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Pesquisa FAPESP janeiro de 2017

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Brasil deverá redesenhar política industrial e incentivo a P&D em resposta à OMC

janeiro de 2017 | Ano 18, n. 251

ciência da Cerveja

Pesquisas e inovações no cultivo de ingredientes e no processo produtivo levam a uma nova geração da bebida alcoólica

Salva da extinção, a ave mutum-de-alagoas será reintroduzida na natureza Entrevista Antropóloga Lux Vidal fala de seu trabalho com índios da Amazônia Em apenas um ano e meio, cientistas caracterizam a síndrome zika e iniciam testes de vacinas Estudos tentam evitar possíveis impactos negativos da nanotecnologia

Ano 18  n.251

mais apreciada pelos brasileiros

Como funciona a escavação de sepultamentos em um sítio arqueológico

exemplar de assinante venda proibida

n.251

> A trajetória de pesquisadores que sequenciaram o genoma da Xylella


REVIS TA CULT UM SOPRO DE INTELIGÊNCIA EM TEMPOS DE AR R AREFEITO

R E V I S TA C U LT. C O M . B R 11 3385 3385


fotolab

A beleza do conhecimento em imagens

Sua pesquisa rende fotos bonitas? Mande para imagempesquisa@fapesp.br Seu trabalho poderá ser publicado na revista.

Carnaval o ano todo Comuns no litoral norte paulista, os camarões Hippolyte obliquimanus têm uma propriedade curiosa: se disfarçam. O biólogo Rafael Duarte documentou e quantificou a cor dominante do hábitat e dos animais por meio de fotografia digital e verificou que em poucos dias os camarões-vermelhos (à esq. na foto do alto) e castanhos

Imagens enviadas por Rafael Duarte, estudante de doutorado no campus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

(embaixo, à esq.) mudam sua cor de acordo com a coloração do banco de algas no qual estão (BMC Evolutionary Biology, 18 de outubro), uma estratégia de camuflagem. Os espécimes transparentes rajados (à dir. no alto e embaixo) do camarão-carnavalesco, como ficou apelidado, não parecem ser tão afeitos a fantasias: não mudaram de cor nos cinco dias de duração dos experimentos feitos no Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar-USP). PESQUISA FAPESP 251 | 3


janeiro  251

POLÍTICA C&T 34 Contencioso OMC põe em xeque política industrial brasileira e governo prepara mudanças em leis e no estímulo a P&D 38 Indicadores Pintec 2014 aponta estabilidade no número de empresas inovadoras 42 Entrevista Frank Allgöwer, da Universidade Stuttgart, mostra o papel da ciência básica na pesquisa sobre redes Ciência 46 Ornitologia Extinto na natureza, o mutum-de-alagoas é salvo por um projeto de criação da ave em cativeiro 

CAPA Investimento em pesquisa e em novas tecnologias melhora a qualidade da cerveja brasileira p. 18

Foto de capa, de Léo Ramos Chaves: cerveja de casca de limão siciliano e capim-limão

56 Trabalho de campo Como se dá a escavação arqueológica de sepultamentos de 10 mil anos em caverna de Minas Gerais

Humanidades

62 Física Em experimento, grupo brasileiro controla a geração de calor no mundo das partículas

86 Economia Pesquisadores investigam sucessos e fracassos das cooperativas de trabalhadores

82 Música Cada vez mais estudada, improvisação livre valoriza a criatividade

64 Saúde Trabalho colaborativo caracteriza a síndrome congênita causada pelo zika Tecnologia 70 Novos materiais Estudos procuram prevenir impactos da nanotecnologia na saúde e no meio ambiente 74 Engenharia metalúrgica Inovações ampliam o desempenho do aço usado em motores elétricos e transformadores de energia   78 Engenharia de segurança Novo laboratório testará equipamentos  que protegem contra choques elétricos  

ENTREVISTA Lux Vidal Antropóloga foi pioneira de estudos com índios Xikrin na Amazônia e da etnoestética no país p. 26


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seçÕes 3 Fotolab

vídeos do mês youtube.com/user/pesquisafapesp

6 Cartas 7 Carta da editora

Biologia marinha Simbiose entre algas e corais é bem mais antiga e diversa do que se pensava p. 52

Medicina Cientistas desenvolvem metodologia para diagnóstico de transtornos psiquiátricos graves p. 80

8 Boas práticas Caso de assédio sexual envolvendo antropólogo expõe novos dilemas no campo da integridade científica 11 Dados Avaliação internacional de desempenho estudantil – Pisa 2015

Pesquisas alertam sobre a má alimentação de crianças e adolescentes bit.ly/2hIe8Lt

12 Notas 91 Carreiras A trajetória de alguns dos 191 pesquisadores que participaram do sequenciamento da X. fastidiosa, há 20 anos 97 Resenhas Gordos, magros e obesos: Uma história de peso no Brasil, de Denise Bernuzzi de Sant’Anna. Por Pollyanna Fernandes Patriota e Ana Lydia Sawaya Afinidades revolucionárias: Nossas estrelas vermelhas e negras, de Olivier Besancenot e Michael Löwy. Por Francisco Foot Hardman

A incrível digestão das aranhas-gigantes bit.ly/2hZVbYa

rádio

Antropóloga Marta Amoroso fala sobre a política de aldeamento criada pelo Império brasileiro em 1845 para transformar índios em trabalhadores rurais bit.ly/2gZcjcl PESQUISA FAPESP 251 | 5


Conteúdo a que a mensagem se refere:

cartas

cartas@fapesp.br

Revista impressa Reportagem on-line Galeria de imagens Vídeo Rádio

Revista de dezembro

Ótima pesquisa para comprovar o que sabemos e alertar os que fingem não saber.

Edição bacana a de dezembro (nº 250). Ótima entrevista com a professora Gabriela González (“Quando o espaço se curva”). Isso de vulcanismo remoto aqui na Amazônia é surpresa para mim (“Erupções preciosas”), que moro na região. Gostei da reportagem.

Temos de estar atentos ao que estão fazendo com a nossa saúde e a de nossas crianças. A maioria das doenças é evitável.

Fabrício Cunha

Matheus Prestes

Marcel S. Lunghi

contatos

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cartas@fapesp.br R. Joaquim Antunes, 727 10º andar CEP 05415-012 São Paulo, SP Assinaturas, renovação e mudança de endereço Envie um e-mail para assinaturaspesquisa@ fapesp.br ou ligue para (11) 3087-4237, de segunda a sexta, das 9h às 19h Para anunciar  Contate: Paula Iliadis  Por e-mail: publicidade@fapesp.br Por telefone: (11) 3087-4212 Edições anteriores Preço atual de capa acrescido do custo de postagem. Peça pelo e-mail: clair@fapesp.br Licenciamento de conteúdo Adquira os direitos de reprodução de textos e imagens de Pesquisa FAPESP. Por e-mail: mpiliadis@fapesp.br Por telefone: (11) 3087-4212

6 | janeiro DE 2017

Indicadores alternativos

A reportagem “Impacto além da academia” (edição 250) mostra que os novos indicadores são interessantes como forma de divulgação científica, embora a efetividade do uso e a qualidade das pesquisas ainda sejam aferidas por outras métricas. Não deixa de ser uma iniciativa que facilita o acesso a informações relevantes. Maria do Carmo Moreira Jacon

Adolescentes

Sobre o vídeo “Saúde dos adolescentes”, o problema é que grande parcela da população não entende os males dos alimentos processados, que são mais baratos do que os itens de feira. A educação das famílias é de suma importância, mas também deve haver oferta de alimentos industrializados com menor teor de gordura, sal e açúcar. Gisele Figueiredo

Vídeo de utilidade pública! Temos que abrir o olho e começar a cuidar do futuro. Nossas crianças e adolescentes precisam melhorar seus hábitos alimentares. Thais Makiya Vichi

Mulheres na neurociência

A questão agora não é ter mais mulheres na ciência, elas já estão nela, só precisam aparecer. Ótima iniciativa do grupo de neurociência norte-americano (sobre a nota “Mulheres invisíveis”, edição 249). Maria Elizete Kunkel

Intelectuais negros

“A intelectualidade negra no império” (edição 249) é uma preciosidade de reportagem! Muito bom o texto. Sabemos pouco a respeito dos intelectuais negros no Brasil do século XIX. O editor Francisco de Paula Britto deve ter sido um grande homem.

M. Inez F. Jesus

Diagnóstico a distância

Possuo lesão na retina por conta da toxoplasmose e um equipamento simples como o descrito na reportagem “Olho no celular” (edição 249) poderá ajudar milhares de pessoas.

Eduardo Placido Santiago

Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

A mais vista do mês no Facebook Boas práticas

O perigo de publicar em revistas predatórias

333 curtidas 15 comentários 145 compartilhamentos

ilustração  luana geiger

revistapesquisa.fapesp.br


fundação de amparo à pesquisa do estado de são Paulo

carta da editora

José Goldemberg Presidente Eduardo Moacyr Krieger vice-Presidente Conselho Superior Carmino Antonio de Souza, Eduardo Moacyr Krieger, fernando ferreira costa, João Fernando Gomes de Oliveira, joão grandino rodas, José Goldemberg, Marilza Vieira Cunha Rudge, José de Souza Martins, julio cezar durigan, Pedro Luiz Barreiros Passos, Pedro Wongtschowski, Suely Vilela Sampaio

Um novo início em 2017 Alexandra Ozorio de Almeida |

diretora de redação

Conselho Técnico-Administrativo Carlos américo pacheco Diretor-presidente Carlos Henrique de Brito Cruz Diretor Científico Joaquim J. de Camargo Engler Diretor Administrativo

issn 1519-8774

Conselho editorial Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio Túlio Costa, Eugênio Bucci, Fernando Reinach, José Eduardo Krieger, Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Marisa Lajolo, Maurício Tuffani, Mônica Teixeira comitê científico Luiz Henrique Lopes dos Santos (Presidente), Anamaria Aranha Camargo, Ana Maria Fonseca Almeida, Carlos Américo Pacheco, Carlos Eduardo Negrão, Fabio Kon, Francisco Antônio Bezerra Coutinho, Joaquim J. de Camargo Engler, José Goldemberg, José Roberto de França Arruda, José Roberto Postali Parra, Lucio Angnes, Marie-Anne Van Sluys, Maria Julia Manso Alves, Paula Montero, Roberto Marcondes Cesar Júnior, Sérgio Robles Reis Queiroz, Wagner Caradori do Amaral, Walter Colli Coordenador científico Luiz Henrique Lopes dos Santos diretora de redação Alexandra Ozorio de Almeida editor-chefe Neldson Marcolin Editores Fabrício Marques (Política), Marcos de Oliveira (Tecnologia), Ricardo Zorzetto (Ciência), Carlos Fioravanti e Marcos Pivetta (Editores espe­ciais), Bruno de Pierro (Editor-assistente) revisão Alexandre Oliveira e Margô Negro arte Mayumi Okuyama (Editora), Ana Paula Campos (Editora de infografia), Júlia Cherem Rodrigues e Maria Cecilia Felli (Assistentes) fotógrafos Eduardo Cesar e Léo Ramos Chaves Mídias eletrônicas Fabrício Marques (Coordenador) Internet Pesquisa FAPESP online Maria Guimarães (Editora) Rodrigo de Oliveira Andrade (Repórter) Jayne Oliveira (Redatora) Renata Oliveira do Prado (Mídias sociais) Colaboradores Ana Lydia Sawaya, André Julião, Daniel Bueno, Elisa Carareto, Evanildo da Silveira, Fabio Otubo, Francisco Foot Hardman, Igor Zolnerkevic, Maurício Puls, Nelson Provazi, Pedro Hamdan, Pollyanna Fernandes Patriota, Valter Rodrigues, Yuri Vasconcelos É proibida a reprodução total ou parcial de textos e fotos sem prévia autorização Para falar com a redação (11) 3087-4210 cartas@fapesp.br Para anunciar Paula Iliadis (11) 3087-4212 publicidade@fapesp.br Para assinar (11) 3087-4237 assinaturaspesquisa@fapesp.br Tiragem 29.500 exemplares IMPRESSão Plural Indústria Gráfica distribuição Dinap GESTÃO ADMINISTRATIVA INSTITUTO UNIEMP PESQUISA FAPESP Rua Joaquim Antunes, no 727, 10o andar, CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP FAPESP Rua Pio XI, no 1.500, CEP 05468-901, Alto da Lapa, São Paulo-SP Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia Governo do Estado de São Paulo

A

reportagem de capa desta edição foi pensada para janeiro: afinal, uma cerveja muito fria combina com o calor do verão. Mas os tempos mudaram. Verão já não parece mais verão (este editorial foi escrito em uma frente fria atípica em dezembro, que derrubou a temperatura na capital paulista) e cerveja não precisa mais ser estupidamente gelada. O gosto por cervejas de maior qualidade – que dispensam um resfriamento intenso – disseminou-se no Brasil, que tem hoje mais de 400 microcervejarias artesanais, beneficiárias de uma significativa atividade nacional de pesquisa e desenvolvimento (página 18). Ao mapear a ciência e a tecnologia brasileiras por trás dos ingredientes centrais e da produção dessa bebida milenar, o repórter Yuri Vasconcelos mostra que cevada e lúpulo não se adaptaram com facilidade ao clima local, sendo necessária muita pesquisa – e, no caso do lúpulo, uma ajuda do acaso – para que fossem cultivados. Hoje, quase metade da cevada usada pela indústria é nacional, resultado de 40 anos de pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. Outros estudos tratam de etapas do processo de produção, como o envelhecimento da bebida em barris, a busca de novas leveduras – para a transformação dos açúcares em álcool – e estudos sobre a estrutura da espuma, que tem papel importante na manutenção da estabilidade da bebida. Uma das entrevistas do mês é a da antropóloga Lux Vidal, pioneira da etnologia no Brasil e formadora de gerações de antropólogos. Durante conversas com a editora Maria Guimarães, ela falou sobre o processo de criação coletiva de uma etnologia brasileira, emancipada das escolas norte-americana e britânica, que contempla o envolvimento ativo dos pesquisadores nas questões indígenas, como demarcação de terra e indenização por danos acidentais. Entre os anos 1970 e 1990, Lux estudou

os Xikrin, do sul do Pará, que tentavam se reestabelecer nas suas terras, cercadas por atividades de mineração. Com uma formação que privilegiava as artes, a antropóloga voltou seu olhar para a etnoestética dos povos indígenas, estudando e registrando as diferentes formas de pintura corporal, muito central entre os Xikrin (página 26). Esta edição especial de férias traz ainda outras reportagens especiais: os bastidores de uma escavação arqueológica; a história da recuperação em cativeiro do mutum-de-alagoas, ave dada como extinta, com a ajuda da genética; e um relato de um ano de cobertura jornalística sobre a zika. A seção Carreiras recupera a trajetória de alguns dos quase 200 pesquisadores envolvidos no sequenciamento genético da Xylella fastidiosa, que completa 20 anos. A revista Pesquisa FAPESP começa 2017 concluindo algumas mudanças nas suas páginas iniciais. Duas seções de notas – Estratégias e Tecnociência – serão reunidas em uma só, denominada Notas, que passará a incluir notícias da área de Humanidades. A nova seção trará notícias selecionadas, entrevistas curtas, dados e imagens. Há duas edições, a página de Boas Práticas tem ocupado três páginas. A ideia é que a seção, muito lida e comentada, passe a ter um tamanho variável. A seção On-line foi desmembrada: os destaques de vídeo e podcasts são agora apresentados no Índice, que se tornou o menu do que a Pesquisa FAPESP tem a oferecer no mês, seja na revista impressa, seja no site; o destaque “A mais vista do mês no Facebook” foi para a seção Cartas. Sempre vale lembrar que todo o conteúdo da revista impressa está disponível gratuitamente em www. revistapesquisa.fapesp.br, em português, inglês e espanhol, assim como os vídeos produzidos quinzenalmente, os programas semanais de rádio e também reportagens e notas encontradas apenas no site. PESQUISA FAPESP 251 | 7


Boas práticas 1

Brian Richmond (abaixo) renunciou a cargo no Museu Americano de História Natural (à esq.) após ter sido acusado de ataque sexual

Dimensões do abuso no ambiente acadêmico

2

Debate sobre caso de assédio sexual nos Estados Unidos aponta para dilemas no campo da integridade científica

O paleoantropólogo norte-americano Brian Richmond, de 48 anos, renunciou ao cargo de curador da seção de Origens Humanas do Museu Americano de História Natural, em Nova York, nos Estados Unidos, em meio a acusações de assédio sexual. Em março de 2015, ele foi denunciado publicamente em um congresso científico por uma assistente, que disse ter sido atacada por ele num quarto de hotel em Florença, na Itália. Também pesam contra o pesquisador denúncias de assédio a alunas e de comportamento inapropriado em trabalhos de campo no Quênia, quando ele trabalhava em um instituto ligado à Universidade George Washington. Richmond nega as acusações e sustenta que o episódio narrado pela assistente foi consensual e não um ataque. Ele foi advertido por ter violado o código de conduta do museu, que veta relacionamentos entre superiores e subordinados, e disse ter sido pressionado a renunciar. 8 | janeiro DE 2017

Em entrevista à revista Science, Richmond afirmou que pretende levar adiante suas linhas de pesquisa fora do museu e publicar artigos científicos. Embora crimes como assédio sexual, discriminação ou agressão física não se enquadrem nas definições específicas de má conduta científica, o caso suscitou discussões envolvendo temas de integridade acadêmica. Pesquisadores que assinam artigos em coautoria com Richmond não sabem como se comportar em relação a trabalhos que estão em via de publicação. Kathryn Clancy, antropóloga da Universidade de Illinois em Urbana, propôs em abril, em um encontro da Associação Americana de Antropologia Física (AAPA), que pesquisadores interrompam todo tipo de colaboração, incluindo publicações em coautoria, com colegas investigados por assédio sexual ou discriminação. Isso porque alegações de abuso contra subordinados colocam em dúvida o compromisso de um pesquisador com conceitos de


fotos 1 captain-tucker / Wikimedia commons  2 e 3 AMNHD

3

integridade no ambiente acadêmico. Clancy é coautora de um estudo que compilou casos de assédio sexual em pesquisas de campo, publicado em 2014 na revista PLOS ONE. Quando um pesquisador acusado de má conduta submete um artigo para publicação, o Committee on Publication Ethics (Cope), fórum de editores de periódicos científicos sobre ética na pesquisa, sugere que se espere a conclusão das investigações antes de aceitar o paper. O caso de Richmond também encontra analogia em outras questões vinculadas à integridade acadêmica, como a assimetria nas relações entre orientadores e alunos, ou entre líderes de laboratórios e comandados, e as regras para evitar que a subordinação crie situações de vulnerabilidade. Segundo a Science, pelo menos um pesquisador supervisionado por Richmond relatou dificuldades em publicar um artigo em coautoria com o paleoantropólogo em uma revista, porque revisores se recusaram a avaliar o manuscrito. Uma solução levantada foi a retirada do nome de Richmond dos artigos, mas isso produz outros problemas. Para David Strait, da Universidade de Washington, que escreveu artigos em colaboração com Richmond, isso constituiria plágio. “Não se pode retirar o nome de um autor de artigo cujo conteúdo foi produzido de boa-fé”, afirmou. A antropóloga Leslie Aielo observa que não há regras em casos como esse, mas lembra que há consenso entre editores de que a prioridade é evitar prejuízos para pesquisadores em início de carreira. Com extensa produção sobre evolução humana, Richmond coordena vários projetos, alguns deles apoiados pela National Science Foundation (NSF), principal agência de fomento à pesquisa básica dos Estados Unidos. Esse e outros escândalos de assédio sexual e moral motivaram a agência a divulgar, em janeiro de 2016, uma declaração na

Seção de Origens Humanas do museu em Nova York, da qual o paleoantropólogo era curador

qual condena abusos e discriminação de gênero. Outras entidades divulgaram recomendações para aumentar o controle de casos de assédio sexual envolvendo pesquisadores. A AAPA alertou que experiências de assédio, tentativa de agressão ou ameaças podem contribuir para que a vítima não complete sua formação ou até desista da carreira. A associação chama a atenção para a importância de as vítimas procurarem as ouvidorias de suas instituições e relatar as denúncias. O documento cita o estudo publicado na revista PLOS ONE, que ouviu mais de 600 antropólogas. Segundo o levantamento, 64% das entrevistadas haviam sofrido algum tipo de assédio sexual em trabalhos de campo, e a maioria dos assediadores eram pesquisadores seniores. Das 139 mulheres que relataram ter sofrido algum contato físico não desejado, apenas 37 denunciaram o abuso. Os documentos de entidades internacionais inspiraram iniciativas semelhantes no Brasil. Pesquisadoras que atuam no sítio arqueológico Lapa do Santo, em Lagoa Santa, Minas Gerais, criaram o Zine Feminista das Arqueólogas, com orientações para pesquisadoras que realizam trabalho de campo em antropologia, arqueologia e áreas correlatas, tais como procurar canais institucionais para encaminhar denúncias. Outra iniciativa surgiu em agosto no Museu de Arqueologia e Etnologia

da Universidade de São Paulo (MAE-USP). Foi criado um grupo de trabalho incumbido de discutir e buscar soluções para casos de assédio moral e sexual em ambiente de pesquisa. Um tópico a ser debatido é justamente o que coautores devem fazer quando um colega for acusado de assédio. “É uma questão ainda pouco discutida no mundo. Há uma carência de diretrizes que indiquem como pesquisadores, revisores e editores devem agir em uma situação dessas”, diz Ximena Suarez Villagran, pesquisadora do MAE-USP. Na opinião de André Strauss, arqueólogo da Universidade de Tübingen, na Alemanha, excluir ou não o nome do acusado no artigo é o menor dos problemas. “Faltam canais institucionais consolidados para lidar com as denúncias.” Para Villagran, embora casos de assédio sexual em ambiente acadêmico aconteçam em todas as áreas do conhecimento, é possível que profissões que dependam da atuação em campo, como antropologia e arqueologia, sejam mais suscetíveis. “O trabalho em sítios arqueológicos frequentemente exige o agrupamento de pesquisadores em locais isolados e por vários dias, o que pode criar condições favoráveis ao abuso”, esclarece. “Isso não justifica o assédio sexual, que pode ocorrer em qualquer ambiente. A questão tem mais a ver com o indivíduo do que com fatores externos ou a profissão.” PESQUISA FAPESP 251 | 9


Os editores da revista científica Annals of Internal Medicine, publicada desde 1927 pelo Colégio Americano de Médicos, foram alertados em agosto de que havia uma suspeita de fraude em seu processo de revisão por pares. O médico Michael Dansinger descobrira que um manuscrito de sua autoria e de colegas da Universidade Tufts, em Massachusetts, encaminhado em 2015 para a revista, havia sido plagiado e trechos inteiros foram reproduzidos em um paper da edição de fevereiro do Excli Journal, um periódico da Alemanha. O intrigante é que o artigo, que comparava o efeito de diferentes tipos de dieta nos níveis de lipoproteínas no sangue, jamais fora publicado. Isso porque ele não passou pelo crivo de qualidade do Annals of Internal Medicine. A suspeita de Dansinger era de que o responsável pelo plágio fosse alguém envolvido no processo de revisão, a avaliação feita por um ou mais pesquisadores sobre a qualidade e a originalidade do conteúdo de artigos submetidos. O médico estava certo. Os editores da publicação norte-americana constaram que, de fato, um dos autores do artigo do Excli Journal avaliara o artigo rejeitado. O revisor foi procurado e admitiu a má conduta. O paper plagiado foi alvo de retratação. Na crônica dos casos de plágio em publicações científicas, o episódio chamou a atenção pela atitude franca do Annals of Internal Medicine. Num editorial publicado em dezembro, a editora Christine Laine expôs o caso publicamente, desculpou-se com Dansinger e reiterou os princípios que regem o processo de revisão de artigos de publicações sérias, baseados na confidencialidade e no respeito à propriedade intelectual. “Foi perturbador para mim e para meus colegas que uma pessoa selecionada para revisar um manuscrito confiado a nós tenha 10 | janeiro DE 2017

cometido um roubo intelectual hediondo”, escreveu. A transparência só não foi completa porque Christine absteve-se de nomear o autor do plágio, deixando a suspeita recair sobre os oito médicos italianos que assinaram o paper retratado, vinculados a um centro e a um hospital da cidade de Potenza. “Os coautores também são culpados. Eles permitiram que seus nomes fossem usados, aparentemente sem contribuir com nada de valor.” A revista abriu espaço para a publicação de um texto assinado por Michael Dansinger, intitulado “Caro plagiador: uma carta para um revisor que roubou meu manuscrito e o publicou como se fosse dele”. “É difícil entender por que você se arriscou tanto. Sem dúvida, você trabalhou duro para se tornar médico e cientista. Sei que já publicou muitos artigos. Por isso, simplesmente não faz sentido”, escreveu Dansinger. Especializado em diabetes e em fatores de risco para doenças cardiovasculares, e conhecido como divulgador científico em jornais e TVs dos Estados Unidos,

ilustração daniel bueno 

Carta a um plagiador

Dansinger relatou na carta que dedicara cinco anos à pesquisa plagiada. “Além disso, o trabalho foi financiado pelo governo dos Estados Unidos e a instituição onde trabalho. Foram pelo menos 4 mil horas de trabalho. Quando publicou nosso estudo como seu, você falsamente reivindicou crédito por esse trabalho e pela experiência adquirida nele”, escreveu.

Para ampliar a transparência O aperfeiçoamento de ferramentas para promover a integridade na comunicação científica foi um dos temas discutidos na VI Reunião Anual da Scientific Electronic Library OnLine (SciELO), que reuniu editores de periódicos e especialistas do Brasil e do exterior. Uma das novidades do evento, realizado na FAPESP no dia 14 de dezembro, em São Paulo, foi o anúncio de que o conjunto de 285 revistas científicas brasileiras reunidas na biblioteca SciELO adotará, num futuro próximo, novas políticas e procedimentos para garantir a transparência e a integridade na gestão editorial, tais como o uso de ferramentas

para detectar plágio e a definição mais clara das responsabilidades de autores segundo práticas de editoras e periódicos internacionais. “O objetivo é ampliar os esforços para profissionalizar, internacionalizar e dar sustentabilidade às revistas, seguindo práticas editoriais em sintonia com os avanços da comunicação científica internacional”, disse Abel Packer, coordenador-geral da biblioteca. Outra novidade é que os periódicos da SciELO serão indexados no Directory of Open Access Journal (Doaj), que permite alcançar periódicos de acesso aberto em todo o mundo.


Dados

Avaliação internacional de desempenho estudantil – Pisa 2015

Retorno abaixo do esperado1 Até o nível de investimento anual2 de PPP$ 8.000

Acima do investimento

O Brasil, com dispêndio anual de

por aluno do ensino fundamental, o desempenho

anual de PPP$ 8.000

$ 3.814 por aluno, faz parte do primeiro

dos jovens de 15 anos no exame Pisa3, na média

por aluno o desempenho

grupo, sendo o país com a maior

das três áreas avaliadas (Leitura, Matemática e

é pouco ou nada afetado

diferença entre o desempenho medido

Ciências), cresce com o dispêndio por estudante

pelo investimento (linha

(395 pontos) e o esperado segundo

(linha de tendência cor-de-rosa).

de tendência verde).

a linha de tendência (439 pontos).

Desempenho pisa 2015 (média três áreas)

540

Japão Canadá Alemanha

Estônia Coreia do Sul

520

540

Finlândia

520

Noruega

Polônia

500

Média Itália OCDE

Israel

Luxemburgo

Reino Unido

Espanha

Hungria Argentina (Buenos Aires)

460

500

França

República Tcheca

480

Suíça

480

EUA

460

República Eslovaca 440

Chile

Brasil esperado (439)

440

Turquia

420

420

México Colômbia

400 Indonésia

Dispêndio acima de PPP$ 8.000 por aluno

380 0

2.000

4.000

6.000

400

Dispêndio até PPP$ 8.000 por aluno

Brasil medido (395) 8.000

10.000

12.000

14.000

16.000

18.000

380 20.000

Dispêndio por aluno 2013 ($ poder de paridade de compra)

492

39 5

Para os estados brasileiros, o escore médio das três áreas, no Pisa 2015, varia

42 7 42 1 41 7 41 7 41 2 40 4 40 2 40 2 39 7 39 7 39 5 39 4 39 1 39 0 38 6 38 1 38 1 37 9 37 4 37 3 37 2 37 1 36 9 36 6 36 3 36 1 35 4

Desempenho nas unidades da federação

entre o mínimo de 354 (Alagoas) e o máximo de

BA AL

SE TO MA

PI RN

PE PB AP

RJ PA RO

MT

AC RR

CE MS AM

SP RS GO

SC

PR DF

MG

Br

OC

DE as il ES

427 pontos (Espírito Santo).

Notas (1) A escala do eixo vertical se inicia em 380 pontos (escala do Pisa), para melhor visualização. A escala foi calibrada no ano 2000, colocando-se a média e o desvio-padrão dos escores dos alunos de países da OCDE em 500 e 100 pontos, respectivamente. (2) Pisa – Programme for International Student Assessment (Programa de Avaliação Estudantil Internacional). Avaliação em Leitura, Matemática e Ciências desenvolvida pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizada trienalmente desde 2000. https://www.oecd.org/pisa/ (3) PPP$ – Purchasing Power Parities (Paridades de Poder de Compra): valores de conversão de câmbio que equalizam o poder de compra de diferentes moedas, compensando diferenças de preços médios entre países. http://www.oecd.org/std/prices-ppp/purchasingpowerparities-frequentlyaskedquestionsfaqs.htm Fontes OECD (2016), Education at a Glance 2016: OECD Indicators, OECD Publishing, Paris. http://dx.doi.org/10.187/eag-2016-en; OECD (2016), PISA 2015 Results (Volume I): Excellence and Equity in Education, PISA, OECD Publishing, Paris. http://dx.doi.org/10.1787/9789264266490-en; MEC (2016), Brasil no Pisa 2015 – Análises e reflexões sobre o desempenho dos estudantes brasileiros, Inep/MEC, 2016. Acesso em 21/12/2016. http://download.inep.gov.br/acoes_internacionais/pisa/resultados/2015/pisa2015_completo_final_baixa.pdf


Notas

Penas de um dinossauro no âmbar Uma peça de âmbar vendida como joia em

no osso pigostilo como nas aves modernas e nos

um mercado de Myanmar, no sudeste da Ásia,

seus parentes mais próximos”, explicou McKellar.

preserva há 99 milhões de anos as penas e a

A análise do material sugere que as penas eram

parte final da cauda de um pequeno dinossauro.

marrom-castanho na parte superior e brancas na

O réptil emplumado, um exemplar jovem do

inferior. Diferentemente das penas das aves, as do

grupo coelossauria, deve ter sido do tamanho de

dinossauro não apresentavam a raque, um eixo bem

um pardal, estimam os pesquisadores. “Essa é a

estruturado que divide a pena ao meio. Segundo os

primeira vez que se encontra penas de dinossauro

pesquisadores, há sinais de que o animal pode ter

preservadas em âmbar”, disse o paleontólogo

sido aprisionado na resina viscosa ainda vivo. Há

Ryan McKellar, pesquisador do Museu Real de

quase 2 mil anos a região nordeste de Myanmar,

Saskatchewan e da Universidade de Regina, no

onde o exemplar foi encontrado, produz peças

Canadá, em entrevista ao site de notícias BBC

de âmbar. Mas os blocos maiores costumam

News. McKellar e o pesquisador Lida Xing, da

quebrar durante a extração. “Se tivéssemos um

Universidade de Geociências da China, descreveram

exemplar completo, poderíamos ver como as

a descoberta em um artigo publicado em dezembro

penas estão organizadas ao longo do corpo do

na Current Biology. A avaliação anatômica da

animal ou ter acesso a tecidos que não costumam

cauda não deixa dúvidas de que ela pertenceu a

ser preservados”, disse McKellar. Se outras partes

um dinossauro, e não a uma ave. “Estamos seguros

tivessem sido conservadas, seria possível saber

da origem porque as vértebras não estão fundidas

se o réptil voava ou planava.

12 | janeiro DE 2017

Avaliação anatômica da cauda do fóssil de 99 milhões de anos não deixa dúvidas de que se tratava de um dinossauro, segundo pesquisadores


Viajantes em porto na ilha de Marajó: hábitos alimentares das regiões industrializadas estão se disseminando pelo Norte

2

Reconhecimento mais ágil de diplomas do exterior Estudantes que fizeram graduação, mestrado e doutorado no exterior deverão ter os diplomas reconhecidos no Brasil com maior rapidez por força de uma portaria do Ministério da Educação (MEC) lançada no dia 14 de dezembro. Segundo as novas regras, o prazo máximo para decidir se um diploma será ou não validado é de 180 dias. Bolsistas

fotos 1 Royal Saskatchewan Museum 2 THIAGO GOMES/AG. PARÁ   3 SLAC National Accelerator Laboratory

Síndrome metabólica avança em Marajó

do programa Ciência sem Fronteiras, do elevada; circunferência

gaiolas e isolam os

governo federal, terão prioridade: para eles,

da cintura superior a

átomos, que formam a

o limite será de 60 dias. Até então, o pro-

80 centímetros (cm)

parte interna do nanofio.

cedimento não tinha prazo para ser con-

para mulheres e 90 cm

O novo material foi

cluído e podia levar anos. A portaria também

para homens; níveis

produzido por

define que a análise de cada caso deve levar

baixos de colesterol

pesquisadores da

em conta as diferenças existentes nos sis-

HDL; e níveis elevados

Universidade Stanford

temas educacionais dos países e se concen-

Os hábitos alimentares

de triglicerídeos.

e do Departamento de

trar nas condições acadêmicas da formação

das regiões mais

Associada ao consumo

Energia dos Estados

obtida. De acordo com Elizabeth Balba-

industrializadas do país

excessivo de alimentos

Unidos (Nature Materials,

chevsky, coordenadora de avaliação inter-

e suas consequências

processados, a síndrome

26 de dezembro).

nacional da Secretaria de Educação Superior

para a saúde estão se

se manifestou mais

“Mostramos que

(Sesu) do MEC, a intenção é substituir o

disseminando pelo

cedo nas mulheres.

podemos fazer fios

esquema vigente até então, que se limitava

interior da Amazônia. Um

Entre 40 e 49 anos

condutores de energia

a comparar conteúdos de disciplinas e car-

em cada três moradores

de idade, 46% delas

do menor tamanho

gas horárias. “A falta de um sistema previ-

de quatro cidades da

apresentavam a

possível, que se montam

sível e ágil para o reconhecimento de diplo-

Ilha de Marajó, região

alteração, identificada

essencialmente

mas alimentou estratégias que priorizam,

rural no norte do

em 43% dos homens na

sozinhos”, diz Hao Yan,

no exterior, formações semelhantes às que

Pará, já apresenta

faixa etária dos 50 aos

que faz estágio de

já são oferecidas no país. Com isso, a ciência

alterações metabólicas

59 (PLOS ONE, 9 de

pós-doutorado em

brasileira tem deixado de explorar a rique-

que aumentam

dezembro).

Stanford e é o principal

za de alternativas de formação oferecidas

o risco de doenças

autor do trabalho. “O

em instituições de excelência situadas em

cardiovasculares e de

processo é simples.

diferentes partes do mundo”, diz. O MEC

morte precoce. De 2012

Os ingredientes são

também lançou o Portal Carolina Bori (ca-

despejados juntos e

rolinabori.mec.gov.br), com informações

os resultados aparecem

sobre a nova legislação e o trâmite da do-

em uma hora e meia. É

cumentação. O site homenageia a psicólo-

como se os diamantoides

ga que foi a primeira mulher a presidir a

soubessem aonde

Sociedade Brasileira para o Progresso da

deveriam ir.”

