Concursos Paulo Setúbal 2014

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CONCURSOS IS A U IS V S E T R A E A o ONCURSO DE LITERATUR 13 C S IA S E O P E S A IC N Ô R o RÊMIO CONTOS, C 12 P Suplemento

especial do

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Apoio cultura

e 2014

24 de agosto d


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EDITORIAL É com imenso prazer que, novamente, realizamos mais uma edição da Semana Paulo Setúbal e os concursos Paulo Setúbal. O 13º Concurso Paulo Setúbal, este ano, foi diferente. Ao invés de conversarmos com os professores de artes e português, conversamos diretamente com os alunos que as escolas inscreveram. Os alunos participaram de um workshop, na área de artes visuais, com a artista plástica e coordenadora do Museu

Histórico “Paulo Setúbal”, Raquel Fayad. Já os inscritos na área de redação estiveram com a professora de português Cimira Cameron, no Museu Histórico “Paulo Setúbal”. O livro escolhido foi “Alma Cabocla”. Após as duas palestras, os alunos fizeram seus trabalhos no próprio museu. Já o 12º Prêmio Paulo Setúbal, direcionado a escritores e poetas, teve participação das cidades de Piraju, Capela do Alto, Porto Ferreira, Tietê, Guarujá, Bauru, Nova Friburgo,

Sorocaba, São Paulo, Itapetininga, Tangara da Serra e Tatuí. Para o próximo ano, a coordenação do concurso lançará o regulamento no mês de março, e as inscrições serão finalizadas em junho, para podermos agilizar os trâmites de recebimento, júri, resultados e entrega de prêmios. Agradeço, mais uma vez, à família Setúbal, pelo apoio. Parabéns a todos que participaram e aos vencedores. Jorge Rizek

Resultados de concursos ‘Paulo Setúbal’ Somando as modalidades contos, crônicas e poesias, redações e desenhos, os concursos que levam o nome do escritor tatuiano Paulo de Oliveira Leite Setúbal têm seus resultados e trabalhos divulgados nesta edição especial. Os certames artísticos e literários são promovidos pela Prefeitura Além dos primeiros colocados em todas as modalidades, esta publicação de O Progresso reproduz as menções honrosas na categoria desenho. São, ao todo, 18 trabalhos, sendo 12 textos e 6 desenhos. Eles representam os concorrentes que disputaram a 12ª

edição do Prêmio Literário Paulo Setúbal e a 13ª edição do Concurso Paulo Setúbal, o qual teve como tema “Alma Cabloca”. Os concursos são realizados pela Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Turismo, por meio do Departamento Municipal de Cultura e Desenvolvimento Turístico. Criado como forma de dar oportunidade de expressão e manifestação aos escritores, o prêmio selecionou contos, crônicas e poesias produzidos sobre tema livre. De abrangência nacional, a iniciativa visa à divulgação de trabalhos inéditos e prevê premiação de R$ 800 para o

1º colocado, R$ 500 para o 2º e de R$ 400 para o 3º, em cada uma das categorias. Já o concurso recebeu trabalhos de alunos do ensino fundamental, ciclo 1 e 2, e médio, de escolas públicas ou particulares do município, nas categorias literatura (redação) e artes visuais (desenho). Os três primeiros colocados, de cada categoria e modalidade, receberam R$ 500, R$ 300 e R$ 200, respectivamente. A cerimônia oficial de entrega dos prêmios aconteceu dia 8 de agosto, durante a 72ª Semana Paulo Setúbal, em comemoração ao aniversário da cidade.

Setúbal e O Progresso “Os nossos meios sociais e culturais movimentam-se neste instante a fim de concretizar uma ideia felicíssima e altamente simpática, que bem merece a unânime aprovação dos tatuianos, a de render homenagem a Paulo Setúbal - o escritor imortal que é um padrão de orgulho para o Brasil e particularmente para Tatuí, sua terra natal.” Assim publicou O Progresso na edição de 24 de outubro de 1943, portanto, há exatos 71 anos, quando o jornal esteve à frente de movimento com o objetivo de enaltecer o erudito literato e que acabou por originar a tradicional “Semana Paulo Setúbal”. Já na edição seguinte, de 7 de novembro, O Progresso divulgou, em texto de capa, a ação que duraria até a atualidade: um certame literário entre os alunos locais, a fim de preservar e prestigiar a obra do autor de “Confiteor”. “Por iniciativa do Grêmio ‘Paulo Setúbal’, acaba de ser instituído um concurso literário entre os alunos do Colégio

e Escola Normal, versando os trabalhos sobre o tema ‘Paulo Setúbal e Tatuí de hoje’”, anunciava-se. Os prêmios: ao primeiro colocado, coube 100 cruzeiros e ao segundo, 50 cruzeiros. O vencedor do primeiro prêmio foi Jorge Ferreira (integrante da própria equipe do próprio jornal). Na edição de 14 de novembro, a ideia é elogiada: “O Grêmio ‘Paulo Setúbal’, por iniciativa de seu presidente Lazaro Geraldo Pacheco, organizou um concurso que será, sem dúvida, o marco inicial de uma competição que, nos anos vindouros, irá demonstrar a capacidade literária de nossos moços”. Desde essa época ficou determinado que as comemorações seriam anuais - sempre próximas a 11 de agosto (embora a primeira tenha ocorrido em dezembro daquele ano, no Clube Recreativo). A partir do ano seguinte, páginas inteiras foram dedicadas

