Agentes da História

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Uma história sem personagens não é história. Mesmo que traga ambientação e ação empolgantes, falta o elemento principal. A regra vale tanto para a ficção quanto para a realidade. Que o diga Tatuí, terra de tantos adjetivos e que, neste dia 11 de agosto, está completando 190 anos. Não é à toa que alguns desses personagens são mencionados, até, no “Hino a Tatuí”, com letra de Paulo Cerqueira Luz e música de Maria Ruth Luz. Vale lembrar que nenhum deles – autor e compositora – nasceu em Tatuí, mas ambos adotaram a Cidade Ternura e foram adotados por ela com o mesmo carinho e na mesma proporção. Nessa mesma esteira, o jornal O Progresso traz um material diferente do que já foi lançado em seus especiais. Em 2016, o suplemento de aniversário da cidade – editado pelo bissemanário há décadas – é produzido a partir da história de vida de “personagens” tatuianas que nunca se acomodaram na condição de figurantes. O caderno “Agentes da História” partiu de ideia apresentada por Jorge Rizek. Colunista de O Progresso há mais de três décadas e diretor do Departamento Municipal de Cultura e Desenvolvimento Turístico, Rizek lançou a proposta de, durante as comemorações de 11 de agosto, prestar homenagens aos filhos de Tatuí. A sugestão, contudo, ganha outro foco nesta edição comemorativa, a qual se volta para a história de pessoas ainda em atividade, embora todas “longevas”. Em áreas e de maneiras distintas, todas têm em comum a contribuição ao desenvolvimento de Tatuí, tal como na consolidação de suas particularidades históricas. Poderiam ser tantos os protagonistas da história que, hoje, figuram estas páginas, mas que estes poucos aqui destacados possam, ao menos, representar as virtudes de todos os nossos conterrâneos, em sua diversidade, perseverança, talento e, especialmente, riqueza de vida! Abriram seus corações e compartilharam experiências: o professor Pedro Henrique de Campos, o ex-atleta e técnico de futebol Benedito Roberto Machado Vieira, a filha de industriários Ana Isabel de Azevedo Macedo, a artista plástica Theresinha de Oliveira Pinto, a pedagoga Maria Aparecida Rodrigues de Camargo, o ferroviário Moacir de Medeiros e o empresário Ivan Gonçalves. O resultado é um compilado de fatos que mescla história, curiosidade e protagonismo. Cada um dos entrevistados, à sua maneira, contribuiu para que Tatuí se desenvolvesse. A todos, desejamos uma boa leitura e que os exemplos sirvam de inspiração!


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Cristiano Mota

A história local pelas lentes da sétima arte Pedro Henrique de Campos registra a memória de Tatuí com “uma câmera na mão” Da reportagem

Professor iniciou a carreira como substituto e apaixonou-se pela sétima arte no período em que fez “bicos” nos cinemas locais

Da reportagem

Gualter Nunes. A título de curiosidade, um equipamento de 16 milímetros, semiprofissional, era caríssimo. Chegava a custar US$ 1.000 – “coisa de poucos”. Formado como professor em 1963, Campos começou a dar aulas como substituto na escola “João Florêncio”, que era, até então, uma instituição estadual. Ainda longe de comprar a tão sonhada

bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, oferecia o conjunto completo para um “cineasta” iniciante. Fazia parte do pacote: a filmadora, um iluminador, rolos de filme de oito milímetros e um projetor caseiro. Através de um “financiamento” – algo bem raro naquele tempo –, o assistente de direção conseguiu comprar a sonhada câmera. O Super 8 foi uma revolução no cinema. Lançado pela Kodak, ele permitia, com pouco dinheiro – se comparado ao preço dos equipamentos 16 mm ou 35 mm – filmar eventos caseiros, como aniversários e casamentos. Com o equipamento em mãos, o pedagogo passou a filmar eventos da própria escola onde trabalhava. As filmagens eram curtas, de três minutos, no máximo, devido ao custo da película e da revelação. “A primeira filmagem foi lá, enquanto trabalhava em Carapicuíba, em um evento da escola. Eu fazia gravações, não cheguei a fazer muita coisa”. Uma atividade que parecia ser somente um hobby, era, sem que o pedagogo percebesse, um registro histórico de um tempo, a qual acabou trazendo para Tatuí. Apesar de ser possível filmar em Super 8 e registrar o som simultaneamente, Campos explica que era difícil captar o áudio com o Pedro henrique de campos se formou em Tatuí, fez carreira fora do município equipamento. e voltou para contribuir com educação e registros históricos “No Super 8, o som é gravado em uma fita magnética que corre na mesma película do câmera, passou no concurso público e, filme. Era bem complicada a captação. Lumière: o registro da história. Nascido em Tatuí, em setembro em 1966, foi convocado a dar aulas em Então, eu filmava praticamente em mudo”, lembra. de 1944, Pedro Henrique de Campos Osasco, na Grande São Paulo. Durante a estadia por lá, fez o curso As filmagens da época em que vivia é um apaixonado pelo “registro em movimento”. Ele descobriu esse amor de pedagogia, necessário para galgar na Grande São Paulo foram transfericargos mais altos, como coordenador, das para cassetes e, posteriormente, a durante “um bico”. Enquanto cursava o magistério, assistente de direção e diretor. Pouco DVDs. Atualmente, elas estão a salvo Campos trabalhava na antiga Rádio tempo depois, foi convidado a ser da ação do tempo, que tende a destruir Difusora. Lá, colaborou no trabalho da assistente de diretor em Carapicuíba, o celuloide, material do qual é feita a técnica. Como operador de áudio, rea- quando conseguiu comprar uma câmera película de oito milímetros. “A conservação do Super 8 é bastante lizava manutenção e arriscava a locução fotográfica e a primeira filmadora: uma Super 8. quando algum titular faltava. “Tinha um programa na TV Cultura Envolvido com esse meio, Campos foi chamado por um amigo para conhecer a que se chamava ‘Ação Super 8’, que aparelhagem do cinema Santa Helena. mostrava trabalhos com o equipamento. Lá, começou a trabalhar cobrindo folgas. Conheci a câmera através desse proNos dois anos em que colaborou com grama. Eu me interessei e, na primeira a empresa, Campos viu o interesse pela oportunidade, comprei o equipamento. arte aumentar. Entretanto, tinha poucos Ele era importado, não muito fácil de recursos na época. Um equipamento achar”, conta. A oportunidade de negócio surgiu de cinema era “coisa de gente rica”, da alta sociedade e para pessoas como em um anúncio de jornal. Uma loja do Uma das mais prodigiosas invenções do homem, o cinema surgiu como meio alternativo para registrar a história e a cultura humana. Com o passar dos anos, artistas pioneiros descobriram, na sétima arte, uma forma de entretenimento e de expressão artística. O fato é que uma coisa não exclui a outra, e o cinema continua com a mesma função primordial, pensada pelos irmãos

difícil. Alguns rolos estão bem deteriorados, mas a filmagem está salva em outras mídias. Tenho tudo guardado comigo”. Depois de viver em Carapicuíba, Campos passou por Osasco, onde trabalhou em escolas. Através de um concurso público estadual, descobriu uma vaga de supervisor em Tatuí, quando a Diretoria de Ensino ainda estava instalada na cidade. O cargo era o mais alto da carreira do magistério. De volta à terra natal, em 1981, e trabalhando como supervisor de ensino, Campos ainda utilizava a Super 8 para as filmagens de festas nas escolas estaduais. A tecnologia só foi trocada anos depois, por uma filmadora cassete. A fita era grande e o equipamento parecia com os de “reportagem de TV”. O novo equipamento mudou a forma como Campos realizava as filmagens. Acostumado com os três minutos habituais do rolo de oito milímetros, o pedagogo se viu na possibilidade de filmar 120 minutos em fitas cassetes. As gravações dos eventos das escolas locais ficaram longas, deixando mais completo o registro histórico local. Campos não sabe dizer o paradeiro das primeiras filmagens feitas em Tatuí, quando trabalhava na diretoria local. Após a mudança do órgão regional para Itapetininga, as fitas tomaram “rumo desconhecido”. Em 1992, o educador comprou um equipamento mais moderno, uma filmadora compacta, cujas fitas eram pequenas. O conjunto era mais leve e portátil. O pedagogo se aposentou em 1999, quando a diretoria local fundiu-se com a de Itapetininga, saindo de Tatuí. Seis anos depois, foi convidado, pelo governo municipal, a colaborar na municipalização do ensino de Tatuí. O trabalho da equipe formada foi fundamental para estabelecer sinergia entre as escolas municipais já estabelecidas e as transferidas do Estado para o município. “O Wilson (Roberto Ribeiro de Camargo) era secretário (da Educação) e me convidou, pois precisava montar uma equipe. Eles (a municipalidade) iriam assumir as escolas estaduais e chamaram o pessoal que tinha experiência. O ‘seu’ Simeão (José Peixoto Sobral de Oliveira) também trabalhou comigo”, relembra. Durante a passagem pela Secretaria Municipal da Educação, Campos voltou a utilizar a câmera nas escolas da rede municipal. Ele documentou festas, eventos cívicos e inaugurações. “Foi quando surgiu a oportunidade de comprar esse equipamento melhor. Daí, comecei a registrar mais os eventos da cidade, atividade fora do meu cargo.

Desde então, não parei mais”, conta. Mesmo após a saída da secretaria, em 2012, ele continuou a documentar a história local. O “portfólio” de eventos cobertos foi acrescido de aberturas de exposições no Museu Histórico “Paulo Setúbal”, espetáculos no CEU (Centro de Artes e Esportes Unificados) “Fotógrafo Victor Hugo da Costa Pires” – equipamento do qual ele registrou, inclusive, a inauguração –, abertura de postos de saúde, escolas, creches e festas populares. Na virada da década, Campos decidiu atualizar o equipamento. A câmera analógica deu lugar a um modelo mais recente, que filma em HD (alta definição) e grava os eventos em cartões de memória, dispensando as fitas cassetes. Depois de ter comprado o equipamento, o pedagogo aposentado adquiriu outros, com tecnologia mais recente, mas prefere a filmadora de mão, da marca japonesa Sony. “Essa (câmera), que tem mais de cinco anos, considero a melhor filmadora. Ela grava e filma. Se estiver filmando, aperto aqui (diz, mostrando o botão) e já bate uma fotografia. É a melhor até agora. Ela filma em HD, mas consome muita memória. Então, gravo no modo de menor qualidade”, diz, orgulhoso. Recentemente, o aposentado tem acompanhado as apresentações da Banda Sinfônica da Associação Cultural Pró-Arte de Tatuí, sob a regência do maestro Marcelo Afonso. Desde 2005, Campos acompanha o trabalho do grupo. A aproximação à cultura fez com que o aposentado ganhasse a simpatia de artistas locais. Eles sempre o convidam a participar dos lançamentos de peças e exposições. “A partir do Marcelo, comecei a ter contato com o pessoal da arte daqui de Tatuí. Sempre que fico sabendo de uma estreia, eu vou lá. Muitas vezes sou convidado a ir”, menciona. Campos afirmou nunca ter divulgado nenhum dos trabalhos realizados na cidade. A discrição se deve ao fato de que filma para aumentar o arquivo histórico sobre Tatuí e saciar a vontade de registrar a cidade e os principais acontecimentos locais. “Acompanho mais pelo meu arquivo. Não divulgo nada. Penso, no futuro, se algum dia a ideia do MIS (Museu da Imagem e do Som) virar realidade, vou contar a história de Tatuí através das minhas gravações”, planeja. O aposentado tem como atual meta, ligada ao cinema, a criação de uma espécie de “MIS Caipira”. O equipamento cultural usaria imagens do arquivo dele e de outros documentaristas para contar a história através da sétima arte.

equipamentos que fazem parte do acervo do educador incluem câmera super 8, lançada pela kodak e considerada uma revolução à época


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Cristiano Mota

Do gol a ‘grãomestre’ do futebol “Discípulo” de Ezenildes Moreira, Robertão é um dos treinadores locais mais vitoriosos Da reportagem

benedito roberto machado vieira continua treinando gerações em projeto mantido pelo santa cruz futebol clube

