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Pernambuco no mapa do desenvolvimento

Pernambuco está na rota do desenvolvimento. A instalação de empresas automobolísticas em Suape, a expansão de empregos e do mercado imobiliário, a projeção nacional do turismo, o espaço conquistado pela gastronomia e cultura confirmam a tese de que o Estado, um dos eleitos sede da Copa de 2004, "é o melhor do mundo", como os pernambucanos megalomaníacos afirmam. Mas o progresso não é solitário: o caos no trânsito, problemas ambientais e sociais caminham na contramão desse crescimento.

Foto: Divulgação

Recife | Março de 2011


O BERRO

2 | Recife, abril de 2011

Foto: Igo Bione

O melhor Estado do mundo EXPRESSÕES MEGALOMANÍACAS A Feira de Caruaru é a maior feira ao ar livre do mundo O Shopping Recife é o maior shopping da América Latina O Galo da Madrugada é o maior bloco de rua do mundo (foto) A avenida Caxangá é a maior em linha reta da América Latina Recife é a Veneza Brasileira Olinda tem o maior carnaval do Brasil Caruaru tem o melhor São João do mundo O maior teatro ao ar livre do mundo é o de Nova Jerusalém

SARAH JÉSSICA LIMA

A maior feira, o melhor carnaval, a vila mais antiga, a estrada mais extensa... Essas e outras expressões e histórias “megalomaníacas” fazem parte do dia a dia dos pernambucanos. Conhecidos pelo elevado ego e por sempre adotarem as palavras mais, maior, melhor, primeiro e inesquecível em seu vocabulário, os habitantes da ‘terra dos altos coqueiros” são facilmente reconhecidos em qualquer lugar do mundo por seu orgulho pelo Estado. Brincadeiras à parte, megalomania quer dizer respeito à mania do indivíduo por achar-se o melhor em tudo, mesmo que não seja. Essa associação da palavra com o comportamento dos pernambucanos se deve à peculiar característica de exaltar os feitos e bens do Estado. O assunto tornou-se tema

do longa metragem “O me- finalização, mas começou a bucanos”, afir ma. Ainda segundo ele, este sentimento lhor documentário do mun- ser produzido em 2008. Segundo o sociólogo e não morre tão cedo. “Outras do”, da cineasta Luci Alcântara, que aborda, de forma economista Paulo César Frei- gerações virão, e com elas, os leve e bem humorada a, “ma- tas, esse sentimento de gran- ensinamentos dos pais de que nia de grandeza” dos per- deza surgiu desde o período Pernambuco é o melhor nambucanos. A autora afirma em que Maurício de Nassau Estado do país vai criar uma que a vontade de fazer o governou o Estado. “Per- cultura, uma forma de autodocumentário veio de uma nambuco deu uma guinada afirmação de cada um em estada longe de Pernambuco. nessa época, e isso fez com relação ao seu local de origem”, “Eu morei explica. durante uns Outra anos no SuA mania de grandeza dos forma muideste e sempernambucanos está to utilizada pre que eu enretratada em “O melhor de manifescontrava com documentário do mundo” tar o orgualgum perlho pela terra nambucano é através da conversava sobre como tudo em Pernam- que o ego da população música. Vários cantores e buco era melhor. Achei isso ficasse bastante elevado”, diz. bandas conceituadas dentro e tão interessante, sabe? Todos Fazendo uma relação com os fora do país já fizeram grancompartilhavam do mesmo dias atuais, Freitas aposta na des homenagens ao Estado sentimento. Aí, decidi escrever continuidade do progresso do através de suas canções. o curta. Mas, pernambucano Estado para que esse compor- Algumas delas estão imortalizadas e acabaram transfornão gosta de nada pouco, nem tamento permaneça. “O Porto de Suape é um mando-se em verdadeiros “hipequeno, por isso virou um longa”, brinca a cineasta. O exemplo bem atual de fator nos” para os pernambucanos. Durante toda a história filme já está em fase de de orgulho para os pernam-

política do Estado, houve vários projetos com o objetivo de incentivar o amor por Pernambuco. Entre eles, os mais bem conceituados e com maior repercussão foram dos dois ultimos governos. Enquanto manteve o título de governador, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) lançou uma campanha em todas as tvs e rádios e lançou um CD com várias versões do hino de Pernambuco, cantado em ritmos diferentes por artistas da terra. Já o atual governador Eduardo Campos (PSB-PE) criou o projeto “Pernambuco conhece Pernambuco”. A ideia é que a população conheça mais profudamente as suas origens, seus costumes e a cultura local. Dessa maneira, estabelecem-se uma série de roteiros de viagens para o interior do Estado, com preços abaixo do normal.

EXPEDIENTE Coordenador do Curso de Jornalismo Alexandre Figueirôa O BERRO é uma publicação da Disciplina Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco. Rua do Príncipe, 526 - Boa Vista - Recife-PE CEP 50.050-900 - CNPJ 10.847.721/0001-95 Fone: (81) 2119.4000 - Fax: (81) 2119.4222 www.unicap.br/oberro

Professora Orientadora Fabíola Mendonça Subeditores Aline de Lira Paixão Yuri de Lira Casé

Repórteres Aline de Lira Paixão Beatriz Bandeira Davi Barboza Fábio Vicente Silva Gabriela Melo Iago Freitas Maria Aline Moraes Paula Caal Rafaella Magna Raphaella Lima Rildo Oliveira

Rômulo Alcoforado Sarah Jéssica Lima Yuri de Lira

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Diagramação Flávio Santos Impressão FASA