EXPEDIENTE O tabloide “Concursos Paulo Setúbal” é uma publicação da Empresa Jornalística “O Progresso de Tatuí Ltda.” com apoio cultural da Prefeitura Municipal de Tatuí, por meio da Secretaria de Educação, Cultura e Turismo e do Departamento de Cultura e Desenvolvimento Turístico. Redação: Praça Adelaide Guedes, 145 - Centro - Tatuí - SP PABX (15) 3251-3040 Site: www.oprogressodetatui.com.br Edição e jornalista responsável: Ivan Camargo Projeto gráfico e diagramação: Erivelton de Morais Digitação: Altair Vieira de Camargo (Bisteka) Revisão: Ana Maria de Camargo Del Fiol

às atividades da já denominada “Semana Paulo Setúbal”, em agosto. Como previsto, a ideia tornou-se tradição, tal como não pode deixar de prosperar tudo que é sucesso. E, estimulando a origem e registrando toda essa trajetória de sete décadas, esteve O Progresso – em muitas ocasiões, inclusive, divulgando os vencedores do concurso, que se desdobrou, abarcando novas modalidades. Por tudo isto, é com imensa satisfação que, novamente junto à Prefeitura Municipal, publicamos este tabloide com os vencedores dos concursos “Paulo Setúbal”, cumprindo algo que, para o jornal, configura-se como uma obrigação: a prazerosa obrigação de quem planta a semente e, depois, cultiva e acompanha seu crescimento. Hoje, colhemos seus frutos. Que todos se deliciem com eles na forma de traços, cores e letras.

Júri: 13º Concurso Paulo Setúbal Artes visuais Carmelina Monteiro, artista plástica Mingo Jacob, artista plástico Nívea Telles, artista plástica Redação Ivan Camargo, jornalista e escritor Cimira Cameron, professora Deise Juliana Voigt, jornalista 12º Prêmio Paulo Setúbal Sueli Pereira Aduan Xavier Antonio Romildo Jacinto Junior Marinês Bastos Rodrigues


03 | Bruna Vieira Ferreira | Etec “Salles Gomes”

“Sobre o Azul de Tatuí me ter Feito Poeta” Lembro me de minha meninice a chegar em Tatuí. Eu criança pequena de cidade grande, mal sabia o encanto que me esperava na cidadezinha de Paulo Setúbal. E, agora, já moça, vejo o que tanto inspirou o escritor. Claro, quando a poesia de seu Paulo caiu no papel, Tatuí era mais moça que eu. Que mimo! Uma cidade moça! Quem me dera ser de outrora e ver o sol nascer no cafezal. Quem me dera acordar numa casinha branca de assoalho em madeira. Ouvir tocar o sino de longe e os passarinhos a saudar o novo dia... Que ideia. Eu, agora bucólica, querendo viver noutra época! Ah, sim, a “geração de 1900”! Geração de novas ideias, sem fones nos ouvidos; geração que nunca soube o que era ver o mundo por uma

| Isabela Jorge Pereira de Araújo | Nebam “Ayrton Senna”

“A Visão do Sol de Tatuí” Através das folhas das árvores altas que Tatuí povoam observo o sol sorrindo para mim e imagino se era o mesmo que brilhava intensamente muitos anos atrás, se era o mesmo astro feito de fogo e de almas que já se foram que enchia o ar e olhos de quem ria com seu calor. Se este era o sol que Paulo Setúbal contemplava ao acordar, por favor astro de fogo, me banhe com sua luz. Antigamente, observar cada pétala de uma flor, o vento soprando trazendo lembranças já perdidas pelo tempo, o milharal, com o fruto pronto para ser colhido, e os pássaros à volta ansiando por um grão do que comer, coisas que hoje em dia não são apreciadas por nosso olhar, mas que Paulo Setúbal um dia olhou e apreciou as pequenas

3º lugar

coisas, os pequenos detalhes de sua terra, e foi isso o que o fez ser quem foi e o que ainda é, não somente em nossas memórias ou lembranças, mas muito bem guardadas em pequenos pedaços de papel, em forma de palavras. Setúbal tinha um poder, podendo-se hoje ser chamado dom, o dom de observar pequenas coisas da vida e transformá-las em história, de mostrar para nós, pobres humanos mortais o verdadeiro significado de tudo à nossa volta, ao seu modo de vista, e sem querer foi um homem que fez história e sempre continuará fazendo a cada poesia, estrofe ou verso.

| Patrícia Silveira de Almeida | Emef “Maria Helena Machado”

“A Beleza que o Poeta Percebe” Tatuí, pelo seu clima foi escolhida por um homem para tratar de sua tuberculose. Esse homem, chamado Paulo Setúbal, retratou a imagem desta cidade com suas belas palavras. Palavras que permanecem até os dias de hoje, em livros e, quem naquela época teria, um museu em sua homenagem que enriqueceu a história desta terra. De seus livros, o que conta Tatuí como era antigamente é “Alma Cabocla”, nele encontramos traços que mesmo na era em que estamos, podemos ver algo em comum. Paisagens que ele descreve com todo o coração, e nos faz sentir

quão incomparável e majestoso era tudo em sua volta, nos fazem viajar, como, naquela fazenda em que reencontrou quem o viu menino, o céu azul e límpido ainda era o mesmo. A natureza o cercava, invadia sua vida, trazendo maior paz e felicidade para o seu dia. Não podemos nos deixar levar pela tecnologia e esquecer das maravilhas que podemos encontrar até em nossos quintais. É um exemplo a ser seguido, de humildade e respeito a suas raízes, que foram fixados nesta tão gloriosa terra que viu nascer um de seus mais ilustres filhos, que foi batizado Paulo Setúbal.