Da reportagem

Aos 72 anos, Benedito Roberto Ma- quando teve a oportunidade de partichado Vieira é um dos técnicos com cipar de um “time de ponta”. Desde a maior número de vitórias em campeo- fundação, em 1925, o Santa Cruz não natos locais. No entanto, até chegar ao havia conquistado um título amador. reconhecimento atual – é considerado A oportunidade de virar técnico “grão-mestre” do futebol amador –, surgiu em uma discussão com Moreira. “Robertão” caminhou muito. Bravo com o time que tinha perdiA paixão pelo “esporte bretão” do de “sacolada” no campeonato começou quando menino, aos 12 local, o goleiro sofria com o anos. Dos cinco irmãos, Robertão desempenho fraco do time. foi o único a praticar futebol. A “Eu saí do campo dizendo: família morava em frente ao antigo ‘Não dá, assim vocês estão fórum, na rua São Bento, próximo me matando’. O Ezenildes ao campo da Associação Atlética me perguntou se entenXI de Agosto. dia alguma coisa de As décadas de 1950 e futebol, e eu res1960 foram as de maior pondi que sabia um expansão do futebol pouquinho. Ele viu nacional. As vitórias que eu enxergava da seleção canarinho alguma coisa e me nas Copas do Mundo colocou para dirigir da Suécia (1958) e Chile a equipe de aspiran(1962) fizeram com que tes”, conta. o esporte ganhasse maior Como técnico, Robernotoriedade no país. tão pôde colocar em prá“Na minha família, nintica o que entendia como guém mais jogava futebol. “bom futebol”. ExigenNa verdade, comecei por te, fez uma limpeza na influência do esporte, equipe de aspirantes, que era o mais popular, que de principiantes quase único. Não existia não tinham nada. O time basquete, não tinha vôlei. era formado por diretores O futebol foi o ‘tchan’ da do clube e pessoas mais época”, conta o desportista. velhas. A proximidade com o “Tinha bons garotos campo atraiu o garoto para aqui no clube, mas dei as quatro linhas. Apesar uma condição: a limpeza de ter estreado em campo para colocar a garotada para pelo XI, Robertão ganhou jogar. Daí, ele disse que esnotoriedade petava fechado”, las conquistas lembra. no Santa Cruz Na renovaFutebol Clube. ção promovida atleta tem passado de conquistas “O X I d e junto à equipe como goleiro e treinador de Agosto foi o de aspirantes, equipes do município clube que mais Robertão oxiconquistou tígenou o futetulos no futebol bol do Santa de Tatuí. Essa Cruz. Diverinfluência do futebol começou quando sos jogadores que começaram pela eu tinha oito para nove anos, quando equipe dele, posteriormente, jogaram conheci o campo e tomei gosto pela pelo time principal amador. coisa”, relembra. A carreira como técnico até então No XI de Agosto, jogou no time corria em paralelo com a de goleiro. Eninfantil. Anos depois, já adolescente, tre 1979 e 1980, Robertão, aos 35 anos, acompanhou os pais na mudança de decidiu focar o trabalho como treinador. casa, indo para o bairro Alto do Santa Conta que, após diversas contusões, Cruz, próximo ao campo do Santa Cruz. “perdeu o gosto como jogador”. No novo clube, começou a “brincar” “Falei para mim mesmo que o meu no infantil; depois, no juvenil, conhe- negócio não era jogar, era treinar. Quancido, atualmente, como sub-20. A do ficamos velhos, vamos nos tornando passagem pelo clube ainda contemplou muito críticos. Não aceitamos certas o time amador do Santa Cruz. coisas que vemos em campo. Daí, passei Como jogador, Robertão conquistou a só dirigir a equipe”, explica. o bicampeonato amador local, pelo Na carreira como treinador, RoberEsporte Clube São Martinho, nos anos tão passou, além do Santa Cruz, pelo 1969 e 1970, quando tinha 25 anos. XI de Agosto e Clube de Campo. Os A carreira do jogador divide-se em campeonatos amadores daquela época duas grandes situações: dentro e fora eram bastante disputados e davam vaga das quatro linhas. Em campo, foi hábil para o campeonato paulista amador. goleiro, que deixava poucas bolas entraOs estádios ficavam cheios de torcerem na meta. Fora dele, ficou conhecido dores em dias de jogos importantes, o como discípulo de Ezenildes Moreira, que mostrava a força do futebol tatuialendário técnico do futebol local, cha- no, segundo o treinador. “A disputa era mado de “Telê Santana de Tatuí”. para quem conseguisse vaga no campeoA relação com Moreira intensificou- nato estadual, que era pela FPF (Fede-se em 1972, quando Robertão retornou ração Paulista de Futebol). Os clubes ao Santa Cruz. Ele voltava de uma eram todos federados, tínhamos fichas passagem vitoriosa pelo São Martinho, de cadastro. Não éramos profissionais, o “Leão do Sul”. mas estávamos catalogados”, comenta. No “Dragão da Colina”, o goleiro se A ligação entre Robertão e o Santa tornou campeão naquele mesmo ano, Cruz é feita de idas e vindas. Na década

como técnico, robertão conquistou título com a equipe do santa cruz; o dragão da colina se sagrou campeão no ano de 1979

em que o Dragão da Colina se tornou heptacampeão (1970), ele trocou o clube pelo XI de Agosto. Em 1973, quando estava na equipe agostina, o Santa Cruz trouxe uma leva de atletas de alto nível. “Jogador que jogaria em qualquer equipe do Brasil”, analisa. Para se ter ideia do tamanho do investimento que o clube fazia no esporte, um ano depois da entrada da televisão em cores no Brasil, cada jogador do Santa Cruz recebeu um aparelho. “Era um monstrengo colorido gigante”, relata. Com essa iniciativa, o Dragão da Colina se tornou um dos primeiros clubes tatuianos a investir nos jogadores. A estratégia de valorização, entretanto, não perdurou. O sucesso em campo não se repetiu com as equipes posteriores. Em 1979, o clube sofreu um “desaquecimento”, a ponto de quase não ter equipe para enfrentar Mairinque pelo Campeonato Amador do Estado de São Paulo. Na época, Robertão recebeu pedido do diretor para montar um time. Ele usou a base de 1972, pela qual havia jogado, para competir, sete anos depois. Com ajuda de colaboradores, conseguiu ônibus para transportar os atletas e uniformes. Apesar do empenho dos dirigentes, o resultado não foi muito animador. “Era uma chave de quatro times. Foi um vexame”, recorda-se. Desentrosado, o time também penou por conta do uniforme. As camisas só tinham o sinal dos números e estavam “todas rasgadas”. Apesar da desvantagem, a agremiação tatuiana conseguiu direito aos três pontos da partida. Robertão apresentou ocorrência contra Mairinque. A equipe adversária cometeu um erro: fez quatro substituições quando o limite permitido era uma menos. Devido à vivência em campo, Robertão notou que os adversários haviam trocado três jogadores e o goleiro. Buscou a súmula junto ao mesário para conferir se as mudanças haviam sido anotadas. Quase não conseguiu acesso. “Eles estavam com receio de que eu fizesse recurso sobre um centroavante louco”, conta. Ao final do jogo, Robertão mostrou ao juiz a cópia da súmula e pediu para que ele fizesse uma ocorrência. No domingo seguinte, outro árbitro enviou telegrama avisando que o Santa Cruz jogaria pelo empate. “Adivinha o que aconteceu? Nós perdemos o jogo. Fomos para os penais. Daí, era mata-mata”, cita. Por conta desse mesmo episódio, surgiu outra sensação do campeonato: o goleiro Luiz Penteado. Dos cinco chutes, ele defendeu três, salvando o time da degola. Pela superação, o Santa Cruz recebeu uniformes, chuteiras e apoio de políticos locais. “Era melhor o futebol antigo por isso: existia colaboração”, avalia. Situação similar ocorreu em decisão contra o Comercial. O Santa Cruz perdeu por 3 a 1, em casa. Em função do resultado, os adversários jogavam pelo empate. Na decisão, o Comerciário brincou em campo, bobeou e sofreu gols. O placar levou o jogo para os pênaltis. “Novamente, o goleiro fez a diferença”, diz. Em especial, porque Luiz Penteado era “diferente”. Durante a concentração para os penais, Robertão escutou o técnico do Comercial – que, mais tarde, dirigiu profissionalmente o Derac, de Itapetininga – orientar os jogadores a baterem no lado esquerdo. Para o técnico, esse seria “o lado fraco dos goleiros”. Como de costume, a maioria dos jogos era transmitida por rádio. Foi em uma dessas narrações que Robertão ganhou o apelido que o tornou famoso local e regionalmente. O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, precursor do atual Campeonato Brasileiro, era chamado pela torcida de “Robertão”. Em uma das transmissões, Benedito Roberto foi chamado de Robertão pelo locutor.

Contudo, o apelido “pegou” com a participação do jogador em um programa esportivo. O “batismo” foi feito por Juraci Oscar, que trabalhou nas rádios Difusora e Notícias. A paixão pelo futebol acabou transformando a paisagem local. Considerado até então uma novidade para o município, o esporte ganhou vários espaços para a prática. “Na minha infância e juventude, eu contaria, só na parte entre o Mercado Municipal e o Santa Cruz, uns oito ou nove campos de futebol”, conta o desportista. Esse número não soma os campos abertos, também chamados de várzea. Na mesma proporção, Robertão cita que havia quantidade e qualidade “infinitas” de jogadores. Muitos deles considerados craques e que defendiam camisas do Santa Cruz, XI de Agosto e São Martinho, o Leão do Sul. A qualidade do futebol era tamanha que os agostinos – os únicos que chegaram à terceira divisão – eram bastante respeitados. Robertão, por exemplo, cita que, nos anos 70, o clube tatuiano jogava bem em qualquer competição. Em função da fama, Tatuí abrigou diversos nomes do futebol nacional. Um deles morou em um espaço não convencional. “Os mais antigos se lembram de Alfredo Ramos. Ele viveu no vestiário do São Martinho”, conta Robertão. Ramos se tornou jogador da seleção brasileira, com passagens pelo São Paulo Futebol Clube, Santos e Corinthians. Em Tatuí, disputou jogos na categoria veterana, mas não foi o único. “A fábrica (São Martinho) também trouxe para cá um dos titulares do Palmeiras”, recorda Robertão. Em busca de oportunidades, outros jogadores famosos passaram por Tatuí. “Era a fartura do futebol”, ressalta o desportista. Com a popularização de novas modalidades, o futebol no país começou a dividir talentos. Em Tatuí, o mesmo ocorreu com a possibilidade de novas práticas. Dentre elas, a natação, basquete, futebol de salão, voleibol, tênis e outras. Daí, o fato de o município ter atletas em destaque, mas em menor número. Somando-se a isso, há a concorrência natural no futebol. Destacar-se não tem sido tarefa fácil, conforme o jogador. “Todo menino ganha uma bola quando criança. É uma tradição do brasileiro. A concorrência é tremenda”, analisa. Para o ex-jogador e técnico, os tempos mudaram devido a uma porção de motivos. Robertão avalia que a “fartura” do futebol tatuiano – e do nacional como um todo – passou porque os jovens têm outras preocupações, como vestibular, trabalho e internet. Também existe o fator econômico. Na visão dele, o atual modelo de negócio não prioriza o amor ao esporte, mas os lucros. “As pessoas eram abnegadas, tiravam dinheiro do bolso”, argumenta. Os exemplos anteriores eram de apoio aos clubes para a ascensão. Para o ex-jogador, o esporte mais praticado do país virou alvo de especulação por parte de empresários de jogadores. De forma a ganhar mais, eles se transformaram em caça-talentos, buscando

