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 Fernando Corrêa nando@noize.com.br

CONTEÚDO_ Life Is Music // Leia Isto // News // Bandas Que Você Não Conhece // Online // Move That Jukebox // Krisiun // Pancadão // Cena Independente // Coletivos // VizuPreza // FFW & REW // Rock Rocket // Reviews // Cinema // Shows // Fotos // Jammin’

ARTE DE CAPA_ RAFAEL SILVEIRA

o

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 Felipe Neves Tatu Marco Chaparro NOIZE TV: Bivis Johnny Marco Vicente Teixeira noizetv@noize.com.br 
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Lucca Rossi Dríade Aguiar Ney Hugo Fredi Chernobyl Endres Bruno Nogueira Livio Paes Vilela Fernando Rosa Luiz Silveira Ricardo Finocchiaro Mely Paredes Carlos Eduardo Leite Felipe Guimarães Eduardo Guspe Rafael Silveira Shock Rhino MOVE THAT JUKEBOX: Alex Correa Marçal Righi Neto Rodrigues www.movethatjukebox.com 
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EDITORIAL | Independentes e livres.

Rafael Silveira está na ativa desde a década de 1980. Do início como fanzineiro até o momento atual, foram muitos trabalhos em revistas brazucas, dois livros publicados e exposições aqui e nos EUA. Voltou suas atenções para a ilustração, no início dos anos 2000, e para a pintura a óleo, em 2004. Esta última rendeu um de seus últimos grandes trabalhos, a série de pinturas que ilustra o álbum mais recente do Skank. Confira mais sobre Rafaelsilveira.com.

REDAÇÃO: Carolina De Marchi carol@noize.com.br Maria Joana Avellar joana@noize.com.br Brunna Radaelli brunna@noize.com.br

Fernanda Grabauska

fernanda@noize.com.br


Os anúncios e os textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da revista.

EXPEDIENTE #27 // ANO 3 // SETEMBRO ‘09_

trabalho

do

cara

em

É claro que independência e liberdade são conceitos diferentes. A primeira diz respeito às influências que não incidem sobre a gente, que não nos dominam nem nos tentam definir. A segunda fala daquilo que podemos fazer, da nossa ação, que é livre, mas respeita o próximo. A manutenção da primeira depende da segunda. É impossível que o independente siga se não seguir livre, ou seja, se não existir gente que age, que trabalha, que toca a música e toca o barco. Por isso, não parecia inteligente a NOIZE #27 falar de independência sem falar de liberdade. A liberdade dos coletivos, que dão a cara a tapa e dão seu trabalho por amor à cultura, à música, à arte. Reconhecemos o seu trabalho aqui, ainda que ele reflita também em toda a linha que corre sobre essas páginas. Falamos do funk carioca, o grito de liberdade da favela que chegou primeiro aos ouvidos do asfalto, e que desde 1989—e mesmo muito antes—tensiona o discurso da hipocrisia e faz música da miséria. Clicamos o Krisiun, símbolo de continuidade da força do metal brasileiro no mundo. E também fotografamos a Rock Rocket, que não quer saber de nada disso, só de rock. Então chamamos gente dos quatro cantos do Brasil para dar uma força e, com liberdade, falar sobre o que a independência tem dado de frutos nos quintais do indie nacional. Mas não tome isso como uma receita pronta, tudo que se escreve e se desenha nesta NOIZE #27 é livre para Liberte-se!

seguir seu caminho no entendimento de cada leitor.


_foto: felipe neves

_dir. arte: raafel rocha

_agradecimentos: camila mazzini

life is music


NOME_ Nico Nicolaiewsky PROFISSÃO_ Ator e Músico UM DISCO_ Clandestino | Manu Chao

“A música representa uma parte muito grande da minha vida, às vezes até demais. É super maravilhoso e ao mesmo tempo é uma maldição. Eu acho que o humor, a parte cênica, na verdade, é musical, no sentido de ser toda marcada por idéias rítmicas. O movimento é a mesma coisa que a música. Então eu acho que o teatro que eu faço vem completamente da música, da música enquanto ritmo, enquanto silêncio, enquanto todas as variações de ritmo, acelerando e retardando, e ao mesmo tempo das alturas também.”


“Eu gostaria que a Tropicália fosse lembrada como revolução, como o fogo selvagem e expontâneo da juventude, como sexualidade pura, liberdade e, afinal de contas, uma grande quantidade de amor e idealismo.” Sérgio Dias | Os Mutantes

Nelio Rodrigues | Autor de Histórias perdidas do rock brasileiro

LEIA ISTO “O rock como fenômeno de massas é atrasado no Brasil. Só passou a ganhar mídia nos anos 80. Antes era uma vida de guerreiro, tanto que muitos desistiam e iam estudar. Mas é uma pena que, mesmo quando se fala dos anos 60 e 70, só exista espaço para Rita Lee, Raul Seixas, Mutantes. Muitos discos dessa época são melhores do que Raulzito e os Panteras, estreia do Raul Seixas (1967), por exemplo.”

leia isto_

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“Para quem não sabe, minha filha foi alfabetizada em inglês.” Xuxa | Sobre Sasha

“Sou a favor de a música circular, do download, legal ou ilegal. E a Universal que me perdoe. Até porque continuo comprando “No Brasil o fundo discos. Mas somos mais respeitados por do poço é apenas estar numa grande gravadora. Isso é uma uma etapa.” grande babaquice, pois há artistas maraLuís Fernando Veríssimo vilhosos que não estão em gravadoras.” Hélio Flanders | Vanguart


_SERGIO DIAS, MC LEONARDO, RAUL SEIXAS, ROCK ROCKET, XUXA, EMICIDA..

loucura de ser um sujeito normal.”

“As bandas que hoje em dia ocupam o espaço do rock na midia simplesmente não são de rock, isso é uma merda. Minha esperança é que seja uma modinha passageira. Paralelamente a isso a gente continua fazendo nosso trampo e conseguindo se virar sobrevivendo de pequenos golpes.” Noel | Rock Rocket, que tá na revista.

Raul Seixas

“Uma vez fomos tocar em Porto Alegre e eu acordei dois dias depois, tatuado, sem saber o que tava escrito.”

“A arte de ser louco é jamais cometer a

Alan | Rock Rocket

“O Brasil precisa explorar com urgência a sua riqueza - porque a pobreza não agüenta mais ser explorada.” Max Nunes

“Cobrar do funk puritanismo, ética... é uma piada. Ele não teve nada disso. O governo nunca deu um real pro baile funk acontecer, e o baile funk continua acontecendo, se mostrando pro mundo. Então a gente tem que saber a quem interessa calar a nossa voz. Nós não vamos aceitar isso” MC Leonardo | Logo ali, na matéria sobre o funk carioca.

“Se eu soubesse cantar mesmo seria sambista.” Emicida | Rapper que tá na matéria de capa. 9 noize.com.br


NEWS

_PLANETA TERRA E MAQUINARIA, BEIRUT, VMB, VITOR RAMIL, BELCHIOR, JOAO BRASIL

Divulgação

ou oldies, depende do ponto de vista.

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a nova batalha de gigantes A batalha de festivais comerciais em 2008 foi acirrada, com um Planeta Terra se fixando como festival da garotada e um Tim Festival multipalco em edição derradeira. Neste ano há um inusitado conflito de grandes festivais, em que o sobrevivente Planeta Terra e o Maquinaria dividirão a mesma data, 7 de novembro. O desconforto só fica maior agora que já conhecemos boa parte das atrações que um e outro apresentarão para disputar o nosso ingresso. O festival do Terra troca a locação na Villa dos Galpões pelo inusitado Playcenter e anunciou que traz o nova-iorquino Sonic Youth e o escocês Primal Scream. Tempera a nostalgia com gente recente: o duo nova-iorquino Ting Tings, o inglês Metronomy e o mezzo americano, mezzo brasileiro N.A.S.A.. Kings of Leon e Yeah Yeah Yeahs eram fortemente cogitados quando fechamos esta edição, e os brasileiros Copacabana Club, o destaque instrumental Macaco Bong e a anarquia saltitante do Móveis Coloniais de Acaju eram certos. Ah, e as “crianças” poderão brincar em algumas atrações do parque de diversões, sim. Menos contemporâneo, menos dançante, mas nem por isso menos empolgante, o Maquinaria confirmou três grandes nomes internacionais. A começar pelo Faith no More (foto) de Mike Patton, que deve provar se o retorno dos ’90s vale ou não a pena. De lambuja, Jane’s Addiction e Deftones completam o plantel gringo, uma década atrasado. O conceito apresentado pela produção do evento, que acontece na Chácara do Jockey, é o de replicar os grandiosos e pluriartísticos festivais europeus.Veremos.


_Volver - Acima da Chuva :: Novos Baianos - Acabou Chorare :: Doces Bárbaros - Doces Bárbaros :: Racionais MC’s - Sobrevivendo no inferno :: Black Drawing Chalks - Big Deal

_ouca agora ´

__VAMO METÊ BRONCA | O VMB é um dos momentos anuais mais divertidos na música nacional. Veja bem, além de celebrarmos as bandas bombadas, do undeground mais seleto ao mainstream mais comercial, ainda vêm gringos tocar e nos presentear com acontecimentos únicos, como o playback do Blocparty em 2008 (se isso fosse internet, aqui ia um link para o

vídeo no youtube...). A festa deste ano já está desenhada, com as indicações feitas e as apresentações definidas. O mestre de cerimônias da vez é Marcelo Adnet, e o show gringo é dos britânicos do Franz Ferdinand, que, pelo visto, fazem um bate-cartão doidão na premiação da MTV e retornam para casa. E os indicados, claro, você confere em vmb.mtv.com.br.

