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Capítulo 1

A Última Cidade Parte 1 Ela vestiu sua camiseta favorita, bege e longa, quase até os joelhos. Não era bonita aos olhos dos outros, mas era sua predileta assim mesmo. Amarrou um cinto no meio dela e guardou sua pequena espada na bainha. Colocou as curtas botas sujas de lama e um colar com uma cordinha fina que ela mesma montou, onde pendia um pequeno pedaço de metal distorcido.Tirou do cabide sua capa azul-marinho com capuz, única e também favorita; estava queimada atrás, no canto. Mas ela não a colocaria fora de jeito nenhum. Costumara sair frequentemente com ela, nunca sabia quando poderia esfriar. O clima estava distorcido, assim como aquela época. Penteou os cabelos castanho-escuros com os dedos rapidamente, enquanto saía do quarto. – Estou indo, vovô! – disse ela indo até a porta. Ouviu um murmúrio ao longe. Ele devia estar lendo. Nunca falava quando estava lendo. Juntou a bolsa que estava no canto da porta e atravessou-a no ombro, saindo de casa. O céu estava claro, mas havia um vento gelado naquela manhã. Enquanto descia o morro de sua região, via vários rostos conhecidos já trabalhando. Saulo Leki guiando suas cabras enquanto comia uma batata, limpando as mãos na camiseta suja. Ela sempre o via com os animais, andava por toda a cidade com eles. Avistava a esposa dele conversando com outras mulheres, algum assunto apressado

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e assustador. Apenas bufou e pensou: Deve ser apenas drama dessa gente... Fracos. Correra todo o morro para baixo, pegando os terrenos com mais árvores, mais sombra, mais silêncio e menos gente. As vozes estavam distantes, embora nesses tempos as pessoas houvessem se acostumado a não falar muito alto. Claro que não conseguiam se controlar o dia todo, mas era, sim, moderado. Em outros dias, aquele caminho estaria cheio. Mas não naquele momento. Ela se atrasara no dia. O irmão nunca fizera isso e o avô perdera a noção com o trabalho. Restara ela para fazer a Oferenda no Lago Sagrado. A Oferenda diretamente feita ao Espírito do Bem. Ela terminou de atravessar as árvores na grama fofa e chegou ao chão de pedra com o mato rasteiro e cheiro de ervas, tendo a visão dos morros a oeste, que quase cortavam a Última Cidade no meio. Altos, cinzentos e um bem na ponta, o mais alto, com neve em cima. O Lago ficava na ponta das cordilheiras, entre as duas partes da cidade, cercado por vales sinuosos e alguns pedregosos. Se viesse do outro lado da cidade haveria um matagal denso demais, e ela não sabia dizer qual preferia. Caminhou por meia hora na estrada de chão, vendo pessoas trabalhando em suas plantações distantes e alguns Soldados a distância. Sempre havia Soldados rondando o Caminho do Lago. Ela gostava disso, mas algo dentro dela preferia a emoção de estar à mercê da sorte. Queria alguma surpresa, como há muito não ocorria com ela. Qualquer monstro que a atacasse a faria feliz, pois ela confiava em suas habilidades. Confiava mesmo. Queria usá-las! De repente, saindo de alguns arbustos mais à frente, vindo de algum caminho abandonado que ela não sabia aonde ia dar, um homem apareceu. Era ruivo com os cabelos bastante curtos, e entrou na estrada dela seguindo pela mesma direção, sem lhe dar atenção. A roupa era inconfundível; grandes botas até os joelhos, com grossos cadarços, e uma calça larga socada dentro delas, bege, com faixas de enfeite penduradas. A camiseta era bege também e larga. Tinha mangas compridas e a ca12