Ciência (SBPC).

a 2013, os pesquisadores Sérgio França, Sandra Lima e José Ricardo Vieira, todos da

Diamantes isolam nanofio

Universidade Federal do Pará (UFPA), mediram

Com a ajuda dos

o peso e a altura e

menores pedaços

realizaram exames de

possíveis capazes de

sangue em 787 adultos

manter a estrutura do

dessas localidades. Em

cristal de diamantes,

média, 34,1% dos

denominados

participantes (proporção

diamantoides, átomos de

superior à média nacional,

cobre e de enxofre se

de 29%) haviam

encaixam como peças de

desenvolvido a chamada

Lego e geram um

síndrome metabólica,

nanofio semicondutor

definida pela presença de

com três átomos de

três destes cinco sinais

espessura. Os

clínicos: pressão alta;

diamantoides funcionam

glicemia em jejum

como uma rede de

3

Ilustração mostra o centro do nanofio formado por átomos de cobre e enxofre (em marrom e amarelo), revestido de diamantoides PESQUISA FAPESP 251 | 13


1

Estudo propõe sete áreas prioritárias do bioma para a conservação da Panthera onca no Brasil, Argentina e Paraguai

Onça-pintada ocupa 2,8% da Mata Atlântica Uma equipe de pesquisadores do Brasil, da Argentina e do Paraguai estimou que os remanescentes da onça-pintada (Panthera onca), o maior felino das Américas, ocupam uma área de quase 38 mil hectares dentro da Mata Atlântica dos três países. A extensão equivale a 2,8% das áreas existentes desse bioma e a cerca de 15% do território de Mata Atlântica que seria habitável pelo grande felino (Scientific Reports, 16 de dezembro). O trabalho reuniu dados de 14 grupos de pesquisa que atuam na região. Equipes de universidades e institutos de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná e Rio Grande do Sul participaram do esforço com os colegas dos países vizinhos. Dos menos de 300 exemplares que devem existir no interior do bioma, a maior parte dos animais conhecidos está concentrada em sete áreas consideradas prioritárias para a conservação da espécie. Três dessas áreas (na serra do Mar, no Alto Paranapanema e no chamado corredor verde, na divisa com a província argentina de Missiones) abrigam mais de 50 exemplares, com machos e fêmeas, e se estendem por mais de 5 mil quilômetros quadrados (km2). Esses fragmentos de Mata Atlântica têm boas chances de comportar por um longo período uma população da Panthera onca, segundo estimativas dos autores. As outras quatro áreas abrigam menos de 50 onças e sua extensão varia entre 500 e 3.900 km2. Além dos sete segmentos do bioma onde há um número significativo de onças, os pesquisadores identificaram outras cinco áreas no oeste do Paraguai e na costa brasileira com potencial para abrigar exemplares do felino.

públicos em P&D devem se estabilizar

mais de 2%. Países como França, México,

nos níveis atuais ou declinar ainda mais

Brasil (que não faz parte da OCDE), Austrá-

nos próximos anos”, segundo o relatório.

0,5% 0%

Ale

Co

14 | janeiro DE 2017

lia

tos países sugerem que os investimentos

e, em 2015, reduziu o índice para pouco

Itá

2,5% do orçamento do governo para P&D

1%

ça

crescimento econômico lento em mui-

ia

contínua sobre as finanças públicas e o

Estados Unidos, que direcionavam quase

Fra n

damente 1,4%. O mesmo foi observado nos

1,5%

trá l

da crise econômica mundial. “A pressão

ido

países desenvolvidos após 2009, por força

esse percentual declinou para aproxima-

Au s

despesas do governo em P&D. Em 2015,

2%

l

voltados à pesquisa desacelerou em muitos

Un

o crescimento dos orçamentos públicos

do, por exemplo, investia cerca de 1,8% das

To ta

compõem o bloco. Em 2000, o Reino Uni-

2,5%

ino

3,5% em 2015. De acordo com o relatório,

DE

de quase 2,5% em 2000 para mais de

queda nos últimos anos nas nações que

Re

quisa e desenvolvimento (P&D) sofreu uma

3%

OC

voltado a P&D. A Coreia, por exemplo, foi

a

Argentina, houve aumento do orçamento

média dos investimentos públicos em pes-

EU A

industrializados do mundo, indica que a

2000 3,5%

ssi

como Coreia, Alemanha, Portugal, Chile e

(OCDE), que reúne 35 dos países mais

n n 2015 

ão

gastos públicos com pesquisa. Em outros,

a

ração e Desenvolvimento Econômico

Diminuição do investimento público em p&d

4%

Jap

lia, Espanha e Israel também reduziram os

rei a

Um estudo da Organização para a Coope­

nh

públicos em pesquisa e desenvolvimento

Aumento do investimento público em p&d

ma

Um panorama da retração dos investimentos


2

Indicador

Medições feitas pela colaboração Alpha, no Cern, indicam que o pósitron do anti-hidrogênio (ilustração) muda de órbita e absorve a luz de modo semelhante ao elétron do hidrogênio

alternativo de citações

3

Indicador largamente utilizado para avaliar revistas científicas, o Journal Impact Factor (JIF) ganhou um concorrente. Em dezembro, a Elsevier, uma das maiores editoras de livros e periódicos, lançou o CiteScore, que, assim como o JIF, índice internacional produzido pela empresa Thomson Reuters, busca medir a influência de um periódico em determinada área do conhecimento por meio da média das citações recebidas por seus artigos num determinado período. O novo índice é bastante similar ao JIF, mas abrange um número maior de revistas. Enquanto o JIF tem como base o Web of Science, banco de dados científicos da Thomson Reuters, que indexa cerca de 11 mil periódicos, o CiteScore utiliza a base Scopus, da Elsevier, que indexa mais de 20 mil títu-

Antimatéria iluminada

los. Diferentemente do JIF, a nova métrica inclui não apenas artigos científicos, mas todos os documen-

fotos 1 eduardo cesar 2 e 3 Chukman So

tos publicados por periódicos que Átomo mais simples e abundante no Universo,

é a dificuldade de se criar e armazenar

podem ser citados em outras pu-

o hidrogênio é feito de um elétron, partícula de

antiátomos em laboratório. Isso porque a

blicações, como editoriais, cartas

carga elétrica negativa, girando em volta de um

antimatéria sempre se aniquila e gera energia

ao editor, correções e notícias. A

núcleo composto por um único próton, partícula

quando em contato com a matéria. Desde 2010,

novidade foi vista com reserva por

de carga elétrica positiva. Já os átomos de

uma equipe internacional sediada no Centro

editores de grandes revistas. Isso

anti-hidrogênio são extremamente raros no

Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), a

porque editoriais e cartas recebem

Universo. São feitos de um antielétron, mais

colaboração Alpha, autora do estudo, cria

poucas citações e podem derrubar

conhecido como pósitron – uma partícula igual

e aprisiona átomos de anti-hidrogênio em

o desempenho de periódicos. A

ao elétron em todos os seus aspectos, mas

uma armadilha magnética, utilizando um

revista The Lancet, por exemplo,

com sua carga elétrica com sinal trocado –,

equipamento desacelerador de antiprótons.

ocupa a quarta posição na lista

circulando um antipróton, uma partícula em

“A Alpha é uma das colaborações que usa o

do JIF, mas no CiteScore fica fora

tudo idêntica ao próton, exceto pelo sinal

único equipamento no mundo capaz obter

das top 200. Especialistas ouvidos

invertido de sua carga elétrica. Entender por

antiprótons a baixas energias”, explica Claudio

pela revista Nature afirmaram que,

que praticamente toda a matéria do Universo

Lenz Cesar, físico da Universidade Federal do

caso o CiteScore torne-se muito

parece ser feita apenas de átomos como

Rio de Janeiro (UFRJ), membro do projeto desde

usado, suas peculiaridades pode-

o hidrogênio e não de antiátomos, como o

seu início, em 2006. A colaboração conseguiu

riam alterar o comportamento dos

anti-hidrogênio, é uma das grandes questões

manter milhares de átomos de anti-hidrogênio

periódicos na esperança de maxi-

em aberto da física. Pela primeira vez, uma

aprisionados por alguns minutos, tempo

mizar sua pontuação. “A adoção

equipe internacional de físicos conseguiu medir

suficiente para iluminá-los com feixes de luz

do CiteScore pode incentivar os

com precisão como átomos de anti-hidrogênio

laser. O objetivo era verificar se os antiátomos

editores a parar de publicar textos

interagem com a luz. As novas medições

interagiam com a luz da mesma maneira que

que não sejam artigos científicos,

mostram que o pósitron do anti-hidrogênio

os átomos. Lenz Cesar conta que a colaboração

desviando esse tipo de material

muda de órbita absorvendo luz com o mesmo

pretende trabalhar neste ano para melhorar

para publicações secundárias ou

comprimento de onda que o elétron do

a precisão do resultado, além de verificar

para o site na internet”, avaliou

hidrogênio (Nature, 19 de dezembro). Um dos

outras propriedades do anti-hidrogênio, como

Phil Davis, consultor editorial em

empecilhos para realizar esse tipo de medição

a sua massa gravitacional.

Nova York. PESQUISA FAPESP 251 | 15


A nova geração

1

do arXiv O repositório eletrônico de acesso aberto arXiv vai ser atualizado e deve ganhar novas funcionalidades. Utilizado principalmente por físicos para compartilhar dados de pesquisas, submetendo-os à análise de colegas A Via Láctea (em azul e branco, no eixo horizontal) e a localização do novo supercluster Vela (VCS) e do supercluster Shapley (SC)

recebeu uma doação de US$ 445 mil da Fundação Alfred P. Sloan, de Nova York, para modernizar e rever a sua programação, que está ficando obsoleta. Essa etapa deve durar três anos e criar as bases de uma nova geração da plataforma, batizada de arXiv-NG. Criado em 1991 pelo físico

movimento gravitacional

divulgado no mês

norte-americano Paul Ginsparg, o arXiv

da Via Láctea, que se

passado pela Embrapa

é mantido por doações de bibliotecas

desloca a 50 quilômetros

Tabuleiros Costeiros,

e instituições filantrópicas e conta com

por segundo na direção

de Aracaju, revela um

trabalho voluntário de aproximada-

da megaestrutura.

cenário preocupante

mente 150 moderadores. Em 2015,

Um dos maiores

“A gravidade do

para o futuro dessa

cerca de 139 milhões de downloads

superclusters de galáxias

supercluster Vela pode

atividade em Sergipe,

foram realizados no repositório. Para

foi descoberto perto

explicar a diferença entre

responsável por metade

definir o que será a nova geração do

da Via Láctea por

o movimento registrado

da produção nacional

serviço, seus responsáveis fizeram

astrofísicos da Europa,

pela Via Láctea no

de 700 toneladas de

uma pesquisa com 36 mil usuários.

Austrália e África do Sul

espaço e o previsto a

mangaba. Segundo

Os entrevistados pediram aperfei-

(Monthly Notices of the

partir da distribuição

o levantamento, nos

çoamentos como a inclusão, nas re-

Royal Astronomical

das galáxias até agora

últimos seis anos houve

ferências bibliográficas, de links para

Society, 8 de novembro).

conhecidas”, comenta

uma redução de

a íntegra de artigos e também a oferta

Denominado supercluster

Matthew Colless, da

aproximadamente 30%

de ferramentas de análise de citações.

Vela, esse mega-

Universidade Nacional da

(10.456 hectares) na

Mas ficaram divididos em relação a

agrupamento de galáxias

Austrália, um dos autores

área de ocorrência

criar funcionalidades típicas de redes

tinha passado

do estudo. O supercluster

natural de mangabeiras

sociais, como a possibilidade de qual-

despercebido devido à

foi descoberto a partir do

no estado. O estudo

quer leitor fazer comentários sobre os

sua localização. Ele se

cruzamento de dados

comparou a situação

artigos. Para fazer a modernização

situa atrás do plano da

de múltiplos telescópios

atual com a de 2010,

completa, o arXiv espera conseguir

Via Láctea, onde a poeira

e levantamentos de

quando um trabalho

arrecadar de US$ 2,5 milhões a US$

e as estrelas de nossa

galáxias.

semelhante mapeou os

3 milhões em doações.

galáxia o encobrem, à

lugares com árvores da

distância de 800 milhões

espécie Hancornia

de anos-luz. Os autores do trabalho dizem que o novo supercluster – denominado Vela por estar perto dessa

Menos mangabeiras em Sergipe

constelação – parece

speciosa, nome científico da mangabeira, em nove municípios sergipanos. Os dois problemas que mais contribuíram para a redução da zona

superar os predicados do

Fruto de uma árvore

ocupada pela espécie

Shapley, antes a maior

encontrada só no Brasil,

foram o desmatamento

estrutura com galáxias

principalmente em áreas

da vegetação nativa

(mais de 8 mil) do

de tabuleiros, baixadas

(para abrir espaço ao

Universo observável. A

litorâneas e restingas

plantio de cana-de-

massa descomunal do

do Nordeste, a mangaba

-açúcar e eucalipto e à

Vela, ainda não calculada

vendida no país vem

indústria da construção

com precisão, exerce

quase toda da ação

civil) e o cercamento de

forte influência sobre o

extrativista. Um estudo

áreas de vegetação.

16 | janeiro DE 2017

Entre 2010 e 2016, área produtora de mangaba diminuiu quase 30% no estado

2

fotos 1 Thomas Jarrett (UCT)/Instituto Max Planck  2 Ana Ferreira/Flickr  3 Wikimedia Commons

O vizinho colossal da Via Láctea

antes que sejam publicados, o arXiv


Como aves, insetos migram sazonalmente Uma movimentação significativa de seres vivos, que ocorre entre 120 metros e 1,2 quilômetro de altura, passa praticamente despercebida acima da cabeça dos britânicos. Trata-se de nuvens de insetos, pequenos e grandes, que, como aves migratórias, cruzam periodicamente o território do sul do Reino Unido ao sabor das estações. Com o emprego de medições feitas com radares e amostras coletadas em balões, cientistas chineses, israelenses e britânicos estimaram que cerca de 3,5 trilhões de insetos sobrevoaram anualmente o Sul do Reino Unido entre 2000 e 2009 (Science, 23 de dezembro). Esse fluxo de invertebrados aéreos equivale a uma movimentação de 3,2 mil toneladas de biomassa e inclui insetos como besouros, joaninhas, borboletas, mariposas, barqueiros de água e moscas de água. Os insetos viajam para o Sul (mais quente) no outono e para o Norte na primavera. Seu deslocamento coincide com o movimento dos ventos e pode alcançar até 58 quilômetros por hora. Durante o período de observação, os radares registraram 1.320 migrações em massa durante o dia e 898 à noite de insetos de médio e grande porte. “O corpo dos insetos é rico em nutrientes e a importância dessas migrações é subestimada”, diz o biólogo Jason Chapman, do Centro de Ecologia e Conservação da University de Exeter, campus da Cornualha (Reino Unido), coordenador do estudo. “Se as Cerca de 3,5 trilhões de insetos cruzam anualmente os céus do Sul do Reino Unido

densidades observadas sobre o Sul do Reino Unido forem extrapoladas para todo o globo, as migrações de insetos em altas altitudes representam o mais importante movimento anual de seres vivos sobre ecossistemas em terra firme, comparáveis às mais significativas migrações oceânicas.”

3

PESQUISA FAPESP 251 | 17


capa

Inovações cerve jeiras Investimento em pesquisa e em novas tecnologias melhora a qualidade da cerveja brasileira e os custos de produção

Yuri Vasconcelos

18 | janeiro DE 2017


As opções da bebida mais apreciada pelos brasileiros aumentaram nos últimos anos no país, muito pela produção de mais de 400 microcervejarias

léo ramos chaves

O

Brasil é o terceiro maior produtor e um dos grandes consumidores de cerveja do mundo. São fabricados 13,8 bilhões de litros por ano, o que coloca o país no ranking global atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Na última década, o consumo aumentou a uma taxa média de 5% ao ano, com destaque para o segmento de cervejas artesanais, que teve uma evolução anual em torno de 20%. Com um mercado tão robusto, várias iniciativas inovadoras são fomentadas nas universidades, cervejarias, institutos de pesquisa e por agricultores. Unidos em um esforço conjunto para melhorar a qualidade do produto e reduzir os custos de fabricação, eles são responsáveis por um leque de inovações relacionadas tanto ao processo produtivo quanto ao cultivo no país dos principais ingredientes da bebida, além da água: cevada, lúpulo e levedura. “A indústria cervejeira brasileira é formada por mais de 50 complexos fabris com tecnologia de padrão mundial”, diz Paulo Petroni, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), entidade que reúne os maiores fabricantes do país. Um exemplo do esforço inovativo do setor ocorre com a cevada, principal fonte de amido da bebida. Mais de 90% do grão plantado no país é fruto de pesquisa nacional. Criado há 40 anos, o programa de melhoramento genético liderado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) já lançou no mercado 30 novos cultivares de cevada cervejeira adaptados às condições de clima e solo. “Com os nossos cultivares, conhecidos pela sigla BRS, a produtividade mais do que triplicou. Nos anos 1970, colhíamos por volta de 1 tonelada de cevada por hectare e agora chegamos a 3,5 toneladas por hectare”, informa o engenheiro-agrônomo Euclydes Minella, responsável pelo programa na Embrapa Trigo, em Passo Fundo (RS). “As novas variedades do grão que desenvolvemos ajudaram a consolidar a lavoura de cevada cervejeira. Hoje, temos cultivares mais produtivos, com perfil superior de resistência a

doenças e de melhor qualidade industrial. Dificilmente, sementes de cevada importadas vingam no país. As variedades desenvolvidas aqui são muito competitivas comercialmente.” Quando foi criado, o programa pretendia substituir a cevada usada pelas cervejarias que, naquela época, era toda importada. Esse objetivo ainda não foi atingido. A produção nacional de 300 mil toneladas por ano (t/ano) do grão, de acordo com a Embrapa, atende a 43% da necessidade da indústria brasileira para produção de malte, nome dado ao cereal germinado seco usado na fabricação da bebida (ver o infográfico com as principais etapas do processo de fabricação da cerveja). Para suprir a demanda dos fabricantes, o Brasil compra cerca de 400 mil t/ano de cevada de produtores argentinos, europeus, norte-americanos e canadenses. NOVAS FRONTEIRAS

Gramínea parecida com o trigo, a cevada (Hordeum vulgare) é originária do Oriente Médio. Foi domesticada inicialmente na antiga Mesopotâmia, região onde hoje estão o Iraque e a Síria. É uma cultura anual, com a semeadura no Brasil de maio a julho e a colheita entre setembro e novembro. Na última década, o plantio se concentrou no Rio Grande do Sul e Paraná, estados que têm características climáticas propícias ao pleno desenvolvimento da planta. Juntos, respondem por mais de 90% da produção nacional. Por meio das pesquisas da Embrapa, a lavoura tem ampliado suas fronteiras e hoje já é possível produzir o grão em escala comercial em São Paulo, Goiás e Minas Gerais. “Lançamos até 2013, em parceria com a Malteria do Vale, de Taubaté [SP], as variedades BRS, Sampa, Manduri e Itanema para cultivo nas lavouras irrigadas de São Paulo”, conta Euclydes Minella. “Em São Paulo, responsável por cerca de 5% da produção do grão, 100% das plantações são formadas por cultivares da Embrapa.” A cooperação entre a Embrapa e produtores, maltarias (fábricas que transformam a cevada em malte) e fabricantes de cerveja, segundo MinelPESQUISA FAPESP 251 | 19


1

2

Lúpulo cultivado em Campos do Jordão (à esq.) e plantação de cevada (acima): cultivares da Embrapa atendem a 43% da produção brasileira de cerveja

la, está na base do sucesso do programa Embrapa de melhoramento da cevada. “As quatro maltarias instaladas no país – duas da Ambev, no Rio Grande do Sul, uma da Cooperativa Agrária Industrial, em Guarapuava [PR], e uma da Malteria do Vale, em São Paulo – são parceiras da Embrapa”, informa Minella. Outro fator que explica o êxito da iniciativa é a tecnologia por trás da criação dos novos cultivares. “Pelo método tradicional de melhoramento genético, um novo cultivar leva pelo menos seis anos para fixar suas características genéticas. Depois disso, são necessários mais quatro anos em testes de campo para avaliação de rendimento, da qualidade do grão e de resistência a doenças”, explica Minella. Na Embrapa Trigo, os cientistas usam a técnica de haplodiploidização, com o desenvolvimento in vitro de plantas derivadas de gametas (células reprodutivas), portadoras da metade do genoma, que de forma espontânea ou artificial dá origem a linhagens duplo-haploides. “Assim, alcançamos uma nova linhagem pura geneticamente em apenas uma geração, ao invés de seis ou mais com o processo convencional, obtendo um novo cultivar em sete anos.” 20 | janeiro DE 2017

O lúpulo, que dá o amargor à bebida, tem dificuldade em se adaptar à pouca variação da luz solar ao longo do ano no Brasil Assim como a cevada, o lúpulo (Humulus lupulus), outro ingrediente essencial na receita da cerveja, também é alvo de intensa pesquisa agronômica. Responsável pelo amargor da bebida, a planta é uma trepadeira de origem europeia, muito difícil de ser cultivada no país. Apenas as flores da planta fêmea, ricas em resinas amargas e óleos essenciais, entram na composição da bebida.

Ela tem uma folha no formato de palma e cresce se enrolando em fios. Atinge 6 metros de altura e, no auge de seu desenvolvimento, cresce até 30 centímetros por dia. Por ser uma cultura típica de regiões de clima temperado do hemisfério Norte, ela nunca se adaptou às condições do país, que importa todo o lúpulo usado pelas cervejarias nacionais – em torno de 2,4 mil toneladas por ano, ao custo de cerca de US$ 35 milhões. Até poucos anos atrás, a produção nacional de lúpulo era inexistente, mas o trabalho de pesquisadores e pequenos produtores está mudando esse cenário. “Ter um lúpulo produzido no Brasil é importante não apenas para não dependermos mais de sua importação, mas, principalmente, para formação de uma escola cervejeira nacional”, diz o engenheiro-agrônomo Felipe Francisco, que desde 2012 estuda a planta. Dono de uma consultoria agrícola com sede em Curitiba (PR), ele pesquisou o lúpulo durante o mestrado concluído há dois anos na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Além de baixas temperaturas – essenciais para que a trepadeira brote –, outro desafio para o cultivo no país é o tempo de exposição diária à luz solar. “No Brasil, o fotoperíodo, ou seja, a duração do dia, varia pouco ao longo do ano. E isso não é bom para a planta”, diz Francisco. O pesquisador explica que, para o lúpulo produzir em quantidade e qualidade desejada, no tempo certo, é necessário haver uma variação no tempo de exposição ao sol no decorrer de seu ciclo de crescimento, de um mínimo de 9,5 ho-


fotos 1 rodrigo veraldi 2 fabio colombini  infográfico ana paula campos  ilustração pedro hamdan

1 MALTEAÇÃO

2 CONVERSÃO DO AMIDO

3 PRODUÇÃO DO MOSTO

A cevada precisa ser

Durante o processo de

O malte é misturado à água e,

transformada em malte.

malteação, são liberadas

eventualmente, a adjuntos

Para isso, o grão é molhado

enzimas que converterão o

cervejeiros (cereais não

e começa a brotar. Nesse

amido em açúcar. Dependendo

maltados, como milho e arroz),

ponto é colocado em uma

do processo de secagem, o

formando o mosto. Esse caldo

estufa para secar e parar

malte ganha aroma e coloração

é aquecido para desencadear

de germinar

para cada tipo de cerveja

algumas reações enzimáticas

7 ENVASE

6 FILTRAGEM A bebida passa por um

5 FERMENTAÇÃO E MATURAÇÃO

4 ADIÇÃO DO LÚPULO

Garrafas e latas passam pela pasteurização, processo de

processo de separação

Depois adiciona-se a levedura

para, depois, receber

aquecimento e resfriamento,

de impurezas e materiais

que transforma os açúcares do

o lúpulo, responsável pelo

para ampliar a validade da

particulados, entre eles

mosto em álcool. Em seguida,

amargor da bebida. É usado

bebida. Nos barris de chope,

leveduras residuais. Ao final

na maturação, as reações

in natura ou em pellet,

para consumo rápido, não é

da filtragem, o líquido

químicas irão moldar o aroma

um granulado cilíndrico

necessária a pasteurização

torna-se transparente

e o sabor definitivo da cerveja

e compactado da flor

ras de luz solar por dia a um máximo de 14,5 horas. “Ao perceber que o período de insolação está aumentando, a planta naturalmente passa a produzir um hormônio, chamado giberelina ou GA, que acelera seu crescimento. Já quando os dias começam a encurtar – no hemisfério Sul, a partir de 21 de dezembro –, a produção de GA diminui e ela começa a florar. Em poucas semanas, em fevereiro ou março, é hora de colher as flores para produzir o lúpulo”, afirma Francisco. A saída encontrada no Brasil foi “enganar” a planta, simulando o fotoperíodo ideal ao seu desenvolvimento. Para isso, o produtor instala refletores na lavoura e, com a luz artificial, cria dias mais longos e reduz a iluminação quando necessário.

Há dois anos, Francisco presta consultoria a agricultores do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Bahia para viabilizar produções em pequena escala de lúpulo. “Para nossa surpresa, colhemos lúpulo nas últimas duas safras. Todos com boa qualidade, menos na Bahia e Mato Grosso, com qualidade média mas aceitável. A produtividade média foi de 1 tonelada por hectare, cerca de um terço da europeia, o que não é ruim.” Em São Bento do Sapucaí, município paulista na serra da Mantiqueira, vizinho a Campos do Jordão, o engenheiro-agrônomo Rodrigo Veraldi também persegue, há mais de uma década, o objetivo de criar um plantio nacional de lúpulo.

O mosto é filtrado e fervido

Foi por um lance do acaso que ele teve sucesso. “Em 2005, iniciei uma lavoura com sementes de um lúpulo canadense fornecidas por um amigo. Algumas mudas cresceram em uma estufa, mas quando as transferi para o campo nenhuma delas vingou”, recorda-se Veraldi. O agrônomo jogou o material fora, na compostagem de seu sítio, e esqueceu do assunto. Tempos depois, percebeu que uma trepadeira brotara no local. “Era um pé de lúpulo sobrevivente. Ele deve ter sofrido alguma mutação genética que o tornou adaptado ao intenso regime de chuvas da Mantiqueira e resistente ao ataque de fungos. Foi um feliz acaso botânico”, conta. Veraldi multiplicou esse indivíduo e deu início a um dos primeiros PESQUISA FAPESP 251 | 21


Microcervejaria A Tutta Birra, em Piracicaba, cujo mestre-cervejeiro fez doutorado na Esalq, fabrica cinco tipos da bebida

– senão o primeiro – cultivo comercial de lúpulo do país em escala muito pequena. Em 2014, a cervejaria nipo-brasileira Brasil Kirin, fabricante das marcas Schincariol, Devassa, Eisenbahn, entre outras, interessou-se pela experiência de Veraldi e estabeleceu uma parceria para fomentar a produção. “Nosso objetivo foi estimular o cultivo de um lúpulo brasileiro, contribuindo para o fortalecimento da cultura cervejeira nacional”, conta o engenheiro químico Rubens Mattos, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da Brasil Kirin. Naquele mesmo ano, amostras da variedade experimental de Veraldi foram usadas em uma edição especial de 15 anos na Baden Baden, cervejaria da empresa em Campos do Jordão. “Desde esse primeiro teste, estamos investindo continuamente na melhoria da produção, fornecendo apoio tecnológico e envolvendo cientistas do Japão, sede da Kirin, e de universidades brasileiras, como USP [Universidade de São Paulo] e UFPR”, diz Mattos. Em 2015, a cervejaria comprou a variedade de Veraldi e expandiu o plantio para outras regiões do país. A expectativa é colher até 1.500 quilos de flor em 2017 e lançar uma cerveja feita com um lúpulo totalmente nacional. Segundo Mattos, a quantidade de lúpulo e malte varia com o tipo de cerveja. “Apenas como referência, para 22 | janeiro DE 2017

o tipo pilsen, no mercado brasileiro, são 8 quilos de malte e 300 gramas de lúpulo para cada 100 litros de cerveja.” A Brasil Kirin, segundo Mattos, planeja registrar a variedade no Serviço Nacional de Proteção de Cultivares (SNPC), do Ministério da Agricultura, Pesca e Abastecimento (Mapa). Para isso, faz análises a fim de definir se realmente se trata de um novo cultivar. “Nossa aposta é que as plantas cruzaram novamente, de forma espontânea, e deram origem a uma nova variedade. Estudos genéticos vão elucidar essa questão”, avalia Mattos. O cultivo de lúpulo no país pode beneficiar especialmente os pequenos fabri-

Teste de estabilidade de espuma na Ambev: camada é importante para preservar aromas e evitar a oxidação da cerveja

cantes de cervejas especiais, aquelas com características exclusivas, tais como cor, aromas e sabores atípicos, produzidas de forma artesanal. Com a produção limitada, essas microcervejarias precisam de quantidades reduzidas de lúpulo. Atualmente, elas acabam pagando mais pelo lúpulo importado, que é cotado em dólar, do que os grandes fabricantes, que compram maiores quantidades do produto. BOOM DAS ARTESANAIS

O Brasil vive uma explosão de microcervejarias. Esse movimento, iniciado no início deste século, ganhou impulso nos últimos anos e, segundo a Associação


com compostos aromáticos diferentes, assim como outros aspectos organolépticos [percebidos pelo sentidos humanos como olfato, paladar etc.] do produto”, afirma o biólogo Cauré Barbosa Portugal, especialista em bebidas fermentadas, que fez um estágio de pós-doutorado em processos fermentativos alternativos da cerveja e da cachaça na Esalq-USP. “Buscamos isolar e caracterizar outras espécies de levedura para a elaboração de cervejas especiais. Nosso grupo de pesquisa revelou algumas possibilidades de exploração desses microrganismos para produção de bebidas com novas abordagens de bioaromatização – Diferentes incorporação de comleveduras postos aromáticos por vias biológicas, além para uso na de cervejas funcionais, aquelas com baixo teor fabricação e alcoólico e maior concentração de fibras, via espuma da taminas e minerais.” bebida também Com o bom resultado obtido nas pessão objeto quisas, Cauré decidiu criar uma empresa pade estudo ra oferecer leveduras customizadas ao mercado de bebidas. “Uma Autor de um doutorado na Escola Su- possibilidade inovadora é o emprego de perior de Agricultura Luiz de Queiroz blends de leveduras, que é a utilização de (Esalq) da USP sobre envelhecimento mais de um microrganismo no processo de cerveja em barril de madeira, Poleto fermentativo. Algumas proporcionam lembra que outra linha de pesquisa que mais aromas, enquanto outras são mais empolga o setor está relacionada à busca neutras. Ao empregar mais de uma lepor novas leveduras. Durante a fabrica- vedura de forma conjunta ou sequencial ção da bebida, esses microrganismos de- – primeiro um certo microrganismo e, sempenham um papel fundamental, o de em seguida, outro –, podemos modular digerir os açúcares presentes no mosto o processo fermentativo e criar uma cercervejeiro – como maltotriose, maltose veja diferente, com características próe glicose –, transformando-os em álcool. prias”, informa o pesquisador. Batizada Mosto é o caldo formado pela cevada e de Smart Yeast (levedura inteligente), a água, que é aquecido e depois fervido no startup encontra-se em fase de projeto. início do processo de fabricação da bebida. Historicamente, emprega-se no pro- A estabilidade protetora cesso a levedura Saccharomyces cerevisae, A busca por uma cerveja de excelência mas a tentativa de criar cervejas com di- também tem levado pesquisadores a ferentes perfis tem estimulado especialis- estudar detalhes da estrutura do líquitas a avaliarem o uso de microrganismos do, como sua espuma. Essa é a linha de não convencionais que permitam novas pesquisa do engenheiro de alimentos abordagens de processamento. Flávio Luís Schmidt, professor da Fa“Leveduras não Saccharomyces têm culdade de Engenharia de Alimentos suscitado especial interesse na indús- da Universidade Estadual de Campinas tria por demonstrar bom desempenho (FEA-Unicamp). “O objetivo é melhofermentativo e capacidade de contribuir rar a estabilidade da espuma da cerveja

fotos  Léo ramos chaves

O laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento da Ambev, em Guarulhos (SP), analisa o produto

Brasileira de Microcervejarias (Abracerva), já existem no país por volta de 420 estabelecimentos do gênero. Juntas, elas respondem por cerca de 1% do volume consumido no país. “As microcervejarias oxigenaram o setor cervejeiro nacional. Durante anos, as grandes cervejarias fabricaram basicamente um tipo de bebida, a American Stardard Lager, uma cerveja leve, de coloração clara e fácil de beber. Nos anos 1990, principalmente em São Paulo, começou um movimento de importar cervejas de outros tipos, com sabores mais acentuados, ainda de forma tímida e restrita a poucos bares e supermercados. Com o surgimento dos pequenos produtores, o portfólio se ampliou e foi lançada uma gama de bebidas que o brasileiro desconhecia: cervejas com diferentes teores alcoólicos, novos ingredientes, sabores e aromas variados e diversos níveis de amargor”, destaca o biólogo Luís Henrique Poleto, consultor e mestre-cervejeiro da A Tutta Birra, microcervejaria de Piracicaba (SP) que fabrica cinco tipos diferentes de cerveja.

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industrializada por meio da adição de hidrocoloides”, conta Schmidt. Hidrocoloides são polissacarídeos de alto peso molecular extraídos de plantas, algas ou produzidos por síntese microbiana. A espuma varia conforme o tipo de cerveja e, além de aprisionar aromas e perfumes, ela atrasa o processo de oxidação, que altera o sabor da bebida, ao impedir que a luz incida diretamente sobre o líquido. “Quanto mais estável for a espuma, mais tempo ela permanecerá no copo. As cervejas fabricadas no Brasil, com altos níveis de adjuntos não maltados, perdem proteína em sua composição e, com isso, estabilidade de espuma”, diz Schmidt. “O foco do trabalho foi dar outras opções de estabilização de espuma, fora o estabilizante mais comum, o alginato de propilenoglicol (APG).” Os resultados do estudo mostraram que o APG foi o hidrocoloide com melhor desempenho na estabilização da espuma, porém, a pectina de alta viscosidade (originada da camada interna da casca da laranja) e a goma locusta (um tipo de carboidrato de origem vegetal), em associação com o APG, também mostraram-se viáveis. O TOQUE DOS ADJUNTOS

Na Escola de Engenharia de Lorena (EEL-USP) da Universidade de São Paulo, o foco das pesquisas são os chamados

adjuntos cervejeiros, uma miríade de ingredientes usados na formulação da bebida para substituir alguma proporção do malte. Essas fontes alternativas podem ser ingredientes sólidos, como cereais não maltados (milho, arroz, trigo, sorgo, aveia e centeio), ou líquidos, entre eles xaropes, melados e açúcar da cana ou beterraba. Além de reduzir o custo da produção – já que os adjuntos tendem a ser mais baratos do que o malte da cevada –, o uso permite a fabricação de cervejas com sabores e aromas diversos. “Aqui em Lorena, estudamos adjuntos não convencionais, diferentes daqueles usados pelas grandes cervejarias, como o milho e o arroz”, explica o engenheiro químico João Batista de Almeida e Silva, professor de Tecnologia de Bebidas e líder do Laboratório Planta-Piloto de Bebidas da instituição. O primeiro adjunto pesquisado foi o arroz preto, um cereal rico em compostos fenólicos e com elevados teores de proteína e fibra. “No processo convencional de beneficiamento desse arroz, verifica-se a quebra de até 35% dos grãos. Usamos esses resíduos, sem valor de mercado, como adjunto cervejeiro. As características aromáticas do cereal passaram para a cerveja”, explica o pesquisador. O estudo, feito pelo aluno de doutorado Claudio Marcelo Andrade, gerou um pedido de patente.

Bar especializado em cervejas artesanais em São Paulo (acima) e a bebida do tipo Dark Lager, com adição de cacau e açúcar mascavo (à dir.): exemplo da variedade de gostos e aromas

Paixão nacional Bebida predileta do brasileiro, a cerveja foi trazida ao país pelos holandeses Uma pesquisa feita pelo Ibope em

apontam que esse povo da

2014 revelou que a cerveja é a bebida

Mesopotâmia venerava uma deusa,

deu o início da produção da cerveja

mais apreciada pelo brasileiro. No

chamada Ninkasi, dedicada à

em solo brasileiro, mas um anúncio no

ano anterior, outro levantamento

bebida. No Brasil, acredita-se

Jornal do Commercio do Rio de Janeiro

mostrou que ela era a bebida

que a cerveja chegou em meados

de 27 de outubro de 1836 oferecia a

preferida para comemorações no

do século XVII, com a colonização

bebida por uma fabricante local, a

país. Dados da Associação Brasileira

holandesa, pela Companhia das

Cervejaria Brasileira. Segundo Santos,

da Indústria de Cerveja (CervBrasil)

Índias Ocidentais. “Com a saída

as primeiras cervejas industrializadas

indicam que quase 30 mil litros da

dos holandeses em 1654, a cerveja

surgiram na segunda metade do

bebida são fabricados a cada minuto

deixou o país por 150 anos, só

século XIX. Foi também nessa época

no país. O setor fatura R$ 70 bilhões

reaparecendo entre o final do

que foram criadas as duas empresas

por ano, o equivalente a 1,6% do

século XVIII e início do XIX”,

que dominariam por décadas o

Produto Interno Bruto (PIB) em 2015.

escreveu Sérgio de Paula Santos em

mercado nacional, a Companhia

Os primórdios da cerveja no Brasil

Cervejaria Brahma, no Rio, e a

remonta ao tempo dos sumérios, que

(Ateliê Editorial). Importada da

Companhia Antarctica Paulista. Em

há cerca de 6 mil anos criaram a

Inglaterra, a bebida retornou ao país

1999, elas se uniram criando a Ambev,

primeira bebida fermentada à base

a partir de 1808, com a chegada da

que se tornou, à época, a terceira

de cereais. Achados arqueológicos

família real portuguesa ao Brasil.

maior indústria cervejeira do mundo.

