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Híbrida Série Neblina e Escuridão


Mari Scotti

Híbrida Série Neblina e Escuridão

COLEÇÃO NOVOS TALENTOS DA LITERATURA BRASILEIRA

São Paulo · 2013


Neblina e Escuridão Copyright © 2013 by Mari Scotti Coordenação Editorial Ana Claudia de Mauro Diagramação Libro Design e Comunicação Capa Monalisa Morato Preparação de Texto Heloísa Beraldo Revisão Daniel Haberli

Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo nº 54, de 1995)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Scotti, Mari Híbrida : Neblina e escuridão : Livro I / Mari Scotti. -- 1. ed. ­‑­‑ Barueri, SP : Novo Século Editora, 2013. -- (Coleção novos talentos da literatura brasileira)

1. Ficção brasileira  I. Título. II. Série.

13­‑02439

CDD­‑869.93 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira   869.93 2013 IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À NOVO SÉCULO EDITORA LTDA. CEA – Centro Empresarial Araguaia II Alameda Araguaia, 2.190 – 11º Andar Bloco A – Conjunto 1111 CEP 06455­‑000 – Alphaville – SP Tel. (11) 3699­‑7107 – Fax (11) 3699-5099 www.novoseculo.com.br atendimento@novoseculo.com.br


Dedico a Deus, à Célia Maria Rech, aos meus pais e irmãos pela confiança plena em mim e pelo apoio incondicional. Com vocês em minha vida, não tenho necessidade de nada mais.


Agradeço a Deus, em primeiro lugar, por estar ao meu lado na realização de todos os meus desejos e atender cada anseio meu. À minha tia Célia por simplesmente acreditar. O seu apoio foi fundamental para este livro se tornar realidade. Seu amor, sua força, a credibilidade, o carinho com que me tratou a vida toda e agora, com este projeto, me fizeram ter ainda mais certeza do quanto ter uma família é essencial. Te amo, tia, e jamais terei agradecido o suficiente. Aos meus pais por me darem o alicerce para ser quem sou hoje. Sou grata também àqueles que trabalham comigo todos os dias. Obrigada por suportarem meu mau humor quando quero escrever e não posso, e por aceitarem meu assunto interminável referente aos personagens desta obra, principalmente à Erika Trenti e Eliane Oliveira, que compartilham da minha loucura pelo Tom e pelo Milosh. Sou imensamente grata aos leitores do Twilight Brasil Fanfics, que foram os primeiros a me incentivar e acreditar em meu talento, pelas críticas construtivas, pelos apelos loucos para que continuasse esta e outras histórias. Estarão eternamente guardados no meu coração. São tantas as pessoas a agradecer que tenho medo de esquecer algum nome, mas não posso deixar de citar três que foram essenciais para que esta obra estivesse agora em suas mãos, leitor: Cristina Pereira, Fernanda Reis e Carol Mraz, minhas leitoras beta. Jamais poderei mensurar o quanto o incentivo de vocês é importante para eu continuar escrevendo. Obrigada. Ao Cleber, e demais profissionais da Editora Novo Século, por confiarem em meu talento nesse início de carreira.


E por último – mas não menos importante –, agradeço à escritora Stephenie Meyer, pois se não fosse a Saga Crepúsculo, eu não teria voltado a escrever, nem retomado esse sonho adormecido por anos. Obrigada por sua inspiração. Com carinho, Mari Scotti


... uma sociedade destruída, sem direcionamento. Sua única esperança está no lado oposto, vivendo nos sonhos, na mais densa escuridão.