Divulgação

Kmeron

Obo Obolina

__BEIRUT IN BRAZIL | Com a chegada do Beirut às terras brasileiras, o clima de leste-europeu e ukuleles tomou conta da juventude. Fãs reuniram-se para tocar em três grandes capitais, houve petição para que os caras tocassem duas vezes no Circo Voador, e o que mais se comentou foi que os norte-americanos estavam se afogando na caipirinha. Foi em decorrência desta última que a situação mais, digamos, brasileira aconteceu. Em Salvador, no festival PercPan, um Zach Condon embriagado, ingênuo e cantando mal resolveu chamar a platéia no palco. Um microfone e um pandeiro sumiram e nunca mais foram vistos . Então, o bis também desapareceu.

__ARTE E DESIGN | São Paulo e Salvador recebem em outubro a principal conferência de Arte e Design do País. Na verdade, o Pixel Show é pioneiro no Brasil e reúne conferências e feira de artes em um mesmo evento anual, desde outubro de 2005. O projeto, organizado pela editora Zupi, é oportunidade de ouro para artistas e designers em busca de inspiração e renovação, já que nele são apresentados novos métodos, cases e histórias da profissão – isso sem contar as experiências trocadas entre os próprios participantes. Em São Paulo, a função acontece nos dias 10 e 11 de outubro. A data de Salvador será confirmada em breve no site pixelshow.com.br.

Divulgacão

ON THE ROAD | wado _Melhor coisa de sair em turnê O bom é conhecer os lugares e as pessoas e conviver com a banda, divertir as pessoas com a música. _Melhor comida e bebida de turnê Comidas leves pegam bem, peixinho frito, uma carnezinha de sol e saladas são legais. É bom evitar as comidas mais hardcore, mas de vez em quando dá pra arriscar.

5 Discos Para Se Ouvir Na Estrada: _Junio Barreto - Junio Barreto _ Roberto Ribeiro - Fala meu Povo! _Fábio Góes - Sol no Escuro _Mopho - Mopho _Davi Moraes - Papo Macaco 11 noize.com.br


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NEWS San Marinho/Reprodução

Caroline G./Divulgação

Divulgação

__BRAZILIAN DAY | A edição nova-iorquina do Brazilian Day em 2009 reuniu cerca de um milhão de participantes na 6ª Avenida. Brasileiros, americanos e pessoas de todos os lugares do mundo se uniram para curtir ao vivo os shows gratuitos. Um line-up bem brasileiro foi

__ACHÔ O BELCHIOR | Na verdade se pronuncia Belchi-ôr, e não Belchi-ór como você leu ali no título. Se isso não fosse motivo suficiente para querer largar tudo de mão, o cantor cearense e sex-symbol bigodudo das antigas ainda estava enrolado com dívidas de pensão, estacionamento e aluguel – só no estacionamento do aeroporto de Congonhas, a dívida passava dos R$ 10 mil. Após dois anos “tranquilo”, aparecendo esporadicamente em fotografias com fãs, finalmente foi impossível escapar da produção do programa dominical da Rede Globo, que achou o cara no Uruguai. Jogada de marketing? Afinal, por que tanto auê? No fim, Belchior não parece ter pressa de voltar para o Brasil e disse estar trabalhando em novas composições. Será que lá pelo menos falam o nome dele direito?

__RAMIL-VELOSO | O próximo disco de Vitor Ramil incluirá uma parceria com Caetano Veloso. A talentosa dupla gravou “Milonga de los morenos”, composta por Ramil sobre o poema do argentino Jorge Luis Borges. O disco marca a volta do gaúcho às milongas que consagraram o excelente Ramilonga – são 12 canções, todas poemas de Borges musicados. Ana Ruth Miranda

__JOHN BRAZIL | João Brasil ganhou reconhecimento com mashups bem humorados e letras malandras. Pai de canções como “Pau Molão”, “Baranga” e “Supercool”, o multi-instrumentista acaba de aportar com seu funk fanfarrão no velho mundo. A primeira turnê européia do compositor está rolando, e começou por Londres. Dá um look: fmjoaobrasil.blogspot.com.

escalado para manter o clima de carnaval na terra da Estátua da Liberdade: Elba Ramalho, Marcelo D2, Carlinhos Brown, Alcione, Arlindo Cruz e até Victor e Léo disseram “Hi!”. Houve até a lavagem da Rua 46 por baianas caracterizadas – praticamente um Bomfim globalizado. Brasileiro está em todo lugar.


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bandas que voce nao conhece mas deveria conhecer_ Divulgação

burro morto Origem: João Pessoa, PB Som: Ótima banda paraibana que mistura psicodelia, jazz, afro-beat e o que mais colaborar para o climão groovy que os caras atingem. Tão na matéria de capa também. Escute: Navalha Cega, Menarca, Cabaret myspace.com/burromorto

estuário Origem: Recife, PE Som: Diferentemente de boa parte da nata do instrumental, o Estuário bota muita latinidade que Recife lhe empresta num caldeirão jazzy. Escute: Um abraço pro Rui,Vento das águas, Outubro myspace.com/estuario

CASSIM E BARBÁRIA Origem: Florianópolis, SC Som: Viagem da psicodelia ao soul, com uma cara mais progressiva. Tocaram com Damo Suzuki, dos pioneiros do krautrock Can. Escute: That old spell, Bixa, The Orchard myspace.com/cassimf

quinteto branco e preto Cuidado, saudosistas, o Quinteto em Branco e Preto pode lhes deixar confusos. É tão bonito o resgate que os cinco bambas paulistas fazem da era de ouro do samba, que aqueles que preterem as novas gerações em nome de um eterno resgate do passado podem surpreender-se sacolejando ao som deste quinteto. Amadrinhados por Beth Carvalho, os garotos já não são novidade para quem se liga com mais força no samba de raiz—recentemente têm feito grandes trabalhos ao lado de gente como Maria Rita, e em 2003, quando o integrante mais velho do grupo tinha 25 anos, já haviam acompanhado Ivone Lara, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e uma lista sem fim de bambas e afins. Em 2008 lançaram com Jair Rodrigues o disco Jair Rodrigues em Branco e Preto. Mas Magno (pandeiro), Maurílio (cavaco), Yvison (percussão), Everson

(violão) e Victor Hugo (surdo) dispensam credenciais de terceiros na hora de apresentar sua música; prova disso são os três discos próprios—o terceiro, Patrimônio da Humanidade, lançado pela Trama também no ano passado. Os sambas de breque, partido-alto e terreiro da turma se impõem em um mercado confuso entre um presente difícil de ser inventado e um passado referenciado demais. A música do quinteto, no entanto, soa fresca como se tivesse sido composta por seus mestres, e talvez este seja mesmo um mistério do samba, que não fica velho, mesmo—e talvez mais ainda—quando feito à moda antiga. Escute: A palavra certa é “veja”. No YouTube, os vídeos do quinteto com Maria Rita servem todos para encher o coração de samba.


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bandas que voce nao conhece mas deveria conhecer_ Ivana Debértolis

STELA CAMPOS Origem: São Paulo, SP Som: No seu quarto álbum, Stela consolida a sonoridade garageira com pegadas psicodélica. Guitarras ritimadas e a voz macia dão o tom do novo trabalho. Escute: Mustang Bar e Laura Te Espera Com Uma Arma myspace.com/stelacampos

BORAIMBOLÁ Origem: Porto Alegre, RS Som: A Boraimbolá mescla som, performance e arte. Com um toque tipicamente brasileiro, a banda também é uma mistura bem dosada de sopro, corda e letras sobre o cotidiano. Escute: Suingue, Segunda Feira e Boraimbolá myspace.com/boraimbola

HOTEL SANTA CLARA Origem: Porto Alegre, RS Som: A Hotel Santa clara tem muitos membros e muitas influências. Mas não dá para ouvir o som deles e não pensar em Belle e Sebastian. Fofo, indie-folk-pop simples e cativante. Escute: Witty Song, Hopefully Foolness e The Will myspace.com/hotelsantaclara

bruno morais Nascido em Londrina, PR, com uma passagem pelo Rio de Janeiro, antes de finalmente cravar o pé em São Paulo. Este foi o caminho percorrido por Burno Morais até se tornar músico. Antes disso, ainda passou um tempo dedicando-se à carreira de ator. Não adiantou: foi como compositor de canções que Bruno realizou sua Vontade Superstar, expressão que dá nome ao segundo disco do cara, lançado antes do meio do ano pelo selo YB Music, o mesmo de Curumin, outro artista da nova leva da MPB, esta que leva os ritmos fundamentais do Brasil de encontro ao rock, ao jazz e a outros ritmos importados. Como foi bem dito em uma resenha recente de Livio Vilela, Morais une a sutileza à exuberância: seu cantar é pequeno, herança bossanovista, mas a produção de Guilherme Kastrup e as ideias do próprio artista rendem camadas e

elementos diversos, pensados para deliciar o ouvido de quem escuta o disco mais atentamente – elementos eletrônicos, chocalhos, jogos vocais. Aí se manifesta a lista gigante de influências no Myspace do cara (lista que certamente ainda deixa muita coisa de fora). Morais dá unidade às colaborações, que ganham clima de sonho. O lado A do disco, “Pode Sorrir”, foi gravado dentro de uma maria fumaça, e o lado B, “A Vontade”, em um cemitério de trens. O super-herói que desafia os dias e a dor na música de Bruno é, como ele mesmo definiu, “qualquer um que se lança rumo às oportunidades que a vida oferece”. No fim das contas, é Morais um dos super-heróis da MPB atual. Escute: A Vontade Superstar de cabo a rabo, passando pela linda releitura de “O Mundo é Assim”, bela síntese do que o disco propõe.


entrevistas por messenger sem maquiagem

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online _causapropria.com.br O jornalista Ricardo Alexandre disponibilizou no seu blog a íntegra do livro Beatles: Para saber mais. E tem mais coisa boa lá.

bdc - my favorite way _Animação belíssima e com pinta de artesanal, delicia os sentidos enquanto o rock melodicamente porrada da Black Drawing Chalks satisfaz os ouvidos. Nunca é demais ressaltar que os desenhos super coloridos são em parte feitos pelos caras da banda.

