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22 conversas sobre formação em arte e cultura


22 conversas sobre formação em arte e cultura

PROGRAMA DRAGÃO DO MAR EDUCATIVO NÚCLEO DE FORMAÇÃO EM ARTE E CULTURA


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É pelo sonho que vamos... Quando penso em formação em arte e cultura, lem-

O Núcleo de Formação em Arte e Cultura traz de

bro de uns versos do poeta português Sebastião

volta ao Centro Dragão do Mar ares de escola, agre-

da Gama. É mais ou menos assim: “Pelo sonho

gando também outros equipamentos do entorno,

é que vamos. Comovidos e mudos. Chegamos?

além de ocupar o espaço da Capitania dos Portos

Não chegamos? Haja ou não frutos, pelo sonho

que hoje chamamos de forma otimista e simbólica

é que vamos”.

de Capitania de Arte e Cultura. E todos nós somos um pouco responsáveis por isso.

E foi pelo sonho que em 2010 vimos o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura retomar, de for-

Então, vale destacar a sensibilidade e a atenção

ma gradual, mas não menos apaixonada, as suas

na área da educação que o Governo do Estado,

ações de formação. Seminários críticos com con-

na pessoa do Governador Cid Ferreira Gomes,

vidados e olhares diferenciados em relação a as-

tem tido com os três equipamentos geridos pela

suntos que pulsam nos ideais dos que trabalham

Organização Social – Instituto de Arte e Cultura

com arte, com educação ou que simplesmente

do Ceará - IACC (Centro Dragão do Mar de Arte

sonham com a leveza da transformação propor-

e Cultura, Centro Cultural Bom Jardim e Escola

cionada pelo acesso a cultura e ao conhecimen-

de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho). É

to. É como abrir caminhos para o pensar.

a formação em arte mais perto das pessoas. É o Centro Dragão do Mar desempenhando seu pa-

Nas oficinas e cursos, um público com grandes

pel de aglutinador da diversidade cultural e pro-

expectativas em relação ao que o Estado pode

porcionando o encontro das pessoas. É a cultura

oferecer – e receber – ao tornar acessível a for-

tomando conta do nosso Estado.

mação em arte. E é exatamente aqui que somos todos iguais. Buscamos conhecimento, reflexões,

Maninha Morais

olhares críticos e propostas de um mundo melhor.

Presidente do Instituto de Arte e Cultura do Ceará

E muitas vezes, essa perspectiva, aliada ao sonho, só se dá pela arte. O que o Programa Dragão do Mar Educativo - Núcleo de Formação do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura faz, por meio de uma equipe extremamente comprometida para trabalhar a formação, é resgatar a proposta de que ‘discutir arte e cultura precisa estar na pauta do dia’.

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Arte, Invenção e Experiências Formativas Situando o tempo presente como uma época de in-

o amadurecimento dos circuitos de arte do estado,

compreensão, Edgar Morin propõe uma iniciação à

nos empenhamos em rearticular as ações de forma-

lucidez, caracterizada pelo aprendizado da auto-ob-

ção no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Em

servação, e, junto a isso, a percepção, a aceitação

cinco meses de atuação do Núcleo de Formação

e a superação dos próprios erros. Destaca ainda a

em Arte e Cultura foram realizadas 77 oficinas, em

importância da autonomia do espírito, e atesta que

diversas linguagens, que ultrapassaram os limites

“a missão do didatismo é encorajar o autodida-

do centro cultural, espalhando-se por seu entorno:

tismo”, nos apresentando a arte como escolas

SESC SENAC Iracema, Teatro das Marias, Alpendre

de vida, em seus múltiplos sentidos: escolas da

– Casa de Arte, Pesquisa e Produção e na comu-

qualidade poética da vida, da emoção estética e

nidade do Poço da Draga. Também aconteceram

do deslumbramento.

3 grandes seminários interdisciplinares: Arte, Invenção e Experiências Formativas, realizado no Teatro

Dessa forma, pensar em arte e educação pode ser

Dragão do Mar; Os Sentidos da Arte, realizado em

pensar na invenção de um lugar possível, habitação

parceria com o Memorial da Cultura Cearense, no

compartilhada onde existência e experimentação

Auditório Dragão do Mar; Experiências inovadoras

não sejam estranhas uma a outra, e onde haja espa-

no Mercado de Arte Brasileiro, realizado em parceria

ço não só para a afirmação da diversidade, mas so-

com o Sobrado Dr. José Lourenço, no próprio es-

bretudo para a instauração da adversidade – como

paço do Sobrado. Além disso, mais dois programas

nos convocou Hélio Oiticica. Nesse processo, dife-

de seminários foram criados: o ciclo de Seminários

rentes maneiras de fazer contribuem para a reconfi-

Críticos – Arte e Território, que realizou 4 apresenta-

guração de pertinências, relevâncias, territórios, re-

ções; o ciclo de Conversas Itinerantes, que realizou

definindo constantemente sua produção de sentido

4 apresentações em diferentes instituições ou even-

e os pactos estéticos anteriormente firmados.

tos parceiros (Sobrado Dr. José Lourenço, Vila das Artes, For Rainbow).

De que dimensões precisamos dar conta em nossos processos formativos a fim de conseguirmos

O que se apresenta nas páginas seguintes é parte

lidar com a desterritorialização provocada pela arte,

dos resultados do trabalho realizado pelo Núcleo em

sobretudo pela arte contemporânea? Como trazer o

um semestre de atuação. Esta pequena publicação

imponderável da desestabilização para nossos pro-

certamente não pretende ser registro nem balanço

cessos de ensino-aprendizagem, abrindo espaço

de todos os acontecimentos promovidos, mas apre-

para experiências e acontecimentos que não se en-

sentar mais um olhar sobre a qualidade dos encon-

quadram nas categorias delimitadas pelos sistemas

tros realizados, além de tornar evidente a potência

oficiais de arte?

transformadora das ações de formação.

Com o objetivo geral de manter essas e outras per-

Andréa Bardawil e Enrico Rocha

guntas atuantes, de modo que contribuíssemos para

Coordenação Pedagógica

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Oficina “Corpo e Novas Tecnologias com Isadora 1.3 – vídeo e interatividade em tempo real”, com Armando Menicacci e Aspásia Mariana.

Oficina “Criando imagens para a cena”, com Marina Carleial.


Oficina “Dançando com nossas urgências”, com Ricardo Marinelli.

Oficina “Guias afetivos”, com Marcus Faustini.

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Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas.

Helder Vasconcelos no Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas.


Espetáculo “Como um risco em papel”, de Marcela Reichelt, no Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas.

Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas.

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A conversa poderia se estender por horas. O pen-

existe a filosofia de um lado, a literatura ou o cinema

samento de Daniel Lins desconhece limitações: de

de outro. Aonde tem invenção, a filosofia está. To-

território, de formação, de tema. É bem verdade que

das as ciências, mesmo as ciências “duras” como

o mote - os limites entre invenção e criação - dava a

a matemática, ajudam a formar a filosofia. É por isso

deixa para voos altos. Mas como filósofo ciente de

que temos Jacques Monod (biologista francês), que

uma missão - “criar problemas” - como ele mesmo

foi agraciado com o Prêmio Nobel. Seu livro, que se

diria, o professor da Universidade Federal do Cea-

chama “O Acaso e a Necessidade”, é estudado nas

rá cutuca pequenas e grandes verdades estabele-

grandes escolas de filosofia do mundo. Deleuze e

cidas, aqui e acolá, num fluxo de consciência que

outros contemporâneos nunca se furtam de traba-

parece não se esgotar.

lhar com ele. A ideia do caos como uma ordem, que é um conceito filosófico, vai ser trabalhado pela física

Para esse ex-aluno de Gilles Deleuze, a sociedade

quântica de maneira profunda.

está carente de invenção. No jargão de Lins, signi-

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fica sair da zona de conforto em busca do novo, da

A universidade ainda se furta de promover esse di-

diferença, da afronta aos próprios medos. Enclau-

álogo entre as diversas ciências, sobretudo na área

surados na rotina da criação, para Lins sinônimo de

das ciências humanas?

reprodução, desaprendemos a valorizar a perspectiva do outro.

Não é um problema da universidade. Aqui ninguém se aproxima da diferença. “Eu sou dançarino, vou

Lins acampou nessa fronteira tênue em sua partici-

ver os espetáculos de dança. Eu sou do teatro, vou

pação no seminário Arte, Invenção e Experiências

para os espetáculos de teatro.” Essa mistura, aqui, é

Formativas. Sua fala, Invenção e Criação, revisitou

muito complicada. Por exemplo: um simpósio assim

momentos em que o caráter inventivo ficou sufoca-

importante, como este Seminário Arte, Invenção e

do, como a Idade Média. Nos dias atuais, pontuou o

Experiências Formativas. Seria interessante, como

professor da Universidade Federal do Ceará, reina a

os sociólogos adoram, fazer uma enquete para sa-

reprodução, em detrimento do novo.

ber quem está aí. Que nós fizemos, quando tivemos o Simpósio de Filosofia. E era incrível: iam dois dançarinos que eram amigos nossos, um ou outro do

O senhor defendeu que a invenção está diretamente

teatro apareciam. Esse problema da presença, do

ligada à filosofia. O senhor acha que nas outras ci-

esprit du corps, do espírito de corpo, como os fran-

ências humanas o espaço para a invenção está um

ceses falam, esse não é um problema da universida-

pouco, digamos, oculto?

de. Ela vive essa questão.

Digamos que a filosofia não está desligada das ou-

Ela promove isso.

tras áreas, das outras ciências. Imagine Platão sem as cavernas. Imagine (Giorg) Hegel (filósofo alemão),

Ela não promove nada. A universidade não inven-

que escreveu sobre a estética, sem os poetas. Não

ta as coisas. Trabalha com os saberes. Então, se


DANIEL LINS A indiferença à diferença

a universidade se fecha, evidentemente ela não vai

Sobretudo de segurança contra o novo. Você pode

promover. Vai agir exatamente como nós fazemos

estar fazendo o novo numa área, mas não vai se

na cidade e como nós fazemos no estado do Ceará.

contaminar com outra área. “Nós aqui do Ceará so-

Poderíamos falar do Brasil, mas falo daqui porque é

mos os melhores, não precisamos de nada. O dan-

um caso bem sério, que inclusive já foi estudado. E

çarino sabe de tudo, dança muito bem, as críticas

por que não se misturam? O que é isso? É um pro-

são maravilhosas, tudo é bom, somos perfeitos...”

blema geral de uma certa mentalidade que é nossa.

Então, quando a gente se coloca na posição da críti-

É diferente em São Paulo? É. Mas São Paulo está

ca, você pode perder amigos aqui. Há um problema

cheio de nordestinos. Então, temos cabeça aberta.

que eu chamaria de invenção de um modo de vida,

Não se trata, dessa forma, de uma fatalidade. Lá, ele

mais do que outra coisa. É difícil conviver com a críti-

se deixa contaminar. Mas aqui dentro é muito difícil.

ca no Ceará. É um problema de todo o Estado. Não dá para ver o culpado na história. Não há culpados.

Seria uma recusa à invenção? Daniel Lins Não diria que é recusa. É uma espécie de indiferen-

Sociólogo, filósofo e psicanalista, com doutorado

ça à diferença. São compartimentos. Isso é próprio

em Sociologia pela Université de Paris VII - Université

das utopias. Eu estou no teatro então eu crio uma

Denis Diderot (1990) e pós-doutor em Filosofia pela

utopia. Estou no Departamento de Física, eu crio

Université de Paris VIII (2003). É professor associado

uma utopia. A Física é minha coisa, é meu lar. Todos

de Filosofia no Departamento de Educação da Uni-

estão nos mesmos lugares. Isso é utopia.

versidade Federal do Ceará e pesquisador do Conselho de Educação do Ceará, além de coordenador

São lugares de segurança.

do Laboratório de Estudos e Pesquisas da Subjetividade (LEPS/UFC) e Coordenador do Simpósio Internacional de Filosofia - Nietzsche/Deleuze.

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HENRY BURNETT

A música popular à luz da filosofia

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O professor da Universidade Federal de São Pau-

Como a sua experiência com música lhe ajudou a

lo e músico Henry Burnett tem buscado em fontes

pensar os temas que você trata na academia: o sta-

tão díspares quanto o alemão Theodor Adorno e o

tus da música popular, a música de entretenimento?

brasileiro Mário de Andrade a explicação para um fenômeno que está debaixo de nossos narizes - e

Trabalho com música há bastante tempo, na prática,

sobretudo, dentro de nossos ouvidos: a hegemonia

antes de qualquer perspectiva de trabalho acadêmi-

da música de consumo em nosso país.

co. A música veio em primeiro plano, aos 16 anos já compunha, mesmo que de uma forma diletante.

A resposta definitiva ainda não chegou, mas algu-

A filosofia veio bem depois. Feito um balanço dos

mas pistas vão delineando um cenário complexo.

últimos 20 anos, posso dizer que o músico é uma

Um exemplo: diferente de outras nações, o Brasil

espécie de antídoto contra o que a universidade, a

(ainda) conserva uma cultura popular, enraizada no

filosofia e a academia pode conter de aprisionamen-

interior do País e matéria-prima de apropriações di-

to. Do pensamento, das amizades, das ideias.

versas. As duas coisas (a música e a academia), em algum “É como se fosse uma espécie de patrimônio ima-

momento pareceram incompatíveis para você.

terial que precisa ser protegido. E aí me parece que existe um equívoco muito grande. Revelar a cultura

Foi uma grande dificuldade para mim. Posso dizer

popular é também desconstruí-la, destruí-la, reduzi-

sem nenhuma vergonha que estive em crise por

-la a um objeto primitivo de observação da alta cul-

pelo menos uma década, achando que o profes-

tura”, diz Burnett, que apresentou a fala “Adorno e

sor assassinaria o compositor. Passada a tormenta,

Mário de Andrade: duas visões da educação pela

posso dizer hoje que uma coisa complementa a ou-

música” no Seminário Arte, Invenção e Experiências

tra de modo inequívoco e, a essa altura, inseparável.

Formativas.


Até que ponto esses objetos de estudo que você

as novas tecnologias que vão midiatizando todo tipo

elegeu - objetos artísticos, que dialogam com a es-

de relação? Você acha que a cultura popular passa

fera da subjetividade - se prestam a esse enquadre

ao largo disso ou vai sendo incorporada nesse fluxo?

científico, que a academia exige? Essa é a pergunta mais difícil. O que a gente conEu compliquei um pouco a minha própria vida. Es-

segue perceber é que a cultura popular permanece

tudar a canção popular como objeto científico, diga-

viva no Brasil, ainda que seja em lugares ermos do

mos assim, como objeto passível de análise, dentro

país. Eu estou falando da cultura popular atrelada à

da universidade, no Brasil, não é uma coisa muito

colheita, à religiosidade popular, ou seja, em relação

simples de ser feita, por incrível que pareça. Princi-

a tudo aquilo que o Mário de Andrade vislumbrou em

palmente na filosofia, eu diria. Hoje em dia, a literatu-

1938, na década que ele viajou pelo Norte e Nor-

ra, a musicologia, a sociologia, a história, tratam do

deste, e permanece vivo. Existe hoje uma espécie

tema com muita seriedade. Mas a filosofia da arte,

de apropriação desse tipo de produção. É como se

a estética, que são os ramos da filosofia (que lidam

fosse uma espécie de patrimônio imaterial que preci-

com o tema) são muito reticentes com esses obje-

sa ser protegido. E aí me parece que existe um equí-

tos. É certamente muito mais simples para um filó-

voco muito grande, de revelar a cultura popular den-

sofo profissional estudar, digamos, a Terceira Crítica

tro de um esquema consciente, industrial. Revelar a

de Kant do que o cancioneiro brasileiro, que parece

cultura popular é também desconstruí-la, destruí-la,

não ser um objeto digno da filosofia. É uma postura

reduzi-la a um objeto primitivo de observação da alta

um pouco hierárquica. Como isso não faz sentido

cultura. Isso é um equívoco em que o pr��prio Mário

nenhum para mim, então eu talvez tenha aberto uma

incorria àquela altura. Então, o destino da cultura po-

espécie de trilha. Depois que comecei a estudar a

pular no Brasil é absolutamente insondável.

canção popular, através de Nietzsche, de Adorno, de Mário de Andrade, senti que havia uma demanda reprimida de alunos interessados em estudar os pro-

Henry Burnett

cessos composicionais, mas não sabiam nem onde

É músico e professor adjunto do Departamento de

nem como. E me procuram com muita satisfação,

Filosofia da Universidade Federal de São Paulo (Uni-

como se houvesse uma necessidade guardada e

fesp). Tem doutorado em Filosofia pela UNICAMP

não houvesse onde canalizar tudo isso.

(Campinas, 2000 e 2004) - com estágio de pesquisa na Universidade de Leipzig (Alemanha, 2003-4)

Como você concebe a cultura popular, que segundo

- e Pós-Doutorado pela USP (São Paulo, 2006). De-

você permanece e “respira” no Brasil, tendo em vista

senvolve projetos de pesquisa em estética e filosofia da arte.

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Uma geração de crianças com ouvidos sujos,

Durante o evento, você falou em reeducar o ouvido

alheias aos barulhos mais sutis do mundo. Ainda há

em busca de novos sons e novas percepções do

tempo, porém, de oferecê-las um “cotonete”. Não

mundo. No entanto, a nossa sociedade parece não

se está aludindo aqui a um problema propriamente

ligar muito para isso. Como dar o primeiro passo?

de saúde. A imagem é uma metáfora da nossa incapacidade em perceber o mundo ao nosso redor fora

Na verdade, isso começa com uma mudança de

dos paradigmas do olhar. Essa escuta mais atenta é

consciência. Existem exercícios para você chegar

defendida pelo compositor, pianista e professor Tato

a isso. Há exercícios, alguns inclusive feitos para a

Taborda, que participou do Seminário Arte, Invenção

sala de aula, capazes de ampliar essa capacidade

e Experiências Formativas.

de escutar a voz do mundo, a maneira complexa com que ele fala. Isso, é claro, não se dá de um

O artista ministrou a palestra Laboratório de Audio-

momento para outro, mas isso pode começar nas

nutrição – a música como ferramenta cognitiva na

escolas, desde cedo. Para que, depois, a gente

música e fora dela, defendendo uma “pequena revo-

não tenha que tirar aquelas “crostas” que a gente

lução”, em suas palavras: deixar de pensar a escuta

vai acumulando no ouvido, até por defesa de uma

como um dado periférico, subjugado ao olhar.

paisagem sonora tão agressiva que nos cerca.

Taborda defende, na conversa a seguir, a atualiza-

Hoje a gente vive num mundo cercado por poluição

ção - antes conceitual do que tecnológica - de nos-

sonora, esse é um problema com o qual os gover-

sa educação musical. E critica o “lixo jogado no ar”

nos tem se deparado. Você acha desaprendemos a

pelas vias da poluição sonora.

colocar som no mundo, digamos assim?


