia”, completa. O jornalista e professor de comunicação da Escola de Comunicação e Artes, da USP, Eugênio Bucci, é menos radical. “É bom deixar claro que as demandas do mercado são legítimas e vitais na democracia e não um satã encarnado. Elas só não podem ser as únicas a definir o conjunto de comunicação social. Aí é que entra a TV pública, exercendo funções complementares, não opos-

tas. Emissoras públicas e comerciais, cada uma em seu campo, fortalecem a saúde da democracia. Se elas se igualam, se oferecem conteúdos análogos, a sociedade não precisa de TV pública”, pondera. Defendendo a independência da rede pública de qualquer papel subalterno de promoção de governadores, ministros ou presidentes da República, Bucci propõe quatro bandeiras estéticas para a TV pública: almejar o invisível, ou seja, sair da postura de bajulador de platéias, atitude que define a indústria do entretenimento; desmontar a oferta de gozo pré-fabricado, oferecendo o diferente e não reiterando doses maiores das mesmas sensações; buscar conteúdo que não cabe na TV comercial, sem temer a “chatice” como um abismo; emancipar em lugar de vender, não devendo sucumbir ao impulso de se desejar desejada, não funcionando como cativeiro do público, mas emancipadora e incubadora. Antítese - Isso não seria a antítese da natureza do veículo? Afinal até o presidente Lula reiterou sua visão de uma TV que não fosse apenas “instrumento de educação”, mas “tivesse audiência e não traço”. É possível se fazer TV que não seja “de entretenimento” e ainda assim ganhar espectadores? “A televisão não é um dado da natureza, mas uma produção cultural, das relações sociais, da democracia. O seu sentido e seu uso são determinados na planície da cultura e ela, por si, não tem uma natureza que espace à cultura. O entretenimento, ramo do comércio, nada tem a ver com a comunicação de caráter público”, observa Bucci. Há, lembra, exemplos disso nas várias experiências, algumas bem-sucedidas, de redes públicas globais, em especial a BBC inglesa. “É preciso fornecer ao cidadão uma grade de programação de boa qualidade, sem interesses comerciais, voltada para educar, fornecer cultura e disponibilizar informações que dificilmente seriam exibidas na TV comercial. A TV pública existe para o cidadão, que é seu maior guardião”, avalia o jornalista Lúcio Mesquita, diretor do Serviço Mundial da BBC para as Américas, que se interessa em estabelecer parcerias com o Brasil. A rede britânica é financiada por uma taxa anual paga por domicílio com aparelho de televisão no valor de £ 116, bem como pela venda de programas e li-

cenciamentos para diversos países e destinações do governo. Mas a publicidade obedece a regras draconianas.“A principal é o distanciamento entre quem produz o conteúdo dos programas e os anunciantes”, diz Mesquita. O diretor-geral da BBC está submetido a um conselho curador, cujos membros representam a sociedade civil, fiscalizando a programação dos dez canais de rádio e 50 emissoras de TV da rede, que se orgulha de ter um “manual de conduta”, com severas prescrições éticas proibindo a exclusão de qualquer linha de pensamento em seus conteúdos. Por isso Mesquita acredita no poder de renovação da rede pública.“No Brasil, programas como Castelo Rá-tim-bum, pela sua qualidade, passaram a ser referência, obrigando outras emissoras a melhorar seus infantis.” Modelo a ser seguido? Para o jornalista Nelson Hoineff, “talvez a BBC não seja capaz de fornecer pistas sobre como lidar com o mau desempenho da TV privada brasileira, mas é indicador que um sólido modelo de TV pública é peça essencial para o funcionamento de uma sociedade democrática”. Há, porém, problemas no modo de financiamento britânico. “Há alguns anos o governo de São Paulo tentou cobrar um apoio compulsório para a TV Cultura por meio das contas de luz e o mundo quase desabou”, lembra Hoineff. “Infelizmente”, observa, “não é possível reproduzir esse modelo aqui, a começar pela gênese da televisão brasileira, que nasceu acompanhando o modelo privado americano e não se afastará dele até o esgotamento da noção de emissoras e redes”. A diferença é que o governo americano investiu na televisão pública desde o seu início, em 1951, quando foram reservados 242 canais de TV para transmissões não-comerciais:“O interesse público será claramente atendido se essas estações contribuírem para o processo educacional da nação”, afirmou, então, a Federal Communications Commission. Era preciso deter o monopólio organizado da TV comercial. Afinal, o início desordenado do rádio, em 1920, fez com que a televisão seguisse um padrão funcional, adotando, de imediato, o princípio do financiamento da programação por anúncios publicitários. Em 1967, o presidente Lyndon Johnson enviou ao Congresso uma mensagem em que traPESQUISA FAPESP 137

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çava as linhas diretivas da TV pública, dividindo a comunicação televisiva em três vertentes: a comercial, com “finalidade repousante e distração”; a educativa,“que fornece um saber reconhecido”; e a pública, “que se consagra a tudo que apresenta interesse e importância no plano humano, sem que se transforme no momento em objeto publicitário”. Embora tendo fundos federais, essa TV seria “livre de qualquer interferência por parte do governo”. Separando uma verba de US$ 27,5 milhões, Johnson abriu espaço para a criação, em 1969, da PBS (Public Broadcasting Service), cujo estatuto preconiza que sua “principal bandeira é servir ao país e não ao mercado”, deixando claro a sua opção em não usar índices de audiência como parâmetros de seu conteúdo. A PBS é uma organização sem fins lucrativos constituída por 350 estações, provedora de uma programação não-comercial e outros serviços (em especial, a difusão educativa via internet), pelos quais os espectadores pagam uma estimativa anual. Além disso, há verbas do governo, repassadas por meio da Corporating for Public Broadcasting, e a rede também recebe dinheiro dos espectadores, que contribuem em campanhas de arrecadação. A PBS é mediadora da parceria entre suas estações e as universidades que produzem programas para ensino a distância, beneficiando cerca de 450 mil estudantes, que completam seus créditos universitários via aulas televisionadas. “Embora por vezes ambivalente, a PBS é prova de que só naquele espaço é possível transitar um produto da criação humana que não teria boa acolhida num mercado que nada tem de criativo ou humano”, resume o artigo “PBS’s independent lens”, da New Yorker. Independentes - A grande inovação da

rede, aliás, é não produzir programas nem os financiar, comprando o que precisa de terceiros, em geral produtores independentes de toda parte do mundo. Essa é a postura também defendida pelo jornalista Gabriel Priolli, diretor da TV PUC, de São Paulo, como forma de cortar custos e possibilitar a existência da TV pública no Brasil, cujo financiamento, defende, deveria ser “misto”, garantindo que as dotações orçamentárias do Estado efetivamente cheguem às emissoras, ao mesmo tempo que a so82