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Recife, abril de 2011 | 3

O BERRO

RAPHAELLA LIMA

O Brasil vem tendo um grande crescimento econômico nos últimos anos. Depois da crise econômica de 2008, segundo documento publicado pelo Instituto Internacional de Estudos do Trabalho, juntamente com o escritório da OIT em Brasília, o país teve uma das recuperações mais rápidas por ter implementado, desde 1999, políticas sociais, macroeconômicas e focadas na criação de empregos. Pernambuco teve boa participação nisso. O crescimento do Estado tem atingido os setores da indústria, comércio, tecnologia, construção civil, educação, etc. Segundo o IBGE (2008), Pernambuco é a décima maior economia do país com o PIB crescendo mais do que o nacional. Até 2014, o Estado deve receber R$ 46 milhões em investimentos. Iniciativas como o Programa de Aceleração do

Foto: Ricardo Fernandes

Suape alavanca Pernambuco ABREU E LIMA Até 2012, 1,5 mil empregos serão gerados na refinaria

Crescimento (PAC) e Minha Casa, Minha Vida, foram essenciais para o cenário em que Pernamcuco se encontra hoje. De acordo com o relatório, mais de 3 milhões de empregos for mais foram criados nos dois últimos anos. O cresci-mento econômico, em 2010, foi de 7%. Para 2011, a expectativa do PAC 2 é de 5,5%. O avanço a passos largos do Porto de Suape é um bom exemplo dessa “revolução” pernambucana. Nos últimos anos, foi feito um forte trabalho para atrair novos inves-

timentos para o complexo, como a fábrica da Fiat, por exemplo. A agenda do Porto para este ano inclui discussão sobre esses investimentos, além da conclusão do plano diretor e a inclusão de temas polêmicos, como a questão ambiental. Nos últimos dez anos, foram investidos mais de 3 bilhões de dólares em Suape, que se tornou o principal pólo de atração de negócios do Nordeste brasileiro. Segundo o vice-presidente do complexo, Frederico Amâncio, por volta de 120 empresas estão instaladas, há outras 30 em

construção e mais 20 vão surgir até 2014. O PIB estadual (R$ 87 bilhões em 2010), hoje, cresce mais do que as médias nacional e regional. Além disso, o boom econômico elevou o PIB per capita de Pernambuco a R$ 8.065 mil em 2008. Considerando o PIB e a população do Estado em 2010, o PIB per capita no ano passado deve terse aproximado dos R$ 10 mil. Outros aspectos mostram o grande crescimento de Pernambuco, que parece estar só no começo. Só no interior, a transposição do rio São Francisco e a construção da ferrovia Transnordestina já ajudam a mudar a vida dos moradores do Sertão. O que também ajuda a explicar o crescimento do Estado é o aumento de gastos públicos, com forte apoio do governo federal. O governo conseguiu aumentar o investimento de, em média, R$ 680 mil (entre 2003 e 2006) para R$ 1,7 bilhão (entre 2007 a 2010).

GERAÇÃO DE EMPREGOS O avanço na economia pernambucana diminuiu a taxa de desemprego do Estado. Apesar da falta de mão de obra, tornando difícil a admissão de pessoas, a taxa de desemprego despencou. Segundo o IBGE, em 2006, a taxa era de 14,3%. No ano passado, caiu para 8,1%. Segundo o estudante de Engenharia Elétrica da UFPE, Rodolpho Lima, a expectativa para os que concluem o curso nos próximos anos é muito boa. A mão de obra qualificada para trabalhar em Suape hoje é escassa, por isso, os próximos formados não vão ficar desempregados. “O engenheiro eletricista é muito requisitado e falta qualificação”, conclui. A geração de vagas é grande. Só a Refinaria de Abreu e Lima promete 1,5 mil empregos até 2012. Se todas as obras prometidas se confir marem, 100 mil vagas novas vão ser geradas dentro de dois anos.

A evolução medida por gigabytes RÔMULO ALCOFORADO

Esqueça, por ora, os números. Deixe de lado os indicadores de crescimento. Para aferir com precisão o desenvolvimento do setor de tecnologia em Pernambuco, não há nada mais eficaz do que um teste simples e que não exige sequer o conhecimento mais elementar da tabuada. Basta reunir um grupo de amigos e perguntar quantos deles conhecem expressões como wireless, tablet e Ipad. O nível de acerto varia conforme a idade e a classe social dos entrevistados. Mas uma comparação entre este resultado e uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto Br (NIC.Br), em 2006, segundo a qual apenas 20% da população brasileira tinham computador em casa, mostra que algo tem mudado

– e a uma velocidade im- produção maior em Vitória de e a maturidade das companhias nacionais também Santo Antão”. pressionante. trazem lucros aos funcioPernambuco é um dos nários da área. A opinião é principais polos de um setor BENEFÍCIO GERAL Os benefícios são amplos, unânime: ficar desempregado que vem crescendo ano a ano no Brasil. O ponto central totais e quase irrestritos. O é muito difícil. “A facilidade deste boom da informática é o governo, por exemplo, leva em conseguir emprego é Porto Digital, localizado no grande vantagem. Com o grande. Da minha rede de Bairro do Recife. O lugar, aporte de milhões de dólares relacionamentos no ramo, não conheço ninonde se reúguém, de Pernem as principais “A facilidade em conseguir emprego n a m b u c o , desempregado. empresas de é grande. Só fica fora do mercado Só fica fora tecnologia quem quer” - Cláusio Barbosa, do mercado do Estado, desenvolvedor de software quem quer”, responde revela o desozinho por senvolvedor 3,5% do PIB local. O diretor comercial em investimento, Estado e de software Cláusio Barbosa. Não há dúvidas de que o da Elcoma, primeira fábrica prefeitura do Recife abode computadores de Pernam- canham boa parte dos lucros crescimento do mercado buco, Samuel Prado, come- das empresas através dos passa pelo consumidor. Quanmora o crescimento:“Em impostos. Para atrair mais to mais gente compra, mais 2010, tivemos um aumento de cifras, prefeito e governador investimentos são feitos. Ou faturamento de 250%. A oferecem isenção de impostos o contrário: quanto maior a concorrência, menores os perspectiva é de continuar e subsídio de terrenos. A chegada de empresas preços, e mais pessoas nas crescendo e partir para a construção de uma linha de estrangeiras de grande porte lojas. O estudante Renato