A história da cerveja no mundo

24 | janeiro DE 2017

Não se sabe ao certo quando se


fotos  Léo ramos chaves

Depois da experiência com o arroz preto, o grupo de Lorena testou na microcervejaria da escola outros ingredientes, entre eles banana, pinhão, quinoa e pupunha. Um trabalho recente, liderado pela aluna Raquel Aizemberg, visou à produção de dois tipos de cerveja, uma lager (clara e leve) e outra ale (escura e gosto mais forte), usando caldo concentrado de cana como adjunto. O estudo foi feito durante o doutorado de Raquel e parte das análises foram realizadas na Universidade Católica de Leuven, na Bélgica. “A bebida com 25% de xarope de cana foi a que mais agradou. Essa foi a melhor cerveja que já fizemos”, avalia João Batista, destacando que um pedido de patente associado à elaboração do xarope de cana já foi depositado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

ilustracão  pedro hamdan

LEI DA PUREZA

Luciano Horn, mestre-cervejeiro da Ambev, empresa resultado da fusão, em 2004, com a belga Interbrew e, em 2008, com a norte-americana Anheuser-Busch InBev, dona da Budweiser, defende o uso de cereais não maltados na fabricação da bebida no país. “A cerveja sempre teve milho no país porque esse cereal existe por aqui desde os tempos da colonização. O ingrediente faz parte da receita pelo benefício do sabor e não interfere em sua qualidade final. É um mito pensar que cerveja que não é puro malte não tem qualidade”, afirma.

Segundo Horn, a crítica às cervejas feitas com cereais não maltados baseia-se na chamada Lei da Pureza ou Rein­ heitsgebot, instituída na Alemanha em 1516. Naquela época, a fim de preservar a qualidade do produto, cada vez mais popular na Europa, o duque Guilherme IV da Baviera decretou que a bebida deveria conter apenas três ingredientes: cevada, lúpulo e água – a levedura seria acrescentada tempos depois, pois não se conhecia esse microrganismo no século XVI. “Essa lei, na verdade, estabeleceu uma reserva de mercado para os produtores de cevada daquela região da Alemanha. Foi uma grande jogada de marketing que perdura até hoje”, diz o mestre-cervejeiro, para quem o uso de adjuntos é uma prática comum em todo o mundo. “Cada região usa o que tem para fazer cerveja. Não vejo problema nisso.” Dona de 26 diferentes marcas de cerveja, entre elas Brahma, Antarctica, Skol e Bohemia, a Ambev tem um Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDT) que funciona como um laboratório de ideias. No CDT, situado em Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, trabalham mestres-cervejeiros, engenheiros, químicos, entre outros profissionais. A equipe da Ambev envolvida diretamente com Pesquisa e Desenvolvimento no Brasil é composta por 170 pessoas. Eles são responsáveis por criar desde novos sabores a soluções inéditas de marketing e vendas. “O brasileiro tem

buscado experiências inovadoras e nós estamos atentos a esses anseios”, conta Horn. Nos últimos anos, a empresa lançou, por exemplo, uma cerveja com zero teor alcoólico, uma bebida à base de cerveja que pode ser consumida com gelo, e um líquido puro malte com menos calorias e carboidratos. A fim de ampliar e modernizar o trabalho feito no CDT, a Ambev investe R$ 180 milhões na construção de seu Centro de Inovação e Tecnologia (CIT), previsto para ser inaugurado neste ano no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fundão. “Com o CIT, que será um dos principais polos de inovação cervejeira do mundo, vamos acelerar o processo de criação de novos líquidos e de novas embalagens”, explica Horn. n

Projetos 1. Obtenção de cerveja pelo processo de alta densidade, utilizando como adjunto o arroz preto IAC 600 (Oryza sativa) (n° 2007/01347-3). Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável João Batista de Almeida e Silva (EEL-USP); Investimento R$ 102.818,27 e US$ 26.708,00. 2. Uso de caldo de cana como adjunto na produção de cervejas Lager e Ale (n° 2013/08650-4); Modalidade Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior – Doutorado; Pesquisador responsável João Batista de Almeida e Silva (EEL-USP); Bolsista Raquel Aizemberg (EEL-USP); Investimento R$ 28.747,02. 3. Avaliação de uso de hidrocoloides como aditivo estabilizante de espuma em cerveja (n° 2013/12528-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Flávio Luis Schmidt (FEA-Unicamp); Investimento R$ 15.672,55.  

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entrevista Lux Boelitz Vidal

Colecionadora de culturas Pioneira de estudos com índios na Amazônia e da etnoestética no país, antropóloga contribuiu para demarcação de terras e construção de museu Maria Guimarães  | 

A

retrato 

Léo Ramos Chaves

jovem que chegou da França em 1955 acabou se tornando também brasileira de uma maneira absolutamente distante da maior parte dos nascidos no país: se embrenhou em povoamentos indígenas na Amazônia. E se ambientou. No início conformada em cuidar das crianças para ter uma função na aldeia durante suas visitas de pesquisa, hoje Lux Vidal se tornou uma colaboradora valiosa para os povos com os quais convive, tanto por contribuir para a afirmação de suas culturas como por sua ação indigenista. Durante o regime militar, foi fundadora da Comissão Pró-Índio de São Paulo, da qual ainda é conselheira. O compromisso com os índios, o respeito com que os vê e a compreensão da importância da arte produzida por eles são traços marcantes nessa pesquisadora que formou toda uma geração de antropólogos e foi a precursora da etnoestética no país. Quando chegou ao Brasil com o marido e uma filha, dedicou-se aos filhos: dos três, dois nasceram aqui. Lux começou a trabalhar como professora na Aliança Francesa e em seguida no Liceu Pasteur, onde seus filhos também estudaram. Inquieta, em 1967 mudou de rumo e entrou na pós-graduação em ciências sociais na Universidade de São Paulo (USP). Pouco depois, em 1969, tornou-se professora na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFLCH) da USP e logo foi a campo pela primeira vez, para estudar um povo indígena quase extinto: os Xikrin do Cateté, um grupo Jê-Kayapó. Começou aí o trabalho que a pôs no centro da nascente antropologia brasileira, tratando as manifestações artísticas e do corpo como

26 | janeiro DE 2017

idade 86 anos especialidade Antropologia formação Graduação em antropologia, literatura e teatro pela Universidade Sarah Lawrence, Estados Unidos (1951); mestrado e doutorado em antropologia pela Universidade de São Paulo – USP (1972 e 1973) instituição FFLCH-USP produção científica 37 artigos, 8 livros como autora ou organizadora, 13 capítulos de livros, 13 exposições, orientou 15 mestrados e 22 doutorados


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pensar o passado como o futuro. O mais importante na minha vida profissional foi o fato de ter podido participar de toda essa trajetória extremamente complicada.

Prática constante entre os Xikrin, a pintura corporal de jenipapo está mesmo nas bonecas de plástico

centrais para entender as sociedades e cosmologias indígenas. Ainda em atividade, Lux continua a frequentar a Amazônia. No momento em que esta edição é publicada está em Alter do Chão, no Pará, para a reunião anual do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé), do qual é sócia. Você foi para a Amazônia em 1969 quando acabava de começar como professora da USP. Como foi essa experiência? Muito tranquila. Para mim a universidade foi um lugar de desafio, a aldeia não. Eu vivi em uma aldeia na Espanha durante a Segunda Grande Guerra, catávamos comida no mato. Sempre me senti bem em campo, vivendo a vida dos índios com eles. Durante toda a minha vida foi uma grande satisfação, e hoje, com 86 anos continuo indo para campo, porque é isso que gosto de fazer: pesquisar, estudar e conviver com os índios nos diferentes momentos históricos pelos quais passam e passamos. No início, ajudá-los com os doentes, com a demarcação de terras, e lutar contra as invasões, as madeireiras. Mais tarde houve novas fases, com o crescente protagonismo indígena depois da Constituição de 1988. Os índios conquistaram o direito não só às terras, 28 | janeiro DE 2017

mas a uma educação diferenciada. Então as relações mudam, os problemas mudam e a maneira de compartilhar a vida e os conhecimentos com eles também. Atualmente ainda mais, porque hoje os índios vão à escola, a grande maioria cursa o ensino fundamental, muitos têm ensino médio nas aldeias e cada vez mais frequentam a universidade. Isso torna o convívio mais participativo, tanto para

De certa maneira, você foi preparada para esse desafio por sua vivência anterior. Como foi essa trajetória? Minha vida não começa só como professora na USP. Muito do que veio antes eu hoje vejo como foi importante para o desenvolvimento posterior da minha vida pessoal e acadêmica, inclusive o fato de não me ater apenas à vida acadêmica. Sempre me dediquei muito a ser atenta aos problemas das sociedades com as quais trabalhávamos. Me formei em antropologia, literatura e teatro na Universidade Sarah Lawrence, nos Estados Unidos. Era uma universidade de vanguarda apenas para mulheres, agora mudou um pouco. Havia grandes exigências, mas muita escolha, sem exames. Era permitido cursar apenas três disciplinas por ano e uma tinha que ser nas artes. Hoje vejo como essa formação foi importante mais tarde. O interesse em antropologia estava lá desde o início, então? Sim. Fiz curso de antropologia com o norte-americano Irving Goldman, que trabalhou entre os Cubeo da Amazônia e incentivou muito meus estudos. Isso foi muito bom, mas o que se ensinava na época era a antropologia cultural americana e funcionalista estrutural inglesa. Especialmente estudos africanistas.

As mulheres Xikrin têm sempre uma mão preta, marca de sua condição de pintoras


fotos arquivo Pessoal  desenhos odilon joão souza filho, reprodução do livro grafismo indígena

Exemplos de desenhos faciais

derado desaparecido, com menos de 100 pessoas no sul do Pará, entre o Xingu e o Tocantins. Tinham sofrido muito com os primeiros contatos com castanheiros, madeireiros, caçadores, gateiros. Era uma nova fronteira que invadia a região. Minha primeira experiên­cia foi conviver com os índios nessa pequena aldeia que eles reconstruíram quando o padre Caron os levou de volta ao seu lugar de origem, o rio Cateté.

Nos primeiros anos na aldeia Cateté, nos anos 1970, a antropóloga ajudava a cuidar das crianças

Nasci em Berlim, na Alemanha, e depois vivi na Espanha, na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos. Sempre tive uma vida muito atribulada, por causa da guerra e outras circunstâncias. Quando cheguei na universidade estava interessada principalmente em literatura espanhola. Mas quando fiz minha entrevista na universidade, disseram: “Você tem uma experiência tão diversificada que achamos que você deveria cursar a disciplina de antropologia”. O que a conduziu foi uma bagagem de vida, de encontros culturais. Sim, isso foi uma das minhas características durante toda a vida acadêmica. Depois da graduação voltei para a França, apesar de ter sido aceita na pós-graduação da Universidade Columbia. Lá me casei, trabalhei fazendo traduções e estudei espanhol na Sorbonne,

até que decidimos vir para o Brasil. Depois de alguns anos como professora na Aliança Francesa e no Liceu Pasteur, uma ótima experiência, eu queria retomar a antropologia e entrei em contato com uma amiga, Thekla Hartmann, do Departamento de Antropologia da USP, que ainda ficava na rua Maria Antonia. Ela me apresentou os professores Egon Schaden e João Baptista Borges Pereira e comecei a fazer alguns cursos. Já em 1969, prestei concurso e fui contratada para ser assessora da professora Gioconda Mussolini, mas ela faleceu antes de começarmos e tive que me adaptar sozinha. Eu tinha muitas leituras, mas me faltava pesquisa de campo até para um entrosamento melhor na academia com os colegas da área. Logo tive a ocasião de ir para a aldeia Xikrin com um padre dominicano, José Caron. Naquela época, os Xikrin eram um pequeno grupo já consi-

Esse trabalho levou ao seu mestrado e doutorado, com a descrição de rituais e da vida da sociedade Xikrin, mas é muito mais do que um catálogo de costumes, não? Naquela época, por tudo o que tinham passado, os Xikrin tentavam se reconstituir enquanto sociedade. Tive a sorte de assistir a um ritual chamado merêrêmê, que sintetizou naquele momento toda a sua visão de mundo, sua cosmologia, sua organização social. Concentraram em um só todos os rituais que normalmente se revezam ao longo dos anos. Isso foi extraordinário. Me dei conta de que estava testemunhando um momento histórico e datado. Eles fizeram isso dançando todas as tardes, se pintando o tempo todo, como uma maneira de se recuperar. Em meu livro sobre os Xikrin, Morte e vida de uma sociedade indígena brasileira [Hucitec-Edusp, 1977], descrevo rituais que foram retomados apenas depois e me foram contados, mas nunca vi. Foi só depois que veio o interesse por arte indígena? Não era a intenção. Mas, uma vez lá, vi que as manifestações artísticas – na plumária, nos rituais, nos cantos, na maneira de construir a aldeia, de cuidar dela – eram absolutamente fundamentais. PESQUISA FAPESP 251 | 29


Chefe Xikrin com maracá, em ritual registrado nos anos 1970

um diálogo com a alteridade: os outros, os invisíveis ou os inimigos. Há certos padrões, mas cada indivíduo tem sua maneira criativa de interpretar esse legado dos invisíveis, de onde provém a arte transmitida para a sociedade por meio dos xamãs e do sonho. Os grafismos fazem uma ponte entre antropologia e arqueologia, na forma das decorações em cerâmica? Os grafismos encontrados na cerâmica também possuem a sua dimensão cosmológica. Então a articulação entre antropologia e arqueologia vem aumentando, especialmente quando se trata da decoração e dos grafismos tão presentes na cerâmica brasileira atual e arqueológica. As teorias modernas da antropologia com relação ao entendimento da filosofia e da cosmologia ajudam a entender melhor os achados arqueológicos.

E também o trato dado ao corpo: se pintar e ornamentar continuamente era uma prioridade que me intrigava. O estudo da corporalidade acabou sendo fundamental para entender como funcionam essas sociedades, a noção de pessoa, da cosmologia, da relação com o ambiente e da hierarquia. Há uma série de elementos da pintura corporal que indicam papéis na sociedade. Existe também uma variação individual? Não. Entre os Xikrin as regras são muito rígidas. Na pintura corporal feita com jenipapo os desenhos são estritamente estruturados de acordo com sexo, idade ou ocasiões rituais e são propriedade de todos. Os outros bens culturais que também vêm das entidades sobrenaturais, como os ornamentos, os cantos e os nomes, são repartidos entre as casas. As casas, que são das mulheres, têm prerrogativas de certos nomes, certos objetos, heranças que se perpetuam ao longo do tempo e são transmitidas nos grandes rituais. Em outras sociedades amazônicas, como os Wajãpi do Amapá estudados pela Dominique Gallois, a pintura corporal não é relacionada à morfologia social, mas à cosmologia. É 30 | janeiro DE 2017

O estudo da corporalidade acabou sendo fundamental para entender como funcionam essas sociedades

O título do seu primeiro livro sobre os Xikrin, resultado de seu doutorado, é Morte e vida de uma sociedade indígena brasileira. Morte primeiro, vida depois. Por quê? Em 1970 os Xikrin eram menos de 100 e hoje são quase mil, em quatro aldeias. O contato dos Xikrin com a sociedade nacional foi muito brutal, sua aldeia estava na maior mancha de mogno do mundo e cercados por projetos de mineração da Vale do Rio Doce [atual Vale]. Ferro a leste, cobre ao norte e níquel a oeste. Ao sul, a estrada e as fazendas. Os Xikrin do Cateté recebem uma indenização financeira por estarem cercados, mas isso não compensará o desastre ambiental. Agora o rio Cateté, que atravessa a área, está sendo poluído pela mineração a oeste do território. É muito grave. Como é possível funcionar dentro de um contexto nacional e ao mesmo tempo se preservar? A cultura se reinventa o tempo todo! Só que agora de maneira mais rápida, em conjunto com atores não indígenas: a Funai [Fundação Nacional do Índio], a Vale, professores, médicos e antropólogos, no contexto de um contato maior com a cidade. Hoje tudo é mais dinâmico e complexo. Essa consciência do contraste com o outro faz com que os índios entendam e apreciem melhor sua própria vida e identidade, que preservam e reconstroem.


fotos arquivo Pessoal  desenhos  odilon joão souza filho, reprodução do livro grafismo indígena

Outro momento da sua carreira se concentrou nos índios do Oiapoque. Era um trabalho muito diferente? Sim, totalmente diferente. Quatro povos indígenas vivem no Baixo Oiapoque: Karipuna, Galibi Marworno, Palikur e Galibi Kali’na. São sociedades com uma história muito perturbada de 500 anos de contato que hoje convivem no norte do Amapá, nas terras indígenas do Uaçá, Galibi e Juminã. Eles mesmos se dizem um povo muito misturado. É uma sociedade aberta que tem muito contato com a cidade de Oiapoque, com o Amapá, a Guiana Francesa. As terras já estavam demarcadas quando chegamos, então eu não apitava nada. Mas eram povos meio esquecidos, não atraíam interesse do poder público porque estavam no extremo norte do país, nem da antropologia por serem considerados aculturados. Eles mesmos diziam que o trabalho não seria interessante para nós, mas foi exatamente o contrário. Realizamos boas pesquisas acompanhando e apoiando a recuperação dos valores mais profundos, da cosmologia e da cultura material. Qual foi sua motivação em ir para lá? Partiu de um acaso. Um índio daquela área ficou doente e passou um tempo em São Paulo com o João Paulo Botelho [endocrinologista da Universidade Federal de São Paulo, Unifesp]. Quando voltou para sua aldeia, nos convidou e fomos. Eu tinha uma pequena verba de pesquisa, então levei uma aluna para ser treinada, a Antonella Tassinari, mesmo que não tivéssemos um projeto definido. Ela começou a trabalhar entre os Karipuna, fez sua tese lá e hoje é professora em Santa Catarina. Outros pesquisadores também foram trabalhar lá e nesses mais 1

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Ritual do Turé das crianças em aldeia Karipuna, Oiapoque, nos anos 1990

também. Foi pensado como um museu dos índios, e não sobre os índios. O grupo que formaria a equipe do museu participou de cursos de capacitação como museologia, antropologia, arqueologia, fotografia e produção de vídeos. O processo de construção levou 10 anos e a inauguração aconteceu em 2007.

de 25 anos muita coisa foi feita, boa para nós e para eles. Foi um acompanhamento contínuo e profícuo que dura até hoje. Veio dessa experiência a formação do museu Kuahí, em Oiapoque? Sim. Chegou um momento em que os índios pediam que restituíssemos o material usado em nossas pesquisas. Mas são muitas aldeias – hoje 7 mil índios – e era quase impossível atender a todos. Em 1998, um grupo deles foi para a Alemanha participar de uma competição de canoagem e visitou museus lá, na França e em Portugal. Conheciam também o Museu Goeldi, em Belém, e tinham visto imagens do Museu Magüta, o primeiro museu indígena na Amazônia. Então propuseram ao governador do Amapá, à época João Alberto Capiberibe, a criação de um museu indígena no Oiapoque. Pediram a minha assessoria, a Lúcia van Velthem, do Goeldi, ajudou 4

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A instituição ajuda a solidificar a cultura recuperada? Sim. Para a inauguração, os índios queriam expor tudo o que tinham produzido e reunido durante as oficinas de valorização cultural desenvolvidas durante dois anos nas aldeias. Às vezes, em ocasiões festivas, encenavam um ritual chamado turé em frente ao museu, usando os próprios bancos, mastros e instrumentos expostos no Kuahí. Ele é muito frequentado pelos próprios índios, pelas escolas locais e pelos turistas nacionais e da Guiana Francesa. 7

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Pinturas masculinas: padrões muito rígidos para situações cotidianas (1 a 5) e ocasiões cerimoniais específicas (6 a 10) PESQUISA FAPESP 251 | 31


Presenciar atividades da aldeia levou a um levantamento etnográfico dos Xikrin do Cateté nos anos 1970: mulher na roça (à esq.) e família (à dir.)

É o único museu de fronteira no Brasil. Abriga coleções de objetos coletados em diferentes momentos, assim como uma biblioteca muito frequentada pelos índios de toda a região que cursam faculdade no Oiapoque. O museu incentivou muito as atividades culturais nas aldeias e às vezes dava a impressão de que as comunidades queriam competir com ele, o que considerei um sucesso, mas em 2014 a instituição enfrentou problemas. Goteiras danificaram a estrutura do prédio e o governo demorou a fazer os reparos, ao mesmo tempo que lutas partidárias estaduais tiveram repercussão na equipe do museu. A maioria dos índios que tinha contrato administrativo foi demitida, prejudicando os projetos de exposições. São acontecimentos que fazem parte das turbulências do momento que o Brasil vive hoje. Nesse encontro de culturas, o quanto os costumes de uns afetam os de outros? É uma coisa inevitável, conflitos e desafios são constantes. Há momentos de maior tensão e outros de alguma calma. Os índios do Oiapoque organizam assembleias gerais que reúnem todos os povos a cada ano para avaliação, e uma a cada dois anos para a qual convidam também pessoas de fora, onde discutem problemas, colocam prioridades, decidem o que vai ser feito. Em 2008, durante vários meses os índios do Oiapoque elaboraram um Projeto de Vida a longo termo extremamente interessante, que foi publicado. 32 | janeiro DE 2017

A cultura se reinventa o tempo todo! Agora de maneira mais rápida, em conjunto com atores não indígenas

A organização das mulheres indígenas é muito ativa e eficiente e faz encontros em que discutem alimentação, práticas agrícolas, medicina tradicional, gestão territorial e a elaboração de protocolos de consulta e consentimento. Do ponto de vista nacional, é necessário conhecer um mínimo para proteger e demarcar territórios, e ao mesmo tempo pode haver uma preocupação de não interferir. Os índios têm direito às suas terras e ao usufruto exclusivo delas, por isso a questão da demarcação é central para eles. Na Amazônia o processo se deu de uma maneira um pouco mais adequada, mas há povos para os quais a demarcação das terras é extremamente difícil e que estão em situação absolutamente calamitosa, como é o caso dos Guarani de Mato Grosso. Existem frentes agrícolas muito agressivas que avançam o tempo todo. É um grande desafio e as coisas atual­ mente parecem não melhorar, mas os grupos que conseguiram a demarcação estão organizados para controlar suas terras. Por exemplo, os povos indígenas do Oiapoque a cada ano percorrem todo o limite do seu território para controlá-lo. Eles têm agentes ambientais indígenas formados, participam de reuniões no âmbito estadual, nacional e mesmo internacional. Os índios hoje estão cientes da problemática planetária sobre o clima e outros assuntos, como a proteção das florestas e da biodiversidade.


fotos arquivo Pessoal  desenhos  odilon joão souza filho, reprodução do livro grafismo indígena

Quando você veio para o Brasil em 1955, imaginava que seria permanente? Não, eu não queria vir para o Brasil! Estava muito bem em Paris. Vim por causa do meu marido, para ficar dois anos. Ele seria engenheiro da Renault, mas as fábricas acabaram só sendo montadas no Brasil muitos anos mais tarde. Como fomos ficando em São Paulo, comecei a trabalhar, mas sempre pensando em voltar. Quando tive contato com os índios, já na USP, tudo mudou de rumo, acabei me adaptando muito bem. Eu já tinha uma filha quando cheguei da França, mas os outros filhos nasceram aqui, os netos e os bisnetos também. Tenho 86 anos e me sinto brasileira, além de francesa. Você participou do início da antropologia no Brasil, como era? A visão com relação aos índios era muito culturalista, com a ideia de salvar alguma coisa que poderia se perder. Acreditava-se que os índios iriam desaparecer. Depois houve movimentos que reverteram essa visão, tanto na USP quanto no Museu Nacional e outros centros de pesquisa, também com a colaboração de muitos pesquisadores estrangeiros: o Central Brazil Research Project, do professor Maybury-Lewis, da Universidade Harvard, e pesquisadores brasileiros como Roberto Cardoso, Roberto DaMatta, Julio Melatti e muitos outros. Aí que a antropologia começa a desabrochar. Durante o XLII Congresso Inter-

nacional dos Americanistas em Paris, em 1976, se chegou à conclusão de que os modelos dos africanistas com os quais ainda trabalhávamos – usávamos a produção inglesa ou norte-americana – não se adaptavam ao Brasil. Nos anos 1970 vivenciamos mudanças teóricas interessantes, em grande parte influenciadas por Lévi-Strauss. Um simpósio realizado no Brasil em 1978 teve forte influência no desenvolvimento da etnologia brasileira, particularmente em relação à noção de pessoa, da corporalidade e da dimensão simbólica como formadora da práxis. Nessa época, começou a ser elaborado um levantamento sistemático e atualizado sobre os povos indígenas existentes no país, do qual participamos compilando informações sobre localização, população, situação jurídica das terras e projetos de infraestrutura. Esse levantamento deu origem ao Programa Povos Indígenas, gerenciado até hoje pelo Instituto Socioambiental. Ficou mais clara a grande diversidade étnica e cultural deste país e a existência de muitos povos indígenas, especialmente no Nordeste, que haviam sido calados. Ao lado dos estudos acadêmicos, foi assim que se iniciaram as primeiras ações concretas de cunho político em defesa dos direitos dos povos indígenas. O que vê como legado? Sempre dei muita importância a dar aulas e à pesquisa de campo. O apoio fi-

nanceiro da FAPESP ajudou bastante, no começo era diferente porque a Fundação era muito pequena e conhecíamos todo mundo. Eles perguntavam sobre a pesquisa, mostrávamos fotos. Era uma relação muito pessoal. Orientei um grande número de teses, sempre com um contato muito estreito com os orientandos que hoje são professores em todo o Brasil e dão continuidade à pesquisa. A trajetória acadêmica não é linear. Ela é sempre realimentada pelas pesquisas, as novas contribuições teóricas dos ex-alunos. Isso continua, e eu continuo me informando e atuando na medida de minhas possibilidades. É bom lembrar que todos os meus trabalhos são coletivos, resultado de pesquisas e seminários com alunos e orientandos. E a etnoestética sempre esteve presente. Sim. Se fechei o trabalho com os Xikrin de etnoestética com o livro Grafismo indígena [Studio Nobel, 2007], fechei agora mais de 25 anos de trabalho entre os povos indígenas do Oiapoque com o livro A presença do invisível [Iepé/Museu do Índio-Funai, 2016], um resumo de todas as etnografias e todos os trabalhos que desenvolvemos naquela região, tudo coroado por uma exposição de 2007 a 2013 no Museu do Índio, no Rio de Janeiro, portanto também ligado à estética. É uma trajetória com duas fases, bem definidas e diferenciadas, mas apontando as mesmas preocupações e interesses. n

Pinturas executadas em papel: a da esquerda, masculina, caracteriza o fim do resguardo após iniciação PESQUISA FAPESP 251 | 33


política c&T  Contencioso y

Política industrial em xeque Em resposta a painel da OMC, governo estuda mudanças em leis e na forma de estimular Pesquisa & Desenvolvimento Fabrício Marques

34  z  janeiro DE 2017

O

governo brasileiro anunciou que irá apelar ao Órgão de Solução de Controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC) para tentar reverter as conclusões de um painel que considerou ilegais vários programas da política industrial do Brasil questionados pela União Europeia e pelo Japão. O relatório final do painel, constituído em 2014 e composto por três árbitros independentes, foi recebido pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) no dia 20 de dezembro, mas só deverá ser divulgado oficialmente por volta de fevereiro após o cumprimento de uma formalidade: ele precisa primeiro ser traduzido do inglês para os outros dois idiomas oficiais da organização, o francês e o espanhol, e circular entre os 160 países-membros da OMC. O documento sustenta que uma parte importante da política industrial brasileira descumpriu normas da OMC e condena a forma como o país estimulou a produção nacional de automóveis, de equipamentos de informática, de semicondutores, entre outros,


1

fotos 1 juca varella / fca / fotos públicas  2 ericsson

2

Fábrica da Fiat Chrysler (alto), em Goiana, Pernambuco, e unidade da empresa de equipamentos de telecomunicações Ericsson em São José dos Campos, São Paulo

concedendo isenções ou suspensões de impostos sobre o produto final que não se estendem a concorrentes importados. Um dos pontos questionados no contencioso é a violação ao chamado princípio de tratamento nacional, entendida como a concessão de incentivos a bens e mercadorias fabricados no Brasil, na forma de isenções de impostos, que são vedados a similares produzidos no exterior. Outro questionamento envolve a exigência de um patamar mínimo de insumos produzidos no país na fabricação de produtos beneficiados por reduções tributárias. Segundo o painel, esses problemas estão presentes em programas como o Inovar Auto, criado em 2012 para estimular a produção de carros no país, e a Lei de Informática, que vigora há 25 anos e concede redução de impostos a fabricantes de hardware e de componentes eletrônicos, que se obrigam a investir em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Também foram censurados no relatório o programa de inclusão digital, que vigorou entre 2005 e 2015 e reduziu a zero as alíquotas de contribuições como o PIS e o Cofins sobre a venda de computadores, tablets, smartphones, entre outros; os programas de apoio ao desenvolvimento tecnológico da indústria de semicondutores (Padis) e de equipamentos para TV Digital (PATVD), que oferecem desoneração de tributos em troca de investimentos em P&D; e o Regime especial de aquisição de bens de capital para empresas exportadoras (Recap), que reduziu o pagamento de tributos de indústrias exportadoras na compra de máquinas e equipamentos. “O Brasil teve boa parte de seus instrumentos de política industrial questionados, o que é algo sem precedentes”, diz a economista Sandra Polónia Rios, diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes) e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). “Inicialmente a União Europeia questionou até mesmo a existência da Zona Franca de Manaus, mas desistiu desse tópico mais tarde.” Entre 1995 e 2016, o Brasil já questionou políticas de países-membros da OMC em 29 ocasiões, na maioria das vezes para contestar barreiras a produtos industriais, e foi acionado 16 vezes. Em alguns casos, foi necessário modificar políticas, como na contestação ao Programa de Financiamento às Exportações (Proex) em contencioso sobre a produção de aviões regionais que envolveu a brasileira Embraer e a canadense Bombardier, no final dos anos 1990. O contencioso sobre a política industrial é o mais abrangente já sofrido pelo Brasil na OMC. “Dessa vez, são vários regimes questionados e os setores cobertos são mais amplos”, diz o embaixador Carlos Marcio Cozendey, subsecretário-geral de Assuntos Econômicos e Financeiros do MRE. pESQUISA FAPESP 251  z  35


O resultado do painel causou turbulências no ambiente de P&D, uma vez que as empresas habilitadas em vários desses programas investem em inovação como contrapartida das isenções fiscais que recebem. No decorrer do trabalho do painel, a diplomacia brasileira argumentou que as regras da OMC não proíbem os incentivos à indústria local nem tampouco vetam o estímulo a investimentos em P&D. “Isso está de acordo com as regras e objetivos da OMC de promoção do desenvolvimento em bases sustentáveis, segundo a visão brasileira”, explica Rubens Barbosa, que foi embaixador do Brasil em Washington entre 1999 e 2004 e assessora a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).

O

s termos do recurso que o Brasil apresentará à OMC serão discutidos nas próximas semanas por representantes dos ministérios da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) e das Relações Exteriores. Espera-se que os 11 juízes do Órgão de Solução de Controvérsias se pronunciem sobre o recurso por volta de setembro. O governo brasileiro, de todo modo, já se prepara para mudar programas questionados e negociar prazos para implementar mudanças. Se não alterar as políticas condenadas, o país ficará sujeito a retaliações dos parceiros em qualquer área comercial. “Conhecemos a jurisprudência e, ainda que consigamos a reversão de algumas medidas, é possível que vários programas precisem ser modificados”, diz o embaixador Carlos Marcio Cozendey. Igor Nogueira Calvet, secretário de Desenvolvimento e Competividade Industrial do MDIC, afirma que as novas políticas deverão preservar as contrapartidas em P&D das empresas. “Vamos discutir o que o governo poderá oferecer às empresas para exigir a contrapartida em P&D. Dificilmente será na forma de redução de Imposto sobre Produtos Industrializados, como ocorre atualmente”, afirma. “O futuro será definido em conjunto com o setor privado.” No caso da Lei de Informática, o governo tentará preservar a sua essência, adaptando-a às exigências da OMC. “Trata-se de uma legislação criada em 1991, que é anterior a vários tratados que embasam o painel da OMC. E nunca havia sido 36  z  janeiro DE 2017

Disputas na OMC Os 10 membros da organização que mais utilizaram o sistema de solução de controvérsias entre 1996 e 2016 – em número de casos

Estados Unidos

368

União Europeia

337

Japão

198

China

181

Parte reclamante

Canadá

164

29

Índia

163

Brasil

148

Terceira parte*

Coreia do Sul

135

103

México

113

Argentina

101 Fonte MRE

“O balanço econômico e social da Lei de Informática é bastante positivo”, afirma Barbato, da Abinee

questionada antes”, afirma Maximiliano Martinhão, secretário de Política de Informática do MCTIC. “A Lei de Informática é um patrimônio do Brasil e tem ajudado a fomentar o desenvolvimento econômico.” De acordo com o secretário, a lei gera 100 mil empregos diretos, entre os quais 15 mil vinculados a P&D. Segundo dados compilados pela Abinee, a renúncia fiscal decorrente da isenção ou da redução do IPI atingiu R$ 25 bilhões de 2006 a 2014. Já os tributos recolhidos referentes a bens incentivados alcançaram R$ 50 bilhões. O faturamento das empresas com produtos incentivados totalizou, de 2006 a 2014, R$ 266 bilhões, enquanto os recursos aplica-

Os casos brasileiros

Parte reclamada

16

* Acompanha de perto por ter interesses indiretos

dos em P&D chegaram a R$ 8,3 bilhões no mesmo período. Martinhão acredita ser possível adaptar a legislação e preservar o investimento em P&D nas empresas. “A Europa dá incentivos para a produção em seu território, mas eles são destinados a empresas, não a produtos. Isso a OMC permite. Uma possibilidade é mudarmos o alvo do incentivo, mantendo os investimentos em P&D”, explica. Outra alternativa que pode vir a ser avaliada, diz Martinhão, é habilitar empresas estrangeiras a se beneficiarem da Lei de Informática, exigindo a mesma contrapartida em P&D das empresas com produção no país. O principal desafio, segundo ele, é modificar os programas existentes da forma mais rápida possível. “O pior dos mundos é demorar a aprovar as mudanças necessárias na legislação e deixar o setor produtivo em situação de insegurança jurídica”, afirma. A Lei de Informática concede incentivos fiscais para fabricantes de hardware e de componentes eletrônicos que invistam em P&D. O estímulo, previsto para vigorar até 2029, consiste na redução em 80% do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O investimento em P&D deve equivaler, dependendo do tipo de produto, a 3% ou 4% do faturamento anual das mercadorias incentivadas. O investimento pode ser feito dentro da própria empresa, em universidades ou ser contratado por terceiros –


omc / studio casagrande

Representantes de países-membros da Organização Mundial do Comércio se reúnem na sede em Genebra, em 2013

o que levou à criação no país de uma série de institutos privados de pesquisa que fazem estudos por encomenda de empresas (ver Pesquisa FAPESP nº 248). Exige-se ainda que uma parte dos recursos seja investida em convênios com institutos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Para ser beneficiada, a empresa precisa atender ao chamado Processo Produtivo Básico (PPB), que determina o nível de nacionalização requerido para cada tipo de produto. “Essa lei foi fruto de debates amplos e negociações legítimas no Congresso Nacional e a preocupação dos legisladores foi manter o equilíbrio econômico-financeiro das indústrias que optarem pela política nacional de informática”, diz Humberto Barbato, presidente-executivo da Abinee. “O balanço econômico e social da Lei de Informática é bastante positivo. O cenário que se desenha com a internet das coisas tornará a inclusão digital ainda mais presente na vida das pessoas e o arcabouço legal para as tecnologias de informação e comunicação será cada vez mais essencial”, afirma. Já o Inovar Auto foi criado por uma medida provisória em abril de 2012 e estabeleceu um regime que concede vantagens fiscais temporárias para montadoras de automóveis. O painel da OMC condenou principalmente o benefício oferecido na forma de créditos presumidos de IPI, de até 30 pontos percentuais por produto, caso as empresas cumpram critérios como a instalação de novas plantas industriais no país ou da produção de novos modelos. Dispên-

dios em P&D estão entre as contrapartidas exigidas das empresas. Segundo dados do MDIC, entre 2013 e 2015 cerca de R$ 15,3 bilhões foram investidos em pesquisa, desenvolvimento e engenharia em decorrência do programa. O embaixador Rubens Barbosa acredita que será difícil fazer adaptações no Inovar Auto. “Provavelmente, o governo terá de eliminar o programa. Ele já estava previsto para terminar em 2017”, diz. Igor Calvet, do MDIC, afirma que uma nova política para o setor automobilístico começou a ser discutida. “O Inovar Auto cumpriu sua função de atrair investimentos. Várias empresas criaram fábricas no país e montaram estruturas de apoio a P&D.”