_learnsomethingeveryday.com Aprenda algo legal todos os dias.Você sabia que passarinhos azuis não veem a cor azul? Ou que algumas baleias cometem suicídio?

Tags: black drawing favourite way

mp3 Casa Caiada | Mombojó As várias camadas de “Casa Caiada” fazem a alegria dos fãs de Mombojó.

júpiter maca - modern kid _O gênio gaúcho se reinventa mais uma vez e vem mezzo Morrissey, mezzo Ian Curtis representar o front brasileiro na batalha entre os cantores graves. O clipe belíssimo, dirigido por André Peniche, tem o clima perfeito do pós-punk, e este novo Júpiter está ótimo.

Dylan sings Bowie | Jumbo Elektro Faixa de abertura do novo do Jumbo Elektro. Saca só. Banda Gentileza | Banda Gentileza Os curitibanos, ex-Heitor e Banda Gentileza, lançam o primeiro disco. A mp3 você encontra em bloodypop.com.

Tags: jupiter maca modern kid

tiny urls

transmissor - primeiro de agosto

tinyurl.com/1001discos Nunca é demais relembrar o site brasileiro que vem disponibilizando os 1001 discos que você deve ouvir antes de morrer.

_Em meio às belas cores que se alternam no cenário de

tinyurl.com/noiasuina A Gripe Suína não passa de mais uma conspiração.

“Primeiro de Agosto”, dá para sentir que não se trata de mais uma bandinha fazendo o indie brasileiro padrão. Indie pop interessante, com instrumentos neo-pop como o ukelele.

Tags: transmissor primeiro agosto oficial

violins garimpo hitler oasis split making of jupiter modern kid vanusa hino essa é pra você primo lovefoxxx discotecagi michael jackson dos pobres

weezer raditude

bjsr play moveis

coloniais cheia de manha dont text and drive minc tribo de jah

poeta alexandre frota

9.9.9 beirutando sunday simely bossa the xx


movethatjukebox.com

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move that jukebox

__Até agora, qual foi o melhor lançamento nacional do ano? _Opções em tinyurl.com/enquetemtj __Resultado da Enquete de Agosto Entre os shows internacionais especulados atá agora, a quais você pretende ir? _Arctic Monkeys* 20% _The Killers 14% _Beirut 12% _Paul McCartney 11% _Outros 43% *Os Monkeys teriam um show agendado no Chile em 14 de setembro, mas os boatos foram desmentidos por uma turnê norte-americana. Será que rola?

__Incansáveis Warhols | Em entrevista ao rraurl.com, The Dandy Warhols disse que pretende vir ao Brasil em breve, mas falta alguém para financiar os planos: “Assim que tivermos um contrato, com dinheiro depositado por parte do promoter, nós compramos nossas passagens e vamos.” O grupo foi pego de surpresa no ano passado pela produção do Festival Indie Rock, que boicotou o próprio evento de uma hora para outra. Os fãs de Broken Social Scene, Late of the Píer e The Futureheads também saíram de mãos abanando por causa do cancelamento.

__O PEDIDO | Para Marcelo Camelo, aquele seria apenas mais um show de sua turnê, mas algo aconteceu para quebrar a rotina. Em certo momento de pausa no repertório, o destemido Felipe subiu no palco do músico para abrir o coração e pedir sua namorada em casamento. Quem viu a cena ali, ao vivo, mal acreditou no que estava acontecendo. O evento, claro, foi registrado e caiu na web: tinyurl.com/felipedestemido.

Divulgação

enquete

__11 de Setembro | Setembro também é mês de Jumbo Elektro. A banda, formada por partes dos paulistas Cérebro Eletrônico e Labo, tem o lançamento de seu segundo disco marcado para o emblemático 11 de setembro. O nome do trabalho não poderia estar mais bem relacionado à data. Terrorist?! contou com produção de Dudu Tsuda, tecladista do sexteto.

Divulgacão

_L.A.B. Também conhecido como Less a Bullshit, este trio de Novo Hamburgo (RS) vem ganhando cada vez mais reputação no cenário alternativo nacional. Novíssima, a banda foi formada no início de 2009 e já lançou o primeiro EP virtual, pela Baritone Records, que tem se saído muito bem nas críticas—o que reflete diretamente na agenda deles, que têm feito shows em vários estados brasileiros. O som é bem agradável, um electrorock que mistura vocais e guitarras distorcidas com belas melodias, marcado pelas batidas cruas e dançantes. As letras são inteiramente em português, o que os diferencia bem das outras bandas nacionais do gênero. Um bom cartão de visita é a faixa “Visão além do alcance”, a mais pesada do EP, que conta com uma inspirada base de sintetizador. Ou então “Vida em 8 bits”, que traz um eletrônico sem cara de balada, mas sim de praia.

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moving

_L.A.B., DANDY WARHOLS, CAMELO, JUMBO ELEKTRO


_texto RICARDO FiNOCCHIARO _foto: divulgacao

krisiun

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O Passado | O Krisiun se formou em Porto Alegre. Os irmãos Max Kolesne (bateria), Moyses Kolesne (guitarra) e Alex Camargo (voz/baixo) tiveram o primeiro contato com o som pesado de bandas como Black Sabbath e Dio graças a Alex, o mais velho dos três. Isso lá no início dos anos 90, quando Alex costumava gastar boa parte de seu salário com discos comprados na finada loja Megaforce, primeira loja especializada em metal da capital gaúcha. O Presente | Hoje o Krisiun é a banda brasileira que mais faz shows no exterior. Não tem Ivete Sangalo nem Caetano que leve mais a bandeira verde e amarela para palcos do mundo. Percorreu a longa estrada do underground brasileiro até os maiores festivais de metal do planeta, onde já tocou ao lado de grupos que são influ-

ências diretas para o seu som como Slayer, Motörhead e Morbid Angel. E hoje comemora quando pode percorrer a estrada de volta para casa. A NOIZE acompanhou o show que eles realizaram em sua terra natal em agosto e depois foi bater um papo com os caras no backstage. Era de cansaço o clima predominante no camarim do Bar Opinião, em Porto Alegre. Fácil entender o motivo, que extrapolava o recém encerrado show ­e encontrava sentido nas horas passadas em saguões de aeroportos pelo mundo. Mas era também de confraternização o sentimento no ar, a continuação tranquila para a sequência de petardos metaleiros que terminara minutos antes. Estar em uma banda que excursiona pelo mundo faz com que


krisiun

24 se fique longe de casa por muito tempo, e segundo Max Kolesne, voltar para a cidade natal e poder rever os familiares, amigos e fãs de longa data é uma honra. “Em Porto Alegre tem muito fã de fé, mesmo com essa tempestade e frio”. Frio mesmo. A capital gaúcha vivia um dos invernos mais rigorosos dos últimos anos quando o Krisiun aterrissou no Opinião, acompanhado de uma chuva torrencial que castigou todo o final de semana. Mas isso era na rua, Dentro, animado, Moyses falou das lembranças que caminhar pelas ruas da cidade traziam e arrematou: “Posso tocar em show pra 10 mil pessoas, mas em Porto Alegre, independente da quantidade de pessoas, sempre vai ser especial”. Lar, doce lar. Para o Krisiun, voltar a Porto Alegre significa passar por um dos curtos momentos que intercalam turnês e shows para públicos de todos os cantos do planeta. Por um lado, quebra uma rotina de coisas pouco divertidas, como ônibus quebrados no meio de estradas estrangeiras, sob temperaturas de até -20°C, ou infindáveis checkins nos aeroportos e atrasos constantes nos voos. Por outro, significa uma pausa no ganha-pão principal, que é a expansão meteórica da banda para além dos limites do metal brasileiro, algo que encontra no Sepultura um dos poucos precedentes. Na nova turnê, o Krisiun já passou por mais de 50 cidades e deve ainda visitar mais 50 só em 2009. São mais de 100 shows por ano. Segundo Max, em cada lugar que eles tocam, a quantidade e personalidade do público é diferente. “Em cidades como Nova York, Los Angeles e San Francisco, o público é bem maior. Mas, mesmo tocando para públicos menores, o fã é sempre foda, veste a camiseta, tem todos os CDs da banda, realmente acompanha o grupo”, explica. Tempestade sulina A atual turnê divulga o novo álbum, Southern Storm, considerado em resenhas de veículos especializados o melhor álbum do Krisiun desde a fundação da banda. “Tinha jornalista que não entendia o nosso som ou não compreendia que o Krisiun era uma banda que veio pra ficar, e não uma banda passageira”, avalia Max. “Aprendemos muito com o tempo, dedicando mais à produção dos álbuns. As composições melhoraram, houve uma dinamização nas músicas. A música se manteve extrema, mas hoje é algo que pode ser melhor absorvido por um fã de metal em geral, independente de ele ser fã de black, death, thrash ou heavy metal”. É uma característica que Alex ressalta, no entanto, o que, segundo muitos