TATO TABORDA Por uma nova paisagem sonora

Perdemos a mão completamente. O som é a fon-

pode ser mantida à margem. Sob o risco de você

te de problemas. Na verdade, em termos políticos,

se defender dela e permitir que ela cresça desorde-

uma das maiores razões de reclamação do indivíduo

nadamente e não ter mais capacidade de interferir.

ao poder público é a agressão por conta de som. O som que você gera a mais é lixo que você joga no ar. E não se tem muita dimensão que é assim. O resultado são camadas e camadas de poluição que cada cidadão, inadvertidamente, despeja e força os seus semelhantes a escutar. Que avaliação você faz do acesso à educação musical aqui no Brasil, de maneira geral? Acho que não está desvinculado da questão edu-

Tato Taborda

cacional como um todo. Está tão deficiente quanto

É músico. Ligado à música contemporânea, Tato

a educação de uma maneira mais ampla. Está muito

Taborda leva ao palco carioca experiências sonoras

atrás das necessidades do mundo em que a gente

com objetos de cena, além de composições origi-

vive. Eu não falo nem em termos tecnológicos, falo

nais e arranjos para musicais. Em 1998, concluiu

em termos conceituais. É realmente muito defasado.

mestrado em música brasileira pela Universidade

A música se transformou muito, a paisagem sono-

do Rio de Janeiro (Uni-Rio). Desenvolveu inventos

ra ao redor das escolas de música - vou tomar as

com o “homem-banda”, uma estrutura de 60 instru-

escolas de música como parâmetros desse ensino

mentos acústicos e eletrônicos - do violão a panelas

de música - se transformou brutalmente e ela não

- manipulada por um músico, que usa para isso a boca, a cabeça, as mãos e os pés.

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WILSON SUKORSKI

Invenções feitas de dissonâncias

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A intervenção apaixonada e informativa do músi-

Tem uma frase do Samuel Beckett, um autor de te-

co, compositor e designer de instrumentos Wilson

atro, que diz: “É errar, errar de novo, errar melhor”.

Sukorski no Seminário Arte, Invenção e Experiências

Então isso é uma coisa que tem a ver com o que

Formativas, fez jus a diversas gerações de músicos

você estava dizendo. O meio tecnológico em si, as

que transgrediram as fronteiras do erudito, a partir

pessoas tem um pouco esse medo de que o meio

da experimentação permitida pelo advento dos ins-

tecnológico pode falhar. Um violão pode quebrar a

trumentos eletroacústicos e eletrônicos. Era o início

corda no meio do concerto, um violino também. Um

de uma música em que dissonâncias, sons sintéti-

instrumento é uma máquina do mesmo jeito. A ideia

cos e atonais traziam à tona uma nova condição dos

moderna é que o instrumento é uma máquina que

compositores: a de cientistas em busca de criações

transforma força mecânica em som. O instrumento

aperfeiçoadas.

eletrônico é a mesma coisa. Ele transforma a sua capacidade áptica - que é o jeito de você tocar, os

Era a própria história de como a invenção pode mu-

dedos - ele transforma isso em som também, de

dar o mundo, justamente um dos temas mais re-

várias maneiras. Hoje em dia o que nós temos é uma

correntes do Seminário. Sukorski mostra, no bate-

vantagem, uma diversidade enorme de instrumentos

-papo a seguir, como a técnica e a formação formam

que a gente não tinha. Hoje em dia há a possibilida-

a base de conhecimento sobre a qual músicos (e

de de instrumentos virtuais de toneladas, coisa que

outros artistas) podem experimentar.

você não tinha há 10 anos.

Quando dependemos da mediação de aparelhos

Essa atualização é muito frenética.

eletrônicos ou elétricos, estamos propensos ao erro, ao inesperado. Você acha que uma das sacadas de

Isso num certo sentido é legal. Demonstra que a

pessoas como John Cage e Stockhausen foi jus-

gente está evoluindo e isso só pode ser do bem.

tamente perceber que o inesperado ou aquilo que

Se você tem mais ferramentas para fazer música,

pensamos ser erro poderia ser incorporado à músi-

teoricamente você vai fazer música melhor.

ca? Faz sentido?


Por outro lado, tem uma questão que se levanta. Al-

caras falaram assim pra mim: “Eu não vou estudar

guém vê um DJ tocando e diz: “esse cara não sabe

música. Não quero ouvir (Karlheinz) Stockhausen

música”. Muita gente costuma associar a eletrônica,

(compositor contemporâneo alemão), porque não

o uso desse maquinário, a uma suposta redução da

quero me influenciar. Daí eu falei que se você não

capacidade de se fazer música.

ouvir o Stockhausen, não souber o que o Stockhausen fez, você vai tender a repeti-lo e, pior ainda,

Sabe como se fala DJ em português de Portugal?

numa chave muito mais primitiva do que ele. Por

É “giro-disquista”. Eu acho que é uma transição, na

quê? Porque você está querendo fazer uma coisa

verdade. À medida que os instrumentos musicais

sem fazer a coisa. Para fazer música eletrônica, você

foram disponibilizados para muito mais pessoas... A

tem que conhecer música eletrônica. Tem que ter o

ideia do DJ é a de ser um animador da festa. Então,

ouvido aberto o máximo possível. O cara que repete

qual a tecnologia dele? É escolher a música certa

é o famoso trouxa.

para animar a pista, não deixar a peteca cair. Tem uma frase muito legal do Buckminster Fuller que fala assim: “No tempo de paz, as pessoas dançam. No tempo de guerra, elas marcham.” Então, eu prefiro que tenham DJs tocando para as pessoas dançarem, do que elas marchando, o que é pior! Obviamente, nada abole o ensino, estudar. Qualquer pessoa que queira fazer alguma coisa na vida, não adianta achar que você vai sentar e cair no seu colo

Wilson Sukorski

a arte, a música, ou que você é genial. Só existe

Compositor, músico eletrônico, performer multimídia,

uma possibilidade: estudar. Até hoje eu adoro es-

criador/produtor de conteúdos musicais para rádio/

tudar.

vídeo/cinema, designer e construtor de instrumentos musicais inusitados e pesquisador em áudio digital.

É preciso conhecer o cânone para poder transgredi-

Compõe para cinema, vídeos experimentais, instala-

-lo, é mais ou menos isso?

ções de áudio arte, arte urbana, arte e novas mídias; além de se apresentar como performer musical em

É claro. Eu tava na Europa agora, conversando com

shows e performances monoband, no Brasil e com

compositores bem jovens, no Audio Art Festival. Os

forte carreira internacional.

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Fotografia para ver, mas também para pegar, para

que antecede a minha formação. Minha formação

reconhecer-se, para entender mais sobre o mundo.

religiosa já previa que você está aqui para fazer al-

Para além da superfície visível, a “escrita da luz” -

guma coisa, que traga benefícios para todos. Então

como podemos traduzir o termo grego fotografia - é

eu não vi muito, na função de engenheiro, no que eu

depositária de anseios, possibilidades e saberes. O

poderia ser útil. Eu ia entrar numa máquina, ia criar

paraense Miguel Chikaoka coloca em prática, em

coisas, mas nessa estrutura que até hoje persiste,

sua ONG Fotoativa, essa visão de fotografia trans-

que é essa desigualdade retroalimentada pelo nosso

disciplinar, potencialmente transformadora e despida

próprio sistema. Então surge na fotografia essa his-

de excessos.

tória de expressar essa angústia, esse ver crítico. A fotografia me leva a esse caminho de descobrir, pela

20

Em sua participação no Seminário Arte, Invenção e

própria necessidade de retroalimentar essa aprendi-

Experiências Formativas, o fotógrafo, educador e ati-

zagem, conhecimento técnico, científico, histórico,

vista cultural lançou foco sobre o elemento básico

social... você vai encontrando um aprendizado tam-

da fotografia: a luz, entendida como potência capaz

bém pelo viés do outro olhar, de quem está na sua

de interferir em nossas percepções cotidianas.

frente. Vou encontrar um campo vastíssimo que nos leva a encontrar a luz, algo universal, essencial, vital,

O interesse pelo essencial, no entanto, não leva

que é cara a todos nós, e para a qual não damos um

Miguel Chikaoka pelo caminho fácil do desapreço

olhar que mostre as possibilidades que ela oferece.

pelas tecnologias digitais que popularizaram a fotografia. Longe disso, ele considera tais dispositivos

Quando você fala sobre a ideia de luz como algo

extensões do que já fazemos mentalmente ou do

essencial, isso parece nos convidar a voltar para os

que já púnhamos em prática na fotografia analógica.

elementos essenciais da fotografia, a luz e a sombra.

No bate-papo a seguir, Chikaoka fala sobre educa-

Num contexto em que se tem muita manipulação de

ção e a própria experiência no exercício da mudança

imagens, ao bel prazer das pessoas, falta essa com-

de olhares. Confira.

preensão mais básica do que luz e sombra podem fazer?

Você mostra interesse pela fotografia como uma série de processos, algo além do visível, do superficial.

Esse campo da finalização do processo, da captu-

Como esse interesse foi se consolidando na sua tra-

ra da imagem, é uma pequena parte daquilo que

jetória?

está posto no percurso. O que se faz hoje, é claro, é resultado de um avanço tecnológico, do conheci-

No início da minha carreira como fotógrafo, houve

mento humano. Mas você sabe que a manipulação

o deslocamento de uma profissão que apontava

que é feita hoje, se faz na mente. A possibilidade

para uma afirmação na sociedade - ser engenheiro,

que temos hoje de gravar, mostrar num monitor, está

formado pela Unicamp, te dá um suporte, digamos

no mesmo modo, semelhante ao que nós temos no

assim. Você fica “bem na foto”. Mas havia dentro de

cérebro. É um universo paralelo à manipulação que

mim essa inquietação: pra quem eu vou entrar nessa

também fazemos na mente. Não estou aqui conde-

profissão? Para o benefício de quem? Isso é algo

nando as pessoas que mergulham e ficam horas lá


MIGUEL CHIKAOKA

Os flashes de uma fotografia transformadora

manipulando imagens. São coisas... Eu poderia es-

Claro que isso é do prazer, e da curiosidade que ele

tar mergulhado num laboratório fotográfico. O que

desperta (com a atividade), o interesse de gostar de

interessa é no que isso resulta em termos de cresci-

falar sobre esse assunto. O grande problema dos

mento do indivíduo, com uma consciência planetá-

traumas que nós carregamos, de não gostar disso

ria. Eu sempre me pergunto: por que isso acontece?

ou daquilo, pode estar num erro durante o processo.

Para quê? Não olhar apenas para o passado, mas

“Destesto ciências exatas”, “não gosto de biologia”.

também para frente.

Isso pode vir de uma experiência não agradável, prazerosa, instigante. O educador não pode enxergar

Como na prática os educadores inseridos no siste-

isso como ensino de fotografia nunca. Ele tem que

ma de ensino formal podem se aproveitar de ideias

enxergar o percurso interessante para a obtenção

e práticas da fotografia para levarem isso até a sala

de uma imagem.

de aula? Acho que ter uma experiência mínima, para viven-

Miguel Chikaoka

ciar um processo básico em algumas atividades. Ter

Miguel Chikaoka é fotógrafo. Reside em Belém des-

um olhar crítico e visualizar algo que ele considere

de 1980, onde criou a Fotoativa, um núcleo de re-

passível de ser introduzida na prática. Saber que,

ferência na formação do pensamento de parte de

por exemplo, um professor de matemática, ele pode

fotógrafos paraenses contemporâneos. Como fo-

enxergar, em algum momento do processo, algo

tógrafo free lancer, iniciou a carreira nos anos 80,

que potencializa a discussão sobre a questão das

produzindo foto-reportagens e documentários para

formas geométricas ou do sistema métrico. Ele pode

os Jornais “Resistência”, da Sociedade Paraense de

construir uma câmera, que é um objeto tridimensio-

Defesa dos Direitos Humanos, e “Movimento” (SP) e

nal, que é uma forma geométrica, que tem uma me-

a Agência F4 (SP). No início dos anos 90, criou sua

dida, e que no final vai nos permitir ver uma imagem.

própria agência, a Kamara Kó Fotografias.

21


JOÃO KULCSÁR

A imagética e sua gramática

22

Desde que as primeiras pinturas passaram a com-

João, a ideia de alfabetização ou letramento visual

por nosso cenário de possibilidades expressivas,

tem entrado com força na universidade. Até áreas

a ideia de uma alfabetização visual já se mostrava

como a Linguística, historicamente preocupadas

pertinente. Afinal, há coisas que só se podem “di-

com a palavra escrita, tem aberto espaço, o que

zer” com imagens. Mas, enquanto o Ocidente chan-

aponta para uma quebra de paradigma. Que impac-

celou, por séculos, a primazia da cultura escrita, o

to você enxerga nisso, em médio prazo, para os pro-

interesse pela questão permaneceu em segundo

cessos educacionais?

plano. No Brasil, comunicólogos e linguistas tem se debruçado, aos poucos, sobre o assunto, num ritmo

Há pouca coisa sendo feita no Brasil. É uma grande

ainda incompatível com o volume de imagens por

oportunidade. Em países como a Inglaterra, Esta-

nós consumidas a todo momento.

dos Unidos, Nova Zelândia e Austrália, isso é muito discutido em seminários, encontros. Temos tentado

O coordenador do projeto Alfabetização Visual e

fazer algo parecido aqui, mas está bem no começo.

professor do Senac/SP, João Kulcsár, sabe bem

É um grande campo de atuação para quem quer

disso. Depois de um mestrado na Inglaterra - um

discutir, e é aberto. Tem um outro campo também

dos países onde o tópico alfabetização visual é am-

que é o da cultura visual. É esse campo que en-

plamente discutido - ele voltou ao Brasil e percebeu

globa antropologia, sociologia, publicidade, artes.

que teria de espalhar a mensagem: é possível ler,

As pessoas estão percebendo isso. Estamos ainda

escrever e se fazer cidadão por meio das imagens.

atrasados, mas é um bom caminho para se seguir.

Veja a seguir um bate-papo com Kulcsár, que par-

Esse bombardeio midiático que a gente sofre hoje é

ticipou do Seminário Arte, Invenção e Experiências

capaz de fornecer uma espécie de letramento intuiti-

Formativas discorrendo sobre letramento visual e

vo para as pessoas? As pessoas já tem uma educa-

manipulação de imagens.

ção para as mídias, talvez não formal?


Todo mundo tem um grau de alfabetização visual. A

manipuladas digitalmente viessem com avisos aos

ideia de alfabetizar visualmente é desenvolver isso

consumidores? Essa é uma medida que tem sua

e ser crítico em relação a esses processos. Se fo-

eficácia?

tografia é escrever com a luz, você também pode aprender a ler e aí entramos na questão do letra-

Essa é uma questão de educação. Apesar disso,

mento visual. Os jovens que chegam estão muito...

em outros países, como Portugal, as propagandas

Continuam, cada vez mais, saturados (de imagens).

entram no ar com um aviso: “Informe Publicitário”.

Eles tem de 5 a 20 mil imagens que consomem por

Alguém pode alegar que isso não é necessário,

dia. De uma forma ou de outra ele vai aprendendo.

porque as pessoas sabem... Não. É incrível como

Mas como você vai organizar esse aprendizado?

algumas pessoas acreditam naquilo que veem.

Como vai fazer isso de uma forma que seja aprovei-

Você viu os exemplos (da palestra)? Aquelas fotos

tada na escola pública, pelos professores de Língua

mostram que a fotografia é muito da opinião do fotó-

Portuguesa ou Matemática? Você vai para a escola,

grafo. Acho que é uma questão de educação, mas

aprender Matemática. Há muitas imagens interes-

é preciso a regulamentação. A publicidade é muito

santes e sedutoras (fora da sala), e quando você

largada no Brasil. É absurdo o que é feito para crian-

chega na escola, tem lá: “a, b, c, d...” Por que não

ça. Na TV a cabo, na hora das propagandas, o som

pode usar imagem? O professor tem esse receio de

aumenta, isso é uma agressão para a criança.

usar imagem, porque ele não domina a técnica. É uma questão básica: técnica, estética e ética. Temos que discutir esse tripé. Não podemos também nos deixar seduzir pela tecnologia. Temos que desconstruir o ambiente, as ideias... Esse jovem vem, mas a imagem é mais “ambiente”. Minha filha foi

João Kulcsár

criada num ambiente de imagens diferente do meu.

É professor de fotografia. Criou o projeto Alfabetiza-

Mas, de todo mundo, isso precisa ser implementado

ção Visual no Centro Universitário SENAC, que ca-

na escola pública, de uma forma que desenvolva o

pacita deficientes visuais na utilização da fotografia

letramento visual.

como forma de expressão. Possui Mestrado em Artes pela Universidade de Kent, na Inglaterra. Foi

Como você avalia o projeto em tramitação, no Con-

professor visitante na Escola de Pós-Graduação em

gresso Nacional, que faria com que as imagens

Educação da Universidade de Harvard, EUA.

23


24

A empolgação e a eloquência de Marcus Faustini

periferia não se limita às representações que cos-

ao falar de seus projetos servem como cartão de

tumamos ver, como a ideia de que, apesar de po-

visita deste carioca. Não só. São portas de entrada

bre, ele é um cara bacana. Isso é querer ver uma

para plateias - como a do Seminário Arte, Invenção

essência no cara da favela. Queríamos extrapolar

e Experiências Formativas - a um universo em que

essa ideia do essencialismo, que em filosofia já está

termos da moda como “protagonismo juvenil” são

superada. Foi por achar que o homem tem essência

ressignificados de forma radical.

que o nazismo surgiu. Não estamos preocupados com a essência, o homem simplesmente existe!

O que dizer, por exemplo, da Escola Livre de Cine-

Não se pode achar que a favela é uma coisa só.

ma de Nova Iguaçu - projeto do qual é mentor? O

Na favela onde eu cresci, o Cesarão (no Rio de Ja-

concorrido centro de formação faz dos alunos (e de

neiro), exista a Zona Norte a Zona Sul. Não dá para

suas ideias) artífices do empoderamento pela arte.

achar que favela é tudo igual. A favela não pode ser

Coisa que o próprio Marcus viveu em anos militando

mais vista como um tema. A favela precisa ser vista

no movimento estudantil, no teatro e no audiovisual.

como um suporte. Um suporte para diversos tipos de arte. Queremos dar ferramentas para os alunos

Faustini gosta de usar o verbo “operar” para desig-

operarem o mundo, buscando referências diversas

nar esse delicado processo, em que pessoas en-

para construir suas subjetividades. A partir disso fo-

contram a própria voz, ou as próprias imagens, em

mos desenvolvendo metodologias e estratégias para

meio a representações costumeiramente redutoras:

facilitar isso. Essa é uma parte dos bastidores. Nós

o “favelado de bom coração”, o “bandido”, o funkei-

somos muitos, muitos trabalhando essa ideia. Há 20

ro. Nosso entrevistado, hoje assessor da Secretaria

anos estamos buscando essas estratégias.

de Direitos Humanos do Rio de Janeiro, desafia com elegância essas convenções, no bate-papo repro-

É uma espécie de empoderamento.

duzido a seguir É também um empoderamento, porque permite que Quais são os bastidores dessa mudança de um mo-

cada um se veja capaz de contar as próprias histó-

delo de educação em que o conhecimento é repas-

rias, tendo meios para fazer isso.

sado pronto ao aluno, para outro em que ele é ator do próprio conhecimento?