Introdução Desde o princípio, os filhos da noite se acostumaram a agir em desacordo com a sociedade; eram vistos como libertinos, desonrosos, arruaceiros, homens de baixa estirpe. Agiam assim por não temerem a morte nem a retaliação da sociedade humana, por serem infinitamente mais fortes e imunes ao maior inimigo dos humanos: a morte. Por séculos, os vampiros foram lançados à sua própria sorte, vivendo como nômades, solitários, caçando e se fartando, cometendo inúmeras atrocidades sem punição ou regras a seguir. Com o passar do tempo, imortais mais cultos questionaram­‑se acerca de seus costumes e não concordaram com o posicionamento da maioria. Em pequenas reuniões, decidiram que era necessária uma reestruturação e juntaram­‑se a outros para reeducá­‑los. A maior exigência era a discrição, pois ansiavam pela aceitação da sociedade para deixarem de viver às escondidas. A grande maioria concordou, inclusive os nobres e ricos. Estes homens se uniram e, em meados de 1200 d.C., deram início à Monarquia Vampiresca, na qual regras e hierarquias foram estabelecidas. Essa monarquia ficou conhecida como Conselho. O primeiro rei foi Nicodemos I, um homem que amava ler e que escolhera ele próprio seu nome imortal, sendo apenas os mais íntimos conhecedores de seu verdadeiro nome. Casado com Annabeth, a primeira rainha imortal, que escolheu ser chamada de Elizabeth I e que, junto com o Conselho e o rei, escreveu as primeiras leis a 11


serem obedecidas por todos os vampiros espalhados pela Terra. Estes foram assassinados por uma minoria que não concordava com a monarquia e que queria voltar aos primórdios. O segundo reinado foi o da rainha Elizabeth II, que usou o nome em homenagem à sua antecessora. Esta era destemida e reinou tempo suficiente para firmar o Conselho e suas leis. As principais leis consistiam – em sua grande maioria – na preservação da espécie e na proteção dos humanos. Dentre elas está a proibição de matar humanos: cada vampiro deve ter amas de sangue para satisfazer apenas às necessidades físicas de alimento; aqueles que infringirem esta lei estão sujeitos a punições de acordo com o tamanho do delito – desde ficar detido sem sangue por algumas semanas, até definhar de fome e, em seguida, ser morto por fogo ou espada. Era proibido, também, ter relações sexuais com mulheres que pudessem procriar e a punição é morte por lâmina: do vampiro, da mulher e da criança. Os vampiros devem guardar segredo de sua condição imortal e da origem do Conselho e da monarquia. São proibidos de revelar o nome e local de moradia de seus superiores e, caso isso aconteça, a pena é a morte instantânea por lâmina: do delator e de suas criações. Séculos antes da transformação da rainha Elizabeth III, sua antecessora criou uma lei para as posteriores. Se seu substituto fosse solteiro, homem ou mulher, estaria proibido de constituir família – cônjuge e criações –, para que não houvesse meios com que seus inimigos o chantageasse.  A própria Elizabeth II morreu solteira após escolher sua sucessora, Adenotona, que fora decapitada semanas depois que a rainha se entregou ao sol, sendo necessária a escolha de outro rei para ocupar seu lugar. Muitos acontecimentos levaram à decisão de que Elizabeth Fargnoli seria a melhor escolha para substituir o último rei, que estava 12