altos lucros na negociação de contratos com grandes clubes. “Um empresário a nível amador não existe”, diz. Até a profissionalização do esporte, um jogador subiria de nível pelas qualidades. Foi por isso que muitos atletas locais conseguiram alcançar novos horizontes. Atualmente, são necessários preparo físico, técnica e negociação. O impacto sentido em Tatuí foi, praticamente, o mesmo no futebol do interior. Tanto que Robertão cita retração em equipes de Araraquara, Sorocaba e Campinas. Esta última contava com duas agremiações com destaque, a Ponte Preta e o Guarani. “O Guarani, agora, está em nível amador”, diz. Como técnico e para apoiar o futebol, Robertão trabalha como voluntário em um projeto social no Santa Cruz. Ao todo, 150 garotos têm aulas de futebol com o treinador. A maioria dos meninos reside no Jardim Rosa Garcia 1, Fundação Manoel Guedes e “outras localidades periféricas da cidade”. Na ação social, os garotos tomam café da manhã, recebem chuteiras e jogam futebol. O treinador planeja, nos próximos anos, aposentar-se dos gramados e assistir o esporte somente pela televisão. Por enquanto, Robertão não possui nenhum candidato a sucessor. “Gosto de passar os detalhes do futebol, de ensinar. Em esporte coletivo, é assim: tudo se resolve em grupo, com muita psicologia, sabendo lidar com os jogadores”, declara. À procura de um discípulo, Robertão se lembrou de que o “maior elogio” da vida dele veio do mestre Moreira, considerado o “melhor técnico que conheceu na vida”. “Eu não gosto de condecoração, de medalha. Ele me disse que tirava o chapéu para mim e que eu tinha sido o melhor técnico de futebol que ele tinha conhecido. Isso vale mais que qualquer prêmio que já recebi”, ressalta. O passado de glórias do atleta teve maior representatividade entre 79 e 82. Em 1984, Robertão deu “uma parada”. No Santa Cruz, as maiores conquistas vieram como técnico, em competições como a “Copa Tatuí” e o Amador. Em 1986, ele trocou de agremiação. Foi dirigir a equipe do Clube de Campo, a pedido de Lupércio Bernardes. “Pérsio”, como era conhecido, trabalhava em Itatiba e gostava de futebol. Também contribuía com o clube. O estádio campestre leva o nome dele e tem, como apelido, “Itatibão”. “Se existe aquele campo de futebol, é por causa do Itatiba e da família dele”, conta Robertão. Na cidade, Pérsio era considerado um revolucionário. Além de dar início à caminhada de Tatuí a Pirapora, ele iniciou campanha para a construção do estádio. Para o trabalho, Robertão recebeu apoio do filho de Pérsio, Airton Bernardes. No mesmo clube, em 1986, o técnico ajudou o time a tornar-se campeão amador e, depois, a competir pelo estadual. Em seguida, atuou pelo XI de Agosto e registrou passagem pelo São Joaquim. Como técnico, tem última conquista pelo Santa Cruz, no “Varzeano”, competição que reúne meninos de 8 a 16 anos.

à frente do clube de campo, robertão conquistou novos títulos; o treinador soma no currículo o título de campeão amador de 1987


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Cristiano Mota

Fábrica, bangalô e a herança industrial Trama tecida pela família Azevedo resultou em ações beneméritas e histórias curiosas Da reportagem

Da reportagem

Ana isabel de azevedo macedo guarda, na memória, tesouros pouco conhecidos a respeito de período industrial

Juvenal de Campos, o bisavô, foi o por Maria Adelaide Barnsley Guedes, usava a própria casa para abrigar funcio- produtividade diferenciada em cada como a valsa “Dirce”, premiada fora do país. Na cidade, o músico ganhou apefundador. Mário França Azevedo, o avô, viúva do criador da São Martinho. nários que precisavam passar por alguma uma das localidades. teve três filhos, dos quais Milton AzeConforme a bisneta do fundador, intervenção cirúrgica ou tratamento. Na época, a família construiu um gal- lido de “Bimbo”, pelo qual, anos mais vedo, o pai, permaneceu nos negócios. os proprietários da fábrica também Sempre que algum conhecido ou pão no bairro Nova Tatuí. Durante dez tarde, ficou conhecido em Portugal. Sílvio Azevedo, tio de Ana Isabel, A família de Ana Isabel de Azevedo contribuíram com a Santa Casa. Um trabalhador da fábrica ficava doente e anos, a produção ficou concentrada nos Macedo é, essencialmente, industrial dos tios de Ana Isabel, por exemplo, não tinha recursos para operar, recebia dois espaços. “Depois, ficou inviável”, também se arriscou nos instrumentos. e tatuiana. construiu um pavilhão que abrigou a ajuda de Milton. Os convidados perma- diz Ana Isabel. Por não conseguir fazer Estudava piano e, para não incomodar a Testemunha da história do município antiga Maternidade “Maria Odete de neciam, até a recuperação, na residência frente aos importados, a família precisou vizinhança, mandou revestir um quarto e dos desafios da indústria nacional, Campos Azevedo”. onde Ana Isabel vive atualmente. fechar a unidade da periferia e encerrar com tapete. O cômodo também tinha cortiças ela é herdeira de uma história tão “Eles sempre foram pessoas com es“Naquela época, não se tinha recursos os planos de expansões. rica do ponto de vista cultural quanto pírito muito generoso, principalmente, e havia dois ou três médicos na cidade. O tino para os negócios sempre “bem grossas”, para abafar o som. “Ele surpreendente. Mora em um imóvel quando o assunto era o bem-estar dos Então, toda a assistência era dada pelos permeou a família de Ana Isabel. O estudava seis horas por dia, todos os construído há mais de cem anos e en- funcionários”, conta. patrões”, relembra. Para receber os tra- pai era economista, o avô não chegou dias. Se o destino não o tivesse obrivolto em mistérios. O pai de Ana Isabel, Milton Azevedo, balhadores, a família chegou a reservar a se formar, mas tinha habilidade para gado a conduzir os negócios, teria sido A propriedade tem nome próprio construiu uma vila operária para atender um dos quartos da propriedade. ganhar dinheiro. O marido, engenheiro pianista de boate, com certeza”, conta (Bangalô dos Azevedo), é tombada aos trabalhadores da Santa Adélia. Por A mesma casa foi usada, no auge da civil e eletricista, também se desdobrou. a sobrinha. A singularidade da vida pessoal dos como patrimônio histórico municipal um determinado período, os funcio- produtividade (entre as décadas de Arnaldo permaneceu no ramo por 30 e atrai a atenção de quem passa pela nários receberam casas – edificadas ao 1920 e 1930), para acolher técnicos que anos e buscou a inspiração no bisavô da empresários repetiu-se na profissional. região das duas anlongo da ave- vinham da Inglaterra. Os profissionais mulher. Juvenal de Campos era, por No âmbito dos negócios, os Campos tigas fábricas. A nida Cônego eram chamados para instalar e realizar espírito, um visionário. Em Sorocaba, Azevedo mantiveram a base adminiscasa está localizada João Clímaco ajustes nas máquinas da fiação. participou de sociedade com John trativa em São Paulo e a produtiva em na esquina das ruas de Camargo Eles permaneciam em solo vermelho Kenworthy, inglês que deu início à Tatuí. O escritório da fábrica funcionava na antiga rua Senador Paulo Egídio, 13 de Maio com (Mangueiras) entre dois e três meses, superando difi- industrialização na cidade vizinha. Santa Cruz. –, cujos valores culdades como a distância. As viagens, “Meu avô e os outros irmãos tinham ligação com o largo São Francisco. A proximidade com os funcionários Ana Isabel tameram descon- na época, duravam uma “eternidade”. uma fábrica de meias. Dali, levantaram também se tornou marca registrada da bém guarda, na tados dos paCom o tempo e por conta da mo- capital para iniciar em Tatuí”, conta. memória, tesouros gamentos. dernização da produção e elevação do Com o recurso, os irmãos adquiriram companhia. “Tanto os Guedes, que pouco conhecidos. Os emprega- custo para os empresários, a produção o terreno que ocupava três quarteirões. tinham a São Martinho, como a Campos Entre eles, o trados retribuíam brasileira registrou os primeiros sinais No início, a energia elétrica era via- & Irmãos deram uma vitalidade muito balho benemérito com aumento de desgaste. Para concorrer de igual para bilizada através de vapor (gerado por grande para a cidade”, cita Ana Isabel. Mais que renda, os empreendimenque o avô e o pai da produção, a igual, os Campos Azevedo precisaram caldeiras). desenvolveram. qual, no auge, lançar mão da importação de maquináPosteriormente, após o aumento da tos criaram vínculos com o município. Sem contar o deincluía fiação, rios, o que encareceu a produtividade. produção, a fábrica precisou de uma Geraram, também, histórias que perdusenvolvimento que tecelagem e Em paralelo, a produção regional fonte maior de energia. Em função disso, raram por muito tempo no imaginário proporcionaram ao tinturaria. As de algodão diminuiu. A matéria-prima a Campos & Irmãos construiu a represa da população. A mais propagada, em apostar em um atividades fun- começou a ficar escassa. “Daí, ficou Santa Adélia, no distrito de Americana. décadas, diz respeito ao bangalô. Construído por Juvenal de Campos, ramo até quando cionaram “por mais complicado”, explica a bisneta de Na época, a hidrelétrica gerava não foi mais posmuito tempo”. Juvenal de Campos. Depois de 1930, energia e servia para captação de água. o imóvel recebia, principalmente, os sível. Diminuíram o algodão usado em Tatuí precisou ser “Aqui, em casa (Bangalô), tinha duas estrangeiros que faziam manutenção bisneta do fundador, ana isabel Nascida 51 anos na década de comprado do Nordeste. O custo do torneiras que serviam às pessoas”, relata dos maquinários. Ela tinha um “formato vivenciou conquistas atípico para a época”, com muitas salas depois da data de 50, com a trans- transporte também pesou como novo Ana Isabel. trazidas pela família inauguração da ferência de pos- encargo. O portão da propriedade ficava aberto e poucos quartos em dois andares. A disposição dos cômodos mudou Campos & Irmãos, se para a família O golpe de misericórdia veio com a para que a população pudesse ter acesso ela carrega sobrenome que mantém viva Gasparian. A empresa chegou a ter produção estrangeira: japonesa, inicial- à água. “Sempre tinha fila de gente com depois que Ana Isabel decidiu viver lá. Os espaços foram transformados em a pujança econômica do município. Nos 1.200 funcionários. Terminou com 170, mente, e chinesa, muitos anos depois. baldes”, menciona. tempos da monarquia, Tatuí se mostrava dispensados a partir de março de 1981, Como a fiação de tecelagem tem uma A usina construída na gestão de escritório, sala de almoço e quarto para terra fértil a culturas e negócios. pelo Grupo Vimor Empreendimentos. margem de lucro considerada muito bai- Milton Azevedo tornou-se uma opção hóspedes. A casa tem quatro quartos no Foi dessa aposta que o bisavô de Ana Isabel, quando tinha por volta xa, Ana Isabel relata que o pai enfrentou à San Juan, barragem construída em térreo e dois no primeiro andar. Originalmente, o piso superior era Ana Isabel constituiu sociedade com dos dez anos, como toda criança do dificuldades para manter os negócios. Cerquilho, também para gerar energia Alcebíades de Campos e deu início a interior, brina partir do rio Soro- composto por um pavilhão. Ele abrigava um empreendimento cujas edificações cava despreocaba. “Essa represa um salão de jogos e um mirante. Entre os resistem ao tempo. A fábrica – desmem- cupadamen(a San Juan) era uma menos esclarecidos, propagou-se a ideia brada em duas – abriga negócios con- te. Dividia o calamidade”, diz Ana de que o espaço tivesse sido construído para espiar os trabalhadores da fábrica. temporâneos. A partir de restaurações, tempo entre Isabel. Ana Isabel se mudou para o bangalô originaram-se uma agência bancária e os estudos, O investimento em um hipermercado. os amigos energia fez-se neces- depois de passar uma boa parte da vida Em 1908, juntaram-se ao quadro e a família. sário não só para aten- em fazenda. A mudança dela aconteceu societário da Campos & Irmãos Epa- Com o avô, der à cidade, mas para por conta de o marido assumir o comanminondas de Campos, Martiniano de tinha pouca permitir a continui- do da fábrica. Ela retornou para Tatuí Campos e Mário França Azevedo. O l i b e r d a d e , dade da produção em aos 32 anos, 20 depois de ter vivido fundador morreu cedo, aos 46 anos. mas muita expansão. As fábricas, na capital. Na época, os filhos – Augusto de “Muito moço”, comenta a bisneta, que admiração. até então, possuíam veio ao mundo no dia 2 de julho de “Ele era uma geradores que preci- Azevedo Macedo, Ana Paula Macedo 1941. A fábrica teve inauguração em 3 pessoa muito savam de manutenção Camargo e Alexandre de Azevedo Macedo – tinham idades entre oito e dez de novembro de 1890, sendo cuidada interessante, constante. pelos irmãos do fundador. culto, inteO trabalho era fei- anos. Dos três, apenas Ana Paula reside Mário França Azevedo entrou nos lectualizado to por estrangeiros. em Tatuí. Ela trabalha no Fundo Social fábrica campos & irmãos trouxe emprego, energia negócios - e na família - por meio da e sério”, desUm dos italianos, de de Solidariedade, ajudando a propagar elétrica e água encanada para a população; filha de Juvenal de Campos. Ele se casou creve. sobrenome Gravina, o trabalho solidário da família. unidade impulsionou economia por anos Ana Isabel, que é formada pela Escom a avó de Ana Isabel. À frente do Como neta gostou tanto do muempreendimento, Azevedo fez a pro- mais velha, nicípio que resolveu cola Panamericana, também contribuiu voluntariamente. Por muitos anos, deu dução prosperar para além dos limites Ana Isabel teve o privilégio de acompa- “Ficou quase inviável”, argumenta. permanecer nele e constituir família. da fábrica principal. nhar Mário França Azevedo nos muitos Além do bangalô, os Campos Azevedo Além da contribuição para o desen- aulas a pessoas que frequentam centros “Eles fizeram outra, a Santa Isabel, trabalhos beneméritos. Em um deles, possuíam outro refúgio em Tatuí: uma volvimento industrial, os Azevedo têm de capacitação. Um problema de saúde interrompeu mais conhecida como fabriquinha”, conheceu a Santa Casa de São Paulo, chácara com gado voltado à produção histórico de fazer inveja. Um dos mais conta Ana Isabel. Por vários anos, as instituição na qual o avô desempenhou de leite. A propriedade servia para conhecidos músicos de Tatuí é oriundo a atividade, momentaneamente. Em duas unidades reinaram quase absolutas função de provedor. descanso da família que teve no setor da família. Otávio Azevedo tem mais breve, ela deve ministrar curso de de cem composições escritas, sendo argila para idosos. O trabalho será no município. Elas dividiam espaço Em Cotia, conheceu uma creche têxtil a única atividade. voltado a atender o público que fresomente com a São Martinho. sustentada pelo Rotary Club. “Eu ia Esse mesmo ramo ganhou impulso 17 delas letradas. Ele se tornou primeiro luthier de Ta- quenta o Parque Ecológico Municipal Considerados empresários de visão, com ele para visitar os locais e sempre com a 2ª Guerra Mundial. Como os os homens da família Campos Azevedo quando tinha festas”, recorda-se. países europeus estavam focados na tuí e é lembrado por inúmeros trabalhos, “Maria Tuca”. registram contribuições em “via de mão Em Campos do Jordão, ela acompa- indústria bélica, a produção brasileira dupla”. Entre elas, a abertura da estrada nhou o trabalho do avô como diretor – e local – encontrou neles um filão de que ligava Tatuí a Sorocaba, para a vinda de um sanatório. O espaço oferecia mercado. A fábrica de Tatuí chegou a de matéria-prima (algodão). tratamento para pessoas acometidas exportar tanto roupas prontas como fios “Meu bisavô e meu avô eram pes- por tuberculose. de algodão para as nações que estavam soas muito discretas, voltadas para o Ana Isabel só teve uma noção da no front. trabalho”, conta a bisneta do fundador. extensão das ações de Mário França A produção da Campos & Irmãos teve “Por um desconhecimento do fato”, Azevedo após a morte do avô. Por conta início com fiação e tecelagem. Cresceu talvez, a rodovia recebeu outro nome, do falecimento, a família começou a com a Santa Isabel, fornecendo fio sendo chamada de Senador Laurindo receber uma quantidade enorme de misto (que juntava linho ao algodão). Dias Minhoto (SP-141), um político cartas de agradecimento. “As pessoas Com o tempo, as unidades passaram a que também carregou histórico de relatavam coisas que nós nem ficáva- fabricar toalhas de banho e camisetas. contribuições. mos sabendo, de ajuda que meu avô A produtividade caiu com a inclusão do Mesmo não tão explícita, a presença prestou”. fio sintético, que “entrou na moda”. dos Azevedo no município ainda perGrande parte dos relatos havia sido Pouco antes de repassar as fábricas siste. Basta ver o terreno que abriga a escrita por pessoas que receberam para os Gasparian, o marido de Ana sede do Lar São Vicente de Paulo. A ajudas relacionadas a atendimentos de Isabel, Arnaldo, tentou expandir a bangalô dos azevedo foi construído para servir de história conta, também, que o asilo teve saúde. O espírito solidário perdurou Santa Isabel. A ideia era desmembrar abrigo a técnicos estrangeiros contratados sua primeira construção em área cedida na família. Tanto que Milton Azevedo a unidade para que ela pudesse ter para instalar equipamentos


