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PEDRO CORRÊA | QUASE UM SÉCULO DE HISTÓRIA.

CAPA

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PEDRO CORRÊA QUASE UM SÉCULO DE HISTÓRIA.


PEDRO CORRÊA | QUASE UM SÉCULO DE HISTÓRIA.

APRESENTAÇÃO

Este livro tem como proposta contar a história de vida de Pedro Corrêa, transcrevendo suas memórias, utilizando o seu acervo de documentos, guardados com todo o carinho por muitos anos, acrescentando aos fatos por ele narrados, a história do mundo, do Brasil, do Estado do Paraná e do município de Santo Antônio do Sudoeste, valendo-me da contemporaneidade em que eles ocorreram. É uma narrativa tão antiga quanto atual, pois que poderemos perceber o quanto o mundo mudou em apenas um século e a sua enorme capacidade de adaptação às novas tecnologias, sem perder os valores, herança dos pais, e que sempre nortearam o seu proceder. Dividindo em períodos de vida, para facilitar a narrativa, faço aqui, um resumo da obra. Inicio pela Infância e Juventude com um breve relato dos antepassados mais recentes, haja vista a dificuldade em pesquisar dados históricos de imigrantes poloneses (lado materno) e origem de índios e tropeiros (lado paterno). Sua infância como de qualquer outra criança da época compõe-se de trabalho árduo para ajudar os pais, visto que, os filhos mais velhos tornavam-se responsáveis pelos irmãos mais novos; pelas diversas mudanças de cidade devido ao trabalho do pai e pela sua frustração em não poder freqüentar regularmente

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uma escola. Na juventude: o cidadão e o atleta, que nunca deixaram de existir dentro dele, pois o espírito esportivo fez com que enfrentasse tanto as agruras das derrotas, quanto a doçura das vitórias, com galhardia, sem abater-se pelo desânimo, nem se ensoberbar. Quando, no auge de seus 21 anos, durante a 2ª Guerra Mundial, surgiu oportunidade de demonstrar sua coragem e o seu amor à Pátria, colocou-se à disposição para lutar e morrer, se necessário fosse, apresentando-se como voluntário, junto à Força Expedicionária Brasileira, para enfrentar inimigos em solo italiano com seus companheiros de farda, muitos dos quais, como heróis anônimos tombaram nas batalhas. Quis Deus, que seu gesto de valentia, o livrasse dos perigos da guerra. Em Pedro Corrêa: esposo, pai, avô e bisavô, a descrição do homem que sempre assumiu as suas responsabilidades, tanto no sustento quanto no cuidado com a família que constituiu, buscando sempre novos horizontes para garantir-lhes um futuro menos íngreme que o seu. O homem que através do exemplo, ensinou filhos, netos e bisnetos a seguirem o caminho do bem, os direitos e deveres da cidadania, os valores cristãos e de honestidade, orientando seus descendentes a sentir orgulho em levar adiante o honrado nome da família. Já, em Pedro Corrêa: o homem público, claramente torna-se essencial para as novas gerações, conhecer o seu proceder, principalmente, nesta época em que vemos e ouvimos, diariamente, através da mídia, notícias de centenas de políticos envolvidos em escândalos de corrupção, revelados pela “Operação Lava-Jato”, políticos estes interessados por tudo, menos pelo povo que os elegeu. Os mesmos políticos, que durante os mandatos escondem-se em seus gabinetes, carros blindados e mansões, para saírem de sua hibernação por alguns meses, somente enquanto durar a campanha eleitoral, que os ajudam a perpetuar-se no poder, esquecendo-se que ao receber, nas urnas, uma procuração para falar e agir em nome da população, deveriam ter, como nobre e sagrada missão, o bem deste povo. A simplicidade e a sinceridade levaram este homem público a juntar-se em mutirão ao seu povo para trabalhar em prol do município e fazê-lo desenvolver-se, contando com as amizades e o valioso auxílio de políticos capazes como Arnaldo Busatto e Cândido Manoel Martins de Oliveira, nomes estes que jamais poderão ser esquecidos pela população do sudoeste do Paraná. Na série de fotos que compõe Pedro Corrêa: rodeado de amigos, comprova-se que uma imagem vale mais que mil palavras, pois é quase uma lição para nós, que hoje vivemos num mundo onde as pessoas tornaram-se descartáveis e

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os amigos, virtuais. Onde as pessoas preferem teclar numa tela de computador ou de celular a conversar com quem está ao seu lado. Mostra-se aí, a alegria compartilhada com amigos reais numa partida de jogo de canastra ou pontinho, onde o sorriso aberto, a conversa franca e animada, acompanhada do velho e bom chimarrão; as noites frias de inverno, ao redor do fogão, relembrando fatos e saboreando pinhão assado na chapa era um bom programa; e as festas e churrascos onde se celebrava a vida e a amizade, eram reuniões agradáveis, onde não se via o tempo passar; ou simplesmente trabalhando, lado a lado, para demonstrar que o trabalho em equipe é mais produtivo, prazeroso e eficaz. Entre centenas de fotos, talvez milhares, tive de optar por algumas que acreditei demonstrar, parte dos amigos conquistados durante toda uma vida. Pedro Corrêa: o homem sonhador, aquele que nunca desistiu de seus sonhos, que foi à luta, que não se abateu com o passar dos anos. Este livro tem uma narrativa cheia de aventuras, coragem, determinação e força. É a história de vida de um homem que enfrentou muitas dificuldades durante toda a sua existência. Um homem que lutou, mas jamais esteve sozinho, pois pôde contar com o apoio de seus familiares, da sua inesquecível esposa Lígia e de muitos amigos fiéis. Ele manteve durante toda a sua vida características arraigadas da cultura indígena tais como: espírito de comunidade, crença em cura através das plantas e remédios homeopáticos, conhecendo uma infinidade de ervas e sua aplicação medicinal; e também algumas superstições acreditando no poder de benzedeiras, curandeiros e forças do mal que poderiam ser ativadas através de feitiçarias e bruxarias, apesar de toda a religiosidade católica herdada do lado materno, ou seja, polonês. Com o passar dos anos não perdeu o espírito vivaz, sua perspicácia e humor refinado, e nesta hora lembro-me de uma de suas frases quando jogava canastra: “Se agarrem no pincel que eu vou puxar a escada”. Ele riu, fez rir e chorou quando a dor se tornou insuportável, mas nunca perdeu a esperança e o bom humor, uma de suas características mais marcantes. Enfrentou derrotas de cabeça erguida e vitórias com humildade, enfim é a história de um grande homem, de um espírito guerreiro e de um vencedor, e sinto-me honrada em fazê-lo conhecido e perpetuar a sua memória junto àqueles que o amaram. A co-autora.