P

ara a economista Sandra Polónia Rios, o quadro das montadoras é o mais preocupante entre os setores afetados pelo painel. “O setor automobilístico hoje tem uma enorme capacidade ociosa, estimulada inclusive pelo Inovar Auto, sem perspectiva de ser aproveitada em um horizonte de tempo razoável”, diz. “É um problema muito sério, porque o Brasil não tem condições de se transformar numa plataforma exportadora de automóveis nem há muitas chances de crescimento do mercado interno.” Segundo ela, a criação do Inovar Auto em 2012 pode ter sido o catalisador do descontentamento com o Brasil na OMC. “O país estabeleceu nas últimas décadas vários instrumentos de política industrial que preservavam o conteúdo local, como a Zona Franca e a Lei de Informática, mas eram mais suaves e não

foram questionados”, afirma. Durante o governo Dilma Rousseff, contudo, houve intensificação do uso desses instrumentos no bojo do Programa Brasil Maior, de 2011, ao qual o Inovar Auto estava vinculado. “Isso causou incômodo ao Japão e à União Europeia”, sugere. Segundo a conselheira Daniela Benjamin, coordenadora de contenciosos do MRE, a preocupação com a proliferação desses regimes no Brasil influenciou a decisão do Japão e da União Europeia de levar a questão para a OMC. “Havia uma discussão importante na época sobre estender esses regimes a outros setores, como o químico, e os demandantes ficaram preocupados que viesse uma expansão”, afirmou a diplomata, em audiência pública na Câmara Federal sobre o painel da OMC realizada no dia 15 de dezembro. Soraya Saavedra Rosar, diretora da Unidade de Negociações Internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), disse na mesma audiência que os resultados do painel da OMC criam um cenário novo para negociações sobre a política industrial no país. “A partir de agora, ao formular uma nova lei, será preciso analisar com mais cuidado a cobertura de tratados sobre comércio internacional que precisa ser respeitada”, diz. O redesenho desses instrumentos jurídicos será determinante para definir o perfil do esforço futuro de P&D empresarial no país, um tema que conquistou importância crescente desde que a inovação passou a ser um tema-chave tanto da política industrial quanto da política científica e tecnológica do Brasil. n pESQUISA FAPESP 251  z  37


Indicadores y

Calmaria inquietante Pintec aponta estabilidade no contingente de empresas brasileiras que inovaram entre 2012 e 2014 e dificuldades crescentes para o setor industrial

A

Pesquisa de Inovação (Pintec) de 2014, divulgada no dia 9 de dezembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que o resultado do esforço de inovação das empresas brasileiras entre 2012 e 2014 manteve-se estável em relação ao triênio anterior. Das 132.529 empresas brasileiras privadas e públicas pesquisadas, dos setores industrial, de serviços selecionados e de eletricidade e gás, 36% lançaram ou aprimoraram produtos ou inovaram em processos. Essa porcentagem, que espelha a chamada taxa geral de inovação, foi ligeiramente maior que os 35,7% registrados na edição anterior da pesquisa, que avaliou as empresas no triênio de 2009 a 2011. O patamar ainda está aquém dos 38,6% obtidos na pesquisa feita entre 2006 e 2008. Se a taxa de inovação ficou estável, outros indicadores revelam um crescimento dos obstáculos para inovar no período estudado pela pesquisa, sobretudo no setor industrial, que responde por quase 90% da amostra avaliada pela Pintec. As 38  z  janeiro DE 2017

indústrias investiram em atividades inovativas no período 2,12% de sua receita líquida total de vendas, o menor patamar registrado na série histórica da pesquisa. A taxa em 2011 foi de 2,37% e em 2008, de 2,54%. Esse percentual inclui os investimentos em atividades internas de pesquisa e desenvolvimento (P&D), aquisição externa de P&D, aquisições de conhecimento externo, de softwares e de máquinas e equipamentos, treinamento, introdução de inovações no mercado e projetos industriais. “A indústria foi o setor que mais acusou a crise. E a postura das empresas foi apenas reativa, tendo como foco principal a inovação em processos e não em produtos”, diz o economista Alessandro Pinheiro, gerente da Pintec. Já nas empresas selecionadas do setor de serviços, o investimento em atividades inovativas em relação à receita líquida de vendas foi de 7,81% em 2014, ante 4,96% em 2011. E entre as empresas de eletricidade e gás, embora tenham de investir em P&D por imposição le-

gal, houve queda de 1,28% em 2011 para 0,57% em 2014. “Como a série histórica de dados sobre as empresas de eletricidade e gás é bem mais curta do que a das indústrias, é prudente aguardar as próximas pesquisas para avaliar tendências de longo prazo”, diz David Kupfer, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade da universidade. Apesar da redução de investimentos, a taxa de inovação no setor industrial aumentou de 35,6% em 2011 para 36,4% em 2014. Nesse universo, 18,2% inovaram apenas em processos, 3,8% só em produtos e 14,5% em produtos e processos. Alguns segmentos se destacaram. Entre as indústrias extrativas, o percentual de empresas inovadoras subiu de 18,9% para 42% entre as duas pesquisas. No caso da indústria de transformação, o aumento foi de 35,9%, em 2011, para 36,3%, em 2014, mas o desempenho variou bastante entre os subsetores. No segmento au-


A taxa de inovação

2005

se estabiliza Percentual de empresas

34,4%

2008

que inovaram em produtos ou processos, de acordo com as quatro últimas edições da Pintec

O esforço das

38,6%

2011

35,7%

2014

36%

n Indústria  n Eletricidade e gás  n Serviços selecionados

empresas segundo o tipo de inovação

Produto e processo

Participação percentual do número de empresas inovações de produto e processo, por setores de

Só produto

atividades, segundo tipo

14,5 11,8

Só processo

que implementaram

15,9

6,9

22,1 18,2

4,7 0,2 3,8

Que implementaram inovações

de inovação no Brasil (2012-2014)

32,4 29,2 36,4

Atividades internas de P&D na indústria Porcentagem da receita líquida de vendas investida em atividades internas

ilustraçãO Stuart Kinlough / getty images

de Pesquisa & Desenvolvimento – setores da indústria selecionados

tomobilístico, a taxa subiu de 29,1% em 2011 para 39,1% em 2014. Já no químico, houve queda de 59,1% para 49,6%. “A inovação no Brasil andou de lado nesse período”, diz David Kupfer. “Para mim, foi surpreendente que não houve uma queda. O período de 2012 a 2014 ainda não era de crise aberta, mas a pesquisa foi respondida em 2015, em um quadro já bastante pessimista que deve se refletir de forma ainda mais aguda na próxima pesquisa.” Kupfer observa, contudo, que alguns analistas esperavam um resultado mais robusto. “O Brasil vinha de uma intensa mobilização empresarial em prol da inovação, com um aumento dos dispêndios com P&D em vários setores”, afirma. O economista André Tosi Furtado, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (IG-Unicamp), chama a atenção para a evolução de um indicador específico utilizado para medir o esforço tecnológico da indústria: a incidência

Bebidas

0,22 0,08

Têxtil

0,25 0,14

Alimentos

n 2011  n 2014

0,12 0,15

Metalurgia

0,45 0,34

Celulose

0,42 0,40

Máquinas e equipamentos Petróleo e biocombustíveis Automobilística Limpeza e cosméticos Informática, eletrônicos e ópticos Farmoquímicos e farmacêuticos

0,73 0,80 1,12 0,87 1,28 1,10 3,68 1,11 1,39 1,70 2,39 2,24

Fonte dos gráficos ibge, diretoria de pesquisas, coordenação de indústria, pesquisa de inovação 2014

pESQUISA FAPESP 251  z  39


Pedras no caminho Importância atribuída aos problemas para inovar pelas empresas que implementaram inovações de produto ou processo, por setores de atividades no Brasil (2012-2014) Centralização da atividade inovativa em outra empresa do grupo

1,2 1,7

12,3 n Indústria

Escassez de serviços técnicos

29

Fraca resposta dos consumidores

21,9

Dificuldade para se adequar a padrões

20,6

Escassas possibilidades de cooperação

A

39,9 42,4 44,3 45,2

23,8

43,3 40,7 36,6 42,3

26,2

33,4

51,3

Falta de pessoal qualificado

53,1 40,3

Rigidez organizacional Escassez de fontes de financiamento Elevados custos de inovação Riscos econômicos excessivos

sobre a receita líquida de vendas das empresas dos dispêndios realizados em atividades internas de P&D. “A intensidade de P&D interno evidencia o esforço mais nobre e criativo em inovação e, no setor industrial, ele não se comportou bem em 2014. Em períodos de crise, as empresas tendem a buscar resultados de curto prazo e cortar investimentos e isso parece ter acontecido com a indústria, que vem diminuindo de tamanho no PIB brasileiro”, afirma. Tanto em setores vinculados à produção de commodities quanto nos ligados ao abastecimento do mercado o investimento interno em P&D caiu na comparação com a Pintec anterior, observa Furtado. No total da indústria da transformação, o indicador caiu de 0,72% em 2011 para 0,68% em 2014. Em alguns subsetores, a queda foi discreta. No ca40  z  janeiro DE 2017

n Serviços selecionados

41,6 39,3

Falta de informação sobre mercado Falta de informação sobre tecnologia

n Eletricidade e gás

36,6

42,6 31,3

reação das empresas brasileiras. “O país ainda é uma força considerável em P&D, apesar de tudo o que se fala. Se formos comparar com vizinhos e competidores da América Latina, como a Argentina, o Chile ou o México, veremos que esses países têm esforços muito inferiores em termos de P&D industrial. Entendo que esse esforço vai prosseguir, apesar da inflexão registrada nessa última Pintec.”

64,1 66,1

54,4 71,8 68,8 64,7 75,5 69,9

88,5 86

82,1

so da indústria automobilística, apesar de programas de estímulo do governo como o Inovar Auto, caiu de 1,28% para 1,1%. Em dois setores em que predominam grandes empresas e que mantêm equipes de P&D bastante estruturadas, os números indicam uma redução mais acentuada. Na indústria de produtos de limpeza e cosméticos, caiu de 3,68% em 2011 para 1,1% em 2014, e no setor de equipamentos eletromédicos, a queda foi de 7% para 1,63%. “Não são bons augúrios. A retração aconteceu em setores que vinham obtendo avanços em termos de intensificação de P&D, como o farmacêutico, e outros que são fundamentais para o esforço em P&D no Brasil, como o químico e o de petróleo”, diz André Furtado. Apesar das más notícias, o economista adverte que não se deve subestimar a capacidade de

pesquisa aponta uma mudança na composição dos investimentos em inovação no setor industrial, com a ampliação de aquisição pelas empresas de P&D de fontes externas, ou seja, de atividades de P&D realizadas por instituições científicas e tecnológicas ou outras empresas. “Parece ser um sinal de que a chamada inovação aberta é uma estratégia na qual as empresas veem potencial, pela possibilidade de somar esforços e compartilhar riscos”, avalia Luciana Hashiba, diretora da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), referindo-se ao processo de inovação baseado em uma rede externa de parceiros, em que há lugar para universidades, parceiros próximos ou de outros países, fornecedores e até mesmo concorrentes e clientes. “Fizemos recentemente um workshop na Anpei e observamos que várias empresas consideram importante trabalhar em rede”, afirma. Essa tendência é mais visível em setores como o de cosméticos, no qual a aquisição externa de P&D passou de 0,07% da receita líquida em vendas em 2011 para 0,51% em 2014. “A busca de fontes externas evidencia uma estratégia das empresas de sobreviver às adversidades, mas se sabe que não se pode subcontratar todo o P&D. Isso precisa ser complementado com P&D interno para ser devidamente apropriado pela empresa”, ressalva André Furtado, da Unicamp. Outro dado importante foi o aumento da proporção de empresas pesquisadas que foram beneficiadas por algum tipo de incentivo do governo à inovação. A taxa foi de 40%, ante 34,2% na pesquisa anterior. No grupo das indústrias, o percentual vem evoluindo nas últimas três pesquisas. Foi de 22,8% entre 2006 e 2008, de 34,6% entre 2009 e 2011 e agora alcançou 40,4%. “É razoável supor que um dos fatores que contribuíram para a estabilidade da taxa de inovação foi o


apoio governamental”, afirma Alessandro Pinheiro, da Pintec. O aumento do percentual de empresas que declaram ter recebido suporte do governo não significa, contudo, que houve aumento de recursos investidos. Segundo levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o investimento em P&D beneficiado pela chamada Lei do Bem, criada em 2005, foi de R$ 6 bilhões em 2012, R$ 9 bilhões em 2013 e R$ 9,9 bilhões em 2014, patamar inferior ao obtido em 2008, que foi de R$ 12,4 bilhões. “Uma coisa é o percentual de empresas que declaram ter recebido apoio. Outra é o valor e a forma. Aumentou, por exemplo, o número de empresas que usavam a Lei do Bem, mas caiu o apoio direto via subvenção”, afirma o economista Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP.

ilustraçãO Stuart Kinlough / getty images

L

uciana Hashiba, da Anpei, observa que os programas de apoio do governo vêm se sofisticando, mas ainda há dificuldades para uso dos instrumentos. “O acesso é mais viável para grandes empresas e há instrumentos também para as microempresas, mas as pequenas empresas que estão se transformando em médias ainda têm dificuldade de obter ajuda, por conta das garantias exigidas”, afirma. “Uma cultura de inovação se cria no médio e no longo prazo. A questão é saber até que ponto o risco macroeconômico vai se refletir na predisposição das empresas para inovar e se elas conseguirão voltar a ter apetite para a tomada de risco.” O financiamento para compra de máquinas e equipamentos foi a principal forma de apoio governamental utilizado, alcançando 29,9% das empresas inovadoras, 4,3% a mais do que no triênio anterior. Já os incentivos fiscais a P&D e inovação tecnológica previstos na Lei do Bem foram utilizados por 3,5% das empresas inovadoras, ante 2,7% registrados na pesquisa anterior. Compras públicas de produtos inovadores beneficiaram 2% do total das empresas que inovaram – no setor industrial, o percentual foi de 1,4%. Foi a primeira vez que a Pintec avaliou o

Mulheres nas atividades de P&D Participação de pesquisadoras ocupadas, exclusiva e parcialmente, nas atividades de P&D, sem equivalência de dedicação total, das empresas que implementaram inovações (2012-2014)

n Homens  n Mulheres

Indústria 78% 14.543 51.573

22%

eletricidade e gás 83,9%

159 831 16,1%

serviços selecionados 81,8%

4.958 22.213

18,2%

impacto de programas de compras públicas nas empresas brasileiras. O setor de eletricidade e gás foi um dos mais afetados no período analisado pela Pintec. A proporção de empresas inovadoras nesse setor correspondia a 44,1% do total pesquisado em 2011 e a taxa caiu para 29,2% em 2014. No setor de serviços, o desempenho no segmento dos serviços em telecomunicações teve grande destaque em 2014. O crescimento do investimento em P&D do setor passou de pouco mais de R$ 1,1 bilhão em 2011 para cerca de R$ 4,2 bilhões em 2014. “O ano de 2014 foi o ápice de investimentos em serviços de telecomunicações, que se justificaram pela implantação de tecnologias e grandes eventos como a Copa do Mundo”, afirma Alessandro Pinheiro. “A magnitude dos investimentos foi grande e, apesar de o setor de serviços pesar relativamente pouco na Pintec, pode-se dizer que ajudou a sustentar o desempenho geral.” Nesse segmento dos serviços em telecomunicações, o percentual do dispêndio em atividades inovativas em relação à receita líquida de vendas subiu de 3,66% em 2011 para 9,99% em 2014. “É importante notar que esse crescimento se deu na aquisição de P&D externo, ou seja, são as empresas do setor comprando pesquisa e conhecimento de outras empresas, universidades ou institutos de pesquisa”, informa nota técnica sobre a Pintec 2014 lançada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), organizada pela economista Fernanda de Negri e colegas. Em 2014, do total de 94.277 pesquisadores nas atividades internas de P&D das empresas inovadoras no Brasil, apenas 19.660 eram mulheres, o equivalente a 20,8%. Foi a primeira vez que a Pintec levantou esse dado. Há mais mulheres trabalhando com P&D na indústria (22%) do que em serviços (18,2%) e em empresas de eletricidades e gás (16,1%). Entre os ocupados em atividades de P&D nas empresas, 63,4% são pesquisadores, 28% são técnicos e 8,6%, auxiliares. Em 2011, havia mais pesquisadores (65,3%) e menos técnicos (26,4%) e auxiliares (8,4%). Das pessoas que trabalhavam com as atividades de P&D, 71,5% tinham nível superior, sendo 61,4% graduação e 10,2% pós-graduação. Em 2011, o total de funcionários com nível superior era de 69,2%, com 58,5% de graduados e 10,7% de pós-graduados. n Fabrício Marques pESQUISA FAPESP 251  z  41


entrevista Frank Allgöwer

O impacto da ciência básica Vice-presidente da agência alemã DFG diz que a eficiência de redes inteligentes depende de novos modelos teóricos Fabrício Marques  | 

A

retrato 

Léo Ramos Chaves

importância da pesquisa básica para o avanço do conhecimento e o bem-estar da humanidade é um tema de interesse do engenheiro Frank Allgöwer, de 54 anos. E não apenas porque ele é o vice-presidente da Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG), agência de fomento germânica dedicada a financiar projetos, normalmente vinculados à pesquisa básica, cujos temas são escolhidos livremente pelos pesquisadores. Especialista em engenharia cibernética, Allgöwer defende que a ciência básica é fundamental para resolver problemas tecnológicos concretos e emergentes – e cita como exemplo sua linha de investigação, o estudo de sistemas complexos, aqueles que funcionam em rede e com elevado grau de autonomia, e sustentam avanços como o desenvolvimento de carros autônomos e sistemas de distribuição de energia inteligentes. De acordo com o pesquisador, diretor do Instituto de Teoria de Sistemas e Controle Automático da 42  z  janeiro DE 2017

Universidade de Stuttgart, na Alemanha, a falta de compreensão teórica sobre o funcionamento de sistemas interligados já provoca instabilidades – observadas em redes de distribuição inteligente de energia – e é preciso desenvolver métodos matemáticos capazes de prever o funcionamento de sistemas complexos para controlar seu comportamento. Allgöwer abordou essa e outras questões em uma palestra em São Paulo, no dia 1º de dezembro. O evento integra o programa Leibniz Lecture, iniciativa da DFG para estimular o diálogo entre os vencedores do Prêmio Leibniz, um dos mais importantes da ciência alemã, e a comunidade científica. Allgöwer recebeu o prêmio em 2004 por seus estudos na área de teoria de sistemas não lineares e de controle. A apresentação também comemorou o 10º aniversário do acordo de cooperação celebrado entre a DFG e a FAPESP, por meio do qual já foram financiados 14 projetos de pesquisa conduzidos em conjunto por pesquisadores

de São Paulo e da Alemanha, em diversas áreas do conhecimento. A DFG já financiou, no total, 174 projetos de pesquisa no Brasil, sendo quase a metade deles, 86 projetos, no estado de São Paulo. No sistema de ciência e tecnologia da Alemanha, a DFG tem a vocação de financiar estudos em que o cientista escolhe o tema sobre o qual se debruçará, em geral ligado à ciência básica. Qual é o impacto desse tipo de pesquisa? A pesquisa orientada pela curiosidade é vista no país como uma força criadora de conhecimento que, alguns anos adiante, produz inovações e gera impactos no setor industrial e na sociedade. Trata-se de pesquisa com padrão elevado, com quantias significativas aplicadas em ciên­cia básica na Alemanha. Enquanto na pesquisa conduzida por empresas as informações são protegidas e há a preocupação em não revelar a competidores dados sensíveis, na pesquisa básica o interesse é ter a participação de grupos


O engenheiro Frank Allgöwer afirma que a falta de compreensão sobre o funcionamento de sistemas complexos interligados já causa instabilidades

de todo o mundo trabalhando juntos em temas interessantes. E isso é algo que funciona bem na Alemanha. O que é a nova cibernética para o século XXI a respeito da qual o senhor veio fazer uma palestra em São Paulo? Tem muito a ver com a questão anterior, sobre pesquisa básica. Estamos testemunhando o aparecimento cada vez mais frequente de redes complexas. Elas surgem em várias áreas, como na chamada indústria 4.0, em que linhas de produção flexíveis se baseiam em máquinas trabalhando juntas de forma inteligente e fabricam diferentes bens e mercadorias do modo mais barato e produtivo possível. Em toda parte, redes são construídas. Mas há ainda pouca compreensão sobre seu funcionamento e quais são os princípios básicos por trás das redes complexas. O resultado é que, nesse momento, elas não são completamente seguras. Tome-se o exemplo das redes de energia inteligentes, as chamadas smart grids. No passado, a produção de energia estava a cargo de grandes usinas. Hoje há cada vez mais energia renovável produzida em pequenas unidades e distribuída de forma descentralizada em redes inteligentes. Em algumas partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos, tem acontecido blackouts, que deixam áreas inteiras sem energia. Não se trata de um problema com uma usina de eletricidade ou de uma linha de transmissão, mas sim de questões relacionadas ao funcionamento das redes. As pessoas não conseguem compreender de onde essas coisas vêm. A nova cibernética busca trazer compreensão para tais fenômenos, fazendo pesquisa básica e investigando por que algo está funcionando ou não. O objetivo é ter garantias de que os sistemas interligados funcionarão de forma adequada. É importante que a pesquisa básica siga as necessidades das tecnologias já existentes. pESQUISA FAPESP 251  z  43


Qual é o futuro dos sistemas de distribuição de energia inteligentes, na sua avaliação? Vou dar o exemplo da Alemanha, onde temos uma situação muito peculiar. A energia renovável utilizada no Sul do país, de origem eólica, é produzida no Norte e precisa ser levada de um local para o outro. Isso é feito por meio de sistemas de distribuição descentralizados e não por grandes linhas de transmissão. Quando há muito vento, muita energia é produzida. Quando há pouco, recorre-se a fontes renováveis de outros lugares, de origem solar ou hidrelétrica, por meio dos smart grids. É muito importante termos sistemas de distribuição de energia inteligentes para fazer uso adequado da energia renovável. É possível imaginar que em países em desenvolvimento os smart grids serão importantes. Acredito que a pesquisa básica, e não apenas a aplicada e a inovação, tem uma contribuição a dar para esse desenvolvimento. Temos de assegurar que não haverá uma catástrofe no funcionamento dos sistemas em rede, criando instabilidades ou perda de produção de energia. Poderia explicar em que consiste o “método de controle preditivo não linear” com que o senhor trabalha? Quais são suas aplicações? Algoritmos computacionais já permitem controlar sistemas em diversas áreas. Queremos entender o que e quando está funcionando ou falhando e encontrar soluções para garantir um bom funcionamento. O termo controle está relacionado a sistemas sobre os quais se quer

dobrar um estímulo, não significa que ele terá uma resposta duas vezes maior, mas pode produzir algo completamente diferente. A natureza, por exemplo, é tipicamente não linear.

A pesquisa orientada pela curiosidade cria conhecimento que, alguns anos adiante, gera inovações e impacto na sociedade, diz Allgöwer

exercer influência para que se comportem de determinada forma. Controle preditivo é um método peculiar construído sobre a ideia de que se pode ter um modelo matemático do sistema que se deseja controlar e então predizer o comportamento desse sistema, assumindo que vamos aplicar algum estímulo sobre ele. Preditivo se refere ao fato de que o modelo busca avaliar o que virá. A não linearidade é um termo matemático que explica comportamentos não esperados de sistemas complexos – se você

1

Enxames de robôs, máquinas que trabalham juntas e interagem, custam cada vez mais barato 44  z  janeiro DE 2017

Até que ponto o funcionamento da natureza inspira a pesquisa de redes complexas? O foco do meu grupo é mais o lado tecnológico, mas os princípios básicos, a matemática e a metodologia são os mesmos dos grupos que estudam tais fenômenos do ponto de vista da natureza. Podemos observar a natureza e aprender a resolver problemas com ela. Um exemplo em particular são pássaros voando em bando. Para enfrentar o ataque de uma águia, eles formam grupos e enfrentam o predador como uma massa de animais. Eles não se preocupam muito com o local para onde estão voando, mas permanecem juntos e conseguem não colidir uns com os outros. Isso tem sido um tema de pesquisa há várias décadas: como os pássaros conseguem fazer isso? Eles olham para o pássaro vizinho? Olham para dois vizinhos? Só olham numa direção e não veem o que está atrás? Como eles observam o ambiente para obter esse comportamento perfeito no ar, sem colisões? O que se descobriu já está sendo aplicado em robôs móveis. Os pássaros olham simultaneamente para cinco pássaros vizinhos. Cada um dos animais do bando olha exatamente para cinco pássaros. É indiferente se o bando é de dezenas de pássaros ou de centenas. Cada um olha para cinco vizinhos e isso é suficiente para alcançar um comportamento perfeito. Isso tem relação com a pesquisa sobre enxames de robôs, pequenas máquinas que trabalham juntas e interagem? Essa não é exatamente a minha área. Sou um teórico e crio métodos para investigar a robótica de enxame. Mas sei que há muita coisa acontecendo. Uma das coisas que mudou em relação a 10 anos atrás é que hoje é muito mais barato construir pequenos robôs que atuam em grupo. Antigamente, instituições de pesquisa com projetos nessa área pediam quantias elevadas para agências como a DFG ou a FAPESP porque precisavam de uma centena de pequenos robôs e cada um deles custava muito caro. Hoje, são muito mais baratos. Esse é um campo de pesquisa muito ativo na Alemanha.


2

Energia eólica produzida no Norte da Alemanha é distribuída para o Sul do país de forma descentralizada por meio de redes inteligentes

fotos 1 James McLurkin 2 tony webster / flickr

Que desafios tecnológicos estão envolvidos no desenvolvimento da chamada indústria 4.0? As mudanças tecnológicas já aconteceram. Temos sistemas em bases descentralizadas e habilidades cognitivas desenvolvidas. Também é possível produzir grandes quantidades de dados e comunicá-los. Ter sistemas de comunicação produzindo em conjunto está ao nosso alcance. A questão agora é desenvolver usos específicos. Esse é o desafio da indústria 4.0. Não se trata de avanços no sentido de desenvolver sensores ou alguma tecnologia em particular, e sim de obter uma compreensão mais profunda, além de criar cenários de aplicação e padronização: por exemplo, fazer com que robôs de diferentes empresas consigam facilmente conversar uns com os outros, falar a mesma língua. Países em desenvolvimento, como o Brasil, estão preparados para essa mudança, na sua avaliação? O Brasil é um país em que há bastante ênfase em tecnologias de manufatura, assim como a China ou a Índia. Até onde conheço, sei que existem no Brasil muitas atividades acontecendo na direção da indústria 4.0, inclusive de projetos cofinanciados pela DFG. Há colaboração entre pesquisadores brasileiros e alemães nessa área. Quando teremos carros autônomos nas ruas das grandes cidades?

Creio que há dois tipos diferentes de desenvolvimento que precisamos distinguir. Um tem a ver com veículos, como caminhões e ônibus, capazes de trafegar de forma autônoma em certos tipos de vias, como estradas conectando grandes cidades. Creio que estamos muito próximos de ter caminhões e ônibus trafegando de forma autônoma nessas vias. O outro é ter carros autônomos nas ruas de uma cidade interessante como São Paulo, em meio a pedestres e congestionamentos em algumas vias. Isso é um desafio. Ainda vai levar algum tempo até que tenhamos um número significativo de carros autônomos nessas condições. Mas não se trata apenas de um problema tecnológico. Também há questões legais envolvidas. Quem é o responsável se carros autônomos colidirem? É o fabricante? É o dono? Ou é o programador que criou os códigos utilizados pelos carros? Isso terá que ser resolvido antes de colocar uma grande quantidade de carros autônomos nas ruas.

sadores dos dois países trabalhando em projetos relevantes. Nesse sentido, estamos muito satisfeitos com o acordo de cooperação. A DFG e a FAPESP pensam e trabalham de forma muito semelhante e o desenvolvimento de projetos conjuntos funciona de forma fluida.

Que avaliação o senhor faz dos 10 anos de parceria entre a DFG e a FAPESP, que resultou em 14 projetos financiados? Avaliar é o nosso ponto forte como agência de financiamento à pesquisa, mas creio que não seria apropriado olhar apenas para os números ou concluir que, quanto mais projetos financiados conjuntamente, melhor é a parceria. O importante é a qualidade da cooperação e a possibilidade de colocar bons pesqui-

A DFG coopera com outros países da América Latina, como Argentina, Chile, México e Colômbia. Qual o peso do acordo com a FAPESP no conjunto de iniciativas da DFG na região? Esse acordo é o nosso estandarte. A única cidade da América Latina onde a DFG tem escritório é em São Paulo. Na relação com o Brasil e o estado de São Paulo, a FAPESP em particular é um dos nossos contatos principais. n

A que semelhanças o senhor se refere? Minha compreensão é de que a FAPESP, assim como a DFG, atua de forma bastante independente. Não seguimos ordens de governos sobre os projetos que devemos ou não financiar. O foco, evidentemente, é a qualidade: a qualidade da pesquisa, dos projetos, dos pesquisadores. Isso é central. Há outras semelhanças. Tanto na FAPESP quanto na DFG, pesquisadores têm a possibilidade de submeter projetos a qualquer tempo. Não há uma ou duas datas-limite no ano para apresentar projetos, como acontece em algumas agências. Com padrões semelhantes, é fácil para as duas instituições atuarem juntas.

pESQUISA FAPESP 251  z  45


Análises genéticas ajudaram a separar a população pura do mutum-de-alagoas (exemplar em primeiro plano) das aves híbridas (desfocadas) 46  z  janeiro DE 2017


ciência  Ornitologia y

A gaiola que salva Extinto na natureza, o mutum-de-alagoas escapa do desaparecimento total graças a um projeto de criação da ave em cativeiro Marcos Pivetta

joão marcos rosa

A

vistada pela última vez em trechos remanescentes da Mata Atlântica de Alagoas há quase 40 anos, a raríssima ave Pauxi mitu é considerada extinta na natureza. Com até 90 centímetros (cm) de comprimento e uma plumagem em tons negro-azulados, a espécie foi vítima de caçadores em busca de sua suculenta carne e da drástica redução de seu hábitat, hoje com menos de 2% de sua extensão original. O mutum-de-alagoas, nome popular desse galináceo, só não desapareceu por completo porque três criadores, com o auxílio de biólogos, dedicaram-se a reproduzi-lo em cativeiro. Felizmente, a iniciativa é um sucesso. A partir de apenas um macho e de duas fêmeas selvagens, os derradeiros espécimes capturados nas matas de Alagoas em 1979, a população da ave renasceu e hoje conta com cerca de 230 exemplares mantidos em cativeiro. Um detalhe importante que contribuiu para o êxito da empreitada acabou se tornando, paradoxalmente, um problema a ser contornado

antes de a espécie rediviva estar pronta para ser reintroduzida na natureza, algo previsto para ocorrer no segundo semestre deste ano. Aves híbridas, fruto de cruzamentos não totalmente controlados do mutum-de-alagoas com o mutum-cavalo (Pauxi tuberosa), espécie-irmã que ocorre na Amazônia, encontravam-se misturadas aos exemplares puros de P. mitu no cativeiro. O imbróglio começou em 1990, fruto das melhores intenções de Pedro Nardelli, o criador que trouxe das matas alagoanas os três últimos mutuns encontrados na natureza, iniciativa que salvou a espécie da extinção total. Nessa época, Nardelli tinha em seu criadouro cinco machos sem parceiras para reprodução entre a população de 19 mutuns-de-alagoas mantidos em Nilópolis, nos arredores da capital fluminense. Para que todos os machos tivessem a chance de acasalar, o criador resolveu introduzir no recinto fêmeas de mutum-cavalo. “Cruzei as duas espécies para garantir a continuação da linhagem do mutum-de-alagoas”, justifica-se Nardelli, hoje com 80 anos. pESQUISA FAPESP 251  z  47


O que o homem uniu a genética separa

Esta xilogravura do século XVII é a primeira representação do mutum-de-alagoas

1979

Um macho e duas fêmeas, capturados na natureza em 1979, são mantidos em cativeiro em Nilópolis (RJ)

Os híbridos cruzam As aves geram 19 descendentes

entre si ou com

puros: 12 machos e 7 fêmeas. Os

mutuns-de-alagoas.

machos em excesso se reproduzem

Os dados genealógicos

com fêmeas de mutum-cavalo

se perdem e puros e híbridos formam uma única população

44 aves, puras e híbridas misturadas, são enviadas a dois criadouros mineiros. Entre 2008 e 2012,

1999

a população desses viveiros soma

63

85

148 mutuns

2012

Apenas pelos traços Com o emprego de análises morfológicas e genéticas, os pesquisadores começam o trabalho de identificar os mutuns-de-alagoas puros nesse grupo

66

2016

mutuns-de-alagoas

físicos, 63 aves são classificadas como mestiças. As demais 85 passam por exames genéticos

A análise do DNA mitocondrial indica que seis aves descendem de fêmeas

puros são

de mutum-cavalo. O

identificados, 33

estudo de 14 regiões

fêmeas e 33 machos, cujos filhotes serão soltos na mata

48  z  janeiro DE 2017

do genoma nuclear das 79 aves restantes resolve a questão

Com o tempo, a população de aves reproduzidas sob a guarda humana passou a abrigar dois tipos de mutuns-de-alagoas: os puros, oriundos de cruzamentos entre machos e fêmeas de P. mitu, e diferentes híbridos, que carregavam material genético das duas espécies em proporções distintas. O registro exato de quem era puro e quem era híbrido acabou se perdendo em 1999, quando Nardelli se viu obrigado a fechar seu criadouro. As 44 aves existentes, então, foram enviadas para dois criadores em Minas Gerais. “Como alguns híbridos têm traços físicos muito parecidos com os puros, não é possível diferenciá-los apenas pela morfologia”, explica Luís Fábio Silveira, curador da seção de ornitologia do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP). “Tivemos de desenvolver uma abordagem genética para distinguir os dois grupos.” Os pesquisadores recorreram a duas técnicas distintas da biologia molecular para separar os exemplares puros dos híbridos, conforme relatam em artigo aceito para publicação na revista científica PLOS ONE. A primeira analisou o DNA mitocondrial, um tipo de material genético herdado apenas da linhagem materna. Como boa parte dos híbridos tem fêmeas de mutum-cavalo entre seus ancestrais, esse tipo de abordagem é capaz de detectar as aves mestiças com esse perfil genético. A segunda técnica foi o estudo de 14 microssatélites, pequenos trechos repetidos de DNA que são empregados na genética de populações para determinar o grau de parentesco entre indivíduos, grupos, espécies ou subespécies. Algumas das variações dos microssatélites são específicas de uma espécie. Se encontrados em outra espécie, indicam a presença de uma ave com algum grau de hibridismo. Juntando as duas metodologias, foi possível identificar um grupo de 66 mutuns-de-alagoas puros, coincidentemente 33 casais, entre os 148 exemplares que se encontravam vivos entre 2008 e 2012 nos dois criadouros mineiros. O processo de determinação do grau de pureza de uma população pela via molecular não é infalível, mas os autores do trabalho dizem que a confiabilidade da abordagem é altíssima. “O risco de termos errado na identificação de uma ave pura é de 2%”, comenta o biólogo Mercival Roberto Francisco, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de Sorocaba, que coordenou a parte genética dos estudos. “É um

foto  reprodução de a preservação do mutum-de-alagoas, de pedro mário nardelli  ilustraçãO elisa carareto