13ª edição do Concurso Paulo Setúbal

2º lugar

tela que não fosse a da janela. Pois é, os tempos mudam. A poesia de minha meninice em Tatuí não tinha casinha branca, nem o cafezal... Mas houve algo que não se alterou. Creio eu que quando Setúbal olhava o céu de sua tão querida Tatuí, via o mesmo céu azul, que não havia na cidade grande, tal qual quanto ele. Um azul tão lindo que extingue o tempo e nos faz crer que a doçura e simplicidade de nossa cidadezinha nunca se alterou. Um azul que faz bem, não só ao pulmão, mas ao coração também. Um azul de arder os olhos. Um azul cor - de - contente.

Literatura

1º lugar


12ª edição do Prêmio Literário Paulo Setúbal

Contos

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1º lugar

| Gilberto de Camargo Antunes | Sorocaba - SP Pseudônimo: Príncipe Isabelo

“Cheirando a Fritura” Vanessa se esmerava na cozinha. Ela sabia quantos grãos tinha sua pitada, pois é entre panelas e calor que tempera o seu dia-a-dia. Ela conhece as porções necessárias para se fazer um bolo, só de ver a receita pela televisão. É, sem dúvida, um dom de Deus. Certo dia, assistindo a um programa rural na manhã de sábado, viu a receita de um bolo chamado “Dez credos e doze Ave Marias”. O bolo tinha este nome pois usa cento e cinco ingredientes, precisa de três liquidificadores funcionando ao mesmo tempo, cinco batedeiras, duas ajudantes e leva cerca de doze horas para ficar pronto meio quilo de bolo, isso depois de muita reza carrancuda para nada dar errado. Tudo tem que estar rigidamente na quantidade necessária, dentro do tempo determinado. Pra se ter uma noção do capricho, os ovos têm que ser caipira, pesando 37g, uma grama a mais e a receita fica gorada, a farinha de trigo recomendada era da fazenda Santa Isabel, colhida e processada pelas doze negras virgens da escola de samba “Rebolado Atômico e outras Reentrâncias”. Ela decorou a receita na primeira vez que assistiu pela TV e fez o bolo um mês depois. Foi a única vez que não descobri o que ela tinha feito. Sim, porque se ela tem o dom de fazer, eu tenho o de farejar. Talvez eu tenha sido um cachorro no passado. Meu sentido olfativo era aguçado. Outros membros não gozavam da mesma fama. O que aconteceu foi que sábado passado quando eu chegava em casa, da garage gritei: - Arroz Carandiru (feito com tomate cortados com temática da anatomia humana e pimentão vermelho cortados em formato de playmobil e tingido de colorau), feijão branco com lascas de cravo do Sri lanka e com tibone frito no azeite marroquino, pré-cozido em leite de cabra mansa. Era o cardápio da noite. Quando abri a porta no hall de entrada, já pude ouvir seu choro. Vanessa estava sentada na cadeira de balanço, estilo Luiz XV, que havia ganhado de sua avó, no dia de sua morte, com o seguinte discurso, para a cadeira: - ... “muitos sonhos eróticos me embalou, a noite do looping ao luar foi inesquecível, apesar das costelas quebradas, entrego-te agora à minha neta, aquela de bunda gorda, na esperança de nos reencontrarmos em breve, no céu das varandas”. Vanessa chorava, pois não aguentava mais ouvir meus acertos. Ela acendia incensos de vatapá, velas de mocotó, fazia arroz em água de cheiro, mas nada conseguia distrair meu nariz. Ela odiava-o por isso. E naquela noite, durante o jantar, os pelos do meu nariz que estavam grandes, me incomodavam. Já na sala assistindo ao “Os Simpsons” ao invés da novela preferida dela, eu coçava meu nariz com os pés, feito cão sarnento. Pedi, gentilmente, para que aparasse os pelinhos rebelados. Ela disse que sim, que era só eu pegar a tesoura que ela cortava. Procurei por toda a casa, mas não encontrei. Ela foi procurar, enquanto eu deitado no sofá, lembrava da minha jovem secretária trilingue, e que “lingue”. Vanessa estava no banheiro, quando, de repente, um escorregão a levou bater a cabeça no assento sanitário, caiu desmaiada por alguns segundos, com o lixinho virado dentro de sua boca grande. Mas, algo havia mudado em sua personalidade. Eu que lembrava da fragrância da colônia francesa que havia presenteado a jovem e peituda secretária, senti um odor fétido no ar, era mistura de bacon com ovos flambados com água do rio Tietê e filtrados no coador analítico de Cubatão, e antes mesmo que eu pudesse abrir os dois olhos (é que tenho um problema muscular onde abro primeiro o olho direito e um segundo depois, o outro), Vanessa, toda estropiada e fedida a descarga, teve uma ideia de merda e arrancou meu nariz com uma faca de cortar pão. Enquanto cortava, gritava: - Descubra o cheiro agora, filho da puta. Ela ria, esquizofrenicamente, com um certo tesão que não me lembro de ter proporcionado a ela, algum dia, e comeu meu nariz, grelhado na manteiga de girassol, temperado com sal, pimenta e orégano.