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misa ficava para dentro do cinto, embora continuasse folgada. O tecido era fino e carregava uma longa espada em sua bainha, além de punhais no cinto. Era um dos Cavaleiros do Bem. Uma bolsa atravessava o ombro igual a ela. Estaria indo para Oferenda também? Atrasado? Um Cavaleiro não podia se atrasar... Podia? Andava sozinho, sem nenhum Soldado junto... Era raro vê-los assim em um terreno aberto daqueles. Ou estavam com outros Cavaleiros ou com Soldados de seus exércitos particulares. E que cabelo curto! Caminhava lentamente, pensativo. Ou triste. Ou preocupado. Quem sabe? Os Cavaleiros eram complicados, talvez por isso seu irmão era o mais novo deles. Ele era forte, mas muitas vezes não sabia o que ele estava pensando. Mas, também, talvez fosse por causa da sua... Iria falar com ele.Tinha curiosidade, ainda mais agora, com a família envolvida. Só conversara com o tal Rapislash, que meses atrás consertara sua espada. Mas o que diria? Tudo bem chegar falando com um Cavaleiro? Ela era tão nova... Eles falavam geralmente com os membros do Conselho da Cidade, espalhados aos montes por aí. Bem, pelo menos era o que ouvira falar... Era realmente difícil distinguir aqueles Cavaleiros em uma cidade gigante daquelas, mesmo usando aquelas roupinhas chamativas. Às vezes passava na frente dos quartéis espalhados pela cidade, mas só via alguns Soldados, nunca os Cavaleiros. Seguiu-o a distância. Observava no caminho algumas pessoas indo pelas planícies mais baixas e outras voltando pelo caminho de pedra que estavam fazendo. Ela não esperava que fosse tão movimentado. Achava que iria sozinha, cantando em voz alta, mas podia controlar-se. Quem sabe na volta. Avistou então a paisagem que a fizera ter um plano. O Cavaleiro do Bem seguia pelo que agora era a estrada de pedra ao lado da encosta íngreme de uma enorme rocha. Enquanto isso, do outro lado, descia uma estrada sinuosa, adentrando nos vales baixos, perto de um pequeno pântano, nada aconselhável para crianças. Algumas já até haviam 13

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sido atacadas ali, tempos atrás. Outras se afogado, com boatos dizendo que havia sido por culpa de monstros. Um Cavaleiro do Bem não as deixaria ir por ali sozinhas... Ela correu por essa estrada, segurando a pequena espada na bainha que lhe batia na coxa. E não demorou muito para que sua armação desse certo; ouviu a voz dele chamá-la: – Ei, menina! É melhor vir por cima, não desça por aí, não sozinha. Venha! Ela parou imediatamente, deu risadas contidas e olhou para cima. Os cabelos dele faiscavam contra o sol. Ambos ficaram parados se encarando, e ela deu meia-volta e subiu o morro, rindo mais um pouco. Voltou a pegar a estrada de pedra, com capins amarelos nos cantos, e aproximou-se do Cavaleiro ruivo. – O-olá – disse ela, controlando o sorriso, ficando mais nervosa do que imaginara. Ele era mais alto do que observara, mal chegava ao ombro dele. Observando melhor o traje, tinha um cinto com uma insígnia desenhada no meio. Era um círculo e estava dividido ao meio, de um lado pintado de azul e do outro de preto, contornado com traços e detalhes minúsculos. E um brasão na camiseta, com silhuetas de casas – pelo menos parecia – em cores azuis. Azul... Cada Cavaleiro, incluindo os Soldados, tinha um pequeno brasão no peito com uma cor diferente, dependendo de quem era o Cavaleiro e a quem pertencia o exército. – Indo fazer a Oferenda? – perguntou-lhe. Seu rosto era quadrado e grande, com a barba incrivelmente bem-feita, assim como os cabelos. E não parecia muito velho visto de perto... Não muito. – Sim, a gente se atrasou no dia... Minha família... Também está indo pra lá? – indagou ela. – Estou.Vamos, companhia é sempre bom – ele sorriu e ela retribuiu, e voltaram a caminhar. Ela sentia-se estranha ao lado dele. Era um homem quieto e sua respiração era estranhamente controlada. Os passos eram largos, mas lentos e sempre iguais. – Qual seu nome? 14

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– Hã? – Seu nome. – Lara. Lara Bringul. E o seu? – Magnum. Prazer, mocinha. – Ambos se apertaram as mãos e ela suspirou satisfeita. Magnum, ouvira falar dele, claro. Brasão azul! Se bem lembrava, era o líder dos Cavaleiros do Bem. Fora o primeiro da Ordem. O primeiro a receber o chamado do Espírito do Bem, e isso era grande coisa! – Bringul... Acho que já ouvi falar... – disse Magnum, pensativo. – Meu irmão... Que entrou para a Ordem. – Ahh, sim, claro! Bringul! – ele sorriu e bateu em sua testa, e Lara achou isso extremamente engraçado vindo de um Cavaleiro. – Então estou perante uma mocinha muito especial... Devia estar orgulhosa do seu irmão. – Estou, com certeza. – Quem sabe talvez um dia ouça o chamado para a Ordem? – Magnum sorriu para ela. – Estou ansiosa! Quanto mais Cavaleiros, mais rápido exterminaremos aquela Cidade das Trevas! – disse Lara, cerrando os punhos, com um sorriso fino nos lábios. – Olha só, nunca vi isso, haha... Por isso a espada? Sabe que pelo caminho até o Lago Sagrado não há monstros – disse Magnum, surpreso com ela. – Nos Pântanos alguns... – Todos sabem que lá é um terreno um pouco hostil, mas isso já faz um ano. – Então teria me deixado seguir por lá? – Lara sorriu para ele. – A Cidade das Trevas não é a única que se fortalece nesses tempos... Nossas forças também crescem, os jovens estão mais ativos... Mas as mulheres, achei que... Como ficou tão determinada assim? E essa capa queimada? – Exatamente o que está pensando, foi numa briga! – disse ela com os olhos brilhando de orgulho de si mesma. – Um drowlin me atacou 15