fãs da banda, a diferencia dos compatriotas Sepultura: “Sempre nos mantivemos fiéis ao nosso estilo”. Resistir Opiniões à parte, o irmãos Cavalera e cia. sempre foram uma referência para o Krisiun. Em Southern Storm há um cover de “Refuse/Resist”, do clássico Chaos A.D.. “Fazia tempo que queríamos fazer isso, o Sepultura é a maior banda da história do Brasil. Foi muito natural escolher esse som. Já havíamos feito alguns shows com participação do Andreas Kisser (guitarrista do Sepultura) e tocado “Refuse/Resist”; isso facilitou a escolha. Gostamos da música por não pertencer à fase mais rápida dos caras, é um som mais cadenciado e diferenciado”, explica Max. Diferenciada também foi a trajetória do Sepultura, uma banda que acabou tão ou mais louvada fora do país do que dentro dele—o reconhecimento nacional foi mais uma conseqüência do que ocorreu no Exterior. O Krisiun segue a receita e já se apresentou nos maiores festivais de metal do mundo, como o Wacken Open Air, na Alemanha, e o Summer Breeze, nos EUA. Sonham em poder tocar em um Rock in Rio, quando o evento fizer jus ao nome e não colocar Ivete Sangalo no line up. E há um último desejo especial: excursionar com o Slayer ou com o Motörhead, bandas que acompanham os membros em seus headphones e já estiveram ao lado deles em grandes festivais pelo mundo. Relaxar A rotina constante de shows exige controle para manter o pique e assegurar que os shows mantenham um padrão de qualidade—fruto apenas da experiência, asseguram. O importante é não se detonar. “Existe o deslumbre da noite com a bebida e as drogas, aquela coisa toda, o lance é estar fora dessa”, recomenda Alex. A dúvida que pode ficar é: mas em nenhum momento o metal deixa de ditar o ritmo da vida? Essa galera não descansa? A resposta é “às vezes”.Moyses escuta de jazz a blues, de música clássica a gauchesca. “Vamos de Noel Guarani a Slayer”, brinca. Max se considera um “metaleiro nato”—sua calmaria são grupos antigos como Black Sabbath, Motörhead, AC/DC, Deep Purple. “Escuto Miles Davis, Buddy Rich, John Lee Hooker, Muddy Waters, mas o que eu gosto mesmo é de chegar em casa e colocar um metal com som bem alto”. Então fecha-se mais um ciclo e é hora de voltar para a estrada.


_fotos: felipe neves


_texto MARIA JOANA AVELLAR funk

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funk carioca all stars

Bárbara, a Babi, dançava funk muito bem. Ela era minha principal parceira de coreografias do Bonde do Tigrão nas festas do colégio. Fomos nós que apresentamos, anos mais tarde, a musa Tati Quebra Barraco para o resto da turma. Não estava com ela quando franzi a testa para M.I.A e Diplo na MTV, mas perguntei no telefone, ingênua: “Será que existe mesmo pancadão no Sri Lanka?”+1. Embora, diretamente, este não seja um texto sobre amizade, e sim sobre o caminho que levou o funk aos braços de europeus e norte-americanos, sinto-me obrigada a recapitular esse pedaço de nossa história. Um detalhe interessante é que sempre me incomodei em morar perto de terreiros de Umbanda até conhecer a Babi. Com o início da batucada rotineira em uma noite de sábado, enquanto eu me encolhia de vergonha no sofá da sala, minha amiga se levantou e começou a rebolar e dançar ao som dos tambores daquele ritmo repetitivo. Antes que eu percebesse, também me mexia involuntariamente com a música que vinha da casa de meus vizinhos. Como a Umbanda, o funk também é famoso por sofrer preconceito na mesma medida em que não deixa ninguém ficar parado. Ambas as manifestações culturais foram presenteadas por imigrantes negros e são comuns nos morros e favelas, regiões ignoradas pelos governantes e pela sociedade. As duas sofreram mutações ao longo das décadas e permanecem na luta por reconheci-

| 20 anos de funk brasil

mento. Ainda que tenham muito em comum, são separadas por uma diferença fundamental: enquanto a Umbanda fixou raízes aqui, o funk viaja por outros países e continentes como uma marca brasileira tão legitima quanto o samba e o futebol – o que talvez não acontecesse se os dois, funk e macumba, não tivessem se encontrado, por acaso, nos morros do Rio de Janeiro. Mas o batuque não foi o único ingrediente na receita que transformou o Miami Bass norte-americano, origem do pancadão, em legítimo funk carioca. Jesus Brown
O progenitor do funk, James Brown, nasceu pobre e negro no Estado mais racista dos Estados Unidos, a Georgia. Além de pioneiro em cantar a busca por direitos iguais em tempos de segregação, foi o pai do ritmo que deu ao rock ‘n’ roll uma nova forma de atitude. É dele o crédito para o funk que originou o movimento Black Power, uma das principais marcas da década de 1970. No Brasil, a soul music deu vida à chamada MPBlack e lançou artistas como Wilson Simonal e Toni Tornado, que faziam sucesso nos bailes suburbanos da época. Pouco depois dos anos áureos da Black Music no mundo, nascia um de seus filhos, este bastardo, hedonista e menos engajado socialmente: a discothéque. Mesmo que a européia e dançante disco pareça ter enfraquecido a música black, após um breve hiato artistas soul fundiram suas raízes funkeiras com elementos polidos provenientes da onda das discotecas, dando início à era disco-funk+2.

[+1] “Bucky Done Gun” é o 1º single do album Arular, da sengalesa M.I.A, com a base sampleada de uma música da funkeira carioca Deise Tigrona. O trabalho foi produzido pelo DJ Diplo, um dos primeiros gringos a se interessar pelo funk carioca. [+2] Um bom exemplo de artista que juntou as duas vertentes foi Michael Jackson com “Dont Stop Till You Get Enough” e “Beat It”.

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funk

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[+3] Em uma visita ao Brasil, o americano Africa Bambaataa, codinome de Kevin Donovan, conheceu a cena funk carioca e se disse apaixonado: “Essa é a parada de verdade. Me lembrou as festas de quarteirão dos velhos tempos, onde as pessoas dançavam, enlouqueciam, faziam o que tinham vontade”. [+4]

[+5] Edu K, é um produtor musical conhecido como vocalista e guitarrista da banda de rock Defalla. Agora, tem carreira solo internacional voltada para maximal, fidget house e funk carioca.
 myspace.com/edukfrenetiko [+6] O Bonde do Rolê começou como um quarteto, em 2005, e ficou famoso pelas letras bizarras e por misturar samples de rock, axé music e forró com bases de funk carioca. O grupo fez sucesso no exterior e segue na ativa com duas vocalistas na substituição da original.

Mas uma centelha especial acendia nos Estados Unidos, onde americanos afro-descendentes e imigrantes latinos da Florida, em Miami, incrementavam ainda mais o estilo que se transformaria em uma vertente crua e poderosa da música eletrônica. Com os baixos e graves acentuados e ritmos simples e envolventes, surgia o Miami Bass. Como bem definiu o DJ carioca e presidente Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFunk), MC Leonardo, trata-se do filho do funk de James Brown e do verdadeiro pai do funk carioca. “O Miami Bass foi feito pelos negros e imigrantes caribenhos e porto-riquenhos. Quando esse som chega no Rio, ele se mistura mais uma vez com negros e imigrantes! Porque, na favela, ou você é descendente de escravos ou você é nordestino, somos imigrantes também”, interpreta. O DJ e produtor Sany Pitbull também acompanhou o nascimento do funk carioca desde os primórdios. Ele conta que foi apresentado aos bailes em 1983, no subúrbio do Rio. “Eu tinha 13 anos de idade e todo mundo da minha escola ia no baile funk no domingo. E não era funk cantado em português, era Miami Bass, 2 Live Crew, Afrika Bambaataa...+3 Eu fui atrás de conhecer as pessoas, mas chegando lá dei de cara com aquela música que não tocava em lugar nenhum. Enquanto tava todo mundo consumindo rock, lá tocava uma música do gueto de Miami, e eu nunca tinha ouvido falar daquilo”. 
 Sonhando com Miami | A partir do início da década de 1980, ainda demorou para o funk se abrasileirar. “Quando o DJ Marlboro lançou o Funk Brasil 1+4, em 1989, era o início das letras em português, mas a influência ainda era toda norte-americana, de brasileiro não tinha nada. Eram praticamente versões para as musicas cantadas lá fora”, continua Sany. O processo de independência foi determinado por uma manobra do destino: por sorte, o funk teve a glória de repetir o trajeto do samba e migrar para o morro. “No meio dos anos 90, houve uma perseguição muito grande por parte das autoridades aos bailes funk. Ele não começou nas favelas, começou no subúrbio. Ao redor dos clubes tinha residências. Aí surgiram problemas por conta das brigas e do som alto. Não tinha policiamento nem linha de ônibus para atender às milhares de pessoas que os frequentavam. Imagina só, uma festa acaba, saem 5 mil jovens pra rua e não tem nenhum ônibus pra tirar eles dali?” Com a mobilização da sociedade para acabar com os bailes, e as dificuldades impostas para a realização das

festas, as equipes de som subiram para os morros, onde o funk encontrou um novo público e nele novas influências. “Lá o forró é forte, a música nordestina é muito forte. É onde tem a macumba. E foi aquela coisa. O funk passou dos clubes para as favelas e lá ele encontrou o candomblé e a percussão da musica nordestina”, relembra Sany. O resultado da mistura foi a batida poderosa que conhecemos hoje. “Nosso beat, nossa levada, nosso suingue, vêm do batuque, vêm da senzala. A nossa melodia tá muito mais pro samba do que pra Marvin Gaye. Tá muito mais pra Luiz Gonzaga que pra James Brown. Nós somos a mistura de tudo que nossos pais ouviam com o grave que esse som tem”, entusiasma-se MC Leonardo.