Como a morfologia e a biologia molecular diferenciaram os mutuns-de-alagoas puros dos híbridos


fotos  1 e 2 joão marcos rosa 3 reprodução de a preservação do mutum-de-alagoas, de pedro mário nardelli  4 Luis Fábio Silveira

valor muito baixo, uma vez que na literatura científica o risco de erro em trabalhos semelhantes é de 5%.” Desde que foi identificado, o grupo de aves puras é mantido em separado. Sua idade é relativamente avançada, entre 16 e 20 anos. Por sorte, o mutum-de-alagoas vive até 30 anos em cativeiro e mantém-se reprodutivo durante boa parte da vida. “Temos agora 18 casais jovens e puros do mutum-de-alagoas, que nasceram nos últimos três anos”, conta Roberto Azeredo, dono do criadouro Crax – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Apaixonado pelos cracídeos, família de galináceos que inclui os mutuns, as jacutingas, os jacus e as aracuãs, Azeredo é hoje quem mais entende dos hábitos da ave alagoana. Cerca de 90% dos exemplares vivos do mutum-de-alagoas, incluindo os híbridos, estão em seu criadouro (o restante está em outro viveiro em Poços de Caldas). A fim de encontrar o par perfeito, ele pode passar horas vendo as reações de aves postas para acasalar. “Azeredo é capaz de perceber que a fêmea não está à vontade com o macho e promover a troca de um dos indivíduos para encontrar o melhor par”, comenta Silveira, do MZ-USP. “Sem ele, não teríamos conseguido criar em cativeiro tantos mutuns.” Nos últimos anos, depois que analisou parte do DNA de todas as aves criadas em cativeiro, o biólogo Mercival passou a mandar periodicamente para Azeredo sugestões de casais ideais do ponto de vista de quem deseja garantir a diversidade genética da espécie. “O problema é que as aves nem sempre concordam com a genética”, graceja o criador. Esse ex-administrador de empresas diz que o segredo de seu trabalho é promover acasalamentos com sensibilidade. Os mutuns-de-alagoas vivem geralmente aos pares. “Mas, às vezes, eles podem ser agressivos. Nesses casos, só coloco o casal junto no viveiro na hora do cruzamento”, explica Azeredo. A fêmea entra em idade reprodutiva geralmente ao atingir 3 anos. Entre setembro e novembro, se foi fecundada, bota dois ovos. Experiência com cracídeos, o criador tem de sobra. Desde os anos 1970, Azeredo reproduz em seus viveiros exemplares de mutum-do-sudeste (Crax blumenbachii), espécie ameaçada de extinção, mas em estado não tão crítico quanto seu primo alagoano. Ele foi o pioneiro na reintrodução do C. blumenbachii na natureza, com grande sucesso. “Ter um criadouro é uma maneira de empobrecer com alegria”, diz Azeredo, sem perder o bom humor. Gargalo genético

No artigo da PLOS ONE, Mercival e Silveira afirmam que a história do mutum-de-alagoas é um dos casos mais extremos de gargalo genético ou

As diferenças entre os mutuns O raro mutum-de-alagoas e o mutum-cavalo são bem parecidos. O primeiro costuma ser um pouco menor do que o segundo, e os híbridos apresentam características morfológicas intermediárias

Mutum-de-alagoas

Mutum-cavalo

Pauxi mitu

Pauxi tuberosa

1

Bico em duas cores, vermelho na base e róseo-esbranquiçado em direção à ponta

2

Região auricular com penas

Região auricular sem penas

3

Par central de penas da cauda totalmente negro

Bico em formato de lâmina, predominantemente vermelho

4

Par central de penas da cauda com ponta branca

populacional documentado na literatura científica com um final feliz. Apesar de ter se reduzido a apenas três exemplares mantidos em cativeiro em seu momento mais delicado, há pouco mais de 35 anos, a ave escapou da extinção total com o auxílio do homem. “O falcão das Ilhas Maurício, que foi considerado a ave mais rara do mundo, passou por uma situação semelhante em 1974, quando restavam apenas quatro indivíduos”, conta Silveira. Endêmica desse arquipélago do oceano Índico, a espécie Falco punctatus, de apenas 25 cm de comprimento, quase desapareceu por completo em razão da destruição progressiva de seu hábitat. Hoje, depois de esforços conservacionistas que levaram à sua reprodução na natureza e também em cativeiro, a população do falcão está na casa dos 400 espécimes. O caso do sabiá preto das Ilhas Chatham (Petroica traversi), na Nova pESQUISA FAPESP 251  z  49


Zelândia, foi ainda mais crítico. “Acredita-se que todos os aproximadamente 280 indivíduos atuais sejam descendentes de apenas um casal, que se reproduziu entre 1979 e 1982”, comenta Mercival. A espécie mais conhecida de ave brasileira provavelmente extinta na natureza e que sobrevive apenas em cativeiro é a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii). Originalmente endêmica de uma área de Caatinga do norte da Bahia, a ararinha conta atualmente com uma população de mais de 50 exemplares mantidos no país e no exterior. No entanto, ela ainda não foi devolvida ao seu hábitat. Segundo a lista vermelha feita pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês), há atualmente 68 espécies de animais e plantas desaparecidas do mundo selvagem, mas conservadas em lugares mantidos pelo homem. “Vale a pena investir nessas espécies”, afirma Mercival. “Quando começamos nosso projeto, fomos questionados se era certo trabalhar com uma espécie cuja população em cativeiro podia não ter mais exemplares puros.”

2

A população atual do falcão das Ilhas Maurício deriva de apenas quatro exemplares

Mansa e saborosa

A primeira referência ao mutum-de-alagoas remonta ao século XVII. “Esta ave se amansa facilmente; gosta de se assentar em um lugar alto como o pavão e sobe também as árvores. Sua carne é muito boa.” Assim termina a primeira descrição da espécie, publicada em 1658 nas páginas de Historia Naturalis Brasiliae. O texto é de autoria do naturalista alemão George Marcgrave, um dos membros da comitiva holandesa de 1

O criador Roberto Azeredo é o principal responsável pela reprodução em cativeiro da ave 50  z  janeiro DE 2017

Maurício de Nassau que se instalou no Nordeste na primeira metade do século XVII, e é coautor da obra ao lado de Guilherme Piso. Uma xilogravura acompanha a descrição da ave, oriunda de um cativeiro provavelmente em Recife, e denominada por Marcgrave de mitu, vocábulo do tupi usado pelos índios para se referir ao galináceo. Apesar dessa antiga referência, que deixa evidente o fim culinário dado para o animal pela trupe de Nassau, o mutum-de-alagoas permaneceu envolto em certo mistério desde então. Quase ninguém o viu e frequentemente foi confundido com o mutum-cavalo. “Ela foi uma espécie rara e fantasma dentro da ornitologia”, afirma Silveira. “Nos museus de história natural da Europa os exemplares atribuídos ao mutum-de-alagoas são, na verdade, do mutum-cavalo.” Isso não impediu que autores renomados citassem a ave nordestina em seus trabalhos. Em 1766, mais de um século depois de Historia Naturalis Brasiliae, o sueco Carl Lineu usou as informações de Marcgrave e batizou a ave de Crax mitu, em consonância com sua nova terminologia científica binomial. Estudos posteriores realocaram o mutum-de-alagoas do gênero Crax para o Pauxi. Até meados do século XX, não havia um único exemplar do verdadeiro mutum-de-alagoas em qualquer coleção científica do mundo. Em 1951, o ornitólogo Olivério Pinto, do MZ-USP, coletou uma fêmea da ave num trecho de Mata Atlântica em Alagoas e mostrou que o P. mitu não era um mito. Pinto descreveu as principais características morfológicas do mutum-de-alagoas. A cor e o formato do bico, a ausência de penas na região auricular e a coloração de parte da cauda são os traços mais importantes e que o distinguem facilmente do parente amazônico (ver quadro à página 49). No entanto, a misteriosa espécie somente viria a ser novamente capturada quase


ALAGOAS

De volta à floresta

Rio Largo

Atalaia Sapucaia Reserva privada onde o mutum será solto

Satuba

Santa Luzia do Norte

Boca da Mata

Os mutuns-de-alagoas deverão ser reintroduzidos no segundo semestre deste ano em uma reserva privada com 900

Maceió

hectares de Mata Atlântica (foto), dentro da área da distribuição original da espécie

Fonte Luís Fábio Silveira e Mercival Roberto Francisco

Rio

Rio Ju

quiá

São

3

Mig

uel

Oceano Atlântico

Poxim

fotos 1 joão marcos rosa 2 john maremootoo / wikimedia commons  3 Luís Fábio Silveira

Rio C

orurip

e

n Locais de ocorrência

do mutum no passado

três décadas depois pelo criador Pedro Nardelli, o patrono da população de mutum-de-alagoas mantida hoje em cativeiro. Há oito anos, quando o Ministério do Meio Ambiente lançou um plano nacional para a conservação do P. mitu, com a participação de universidades e criadouros, Mercival e Silveira tinham o desafio científico de mostrar que ainda havia aves puras da espécie mantidas em cativeiro e valia a pena investir em sua preservação. Essa parte do trabalho foi feita. O próximo passo é devolver mutuns-de-alagoas puros ao seu hábitat. Para que isso venha a ocorrer em breve, os pesquisadores contam com a participação do governo de Alagoas e de empresas e entidades locais. Uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) com 900 hectares de mata contígua, um tipo de unidade de conservação em terras privadas, foi criada recentemente em uma usina de açúcar e álcool de Rio Largo, perto de Maceió, para receber os primeiros exemplares da ave. “As empresas no passado estavam ligadas à destruição da floresta, mas hoje sabem que têm um papel importante na preservação da fauna e flora da região”, diz Fernando Pinto, fundador e presidente do Instituto para a Preservação da Mata Atlântica (IPMA), uma entidade local envolvida nos trabalhos em prol da volta do mutum ao seu território original. Engenheiro civil, Pinto é uma das poucas pessoas que viu a ave na natureza ainda no fim dos anos 1970. Chegou a fotografar uma fêmea cho-

cando ovos em uma árvore. Na época era funcionário de uma destilaria de álcool e lembra-se de ter presenciado o desmatamento de 10 mil hectares de floresta em oito meses. Teve uma fêmea de mutum-de-alagoas em casa antes de doá-la para Nardelli, que ficou cerca de um ano e meio na região procurando exemplares da ave. “A caça ainda faz parte da cultura local”, adverte Pinto. “Esse será o maior risco para o mutum-de-alagoas depois que ele for reintroduzido. Mas acho que conseguiremos manter o controle dentro da reserva.” Um centro de visitantes, com dois exemplares da ave em exposição, deverá ser montado ao lado da RPPN. Assim o P. mitu poderá ser mais facilmente conhecido por todos. n

Projetos 1. Estudos da variabilidade genética de cracídeos brasileiros ameaçados de extinção (aves, galliformes), como subsídios para a conservação ex situ (nº 2008/ 51197-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Apoio a Jovens Pesquisadores; Pesquisador responsável Mercival Roberto Francisco (UFSCar); Investimento R$ 327.788,81. 2. Sistemática, taxonomia e biogeografia de aves neotropicais: Os Cracidae como modelo (nº 2007/56378-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Luís Fábio Silveira (MZ-USP); Investimento R$ 86.928,28.

Artigo científico COSTA, M. C. et al. Recovering the genetic identity of an extinct-inthe-wild species: The puzzling case of the Alagoas curassow. Plos One. No prelo.

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Biologia marinha y

Par perfeito Algas já viviam em simbiose com corais há 210 milhões de anos e são bem mais antigas e diversas do que se pensava André Julião

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vanessa marcelino / universidade de melbourne

O

s recifes de coral são conhecidos pela grande varie­ dade de espécies que vivem ao seu redor. Ancorados no leito marinho, onde constroem enormes colônias, os corais, animais parentes das medusas, estão normalmente cercados por algas e peixes coloridos, além de incontáveis microrganismos, formando grandes ecossistemas. Para a maior parte dos corais de água rasa, no entanto, nenhum outro ser vivo é mais importante do que as zooxantelas, um grupo de algas microscópicas que vivem dentro deles e funcionam como verdadeiros órgãos. Ao reciclarem substâncias excretadas pelos corais como a amônia e liberarem alimento em forma de açúcares, as zooxantelas não só garantem a própria sobrevivência como a de seus hospedeiros, que não têm recursos para realizar esses processos fisiológicos. Dois trabalhos mostram que essa asso-

ciação data de pelo menos 210 milhões de anos e que as algas simbióticas são ainda mais antigas do que isso – e sua diversidade é muito maior. Ao comparar corais atuais do Brasil com fósseis que viveram no mar de Tétis, oceano que existiu quando os continentes formavam um só bloco, a Pangeia, um grupo de pesquisadores da Polônia, da Suíça, dos Estados Unidos e do Brasil conseguiu demonstrar que essa relação já existia no período Triássico, 210 milhões de anos atrás, quando surgiram os dinossauros. A simbiose, dizem os pesquisadores, garantiu que os corais se tornassem aptos a sobreviver em um período em que a água do mar de Tétis era pobre em nutrientes. “Essas algas precisam basicamente de luz e dióxido de carbono, pois fazem a fotossíntese e geram o próprio alimento. Nesse processo, reciclam substâncias danosas aos corais e ainda proveem açúcares e lipídios”,

explica o oceanógrafo Marcelo Kitahara, professor do Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), colaborador do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar-USP) e um dos autores do artigo publicado em novembro na Science Advances. Corais do passado

Não dá para saber quais algas viveram nos corais em tempos remotos, mas é possível inferir sua presença pela assinatura deixada por uma combinação de elementos químicos depositados quando os corais ainda eram vivos há mais de 200 milhões de anos. São diferentes tipos (isótopos) de carbono, oxigênio e nitrogênio detectados graças ao ótimo estado de preservação de fósseis coletados na província de Antália, na Turquia, em uma região montanhosa onde antes havia o mar de Tétis. “Por sorte, as ro-

Grande Barreira de Corais da Austrália: mapeamento genético identificou diversidade de microrganismos pESQUISA FAPESP 251  z  53


chas ficaram bem isoladas da água, que normalmente penetra nelas”, diz o geólogo Jaroslaw Stolarski, da Academia Polonesa de Ciências, em Varsóvia, um dos autores do artigo da Science Advances. A água contribui com a diagênese da rocha, que nesse caso é a transformação da aragonita, mineral rico em informações do fóssil, em calcita, do qual os especialistas aproveitam pouco ou nada. “Se quisermos extrair informação original do esqueleto do coral, ele tem de estar bem preservado. A presença de aragonita é uma prova dessa preservação por conter todas as assinaturas de isótopo originais”, explica. Os pesquisadores então compararam os isótopos encontrados nos fósseis com os presentes em corais simbióticos e assimbióticos atuais na ilha dos Búzios, no arquipélago de Ilhabela, em São Paulo. “Para fazer essa comparação, além de fósseis bem preservados era preciso ter corais atuais, vivos, sob as mesmas condições de luminosidade e temperatura da água, disponibilidade de alimento, entre outros”, diz Kitahara. Depois de muita procura, o grupo encontrou nas águas paulistas uma comunidade bastante diversa vivendo em um espaço de meros 5 metros quadrados (m2). Só assim se diminuiria ao mínimo a probabilidade de outros fatores influenciarem a presença de certos isótopos. As análises mostraram que tanto os fósseis quanto os corais simbióticos atuais possuem os mesmos tipos de carbono, nitrogênio e oxigênio. A dife-

1

O metabolismo dos corais está atrelado ao das algas que vivem em seu interior e dependem da luz do Sol para fazer a fotossíntese

rença é marcante em relação aos corais modernos que não realizam simbiose, e não têm os mesmos isótopos. O porquê da presença deles nos corais simbióticos não é totalmente claro, mas sabe-se, por exemplo, que um tipo de nitrogênio presente nos corais simbióticos deriva da amônia excretada pelo coral e absorvida pelas zooxantelas. Outra análise que reforça os resultados é a da microestrutura de crescimento

dos corais. Os pesquisadores partiram da premissa de que os corais simbióticos do passado cresciam da mesma forma que os que vivem hoje em associação com microrganismos: com regularidade constante, pois seu metabolismo está atrelado ao das algas que vivem em seu interior e dependem da luz do Sol para fazer a fotossíntese. “As microestruturas registram o ritmo fisiológico dos corais. Os simbióticos geralmente seguem o ritmo das algas, enquanto os assimbióticos não seguem os períodos de presença ou ausência de luz solar”, explica Stolarski. Por isso, os corais sem simbiose têm um padrão irregular de crescimento, enquanto os simbióticos são bastante regulares, seguindo períodos de dia e noite. Algas do presente

As algas que vivem dentro dos corais, no entanto, já existiam bem antes deles. Um mapeamento genético do microbioma existente atualmente no esqueleto de corais simbióticos da Grande Barreira

3

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Presente em quase toda a costa brasileira, Astrangia rathbuni é um exemplo de coral sem simbiose


2

fotos 1 Jaroslaw stolarski / academia polonesa de ciências 2 isabelle domart-coulon / museu hist. nat. Paris  3 marcelo kitahara / unifesp

Coral fóssil do Triássico (à esq.) e exemplar vivo (acima), com atividade de algas simbiontes em pontos marrons (ver detalhe)

de Corais da Austrália, maior formação desse tipo no mundo, rastreou a existência de algumas linhagens de algas ainda no período Ordoviciano, cerca de 500 milhões de anos atrás. “Além de mais antigas, agora descobrimos que elas são muito mais diversas do que se pensava”, explica a bióloga brasileira Vanessa Rossetto Marcelino, atualmente concluindo o doutorado na Universidade de Melbourne, na Austrália, e autora de artigo publicado em agosto na Scientific Reports em coautoria com seu orientador, o biólogo Heroen Verbruggen. Vanessa analisou DNA retirado de amostras de esqueleto de corais vivos e encontrou mais de uma centena do que podem ser novas espécies de algas ou mesmo linhagens inteiras. Enquanto os corais são visíveis a olho nu e já foram bastante estudados, pouco se sabe sobre as algas. A razão para essa compreensão ainda incipiente é a dificuldade de identificar a diferença entre as espécies de algas, tanto com microscópio quanto por meio de sequenciamento genético. “O formato delas é sempre o mesmo e os marcadores moleculares existentes têm baixa resolução, ou seja, não dão conta de caracterizar uma grande parte da biodiversidade”, explica Vanessa.

Por isso, ela e Verbruggen usaram uma combinação de quatro marcadores para analisar o DNA retirado de 132 amostras de esqueletos de coral. Esse esforço permitiu identificar uma gama de organismos, muitos nunca antes encontrados em corais. Além das algas, grupo que compõe a maior parte desse microbioma, foram detectados ainda alguns fungos e bactérias. Enquanto a literatura científica dava conta de algumas poucas espécies habitantes de corais, os pesquisadores da Austrália encontraram mais de 120, incluindo famílias inteiras ainda não descritas. A diversidade encontrada sugere ainda que algumas linhagens são até mais antigas do que os próprios corais e já existiam 250 milhões de anos antes de começarem a habitar esses organismos. Análises de fósseis já haviam mostrado evidências da presença desses seres em conchas e estromatoporoides, esponjas do mar que viveram cerca de 500 milhões de anos atrás. “Os corais foram invadidos por mais de 20 linhagens diferentes de algas em momentos distintos da evolução delas”, diz Vanessa. O gênero Ostreobium de algas, que até então acreditava-se ter três espécies, mostrou-se na verdade uma linhagem com mais de 80 unidades taxonômicas, um nível próximo ao de espécie na clas-

sificação. Em seus 500 milhões de anos de existência, elas sobreviveram inclusive à grande extinção do período Permiano, aproximadamente 300 milhões de anos atrás, quando cerca de 90% das espécies marinhas e 70% das terrestres desapareceram da Terra. Logo depois, no Triássico, elas se diversificaram, justamente quando surgem os corais com simbiose. A descoberta, além de indicar a eficiência do uso de múltiplos marcadores para estudar os microbiomas dentro de corais, abre caminho para investigações mais específicas acerca dos seres que habitam os esqueletos de coral e do seu papel na vida destes. O grupo de pesquisadores do qual Vanessa faz parte na Austrália já está aplicando a metodologia de sequenciamento com múltiplos marcadores para estudar se diferentes espécies de coral estão associadas com linhagens específicas de algas. Além disso, querem saber como a associação entre esses organismos muda em função de condições ecológicas e das espécies envolvidas. “Nós abrimos um livro, agora é possível estudar as páginas dele”, conclui Vanessa. n

Artigos científicos FRANKOWIAK, K. et al. Photosymbiosis and the expansion of shallow-water corals. Science Advances. 2: e1601122. 2 nov. 2016. MARCELINO, V. R. & VERBRUGGEN, H. Multi-marker metabarcoding
of coral skeletons reveals a
rich microbio­ me and diverse evolutionary origins of endolithic algae. Scientific Reports. 6: 31508. 22. ago. 2016.

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Trabalho de campo y

Cenas de um

sítio arqueológico Sistema meticuloso permite compilar informações sobre a vida e a morte há 10 mil anos em caverna de Lagoa Santa Texto 

Maria Guimarães 

Fotos 

Léo Ramos Chaves*

Sepultamentos: Mariana Inglez escava (no alto) e Strauss fotografa (à esq.) avanço em exumação

“P

osso tirar este ossinho?” A bióloga petropolitana Lisiane Müller aponta para um fragmento sustentado por palitos de dente sobre um esqueleto ainda enterrado. Curvada sobre a quadra de escavação, por horas a fio ela separa grãos de sedimento com um pincel e os empurra para uma garrafa de plástico cortada à

* Maria Guimarães e Léo Ramos Chaves visitaram a Lapa do Santo em setembro de 2016 para produzir reportagem, vídeo e fotografias (ver resultados no site).

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guisa de pá. O arqueólogo André Strauss, professor visitante brasileiro na Universidade de Tübingen, na Alemanha, verifica que é impossível avançar na exumação sem retirar o osso. Strauss é um dos coordenadores da equipe composta por uma média de 25 voluntários, com variedade de especialidade (e sotaques), e nada acontece no sítio arqueológico sem a sua autorização ou de seu colega Rodrigo Elias de Oliveira, dentista e bioantropólogo ligado ao Laboratório de Estudos Evolutivos e Ecológicos Huma-

nos (LEEEH), da Universidade de São Paulo (USP). A cena acontece na Lapa do Santo, uma caverna na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, que nos últimos anos vem se revelando um importante centro de rituais ligados à morte em um período entre 10 mil e 8 mil anos atrás, conforme relata artigo publicado em dezembro na revista Antiquity (ver Pesquisa FAPESP nº 247). Antes de serem retirados, todos os achados precisam ser localizados no espaço com ajuda de um aparelho de to-


Criança que morreu há cerca de 10 mil anos foi sepultada em posição fetal

Atenção prolongada para retirada de sedimento (à esq.), peneira (acima) e dente encontrado em meio a fragmentos de ossos

pografia, conhecido como estação total, que fornece coordenadas ao longo de três eixos. Todos os dias, e antes que modificações sejam feitas em qualquer trecho da escavação, a equipe também faz um registro fotográfico detalhado do avanço na exposição de cada ossada. Essas fotos são impressas ali mesmo, e sobre elas o responsável por cada exumação vai anotando observações. Pequenos quadrados vermelhos de plástico posicionados em vários pontos do sepultamento também são localizados (ou plotados) e incluídos

na fotografia, e depois ajudam a reconstruir um modelo tridimensional de cada esqueleto. O trabalho é feito com imenso cuidado, solenidade até, não só porque qualquer deslize pode representar milhares de anos perdidos – só se pode pisar de meias na quadra de escavação, para evitar danos às ossadas. Mais marcante é a presença dos habitantes antigos que foram sepultados por seus companheiros, como a criança que morreu com cerca de 8 anos de idade e foi posta deitada de

lado, com as pernas dobradas e os braços entre elas. Olhar de perto esse esqueleto, cuidadosamente sepultado a ponto de estar na mesma posição há cerca de 10 mil anos, provoca forte emoção. Ainda mais perturbador é perceber hoje uma atenção equivalente de parte de um grupo tão distante no tempo e em procedência. Além dos inúmeros sotaques brasileiros, em 2016 a equipe também contou com a mexicana María López Sosa e a alemã Franziska Mandt, ambas estudantes da Universidade de Tübingen. pESQUISA FAPESP 251  z  57


Coleta para busca de parasitas (à esq.) e escavação no exterior da caverna, com lona para proteger do Sol

A sensação da expedição era o esqueleto de uma mulher acompanhado de minúsculos ossos que, à medida que foram expostos, revelaram compor o esqueleto de um feto ou bebê recém-nascido. Ali ficava Oliveira durante praticamente o dia todo, retirando grão por grão de sedimento, enquanto mantinha um olho nas outras exumações em curso. De acordo com ele, a mulher foi acomodada de joelhos na cova, com o corpo dobrado por cima das pernas em posição fetal, provavelmente com o tronco torcido de maneira que, caso ainda estivesse grávida, a barriga ficaria para o lado e não abaixo das costelas. Isso, e mais a pedra que servia de lápide, explicaria o fato de o diminuto esqueleto estar afastado dos ossos da suposta mãe. “Só vou saber se era bebê ou feto quando examinarmos este dente no laboratório”, explicou o dentista ao encontrar um fragmento recuperado graças às exaustivas práticas de busca. O sedimento retirado com ajuda de um pincel, ou de uma pera de borracha usada para assoprar, é passado por pequenas peneiras de cozinha – daquelas que se põe em cima da caneca para separar a nata do leite fervente – com ajuda de um regador de água, de maneira a separar os fragmentos menores. Quando um pequeno recipiente, chamado de petisqueira, foi levado de volta ao dentista supostamente sem nada relevante dentro, ele pinçou o dente. De volta a São Paulo, as análises não permitiram uma resposta conclusiva. “É bem típico da época em torno do nascimento, com alguma margem de erro, de maneira 58  z  janeiro DE 2017

que poderia estar no fim da gestação ou ter nascido”, explica. Os dentes de leite começam a se formar entre o segundo e o terceiro mês de gestação. Além dos coadores para o material delicado, boa parte do sedimento retirado da escavação passa por uma grande peneira pendurada em um tripé, para separar fragmentos que escaparam ao crivo do pincel. Nessa função que requer atenção constante e uma boa resistência à poeira que enche o ar, era frequente encontrar Gabriel Francisco Pereira, voluntário que vive em Lagoa Santa e que “sabe tudo da região”, segundo Strauss, e a veterinária Nina Hochreiter, que pouco depois dos 50 anos se aposentou e pas-

sou a dedicar-se à paixão por arqueologia – era sua quarta participação como voluntária na Lapa do Santo. Enquanto a equipe trabalha como num formigueiro onde cada um tem a sua função e age de maneira coordenada, Strauss anota boa parte do que acontece em seu computador, cujo teclado é encapado com filme plástico para ajudar a resistir à fina poeira da qual é impossível escapar, etiquetado como “diário”. Ali está relatado tudo o que é feito, um registro público. “É um guia para pensarmos o que fazer em seguida e sobretudo para quando estivermos de volta a São Paulo”, explica. Outra referência importante é o diário em vídeo feito sempre ao fim

infográfico ana paula campos ilustraçãO fabio otubo

Rigor exaustivo


Raio X de uma escavação Sepultamentos encontrados em expedições subsequentes recebem números sequenciais

Altura do sepultamento em relação ao piso

Tipos de sepultamento

Entrada da caverna

padrão 1 Mortos sepultados entre 10.600 e 9.700 anos atrás passavam por pouca manipulação dos corpos

padrão 2 O período entre 9.600 e 9.400 anos atrás se caracteriza por extensas e elaboradas alterações Quadra escavada por Strauss desde 2011 padrão 3 Covas circulares feitas entre 8.600 e 8.200 anos atrás eram rasas e abrigavam ossos de uma pessoa

Área trabalhada entre 2001 e 2009

Fonte  André Strauss e Rodrigo de Oliveira

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De volta à base, o material coletado é ordenado, armazenado e etiquetado com códigos de barras

No acervo do LEEEH-USP, o material humano fica armazenado em caixas depois de processado (acima)

do dia, enquanto centenas de maritacas voltam aos gritos para seus ninhos no paredão de pedra acima do abrigo. “Eles têm um controle impressionante do sítio”, observa a arqueobotânica Rita Scheel-Ybert, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN-UFRJ), durante visita. Segundo ela, o conjunto de procedimentos meticulosos destaca o trabalho ali. “É porque somos preguiçosos”, brinca Strauss. A verdade é que o fluxo de trabalho, que inclui um sistema informatizado de gerenciamento desenvolvido por ele, permite terminar o período de campo com a curadoria já feita para boa parte do material, cujas informações ficam ordenadas e são facilmente recuperáveis em um banco de dados. Colaboração diversificada

E são muitos detalhes. Fragmentos minúsculos podem ajudar a reconstruir o modo de vida e a identidade das pessoas que viviam e morriam na região. “Preciso plotar um carvão!” Gritos desse tipo são ouvidos com frequência, uma solicitação para que o operador da estação total lan60  z  janeiro DE 2017

ce um feixe de laser para um ponto exato e por sua vez grite as coordenadas para quem estiver operando o computador onde está o banco de dados desenvolvido por Strauss para ordenar todas as informações. Os abundantes fragmentos de carvão são testemunho de uma época em que se acendiam fogueiras constantemente, a ponto de boa parte do solo do abrigo da caverna ser composto por cinzas, conforme mostra o trabalho da arqueóloga uruguaia Ximena Villagrán, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP e colaboradora do projeto, publicado em julho de 2016 na revista Journal of Archaeological Science. Análises detalhadas dos carvões podem revelar que tipo de material era queimado e quando. A bióloga mineira Patrícia de Sousa, uma das voluntárias no sítio, está interessada em iniciar um mestrado no qual pretende investigar que espécies de plantas serviam como lenha. Outros fragmentos dignos de nota são ossos de pequenos animais, em geral roedores, que circulavam por ali e talvez servissem como alimento, e os chamados instrumentos líticos. Ou apenas “líticos”.

Já foram encontradas pontas de flecha e cabeças de machados, mas o frequente mesmo são lascas de poucos centímetros do quartzo comum na região, como cacos de vidro afiados que podem ter tido os mais diversos usos. Em seu mestrado com Ximena, a arqueóloga goiana Daniela Ortega está examinando resíduos vegetais microscópicos retirados dos líticos para inferir quais plantas eram processadas com essas ferramentas, provavelmente como parte da dieta. Também no terreno do invisível, o arqueólogo carioca Andersen Lyrio da Silva, do MN-UFRJ, está em busca de parasitas que possam ter habitado as entranhas dos habitantes da Lapa do Santo, possíveis reveladores de doenças e alimentação. Para isso, ele precisa trabalhar ao final do dia, depois de encerradas as escavações. Paramentado com equipamento cirúrgico descartável para evitar contaminação, ele coleta sedimento próximo aos ossos da bacia de cada ossada e armazena as amostras em tubos embrulhados em papel de alumínio para proteger da luz e levar para o laboratório da parasitologista Alena Iñiguez, da Fundação Oswaldo Cruz


De volta a São Paulo, os esqueletos passam por montagem e curadoria antes de integrar a coleção de pesquisa

(Fiocruz), que fará as análises. Apesar de tentar desde 2012, ele ainda não encontrou nada. Mas não desistiu. Ao contrário, busca melhorar os procedimentos para garantir que a ausência não seja causada por deficiência na coleta. A maior parte da ação acontece na área externa, um abrigo coberto por rocha. No interior da caverna, Strauss brinca que pretende encontrar um tigre-dentes-de-sabre. Uma equipe dirigida pelo biólogo Elver Mayer, doutorando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, concentra-se em aprofundar uma área de 1 metro por 1 metro em busca de ossos de animais maiores, a megafauna. Sem esmorecer diante de uma profusão de carvões e líticos, encontrar um osso da pata de algo como um veado já foi digno de comemoração. postos de trabalho

Enquanto acontece a atividade intensa na caverna, há integrantes da equipe trabalhando em outros lugares. Um deles é a casa de João Bárbara Filho, ponto de apoio de muitos arqueólogos que passam por ali. Ele era motorista na

Universidade Federal de Minas Gerais quando começaram as expedições para Lagoa Santa nos anos 1970 em busca de vestígios humanos. Na época, além de dirigir ele ajudava os integrantes da expedição franco-brasileira – que mal falavam português – a se comunicarem com os fazendeiros perguntando por pinturas rupestres, consertava barracas do acampamento, construía o que fosse necessário e fabricava ferramentas. Hoje aposentado e habitante de Matozinhos, o município onde está a Lapa do Santo, ele continua a armazenar, consertar e construir equipamentos, além de ceder espaço em seu terreno para a flotação, um sistema montado por ele que usa água para recuperar a matéria orgânica presente no sedimento, que flutua. “Garanto que todo o carvão é coletado”, afirma Strauss. Também sempre ficam quatro pessoas na base, a casa cedida pelo Parque Estadual do Sumidouro onde a equipe vive durante esse período, para terminar a curadoria do material que começou a ser limpo e organizado na véspera, armazenado em saquinhos identificados por etiquetas com códigos de barras automaticamente geradas pelo banco de dados. Só os ossos humanos, um material mais delicado e precioso, são trazidos intactos para análise mais cuidadosa na USP. O volume de dados desencavados em um mês de campo é tão grande que não é

possível ir à Lapa do Santo com frequência maior que a cada dois anos, tempo necessário para processar os achados. De volta ao LEEEH, os esqueletos que pareciam quase vivos de tão bem posicionados se transformam em uma profusão de ossos, muitos deles quebrados em inúmeros fragmentos. Parte da equipe de campo – o arqueólogo Renato Panunzio, o biólogo Paulo Lanznaster e a jornalista e estudante de história Luisa Bittencourt – continua o trabalho sob a coordenação de Oliveira, reconstrói os crânios despedaçados e monta o esqueleto como um quebra-cabeça. Ao fim, o material é armazenado, documentado e limpo, no acervo do laboratório dirigido pelo bioantropólogo Walter Neves. “Temos a preocupação de só voltar a campo quando resolvermos o material no laboratório”, conta Oliveira. Mesmo assim, o planejamento para a próxima expedição já começou. n Veja entrevistas em vídeo em revistapesquisa.fapesp.br

Artigos científicos STRAUSS, A. et al. Early Holocene funerary complexity in South America: The archaeological record of Lapa do Santo (east-central Brazil). Antiquity. v. 90, n. 354, p. 1454-73. dez. 2016. VILLAGRAN, X. S. et al. Buried in ashes: Site formation processes at Lapa do Santo rockshelter, east-central Brazil. Journal of Archaeological Science. On-line. 26 jul. 2016.