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“Nenhuma democracia prescinde da comunicação pública”, acredita o jornalista Eugênio Bucci

ciação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec), Jorge Cunha Lima, concorda. “Uma rede pública não nasce de decreto, mas da conversão dos conteúdos, da soma da capacidade de produzir de cada estado e da transmissão disso em caráter nacional.” Para o presidente da Abepec, “uma TV só será pública se for intelectual e administrativamente independente, eqüidistante do poder e do mercado, regida por conselhos representativos da sociedade”. Segundo ele, é importante a existência de um fundo de recursos para as TVs públicas. Qualidade - Na avaliação de Lima, os es-

ciedade e a iniciativa privada se envolveriam no projeto.“As TVs públicas precisam deixar de atuar como produtoras, voltando-se para a exibição, mas com absoluto controle sobre a criação de produtos, conceitos e orientação da grade de programação.” Priolli é cauteloso com o entusiasmo estatal. “Devemos conceituar bem o que é TV pública e que tipo de TV pública queremos financiar. Não concordo com a idéia de rede. A multiplicidade é o caminho”, avalia. Esse é o tom adotado pelas TVs públicas alemãs, que optaram por usar estações regionais, de programação regionalizada, também oferecendo multiplicidade de informações.“As emissoras públicas não são apenas mídia, mas, principalmente, um importante fórum de debate social. A emissora pública alemã gosta de sair do seu prédio para que seu público a veja”, conta Uwe Rosembaum, diretor de programação da Südwestrundfunk. Dosando bem a comparação, a TV pública alemã foi, no passado, exemplo de uma ameaça que muitos hoje temem se repita na rede pública brasileira: instrumento político de propaganda de um governo.“Creio que a TV pública precisa existir, mas com muito cuidado, com vigilância da sociedade. Não pode ser a TV do Lula, mas da sociedade. É preciso ultrapassar os pequenos interesses. Não se cria uma TV pública com seriedade em dois, três meses, com poucos ministros e assessores”, alerta o doutor em comunicação pela Universidade Federal da Bahia Valério Brittos, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). O presidente da Asso-

tados estão preparados para produzir conteúdos de qualidade, propondo o modelo da TV Cultura de São Paulo em substituição às intenções do governo federal, que, desconfia, pretende transformar a futura rede pública numa espécie de “TV estatal” disfarçada. “Falar que a TV estatal defende o governo e que a TV pública é independente é um argumento capcioso, porque mesmo a TV inteiramente de propriedade do Estado não pode fazer proselitismo”, pondera Bucci. Para ele, o dever da impessoalidade vale para todas.“Nenhuma democracia prescinde da comunicação pública, porque ela supre áreas que a comunicação comercial não pode atender. Nosso problema é de gestão e formatação de marco regulatório.”Beth Carmona vai além e afirma que esse é o momento de se repensar o papel do Estado nas comunicações.“A televisão é um poderoso instrumento de fortalecimento dos valores e costumes de uma sociedade, portanto deveria ser contemplada dentro de políticas públicas. Mas qualquer tentativa de discussão é vista com suspeita de censura ou obscurantismo. O Estado praticamente tem se limitado a conceder o canal, controlá-lo do ponto de vista técnico, para a disciplina e ordenação do espectro eletromagnético.” Segundo ela, a tarefa do Estado ficou ainda mais complexa. “Hoje não basta diferenciar a TV pública utilizando a premissa da programação de qualidade ou por seu conteúdo nacional, pois outros já se apoderaram desta marca. Ela só fará sentido pela possibilidade de diversificar as opiniões, abrir os conteúdos, tratar de todos os temas e abordar todas as localidades.” Se não gostar, vá à sala ao lado ler um livro. ■


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M enino,eu sou é homem, e com o sou Novas questões colocam em xeque a masculinidade contemporânea

para refletir sobre a identidade masculina e as mudanças nas relações de gênero. O resultado foi um misto de estereótipos do HQEH com o chamado “novo homem”.“Ser homem, segundo eles, engloba: ser heterossexual; dar grande importância ao trabalho e ao papel de provedor na identidade masculina; permanência da divisão sexual do trabalho doméstico para os da geração de 1960; manter a dupla moral sexual (“homem pode, mulher não!”). Ao mesmo tempo, há novos conceitos em cena: maior expressão

da subjetividade, com possibilidade de demonstrar seus sentimentos para homens e mulheres; nova visão das dimensões do masculino e do feminino; reconhecimento da sexualidade e do prazer femininos; nova abordagem das funções paternas; e, para os da geração de 1970 e 80 em diante, uma nova postura sobre a divisão sexual do trabalho, ainda que com limites colocados pela herança social e mercado. “A identidade de gênero não é mais vista como fixa, embora sua mobilidade não necessariamente indique que PESQUISA FAPESP 137

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egundo definição eminentemente científica de Luis Fernando Verissimo, homem que é homem (o chamado HQEH) só vê futebol na TV. Bebendo cerveja. E nada de cebolinhas em conserva! HQEH arrota e não pede desculpas. HQEH não deixa a mulher mostrar a bunda, nem no Carnaval. HQEH não mostra a sua bunda para ninguém. Só no vestiário, com outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos dá briga.Existe um HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação. Se é fácil definir a masculinidade no humor, o HQEH é um “animal”de difícil apreensão pela ciência.“Afinal, o que é ser homem? Essa é uma pergunta de difícil resposta. Sabe-se ainda menos sobre a relação dos homens com a reprodução, sua ótica particular sobre a contracepção e os significados que atribuem à esfera reprodutiva. O fato é que os homens têm constado nas pesquisas de forma secundária, embora participem da concepção das crianças”,observa a antropóloga e doutora em demografia Sandra Garcia, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), autora do estudo recém-lançado Homens na intimidade: masculinidades contemporâneas (Holos Editora/FAPESP), baseado em sua tese de doutorado, apoiada pela FAPESP. Disposta a incluir o HQEH nas investigações sobre demografia, Sandra foi a campo e entrevistou homens entre 25 e 55 anos, pertencentes às classes médias,


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a aquisição de novos valores desbanque os antigos. Ao contrário, as ambigüidades surgem justamente porque convivem juntas numa mesma subjetividade e, logo, causam conflitos que esses sujeitos tentam superar nas suas reflexões e práticas”, analisa a pesquisadora.