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enquanto passeava com a minha amiga na Floresta Flores, e felizmente eu estava lá com a minha espada! Cortei a cabeça dele ao meio... Foi nojento... Mas eu cortei! Nunca vou jogar fora esta capa, só porque algumas pessoas têm nojinho... – ...Que idade você tem? – Quatorze. – Drowlins não lançam fogo... – Aquele lançava, sim. Magnum pensou por um instante e disse: – Onde aprendeu a lutar, então? – Ora, meu irmão. Ele me dá todo apoio nisso de querer me fortalecer. – Seu irmão? Verdade? Interessante... Mas você sai pra colher as flores dos Campos ou aprender a fazer o chá de ervas com as meninas, não sai? – E eu tenho escolha? As flores são lindas, absurdamente belas! Mas os chás... Não me agrada fazer isso... Prefiro os sucos da velha fofoqueira lá do morro. Tem vezes que eu não vou. Fico em casa com um pedaço de pau batendo em tábuas de madeira que eu tenho pendurado nos galhos da árvore. Para fingir que são inimigos, sabe? Magnum riu, balançando a cabeça e fitando-a. – Vocês fazem coisas assim? – perguntou ela, curiosa. – Bem, treinamos sim... Mas é bem diferente no nosso caso. Até nos machucamos de verdade, para sentir na pele os erros e fazer o corpo ficar mais duro também. Magnum observava-a fitando-o com toda a atenção do mundo. Era diferente das outras crianças que estava acostumado a ver; sempre olhavam para ele com um ar estranho, como se estivessem olhando algum monstro da Cidade das Trevas. Mesmo olhando-a bem nos olhos escuros, sabia que suas mãos estavam cheias de calos e cortes, ásperas como a dos meninos da idade dela. A roupa não era nada chamativa, e não via fitas nos cabelos como a maioria usava. Nem um pequeno laço. 16

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– E, nossa, aquele drowlin deu trabalho... Foi demais – ela riu, pensativa. – Você é uma menina forte demais... Para tempos fracos demais... – sorriu Magnum, mergulhando em seus pensamentos. – Fracos demais? Disse que estávamos nos fortalecendo também... – surpreendeu-se ela. – Tá bom, eu sei... Vivemos nesse aglomerado... Só o que nos resta... – ela parou um instante. – ...Essa não! – gritou de repente, colocando as duas mãos na cabeça. – De novo! – Que foi? – indagou Magnum, curioso. – Esqueci minha fita... Aquela de colocar nos cabelos, sabe? É a segunda vez este mês... – resmungou ela. – Tão bonitinha... Magnum gargalhou. Então era isso; uma verdadeira dama, irmã de Cavaleiro. A estrada de pedra ao lado da encosta do grande rochedo começou a desaparecer junto com ele, dando lugar aos vales verdes. Às vezes o mato era alto demais, o que impossibilitava ver muito mais adiante, e ambos não estavam no relevo mais alto. Eram paisagens bonitas e sem sinal da civilização, o que sempre era estranho. A Última Cidade em que viviam era apertada, comparada com o número de habitantes; as últimas pessoas do mundo estavam nela. As últimas pessoas ainda não corrompidas pelo Mal e seduzidas a permanecer na Cidade das Trevas. Eram pessoas estranhas, com costumes diferentes e línguas diferentes. Aos poucos iam estabelecendo um costume único, mas ainda estava longe de serem cem por cento assim. Distante, apareceu um ser por entre as colinas amareladas, um ser criado pelo próprio Espírito do Bem, guardião daquelas Terras Sagradas, usado muitas vezes para varrer os invasores da Cidade Maligna. Devia ter uns vinte metros, lembrava um pouco um coelho, pois era todo branco, com pelos curtos. Tinha pernas compridas e mãos igualmente grandes, em um corpo gordo e fofo. Possuía um rabo comprido, parecendo um dinossauro. Seu rosto era enorme, com dois olhos azuis 17