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PEDRO CORRÊA INFÂNCIA E JUVENTUDE

Na terceira década do século XX, enquanto o mundo ainda vivia o trauma do pós 1ª Guerra Mundial, meus pais Guilherme e Angélica seguiam normalmente suas vidas trabalhando e constituindo família. Ele, Guilherme Correia, filho de Guilherme Correia e Anna Correia, descendente de índios e tropeiros portugueses, nascido aos 14 dias do mês de maio de 1.891, no município de Campo Largo, Estado do Paraná, era funcionário público, trabalhando em vários setores do Estado. Até 1932 ele foi soldado da Polícia Militar e participou da Revolta do Contestado, um dos conflitos internos mais sangrentos do século XX, gerado por fatores sociais, políticos, econômicos e messiânicos. Esse conflito armado que ocorreu na região Sul do Brasil, entre outubro de 1912 e agosto de 1916, envolvendo cerca de 20 mil camponeses que enfrentaram forças militares dos poderes: federal e estadual, ganhou este nome porque ocorreram numa área de disputa territorial. Na época da chegada dos primeiros colonizadores as terras pertenciam ao município de Palmas, Estado do Paraná, uma extensa área à margem direita do Rio do Peixe, pretendida pelos Estados do Paraná e Santa Catarina, e também pelo país vizinho Argentina. Sendo que com a Argentina esta disputa ficou co-

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nhecida como o “Tratado de Missiones” e entre os Estados brasileiros recebeu o nome de “a questão de Palmas”. A primeira batalha aconteceu nos campos de Irani, no dia 22 de outubro de 1912, a qual ceifou a vida de muitos sertanejos, caboclos e militares, espalhando pânico em grande parte da região, por isso, ficou conhecido como o Berço do Contestado. O topônimo Irani originou-se do rio que banha o município, nome originário da língua tupi-guarani, que significa “Mel Envelhecido”, pois na referida língua “ira” significa mel e “nhi” envelhecido, portanto, o nome Irani está relacionado à beleza da fauna e da flora. Aqui cabe também um pouco de História do Brasil. A estrada de ferro entre São Paulo e Rio Grande do Sul estava sendo construída pela empresa norte-americana Brazil Railway Company, do empresário Percival Farquhar, com o apoio dos coronéis (grandes proprietários rurais com força política) da região e do governo. Para a construção da estrada, milhares de famílias de camponeses perderam suas terras, e este fato gerou muito desemprego, pois os agricultores ficaram sem terras para trabalhar. Outro motivo da revolta foi a compra de uma grande área da região por um grupo de pessoas ligadas à empresa construtora da estrada de ferro, sendo a propriedade adquirida para o estabelecimento de uma grande empresa madeireira, voltada para a exportação. Com isso, mais famílias foram expulsas de suas terras. O clima que já era tenso, acabou piorando quando a referida ferrovia ficou pronta, pois os trabalhadores que atuaram em sua construção, trazidos de diversas partes do país, ficaram desempregados ao final da obra, e não tendo para onde ir, permaneceram na região sem qualquer apoio por parte da empresa norte-americana ou do governo. Nesta época, as regiões mais pobres do Brasil eram terreno fértil para o aparecimento de lideranças religiosas de caráter messiânico, e na área do Contestado não foi diferente, pois, diante da crise e insatisfação popular, ganhou força a figura do beato José Maria. Este pregava a criação de um mundo novo, regido pelas leis de Deus, onde todos viveriam em paz, com prosperidade, justiça e terras para trabalhar e foi desta forma que José Maria conseguiu reunir milhares de seguidores, principalmente entre os camponeses sem terras. Como o movimento crescia dia-a-dia, os coronéis da região e os governos (federal e estadual) começaram a ficar preocupados com tal liderança e capacidade de atrair pessoas para a causa. O governo passou a acusar o beato de ser um inimigo da República, que tinha como objetivo desestruturar o governo e

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a ordem na região. Visando desarticular o movimento e impedir uma Intervenção Federal, o Estado do Paraná enviou o Regimento de Segurança (atual Polícia Militar do Paraná), com efetivo de mil homens, para resolver o problema. Os soldados e policiais começaram a perseguir o beato e seus seguidores. Armados de espingardas de caça, facões e enxadas, os camponeses resistiram e enfrentaram as forças oficiais que estavam bem armadas. Nestes conflitos armados, entre 5 mil e 8 mil rebeldes, na maioria camponeses, morreram. As baixas do lado das tropas oficiais foram bem menores.

Na região do atual município de Irani aconteceu a Guerra do Contestado entre 1912 e 1916.

Papai contava que ele foi um dos homens que participou da batalha do Irani, ocorrida em outubro de 1912, em um lugar chamado “Banhado Grande”, lugar este onde morreram onze pessoas, entre elas o próprio monge e o comandante do Regimento de Segurança do Paraná, o Coronel João Gualberto Gomes de Sá. Papai ajudou a socorrer um tenente, conduzindo-o baleado, no lombo de um cavalo, através dos campos de Palmas, parando em uma fazenda no meio do caminho, onde foi atendido por uma moça, filha do fazendeiro, a qual mandou atrelar três animais a uma carroça para conduzi-lo até a cidade de Palmas. A guerra terminou somente em 1916, quando as tropas oficiais conseguiram prender Adeodato, que era um dos chefes do último reduto de rebeldes da revolta. Ele foi condenado a trinta anos de prisão. É quase inacreditável que passado mais de um século a Guerra do Contestado continue tão atual no nosso país, pois mostra a forma com que os políticos