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| Antonio Francelino de Oliveira - São Paulo - SP Pseudônimo: Leclere

“Assassinato em um Lugar Chamado Longe” mulher, fazendo-a cair no chão. E em sua queda ela amaldiçoou com todos os nomes o homem que a maltratava, o marido que ela dizia amar, mas a quem ela ainda assim traía até além do impossível. Adão não se fez de joão-de-barro. Pós para a fora a infeliz. Divina saiu. Em seu lugar entrou a balbúrdia, o desassossego, um pai sem saber se ocupar dos três filhos, homem acostumado a cuidar apenas de gado. Sem por onde se virar, Adão mandou os filhos para ficarem com a sobrinha na cidade. E permaneceu na roça com seu desencanto. A fazenda se viu enviesada, destroncada pela tristeza do dono, desolação e pena. E até as vacas esconderam o leite. Divina, rejeitada, não se conformava em perder sua posse, não mais dela nem por direito nem por papel, ela que culpada era. Impetuosa, voluntariosa, rebelde, Divina não aceitou a lógica da lei dos homens. Insistiu, lutou, deu jeito de entortar o passado, gritou, implorou. E o resultado, por errado ou certo, foi que os dois acabaram por se juntar de novo. Ela voltou para a roça, a fazenda, se fazendo de esposa de novo, tentando remendar o pano da existência, consertar o vidro quebrado, o que não mais se junta. Porém, o viver deles nunca mais se fez o mesmo. Foi-se como água sem caminho feito, incerta sem se saber se é rio ou mar. E no precipitado veio não a traição de um, mas o desvario de ambos, competindo nos pecados, a ver quem desafiava mais a lei do maior de todos, a lei do senhor das searas, o que domina o maligno, o que supera padre e juiz. Traições se sucederam, de ambos os lados, ora imunes, a partir daí impunes. Tantas e tão arregaçadas que chamaram de novo pela separação, o fim do ajuntamento desengonçado, sem mais sentido. Adão recolheu-se à fazenda, os filhos, mais crescidos agora, ficaram com a mãe, eles que quando pequenos a viam beijar bocas diferentes da do pai, no começo sem entender por quê e que agora viam de novo, já sem por que entender. Divina, no entanto, sem seu homem, sem aquele que se comprazia em humilhar, já não se conformava com a falta, transformada num vazio que nem todos os vaqueiros da região, os vagabundos, os forasteiros, eram capazes de preencher. Estrago de vida que a fazia magoar o pai dos seus filhos, ele, que ela não queria longe, como se a ausência tirasse o sabor das escapadas, ou as desvestisse de seu pecado intrínseco. Agarrada cada vez mais à perda, quem sabe por não querer ver com outra o que queria só para si, Divina construiu em seu ócio um plano desabrido. Uma história de vingança, disposta a atingir Adão, a suprimi-lo dos braços de outras. Um ato para que não fosse de ninguém o que não podia ser só dela. E um dia de feriado e sol assistiu à concretização do seu drama.

Feriado, não. Domingo. Adão tinha vindo da fazenda para a primeira comunhão do caçula, cavalo arreado, camisa branca de linho, chapéu quebrado. Quem o visse na igreja com a família e não soubesse de sua história pregressa, imaginaria ali uma felicidade bem arrumada. Do lado de Divina, eles pareciam um casal maduro, rodeado de filhos bonitos, exemplo aos desavisados de uma serena união. Nada disso era verdade, como sabemos. Longe da serenidade, havia a inquietação, o nervoso nos gestos de Divina, de maneira alguma parecida com uma mãe feliz que celebra a comunhão do filho. Havia um plano em sua cabeça, tão insano que nem ela mesma podia conviver com ele, deixando que escapasse por seus olhos, por seus gestos, até pelo arfar dos peitos sob o decote. O padre se demorava. O calor se espalhava na igreja cheia. As roupas de missa se atravessando de suor. Adão saiu da igreja. la comprar cigarro e fumar. Mas não voltaria a entrar. Os caboclos que me contaram essa história nunca falaram em trilha sonora, é claro. Mas eu, daqui da distância do tempo, posso bem imaginar uma ave-maria, um kyrie eleison, uma música de alto-falante de um parque de diversões afastado, alguma coisa menos dura para servir de fundo ao estampido seco - um não, mas três, vindos de fora da igreja, feito oração ao contrário. Nos rostos de todos, a surpresa e a dúvida. Mas quem olhou a expressão de Divina, como nas histórias de cinema, viu que ela se contorceu a cada tiro. Sim, não era surpresa aquilo, era desespero e aflição, angústia que explodiu no grito dela a ressoar por toda a igreja: “Deus do céu, mataram Adão!” Quando a policia chegou, não havia mais desespero nos olhos de Divina. O objeto de seu desatino já não existia. Seu grito acabara sendo uma confissão, e ela sabia bem disso. Todos sabiam. Em seu olhar perdido, esgazeado, havia talvez uma pergunta, como se nem ela mesmo pudesse entender como aquilo tinha acontecido, como tudo que ela preparara com cuidado, com a ajuda de jagunços contratados, parecia agora um filme novo, que desfilara diante de seus olhos, como se ela não fizesse parte dele. Nenhuma lágrima rolou em seu rosto, mas o sofrimento e o desalento estavam estampados nele. Muitos terão condenado a mulher naquele instante, por seu mando do crime, por sua premeditação e por todas as coisas que a justiça dos homens proclama nesses casos. É quase óbvio, como toda tragédia o é. Há um ritual que precisa ser seguido sempre, e o povo anônimo logo se apressa a cumpri-lo. Quanto a mim, prefiro calar, com a certeza de que nada é certo e que sou pequeno diante dos desígnios daquele que sempre foi e sempre será. Adão, o que ele criou. Divina, a que dele veio. O passado, o futuro e o presente a Deus sempre pertencem.