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gigantescos na face, como de moscas, mas extremamente lisos, como duas pedras preciosas. O formato da cabeça lembrava muito o de um coelho, assim como as orelhas grandes, mas dobradas para trás. Raras vezes abria a boca, apenas em caso de ataque. Não se alimentava, nem nada, recebendo energia diretamente do Espírito do Bem. – Adoro esses Lumpas... Muito mesmo – disse Lara, fitando-o mover-se devagar. Magnum os guiou por um caminho pelo qual ela nunca tinha ido, pegando uma estrada de cascalho, diferente da Estrada Principal. Ela tinha visto alguns carroceiros cheios de tralhas para a Oferenda passarem por ali noutrora, mas achava que estavam trabalhando, ou mudando para o mato, como ouvira histórias de seu avô. Ele dizia que as pessoas estavam ficando assustadas e covardes, mas construir coisas na Terra Sagrada era proibido. Havia uma distância muito grande que proibia qualquer construção. E mesmo que fosse liberado, era difícil com aquele terreno irregular. E o que reforçava a ideia de seu avô eram as histórias do velho do mercado, Tadeu, que perdera sua esposa, que fora possuída pelas trevas da Cidade. Quando as pessoas atingiam determinado estágio de degradação, elas ficavam loucas, sedentas de ódio. De acordo com as leis da Última Cidade, deviam ser sacrificadas, pelo bem maior. Algumas pessoas possuídas tinham mais “sorte” e conseguiam fugir sorrateiras pelas grandes matas e ir para a Cidade Maligna sem serem vistas, mas não foi o caso da mulher de Tadeu. Ele dizia que seus sobrinhos moravam na selva, há dois anos, “e moram muito bem, obrigado”, e que viviam melhor do que as pessoas da Última Cidade. Lara nunca vira uma dessas Pessoas do Mato, e suas amigas também nunca disseram terem visto. Assim mesmo ela acreditava,Tadeu era um bom contador de fatos (ou de histórias). Contudo, de vez em quando ele falava mal de seu irmão, conseguindo ser realmente arrogante, e ela não gostava nem um pouco disso. – Seu irmão já está lá, não? No Lago? – indagou Magnum, oferecendo água para ela, que aceitou e disse: 18

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– Sim, está. Saiu bem cedo hoje – tomou um grande gole e devolveu. Rajadas de vento começaram a chegar até eles, rápidas em meio àquelas colinas tortuosas. – Humm, este vento é de chuva... – Pode ser... – Ouvi dizer que as tropas de Rapislash foram derrotadas – disse ela, ríspida. Tentara se segurar, mas sua curiosidade infantil era sempre maior. – Ele está bem? Magnum olhou para o céu; Lara pensou tê-lo visto sorrir, e então ele disse: – Seus Soldados enfrentaram Armorte, é um oponente duro demais. Às vezes nem com as nossas espadas abençoadas pelo Espírito do Bem conseguimos destruir aqueles seres pequenos. Um Mestre, então...! – Espera... Mestre? Armorte? Q–quem?... – Arma da Morte, desculpe. Assim que você o conhece, não? – disse Magnum. – Ah, sim... Armorte... Já ouvi alguns homens falando assim... É meio feio, não? – disse ela colocando a língua para fora. – Uau, um Mestre das Trevas... Nem eu tenho coragem de encarar um desses... – sorriu, nervosa. – Hahahaha! Nem se dê ao trabalho de imaginar isso, amiguinha – disse Magnum esfregando os cabelos dela. – Os Cavaleiros do Bem existem para que você nunca tenha que se preocupar com isso. – Mas e o que aconteceu com Rapislash? Conheço-o, ouvi dizer que está bem, mas ouvi dizer que foi violenta a coisa... Então estou com medo... – Ele está bem, não se preocupe. Perdeu muitos Soldados, congelados em campos antes verdes, e agora azuis e brancos, pálidos como esses tempos... É triste, mas depois... – Magnum sorriu brevemente. – ...Depois que viram Phantomas chegar, não deu outra... Bateram em retirada. Saiba fazer isso quando for necessário, Lara, numa dessas suas aventuras. É uma escolha muito sábia, muito sábia. 19