Queria falar das resistências a esse projeto. Como levar essas ideias a alguém que vive sob a influência

As pessoas da periferia tinham sede de se verem

da indústria cultural e assiste, digamos, seis horas de

representadas. Mas entendemos que elas não são

televisão por dia?

ferramentas de mensagens do mundo. O cara da


MARCUS FAUSTINI

Vozes empoderadas pela arte

Não sou contra a indústria cultural. A gente incorpora

Tenho orgulho desse trabalho. Hoje estou na Se-

essa realidade nas práticas da Escola. Tivemos um

cretaria de Direitos Humanos e vamos implementar,

aluno que queria fazer um filme sobre Charles Bron-

futuramente, nosso projeto nas UPPs (Unidades de

son (ator norte-americano). Ele fez um filme sobre

Polícia Pacificadora) do Rio de Janeiro. Queremos

Charles Bronson, com a diferença de que mostra-

mudar o nome das UPPs para Unidades de Políticas

mos para ele outros exemplos de onde um perso-

Públicas.

nagem como ele estava presente em outros filmes, como Acossado (de Jean Luc Godard). Buscamos ampliar o repertório. Isso é algo muito importante. É preciso pensar sempre em repertório. Na Escola, os alunos tem acesso a isso para elaborar suas pró-

Marcus Faustini

prias produções. Vamos fazer um vídeo feito apenas

Com formação em teatro e cinema, Marcus Faustini

de colagens de outros vídeos, postados no Youtu-

destaca-se na cena cultural desde 1998. É funda-

be. Os alunos vão vasculhar em busca das imagens

dor da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu. Em

que precisam.

2002, dirigiu seu primeiro filme, “Chão de Estrelas”. Em 2006 Faustini lançou nos cinemas seu segundo

Como foi a sua transição para ocupar um cargo pú-

documentário: “Carnaval, bexiga, funk e sombrinha”

blico?

sobre o universo contraditório das turmas de clóvis que existem na periferia do Rio. Assumiu em 2008

Fui secretário de Cultura de Nova Iguaçu, mas não

a pasta da Secretaria de Cultura e Turismo do mu-

deixei de ser artista. Eu ia trabalhar com sapato de

nicípio. Em 2009 lança pela editora Aeroplano seu

palhaço, eu não tinha gabinete. Na minha gestão,

primeiro livro – Guia Afetivo da Periferia. Hoje é As-

implementei Conselho de Cultura, chamamos os

sessor Especial de Cultura e Território da Secretaria

jovens para discutir. Hoje Nova Iguaçu é a única ci-

de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de

dade do Rio de Janeiro que tem um Fundo Cultural.

Janeiro.

25


SUELY ROLNIK Energias e sensibilidades à venda 26

Foram mais de duas horas, que passaram como bri-

-industrial se alimenta da energia da tensão que mo-

sa. A participação de Suely Rolnik no Seminário Arte,

biliza nossa energia vital (ou força de potência, como

Invenção e Experiências Formativas declarou finda a

diria Nietzsche).

jornada de cinco dias pelas veredas da interseção entre arte e conhecimento.

“Alimento o sistema com tudo aquilo que tenho de mais valioso, a minha pérola negra: minha subjetivida-

A psicanalista, crítica de arte e curadora lançou-se ao

de”, asseverou Suely.

nada modesto desafio de descortinar como o sistema capitalista, em sua fase cultural, articula as experiên-

Toda essa ação se dá na esfera da micropolítica,

cias humanas e as manipula de forma a movimentar a

definida pela pesquisadora como lugar das subjetivi-

máquina do mercado. E o corpo - o meu, o seu corpo

dades vistas com lente de aumento. É o terreno em

físico - é o epicentro do processo, na medida em que

que percepção (a apreensão do visível) batalha com a

nele se imprimem as subjetividades ali cultivadas.

sensação (o lugar do invisível, em que se dá o duplo movimento entre a desagregação e a criação de for-

Rolnik deslizou hábil por tal tarefa. Driblou o herme-

ças). É aqui que as vitalidades se inscrevem no corpo

tismo costurando exemplos prosaicos, observações

e na sensibilidade.

acessíveis e até um certo humor, sempre alinhavado pelos apelos à participação da plateia. Assim, a dis-

E, mais importante, é onde o sistema capitalista ope-

cussão de dimensões monumentais ganhou leveza,

ra, puxando-nos o tempo inteiro para o consumo de

sem perder a gravidade.

subjetividades “prêt-à-porter”. Isso ocorre na ânsia de nos repaginarmos, nos reinventarmos para lidar com

A fala da pesquisadora, “Desejar a sensação”, articu-

nossa condições de seres angustiados - por não po-

lou psicanálise, teoria social e filosofia (entre outras

dermos alcançar os modelos projetados a partir dos

matrizes) para

braços desse mesmo sistema - tal como a mídia faz,

repercutir observações acumuladas

ao longo dos últimos dois anos. Uma das chaves de leitura está na seguinte assertiva: o capitalismo pós-

por exemplo.


Nesse sentido, a força de pensamento torna-se mais relevante que a força de trabalho, revertendo a lógica característica do capitalismo industrial. Rolnik enxerga ser possível pensar em duas diferentes políticas de criação dentro desse contexto. Uma, ativa, capaz de incorporar a escuta das sensações, e a outra, reativa, empenhada em denegar essa mesma escuta. As subjetividades “ready-made” fornecidas pelo capitalismo inclinam-se para o pólo reativo, potencialmente menos transgressor. De outro lado, a arte pode propor o caminho da intervenção ativa. “Não nos interessa aqui a distinção entre o que é popular e o que é luxo”, observou. “Não há isso no terreno da micropolítica.” Para a pesquisadora, a modernidade se funda no recalque do nosso acesso à sensação. Um movimento de desrecalque tem recorrido, porém a serviço do capitalismo. O público não se intimidou diante da nem sempre fácil trilha teórica de Suely Rolnik, e colocou-se em perguntas, em afirmativas, por vezes sem esperar pelo microfone do evento. O diálogo e a construção coletiva forneceram o desfecho mais que justo para um evento talhado para proporcionar a troca. Suely Rolnik é psicanalista, crítica de arte e de cultura e curadora, é Professora Titular da PUC-SP (fundadora do Núcleo de Estudos da Subjetividade no Pós-Graduação de Psicologia Clínica) e Professora convidada do Programa de Estudios Independientes (PEI) no Museu d Art Contemporani de Barcelona. Pesquisadora da Fondation de France no Institut National d’Histoire de l’Art (INHA) em Paris, 2007.

27


TIAGO GOMES Quando o terceiro setor vem primeiro

28

Correr por fora dos estereótipos, promover diversi-

(brinca) Acho que agora vou ser despedido. Na ver-

dades e novos olhares sobre um território tão des-

dade, acho que o terceiro setor existe porque o go-

gastado: a periferia carioca. A tarefa, quem diria, foi

verno inexiste. Se o Estado cumprisse com o papel

abraçada com satisfação por um goiano. Tiago Go-

dele, não tinha razão para o terceiro setor existir. Na

mes se divide entre uma assessoria na Secretaria

medida em que o Estado abandona uma série de

de Cultura carioca e o terceiro setor em busca de

ações que eram de responsabilidade dele, as pes-

frestas para o que chama de nova geração de re-

soas começam - pelo menos no caso da cultura - a

alizadores das favelas do Rio: diretores e roteiristas

fazer arte, muitas dessas pessoas começam a se

preocupados com temas universais. Algo diferente

articular enquanto organização, viram Cufa (Central

dos tiros e agressões de sempre do cinema mains-

Única das Favelas, ONG carioca), viram Afroreggae

tream nacional.

(ONG carioca), na “tora”, na raça, na coragem. Depois que a coisa fomenta, tem visibilidade, aí eles

No bate-papo a seguir, Gomes falou sobre esse

começam a andar junto. “Olha só como a gente é

novo momento do audiovisual no Rio, além de opi-

bacana”. Vira na verdade um serviço terceirizado do

nar - com bastante convicção - sobre uma relação

governo. É um problema, tem uma série de ques-

delicada: governos versus organizações não-gover-

tões em relação a isso. No Estado que a gente tem,

namentais. Confira alguns trechos.

é fundamental o trabalho do terceiro setor.

Como você avalia a relação do terceiro setor com

No Rio de Janeiro, isso é mais crítico. Há locais onde

o governo? São atores que tem de andar de mãos

o poder público não entra...

dadas? O poder paralelo lá é muito presente. Quando o poder paralelo está instaurado assim, para o governo


chegar é muito mais difícil. O único braço que geral-

ma), na Mostra de Favelas. Eu até achei estranho,

mente chega na favela é a polícia, o braço repressor.

uma mostra de favelas, mas tudo bem. Mandamos vários filmes pra lá. E só foram aprovados filmes com

Que novos olhares o terceiro setor pode lançar para

temas de violência, miséria e tráfico. Tinha um filme

a cultura?

lindo, chamado “Até o Fim”, que ganhou prêmios e fala de amizade, que não passou. Como não pas-

Eu sou de Goiânia e quando disse para minha mãe

sou? É como se a favela só tivesse autoridade para

que iria para o Rio de Janeiro, ela disse: “Deus me

falar daquilo que lhe pertence. Não pudesse falar de

livre. O Rio é igual a Bagdá. Pra lá você não vai”.

outras coisas. Tem um universo de coisas a serem

Quando cheguei lá, percebi que a visão da minha

ditas e, nesse contexto, o terceiro setor tem dado

mãe era totalmente equivocada. Existe a violência,

uma contribuição.

mas é muito menos do que se passa na grande mídia. Lá qualquer tiroteio na Zona Sul, o Brasil inteiro fica sabendo. Mas retomando a pergunta, a primeira geração de cineastas da favela tinha a necessidade de retratar o que eles viam sobre eles mesmos. Falcão - Meninos do Tráfico, por exemplo. Chega um momento que isso “ahhh” (gesticula como se estivesse sendo estrangulado), já foi, chega. A gente vai fazer outras coisas. E aí começaram a fazer “A Festa da Laje”, uma série de outros filmes que não

Tiago Gomes

retratavam mais isso. Acho que esse movimento de

É assessor da Secretaria de Cultura do Rio de Janei-

fazer filmes... O conhecimento da linguagem... Es-

ro. Foi coordenador de audiovisual da Cufa do Rio

sas coisas todas, são as ONGs que estão fazendo

de Janeiro. É diretor e produtor de vídeo. É formado

esse trabalho na comunidade. O que tem que que-

em artes cênicas pela Universidade Federal de Goi-

brar agora é o preconceito. Um exemplo. A gente

ás e em cinema pela Universidade Estácio de Sá, do

tinha uma parceria com Gramado (festival de cine-

Rio de Janeiro.

29


Com voz plácida, a professora do curso de Produ-

existe a visão de que a dança é algo que pode ser

ção Cultural da Universidade Federal Fluminense

catalogado num primeiro olhar?

(UFF) Beatriz Cerbino se posiciona diante de uma

30

daquelas questões aparentemente insolúveis: o que

Na verdade, é um processo, que vem acontecendo

é arte e o que não é? Sem espanto, defende não ser

ao longo do tempo até pelo próprio olhar que vem

possível dizer isso apenas na esfera da produção.

sendo construído. É uma construção de quem olha

Os olhares de quem se apropria de uma manifesta-

e de quem elabora esses textos visuais. Acho que é

ção qualquer são decisivos em busca da resposta.

muito uma ideia de disponibilizar, ou de estar dispo-

E o desafio, aí, se torna a educação do olhar.

nível, melhor falando. Seja para produzir essas obras em que não há uma receita - nada contra, não estou

Como docente dos módulos de dança na gradua-

dizendo que é bom ou ruim - mas que apresentem

ção da UFF, Beatriz se depara com certa frequên-

outras formas de organização do corpo. E principal-

cia com esse tipo de questionamento. Mas não se

mente (a disponibilidade) de quem olha. Esse é um

abate diante deles. Prefere convidar os alunos - e

grande papel do educador de dança hoje: mostrar

quem mais aparecer - para discutirem e construírem

para as pessoas e para ele também que estar dispo-

saberes. Nesse processo, a dança se transmuta em

nível é estar aberto a outros tipos de informação. E

muito mais do que um par de sapatilhas de ponta.

entender que a dança não é no singular, mas no plural. Não sei se estou respondendo quando você fala

Neste bate-papo, após palestra proferida no Semi-

de mudança de paradigma, mas acho que é uma

nário Arte, Invenção e Experiências Formativas, Be-

mudança em relação à própria arte. Essa questão

atriz conta como lida com as pré-concepções que

de “isso não é dança?” também se aplica à arte,

envolvem o aprendizado em dança. Confira trechos.

quando a gente fala de arte contemporânea.

Você relata uma mudança de paradigma que está

Há ainda um certo abismo? Por que os alunos che-

sendo incorporada às práticas docentes: o corpo

gam com pré-concepções, do tipo “isso é ou não

como suporte de grandes (e pequenas) questões.

teatro” e assim por diante. E o que “não é” me é

Isso já atingiu, de forma mais ampla, o circuito da

alheio, eu não quero.

dança? Os alunos, outros professores? Ou ainda


BEATRIZ CERBINO Dança: no plural e com artigo indefinido

É o que não está nem em uma área, nem em outra,

olha hoje o trabalho de Lia Rodrigues, Bruno Beltrão,

fica transitando. É muito mais fácil dizer o que “não é”.

aqui no Brasil, é muito saudável. No momento em que a gente parar de olhar para essas questões, va-

Como é que vocês lidam com esses conflitos?

mos chegar num lugar de conformidade que, para a arte, acho que é... terrível!

Certamente não é fácil mostrar que as coisas não tem que ser só de um jeito. Ou não trabalhar apenas com preconceitos, com ideias preestabelecidas. É exatamente o lugar, como a Lúcia (Matos, professora da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia) de instabilidade o tempo todo. Mas é também - e aí eu falo do lugar do docente - possibilitar a construção de outras identidades para a dança. Isso é que é o grande barato. A dança não tem só

Beatriz Cerbino

uma identidade, tem várias identidades. E quanto

Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-São

mais isso vai ficando claro, mais essa necessidade

Paulo (2003) e Doutora em História pela UFF (2007),

de denominar, de definir, vai se estreitando. Quan-

com estagio de doutoramento na Universidade de

do você pensa em “definir”, é dar fim à alguma coi-

Nova York, no Programa de Estudos da Performan-

sa. E quando você define dança, em tese você dá

ce. É Professora da Universidade Federal Fluminen-

fim àquela produção. E isso para a dança é terrível.

se/UFF, no curso de Produção Cultural, no Pólo Uni-

Quanto mais indefinida ela ficar, maior será sua ri-

versitário de Rio das Ostras/PURO, e professora do

queza. E não penso só em dança contemporânea,

Programa de Pós-Graduação em Ciência da Arte/

mas em todos os tipos de dança. Quando a gente

PPGCA, também na UFF.

31


LÚCIA MATOS O educador como sujeito de incertezas

32

Pegue modelos seculares, vire-os pelo avesso e

prontas. Você encontra muito o aluno que espera

neles aplique propostas pedagógicas atuais, um

por certezas? Como você confronta essa situação?

professor disposto a arriscar e alunos idem. Essa espécie de receita poderia sintetizar uma das formas

Na prática de sala de aula, eu procuro usar diferen-

possível de se encarar o ensino de dança numa

tes estratégias. Lógico que existem alunos... Pela re-

perspectiva contemporânea. Não é receita porque,

forma curricular que aconteceu na Escola de Dança

como bem lembra a professora Lúcia Matos, da Es-

(da UFBA), em que trabalhamos com muitos autores

cola de Dança da Universidade Federal da Bahia,

contemporâneos, que falam da não-fragmentação

não há modelos prontos e o professor também é de-

do conhecimento, que tratam de teorias das neu-

positário de inquietações, saberes prontos a serem

rociências, o corpo como pensamento da dança,

desconstruídos e devorados por alunos.

todas as essas influências fazem com que os alunos rejeitem, muitas vezes, uma aula expositiva.

Partidária dessa visão flexível do processo de ensi-

Tento mostrar para o aluno que a gente pode abar-

no-aprendizagem, Lúcia foi uma das palestrantes do

car diferentes tipos de propostas de aula em que

Seminário, Arte, Invenção e Experiências Formati-

a gente pode ter uma maior diversidade. Existe um

vas. Neste bate-papo, Lúcia puxa alguns fios de sua

documento da Unesco, chamado Road Map, que

exposição, para discorrer sobre a delicada arte de

trata do ensino das artes nas escolas e a formação

descosturar certezas.

em geral. A Unesco, nesse documento, começa a tentar a forçar os governos, os países, a terem políticas mais claras para a arte-educação. Então é um

Você se coloca, em sala de aula, como um sujei-

conhecimento que eu detenho naquele momento

to de incertezas, que não tem todas as respostas

e apresento para eles, mas é um espaço onde eu possibilito que eles leiam o documento, não apenas


numa maneira em que eu exponho e eles “engulam”.

precisam ser pensadas, para que eu (professor) não

Tenho muitos conhecimentos, mas também incerte-

seja o único modelo de referência, pra que o alu-

zas, e mostro isso a eles. Mostro também a transfor-

no copie. Essa relação de modelo e repetição está

mação de algumas certezas que eu tinha.

muito ligada a modelos sedimentados como o balé clássico, onde você tem os níveis de aula. Há pro-

Você falou em sua palestra sobre reprodução de

fessores que desconstroem isso com o próprio balé.

modelos, sobre como reconhecer essa reprodução.

Então é possível desconstruir esse modelo e trazer

O que você acha que ocasiona essa forma de olhar

novas propostas.

para a dança, em que modelos são reproduzidos? Lúcia - Na realidade, no processo de ensino, há muitos alunos que são mais “artistas” e vão buscar no ensino uma forma de subsistência. No olhar deles, eles vão lá (nas salas de aula) apenas “ensinar” a dança, depois vão pra casa e vão pensar em sua criação artística. Esquecem que, naquele fazer dele, estão colocando uma visão de corpo e de dança

Lúcia Matos

que vai refletir diretamente naqueles alunos, na-

Professora Adjunta da Escola de Dança da UFBA.

quelas pessoas envolvidas com o fazer dele. Logi-

Doutora em Artes Cênicas (UFBA, 2006). Mestre

camente, falando de métodos mais tradicionais, a

em Educação (UFBA, 1998). Licenciada em Dança

dança sempre foi vista como cópia e reprodução de

(UFBA, 1990). É co-líder e pesquisadora do PROCE-

movimento. Eu mostro meu movimento, você copia,

DA (UFBA), atuando nas linhas de pesquisa Proces-

eu te conserto, como se isso fosse algo suficiente.

sos Educacionais e Processos Corporeográficos.

Não quer dizer que a relação de cópia tem que cair

Coordena o projeto Redanças: redes colaborativas

por terra, pode ser usada, mas não é o único meio

em dança como ação política. Faz parte do grupo

de se pensar na dança. Essas diferentes estratégias

Gestor da Red Sudamericana de Danza - RSD.