Valença tem vários aparelhos eletrônicos e não pode ver uma novidade. “Eu fico ligado nas notícias. Quando sai algum produto novo, corro para comprar”, conta. ENTRAVE Mas se o leitor já está se imaginando em uma espécie de Tóquio brasileira, é bom arrefecer um pouco os ânimos. Embora o crescimento seja rápido, as dificuldades existem aos montes e podem comprometer boa parte da evolução. A principal delas diz respeito à qualificação da mão de obra. O diretor da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação, Software e Internet de Pernambuco, Gerino Xavier, critica os estudantes: “O jovem que vem da faculdade não é bem preparado. Há exceções, claro. Mas, no geral, a qualificação é fraca”.


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RAFAELLA MAGNA

A chegada da fábrica da Fiat e de seus fornecedores no Complexo Industrial Portuário de Suape, na Região Metropolitana do Recife, em Pernambuco, vai demandar uma preocupação imediata: a qualificação profissional dos pernambucanos. E é claro, essa será uma questão primordial. Serão tantas oportunidades que a parceria, já existente entre a montadora e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), será ampliada. Com isso, as áreas que vão demandar poderão ser preenchidas por pernambucanos que devem ter ainda mais acesso a cursos de capacitação profissional. Para a fábrica de 4,4 milhões de metros quadrados aportar no Estado, deverão ser investidos um valor de R$ 3 bilhões, em um montante de R$ 10 bilhões que fazem parte

do plano de investimento da montadora no Brasil. Serão 3,5 mil empregos gerados apenas na fábrica da Fiat. Além dessa unidade fabril, outras 50 unidades de indústrias sistemistas e, com elas, bem mais oportunidades de emprego. De acordo com o gerente regional Nordeste da Fiat, César Mafra, já existe um estudo que está sendo feito com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade de Pernambuco (UPE) e o Senai para fazer um levantamento da necessidade. “Tendo em vista isso, vamos formar parcerias com o intuito de qualificar mão de obra”, afirma Mafra. O maior problema que Pernambuco deve enfrentar será em relação aos engenheiros. “Mas vamos fazer de tudo para que esses profissionais sejam do Estado. Para isso, vamos investir pesado na educação e, pro-

Foto: Rafaella Magna

Um novo leque de empregos

QUALIFICAÇÃO Oficina do SENAI no bairro de Santo Amaro

vavelmente, estaremos com uma estrutura já esquematizada no próximo ano”, revela. Atualmente, a procura pelos cursos do Senai voltados para o setor automotivo é grande, e os motivos são aparentes. “Com o aquecimento do mercado nos últimos dois anos, as concessionárias estão vendendo bem e precisam de serviço qualificado para atender aos clientes de pós-vendas”, afirma a diretora da escola técnica do

Senai, Ana Dias. A grande mudança no foco da Fiat para o Senai está mesmo voltado para a produção automotiva. “Uma parte dos cursos será técnico e a outra, de aperfeiçoamento. Assim, pessoas que já têm um curso superior relacionado à automoção poderão especializar-se em uma determinada área”, explica Ana. ENTUSIASMO Para o instrutor do Senai, Antônio Junior, de 26 anos, a

expectativa é muito grande com a chegada da unidade de uma fábrica automotiva em Pernambuco. “É muito bom perceber que as pessoas estão procurando os cursos visando à implantação dela”, afirma. “Hoje nós trabalhamos com o setor de pós-vendas, que é uma área de pós-montagem e se relaciona com a manutenção automotiva. Porém o próximo passo será a produção, a que ainda não não atendemos”, explica. O estudante do curso de eletromecânica, George Pereira, 18, a princípio, resolveu escolher a capacitação devido à oportunidade de sair empregado. “Com a Fiat abrindo as portas, aumenta a esperança de me firmar na empresa”, diz George, que atualmente faz capacitação técnica. “Assim que eu terminar meu curso, vou partir para um superior de engenharia”, assegura o rapaz.

Mercado imobiliário movimenta o Estado RAFAELLA COELHO

Nas próximas duas décadas, o Produto Interno Bruto (PIB) do Estado vai ter um crescimento que se aproxima das taxas chinesas. A chegada de investimentos em diversos setores (da indústria à cultura), além do ciclo de crescimento da economia nacional, tem proporcionado um período de otimismo e de novas oportunidades para Pernambuco. A oferta de emprego cresce em grande escala na construção civil. Segundo o presidente do Sinduscon-PE, Gustavo Miranda, o grande mérito do momento que Pernambuco vive é a descentralização das vagas de emprego. Ele acrescenta que as obras públicas incrementam a economia e são responsáveis pela vinda de uma série de outras atividades econômicas ligadas à construção civil e ao mercado imobiliário. “O aquecimento do mercado imobiliário,

hoje, nos deixa tranquilos e ainda nos permite qualificar profissionais, ministrando curso nos canteiros de obras, pois dificilmente esses trabalhadores retornarão às suas casas sem emprego”, ressalta Miranda. Mas o desenvolvimento também traz com ele algumas dificuldades. O aumento da oferta de emprego vem esbarrando na falta de mão de obra qualificada. Segundo a engenheira e auditora fiscal da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Pernambuco (SRTE-PE), Joseline Carneiro Leão, há muito tempo que se ouve falar dos programas sociais do governo, mas ninguém dispõe de um dado real. “Acho que a gente precisa unir todas as forças do Estado: os ministérios, as secretarias estaduais, para construir um verdadeiro ‘centro de pensar’, para poder executar. Porque me parece que a velocidade é tão grande que está se execu-

tando antes de pensar no depois”, diz Joseline Carneiro Leão.