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FÍSICA y

Diabrura

quântica

Grupo brasileiro controla o calor gerado por núcleos atômicos Igor Zolnerkevic

1

Trabalho de 1975 do matemático russo Alexander Lerner representa o demônio de Maxwell dentro de um dos recipientes contendo as moléculas de gás que deveria selecionar

A

geração aleatória de calor no mundo microscópico é um dos principais obstáculos para o avanço da nanotecnologia. À medida que os nanodispositivos se tornarem cada vez menores e mais complexos, feitos com peças de tamanho comparável ao de moléculas ou até mesmo de átomos, eles terão risco maior de gerar perigosas flutuações quânticas durante o seu funcionamento. Essas flutuações são variações abruptas e imprevisíveis de energia, regidas pelas leis probabilísticas da mecânica quântica, com potencial de danificar os nanomecanismos. Um grupo de físicos brasileiros liderado por Roberto Serra, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), apresentou em um artigo publicado no início de dezembro na Physical Review Letters uma técnica capaz de atenuar a produção dessas flutuações de calor em nível subatômico. As flutuações de energia e calor microscópicas devem prejudicar as nanomáquinas de maneira parecida com a que o aquecimento excessivo e descontrolado pode danificar um motor macroscópico convencional, como o de um carro. Durante a Revolução Industrial, uma das motivações dos cientistas do século XIX para desenvolver a termodinâmica clássica – área da física que estabeleceu como a energia na forma de calor é convertida em energia mecânica e vice-versa – foi entender o

funcionamento de válvulas de pressão e refrigeradores, dispositivos que tornaram o funcionamento dos motores a vapor e de combustão interna mais seguros e eficientes. Antecipando avanços na nanotecnologia, Serra e seus colegas fazem parte de uma comunidade de físicos que vem desenvolvendo uma teoria mais geral e detalhada da termodinâmica, a chamada termodinâmica quântica fora do equilíbrio, que poderá garantir o funcionamento eficiente de dispositivos nas escalas molecular e atômica, na qual os efeitos quânticos estão presentes. Para desenvolver uma nova técnica de controle, Serra e seus colegas se inspiraram no “demônio de Maxwell”, um ser fantástico imaginado pelo físico e matemático escocês James Clerk Maxwell (1831-1879). Maxwell foi um dos primeiros a entender que a temperatura de certo volume de gás depende da velocidade média com que se movimentam as moléculas que o compõem. Quanto mais velozes são suas moléculas, mais quente é o gás. Em uma carta de 1867 ao colega Peter Tait, Maxwell imaginou um ser microscópico e inteligente, capaz de medir e registrar as velocidades de todas as moléculas do gás. No experimento mental, o ser controlava uma torneira separando dois recipientes iguais, ambos cheios de um gás mantido à mesma temperatura. Abrindo e fechando a torneira rapidamente, a criatura separaria as moléculas de gás, deixando as menos velozes que a média – e, portanto, mais frias – em um dos recipientes e as mais ligeiras no outro. pecado termodinâmico

Em artigo na Nature em 1874, o físico irlandês William Thomson, mais conhecido como Lorde Kelvin, batizou o ser inteligente de demônio, para enfatizar que a criatura, ao esquentar o gás de um recipiente ao mesmo tempo que esfriava o gás do outro, cometia o pecado de violar a segunda lei da termodinâmica. Essa lei afirma que um corpo isolado, ou um conjunto de corpos isolados, possui uma propriedade chamada entropia, que sempre tende a aumentar com o tempo. Para um cojunto de partículas, a entropia é o número possível de arranjos entre todas elas, em uma dada situação.


Em artigo publicado em 1955 no American Journal of Physics, a figura imaginária controla o fluxo das moléculas de gás a partir do exterior dos recipientes

ilustrações  1 Fundamentals of Cybernetics | A. Y. Lerner | Springer  2 Darling & Hulburt, American Journal of Physics, 23-7, 1955

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Ao ordenar as moléculas de gás por sua velocidade, o demônio estaria diminuindo o número de arranjos possíveis do sistema, reduzindo, portanto, a sua entropia. Após o artigo de Thomson, ficou entre os físicos a dúvida: seria o demônio mera fantasia ou o experimento mental apontaria uma falha no entendimento das leis da termodinâmica? Mais de um século depois, em 1982, o físico norte-americano Charles Bennett, então pesquisador na empresa IBM, compreendeu que, para funcionar na prática, o demônio de Maxwell precisaria gravar a informação da velocidade das moléculas do gás em um substrato físico, como os bits da memória de um computador. Acontece que escrever e apagar dados em uma memória é uma tarefa impossível de se realizar sem gerar calor, algo descoberto anos antes por Rolf Landauer, outro pesquisador da IBM. E gerar calor sempre aumenta a entropia. Quando se avalia o aumento e a redução de calor nas duas etapas desse processo, verifica-se que a segunda lei da termodinâmica nunca é violada: o demônio pode diminuir a entropia no interior dos recipientes do gás ao selecionar as moléculas, mas o calor gerado para registrar a velocidade delas na memória aumenta muito mais a entropia do lado de fora dos recipientes. Os cálculos mostraram que a criatura sobrenatural

Experimento com molécula de clorofórmio e pulsos eletromagnéticos reproduz teste mental proposto no século XIX

de Maxwell obedecia a todas as leis da física e que sua função poderia ser realizada, na prática, por um mecanismo automático, controlado pela memória de um computador. Desde então, pesquisadores já criaram em laboratório mecanismos semelhantes ao imaginado por Maxwell, cada vez menores. O trabalho atual de Serra e seus colaboradores é o primeiro a projetar um demônio de Maxwell completamente quântico. Em um laboratório do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, os pesquisadores dis-

pararam um pulso de ondas eletromagnéticas contra uma solução de moléculas de clorofórmio – cada uma delas é formada por um átomo de carbono, um de hidrogênio e três de cloro (CHCl3). O pulso era ajustado para provocar flutuações quânticas na energia dos núcleos dos átomos de carbono das moléculas. Simultaneamente, os físicos dispararam ondas eletromagnéticas adicionais com o objetivo de ajustar a interação entre o núcleo de carbono de cada molécula com o seu núcleo de hidrogênio. Os pesquisadores conseguiram usar o núcleo de hidrogênio como um demônio de Maxwell que armazenava informação sobre o estado do núcleo de carbono. Dependendo do nível de energia do núcleo de carbono, o núcleo de hidrogênio atuava e restringia as flutuações energéticas do vizinho. A ação dos núcleos de hidrogênio fez com que as flutuações de energia dos núcleos de carbono acontecessem de maneira a produzir o mínimo de entropia possível. “Projetamos esse processo por meio de uma equação matemática que deduzimos, relacionando informação, entropia e energia”, diz Serra. “A equação é bem geral e poderá ser aplicada a qualquer sistema quântico, como elétrons e fótons, não apenas a núcleos atômicos.” “É um trabalho empolgante”, comenta Vlatko Vedral, físico da Universidade de Oxford, na Inglaterra, que participou de um experimento realizado em 2016 no qual se usaram feixes de laser para produzir um demônio de Maxwell. “Eles testaram uma fórmula que descreve a produção de entropia em sistemas quânticos em condições genéricas. Ainda não está claro por que a entropia do Universo precisa sempre aumentar e essa abordagem pode ajudar a entender as origens da segunda lei da termodinâmica.” n

Projeto Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Informação Quântica (nº 2008/57856-6); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Amir Caldeira (Unicamp); Investimento R$ 1.977,654,30 (para todo o projeto).

Artigo científico CAMATI, P. A. et al. Experimental rectification of entropy production by Maxwell’s demon in a quantum system. Physical Review Letters. v. 117. p. 240502. 5 dez. 2016.

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SAÚDE y

Zika, colaboração para caracterizar uma síndrome Trabalho interdisciplinar confirmou que o vírus causa microcefalia e outros danos cerebrais em bebês infectados na gestação Ricardo Zorzetto

N

o fim de 2016, consolidou-se a ideia de que a microcefalia representa apenas uma fração dos problemas provocados pelo vírus zika – possivelmente a menor, mas a mais trágica por suas consequências permanentes. Trabalhos publicados em dezembro e nos meses anteriores passaram a caracterizar com mais detalhe o amplo espectro de danos que o bebê infectado na gestação pode sofrer: dos mais graves e incompatíveis com a vida aos tão sutis que não são percebidos e talvez permitam uma existência plena. Entre esses extremos, seguramente raros, há uma gama mais frequente de lesões no sistema nervoso central – as mais comuns são as calcificações, uma espécie de cicatriz no tecido cerebral – capazes 64  z  janeiro DE 2017

de comprometer em grau ainda incerto o desenvolvimento e a independência da criança. Esse contínuo de efeitos reforça, segundo especialistas, a ideia lançada há algum tempo de que o vírus cause uma síndrome: a síndrome congênita do zika. Da suspeita de que o vírus estava por trás dos casos de microcefalia até a caracterização da síndrome atribuída a ele, passou-se um tempo relativamente curto em termos de pesquisa científica, uma atividade que costuma funcionar em um ritmo mais lento, marcado pela disponibilidade de dinheiro e infraestrutura para os experimentos. O alerta soou nas maternidades de Recife no início de agosto de 2015 quando a neurologista pediátrica Vanessa van Der Linden e outros médicos pernambucanos começaram a

identificar uma elevação atípica dos casos de microcefalia. No mês seguinte, o Ministério da Saúde pediu à epidemiologista Celina Turchi Martelli, do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães, em Recife, que investigasse o problema. Ela contatou pesquisadores no país e no exterior e criou uma força-tarefa para estudar a conexão entre o aumento da microcefalia e a infecção por zika – por seu trabalho, Celina foi eleita pela revista Nature em dezembro um dos 10 pesquisadores que fizeram a diferença em 2016. Três meses após aumentarem os casos de microcefalia, as evidências de que o zika causava o problema se tornaram mais fortes. Em meados de novembro, a obstetra Adriana Melo, com auxílio de pesquisadores da Fundação Oswal-


Rodrigo Méxas e Raquel Portugal / fiocruz

Fêmea do mosquito Aedes aegypti, o principal transmissor do zika e de outros três vírus no Brasil

do Cruz (Fiocruz) no Rio de Janeiro, identificou o vírus no líquido amniótico de duas grávidas da Paraíba cujos fetos tinham microcefalia. No final do mês, a equipe do virologista Pedro Vasconcelos no Instituto Evandro Chagas (IEC), no Pará, isolou o vírus de vários tecidos de um bebê do Ceará que nasceu com microcefalia e morreu pouco após o parto. “Depois dos exames iniciais em que identificamos os vírus, eu não tinha mais dúvidas de que o zika causava microcefalia”, afirma Pedro Vasconcelos, diretor do IEC, onde coordena um laboratório que serve como referência nacional em arboviroses, doenças causadas por vírus transmitidos por artrópodes, como zika, dengue e febre amarela. “Tive a convicção de que nosso trabalho havia sido

bem-feito”, disse o virologista em meados do mês passado, durante uma viagem ao Rio. “Eu estava em uma reunião em Brasília no final de outubro de 2015 e havia um zum-zum-zum. Falei que, se me enviassem o material adequado em quantidade adequada, em dois ou três dias eu daria o diagnóstico”, conta. E cumpriu. Em meados de novembro, a patologista Fernanda Montenegro de Carvalho Araújo, do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) do Ceará, enviou a Vasconcelos amostras de tecidos de um bebê com microcefalia. Dias depois o diretor do IEC informou o achado ao Ministério da Saúde, que, em 28 de novembro, reconheceu a conexão entre a infecção por zika na gestação e os casos de microcefalia. Um comunicado do mi-

nistério informava que era “uma situação inédita na pesquisa científica mundial” e chamava uma mobilização nacional para conter o Aedes aegypti, o principal transmissor do zika e dos vírus da dengue e da recém-chegada febre chikungunya, que, então, preocupava mais os pesquisadores e as autoridades de saúde. Isolado o vírus, Vasconcelos distribuiu amostras para equipes no Brasil e no exterior a fim de acelerar as pesquisas. Os meses seguintes foram de correria. Era preciso aprender a manter e a multiplicar o vírus e gerar cópias suficientes para os experimentos. No Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), os grupos dos virologistas Edison Durigon e Paolo Zanotto iniciaram imediatamente as pESQUISA FAPESP 251  z  65


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tentativas de replicação do vírus e, em parceria com o grupo do neuroimunologista Jean Pierre Peron, também do ICB, e o da neurocientista Patrícia Beltrão-Braga, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, começaram experimentos com roedores e com células-tronco cultivadas em uma matriz tridimensional que permite gerar diferentes tipos celulares e se organizarem em esferas microscópicas (neuroesfera) ou em camadas como se fossem minicérebros. Com esses experimentos, esperava-se compreender melhor como o vírus era transmitido da mãe para o feto, como ele agia no organismo do feto e qual o período de maior vulnerabilidade da gestante. Também era preciso confirmar que era o zika que causava os problemas, o que os pesquisadores chamam de relação de causalidade, pois não estava descartada a possibilidade de que ele estivesse no cérebro sem provocar danos. Várias evidências se acumularam nos meses seguintes. Em fevereiro, pesquisadores da Eslovênia encontraram o vírus

e quantificaram a sua presença no cérebro de um bebê de 8 meses, abortado por uma mulher que engravidara enquanto vivia no Rio Grande do Norte e que tinha apresentado sinais de zika na gestação. A esse trabalho, seguiram-se outros mostrando que o vírus era capaz de transpor a placenta e infectar o líquido amniótico, algo que poucos vírus fazem. Com a atenção de grupos de pesquisa no país e no exterior voltada para o zika, surgiam novidades quase diariamente. No Brasil, começou-se a divulgar os avanços obtidos nos laboratórios antes que

Cultura de células usada para produzir cópias do vírus no laboratório de Edison Durigon na USP 66  z  janeiro DE 2017

os resultados tivessem sido analisados e julgados por outros cientistas, revertendo o fluxo de informação característico da produção científica. Seguindo uma orientação anunciada em setembro de 2015 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e acordada por algumas editoras de revistas científicas, muitos pesquisadores passaram a tornar o trabalho de seus grupos disponíveis o mais rápido possível. Dois estudos apresentados nos primeiros dias de março demonstravam que o zika era capaz de infectar as células neurais humanas e matá-las. No primeiro deles, pesquisadores do Rio e de São Paulo, trabalhando sob a coordenação de Stevens Rehen e Patrícia Garcez, neurocientistas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), comprovaram que o vírus tinha preferência por invadir e matar os progenitores neurais, células-tronco precursoras dos neurônios e das células da glia, que formam o tecido nervoso. Dias depois pesquisadores dos Estados Unidos confirmavam esse achado e mostravam que o zika infectava in vitro as células neurais correspondentes às que formam o córtex, a camada mais externa do cérebro, associada a funções cognitivas como atenção, memória e linguagem. Quase simultaneamente, na USP, os grupos do ICB e da FMVZ chegaram a resultados parecidos nos experimentos com as neuroesferas e os minicérebros. No mesmo trabalho, feito com a participação de pesquisadores do Instituto Pasteur no Senegal e publicado em 11 de

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fotos 1 National Institute of Allergy and Infectious Diseases, National Institutes of Health 2 léo ramos chaves  3 Pan American Health Organization PAHO

Cópias de zika (em vermelho) isoladas de criança que nasceu com microcefalia em Fortaleza


maio na Nature, os pesquisadores de São Paulo também apresentavam o primeiro modelo animal de microcefalia causada por zika e estabeleciam a relação causal do vírus com a microcefalia. Usando cópias do vírus produzidas nos laboratórios de Durigon e Zanotto, Peron e seu grupo inocularam a variedade do zika em circulação no país em fêmeas prenhes de camundongo. O vírus atravessou a placenta das fêmeas de uma linhagem mais suscetível a infecções virais e prejudicou o desenvolvimento dos filhotes. Eles nasciam com menos peso, cérebro menor e danos semelhantes aos observados nos bebês humanos (ver Pesquisa FAPESP nos 242 e 244). Esse modelo de microcefalia foi usado depois em testes feitos por pesquisadores dos Estados Unidos, em parceria com os da USP, que demonstraram ser possível criar uma vacina contra o zika. um sinal de alerta

Diante desses resultados e do aumento de casos suspeitos de microcefalia no Brasil, em 31 de março a OMS divulgou um relatório no qual afirmava haver um

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Até 2015, havia dois artigos de brasileiros sobre zika: o primeiro (acima) analisava as alterações genéticas do vírus; o segundo (ao lado) descrevia os primeiros casos de transmissão interna no país

“forte consenso científico” de que o vírus zika causava microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré, um distúrbio imunológico que leva à destruição da mielina, substância que forma a bainha que reveste os nervos, e pode causar paralisia. Era uma importante mudança de posição tomada apenas dois meses após considerar que havia uma “possível associação” do vírus com esses problemas e declarar situação de emergência de saúde pública de interesse internacional. “Desde o início da epidemia, avançou bastante o conhecimento sobre o vírus, em especial sobre sua biologia e interação com o organismo de mamíferos”, conta Peron. Apenas em 2016 produziu-se muito mais informação sobre o vírus zika do que a acumulada nas seis décadas anteriores. Só o Pubmed, uma das mais importantes bases que indexam artigos

científicos em biologia e ciências da vida, registrou no ano passado 1.756 artigos sobre zika (quase 200 com autoria de brasileiros). Esse total é aproximadamente oito vezes maior do que o volume disponível até o final de 2015. De 1952, quando foi registrada a primeira infecção em humanos, até o vírus se tornar uma preocupação mundial em 2015, havia 218 artigos sobre zika no Pubmed. Alguns trabalhos mostravam a afinidade do vírus pelo sistema nervoso dos mamíferos e vários outros descreviam casos esporádicos de febre na África e na Ásia. Apesar da epidemia de 2007 nas ilhas Yap, na Micronésia, e da de 2013 na Polinésia Francesa, quando milhares foram infectados, nada se sabia a respeito da ação do zika sobre fetos em desenvolvimento. “O surto na Micronésia deveria ter servido de alerta”, afirma Zanotto. “Faço essa autocrítica porque, na época, nós, especialistas em arbovírus, estávamos sequenciando variedades africanas do

Participante de estudo que acompanha gestantes com sintomas de zika no Recife pESQUISA FAPESP 251  z  67


Minicérebros cultivados na USP e usados em experimentos com o zika

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zika, mas não imaginávamos que o vírus poderia mudar seu perfil de atuação de forma tão rápida e avassaladora.” Segundo o virologista, na época ele e outros especialistas estavam de olho em outros arbovírus considerados de maior risco e potencial pandêmico, como o da febre do Vale do Rift, a linhagem 2 do vírus da febre do Oeste do Nilo, o vírus da febre Chikungunya. “Hoje há consenso na comunidade de pesquisadores de que precisamos assumir uma conduta mais proativa com patógenos emergentes”, afirma Zanotto, que no final de 2015 iniciou a mobilização da Rede Zika, o consórcio de pesquisadores de São Paulo que investigam o vírus com apoio da FAPESP. Além de colaborar no desenvolvimento do modelo animal de microcefalia, ele trabalha com Durigon e o biólogo Luis Carlos de Souza Ferreira, também da USP, no aprimoramento de um teste sorológico capaz de distinguir a infecção da dengue da causada por zika. Zanotto é coautor de um dos dois trabalhos de pesquisadores brasileiros sobre o zika

que existiam entre os 218 artigos publicados até 2015. Nesse estudo, veiculado em janeiro de 2014 na PLOS Neglected Tropical Diseases, a equipe de Zanotto e o grupo do virologista senegalês Amadou Alpha Sall, do Instituto Pasteur em Dacar, sequenciaram o material genético de amostras do zika coletadas na África e na Ásia para estudar as transformações que o vírus havia sofrido desde que fora isolado em 1947. O trabalho permitiu reconstituir, mais tarde, a rota migratória do vírus (via Ásia) até o Brasil e verificar que no caminho ele parece ter se adaptado para infectar os seres humanos. Um vírus, múltiplos danos

Ao mesmo tempo que uma parte dos pesquisadores se dedicava a aprender mais sobre a biologia do vírus, outros grupos investiam na caracterização da síndrome congênita causada por zika. Já em janeiro de 2016 um grupo coordenado pela médica e geneticista Lavinia Schüler-Faccini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), realizou uma

série de exames em algumas das primeiras crianças com microcefalia relacionada ao zika nascidas em oito estados brasileiros e verificou que a microcefalia não era o único problema. Muitas apresentavam outras alterações neurológicas, como calcificações; lisencefalia, ausência das dobras características do cérebro sadio, ou paquigiria, dobras mais alargadas; além de um problema articular grave chamado artrogripose. No fim de agosto, um artigo publicado on-line na revista Radiology e assinado por pesquisadores de São Paulo, Paraíba, Rio de Janeiro e Campinas trouxe o resultado da avaliação de 17 crianças comprovadamente infectadas por zika na gestação e de outras 28 suspeitas de terem tido contato com o vírus. Todas apresentavam redução do volume cerebral, mais acentuada entre aquelas com infecção confirmada, de acordo com o trabalho, coordenado pela médica e radiologista Fernanda Tovar-Moll, professora da UFRJ e pesquisadora do IDOR. Em alguns casos, os pesquisadores verificaram que o cérebro até apresentava um ritmo de desenvolvimento normal no início da gestação, mas, com o tempo, passa a crescer mais lentamente. Dois meses depois, os neurologistas pediátricos André Pessoa, do Ceará, e Vanessa van der Linden, de Pernambuco, relataram 13 casos de crianças infectadas com zika na gestação que nasceram com o perímetro cefálico limítrofe e alterações neurológicas detectadas por 2

Neuroesfera formada a partir de células saudáveis (à esq.) e outra gerada por células infectadas pelo vírus 68  z  janeiro DE 2017


fotos 1 léo ramos chaves  2 Pan patrícia garcez / ufrj e idor 3 National Institute of Allergy and Infectious Diseases, National Institutes of Health

exames de imagem. Alguns meses após o parto, 11 apresentaram o crânio menor que o esperado para a idade – haviam desenvolvido microcefalia pós-natal – em decorrência da desaceleração do desenvolvimento do cérebro. “A ausência de microcefalia no nascimento não exclui a infecção congênita por zika nem a presença de anomalias no cérebro ou em outros órgãos relacionadas ao zika”, escreveram os pesquisadores em artigo na Morbidity and Mortality Weekly Report. Na edição de 15 de dezembro do New England Journal of Medicine, a infectologista Patrícia Brasil e sua equipe na Fiocruz do Rio, em parceria com colaboradores em São Paulo, Estados Unidos, Suécia e Áustria, descrevem o desfecho do que provavelmente é o mais amplo estudo de acompanhamento de gestantes brasileiras com zika. No trabalho, eles apresentam o resultado da gestação de 186 mulheres (125 positivas para zika e 61 negativas) das 345 que vêm sendo acompanhadas na capital fluminense desde o auge da epidemia de zika no país. Das 117 crianças expostas ao zika na gestação e avaliadas pelos pesquisadores, só quatro (3,4%) nasceram com microcefalia e 49, o equivalente a 42% do total, apresentaram sinais de desenvolvimento anormal no primeiro mês de vida, quase sempre associados a danos no sistema nervoso central. Exames de imagem mostraram calcificações no sistema nervoso de várias das 49 crianças e redução no tamanho do cérebro – não necessariamente do crânio –, além de aumento do volume de cavidades (ventrículos) cerebrais. Essas alterações ocorreram em bebês cujas mães foram infectadas no início, no meio e no final da gestação – uma teve zika na 39a semana, pouco antes do parto. Essas observações indicam que o vírus representa um risco para o bebê durante toda a gravidez. Vistos em conjunto, esses resultados ajudam a explicar por que nem sempre as mulheres infectadas na gestação dão à luz bebês com microcefalia. Em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, a equipe do médico e virologista Maurício Nogueira começou a seguir 1.200 gestantes no início de 2016. Delas, apenas 54 tiveram infecção por zika. Nenhum dos bebês, no entanto, nasceu com microcefalia, embora 30% apresentassem lesões neurológicas. Em Jundiaí, município a 60 quilômetros de São Paulo, o

Voluntário recebe vacina antizika em testes iniciais com seres humanos realizados nos Estados Unidos

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Busca pelo imunizante

Cerca de 30 formulações candidatas a vacina estão em diferentes estágios de avaliação

grupo do pediatra Saulo Duarte Passos acompanha 560 gestantes desde março de 2016. Até dezembro, 265 bebês haviam nascido e 33 tinham microcefalia – só 3 casos comprovadamente causados por zika, os demais estão em análise. Entre os que nasceram com a cabeça normal, uma parte passou a apresentar alterações neurológicas, visuais e auditivas por volta do 5º ou 6º mês de vida.

No Centro de Virologia e Pesquisa em Vacina (CVVR) da Escola Médica Harvard, nos Estados Unidos, o grupo de Dan Barouch, do qual participa o imunologista brasileiro Rafael Larocca, testou duas formulações em roedores e comprovou, em parceria com os grupos do ICB-USP, que elas protegiam os animais da infecção por zika. Dois meses depois saíram os resultados de testes em macacos e começaram ensaios clínicos em seres humanos de dois compostos candidatos a vacina. Hoje, há cerca de 30 formulações em estágios diferentes de avaliação. Ainda que se mostrem eficazes em seres humanos, deve levar anos até que estejam disponíveis para o uso pela população. “Foi surpreendente a capacidade de resposta da ciência brasileira”, afirma Rehen, diretor de pesquisa do IDOR. Na sua opinião, isso foi possível porque durante um período de quase 10 anos houve muito dinheiro disponível para pesquisa no país e capacidade instalada para realizar as investigações. “A existência de um problema real fez a comunidade científica se organizar em busca de soluções”, completa. “Mostramos que é possível fazer.” n pESQUISA FAPESP 251  z  69


Concepção artística mostra nanorrobôs atacando um vírus (em vermelho) 70  z  janeiro DE 2017


tecnologia  novos materiais y

Medidas preventivas Estudos apresentam propostas para possíveis impactos de nanoprodutos na saúde humana e no meio ambiente Marcos de Oliveira

imagem  DAVID MACK / SCIENCE PHOTO LIBRARY / SPL DC / Latinstock

A

s novas tecnologias, à parte os numerosos benefícios para a sociedade, sempre trazem alguma preocupação pela possibilidade de provocar prejuízos à saúde humana ou ao ambiente. Com a nanotecnologia ocorre o mesmo. No início de dezembro, pesquisadores brasileiros participaram da elaboração final do NANoREG, um projeto da União Europeia, iniciado em 2014, que tem o objetivo de levantar informações e apresentar um conjunto de propostas de avaliação de risco aos órgãos reguladores dos países e às indústrias abordando aspectos de segurança da nanotecnologia. Na conferência, um grupo de 180 especialistas de vários países debateu a relevância da regulamentação e aplicabilidade dos resultados baseados na ciência gerada nos últimos 10 anos sobre o uso de nanomateriais em relação ao meio ambiente, saúde e segurança. “Estamos quebrando vários mitos com o NANoREG”, diz o patologista Wagner Fávaro, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele foi o representante do Laboratório de Síntese de Nanoestruturas e Interação com Biossistemas (Nanobioss) da Unicamp, na conferência final do NANoREG realizada em Paris pela Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE). “Com uma ampla rede de instituições de pesquisa que incluiu, além dos europeus, pesquisadores convidados do Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, do Brasil e da Coreia do Sul, conseguimos pESQUISA pESQUISAFAPESP FAPESP250  251  z  71


chegar a resultados científicos importantes: saber qual tipo de nanotubo passa pelas barreiras biológicas ou conseguem se acumular dentro da célula, por exemplo”, conta Fávaro. “Os trabalhos apresentados nessa conferência demonstraram claramente que muitos métodos e abordagens científicas foram validados e são confiáveis para regulamentações a curto prazo. É um trabalho imenso porque cada teste precisa ser pensado para cada material. Muitos tiveram de ser refeitos sob padrões previamente acertados para evitar resultados divergentes, como era comum há pouco tempo.” A participação brasileira no NANoREG teve sete grupos de instituições de pesquisa sob a coordenação do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). Os resultados dessa conferência serão apresentados em um livro, em meados de 2017, na forma de recomendações que possam constar em futuros regulamentos em torno do tema, de como testar e avaliar os efeitos e riscos de cada nanomaterial. O grupo da Unicamp, que, além de Fávaro, tem também a coordenação de Oswaldo Alves e Nelson Durán, ambos do Instituto de Química (IQ), apresentou na conferência do NANoREG um estudo em conjunto com pesquisadores dinamarqueses com avaliações histopatológicas e toxicológicas de amostras teciduais de rins de camundongos que receberam diferentes tipos e concentrações de nanotubos pela traqueia. O resultado final indicou que o material se acumulou nos pulmões, depois caiu na circulação sanguínea e, por fim, se acumulou nos rins. Nesse órgão, os nanotubos provocaram inflamações e não foram eliminados naturalmente. cuidado no descarte

Um dos estudos pioneiros nessa área no Brasil foi realizado em 2008 por um grupo do IQ-Unicamp junto com o Instituto de Pesca em Cananéia (SP), sob a coordenação de Oswaldo Alves. “Conseguimos mostrar que nanotubos de carbono, quando em contato com pesticidas usados na lavoura, aumentam consideravelmente a toxicidade para peixes [ver Pesquisa FAPESP nº 226].” A ideia foi simular em laboratório um possível encontro, via descarte, de nanotubos e pesticidas em ambientes aquáticos. “Descobrimos que os nanotubos são excelentes concentradores de pesticidas, que ficam presos nas guelras e contaminam o peixe”, explica Alves. “Os nanotubos são muito bons para uso em sensores e em chips, por exemplo, mas é preciso cuidar do descarte.” Isoladamente, o material não indicou nenhum sinal de toxicidade aguda até o limite de 3 miligramas/litro, mas aparentemente causou uma redução no consumo de oxigênio e na eliminação de amônia pelos peixes. 72  z  janeiro DE 2017

A nanossegurança começa no projeto do nanoproduto, com as melhores rotas de desenvolvimento e produção

“Nos laboratórios, na pesquisa básica ou aplicada, é fácil controlar e destruir esses materiais porque as quantidades são muito pequenas, mas quando muda a escala para um sistema industrial a situação é outra”, alerta Fernando Galembeck, professor do IQ-Unicamp e ex-diretor do Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano). “A diretriz que pratiquei no LNNano é que nenhum nanoproduto deve ser desenvolvido tecnologicamente sem que os seus riscos toxicológicos e ambientais sejam avaliados, começando o mais cedo possível. Precisamos saber quais são os riscos ainda nas fases iniciais da pesquisa, porque o desenvolvimento tecnológico envolve grandes gastos. Qualquer empresário, diante de qualquer nova descoberta, preocupa-se com a possibilidade de riscos ambientais e toxicológicos”, afirma. Em 2015, o pesquisador esteve na Câmara dos Deputados, em Brasília, na Comissão Mista de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática para apresentar a sua posição, então como diretor do LNNano, sobre dois projetos de lei do deputado José Sarney Filho (PV-MA): o de número 5133/2013, que prevê a rotulação de produtos que contenham nanotecnologia, e o 6741/2013, que trata sobre a Política Nacional de Nanotecnologia, envolvendo a pesquisa, a produção, o destino de rejeitos e o uso da nanotecnologia no país. “Sobre a rotulagem, enumerei, em uma leitura literal do projeto de lei, vários tipos de produtos familiares e bem conhecidos que passariam a ser rotulados, como manteiga, margarina, leite, cosméticos, sabonetes, pneus e tintas. Esses produtos têm e sempre tiveram partículas e outras estruturas nanométricas na sua composição. Por exemplo, o fosfato de cálcio contido no leite está na forma de nanopartículas”, explica. “Em relação ao outro projeto, mostrei que a sua redação compromete todos os projetos de pesquisa e desenvolvimento em nanotecnologia no país porque precisaríamos registrar o que faríamos, antes de começar o projeto, em um órgão estatal. Isso é impossível e incompatível com a própria natureza da pesquisa, que é um salto no desconhecido.” Os projetos estão agora tramitando na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços.


“Qualquer pessoa que tenha trabalhado na área química nos últimos 40 anos sabe que um produto novo pode envolver riscos. Ele tem que passar por avaliações ambientais e de riscos à saúde e a indústria precisa de padrões de segurança muito altos”, avalia Galembeck. “Na nanotecnologia podemos regular o que sabidamente provoca riscos significativos e devemos pesquisar o que não se conhece, para aumentar a segurança do público e do empreendedor. Entretanto, as atividades de regulação, no Brasil, têm sido a fonte de muitos prejuízos para a pesquisa científica, para as empresas e para o desenvolvimento do país. Abusos de regulação são uma parte importante da insalubridade do ambiente de inovação no Brasil.”

Experimento em aquário Unicamp e Instituto de Pesca encontraram nanotubos e chumbo nas guelras de tilápia

Nanotubo

Vazio

Nanotubos nas guelras inchadas e deformadas de peixes expostos ao nanodispositivo na água (à esq.) e normais do grupo-controle em água sem contaminantes (ao lado)

foto  eduardo cesar  detalhes unicamp

Segurança na fábrica

O debate sobre os possíveis problemas que poderiam ser causados pela nanotecnologia existe há alguns anos no país. “Começamos a discutir esse tema por volta de 2002 levantando riscos, mas, no primeiro momento, fui acusado de ‘fogo amigo’ pelos colegas pesquisadores da área”, lembra Alves. Em 2013, ele foi um dos coautores de um dos primeiros livros a esse respeito no país: Nanotoxicology: Materials, methodologies and assessments (Nanotoxicologia: Materiais, metodologias e avaliações), publicado pela Springer. A mesma editora tem uma série dedicada ao assunto, coordenada pelo professor Valtencir Zucolotto, do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP). Na área industrial, um livro lançado em 2015 trouxe novas informações para aqueles que trabalham diretamente com nanotecnologia no setor produtivo. Nanossegurança: Guia de boas práticas em nanotecnologia para fabricação e laboratórios tem como autores Leandro Antunes Berti, doutor em nanotecnologia e secretário-executivo do Arranjo Promotor de Inovação em Nanotecnologia (API.nano), uma rede que congrega empresas e instituições para o desenvolvimento industrial sustentável da nanotecnologia no Brasil, que tem sede na Fundação Certi, em Florianópolis (SC), e o engenheiro e doutor em engenharia química, Luismar Marques Porto, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc), o livro é um guia prático que apresenta, com uma linguagem didática, definições acessíveis sobre o que é nanotecnologia, quais as aplicações e como está se inserindo na vida cotidiana. A obra é resultado de um levantamento minucioso em órgãos como o FDA, a agência de proteção ambiental (EPA) dos Estados Unidos, entre outras instituições internacionais e de outros países. “Buscamos evidenciar o paradigma Safety by design [Segurança obtida pelo projeto] e as me-

Fonte Oswaldo Alves/Unicamp

lhores rotas de desenvolvimento e produção de nanomateriais, centrada no conceito da nanossegurança”, diz Berti. “Mostramos técnicas práticas reconhecidas e os mais modernos métodos de produção e caracterização de nanomateriais.” Outro livro, lançado em 2016, foi escrito por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) sob coordenação do engenheiro de materiais Antônio Carlos Guastaldi, do Instituto de Química de Araraquara: Engineered nanomaterials: Nanotoxicology issues, nanosafety and regulatory affairs, da Editora Cultura Acadêmica da Unesp. Também são coautores a farmacêutica Carla dos Santos Riccardi, da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp de Botucatu, e o químico Márcio Luiz dos Santos, da Universidade Federal do ABC (UFABC). O interesse de Guastaldi pelo tema apareceu durante os estudos, principalmente em odontologia, do Grupo de Biomateriais que ele coordena na Unesp. “Decidimos fazer um levantamento sobre essa questão e entender o conhecimento mundial sobre o assunto”, conta Guastaldi. Eles encontraram 187 mil estudos, entre 1990 e 2014, com a palavra nanopartícula, enquanto os artigos científicos que continham as palavras nanopartícula e toxicidade atingiram 6,9 mil. Em levantamento feito até 2014 em um banco de patentes internacional, das 20.216 patentes sobre nanotecnologia, apenas 795 têm citações à nanotoxicidade. n pESQUISA FAPESP 250  z  73


Bobinas de aço elétrico na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda (RJ)

74  z  janeiro de 2017


Engenharia metalúrgica y

Metais mais eficientes Inovações tecnológicas ampliam o desempenho do aço usado em motores elétricos e transformadores de energia Domingos Zaparolli

CSN

A

demanda mundial por maior eficiência no consumo de energia elétrica impulsiona a evolução dos aços usados na fabricação de motores de geladeiras, aparelhos de ar-condicionado, geradores e transformadores. Chamados de aços elétricos e compostos basicamente de ferro e silício, eles são produzidos desde o início do século XX e têm como característica a facilidade de serem magnetizados e transformar a energia elétrica em energia mecânica. A busca por melhor desempenho desse material é constante para atender produtos em setores tradicionais, como eletrodomésticos, e em áreas tecnológicas mais avançadas, como a produção de carros elétricos. Nos anos 1990, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), junto com um grupo de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), conseguiu renovar o seu sistema produtivo de aços elétricos com um projeto do programa Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite) da FAPESP. Com isso, a CSN obteve produtos 30% mais eficientes. A mais recente inovação vem de uma empresa, a Aperam (ex-Acesita), de Minas Gerais. No último trimestre de 2016, a companhia concluiu um conjunto de melhorias em seus processos produtivos que permitiu o início da fabricação de um material ainda mais eficiente energeticamente, o aço elétrico de grão superorientado (HGO, sigla de High Permeability Grain Oriented Steel). “É uma tecnologia que reduz a perda magnética do processo de transformação de energia em até 30% nos metais”, diz o engenheiro Rubens Takanohashi, da Aperam. A perda magnética é a energia despendida como calor pESQUISA FAPESP 251  z  75


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No mundo, 50% do consumo de energia elétrica se deve aos motores

na alternância de magnetização e desmagnetização do metal. O HGO é uma evolução de um dos dois tipos existentes, os aços elétricos de grão orientado (GO), que são de alto desempenho e equipam os transformadores, equipamentos que alteram e adequam a voltagem de correntes elétricas alternadas. O outro é o grupo dos aços elétricos chamados de grão não orientado (GNO), utilizados em motores, compressores e geradores. A perda magnética apresentada por um aço GO é de aproximadamente 1,25 watt por quilo do material. Com o HGO essa perda é reduzida para algo como 0,95 watt por quilo do material. A diferença pode parecer pequena, mas é bastante significativa quando se leva em conta que essa perda é reproduzida em todo o parque de transformadores instalados no país. “Essa era uma demanda do mercado brasileiro”, diz Takanohashi. “Esse material permite a produção de transformadores mais eficientes e de 10% a 15% menores, consumindo menos insumos em sua fabricação e facilitando o transporte do equipamento.” No município de Timóteo (MG), a siderúrgica Aperam mantém a única unidade produtora de aço GO, e agora HGO, na América Latina e uma das 15 em atividade no mundo, que estão instaladas em 10 países. O início da produção de HGO demandou investimentos de US$ 19 milhões ao longo de dois anos. A empresa não adquiriu um pacote tecnológico, mas desenvolveu a solução internamente. Ao todo foram oito anos de estudos no Cen76  z  janeiro de 2017

Siderúrgica Aperam, em Timóteo, MG (acima). Lâminas de aço elétrico circundadas por fios de cobre, em experimento no IPT (à dir.)

