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Livros sobre monstros e prodígios Palmira Fontes da Costa

Introdução É apenas no plano da relação com o outro que a noção de corpo monstruoso pode ser esbo‑ çada. Neste âmbito, e tal como foi apontado por Aristóteles (384­‑322 a. C.) em a Geração dos animais, a dissemelhança com o progenitor assume particular relevância: «Alguém que não tem semelhanças com os seus pais é na realidade um monstro uma vez que, nestes casos, a Natureza se desviou do seu tipo genérico» (ARISTÓTELES 1990:401). O autor considera mesmo a geração da mulher como um desvio e logo uma espécie de monstruosidade, «ape‑ sar de esta ser uma necessidade requerida pela Natureza». Aristóteles apresenta a monstruosidade, não como sendo contrária à natureza, mas apenas à generalidade do seu funcio‑ namento e atribui a sua origem a causas naturais, nomeadamente de natureza acidental (ARISTÓ­TELES 1990:425). Para o autor, os seres monstruosos são, portanto, factos extraordi‑ nários destituídos de significado moral. Esta interpretação marcaria o início de uma tradição «científica» na abordagem ao problema da monstruosidade. Uma outra tradição de grande influência na interpretação da origem do corpo monstru‑ oso remonta, pelo menos, à época clássica e, em particular, à obra De divinatione de Cícero (106­‑43). Esta abordagem considera a ocorrência de monstros e de outros fenómenos extra‑ ordinários como tendo uma origem sobrenatural. Estes fenómenos ou prodígios são encara‑ dos como a marca de uma transgressão moral grave acompanhada de um presságio de um castigo divino. Aliás, a etimologia da palavra monstros é elucidativa deste sentido. Monstra, em latim, provém da palavra monitus porque se mostram para indicar algo ou porque mos‑ tram para prenunciar o significado de algo (SEVILHA [613] 1983:47). A terceira corrente interpretativa remonta à História Natural de Plínio (23­‑79), e à Cidade de Deus de Santo Agostinho (354­‑430) e faz apelo à criatividade da natureza e, por assim dizer, à sua faculdade de «brincadeira» (Céard 1996:21­‑30). É nesta acepção que, muitas vezes, os monstros são designados pela expressão latina lusus naturae – jogos da natureza. Enquanto para Plínio os monstros são essencialmente exemplos da generosidade e da exuberância da natureza, para Santo Agostinho eles fazem parte da maravilhosa variedade da criação de 

Sobre as preocupações de Santo Agostinho em relação às raças monstruosas veja­‑se Gil (1994:21­‑38).

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Deus. No contexto desta tradição, os monstros são habitualmente descritos como maravilhas da natureza. As obras referidas constituem momentos inaugurais da interpretação da monstruosidade no pen­samento ocidental. No entanto, apareceram no período anterior à invenção da imprensa tendo assim uma grande limitação em termos de circulação e acesso. A partir dos finais do século Xv, a expansão da tipografia viria permitir não só a publicação das obras men‑ cionadas e o consequente alargamento das suas audiências como também o emergir de litera‑ tura dedicada exclusivamente a monstros e prodígios. O culminar da sua circulação acontece nos séculos Xvi e Xvii e manifesta­‑se através de dois formatos distintos, os folhetos volantes, geralmente de autoria anónima, e os livros escritos por humanistas, muitos dos quais com for‑ mação médica. A forma directa de venda dos papéis volantes, bem como a sua relativa acessi‑ bilidade em termos de preço e conteúdo, têm contribuído para atribuir a este género da «lite‑ ratura de cordel», como muitas vezes é designada, um cariz «popular». No entanto, isto não significa que a sua leitura fosse restrita a este tipo de audiência. Já o custo elevado dos livros sobre monstros e prodí­gios, associado à sua natureza enciclopédica, e ainda o facto de geral‑ mente serem escritos em latim, vocacionava­‑os para um público erudito. De que modo podemos explicar a popularidade da literatura sobre monstros na Europa dos séculos Xvi e Xvii? Quais os principais pontos de contacto e as grandes diferenças entre a literatura de cariz mais popular e erudita? Quais foram os principais autores de livros sobre monstros e os temas abordados nas suas obras? Qual foi a relação entre a medicina e o cul‑ tivo deste tipo de literatura? Qual foi o papel das imagens na descrição e atribuição de simbo‑ lismo a nascimentos monstruosos? Que tipo de leitores fruía este tipo de literatura? O exce‑ lente acervo de obras sobre esta temática existente na Biblioteca Nacional de Portugal constituirá a matéria­‑prima essencial para pensar nestas questões. Os monstros na literatura sobre prodígios Nem todos os prodígios foram configurados como monstros e nem todos os monstros eram encara­dos como prodígios. A noção de prodígio compreendia os fenómenos extraordinários da natureza com origem sobrenatural. Aos mesmos associava­‑se a corporalização de trans‑ gressões morais graves acompanhadas do presságio de um ou mais castigos divinos incluindo a fome, a peste ou a guerra. O apare­cimento de prodígios assinalava a última oportunidade de os pecadores se redimirem impedindo assim a ocorrência de acontecimentos funestos. O seu rol incluía nascimentos monstruosos, terramotos, cometas, erupções vulcânicas e outros acontecimentos raros. No entanto, pode dizer­‑se que os monstros foram os fenóme‑ nos extraordinários mais frequentemente interpretados como prodígios.