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Cristiano Mota

O retrato de uma vida em eterna produção Amante do conhecimento, Theresinha de Oliveira Pinto é exemplo de superação Da reportagem

com 84 anos de idade, professora e artista plástica é exemplo de que dedicação aos estudos pode resultar em sucesso

Da reportagem

A idade física pode se tornar empecilho de professora secundária em Cerquilho, para muitas pessoas. Não para Theresi- na Escola Estadual “Presidente Arthur nha de Oliveira Pinto. Aos 84 anos, mas da Silva Bernardes”. com mente jovem (entre 16 e 18 anos, Já naquela época, Theresinha decomo costuma dizer), a porangabense de monstrava ter “uma queda pela educação nascimento não tem tempo ocioso. Ao artística”. “Mas, fui dar uma matéria que contrário, faltam horas na agenda para não tinha nada a ver. Era relacionada à cumprir todas as atividades. formação profissional”, conta. Boa parte dos compromissos dela é O programa durou quatro anos, sendo relacionada às artes plásticas. Trata-se retirado da grade curricular por conta de uma paixão que nasceu por um acaso de reformulação do governo do Estado. do destino. Para apoiar a irmã e conse- Em paralelo, Theresinha ingressou na guir ascensão na carreira de professora, Faficile (Faculdade de Filosofia, Ciências ingressou num curso que a transformou. e Letras) de Tatuí. Por amor às figuras geométricas, cores e Aqui, cursou desenho e plástica, por pincéis, Theresinha venceu desafios. Ela quatro anos. Por outra “reviravolta” na cresceu na cargrade curricular do Estado, reira e serviu de a graduação não foi validada inspiração para para aulas. tantos outros arDeterminada a crescer tistas locais. Por na profissão de educadora, essas razões – e Theresinha permaneceu outras mais que na faculdade para cursar não poderiam ser educação artística, com dudescritas em texração de três anos. “Valeu a to –, ela é citada pena porque os professores como referência eram todos de fora e com por quem realuma capacidade tremenda. mente entende Contando os dois cursos, do assunto. estudei um total de sete A artista plásanos”, relata. tica ficou conheEm se tratando de temcida como Terepo, ele parece ser relativo zinha, sem H e para a artista. Como procom Z. Corrigir fessora efetiva, Theresinha a falha, porém, é trabalhou por 31 anos e um dos poucos meio. Nem mais, nem caprichos que ela menos. Como amante das tem na vida. “O artes, ela ainda dá lições. nome é da antiga Tem seis alunos fixos em professora se formou regra ortográfiateliê. quando adulta e por ca”, salienta. “Sou apaixonada por força de vontade Nascida no escola”, conta. Talvez, dia 3 de fevedaí, venha o amor pelo reiro de 1932, conhecimento. O gosto é Theresinha trocou Porangaba por Tatuí tamanho que a artista plástica não cansa quando completou 18 anos. Ela o fez por de colecionar diplomas e certificados, um motivo especial: continuar os estudos. com passagens por instituições de Itu, Em 1950, apenas 23 anos depois da Piracicaba e da capital. A mais importante emancipação político-administrativa de delas, a USP (Universidade de São Paulo). Porangaba – que deixou de pertencer a Enquanto lecionava pelo Estado, TheTatuí –, a cidade dela ainda não oferecia resinha perdeu as contas de quantos curpossibilidade de continuidade dos es- sos realizou. Das datas que acompanham tudos. O ensino terminava no primário. as graduações, ela resgata apenas algumas De família humilde e muito obediente das mais marcantes, como o ano no qual aos pais, Theresinha precisou esperar ingressou na Faficile (em 1958), para fazer “ganhar idade” para poder ter direito a desenho e plástica e, posteriormente, estudar. “Naquela época, não era como educação artística (em 1973). hoje”, inicia. Theresinha se orgulha de ser da “Tínhamos que obedecer aos pais. primeira turma desse segundo curso, e Toda vida eu gostei de estudar, mas dos diplomas seguintes que colecionou. não tinha condições financeiras e nem Entre eles, o de pedagogia, frequentado autorização. Quando completei 18 anos, em Itapetininga. resolvi que ia terminar os estudos por “Eu lecionava de manhã, no primário; minha conta própria”, relata. à tarde, fazia educação artística em Tatuí; Ela veio a Tatuí com “a cara e a cora- e, à noite, pedagogia. Este último era o gem”, mas com o consentimento dos pais. que iria me dar ascensão no cargo”, diz. Aqui, fez carreira, fama, formou alunos, Foi pensando em melhorar na carreira ganhou prêmios e reconhecimento. Da- de professora que Theresinha conheceu qui, catapultou-se para o mundo. “Foi uma os traços de uma forma mais íntima. trajetória maravilhosa”, define. “Aconteceu naturalmente”, menciona. Para recuperar o tempo perdido, O primeiro contato com as artes Theresinha se tornou figura cativa nos aconteceu no Conservatório de Tatuí. bancos escolares. Ela terminou o ginasial, Theresinha foi aluna da turma de 1954, cursado na Escola “Barão de Suruí”, aos ano da inauguração oficial da instituição. 21 anos. Depois, fez o curso normal, “por O segundo, mais profundo, foi na Faficile. falta de possibilidade monetária”. Na Em uma conversa com a irmã, profesépoca, trabalhava para pagar os estudos sora eventual que pretendia se tornar e tornar-se professora primária. efetiva, Theresinha resolveu cursar eduCom esforço, ingressou na faculdade. O cação artística. Na ocasião, propôs que as curso superior permitiu a ela exercer cargo duas se ajudassem. Ambas se formaram e

produção de professora inclui telas com pintura a óleo e figuras como rosas; quadros de theresinha já figuraram mostras internacionais

passaram em concurso. “Aquilo (a graduação em educação artística) abriu a minha cabeça. Revelou, para mim, um mundo que eu nem imaginava que existia”, comenta. O curso era tão amplo que permitiria aos concluintes ingressarem no segundo ano de graduações como engenharia e direito, segundo a artista. Também possibilitou, a Theresinha, um grande feito em Tatuí: a abertura de uma das primeiras escolas particulares de ensino de desenho e pintura do município – a mais antiga ainda em atividade. A escola começou por incentivo das colegas de classe. “O pessoal da minha turma me disse para abrir uma escola, porque queriam ter mais aulas. Comecei com poucos alunos e fui crescendo”, descreve. Buscando oferecer melhor qualificação para os alunos, Theresinha seguiu nos estudos. Em Itapetininga, chegou a frequentar educação física. Também cursou teatro em Tatuí, com o renomado diretor Moisés Miastkwosky. Vislumbrando maior qualificação, também ingressou em especializações. Todas, ligadas à área da cultura. Os cursos que serviam para a carreira também alimentavam os alunos da escola particular. Entre os inúmeros, está o de qualificação profissional em pintura, ministrado na então Escola Industrial “Salles Gomes”. “O conteúdo me abriu a cabeça”, comenta. Aberta em 1976, a escola particular de Theresinha priorizou, inicialmente, ensino de pintura a óleo, embora a artista já tivesse estudado giz pastel e outras técnicas. Desde o início, a professora misturou os conhecimentos com poesia. O conteúdo incluiu noções de concretismo (tendência segundo a qual a arte deve materializar visualmente os conceitos intelectuais) e influências de artistas renomados, como o poeta Décio Pignatari e o artista plástico Gilberto Geraldo.