 Funk Brasilis |
Com o nascimento do Funk puramente nacional, o funk carioca, o próximo passo foi conquistar a TV e o grande público. Não demorou para o estilo ganhar caráter de fenômeno com o Bonde do Tigrão, no início dos anos 2000. A TV aberta se rendeu rapidamente às coreografias ousadas, e pipocavam revistas com matérias especiais e dicionários para ensinar o vocabulário funk, seus “tchutchucas”, “preparadas” e “glamurosas”. Quando a febre parecia ceder, um novo projeto de DJ Marlboro voltou as atenções ao gênero novamente. Tratava-se da desbocada Tati Quebra Barraco, com um neo-feminismo submisso que chamou a atenção, também, do exigente público indie. Mais ou menos na mesma época, o hit absoluto e inesperado “Popozuda Rock ‘n’ Roll”, do DeFalla de Edu K+5, tornou-se jingle de uma propaganda da Coca-Cola na Alemanha, o que, de acordo com o DJ gaúcho Chernobyl, concedeu passaporte internacional ao pancadão do Rio de Janeiro. Além de guitarrista da banda Comunidade Nin Jitsu, Fredi Chernobyl é um dos cientistas malucos do funk carioca. Sua intimidade com a música eletrônica nasceu graças às mixagens dos álbuns da Comunidade. Ele e Edu K foram parceiros na produção do primeiro disco do grupo, Broncas Legais, cujas doses generosas do funk de Miami influenciaram o próprio Edu. Para Chernobyl, o sucesso de Popozuda no exterior, somado ao início da era MySpace e ao nascimento do Bonde do Rolê+6, são os três elementos fundamentais para compreender a globalização do pancadão. “Sempre acreditei que o funk podia misturar com vários estilos. Eu pegava muita coisa que gostava e transformava em funk. Hoje em dia, bastante gente faz isso, rolam muitas trocas na Internet”, diz.


Chernobyl também produziu o primeiro EP do Bonde do Rolê e foi o responsável por apresentar a banda a Thomas Wesley Pentz, o DJ Diplo+7, que assumiu a produção executiva do álbum e maximizou o projeto. “Foi um trabalho fantasma que ajudou bastante. Ele botou o nome lá para aumentar. Funcionou”, avalia Fredi. Também foi Chernobyl quem avisou Diplo quando começou a bombar no Brasil o clipe de “Bucky Done Gun”, música da cingalesa M.I.A produzida por Diplo e completamente sampleada da funkeira carioca Deise Tigrona. O DJ brasileiro confessa ter se declarado surpreso, “não pode ser teu, é brasileiro demais”. Play that funky music, white boy |
Muitos pensaram que o interesse de Diplo e sua apropriação de ritmos brasileiros poderiam gerar reações negativas, mas elas se restringiram a uma minoria. “Tem alguns amigos meus que dizem: ‘olha lá, esses gringos querendo tomar o que é nosso!’. Eu só digo ‘mermão, estamos mostrando pra eles como é que faz música, e eles estão querendo ser a gente, como nos anos 80 todo mundo queria ser americano’”, conta Sany. MC Leonardo concorda que o trabalho de Diplo é universal: “Ele junta muita coisa, é um andarilho, uma pessoa antenada. Ele foi na minha casa, na Rocinha, e me falou que recebeu uma fita de um casal argentino com funk carioca e tocou na gringa como se fosse argentino. Depois de muito tempo ele veio saber que era o som das favelas do Rio”. Os MCs garantem que o som de Diplo ainda não toca nem é remixado nos bailes da favela. “Quem faz um som parecido com a junção dele é o Sany Pitbull”, opina MC Leonardo. A resposta de Sany é direta: “São visões diferentes, né? Um norte-americano cheio de dinheiro e um DJ do subúrbio. Então, se for botar na balança quem venceu mais, acho que ainda tô na frente”, diverte-se. Por tocar em uma favela próxima de Ipanema, Sany conhece turistas que ficam em albergues, não têm tanto dinheiro nem se prendem ao circuito turístico padrão, o que os leva a conhecer o Rio dos cariocas “da gema”, de rodas de samba e bailes funk. “Quando eu conversava com os gringos, eles sempre falavam que a música é rica, que o ritmo é maravilhoso, mas que só era bom curtir aqui. Em casa não conseguem ouvir mais de 15 minutos porque é tudo muito parecido. Como eu sabia que o que eles curtiam era o suingue, a batida, o ritmo, quando fui tocar no exterior calei um pouquinho

a voz dos MCs nas minhas apresentações. Mixava com Miami Bass, com alguma coisa cantada em inglês, como Rolling Stones e Michael Jackson, fazia versões funk e ia misturando. Aí a coisa foi tomando uma força maior, justamente por eles entenderem o que eu queria passar”. Chernobyl garante que não é mais preciso ter nascido no Rio de Janeiro para fazer funk, “Vou juntar com a minha cultura, fazer do meu jeito. Assim surgem coisas novas. Tenho que fazer minha viagem, isso ajuda o funk a se expandir”. Para MC Leonardo, o fato de os gringos não entenderem as letras não significa perda. “Eles nos classificam como energia pura. Eu adoro essa classificação, porque realmente não tem como você não dançar, não tem como você ficar parado ouvindo funk”. Sany complementa: “O mais interessante é que eles sabem que essa música veio da favela, mas eles não prestam atenção nisso, só na riqueza de ritmos”.

 Se não fosse o funk |
Para Leonardo, o melhor do sucesso estrangeiro é que ele levanta a autoestima dos MCs, “dá uma moral pra esses profissionais da cultura carioca que em sua maioria são negros, pobres e semianalfabetos, mas conseguem fazer um som único”. Diante da ascensão do gênero, o Brasil corre atrás do atraso e começa a valorizá-lo. Neste mês, foi revogada a Lei que impõe normas para a realização dos bailes e, na mesma sessão, os deputados da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro aprovaram o Projeto de Lei que define o funk como movimento cultural. “As pessoas já estão abrindo mais a cabeça pro funk e nós não temos como lutar sem informar”, garante MC Leonardo. O presidente da APAFunk continua: “Tem uma música do Gabriel o Pensador que diz assim: ‘Acordo, procuro trabalho, não tenho trabalho, quero trabalhar/ Os cara me pedem diploma, não tenho diploma, não pude estudar/ E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar/ Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá.’ “Cobrar do Funk puritanismo, ética... é uma piada. Ele não teve nada disso. O governo nunca deu um real pro baile funk acontecer, e o baile funk continua acontecendo, se mostrando pro mundo. Então a gente tem que saber a quem interessa calar a nossa voz. Nós não vamos aceitar isso, vamos continuar cantando, continuar falando, continuar dançando, continuar compondo. Vamos continuar lutando pela liberdade do jovem da favela cantar, compor, consumir, curtir o que ele bem quiser”. 


[+7] Diplo cresceu ouvindo Miami Bass e diz se identificar com o funk por considerá-lo muito parecido com o dirty south, estilo desenvolvido onde nasceu, no sul dos EUA. É o produtor do documentário Favela Bolada (2007), que mostra a explosão cultural do funk diretamente das comunidades pobres do Rio. Atualmente, o DJ se dedica à cena músical dos guetos mexicanos. myspace.com/diplo


_texto fernando correa, livio vilela, fernando rosa e bruno nogueira brasil independente

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O cenário nacional apresenta uma gama tão vasta de sons e artistas que, finalmente, está difícil classificar essa gente. Que bom! Escolhemos três jornalistas responsáveis por apontar livremente as bandas legais que, pensam eles, enriquecem os cenários dos quatro cantos desse paísão. Eles puxam a lenha para o seu lado da fogueira, mas, afinal de contas, são visões independentes sobre o...

Ano passado fizemos uma matéria parecida, e muitas bandas de então seguem entre as favoritas por aqui (confiram em tinyurl.com/indiebr). Neste, começamos o mergulho pelo Sul, onde os peixes grandes há anos aparecem na superfície. Se nacionalmente, o produto de exportação sulino têm sido bandas de rock tão classudo quanto ligadas ao rock clássico – Cachorro Grande e Pata de Elefante, por exemplo, sem avançar rumo ao passado abismático do rock gaúcho –, nas cenas locais, a variedade é grande. Por exempo, gaúchos mitológicos e performáticos, como Júpiter Maçã e Wander Wildner, pouco têm a ver com a seriedade britânica da Pública, cujo segundo disco, Como num filme sem um fim (2009), reforça um aprendizado: o de como a boemia encantada do Bom Fim, reduto das alternativas mais saudáveis e mais insalubres de Porto Alegre, pode fomentar a composição de hits melodiosos, tão lúdicos quanto sofisticados. Se bem que sofisticação é qualidade atribuída pra vender cigarro. A característica que melhor descreve a safra de bandas como a Pública, a Damn Laser Vampires e seu psychobilly nervoso, e os também gaúchos da Superguidis é a distinção. E é quase acidental a distinção do rock do Sul, que extrapola os limites da província farroupilha e se encaixa muito bem em Santa Catarina e no Paraná, na mesma medida que os sons das megalópoles paulista e carioca exercem sua influência rumo aos confins meridionais do país.

Claro, existem bandas sulinas que se identificam mais com o Rio de Janeiro do que com Londres. As porto-alegrenses Apanhador Só e Reverso Revolver, próximas genealogicamente (o guitarrista da segunda tocava na primeira), mostram ter no sangue a escola carioca ministrada pelo Los Hermanos ao longo da última década. Este rock que brinca com o caseiro e com a invenção é como a versão contemporânea da malemolência do samba rock, mas é cada vez menos samba, na medida que encontra seu caminho e define sua inventividade como um gênero à parte. Bonde do Rolê, Bo$$ in Drama e Copacabana Club, de Curitiba, Superpose, de Floripa e Brollies and Apples, de POA e SP, abastecem e demarcam o leque do electro que chega mais ou menos perto do rock, entre a brasilidade forjada do funkarioca e a inglezice inventada do CSS. Da Brollies, faz parte Fredi Chernobyl Endres, DJ referência no baile-funk de fora. E o cantar de Bianca Jhordão e Carol Teixeira, que deixam a batida electrogrunge maximizada próxima de um CSS sombrio e belicoso. Não é novidade o electro rock repercutir aqui, o próprio Copacabana Club tem feito bom uso dele há algum tempo, com passaporte carimbado por uma visita ao novo indie-mainstream. A música instrumental no Sul não se resume às vertentes mais “roll” do rock. Ruído/mm, de Curitiba, e Músicas Intermináveis Para Viagens, de Porto Alegre,

[+] Íamos colocar os Myspaces de todas as bandas, mas o país é grande. Então use o amigo Google que não tem erro.