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de Estudos da População (Nepo), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).“Os homens se ressentem da relação com os próprios pais, classificados como ausentes e autoritários, e vêem a paternidade como um fardo excessivo, à medida que exigem ser pais melhores do que aqueles que tiveram”, descreve a pesquisa. Mas há novidades.“Muitos depoimentos falam das dificuldades de ser pai num mundo em que o trabalho tem uma grande dimensão em suas vidas. Entretanto, a maioria afirmou que exerce a paternidade de forma mais participativa desde os primeiros cuidados.A redefinição do modelo tradicional de pai gerou um processo de reflexão sobre seu lugar na família como pai”, analisa a pesquisadora. “Verificou-se que os homens da geração de 1960 se adequaram ao modelo antigo, ausentes dos primeiros cuidados com os filhos. Os das gerações posteriores foram conduzidos pelo ‘projeto igualitário’ en-

tre os sexos, colocando-se como presença constante da gestação aos primeiros dias dos bebês.” Ainda assim, continua Sandra, se os homens estão ocupando um espaço maior de intimidades com os filhos, as práticas cotidianas aos cuidados afetam bem mais a vida das mulheres. A matriz de gênero, portanto, diz a autora, é atualizada mas não radicalmente transformada.“A paternidade está no horizonte desses homens, mas não é a realização de um objetivo que se deva cumprir necessariamente. A construção de uma família, o exercício da responsabilidade e o sentido social de continuidade foram trazidos pelos informantes como elementos comuns de ser pai.” Para Sandra, as mudanças observadas diante da paternidade estão no mesmo âmbito das transformações que jogaram a mulher no mercado de trabalho e exigiram uma nova configuração dos papéis de homens e

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m poeta dizia que o menino é pai do homem”, pondera, com razão, Machado de Assis. “Para a maioria dos informantes, à exceção de alguns da geração de 1980, o modelo de conjugalidade a que estiveram expostos foi rigidamente marcado pelos lugares específicos de homens e mulheres: a mulher dona-de-casa e cuidadora da família e das relações entres seus membros e o homem-provedor, ausente da convivência íntima com os filhos”, nota Sandra. Isso confirma o estudo Homens, esses desconhecidos (também financiado pela FAPESP), coordenado por Maria Coleta de Oliveira, do Núcleo

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mulheres nas famílias.“Eu acho difícil ser homem, corresponder às expectativas das mulheres, ser provedor, sempre forte, não deixar os sentimentos comprometerem seu desempenho profissional, sexual. O cara tem que ser um grande comedor; se a secretária é bonita, tem que ter tesão por ela. Tem toda essa cobrança”, desabafa um dos entrevistados. O mesmo se dá no mercado de trabalho. Segundo a pesquisa, os homens ainda consideram o trabalho como forma de afirmação da masculinidade, mas demandam que as parceiras contribuam para o orçamento doméstico, reclamando quando elas, desempregadas,“só procuram trabalho de meio período”. “O homem compete em tudo com a mulher, desde a cama, para ver quem tem mais prazer, até em casa, quem contribui mais, quem faz mais pela casa, quem tem mais sucesso profissional”, reclama outro informante.

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ão há posições confortáveis ou duradouras, mas mudanças, desconfortos e tensões”, explica Sandra.“Os homens se vêem como multifacetados, ora atendendo às demandas externas de uma sociedade competitiva, ora construindo relações mais igualitárias, baseadas na divisão do poder entre os sexos, nem sempre de forma igual, mas buscando um caminho próprio, tentando desvencilhar-se das crenças e dos valores herdados.” Acima de tudo, continua a autora, os homens se queixam de ter que confirmar sua masculinidade para outros homens e mulheres.“Como a sexualidade é peça-chave da identidade masculina, temos a importância do cumprimento das regras de como proceder como homem, de maneira insuspeita, em oposição à figura do ‘maricas’, ameaça social bastante presente no imaginário masculino.” Homossexualidade e impotência seriam, então, as grandes ameaças ao modelo predominante de masculinidade. Há razões históricas para todos esses comportamentos? O conceito de masculinidade é algo recente, pois até o século XVIII não havia o modelo diferencial de hoje. “O monismo sexual dominou o pensamento anatômico por dois milênios, em que a mulher era vista como um homem invertido: o útero era o escroto, os ovários eram os testículos etc. O modelo de perfeição era a anatomia masculina e a mulher, pela regra fálica, era ‘menos desenvolvida’na escala metafísica”, nota o historiador Thomas Laqueur em seu

Inventando o sexo. Quando o século XIX pôs fim ao monismo, substituiu-o pelo “sexo político-ideológico que justifica diferenças morais e de comportamento entre homens e mulheres. De homem invertido, a mulher passa a ser o inverso do homem”. O HQEH não sabia o que fizera. “A imagem de ‘homem invertido’ vai se colar ao próprio homem, que agora passaria pela irremediável chance de ser um ‘invertido sexual’. Nasce o culto à masculinidade.” Prerrogativa e fardo.“Sob a ameaça de uma feminilidade inerente, decorrente do medo de tornaram-se homossexuais, pondo seu sexo à prova, os homens tiveram que cultivar sua masculinidade e sua virilidade.“A preocupação com uma possível feminilização fez com que os homens construíssem para si uma série de papéis e traços de sua condição masculina.A sociedade masculinista burguesa e capitalista construía a sua nova imagem de homem, e como conseqüência vieram as duras provas pelas quais o homem deveria passar, como as lutas, parte dos ‘componentes do comportamento masculino’”, nota Laqueur. A masculinidade se converte em estereótipo.“O ideal masculino era um bastão erigido contra a decadência; representava um ideal de vi-

rilidade casta que entrou fortemente na consciência burguesa. Foi a rocha sobre a qual essa sociedade (e, talvez, ainda a nossa) construiu boa parte de sua autoimagem.”Tudo tem seu preço: se no século XVIII um homem podia chorar em público e ter vertigens, no final do século XIX isso era inviável, pois comprometia a sua dignidade masculina. Mas tudo o que se contrói pode ser destruído e refeito. “Mas romper com os valores predominantes de gênero não é tarefa fácil.É importante que modelos fixos de homens e mulheres sejam rejeitados, para trabalhar a noção de reprodução como uma construção social de gênero. Outro ponto fundamental é que, pela pesquisa, se verificou que os homens estão lidando com as angústias das mudanças mais no nível individual do que no coletivo. Isso é pouco. É necessário estimular a discussão social, dando-lhe maior intensidade”, avisa a pesquisadora. HQEH pode até não gostar de canapê ou qualquer coisa que leve mais de 30 segundos para mastigar e engolir, mas HQEH merece, sim, um espaço de discussão. De preferência, depois do jogo que está passando na TV. ■

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Sem idéia na cabeça e uma arma na mão Lampião soube usar sua imagem para criar um mito imortal