deprimido e deixava de lado seus deveres como líder. A garota, apesar de nova, tinha poderes incríveis de cura, regeneração, manipulação dos elementos e tantas outras habilidades que nenhum dos vampiros era capaz de superar. Nos primeiros meses de treinamento, ela já soube que seria a rainha e que seu destino era ficar sozinha por toda a sua vida imortal. O amor para com sua espécie e com os humanos a fez aceitar com gratidão o cargo e, por todos os anos em que esteve no poder, manteve seus súditos felizes e alinhados com as leis antigas que os mantinham ocultos e a salvo. No entanto, alguns anos antes de seu desaparecimento, ela se casou com seu principal guerreiro, Milosh, e assumiu diante de todos seu amor por ele, derrubando, assim, a lei anterior. Todos os vampiros que seguiam as leis e eram a favor do Conselho sabiam que vampiros podiam ter habilidades adormecidas. Estes recebiam treinamento para aperfeiçoar seus dons e poder galgar ministérios. Periodicamente, eram submetidos a testes e os que se sobressaíam eram recebidos como futuros substitutos dos atuais conselheiros; isto é, quando seu antecessor era morto ou se entregava ao sol, o substituto já estava preparado para assumir o posto. Em paralelo, havia um pequeno grupo que não concordava com as leis. Com o passar dos séculos, esse grupo conseguia cada vez mais seguidores, portanto, o que era minoria ganhou massa e número. Souberam que vampiros possuíam habilidades secretas e esconderam essa descoberta muito bem. Foi assim que conseguiram sequestrar a rainha Elizabeth III, surpreendendo os guardiões e até Milosh, um dos vampiros mais poderosos. O tempo passava e precisavam se preparar para eleger um sucessor, pois, com um século de desaparecimento de Elizabeth III seriam obrigados a fazê­‑lo. A dificuldade é que a rainha possuía habilidades únicas e não havia quem estivesse à altura para substituí­‑la, pelo menos 13


não alguém que concordasse com as leis do Conselho. O tempo estava se esgotando e o caos se instalou no mundo dos vampiros. As mortes de humanos cada vez mais violentas, a impunidade dando liberdade aos rebeldes. Policiais e o FBI descobriam aos poucos esse mundo secreto aos humanos. Milosh estava empenhado em encontrá­‑la antes que fosse necessário eleger um sucessor, tanto para que seu mundo se reorganizasse, como para rever a única mulher que amou em sua vida imortal, mas precisava correr contra o tempo.

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Capítulo 1 Sentia­‑se terrivelmente cansado e entediado de tanto fingir­‑se de forasteiro em uma cidade que conhecia como a palma de sua mão. Estava irritado por ter de conviver com tantos mortais que não valorizavam suas vidas e não sabiam diferenciar­‑se de sua própria espécie, e também com seus iguais, por pensarem mais nos próprios prazeres do que em seus deveres para com o Conselho e a monarquia. Enquanto terminava de tomar o último gole de seu drink, Milosh contava a si mesmo os últimos acontecimentos do século. O desaparecimento de Elizabeth III era sua maior tortura. Estava com o maxilar trincado e quem o encarasse certamente notaria a fúria em seu rosto. Tinha saudade do tempo em que as pessoas eram mais educadas, cultas, inteligentes e menos mesquinhas e apressadas. Soltou o ar pesadamente, batendo o copo sobre o balcão. Deixou algumas notas e se retirou, cruzando a soleira da porta para ganhar a rua e irritar­‑se um pouco mais andando pelas calçadas apertadas do centro de São Paulo. Elizabeth III sumiu havia quase um século. A vida noturna ganhava popularidade com barzinhos e boates que ficavam abertos a madrugada toda. Por um lado facilitava a caça para vampiros que não tinham pudor, deixavam rastros e se esqueciam ou não se importavam com suas leis. Por outro lado, a indiscrição prejudicava todos de sua espécie, pois tornava cada vez mais difícil ocultar a verdadeira natureza