dois, por conta dos afazeres da profissão e da escola particular. Em ateliê próprio, Theresinha ganhou alunos “de peso”. “Começou a entrar aqui uma turma de intelectuais, engenheiros, dentistas, médicos, um pessoal de visão ampla e mente aberta”, conta. Por influência da poesia, a professora se aprofundou na arte moderna, a ponto de ter um trabalho elogiado pelo ex-professor Miastkwosky. Theresinha retratou em formas e cores o “momento supremo” da peça “Antígona”, a primeira montada no teatro do Conservatório de Tatuí ainda em construção. “Na época, minha escola ficava na rua 15 de Novembro. O Moisés viu o quadro, ficou deslumbrado com a modernidade da obra e levou-a embora”, relata ela, que, posteriormente, passou a vender mais trabalhos e a aumentar a produção. A inspiração veio com as especializações e cursos em São Paulo. Naquela altura, em 1976, Theresinha já colhia os frutos da dedicação ao trabalho. “Ganhava bem, tinha dinheiro para gastar a rodo”, conta. Motivada, estudou psicologia em Piracicaba e supervisão relacionada ao ensino primário em Itu. Por conta do curso nessa última cidade, chegou a lecionar para diretores de unidades. “As pessoas falavam que eu era louca”. Os diretores tomaram aulas de análise de livros, em curso também ministrado para professores. A meta era dar base para os educadores escolherem as melhores obras a serem utilizadas nas respectivas disciplinas. “Ninguém quis pegar esse curso para dar, porque a pessoa teria que ensinar diretores. Mas, eu me saí muito bem, porque sabia o que estava lecionando”. As idas e vindas para as especializações eram feitas em ônibus. Theresinha passou boa parte da vida viajando para as diversas cidades nas quais se matriculou. “Todas as despesas eram por minha conta”. O custo para o conhecimento não es-

quadro feito pela artista plástica integra acervo pessoal; obra é feita com base em técnicas aprendidas durante uma vida

Voltadas para crianças com até 14 anos, as aulas contavam com programa específico. A pintura priorizava a arte clássica, vertente que deu a Theresinha inúmeros prêmios no exterior. Um deles, conquistado no México. O trabalho havia sido rejeitado em mostra em Santos. Por conta da mobilização dos alunos e dos estudos, a artista plástica acrescentou o ensino da arte moderna. O conteúdo permanece ao longo dos 40 anos, sendo repassado para os mais de mil alunos que passaram pela escola de desenho. Dentre eles, os artistas plásticos Mingo Jacob, Carmelina Monteiro, Carlota Franco e Ari Hoffmann. “Tive até uma aluna do Chile, que veio especialmente para estudar aqui. Naquela época, era um feito, porque não se tinha facilidade para encontrar endereços como hoje”, ressalta. Para ganhar ainda mais “bagagem”, Theresinha ingressou na Associação Paulista de Belas Artes, em São Paulo, considerada uma das melhores no ramo. Em seguida, frequentou faculdades de Itu e Piracicaba. Buscou mestrado e doutorado. Não chegou a concluir nenhum dos

pantou a professora, que, naquela altura da vida, já colhia os frutos do trabalho. As aulas particulares possibilitaram a Theresinha mais que a profissionalização. “Dava tanto dinheiro que eu quase fiquei biruta, porque vim de uma família pobre, o que não me permitiu estudar de menina. Tanto que eu era a única adulta nas classes que frequentei”, cita. Passando por cima das adversidades, Theresinha transformou o que era para ser uma desvantagem, ou motivo de desconforto, em oportunidade. Como já tinha mais conhecimento que os colegas de classe, passou a dar aulas a eles. Eram lições de reforço, que incluíam desenho, latim, francês e “o que mais viesse”. Um dos ex-alunos que recebiam complemento, anos mais tarde, tornou-se advogado da artista plástica. “A versatilidade era muito grande. Tanto que eu dava até aula de matemática quando aparecia uma criança que tinha dificuldades”, relembra. A prática e a didática tornaram Theresinha conhecida também entre os universitários, a ponto de ela desenvolver

curso preparatório específico para vestibular. Para isso, estudou o conteúdo do exame de uma universidade, a pedido de uma aluna. “Ela passou na prova e, depois, conseguiu se formar”, conta. Mesmo com todos os afazeres, a artista plástica não para de se reinventar. Estuda piano digital e já cursou – com direito a diploma e formatura – grafite no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). Na mesma instituição, registra passagem como professora de artes visuais. Theresinha também estudou aquarelas modernas por cinco anos, com Luiz Zeminian, na Belas Artes paulista. O artista plástico de São Paulo foi aluno do pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi. Este último, considerado pela crítica um dos mais importantes da segunda geração do modernismo. Com Zeminian, aprendeu a zelar melhor do bem mais precioso que possui: as mãos. O cuidado é tamanho que Theresinha, por exemplo, optou pelo piano digital para não comprometer o movimento. “Minhas mãos valem ouro”, brinca. Também aprimorou técnicas no Instituto Tomie Ohtake, de onde “pulou” para a USP. A entrada na instituição de maior prestígio na América Latina deu-se em um curso até então considerado improvável: Theresinha se matriculou em arqueologia. “Não era bem o que eu queria, mas isso foi um trampolim”, descreve. Ao modo dela, Theresinha tratou de incluir a arte no curso. De forma participativa, colaborou com a orientadora da turma, apresentando ideias e sugestões. “Eu revolucionei a ‘velharada’ com a minha iniciativa”, comenta a artista. Desde então, o curso passou a contar com ensino de artes. A razão é que os alunos precisavam ter noções de cores, dimensões, entre outros elementos do desenho, para preparar um painel expositivo a respeito do trabalho defendido. Foi também na USP que Theresinha teve inspiração para escrever livro sobre poesia imagética. Lá, ela descobriu a veia de cronista, poeta e escritora. Exerceu, também, a profissão de professora. Deu aulas a um porteiro. “Ele ficava ocioso boa parte do tempo. Disse para ele comprar uma caixa de giz pastel, porque não daria para colocar cavalete. Ensinei sem cobrar”, conta a artista, realizada com o ingresso na USP. “Eu estava onde queria”, completa. Da universidade para o exterior foi um pulo. No país, Theresinha expôs na Bienal de Santos. Das duas obras feitas pela professora, uma havia sido rejeitada para o evento, por não atender aos critérios de seleção da comissão organizadora. Exatamente esse trabalho ganhou prêmio de menção honrosa, em mostra no México. O quadro foi vendido por US$ 200 e abriu novos horizontes à artista local. Em São Paulo, ela expôs na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) e na Belas Artes. Atualmente, escreve poesias, algumas delas premiadas, e leciona curso de sensibilização imagética cromatizante. A filosofia é divulgar a capacidade do ser humano em transformar o imaginário em concreto. A transformação é algo que Theresinha está acostumada mesmo quando se trata de superar limites. “Só levei bomba uma única vez, quando fui tirar carta de motorista”, comenta. “Por ser canhota e ter reflexo mais lento”, conta, ela precisou repetir os exames. Entretanto, como tudo a que se propôs, a artista conseguiu a habilitação. O complemento disso viria com um carro, planejado há muito tempo. “Com o dinheiro das pinturas, consegui comprar uma casa, só com a venda de quadros. A casa tem garagem, porque eu pretendo comprar um carro”, destaca. No que depender da força de vontade da artista, o projeto não deve demorar a concretizar-se.


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Cristiano Mota

Uma lição de vida e uma aula de história Engajada com saúde e segurança, “Cidinha Pedagoga” é exemplo de mulher desbravadora Da reportagem

pedagoga adotou tatuí como cidade para crescer, viver, constituir carreira e criar os filhos

Da reportagem

É verdade que Maria Aparecida Rodrigues de Camargo não nasceu na “Capital da Música”, mas bons ventos trouxeram, para Tatuí, uma de suas mais valorosas filhas. O que poucos sabem – os mais chegados, talvez – é que a história dela mistura-se com a da cidade de um modo ímpar e igualmente exemplar. Natural de São Paulo, “Cidinha Pedagoga” – como é conhecida – ganhou uma nova família em Tatuí. Recebeu apelido por conta da profissão, ocupou

até a escolinha”, descreve. O quadro não mostra, mas era naquele entorno que Cidinha conheceria o mundo das letras. Até os sete anos, ela frequentou o Grupo Escolar de Cesário Lange. Dessa idade em diante, precisou morar em Tatuí, para completar os estudos. A cidade era ponto de visitas esporádicas. “Vinha na casa dos parentes da minha avó, a mãe da Teresinha Cárdenas, a Teresinha Vieira”, relembra. Já em Tatuí, Cidinha despontou nos estudos ainda criança. No 4º ano,

em tatuí, cidinha soma contribuições nas áreas da saúde e segurança

posições de destaque e engajou-se voluntariamente em áreas da saúde e da segurança pública. A vinda para cá deu-se ainda bebê, devido a uma fatalidade. Os pais da professora, Dionísia Rodrigues de Camargo e Lourenço Marchetti, faleceram no ano de 1938. “Eu tinha dois meses quando isso aconteceu”, lembra. Cidinha conheceu, primeiro, Cesário Lange, onde os avós maternos possuíam uma propriedade. Na época do ocorrido, o atual município pertencia a Tatuí. Permaneceu lá até os sete anos, quando veio morar em Tatuí, em 1945, mesmo ano em que outra mulher de destaque para o município, Francisca Pereira Rodrigues, a Chiquinha Rodrigues, assumia o cargo mais importante. Chiquinha se tornou a primeira prefeita de Tatuí, o que, mesmo indiretamente, influenciou a vida de muitas outras mulheres. Cidinha, por exemplo, veio na esteira, provando que dedicação, determinação e amor à profissão levam a grandes conquistas. Adotada no papel pelos avós em 1950, a professora tem orgulho do sobrenome. Mais que isso, gratidão pela família que a criou. Tanto que manteve o sobrenome de solteira, mesmo depois de se casar. Os filhos são Vieira dos Santos. Do período da infância em Cesário Lange, Cidinha guarda belas recordações. Entre elas, o convívio com os avós numa estância em Ribeirão da Onça. “Era um bairro que ficava perto de Fazenda Velha”, explica. Na terra dos avós, ela cursou o 1º, 2º e 3º ano. A escola ficava próxima à propriedade, na rua principal de Cesário Lange. A lembrança da região está presente na memória e em quadros emoldurados na sala da pedagoga. “Pedi para pintar a praça. Eu morava no meio do quarteirão, um pouco para baixo da igreja central. É possível ver

tornou-se a primeira aluna da classe. “Eu era pequenininha, engraçadinha e, de certo, recitava, cantava. Então, era sempre escolhida pela desenvoltura”, explica. Muito do “desempenho” dela deve-se ao exemplo familiar. O avô era subdelegado em Tatuí, também envolvido com a cultura. Por influência dele, a professora passeou por várias áreas. “Ainda sou membro do Conseg (Conselho Municipal de Segurança), do qual fui diretora e tenho diplomas”, comenta. A pedagogia surgiu na vida de Cidinha de modo natural. Uma vez concluídos os estudos no primário e no ginasial, ela frequentou a chamada Escola Normal. “Fui normalista e, de lá, saí para dar aulas”. Em 1959, ela assumiu “as primeiras cadeiras”. Na época, lecionou na antiga Escola do Comércio, que funcionava no centro da cidade. Também ensinou a ler a meninos e meninas da região rural de Cesário Lange – uma volta às origens. Desbravou a região e o interior de São Paulo, passando por Iperó (em vários bairros) e chegando a Cachoeira da Fumaça, situada entre os municípios de Piedade, Tapiraí e Ibiúna. “Era um lugar – e ainda é – muito bonito”, conta. Pela dedicação ao trabalho e empenho em continuar na docência, Cidinha recebeu o título de “Bandeirante das Letras da Instrução”. A honraria é um reconhecimento concedido por conta do esforço empreendido em nome da pedagogia. “Ibiúna exigia muito de nós, como pessoas, porque ficava longe do que chamamos de civilização. Era mais difícil, mas, graças a Deus, deu certo”, comenta. Tatuí esteve ausente da vida da professora por 15 anos, quando, então, ela ganhou cadeira na “João Florêncio”. De volta, constituiu família composta por