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e os governos tratam as questões sociais no Brasil: os interesses financeiros de grandes empresas e proprietários rurais ficam sempre acima das necessidades da população mais pobre. Não há espaço para a tentativa de solucionar os conflitos com negociação, nem solução definitiva. Também podemos perceber que os oportunistas continuam manipulando a pobreza e a ignorância dessa massa de manobra. Minha mãe, Angélica Piontek, descendente de imigrantes poloneses era dona de casa, filha de Theodoro Piontek e Catarina Piontek, nascida aos 2 dias do mês de agosto de 1.892, no Bairro de Abranches, cidade de Curitiba. Meus avós maternos chegaram ao Brasil, na segunda metade do século XIX, fugindo das revoltas internas, pois que a Polônia, à época, deixou de existir como Estado, invadida pela Áustria, pela Rússia e pela Prússia (alemães). Para entendermos o que levou à diáspora polonesa é preciso reviver um pouco de História Geral e também História do Brasil. No ano 1845, os ingleses aprovaram a Lei Bill Aberdeem. Tal lei autorizava as embarcações britânicas a confiscarem todo e qualquer navio que transportasse escravos, de tal modo, o comércio de escravos no Brasil ficava prejudicado. Essa medida era mais uma das ações pelas quais os ingleses pressionavam o Brasil para que a escravidão chegasse ao fim no país. Bem mais que uma questão de ordem humanitária, o objetivo era ampliar o mercado consumidor brasileiro ao converter, progressivamente, a grande maioria dos trabalhadores escravos em futuros consumidores das mercadorias britânicas. O governo brasileiro, sentindo-se pressionado, começou a buscar os povos europeus para trabalhar no lugar dos negros, pois o mercado de escravos estava inflacionado e também porque já antevia o final da escravatura de negros africanos, a qual já estava em processo, de forma gradual, haja vista a assinatura da Lei Eusébio de Queirós, em 1850, a qual determinava o fim do tráfico de escravos, proibindo a chegada de embarcações negreiras no país. Isso criou o problema de manter o trabalho compulsório sem o constante fluxo de mão-de-obra proveniente da África, devido à alta taxa de mortalidade entre os cativos causada pelas longas jornadas de trabalho, epidemias, castigos corporais e péssimas condições de alimentação, habitação e higiene. Em 1871, a Lei do Ventre Livre, declarava que os filhos de escravos nascidos a partir de 28 de setembro do mesmo ano, eram livres. A intenção era de acabar com a escravatura de forma gradual, mas não deu certo, porque quando um filho de escravo nascia, existiam dois destinos para ele: continuar na casa do senhor (dono dos escravos) ou enviar a criança para o Governo.

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Como muitas famílias queriam permanecer juntas e como o senhor já não tinha mais responsabilidade sobre a criança, eles eram aceitos sob a condição de, após atingir a maioridade com 21 anos, ter de pagar a dívida por ter crescido, se alimentado e vivido na fazenda – eles pagavam essa dívida com o próprio trabalho. Ainda assim, a Lei do Ventre Livre foi um passo importante para a abolição da escravatura no Brasil, pois começou a fomentar debates e a sociedade começou a pressionar as autoridades para o fim dessa prática. Os integrantes das classes médias urbanas então passaram a se organizar em favor do fim definitivo da escravidão e a procurar outro tipo de mão-de-obra. Enquanto o Brasil caminhava rumo à libertação dos escravos, com a promulgação da Lei dos Sexagenários, em 1885, que declarava livres os escravos com idade superior a 60 anos e, finalmente a Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, decretando o fim da escravidão; na Europa, a Polônia vivia um dos períodos mais trágicos de sua história iniciado pela catástrofe das partilhas do seu território entre as potências vizinhas – Áustria, Prússia e Rússia – desde a última década do século XVIII até o final da Primeira Guerra Mundial. Em conseqüência dessas partilhas a Polônia foi dividida entre as potências acima nas seguintes proporções: a Rússia ocupou 62% do território e 45% da população; a Prússia – 20% do território e 23% da população e a Áustria – 18% do território e 32% da população. Após mais de oito séculos de história, a Polônia havia desaparecido, tendo sido o país riscado do mapa da Europa por um período superior a um século, e o povo polonês, desde 1795 enfrentava lutas, insurreições, invasões e confisco de bens. Independentemente das causas que possam ser apontadas para essa catástrofe, na época nada poderia ter salvado a Polônia de inimigos (especialmente a Prússia e a Rússia) que estavam determinados a acabar com ela e que tinham à sua disposição forças três a quatro vezes superiores às polonesas, graças ao seu poderio militar e financeiro, e não pouparam esforços para a “russificação” e a germanização das suas populações. É oportuno salientar que nesse período das partilhas a Polônia deixou de existir como Estado, mas não como Nação, ocorrendo a mais intensa campanha para privá-los de dois dos seus mais preciosos valores: da língua e da cultura. Dois levantes principais ocorreram: um em 1830 e outro em 1863, sendo este último a maior das insurreições polonesas do século XIX, se levarmos em conta o tempo de duração e o número de participantes. Seu lema era a liberdade; o seu conteúdo social – a eliminação dos resquícios do sistema feudal. A derrota na luta pela independência não deixou de trazer resultados positivos na

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área das reformas sociais. O balanço da derrota envolve dezenas de milhares de mortos e fuzilados, dezenas de milhares de exilados para a Sibéria e milionárias perdas materiais. O movimento emigratório desencadeou-se primeiramente na zona de ocupação prussiana. A partir de meados do século, especialmente a partir dos anos 70 do século XIX, a população se deslocava principalmente aos Estados Unidos. Da zona de ocupação prussiana veio também ao Brasil, em 1867, Edmundo Sebastião Woś Saporski − o “Pai da emigração polonesa no Brasil”, que em 1869 providenciou a vinda dos primeiros grupos de imigrantes poloneses, o que nos anos seguintes abriu as portas a outros milhares de imigrantes da Polônia. Na zona de ocupação russa, a primeira onda emigratória dirigiu-se à América do Sul. Em 1890 o governo do Brasil garantia aos emigrantes passagem gratuita e outras vantagens, tendo mobilizado também agenciadores. Estes tinham o papel de recrutar candidatos a emigrantes, aos quais ao mesmo tempo vendiam as passagens marítimas. Esse tipo de atividade muitas vezes dava margem a transgressões e sérios abusos diante dos emigrantes, principalmente porque estes em geral eram pessoas de pouca ou nenhuma instrução. No Reino da Polônia eclodiu a chamada “febre brasileira”, e no decorrer de dois anos (1890-1892) viajaram para além do oceano 63 mil minifundiários e camponeses sem terra, apesar dos obstáculos que lhes impunham as autoridades tzaristas. Toda esta situação polonesa gerou uma comoção a nível mundial e o Governo Brasileiro, viu neste povo sofrido uma das soluções para os nossos problemas. Prometendo aos imigrantes que aqui eles teriam muitas regalias, entre elas um bom pedaço de terra, casa para morar, utensílios agrícolas e alimentação, tudo com as benesses do Estado, conseguiu convencer muitos agricultores que não anteviam futuro no próprio país, e entre estes encontrava-se o meu avô materno, que decidiu enfrentar o desconhecido atravessando o oceano, viajando por mais de trinta dias, vindo numa das levas de imigrantes poloneses. Segundo arquivos do Governo do Paraná, o sistema de colonização nos arredores de Curitiba só começou a dar resultado depois que se organizou uma nova política de imigração, com base na Lei de Terras (1850) e no Decreto nº. 3.784 de 19 de janeiro de 1867, que estabelecia medidas de apoio e benefícios concedidos ao imigrante, conforme Relatório do Governo do Paraná (1877, p.80).