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Cangaceiros do grupo de P ancada entregam -se à polícia após a m orte de Lam pião

m janeiro de 1935, um grupo de turistas pernambucanos passeava de carro quando deu de cara com Lampião e seu bando. Revirando a bagagem do grupo, um cangaceiro encontrou uma Kodak e entregou ao chefe, que perguntou a quem ela pertencia. Apavorado, um deles levantou o dedo.“Quero que o senhor tire o meu retrato”, disparou o “rei do cangaço”, pondo-se a posar. O homem, esforçando-se, bateu uma chapa, mas avisou:“Capitão, esta posição não está boa”. Dando um salto e caindo de pé, Lampião perguntou: “E esta? Está melhor?”. Outra foto foi feita. Quando libertava os turistas, após pilhá-los, o “fotógrafo” de ocasião indagou-lhe como podia enviar as imagens.“Não é preciso. Mande publicar nos jornais”, disse o cangaceiro. Quando foi morto, em julho de 1938, em Sergipe, após 12 anos de domínio sobre o sertão, o “rei deposto” tinha os bolsos cheios de fotografias suas, como as que costumava distribuir aos seus admiradores, nas famosas paradas organizadas que fazia ao entrar nas cidades que conquistava ou protegia.“As fotografias de Lampião são da mesma sorte que os artigos e as narrativas a seu respeito, instrumentos de comunicação que lhe permitem dialogar com o mundo do litoral e desafiá-lo. Instaura-se, então, um vaivém contínuo e desejado por ele entre o mundo do sertão e o do litoral, entre o arcaísmo que lhe é atribuído e os artifícios e instrumentos dessa modernidade que o fascina e que ele soube usar a seu favor”, explica a brasilianista francesa Élise Grunspan-Jasmin, autora de Lampião: o senhor do sertão (seu doutorado na Universidade de Paris IV), recém-publicado pela Edusp. Numa região em que a oralidade predominava,o símbolo maior do “atraso”era um “marqueteiro” de primeira, a ponto de enfurecer outro mestre nessa arte:Vargas, que, a partir do Estado Novo, lutará contra o imaginário do “rei”. “As fotos de Lampião e de seu bando eram uma verdadeira provocação e foram interpretadas pelas autoridades como tal. Foi uma disputa que passava pela imagem e a imprensa passou a ser o novo campo de batalha, em que a imagem fotográfica passava a ser uma arma”,observa a francesa,que também lançou recentemente Cangaceiros (Editora Terceiro Nome), reunião de 90 fotos que revelam a esperteza com que Virgulino Ferreira da Silva soube,pelas imagens e pelo imaginário, se transformar em Lampião. No livro estão também as célebres fotos tiradas pelo mascate libanês Benjamin Abrahão, protagonista do filme O baile perfumado, e fotógrafo “oficial” do bando, autor de O rei do cangaço (1936), película que mostra os cangaceiros e seu líder no cotidiano, com Lampião lendo,costurando,tendo os cabelos penteados por Maria Bonita e fingindo atacar inimigos, sob os risos mal escondidos de seus seguidores. Curiosamente, não foi o primeiro filme a tratar do tema: já em 1925 Filho sem mãe mostrava um cangaceiro PESQUISA FAPESP 137

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em cena. Dos anos 1920 até os 1990, entre curtas, longas e documentários, há 50 exemplares do gênero, que no Brasil já serviu de mote para “nordesterns”, pornochanchadas e alegorias glauberianas. “O gênero cangaço se constituiu de tal forma que dialogou com outros gêneros para se criar. Os filmes de aventura, o documentário, a comédia e o erótico se integraram a ele para resultar num gênero nacional que, creio, nunca deixará de existir, pois está passível de novas leituras e é sempre revisitado. É o nosso épico por excelência, um universo mitológico fundamental para a cultura brasileira”, analisa Marcelo Dídimo, autor da tese de doutorado “O cangaço no cinema brasileiro”, orientada por Március Freire e defendida este ano na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Criador de seu próprio mito, Lampião ilumina mesmo movimentos Lam sociais. “Até fins dos anos 1950, mal se falava do cangaço, mas a partir de então sua figura ressurge num novo contexto quando o mundo rural volta a ser objeto de interesse e surge, com a consciência política camponesa, uma identidade regional nordestina que se cristaliza em torno de Lampião, que assume uma dimensão política, como um herói da luta contra a grande propriedade”, nota Élise. A ponto de, em 1959, Francisco Julião declarar, em entrevista, que “Lampião foi o primeiro homem do Nordeste oprimido pela injustiça dos poderosos a batalhar contra o latifúndio e a arbitrariedade. É um símbolo de resistência”. “Meio século mais tarde, o Movimento dos Sem-Terra vê também em Lampião a encarnação de um revolta contra o capitalismo rural. Qual o sentido dessa paradoxal recuperação, por movimentos de esquerda, de uma personagem desprovido de consciência e projeto político? Ele acabou por encarnar valores essenciais ao 88

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do para impor mais justiça, mas usar o mundo a seu gosto e em seu proveito. Diante da injustiça original ele não propõe nenhuma alternativa além da violência”, observa. O cangaço, aliás, nasceu muito antes de Lampião, que, no entanto, foi responsável, com seu senso inato de propaganda, pela sua consolidação imagética. De início, a entrada no banditismo era fruto da necessidade de vingar uma afronta, reparar uma injustiça. Saídos da legalidade, os cangaceiros excluíam-se voluntariamente da sociedade, para recuperar sua honra e a de suas famílias. No sertão, impregnado por um espírito medieval, como já bem observou a professora Walnice Nogueira Galvão em seu Metamorfoses do sertão, havia um vínculo entre violência e certa forma de heroísmo, legitimada pela literatura popular e pelas canções de gesta. O próprio Lampião soube manipular essa forpião e Maria B onita por B enjam in Abrahão ma de comunicação ao justificar sua vida de bandido como vingança contra a morte de seu pai. “Lampião fez da Nordeste e ao mesmo tempo é a negavingança um álibi, da reparação das ção deles; é aí que reside todo o poder desofensas pelas armas uma justificativa do se personagem e sua ambivalência, zona horror que impôs a toda uma região”, de sombra que deixa o campo aberto a tolembra Élise. “Manipulador, estrategisdas as apropriações”, analisa a pesquisata, dotado de um senso notável de comudora. Segundo ela, a maior questão do nicação surpreendente para a época, ele cangaço é entender como personagens rapidamente coloca em cena um bandique poderiam ser considerados de poutismo de ostentação, em que o enfeite, ca envergadura, com uma zona de poder o ornamento, o fausto dão destaque pare influência restrita a uma região miseticular aos crimes.” rável, conseguiram se transformar em rePara a francesa, Lampião transmutou veladores das falhas de um sistema polío cangaço “de honra”num modo de vida, tico, econômico e social, da incapacidade numa profissão lucrativa e glamourosa, do Brasil de forjar sua unidade, numa um meio para adquirir bens materiais, riépoca em que a sociedade queria se acrequezas e uma notoriedade que lhe permiditar moderna e unificada. Lampião e um tia obter respeito de parte da classe abaspunhado de cangaceiros desafiaram não tada da sociedade do sertão e de algumas apenas os líderes locais, mas também o personalidades da vida pública e polítipoder central. “Lampião, porém, não foi ca. Sob seu reinado, multiplicaram-se a um revolucionário, mas um insubmisviolência e as fontes de renda. Para tanso. Sua vontade não era agir sobre o mun-