Foto: Rildo Oliveira

RILDO OLIVEIRA E

“Acho que a gente precisa unir todas as forças de Estado” Joseline Carneiro Leão engenheira e auditora da SRT-PE

SATURAÇÃO DO SETOR Espera-se a continuidade da crescente demanda pela capacitação profissional no Estado, pois é previsto para este ano que o setor imobiliário permaneça aquecido. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau, estima-se que um terço dos recifenses pretende adquirir um imóvel novo já nos próximos anos. O administrador de empresas Eduardo Felipe Guilherme Santos faz parte dessa estatística. “Já venho planejando há algum tempo a compra de um apartamento. Foram vários meses de uma busca incessante”, destaca. Entretanto, essa ocupação acelerada por novas construções está provocando a saturação do setor. As áreas estão cada vez mais escassas, sobretudo os terrenos com condições essenciais para a construção de empreendimentos, como saneamento, redes de água e iluminação,

calçamento e linhas de transporte nas proximidades. O que afeta diretamente os preços dos terrenos. Sendo assim, a consequência é inevitável e não muito otimista para quem pretende comprar um apartamento, ou seja, os imóveis ficarão mais caros para os consumidores. Neste ano, a previsão é de um aumento de 20% em relação a 2010. “Com esses preços altos, as construtoras têm dificuldades de construir imóveis menores e mais simples, visando a atingir a população de classe média baixa”, fala o presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco (Ademi-PE), Alexandre Mirinda. A solução encontrada nesses casos é a parceria com o governo do Estado e prefeituras, a fim de desapropriar áreas públicas ou que não tenham os proprietários reconhecidos em cartório para obter esses terrenos.


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O BERRO

IAGO FREITAS

Paisagens paradisíacas, excelentes vinhos e uma hospitalidade sertaneja. É com essa promessa que o Vale do São Francisco tem atraído milhares de turistas para as suas vinícolas, tornando-se a região que mais cresce no enoturismo brasileiro. A combinação entre o rio, o solo e o clima do local tem um papel fundamental na formação do eldorado das vinícolas que se estabeleceram em Petrolina e nas cidades vizinhas como Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, a quase 800 km do Recife. Segundo o enólogo Renato Vasconcelos, fatores climáticos como o sol forte o ano inteiro e a baixa umidade relativa do ar, facilitam o sucesso dos produtores da região. “Além da qualidade altíssima da uva, o Vale do São Francisco é o único local no mundo onde há duas, e às vezes até três, vindimas (o período entre a colheita das

uvas e o início da produção do vinho) por ano", afirma o enólogo. Fato impressionante, já que a vindima, geralmente, só acontece uma vez no ano. Isso torna o negócio muito mais lucrativo para o produtor e também possibilita que o turista possa visitar a vinícola em qualquer período. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, o polo vinicultor é responsável por 99% das uvas de mesa exportadas pelo Brasil e mais de 5 milhões de litros de vinho por ano, ou seja, 15% do mercado nacional. Como consequência, em 2004, o vinho Paralelo 8 foi o primeiro representante brasileiro a aparecer na revista Wine Spectator, uma referência especializada no assunto. Já em 2008, esse mesmo vinho ficou entre os dez melhores na degustação às cegas realizada na Expovinis, a maior feira de vinhos da América Latina. Despertando interesse de apreciadores de vinho do

Foto: Divulgação Embrapa

Vinho do Velho Chico só na degustação, ele conhece todas as outras coisas que temos a oferecer", explica Fernandes, acrescentando que "normalmente, o enoturismo tem seu público nas classes A e B. Nós apresentamos uma alternativa para os amantes do vinho, que já não precisam mais ir à Europa para ter acesso a uma vinícola e a um vinho de qualidade".

VINHOS Pernambuco na rota da degustação

mundo todo, o Sertão de Pernambuco é o segundo polo de enoturismo no Brasil com um fluxo médio de 2,5 mil visitantes por mês. Essa visitação às vinículas, conhecida como A Rota da Uva e do Vinho, leva os turistas a saciarem a curiosidade sobre o processo de colheita das uvas e o passo a passo da fabricação da bebida. Nas vinícolas, o viajante pode degustar os diferentes produtos, que já são exportados

para o Japão e a Europa, tendo como cenário as belas plantações e o Rio São Francisco ao fundo. "Foi a coisa mais bonita que nós já vimos," disse a estudante Carolina Botelho, que visitou a vinícola Rio Sol, localizada na cidade de Lagoa Grande. O turismólogo e guia turístico Marcos Fernandes é responsável por planejar e levar turistas até o Sertão pernambucano. "O próprio turista que vem aqui não fica

DELÍCIAS DA TERRA Além dos vinhedos, o Vale do São Francisco possui um vasto número de atrativos gastronômicos explorados pelos turistas que frequentam a região. Na culinária local, Renato Vasconcelos explica que as opções também são muitas e casam-se perfeitamente com os itens produzidos nas vinícolas. A carne de bode, por exemplo, assada ou guizada, é bem adequada ao vinho tinto. O surubim, peixe típico das águas locais, combina muito bem com o vinho branco. Já o beiju, iguaria feita à base de tapioca, é perfeito com os espumantes.