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tro de Pesquisas da Aperam em Timóteo, que tem seis pesquisadores dedicados ao desenvolvimento de aços elétricos. O consumo brasileiro de aços elétricos GO é estimado em 45 mil toneladas (t) por ano. A estimativa do mercado de siderurgia indica que o consumo global de aços elétricos chegue à casa de 12,5 milhões de t/ano, sendo 2,5 milhões de aço GO e 10 milhões de GNO. No Brasil, o consumo total, dos dois tipos de produtos acabados e mais os semiprocessados, é de aproximadamente 400 mil toneladas anuais. A fábrica da Aperam tem capacidade para produzir 60 mil t/ ano de aço GO. Sua produção atual é de 55 mil t/ano destinada a atender o mercado interno e países da América Latina. A fabricação do novo aço HGO não representará um aumento da capacidade produtiva, mas uma mudança de perfil.

Segundo Takanohashi, ainda não há uma projeção de qual será a proporção do HGO no mix da companhia. “Dependerá da demanda.” Motores ecoeficientes

Uma chapa de aço é formada por bilhões de cristais. Os tamanhos são variados, mas cada grão de cristal tem por volta de 100 micrômetros (igual a 1 décimo de milímetro) de diâmetro. No aço elétrico, os cristais têm estrutura cúbica, e quanto mais cristais estejam orientados de forma a ter uma face do cubo paralela à superfície de laminação da chapa, melhor é sua propriedade magnética. “Apesar de o avanço tecnológico ter desenvolvido ‘receitas’ que permitem um bom controle da orientação dos cristais na chapa de aço, a ciência ainda não é capaz de explicar como isso ocorre”, afirma o


Os novos aços elétricos da Aperam são destinados à produção de transformadores menores e mais eficientes

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fotos 1 aperam 2 Ipt  3 aperam

engenheiro metalúrgico Fernando Landgraf, diretor-presidente do IPT. Landgraf coordena um grupo de pesquisa sobre aços elétricos no Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), no qual é professor. São avaliados os tamanhos dos cristais, sua orientação espacial, impurezas e os defeitos cristalinos. O IPT e a Poli estão engajados na pesquisa de materiais magnéticos desde 1982. Nos anos 1990, a equipe de pesquisadores liderada por Landgraf usou a experiência adquirida em pesquisa magnética para desenvolver soluções para o mercado de aços elétricos. A pesquisa sobre a maior eficiência dos aços elétricos, segundo Landgraf, é hoje uma preocupação global e está inserida nos esforços de economia energética. “Calcula-se que 50% da energia elétrica produzida por ano no mundo é consumida por motores. Por volta de 3% dessa energia é dissipada como perdas magnéticas. São números que podem ser reduzidos com o desenvolvimento de aços elétricos mais eficientes”, diz. Segunda família

No início dos anos 1990, a CSN iniciava a produção de aços elétricos de GNO. O produto era para abastecer fabricantes de motores de equipamentos elétricos de menor eficiência e de eletrodomésticos como liquidificadores, fornos de micro-

-ondas e autopeças. O desafio seguinte da companhia era desenvolver uma segunda família de aços elétricos para entrar em mercados de motores que demandam maior rendimento energético, como o de compressores de geladeira, aparelhos de ar-condicionado e motores industriais. Nilza Cristina Sabioni Boechat Zwirman, gerente de sistemas de especificações e produtos da área de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da CSN, relata que naquele momento a companhia trabalhava com pesquisas relacionadas à adição, ao aço elétrico, de elementos químicos como silício, fósforo e alumínio para obter uma melhoria das propriedades magnéticas. A aproximação entre IPT e CSN ocorreu em 1994, quando pesquisadores do instituto tentaram agrupar siderúrgicas, estamparias, fabricantes de motores em um consórcio tecnológico. O grupo não se concretizou, mas a CSN se interessou pelas pesquisas e iniciou um intercâmbio. A parceria foi viabilizada com um projeto do programa Pite lançado pela FAPESP em 1994, para financiar projetos desenvolvidos em conjunto por instituições de pesquisas e empresas. Naquele momento, a equipe do IPT já sabia que o controle da orientação dos cristais é importante na produção do aço elétrico GNO e também que algumas impurezas, como cristais excessivamente pequenos, atrapalham as propriedades

magnéticas do aço. “Até então, a CSN dedicava-se ao aperfeiçoamento químico do aço elétrico e buscava relacionar a microestrutura do metal e o controle das impurezas às perdas magnéticas. Nossos estudos ajudaram a empresa a rever seus processos de produção”, conta Landgraf. Os ajustes no processo produtivo, segundo Nilza Zwirman, capacitaram a CSN a produzir um aço com perdas elétricas 30% inferiores em relação à linha de produtos até então disponíveis no catálogo da empresa. Nilza conta que o desenvolvimento da linha de aços elétricos de média eficiência possibilitou à CSN estar em sintonia com uma tendência de mercado que se tornou bastante relevante nos últimos anos, a de equipamentos elétricos referendados pela Etiqueta Nacional de Conservação de Energia, concedida pelo Inmetro, e pelo Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel). O contrato entre o IPT e a CSN foi um dos primeiros assinados no âmbito do programa Pite. “O Pite foi muito importante, sem compartilhar os custos da inovação, dificilmente a pesquisa teria seguido adiante”, afirma Landgraf. Os trabalhos conjuntos do IPT com a CSN consumiram quase quatro anos. Desde então, a empresa já produziu mais de 500 mil toneladas de aços elétricos, abastecendo principalmente o mercado interno. Para Nilza, a parceria vai além do investimento financeiro no projeto. “Foi uma oportunidade importante de compartilhar competências”, diz. A CSN, segundo Nilza, colaborou ao abrir seu parque fabril siderúrgico e sua experiência na produção de aço, e o IPT, com seu conteúdo técnico, laboratórios e conexão com outras instituições. O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) contribuiu com o conhecimento de como medir a distribuição de orientação dos cristais e o Centro de Caracterização e Desenvolvimento de Materiais (CCDM), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), colaborou na área de microscopia eletrônica de transmissão da estrutura do aço. n

Projeto Desenvolvimento de aços elétricos (nº 1995/03988-7); Modalidade Programa Pesquisa em Parceria para a Inovação Tecnológica (Pite); Pesquisador responsável Fernando Landgraf (IPT); Investimento R$ 137.096,77 (Fapesp) e R$ 154.500,00 (CSN).

pESQUISA FAPESP 251  z  77


Engenharia de segurança y

Arco da sobrevivência Laboratório montado na USP vai testar equipamentos de proteção individual e colaborar na pesquisa de acidentes elétricos Evanildo da Silveira

A

cidentes com eletricidade, al­guns fatais, são comuns em empresas concessionárias de energia elétrica no Brasil. Segundo informações do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp), morrem cerca de 70 profissionais desse setor por ano. Um número que deve aumentar se forem considerados trabalhadores de outros setores industriais. O uso de soluções de engenharia de segurança é o meio de reduzir esses incidentes, mas, quando todos os recursos técnicos se esgotam, o trabalhador fica exposto a condições de risco. Nessa situação são necessários os equipamentos de proteção individual (EPI) específicos para o setor elétrico. O problema é como saber se as roupas com tecidos próprios para funcionar como isolantes, luvas e protetores faciais resistentes ao calor são mesmo capazes de proteger seus usuários, principalmente nas proximidades de equipamentos que funcionam com alta potência elétrica. O Brasil tem leis recentes e específicas que tratam dessas questões e no final de 2016 completou-se a lacuna que faltava, um laboratório independente para testes 78  z  janeiro DE 2017

de EPIs. A partir deste ano, esses testes podem ser realizados no Laboratório de Ensaios de Vestimentas (LEVe) do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP). Para se adequarem às leis, os EPIs que protegem contra acidentes com eletricidade eram levados para teste em instituições do exterior. O LEVe foi credenciado pelo Ministério do Trabalho em agosto de 2016 e passará por auditoria do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) em abril deste ano para ser incorporado à Rede Brasileira de Laboratórios de Ensaios (RBLE). Apenas instituições do Canadá, da Espanha e da Suíça têm laboratórios como o LEVe. “Na China, há um laboratório semelhante, mas ainda não temos informações disponíveis”, conta o tecnólogo Márcio Bottaro, do IEE, coordenador técnico do projeto do LEVe. O arco elétrico se dá, por exemplo, quando condutores elétricos unidos (como placas ou eletrodos metálicos), pelos quais passa uma corrente elétrica de alguns milhares de amperes, são gradativamente separados. No ar, entre eles, surge um clarão formado pelo

plasma resultante da separação dos condutores energizados. “O fenômeno acontece quando, mesmo separados, esses condutores transmitem corrente elétrica por meio do plasma. A passagem de eletricidade somente irá cessar quando houver uma grande distância entre as placas ou com a diminuição ou interrupção da corrente elétrica.” Inversamente, quando dois condutores energizados são colocados em contato, pode ocorrer um arco elétrico descontrolado e imprevisto – normalmente chamado de curto-circuito. O plasma é um dos estados físicos da matéria e aquele produzido pelo arco, quando de alta potência e de forma controlada, pode ser utilizado para soldagem, corte de materiais ou em fornos para a produção de aço. Os arcos de baixa potência estão presentes em lâmpadas fluorescentes, flash de máquinas fotográficas e monitores de plasma, por exemplo. Já em um curto-circuito com arco elétrico, o plasma continua sustentando a condução de corrente e gera enorme quantidade de calor, derretendo o que está em volta. simulação de falhas

Em laboratórios como o LEVe ocorre a criação de um arco controlado. “Trata-se da simulação de uma falha em um sistema elétrico, como as que podem ocorrer nas plataformas e estações de petróleo da Petrobras, por exemplo”, diz Bottaro. “Elas resultam em acidentes, gerando altíssimos níveis de calor irradiado. O que fazemos é testar o poder de proteção de materiais e vestimentas contra essas altas temperaturas.” O dispositivo do LEVe tem uma corrente de 8 quiloamperes (kA) e uma potência da ordem de 3,6 megawatts (MW). O arco é controlado por um tempo muito curto, que varia de algumas dezenas de milissegundos até 2,2 segundos. Roupas, luvas, máscaras, protetores faciais e outros itens usados para a confecção de EPIs são testados a 30 centímetros do arco, onde o calor pode chegar a 500°C. “A Petrobras, o Seesp, o Ministério do Trabalho e as empresas fabricantes de


Teste de tecido usado em vestimenta de proteção individual contra curto-circuitos: o clarão branco é o arco elétrico, que libera grande quantidade de calor

rem no setor elétrico. “Isso é importante e estava limitado pelos custos de viagens ao exterior para tratar casos muito específicos”, afirma Teixeira. “Além disso, o LEVe tornará possível o desenvolvimento de novas tecnologias de proteção e a participação de pesquisadores brasileiros em comissões internacionais não apenas para acompanhar o que é feito nos ensaios, mas para contribuir com estudos.”

eduardo cesar

Sistema de ancoragem

EPI para o setor elétrico procuraram o IEE em 2011, mostrando a necessidade de um laboratório específico”, conta o tecnólogo. “Depois de várias visitas técnicas e reuniões, o projeto foi apresentado à Petrobras, que o aprovou em dezembro de 2013, com um investimento de R$ 1,44 milhão.” O vice-diretor do IEE, Ildo Luis Sauer, foi o coordenador acadêmico do projeto. Por meio de sua assessoria de imprensa, a Petrobras explicou que entre as razões de investir no projeto do LEVe está o fortalecimento da cadeia de suprimentos de vestimentas e acessórios de proteção contra acidentes elétricos. Informou ainda que a empresa faz, rotineiramente,

“a coleta de algumas vestimentas, já em utilização na companhia, enviando-as para ensaios que têm a função de avaliar se elas mantêm suas características de proteção, ao longo de sua vida útil, conforme asseguram os fornecedores”. O engenheiro eletricista e de segurança do trabalho José Teixeira, diretor do Seesp, conta que o sindicato decidiu participar porque o projeto tem como um de seus objetivos aumentar a proteção dos eletricistas no ambiente de trabalho. Além de atender um mercado de mais de 1.500 EPIs para prevenir acidentes com eletricidade registrados no Ministério do Trabalho, o laboratório será utilizado em estudos de acidentes que ocor-

Outro investimento importante realizado pela Petrobras por meio da Agência Nacional do Petróleo (ANP), junto com o governo estadual paulista, foi a implantação do Sistema de Ensaios de Elementos de Ancoragem (Seea) no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). O equipamento foi desenvolvido para realizar testes estáticos e dinâmicos de cabos poliméricos de ancoragem utilizados para interligar as plataformas de produção de petróleo e gás a amarras e âncoras posicionadas no fundo do mar. Em geral, as plataformas são equipadas com 24 cabos de ancoragem e operam em profundidades que podem atingir 2.400 metros ou mais. O Seea é um equipamento de 28 metros de comprimento com grandes atuadores, também chamados de pistões hidráulicos, capazes de simular os esforços incidentes sobre os cabos de amarração decorrentes da ação do mar nas plataformas. Os cabos de amarração devem resistir a esforços especificados em normas técnicas, de acordo com cada aplicação. A Petrobras adquire esses cabos de fabricantes especializados e faz diversos testes e avaliações de segurança para comprovar o atendimento às especificações técnicas e de segurança”, diz James Weiss, diretor do Centro de Tecnologia Mecânica Naval e Elétrica do IPT. Existem apenas dois laboratórios dotados de equipamentos semelhantes ao do IPT, um nos Estados Unidos e outro na Noruega. O Seea teve um investimento de R$ 15,7 milhões, sendo R$ 10,7 milhões da Petrobras e R$ 5 milhões do governo estadual. n pESQUISA FAPESP 251  z  79


MEDICINA y

Exame

A

inexistência de testes laboratoriais para o diagnóstico de transtornos psiquiátricos é um fator que retarda, em alguns casos, a detecção da enfermidade, comprometendo o tratamento do paciente. Tradicionalmente, o diagnóstico é obtido por meio de uma avaliação psiquiátrica, em que o médico reconhece os sinais e os sintomas relatados pelo paciente e os classifica como depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar ou de outra condição mental adversa. O sucesso dessa estratégia, subjetiva e sujeita a erros, depende em grande medida da experiência clínica do psiquiatra, da capacidade do paciente em reconhecer e expressar seus sintomas ou ainda do relato de familiares. Agora, um grupo de cientistas brasileiros avançou na tentativa de criar um exame laboratorial com o sangue do paciente para auxiliar o diagnóstico de esquizofrenia e transtorno bipolar, doenças psiquiátricas que, somadas, atingem 81 milhões de pessoas no planeta, segundo a Organiza80  z  janeiro DE 2017

Cientistas de São Paulo elaboram metodologia para diagnóstico de transtornos psiquiátricos graves

Yuri Vasconcelos

ção Mundial da Saúde (OMS). Até hoje, não existe nenhum teste para a identificação desses transtornos aprovado por autoridades da saúde, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o órgão correlato norte-americano Food and Drug Administration (FDA). O estudo foi liderado pela química Ljubica Tasic, professora do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (IQ-Unicamp), em colaboração com pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e resultou no depósito de uma patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A metodologia é baseada na análise do conjunto de metabólitos (compostos resultantes das reações enzimáticas do metabolismo) contidos na fração líquida do sangue, o soro. Mais de 2 mil metabólitos, entre lipídios, aminoácidos, proteínas, ácidos e compostos aromáticos, compõem o soro. “Um aspecto inovador do trabalho foi recorrer à metabolômica, uma plataforma recente que vem sendo aplicada em

eduardo cesar

mental


vários campos da medicina. No lugar de procurarmos alguns biomarcadores específicos associados a doenças psiquiátricas, analisamos um vasto conjunto de metabólitos presentes no sangue e fizemos um perfil metabolômico do paciente”, afirma a professora da Unifesp Elisa Brietzke, psiquiatra especializada em alterações metabólicas causadas por enfermidades mentais e uma das criadoras do método. “Recorremos a essa metodologia porque achamos ser improvável que apenas uma ou um pequeno grupo de substâncias no sangue possa identificar de forma confiável a presença de transtornos mentais complexos como a esquizofrenia e o transtorno bipolar.”

A estimativa é de 5 a 10 anos de pesquisa e aprimoramento para o teste de sangue chegar ao mercado

TÉCNICA COMBINADA

Cento e cinquenta voluntários participaram do estudo, sendo um terço deles pessoas saudáveis (o grupo-controle), um terço portadores de esquizofrenia e um terço, de transtorno bipolar – ou seja, os pesquisadores partiram de uma amostra bem caracterizada e definida de pessoas. Dessa forma, seria possível traçar o perfil metabolômico dos voluntários e associá-lo a cada um dos três grupos. A avaliação psiquiátrica dos voluntários foi feita pela equipe da Unifesp, coordenada por Elisa. Em seguida, amostras de sangue foram colhidas e preparadas para a análise pelo grupo de Mirian Akemi Hayashi, professora do Departamento de Farmacologia da Unifesp, e enviadas para a Unicamp. Para analisar o sangue dos voluntários e construir o perfil metabolômico, a equipe de Campinas associou a técnica de ressonância magnética nuclear de hidrogênio-1 (RMN de 1H) à quimiometria, uma abordagem estatística e matemática aplicada a problemas de origem química. Na RMN de 1H, após a aplicação de uma radiofrequência na amostra de sangue que se encontra sob efeito de um campo magnético homogêneo e forte, os átomos de hidrogênio de moléculas presentes no soro emitem sinais, a partir dos quais se obtém um espectro. “Esse espectro contém sinais dos átomos de hidrogênio de todas as moléculas presentes no soro sanguíneo cuja concentração permite a sua detecção”, explica

Ljubica. O passo seguinte foi recorrer à quimiometria para relacionar a qual metabólito correspondia o deslocamento químico que permitia separar os grupos analisados – o foco dos pesquisadores recaiu sobre aqueles que apresentaram maior alteração no perfil dos pacientes com esquizofrenia ou transtorno bipolar em relação aos das pessoas saudáveis. Essa etapa do trabalho teve a participação do químico Ronei Jesus Poppi, professor do IQ-Unicamp. Por fim, foram determinados os principais metabólitos alterados e identificou-se de qual grupo (saudáveis, esquizofrênicos ou com transtorno bipolar) a amostra de sangue testada pertencia. “O desenvolvimento dessa primeira fase do projeto foi concluída com êxito, uma vez que as análises planejadas foram finalizadas”, comenta Ljubica. “Podemos afirmar que, entre os três grupos dos indivíduos estudados, foram detectadas diferenças entre vários aminoácidos, compostos aromáticos, D-glicose, ácidos, creatina e cadeias alifáticas de

lipídios. Há alguns metabólitos que foram detectados em pacientes esquizofrênicos e outros somente em portadores de transtorno bipolar.” Apesar dos bons resultados obtidos, a pesquisadora alerta que o teste não está pronto para uso. “O desenvolvimento de um kit diagnóstico é a perspectiva futura dos nossos estudos. Os metabólitos-alvo para esquizofrenia e transtorno bipolar deverão ser ainda validados e quantificados por outras técnicas.” Para isso, Ljubica planeja propor métodos químicos ou bioquímicos para análise qualitativa e quantitativa e que possam ser usados num teste de fácil detecção. A pesquisadora estima que serão necessários de cinco a 10 anos de pesquisa e aprimoramento, com financiamento da iniciativa privada, para o teste chegar ao mercado. A Agência de Inovação Inova Unicamp já está trabalhando no licenciamento da tecnologia. Para o psiquiatra Luis Augusto Paim Rohde, professor do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), iniciativas como a do grupo de pesquisadores da Unicamp e Unifesp são bem-vindas e devem ser estimuladas. “A busca por marcadores biológicos para doenças psiquiátricas é extremamente importante”, diz ele. “Mas a pesquisa precisa ser colocada em perspectiva. Trata-se de um estudo com amostragens pequenas, divididas em pacientes portadores de casos graves com um grupo-controle com desenvolvimento típico. Precisamos de auxílio no diagnóstico diferencial de casos com sintomas complexos e que muitas vezes fazem parte de diferentes diagnósticos.” Segundo Rohde, único brasileiro a participar da versão mais recente do manual de diagnósticos psiquiátricos norte-americanos, o DSM-5, “a direção que está sendo seguida é excelente, mas os resultados são preliminares”. n

Projeto Ressonância magnética nuclear aplicada em análises metabolômicas de pacientes e em modelos animais para os transtornos mentais graves (nº 2014/18938-8); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Ljubica Tasic (IQ-Unicamp); Investimento R$ 134.263,02 e US$ 79.664,23.

pESQUISA FAPESP 251  z  81


humanidades   Música y

Os sons de um Q

Na partitura da peça Treatise, Cornelius Cardew fez indicações genéricas (nestas e nas próximas páginas), para os músicos criarem suas próprias interpretações

82  z  janeiro DE 2017

uem circula pelas universidades pode ter ouvido apresentações únicas, incomuns nos palcos tradicionais das cidades brasileiras. É a improvisação livre, um tipo de música experimental que surgiu há cerca de 50 anos nos Estados Unidos e na Europa e tem sido estudada e praticada por grupos brasileiros. Um sinal recente do interesse nessa área foi o lançamento do livro Música errante – O jogo da improvisação livre (Editora Perspectiva, 2016), em novembro de 2016, com uma síntese de 25 anos das pesquisas de Rogério Costa, saxofonista e professor do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Fortalecida com as renovações conceituais de músicos e teóricos como John Cage (1912-1992), nos Estados Unidos, Cornelius Cardew (1936-1981) e Derek Bailey (1930-2005), na Inglaterra, a improvisação livre derivou da hoje chamada improvisação idiomática – estratégia de produção musical que permite certa liberdade ao músico, valoriza a harmonia e a melodia e segue estilos previamente definidos, como o jazz e o choro –, mas é ainda mais desregrada.


Improvisação livre valoriza a criatividade dos intérpretes, é mais estudada e ganha espaço para apresentações Carlos Fioravanti

fotos  eduardo cesar  ilustraçãO reprodução de partitura de cornelius cardew

quase caos A improvisação livre desfaz a tradicional separação entre intérprete e criador das obras e abdica de roteiros preestabelecidos e referenciais clássicos da composição e interpretação como a melodia e a harmonia. Também dilui a hierarquia, já que qualquer músico de um grupo pode começar a tocar, e faz do tempo algo flexível, porque a própria música tem a duração que seus intérpretes desejarem. E, por fim, explora as propriedades do som em vez de centrar-se na nota musical com intensidade e duração previamente definidas. “Os ensaios são momentos de criatividade coletiva, cada um se colocando de modo pessoal, mas também buscando o equilíbrio com os outros músicos”, diz Costa. Quando seus pESQUISA FAPESP 251  z  83


alunos da USP perguntam o que devem tocar, sua resposta é simples: qualquer som. E quem começa? Também é simples: “Começa quem achar que pode começar”, ele recomenda. “O que interessa é construir um fluxo sonoro consistente e buscar soluções novas. A improvisação livre se opõe à repetição.” O resultado dessa estratégia, portanto, são obras apresentadas uma única vez, que não poderão ser reproduzidas por outros músicos porque nascem e morrem no momento em que são executadas. SAX, VIOLINO E COMPUTADOR

Costa coordena a Orquestra Errante, formada por 13 estudantes, que fez seis apresentações em 2016, incluindo duas no Centro Cultural São Paulo. Seu grupo anterior, o Akronon, valorizava a música eletrônica. Sílvio Ferraz, seu ex-orientador de doutorado, também da ECA-USP, pilotava um computador com um programa chamado Pure Data que recebia os sons do sax ou da flauta produzidos por Costa e do violino de Edson Ezequiel, o outro integrante do grupo, e os devolvia de imediato, transformados eletronicamente, enquanto os dois músicos continuavam a tocar. Para mostrar as possibilidades de uso da computação na improvisação livre, Costa fez um dueto com ele mesmo no estúdio de sua casa, próxima à USP. Ele se pôs a tocar seu sax e, segundos depois, 84  z  janeiro DE 2017

começou a apertar com o pé os pedais conectados a um computador com o Pure Data e a uma caixa acústica que incorporava e reproduzia com efeitos trechos do que ele estava tocando. Parece uma orquestra, mas se vê apenas um músico (ouça pelo site www.revistapesquisa.fapesp.br). No livro, Costa sintetiza seus estudos sobre esse modo de fazer música: “A livre improvisação só é possível no contexto de uma busca de superação do idiomático, do sistematizado, do controlado, do previsível, do estático, do identificado, do hierarquizado”, ele escreveu. No prefácio, Sílvio Ferraz comentou: “O ambiente da livre improvisação ‘é como a vida’, nele os corpos sonoros se cruzam e não há função privilegiada. Ninguém é acompanhamento, ninguém é voz principal, ninguém é imprescindível e todos são imprescindíveis”. Segundo Ferraz, há espaço para opostos, porque tanto vale “alguém parar de tocar” quanto “alguém tocar sem parar”. Um bom exemplo de obra única resultante de improvisação livre foi a execução de Treatise, peça de três horas de duração apresentada pelo professor de música Manuel Falleiros e seus alunos para um público de cerca de 150 pessoas em uma sala de concertos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) na noite de 9 de junho de 2016. Na partitura de 193 páginas, Cardew, o autor da obra, fez indicações gerais, em vez das

fotos 1 Patrícia Santos / Folhapress 2 Bogaerts, Rob / Anefo  ilustraçãO reprodução de partitura de cornelius cardew

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O multi-instrumentista Hermeto Pascoal, um dos expoentes da improvisação no Brasil


habituais instruções precisas de execução, para que os músicos se sentissem à vontade para criar suas próprias interpretações. “Ensaiamos apenas as possibilidades de interação entre os músicos, porque o resultado na improvisação livre é imprevisível, como em um jogo. A música é criada na hora, a partir de decisões tomadas momento a momento”, diz Falleiros, supervisor da Escola Essa estratégia Livre de Música da Unicamp. Por criativa tem saber que nem sempre é simples sair das regras e entrar nesse quasido útil se caos, ele propõe vários exercícios para seus alunos: “Em um dos no ensino do exercícios, eu peço: ‘Vamos tocar algo como o fogo’. Alguns exploviolão e de outros ram musicalmente a ideia de calor, instrumentos outros o crepitar da lenha. Saem coisas muito bonitas”. VIOLÃO COM LIBERDADE

Sob orientação de Costa, o violonista André Campos Machado concluiu em 2014 seu doutorado na USP sobre o uso dessa estratégia no ensino de violão e outros instrumentos de cordas dedilhadas. Professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais,

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ele pretende em 2017 colocar em prática seus roteiros para improvisação livre – desenvolvidos no doutorado e publicados pela editora da UFU – com os alunos dos conservatórios estaduais de música das cidades mineiras de Ituiutaba, Araguari, Uberaba e Uberlândia. “A improvisação livre é uma excelente ferramenta pedagógica para a iniciação em qualquer instrumento musical, mas precisa ser mais divulgada”, diz Machado. Talvez essa abordagem possa reduzir as agruras dos próprios músicos. “Comecei a estudar violão aos 7 anos, tive de seguir o método clássico, aprender a segurar o instrumento, tocar as notas e depois os solfejos, e nunca me disseram para ser criativo e experimentar minha própria música”, lembrou-se Costa. A improvisação livre, embora mais frequente em espaços abertos à música experimental, já conta com representantes conhecidos do grande público. O percussionista pernambucano Naná Vasconcelos (1944-2016) e os multi-instrumentistas como o alagoano Hermeto Pascoal, o fluminense Egberto Gismonti, o baiano Sivuca (1930-2006) e o paulista Paulo Moura (1932-2010) exercitaram e exercitam a liberdade total em seus espetáculos, embora apegados a estilos musicais. As apresentações que correm ao largo de conceitos clássicos do mundo da música deixam o público ora satisfeito, ora incomodado. Aos poucos, porém, ganham espaço em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Essa forma de produção de música experimental continua em construção, a começar por sua própria definição. Em um congresso de música realizado em 2013 em Natal, Rio Grande do Norte, Falleiros, da Unicamp, propôs o uso do termo hiperimprovisação. “Se chamar apenas de improvisação livre, os alunos associam com a música de protesto da década de 1970 e tentam reproduzi-la”, argumenta. “Mas essa atitude é o oposto da improvisação livre, que se propõe a fugir das regras, dos modismos e da estagnação dos estilos.” Segundo ele, quem faz improvisação livre tem de ter coragem para se arriscar em novas estruturas criativas, sem medo de se perder. n

Projeto A improvisação musical e suas conexões (nº 2011/07678-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Rogério Luiz Moraes Costa (ECA-USP); Investimento R$ 23.587,12.

Livro John Cage (1912-1992): músico renovador

COSTA, R. L. M. Música errante: O jogo da improvisação livre. São Paulo: Perspectiva, 2016, 280 p.

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Economia y

Cooperativas contra a crise A união de trabalhadores para assumir o controle de empresas falidas é investigada em projetos de pesquisa

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as últimas quatro décadas, sucessivas crises econômicas levaram milhares de empresas a fechar as portas. Para preservar seu trabalho, muitos empregados fundaram cooperativas e assumiram o controle das fábricas falidas, de modo a mantê-las em atividade. Em maio de 2016, por exemplo, operários ocuparam a Karmann Ghia, em São Bernardo do Campo (SP), e procuram reerguer a companhia. Eles não são os únicos a trilhar esse caminho: segundo o Ministério do Trabalho, em 2014 foram criadas 324 cooperativas no país; em 2015, esse total subiu para 444. As tentativas de encontrar uma saída coletiva para as dificuldades econômicas nasceram à margem do Estado. De acordo com Jacob Carlos Lima, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisador das áreas de sociologia do trabalho e sociologia econômica, foi assim com as cooperativas agrícolas dos 86  z  janeiro DE 2017

sem-terra, nos anos 1980; com o movimento de recuperação de fábricas, nos anos 1990; ou com as associações dos catadores de material reciclável, nessa mesma década. A princípio elas tiveram o apoio de órgãos da Igreja Católica (como a Comissão Pastoral da Terra e a Cáritas), sindicatos e organizações não governamentais. Só começaram a ter o respaldo do Estado em 2003, quando foi criada a Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), no Ministério do Trabalho, conta Lima. Mais recentemente, em 2012, foi instituído o programa de fomento às cooperativas de trabalho. O pesquisador explica que “as cooperativas sempre estiveram presentes nos momentos de crise”, mas hoje “elas se tornaram, efetivamente, uma política social para ocupar as pessoas, inseri-las no mercado, gerar renda”. Diversas categorias profissionais se beneficiam dessas associações. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), no último

levantamento realizado sobre essa questão, de 2009 a 2013 foram identificados em todo o Brasil 19.708 empreendimentos geridos pelos próprios trabalhadores, que congregavam 1.423.631 pessoas, entre as quais agricultores, artesãos, artistas, catadores, garimpeiros e profissionais liberais. As cooperativas podem ser divididas em três grandes blocos, defende o sociólogo Luiz Inácio Gaiger, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em artigo publicado em 2013 na Revista Brasileira de Ciências Sociais, “A economia solidária e a revitalização do paradigma cooperativo”: as organizações genuínas de trabalhadores ou consumidores, que funcionam por meio de instâncias coletivas e paritárias de decisão; as cooperativas empresariais, nas quais os sócios são proprietários que se associam para elevar sua produtividade ou para reforçar sua posição no mercado; e as cooperativas de fachada, que usam o marco legal das cooperativas para in-

ilustrações  nelson provazi

Mauricio Puls


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termediar a oferta de mão de obra barata. E, dentro de cada bloco, esclarece Gaiger em seu artigo, existem enormes contrastes: as cooperativas das fábricas recuperadas, organizadas por ex-assalariados sindicalizados, são muito diferentes das chamadas cooperativas populares de costureiras ou catadores de material reciclável, ou aquelas formadas por trabalhadores rurais.

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mbora as distinções sejam em tese relativamente claras, as cooperativas às vezes deslizam de uma categoria a outra. Dificuldades no escoamento dos produtos podem induzir uma cooperativa de trabalhadores a virar uma organização de fachada, que fornece mão de obra barata para outra empresa. Isso já ocorreu com associações de costureiras que passaram a trabalhar para confecções. Na maior parte desses casos, contudo, é a própria empresa que cria uma cooperativa para terceirizar parte de sua força de trabalho, evitando uma série de encargos e responsabilidades determinados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). “A cooperativa é muito interessante para a empresa porque ela se livra dos problemas com a gestão da mão de obra”, ressalta Jacob Lima. Professora adjunta do Departamento de Sociologia da UFSCar, Aline Suelen Pires publicou recentemente o livro As fábricas recuperadas no Brasil – O desafio da autogestão (EdUFSCar), no qual faz um estudo de nove fábricas brasileiras recuperadas por seus operários e compara essas iniciativas com experiências na Argentina. A socióloga mostra em seu trabalho que os obstáculos para salvar uma companhia que já teve sua falência decretada são imensos: em geral elas operam com máquinas obsoletas e estão muito endividadas, os processos judiciais para conquistar o controle da empresa são demorados, e o esforço para reinserir a empresa no mercado e geri-la em regime de autogestão nem sempre obtém êxito. Essas dificuldades também ficam claras na tese “Empresas recuperadas por trabalhadores no Brasil e na Argentina”, de Flávio Chedid Henriques, defendida em 2013 no Programa de Pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O Grupo de Pesquisa em Empresas Recuperadas por Trabalhadores (GPERT), do qual faz parte, listou 67 88  z  janeiro DE 2017

Os obstáculos para salvar uma companhia que já teve sua falência decretada são imensos

empresas recuperadas por trabalhadores em atividade e outras 78 que já haviam desaparecido, seja porque foram vendidas pelos sócios, seja porque fecharam de vez. Henriques explicou à Pesquisa FAPESP que esses dados em nenhuma hipótese indicam um fracasso dos processos de recuperação, já que “muitos desses 78 casos preservaram por um tempo inesperado os postos de trabalho”. Em algumas firmas as falências decorreram da simples obsolescência do produto, como sucedeu com a Facit e a Remington, fabricantes de máquinas de escrever. “Em outros casos, o fechamento das indústrias resultou sobretudo da abertura do mercado nacional à concorrência estrangeira, fato que não afetou só as cooperativas.” O Brasil inteiro passou por um acentuado processo de desindustrialização: de 1986 a 1998, o peso da indústria de transformação no PIB caiu de 32,1% para 19,7%, de acordo com o estudo “Ocorreu uma desindustrialização no Brasil?”, publicado no site do Instituto de Estudos para o De-

senvolvimento Industrial (Iedi), sediado em São Paulo. O trabalho é assinado pelos economistas Carmem Aparecida Feijó, professora do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Federal Fluminense, Júlio Sérgio Gomes de Almeida, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-Unicamp), e Paulo Gonzaga de Carvalho, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Uma das empresas fechadas foi a Makerli, grande fabricante de calçados de Franca (SP). Fragilizada pela abertura do mercado e depreciação da moeda brasileira após o Plano Collor, a fábrica anunciou o fechamento em 1991. Com o apoio do Sindicato dos Sapateiros de Franca e do Dieese, os operários assumiram a companhia em 1992, mas não conseguiram renovar os empréstimos bancários, encerrando as atividades em 1995. Em outros casos, porém, as recuperações foram bem-sucedidas. Os trabalhadores que ocuparam a Cooperminas em Criciúma (SC) enfrentaram a polícia e um


A simples participação dos sócios nas decisões tem um impacto profundo no ambiente de trabalho

processo judicial que demorou 10 anos (de 1987 a 1997). Desde então, a empresa modernizou as instalações, elevou os salários, reduziu a jornada de trabalho para 30 horas semanais e investiu em preservação ambiental. Apesar das dificuldades de administrar uma empresa por meio da autogestão, Henriques ressalta que, além da redução de diferenças salariais entre várias funções, nas cooperativas existem “maior espaço para tomada de decisões coletivas sobre questões estratégicas das empresas; rodízios de funções; menor número de acidentes, em geral relacionados à possibilidade dos trabalhadores definirem seus ritmos de trabalho; mudanças de layout nas empresas, aproximando o setor administrativo do setor de produção; e mudança da relação da empresa com a comunidade do entorno”. Ele ressalta que se baseia na pesquisa realizada com casos do Brasil e da Argentina. Para o economista Paul Singer, que organizou a Secretaria Nacional de Economia Solidária em 2003 e a dirigiu até 2016, as cooperativas constituem o embrião de um modo de produção caracterizado pela igualdade: “A economia solidária é totalmente democrática porque ninguém manda nas cooperativas”, disse Singer à Pesquisa FAPESP. O economista, que organizou o livro A economia solidária no Brasil: Autogestão como resposta ao desemprego, em parceria com

o sociólogo André Ricardo de Souza, do Núcleo Multidisciplinar e Integrado de Economia Solidária da UFSCar, explica que, quando as empresas são pequenas, não existem distinções significativas entre os funcionários, e nelas as decisões são tomadas pelos cooperados em assembleias. Quando as companhias se tornam maiores, os cargos de direção precisam ser ocupados por representantes eleitos, que se encarregam da administração diária.