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to, hierarquizou o movimento, organizou para ele um código de honra e de respeito a leis internas. Também permitiu a entrada de mulheres, entre elas Dada, mulher de Corisco, que criou a roupa típica da trupe. Lampião entendeu as possibilidades da “guerra de imagens” cedo: em 1926, quando se “incorpora” aos Batalhões Patrióticos,formados para lutar contra a Coluna Prestes.Políticos e o Padre Cícero chegam mesmo a prometer a ele a patente de capitão, que usará pelo resto da vida sem nunca tê-lo sido verdadeiramente. Em março de daquele ano, ao entrar em Juazeiro, com 49 cangaceiros, foi recebido como herói por uma multidão de 4 mil pessoas, distribuindo autógrafos. “A partir desse momento foi o primeiro cangaceiro a cuidar de sua imagem, e aí reside sua originalidade. Teatralizou sua vida, usou modos de comunicação da modernidade que não faziam parte de sua cultura, como a imprensa e a fotografia.” Chamava repórteres para escrever sobre ele.

teção dos coronéis, ele foi assassinado em 1938”, nota a pesquisadora. No mesmo ano cairia o protagonista da película. Apesar de ter conseguido tecer uma rede de relações de clientela e corrupção no interior do Nordeste, a partir do Estado Novo, diz Élise,“ficou inadmissível que Lampião continuasse a desafiar não apenas as autoridades locais, mas todo o sistema político centralizador sobre o qual repousava a ditadura recéminstaurada”. Mortos, ele e o bando foram decapitados, ação até então inédita na guerra entre volantes e cangaceiros.“Em uma resposta à alegação de poder e invulnerabilidade do cangaceiro, exibiram sua

cabeça como troféu. Estudiosos do mundo a disputaram e cientistas brasileiros, na contramão do progresso da ciência, a examinaram a partir de teorias lombrosianas.”Apenas em 1969 os troféus foram enterrados. Seu mito, porém, sobrevive. “É por isso que é preciso entender como a morte de Lampião, da qual se fez um espetáculo, como seu corpo e cabeça, reivindicados por todos os atores da época e mesmo por seus descendentes, serviram de suporte para as imagens e as representações que ainda hoje assombram o Nordeste brasileiro.” ■

C ARLOS H AAG FOTOS DIV ULGAÇ Ã O/C A N G A C E IR O S .EDITOR A TER CEIR O NOME

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ampião, embalado pela ilusão de ter um papel maior a cumprir, se expôs, desfilou, pavoneou-se, exibiu seu grupo: acabara de encontrar seu público”, observa Élise. Em 1936 chegou mesmo a ponto de renunciar a uma relação direta com a imprensa, fazendo com que se escrevesse sobre ele por meio de intermediários de sua confiança e preocupou-se com comentários de jornalistas a seu respeito. Aceitou, então, o pedido de Benjamin Abrahão para registrar sua imagem, pois sabia que a dominaria a seu gosto. Com material fotográfico ofertado pela Zeiss (que enviou um par de óculos ao cangaceiro, como presente), com patrocínio da Bayer (que queria tirar proveito publicitário do filme: há fotos de Maria Bonita tendo ao fundo um anúncio para a cafiaspirina), o libanês, como cineasta, deu liberdade aos cangaceiros para mostrarem-se como queriam ser vistos, a ponto de irritar o governo federal, em particular o Departamento de Imprensa e Propaganda.“Após dura campanha do governo Vargas contra seu filme, sem a pro-

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> CINEMA

Entre deus eo

diabo na terra do sol Nova edição de Brasil em tempo de cinema, de Jean-Claude Bernardet, confirma título como clássico e preserva importância da crítica no Cinema Novo

FOTOS MIGUEL BOYAYAN

G ONÇALO J UNIOR


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lauber Rocha (1939-1981) jamais perdoou o crítico belgabrasileiro Jean-Claude Bernardet pelo modo como tratou o que pode ser considerado um aspecto fundamental do movimento do Cinema Novo em seu livro de estréia Brasil em tempo de cinema, de 1967, do qual o cineasta baiano era expoente e teorizador. Ao contrário do que se dizia, escreveu Bernardet, embora fosse esse o propósito, os diretores não conseguiam estabelecer com seus filmes um diálogo com as camadas populares. Limitavam-se à classe média. Até o final da década de 1970, Glauber não perderia as chances de disparar farpas pela imprensa contra seu suposto desafeto. Principalmente nos tempos em que Bernardet escrevia nos semanários Opinião e Movimento. Certo dia, um amigo em comum, Maurício Gomes Leite, perguntou-lhe o porquê de tanta implicância. A resposta veio à queimaroupa e com certa naturalidade:“Ora, se não for nele, vou bater em quem?”. Esse talvez fosse o máximo de elogio que o maior diretor do cinema nacional poderia fazer a alguém do seu meio. Para o crítico – que é também documentarista, ator, romancista e professor universitário –, nada poderia ser mais lisonjeiro. Escreveu-lhe então uma carta na qual definia ambos como “irmãos inimigos”. E reforçou:“Somos muito mais próximos do que essas picuinhas da imprensa podem dar a impressão”.A afirmação tinha a ver com certa concessão do cineasta ao que fora tratado pelo crítico, quando apontou, de própria voz no filme Câncer, que havia no país uma pequena burguesia radical.“É muito curioso, brigamos bastante, mas,no fundo,éramos mais próximos do que parecia”, observa Bernardet. Responsável por alguns dos mais importantes livros sobre a cinematografia nacional, à qual dedicou a maior parte de sua vida, Jean-Claude Bernardet acaba de ser homenageado pela Cinemateca Brasileira e Imprensa Oficial com um belo catálogo sobre sua vida e obra para comemorar seus 70 anos de nascimento. O volume Jean-Claude Bernardet – Uma homenagem, organizado por Laura Bacqué, Maria Dora Mourão e Maria do Rosário Caetano, reproduz páginas de jornais e revistas com as críticas mais representativas do autor. Traz ainda entrevista, filmografia e bibliografia.