PE na rota da culinária e dos shows Pernambuco alcançou o patamar de importante centro da gastronomia do País. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) já o aponta como o primeiro polo gastronômico do Norte/ Nordeste e terceiro do Brasil. Com aproximadamente 10 mil estabelecimentos espalhados do litoral ao Sertão, só perde para São Paulo e Rio de Janeiro – primeiro e segundo lugares, respectivamente. Hoje, existe uma enorme variedade de lugares para se desfrutarem os mais variados sabores, principalmente no Recife, que abrange quase 3,2 mil lugares para se comer e beber. Todo esse desenvolvimento se dá pela expansão da economia do Estado. Segundo um estudo divulgado em março deste ano pela Agência Estadual de Planeja-

mento e Pesquisas de Pernambuco (Condepe Fidem), o crescimento do PIB local foi

Foto: Yuri de Lira

DAVI BARBOZA E YURI DE LIRA

“Há 20 anos a tradição da cozinha do Estado era essencialmente caseira” Nuncio Natrielli - presidente da Abrasel

maior que o do Brasil no ano passado em relação a 2009. No período, o PIB pernambucano cresceu 9,3% , enquanto o nacional ficou na casa dos 7,5% - o terceiro maior do mundo, atrás apenas de China e Índia. A mesma pesquisa mostrou ainda que um dos segmentos que mais se desenvolveu no Estado foi o de alimentação, com uma taxa de 12,9%. De acordo com o presidente da Abrasel em Pernambuco, Nuncio Natrielli, o setor acabou sendo alavancado por uma série de fatores. “Há 20 anos, a tradição da cozinha do Estado era essencialmente caseira. Por conta de investimentos no turismo e, consequentemente, com o surgimento das várias faculdades de gastronomia, posso dizer que houve uma verdadeira profissionalização nesta área”, afirma. O mandatário ainda

diz que a expectativa é de que haja um crescimento de cerca de 25% por ano no setor até o final de 2020. SHOWS Não é só no quesito gastronomia que Pernambuco está sendo visto como uma referência nacional. No âmbito cultural, o Estado também dá mostras claras de crescimento. Recife virou rota de célebres bandas internacionais. Nomes prestigiados como Black Eyed Peas, Amy Winehouse e Iron Maiden estiveram na Veneza Brasileira recentemente. O Estado passava longe dos planos dessas atrações. A vocação vem sendo gradualmente rebatida. Quem ratifica a tendência é Manolo Cardoso, gerente de marketing do Chevrolet Hall, espaço que recebe boa parte desse tipo de show. “O crescimento de

Pernambuco e o aumento do poder aquisitivo das pessoas acarreta uma demanda muito boa de mão de obra qualificada, além de uma estrutura hoteleira de primeira linha para receber esse pessoal que vem de fora”, destaca. “Para recebê-los, é necessária uma precisão quase cirúrgica. Mas, sem medo, podemos negociar com qualquer artista estrangeiro, sabendo que teremos todo o aporte necessário para tê-los aqui. No final das contas, o retorno financeiro é certo para a gente”, conclui. No caso específico do Chevrolet Hall, segundo Cardoso, 30% dos shows realizados na casa estão sendo de atrações internacionais. Números que chamam a atenção se comparados aos de cinco anos atrás, quando essa porcentagem não chegava sequer aos 5%.


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PAULA CAAL

Pernambuco é a mistura espontânea de gêneros e ritmos. O Estado passa por um boom de transições. A inovação que mantém vivo o diálogo entre artista e público, interage com as tradições de um lugar que transborda cultura. E como uma radiografia desta riqueza auditiva, após sete anos de “férias” e com novos projetos, está de volta a Orchestra Santa Massa. “O nome é uma brincadeira. ‘Orchestra’ não tem um motivo específico e ’Santa Massa’ vem de uma hipotética torcida do Santa Cruz”, comenta Dj Dolores, que dirige a banda. A Santa Massa retrata o momento do Estado, dialogando diferentes linguagens em um coletivo. “Vejo a música pernambucana numa crescente incrível, cada dia maior e melhor”, diz Yuri Queiroga. Há novos estilos,

Foto: Maria Chaves

Miscigenação também na musicalidade

PRIMEIRA FORMAÇÃO Orchestra Santa Massa chegou

percepções, conceitos e agregação de valores. A banda é um híbrido de origens e experiências que, desmistificando rótulos de velho e novo, bom e ruim, mantém uma comunicação consistente com o público. E esse entendimento através da arte é um diferencial em meio às mudanças pelas quais a música passa. Para Dolores, “tem que ir além, entender o próximo. Esse é o papel do artista, tocar as pessoas de alguma forma, mexer com as sensações”.

EVOLUÇÃO A primeira formação da banda, que permaneceu de 2001 a 2003, era composta por Dolores, Isaar (voz e percussão), Maciel Salú (voz e rabeca), Fábio Trummer (voz e guitarra) e Jam da Silva (percussão). Hoje, a mesma equipe é enriquecida com Yuri Queiroga (baixo), Deco (trombone) e Parrot (sax). O momento de mudanças identifica-se em detalhes que transformam conceitos. Dolores acredita que “fazer

música é se despreocupar com ritmo, é fazer o que estiver passando pela cabeça”. Ele afirma também que “a ideia é desmistificar o processo da criação, que é muito racional, pensado o tempo todo”. A construção sonora está mais experimental do que objetiva, com mais liberdade de expressão. O mercado está-se transformando, da criação ao consumidor, com o surgimento de novas mídias e estilos musicais. Com os downloads, CDs

foram substituídos por I-Pods e as lojas são menos procuradas. Esse ciclo de inovações ocasiona modificações significativas. “Não há mais tanta dependência de grandes gravadoras, o termo ‘produção independente’ não deveria mais ser usado neste sentido”, diz Dolores, que se refere ainda ao mercado especificamente em Pernambuco. “Os artistas daqui fazem mais shows lá fora, porque falta mercado e valorização local”.