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Depois de medidos e demarcados os lotes de terras de cultura nos arredores da cidade, traçavam as estradas e entregavam um lote a cada família, com uma casa provisória, regularmente construída. Ao colono maior de dez anos dava-se como auxílio de estabelecimento 20$000 (vinte mil réis) e cada família recebia mais 20$000 para compra de utensílios e sementes. Em cada núcleo fundava-se uma escola e edificava-se uma capela. Os imigrantes europeus eram recebidos no porto de Paranaguá pela Comissão da Imigração e pelo guia Edmund Wóz Saporski, mediador entre os imigrantes e o Governo do Paraná. Após esta recepção, eram imediatamente transportados para Antonina nos vapores da Companhia Progressista. Em Antonina passavam a noite no melhor hotel da cidade e no dia seguinte partiam para a Capital. A viagem era feita de carroça recebendo cada chefe de família a quantia suficiente para a viagem (RELATÓRIO DO GOVERNO DO PARANÁ, 1877, p.92). Deslocavam-se para a região de Curitiba, permaneciam em alojamentos na hospedaria do imigrante, situada na localidade do Barigui, mantinham-se lá por tempo necessário, até se inserirem no núcleo colonial. Aos imigrantes era fornecida hospedagem, alimentação, vestuário e acompanhamento médico na hospedaria (RELATÓRIO DO GOVERNO DO PARANÁ, 1877). Ainda segundo este documento: Nesta cidade eram alojados em hospedarias e no fim de cinco dias de descanso os homens seguiam para o núcleo que lhes era destinado, sendo logo empregado na abertura de estradas; e remunerado este serviço, cessando para eles a alimentação por conta do governo, contudo continuava para a sua família enquanto permanecessem na hospedaria (RELATÓRIO DO GOVERNO DO PARANÁ, 1877, p.92). Os membros da família Piontek foram assentados nas colônias Abranches e Lamenha Pequena, nas proximidades de Curitiba. Não sei se meus avós conheceram-se durante a viagem, mas sei que logo que ele conheceu a minha avó, que tinha a mesma história de imigração, pediu-a em casamento e assim constituíram uma grande família, ali mesmo na Colônia Abranches, onde permaneceu até sua morte aos 84 anos de idade. Meus pais casaram-se em 1920.

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Paróquia Sant’Ana construída em 1870 Bairro Abranches - Curitiba-PR

Casamento de Angélica e Guilherme

Em 1921 nasceu a minha primeira irmã: Ana. Eu, o segundo filho do casal, nasci no dia 09 de Outubro de 1923, na cidade de Lapa, Paraná.

Centro histórico da cidade da Lapa-PR.

Na infância, devido ao trabalho exercido pelo meu pai, moramos em vários municípios na divisa dos Estados do Paraná e Santa Catarina, enquanto a família crescia até constituir-se de 11 membros, sendo: papai, mamãe, eu, quatro irmãos e quatro irmãs. Os filhos homens: Guilherme Correia Filho, também conhecido por Téco; Antonio, Arlindo, e o caçula Ary Theodoro, sendo que o segundo nome do bebê foi escolhido por mim, pois desejava desta forma homenagear o meu avô materno.

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Lembro-me que Ary foi batizado na Catedral Metropolitana de Curitiba, tendo como padrinhos o Sr. Olavo Natel e sua esposa, e que foi crismado tendo por padrinho o Sr. Augustinho Macedo. Outras três irmãs nasceram: Maria do Carmo, carinhosamente chamada de Mita, Terezinha e Laura, chamada de Laurita pelo padrinho José Macedo Sobrinho, diretor do Tesouro do Estado do Paraná. Logo após o meu nascimento, meus pais mudaram para o município de Curitiba, e fomos morar numa chácara de propriedade de um militar do Exército, Coronel João Antonio, cujo sobrenome foge-me à memória. A chácara ficava perto de uma granja de gado leiteiro da família Schaffer, a qual possuía um grande rebanho de gado holandês. Hoje, neste lugar está localizada a cidade Industrial de Curitiba. Meu pai era continuo do Tesouro; ganhava pouco e como era um homem muito criativo resolveu ele mesmo fazer uma pequena casa nesse lugar, para evitar aluguel. Na época o Tesouro do Estado importava o selo adesivo, utilizado na autenticação de documentos, e este selo vinha em grandes caixas medindo dois metros de largura por dois metros de altura; e foi com algumas dessas caixas que papai fez nossa primeira casa. Neste local, ficamos morando por uns bons tempos. Ali perto tinha uma sanga, e rio abaixo, uma plantação de marmelo, de onde minha mãe tirava as frutas para fazer doces, que guardava em pequenos caixotes de madeira e o servia, em pedaços, como sobremesa. Era dali também, que ela tirava as varas que usava para executar os filhos desobedientes, as famosas “varas de marmelo” que vergavam, mas dificilmente quebravam. Mamãe para ajudar nas despesas da casa, trabalhava como lavadeira para a família Macedo. Eu e minhas irmãs, Ana e Maria do Carmo, buscávamos as roupas, em enormes trouxas, quase maiores que nós, carregando-as por aproximadamente quatro quilômetros. E assim foi passando o tempo, com todos os membros da família trabalhando. Meu pai trabalhava na Secretaria da Fazenda, no Tesouro do Estado, subordinado ao diretor Sr. José Macedo Sobrinho. Este possuía uma grande chácara, num lugar chamado Pilarzinho, hoje zona metropolitana de Curitiba. Nesta propriedade seu José, tinha vários animais e aves. Também era proprietário de outra grande área de terras, no lugar denominado Pedra Branca, o mesmo nome da fazenda. De lá seu José trazia vacas de leite, galinhas e porcos que eram abatidos pelos

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meus pais, que também confeccionavam as lingüiças, salames, morcelas, banha, torresmo, queijos, manteiga e outros derivados, desta forma garantindo parte do sustento da família, pois em troca do trabalho recebiam uma parcela do que faziam. Depois papai foi transferido para o Departamento de Águas e Esgoto, mas na sua Carteira de Identidade, datada de 07 de janeiro de 1929, consta a profissão de cocheiro. Lá ele permaneceu por muito tempo, porém continuou trabalhando para o ex-diretor nas horas de folga.