33


34

Demorou, mas eis que as universidades abriram a

o gás, esses jovens docentes, talvez, pela primeira

cortina da relação com os agentes artísticos e cul-

vez na história do nosso país, estejam trazendo uma

turais. A política vem para ficar na forma de cursos

oxigenação para a academia, através principalmente

superiores em artes cênicas e dança, por exemplo -

das suas atividades artísticas, não abrindo mão de

a Universidade Federal do Ceará abriu, há pouco, os

suas vidas artísticas em prol de uma vida acadê-

seus. Nesse diálogo, uma cena “singular, histórica,

mica. Estamos num momento singular, onde essa

importante” se constitui, sinaliza a diretora, profes-

dicotomia entre a academia e o artista está se dis-

sora universitária e pesquisadora de teatro Christina

solvendo pela primeira vez. Acho que os grupos são

Streva.

uma resposta para auxiliar nesse processo.

A vivência de Christina em três graduações públicas

Você consegue enxergar um salto qualitativo no tea-

na área teatral - nas federais de Minas Gerais, Pa-

tro que se tem feito, um teatro com mais densidade

raíba e agora no Rio de Janeiro - lhe permite avaliar

ou que proponha discussões mais interessantes?

a relação entre os cursos universitários e a ação de grupos de teatro. Neste bate-papo, ela discorre so-

Eu sou uma grande otimista, e acho que o momento

bre a importância da academia nesse processo.

não poderia ser mais favorável. Eu tive o privilégio de acompanhar mudanças muito grandes no Estado da

Na relação entre a academia e o fazer teatral por

Paraíba. Eu sei o que era a realidade da Paraíba há

meio dos grupos, há uma efervescência?

quatro anos atrás e o que ela é hoje. É inquestionável o avanço, é inquestionável tanto a quantidade

Com certeza. Acho que o momento é singular, histó-

quanto a qualidade das produções do teatro, da

rico, importante. Acho que, por muitos anos, a aca-

prática teatral na Paraíba hoje. E isso foi resultado

demia se fechou dentro dos seus muros, se isolou,

da união da academia, que criou um curso de teatro

não se abriu para o diálogo com os agentes artísti-

- um bacharelado em interpretação e uma licencia-

cos e culturais da comunidade. Acho que essa nova

tura em teatro - e a parceira com os grupos que se

leva de profissionais, que estão entrando com todo

formaram nesse entorno, nesse processo.


CHRISTINA STREVA Novo fôlego para o teatro universitário

35

Você passou por universidades públicas como a UFPB, a UFMG e agora está na Unirio. Em que condições esse trabalho é desenvolvido nas universidades públicas? São comuns queixas sobre falta de verbas. São condições estáveis, boas? Estáveis não. Acho que obviamente existe muito a ser feito. Existem problemas em todos os lugares, tanto nos grandes centros quanto nas cidades que estão recebendo pela primeira vez esses cursos. Os desafios são enormes. A gente vem de um histórico de mais de uma década de degradação, de destruição do sistema público federal. Então, o que eu vejo é um grande avanço nestes últimos anos. É quase uma revolução silenciosa, porém demorada, como qualquer processo educacional ou artístico. Estamos no caminho, mas longe da perfeição, do que precisamos.

Christina Streva É professora assistente do Departamento de Interpretação da Escola de Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Foi scholar da Fundação Fullbright, graduada em Direção Teatral e Ciências Políticas pela Lawrence University (1996) nos Estados Unidos. Possui especialização e mestrado em Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO. Traduziu, escreveu e dirigiu espetáculos teatrais tanto no Brasil quanto no exterior.


JOSÉ FERNANDO AZEVEDO Sobre teatro, experiência e limites

36

Os entraves do modelo de teatro de grupo ocupa-

Você coloca essas cinco grandes questões, relativas

ram o centro das preocupações de José Fernando

tanto ao teatro que se faz quanto à prática docen-

Azevedo, em sua participação no Seminário Arte,

te na graduação em teatro. Ao buscar respostas a

Invenção e Experiências Formativas. Com um tanti-

essas questões, como isso interfere na sua prática

nho de mea culpa, talvez reflexo da lucidez com que

docente e no seu fazer teatral, já que você é drama-

trata do tema, o dramaturgo, diretor e professor da

turgo e tem uma companhia de teatro?

Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo disse enxergar um ponto de “limite” na prática

Acho que a grande questão é conseguir mostrar, no

desses grupos teatrais, que tem a ver com o mo-

processo formativo, que o teatro é uma relação de

mento do país e também com o modelo de fomento

fazer, e que esse fazer tem uma inscrição histórica,

por eles adotado.

se dá na história. Ele não é só processo, no sentido do que dá origem a um espetáculo. Ele está ins-

Cinco grandes questões balizaram a fala do estu-

crito num processo que é maior que ele, e a cada

dioso. A saber: qual a relação entre o teatro que se

momento dessa história o teatro responde de uma

vê e o desejo de fazer teatro? Qual a relação entre o

forma diferente às perguntas que a experiência co-

teatro feito e o teatro ensinado? O que uma escola

loca. Acho que conseguir mostrar isso, numa aula

de teatro deve ensinar? De que teatralidades esta-

que seja, abre a porta para a experiência efetiva, a

mos falando? Como “cavar” experiências no teatro?

experiência da cidade. E acho que fazer teatro, seja na minha experiência como dramaturgo ou diretor, a

Fernando ousa propor a revisão daquilo em que ele

questão é precisamente essa: tentar estar aberto e

mesmo está inserido, ao mesmo tempo em que

ser capaz de olhar a cada momento para as pergun-

vislumbra caminhos para o ensino de teatro. Nesse

tas que a experiência impõe e conseguir devolver

bate-papo, ele dá mais detalhes.

perguntas a essa experiência. Complexificar esse processo.


O modelo de teatro de grupo se esgota na hora de

contradição, que nos faz existir, porque precisamos

dar conta dessa complexidade de que você fala? De

dessas alternativas, mas ao mesmo tempo reconhe-

apreender essas grandes questões que surgem e

cê-la significa também se perguntar o que isso nos

devolvê-las? Há um entrave aí?

permite imaginar para além do que está aí. Acho que a gente vive um momento em que é difícil imaginar

Eu não usaria essa expressão “se esgota”. Eu conti-

para além do que a gente vê. E isso é um problema.

nuo fazendo teatro a partir da experiência do grupo. Talvez não exista outro modelo. Talvez a experiência

Você acha que o público consegue vislumbrar essa

do grupo se renove e novas formas de agrupamento

discussão, ou fica indiferente a isso?

talvez apareçam. O que eu acho é que o modelo que nós seguimos, de organização do grupo, que

Acho que o público não é uma abstração. O teatro

tem a ver com a manutenção, continuidade, esse

de grupo, e esses grupos, eles se formam na me-

modelo que devolve o grupo de uma maneira bas-

dida em que formam um público. Portanto, é quase

tante restrita à política - porque política se torna

uma relação de vinculação. Às vezes, o público de

conseguir financiamento, se manter, produzir editais

um grupo de teatro é quase uma torcida de futebol.

- este modelo tem revelado limites. E nós não con-

(ri) Essa dimensão do público pressupõe a capaci-

seguimos outras formas de vinculação com a cida-

dade que esse público tem de se vincular com uma

de, com a sociedade, para além desses modelos.

parte da cidade. Nesse sentido, acho que este pú-

Tenho a impressão de que a gente vive um momen-

blico está em relação com as discussões que esses

to - e é isso que eu chamo de limite - que exige

grupos são capazes de fazer. em algum lugar, o es-

pensar outras formas de vinculação com a cidade,

tágio de recepção denuncia o estado de produção.

com o público, e portanto outras formas de manu-

Essas coisas estão juntas, não são separadas.

tenção. A questão econômica se impõe. Agora, este teatro de grupo, que ao discutir a sua condição, se interroga pelo sentido do Estado, é também um teatro que, a cada quatro anos tem que adequar aquilo que imagina que deva ser o Estado a um programa provisório ou efetivo de governo. Essa adequação é

José Fernando de Azevedo

que nos impõe limites.

É dramaturgo e diretor do Teatro de Narradores (SP), professor da Escola de Arte Dramática da Escola de

E ela (essa adequação) é paradoxal.

Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Doutor em filosofia pela FFLCH (USP), foi

Ela é mais do paradoxal, ela é interna àquilo que a

um dos curadores do Próximo Ato – Encontro Inter-

gente faz. Ela se revela naquilo que a gente faz. É

nacional de Teatro Contemporâneo, do Itaú Cultural,

constituinte. Então a gente precisa reconhecer essa

entre 2006 e 2009.

37


Todos os caminhos de Ricardo Aleixo confluem para

chave para isso. A forma como a arte tem sido le-

a poesia. Esse é o leitmotiv do seu trabalho, sem

vada para o espaço institucional aponta para uma

que isso signifique o abandono de outras possibili-

brecha mínima, uma fresta dentro do sistema - existe

dades criadoras. Tanto assim que hoje ele dá aulas

a possibilidade de incorporar algo que, a princípio, é

de Design Sonoro numa faculdade em Belo Horizon-

contra a instituição. Mas isso vai ter que sobreviver

te. Nessas idas e vindas, Aleixo aprendeu a fazer do

dentro da instituição.

poema um território permeável a incursões sonoras

38

e visuais. Assim, para ele, é possível devolver a di-

Você acha que a academia tem essa maturidade

mensão do lúdico, da brincadeira propriamente dita,

para estimular processos que são...

a essa modalidade artística. (Interrompendo) Contra ela? Não tem. Eu falei te Em palestra no Seminário Arte, Invenção e Experiên-

cortando porque é exatamente isso, um corte. A arte

cias Formativas, Ricardo Aleixo se embrenhou por

é um corte em relação aos discursos hegemônicos

essas possibilidades. Neste bate-papo, ele falou so-

dentro da academia. Ao cartorialismo, a esse pen-

bre o assunto e também acerca da rejeição sofrida

dor administrativo, às disputas, tudo isso. A arte é,

pela poesia em certos espaços.

por definição, contra. Ela pode ser usada com esses fins, mas a princípio vai propor uma realidade outra,

Como é possível reabilitar a dimensão do jogo, não

um estado outro. São as questões imediatas. E a

apenas na poesia, mas em outras expressões artís-

universidade hoje tem se voltado para o imediato,

ticas?

não tem uma visão de futuro. O carreirismo dominou a universidade, pouco importa se na pública ou na

Me parece que tem um dilema, até onde sei, sem

privada. Sou contra a universidade? Não, pelo con-

solução aparente, entre o que se espera de trans-

trário. Mas que hoje ela tem muito menos chances

gressão, de deslocamento, de reversão de expec-

do que nos anos 60, de se colocar criticamente, au-

tativas, de criação de um horizonte novo, por meio

tocriticamente, e de sair viva disso, isso é fato.

da arte, e o que seria a sua necessária institucionalização. Uma coisa é você pretender o paraíso pro-

Você falou da questão da inserção da poesia e do

metido por essas experiências de autopoiesis que

(pouco) conhecimento que os alunos de poesia tem

a arte promete. Ela promete isso: ao fazer, você vai

de poesia. Você vai aos cursos (superiores em Le-

se fazer. Como fazer isso funcionar dentro de uma

tras) e os alunos não tem muito contato com poesia.

instituição? Isso me parece um dilema de séculos, senão de milênios. E creio que nós não temos a

Nenhuma.


RICARDO ALEIXO A poesia capaz de abrir frestas

Então a universidade acaba pagando o preço da au-

se há um acordo tácito para jamais colocar a poesia,

sência de introdução à poesia nos outros graus de

mesmo que ela venda muito, como algo vendável. O

ensino. Você vê alguma perspectiva ou algum traba-

que está sendo vendido é o livro de poesia. Assim

lho que possa ser feito no sentido de correr contra

como música, você não vende. O que vende é CD,

esse atraso? Ou a visão da “inutilidade da poesia” é

entrada para show. As pessoas têm confundido a

difícil de superar?

coisa com o suporte em que ela é vendida. A minha experiência mostra o contrário: as pessoas gostam

A ideia de “inutilidade da poesia” tem que ser en-

sim de poesia, isso nunca vai ser massivo, mas a

tendida de forma contextualizada. Os gregos não

gente tem que considerar o preço dos livros, o de-

pensavam que ela fosse inútil. Eles a usavam, por

saparelhamento das bibliotecas públicas.

exemplo, para treinamento rítmico dos músicos, para difusão de questões pedagógicas. A ideia de serventia, no mundo capitalista, é que talvez tenha

Ricardo Aleixo

de ser posta em questão. O valor de uso, de troca,

É poeta, artista visual e sonoro, compositor, perfor-

das coisas, essas questões é que tem de ser pro-

mer, ensaísta, editor e consultor de conteúdo para

blematizadas. Em face ao que a poesia traz. Quando

projetos editoriais em mídia impressa e eletrônica,

a gente fala de poesia, há uma confusão: a gente fala

exposições e mostras. Publicou, entre outros, os li-

de livro de poesia. É falar do livro como se estives-

vros Trívio, Máquina Zero e Céu inteiro. Como solista

se falando de poesia. Então se diz assim: “ninguém

ou integrante de companhias de artes, já se apre-

gosta de poesia”, mas o que confere estatuto de

sentou em diversos países. Desde julho de 2007

verdade a essa afirmação? A suposição de que, de

concentra suas atividades de criação e pesquisa no

todos os gêneros literários, o que menos vende é a

LIRA (Laboratório Interartes Ricardo Aleixo/Liga de In-

poesia. Mas isso, insisto, é baseado em quê? Você

venção da Resistência Ativa). É professor de Design

pega as listas da revista Veja. Ninguém se questiona

Sonoro na universidade Fumec.

39


RAUL ANTELO

Desafiando dicotomias e acomodações

Eu separaria em duas áreas os problemas. Há problemas com os colegas e com os alunos. Acho mais problemáticos os colegas que os alunos. Os colegas têm uma prevenção congênita contra tudo o que seja novo. Acham-

40

A repetição e o mesmo. O conforto e a angústia. O

-se muito bem instalados num determinado domínio, não

passado e o presente. O real e seus duplos. Parece

quero novidades, dificilmente ambicionam ler a biblioteca

redutor querer enfileirar as experiências de mundo em

do vizinho, se defendem diante do mundo que muda a

pares dicotômicos. O professor de Teoria Literária da

uma velocidade superior à possibilidade deles mudarem.

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Raul

Os estudantes muitas vezes são permeáveis a esse tipo

Antelo se aventura por esses opostos, de forma a ge-

de argumento utilizado pelos colegas. E, de início, podem

rar uma leitura complexa, sem concessões, da batalha

até dizer: “minha formação é outra, o senhor tem um mé-

entre arte e ciência (uma outra dicotomia).

todo diferente, não fui educado para isso”. Mas a experiência tem me demonstrado que gradativamente essas

Antelo participou do Seminário Arte, Educação e Experi-

resistências vão caindo e que, por outro lado, os estu-

ências Formativas trazendo um pouco de suas reflexões

dantes não são bobos. Sabem que o mundo está mu-

nesse campo complexo. Para isso, buscou em Flávio de

dando, que a instituição não os forma competentemente.

Carvalho e outros luminares dos anos 30 matrizes capa-

Tem consciência de onde “roubar”. Que se estudarem

zes de provocar a discussão. Mas soube, como um pên-

com o professor que utiliza o mesmo método há décadas

dulo, voltar ao presente - sem esquecer de um passado

não vão poder roubar grande coisa. Nos últimos anos,

que é sempre residual, em sua opinião. Costurando idas

tenho tido um fenômeno muito curioso, que é acolher alu-

e vindas no tempo, no espaço e nos fluxos de consci-

nos que completaram uma formação mais convencional,

ência, ele nos concedeu a entrevista a seguir, em que

como em Direito. E constataram que não era isso que

discute o lócus universitário, entre outros assuntos.

queriam, um futuro profissional que fosse apenas uma aplicação mecânica de leis, regras e ditames. E encon-

Sobre sua experiência docente na Universidade Fe-

tram na Teoria Literária uma disponibilidade para pensar o

deral de Santa Catarina, que caminhos você tem con-

presente que também não encontram na Filosofia. Então,

seguido abrir para evitar que o ensino de Literatura se

alunos da Filosofia interessados em autores contemporâ-

isole e se repita?

neos, ou do Direito e outras áreas, tem vindo aos cursos de Teoria Literária a acabam ficando. Tiram passaporte


na Teoria Literária e abandonam a área de formação. Em

Não acredito no avanço. Não acredito no avanço. Por si-

certo sentido é muito bom, pois acabamos tendo um

nal, o nome da primeira instituição em que apresentei um

conjunto de estudantes com uma formação heterogênea.

trabalho pela primeira vez, em 1973 - e naquela época já me parecia horripilante - é Sociedade Brasileira pelo Pro-

Atravessadas por várias matrizes, digamos assim.

gresso da Ciência. Nunca acreditei no progresso da ciência, já com 23 anos, em 1973. Nesse sentido, tenho uma

Várias linhagens, várias tradições, várias línguas. O

compreensão da história muito mais periódica e cíclica.

“antropologuês”, o “direitês”, o “historiês” (ri). Isso que

Sou mais nietzscheano ou borgeano, no sentido que a

me interessa. Uma vez perguntaram ao (Jacques) Der-

“Biblioteca” é periódica e cíclica... (ri) Acho que o passado

rida como ele definiria desconstrução. E ele se saiu

não se encerrou. Está sempre passando. E passa por

com essa: “mais de uma língua”. A ideia de você não

nós, se atualiza, e por ser atual chamamos de presente.

ser fiel à língua nativa, à língua do lugar... Porque não

E há sempre o resíduo desse passado. Não termina de

há naturalidade na linguagem. Está sempre se crian-

passar. E como fica, como matéria pendente, alimenta

do. Como a condição contemporânea é densa, difícil

nossas utopias de realizações - que na falta de melhor

e etc., você tem que ter elasticidade para absorver

rótulo, chamamos de futuro. Acho que somos passa-

as outras línguas que muitos colegas não ouvem, não

do, no sentido que somos “passando”. O importante é

reconhecem linguagens propriamente ditas.

que o tempo passa por nós, porque se isso acontece temos condições de reabrir o jogo constantemente. Se

A instituição tem algum peso nesse diálogo com o cor-

nos defendemos e afirmamos que há um progresso da

po discente? Tenta impor alguma coisa, ou não?

ciência, o passado já passou, pronto. Não me afeta e não tenho por que saber qual era o debate nos anos 30.

A instituição está tão esvaziada... quer impor, mas não

Tenho que saber qual era o debate nessa década e nas

consegue. Na minha trajetória, constato que tenho

outras, tenho que saber onde o debate ocorre... Nesse

dois tipos de autoridade: a autoridade conferida pe-

sentido... nada me é alheio. Prefiro pensar o presente

los concursos, etc. Formalmente, sou professor titular,

como contemporâneo, como “tempo com”, com ou-

mas isso não me garante liderança entre os alunos. Há

tros tempos. Não é o final da história. É um tempo em

outra autorização que passa pela minha capacidade

que se acumulam outros tempos e que por efeito des-

de ler, de elaborar, de produzir discurso, que não me

se acúmulo, se repete. A repetição nunca é idêntica

é dada pela instituição, mas pelos alunos. Os alunos

ao antecedente. E é justamente na diferença que uma

percebem quem está elaborando problemas, quem

repetição estabelece com seu antecedente, que está

tem a coragem de abordar uma questão sem respos-

o x da questão, a meu ver. Aí reside a carga, a força

ta, e nesse sentido há uma confiança, uma confiabi-

emocional, de sensibilidade, de pathos, de intensida-

lidade, uma transferência - um conceito psicanalítico.

de. É isso que me permite continuar pensando.