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fig. 1

Prodigiorum ac ostentorum cronicum (1557) do humanista protestante Konrad Lycosthe‑ nes (1518­‑1561) é a primeira grande obra sobre prodígios. O título completo é elucidativo do seu teor e principal mensagem: Crónica de prodígios e portentos que ocorreram fora da ordem, movimento e operações da natureza, em ambas as regiões superiores e inferiores do mundo, desde o início dos nossos tempos – cujo tipo de portentos não é produto do acaso mas, ao ser apresentado à raça humana, anuncia a severidade e ira de Deus contra os seus crimes e também grandes mudan‑ ças no mundo (fig. 1). Cinco anos antes, Lycosthenes tinha editado Prodigiorum liber de Julius Obsequens, um escritor romano do século IV, em que grande parte das informações tinha sido recolhida em Tito Lívio (59 BC­‑AD 17). Em Prodigiorum ac ostentorum cronicum, Lycosthenes pretende alar‑ gar o âmbito tem­poral do livro de Obsequens coligindo narrações de prodígios desde a Roma antiga até meados do século Xvi. A colecção incluiu nascimentos monstruosos, terra‑ motos, meteoritos, animais e homens de terras distantes e também uma história do mundo apresentada como uma sequência de eventos marcantes no período considerado. A obra inclui a descrição e interpretação de trinta e quatro nascimentos monstruosos, dos quais vinte e um ocorreram apenas dez anos antes da sua publicação. É assim provável que Lycosthenes tenha testemunhado alguns dos monstros descritos. O autor não nega que

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muitos deles possam ter causas naturais mas realça que esse tipo de origem é muitas vezes difícil de determinar. Deste modo, diminui a sua importância, o que permite enfatizar o significado moral da sua ocorrência. Lycosthenes defende ainda que o mundo físico é um espelho do mundo moral e que, tal como os pecados constituem uma rotura nesta ordem, os prodígios podem ser encarados como uma rotura na ordem física. Podemos dizer que a obra de Lycosthenes tem um duplo propósito, o de facultar o entretenimento dos curiosos mediante a descrição de fenómenos singulares e admiráveis, bem como o de proporcionar instrução moral ao apresentar um mundo complexo onde exuberam os sinais da presença de Deus. O autor exalta a documen­tação e celebra‑ ção desta complexidade mas defende que ela nunca será totalmente compreendida. Para além de patentear um estilo vívido e mesmo anedó‑ tico, a obra distingue­‑se pelas suas inúmeras gravuras (1500). Na realidade, pode ser considerado um dos melhores livros ilustrados do seu tempo (figs. 2 e 3). Muitas das imagens viriam rapidamente a ser absorvidas e disseminadas em obras de outros autores. Pode também dizer­‑se que a sua influência ultrapassou os leitores eruditos capazes de compreender o longo texto em latim uma vez que foram publicadas edições em alemão e em inglês (Daston; Park 1998:182­‑183). Prodigiorum ac ostentorum cronicum seria a base de uma outra obra sobre prodígios com grande circulação. As Histoi‑ res prodigieuses les plus mémorables qui ayent esté observées, depuis la Nativité de Iesus Christ, iusques à notre siècle: Extraites de plusieurs fameux autheurs, Grecz, & Latins, sacrez & profa‑ nes (1560) do escritor francês Pierre Boaistuau. Estas seriam continuadas ao longo do século Xvi por outros autores: Claude de Tesserant (2.º vol., 1566), François de Belleforest (3.º vol., 1571), Rod Hoyar (4.º vol., 1574), Arnaud Sorbin (5.º vol., 1576), i. d. m. [Jean de Marconville] (6.º vol. 1594). No total foram publicadas mais de trinta e cinco edições, incluindo traduções de alguns dos volumes em Inglês, Fran‑ cês, Flamengo e Galês (BATES 2005:72).