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Ao mesmo tempo, a Companhia das Letras publica nova edição de Brasil em tempo de cinema, lançado há exatos 40 anos e considerado um clássico do gênero. Não só isso. Foi escrito no calor da hora, em 1965, no momento em que apareciam os primeiros longas-metragens do que ficaria conhecido como Cinema Novo. Ele analisa trabalhos dos diretores Nelson Pereira dos Santos (Vidas secas e os precursores Rio 40 graus e Rio Zona Norte), Glauber Rocha (Deus e o diabo na terra do sol), Luiz Sergio Person (São Paulo S.A.) e Paulo César Sarraceni (O desafio). Polêm ica — Apesar da polêmica que

causou, a edição volta sem nenhuma mudança ou revisão de conteúdo. “Acho-o inalterável e eu mais ou menos o considero um documento de época.” Será? O que se percebe é que o texto não perdeu a atualidade no sentido de uma crítica combativa, presente e militante. Como escreveu na apresentação Paulo Emilio Sales Gomes, expoente da crítica paulistana das décadas de 1960 e 1970 e mentor de Bernardet, trata-se de uma obra que “nasceu clássica”, escrita quando críticos e cineastas ainda tentavam entender o que estava acontecendo e se realmente existia um movimento cinematográfico nacional. Do ponto de vista pessoal, tornou-se um trabalho fundamental para Bernardet porque foi durante sua elaboração que ele se deu conta de que estava desenvolvendo uma metodologia de análise que o acompanharia em toda a sua vida de crítico. Ou seja, a gênese de um estilo investigativo intuitivo, sem nenhum formalismo acadêmico. Por esses e outros motivos, é o mais querido e o mais importante para ele. Se tivesse de mexer, teria de reescrevê-lo por inteiro, o que não quis fazer. A única fragilidade que admite é a teorização que deu à classe média. Ressalta, porém, que praticamente não havia obras que trouxessem uma definição. “Foi um ponto chocante para muita gente. Eu poderia ter tido um conceito mais elaborado de classe média, de intelectualidade, de meio artístico e de produção artística. Só que, naquele momento, que eu saiba, não existia bibliografia a esse respeito. Portanto, eu não sou o único a não ter feito algo mais completo.” A gênese de Brasil em tempo de cinema desvenda a própria história do au-

tor, do nascimento da crítica cinematográfica, e destaca um aspecto pouco estudado: o papel que esses analistas tiveram direta ou indiretamente na concepção do movimento cinema-novista, estabelecido a unha por uma nova e talentosa geração de cineastas. Uma história que remonta à chegada do préadolescente ao Brasil, em 1949, quando seu pai veio com a família em busca de oportunidades. Como tinha de 12 para 13 anos, explica ele, se teve alguma contemplação estética não teria sido na França, onde passou a infância durante a guerra e o início da adolescência no pós-guerra. Assim, desdiz com bom humor a afirmação de Paulo Emilio na apresentação do livro de que “até pouco tempo ele era um jovem esteta europeu bastante contemplativo e melancólico, cuja metamorfose fora provocada pelo Brasil e pelo cinema”. E acrescenta: “Aquilo foi ficção dele, eu não era assim”. Bernardet revela que buscou no cinema, no primeiro momento, uma forma de se integrar ao país que adotara para viver. “Eu me sentia muito preso à colônia francesa e comecei a me esforçar a sair disso.”Em especial, aprender o português, pois passara quase uma década entre ambientes em que quase só se falava francês – a família, a escola e o trabalho, na Livraria Francesa. Concluiu que um caminho seria se aproximar da turma do Cineclube Dom Vital, que ficava na rua Barão de Itapetininga, vizinho à livraria, do qual participavam jovens que se revelariam talentosos como Gustavo Dahl, Daú de Andrade e Maurício Capovila, entre outros – todos muito próximos de Paulo Emílio, colunista do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo e uma autoridade em cinema para a garotada. O ponto de encontro deles era o Turist Bar, na praça Dom José Gaspar, não muito longe da Filmoteca do MAM, na rua 7 de Abril.Toda semana um dos membros do cineclube era escolhido para ver um filme em cartaz e fazer considerações antes de um debate. Bernardet foi designado para falar sobre uma produção francesa adaptada de um romance de Émile Zola. Os novos amigos gostaram, apesar do português sofrível, e ele se incorporou em definitivo ao grupo.“Isso me permitiu resolver um problema: a questão da integração do imigrante, que me fez sair


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do meio quase francês.As pessoas se interessavam pelo que eu dizia.” O convívio o levou a se matricular no curso na Cinemateca para formação (organização e administração) de dirigentes de cineclube, num momento importante do cineclubismo brasileiro.“Muita gente se formou assim porque não havia escola de cinema. O que nos preparava era ver e discutir filmes e esses cursos, que pingavam de vez em quando e tinham muita história do cinema e de análise.” Com 21 para 22 anos, Bernardet publicou seu primeiro texto no Jornal do Brasil. Comentou Os amantes (1958), de Louis Malle. Como não sabia direito o português, o amigo Nelson Nicolai, que também trabalhava na Livraria Francesa, traduzia com ele na hora do almoço ou depois do expediente. “Ele perguntava se eu preferia essa ou aquela palavra. Foi assim que aprendi a escrever em português.” Uma oportunidade profissional que se revelaria importante aconteceu quando Paulo Emilio resolveu fazer uma longa viagem à Europa e formou no Bom Vital uma pequena equipe para substituí-lo no Suplemento Literário, formada por Gustavo Dahl, Maurício Capovila e Bernardet, que deveriam se revezar na coluna. Quando voltou, o aprendiz continuou a escrever de vez em quando. Até que apareceu o convite para ter um espaço diário no jornal Última Hora. Antes, ao perceber a inesperada repercussão de uma crítica sua publicada no Suplemento Literário sobre A doce vida, de Federico Fellini, deu-se conta de que uma pessoa não leria seu texto, que era o próprio diretor, por falta de acesso. “Notei que fazia parte do crítico o diálogo com a produção, com a equipe de realização. Para estabelecer esse contato, era preciso que se detivesse sobre os filmes brasileiros.” Ao mesmo tempo, Paulo Emilio insistia para que todos vissem filmes brasileiros. Por outro lado, Bernardet achava que tinha um elemento diferenciador dos outros: para ele, havia apenas o bom ou o mau filme, independentemente de ser francês, italiano ou brasileiro.“Creio que nunca tive essa atitude da elite brasileira, meio preconceituosa e muito desfavorável à sua produção, que duvidava de tudo e era uma das interlocutoras de Paulo Emilio, que tentava convencêla do contrário.”

Na época, somente se o filme fosse para a Europa e recebesse prêmios conseguia despertar algum interesse. “Estávamos nos formando como críticos no momento de transformação da produção.” Nesse contexto, concorda ele, a crítica foi importante não pelas análises dos filmes, mas pelo papel de uma arena de debates, inclusive de combate do cinema americano, dentro de um espírito nacionalista que hoje pode parecer bastante dogmático. “Creio que tivemos esse papel de criar uma área de discussão em torno de política e de estética referentes ao cinema.” B rasília - Com o golpe militar, Jean-