Os alunos conseguem fazer transferência comigo.

Raul Antelo Na palestra, você costurou com habilidade uma dis-

Graduado em Letras Modernas pela Universidad de

cussão sobre arte versus ciência. A arte como o in-

Buenos Aires (1974) e em Língua Portuguesa pelo

-existente (ou o não pensável). Havia muitas referências

Instituto Superior del Profesorado en Lenguas Vivas

dos anos 30 (do século 20). Então, me ocorreu que

(1972), mestrado em Literatura Brasileira pela Uni-

temos uma discussão desse porte colocada desde os

versidade de São Paulo (1978) e doutorado em Li-

anos 30, e que não se esgotou. Isso não te desanima

teratura Brasileira pela mesma Universidade (1981).

um pouco? Em 70 anos passados, qual o avanço?

Atualmente é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina.

41


FAULLER Corpo, cidade e imagens em evidência 42

O corpo carrega as marcas do tempo em que vive-

Fauller começou a trabalhar profissionalmente com

mos. Seja espremido num ônibus, desafiando o tédio

dança em 1999, como bailarino do Colégio de Dança

em filas, virando de um lado para o outro tentando dor-

do Ceará. Em 2003 criou a Cia. Dita, com a mesma

mir. A dança contemporânea tem revelado um sensível

tem incursionado pelo Brasil, Europa, África e América

olhar para esse estado de coisas, em que o corpo se

do Sul, criando obras que dialogam com o vídeo, a

torna reservatório de informações surgidas na relação

dança, a fotografia, a performance e a literatura. Ao

com o espaço urbano. O coreógrafo cearense Fauller

longo dos anos dançou e colaborou com os criadores

propôs olhar para esse vínculo na residência Corpo:

Rachid Ouramdane, Alain Buffard, Gary Stevens, Julie

Abrigo da Cidade. A atividade foi ministrada entre os

Nioche, Gilles Jobin, Paulo Caldas, Yann Marussich, e

dias 27 de setembro e 1º de outubro, no SESC SE-

Rosemberg Cariry.

NAC Iracema. A residência enveredou pelos caminhos da dança e da imagem, como forma de dar suporte à reflexão sobre as relações e corpo e cidade. Fauller partiu de estruturas coreográficas pensadas a partir de quatro fatores: deslocamento, tempo, escuta e comunicação através do olhar. Além disso, a atividade investigou o olhar fotográfico produzido por meio de câmeras digitais profissionais, amadoras e telefones celulares. Na residência, foram abordadas ainda questões consideradas pertinentes à criação e à produção artística, como estética, relações políticas e relações de trabalho.


FÁTIMA SOUZA A literatura fora das páginas impressas Vivemos uma era de transmidiações. Em outras pa-

tituiu num espaço para troca de ideias e informações

lavras, nunca foi tão fácil transpor textos, imagens e

sobre textos e outras mídias, exercitando a produção

sons para outros ambientes e mídias. Basta, em tese,

textual. A oficina foi dividida em cinco fragmentos: pa-

uma ideia na cabeça e alguns equipamentos digitais.

lavra, som, luz, corpo e imagem.

Nesse cenário, ganha relevância a reflexão sobre as “reescrituras” possíveis de um texto literário, por exem-

Fátima Souza já atuou como professora em diferentes

plo. Justamente aí está o mote da oficina Reverbera-

espaços de ensino, como leitora em projetos e institui-

ções: imagens do texto, ministrada pela mestre em

ções e na gestão pública da literatura.

Literatura Brasileira Fátima Souza, dentro da programação de setembro do Núcleo de Formação do Cen-

Como resultado da oficina, alguns dos textos produzi-

tro Dragão do Mar e Arte e Cultura.

dos ganharam espaço na vídeo-instalação Transcriações: Leitura e Escrita, que contou com trabalhos de

Entre 13 e 17 de setembro, a oficina propôs um apro-

alunos da oficina de mesmo nome, ministrada pelo

fundamento em textos literários transformados em ou-

realizador Fred Benevides.

tras peças artísticas. O público-alvo A oficina se cons-

43


Uma cantora lírica italiana, um rico armador carioca,

grama. Para você ter uma ideia, ele contou com a

uma vida a dois num dramático palacete em meio

colaboração do Mário Pedrosa, da Lygia Pape, a

à floresta. Poderia ser a história de um folhetim ro-

Lina Bo Bardi, a Celina Tostes (artistas visuais)... No

mântico daqueles bem moralistas. Mas, acaso ou

início, ela significa mais ou menos o lugar da liber-

não, esses elementos foram o idílico início de uma

dade, mas aquela liberdade no sentido de que as

proposta ousada: uma escola de artes visuais em

pessoas poderiam ali conversar a falar livremente,

pleno período da ditadura militar.

sem ter medo. Uma espécie de oásis, daí o termo usado pelo (crítico de arte) Wilson Coutinho: o jardim

44

A Escola de Artes Visuais do Parque Lage, fundada

da oposição, que é perfeito. É uma espécie de Éden

em 1975 e logo alçada à condição de espaço livre

da intelectualidade do Brasil como um todo, porque

para a experimentação dos artistas cariocas, herdou

era frequentado por pessoas de outras cidades,

o belo palacete construído por Henrique Lage para

como Glauber Rocha. Isso foi o início da escola.

a amada italiana, Gabriela Besanzoni. Foram-se os

Hoje, claro que ela vai... Os anos vão se passando,

personagens, ficou a obra, hoje uma referência no

a sociedade vai se modificando, mas ela permanece

ensino das artes da região.

como um ponto de referência de artistas. De todo o país. E até hoje ela guarda essa característica de

A diretora da Escola, Cláudia Saldanha, prestou uma

lugar de troca de ideias, de conversas. E justamente

sentimental homenagem à Escola, evocando nomes

por não ser uma universidade, em que você não tem

e imagens da trajetória do centro de formação. Após

que fazer vestibular para entrar, não tem que cumprir

sua palestra no Seminário Arte, Invenção e Experiên-

créditos, por ser uma escola mais libertária em sua

cias Formativas, nessa sexta-feira (6), ela conversou

concepção original, ela proporciona várias formas

com este blog. Confira trechos.

de interação. Tem gente que vai lá para ler poesia. Há eventos em que a Escola fica lotada, e acaba

Trinta e cinco anos depois da abertura da Escola de

virando festa. É uma espécie de vocação. A Escola,

Artes Visuais do Parque Lage, como se pode men-

mesmo antes do (Rubens) Gerschmann, foi constru-

surar a importância desse equipamento para uma

ída como um lugar de festa.

cidade como o Rio de Janeiro? Isso faz lembrar o happening, que é justamente uma A escola tem um papel fundamental para a cidade,

dimensão das artes visuais ali dos anos 60, com Wa-

especialmente no seu início. Quando em 1975 Ru-

rhol, e vocês parecem que se inspiram nisso...

bens Gerschman é convidado a assumir para assumir a direção e cria a Escola, ele convida uma série

É. Tinham lá umas aulas muito interessantes, no iní-

de pessoas, pensadores e intelectuais da época,

cio, do Hélio Eichbauer, que é bailarino de formação

para junto com ele darem início a esse novo pro-

mas fala de filosofia, de psicanálise... Revirando a


CLAUDIA SALDANHA

A referência da Escola Parque Lage

memória da escola, encontramos coisas incríveis.

não é de todos, atrai alguns professores. Isso nos

Filmes da época, feitos durante as aulas. São filmes

preocupa muito. De tal modo que, quando fizemos

assim... você não acredita! Exatamente isso que

a reorganização dos ateliês de gravura, criamos uma

você está falando, esse espírito de juntar todas as

comunicação entre eles e constituiu mais duas sa-

coisas. Tinham músicas, a Bachiana do Villa Lobos,

las. Uma de fotografia analógica e outra de imagem

ao mesmo tempo fazendo uma encenação que era

digital. O cara que vai passar por esses espaços é

uma catarse coletiva. Tinha argila, materiais... Tudo

estimulado a usar das formas mais tradicionais de

junto ao mesmo tempo. Claro que isso tinha a ver

gravura até as mais atuais, como a reprodução via

com a época, um momento de grande repressão

software de uma imagem digital.

por um lado, e uma grande necessidade de libertação. Mas tinha a ver com um movimento internacional. Os anos 60 foram os anos 60 no mundo todo, anos muito libertários. Quando a escola começa, nos anos 70, ela reflete esse espírito.

Cláudia Saldanha Possui graduação em Educação Artística pela Ponti-

As artes visuais, de uns anos para cá, se constituí-

fícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1981)

ram num campo muito híbrido. Como é que a escola

e Mestrado em Belas Artes (Master of Fine Arts) pelo

acompanhou essas mudanças sofridas pelas artes

Pratt Institute (1990). Atualmente é Professora Assis-

visuais? Como isso se reflete no currículo?

tente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Diretora da Escola de Artes Visuais do Parque

A gente tem na Escola um núcleo de Arte e Tecno-

Lage. Dirigiu durante três anos a Divisão de Teoria e

logia. Criado há 10 anos por iniciativa deu m grupo

Pesquisa do MAC de Niterói e durante doze anos a

de professores e que permanece até hoje oferecen-

Divisão de Artes Visuais do RIOARTE. Possui larga

do cursos ligados à arte digital e à comunicação via

experiência em curadoria, pesquisa e coordenação

internet. Existe uma preocupação, que obviamente

de exposições de arte.

45


ANA MARIA TAVARES

Notas sobre uma artista-investigadora

46

Que espécie de artista propõe ao espectador de

guagens que possam dar suporte ao trabalho visual.

uma exposição sentar num banquinho e vislumbrar

A música, por exemplo. Essa tua preocupação am-

a paisagem enquadrada nas janelas, como se esti-

plia os seus horizontes como artista? Isso se tornou

vesse num saguão de aeroporto, por exemplo? A

uma preocupação essencial para você?

paulista Ana Maria Tavares é dessa linhagem de provocadores. Provocadores por imaginarem o espaço

Se tornou sim, claro, mas não por essas motivações

expositivo como ponto de partida de “desajustes”:

que você fala. Na verdade, se trata de criar uma

um lugar que parece outro, esculturas que nada

obra que possibilite uma experiência mais complexa

mais são que peças de design, sons que evocam

e completa. A obra nunca é puramente visual. Eu

outras temporalidades.

quero me distanciar do puramente visual. A experiência da arte é como a experiência do mundo: ela

Esses fluxos, diz a artista, permitem ao sujeito inda-

é complexa, com todos os sentidos. Se privilegiar a

gar a si próprio que papeis desempenha no mundo.

visão em detrimento dos outros sentidos é limitante.

E conferem ao artista visual o status de um inves-

O uso do áudio, da experiência sonora no trabalho,

tigador de experiências. Não é pouca a ambição

é exatamente para possibilitar os deslocamentos

dessas propostas, mas Ana Maria Tavares as abra-

que a obra propõe tornar parte da experiência do

ça de forma resoluta. No Seminário Arte, Invenção

sujeito. A experiência de suspensão de que estou

e Experiências Formativas, ela mostrou alguns dos

falando ela se dá muito a partir da experiência do

resultados de sua trajetória. Neste bate-papo, ela

áudio. Quer dizer: onde você está? Se já visualmen-

discute algumas de suas motivações como criadora.

te você não reconhece as obras como obras - elas parecem com objetos de design - se o museu não

Você demonstra atenção para os detalhes, coisas

é mais reconhecido como museu, porque ele é um

que estão para além do que a gente vê. Para as lin-

porto, a música também, o som não corresponde


àquilo que estou vendo. O som diz: “estou dentro de

próprio museu se coloca em xeque. Parte da tarefa

um aeroporto, estou dentro de um avião”, e o que

do artista é questionar a instituição, a sua prática, o

você vê não corresponde ao que se ouve. Então,

sistema. Acho que nos exemplos que dei, de mais

essas trocas, esses desajustes, o que eu chamo

de 10 anos atrás, é o início desse pensamento. É

de experiência de rotação, é que vão propiciar uma

quando faço essa superposição entre as questões

indagação do sujeito para ele mesmo. “Onde eu tô,

da contemporaneidade e os conteúdos e a história

o que eu tô fazendo aqui e o que faço agora?” Acho

do lugar.

que a obra, em si, pretende fazer perguntas para que você mesmo seja capaz de fazer perguntas. Vejo que você problematiza muito o espaço expositivo. E com essa sua fala, isso parece ser parte dessa preocupação maior de “balançar” o espectador. Ana Maria Tavares Desestabilizar.

É professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Doutora em Artes pela

Como você começou a dessacralizar o espaço do

ECA/USP. Fez sua primeira individual Objetos e In-

museu como um lugar para pendurar quadro?

terferências na Pinacoteca do Estado de SP (1982). Participou da Bienal Internacional de São Paulo em

Eu acho que é parte do meu questionamento esse

1983, 1987 e 1991, da VII Bienal de Havana, 2000,

questionamento das verdades, das convenções.

e da Bienal de Istambul, 2001, e da Bienal de Sin-

Se eu tomo a obra como design, por exemplo, se

gapura, em 2006. Atualmente desenvolve o projeto

propositadamente assumo o design, essa referên-

Natura In-Vitro: Interrogando a Modernidade para as

cia, é na obra que eu vou conseguir um espaço de

exposições individuais itinerantes no MASP Museu

dúvida. A arte não está querendo criar o território da

de Arte de São Paulo e na Casa França Brasil no Rio

certeza, mas o território da dúvida, da incerteza. O

de Janeiro.

47


48

Dezesseis comunidades, 140 mil habitantes e alguns

Alguns convidados que estiveram no Seminário, vin-

dos índices de criminalidade mais preocupantes do

dos do Rio, relataram experiências junto a comuni-

Rio de Janeiro. Esse breve raio-x do Complexo da

dades e favelas. Falou-se de um novo momento que

Maré, na capital carioca, dá a medida do árduo tra-

poderia se configurar a partir da presença das UPPs,

balho a que se lançam ONGs e movimentos sociais

as Unidades de Polícia Pacificadora. Elas poderiam

dedicados ao fomento da arte e da cultura.

se tornar unidades de políticas públicas. Você acha possível dar essa nova dimensão a uma ação gover-

A questão que parece se impor, na verdade, é an-

namental que é, historicamente, repressora?

terior. Há espaço para arte e cultura num ambiente socialmente vulnerável como esse? A diretora da

Acho que nas favelas em que as Unidades Pacifica-

ONG Redes de Desenvolvimento da Maré - Redes

doras estão presentes, o fato de você não ter de-

Maré e Diretora da Divisão de Integração Universi-

terminadas forças locais atuando vai favorecer que

dade Comunidade da Universidade Federal do Rio

muitos projetos - de arte, educação, lazer, esporte

de Janeiro, Eliana Sousa, atesta que são múltiplos e

- venham a acontecer de uma forma mais republica-

marcantes os projetos nessa área. O desafio, neste

na, de uma maneira mais aberta e talvez com maior

momento, é torná-los algo menos pontual e estabe-

participação da comunidade. Então é um momento

lecer relações orgânicas com as comunidades em

em que vários projetos podem começar a se aproxi-

que se situam.

mar mais da população. Tem alguns projetos de arte que não chegam a essa população. Agora, acho

Eliana relatou suas experiências no Seminário Arte,

que no Rio de Janeiro já existem muitos projetos de

Invenção e Experiências Formativas. Na conversa a

arte e cultura, que acontecem dentro das favelas, e

seguir, ela projeta possíveis cenários para as comu-

que, de alguma maneira, essa situação vai ampliar

nidades cariocas.

algo que já existe e é inclusive um pouco a marca dessas áreas - trabalhar com arte e cultura.


ELIANA SOUSA

A Maré está para cultura

Na sua experiência com as favelas da Maré, o que

outra maneira. Não apenas pontualmente, dentro de

você pode relatar de mais relevante nesse sentido,

um projeto. Mas com a possibilidade de gerar uma

de uma ação que já tem resultados?

criação que vai estar integrada àquela comunidade, àquela população.

Na Maré temos várias experiências. E até antes do trabalho que a gente faz, como cresci lá, vivenciei alguns projetos como moradora na área de arte. Projetos muito pontuais, mas que existiam. A Maré teve algumas experiências, principalmente na área de dança que foram relevantes e deram frutos. A Lona Cultural hoje está assumindo uma nova gestão, a cargo da organização que faço parte (Observatório de Favelas). E ela está numa perspectiva diferente com o espaço público. A questão é que (lá) você

Eliana Sousa

não tem espaços públicos. Você está aqui no Cea-

É doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universi-

rá, num centro de arte público que está integrado à

dade Católica do Rio de Janeiro (2009). Atualmen-

cidade. A rua é aqui do lado. Achei isso muito mara-

te, é diretora da Divisão de Integração Universidade

vilhoso. O que acho que esse trabalho vem gerando

Comunidade - DIUC, ligada a Pró-Reitoria de Exten-

é a possibilidade de você construir a cultura como

são - PR-5 - Universidade Federal do Rio de Janeiro,

um direito. O maior fruto que a gente tem, resulta-

UFRJ. Além disso, é coordenadora geral da Orga-

do desses últimos 13 anos de trabalho na Maré, é

nização Não-Governamental Redes de Desenvolvi-

a possibilidade das pessoas vivenciarem a arte de

mento da Maré - Redes da Maré.

49


JAILSON DE SOUSA

Para além das ações afirmativas

50

O geógrafo carioca e doutor em Educação Jailson de

Procuramos trabalhar em dois níveis básicos: com o

Sousa se constituiu, ao longo dos anos, num conhece-

plano simbólico e o plano material. No plano, simbó-

dor privilegiado das contradições e demandas da peri-

lico, procuramos reconceitualizar a noção de favela.

feria carioca. Foi ele um dos fundadores do Observató-

Para o IBGE, a favela é um “aglomerado subnormal”. É

rio de Favelas, ONG referencial no Rio de Janeiro. Um

a visão oficial. Esse tipo de visão acaba resultando na

desafio maior o aguardava no outro lado do “balcão”, o

naturalização da morte, que é a expressão maior desse

poder público. Como secretário executivo da pasta da

ser, desse garoto negro, pobre, que está fora da es-

Ação Social e Direitos Humanos, ele mostra entusiasmo

cola e do mercado de trabalho. A gente produz livros,

para a efetivação de políticas, tanto simbólicas quanto

vídeos, fotografias, textos variados. Ao rediscutir essa

materiais, capazes de reposicionar a estigmatizada figu-

ideia, buscamos a inserção desse espaço na cidade

ra do favelado ou subalterno.

de forma diferenciada. E o trabalho material. A gente cria processos, tecnologias sociais que possam ser usadas

No bate-papo a seguir, Jailson discute sobre as pos-

pelo poder público, transformadas em ações que pos-

sibilidades e os limites das ações afirmativas. Confira

sam romper com esses estigmas. O principal projeto é

trechos.

o Conexão de Saberes, criado pelo MEC mas por nós implantado no país inteiro.