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fig. 2

fig. 3


fig. 4

Boaistuau considera mais do que certo que os seres monstruosos provêm, na sua maioria, do jul­gamento, justiça e castigo de Deus. No entanto, menciona de igual modo causas naturais, tais como a imaginação materna, o excesso ou defici‑ ência de semente ou ainda a má conformação do útero. O autor admite a possibilidade de co­‑exis‑ tência de causas naturais e sobrenaturais. Por sua vez, os autores do terceiro, quarto e quinto volu‑ mes das Histoires prodigieuses insistem inequivoca‑ mente que todos os monstros devem ser entendi‑ dos como prodígios enviados por Deus para ditar aos cristãos arrependimento e peni­tência. Esta interpretação mais extrema do nascimento de seres monstruosos deve ser entendida pelo facto de terem sido escritas durante as guerras religiosas francesas no contexto da Contra­‑Reforma. O grande sucesso da literatura sobre monstros e prodígios, quer no seu formato mais popular quer no erudito, esteve intimamente ligado a períodos ou episódios de tumulto político e religioso. O sim­bolismo associado a monstros e outros fenómenos extraordinários fez deles valiosas armas na luta política e religiosa. Similarmente, foram utilizados como exempla em lições sobre a moral e os bons costumes. O que a literatura sobre monstros e prodígios também evi‑ dencia é como o pensamento e a cultura dos séculos Xvi e Xvii postulam uma íntima relação entre a ordem da natureza e a respectiva ordem da sociedade. Uma e outra encontram­‑se espelhadas e configuram uma mesma realidade. A relação unívoca entre as duas ordens é estabelecida através de elementos de natureza simbólica patenteados nas imagens sobre monstros e outros prodígios. Por isso mesmo, as representações visuais são uma componente tão importante e distintiva deste tipo de litera‑ tura. Também devido a esta razão os mesmos casos e imagens circulam em distintas obras de cariz popular e erudito. Um dos exemplos mais notável é o do monstro de Ravena, supos‑ tamente nascido em Itália em 1512 por ocasião da batalha com o mesmo nome entre o rei Luís Xii e o Papa (fig. 4). O monstro é apresentado como um compósito no qual cada um dos elementos indica um pecado particular: o corno na cabeça o orgulho, os braços em forma de asas de morcego a incapacidade de realização, os órgãos genitais hermafroditas a sodomia e a imoralidade sexual, o olho na perna o amor às coisas materiais e as garras a ganância (LONG 2006:109­‑136).