Claude Bernardet ficou impedido de escrever e de freqüentar a Cinemateca, acusado de ser uma “articulação” entre o Partido Comunista francês e o brasileiro. “A polícia, muito desinformada, formou uma ficção em torno de mim.” Ele conta que tinha proximidade com comunistas brasileiros, pois conhecia muita gente do Teatro de Arena, como Gianfrancesco Guarnieri.“Minha militância, no entanto, era cultural.” Para sobreviver, foi trabalhar numa editora. No ano seguinte, a convite de Paulo Emilio e Nelson Pereira dos Santos, ele e a mulher Lucila se juntaram ao grupo coordenado por Pompeu de Souza que pretendia criar o primeiro curso de graduação em cinema, na Universidade de Brasília. O curso, no entanto, durou apenas oito meses e acabou dissolvido em novembro de 1965, depois da crise que levou 219 professores a se demitirem por causa da interferência do governo militar na universidade. Bernardet havia concluído a tese Brasil em tempo de cinema, mas não pôde apresentá-la. Só o fez no ano seguinte, de forma simulada, durante a Semana do Cinema Brasileiro, o embrião do Festival de Cinema Brasileiro. Por fim, sairia em livro em 1967. A pesquisa partiu de três aspectos previamente estabelecidos: escrever sobre o cinema brasileiro; falar da atualidade, do que acontecia na área; e adequar a proposta à idéia de que estavam construindo ainda uma nova universidade, apesar do golpe militar. Somente quando foi fazer a dedicatória que o autor se deu conta de que ao tratar de personagens desgarrados ele se projetava no próprio texto. “Percebi que, ao fazer isso, eu entendia melhor eles, os filmes e a mim mesmo.” ■


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RESEN H A

Literatura não tem cor Estudo revela “embranquecimento” de Machado de Assis M ARISA L AJOLO

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mulatice de Machado de Assis parece ter passado em branco em muitos estudos literários que acompanham, nesse processo de despigmentação textual, a galeria de fotos do escritor que também o embranquecem, fixando para a posteridade um respeitável senhor de barbas que a contempla com expressão indecifrável. Este embranquecimento de Machado parece articular-se à crença (amparada em algumas teorias) de que a literatura, sobretudo a literatura que se quer com L maiúsculo – a Literatura –, não tem cor nem sexo. Mas tem: sexo e cor entraram na pauta de vertentes de ponta dos estudos literários. O recente livro de Eduardo Duarte, Machado de Assis afro-descendente (Rio de Janeiro, Belo Horizonte: Pallas/Crisálida, 2007), já nasce, assim, polêmico ao fazer uma releitura da obra do velho bruxo e, a partir dela, montar uma originalíssima antologia. Neste livro a afro-descendência de Machado se textualiza e um novo Machado insinua-se ao leitor, que, fisgado, se espanta com seus botões: como é que eu nunca tinha percebido isso? Com efeito, página após página – crônicas, poemas, contos e fragmentos de romance vão patrocinando uma releitura que vasculha, na obra machadiana, a presença de negros, de negras, de cenários e de assuntos ligados à escravidão. Ao longo da antologia o leitor se surpreende pelos efeitos de sentido que a vizinhança de textos constrói. Surpreendem-se sobretudo os leitores familiarizados com a obra machadiana: é como se se estivesse contemplando uma galeria de quadros, todos muito conhecidos, mas aos quais o rearranjo confere uma perspectiva completamente nova. O autor do livro encontra, no estilo do escritor, modos de dizer que representam a expressão formal da mestiçagem. No capítulo final,“Estratégias de caramujo”, um ousado gesto crítico retoma a figura do narrador machadiano e – discutindo-a uma vez mais – atribui a ela o afinamento de voz necessário para discutir negritude com os seletos leitores que, na época de Machado, liam-no nas revistas pelas quais circulavam suas histórias. Informando, ao longo da antologia, o modo de circulação original de cada texto, o livro permite vislumbrar ainda os itinerários que, no sistema literário, percorrem a literatura en-

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quanto materialidade de texto impresso em papel. O diapasão da voz machaEduardo de diana é esmiuçado nos diferenAssis Duarte tes gêneros. O trabalho do autor Editora Crisálida do livro aloja-se no início em modestos rodapés, tornando-se 28 8 páginas R $ 38 ,00 minucioso e militante no ensaio final. Discute, desde um certo varejo do texto, como o nome de personagens, até aspectos de maior envergadura, como a articulação de grandes blocos narrativos. Na análise, estes blocos criam equilíbrios instigantes que, sugerindo muitas vezes cenas de paralelismo invertido, fazem eclodir no texto a velada violência que pautava o regime escravocrata vigente no Brasil e que talvez persista além da escravidão. O olhar de Eduardo Duarte vai percorrendo a obra machadiana, contextualizando no modelo brasileiro da escravidão procedimentos textuais de Machado de Assis. Dentre as interpretações do crítico, a mais ousada é a que atribui ao caráter póstumo de Brás Cubas um valor político bastante alto: como diz o livro, Machado mata o senhor de escravos oito anos antes da abolição (p. 277). Assumindo-se como sujeito de seu texto, o autor dialoga com a tradição crítica mais recente de Machado, optando às vezes por uma forma interrogativa de formular suas hipóteses.Ao alternar-se com interpretações categóricas e com informações que contextualizam o texto machadiano, a retórica da interrogação confere ao leitor uma certa liberdade.Dálhe autonomia para sentir-se sócio do autor,já que de sua resposta depende a confirmação (ou a refutação) do raciocínio que lhe está sendo proposto. Esta parceria com os leitores – recurso de que usa e abusa o próprio Machado – é bastante interessante (e muito rara) nos estudos literários. O ensaio de crítica é um gênero por excelência intertextual e a presença de interrogação nele – ainda que retórica – representa um bem-vindo convite à discussão. Este livro sugere que Machado é,sim,um escritor universal e também um escritor brasileiro. Mas é só a partir deste estudo que se começa a dizer que Machado é um escritor brasileiro negro. M achado de Assis afro-descendente

MARISA LAJOLO é professora de literatura na Universidade Estadual de Campinas.


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L IV R O S

B rasil/Á frica: com o se o m ar fosse m entira R ita Chaves, Carmen Secco, Tania Macêdo (orgs.) Editora Unesp 4 5 4 páginas, R $ 55,00

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Paralelism os e inversões

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alvez com uma caixa alongada e um motoreco de máquina de costura?” A pergunta, de irmão para irmão, era simples e boa; já trazia a resposta. Em alguns dias, habilidosos, com polidas ripas de pinho, em caixote, uma tela para estabilizar o fluxo de ar, o pequeno motor Singer e uma levíssima hélice, construíram o “túnel de vento”, como denominaram, sobre cuja existência haviam lido em livreto de curiosidades científicas. Fizeram o troço, custou-lhes pouco. A destreza de mecânicos de bicicletas e extrema disciplina de filhos de rígido pastor metodista assim o permitiram. Um pequeno modelo que poderia ser uma solução para um novo meio de transporte, melhor que as lentas bicicletas, foi colocado no caixote. Ligou-se a ventoinha e a balança à qual estava conectado por um fio; o trocinho flutuava, sem mover-se. A brincadeira dos modelos voadores de salão, frisson do século XIX, reproduzida na modesta oficina entre peças enferrujadas, ferramentas e caixotes. Pesquisaram, fizeram observações. À medida que a rotação do motorzinho aumentava por troca de polias, o fluxo de ar e a velocidade cresciam e a sustentação se mantinha. Idealizaram uma teoria dos modelos própria, maldosamente denominada “caipira”, mas que permitia, a partir do pequeno protótipo dentro do túnel, imaginar o necessário para elevar-se algo maior, pelos ares, com força própria. Souberam, lendo de certo professor atuante em grande instituição científica na capital, que era possível; bastaria a área de sustentação certa, o acionamento potente apesar de leve e alguma dirigibilidade. Mas eram pessoas humildes, quase pobretões, sem vínculos com a comunidade científica. Procuraram entender as teorias da aerodinâmica em livros da grande biblioteca e as comprovavam, em testes no pequeno caixote. Viram curiosa ilustração em uma revista, vinda do outro lado do planeta, que mostrava um príncipe japonês cuja di-