cinco filhos (uma advogada, Heloísa, uma professora, Dionisia, uma psicóloga, Magna Angélica, e dois professores, Lucas e Isaías). Na cidade, também lecionou na “Eugênio Santos” e “Barão de Suruí”. Nesta última, ensinou matemática, após concluir faculdade de pedagogia. Em 1980, integrou a equipe de docentes da Faficile (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) de Tatuí. “Era uma instituição maravilhosa. Não existia outra igual naquele tempo. Recebia muitos alunos de Sorocaba”, cita. A instituição era tão procurada que chegou a ter 1.200 alunos. Eles formavam classes numerosas, com 120 por turma. Empolgada com o desempenho dos estudantes, Cidinha se envolvia nas formaturas. Na época de paraninfa, realizava ações beneficentes para arrecadar fundos para as festas. Cidinha frequentou o curso normal na mesma turma que Firmo Antônio de Camargo Del Fiol, patrono da escola municipal de ensino fundamental no Jardim Planalto. Também dividiu carteira com Santa Iazzetti e Maria Adum. “Os professores eram ótimos antes de mim e comigo”, diz. Ela tem, entre o rol de alunos, profissionais de destaques, como dentistas, supervisores escolares, administradores e, até, professores. Dentre esses, um dos filhos. “Ele me odiava, porque estudava em Iperó e a professora não ensinava nada. Quando veio para a minha escola, percebi que não sabia ler”, conta. A lista de alunos inclui advogados e músicos regentes – estes que atuam no Conservatório. “A maioria do pessoal mais velho da escola de música foi meu aluno”, revela Cidinha. A explicação é que, na década de 80, os musicistas tinham como disciplina obrigatória a educação artística. Por meio do trabalho em sala de aula, Cidinha mudou a vida de muitas pessoas. Deu aula para mais de duas gerações de uma mesma família e se renovou a cada lição. “Aprendi e ensinei. Também descobri que, quando se entra em classe, é preciso deixar todos os problemas do lado de fora”. No meio acadêmico, a professora conheceu pessoas, seus problemas, e resolveu arregaçar as mangas. Em 1990, voltou aos bancos escolares. Dessa vez, como aluna e para frequentar o curso de auxiliar em enfermagem na então Escola de Enfermagem “Dr. Gualter Nunes”, mantida pela Femague (Fundação Educacional “Manoel Guedes”). A intenção era ajudar a Santa Casa. O hospital era o segundo ponto de trabalho da professora – esse, voluntário. Cidinha contribuiu, também, com o Lar São Vicente de Paulo, auxiliando as Irmãs da Providência. “Fiz mais para

ajudar, mas não para ganhar dinheiro”, conta ela, que trabalhou, ainda, no Pronto-Socorro Municipal. Registrada no Coren (Conselho Regional de Enfermagem), tornou-se sócia da Santa Casa e membro da diretoria. “Sempre fui consultada para ações e decisões, por estar muito tempo lá e conhecer as entidades”. Em 1996, ingressou no Conseg, órgão do qual ainda faz parte e que conheceu por conta de familiares. O filho do primo dela é oficial da Polícia Militar. O trabalho no conselho rendeu prêmios e um episódio considerado “ameaça”. “Falei sobre a segurança para um jornal da cidade e, no outro dia, apareceu um tiro bem na direção da minha casa. Acho que isso foi um ‘cala boca’, mas sempre fui guerreira e não tenho medo, porque acredito em Deus”, declara. O desprendimento e as ações voluntárias levaram Cidinha aos conselhos municipais da Saúde e da Educação. Também a um convite para tornar-se coordenadora de creche municipal. A professora não aceitou a oferta, na época, por generosidade. Ela entende ser preciso dar espaço às futuras gerações. Por mais de uma vez, recusou trabalho em nome do próximo e do ensino. Aos 28 anos de trabalho no Estado, a professora deixou as cadeiras que ocupava para que outras professoras pudessem trabalhar, ganhar experiência e fazer carreira. Mesmo aposentada, Cidinha continuou na ativa. Trabalhou como supervisora de estágio nos cursos de pedagogia, educação artística e filosofia. Entre uma atividade e outra, iniciou, em Osasco, o curso de direito. “Não continuei porque entendi que não era a minha praia”, revela. Mestre em sala de aula e fora dela, Cidinha também aprendeu com a vida. Na profissão, descobriu o amor quando criança, a decepção na fase adulta e fez as pazes com o passado anos mais tarde. A trajetória dela, no campo afetivo, gira em torno de Tatuí e das cidades da região. Em especial, Cesário Lange. “Tenho uma história muito emocionante que começou lá”, relata. Foi lá que Cidinha conheceu um “moço bonito”. Ela o viu pela primeira vez na década de 60, quando estava na companhia de uma amiga. O primeiro namorado sempre era visto em uma carroça, que passava pela praça central. Em um dia qualquer, o moço tomou coragem para falar com a professora. E começou uma paixão. “Naquele tempo, o namoro era diferente. Era mais respeitoso”, relata. O amor inocente “demorou a engrenar” e não durou por muito tempo. Por intriga da mãe da mulher que viria a ser noiva do primeiro namorado de Cidinha, o avô dela não permitiu que

os dois continuassem a se encontrar. A mulher tinha dito ao responsável pela professora que o moço havia brigado com o padre. Muito religioso, o avô ordenou que ela terminasse tudo com o pretendente. “Padre, naquele tempo, era igual Jesus Cristo na Terra”, conta. O namoro singelo terminou com uma conversa em meio à procissão de Santa Cruz, padroeira de Cesário Lange. Por ordem do avô, Cidinha se despediu da primeira paixão da vida, no final da rua do Comércio. “Sentei-me no jardim e fiquei em pé com a passagem da procissão, em sinal de respeito”, conta. Em poucas palavras, o “moço bonito” se levantou e foi em direção a um bar. A professora retornou para Tatuí em seguida, antes do início da festa. “Peguei um ônibus para voltar, cheguei aqui e tudo tinha acabado”, relata. A primeira paixão casou-se em Cesário Lange; Cidinha, em Tatuí. Em 2010, por um acaso do destino, a professora reencontrou o pretendente em uma situação atípica. Ele havia dado entrada na Santa Casa, estava na ala cirúrgica. Na época, a professora atuava como mordomo do hospital. “Não ganhava dinheiro. Era responsável por fazer visitas nos quartos, para ver se não existia algum problema. Quando havia, nós tentávamos solucionar”, explica. Uma aluna da Faficile, Maria Helena, levou a professora até o leito do primeiro pretendente, que demorou a reconhecê-la. Quando o fez, deixou escapar uma confissão que trouxe lembranças profundas. “Ele disse: ‘Meu Deus, ela é a mocinha com quem eu queria ter me casado’”, relembra. Dias depois, o homem faleceu, vindo a ser enterrado em Cesário Lange. O episódio marcou a vida da professora, que encontrou, na profissão, um novo amor e teve, na educação, a maior realização da vida, depois da experiência da maternidade. “Os filhos, logicamente, foram minha grande ação, mas a maior realização é a minha carreira. Como educadora, eu era meio general”, descreve. Na terra de Paulo Setúbal, de Maurício Loureiro Gama e de outros tantos personagens de destaque, a professora quis fazer e fez a diferença. Também registrou experiências plurais. Na política, lançou-se candidata a vereadora, em 1987. “Não entendia muito, mas tive 200 votos sem fazer campanha”, conta. O comprometimento com o município e o ensino, de modo geral, transformou-se em reconhecimento e, também, em gratidão. Cidinha diz que Tatuí foi decisiva para que pudesse se tornar professora e transformar a vida das pessoas. “Dei aula em tudo quanto foi lugar, mas não saberia viver fora de Tatuí”, encerra.

quadro “eternizado” de praça central de cesário lange e encomendado por professora conta história da infância e da família dela


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Cristiano Mota

Uma vida dedicada às ferrovias De telegrafista, Moacir de Medeiros passou a representante de uma época de prosperidade Da reportagem

Da reportagem

ferroviário cresceu junto aos trilhos, constituiu família e responde, atualmente, pela presidência do sindicato da classe

