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Jornal do AECM - Edição nº 6 - maio/2019

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// Empreendedorismo

"Se eles têm a Torre Eiffel, nós temos os Clérigos"

Lícínia Martins, professora

S

egundo a Comissão Europeia, empreendedorismo é um “processo dinâmico a partir do qual os indivíduos identificam, sistematicacamente, oportuni­ dades económicas e, respondem, desen­ volvendo, produzindo e vendendo bens e serviços". Confesso que, quando fui desafiada para

participar mais uma vez no jornal da escola, senti­me muito receosa com o tema. Reparem, dos dois olhos que tenho nenhum deles é para o negócio e os dois têm miopia. Não podia ser pior! No entanto, desafiei­me a mim própria e decidi avançar com uma proposta arriscada e inovadora: quero lançar­me no fabrico de coletes ao xadrez, ao serviço das manifestações sociais. Porquê ao xadrez? Por razões que passo a explicitar. A primeira prende­se com o facto de já estarem muito batidos os coletes amarelos ou vermelhos, sempre lisos, sem graça nenhuma. A segunda razão tem associados os fatores inovação e funcionalidade. Ora pensem comigo: o que é muito provável acontecer numa manifestação de coletes? Confrontos, violência, polícia, algemas, prisão. Já

perceberam? Com coletes ao xadrez podem ser presos e já estão a condizer com o estabelecimento. Muito mais “finesse”. Não há nada como um jornal escolar para nos pôr a pensar além. Fora da caixa e aos quadradinhos. E já pensei no processo. Primeiro, vou arranjar uma parceria com a Burberry portuguesa. Que sejam coletes com griffe. Depois, é só convocar a manifestação nas redes sociais. Já aviso que o local escolhido para o Porto não vai ser o nó de Francos. Nem ninguém vai tentar parar o trânsito. É um aborrecimento sentar no chão das passadeiras. A pessoa suja­se toda. Nada disso. Vamos optar por um sítio emblemático da cidade: os Clérigos. Também é importante convocar a claque dos Super Dragões para ter cânticos de apoio e o antiquário José Luís (eu, pelo menos, não digo o contrário) do programa “Casados à primeira vista” para uma sessão de autógrafos. O povo fica logo mobilizado. Razões para o protesto? São de somenos importância. Há sempre

aquele senhor que diz “Eu vi na França e gostei. E se eles têm a Torre Eiffel nós temos os Clérigos”. A Dona Gracinda que foi roubada pelo BES também aparece sempre e leva os amigos. O sobrinho da Dona Micas promete não arredar pé se não deixarem de pressionar a tia para sair da casa onde sempre viveu na Baixa. “Só querem saber dos turistas agora”, declara ele. Se for preciso até faz um churrasco mesmo ali, acrescenta. Não esclarece se vai assar costas de frangos portugueses, chouriços espanhóis ou salsichas alemãs. Enfim, há sempre uma coisinha aqui e acolá que a gente não gosta e, bem conversadinho no Facebook, torna­se viral. Podia ser bacteriano o fenómeno, mas, depois, era preciso antibiótico. Vou ficar rica com tanto colete! Xadrez, não se esqueçam.

“abrir caminhos” para o desenvolvimento de determinados atributos que fazem do empreendedor aquele que passa a assumir a missão de transformar, para melhor, o mundo em que vivemos. A Escola pode, com audácia, abrir os caminhos da iniciativa, da empatia, da capacidade de adaptação, da persuasão, do autocontrole, da flexibilidade e do Humanismo (que faz de cada um de nós Seres exigentes e ávidos de Justiça e Equidade). A Escola Viva é feita de “Reflexividade e Mudança”, porque a “matéria viva” do aprender faz­se “aprendendo a fazer”, ensinando práticas que desenvolvam, nos alunos, o gosto pela livre capacidade de “praticar as próprias ideias”, a vontade interminável de pensar de forma diferente e de adivinhar problemas ainda não pensados. A formação académica, muito mais do que o sistema estruturado dos

saberes, é, deve ser, o desenvolvimento de capacidades, para além das estruturas definidas. Na Escola, também aprendemos a competir connosco próprios, a recomeçar, sempre, alimentando a resiliência e a exigência crescente, sem tergiversar, atentos aos sinais. De todas as características do empreendedor uma das essenciais é talvez a criatividade. Aqui, a escola tem a missão de ensinar os seus alunos a observar o que os rodeia, porque as boas ideias brotam de mentes esclarecidas e necessitamos hoje de uma “liderança visionária”, alimentada de boas intenções, é verdade, mas também com voz ativa e respeito profundo pelos Valores e os princípios que regem a boa convivência entre as pessoas. Empreendedorismo será, então, sinónimo de Cooperação inteligente e ativa, sem manipulação, na ânsia absoluta de “fazer crescer”, este mundo que coabitamos.

REFLEXÃO

Empreendedorismo

e Inovação

Marinela Guimarães, professora

“Muito do que se ouve sobre empreendedorismo está errado. Não é nada mágico; não é mistério; não tem nada a ver com genes. É uma disciplina, e como uma disciplina, pode ser aprendida.” Ducker (1993)

E

mpreendedorismo significa, talvez, antes de tudo, ousadia, porque a grande função do empreendedor é a sua capacidade de

“quebrar paradigmas”, de inovar. Mas ninguém nasce de um dia para o outro empreendedor e a Escola tem, neste domínio, a arriscada tarefa de

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