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– Phantomas?... Phantomas?! – os olhos dela se arregalaram, mas em sua boca aberta havia o que parecia um sorriso. – Santo Espírito do Bem... Vo-você já o viu, Magnum? Já lutou com ele? E está vivo?! Magnum deu um riso fraco e respondeu: – Já o vi, sim... E acho que se o visse outra vez teríamos que bater em retirada como já fizemos há alguns anos... É um monstro terrível demais, além de qualquer definição... – E então, pela primeira vez, Lara notou uma sombra cobrindo-lhe o rosto, e um olhar realmente preocupado, por mais que ele tentasse disfarçar na frente dela. – Desse só o próprio Espírito do Bem pode dar conta... Infelizmente, os Mestres não são tão burros como queremos... E assim como os tememo, eles nos temem... Tem nojo de insetos, Lara? – Bem, aranhas... E cobras... – disse-lhe. – Então, é parecido...Você não gosta delas nem elas de você – concluiu Magnum. – Ambas as partes ficam longe umas das outras, mas há vezes em que não dá pra evitar... Lara então calou-se. Tivera, enfim, sua primeira conversa completa com um Cavaleiro do Bem (não contando o seu irmão, claro). Não conversara muito com Rapislash quando fora até sua oficina, parecia ocupado e distraído demais. E naquele dia nem pensara a respeito. O Cavaleiro ruivo era uma figura interessante, falando às vezes como seu velho avô e outras como seus amigos que riam sem motivos aparentes. E ela achando que seu irmão seria o único estranho da lista. Enfim o caminho para o Lago estava terminando, e chegaram à Planície dos Girassóis. Lara jurava que não passariam por ela naquele caminho, mas pelo visto a Planície era maior do que supunha. Um tapete imenso com as cores amarelo, verde e preto, todos os girassóis apontando para o sol e alguns sempre estranhamente apontados para o Lago Sagrado. Era uma belíssima paisagem dourada. Seguiram pela estrada que adentrava a plantação e Lara ficou maravilhada, pois em outro 20

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caminho eles eram obrigados a contornar as flores. Magnum divertira-se muito notando os olhos brilhantes da menina. Depois adentraram uma mata em meio aos campos mais baixos, com capim macio e árvores bastante verdes de copas largas. A temperatura aumentara brevemente, e a capa de Lara só atrapalhava, prendendo nos arbustos. A trilha já havia desaparecido com o tempo, e o vento gelado, aos poucos, começava a dar lugar a uma brisa calma e confortável. O cheiro fresco no ar era absolutamente familiar, com o que parecia ser um leve e bem–vindo perfume. Saindo do mato, livre da copa de qualquer árvore, lá estava o Lago Sagrado; seu Cone de Luz contornava todo ele erguendo-se até o céu, quase totalmente transparente. Era como uma cortina caindo das nuvens sobre aquelas águas místicas, ou saindo da própria água, ninguém sabia dizer. Lara pediu a bênção do Espírito do Bem por pensamento e percebeu Magnum murmurando algumas palavras, com a mão em seu peito. A extensão do Lago era enorme e podiam ver algumas pessoas na margem. Espalhadas, uma em cada ponta do Lago, e Lara distinguia todas usando a roupa de Magnum. Cavaleiros do Bem. Estavam ajoelhados e outros em pé. Pareciam concentrados como sempre, ignorando por completo uns aos outros, alguns mergulhando suas Oferendas na água e segurando-as por um tempo. – O que trouxe de Oferenda, Cava... Magnum? – indagou Lara, diminuindo o tom de voz, sem tirar os olhos do Cone de Luz que ia até as nuvens. – Bom, eu sempre trago a mesma coisa... Foi dado pelo meu velho pai e significa muito pra mim; então gosto de tê-lo sempre abençoado – disse Magnum, fitando os companheiros, ao longe, espalhados pelo Lago. Abriu a bolsa de pano e retirou dali um objeto estranho. Era sujo e mesmo com as bonitas pedras na ponta tinha um ar antiquado demais. – O que é isso? – indagou Lara, levemente curiosa com a velharia. – É um bastão. A pedra azul da ponta e a menorzinha aqui embaixo foi meu pai quem achou e colocou. Está um pouco velho e arranha21