Alguns palestrantes que discutiram o contexto local do Rio colocaram a prevalência das políticas públicas re-

No que consiste esse projeto?

pressoras e desse estigma da favela como um espaço que ainda precisa ser civilizado. Como vocês, educado-

O programa trabalha primeiro com a ação afirmativa. É

res e atores sociais, lidam com essas linhas de força?

fazer com que os garotos de origem popular que entram na universidade tenham direito a bolsa. Origem popular é negro, preto ou mestiço, índio, morador da


51

periferia. É um conjunto de critérios que são avaliados pelos coordenadores para concederem as bolsas. Daí ele passa a atuar em três aspectos: as ações afirmativas, permanecer vinculado a seu lugar de origem muitas vezes esse vínculo é quebrado, e desenvolver atividades nesse campo. O programa trabalha com território, trabalha com a questão do sujeito como um sujeito de direitos e trabalha numa perspectiva de levar em conta o simbólico. A discussão sobre ações afirmativas na universidade se esgotou na questão das cotas? Jailson - Mais ou menos. Há outras coisas na universidade. Recuperação dos restaurantes universitários, construção de alojamentos e oferta de conteúdo específico para alunos da escola pública, principalmente dentro da escrita, do acesso ao computador e o desenvolvimento da capacidade de produzir conceitos.

Jailson de Sousa Doutor em Sociologia da Educação pela PUC-Rio com a tese intitulada “’Por que uns e não outros? Caminhada de Jovens da Maré para a Universidade.” Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal Fluminense - UFF; Professor do Programa de Pós-Graduação do Departamento de Geografia da UFF; Diretor de Projetos do Centro de Educação e Ações Solidárias da Maré - Ceasm; e Coordenador Geral do Observatório de Favelas.


52

A atividade do corpo e a teoria. As duas coisas não

formador da cinesiologia, tanto para profissionais da

parecem combinar muito, num primeiro olhar. Afinal,

dança quanto para aqueles interessados apenas em

para dançar basta poder se movimentar, ter vontade

ganhar qualidade de vida. Confira trechos.

e alguma criatividade, correto? Nem tanto, ensina Márcia Santiago, especialista em Dança e certificada

Você acha que a cinesiologia é uma disciplina apta a

em Pilates. Para ela, o desafio é fazer do movimen-

promover mudanças de postura, de consciência do

to uma construção que pode, sim, ser pensada - e

próprio corpo?

aperfeiçoada - à luz dos avanços científicos. O que eu vou pegar com eles, os alunos, é exataMas não de qualquer forma. “Teoria é sopinha de

mente isso. Eu não estou trabalhando com eles a

letra, você toma e aprende. A aplicabilidade dessa

cinesiologia dentro de uma técnica específica, para

teoria é que é a grande questão. A cinesiologia trata

o balé ou outra coisa. Estou trabalhando a cinesiolo-

disso, de você ter a capacidade de chegar e fazer

gia para o movimento. E para o movimento funcional,

correções, dominar esses conceitos biomecânicos,

você tem esses corpos que se movem, indepen-

anatômicos, respiratórios. A importância disso pra

dente do nível de formação, e a ideia é corrigir es-

ter uma postura eficiente, otimizada”, argumenta a

ses padrões de movimento. Se eu sou aluna, como

professora, que ministrou a oficina Cinesiologia Apli-

me colocar? O que eu estou pegando de conteúdo

cada à Dança.

é: respiração, o ato respiratório para a organização postural e para o movimento. O ato respiratório é

Na atividade, ela apresentou aos alunos fundamen-

cinquenta por cento da organização postural. Pela

tos das teorias cinesiológicas, que advogam a ree-

força hidráulica que ele promove, pela oxigenação...

ducação postural por meio de técnicas corporais e

Vários sistemas que ela coloca em evidência.

respiratórias. Ao fim de uma das aulas, Márcia Santiago conversou com o blog sobre o potencial trans-

As pessoas não sabem disso, não é?


MÁRCIA SANTIAGO Consciência a serviço do movimento

A respiração é o primeiro e último ato de vida. Tudo

organicidade, a potência, a facilitação. A gente tinha

é respiração. E como estou usando a respiração?

uma visão de que, quando uma coisa era difícil, a

Com técnicas específicas, como imobilização da

gente prendia a respiração. Fazia apneia. Hoje em

coluna e fortalecimento de músculos e articulações,

dia é o contrário. A gente não bloqueia o diafragma.

em cima de respiração. Foi a primeira aula. E mos-

Tenho que mover e respirar. Essas pessoas veem

trando como a organização postural pode acontecer

demais essa relação.

por meio da respiração, mostrando outras técnicas, como o Pilates. Não existe respiração certa e errada. Existe o “para quê”. Por qual motivo quero usar essa respiração: para facilitar o movimento, para organizar o movimento ou para desafiar o movimento, num ca-

Márcia Santiago

ráter mais avançado, mais fitness.

É especialista em Dança pela Universidade Federal da Bahia. É certificada em Pilates pela Polestar Edu-

Fica clara para os alunos a relação que a Cinesiolo-

cation/Physio Pilates em Pós-reabilitação e Fitness

gia tem com o trabalho artístico que algumas dessas

(2000) e em Gyrokinesis em (2007). Concursada

pessoas desenvolvem?

pela Secretaria de Educação do Estado da Bahia (1990), atuando na Escola de Dança da FUNCEB

Fica. A gente tem coreógrafos e dançarinos entre

como coordenadora pedagógica no Curso de Edu-

os alunos. E nas aulas, a abordagem é orgânica.

cação Profissional em Dança e assistente de core-

O foco é em como a respiração dá fluência ao mo-

ografia (1993/2003) e docente das disciplinas Cine-

vimento. Eles já vão por esse lado da exploração

siologia Aplicada à dança, Pilates solo, dentre outros

da respiração no movimento. A fluidez que ela dá, a

(1990/2010).

53


ELIANA MADEIRA A dança da subversão de papéis

54

Sentadas em cadeiras, as alunas da oficina Dançando

Como você teve essa sensibilidade de enxergar nes-

com maiores de 50, promovida pelo Núcleo de Forma-

se público-alvo um potencial para uma atividade como

ção do Dragão do Mar, demoram - pelos parâmetros

essa?

de tempo de uma vida mais “jovem”, é bom que se diga - a desafiar os próprios limites. Talvez por timidez, talvez

Eu sou uma delas! Uma das integrantes desse pú-

por receio de infligirem ao corpo algum desconforto. A

blico. Eu sempre quis fazer um grupo de dança com

cautela é mais do que justificada para essas pessoas,

pessoas de mais de 50 anos. Homens e mulheres, e

que muito já viram e viveram em mais de 50 anos de

não tive ainda essa oportunidade. Então eu aproveitei

vida. A professora, paciente, espera dias até sentir a se-

o Núcleo de Formação e propus para a coordenação

gurança necessária para, enfim, sugerir um exercício de

essa atividade, e foi aceita. Eu queria um perfil de baixa

solo, fora da zona de conforto às quais muitas dessas

renda, baixa escolaridade, então essa atividade foi di-

alunas se acostumaram.

vulgada diretamente para o pessoal do Poço da Draga. Mas como também tinha o site aberto e, depois, no

Essa passagem ilustra as delicadezas e complexidades

primeiro dia, houve divulgação pelo pessoal do jornal

de olhar para o próprio corpo depois de uma certa ida-

O Estado. No dia seguinte, tinham mais seis pessoas,

de, a partir da qual a sociedade tende a nos enquadrar

depois apareceu mais um casal, embora, no fundo,

no papel do idoso inofensivo, simpático ou recluso no

eles estivessem pensando que era um curso de dança

próprio lar. A professora de dança Eliana Madeira pediu

de salão. E a proposta, inicialmente, era movimentar o

licença para subverter papeis, durante a oficina minis-

corpo, ter um pouco de consciência corporal, trabalhar

trada, como parte das atividades do Núcleo de Forma-

com ritmos diferentes, para poder dançar qualquer coi-

ção, no mês de setembro. Assim, buscou ensinar aos

sa. E dentro do enfoque da dança contemporânea, é

mais maduros a redescobrir o próprio vigor corporal - e,

um trabalho na pessoa, com a história dela, a partir do

quem sabe, se aventurar em outras atividades. Neste

que ela pode. Elas, as alunas, se divertem muito, falam

bate-papo, ela revela estratégias para alcançar esse

que é muito prazeroso, relaxante, na hora que fazem

objetivo.


esquecem dos problemas. E estão querendo continu-

para ver como é que senta, como é que deita. Muitas

ar. A sensibilidade talvez venha da necessidade que

delas não fazem isso, não têm coragem de ir pro chão.

eu mesma tenho de continuar dançando. Eu venho da dança, fiquei muito tempo afastada, e estou retornando.

Tem um trabalho aí de perceber um ritmo próprio dessa

Sei como isso é importante para a vida de uma pessoa.

faixa etária?

Nessa idade, as pessoas estão mais abertas a novas

Justamente. A metodologia se diferencia do tradicional

ideias sobre a própria consciência corporal?

porque não dá movimentos prontos. Tanto que a ideia não é aprender movimentos, é aprender a se movimen-

Eu utilizo uma linguagem mais lúdica. É mais fácil elas

tar, que é diferente. Com esse modo de trabalhar é que

[as alunas] responderem a essa linguagem do que a

estou abordando essa atividade.

uma linguagem muito técnica, explicativa. Coloco algum material na mão delas, bolinhas, faço relaxamento, enfim... É uma motivação diferente, a que eles têm. Inclusive porque é um público que está parado, é sedentário. Tem muitos maiores de 50 que estão muito bem. Mas muitos estão cada vez mais parados, sedentários, em frente a uma televisão, condicionados a ligar e desligar uma televisão, a vida deles se tornou isso. Essa é realmente a minha preocupação: tirar essas pessoas dessa situação, porque a biologia em si, a idade, é um “problema”, entre aspas. Se você não cuida, se não

Eliana Madeira

mantém a movimentação que pode ter, a coisa tende a

É professora de dança contemporânea do Curso

ficar pior. E aí vem os problemas de saúde. A gente co-

Técnico em Dança. É graduada em Educação Fí-

meçou a oficina nas cadeiras, sentados, porque eu não

sica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro,

sabia até onde elas iam. Hoje (quinta, 23), no terceiro

e possui pós-graduação em Dança Elementar, em

dia, é que eu coloquei elas no chão, para sair do chão,

Colônia, na Alemanha.

55


56

Marshall McLuhan, com suas convicções de que

Esse software especificamente tem várias coisas

meios são extensões do homem, talvez se sentisse

que me fazem pensar que é o melhor software para

seduzido por Isadora. Ela é onipresente, poderosa e

fazer interação em tempo real com várias mídias. É o

prestativa, só precisa de manual de instruções. Isa-

mais simples, porém é o mais completo, ou um dos

dora 1.3 é um software cujas possibilidades ativam

mais completos. Entre os mais completos, é o mais

sinapses de artistas, sobretudo ligados à dança e à

barato. É pago porque é uma pessoa que desenvol-

performance, capazes de dar corpo a novos forma-

ve e ele claramente vende esse software. Mas um

tos cênicos.

software com potência semelhante custa 600 euros [cerca de 1500 reais] e esse aqui custa 270 [cerca

O programa de computador, capaz de organizar

de 700 reais]. E esse é muito mais potente em al-

elementos no espaço da cena a partir de sensores

guns campos. Há um software com a mesma capa-

ligados ao corpo, foi objeto da oficina Corpo e novas

cidade de Isadora, mas não tem manual e é muito

tecnologias com Isadora 1.3. Vídeo em interatividade

complicado pra usar. Leva meses de aprendizagem.

tempo real, ministrada por Armando com colabora-

Aqui, se tivéssemos tido duas semanas de ativida-

ção e assessoria da performer Aspásia Mariana.

de, cada artista poderia ter saído um programador.

Em dois dias de curso, contabiliza Armando, foi pos-

Você sente que Fortaleza tem uma demanda, existe

sível apresentar uma breve introdução à ferramenta.

aqui esse chamado para um trabalho feito na inter-

Ele espera retornar para mostrar outras funcionalida-

seção entre tecnologia e arte?

des de Isadora, segundo ele o software com melhor relação custo-benefício dentre os programas dispo-

Existe. Foram exatamente os artistas que querem

níveis para a mesma finalidade.

usar que sugeriram para o Centro Dragão do Mar para tentar trazer essa atividade. Foram apenas dois

Como esse programa, o Isadora, pode contribuir

dias, mas para mostrar algumas capacidades do 1.3

para a expansão do potencial de um performer ou

[refere-se à versão do programa] de organizar coisas

de um bailarino em cena?

maiores, é um bom momento.


ARMANDO MENICACCI Meios como extensão dos sentidos

Qual o ganho qualitativo que uma ferramenta como

Isso. Ela foi contemplada por um edital e me cha-

essa traz?

mou para renovar a relação entre gesto e som no sapateado. O sapateado tem uma relação sempre

De poder ter um controle total sobre todo tipo de

igual entre gesto e som: é o pé que dispara o som.

mídia. Com seu corpo, com um sensor muito barato,

Mas isso cria uma corporeidade de um certo tipo.

você pode controlar todo tipo de coisa. A vantagem

Agora, podemos tentar renovar com interação, pode

da Isadora é que ela é mais acessível. Ela se chama

ser que a dança e a ritmicidade do sapateado pode

Isadora exatamente por isso, por causa de Isadora

influenciar vídeo, luz, pode ampliar os horizontes de

Duncan, que libertou o corpo da sapatilha de ponta,

interação.

de um figurino apertado que atrapalhava a respiração. O programa é pra libertar o artista, que pode não precisar mais de um programador. Eu não sou matemático, não sou programador, aprendi quase sem olhar o manual. O software é feito e pensado por artista para artista. Os outros, tanto os gratuitos quanto os pagos, são pensados por programadores, para artistas. Essa separação é muito pesada, porque o artista tem que arrumar dinheiro para pagar um programador, e às vezes isso não é possível. Aqui, o artista pode programar ele mesmo.

Armando Menicacci É doutor pela Universidade de Paris VIII, com discussão sobre as relações entre a dança e as tecnologias numéricas. Na mesma Universidade, fundou e dirige Médiadanse, laboratório de pesquisa, criação e pedagogia em dança e tecnologias numéricas. É professor de relações entre arte e novas mídias na EMA, École Media Art (www.emafructidor.com). Pa-

Você tem colaborações com artistas de diversas partes do mundo. Isso inclui uma colaboração com uma artista daqui, a Aspásia Mariana... Qual a proposta?

ralelamente à sua atividade de pesquisa e ensino, ele colabora, entre outros, com os coreógrafos Alain Buffard, Vincent Dupont, Rachid Ouramdame, Kondition Pluriel.

57


FRED BENEVIDES Audiovisual e literatura além da adaptação 58

As obras literárias são uma fonte aparentemente ines-

propôs a realização de exercícios em vídeo, reunidos

gotável de inspiração para o audiovisual - que o digam

na vídeo-instalação Transcriações: Leitura e Escrita,

as centenas de adaptações para o cinema lançadas

exposta no Alpendre no dia 15 de outubro.

anualmente, entre grandes produções e realizações independentes. Nesse rico filão, são diversas as pos-

Fred Benevides é Graduado em Comunicação pela

sibilidades criadoras. Algumas delas foram exploradas

Universidade Federal do Ceará, com uma pesquisa

pelo diretor e professor Fred Benevides na oficina

sobre montagem no cinema. Formado pela Escola de

Transcriações: leitura e escrita. A atividade, composta

Audiovisual de Fortaleza, com o trabalho “Nós em For-

por três módulos, ocorreu entre 27 de setembro de 15

taleza”, um itinerário poético pela cidade de Fortaleza

de outubro, no Alpendre.

através de manipulação ao vivo de imagens e sons captados no site de vídeos Youtube.

Fred Benevides mostrou aos participantes caminhos para a realização de filmes a partir de textos literários.

Ministra cursos de formação em audiovisual, nas áreas

Essa realização foi pensada extrapolando a narrativa

de linguagem do cinema e montagem, os mais recen-

e observando questões de estilo, além de aproxima-

tes no Centro Cultural do Bom Jardim e na Escola de

ções com o universo dos autores dos textos.

Audiovisual da Vila das Artes. Dentre outros trabalhos, dirigiu o vídeo As Corujas, contemplado no VI Edital de

A atividade também contemplou conceitos da linguagem cinematográfica. Como produto final, Benevides

Cinema e Vídeo.


RICARDO MARINELLI Entre roupas, músicas e segredos inconfessáveis Se cada corpo tem uma história, nada mais justo que

em dança, corpo e movimento. Martinelli propõe in-

pensar em cada corpo como portador de diversas co-

vestigar metodologias para diferentes processos de

reografias possíveis, únicas. E como criar a partir das

criação de coreografias.

próprias lembranças, da própria biografia? O artista, pesquisador e produtor Ricardo Marinelli propôs mé-

Ricardo Marinelli é artista, pesquisador e produtor

todos para potencializar esse tipo de processo criativo

em arte contemporânea, trabalhando em diversos

na Residência Dançando com nossas urgências (ou

campos entre artes cênicas e visuais. Licenciado em

sobre uma poética autocoreográfica), uma das ofici-

Educação Física e Mestre em Educação pela Univer-

nas promovidas em setembro pelo Núcleo de Forma-

sidade Federal do Paraná (UFPR), estudou dança em

ção do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

diversas instituições de Curitiba. Foi bolsista/residente da Casa Hoffmann (2004), onde pôde trabalhar com

A oficina aconteceu entre 13 e 17 de setembro, no

coreógrafos de diversos lugares do mundo. Foi pro-

Alpendre - Casa de Arte, Pesquisa e Produção. Antes

fessor de Dança e Filosofia na UFPR (2005-2006). En-

mesmo do início da residência, Marinelli já pediu aos

tre 2004 e 2009, recebeu cinco prêmios da Funarte

participantes que se revelassem, em suas subjetivida-

para desenvolver suas peças, com as quais circulou

des, por meio de objetos pessoais como roupas, CDs

por diversos festivais no Brasil, Alemanha, Peru, Uru-

e anotações de “segredos inconfessáveis”, entre ou-

guai, Martinica e Cuba.

tros. Com esses pontos de partida, a oficina introduziu elementos constituintes de autocoreografias, como Marinelli denomina. A atividade serviu de laboratório destinado a performers, bailarinos, coreógrafos e intérpretes-criadores em dança. Ao longo de uma semana, a oficina-laboratório explorou estratégias para ampliar e desenvolver o potencial criativo e perceptivo do artista interessado

59


VERONICA STIGGER

Os rascunhos de uma arte contemporânea

60

Entre 2006 e 2009, a professora universitária Veronica

Bom, várias coisas estão envolvidas nessa noção de

Stigger dedicou-se a pesquisar o multiartista, arquiteto,

experiência. Uma delas é essa ação, esse colocar em

engenheiro (e uma dezena de outras coisas) Flávio de

prática alguma coisa. Esse lado meio dramático que

Carvalho, em um Pós-Doutorado. Nas mãos, ela tinha

tem na experiência, de um drama pensado assim,

um objeto e tanto: manifestações artísticas capazes de

como alguma coisa colocada em ato, em ação. Que

entrecruzar performance, moda, etnografia, audiovisu-

é o caso das três experiências que ele faz: andar no

al (e uma dezena de outras coisas). O modernista, da

sentido contrário de uma procissão; criar um traje de

mesma geração de Mário de Andrade e Tarsila do Ama-

verão para os homens e sair desfilando nas ruas de

ral, é reconhecido por Stigger como uma espécie de

São Paulo com esse traje; e uma última que é pes-

precursor da arte contemporânea brasileira.

quisar uma tribo indígena e ao mesmo tempo fazer um filme. Então a gente tem por um lado, esse aspecto

Essas e outras ideias sobre Flávio de Carvalho foram

de ação, de colocar alguma coisa em prática, nessa

expostas por ela na oficina Flávio de Carvalho e a in-

ideia de experiência, e por outro, o que está embutido

venção da arte contemporânea brasileira, promovida

nessa ideia, que é uma busca por conhecimento. Em

pelo Núcleo de Formação do Centro Dragão do Mar de

todas as intervenções do Flávio, há a ideia de buscar

Arte e Cultura. No bate-papo a seguir, Veronica Stigger

um conhecimento específico sobre alguma coisa. No

se detém sobre a noção de experiência como atributo

primeiro caso, por exemplo, estudar a alma dos cren-

definidor da obra de Flávio de Carvalho.

tes, como ele diz, na procissão de Corpus Christi, no segundo estudar a moda, no segundo, e no terceiro,

Em poucas palavras, como se poderia definir a impor-

há uma experiência de caráter científico, que é estudar

tância da noção de experiência nas intervenções e nas

o índio e depois produzir um filme.

andanças de Flávio de Carvalho?