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Outro elemento comum à literatura popular e erudita sobre prodígios é a ténue fronteira entre o fantástico e o real em muitas das descrições. Todas elas insistem na verdade das ocor‑ rências e recorrem a práticas que lhe conferem verosimilhança, incluindo a indicação da data, a descrição do local e um grande número de pormenores circunstanciais ao seu apareci‑ mento, de modo a criar no leitor uma sensação de testemunha virtual. A interpretação dos monstros como prodígios decresce significativamente no século Xviii não sendo publicado neste período nenhuma grande obra sobre esta temática. A este facto não é alheia a crítica crescente perante a credulidade fácil e superstição do vulgo, que tem implicações na percepção do corpo monstruoso. Assim, em 1738, na Academia Real de História, D. Francisco Xavier de Menezes, 4.º Conde de Ericeira (1673­‑1743), salientava a necessidade de combater a natural inclinação, que nos persuade a ouvir com gosto o que é raro e extraordinário, e nos faz defender muitos falsos prodígios da natureza (Costa 2005:2). É, no entanto, de realçar que, no caso português, esta foi a época em que se regis‑ tou o seu apogeu em literatura de cariz popular. Os monstros na literatura médica dos séculos Xvi e Xvii A medicina é um domínio científico que atribui especial atenção ao indivíduo e ao particular. No Renascimento passa a existir uma nova atitude da relevância do conhecimento empírico adquirido através da prática médica e emergem dois novos géneros, as curationes e as observationes, cuja crescente importância resulta, em grande parte, do revivalismo da tradi‑ ção hipocrática baseada na compilação de casos clínicos. Ora, neste tipo de literatura, os casos extraordinários são precisamente os mais favorecidos. Esta preferência é, por exemplo, visível na obra De admirandis curationibus et prædictionibus morbum (1565) de Girolamo Car‑ dano (1501­‑1576) e nas Curationum medicinalium centuriæ (1556) do médico português Amato Lusitano (1511­‑1568). Nesta obra, Lusitano apresenta vários casos monstruosos, procurando sempre uma explicação natural para os mesmos. Inclui ainda o caso de uma moça que mudara de sexo, quando chega à puberdade, que viria a ser referenciado na obra de Ambroise Paré, Des monstres et des prodiges (1573). Secções sobre monstros aparecem também em outro tipo de obras médicas, incluindo livros sobre a geração, hermafroditas e segredos da natureza tais como, De conceptu et genera‑ tione hominis (1559) de Jakob Rueff (1500­‑1558), Hermaphroditorum Monstrosorumque (1600) de Caspar Bauhin (1560­‑1624), De miraculis occultis naturæ (1574) de Levin Lemnius (1505­‑1569) 

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Amato Lusitano indica que a moça tivera o pénis latente até àquele momento e que só na puberdade é que, em vez de ter mens­truação, desenvolvera completamente o órgão masculino (paré [1573] 1971: 29).

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fig. 5

fig. 6

e Observationum medicarum rarum, novatorum, admirabilium et monstrosorum (1596) de Johan‑ nes Schenck von Grafenberg (1530­‑1598). O interesse sobre monstros, por parte de autores com formação médica, é ainda mais visível em obras exclusivamente dedicadas a esta temática. As que adquiriram maior notabi‑ lização foram sem dúvida Des monstres et des prodiges (1573) de Ambroise Paré (figs. 5 e 6), Monstrorum historia cum Paralipomenis historiæ omnium animalium (1658) de Ulisses Aldro‑ vandi (1522­‑1605) (figs. 7 e 8) e De monstrorum natura, causis et differentiis libro duo (1616) de Forunio Liceti (1577­‑1657). O livro do cirurgião francês Ambroise Paré é o único escrito em língua vernacular e também o primeiro a apresentar uma lista com as várias causas passíveis de originar o aparecimento de monstros sendo de assinalar que as mesmas não são mutuamente exclusivas: 

Duas outras obras sobre monstros do mesmo período são De ortu monstrorum commentarius (1595) de Martin Weinric e Monstrorum historia memorabilis (1609) de Johann Georg Schenck.

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fig. 7

fig. 8

A glória de Deus; A ira de Deus; A quantidade excessiva de semente; A quantidade diminuta de semente; A imaginação; A pequenez e estreitamento do ventre; A postura indecente da mãe enquanto grávida (sentar­‑se demasiado tempo com as pernas cruzadas ou pressioná­‑las contra o ventre); Quedas ou choque contra o ventre da mãe grávida; Doenças hereditárias ou acidentais; Semente podre ou corrupta; Devido à má mistura da semente; Devido ao artifício de pedintes cruéis; Através de demónios.