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brasil independente

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[+1] Livio Vilela comanda o Bloodypop bloodypop.com [+2] Fernando Rosa comanda o Senhor F senhorf.com.br

fazem ela com destreza e densidade. O nome de ambas diz muito sobre a proposta: viajar e valorizar aquilo que na música pop é ruído. Rotule como noise, shoegaze ou “música para namoradinhas de viadinhos” (como o faz a Ruído/mm), não importa. Quem esbarra o ouvido nas camadas de guitarra saca logo que são cordas soltas e afinações diferentes que fazem a cabeça dessa galera. Sonic Youth e My Bloody Valentine deram a ideia, muita gente gostou e acata ela até hoje. Por muitos anos dominada pelo mofo sessentista, nos anos 2000 surgem no Sul, veja você, bandas oitentistas. O atraso significa também que existe mais do que um mero revival. E, claro, todo mundo gosta de um cheirinho de mofo aqui e ali, principalmente quando é rock ‘n’ roll bem feito. É o caso dos conhecidos Variantes, de Chapecó, SC, da Relespública, de Curitiba, e de um bom terço das bandas gaúchas, como Identidade, Efervescentes, Severo em Marcha e Locomotores. O tal do Eixo, por Livio Paes Vilela+1 Apesar de os últimos anos terem sido marcados por uma despolarização da música brasileira, isso não significou que a produção e a agenda cultural dos estados do sudeste tenham ficado menos interessantes. Pelo contrário, a safra de novos artistas é cada vez mais diversa, tanto na sua sonoridade, quanto nas estratégias e nos espaços que ocupam para se fazerem ouvir. São Paulo é o melhor exemplo disso. Tudo parece acontecer por lá: as melhores festas, os melhores shows e, talvez, os melhores artistas. Tal movimento está muito ligado recentemente ao surgimento de casas noturnas dispostas a investir em nova música (Studio SP, Livraria da Esquina etc) e pelo trabalho dos produtores culturais, como as agências Tronco, a Inker e Agência Alavanca. Isso facilitou que prosperassem na capital paulista as mais diversas expressões musicais, do rap afiado do Emicida, que saiu de mixtape vendida nos shows para o VMB, ao rock de Holger e Garotas Suecas, que hoje contam até com agenda internacional, além de surpresas como o quarteto Inverness. Idealizado há 4 anos, quando o guitarrista e vocalista Lucas de Almeida ainda morava nos EUA, a banda se formou no reencontro com o amigo de infância e baterista Márcio Barcha. Aos dois se juntaram o guitarrista Mateus Perito, o baixista Flávio Frascetti e a paixão pelo barulho dreamy de My Bloody Valentine e Spiritualized. O resultado pode ser visto na estréia Forest Fortress, de 2009. O disco compila 10 belas melodias (destaque para “Astral Slide”) adulteradas pela nova psi-

codelia americana (Animal Collective, principalmente) e pelo dream pop britânico. São Paulo também é o centro nervoso da nova safra de artistas da MPB. Se hoje nomes como Céu, Curumin e Romulo Fróes já gozam de respeito no cenário da música brasileira, ainda há espaço para gente como Marcelo Jeneci, o novo-compositor-favorito-de-todo-mundo. Com uma carreira de quase 10 anos (tocou com Chico César e Cidadão Instigado), Jeneci é autor de “Amado”, hit de novela da Vanessa da Mata e de faixas dos novos de Zélia Duncan e Arnaldo Antunes. Só o suficiente para oficializar que composições como “Felicidade” são das melhores dos últimos anos. No Rio a situação é um pouco mais complicada. Apesar de ter estado nos holofotes da última década devido aos Los Hermanos e a todo o pessoal ligado à Orquestra Imperial, a cena carioca tem sofrido pela falta de renovação e por uma controversa “falta de público”, que acaba inviabilizando alguns projetos. No entanto, sua vocação festiva tem impulsionado a descoberta de sons bastante tropicais, bem caracterizados pela fase mashuper de João Brasil e pelo quarteto Do Amor. Com álbum previsto para 2009, a banda rodou o Brasil ano passado com sua combinação de ritmos nortistas e rock experimental. Por muito tempo “culturalmente distante” do eixo Rio-SP, Vitória aparece forte no “mapa musical” do país. Impulsionadas pelo recente sucesso do quarteto teen Mickey Gang (que saiu de Colatina, interior do estado, para Londres) a cena capixaba se arma rápido (com ajuda do coletivo Omelete Marginal) e começa a mostrar a que veio. Elogiado por seu ídolo João Brasil, André Paste já foi chamado de “Mallu Magalhães do mashup” pela pouca idade (17) e pela esperteza com que combina em remixes música indie, funk carioca, pagode e qualquer que seja o viral bombando no YouTube. Bem mais orgânico que o garoto, Fê Paschoal costura uma colcha de referências que vão do forró ao afrobeat, passando por jazz, Jorge Ben e música eletrônica. As canções no Myspace dão a dica que um novo Manu Chao pode ser esse brasileiro. O centro (oeste) do indie, por Fernando Rosa+2 
A cena do Centro-Oeste brasileiro é fundamental para a construção da moderna cena independente brasileira. Os festivais Goiânia Noise e Bananada, realizados na capital de Goiás, alavancaram as carreiras de centenas de bandas do país inteiro. Em Brasília, o Porão do Rock,


anual, e a Noite Senhor F, mensal, desde 2002, também fizeram a ponte da região com as demais capitais do Brasil continental. Além disso, os selos Monstro Discos e Senhor F Discos estão entre os mais importantes da atual cena musical. Artistas como Beto Só e bandas como Sapatos Bicolores, além dos gaúchos Superguidis, têm seus discos lançados por Senhor F Discos, enquanto o selo Monstro é casa de grupos locais como MQN e Black Drawing Chalks e de outras regiões como os também gaúchos Frank Jorge, Júpiter Maçã e Pata de Elefante. Chamada de “capital do rock”, Brasília convive com o peso da história dos anos oitenta e noventa, por conta da mega-exposição nacional de grupos como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, ainda na atividade, e de Raimundos. Apesar disso, uma nova cena musical, integrada com os novos conceitos do “mercado” independente, floresceu no Cerrado, outra vez mostrando a criatividade da juventude da região. Nesse processo, inúmeras bandas destacaram-se no cenário da região, entre elas os brasilienses Móveis Coloniais de Acaju, hoje uma das bandas mais importantes do país. Ainda surgiram grupos que circulam pela plataforma nacional de festivais e casas de shows, como Phonopop, Lucy and The Popsonics, Superquadra, Gramofocas, Galinha Preta e 10zero4, entre outras, das mais diferentes vertentes musicais. Hoje novas bandas ocupam seus espaços, entre elas Os Dinamites, Watson (próximo lançamento de Senhor F Discos), Disco Alto, Tiro Williams, Los Torrones e Darshan. Entre uns e outros, dois grupos já extintos marcaram época: Prot(o) e Bois de Gerião. Outros tantos surgiram e desapareceram, muitos deles deixando a lembrança de memoráveis shows e hits locais. Um Nordeste Independente, por Bruno Nogueira+3 A música brasileira como a conhecemos nasceu no Nordeste. Não apenas sua primeira fase, de Caymmi a Caetano Veloso, como todo o desdobramento e experimentação que apareceu mais tarde, nos versos de Alceu Valença e Zé Ramalho, desaguando no próprio Manguebeat. Cada capital tem pelo menos um representante fundamental na discografia da nossa música. Entender isso é fundamental para entender que, por aqui, sempre se faz música esperando que grandes coisas aconteçam. O Nordeste tem o circuito mais sólido de música independente do Brasil – uma mesma banda pode passear entre estados separados por menos de duas horas de estrada. Tudo centralizado na lista de emails Nordeste

Independente, em que bandas, produtores, jornalistas, entusiastas e curiosos – mesmo de outras regiões – trocam informação, fecham parcerias e conectam esse circuito. Salvador é a cidade mais estruturada. Ela tem casas como o Boomerangue, Groove Bar, Balcão Botequin, World Bar e outros, que recebem shows de bandas todos os fins de semana. Não à toa, o espaço deu fôlego para que fossem lançadas bandas como Retrofoguetes, Cascadura, Ronei Jorge & os Ladrões de Bicicleta e Pitty. Entre a cena local, Os Irmãos da Bailarina, Pessoas Invisíveis e The Honkers são apenas alguns dos vários nomes que valem a penas acompanhar na Internet. É o extremo oposto do que acontece no Recife, que não tem casas para as bandas tocarem – quem quiser fazer show, tem que montar sempre toda estrutura do zero – mas é recheado por mais de nove festivais anuais. Começa com o RecBeat, no olho do furacão do Carnaval da cidade, e passa pelo clássico Abril Pro Rock, encerrando o calendário com o novo e moderno Coquetel Molotov. Entre esse três, a cidade recebe edições do Grito Rock, Cultura Festival, Pré-Amp, Recicle, Quintal PE e outras aglomerações de banda. Além dos já consagrados, Academia da Berlinda, Trio Pouca Chinfra, Vamoz e Amp representam dois extremos – samba e rock pesado em inglês – que mostram o melhor da cidade. Com direito a uma nova promessa, a Volver, perto de conquistar um renome cada vez mais nacional. Nas vizinhanças, tem Natal com os festivais Mada e DoSol, além do próprio DoSol Rockbar, o Quartel General central das turnês pelo Nordeste. Dizem que passar pela região sem conhecer o casal Ana e Foca, e suas bandas Camarones Orquestra Guitarristica e Rejects, é não fazer uma viagem completa. Em sintonia com eles, a dupla Rayan Lins e Carol Morena, do Coletivo Mundo, organiza uma casa de shows e o Festival Mundo em João Pessoa. Dão espaço para Burro Morto e Nublado chamarem atenção de quem escuta tudo de fora. O outro pico central é Fortaleza, já no extremo do mapa. Terra do festival Ponto CE e da Feira da Música, além das casas de shows Hey Ho Rockbar e Noise 3D, onde é possível conhecer o som da instrumental O Garfo, da gótica Plastique Noir e o chapante Cidadão Instigado.  O Nordeste se completa com Maceió – terra do Wado – e o Maranhão, capital do reggae. Esforços que garantiram que a própria Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin) nascesse aqui mesmo, onde a vontade de fazer cada vez mais pela música nunca para.