12ª edição do Prêmio Literário Paulo Setúbal

Daquela mesa de bar, o sol fazia de tudo uma distância só. A cidade se envolvia sobre si mesma, cidade que podia se chamar Longe, tão distante que era de tudo. Sertão de gente rude, estrada de terra, pensamentos parados no tempo. As sombras na avenida larga, a única avenida do lugar, eram espectros, atravessando, sem medo dos carros que passavam. O calor me aquecia, a mim, forasteiro de cidade grande e casas minúsculas, pouco acostumado àquelas imensidões. O tempo, que não passava, permitia os descansos, os avanços, os retornos, nas histórias que se contavam sempre, modificadas às vezes, em outras confirmadas, fruto das horas que se compraziam em se arrastar. E nesses arrastos, sentado na mesa de bar, foi que eu soube da história de Adão e de Divina. Sim, ali, naquele pequeno fim de mundo, nem tão pequeno nem tão fim de mundo assim, o primeiro homem criado por Deus se encontrava com a que tinha no nome a afirmação da divindade. Mas isso foi a percepção minha, eu que me preocupo com palavras. Para aquela gente eles eram apenas Adão e Divina, um homem e uma mulher, um casal que se perdeu nos descaminhos da vida. Era assim nos versos da realidade, esta bem menos literária e muito mais para drama burlesco, desses que a gente escuta, mas nunca entende o porquê. Pois só mesmo um porquê muito estranho para explicar o que aconteceu com aqueles dois, expulsos ao mesmo tempo do cenário da felicidade da vida por um desacorçoar-se intempestivo do destino. Alto, branco, magro, meigo até, apesar de bicho do mato, criado em fazenda e sem muitos salamaleques: assim era Adão, mais acostumado a domar touros bravios do que a entender das vicissitudes do amor e dos esquisitismos da alma feminina, por vezes quieta, por vezes fogosa, desarranjos de matar, a ponto de fazer morrer. Pois como Adão ia entender que Divina pudesse arvorar-se, diabólica, a buscar em outros homens o fogo de que já desfrutava. Não a comoção desenfreada, é verdade. Mas a resposta precisa, atenta e firme aos desejos e vontades dela. Assim, como explicar a sede para quem tinha água boa em casa. Como entender a égua desgarrada, o desvario da mulher, que às vezes mal escondia dele as bramuras, os encontros fortuitos, à luz do dia, desenxabidos, com os de eira e com os sem beira. De tanto explícito, o pecado de Divina exigiu de Adão atitude, punição violenta que nem talvez da natureza dele fosse. Por gostar muito dela, ele preferia que as coisas não se dessem assim. Mas, de tanto guardar a raiva, se complicou ao libertá-la. Não soube expressá-la com palavras ajeitadas, o fez com a ação bruta, desespero de cavalo chucro que de súbito rompe os arreios. A mão bateu forte na

Contos

2º lugar


13ª edição do Concurso Paulo Setúbal

Artes visuais

06

Menção Honrosa

Escola: “Maria Eli da Silva Camargo” Profª: Elaine Danielly Cruz Santos

Menção Honrosa

Escola: “Firmo Antonio de Camargo Del Fiol” Profª: Eunice Richard Silva Martins

Menção Honrosa

Escola: “José Galvão Sobrinho” Profª: Sandra Tais Gabrieli Garcia


07

Artes visuais

1º lugar

Escola: “Eugênio Santos” Profª: Patrícia Festa Alexandre Antonio G. Camargo Junior

3º lugar

Escola: “Maria Eli da Silva Camargo” Profª: Ione Takemouchi Bieco Thayná Paes Ferreira

13ª edição do Concurso Paulo Setúbal

2º lugar

Escola: “Acácio Vieira de Camargo” Profª: Kátia Rocha Garcia Larissa Kirschner de Moraes Fogaça


12ª edição do Prêmio Literário Paulo Setúbal

Contos

08

Como de costume, estávamos nos arrumando para irmos à casa da minha tia Cida, a irmã mais velha da minha mãe. - Eu não aguento mais esse pichuá, qualquer dia, eu raspo a cabeça! - reclamou a minha mãe, ajeitando os cabelos crespos e rebeldes. - A senhora colocou a peruca? Não vai mais passar o cabelo? Eu liguei o ferro, e ele já deve estar fervendo! — reclamei. - Agora não vai dar mais tempo... Desligue-o para mim, filha! - Oras bolas, porque a senhora não disse antes? - resmunguei. Ao chegarmos a casa da tia Cida, a encontramos passando as pilhas de calças de linho e camisas de colarinho engomado. Esse era o seu ganha-pão. Tia Jurema ajudava tia Cida a dobrar as roupas, enquanto tio Prachedes enrolava pacientemente o seu cigarro de palha. - Tia Cida, cadê os meninos? - indaguei. - Estão lá fora, apanhando goiaba, Rutinha... respondeu tia Cida. Ao chegar ao quintal, eu ouvi os meus primos rindo, às gargalhadas. - Olha a bicharada! - gritou Betinho, arremessando uma goiaba bichada de cima da goiabeira. De repente, eu senti um baque na minha cabeça. - Ai, socorro! O bicho caiu na minha cabeça! saí gritando. - O que está acontecendo? - indagou a minha mãe, ao ouvir meus gritos. - O bicho da goiaba está na minha cabeça, mãe! - gritei apavorada. - Cadê as goiabas, seus moleques mal educados?- perguntou tia Cida. - Nossa! Essas goiabas estão todas bichadas! - resmungou tia Jurema, ao olhar as goiabas no balde. - Ah! Esses moleques só aprontam! Espero que dê para salvar algumas, para fazer o doce... - falou tia Cida. - Mãe, eu não vou comer esse doce infestado de coró! - reclamei. - Pare com isso, filha! Depois que vai ao fogo, fica tudo igual... Tia Cida colocou o enorme tacho com as goiabas no fogo, e veio sentar-se na cadeira de balanço, amassando o seu cigarrinho de palha, na boca. - Tita, você se lembra do Seu Zico Macarronada? Pois é, ele não está bom, parece que está com o tal “bicho de porco” na cabeça... - perguntou a minha tia, à minha mãe, depois de dar uma baforada em seu cigarro fedido.