Em todas essas experiências, ele, digamos assim, ele

Eu acho que ele é deslocado. Ele chegou ao Brasil

ignora os limites de espaço em que se espera que es-

depois de fazer os estudos dele fora do país. Então,

sas manifestações se desenvolvam. A arte na galeria, a

ainda pequeno, com 11 ou 12 anos, ele foi enviado

moda dentro de uma loja... Tudo dele parece convergir

para estudar fora do país. E ele volta em 1922, o ano

para um contato com a vida real. É correto pensar des-

da Semana de Arte Moderna [de São Paulo, marco do

sa forma?

Modernismo nas artes brasileiras]. Mas ele não volta em fevereiro, quando se deu a Semana, volta só em agos-

Creio que, no caso das experiências do Flávio de Car-

to. Ele vai ter contato com essa turma, Mário de Andra-

valho, as manifestações vão além dos limites da arte.

de, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, depois Raul

Elas bordejam outras áreas. No caso da Experiência nº

Bopp... Mas ele é sempre um artista meio deslocado.

2, que é a da procissão, ele vai bordejar a psicologia, a

Embora ele tenha relação com as pessoas que eu citei,

etnografia... Na Experiência nº 3, também a etnografia,

ele é sempre um artista mais à parte.

mas também a sociologia, a história. A própria moda... São experiências, manifestações, ações que o Flávio de Carvalho coloca em prática, que vão além dos limites estritos da arte, de um museu. E é por isso que

Verônica Stigger

vem o título que sugeri para a oficina, que é Flávio de

É doutora em Ciências da Comunicação, dentro da

Carvalho e a invenção da arte contemporânea brasilei-

linha pesquisa Teoria e Crítica da Arte, pela Univer-

ra. É um pouco uma brincadeira de pensá-lo como um

sidade de São Paulo (2005), com tese sobre a rela-

precursor.

ção entre arte, mito e rito na modernidade, enfatizando os trabalhos de Piet Mondrian, Kasimir Malevitch,

Dentro do Modernismo, o lugar do Flávio de Carvalho

Kurt Schwitters e Marcel Duchamp. Possui também

era um lugar...

pós-doutorado pela Università degli Studi di Roma & La Sapienza (2009) e pelo Museu de Arte Contem-

Deslocado?

porânea da Universidade de São Paulo (2009). Atua na área de Artes, com ênfase em Teoria e Crítica da

Isso.

Arte.

61


A conversa começou com uma certa previsibilidade:

munitária. Era pensar a arte do rádio, como fiz em

uma questão sobre rádio, um dos objetos de inte-

relação a vídeo e outras áreas. Da mesma maneira

resse do professor Mauro Sá Rego Costa. Mas logo

como estou dando esse curso sobre pensamento

deslizou para uma prazerosa reflexão sobre artes

em arte contemporânea (a entrevista foi realizada du-

em hibridismo, dissolução de fronteiras e a possível

rante a oficina Beuys, Lygia Clark, Oiticica: mudando

inserção social do trabalho dos artistas. Muitas refe-

o lugar da arte, em 7 de dezembro de 2010), o rádio

rências e um incontido otimismo alinhavam a fala do

me interessa como meio de criação. Na verdade o

professor da Universidade do Estado do Rio de Ja-

rádio, desde o início, antes do rádio comercial, foi

neiro, nesta conversa realizada durante a passagem

uma coisa experimental para muitos artistas. Isso,

de Mauro por Fortaleza.

até a década de 50. O Samuel Beckett, dramatur-

62

go, ele fazia programas de rádio. O (crítico literário e Na cidade, ele ministrou a oficina Beuys, Lygia Clark,

ensaísta alemão) Walter Benjamin fez programas de

Oiticica: mudando o lugar da arte, na qual mostrou

rádio, na Alemanha dos anos 40. O (poeta, escritor e

como esses artistas propuseram deslocamentos

dramaturgo francês) Antonin Artaud também. Todos

fundamentais para a História da Arte. E também

esses artistas trabalharam com rádio não como uma

palestrou sobe Rádio, Arte e Loucura, junto com

mera... como esse rádio que a gente conhece.

a professora do Instituto de Cultura e Arte da UFC, Deisimer Gorczevski.

Há ainda o (diretor de cinema, ator e roteirista) Orson Welles.

Confira a seguir trechos do bate-papo. Sim, Orson Welles. Ele pega o Guerra dos MunNo seu trabalho, percebe-se uma perspectiva de

dos (obra de H.G Wells) e transforma, ou finge que

“oxigenar” as ideias que associamos ao rádio, à pro-

é um programa jornalístico, relatando uma invasão

gramação radiofônica. Como esse interesse surgiu

extraterrestre. São usos do rádio com uma dimen-

para o senhor e que rumos ele tomou?

são maior do que acontece ou do que ouvimos no rádio. Tenho um grupo de pesquisa do CNPq, que

Eu sempre trabalhei com arte e mídia. Fui jornalista,

produz um blog, reunindo oito pesquisadores. É o

fiz televisão, direção e produção de vídeo... A úni-

radioforum.wordpress.com. Lá, nós temos o registro

ca coisa com a qual eu não tinha mexido era rádio.

de todo tipo de prática de rádio: radiodrama, radioar-

Então, pintou a ideia de montar a rádio comunitária

te, radiodocumentário, e a teoria sobre essas formas

na faculdade em Caxias (Região Metropolitana do

de fazer rádio. São as coisas que interessam a esse

Rio de Janeiro), na Universidade do Estado do Rio

grupo.

de Janeiro. Montamos uma rádio com a população local. Mas o meu interesse não era só a rádio co-


MAURO SÁ REGO COSTA

O poder das interfaces

O senhor acha que a arte contemporânea tem o po-

no Rio. É um trabalho de artista, de intervenção so-

der de reabilitar as dimensões sensoriais que estão

nora, e social. A Mariana Novaes, que também faz

para além do visual?

mestrado nessa linha, trabalha dentro de ocupações de sem-teto no Rio de Janeiro. Essas interfaces são

Acho que cada vez mais. A pesquisadora Lilian Za-

o lugar que considero o mais importante para pen-

remba, que participa do Rádio Fórum, foi casada

sar arte, porque se for para pendurar quadro em

com o Tunga (Antônio José de Barros de Carvalho

galeria, desde Lygia Clark, Hélio Oiticica e Joseph

e Melo Mourão), que é um dos maiores esculto-

Beuys “já era”. Tem uma história interessante com o

res brasileiros. Frequentemente ela vai junto com o

Luiz Carlos Vergara, que foi diretor do Museu de Arte

Tunga, como foi para a documenta de Kassel. Ela

Contemporânea de Niterói. Ele trabalhou no Museu

faz todo um trabalho sonoro junto com a obra que

de Arte Moderna de Nova York, com intervenções

o Tunga produz, não só a obra, a instalação. Tem

em comunidades. Agora, ele dirige a recuperação

muita gente legal trabalhando isso. O Joseph Beuys,

de um prédio do (arquiteto Afonso) Reidy, construí-

esse cara que estou trabalhando aqui, não fez rádio,

do em 1954. É um edifício “comunidade”, que tinha

mas gravou discos de experiência sonora. Usou o

a ideia de ter todos os serviços dentro do prédio,

suporte fonográfico e sonoro como um artista. Tem

como hoje ocorre nos condomínios, mas para a

um coletivo que estou trabalhando no Rio, de ar-

classe popular. O projeto de recuperação quer reto-

tistas plásticos, chamado Jogos de Escuta. Dois

mar a ideia inicial de fazer uma comunidade de mo-

deles fazem mestrado ou doutorado em Poéticas

radores junto com as atividades. O Vergara colocou

Interdisciplinares na Escola de Belas Artes. A Escola

os artistas como os interlocutores dessa recupera-

criou uma linha de pesquisa (para esse tipo de in-

ção. É pensar o patrimônio de maneira integrada. A

vestigação). O Marcelo Wassen, por exemplo, faz

arte está dentro disso, não é adereço ou pendurica-

um trabalho com ondas radiofônicas. Montou uma

lho. Dentro da vida das pessoas, como Mondrian, as

rádio dentro do Museu da Maré, na favela da Maré,

vanguardas e o construtivismo já pensavam.

63


Nessas experiências que o senhor relata, fica muito clara uma preocupação com a cidade, com o urbano. Hoje, vem se tornando um clichê falar de arte/ cidade, ou de corpo/cidade. Como a gente pode transgredir essa superfície pra ir ao encontro de uma arte realmente de intervenção? É uma outra faixa. Por exemplo, projetos do Oiticica que não chegaram a ser realizados, de criar os “labirintos”, que não eram pra ser objeto de arte dentro do museu, e sim no Parque do Flamengo, no Rio. É uma obra de arte para entrar e se perder lá dentro, vibrar com as cores e o movimento. Além disso, você tem as intervenções, cada vez mais freqüentes. Agora mesmo, no (evento) Oi Futuro, você teve uma intervenção com um grupo de dança, e eles estavam lá, realizando uma performance. Ao mesmo

64

tempo, câmeras gravavam e isso era transmitido no Oi Futuro, como se fosse uma exposição de arte ao vivo, pela internet. Acho que são maneiras de lidar com a arte que quebram com a bobagem da coisa simplificada do que “é”. Não é pra ser contra pintura, escultura, nada disso. Mas tem mais. Por que não experimentar?

Mauro Sá Rego Costa Mauro José Sá Rêgo Costa é Professor Adjunto da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense / UERJ; Coordenador da Oficina Híbridos – Mídia e Arte Contemporânea - do LABORE – Laboratório de Estudos Contemporâneos - UERJ; Coordenador do Laboratório de Rádio UERJ/Baixada. Professor do Mestrado em Educação, Cultura e Comunicação / FEBF/UERJ; Professor do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Dança Angel Vianna.


65


HELOÍSA BUARQUE DE HOLLANDA As trilhas da emergência e da diferença

66

A personalidade inquieta de Heloísa Buarque de

Nesta conversa, ela retoma alguns desses temas e

Hollanda comanda muitas de suas ações. Desde os

expande suas considerações para o campo da edu-

anos 1960, quando ingressou na Universidade Fede-

cação, em que enxerga um abismo entre as práticas

ral do Rio de Janeiro, até os dias de hoje, a profes-

docentes e a realidade dos estudantes. Confira.

sora, escritora e editora se move dentro de um efervescente caldo cultural que inclui poesia marginal, arte

Professora, a senhora diz que, a partir de um certo

periférica e manifestações da cibercultura. Mas esses

momento de sua vida, a senhora foi inoculada pelo

são apenas fragmentos de um trabalho de reconheci-

vírus da novidade. Queria que a senhora contasse

mento da nossa própria riqueza simbólica, desenvolvi-

como isso ocorreu. Até que ponto isso teve a ver com

do numa perspectiva interdisciplinar – nas interseções

o quadro político da época?

entre literatura, teoria da cultura, ciências sociais e comunicação.

Eu entrei na Universidade (Federal do Rio) não para estudar, mas para trabalhar, em 1965. Era um período

Com tanto a dizer, Heloísa teve dois momentos distin-

de ouro. Entre 1964 e 1968, apesar de já ter havido o

tos para expor seu pensamento, em sua participação

golpe (militar), a universidade era um celeiro de ideias e

nas atividades do Núcleo de Formação do Centro Dra-

acontecimentos. Era um lugar quentíssimo. Então, em

gão do Mar de Arte e Cultura. Na oficina “Crítica Hoje”,

1968, teve o AI-5 (Ato Institucional nº 5, que limitou as

ministrada em 4 de dezembro, ela problematizou o

garantias civis), era o começo da minha carreira. Não

lugar da crítica em meio às mudanças de paradigma

conseguia mais ficar trabalhando. Todos os professo-

suscitadas pela presença e usos das mídias digitais.

res receberam uma lista do que não (se) podia falar. E

Já no seminário “Novas políticas estéticas”, apresen-

era muita coisa que não podia falar! Ficava quase que

tado no dia anterior, ela buscou reposicionar o lugar

difícil abrir a boca. Fiquei achando que aquele silêncio

da periferia em um cenário globalizado e fundamen-

não podia ser tão completo. E aí saí trabalhando no

talmente híbrido.

que faço até hoje, que é microtendência – que a gente pode chamar de novidade. Mas a microtendência vem


E

a

até antes da novidade: ela aparece e se dá certo vira

Eles respondem à globalização. Que eu acho que tem

novidade, se não dá a gente esquece.

duas, pelo menos, e tenho estudado as duas. Uma é a periferia, as novas vozes da periferia. Nos anos 80,

O interesse que a senhora demonstrou pela poesia mar-

mudamos de uma sociedade de produção para uma

ginal, ali pelos anos 1970, foi uma das primeiras áreas nas

sociedade de consumo. Aquilo começa a abrir espa-

quais a senhora trabalhou nesse sentido, não é?

ço para a diferença, porque são nichos de mercado. Começa a ter atenção aos gays, às mulheres, como

Foi a primeira coisa, nesse tipo de tendência. Eram os

consumidores. Mas as periferias nunca tiveram voz. E

poetas que usavam mimeógrafo... A ditadura não que-

não é que não tivessem cultura. Sempre tiveram muita

ria saber de poesia. Ela estava muito atenta a jornal, a

cultura, o que não havia era visibilidade. E não tinham

televisão, que são formadores de opinião, mas a coisa

o apoio internacional que tem hoje. Hoje, a chave que

da poesia ninguém ouve, lê ou quer. É um território

une todos os jovens pobres, pretos, é o rap. E o rap é

que não pagava o preço do censor, não tinha poten-

um gênero transnacional. Acusam o rap de ser cópia,

cial nenhum. E o engraçado é que essa cena cresceu

de não ser local, mas vejo misturas como a do rap e

e ficou uma onda, um tsunami de poesia no Rio de

do maracatu, em Recife, que são sensacionais. Existe

Janeiro, que era onde eu estava, pelo menos. Havia

essa coisa das alianças.

muitas publicações em mimeógrafos, em pequenas gráficas. Livros feitos pelos próprios poetas. Depois

Essas manifestações vão encontrando seus pares.

67

eles eram vendidos de mão em mão. Depois isso foi crescendo. Eram jovens universitários, então era exa-

São pares que a globalização permite, pela internet,

tamente quem estava sendo tolhido pelo AI-5. Foi legal

pelo mercado cultural com mais influxos. As periferias

porque eles fizeram uma coisa que está acontecendo

ganham visibilidade a partir dessas coisas. A outra coi-

de novo com as culturas de periferia: sempre vincular

sa é a cultura digital, que é um efeito fulminante da

a poesia à música. Naquela época era o rock. A poe-

globalização econômica e de informação, e que data

sia parava e tinha um show de rock. Era um show que

da década de 1990. No fim da década, a internet já

pegava cada vez mais gente, até formar multidões.

era uma experiência cotidiana.

Porque tinha essa coisa do rock-poesia, do teatro alternativo... Asdrúbal Trouxe o Trombone (grupo teatral

Essa cotidianização do fazer artístico por meio das no-

carioca), que era um teatro bem alternativo, carregou

vas tecnologias coloca em xeque a própria noção de

um monte de poetas juntos. Então era uma geração

valor das manifestações artísticas que nos acostuma-

que fazia várias coisas, e a poesia era uma delas. A

mos a ter?

poesia se integrou a um sentimento emergente, digamos. É o único testemunho que se tem da geração

Eu acho que não. Acho que a gente está com merca-

AI-5. Se você for ler os poemas, são cheios de pistas.

do pra tudo. Acho que aquela arte vai continuar. Não

Tem uma paranóia que rola. Esse clima era de para-

acho que a literatura, por exemplo, acabou. Eu acho

nóia e de falta de informação.

que o espaço experimental está na internet, a vanguarda, está na internet. Mas o mercado está muito

Os protagonistas dessa microtendência que a senhora

bom para artes plásticas, para literatura. Esses mer-

relata respondiam a um momento político do país. Os

cados tradicionais se fortaleceram, e acho que vai ter

protagonistas das microtendências de hoje respon-

sempre autores canônicos, dentro dos valores da lite-

dem a quê?

ratura tradicional. Acho que é difícil abrir mão disso, ela é uma literatura autoral, de expressão de um indivíduo.


É uma interlocução muito diferenciada. E a necessida-

uma situação muito constrangedora para o professor,

de do autor individual eu penso que não vai acabar.

ele fica sem autoridade. Tem que esperar o tempo do professor. Há mil projetos, para dar computador, mas

Uma das conseqüências sérias, em termos de rela-

esses professores não sabem qual é a experiência

ções sociais, que a cultura digital institui, é a capacida-

dessa geração mais jovem.

de que as pessoas ganham em responder a estímulos de maneiras que não aconteciam antes, nos mass

Imagino que na universidade aconteça algo parecido.

media, por exemplo. Posso comentar um vídeo, entrar numa rede social e conversar com figuras de autorida-

A universidade é pior. É arrogante. Ela diz que isso não

de. Como a senhora avalia esse impacto em termos

é, não presta. A universidade não presta atenção. Tem

da própria atividade dos artistas? Isso muda alguma

um ponto importante que é o seguinte; hoje, você tem

coisa nas sensibilidades?

uma espécie de inteligência coletiva, enquanto antes você tinha o expert. A universidade é o lugar dos ex-

68

Acho que está um pouco cedo (para avaliar o impac-

perts, e eles estão desesperados, porque mesmo que

to), mas a gente precisa dividir. Há o nativo digital, ou

eles não saibam, eles estão intuindo que vão perder

pelo menos gente que pegou os anos 90 em forma-

seu capital. E “tranca”. É normal. Se você for um pi-

ção. Os nativos têm outro tipo de atenção, uma aten-

vete e for pegar a carteira de alguém, ele não deixa.