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dos humanos. Seu mundo estava completamente desprotegido. Jornalistas especulavam sobre assassinos em série e apresentavam em suas matérias mortes em que a vítima – provavelmente fã de ficções vampíricas que assombravam a Terra na última década – não tinha uma gota de sangue em suas veias. Um desses jornalistas chegou bem perto da verdade quando disse que o grande interesse sobre mitos de vampiros fazia com que cidadãos mentalmente inferiores pensassem que eram vampiros e, assim, drenassem o sangue de suas vítimas. Citou até uma seita que cultuava uma mulher chamada Elizabeth, que era tida como a rainha dos vampiros. Não fosse por Benjamin, parceiro inseparável de Milosh, teriam de exterminar a maior parte dos vampiros que vivia na cidade para controlá­‑los. Benjamin visitara o tal jornalista, apagando sua mente e deixando­‑o confuso com sugestões estranhas sobre os assassinatos que ele investigava. Fora internado em uma clínica psiquiátrica, mas, na atual situação, Milosh preferiria ter exterminado os clãs que não seguiam suas leis para mostrar que, mesmo com a rainha sequestrada, não haveria impunidade para os infratores. Sabia que precisava se apressar. Elizabeth III fora taxativa: ele tinha de encontrar a princesa, sua sucessora. Entretanto, não havia princesa alguma, pois a rainha não treinou nenhuma vampira enquanto esteve no poder. Milosh confiava nela, confiava que havia verdade em seu pedido, que a vampira acreditava que existia uma sucessora, porém, começava a imaginar que os anos de reclusão a estavam deixando insana. A rainha e ele se comunicavam esporadicamente por telepatia. Ela estava bem, mas não sabia onde era mantida refém. Parecia perturbada no último contato, suas palavras começavam a perder o sentido. A encontre, a encontre! Ouvia em sua mente. Encontrar quem, minha senhora? Ele respondia. 16


Milosh e Elizabeth III tinham uma afinidade profunda de sentimento e sangue, o que permitia a ambos conversar por telepatia, independentemente da distância. As conversas eram o único bálsamo para ele, pois o certificavam de que ela continuava viva. Porém, o intervalo entre um contato e outro ficou cada vez mais extenso e quanto mais o tempo passava, mais ele se angustiava por não encontrá­‑la. O assunto, contudo, se tornava cada vez mais estranho, incerto e confuso. Minha filha... minha pequena criança... meu único tesouro... meu legado... Foi a última vez que se falaram e havia semanas. Milosh temia que tivesse sucumbido ou sido morta por seus sequestradores. Se perguntava incessantemente o que ela queria dizer quando chamava a criança de filha e temia por sua amante, pois, se tivesse mesmo uma filha ou tivesse mantido viva a filha de um vampiro, ela seria condenada como cúmplice e ré. Algumas das regras eram punidas com morte e uma delas era ter um filho com um humano. Quando isso acontece, a criança nasce com sede de sangue, mas com aparência humana. Seu desenvolvimento é lento e confuso. Um mestiço pode andar pelos dois mundos, dia e noite, sem precisar de proteção contra o sol e se misturando facilmente aos humanos e quando chega à fase adulta – cerca de cem anos depois de seu nascimento – para de envelhecer e pode viver tanto quanto os vampiros. Elizabeth III seguia muito bem as regras, por isso o que dissera não fazia nenhum sentido, sobretudo pelo fato de ela não poder ter filhos. – Desculpe... – Um rapaz passou com pressa e esbarrou nele, o que o despertou de seus pensamentos. Estava vestido com uma capa de couro escura que cobria o corpo todo. Ao respirar, Milosh soube imediatamente que se tratava de outro vampiro e, pelo cheiro forte de enxofre, ele estava nervoso, planejando 17


algo. Milosh o seguiu, usando um de seus dons: camuflar e confundir seu aroma com o dos humanos mais próximos. O outro vampiro parecia assustado e faminto, provavelmente procurava uma vítima. – Aqui, Afonso. – Ouviu­‑se um sussurro, inaudível para qualquer humano, mas não para Milosh. – Ele está aqui. – Afonso, o rapaz da capa, respondeu para o homem que se escondia num beco próximo à estação República do metrô. Milosh sentiu um nó na boca do estômago e se perguntou se o que o rapaz disse referia­‑se a ele ou a qualquer outra pessoa. Era imprescindível tomar distância e não chamar a atenção para si. Ser um noturno tinha certas desvantagens, uma delas era ter de se manter em alerta o tempo todo. Preparou­‑se mentalmente para um possível ataque. – Não é ele, seu idiota! O mais novo chiou quando o vampiro passou pelo beco ignorando­‑o, como se fosse uma pessoa comum que andasse por ali. Ele torcia para que aqueles fossem vampiros que não soubessem que era possível camuflar­‑se entre os humanos usando o cheiro deles como proteção. – Eu esbarrei nele, é ele! – Afonso falou um pouco alto demais e foi silenciado pelo outro, que estava escondido nas sombras. Agora Milosh tinha certeza de que falavam dele. Apressou-se, desceu as escadas para o metrô e atravessou a catraca. A plataforma estava vazia e seria localizado facilmente. Então, enfiou as mãos nos bolsos do casaco, num gesto despreocupado, e começou a andar pela plataforma fingindo estar distraído. Sentiu olhos às suas costas e a fúria na batida de quatro corações. Todos vampiros do sexo masculino e enfurecidos. Tentou – em vão – ler suas mentes, queria entender por