“A Orquestra é, uma síntese da cultura contemporânea. Não é de laboratório, é tudo muito espontâneo” Dj Dolores

HISTÓRIA Dolores iniciou a Orchestra sem pretensões. Em 1999, por timidez, não quis fazer um show sozinho e chamou uma equipe para acompanhá-lo. E, após experiências, firmou-se a Santa Massa. “Para fazer música não basta juntar músicos bons, tem que unir músicos que dialoguem entre si - não há explicação para tal afinidade”, diz.

MARIA ALINE MORAES

Já não é novidade que o cenário cinematográfico de Pernambuco é destaque nacional e internacional. Seja por sua sempre imprevisível abordagem, seja por sua qualidade artística. Mostra-se autêntico a ponto de crescer e consolidar-se autônomo, mesmo com produções de baixo custo. Fora do circuito comercial e dos moldes da cadeia produtiva industrial, os cineastas pernambucanos se tornaram “críticos” de arte, somando ao Estado mais louvor e repercussão. Esses novos cineastas trouxeram outras perspectivas ao Estado, com o recebimento de várias premiações pelos seus respectivoss trabalhos. O exemplo vem do integrante da Símio Filmes, Gabriel Mascaro, que lançou em 2008 e 2009, respectivamente, os documentários KFZ-1348 e Um Lugar ao Sol. Em 2010,

Foto: Divulgação

Cinema pernambucano pede passagem MAKING-OF Mascaro na gravação do filme Um Lugar ao Sol

apresentou no Festival Internacional de Cinema de Roterdã, Avenida Brasília Formosa. Neste ano, concorre no Festival de Cinema de Pernambuco com As Aventuras de Paulo Bruscky. Além disso, já estão agendadas para setembro as filmagens do novo longa-metragem Valeu Boi!, apoiado pela Bals Fund (Holanda), Iber media e Funcultura. Nesse ritmo, o cinema

pernambucano passeia imponentemente pelos festivais mundo afora e, indiferente ao circuito comercial das salas de exibição, aposta na revolução digital para a consolidação de suas produções. “Achamos importante a distribuição em escolas e os debates gerados dentro dessas instituições. Desenvolvemos um projeto bem sucedido nos colégios públicos e privados, assim como na Oi Kabum. Além

disso, entendemos o valor da distribuição via internet”, explica Mascaro, posionandose em favor de um modo de distribuição não convencional. O ponto de vista de Mascaro é compartilhado com o doutor em Comunicação e Cinema, Cezar Migliorin, que, em seu artigo “Por um cinema pós-industrial”, analisa a força da distribuição digital, mas obser va que o apoio do governo é imprescindível. “Essa proposta não retira a necessidade dos agentes públicos e privados estarem na briga pelos espaços institucionais e pelo mercado formal, certamente fundamentais”. E completa: “a produção cinematográfica continuará a existir independente das ações estatais. A preocupação central com esses processos é como potencializar uma produção que soube se inventar em meio a condições novas, longe da lógica industrial”. Atentando para a impor-

tância de investir no audiovisual, o governo do Estado desenvolveu o Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura – Funcultura. O aumento da verba, destinada ao fomento cultural, e do número de produtores inscritos impressiona: se em 2006 o volume de recursos foi de R$ 4 milhões, e 540 profissionais cadastrados, neste ano, foi de R$ 22 milhões, sendo R$ 8 milhões só para o audiovisual, e mais de dois mil profissionais inscritos. A efervescência da produção audiovisual levou a jornalista Nathália Gomes, intermediada pela fotografia, ao seu primeiro contrato profissional, assinado pela Ateliê Produções. “Comecei desprendida de qualquer expectativa de emprego. Como já fotografava e tinha feito um curso de direção de fotografia, fiz um trabalho na brodagem e fiquei”, conta a jornalista, hoje, produtora.


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O BERRO

FÁBIO VICENTE SILVA

Que o Cabo de Santo Agostinho é um dos maiores polos industriais do Brasil, todo mundo sabe. O município conta com o Complexo Industrial Portuário de Suape e a Petroquímica Suape, além de diversas fábricas que aumentam a economia do Estado. Porém, o que muita gente desconhece é que, por trás de todas essas indústrias, existe um verdadeiro cenário de beleza natural, que faz de Pernambuco um lugar para ninguém colocar defeito. Quando se fala de bonitas praias em Pernambuco, logo se remete à de Porto de Galinhas em Ipojuca, ou até mesmo ao arquipélago de Fernando de Noronha. Contudo, basta dar um giro pelo Cabo de Santo Agostinho para se encantar e apaixonar-se pelo lugar. São praias, rios, cachoeiras, manguezais e algumas

igrejas históricas que fazem do Cabo um lugar completo de beleza e história. Dentre as belíssimas praias que o Cabo possui, destacamse as de Gaibu, Paraiso e Calhetas. Entretanto, não são apenas as praias que enriquecem a beleza da cidade. Usinas, cachoeiras, sítios históricos, reservas biológicas e ecológicas, engenhos, igrejas e manguezais aumentam a importância turística do local. Uma das mais badaladas praias do litoral pernambucano é a de Gaibu. Lá é possível encontrar uma excelente estrutura de pousadas, hotéis e restaurantes, o mar tem água cristalina e convida ao mergulho e ao surfe. Uma das atrações principais de Gaibu é a escalada no morro das pedras para apreciar um belo visual do mar e conhecer mais um cenário privilegiado, que é a praia de Calhetas. Calhetas fica cercada por

Foto: João Barbosa

Pernambuco de praias e belezas PRAIA DE CALHETAS Um paraíso que sobrevive em meio ao avanço industrial

rochas e coqueirais e o turista pode desfrutar do banho de mar que se torna muito mais delicioso nas águas mornas e transparentes. Já a praia de Paraíso faz valer o nome que tem. Esta é a menor da região e possui diversos fragmentos de rocha na areia e no mar, que tornam a paisagem única. É possível realizar um passeio de barco pela Ilha do Cocaia, Ilha de Tatuoca, rios Massangana,