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fig. 9

Paré propõe, portanto, a combinação de causas sobrenaturais e naturais na explicação dos nascimentos monstruosos. É também de assinalar que a existência de causas naturais não impedia necessariamente os monstros de serem encarados como prodígios. Assim, os mons‑ tros com características híbridas, e que supostamente são o resultado do cruzamento de homens e animais, devem ser vistos como prodígios que anunciam o pecado da bestialidade e o seu iminente castigo. É ainda de realçar a importância da observação directa na obra de Paré. Um grande número de monstros parece ter sido presenciado pelo autor tendo, pelo menos dois deles, sido dissecados em sua casa (BATES 2005:76). A naturalização dos monstros, ou seja, a sua explicação através de causas naturais, tinha sido já proposta por Aristóteles e autores da Idade Média. Ela passa, no entanto, a ter uma importância crescente a partir dos finais do século Xvi, o mesmo ocorre na literatura médica portuguesa. Assim, em De universa muliebrium morborum medicina… (1622), Rodrigo de Castro (1546­‑1627), embora sem negar a «suma sabedoria, sumo poder e inefável bondade do criador», tenta explicar a origem dos seres mons‑ truosos a partir de causas naturais, tais como «a deficiência ou inépcia da matéria» geradora. A obra mais notável e que inequivocamente preconiza a existência de apenas causas naturais sub­jacentes ao nascimento de seres monstruo‑ sos é da autoria de Liceti. Em De monstrorum natura, causis et differentiis libro duo (1616), o pro‑ fessor paduano de filosofia, cujo saber enciclo‑ pédico é amplamente reconhecido, define os monstros como seres não sobrenaturais que pro‑ vocam horror e admiração mas tão­‑só pelas suas formas estranhas. Assinala ainda a frequência rara da sua ocorrência e o facto de serem os erros da própria natureza que permitem explicar a sua origem. A primeira edição da obra não tem ilustrações. Na mesma, e à semelhança de outros autores, Liceti relata nascimentos monstruosos desde a antiguidade aos tempos mais recentes. A segunda edição vem a lume em 1634 e inclui texto adicional bem como ilustrações, uma parte significativa das quais foi adaptada das obras de Paré e Lycosthenes (figs. 9 e 10).

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Uma das componentes mais importantes da obra de Liceti é a proposta de um sistema classificativo que combina a morfologia e as causas dos monstros. Os grupos baseados na morfologia incluem: Monstros uniformes (de uma única espécie ou género): · Deficientes ou mutilados; · Com excesso; · Com duas naturezas; · Duplos; · Sem forma; · Extraordinários (morfologicamente completos mas raros em termos de substância); Monstros não­‑uniformes (possuindo elementos de diferentes espécies ou sexos distintos): · Da mesma espécie (exemplo: Hermafroditas); · De espécies distintas (híbridos como os resultantes do cruzamento com demónios e com animais). O mesmo conjunto de causas (deficiência do material, qualidade do sémen, compressão no útero, etc.) é então aplicado a cada um dos grupos morfológicos.

fig. 10

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É, no entanto, Caspar Schott (1608­‑1666), professor de botânica e anatomia em Basileia e antigo aluno de Athanasius Kircher, quem viria a propor, no quinto volume de Physica curiosa (1662), a clas­sificação mais extensa de seres monstruosos (BATES 2005:83­‑84). Esta classificação é essencialmente baseada em dados morfológicos o que a torna bastante vanta‑ josa pois as causas da monstruosidade são ainda geralmente de difícil atribuição: Humanos acefálicos; Humanos policefálicos: · Com duas cabeças; · Com duas cabeças, uma das quais no ventre; · Com três a dez cabeças; Animais policefálicos; Monstros humanos com cabeças não humanas; Monstros animais com cabeças de uma outra espécie; Monstros humanos com cabeças incomuns; Monstros humanos sem braços; Monstros humanos com braços: · Mutilados; · Transpostos; Monstros humanos com braços supranumerários; Monstros humanos com mãos imperfeitas, nomeadamente com dígitos supranumerários; Monstros humanos com ventres e órgãos genitais deformados; Monstros humanos sem pernas ou pés; Monstros humanos com três ou quatro pés; Monstros humanos com pés similares aos animais diabólicos; Monstros humanos com várias afecções na pele; Monstros humanos que nasceram sem pele ou com a pele a cair; Monstros que nascem semelhantes a pedras; Monstros humanos duplos na parte inferior e únicos na superior; Monstros humanos duplos na parte superior e únicos na parte inferior; Monstros humanos com dois corpos ligados lateralmente; Monstros humanos com dois corpos ligados longitudinalmente; Monstros humanos feitos a partir de corpos perfeitos e imperfeitos; Monstros com dois corpos resultantes da combinação de fetos humanos e animais; Monstros distintos de todas as espécies; Diferentes tipos de monstros raros.