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que estava sendo procurado e como o reconheceram, mas estavam nubladas e confusas. O trem chegou, as portas se abriram e depois começaram a fechar. No último segundo, ele se projetou para dentro do vagão, achava que eles não conseguiriam fazer o mesmo. Foi rápido, mas Afonso ainda mais rápido e, assim que Milosh se endireitou, as mãos do vampiro o seguraram pelo braço e a respiração dele bateu fria em sua nuca. – Eu sabia que era você. – Quem é você? – seu tom era baixo para que apenas ele ouvisse, apesar de os humanos parecerem distraídos no outro lado do vagão. – Não interessa quem eu sou, mas quem quer ver você. Milosh franziu o cenho, confuso com a informação. Todos que queriam vê­‑lo costumavam procurá­‑lo na residência real, não caçá­‑lo de madrugada. Com toda certeza não era um aliado. Assentiu para que Afonso o levasse sem demonstrar relutância. Seus pensamentos continuavam ocultos e se deu conta, mais uma vez, que não estava lidando com um vampiro fora da lei, mas com alguém treinado. Ambos se sentaram para não chamar muita atenção, as estações sendo deixadas para trás. Quando o trem parou na estação Sé, o vampiro fez Milosh se levantar e sair com ele do vagão. Fora da estação, caminharam por ruas estreitas, úmidas e pouco iluminadas. Conhecia bem o bairro, mas ainda não tinha reconhecido o local. Afonso caminhava ao seu lado despreocupado, estava ciente que Milosh não fugiria, pois a curiosidade era maior que o medo de ser eliminado. Não passou muito tempo até que o barulho de música preenchesse o silêncio. Milosh reconheceu a danceteria. Era frequentada por drogados, prostitutas e cafetões. Não conseguia imaginar quem o esperaria ali. – Entre – disse um homem careca e bem acima do peso, que estava guardando a entrada da danceteria. 19


Ao entrarem, o cheiro de álcool feriu as narinas de Milosh, que fez uma careta de repulsa. O lugar era barulhento, quente e cheio de humanos. Passaram por um corredor estreito e ele avistou escadas que davam para o andar de baixo. Afonso foi à sua frente enquanto outro homem vigiava suas costas. O outro vampiro tinha um ar militar, olhos claros e cabelo bem aparado; talvez 1,90 metro de altura, muito forte e aparentava ter ultrapassado os cem anos de transformação. Milosh o cumprimentou com um gesto de cabeça sem cortar os passos. – Olhe para o chão o tempo todo, fale somente quando for solicitado e saia assim que mandarem você sair – disse ele, autoritário, e abriu uma porta de aço. Assim que entraram, o ambiente ficou silencioso. Milosh manteve o olhar baixo como havia sido orientado. Pelos batimentos cardíacos na sala, soube que à sua esquerda havia dois vampiros; à direita, mais dois; atrás, o militar e, à frente, uma mulher, não sabia dizer se humana ou vampira, pois seu perfume e seus batimentos estavam alterados e isso parecia ser proposital, assim como os pensamentos deles. A diferença nos batimentos cardíacos de um humano e de um vampiro eram quase imperceptíveis. O coração humano bate cheio, pois há vida dentro dele. Batidas rápidas, fortes, suculentas. Já o coração vampiro parece apenas sobreviver, são batidas ritmadas, lentas, dando a impressão de que a qualquer momento poderá parar. A mulher soava como um humano ao fim da vida, mas Milosh sabia que era proposital. – Sente­‑se, senhor Maundrell – falou um dos vampiros à esquerda dele. Com dificuldade, ele conteve sua curiosidade, pois quase nunca ouvia seu sobrenome, e se sentou. A sala estava decorada com móveis 20