Ipojuca e outras diversas ilhas e rios que cercam a praia. HISTÓRIA Alguns historiadores dizem que o Brasil pode ter sido descoberto no Cabo de Santo Agostinho, pelo espanhol Vicente Pinzón, e não na Bahia, por Pedro Álvares Cabral - como contam as historias na maioria dos livros lidos nas escolas. “Esse lugar tem muita história para contar,

são diversos atrativos que fazem do Cabo um dos lugares mais importantes e belos do mundo”, diz o historiador do Engenho Massangana, Carlos Laurindo. O turismo no Cabo de Santo Agostinho a cada ano aumenta de uma maneira acelerada, obrigando os donos de pousadas e hoteis a aperfeiçoarem os ser viços, aumentando o número de funcionários e espaço para melhor atender aos seus clientes. Um desses casos é o da engenheira Edite Minervina, 50 anos. Ela é natural de Minas Gerais e, todos os anos, passa as férias na praia de Gaibu. “É maravilhoso contemplar toda essa beleza. Fico ansiosa durante o ano inteiro, esperando entrar de férias, arrumar as malas e vir desfrutar de todo esse encanto que esse lugar possui”, diz Edite Minervina.

Na contramão do desenvolvimento GABRIELA MELO

É público e notório que o desenvolvimento do Estado proporciona aos pernambucanos uma melhora: nas questões econômica e social, mas traz com eles alguns prejuízos. O complexo de Suape é um bom exemplo e tudo indica que vai seguir crescendo nos próximos anos. Essa boa fase econômica fez com que a taxa de desemprego caísse no Estado, além de aumentar a renda per capita e o PIB de Pernambuco. Apesar disso, esse excelente cenário também está causando algumas discussões sobre os problemas que podem vir a afetar a qualidade de vida dos moradores. O aumento significativo na quantidade de carros, que vem tornando o trânsito caótico, é uma das questões a serem solucionadas. Além, é claro, de ações prejudiciais ao meio ambiente, trabalho excessivo

e falta de mão de obra qualificada. Só na cidade do Recife, a frota de veículos aumentou 48% e já conta com quase 500 mil veículos. A expectativa é que esse número

Só na cidade do Recife, a frota aumentou 48% e conta com quase 500 mil carros. A expectativa é que esse número dobre nos próximos 10 anos.

dobre nos próximos dez anos. Segundo a consultora Dilma Barbosa Lima, para resolver esse problema devese identificar onde residem e trabalham os empregados, o

público consumidor e a oferta de matérias-primas. “Se todo mundo ficar atravessando a cidade vai ser um caos, e se todo mundo morar longe também vai ser complicado”, afir ma a especialista no assunto. É necessário que se pense de onde tantas pessoas vão para Suape, por exemplo, para que se possa fazer o planejamento de rodovias que facilitem o acesso ao complexo, e desafoguem o trânsito na Região Metropolitana do Recife. EDUCAÇÃO E TRABALHO O problema da falta de educação de qualidade é outra questão que está afetando Pernambuco. Sobram empregos no Recife, faltam pessoas qualificadas. Com o desenvolvimento de Suape, as empresas começaram a ter dificuldades para encontrar profissionais na região e passaram a procurar pessoas em outros

estados. A grande oferta de empregos, se não for aliada a uma escola técnica ou superior de qualidade, não ajuda a diminuir o desemprego local. Outro percalço, já recorrente no Brasil, é o excesso da carga horária de trabalho. Com o aumento da economia e das possibilidades trabalhistas, é notória a quantidade de pessoas que faz em hora extra para atender às demandas impostas pelas grandes empresas. Assim, a falta de tempo para descanso e lazer, aliado aos afazeres domésticos, acaba diminuindo a qualidade de vida da população. “O corre-corre diário causa um ambiente hostil, o que acarreta em estresse e perda de qualidade de vida por parte do trabalhador”, diz a psicóloga trabalhista, Ivana Tavares. MEIO AMBIENTE No próprio site oficial do Complexo Industrial de Suape, é dito que há uma

preocupação com o meio ambiente. Mesmo assim, ainda há uma grande polêmica nesse aspecto na região. Um problema recente, que ainda está em discussão, é o deslocamento dos moradores da Ilha de Tatuoca para a construção de um novo estaleiro no local. De acordo com Robson Fernando de Souza, estudante de Ciências Sociais, há que se pensar em meio ambiente incluindo as pessoas que nele vivem. “A destruição causada pelo complexo industrial portuário não é só ambiental, restrita a matar um ecossistema de flora e fauna não humana”, afirma em recente Artigo publicado no blog Acerto de Contas. E ainda complementa: “é uma devastação socioambiental.”. A importância do avanço econômico para Pernambuco e sua população é indiscutível, mas a forma com que isso é feito ainda recebe muitas críticas.


O BERRO

8 | Recife, abril de 2011

BBEATRIZ BANDEIRA

Sair de casa para ir ao trabalho, à escola, ou à qualquer outro destino desejado já se tornou, a cada dia, na Região Metropolitana do Recife, um verdadeiro desafio. Da Zona Norte à Zona Sul, não há como escapar, principalmente no horário de pico. Diversos fatores são responsáveis por essa falta de mobilidade e a síntese da nova dinâmica , em Pernambuco, explica boa parte desse problema. Para quem mora perto ou tem como única opção usar a avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, sabe a verdadeira situação do trânsito caótico. Apesar de morar a menos de cinco quilômetros de distância da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a economista Deborah Seabra, 21, relata que a mudança no horário foi a única solução. "Para chegar a tempo nas aulas do mestrado, tenho que acordar mais cedo e sair de casa com pelo menos uma hora de antecedência”, diz Seabra. Enfrentar as ruas