Quando tinha 16 anos, Moacir de governo. A companhia tinha se tornado Fora isso, os trens que atendiam ao pessoas associadas, entre ferroviários porque é uma mina de ouro”, avalia Medeiros entrou para uma escola de estatal. Anos mais tarde, passou para município possuíam bitola estreita, e pensionistas. Número que foi se Medeiros. A vida dedicada aos trilhos não se telegrafistas. O curso de formação era a Fepasa (Ferrovia Paulista Sociedade de 60 centímetros. Isso permitia às reduzindo com o passar das décadas. necessário para que pudesse exercer um Anônima). Depois, para a ALL (América locomotivas andarem a, no máximo, Em 2016, são 133. A mais velha pen- deu pelo acaso. Antes de se tornar trabalho que crescia tanto quanto con- Latina Logística). 70 quilômetros por hora. Essa caracte- sionista tem 103 anos. São 105 sócios ferroviário, Medeiros teve a chance de tribuía para o desenvolvimento do país. Em Tatuí, o ferroviário ingressou em rística era predominante nas linhas da e 28 não sócios, listados nas anotações cursar a então Escola Industrial (Etec – Escola Técnica) “Salles Gomes”. Ele Medeiros se tornou funcionário da concurso para melhorar de cargo e ter ga- Companhia Sorocabana e Mogiana. A do presidente do sindicato. Estrada de Ferro Sorocabana, no dia nho no vencimento. Uma vez aprovado, Companhia Paulista tinha bitola mais “Os ferroviários estão acabando”, poderia se formar mecânico, profissão 29 de junho de 1957. Naquela época, começou a trabalhar no “movimento” larga. alerta. Em Tatuí, “há poucos na ativa”. que daria emprego garantido na antiga as ferrovias eram as principais ligações (era responsável pela circulação de Os trilhos sofreram modificações – Os que trabalham não são sindicaliza- Cobrasma, em Osasco. “Eu não quis. Preferi ser ferroviário. entre municípios. Por elas, havia passaram a ter bilota normal – dos, mas recorrem à entidade quando escoamento da produção local e a partir da fusão das ferrovias, precisam “dar baixa na carteira” e rea- Tinha um amigo que saía todo dia da estação de terninho amarelo. Perguntei chegada de novidades. com a Fepasa. A companhia lizar o acerto com os patrões. Criado em Tatuí, o ferroviário uniu as cinco ferrovias do EsA prova da afirmação é a quantidade para ele o que estava fazendo, e ele passou a infância na praça Adetado. Posteriormente, com a de trens que cruza o município. No me contou que estava estudando em laide Guedes. Quando pequeno, privatização, as linhas férreas período de maior movimento, Me- Itapetininga, uma escola de telegraviu o cenário do entorno no qual foram “fatiadas”. deiros conta que corriam dez por dia. fista”, relata. Inicialmente, fez o curso de admisresidia mudar. A região central Até então, Medeiros conta “Atualmente, só passa um”, relata. ganhou a UBS (unidade básica que o porto seco de Tatuí era As locomotivas são, exclusivamente, são. Depois, concluiu o de formação de de saúde) “Dr. Aniz Boneder” considerado “o maior da Amé- para mercadorias. Cada uma traciona transporte. Em seguida, o de telegrafia (Postão) e a Escola Estadual “Eurica Latina”. O carregamento cem vagões “numa sentada só” (uma e oficina. Na época, os cursos incluíam aulas de português, matemática e inforgênio Santos”, unidade que veio que chegava ao município era única viagem). a frequentar, posteriormente. redistribuído, em caminhões, Os trilhos que passam por Tatuí liga- mações específicas sobre as estações. Medeiros fez tudo isso sem ao menos Medeiros começou a estudar para São Paulo e “todas as ram muitas regiões do país, incluindo na “João Florêncio” e mudou-se redondezas”. Movimento Mato Grosso. “São 700 quilômetros o pai ter tido conhecimento. Avisou-o para a segunda unidade após a bem diferente do que o fer- que estão abandonados”, declara o depois, quando já dominava a arte da telegrafia. O aparelho era composto por conclusão da construção. Ele roviário aposentado tem visto ferroviário. frequentou o “primeiro grau”. atualmente. Por onde passaram, as ferrovias pro- uma agulha que tinha uma campainha. Depois de formado, passou Os trens davam vida ao moveram desenvolvimento. Foi assim O sino batia “em cima e embaixo”. “E, dali, nós mandávamos mensagem a dedicar a vida aos trilhos. Foi município – com a chegada e com Tatuí, foi assim com Cerquilho e sobre eles que constituiu família, a partida de forasteiros e cida- Boituva. A exemplo daqui, as cidades e telegramas. Quando alguém de família desbravou novos horizontes e dãos locais – e movimentavam vizinhas expandiram-se por conta grande casava por aqui, nós avisávamos cresceu profissionalmente. a economia. Antes da abertura das linhas que dividem seus limites por telegramas”, recorda-se. Na época, Tatuí não era servida pelos Também viu o cenário local de estradas rodoviárias, as territoriais. mudar, testemunhou o auge das ferrovias reinavam absolutas. Muitas famílias também se forma- Correios. Os telégrafos das ferrovias, ferrovias e o declínio. Ainda con“Eram a única condução para ram, como a do próprio ferroviário. então, também atendiam à população. tinua na ativa, mas trabalhando São Paulo, Itapetininga ou Medeiros conheceu a esposa em Santo O serviço parou de ser feito pelos teem uma nova frente e por amor Itararé”, destaca o sindica- Amaro. Ela trabalhava em um labora- légrafos com a expansão dos Correios. em 1957, Moacir de medeiros se formou à profissão. lista. tório e viajava de trem todos os dias. Também porque o aparelho mudou para telegrafista em curso de formação Ele é presidente do Sindicato Muitas mercadorias de TaO sindicalista se casou em 1962, mas um teletipo, uma espécie de máquina que mudou a vida dele dos Trabalhadores de Empresas tuí ganharam o Estado. A fa- em Tatuí, a pedido da mãe. Como era de escrever no qual a mensagem era Ferroviárias da Zona Sorocabana, mília Grandino, por exemplo, o filho mais velho – de dois homens – gravada em fitas. O receptor juntava partes para decodificar a mensagem. cargo que nem sonhava em ocupar trens). O cargo o obrigou a voltar para vendia carnes para estabelecimentos na atendeu ao desejo. Em São Paulo, na Estação “Júlio Presquando ingressou na formação. “O meu São Paulo. De lá, conseguiu transferên- capital. “Eles mandavam os produtos Na cidade, uniu-se no religioso, oficurso era de telegrafista”, conta ele, que cia para Sorocaba, onde aposentou-se. em caixas de metal para São Paulo, com cializando o casamento em São Paulo. tes”, o serviço era feito “por sinais”. De tem 78 anos. Na cidade vizinha, Medeiros tra- gelo”, conta Medeiros. Dessa forma, não desagradou nem a Barueri em diante, a Sorocabana passou Medeiros nasceu em Tatuí, no dia 1º balhou em dois ramais, um que ia de Tanto na vinda como na volta, a pla- mãe nem a sogra – esta que morava a fazer uso da licença por telégrafo. A sinalização era feita com um de fevereiro de 1941. Aqui, começou a Iperó a Amador Bueno e outro, entre taforma de embarque e desembarque na capital. Com a mulher, teve duas carreira, casou-se e fixou residência. Iperó e Itararé. Este último se ligava à ficava sempre lotada. O movimento filhas, uma nascida em 1963 e outra, bastão de ferro, parte de um aparelho chamado “staff ”. Por meio dele, No início, “atendia os trens” operando linha de Apiaí. A linha de Itararé aten- mantinha os trabalhadores ocupados no ano de 1964. os telégrafos. dia a uma fábrica de cimentos descrita e, também, os empregos deles. Enquanto fazia uso da “ponte ferro- os ferroviários davam autorização Antes do surgimento de meios mais como “muito grande” e que fazia uso Medeiros deixou os trilhos em 1982, viária”, Medeiros se acostumou com o para os maquinistas procederem nas modernos de comunicação, a troca de de muitos vagões. O carregamento era para aposentar-se. Na época, era fun- movimento. O número de locomotivas linhas. O método evitava acidentes e informações entre as estações como a de cal, cimento e bauxita. cionário da Fepasa, sendo absorvido por e de passageiros era maior na época de congestionamentos. A responsabilidade também incluía de Tatuí era feita com a ajuda de um O transporte dos produtos era tão conta do tempo de trabalho. O contrato feriados. A “hora do rush” (de pico) profissional. O funcionário era respon- grande que correspondia à maior parte dele datava de 1971, quando ainda registrava 15 carros, puxados por duas vistorias durante as madrugadas. Os ferroviários precisavam percorrer sável não só por controlar velocidade e da demanda da linha. Para ter controle atuava pela Companhia Sorocabana. locomotivas. direção, mas o destino dos trens. mais preciso do fluxo, o trecho ganhou “A única coisa que fiz na minha vida Elas vinham de Itararé e tinham como trechos para ver se não havia trilho Uma das mais importantes funções painéis, com acendimento de luzes, foi ser ferroviário. Aposentei com 41 destino São Paulo. Antes, havia uma quebrado. Também prestavam ajuda era garantir segurança à linha férrea. para que os operadores pudessem saber anos de idade, por tempo de serviço. baldeação em Iperó, que fracionava os na manutenção das locomotivas, que, Para não haver dois trens na mesma quando uma locomotiva se aproximava Minha carteira só tem uma entrada e carros. Uma locomotiva trazia até Tatuí; no início, eram a vapor. Depois, passalinha - um na direção do outro -, as e por qual dos sentidos. uma saída”, conta. O registro feito pela a outra levava para São Paulo. Durante ram para eletricidade e, atualmente, locomotivas só seguiam viagem depois Mesmo com muitos cuidados, Me- Sorocabana teve “baixa” pela Fepasa. as paradas, os passageiros desciam do são a diesel. Dos trabalhos que realizou, Medeiros de obter licença. Essa autorização de deiros testemunhou um acidente em A entrada no sindicato deu-se em trem, iam para bares tomar café, comer gostou de todos. “Não me arrependo viagem era combinada entre uma es- Mairinque. “Um trem bateu em outro. 1998, após ter aceitado convite de um salgados e esperar pela baldeação. tação e outra com a ajuda do telégrafo. Foi feia a coisa. Mas, nós estávamos amigo. Até então, Medeiros não tinha Mesmo com tanto passageiro, o trans- de nada. Na profissão, a pessoa precisa “A vida da gente era essa”, recorda- sujeitos a isso”, recorda-se. O ferroviário tido participação efetiva na entidade. porte de pessoas era menos lucrativo gostar do que faz”, defende. Medeiros ressalta que continua pre-se o ferroviário. Em Tatuí, Medeiros precisou frequentar três anos de um Ele ingressou por causa das filhas, que o de mercadorias. Um vagão de trabalhou, ainda, na venda de passagens. curso para desempenhar o serviço. Ele que gostavam de ir à praia. A entidade cimento, por exemplo, carregava 600 ferindo trem a ônibus. Mas, como não Ele auxiliava a chegada das locomoti- permaneceu nesse trabalho por 27 anos. tinha uma colônia de férias. “Para usu- sacos. “Dava um lucro grande. Além há mais linhas de transporte de pessoas vas realizando manobras de engate e Quando esteve em Tatuí, Medeiros fruir disso, precisava ser sócio”, conta. disso, carregar pessoas é muita respon- para São Paulo partindo daqui, quando desengate de vagões. Uns vinham com trabalhava em sistema de rodízio. Nas Naquele ano, o sindicato possuía 328 sabilidade. Em São Paulo, carregam precisa, vai até a capital de carro. passageiros; outros, traziam mercado- estações menores – caso da que atendia rias que abasteciam Tatuí e o entorno. ao município –, os funcionários se reveDas muitas nas quais trabalhou, zavam em turnos de 12 horas. “A nossa Medeiros estreou na “linha nova”. O vida era bastante sacrificada”, descreve. ferroviário se orgulha de ter sido um Inaugurada em 1889, a estação de dos “fundadores” da ligação entre as Tatuí contava com mais de 50 funcioestações “Domingos de Moraes”, “Pre- nários. “Atualmente, não tem cinco lá”, sidente Altino” e “Santos-Imigrantes”. comenta o ferroviário. “Eu e vários amigos fomos fundadores Além da mão de obra, a estação perdaquela linha”, conta. Na capital, o deu os trens de passageiros. Em 1963, ferroviário também participou de inau- por exemplo, havia quatro horários de gurações de diversas estações (algumas saída para São Paulo diariamente. Os rebatizadas). Entre elas: Universidade, demais horários eram ocupados por Pinheiros, Morumbi, Santo Amaro, Ju- saídas e chegadas de locomotivas com rubatuba, seguindo por Cidade Dutra, carregamentos. “A estação tinha um moBarragem, Mairinque e Santos. vimento que era uma barbaridade”, cita. Naquela época, as ferrovias abarcaCom o início da operação das primeivam os mais variados tipos de transpor- ras linhas de ônibus entre Tatuí e São tes, desde carga a passageiros. Os carre- Paulo, a partir de 1964, o transporte de gamentos abasteciam, principalmente, passageiros começou a ficar “desintereso subúrbio de São Paulo. Já o transporte sante” por dois aspectos: o primeiro, o atendia a todo o Estado. custo; e o segundo, o tempo da viagem. Aos 22 anos, em 1963, Medeiros De Tatuí até a capital, o passageiro retornou a Tatuí. A volta foi possível precisava dispor de cinco horas por treporque ele “trocou de posto” com um cho. O motivo era que os trens paravam colega. O amigo quis se mudar para a em todas as estações. “Demorava para com a chegada de novas tecnologias e aumento do número de cargas e capital. chegar”, relata. O mesmo não ocorria passageiros, autorização para saída de trens passou a ser feita via painéis Na época, Medeiros trabalhava para o com os ônibus.


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Cristiano Mota

Veia artística, política e muita disposição Dono de uma biografia rica, Ivan Gonçalves tem alma de artesão e espírito desbravador fugindo da ditadura, tatuiano ivan gonçalves conheceu a capital, aprimorou o gosto pelas artes e vivenciou experiências

Da reportagem

No dia 26 de janeiro de 1948, o engenheiro militar Cristóvão Dias de Ávila Pires recebeu autorização do então presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, para pesquisar jazidas de petróleo e gases naturais. O consentimento foi dado em decreto e previa explorações em três comarcas do interior. Uma delas, Tatuí. A história que provocou um reboliço entre a população local completa 68 anos em 2016. Por coincidência, tem o “mesmo tempo de existência” de um personagem local reconhecido por iniciativas em diversas áreas de atuação. Trata-se de Ivan Gonçalves. O tatuiano veio ao mundo no mesmo dia que Guareí – pertencente à comarca local –, cidade que se tornou ponto de pesquisa para uma futura exploração de petróleo. Como era de costume – ou muito comum, na época –, Gonçalves nasceu em casa, pelas mãos de uma parteira