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simples participação dos sócios nas decisões já tem um impacto profundo no ambiente de trabalho, nota o economista Henrique Tahan Novaes, autor de O fetiche da tecnologia: A experiência das fábricas recuperadas (Expressão Popular). Docente da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Marília, Novaes diz que “os trabalhadores das empresas recuperadas promovem várias modificações na tecnologia e nos processos decisórios e de trabalho”, além de alterarem de forma significativa os critérios de remuneração e de uso do excedente. Mas o pesquisador lembra que essas empresas estão inseridas no mercado capitalista, que impõe restrições à adoção de uma organização paritária e democrática. A Cooperminas, por exemplo, foi obrigada a limitar o número de cooperados: hoje ela tem 400 sócios e 400 assalaria-

dos. Não pode aceitar mais cooperados porque já prevê o esgotamento de uma mina e precisa ajustar sua força de trabalho a essa futura redução. Além disso, a direção da empresa observa que o grande número de sócios dificulta a tomada de decisões. Outra grande dificuldade é conscientizar os sócios de que todos são responsáveis pelos resultados da empresa. Segundo Jacob Lima, um dos pesquisadores principais do projeto temático “Contradições do trabalho no Brasil atual: Formalização, precariedade, terceirização e regulação”, preservar o ideal de buscar a autogestão operária numa empresa que depende do mercado é uma tarefa difícil. “Não dá para ficar aumentando salário, tem que impor disciplina, porque não se consegue fazer a fábrica funcionar sem disciplina. Algumas que fecharam foram por aí: como as pessoas pensavam que eram donas, todos achavam que podiam fazer o que queriam.” Paradoxalmente, o sucesso do empreendimento também cria problemas. Se a companhia começa a se expandir ela precisa, pelo menos em tese, incorporar novos sócios para dar conta das encomendas. Mas nem todos os profissionais querem se tornar cooperados, porque para isso teriam de desistir de alguns direitos trabalhistas, como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Singer ressalta esse fato: “Um empregado com carteira assinada está a salvo, ele pESQUISA FAPESP 251  z  89


Cerca de 1,5 milhão de pessoas se beneficiam das cooperativas no Brasil, segundo o Ministério do Trabalho

tem direitos adquiridos aconteça o que acontecer com a empresa; se a empresa quebrar, ele será um dos primeiros a receber”. Por isso, diz, algumas pessoas rejeitam o cooperativismo. “Por exemplo, a cooperativa convida um engenheiro para ser sócio, mas ele quer continuar como empregado. O cooperado manda na cooperativa, mas prefere a segurança da legislação trabalhista.” “Se a cooperativa é um sucesso, em geral ela tem dificuldade em continuar sendo cooperativa em função desse sucesso”, afirma Jacob Lima. O pesquisador menciona o caso da Uniforja, em Diadema (SP): “Havia a pretensão de transformar todos em cooperativados. Quando há uma grande encomenda basta contratar trabalhadores. Com a redução da produção, é fácil demitir trabalhadores assalariados, mas não dá para colocar sócio para fora”. Ele cita as cooperativas do Complexo Cooperativo de Mondragón, no País Basco, região da Espanha que funciona como uma multinacional. As empresas do complexo se internacionalizaram, mas não como cooperativas”, uma delas, de grande sucesso internacional, fabrica carrocerias de ônibus (no Brasil inclusive), mas saiu do Complexo Cooperativo. Flávio Chedid Henriques discorda, argumentando que as empresas podem se expandir mesmo sem contratar assalariados. Segundo ele, levantamento feito em 2013 apontou que em 60% das empresas recuperadas no país não havia mais do que 10 assalariados. Na Argentina, por exemplo, a contratação de empregados 90  z  janeiro DE 2017

por cooperativas é proibida, com exceção dos casos de estágio probatório. E, nesse país, o número de empresas recuperadas por trabalhadores é muito maior: 295 em funcionamento, diante de 67 no Brasil, e 50 no Uruguai, segundo dados levantados por Henrique Tahan Novaes.

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xiste hoje dentro das universidades um debate sobre a natureza das cooperativas. Para alguns teóricos, como Paul Singer, elas abrem caminho para uma sociedade mais democrática e igualitária. Para outros, como o sociólogo Ginez Leopoldo Rodrigues de Campos, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, elas são apenas uma forma de inclusão social precária que fragiliza os trabalhadores. Em 2006, a tese de doutorado de Campos defendida na Universidade Federal de Santa Catarina foi sobre esse tema: “Trabalho precário, terceirização e cooperativas de trabalho: Quando ‘estar juntos’ se torna uma forma coletiva e precária de inclusão social”. Para Aline Pires, mesmo com limitações, as cooperativas, no caso das fábricas recuperadas, permitiram a manutenção de postos de trabalho e, em geral, a adoção de práticas de gestão mais inclusivas e democráticas. No caso das cooperativas populares, de acordo com a pesquisadora, elas aumentaram a renda de categorias sociais que estavam excluídas do mercado. Segundo dados do Ministério do Trabalho, cerca de 1,5 milhão de pessoas se beneficiam dessas associações. n

Projetos 1. Contradições do trabalho no Brasil atual: Formalização, precariedade, terceirização e regulação (nº 2012/204081); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisadora responsável Marcia de Paula Leite (FE-Unicamp); Investimento R$ 967.823,39. 2. Fábricas recuperadas e os trabalhadores: A autogestão entre a teoria e a prática (nº 2009/54878-1); Modalidade Bolsa no País – Doutorado; Pesquisador responsável Jacob Carlos Lima (CECH-UFSCar); Beneficiária Aline Suelen Pires; Investimento R$ 157.846,70.

Artigos científicos Lima, J. C. Economia solidária: De movimento social a política pública. In: Leite, M. P.; Araújo, A. M. C.; Lima, J. C. O trabalho na economia solidária: Entre precariedade e emancipação. São Paulo: Annablume, 2014, 402 p. Lima, J. C. O trabalho autogestionário em cooperativas de produção: O paradigma revisitado. São Paulo: Revista Brasileira de Ciências Sociais, 2004, v. 19, n. 56. out/2004, p. 45-62. Lima, J. C. Paradoxos do trabalho associado. São Paulo: Tempo Social, revista de sociologia da USP, 2009, v. 21, n. 1, p. 113-32. GAIGER, Luiz Inácio. A economia solidária e a revitalização do paradigma cooperativo. São Paulo: Revista Brasileira de Ciências Sociais, 2013, v. 28, p. 211-28. Singer, P. A Economia solidária no governo federal. Ipea, 2004. www.en.ipea.gov.br/agencia/images/stories/ PDFs/mercadodetrabalho/mt_24c.pdf. Feijó, C. A; Carvalho, P. G; Almeida, J. S. G. (2005). “Ocorreu uma desindustrialização no Brasil?”. São Paulo: Iedi, 2005, mimeo. www.iedi.org.br/admin_ori/ pdf/20051129_desindustrializacao.pdf.

Livros PIRES, A. S. As fábricas recuperadas no Brasil: O desafio da autogestão. São Carlos: EdUFSCar / FAPESP, 2016, 241 p. NOVAES, H. T. O fetiche da tecnologia – A experiência das fábricas recuperadas. São Paulo: Expressão Popular / FAPESP, 2007, 351 p. SOUZA, André Ricardo de; SINGER, Paul (org.). A economia solidária no Brasil: A autogestão como resposta ao desemprego. São Paulo: Contexto, 2003, v. 1, 360 p. LIMA, J. C. As artimanhas da flexibilização: O trabalho terceirizado em cooperativas de produção. São Paulo: Terceiramargem, 2002, 160 p.


carreiras Mapa genômico dos 2,7 milhões de pares de bases do cromossomo da X. fastidiosa

Impulso à ciência brasileira Uma geração de jovens pesquisadores se qualificou ao participar do projeto de sequenciamento do genoma da bactéria Xylella fastidiosa, iniciado há 20 anos

foto  fundecitrus

Rodrigo de Oliveira Andrade

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a manhã do dia 1º de maio de 1997, o físico José Fernando Perez, então diretor científico da FAPESP, recebeu um telefonema do biólogo Fernando Reinach, à época professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP). Desde o ano anterior eles discutiam novas formas de investir na qualificação científica dos pesquisadores brasileiros na área de genética molecular, considerada central para o domínio da biotecnologia. Da longa conversa entre os dois nasceu o que se tornou o primeiro projeto de sequenciamento de um genoma no Brasil, o da Xylella fastidiosa, bactéria causadora da clorose variegada dos citros (CVC), uma das piores pragas dos laranjais de São Paulo. Lançado em 14 de outubro daquele ano, o projeto envolveu 35 laboratórios e 191 pesquisadores de várias instituições do estado e de diferentes disciplinas, integrados virtualmente pela Rede de Organização para o Sequenciamento e Análise de Nucleotídeos (Onsa, em inglês). Além de inaugurar a pesquisa em genética molecular, o sequenciamento do primeiro fitopatógeno de planta no mundo representou PESQUISA FAPESP 251 | 91


Capa da edição da revista Nature, que considerou o sequenciamento do fitopatógeno um marco da biociência brasileira. Ao lado, inseto transmissor da bactéria

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uma nova forma de se fazer ciência no Brasil, contribuindo para a formação e qualificação de uma geração de jovens cientistas. Muitos usaram o conhecimento e a experiência adquiridos para abrir suas próprias empresas. Outros mudaram o foco de suas pesquisas, formaram novas redes de colaboração científica e avançaram em suas carreiras dentro e fora da universidade. O mapeamento do genoma da Xylella ampliou as perspectivas de pesquisa em genética no Brasil. Outros sequenciamentos foram feitos a partir de então, como o projeto Genoma Cana, concluído em novembro de 2000, com o objetivo de sequenciar partes escolhidas do DNA da cana-de-açúcar e identificar genes com características de interesse econômico. Quase ao mesmo tempo surgiram os projetos Genoma Câncer, finalizado em março de 2002, e de sequenciamento do código genético da bactéria Xanthomonas citri, causadora do cancro cítrico, concluído em agosto de 2001. Esses empreendimentos científicos ajudaram a capacitar pesquisadores e a melhorar a infraestrutura dos principais laboratórios de São Paulo, acelerando o desenvolvimento da biologia molecular no Brasil. A experiência adquirida ao participar do projeto e o promissor mercado de produtos e soluções biotecnológicas também 92 | janeiro DE 2017

incentivaram vários pesquisadores a se lançar como empreendedores. Em 2002, dois anos após a conclusão do sequenciamento, o cientista da computação João Paulo Kitajima deixou o Laboratório de Bioinformática (LBI) no Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (IC-Unicamp), onde trabalhava, para fundar, com outros integrantes do projeto, a Alellyx, empresa de pesquisa e desenvolvimento de produtos de biotecnologia voltada à geração e comercialização de patentes em genômica aplicada (ver Pesquisa FAPESP nº 74). Kitajima se juntou à equipe de bioinformática logo após o início do projeto genoma da Xylella. “Comecei como analista de bioinformática no LBI ao lado dos bioinformatas

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João Meidanis e João Carlos Setubal. Então passei a ajudar na coordenação da parte de bioinformática do projeto, sendo o terceiro ‘João’ da liderança”, conta. À época, diante da necessidade de comunicação rápida entre os laboratórios envolvidos, a direção do projeto optou pela criação de uma rede virtual, com coordenação central, fisicamente espalhada pelos centros de pesquisa do estado de São Paulo. Lançada em dezembro de 1997, a rede Onsa interligou os laboratórios, estabelecendo vínculos entre pesquisadores e possibilitando o desenvolvimento de protocolos genéticos, troca de informações, resolução de problemas, adaptação e ajuste de técnicas. A rede contava com um sistema de bioinformática para que os pesquisadores pudessem incorporar

Ana Claúdia Rasera, João Kitajima, Jesus Ferro, Paulo Arruda e João Setúbal durante lançamento da empresa de biotecnologia Alellyx, em 2002


fotos 1 fundecitrus  2 eduardo cesar  3, 4 e 5 adri felden / ag. argos

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informações resultantes do sequenciamento do material genético da bactéria. Coube a Setubal, Meidanis e Kitajima garantir a manutenção do fluxo de informações. “Éramos responsáveis por receber os dados de sequenciamento produzidos pelos laboratórios e processá-los computacionalmente de forma a gerar um genoma completo”, conta Setúbal. “Não sabíamos se os grupos teriam acesso à banda de internet suficiente para nos enviar todas as informações genômicas”, relembra Meidanis, que entrou em contato com a bioinformática em seu doutorado na Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, em 1989. “Na Alellyx tive a oportunidade de coordenar a pesquisa aplicada e me especializar na área de processos regulatórios de organismos transgênicos”, conta o biólogo Jesus Aparecido Ferro, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Jaboticabal e um dos fundadores da empresa. Ferro também foi um dos coordenadores do programa Genoma Funcional da Xylella, lançado em junho de 1999. O projeto tinha o propósito de investigar a função dos genes identificados ao longo do sequenciamento e, assim, compreender como a Xylella desencadeava a CVC. Em 2008 a Alellyx foi vendida junto com a empresa CanaVialis para a multinacional Monsanto por US$ 290 milhões (o equivalente hoje a R$ 980 milhões). “Em 2009 fui para a área da saúde humana”, conta Kitajima. “Trabalhei como

Cerimônia de entrega da Medalha Paulista de Mérito Científico e Tecnológico, concedida pelo governo do estado de São Paulo, aos 191 pesquisadores envolvidos no projeto genoma

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Ex-governador de São Paulo Mário Covas condecora o bioquímico Andrew Simpson (à esq.) por sua liderança na coordenação do projeto

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bioinformata no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein até 2011.” Mais recentemente, ele e outros sócios fundaram a Mendelics Análise Genômica, empresa de diagnósticos genômicos personalizados. Para Meidanis, o projeto marcou uma grande mudança em sua vida. “Tornei-me um híbrido entre acadêmico e diretor de empresa”, diz. Hoje ele divide seu tempo entre o cargo de professor na Unicamp e o de empresário na Scylla Bioinformática, empresa de softwares para o desenvolvimento da genômica e proteômica que fundou. Projeto ambicioso

O projeto genoma da Xylella foi lançado em um período de forte incidência de pesquisas no campo da

biologia molecular. No entanto, essa ciência engatinhava no Brasil. “Perez percebeu que a produção científica nesse campo crescia em outros países e que era preciso qualificar os pesquisadores brasileiros para que pudéssemos galgar uma posição de maior destaque no cenário científico internacional”, comenta Reinach em seu escritório no Fundo Pitanga, reunião de recursos de investidores interessados em empreendimentos de base tecnológica. A partir de então deu-se início a uma longa articulação científica em volta da elaboração do projeto. “Havia desconfiança por parte dos pesquisadores mais velhos”, ele conta. “Tratava-se de um projeto ambicioso, arriscado e que envolveria muito dinheiro”, diz o biólogo, que à época era um dos poucos pesquisadores brasileiros com PESQUISA FAPESP 251 | 93


Grupo de cientistas responsável pelo sequenciamento da Xylella recebido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (de terno claro), no Palácio da Alvorada

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experiência no campo da biologia molecular e do empreendedorismo científico, tendo sido fundador da primeira empresa a fazer testes de paternidade no país, a Genomic Engenharia Molecular. A escolha do microrganismo a ser sequenciado se deu semanas antes do lançamento do projeto. “O genoma tinha de ser suficientemente grande para envolver muitos pesquisadores e suficientemente pequeno para conseguirmos conclui-lo”, conta Perez, em sua sala na Recepta Biopharma, empresa de biotecnologia criada por ele em 2005 e voltada à pesquisa e ao desenvolvimento de compostos com potencial de combater o câncer. Naquele momento, o organismo que melhor preenchia esses pré-requisitos era o Thiobacillus ferrooxidans, usado em biomineração. Por sua vez, a Xylella era uma bactéria que nenhum grupo brasileiro havia conseguido cultivar. “Em setembro de 1997 o Fundo de Defesa da Citricultura [Fundecitrus] manifestou interesse em participar do projeto caso a Xylella fosse escolhida”, conta Perez. “Falei das dificuldades envolvendo a escolha da bactéria, mas eles rebateram dizendo que um pesquisador francês sabia como cultivá-la.” Referiam-se a Joseph Bové, do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (Inra, em francês), em Bordeaux, França, que 94 | janeiro DE 2017

Mapeamento do genoma da bactéria ampliou as perspectivas de pesquisa em genética no Brasil

trabalhava com genética molecular e que havia se disposto a fornecer a bactéria, enquanto Frédéric Laigret, da Universidade Bordeaux 2, daria apoio à constituição de um banco de DNA da bactéria para fornecimento dos fragmentos a serem sequenciados. “Eles foram convincentes e escolhemos a Xylella”, diz Perez. O projeto foi lançado com um investimento de US$ 12 milhões da FAPESP e mais US$ 400 mil por parte da Fundecitrus, o maior valor até então destinado a um empreendimento científico no Brasil. Dos 70 laboratórios que se candidataram para participar do projeto, 35 foram selecionados por um comitê internacional formado por Steve Oliver, da Universidade de Manchester, Inglaterra, André Goffeau, da Universidade Católica de Louvain, Bélgica, e John Sgouros, do Imperial Cancer Research Foundation, Inglaterra. Esse mesmo comitê ficou encarregado de supervisionar o andamento do projeto.

Por conta da inexperiência dos pesquisadores brasileiros no campo da biologia molecular, decidiu-se que o projeto contaria com coordenadores de DNA e bioinformática, além de laboratórios centrais de sequenciamento para treinar os pesquisadores e gerar as sequências necessárias. A coordenação de DNA ficou a cargo do bioquímico Andrew Simpson, do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, em São Paulo. Os laboratórios centrais de sequenciamento foram o Laboratório de Biologia Molecular do IQ-USP, à época chefiado por Reinach, e o Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG) da Unicamp, coordenado pelo biólogo Paulo Arruda. Os laboratórios selecionados receberam sequenciadores automáticos de DNA, reagentes e assessoria técnica. A Xylella seria mapeada por meio de 99 cosmídeos, fragmentos de DNA que carregam e multiplicam partes do genoma que se quer estudar.


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Marie-Anne e Mariana, experiência adquirida no Brasil e liderança em projetos nos Estados Unidos

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Menos de um ano após o lançamento do projeto, 90% do código genético da Xylella havia sido sequenciado. Restavam ainda alguns buracos, ou interrupções da sequência total do genoma, chamados gaps. Para fechá-los e confirmar a ordem dos cosmídeos, Simpson desenvolveu abordagens experimentais alternativas nos laboratórios do Instituto Ludwig, enquanto tentava ligar os cosmídeos aos que lhe eram contíguos, de modo a ordenar as sequências e descrever completamente o genoma.

fotos 1 gilberto alves  2 eduardo cesar  3 léo ramos chaves  4 e 5 márcia minilo

Novas oportunidades

A geneticista Anamaria Camargo se juntou à equipe liderada por Simpson no Instituto Ludwig em 1998, em seu estágio de pós-doutorado. Seu trabalho consistiu no fechamento dos gaps do genoma da Xylella com as pesquisadoras Cláudia Monteiro-Vitorello, Elizabeth Martins, Mariana Cabral de Oliveira, Marie-Anne Van Sluys, Marilis do Valle Marques e Ana Cláudia Rasera. “Hoje trabalho na área de genômica do câncer usando muito do que aprendi no projeto da Xylella”, conta Anamaria, coordenadora do Centro de Oncologia Molecular do Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, em São Paulo. Sua colega, a bióloga Marilis do Valle Marques, envolveu-se no projeto a convite da física Suely Lopes Gomes,

Perez e Reinach: foco em novas formas de qualificar os pesquisadores brasileiros

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professora do IQ-USP. “Participei da análise e montagem das sequências e da montagem e anotação do plasmídeo pXF51, que se mostrou desafiador por ter uma região duplicada, dificultando a montagem da sequência”, explica Marilis, professora do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. O projeto foi concluído em janeiro de 2000 e consistiu no sequenciamento de 2,7 milhões de pares de bases do cromossomo da Xylella. No dia 13 de julho daquele ano, a Nature dedicou a capa da revista ao trabalho. No Brasil, os pesquisadores receberam prêmios e homenagens, como a Medalha Paulista de Mérito Científico e Tecnológico, concedida pelo governo do estado de São Paulo (ver Pesquisa FAPESP nº 51). Para Simpson, o sucesso do projeto genoma da Xylella lhe permitiu liderar outros projetos, como o do Genoma do Câncer. “Como resultado desses trabalhos, fui promovido a diretor científico do Instituto Ludwig em Nova York”, conta. Anos depois ele voltou para o Brasil como diretor presidente da empresa de biotecnologia Orygen, que trabalha no desenvolvimento, fabricação e comercialização de anticorpos terapêuticos e vacinas. O projeto genoma da Xylella se transformou em uma oportunidade para muitos jovens cientistas se

Projeto foi lançado com investimento de US$ 12 milhões, maior valor destinado a um empreendimento científico até então no Brasil consolidarem como pesquisadores independentes. Após participar do projeto, o biólogo Marcelo Briones, do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), tornou-se um dos coordenadores do projeto Genoma Câncer ao lado de Simpson. À época, os equipamentos usados em seu laboratório para o sequenciamento dos cosmídeos da Xylella o ajudaram a sequenciar genes expressos em cânceres de grande incidência no Brasil, como os de colo de útero e de cabeça e pescoço. Em 2000, após a conclusão dos dois projetos, Briones recebeu um financiamento do Instituto de Medicina Howard Hughes, nos Estados Unidos, para desenvolver pesquisas sobre doenças infecciosas e parasitárias no Brasil. “Sem os equipamentos e conhecimento adquiridos durante os projetos genoma Xylella e PESQUISA FAPESP 251 | 95


do Câncer, não teria conseguido o financiamento”, conta. “Toda minha carreira se baseia no estudo da Xylella”, diz a bióloga Alessandra Alves de Souza, do Centro de Citricultura Sylvio Moreira do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), em Cordeirópolis, interior paulista. Formada em Pernambuco, Alessandra veio para São Paulo quando ingressou no mestrado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP. No doutorado, na Unicamp, fez análises comparativas da expressão de genes da Xylella associados à patogenicidade e à formação de um biofilme que une a comunidade de microrganismos invasores nas plantas. Isso a levou a estudar uma molécula chamada N-acetilcisteína (NAC) como possível alternativa de controle da CVC. O NAC é um composto usado para desobstruir as vias respiratórias e reduzir os biofilmes formados por bactérias que causam doenças em humanos. Em testes preliminares, o NAC se mostrou eficaz ao romper os biofilmes produzidos pela Xylella, reduzindo os sintomas da CVC. Recentemente, Alessandra e a bióloga Simone Picchi, também do IAC, abriram a CiaCamp, empresa de pesquisa e desenvolvimento de fertilizantes à base de NAC (ver Pesquisa FAPESP nº 247). Alessandra hoje participa de um projeto financiado pela Comissão Europeia para o combate de uma variante da Xylella na Itália que está destruindo as oliveiras da região de Puglia. A bióloga Cláudia Monteiro-Vitorello já havia trabalhado com sequenciamento de DNA mitocondrial de um fungo causador de doenças em castanheiras americanas em seu pós-doutorado na Universidade do Estado de Michigan, nos Estados Unidos. Quando voltou ao Brasil, em 1998, foi convidada para integrar a equipe do engenheiro agrônomo Luiz Lehmann Coutinho, 96 | janeiro DE 2017

FRANCISCO TANAKAE ELLIOT KITAJIMA / ESALQ-USP

Imagem de microscopia dos biofilmes formados pela Xylella no interior das plantas

Sequenciamento contribuiu para transformar jovens cientistas em pesquisadores independentes e empreendedores

do Departamento de Ciência Animal da Esalq-USP. “Durante o projeto da Xylella participei de um curso no Laboratório Nacional de Computação Cientifica (LNCC), no Rio de Janeiro”, conta. Lá conheceu Amos Bairoch, coordenador da Swiss-Prot, banco de dados de proteínas suíço. “Por conta desse encontro e do projeto da Xylella, fui contratada para trabalhar no Swiss-Prot na parte de anotações de genomas de bactérias”, lembra. Em 2008 Cláudia voltou para a universidade como professora adjunta em microbiologia na Universidade Federal do ABC, em Santo André. Em 2009 foi para a Esalq-USP, onde atua na área de genômica da interação planta patógeno envolvendo doenças de cana-de-açúcar. Para a bióloga Marie-Anne Van Sluys, do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências (IB) da USP, o projeto genoma da Xylella foi

uma oportunidade para transformar seus estudos sobre interação entre bactérias e plantas no foco principal de suas pesquisas. Após o término do sequenciamento do genoma da Xylella, Marie-Anne e a bióloga Mariana Cabral de Oliveira, também do IB-USP, lideraram um projeto voltado à decodificação dos genomas de uma cepa da Xylella responsável pela destruição das videiras nos Estados Unidos e da bactéria Leifsonia xyli subsp xyli, que ataca o talo da cana de açúcar. “Também participamos de uma rede liderada pelo Joint Genome Institute, dos Estados Unidos, para desvendar o DNA de outras duas cepas da Xylella que acometem a amendoeira e que se instalam em uma planta conhecida como espirradeira”, conta. “Foi uma época de grande interação com pesquisadores de diversas áreas”, conta Mariana. A bióloga participou de todas as etapas do projeto do genoma da Xylella, do sequenciamento à análise macroestrutural e comparativa dos genomas, o que lhe permitiu mais tarde transferir as técnicas de análise de sequências em larga escala para seu estudo com algas. Para Perez, o projeto mostrou que o Brasil é capaz de fazer pesquisa de forma colaborativa, envolvendo a comunidade científica, o poder público e a iniciativa privada. “Mais do que isso: permitiu ao país mudar sua percepção sobre suas capacidades e seu lugar no mundo da ciência.” n


resenhas

O corpo como centro das atenções sociais Pollyanna Fernandes Patriota e Ana Lydia Sawaya

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Gordos, magros e obesos: Uma história de peso no Brasil

eduardo cesar

Denise Bernuzzi de Sant’Anna Estação Liberdade 184 páginas | R$ 39,00

enise Bernuzzi de Sant’Anna retrata em sua obra Gordos, magros e obesos: Uma história de peso no Brasil como, no decorrer da história brasileira, os indivíduos foram categorizados socialmente através de seus pesos e corpos, relacionando-os ao sucesso ou fracasso, saúde ou doença, beleza ou feiura, amor ou desamor, felicidade ou tristeza. A publicação é dividida em quatro capítulos que percorrem desde as épocas de penúria a orgias alimentares, da fome à fartura, da desnutrição à obesidade e consequentemente o surgimento e o crescimento de um mercado que ofertaria um largo leque de tratamentos para ambas as situações. A linha do tempo de nossa cultura alimentar é descrita no livro desde os banquetes e exageros alimentares dos Orleans, Bourbons e Braganças, no final do século XIX, onde ser corpulento ou bem pesado refletia em prestígio social e poder. Percorre meados do século XX, período no qual o desejo de obter uma aparência física leve e longilínea se propaga, segue até o desvelar-se de transtornos, tais como anorexia e bulimia, e, por fim, chega até os atos de resistência mais recentes contra a supervalorização do corpo. A autora detalha mudanças nos padrões alimentares em nosso país, desde a chegada dos primeiros supermercados até a explosão de fast-foods, favorecendo sobremaneira a disponibilidade e o acesso a alimentos com alto teor calórico (ultraprocessados), de fácil preparo, com escassez de fibras e concentrações extremamente elevadas de açúcar e gordura, sempre anunciados de forma entusiasta, alegre e amigável e associados a um conceito de ascensão social para seus consumidores. No livro, encontramos desde o percurso das descobertas científicas, que já alertavam para os riscos do excesso de peso, até a apropriação pela indústria farmacêutica, alimentar e pelos fornecedores de bens e serviços relacionados à estética de suas respectivas fatias do mercado consumidor. Estas últimas, por sua vez, oferecem cada vez mais tratamentos “milagrosos”, rápidos e sem esforços, para uma questão com múltiplos fatores determinantes, como é a obesidade. Não dá para culpar o indivíduo ou seu fraco ânimo para mudar o cenário. Além disso, o livro destaca que a preocupação com a saúde, difundida entre os profissionais da

área, foi abraçada pela mídia por meio de propagandas ostensivas com foco no peso como determinante de prestígio social, autoestima elevada, sucesso e credibilidade. Essas propagandas geraram novos padrões de beleza, contribuindo para atribuir características pejorativas à pessoa obesa, como preguiçosa, deprimida, malsucedida, mal-amada, feia, amargurada, gulosa, sem força de vontade. Os novos padrões de beleza influenciaram, sobremaneira, o inconsciente coletivo para que uma doença com determinantes multifatoriais fosse vista como questão de estética, na qual a culpa reside somente no indivíduo, afastando os olhares dos aspectos socioambientais, políticos e, sobretudo, econômicos do crescimento da obesidade em nosso meio. Um dos pontos altos da publicação nos chama a atenção sobre o fardo que recai sobre os indivíduos (gordos ou magros), mas, sobretudo, os com excesso de peso, e as constantes exigências sociais cada vez mais rígidas sobre a silhueta perfeita, forma física e ideal de beleza que têm alimentado um frequente medo por um ato que deveria ser natural e feliz: o de comer. Tais exigências têm favorecido a destruição do ato de alimentar-se como algo cultural, belo e prazeroso, e como ato social, considerando os terrorismos alimentares acolhidos por nossa sociedade atual e tão massivamente divulgados pela mídia. Por fim, a autora nos recorda que o livro tem por finalidade relatar como as atenções têm sido direcionadas para o peso e o volume dos corpos no decorrer da história e como o corpo tem sido usado como alvo de ataques e defesas, tornando-se o centro das preocupações sociais. As exigências não ocorrem em nome da saúde, mas de uma aparência cada vez mais rigorosa em busca de um padrão de beleza que tem levado ao adoecimento pessoas de todas as classes sociais e idades. O ato de se alimentar torna-se, assim, um sofrimento psíquico, uma transgressão, associada a um receio de engordar e ter que lidar com as consequências desse peso diante das imposições da sociedade. Pollyanna Fernandes Patriota é professora de nutrição da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Ana Lydia Sawaya é pesquisadora da área de nutrição e professora titular livre-docente da Universidade Federal de São Paulo.

PESQUISA FAPESP 251 | 97


Em busca da solidariedade perdida Francisco Foot Hardman

Afinidades revolucionárias: Nossas estrelas vermelhas e negras. Por uma solidariedade entre marxistas e libertários Olivier Besancenot e Michael Löwy Tradução: João Alexandre Peschanski e Nair Fonseca Editora Unesp 200 páginas | R$ 38

98 | janeiro DE 2017

Talvez essas afinidades revolucionárias entre marxistas e libertários, perseguidas com desvelo por Löwy e Besancenot, sejam, afinal, utópicas. Mas utopia, aqui, na acepção romântica dos primeiros grandes críticos da modernidade capitalista, pode se identificar com a experiência histórica real e possível. Depois da Comuna de Paris, outros momentos decisivos são revividos, como o Primeiro de Maio de Chicago (1886), a Revolução Russa, a Revolução Espanhola e Maio de 1968. Neles, a mesma pesquisa é ensaiada: buscar os elos solidários que aproximaram, nas lutas concretas, as duas correntes. E o diálogo se dirige também a personagens que tentaram essa ponte para além de suas siglas ou movimentos: Louise Michel, Pierre Monatte, Rosa Luxemburgo, Emma Goldman, Buenaventura Durruti, Benjamin Péret, subcomandante Marcos, Walter Benjamin, André Breton e Daniel Guérin. No prefácio aos leitores brasileiros, são lembradas as figuras notáveis de Mario Pedrosa, Fúlvio Abramo, Pedro Catalo, Edgard Leuenroth, Hermínio Sachetta e Maurício Tragtenberg, como alguns pensadores e militantes da solidariedade revolucionária libertária em nossa história política republicana. Da Frente Única Antifascista (FUA), em 1934, que reuniu, em São Paulo, anarquistas, comunistas, socialistas, trotskistas e democratas liberais contra o fascismo emergente dos integralistas, às impressionantes Jornadas de Junho, em 2013, reunindo jovens autonomistas do Passe Livre a trabalhadores sem-teto do MTST, há muitas trajetórias a serem analisadas e discutidas. Quais as relações entre democracia direta e representativa? Entre sindicatos e partidos? Entre indivíduos e coletivos? Entre autonomia e federalismo? Entre autogestão e planejamento? Entre preservação da natureza planetária e sociedade pós-capitalista? Nenhuma resposta é fácil. Este livro não as dá de gaiato, mas ajuda muito a melhor conhecer as questões.

Francisco Foot Hardman, doutor em filosofia pela USP e com pós-doutorado no Collège International de Philosophie, é professor titular de literatura e outras produções culturais do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

eduardo cesar

Q

uando o sociólogo da cultura Michael Löwy, diretor de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França, brasileiro e um dos pensadores mais renomados no campo das esquerdas antistalinistas, juntamente com Olivier Besancenot, funcionário dos Correios e candidato presidencial na França em 2002 e 2007, com resultados respeitáveis para o Nouveau Parti Anticapitaliste (NPA), resolveram juntar esforços e escrever Afinidades revolucionárias (publicado na França em 2014, já traduzido para o grego e em vias de sê-lo para o alemão e o espanhol), claro estava que não previam os impasses da conjuntura atual, a partir dos acontecimentos recentes nos Estados Unidos, no Brasil, na Turquia e em outros cenários. Seu intuito, para além do exame atento do que sucede nesses e noutros países, foi retroceder cerca de 150 anos, até a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (conhecida como I Internacional) e a emergência da Comuna de Paris, para revisitar esse laboratório de ideias e práticas revolucionárias, em meio a polêmicas, cisões, mas também a diálogos, afinidades e ações solidárias. Se você ler ou ouvir alguém dizer que possui a “chave” do enigma da transformação revolucionária no mundo atual, desconfie. Uma das maiores lições deste livro é sua despretensão a qualquer monopólio da verdade, como é comum entre agrupamentos de esquerda, tão dados à arrogância de fórmulas prontas e ao autoritarismo sectário autorreferente e pontificante. E isso vale, é bom notar, tanto nas correntes de linhagem marxista quanto nas de caráter anarquista. O esforço de percorrer novamente experiências significativas e até traumáticas, com a erudição que décadas de estudo e militância proporcionaram aos autores, muito sofisticada em termos de conhecimento teórico e histórico-político em face do rebaixamento intelectual e moral das redes ditas “sociais” e da intolerância como moeda corrente de pseudodebates que só fazem ampliar a fragmentação do pensamento crítico, faz deste livro um belo exemplo de exercício dialógico no melhor sentido filosófico, político e estético que se possa configurar.


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