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do, mas tenho esperanças de que um dia o Espírito do Bem conserte. Quem sabe – sorriu. – Ah, então você é daqueles que deixa os objetos no Lago até o próximo dia de Oferenda? Eu tenho receio em fazer isso... A mãe de uma amiga deixou e bastou passar um dia do Dia da Oferenda e o seu objeto desapareceu, unindo-se ao Espírito do Bem. Não sei como, mas ela ficou contente com isso... – disse Lara. – Não tem medo de que aconteça isso com o seu bastão aí? – Bom, pode acontecer, sim... Mas o Espírito do Bem fica feliz e todos nós deveríamos ficar, caso acontecesse. Não quero me livrar do meu bastão, mas seria um sentimento... agradável saber que uma joia tão importante para minha família voltou para o meu falecido pai. Não concorda? Antes que Lara pudesse responder, alguém a chamara. A atenção dos dois voltara-se para o Cavaleiro do Bem indo em direção a eles. Caminhava depressa, e ambos o reconheciam. Cabelos pretos divididos ao meio, barba malfeita e olhos duros, embora não escondessem o rosto ainda bem jovem. Era mais baixo que Magnum, mas ambos pareciam igualmente fortes. O traje era igual, talvez até a espada. – Lara! – chamou novamente, parando na frente deles. – Olha só... Está junto com os Cavaleiros, que cena bonita. Mas como soube que eu estava aqui? – indagou Lara. Fitou o brasão em seu peito. A cor era vermelha. – Falávamos baixinho... – O Espírito me falou – disse ele. – Então até já falou com ele? – surpreendeu-se ela. – Sabe que não é legal chamá-lo só de Espírito, irmãozão... Ainda mais com essa frieza... – O Espírito não se importa, então por que eu me importaria? – acrescentou ele, ríspido, mas com um leve sorriso fino para a irmã; sorriso que sumira completamente ao voltar os olhos para Magnum. – Ah, claro... Bringul... Claro que eu conhecia... O famoso – disse Magnum estendendo-lhe a mão. – Creio não termos tido a chance de 22

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nos apresentarmos desde que ingressou na Ordem... Sei que o Espírito do Bem nos deixa bastante ocupados no começo... Sou Magnum. – Famoso... – murmurou ele. – ...Você acompanhou Lara até aqui? – Bem, por um bom pedaço... – disse Magnum, trocando olhares com ela. – Obrigado – o irmão de Lara apertou-lhe fortemente a mão e soltou-a tão rápido quanto segurara. – Sou Carlot, como você disse, o famoso... – havia certo tom de desprezo nas últimas palavras dele. – Carlot... – resmungou Lara, chamando-lhe a atenção. Ela sabia que o irmão odiava o que diziam dele e da família. Ela também, mas... nem falavam tanto assim... – Por que o velho não veio? – indagou Carlot. – Ficou bebendo, pra variar? – Eu que quis vir, irmãozão. Olhe, estou vestida e pronta. Só esqueci a fita... – abriu um sorriso rápido e bobo. Carlot sorrira também e passara a mão na cabeça da irmã, descabelando-a. – Ela sabe se defender sozinha, Magnum – voltou-se outra vez para ele. – Eu ouvi a respeito... – novamente trocou olhares amigáveis com ela. – Da próxima vez permita minha irmã, futura Cavaleira do Bem, fazer o caminho por conta própria. Ela precisa de verdadeiros desafios às vezes. Surpresas que irão deixá-la mais competente. A podridão daquela Última Cidade se deve ao fato de todos estarem encolhidos de medo. Acordam e dormem com as mesmas caras acovardadas. E minha irmã não vai ser um deles. – Carlot, eu que o chamei... Não tem problema fugir dos treinos de vez em quando – disse ela colocando a mão no ombro de Magnum. – Não, eu que a chamei – disse Magnum, retirando a mão dela. Fez uma breve reverência com a cabeça. – Pode deixar, na próxima ela virá com suas próprias forças; faz parte do ritual, eu me esqueci. – Ei, assim parece que você me trouxe no colo! – reclamou Lara. Carlot não tirava os olhos dele, fitando-o com desprezo, admiração e superioridade, tudo ao mesmo tempo. 23

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– Adeus, Lara. Obrigado por tudo e desculpe-me por qualquer coisa – Magnum fez uma reverência com a cabeça para ela e voltou-se para Carlot: – Foi um prazer conhecê-lo, Carlot. Já posso sentir que dará um bom Cavaleiro e, como sempre, o Espírito do Bem acertou em cheio. Mas nunca subestime o povo da nossa cidade. Ela é maior do que você pensa, com muito mais pessoas do que você imagina, diferentes entre si. Magnum afastou-se, carregando o bastão e indo até o Lago Sagrado, lentamente, com os passos iguais. – Ele parece legal... – disse Lara, fitando-o se afastar. – Mais pessoas do que eu imagino... – murmurou Carlot. – O que quis dizer, Cavaleiro Magnum? Só posso supor que há mais pessoas fracas e podres do que eu imagino... – abriu um sorriso fino e levemente sarcástico. Naquela noite, Lara preparou o jantar para todos. O avô voltara tarde, trabalhando em uma das torres de vigia espalhadas pela cidade. Reuniram-se na sala, com um prato de sopa quente em mãos, e comeram no sofá enquanto conversavam. – E sua tropa, Carlot, já arranjou a sua? E aquela armadura bonita que eles usam? – indagou Tom, o avô. Tinha cabelos e barba brancos e uma testa larga, adquiridos ao longo de seus quase setenta anos. Seus olhos eram duros e frios como os do neto; afinal, fazia parte da profissão. Tinha um metro e setenta de altura, e seu corpo já era muito enfraquecido. O nariz era incrivelmente pequeno e as sobrancelhas finas. Usava anel nas duas mãos. – Há jovens loucos demais por aí; parece que têm muita vontade de morrer nas mandíbulas de vermes – disse Carlot, olhando para a sopa em mãos. – E outros covardes demais... – Mas então é uma tropa fraca... – comentou a irmã. – De um jeito ou de outro. – Claro que não, irmãzinha, eu não permitiria – disse Carlot, olhando-a e sorrindo. – Vi pessoalmente os testes de todos e selecionei os melhores. Há alguns velhos também, e são bons, admito. 24