3º lugar

| Ana Valéria C. Pereira | Tatuí - SP Pseudônimo: Anne Valerry

“O Doce Bichado” - É, parece que o tal de bicho está andando de um lado para o outro... - concluiu tia Jurema, roendo as unhas da mão. - Ai, ai, eu acho que o bicho da minha cabeça também está andando de um lado para o outro... - resmunguei, olhando aterrorizada para a minha mãe. - Pare com isso, Rutinha! Não tá vendo que o bicho é outro? - retrucou a minha mãe. - Acho melhor nós mudarmos de assunto, a Rutinha está ficando nervosa... - disse tio Prachedes, olhando de soslaio pra mim, enquanto finalmente, dava uma baforada no seu cigarro de palha fedorento. - Tita, lembra-se daquela vez que o Zé veio para casa, com a goela de fora, e de preto, ele ficou branco, que nem cera? - perguntou tia Jurema. - lh, se lembro! Eu e a Landa ficamos de cabelo em pé, naquele dia. - Pois é, ele disse que tinha visto uma enorme bola de fogo saindo do portão do cemitério, e que ela o havia perseguido até a porta de casa e... De repente, um estalido vindo do quarto, onde o meu avô Benedito tinha morrido, interrompeu a conversa. - Que foi isso? — gritou o tio Prachedes, dando um pulo da cadeira. - Sei não, credo... — respondeu tia Cida, fazendo o sinal da cruz na testa. - Acho que o bicho tá solto... - disse eu, me escondendo atrás da minha mãe. - Que bicho? - disse tia Jurema, amassando nervosamente o avental. - Psiu, todo mundo! - exclamou tio Prachedes, andando pé ante pé, até o quarto do meu avô. - Quem está aí? - gritou, tio Prachedes. - Ai, meu São Benedito! O que é que tem aí, Chedo? - perguntou tia Jurema. - Ah! Bem que eu desconfiei... - ouvimos o tio Chedo dizer. - O que foi, Prachedes? - indagou tia Cida. - Seus moleques! Saiam já daí de dentro do armário, senão, eu vou pegar a vara de marmelo! Quero ver quem vai dormir com o traseiro ardendo esta noite! Todos respiraram aliviados. - Ah! São os meninos! - disse tia Jurema, com um sorriso amarelo. Repentinamente, os meninos adentraram pela porta da sala, tagarelando alto. - O doce está pronto, tia? - indagou o meu primo Betinho. - Onde vocês estavam? - indagou tia Cida, com os olhos arregalados.

- Nós estávamos lá fora, brincando de jogar mamonas, mãe... - respondeu o meu primo Chico. - Vocês não estavam dentro do guarda-roupa? - Que guarda-roupa? - perguntou Betinho, surpreso. - Prachedes... - disse baixinho, tia Cida. - Vão sair, ou não vão? A minha paciência já está se esgotando! - gritou tio Prachedes. - Prachedes! Prachedes? - gritou tia Cida. - O que é, Cida? - respondeu tio Chedo. - Os meninos estão aqui, Prachedes... - O que aconteceu, mãe? - inquiriu Chico. Tio Prachedes veio vagarosamente até a sala. Ele estava branco, como cera. - O que é que vocês estão fazendo aqui? - perguntou, surpreso. - Como assim, pai? - disse Chico, assustado. - Vocês não estão... - disse tio Chedo, apontando com o dedo em direção ao quarto do vovô Benedito. - Não estou entendendo nada, tio Chedo! Eu quero é comer logo esse doce de goiaba! - resmungou Betinho, indo em direção à cozinha. - Calma lá, seu moleque! Vocês estavam lá fora? - insistiu tio Chedo. - Sim, tio, nós estávamos guerreando com mamonas... - disse Betinho. - Então, vocês não estavam lá no quarto do seu avô Benedito? - Eu, hein! O que é que nós estaríamos fazendo lá, no quarto do vovô, tio? - Ah! Esses meninos merecem apanhar! - disse ele, encolerizado. - Apanhar? Está louco, pai! O que é que nós fizemos de tão grave? Só porque jogamos goiaba bichada na cabeça da Rutinha? - retrucou Chico. - Não, não é por causa disso, é porque vocês enganaram a todos nós... - Mas, querido, eles não têm culpa de nada... - disse tia Cida, tentando apaziguar a situação. - Como não? Eu fiquei é com cara de idiota, gritando o tempo todo para eles saírem de dentro do guarda-roupa, e eles estavam aqui? - Pai, nós não estávamos aqui dentro de casa, nem dentro do guarda-roupa, já lhe disse! O que é que tem lá dentro? - Então Prachedes, o que é que tinha lá dentro do guarda-roupa? - insistiu tia Cida. - Pois é... Eu não sei! - disse tio Prachedes, coçando a cabeça. Um forte cheiro de queimado invadiu a sala. Foi-se a goiabada com bicho.


09

| Célia Aparecida Moreira Lopes | Capela do Alto - SP Pseudônimo: Celine Carla

“O Poder da Sedução” música agitada tocando alto, gritos estridentes de professores incentivando os alunos, vozes veladas de pessoas contando segredos, risos, enfim, toda espécie de som que você possa imaginar invadindo o seu sono e tirando você da cama. Abro a janela e, me espreguiçando, espio. A academia ferve. Alunos por toda parte. Do condicionamento físico ao jiu-jitsu, das aulas de ginástica localizada às danças de salão, jump, zumba, e outras modernidades. Até crianças em suas saias de tule e coque no cabelo vão chegando apressadinhas para as aulas de balé. É um desfile colorido e alegre de diferentes trajes que embaçam a minha visão. E o sol ainda está por sair. Até imagino as conversas que circulam por lá. Com certeza, o papo gira em torno do corpo sarado, da magreza da vizinha, da gordura de fulana, do sedentarismo de ciclano, e assim por diante. A moda da magreza dita as regras do jogo. Há ainda quem comente sobre a importância dos exercícios físicos para a qualidade de vida, pelo menos assim espero. E isso se repete durante o dia todo. Sem interrupção. Só vai acabar lá pelas vinte e duas horas. Haja paciência!