[+3] Bruno Nogueira comanda o Pop Up popup.mus.br

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_texto brunna radaelli

os coletivos

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A união faz

Milhares de anos após nossos ancestrais concluírem que a vida em sociedade e cooperação é muito mais fácil e agradável, nos encontramos em meio ao século XXI. A ode ao individualismo nunca esteve tão presente e enraizada no pensamento particular, e o senso de coletividade foi deturpado tantas vezes que fica difícil conceber um universo de ajuda mútua e crescimento. Particularmente no mundo da música – que não perde em nada em ferocidade e selvageria para o mundo dos antigos neandertais – o espírito do “coletivo” foi subjugado por grandes majors e empresas que burocratizaram e monopolizaram o acesso e a distribuição de conteúdo musical, tornando cada vez mais frágil o conceito de construção de uma cena coletiva, viva e independente. Que a velha fórmula utilizada por gravadoras e produtores musicais já está escassa, ninguém mais duvida. Basta olhar o crescimento do mercado virtual de bandas, o fortalecimento do independente, a quebra das frontei-

a força

ras físicas através de tecnologias de compartilhamento. Hoje é muito provável que as bandas nacionais que você mais escute nem sejam do seu estado, e sim de cidades a quilômetros de distância. Macaco Bong,Vanguart, Nuda, Rinoceronte, Porcas Borboletas são só alguns exemplos de grupos que expandiram suas fronteiras para todo o território nacional – e até fora dele – por meio de parcerias com coletivos culturais. Foi investindo em estrutura, conscientização, políticas públicas e novas mídias que os coletivos deixaram de ser sinônimo de um pequeno grupo interessado em algum som novo ou nova forma de arte e expressão. Hoje eles são grandes, produzem conteúdo relevante, trazem à tona o melhor de cada região, investem em pessoal e estrutura, encontram novas soluções para velhos problemas como dinheiro e patrocínio, e, principalmente, quebram as barreiras da música nacional apoiados em uma de nossas mais antigas certezas: a de que juntos somos mais fortes.

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[+] Em Goiânia, o coletivo de ilustração e design Bicicleta Sem Freio faz um incrível trabalho que já estampou capas de muitas bandas da recente leva nacional, além da capa da NOIZE #26 e do clipe que você confere na seção Online desta edição. [+] Diversos outros coletivos culturais enriquecem a cena brasileira. Infelizmente não pudemos falar de todos, mas o site do Fora do Eixo (foradoeixo. org.br) reúne a maioria deles.

O surgimento de um Cubo mágico Foi pautado por esse pensamento que nasceu o Espaço Cubo, coletivo cuiabano criado em 2002. Em meio a um cenário musical praticamente dominado por bandas covers e música sertaneja, a cena independente de Cuiabá era fragmentada e consequentemente desconhecida. Diante de um desafio grande como o de estruturar uma cena cultural, o Cubo tornou-se uma das maiores referências nacionais de produção independente e desenvolvimento de políticas públicas de estímulo à cultura. Referência essa que veio às custas de um sistema organizacional de dar inveja a muita corporação de grande porte. A estrutura do Espaço Cubo, e de muitos outros coletivos, supera qualquer expectativa de um leitor desavisado. Coletivo nunca foi sinônimo de “hippongagem” desorganizada. Com um sistema de gestão muito bem constituído, o Cubo percebeu que quanto mais frentes tivesse – e mais espaços atingisse –, melhor seria para o desenvolvimento do coletivo e da cena como um todo. Então, preparou seus colaboradores para gerir com qualidade as mais diversas áreas, como comunicação, eventos, pesquisas, edição de áudio e vídeo, até parcerias com selos independentes e festivais. Além disso, também foi o responsável por uma iniciativa pioneira e reproduzida por outros coletivos nacionais: a criação do Cubo Card, que seria basicamente a moeda de troca do coletivo. Funcionando no lugar do dinheiro, a proposta é valorizar o escambo entre os mais diversos setores da cena musical, e desenvolver novas estruturas capazes de manterem umas as outras. Uma banda que faz um show e recebe seu pagamento com a moeda do coletivo pode, dessa forma, posteriormente comprar materiais, pagar operadores de som ou roadies, alugar estúdios de gravação ou até comer em estabelecimentos parceiros ao Espaço Cubo. A idéia principal é motivar o espírito de troca e parceria, e facilitar o desenvolvimento de um cenário cultural equilibrado, aberto e acima de tudo interligado – porque cena independente há muito tempo deixou de ser sinônimo de se fazer tudo sozinho e na raça. Há sete anos desenvolvendo alternativas no mundo da música e cultura nacional, o Espaço Cubo foi o responsável por alavancar bandas como Vanguart, Macaco Bong, Linha Dura e Ebinho Cardoso – hoje conhecidas muito alem de Cuiabá. Pautado sobretudo no cooperativismo, o Cubo investe em ações culturais contínuas que vão da realiza-

ção de eventos constantes, estruturação de mídias independentes e ampliação do diálogo com a imprensa local, até a realização de festivais que estimulam a troca de tecnologia e o diálogo entre as cenas culturais dos mais variados estados do Brasil. Uma verdadeira escola no que diz respeito a construir, manter e divulgar música, cultura, arte, e ideais de cooperativismo e desenvolvimento autosustentável. O farol de Recife Outro exemplo bem sucedido, apesar de recente, é o coletivo recifense Lumo. Fundado em 2008, ele segue a escola do Cubo e já colhe os frutos de um trabalho bem feito. Recife tem uma história musical muito forte em relação ao independente. Após o boom da geração Mangue – que em épocas pré-internet conseguiu quebrar as barreiras regionais e dar novas perspectivas para a música nacional –, o cenário musical recifense ficou fortemente atrelado a esse formato de sucesso, o que acabou taxando com uma “única cara” um mercado cultural tão grande e rico. De acordo com Gabriel Cardoso, um dos organizadores do Lumo, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 (já em épocas do início do colapso das majors e ampliação do acesso à internet) surgiu uma forte necessidade de ressignificação do modelo que estava sendo seguido por aqueles que produziam e viviam de música em Recife. Muita coisa além do manguebeat estava acontecendo em Recife, e apenas com organização e parceria é que a cena de lá poderia receber o destaque que merecia. Nesse sentido o Lumo nasceu para garantir o fortalecimento da cadeia produtiva da cultura local através da soma da força de seus agentes – o que é, em suma, o que guia todo coletivo cultural. A ideia que eles tentam desenvolver é a de que não é difícil viver da produção de cultura, afinal cultura é uma necessidade tão básica do ser humano quanto comer ou respirar. O difícil é despertar nas pessoas a percepção de que os caminhos que levam até a consolidação de uma banda não estão mais nas mãos de poucos, ou de grandes. A trilha para o sucesso pode ser muito mais rápida e simples se feita em parceria com pessoas dispostas a trabalhar em prol de uma cena interligada e forte. Ao sul e ao sudeste No sul do país, mais precisamente em Santa Maria,


no Rio Grande do Sul, foi que uma casa de shows acabou se tornando o ponto de partida para o desenvolvimento da cena cultural da região. O Macondo Coletivo é filho da casa de shows Macondo Lugar, e aposta principalmente no rock e nas artes. Realizador de eventos como o Macondo Circus (que transfere o epicentro do rock ’n’ roll gaúcho da Capital para a cidade mais central do estado) e o Festim (Festival de teatro independente de Santa Maria), o coletivo estimula desde 2005 a cena independente da região e acumula parcerias tanto com outros coletivos nacionais quanto com a prefeitura da cidade, parceira em vários projetos. Esse reconhecimento da administração pública só ressalta o quanto o jeito de se fazer e consumir cultura está mudando. Por meio de um sistema bem estruturado, focado em planejamento, comunicação e eventos, o Macondo participa de editais culturais e passou a ser a porta de entrada para muitas bandas da região ganharem destaque nacional, como a banda principal do coletivo atualmente: a Rinoceronte – que já excursionou por quase todo o pais em festivais promovidos por coletivos parceiros. Em Minas Gerais, o coletivo Goma tem suas origens em Uberlândia há mais de dez anos, com o surgimento dos primeiros movimentos culturais organizados dentro da Universidade Federal de Uberlândia. Em pouco mais de um ano e meio de existência consolidada como coletivo cultural, o Goma já realizou cerca de 250 shows de bandas de todas as regiões do Brasil e de outros países, como Argentina, Chile, Estados Unidos, Inglaterra e Suíça. Além disso, assumiu a produção do Festival Jambolada (maior festival de música independente do Estado) a partir de 2008. Também sediou duas edições do Grito Rock América do Sul e foi responsável por uma série de oficinas, debates, palestras, exposições de fotografia, audiovisual, moda e artes plásticas em seu espaço cultural. Um verdadeiro exemplo de estruturação e desenvolvimento sólido de um cenário cultural. Um mundo pautado em coletividade Os coletivos citados anteriormente são apenas uma pequena parte de um país repleto de iniciativas semelhantes. Das mais antigas e organizadas às mais recentes e em fase de estruturação, todos eles possuem como norte três elementos chaves: o Circuito Fora do Eixo, a Abrafin e o Festival Grito Rock. Essas são as três vertentes responsáveis por unir nacionalmente os coletivos e