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Os monstros na literatura das academias científicas do século Xviii Enquanto que nos séculos Xvi e Xvii foi publicado um número significativo de tratados sobre monstros, o mesmo já não acontece no Século das Luzes. Neste período, é sobretudo nos periódicos das academias europeias que os monstros marcam presença regular. A audiência deste tipo de literatura é essencialmente um público culto com formação científica e interes‑ ses particularmente na área da medicina e da história natural. No entanto, não devemos esquecer que no caso de algumas academias os seus periódicos eram vendidos a um público mais geral, tendo mesmo sido publicadas edições com compilações dos seus artigos, o que indica que o seu sucesso não se confinava à República das letras. Neste âmbito, tendo em conta o número e o valor científico dos seus conteúdos, as con‑ tribuições publicadas pela Royal Society of London e pela Académie des Sciences de Paris merecem um especial destaque. A criação destas instituições, respectivamente em 1660 e 1666, permitiu desenvolver uma rede de membros e de correspondentes e um fórum de dis‑ cussão sobre matérias consideradas relevantes para o entendimento da natureza, nas quais a compilação e o estudo de seres monstruosos constituía uma parte integrante. Uma das carac‑ terísticas dos relatos e memórias sobre monstros publicados nas Philosophical Transactions of the Royal Society of London e nas Mémoires de l’Académie des Sciences de Paris é a de deixarem de aludir a uma possível origem sobrenatural, ou seja, de se demarcarem da noção do mons‑ tro como prodígio. Estas publicações tiveram assim um papel fundamental na naturalização dos nascimentos monstruosos, processo que, como vimos anteriormente, já tinha sido ini‑ ciado em alguns livros sobre monstros dos séculos Xvi e Xvii. Existiram, no entanto, diferenças significativas no tratamento dos seres monstruosos nas duas instituições científicas referidas. Por um lado, o carácter mais aberto e menos especiali‑ zado da Royal Society of London fez com que a compilação de relatos sobre seres monstruo‑ sos no quadro da história natural fosse relativamente mais importante nesta instituição (COSTA 2009). De certo modo, os seus membros e os seus correspondentes vão de encontro aos ideais enunciados por Francis Bacon (1561­‑1626) na sua obra Novum Organum (1620): «temos de fazer uma colecção ou uma história natural de todos os prodígios e nascimentos monstruosos da natureza; em resumo, de tudo o que na natureza é novo, raro e extraordiná‑ rio. Isto deve ser feito com o maior cuidado e fidelidade» (BACON [1620] 1996:197). Por outro lado, os códigos de conduta em vigor nesta Sociedade opunham­‑se a disputas, o que conduzia a que os relatos tivessem um carácter menos hipotético. Já no caso da Académie des 

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Os intuitos de Bacon relacionavam­‑se com a sua convicção de que a história natural deveria ser a base da filosofia natural, servindo como repositório de dados que devem preceder e corrigir abstracções e generalizações (daston; park 1998:220­‑231).

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Sciences de Paris, o seu grau de profissionalização, e nomeadamente a existência da classe de anatomia, fez com que a investigação do corpo monstruoso nesta instituição se centrasse nesta área do conhecimento médico e que as memórias sobre esta temática tivessem um cariz mais interpretativo. A validação dos relatos sobre monstros publicados nos periódicos das academias científi‑ cas utilizava alguns dos mecanismos dos livros sobre monstros e prodígios abordados nas sec‑ ções anteriores tais como a inclusão de uma profusão de dados e detalhes associados às ocor‑ rências e ainda a frequente utilização de imagens. Há, no entanto, uma maior preocupação com a autenticidade das testemunhas e a inclusão de observações directas e dissecações. Para além disso, atribui­‑se uma maior importância à perícia anatómica dos autores dos estudos. No contexto de naturalização protagonizado pelo estudo dos seres monstruosos nas novas sociedades científicas, os monstros contribuem para uma redefinição da imagem da natureza. Para alguns dos seus membros, eles reforçam uma visão do seu poder e das suas inesgotáveis possibilidades. No entanto, é também neste mesmo contexto que, para outros, as ocorrências monstruosas passaram a ser encaradas como altamente perturbadoras, ao sig‑ nificarem a possibilidade de violação das «leis» da natureza e de sugerirem um papel para o acaso na formação do mundo vivo. Foi no âmbito desta problemática que se desenrolou uma controvérsia sobre a origem dos seres monstruosos na Académie des Sciences de Paris na primeira metade do século Xviii, tendo como protagonistas Jacques Wislow (1669­‑1760) e Louis Lémery (1677­‑1743). Albrecht von Haller, autor de várias obras sobre monstros, desem‑ penhou também um papel relevante na disputa. Todos os intervenientes aceitavam a teoria da pré­‑formação, a qual defende que a formação de todos os seres vivos teria ocorrido no acto original da criação, encontrando­‑se desde aí as várias gerações futuras já delineadas em ger‑ mes originais encapsulados no óvulo. O problema central do debate prendia­‑se com a ques‑ tão de saber se os seres monstruosos seriam o resultado de acidentes ocorridos durante o pro‑ cesso de formação dos seres vivos ou se, pelo contrário, seriam o produto do desenvolvimento de germes monstruosos existentes desde o primeiro acto da criação (TORT 1998). Quer nas Philosophical Transactions ou nas Mémoires de l’Académie des Sciences, são de realçar as contribuições de autores com formação médica e a utilização do estudo da mons‑ truosidade no enten­dimento de formações regulares da natureza. Na realidade, o estudo de seres monstruosos serviu para proporcionar novas questões sobre a geração e a organização dos seres vivos. Em alguns casos, este tipo de seres foi também utilizado como uma evidên‑ cia crucial no entendimento do comportamento regular de determinados fenómenos fisioló‑ gicos e anatómicos. O estudo de algumas formas de monstruosidade sugeria mesmo o fun‑ cionamento da economia animal para além dos seus limites habituais. A contribuição mais significativa dos seres monstruosos no domínio do entendimento da ordem da natureza realizar­‑se­‑ia no quadro da anatomia comparada. Temos disso um bom exemplo na utilização