Antiga Carteira de Identidade que servia também como Título de Eleitor.

A título de curiosidade, em 1930, a capital do Estado tinha uma população de aproximadamente 100.000 habitantes, com 5.361 edificações ligadas à rede de água, cuja extensão era de 92 km, e a rede de esgoto aproximadamente 85 km, sendo que este era escoado para o Rio Belém juntamente com as águas fluviais, e o lixo coletado diariamente (volume de 70 m³) era transportado por auto-caminhões apropriados e depositado “em locais afastados da zona povoada”, no arrabalde de Santa Quitéria. A limpeza da cidade era iniciada diariamente às 22:30h e no centro, mantinha-se uma “turma de conservação de limpeza com carrinhos “Lutocar”.

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Quando eu tinha a idade de seis para sete anos, mudamo-nos para a capital e fomos morar ao lado do Cemitério Municipal, lado direito de quem vem do centro. A casa era bem grande com terreno bastante espaçoso, e minha mãe plantou uma horta, onde cultivava além das verduras e legumes, flores de várias espécies que eram vendidas, principalmente aos domingos e no dia de finados e as verduras eram entregues nas casas de seus fregueses, em sua maioria, moradores do centro da cidade. Na minha memória de criança, está a minha querida e amada vovó Catarina, chegando da colônia, em sua carroça puxada por dois cavalos: um branco e o outro zaino, ou seja, de cor avermelhada. As rodas possuíam uma chapa de aço e os raios eram de madeira. Os fueiros seguravam as paredes, pintadas com cores vivas. (Tradição Polonesa: A carroça é contribuição polonesa para o Brasil – Iarochinski). Este modelo de carroça é conhecida pelos historiadores nos dias de hoje, na cidade de Curitiba como “carroça de polaca”. A carroça podia ser usada para transportar pessoas, quando eram colocados assentos de mola, ou para transportar cargas de até meia tonelada. Em dias de festa ou nos casamentos, eram colocados os guizos nos arreios dos cavalos e penachos na cabeça dos animais, sendo as carroças enfeitadas com flores. Ela também servia para os funerais, ocasião em que eram cobertas com tecido preto.

Foto da carroça de polaca no Largo da Ordem em Curitiba-PR.

Minha tia Anastácia, tia Zia como era chamada pela família, vinha até a cidade de carroça carregando os produtos cultivados pela família. Vovó Catarina também vinha carregada com os produtos por eles cultiva-

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dos: batata-doce, abóbora, repolho, pepino, milho verde, feijão, cebola, alho, beterraba, queijo, manteiga, requeijão e algumas galinhas, trafegando pela Estrada do Assungui até o ponto de venda nos fundos da igrejinha da Ordem, bem próximo da Catedral Metropolitana, onde a estrada teve início.

Foto da carroça de polaca no Largo da Ordem em Curitiba-PR.

Neste local eles amarravam os animais, alimentando-os com um bom feixe de feno e dando-lhes água, proveniente de um bebedouro público ali existente.

Largo da Ordem - bebedouro intacto até os dias de hoje

Estrada do Assungui – Curitiba-PR.

Após as vendas, meus avôs faziam suas compras, jamais esquecendo o cacho de bananas que fazia a diversão dos netos. Vovó, com o seu forte sotaque polonês, chamava minha mãe de “Aniéla”, e papai mantinha esta forma carinhosa de tratamento quando estavam a sós ou quando estávamos no seio de nossa família. A chegada de nossos avós era sempre uma festa para todos nós e não raras vezes queríamos voltar junto com eles para a colônia. Quando nossos pais con-

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cordavam, reuníamos rapidamente as poucas roupas que tínhamos e embarcávamos felizes. Na propriedade deles havia uma criação de animais, entre eles: vacas para a produção de leite, touros, porcos para carne e banha, galos e galinhas para a produção de ovos, criação de coelhos e os cavalos usados para puxar a carroça. Além destes, marrecos e gansos, cujas penas eram utilizadas para confeccionar edredons, mais conhecidos por “coberta de penas”, e na língua polonesa “pierzyna”. Ao chegarmos, a diversão estava garantida: corríamos para pegar os patos e os marrecos, subir na cumeeira de um grande galpão, coberto com telhas de barro, jogar as aves lá de cima, para vê-los voar, mas tal fato não acontecia, haja vista que patos e marrecos não voam, além de que como eram aves bem tratadas, eram bastante pesadas e acabavam se esborrachando no chão, causando-lhes ferimentos e algumas vezes a morte. Quando não estávamos brincando com as aves, estávamos correndo pelo enorme pátio, subindo nas muitas árvores frutíferas, brincando na água do córrego ou escondendo-nos na campina, no paiol ou no galpão. Continua viva a imagem do pátio grande e plano onde corríamos brincando de pega-pega e que ajudávamos a varrer, com as vassouras feitas por meu avô, de galhos de guaxuma. Neste galpão cheio de ferramentas para o cultivo da lavoura encontrava-se a carroça, arado, aradinho de três laminas, grade retangular, grade triangular, carrinho sem rodas puxado por cavalo, foicinha, moedor de milho, entre outros utensílios. No paiol havia um sótão onde eles guardavam as sementes para a safra seguinte e feno para o inverno, além das espigas de milho para tratar os animais. Ao lado deste mesmo pátio, existia uma queda no terreno, conduzindo para um olho-d’água. Meu avô colocou ali uma polia com uma corda, e na ponta desta, um balde com um peso na alça. Quando o balde enchia, era só rodar a manivela e o balde cheio, num instante estava lá em cima, com água fresquinha. Meu avô também tinha um dispositivo que colocava nos ombros, ao qual deu o nome de “canga”. Na extremidade desta canga tinha uma cordinha com ganchos nas pontas, onde eram suspensos os baldes. Assim ele mantinha a água nas vasilhas de casa e minha avó, mulher muito caprichosa e ordeira, as cobria com um pano branquíssimo para evitar a queda de impurezas ou insetos. Vovó Catarina era uma excelente cozinheira e ainda me lembro do sabor do pierogi que ela fazia com massa cozida recheada com batata e requeijão, acompanhado com molho de lingüiça. Também inesquecíveis eram os sabores