antigos muito luxuosos, todos em madeira maciça e talhados à mão por um europeu do século XVII. À frente, havia uma escrivaninha antiga, vitoriana, sua madeira avermelhada talhada com motivos de folhas por toda a borda. O móvel estava muito bem conservado, assim como a cadeira em que estava sentado. O carpete claro dava um ar feminino ao escritório. Ele estava impaciente e, ao girar os olhos, avistou um sofá no mesmo tom da escrivaninha, provavelmente de meados do século XVII. – Não olhe! – ralhou o militar que estava às suas costas. Lentamente, Milosh puxou o ar, colocando as mãos espalmadas sobre as pernas enquanto aguardava que lhe falassem. Ninguém ali parecia disperso, dessa forma, não podia entrar em suas mentes e descobrir o que estava acontecendo. – Milosh... – sussurrou uma voz feminina – obrigada por acompanhar meus rapazes sem questionamentos nem brigas. – Disponha – respondeu e quase levou um tapa na cabeça, mas desviou a tempo, lembrando de que não podia falar. – Não é necessário violência, Sir Diego – disse a mulher enquanto o militar se afastava. Ela cheirava a leite de rosas, algo usado muito antigamente para amaciar a pele das donzelas e deixá­‑las perfumadas. Isso talvez revelasse que era vampira e possuía pouco mais que a idade de Milosh, por volta de oitocentos anos. Minutos se passaram e o silêncio começou a incomodar. A mulher notou e riu, um som baixo e divertido se espalhou pelo aposento. – Creio que ainda não descobriu quem sou eu, Miloh. – Brincou com um antigo apelido. Ele lutou para não erguer os olhos e negou, com um aceno de cabeça, pois não imaginava quem era. – A rainha se orgulharia de você, se manteve vivo durante todos esses anos,

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nunca burlou nossas antiquadas leis nem se envolveu com ninguém. Continuou casto e fiel para sua adorada rainha... O tom desdenhoso o fez lembrar quem era. Milosh torceu os lábios em um sorriso cínico. Heidy era uma antiga rival do clã Maundrell e dos homens que seguiam as leis do Conselho, porém excelente companheira antes de ser expulsa do seu convívio. – Acho que ele lembrou, senhora – afirmou o militar. – Qual é meu nome, Miloh? – Rainha da intriga, madame. – Ele apertou os lábios em um sorriso. – A senhora dos desgarrados, dos inocentes vilões... dos mal­‑amados... – O soco veio de surpresa, atingindo­‑o na coluna. Ele se curvou na cadeira, urrando de dor, porém não tirou dos lábios o sorriso travesso. – Não é necessário violência, Sir Diego – repetiu ela, se levantando. Era possível ouvir seus passos se aproximando. Parou ao lado de Milosh, dando­‑lhe uma visão privilegiada de suas pernas, que eram as mesmas de que se lembrava, vestidas numa meia calça escura e sapatos pretos de salto fino. – Não fale, não olhe... você nunca ouve as instruções. – Você me permitiu falar quando perguntou seu nome. Ela riu e afagou os cabelos dele. Ao se recordar daquele toque, Milosh cerrou os olhos, a traição inundou suas lembranças. – Hum... boas lembranças... – Heidy possuía dons que a maioria dos vampiros mataria para ter. Ela entrou na mente de Milosh com facilidade, mesmo ele fechando seus pensamentos para ela. Era difícil não ceder, pois podia manipular o dom de qualquer vampiro mais fraco que ela. – Você continua o mesmo, Miloh. – Fraco e irresistível? – novamente ele riu. – Inocente. Você acha mesmo que a rainha tem uma filha e que era ela falando em seus pensamentos? 22