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DE

C ASTRO & M ELLO

versão era fazer-se elevar com pipas imensas e bons ventos, amarrado a grossas linhas, e subir dezenas de metros. Pela fotografia, verificaram a relação peso/área de sustentação, dada pela pipa. Estimando a velocidade dos ventos, averiguaram o mínimo para haver sustentação. Determinados, souberam de lugar de ventos fortes e ar denso, frio, próximo ao mar. No inverno, levaram ao ermo local um planador, que construíram nas pausas entre um cliente e outro de suas bicicletas. “Coisa de doidos”, pensava o pai. A mãe não se manifestava, talvez orgulhosa, mas um tanto envergonhada. Os vizinhos pouco ouviram da excursão. Empurravam-se contra os ventos gelados feito o príncipe japonês, porém sem as linhas, e flutuavam por metros, aprendendo a pilotar planando. Algumas manchas roxas e bambus quebrados, nada grave. Pesquisaram a melhor posição do condutor. Verificaram minuciosamente os sistemas que permitiriam inclinar as asas do rústico aparelho, virando-lhes as pontas. Faltava algo, porém: a força para substituir o vento-contra e a ação da gravidade, que fazia os pulos aéreos um tanto breves. Desvendaram os sistemas dos então modernos motores a gasolina, através de revistas. Sem recursos, com materiais diversos, conscientes da relação peso-potência ter de ser a mais balanceada possível, construíram seu próprio acionamento. Funcionava, era leve. Duas hélices copiadas do esboço do grande pesquisador de aerodinâmica da capital foram laminadas, folhas finas de madeira coladas e torcidas, passo a passo, até imaginar-se ser algo capaz de empurrar um novo engenho, chamado simplesmente de “o voador”. Correntes de bicicleta, saindo do pequeno propulsor, movimentavam as hélices, em testes que causavam terrível confusão e assustavam os raros passantes. O sistema de comando permitia um modesto aproveitamento, mas era inseguro. Melhoraram.


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LUANA GEIGER

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No lombo de uma carroça, em inverno bravo, voltaram com a coisa às dunas.Entre elas,por onde mais vento se afunilava,com ajuda de alguns curiosos meteorologistas de uma estação próxima, montaram pequena pista de partida, em madeira. Testado o motorzinho,alinharam o engenho sobre a pista.Um irmão,assustado, ao comando e o outro a segurar a asa para a ajuda inicial, acelerou, acelerou, puxou de uma alavanca e pela primeira vez saltou ao ar; pois foi apenas um salto, com força própria. Aplaudiram e fotografaram, os meteorologistas. Um segundo vôo, do outro irmão, também foi possível e bem mais longo. Mas o frio aumentando, o vento a não mais permitir e alguns danos nos pousos encerraram o empreendimento naquele dia. Telegrafaram aos pais informando do ocorrido. Foram solenemente ignorados. Sem os valores necessários para maior divulgação, conseguiram após algumas solicitações agendar demonstração junto ao exército, pois, comerciantes de bicicletas, imaginavam que o seu “voador” também poderia ser objeto de interesse. Fizeram um voozinho, mas por uma terrível infelicidade, no pouso, um militar acompanhante (já voavam em duplas) acidentou-se e o coronel presente, com desdém, disse ser perigoso, como demonstrado, além de “não ver muito propósito em uma bobagem voadora, coisa de circos”. Em sua cidade natal batalharam por apresentação junto à imprensa, para pelo menos garantir a patente do objeto. No maldito dia, o engenho a gasolina resolveu recusar a operação e terminava ali, por hora, o sonho dos voadores, com as vaias do público e alguns repórteres. Fizeram então vôos solitários, algumas pessoas assistiam; mas o sonho realizado não parecia impressionar o mundo. Nada se comentava. Diziam alguns serem boato, outros os rotulavam malucos: voar era para os pássaros e folhas secas. Pesquisaram mais, aperfeiçoaram os sistemas, melhoraram a dirigibilidade, desenvolveram motor mais potente, con-

troles sem deslocamento de peso e quatro anos após voavam até 40 quilômetros, sem maiores percalços. Um militar europeu, curioso com a boataria, verificando os complexos esforços à época e pouco sucesso de vôos longos e controlados, cruzou o Atlântico. Convidou os irmãos para apresentarem o engenho na sua terra. Ridicularizados na chegada pela imprensa que exaltava os inventores locais, além de atribuírem os louros do primeiro vôo a um curioso senhor da América Latina, homem rico, elegante e bem-sucedido, silenciaram todos quando os irmãos decolaram com tranqüilidade, fizeram curvas completas de 360 graus, voando por mais de duas horas, acima da bonita cidade escolhida. Um inventor local, verificando in loco o feito dos irmãos, com alguma decepção comentou aos seus colegas que, sim, de fato, eles dominavam como ninguém a arte de voar e com certeza já o faziam há muito tempo. Mundo afora, com o tempo, o latino-americano foi esquecido, menos em seu país de origem, e os modestos irmãos enaltecidos, em curiosa inversão. De charlatães e desonestos, foram monumentalizados como os pais da aviação. O inventor de sucesso, à época, o outro pai da aviação, perdeu algum prestígio, adoeceu, recolheu-se e deu fim à vida, em processo triste de definhamento físico e psíquico. É apenas uma história que por aí ouvi. Não sei se de fato ocorreu, as opiniões sobre isso são muito controversas e até cruéis. Nem ouso hoje dar nome aos personagens, mas a fábula da persistência de ambos irmãos e a notável incomunicabilidade, apesar de navios e telégrafos já existentes, com outros inventores desenvolvendo o mesmo engenho em paralelo sempre me fascinaram. HERMÓGENES DE CASTRO & MELLO nasceu em São Paulo, em 1956. Engenheiro mecânico, publicou O bizarro cotidiano sensual e Sem medo de voar, este em parceria com Alcyr Piccoli. PESQUISA FAPESP 137

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Cabelos: quando a vaidade faz mal  

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