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Calaram-se e tomaram um pouco da sopa de batatas e carne, escutando lá fora as últimas pessoas voltando para suas casas. Rodas de carroças e cascos de cavalos. – E Rapislash? Falou com ele sobre a derrota? – indagou Lara. – Rapislash... – murmurou o avô a si mesmo com uma expressão confusa, estranhando o nome. – ...Não falei com ninguém. Além daquele Magnum – disse o irmão, voltando a prestar atenção só na sopa. – É incrível ouvir o Espírito do Bem. Céus, é realmente incrível – mesmo sua surpresa era dita de forma controlada, mas ainda assim expressava-se convincentemente. – Estou orgulhoso, Carlot. Bastante. Talvez possa até dar um jeito naquele Tadeu e sua boca grande... – resmungou Tom. – Cale-se, velho – bufou Carlot. – Chega de Tadeu... – Não, é sério, ele só fala mal de você. E eu gosto de você! – disse Tom. – Fica lembrando... Você sabe, do que houve com seus pobres pais... Lembrando com desprezo! E sendo assim devemos tratá-lo com desprezo também! – bateu a caneca de cerveja na mesa. – Vovô, não pode pensar assim, sabe que é perigoso – disse Lara, levemente preocupada. Embora ficasse sempre brava quando ouvia as pessoas falando mal de sua família. Ela entendia os sentimentos de seu avô. – Cavaleiros do Bem não devem usar suas habilidades para fins pessoais; não seja burro, velho – disse Carlot, erguendo os olhos, seco. – Você que bebe demais e ouve coisas a mais. Deixe aquele idiota de lado e não lhe dê ouvidos. – Carlot, você é um bom rapaz e essa coisa de Semente Maligna... É obvio que é bobagem, e o seu mais novo trabalho é a prova disso! Mas devia saber que isso de Bem e Mal não vai durar pra sempre – disse seu avô, com um fino e torto sorriso nos lábios. Lara sempre o ouvia interessada, embora soubesse, às vezes, distinguir o que realmente valia a pena ou não. – Como assim, vovô? – indagou ela, tomando o suco que também fizera. 25

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– Ora, é óbvio que essa luta não pode ter vencedor. Digo, a Cidade das Trevas contra o Espírito do Bem. O Bem e o Mal sempre irão existir, não podemos simplesmente pensar em destruir um e outro, querida. Veja, você também, Carlot, no fim sobrará apenas uma Energia, uma Força, um Lado. Bem e Mal irão se unir formando um único conceito, já que temos as duas faces em absolutamente tudo. Devíamos nos concentrar em formar um só lado, que abrangesse tanto o Bem quanto o Mal. E isso é algo que um Cavaleiro pode fazer, com muita dedicação e esforço! Já pensou, Carlot, você ocupando o posto de líder no lugar daquele fracote ruivo e em seguida dominando o Espírito e os Mestres?! – ergueu a caneca de cerveja, como se fosse uma espada, e logo depois a bebeu. Carlot observou-o por um longo momento, parcialmente escondido pelas franjas divididas. Lara notara e constatava triste que os dois cada vez se distanciavam mais. – Essa bebida está realmente o destruindo... – bufou Carlot, bebendo suco. – Não tem medo de falar isso para um Cavaleiro do Bem?... E eu ainda pergunto... – Ah, eu não falei?! Nem me xingou tanto, você viu, Lara? – disse Tom, sorrindo e batendo as mãos no joelho. Pegou a caneca cheia de cerveja e ergueu-a mais uma vez. – Ao futuro criador do Lado Perfeito! – E enfiou a caneca na boca, esvaziando-a. Divertida, Lara fez o mesmo com seu suco. – Deixe de devaneios, maldito... – resmungou Carlot, abafado pelas risadas do avô. Levantou-se, ainda vestindo as roupas claras, e a irmã disse: – Vou levar minha espada pra consertar amanhã, arranhei-a toda naquelas tábuas que você pendurou na árvore. Quer que eu leve algo, Carlot? – Eu conserto, não se preocupe – disse ele. – Deixa, irmãozão, você está ficando fora o dia todo; vou levar até lá pra nos poupar trabalho – falou Lara, sorrindo. – É barato. 26