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de nascimentos monstruosos de modo a apoiar a então ainda controversa teoria de alimen‑ tação do feto normal pelo cordão umbilical (COSTA 2009:119­‑143). Um número significativo de memórias publicadas pelas academias científicas teve como tema o hermafroditismo humano. Este é um tema de indiscutível interesse médico, mas tam‑ bém com altas repercussões sociais, uma vez que o estabelecimento do sexo predominante do hermafrodita afectava a sua condição legal e social. Não é pois de estranhar que os únicos livros sobre monstros publicados no século Xviii sejam precisamente obras sobre hermafro‑ ditas. Também a Encyclopédie, editada por Diderot e D’Alembert não ficou indiferente a esta temática (Jaucourt 1765; HALLER; Maret; Fosse 1777). Conclusões A multiplicidade de significados atribuída aos seres monstruosos entre o século Xvi e Xviii encontra­‑se reflectida na grande variedade de textos nos quais estes aparecem e que incluem desde folhas volantes, livros sobre prodígios, livros sobre monstros, tratados médicos até memórias publicadas nos periódicos das academias científicas europeias. O que é que esta literatura nos revela sobre a história da medicina e a história do livro? A literatura sobre monstros mostra que, especialmente nos séculos Xvi e Xvii, é ainda difícil estabe­lecer as fronteiras do conhecimento médico. Não só a medicina assume contor‑ nos e propósitos mais englobantes como, neste período, os homens com formação médica tinham um largo espectro de interesses. Não é assim de estranhar que alguns deles tenham sido autores de tratados sobre monstros nos quais a componente com pertinência médica não é claramente discernível. Apenas no século Xviii, mas em outro formato, podemos clara‑ mente identificar uma relação entre o estudo da monstruosidade e o entendimento das for‑ mações fisiológicas e anatómicas regulares do corpo humano e, mesmo assim, esta propen‑ são não é visível na obra de todos os autores. Em particular, a literatura sobre monstros revela a existência de uma ligação íntima entre a medicina e a história natural até pelo menos à segunda metade do século Xviii. É em ter‑ mos de convergência dos interesses e formações nestes dois territórios do saber que os tex‑ tos sobre monstros de muitos dos autores devem sobretudo ser entendidos. A literatura sobre monstros evidencia também a circulação de casos e imagens não só entre obras de autores eruditos como nas de cariz popular. Mostra assim a importância do 



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Veja­‑se, a título de exemplo, Haller (1752) e Ferrein (1770). Entre as mais proeminentes incluem­‑se Parsons (1741); Champeaux (1765); Ronsil 1768.

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livre trânsito, da compilação e do constante refazer dos textos impressos, algo que atesta a sua vivacidade e dinâmica. Em diversos textos os monstros suscitaram nos seus leitores terror, prazer ou repugnân‑ cia. No entanto, a admiração parece ter sido a primeira paixão despertada por todos eles. Como disse René Descartes, «a admiração é uma surpresa repentina da alma que nos leva a considerar aqueles objectos que parecem raros e extraordinários» (DESCARTES [1649] 1996:135­‑136).

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