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das broas de milho ou centeio, da sopa de beterraba e do charuto de repolho. Como todas as famílias do início do século eram numerosas, a família de meu avô não fugiu à regra e também era grande, com todos os filhos homens morando muito próximos à casa dos pais. Ali, no lugar denominado Pilarzinho, moravam também meus tios: João, José, Francisco, a quem chamávamos de tio Chico, Bernardo e Pedro. Além destes, os primos de minha mãe, cujo chefe da família também era Pedro, mas o sobrenome era Polack. De vez em quando, no leilão da festa da igreja, vovô arrematava um cachaço para melhorar a raça da criação de suínos ou arrematava uma abóbora para melhoramento genético. Da Colônia Lamenha Pequena, guardo na lembrança o mês de agosto, quando a família comemorava o aniversário da minha inesquecível mãe que nasceu aos dois dias do referido mês, e como toda boa festa polonesa havia baile e todos dançavam xote, mazurca e rancheira; o mesmo ocorrendo quando os vizinhos juntavam-se em mutirão (pisieron) para descascar e debulhar o milho no paiol, trabalho este que sempre acabava em baile. No Natal seguindo a tradição polonesa colocavam um pinheirinho no centro da sala, todo arrumado com diversos tipos de enfeites confeccionados com papéis coloridos ou palha, inclusive bolachas caseiras, feitas com centeio e açúcar mascavo e pintadas à mão. Fazia parte da tradição da família o fato de aguardar o aparecimento da primeira estrela no céu antes de todos sentarem-se à mesa, no dia 24 de dezembro. Esta tradição celebrava a Estrela de Belém que, de acordo com o Novo Testamento, guiou os Reis Magos ao local do nascimento de Jesus. E lembrando-se do nascimento do Menino Jesus nunca faltava um enfeite com palhas sobre a mesa, recordando desta forma que Ele foi colocado em uma manjedoura para descansar e tendo como significado a pobreza e desprendimento com que o Menino-Deus chegou à Terra. Na mesa arrumada para a ceia sempre havia um lugar vazio para o caso de alguém em dificuldades aparecer e pedir por abrigo, pois nesta noite especial, segundo tradição polonesa, ninguém pode ficar sozinho. À meia-noite começava o baile. Cada um dava uma volta dançante ao redor da árvore natalina e deixava uma moeda de quatrocentos réis, um mil ou dois mil réis, que depois o dono da casa levava como oferta para a igreja em agradecimento à Virgem Maria pela disponibilidade que ela teve em fazer a vontade do Senhor. Dos vizinhos da cidade, lembro-me perfeitamente do rosto e do nome de

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Ondina, que às vezes ajudava a minha mãe, talvez por ser uma moça muito bonita e gentil, conseguindo desta forma a minha afeição e de todas as crianças da redondeza. Também gravada na memória está uma grande casa comercial, localizada na esquina do cemitério, cujo proprietário, Sr. Raimundo tinha entre os seus fregueses meus pais e meus avós. Era um armazém de secos e molhados, funcionando também neste local uma padaria e desta tenho, registrada na memória, como se fosse ontem, a voz grave do meu pai dizendo: - Pedro, vá até o armazém do seu Raimundo comprar dez tans de pão (dez tans equivalia a um tostão). Ordem dada, ordem cumprida e lá ia eu, correndo para voltar rapidamente, porque quando demorava, a “vara de marmelo comia solta”. Numa certa vez, em que desobedeci à ordem dada pelo meu pai, saí correndo para não levar uma surra, e tentando fugir pelo portão da frente, na pressa, esqueci-me de que o mesmo ficava preso por uma argola de arame liso, que não consegui remover a tempo. Fui alcançado, e enquanto meu pai me batia, a minha mãe tentava livrar-me, puxando-o pelo braço, implorando para que ele parasse. Os dias foram passando e chegou o tempo da alfabetização. Fui matriculado, aos nove anos de idade, no Grupo Escolar Tiradentes, localizado à Rua Barão do Rio Branco, próximo à Praça Zacarias, e algumas vezes, eu ia de bonde, que apanhava próximo de minha casa. Quando a minha irmã Maria também chegou à idade escolar, nós íamos juntos quase todos os dias.

Colégio Tiradentes em meados de 1930

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O célebre “bonde velho” tinha estribos abertos e o pessoal que não conseguia embarcar no ponto, agarrava-se nos ditos estribos, correndo o risco de cair e machucar-se, fato este que acontecia com certa freqüência, e eu como todo menino levado, muitas vezes me arriscava pendurando-me nos estribos do velho bonde, de onde caí inúmeras vezes, ficando com escoriações que tentava esconder de meus pais, para que elas não piorassem.

Colégio Tiradentes em meados de 1930

Na volta da escola passávamos na frente de uma fábrica de móveis localizada nas imediações da Praça Zacarias e de lá trazíamos pequenos pedaços de madeira, que seriam jogados no lixo, e também cepilho ou maravalha, para usar no fogão e economizar lenha. Tempos depois esta fábrica foi adquirida pelos irmãos Bettega, onde trabalhei no torno fazendo cabos de vassouras. Em 1932, meu pai que era contínuo de Tesouro do Estado, hoje Secretaria da Fazenda, foi nomeado Fiscal de Rendas do Estado do Paraná e transferido para o Posto Fiscal de Várzea Grande, no interior. A poucos quilômetros da estação ferroviária existia uma caixa d’água, de propriedade da estrada de ferro, que servia para abastecer as caldeiras das máquinas que puxavam os vagões dos trens de cargas e de passageiros. Vizinhos a esta caixa d’água, mas do outro lado dos trilhos, os quais delimitavam os Estados do Paraná e Santa Catarina, morava um casal de curandeiros, Sr. João, que trabalhava como bombeiro, abastecendo as caldeiras das máquinas que por ali passavam, e sua esposa, chamava-se Emília.