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– Não preciso da ajuda de Magnum – insistiu Carlot. – Magnum? Não, é Rapislash quem trabalha lá. – Junto com Magnum. – ...Verdade? – surpreendeu-se. – Nossa, não o vi lá... Bom, mas agora sim que eu vou levar! – riu. Carlot resmungou baixinho, mas não demorou muito para abrir um doce sorriso vendo o rosto feliz da irmã. Ainda distinguia um machucado na testa dela, feito duas semanas atrás enquanto treinavam. Era uma irmã de ferro. Que valia ouro. Beijou-a na testa, virou-se e foi até o quarto, fechando a porta da sala para não ouvir o avô e ela enquanto dormia. Retirou a roupa, cansado, e arrumou a cama bagunçada. Aproximou-se de novo da porta que dividia o corredor com a sala e ouviu o avô e a irmã brincarem. – ...Vamos lá, Lara, segundo seu irmão você é melhor que isso... – ouvia Tom dizer, em meio aos soluços. Ouvia também os risos da irmã e batidas nos móveis. Em seguida, ouviu um baque forte, a voz do avô engasgada e o barulho de algo caindo no chão. – ...Tá melhorando, tá melhorando... – ouvia os suspiros cansados de Lara. Já vira os dois caídos no chão tentando imobilizar um ao outro, e pareciam bastante felizes. O avô podia não valer nada para ele, mas pelo menos fazia sua querida irmã mais feliz. Era uma casa de guerreiros; de que outro jeito ela poderia passar o tempo, afinal? Carlot escorou-se na parede, sentou ao lado da porta e continuou atento aos ruídos, sorrindo, pensativo. O velho provavelmente ficaria bebendo na sala por um bom tempo e Lara dormiria no sofá, como sempre, depois que brincavam de luta. Quatro dias depois... Houve um ataque de Jaguares na parte leste da Última Cidade, vindo dos rochedos há muito deixados de lado pela população, por não haver água ou comida. As bestas invadiram ferozes e deixaram cerca de 27

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trinta feridos e cinquenta mortos. Além de famílias desabrigadas e ruas viradas em caos. A tropa que os expulsou fora de Criopus, conseguindo matar apenas cinco Jaguares. A população tentou enfrentá-los como podia, mas armas comuns raramente funcionavam em bichos grandes como os Jaguares da Cidade das Trevas. Por maior que fosse a cidade, a população ficava sabendo das coisas muito rápido; era como se sentissem no ar, mesmo antes de os alarmes soarem nas torres de vigia. Sobretudo os Cavaleiros do Bem. Carlot não deixou Lara ir buscar a espada na oficina, por exemplo.Tadeu estava estranhamente calado. Saulo Leki deixara as cabras no celeiro e fora buscar leite na loja de Tadeu sem trocarem uma palavra; eram sensações e atos estranhos assim que ocorriam antes dos alarmes. No fundo, todos ficavam aliviados por ouvirem apenas os tambores distantes, e não os rugidos dos Jaguares na sua vizinhança. Carlot, Magnum e Mirik se encontraram em um dos Quartéis Generais dez horas depois do ataque; os outros estariam trabalhando e iriam se reunir outrora. Rapislash ainda estava repousando em casa do ataque de Arma da Morte; Criopus e Maucor repousavam em outro QG cuidando dos homens feridos e entregando relatórios para o Conselho da cidade. – Como matamos apenas cinco? Cinco?! Havia vinte Jaguares! – disse Carlot tendo os números oficiais do ataque. – O que o Espírito do Bem viu nesse Criopus? – Carlot – Magnum chamou-lhe a atenção e ambos trocaram olhares duros. – Não é culpa de Criopus, o bairro estava uma zona, e os Jaguares os levaram para as pedras. Não há pior terreno – disse o homem ao lado de Magnum, moreno, quase queimado, o rosto tão grande quanto o do Cavaleiro ruivo. Seus cabelos eram compridos e presos em um rabo de cavalo, encaracolado. Seus olhos eram acinzentados e quase frios, sob grossas sobrancelhas. Era maior e mais largo que qualquer outro Cavaleiro do Bem e chamava-se Mirik. 28

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Cidade das trevas III - A Terra Sagrada  

A busca ao Espírito do Bem chega ao fim. O grupo de campistas liderados por Magnum se vê cada vez mais próximo de reunir todas as Armas Sag...

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