ção de articulação. Você gerencia sua atenção, diga-

Isso que está acontecendo na universidade. Você não

mos assim. O que é diferente. Você faz várias coisas

deixa colocar em questão a sua condição de expert.

ao mesmo tempo, e não está disperso. A minha neta

Tem que esperar isso morrer, envelhecer ou aposen-

é um exemplo. Ela é uma excelente aluna. Faz dever

tar. Porque o momento é o de gerações que tem ex-

jogando e vendo televisão, e tem nota 10. É um outro

periências de cognição muito diferentes. E é difícil que

mecanismo de atenção, que a gente não sabe... Acho

elas conversem.

que é um pouco cedo para a gente saber onde isso vai parar, porque essa geração precisa ficar adulta, pelo menos. Eu fui para uma mesa redonda de escritores, em Curitiba, e eles tinham em média 60 anos. O que eles falavam mal... Isso é uma questão hormonal, não é cultural nem tecnológica! (ri) Eu não seguro essa

Heloísa Buarque de Hollanda

onda! Não adianta eu dizer: “não é a mesma coisa

Heloisa Helena Oliveira Buarque de Hollanda é Bol-

que ler um livro...” Vai ser a mesma coisa para a minha

sista de Produtividade em Pesquisa do CNPq - Ní-

neta. Ela vai escolher o suporte dela.

vel 1A. É doutora em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1979).

Como, num fazer docente, os educadores podem se

Atualmente é Professora Titular de Teoria Crítica da

colocar diante dessas questões?

Cultura da Escola de Comunicação e Coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea

Vai ter uma zona de conflito durante um tempo grande.

do Forum de Ciência e Cultura, ambos da Universi-

Até os educadores saberem mexer no computador.

dade Federal do Rio de Janeiro. É diretora da Editora

Outro dia, eu li que o governo estava dando compu-

aeroplano e consultoria e d´O Instituto de Projetos

tadores para escolas e as educadoras estavam tran-

e Pesquisa, e autora de vários livros. Seus artigos

cando para não quebrar. Não é para “não quebrar”,

e palestras recentes privilegiam a cultura produzida

é porque elas não sabem usar e a garotada sabe. É

nas periferias das grandes cidades e a cultura digital.


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70

Oficina “Live Art: Happening, performances e hibrismos”, com Luana Veiga.

Oficina “Arte Moderna”, com Sólon Ribeiro.


Oficina “Narrativas urbanas ilustradas em zines”, com Fernanda Meireles e Ramon Cavalcante.

Seminário “Os Sentidos da Arte”.

71


PROGRAMA DRAGÃO DO MAR EDUCATIVO NÚCLEO DE FORMAÇÃO EM ARTE E CULTURA OFICINAS E SEMINÁRIOS Oficinas

Ministrante

Área

Corpo, Conduta e Movimento

Marcela Reichelt/SC

Dança

agosto

Alpendre

Cinesiologia aplicada à Dança

Márcia Santiago/BA

Dança

13 a 17/09

Sala de Dança Senac

Residência > Dançando com nossas urgências (ou sobre uma poética autocoreográfica)

Ricardo Marinelli/PR

Dança

13 a 17/09

Alpendre

Flávio de Carvalho e a invenção da arte contemporânea brasileira

Verônica Stigger/SP

Literatura

13 a 17/09

Alpendre

Dançando com Maiores de 50

Eliana Madeira

Dança

20 a 24/09

Sala de Dança SENAC

Reverberações: imagens do texto

Fátima Souza

Literatura

20 a 24/09

Alpendre

Introdução à Crítica Cinematográfica

Marcelo Ikeda

Audiovisual

21 a 24/09

Alpendre

Residência > Corpo: Abrigo Da Cidade

Fauller

Dança

27 a 01/10

Sala de Dança SENAC

Fred Benevides

Audiovisual

27 a 01/10

Alpendre

“Transcriações: leitura e escuta” – Módulo I / Roteiro Guias Afetivos

72

Periodo

Local

Marcus Faustini/RJ

Audiovisual

27 a 01/10

Sala Multiuso Dragão

“Transcriações: leitura e escuta” – Módulo II / Produção e Realização

Fred Benevides

Audiovisual

04 a 08/10

Alpendre

Dançando com Maiores de 50

Eliana Madeira

Dança

04 a 08/11

Sala de Dança SENAC

“Transcriações: leitura e escuta” – Módulo III / Realização e edição

Fred Benevides

Audiovisual

11 a 15/10

Alpendre

“Transcriações: leitura e escuta” – Módulo IV / edição

Fred Benevides

Audiovisual

11 a 15/10

Alpendre

Lucas Ciavatta/RJ

Música

14 e 15/10

Teatro das Marias

Criação e manufatura de pequenos livros

Ítalo Rovere

Literatura

11 a 15/10

Capitania de Arte e Cultura

corpo : som : palavra : imagem – Modulo I

Ricardo Aleixo/MG

Literatura

18 a 22/10

Capitania de Arte e Cultura

corpo : som : palavra : imagem – Modulo II

Ricardo Aleixo/MG

Literatura

18 a 22/10

Capitania de Arte e Cultura

Luana Veiga

Artes Visuais

18 a 22/10

Alpendre

Luana Veiga

Artes Visuais

18 a 22/10

Alpendre

Eduardo Passos/RJ

Estética

16 e 17/10

Alpendre

O Passo

LIVE ART: happenings, performances e hibridismos – Módulo I LIVE ART: happenings, performances e hibridismos – Módulo II A arte da Critica frente aos objetos de nossa prática Linha/objeto/paisagem: a construção de livros de artistas

Simone Barreto

Artes Visuais

18 a 22/10

Capitania de Arte e Cultura

Elaboração de Projetos – Módulo I

Emidio Sanderson

Produção Cultural

18 a 22/10

Alpendre

Prestação de Contas

Emídio Sanderson

Produção Cultural

25 a 29/10

Capitania de Arte e Cultura

Artes, Museus e Temas Transversais (2 Módulos)

Núbia Agostinha

Artes Visuais

20 e 21/10

Capitania de Arte e Cultura

Auntenticidade, comunidade, povo: a canção popular no Nascimento da Tragédia.

Henry Burnett/SP

Literatura/Musica

26 a 29/10

Auditório Dragão do Mar

Fotografia na Escola – Brincando com a Luz

Miguel Chikaoka/PA

Fotografia

26 a 30/10

Capitania de Arte e Cultura

Danças tradicionais (Módulo I)

Helder Vasconcelos/PE

Musica/Dança

01 a 06/11

Teatro das Marias

Laboratório de Criação (Módulo II)

Helder Vasconcelos/PE

Musica/Dança

01 a 06/11

Teatro das Marias

Ângela Escudeiro

Teatro

01 a 06/11

Capitania de Arte e Cultura

3/11 a 5/11

Capitania de Arte e Cultura

08 a 12/11

Capitania de Arte e Cultura

08 a 12/11

SESC SENAC Iracema

08 a 12/11

SESC SENAC Iracema

Vivencias em Bonecos e Teatro – Módulo I História em Quadrinhos Vivencias em Bonecos e Teatro – Módulo I

Abner Dangelo Ângela Escudeiro

Artes Visuais Teatro Literatura/Artes Visuais Literatura/Artes Visuais

Eu / outro : relações / literatura e artes visuais” – Módulo I

Érica Zíngano

Eu / outro : relações / literatura e artes visuais” – Módulo II

Érica Zíngano

Criando Imagens para a cena

Marina Carleial

Moda

08 a 12/11

Capitania de Arte e Cultura

Iniciação à Fotografia

Sheila Oliveira

Fotografia

08 a 12/11

Capitania de Arte e Cultura

Bianca Ziegler de Souza

Artes Visuais

08 a 12/11

Memorial da Cultura Cearense

Ângela Escudeiro

Teatro

16 a 19/11

Capitania de Arte e Cultura

Orientação de Estudos para o curso Museu Patrimônio de Todos Vivências em Bonecos e Teatro – Módulo III


Oficinas

Ministrante

Área

A Fotografia nas Artes Visuais

Solon Ribeiro

Fotografia/ Artes Visuais

16 a 19/11

Capitania de Arte e Cultura

Arte moderna

Sólon Ribeiro

Artes Visuais

22 a 26/10

Capitania de Arte e Cultura

Arte Conceitual, parangolés e outros bichos

Thereza Rocha/RJ

Estética

22 a 26/11

Alpendre

Oficina do Gesto - trabalho de desenvolvimento do corpo para a criação

Suely Machado/MG

Dança

08 a 12/11

Sala de Dança

A Cidade Ilustrada em Zines– Módulo I

Fernanda Meireles

Design

16 a 19/11

Capitania de Arte e Cultura

A Cidade Ilustrada em Zines– Módulo II

Ramon Cavalcante

Design

22 a 26/11

Capitania de Arte e Cultura

Artes, Museus e Temas Transversais Corpo Ambiente Carnalidade Sonora Teatro e grupos: teatralidades – Módulo Teórico Teórico Trabalho sobre o texto “O declínio do egoísta Johann Fatzer”, de Bertolt Brecht - Módulo Prático Espaço de Inclusão Artística de Pessoas com A.D. Encontro com a Dança

Periodo

Local

Núbia Agostinha

Artes Visuais

18 e 19/11

Capitania de Arte e Cultura

Mauricio Leonard/MG

Artes Visuais

22 a 24/11

Alpendre

Rafael Vasconcelos

Musica

20 a 22/11

Memorial da Cultura Cearense

José Fernando Azevedo/SP

Teatro

22 a 26/11

SESC SENAC Iracema

Teatro

22 a 26/11

SESC SENAC Iracema

Artes Visuais

24 a 27/11

Memorial da Cultura Cearense

José Fernando Azevedo/SP e Lucienne Guedes Sérgio Rotschild Parente Soares Silvia Moura

Dança

24 a 27/11

Memorial da Cultura Cearense

Cultura popular para guias turísticos

Graça Martins

Cultura Popular

29/11 a 03/12

Capitania de Arte e Cultura

Modos de Fazer; Arte Pública de Intervenção Comunitária – Módulo I

David da Paz

Artes Visuais

29/11 a 03/12

Capitania de Arte e Cultura

Modos de Fazer; Arte Pública de Intervenção Comunitária – Módulo II

David da Paz

Artes Visuais

06/11 a 10/12

Capitania de Arte e Cultura

Elaboração de Projetos – Módulo II

Emidio Sanderson

Produção Cultural

06 a 10/12

Capitania de Arte e Cultura

Produção e Apresentação Coletiva de Portifólios

Eduardo Bessen/SP

Artes Visuais

07 a 11/12

Sobrado Dr. José Lourenço

Max Perlingeiro/RJ

Artes Visuais

07 a 11/12

Sobrado Dr. José Lourenço

Mariana Martins/SP

Artes Visuais

07 a 11/12

Sobrado Dr. José Lourenço

Jornalista por um dia: uma ação educativa de museu inovadora

Vera Barros/SP

Artes Visuais

04/12

Beuys, Lygia Clark, Oiticica, mudando o lugar da arte

Mauro Costa/RJ

Artes Visuais

06/12 a a 10/12

Violeta Uman/Argentina

Audiovisual

29/11 a 01/12

Andréa Drigo/SP

Audiovisual

30/11 a 02/12

Emanuel Silva de Oliveira

Artes Visuais

01 a 03/12

Memorial da Cultura Cearense

16 a 17/12

Alpendre

Arte e Educação – uma parceria de sucesso Galeria Choque Cultural - um projeto alternativo no mercado de arte urbana brasileiro

Direção de Cinema para Iniciantes O Caminho do Canto Oficina de Arte Urbana para o Projeto Museu e Cidadania Cultural Deslocamentos Críticos

Sobrado - 9h às 12h Auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura Capitania de Arte e Cultura, programação do 4º FORRAINBOW Theatro José de Alencar, programação do 4º FORRAINBOW

Tânia Rivera/DF

Artes Visuais

Heloisa Buarque de Holanda/RJ

Todas as linguagens

03/12

Alpendre

Marina Carleial

Moda

06 a 10/12

Capitania de Arte e Cultura

Catarina de Papas

Teatro

06 a 10/12

Capitania de Arte e Cultura

Ruth Aragão

Moda

06 a 10/12

Capitania de Arte e Cultura

Ruth Aragão

Moda

13 a 17/12

Capitania de Arte e Cultura

Silvia Moura

Dança e Artes Visuais

13 a 17/12

Capitania de Arte e Cultura

Silvério Pereira

Teatro

06 a 10/12

Theatro José de Alencar

Tomaz de Aquino

Teatro

02,03 07 e 09 04/12

Theatro José de Alencar

Oficina de Voz

Marta Aurélia

Teatro/Musica

02 a 10/12

Theatro José de Alencar

Introdução à Técnica de Desenho

Milton Ferreira

Artes Visuais

13 a 17/12

Poço da Draga

Iniciação à Flauta

Milton Ferreira

Musica

13 a 17/12

Poço da Draga

Critica hoje Criando Imagens para a cena – Módulo II Direção Teatral para Iniciantes Oficina Prático-Experimental de Criação de Imagem de Moda, Styling e Figurino – Módulo I Oficina Prático-Experimental de Criação de Imagem de Moda, Styling e Figurino – Módulo II Linhas e formas-Bordando com o corpo na vida. Direção Teatral para iniciantes Oficina de Mímica

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SEMINÁRIOS INTERDISCIPLINARES Encontros com estrutura multidisciplinar, reunindo participantes de várias linguagens em torno de temas pertinentes à arte contemporânea. (Foram realizados 03 seminários) Seminário Arte, Invenção e processos criativos Os Sentidos da Arte (Realizado em parceria com o Memorial da Cultura Cearense) Experiências inovadoras no Mercado de Arte Brasileira (Realizado em parceria com o Sobrado Dr. José Lourenço)

Ministrante

Área

Vários

Dança, Teatro, Musica, Fotografia, Audiovisual, Artes Visuais, Literatura

Teatro Dragão do Mar, 03 e 07/11

Artes Visuais, Fotografia e Dança

Auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, 24 a 27/11

Vários Vários

Local/Data

Artes Visuais,Fotografia,Produção Cultural Sobrado Dr. José Lourenço, 07 a 11/12

PROGRAMA DE SEMINÁRIOS CRÍTICOS - ARTE E TERRITÓRIO

74

Partindo da compreensão de que os territórios são moventes, sejam eles geográficos ou discursivos, delimitados físicamente ou configurados em campos simbólicos, é possível situá-los como fronteiras, gêneros, identidades, em constante negociação. Os territórios participam dos processos de subjetivação, evidenciando as relações neles implícitas, colocando-se em estreita conexão com os processos criativos na arte, inventivos de sujeitos e de mundo. Por isso o programa de Seminários Críticos - Arte e Território procura aproximar as questões da crItica , atravessadas na arte contemporânea.. (Foram realizados 04 seminários - Carga horária total do Programa – 20h) Seminário O Passo

Ministrante

Área

Local/Data

Lucas Ciavatta

Musica

Cinema Unibanco, 16/10

Mauro Costa e Deisimer Gorczevski

Comunicação e Arte

Novas Políticas Esteticas

Heloísa Buarque de Holanda

Comunicação e Arte

Arte é Território do Sujeito

Tânia Rivera

Artes Visuais

Auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, 10/12 Auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, 03/12 Auditório do Centro Dragão do Mar e Arte e Cultura, 15/12

Rádio, Loucura e Arte

PROGRAMA DE SEMINÁRIOS - CONVERSAS ITINERANTES Encontros realizados a partir de temas específicos, concentrados em uma ou duas palestras, abrangendo diferentes áreas e com formato itinerante, acontecendo em instituições parceiras, com o objetivo de potencializar acões em comum. (Foram realizados 05 seminários - Carga horária total do Programa – 24h) Ministrante Área Local/Data

Seminário Prestação de Contas no SINCONV

O construir conhecimento social: ações educativas em Museus A família Baglione

Camilla Palatucci e Lucas Carvalho

Produção Cultural

Vila das Artes, 26 e 27/11

Vera Barros

Artes Visuais

Sobrado Dr. José Lourenço, 04/12

William Baglione

Artes Visuais

Sobrado Dr. José Lourenço, 27/11 Capitania de Arte e Cultura, programação 4º FORRAINBOW, 29/11 a 01/12 Theatro José de Alencar, programação 4º FORRAINBOW 30/11 a 02/12

O Cinema LGBT na América Latina

Violeta Uman

Audiovisual

A Arqueologia da Voz

Andréa Drigo

Audiovisual/Artes cenicas


75 Bastidores do Seminário Arte, Invenção e Experiências Formativas.


NÚCLEO DE FORMAÇÃO EM ARTE E CULTURA Coordenação Pedagógica: Andréa Bardawil e Enrico Rocha Produção Executiva: Osiel Gomes Produção: Socorro Franco e Sônia Ribeiro Monitores: Luiz Otávio Queiroz, João Carlos Goes e Thiago Braga Secretaria: Maninha Mota Blog e Entrevistas: Rafael Rodrigues 76

Fotografia: Marina Cavalcante Design Gráfico: Paulo Amoreira Registro Vídeográfico: Alpendre - Casa de Arte, Pesquisa e Produção Edição de Vídeo: Kiko Alves Instituições parceiras: SESC SENAC IRACEMA Alpendre - Casa de Arte Pesquisa e Produção Teatro das Marias Sobrado Dr. José Lourenço Theatro José de Alencar AGRADECIMENTOS: Juliana Marinho, Leonardo, Cléo, Adriana, Ana Cristina, Sr. Edilson, Fábia, Elis, Tereza, Luis Carlos, Dalviane Pires, Diogo Braga, Léo Brilhante, Francisco da Costa Soares, Aspásia Mariana, Carlos Alberto, Jocélia, Jonathan, Walter Façanha, Alpendre, SESC SENAC Iracema, Teatro das Marias, Sobrado Dr. José Lourenço, Theatro José de Alencar, Memorial da Cultura Cearense, Vila das Artes, MINC e FUNARTE.


GOVERNO DO ESTADO DO CEARÁ Governador - Cid Ferreira Gomes Vice Governador - Francisco José Pinheiro Secretário da Cultura - Francisco Auto Filho Secretária Executiva da Cultura - Alda Araújo

INSTITUTO DE ARTE E CULTURA DO CEARÁ/ CENTRO DRAGÃO DO MAR DE ARTE E CULTURA Presidente - Maninha Morais Diretora Administrativo Financeira - Valéria Sales Diretora de Ação Cultural – Isabel Cristina Fernandes Diretora de Museus – Valéria Laena Assessora de Comunicação e Marketing – Dalviane Pires

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