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Uma vez fiquei muito doente e meu pai levou-me até eles, pois o médico mais próximo distava um dia de viagem de trem até União da Vitória. Como eu estava com muita febre, meu pai tomou-me nos braços, caminhando sobre os dormentes, por aproximadamente quatro quilômetros, com muito cuidado, pois se pisasse em falso poderia machucar-se e como o único caminho era a estreita via férrea, ainda precisava prestar atenção à possível passagem de trem, que caso ocorresse teríamos de nos colocar às estreitas margens da referida via até que o comboio passasse. Para piorar a situação era uma noite fria de inverno e precisava equilibrar o guarda-chuva, uma vez que chovia torrencialmente. Já era de madrugada quando lá chegamos. Papai gritou o tradicional: - O de casa! Ninguém aparecia à porta. Então gritou novamente e mais forte e uma frestinha da janela se abriu. Um par de olhos curiosos apareceu, mas ao reconhecer-nos e ainda com a voz sonolenta perguntou o que desejávamos àquela hora da noite. Papai respondeu: - Trouxe o meu filho Pedrinho que está muito doente. A janela fechou novamente, mas desta vez para abrir-se a porta, dando-nos acesso ao interior da humilde residência. - Isto não é nada! Já vou providenciar um remédio. – disse com toda segurança de quem sabe o que faz, enquanto com a palma da mão direita media a minha temperatura. Nesse instante a esposa dele, dona Emília saltou de sua cama e veio ver o estado do doente, e também colocando a mão sobre a minha cabeça confirmou a febre altíssima. Imediatamente pôs um caldeirão de ferro sobre o fogão, encheu de água acrescentando um punhado de ervas que sempre tinha à mão, para ferver. Quando notou que estava no ponto derramou a mistura numa gamela grande feita de cedro, e em seguida mandou-me ficar de pé no centro dela, e me lavou da cabeça aos pés. Sem enxugar-me, enrolaram-me com um grande cobertor, fazendo-me suar abundantemente. Tiraram o cobertor e enrolaram-me em uma capa de boiadeiro levando-me até a caixa d’água, colocaram-me embaixo da mangueira de lona com aproximadamente quinze centímetros de espessura e aí soltaram a água fria. Aquele jato de água gélido sobre mim, numa noite fria de inverno, assustou-me e comecei a chorar. Novamente enrolaram-me na capa e me levaram para a cama, cobrindo-me

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com vários cobertores, inclusive alguns feitos com pena de ganso, muito usado na época. Não tenho idéia de quanto tempo ali permaneci, mas ao acordar estava suado e a febre tinha desaparecido. Já com o dia clareando, meu pai tomou-me nos braços, agradecendo pela ajuda dos vizinhos, colocou-me em seus ombros fortes e fomos para casa, rindo e conversando sobre o tratamento recebido e sobre o susto que levei. Fui matriculado numa escola que distava uns oito quilômetros de casa, no local denominado Lajeado das Mortes, e ali morava um amigo de meu pai, Sr. Jorge Wantroba, dono de uma grande madeireira, onde eu trabalhava esporadicamente, quando não dava tempo de voltar para casa com a luz do dia. Neste percurso existia um pequeno matagal de nome Capão do Tigre, que assustava todos os transeuntes, e isso incomodava muito meus pais, que apreensivos ficavam aguardando o meu retorno. Eu saía de casa às dez horas da manhã para chegar à escola no horário, pois as aulas começavam às 13 horas. Na mochilinha de pano de brim listrado, confeccionado por minha mãe, levava a minha merenda: virado de feijão e ovo frito, dentro de uma latinha de aveia Quaker, muito usada antigamente; e um vidro de café com leite, que tomava sem esquentar. Numa distância de uns três quilômetros existia um riacho denominado “Arroio do Veado” com água corrente muito gostosa e ao chegar, eu já ia livrando-me das roupas, mergulhando em seguida para me refrescar da caminhada. Bem perto daquele local, morava um coleguinha chamado Paulino, e a partir daquele ponto eu já tinha companhia na ida, mas também era a partir dali que eu voltava sozinho. Mais uma caminhada de aproximadamente três quilômetros e encontrávamos outros três colegas, e só recordo o nome de um deles: Valdomiro. A distância muito grande para uma criança ir a pé, e tendo eu de passar por matagais, lugares desabitados e mal-assombrados, como acreditavam os antigos, eu ia com muito medo. Foi então que papai comprou um cavalo de pêlo tordilho, mas todos os dias era um sufoco: eu ia até o potreiro atrás do animal, corria como um louco para pegar o danado, mas ele era extremamente arisco e na maioria das vezes o recurso era ir a pé para não chegar atrasado. Nos dias de inverno, quando a aula terminava já estava próximo de escurecer muitas vezes cheguei em casa depois do anoitecer. Uma noite em que eu caminhava tranquilamente, voltando da escola, can-

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tarolando para espantar o medo, vi uma imagem bem na minha frente, que parecia um lençol branco. Sem tempo para raciocinar e movido por uma coragem momentânea, atirei-me em sua direção e o susto foi ainda maior ao cair numa lagoa, pois a imagem era da lua cheia refletida na água. No dia seguinte chegando à escola, fui logo contando para todos os colegas sobre a minha façanha, conseguindo assim admiração de duas irmãs: Iolanda e Elvira. Numa ocasião o nosso professor, um homem idoso, mas com muita iniciativa, resolveu fazer uma festa junina na escola, em benefício da mesma e convidou todos os alunos para ajudarem na organização, afim de que as despesas não superassem as receitas. A festa seria no domingo. Consegui a autorização do meu pai, mas na hora de sair de casa ouvi a seguinte recomendação: - Ajude no que for possível, mas volte cedo para casa. Não vai ficar até anoitecer. A festa foi maravilhosa e nem vimos o tempo passar. A noite se aproximava e meus colegas queriam ir embora. Cansados, mas felizes, procuramos o professor para nos despedir e ele nos segurou para continuarmos ajudando até altas horas. Quando a festa terminou este agradeceu-nos efusivamente, elogiando um por um. A comunidade agradecida também elogiava a iniciativa do professor e o trabalho em equipe dos alunos. Juntei-me aos meus colegas que moravam no mesmo rumo e fui convidado a dormir na casa de um deles, tendo em vista o mau tempo que se formava. Concordei, mas arrependi-me quando percebi que teria de dormir num galpão tendo por colchão milho em espigas, porém isto se tornou uma diversão e fizemos a maior bagunça guerreando com os sabugos. No dia seguinte, antes do dia clarear já estava rumando para minha casa, onde meu pai esperava com um “reio” na mão e não me poupou de uma “tunda”. Enquanto batia, ele exaltado repetia: - Pedro, eu não te disse que viesse cedo? Assim eram os antigos!... Nesta escola fiquei pouco tempo, pois devido à distância, meus pais acha-