2º lugar

Fecho a janela e vou para a cozinha fazer o café. De repente me dou conta de que o açúcar que estou usando é light. O pão sobre a mesa é integral. O leite é desnatado. Isso sem falar na garrafa de água com gengibre na geladeira. Tomo o café rapidinho, quase nem sinto o sabor. Vou para o quarto e procuro a roupa para vestir. Ela já está sobre a cadeira, ao lado da cama. Arrumadinha e esperando para entrar no meu corpo. Não é que a calça também é justa e a camiseta traz o nome da academia ao lado?! Procuro o tênis branco que combina com a calça e a meia mais confortável. Rápida, estou pronta. Com dez passos apenas chego ao local antes tão indesejado. Entro e começo o meu treino. A febre se apossou de mim. “Quem não pode com o inimigo, alia-se a ele” - já dizia meu sábio pai. Afinal, qual é o inimigo que não seduz? A sedução ronda à sua volta. Cabe a você deixar-se levar por ela ou ignorá-la. Eu sou ré confessa: deixei-me seduzir pelo meu novo vizinho. Afinal, um corpo bem feito e saudável não faz mal a ninguém...

| Ricardo Lahud | Guarujá - SP

Pseudônimo: Orlando Feio

“Aonde Você Vai com os Bolsos Vazios?” Todos temos um amigo rico, ou pelo menos mais rico do que a média, e às vezes, esse sujeito morre. Foi o que aconteceu com o Pedro, sofreu um AVC no voo de Pequim. Primeira classe, ninguém percebeu. Preso numa caixa com mais 200 pessoas, em completa solidão. Os momentos do início e fim da vida são solitários por definição, mas pelo menos no nascimento tem-se a companhia do frio. Como que para provar que somos todos iguais diante da morte, o velório foi no mesmo espaço deprimente do Cemitério da Consolação onde velei minha avó. Com a diferença do número maior de visitantes, apesar da minha família ser mais numerosa, a quantidade de gravatas pretas que passava para verem e serem vistas era monumental. Claudio, outro parceiro das peladas das segundas, notou que, por mais luxuoso que seja, madeira de lei e cetim importado, o caixão não tinha gavetas. Se caixão não tem gavetas, o defunto está muito bem provido de bolsos. Nesse terno há pelo menos sete deles, mais o bolso na camisa com o monograma bordado. Nunca, em sua vida, o elegante Pedro saiu de casa com os bolsos vazios, depois de morto ninguém que o amava se dignou a deixar que o defunto carregasse uma simples chave, da casa, do carro, de uma gaveta secreta, ou um troco para o café, ou um isqueiro

para o caso de trombar com um bom charuto, ou um simples cartão de visita, para se apresentar adequadamente. Se os corpos masculinos são entregues tão indefesos, as mulheres são ainda mais desamparadas. Custa mandar uma bolsa junto? E que não seja uma bolsa vazia, só para completar o look, espelho de maquiagem, batom rosado, maço de cigarros, uma escova de cabelos, fotos dos filhos, uma bolsinha de moedas e um telefone, com números grandes para evitar óculos, são itens mandatórios. Os que enterram, ou cremam, seus amados, não têm plano B. Estão convictos de que o fogo, ou os vermes, cuidarão de seus mortos para sempre. Mas nesses tempos de buracos negros, partículas de Deus e gatos de Schõdinger, imagino que uma rota de fuga deva ser considerada e que cabe à família prover o falecido de alguns recursos, ferramentas, para um caso de emergência. Solicito desde já a quem me colocar no caixão que encha meus bolsos com dinheiro trocado, um isqueiro descartável, uma boa caneta, um canivete suíço e um cartão de visitas, não o meu, mas o de algum diretor de banco ou empreiteira. Agora, se estiverem realmente preocupados com incidentes na minha passagem, me enterrem com um revólver carregado. Um bom 38 poupa muitos argumentos.

12ª edição do Prêmio Literário Paulo Setúbal

Todo dia é a mesma coisa. A casa acorda agitada. É preguiça do quarto à cozinha. Ao lado de minha casa havia um terreno desocupado, sem construção alguma, sem vizinho, sem nada que me tirasse a paz. Há dois anos e meio atrás, porém, algo aconteceu e ocupou todo aquele espaço. Um grande alicerce surgiu de repente e eu soube, à boca pequena, que um profissional da saúde estava construindo ali um grande prédio para uma futura academia de ginástica, musculação, dança e outras coisas mais. A febre do momento estava chegando perto de mim. Pensei comigo mesma: - Acabou a minha tão doce paz. A construção foi feita devagar, levou exatamente dois anos e meio para ficar pronta. Mas ficou e se estabeleceu. Ao lado da minha casa. Está pronta e em pleno funcionamento. Que tormento! O prédio tem três andares. É todo de vidro. Estrutura metálica. Moderno e bonito como ele só. Dou a mão à palmatória a quem o construiu, mas, isso não me impediu de achá-lo um intruso ao meu paraíso particular. Às seis horas da manhã começa o meu martírio. É som de ferro rangendo ou batendo no chão,