Foto: Beatriz Bandeira

Bom dia, engarrafamento

TRÁFEGO Veículos disputam, cada vez mais, espaço nas avenidas

atualmente trata-se de adquirir um novo padrão de vida. Criar métodos paliativos é a única solução. Na Zona Sul, a situação não é diferente, e quem trafega pela avenida Bernardo Vieira de Melo, em Jaboatão dos Guararapes, também sofre com o sério problema do fluxo de veículos. “Para ir ao trabalho eu poderia ir pela Bernardo Vieira, onde o percurso é mais perto, entretanto, fico impaciente com a lentidão e vou por um caminho mais longo”, diz o estudante de comuni-

cação Artur Dias. O empilhamento de automóveis nas vias de grande fluxo em Pernambuco já faz parte de estatísticas. Pesquisas feitas por especialistas em trânsito confirmam que o aumento do congestionamento não se limita apenas às grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, mas sim em todo o país e o recorde na venda de automóveis e a falta de infraestrutura são fatores cruciais. O grande desenvolvimento nos últimos anos e a

melhoria dos índices sociais dos pernambucanos estão cada vez maior. A economia está crescendo e repercutindo mudanças com base na estratégia do desenvolvimento sustentável em todo o Estado. O investimento em diversos setores, que vai da Refinaria General Abreu e Lima, e o Estaleiro Atlântico Sul aos novos empreendedorismos, transfor mam a região no principal polo de negócios. “Pernambuco está tendo uma forte expansão econômica que eleva a renda per capita do

Estado para quase R$ 10 mil. As pessoas estão adquirindo um bom poder aquisitivo, o que facilita a compra de automóveis”, relata o engenheiro Ivanildo Avelar. Segundo o Departamento Estadual de Transito de Pernambuco (Detran-PE), mais de 900 mil veículos circulam pela região nos último anos. A prova da expansão automobilística é tanta que, desde setembro de 2010, a letra K, geralmente usada no inicio das placas, foi esgotada e o Estado já começou a emplacar os novos automóveis com a combinação PE. Mais de 15 mil veículos já receberam a nova sequência e a previsão é que mais 162 mil sejam emplacados até o fim do ano. “Alguns projetos de melhoria para o sistema de transporte público está em fase de licitação. Por enquanto, medidas como essas são extremamente necessárias já que a frota de veículos não para de crescer a cada ano “, explica o coronel Willian Carvalho, Secretário Executivo de Trânsito e Transporte do município do Jaboatão dos Guararapes.

O que a Copa deixará para o Estado ? ALINE DE LIRA PAIXÃO

Pernambuco vai aparecer para cerca de 3 bilhões de pessoas durante a Copa de 2014 e, pela primeira vez, o Estado vê a oportunidade de surgir nos diversos veículos de comunicação espalhados pelo mundo. Restando três anos para o Mundial, os setores envolvidos caem em campo para receber os cerca de 600 mil turistas que vão circular em Pernambuco durante o período. Os benefícios de ser uma das sedes do Mundial são percebidos, não apenas durante os jogos, mas, sobretudo, após o campeonato. A Cidade da Copa, que está sendo construída em São Lourenço da Mata, tem uma proposta de fomentar uma área acessível

e segura baseada no emprego inteligente de recursos. “O conceito multiuso usado na Arena da Copa engloba um projeto arquitetônico de última geração, possibilitando que o espaço seja usado posteriormente para outros fins”, defende o presidente da SPE (Sociedade Propósito Específico) Arena Pernambuco, Marcos Lessa. Ele reforça que existe uma expectativa de ser levantado um polo imobiliário e de negócios ao redor da Cidade, o que pode tornar São Lourenço o novo centro de mobilidade urbana do Estado. Mas a Copa não está mexendo apenas com os brios dos envolvidos. Estima-se que o país vá receber cerca de 3,1 milhões de turistas nacionais, o que vai impactar em R$ 47 bilhões no PIB do Brasil. O

setor de turismo enxerga a Co- hospedam em hotéis de médio pa 2014 como uma opor- porte, e grande parte gasta tunidade para se consolidar mais de R$ 10 mil durante a definitivamente no mapa do estada. Do total gasto, 96% turismo nacional. “Nós en- desse montante serão deitramos na disputa já em xados nos restaurantes, por isso, esses vantagem, teestabelecimos calor para mentos esoferecer aos “São Lourenço peram auvisitantes em vai se tornar um mentar o julho. Isso é novo polo de movimento um diferencial em 30% no que devemos mobilidade potencializar”, urbana” - Marcos período do evento. Se afirma o preLessa, presidente os jogadores sidente da Asda SPE vão correr sociação Braatrás da bosileira da Inla, essas emdústria de Hotéis (ABIH/PE) José Otávio presas se esforçam em busca de funcionários para reforçar de Meira Lins. De acordo com uma pes- seus quadros, seja em conquisa realizada pela ABIH, do tratação definitiva ou temtotal de visitantes no Brasil, porária. O número de autônoestima-se que 69% deles se mos em bares e restaurantes,

hoje em torno de 4 mil, deve crescer pelo menos 80%. Já no âmbito federal, serão supervisionadas as obras de ampliação do Aeroporto Internacional do Recife, envolvendo investimentos da ordem de R$ 40 milhões. Segundo o superintendente da Regional Nordeste da Infraero, Fernando Nicácio da Cunha, em 2010, circularam quase 6 milhões de passageiros no aeroporto e, em 2014, estima-se que esse número chegue perto dos 8 milhões. Para facilitar o acesso aos jogos, o governo prevê diversos projetos, como a instalação de 15 novas composições do metrô. A competição começa em 2014, mas Pernambuco já se reforça como estivesse entrando em campo.

Pernambuco no mapa do desenvolvimento  

Jornal Laboratório da Unica´p

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