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ram por bem que eu abandonasse os estudos, fato que muito me entristeceu. Na verdade, o que mais aprendi neste período foi trabalhar na roça para ajudar na subsistência da minha família. Meu pai era um homem simpático, trabalhador e tinha uma enorme facilidade para fazer amigos e desta forma conseguiu um pedaço de terra para plantar, com um vizinho que tinha um pequeno comércio, chamado João Gabardo. Como papai não podia sair do Posto Fiscal quem ia para a lavoura era eu, minha irmã Maria e minha mãe, que havia crescido cultivando a terra e tinha conhecimento de técnicas agrícolas e tempo de plantio das mais diversas culturas, e com ela aprendemos muito. Desta localidade tenho na memória a imagem de uma bica d’água construída por meu pai para trazer água até proximidades de nossa casa. A bica era comprida e bastante estreita, medindo uns 200 metros e desaguava à beira da estrada, onde todos os transeuntes paravam para saciar a sede, refrescar-se do calor e saciar os animais, pois naquela época o transporte era feito por carroças de tração animal, com dois, três, quatro e até oito cavalos. Quando estava tudo encaminhado, meu pai foi transferido novamente para prestar serviços no Posto Fiscal da Estação da Estrada de Ferro Paraná/Santa Catarina, na cidade de Rio Negro, e como era de praxe, meu pai conquistou vários amigos entre os comerciantes locais. Entre as amizades duradouras os senhores Orestes, Alfredo, Joãozinho e um primo destes, Sr. Sadi Pigatto, que era guarda-livros, tornou-se meu compadre e mais tarde apadrinhou o casamento do meu inesquecível filho Ubiracy Guilherme. Em 1934, meu pai foi transferido para o Posto Fiscal de Rio da Areia, no mesmo distrito na divisa do Paraná com Santa Catarina, próximo a União da Vitória, onde geralmente fazíamos nossas compras. Lá estudei mais uns meses num colégio do centro da cidade a uns quatro quilômetros de distância. Outra transferência do meu pai foi para o Posto Fiscal de Chapéu do Sol, também dividindo os estados sulinos, pelo Rio Iguaçu, e em seguida foi para Lençol, também na divisa; e neste período não freqüentei a escola. Já com 11 anos minha labuta começou com trabalho braçal, propriamente dito, já que não havia outra maneira de sobreviver e eu precisava ajudar a sustentar os irmãos mais novos. No lado catarinense, no povoado chamado Felipe Schmidt havia uma estação da estrada de ferro e um grande depósito de madeiras para exportação, as quais eram carregadas em grandes vagões para vários pontos do país. Ali sempre

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conseguia algum tipo de trabalho operacional, com os irmãos Lauro e Dorival Ribeiro, que contratavam diaristas para o carregamento da referida madeira. Sempre em duplas de trabalhadores, levávamos aproximadamente dez horas para a conclusão do serviço e nos sobravam alguns trocados ao final do trabalho: de dois a quatro mil réis por vagão. Levantava ainda de madrugada percorrendo aproximadamente oito quilômetros, atravessava o rio remando um pequeno bote, para chegar cedo ao trabalho, que era pesado para um garoto da minha idade, e depois de um dia inteiro carregando toras, ainda tinha de fazer todo o trajeto de volta, sempre a pé. Quando retornava eu só queria um banho relaxante, saborear a comida simples mais deliciosa da minha mãe e cair na cama para dormir quase imediatamente. Morávamos na divisa com o Paraná, bem na barranca do rio, junto ao porto das balsas, e no tempo das enchentes ficávamos isolados, a mercê de alagamentos, que acabavam com o trânsito normal, e além de tudo descia muita madeira que a correnteza arrancava das barrancas, e também alguns animais mortos pela ação da natureza, ameaçando os transeuntes ribeirinhos. Com muita cautela e paciência, conseguia-se fazer a travessia de canoa, somente em caso de necessidade extrema, pois o risco era grande. Nos fundos do Posto Fiscal estava a nossa casa, num local de baixada que ficava coberto pelas enchentes, e foram várias as vezes que tivemos de fazer mudanças para um lugar mais seguro, sob a pena de perder tudo, que já era pouco. Numa dessas enchentes a casa foi ameaçada por um desmoronamento e teve que ser amarrada em algumas árvores. Em 1936 papai foi transferido para o Posto Fiscal de Rio Preto, também na divisa entre os dois estados, e eu, com apenas treze anos de idade, continuava trabalhando sem serviços braçais. Minha família, bem como a de todos os imigrantes poloneses, era muito religiosa e não faltávamos às missas aos domingos, e quando eu estava com aproximadamente quatorze anos de idade, em companhia das minhas irmãs Maria e Laura fizemos a nossa primeira comunhão, na Igreja Nossa Senhora da Piedade, pertencente à Arquidiocese de Curitiba.

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Foto da 1ª Comunhão: Maria, eu e Laura.

Um dia eu fiquei doente com muita febre e com muita dor de cabeça, e mais uma vez os recursos médicos eram distantes, pois estávamos longe de tudo. Meu pai lembrou-se que a alguns quilômetros dali havia um casal de “bugres”. Ele chamado por todos de Machadinho, era um homem de baixa estatura, deficiente e tinha um enorme “cupim” sobre a sua coluna. Ela, uma negra também doente, sofria de um mal na visão, e enxergava quase nada. Foram buscar o tal Machadinho, e tão logo chegou foi preparando o remédio, com vários tipos de ervas: catinga de mulata, carqueja, cabelo de milho, erva mate, sal grosso e para completar a minha própria urina. Deram-me para tomar aquela beberagem e em alguns dias eu estava curado. Deste Posto Fiscal meu pai voltou para a Lapa onde trabalhei como empregado de serrarias e fábricas e também na Cia. De Estradas Lizímoco Franco Pereira da Costa, na época em que estava em construção a estrada ligando a Lapa a São Mateus do Sul, onde fui encarregado do armazém e do escritório.

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Pedro Corrêa  
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