risco de perda da memória intelectual balhou em atividades que, de uma forma mim”, diz. ou de outra, sempre estavam ligadas à Quatorze anos depois, Gonçalves produzida por “ilustres tatuianos”. Idealista por natureza e boêmio arte. Aprendeu o ofício da diagramação deixou o comando do jornal, assumido e teve as primeiras noções de produção pelo filho, Ivan Camargo. A gráfica en- por “instinto”, Gonçalves buscou, na arte e na política, o equilíbrio. Mesmo gráfica, aplicadas em negócios próprios cerrou as atividades bem antes. anos depois. Para a época, o ramo de atividade em integrando movimento político, ele Chegou a cursar comunicação, mas Tatuí era bastante concorrido. A título jamais exerceu função pública. A única desistiu. Completou a Escola Paname- de curiosidade, a cidade contava com passagem foi pela Câmara Municipal, ricana de Artes. A instituição era uma quatro empresas voltadas à impressão. como assessor parlamentar. “O idealisdas mais conceituadas da época e da A produtividade girava em torno de mo levou as pessoas a acreditarem em atualidade. impressão de talões de notas. Espora- algo maior do que elas. Foi o que me Trabalhou em agências de propagan- dicamente, havia um ou outro jornal ou atraiu para a política”, conta. Talvez, por esse mesmo motivo, da e deixou São Paulo nove anos depois, material gráfico para impressão. em 1973. A razão foi um emprego no seEm paralelo às atividades que de- tenha se tornado frequentador assíduo tor em comunicação interna na Cybelar. senvolvia, Gonçalves foi afinando um de grupos. Os encontros aconteciam, Na primeira ida à capital – das idas gosto pessoal. Ele é apaixonado por quase sempre, em bares e restaurantes. e vindas –, conta ter contado com a artes plásticas, mas não se considera “Todos os locais que tivessem uma porta aberta e uma luz em cima, eu encostacompreensão da ex-mulher. Em 1964, um artista. já havia se casado com a professora Ana Mesmo tendo estudado sobre o as- va”, recorda-se. O assunto principal das Maria de Camargo (Del Fiol). “Fui sunto, diz que é preciso cautela quando conversas era sempre arte. Exigente consigo mesmo, o tatuiano sozinho. Mais tarde, ela acompanhou”, se fala em conhecimento, produção e, descreve. principalmente, talento. “A arte é meio não se considera satisfeito com a traO casal se conheceu em Tatuí, nos perigosa de ser abordada, porque gostar jetória de vida, mesmo ela incluindo amizades com artistas renomados. encontros que ocorriam na Praça da é uma coisa e ser, é outra”, afirma. Com eles, trocou experiências e viMatriz, chamados “Para ser artista, tem que ser bom, de “footing”. A ex- tem que saber o que está fazendo, não venciou momentos inusitados. “Muitas pressão é originá- é sujar a tela”, diz ele, que cita, como pessoas dizem que não se arrependem ria do inglês “ir a exemplos, Domingos Jacob Filho (Min- do que fizeram. Eu me arrependo, prinpé” e consistia em go Jacob) e Theresinha de Oliveira Pin- cipalmente, porque acho que poderia caminhadas pelo to. “Eles são talentosíssimos”, define. ter gasto mais tempo com a arte”, avalia. Tempo é o que ele dedica como local. O objetivo, Apesar de não se incluir na lista, claro: observarem Gonçalves não deixa de produzir tra- “recuperação” entre um trabalho e e serem obser- balhos próprios. A incursão no mundo outro. O mais recente será um livro de vados. das artes plásticas começou quando ele contos de personagens tatuianos, a ser A ex-mulher é era pequeno. Basicamente, os trabalhos lançado em breve. A obra é de um amigo dele (Zé Bacasada, atualmen- do tatuiano são compostos por quadros. te, com Nelson De uns tempos para cá, a produção tata), que foi reescrita e incluirá uma Luiz Del Fiol. tem sido menor. O motivo é a redução centena de causos. “Não é meu, mas Além de ter do campo de visão. Para pintar telas, eu comprei a ideia do livro”, antecipa. Baseada em personagens reais, a participação po- ele precisa de auxílio de um ajudante. lítica, Gonçalves O apoio é para localizar cores e instru- obra mistura ficção e realidade e deve é protagonista de mentos. “Mesmo assim, eu insisto em ser apresentada antes de um segundo livro. Este, dedicado a Januário Motta, um trabalho que fazer”, revela. ajudou – e conA produção atual concentra-se em de 90 anos. Entre um trabalho e outro, Gonçaltinua auxiliando duas frentes: a primeira, esculturas de – na construção da rostos de personalidades tatuianas (vi- ves faz viagens. Gosta de visitar locais história do muni- vas e mortas); a segunda, mosaicos com que tenham relação com arte. Embu cípio. Ele adqui- figuras do Cordão dos Bichos. Nos dois das Artes, por exemplo, é frequentada riu em sociedade, casos, ele depende de auxílio externo. esporadicamente. Os passeios substiem 1980, o jornal Uma das maiores dificuldades do tuíram os encontros boêmios, após um em 1982, com josué fernandes pires e ivo mendes (ambos falecidos), recebeu O Progresso. Com- artista é com a escolha das cores. As que problema de saúde. luiz inácio lula da silva no evento de fundação do pt no município “Tive um piripaque e um aviso, e prou o periódico têm tonalidade mais escuro, qualquer que, até então, que seja o pigmento, são confundidas fiquei com medo. Morrer é necessáera administrado com o preto. “Mas, eu não parei, estou rio para abrir espaço para quem está de nome Malvina. Ela residia no bairro -, com presenças ilustres. Entre elas, o por Marina da Coll Camargo e José daninhando”, conta. chegando. Esse raciocínio é bom, mas, Quatrocentos. então sindicalista Luiz Inácio Lula da Nascimento. Além dos trabalhos que aumentam o individualmente, é duro de aceitar. Eu Filho único por conta do destino – ele Silva, o professor Josué Fernandes Pires A estreia de Gonçalves como empre- acervo pessoal, Gonçalves ainda engaja- não gostei da ideia. Daí, dei um breque”. teve um irmão que faleceu –, o tatuiano e o advogado Ivo Mendes – esses dois sário, entretanto, é anterior à aquisição -se em movimentos ligados à arte. Em Enquanto planeja as viagens, Gonçalé fruto da união de José Gonçalves e últimos, já falecidos. do jornal. O tatuiano começou a pensar Tatuí, incentivou a criação do Centro ves se mantém ocupado com trabalhos Udile Bassi. Foi criado pelo casal na ciartísticos. Ele os considera mais como “Naquela época, o pessoal não era no assunto quando a família aumentou. Cultural Municipal. dade, tendo passado toda a “meninice” fisiológico, era idealista. As pessoas Ficar em São Paulo, por esse motivo, Também colaborou com a realização passatempos que arte. Além de fontes e se casado no município. acreditavam na possibilidade de que o deixou de ser interessante. do “Tatuí na Visão do Artista”, movi- de água, construídas manualmente Ele é, também, um dos muitos ci- país pudesse ser governado por gente Em Tatuí, ele montou, anteriormen- mento que ajudou a projetar Mingo e com bambus, ele faz molduras de dadãos cujas famílias prosperaram por simples, humilde. Não precisava ser te, uma gráfica. A empresa funcionou Jacob e o trabalho autoral dele. Os quadros e os entrega de presente aos conta do trabalho fabril. Na época, o filho de rico ou coisa desse tipo”, diz. no prédio atual que abriga a redação de quadros do artista tatuiano são premia- mais amigos. Tudo, na oficina de casa. município experimentava a pujança da Alguns dos trabalhos acompanham reNa juventude, Gonçalves largou o O Progresso, na praça Adelaide Guedes. dos e ilustraram, em 2013, especial de produção do algodão. A cultura possibi- emprego na fábrica, onde trabalhava lógio junto às fotografias. Para produziSob a direção dele e da ex-mulher, O Progresso. litou a construção de, pelo menos, três no setor de mecânica, para “se jogar na o jornal funcionou em um imóvel ao Para o presente, tem como meta a -los, ele comprou mais de cem relógios. fábricas de manufatura e processamento capital”, temendo sofrer consequên- lado, também pertencente à família. A possibilidade de juntar acervos de ar- Jogou todos os ponteiros fora para fazer do material transformado em riquezas. cias. “Havia um burburinho. O clima compra foi fechada entre eles e Vicente tistas variados. “A ideia seria unir tudo, uso das engrenagens, incorporadas junto Os pais dele trabalharam na tece- estava difícil, e ficar aqui não ia dar Ortiz de Camargo, Vicentinho, na época porque a tendência é desaparecer”, às imagens. lagem São Martinho, tendo somente certo”, relata. “Não ganho nada para isso”, diz funcionário do Conservatório de Tatuí. comenta. um único registro em carteira durante Em São Paulo, ele se juntou a um “Eu já gostava muito do jornal. Ia lá A preocupação reside, principalmen- ele, que tem prazer no que faz e não toda a vida. “Saíram de lá (da fábrica) grupo de “refugiados”, uns tentando (na antiga redação, situada à praça Ma- te, no fato de as pessoas que detêm os guarda ressentimentos. “Deixo mágoa somente para morrer”, brinca. escapar da repressão; alguns buscando noel Guedes) de vez em quando. Gos- acervos não terem conhecimento sobre para quem tem. Eu só levo a vida”, Gonçalves também trabalhou na trabalho; e outros, a profissionaliza- tava muito de ficar por lá”, recorda-se. técnicas de conservação. Com isso, há conclui. fiação, depois de ter se formado em ção. Na capital, além de Mendes, ele O Progresso se tornou a outra instituição que resiste ao tempo, conviveu com pessoas como o médico segunda experiência de se reinventou e é um dos orgulhos de pediatra Jorge Sidnei Rodrigues da Gonçalves no ramo da Tatuí: a Etec (Escola Técnica) “Sales Costa e o turismólogo Jorge Rizek. comunicação. AnteriorGomes”. Na época, chamada de Escola “Nós morávamos numa mesma repú- mente, ele se juntara a Industrial. blica, mas cada um tinha um motivo para um grupo de pessoas para No ano de 1964, mudou-se para a estar lá. O meu era trabalhar e ficar meio fundar o jornal “Integracapital, São Paulo, de modo a fugir da quieto, esperar a poeira baixar”, conta. ção”. “O Acassil José de ditadura militar (regime instaurado em Mesmo não sofrendo ameaças di- Oliveira Camargo foi quem 1º de abril daquele ano). “Não só em retas, Gonçalves preferiu permanecer criou o jornal, junto com o Tatuí, mas no Brasil, a ditadura não gos- na capital. Ele não considerava, na José Reiner Fernandes”, tava muito de quem pensava”, justifica. ocasião, interessante viver sob amea- explica. Por ser maior, São Paulo permitia algo ça. Uma simples conversa entre duas Esses dois se reuniram que Tatuí não comportava: o anonimato. pessoas, por exemplo, poderia ser mal com amigos para dar corpo A vigilância sobre um grupo muito maior interpretada. à sociedade. Gonçalves de pessoas – como na capital – era bem “A democracia, por mais que não seja deixou o grupo pouco temmenos ferrenha que no interior. “Na muito boa, como agora, que está meio po depois, por ter outros minha época, várias pessoas foram deti- estremecida, é melhor que qualquer interesses profissionais e das. Quem não saiu, acabou morrendo”, ditadura”, relata ele, que, em São Pau- particulares. Um deles, descreve o tatuiano. lo, começou a aprimorar uma veia que assumir O Progresso, mesUm dos conhecidos de Gonçalves, de o motiva a superar a limitação física. mo não se considerando sobrenome Alvarenga, tornou-se vítima Gonçalves tem um problema congênito “capacitado”. “Não tinha quadro produzido pelo artista tatuiano mostra referências da ‘alma da repressão. Ele integrava sindicato dos na visão e que se acentuou com a idade. experiência, formação, mas caipira’ e da técnica aprendida na escola panamericana, em são paulo trabalhadores e, conforme se propagou Na “terra da garoa”, ele estudou e tra- as pessoas acreditaram em à época, acabou preso e morto “porque não era a favor do novo regime”. Nessa mesma década, amigos e professores do tatuiano sofreram perseguições. Temendo pelo pior, ele resolveu sair do município. “Foi um grande favor que a ditadura fez. Do contrário, eu estaria em Tatuí até agora e não teria passado pelas experienciais mais interessantes do mundo”, analisa. Contra a permanência dele em Tatuí, pesava o fato de que Gonçalves era simpatizante de um movimento político. Integrado por intelectuais, pessoas ligadas às artes e de “mente revolucionária” para a época, o grupo foi o responsável pela fundação do PT (Partido dos Trabalhadores) local, quase 20 anos depois, quando Gonçalves já havia retornado ao município. A criação do partido aconteceu em 1982 - um ano depois de Gonçalves assumir a direção do jornal O Progresso


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Expediente

O caderno “Agentes da História” é uma edição especial comemorativa aos 190 anos de Tatuí. Edição: Ivan Camargo Reportagens: Cristiano Mota/Brunno Vogah Projeto gráfico e diagramação: Erivelton de Morais Arte final: Altair Vieira de Camargo (Bisteka)


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Tatuí, 190 anos. Quem viu essa história acontecer estava de olho no futuro. Parabéns, Tatuí!

A Guardian se orgulha de fazer parte da sua história.

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