Crônicas

1º lugar


12ª edição do Prêmio Literário Paulo Setúbal

Crônicas

10

3º lugar

| Sérgio Correa Miranda Filho | Nova Friburgo - RJ Pseudônimo: Ramon Vilalba

“Móveis Novos só Mudam a Sala” Qualquer um de nós verá como é frustrante acreditar que uma grande mudança externa consertará, como que por encanto, a engrenagem do cérebro, emendando fios e reparando circuitos avariados. Ou que uma grande notícia ou um objetivo alcançado irá transformar hábitos arraigados desde o corte do cordão umbilical. Bom desistir, porque não vai. Pode até acontecer — e na maioria das vezes acontece — uma inesperada e bem-vinda aplicação de ânimo nas veias, overdose prazerosa e benéfica, mas que não passará de uma visagem momentânea, da qual se acordará com uma frustração quase sempre mais arrasadora. É só lembrar o último sofá comprado para a sala de estar, que deu por curto espaço de tempo cara nova ao ambiente: cedo você percebeu que a casa era a mesma, a atmosfera que a envolvia idem, repleta de inquietações, temores, alterações bruscas de humor... Móveis novos apenas mudam a sala. Para a casa ter alma nova é preciso reformá-la do piso ao telhado. Ampliar dependências estreitas, aumentar a área das janelas para a luz do sol entrar com mais claridade, construir uma cozinha arejada e um banheiro cujos odores não corrompam o aroma de incenso do quarto de dormir. E mais: habitá-la como se você estivesse morando num templo (ou qualquer outro local sagrado, dependendo da religião que professa; caso não professe nenhuma, como se houvesse retornado ao ventre materno). Na sua vida, se for, por exemplo, um escritor ou uma escritora ainda sob a capa do ineditismo, poderá ocorrer uma grande coisa como a publicação do primeiro livro. Haverá, claro, a euforia inicial, você talvez convide amigos para comemorar a boa nova, imaginará quais obras o irão compor, o título mais original e o que mais traduza seu modus operandi, a imagem mais bela e apropriada para a capa, os melhores profissionais para confeccioná-lo. Tudo bem. Mas a novidade, no dia seguinte, já não será tão surpreendente; daqui a uma semana será fato comum, incorporado a esse cotidiano retilíneo, tão incapaz de ferver as gotas do seu sangue. Não é que nada não represente coisa alguma. Tudo, ao contrário, vale muito quando surge dentre a bruma do inesperado com beleza inédita e inovadora. Apenas não tem o condão de modificar-nos por dentro da noite para o dia: não nos faz mais amáveis, nem mais confiantes, nem menos indolentes, nem menos ansiosos. O sofá recém-comprado traz bastante conforto aos ossos, mas nenhum bem-estar às emoções. Este virá da reconstrução de nós mesmos, fibra a fibra, átomo por átomo, de uma vontade férrea de ser outro: alguém mais sereno, mais ativo, menos desesperançado, menos impaciente. A casa renovada que mostra amplitude, deixa entrar a claridade, dissipa os miasmas. E que é erguida de uma estrutura quase por inteiro demolida, para uma reforma a partir dos alicerces eternos.


11

2º lugar

| André Bueno Kaires | Tatuí - SP

| Douglas de Melo Sá | São Paulo - SP

Pseudônimo: Lawrence

Pseudônimo: Urbano Augusto

“química”

“quintal” Eu me lembro de tom em tom da convivência. Irregulares cacos, sonhos espalhados, Assentados no piso, memória da infância. E a alegria do sol brincando ao nosso lado.

3º lugar

A luz multiplicava-se numa abundância, Brincadeira em chão seco ou com sabão, molhado. Olhos de cada irmão numa pedra em essência; Em cada brilho um riso foi petrificado. Toda policromia eu sabia de cor Era o quintal da casa de onde fui criança, Mosaico de granito, grande e multicor. Hoje crescido o cinza, cimento e bolor, Cores ainda tenho para uma esperança. Mas perdi uns castanho-claros, grande dor.

| Odimar Justino Martins de Proença | Tatuí - SP Pseudônimo: Rigby

“A Propósito das Coisas do Vento” Apoiado nas incertezas da madeira de seu barco, o pescador vai além da imagem que a aparência carrega. Com as redes na mão, ele faz poesia sem saber que peixes são palavras que nadam, que o tempo e o sol são rimas feitas pelas indagações do vento. Há muitos anos, vento e pescador sustentam um acordo de procurar respostas. Quando o mar se agita e o firmamento silencia, o pescador, inspirado pelo vento, oscila na imensa capacidade humana de formular perguntas. Isto é o melhor da vida -

morrer na inocência do nada e aprender vivendo do tudo. E ao cair da tarde, todas as cores esperam pelo amanhã e o mar será apenas uma oração que todo mundo entende. E o brilho dos peixes e as luzes das estrelas se alternam no destino de ser alimento dos homens. E as coisas que não se fundem, a poesia há de uni-Ias pelo encanto adquirido por outros homens e por outros mares. Talvez eu seja somente mais um poeta-pescador que faz das palavras o seu anzol e da luz das estrelas, o seu peixe.

12ª edição do Prêmio Literário Paulo Setúbal

De cadeia em cadeia, {[(...)}] as reações químicas dissipam o car-bo-no, da nossa existência. Quero o exato momento da matéria se desdobrando por entre os corpos indomáveis carregados de moléculas d’água... e volto a ser aquilo que sou todo dia: fragmentos de sonhos azulados ramificando-se orgânica e inorganicamente, com o ciclo da vida... e a Alma? Quanto pesa?

Poesias

1º lugar



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