Ele suspirou, sentindo­‑se exposto e derrotado. Tentou mais uma vez expulsá­‑la de sua mente e sentiu o alívio quando conseguiu. Apesar das últimas semanas, ele tinha certeza de que falava com Elizabeth III – ... a encontre, por favor, a encontre... – Heidy tinha sussurrado nos pensamentos dele usando a voz da rainha. A raiva o fez perder o controle. Milosh se levantou e urrou quando o militar o socou nas costas; porém, dessa vez estava preparado: desviou dos socos e subjugou Heidy a prendendo contra a parede, o cotovelo do braço direito pressionando sua garganta. Seus olhos ferviam de ódio. – Piranha! – berrou a plenos pulmões, forçando o braço em sua laringe. Heidy era diferente dos outros vampiros, ela era meio humana, meio vampiro, e podia morrer com mais facilidade que eles. Os homens tentaram puxá­‑lo, mas ele era mais forte e mais rápido que eles, e conhecia seus dons. Num gesto ágil, ele se virou e a trouxe para si como um escudo, virada para seus homens. Você sabe que não sairá daqui vivo, foi por isso que mandei acharem você, sussurrou ela mentalmente para Milosh. Vou suceder sua querida rainha, enfatizou rindo e se soltando facilmente de seu carcereiro. – Você não será nada, nada! O vampiro se viu entre ela, os soldados e a porta e rapidamente a atravessou, deixando todos para trás. Saiu da danceteria e estranhou não haver vampiro algum do lado de fora. Não era sorte nem desleixo. Heidy com certeza tinha armado aquilo e sabia que ele fugiria, pois o conhecia muito melhor que ele próprio. Milosh suspirou irritado, mas decidiu estar um passo à frente dela. Correu sem rumo para longe do centro da cidade. Ainda ouvia os passos atrás de si e as batidas de seus corações, mas cada vez ficavam mais longe. A escuridão noturna facilitava a fuga. Adentrou ruas curtas e cada vez mais solitárias, os arranha­‑céus fazendo sombras sinistras com

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o luar sobre eles, mas não temia nada, fugia apenas, pois precisava estar vivo para localizar sua esposa. Chegou a um emaranhado de prédios na Rua 25 de Março. Pulou um muro com facilidade, pousando delicadamente do outro lado, seus joelhos levemente flexionados. O local estava escuro para olhos humanos, mas apenas pouco iluminado para sua raça; era um bom lugar para se esconder por alguns minutos. Recostou­‑se ao muro para ouvir os sons e aproveitou para misturar seu cheiro ao dos humanos nas residências. – Onde ele está, Afonso? – o militar questionou. – Aqui, mas não consigo ver. – Você entrou na cabeça dele, faça de novo! – ordenou, irritado. Milosh sorriu, entendendo como tinha sido encontrado. Heidy deve ter contado a esses vampiros que todos possuem dons adormecidos e que precisam de treino para que eles aflorem. Afonso devia ter algum objeto seu ou uma foto para encontrá­‑lo. Milosh só não conhecia o alcance que o dom do rapaz tinha, se poderia encontrar as pessoas em qualquer lugar ou apenas a poucos metros de distância. O dom era conhecido como intruso, pois permitia invadir a cabeça de sua presa e ver o que ela estava vendo. Isso facilitava a caça e impedia o outro de se esconder, ou antecipava seus passos. Milosh fechou os olhos, não sabia se conseguiria fechar a mente para qualquer um que tentasse invadi­‑la, porque estava sem se alimentar há tempos, o que prejudicava sua sensibilidade para sentir a invasão e se proteger. Pouco a pouco, a respiração do vampiro se acalmava e as batidas do coração semimorto tornavam­‑se normais. Os homens pareciam ter se distanciado de onde ele estava, porém preferiu não abrir os olhos já que não conseguiria manter por muito tempo seu escudo mental. Ele suspirou e se concentrou nos sons e cheiros ao seu redor. Ouviu o farfalhar das folhas, um cachorro adormecido, pisadas em folhas secas 24


muito perto dele... Exasperado, se encolheu junto ao muro. Abriu os olhos devagar, apreensivo, estava escuro. Milosh se afastou um passo do muro e viu um par de pés próximo dele. Lentamente, ergueu a cabeça, vislumbrando pernas curtas como as de uma criança. Estava diante de uma menina de olhos azuis, cabelos louros lisos até a cintura, pele pálida e maçãs do rosto levemente rosadas. Ela não parecia assustada por ter um estranho em seu quintal; ao contrário, estava estranhamente à vontade, lhe lançou um sorriso maroto e o cumprimentou com sua voz infantil, segurando a barra do vestido cor de rosa. – Oi, tio – ela prolongou o cumprimento olhando em volta e, então, fez um sinal indicando que a acompanhasse. Milosh estranhou, a noite estava bem esquisita. Primeiro, tinha sido perseguido; segundo, depois de anos, revê Heidy; e, por último, uma criança aparece do nada e quer ajudá­‑lo. Negou a ajuda da menina com o semblante desconfiado. Ela sorriu e começou a se afastar para a residência. O vampiro ouviu a voz soar baixa, mas decidida. – Não recuse. A princípio ficou paralisado, decidindo se colocaria aquela família em risco aceitando o abrigo que a garotinha lhe oferecia ou se pulava o muro e encontrava seus caçadores novamente. Em ambos os casos, havia o risco de seus semelhantes atacarem a casa. Decidiu sair dali, mas a menina virou para encará­‑lo. – Venha logo! – disse, impaciente. Relutante, ele a seguiu. Não entendia por que estava aceitando sua ajuda, mas não a questionaria até estarem em um lugar mais seguro. A casa era simples, passaria despercebida por qualquer pessoa, era isso o que esperava. A parte externa estava descuidada, a tinta descascando e boa parte da lateral estava esverdeada pelo musgo. Ela o convidou a entrar quando chegaram à porta e, assim que adentrou a sala, foi surpreendido pelo contraste com o do lado de fora. 25


O piso de madeira tomava todo o ambiente. Na sala de estar, um carpete baixo em tom bege sobre o piso, um sofá em “L” em um bege um pouco mais escuro ladeava a parede; ao centro, uma mesa de vidro fumê com um vaso com tulipas vermelhas e alguns livros. Na parede, quadros com imagens de retângulos e quadrados, e, um pouco mais à direita, uma pequena lareira acesa. Nada de aparelhos eletrônicos, apenas livros espalhados em pequenas pilhas ao lado do sofá e da lareira. A imagem o levou a se recordar da mulher que mais amou em sua imortalidade. – El... – começou. – Calado! – ordenou a menina, espiando pela cortina da janela. – Você está fraco demais! – ralhou, olhando para ele e voltando os olhos para fora. – Qualquer um o acharia! Não aprendeu nada do que ensinei, Miloh? Nada? – A voz da garotinha tomou tons mais graves e adultos e, em um segundo, a criança tornou­‑se uma mulher. Possuía as mesmas feições da menina, porém rosto perfeito, lábios rosados, seios volumosos. O coração cansado do vampiro se encheu de uma alegria impossível de ser sentida e ele ameaçou uma reverência quando a reconheceu.

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Híbrida – Neblina e Escuridão  

Por toda vida Ellene teve a sensação de ser diferente de seus irmãos e dos moradores de sua vila, pois não adquiriu características de lobis...

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