possibilitar a troca de materiais, referências, e promover turnês de bandas nacional e internacionalmente. Abrafin é a sigla para Assosiação Brasileira de Festivais Independentes. Criada em 2005 com o intuito de reunir, organizar e potencializar o circuito de festivais de música independente, ela é hoje responsável por coordenar 32 eventos nas mais variadas regiões do país. Com um público anual estimado em 300 mil pessoas por ano, a associação possibilita que mais de 600 bandas nacionais e internacionais realizem shows por todo o território brasileiro. Tudo desvencilhado de grandes selos ou patrocínios. Exemplo de sucesso em meio ao independente, a Abrafin movimenta uma quantia superior a R$ 5 milhões por ano e gera cerca de três mil empregos diretos e indiretos. Coluna vertebral A articulação de tantos coletivos não é tarefa fácil, mas é inegável que, estando em contato direto, eles têm mais força. O Circuito Fora do Eixo conecta 40 coletivos do Brasil inteiro e é responsável por estimular a troca de tecnologias, gerir a produção e a distribuição da música independente e pensar a sustentabilidade da cena alternativa nacional. Também criado em 2005, foca os investimentos na instrumentalização da web para a superação dos limites geográficos da produção independente. Responsável por fazer a conexão entre casas de shows, mídias independentes, selos fonográficos e festivais, o Fora do Eixo é a central que une os coletivos culturais do país. Um dos principais exemplos da relevância do Circuito Fora do Eixo é a dimensão que o festival Grito Rock, realizado por eles, tomou. O Grito Rock é um dos maiores festivais integrados do mundo, e busca evidenciar a música de cada local, mas com uma perspectiva de conexão entre as diversas cenas. Se hoje é possível pensar em turnês de bandas independentes de uma forma viável, é graças a organização do Fora do Eixo. Na última edição latino-americana do Grito, bandas do Brasil, Argentina, Uruguai e Bolívia compartilharam palcos e levaram suas músicas muito além das fronteiras físicas de seus países. Fronteiras de pensamento também foram rompidas com o sucesso de uma iniciativa como essa. O instinto coletivo sempre foi o responsável por levar a humanidade adiante, do tempo das cavernas até hoje. Não teria como ser diferente no mundo música.

[+] Sites da turma: macondolugar.com.br lumocoletivo.blogspot.com gomamg.blogspot.com espacocubo.blogger.com.br foradoeixo.org.br abrafin.com.br gritorock.com.br

47 >> noize.com.br


você não precisa, mas quer.

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_NOVOS NANIWANOS, INVASAO SUECA, BIKINI DAYS

>> BRASIL FEITO POR GRINGO

Embora os Novos Baianos tenham cantado “Vamos pro mundo”, não coube a eles levar a excelentíssima música brasileira para os estrangeiros. A história é velha, e quem sabe se possa atribuir a culpa, em parte, à Carmen Miranda, que semeou a brasilidade no pop universal. Chegou a um auge quando gente da Bossa Nova foi morar fora e manteve-se cultivada graças ao exílio de caetanos e afins. Mesmo assim, foram os Baianos que motivaram um grupo de japoneses a formar o Novos Naniwanos anos atrás. A paixão nipônica pela turma tem alguns anos, se estende à cultura do trio elétrico como um todo e já rendeu um disco homônimo à banda. Se é difícil visualizar Moraes Moreira e Baby do Brasil emulados por gente de olhinhos puxados, imagina o que a galera de lá deve pensar quando entra a guitarrinha baiana e todo mundo enlouquece no palco. Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu...

FFW

>> INVASÃO SUECA

Durante o mês de setembro, o Brasil será invadido por bandas e artistas suecos. A Invasão Sueca é um evento que busca promover a troca entre as culturas de lá e de cá. Desta vez quem vem ao Brasil são as garotas super jovens do Those Dancing Days, que vem pintando hits nas pistas de electrorock do país, a turma do Loney Dear e Britta Person. A iniciativa da Invasão comemora quatro anos e partiu da parceria do Swedish Institute com o coletivo Coquetel Molotov, de Recife. Em sua terceira edição, a função toma conta do super festival No Ar, que rola em Recife nos dias 18 e 19/09. Mas como, afinal, trata-se de uma invasão, os artistas suecos também tocam em Fortaleza (Órbita, 18 e 19/09), São Paulo (SESC Pompéia, 24 e 25/09) e Porto Alegre (Porão do Beco, 26/09). Quer saber mais? 
 Então acessa www.invasaosueca.uol.com.br.

rewind << BIKINI DAYS Se tem uma coisa que você lembra quando pensa na “terrinha brazilis”, é a praia. E praia lembra biquíni. Essa invenção francesa da década de 1940 é, sem dúvida nenhuma, a cara do nosso País. E nunca esteve tão atual, mesmo completando quase 70 anos de existência. O primeiro modelo de biquíni francês simulava a estampa de um jornal, e era tão pequeno para os padrões da época que a única pessoa que topou usá-lo foi uma stripper. De lá pra cá, muitos modelos já adornaram corpos e praias por todo o mundo. Do cafona asa delta, passando pelo de bolinha amarelinha e indo até o ousado fio dental, o biquíni é unanimidade em território nacional – somos referência na confecção, e os modelos brasileiros são sinônimo de bom gosto e altos preços. Ou seja, não há perdão para o maiô. Menos é mais, e não seria diferente com o pé na areia.


minha colecao Divulgação

Divulgação

qualquer coisa

FREDI CHERNOBYL ENDRES FALA SOBRE...

15 anos de rap brasil .: GUSTAVO MINI_

Guitarrista e vocalista da Walverdes

A gente imita, mas imita de um jeito muito próprio. Por isso acabamos sempre inventando algo diferente aqui no Brasil. Essa regra vai para o rock em que o Rei Roberto imitou Elvis, vai para o funk-soul em que Tim Maia copiava a Motown descaradamente mostrando os discos dos Commodores para seus produtores musicais caretas, e foi, há 15 anos atrás, para o Rap Brasil. Mas o que é Rap Brasil? É um disco em que todas as batidas foram sampleadas do Miami-bass americano onde os MCs do subúrbio do Rio de Janeiro cantavam suas realidades em melodias super simples ou em melodias de samba enredo com letras geniais como em “Rap da Felicidade” (o mundo inteiro conhece “eu só quero é ser feliz...” ), no “Rap do Silva” (“era só mais um Silva que a estrela não brilha, ele era funkeiro mas era pai de família...”) ou na recém revivida pelo filme Tropa de Elite, “Rap das Armas” (preciso cantar essa, pô?). A despretensão musical alegre e o beat pesado com alguns samples sinistros revelam a dualidade que existe no Rio de Janeiro. Os MCs , letristas e DJs do Rio mostraram que preferem trazer alegria, dança e diversão, ao invés de reclamar e fazer cara de mau. O que não deixa de ser uma saída um tanto quanto leve e inteligente para a dura realidade social em que vivem. Até aí tudo bem. Mas onde está o rap nisso? Não tem rap no disco. Pois é, mais uma vez o nosso jeitinho brasileiro influenciou na criação de algo original . E assim nasceu o “funkcarioca”, que muitos chamam apenas de “funk”. Ops! Mas funk não é o que o James Brown e o George Clinton criaram? 
Distorções de rótulos e preconceito de infelizes puristas preconceituosos à parte,  hoje temos um estilo de música respeitadíssimo no exterior, que é tido como a ramificação brasileira do electro, uma espécie de “brazilian booty beat” que  não utiliza mais a batida da Florida, tem seus próprios “tamborzões” (fundiu com macumba) e é chamado de “baile-funk”. Mas baile-funk não é o nome da festa em que se dança “funkarioca”? Yeah! Mas desta vez foram os gringos que distorceram as coisas.

Golden Greats, melhor trabalho solo do Ian Brown. Lançado em 1999, faz muito bem a passagem dos anos 90 para os anos 00.Tem músicas com gênero absolutamente indefinido, que misturam elementos de rock clássico com toda a cultura da dance music e umas pitadas de esquisitices aqui e acolá, o que viria a ser o modelo de música dos anos 00. É um disco funky, sexy e com um um frescor inegável.

redescoberta

.: TIM MAIA_ NUVENS (1982)

Tim Maia foi certeiro ao nomear Nuvens um de seus discos menos conhecidos e mais deliciosos. Lançado em 1982 de maneira independente pelo selo Seroma, de propriedade do próprio síndico, é uma deliciosa celebração do groove, da voz rouca e aveludada e da irreverência de Tim. Em medidas proporcionais, que não perdem em nada para álbuns consagrados, misturam-se o funk, o disco, o suingue e o soul.“Ninguém gosta de se sentir só” representa muito bem este último, com o refrão delicioso e o tom confessional que convenceria e emocionaria mesmo sem letra.“Haddock Lobo, Esquina Com Matoso” saúda Roberto, Erasmo e Jorge num funk sincero e bem arranjado que conta onde e como “toda a confusão começou”. Nuvens termina com a exuberante “Sol Brilhante”, em uma metáfora exata da sensação que o disco deixa ao acabar. 51 noize.com.br


Alan: Jeans King 55 | Cinto, Jaqueta de Couro,T-Shirt Sangue Sujo e Tênis Acervo Jun: Jeans e T-Shirt King 55 | ÓCULOS Ray Ban | Jaqueta E Tênis Acervo Noel: Jeans King 55 | Cinto, Jaqueta de Couro,T-Shirt Buzzcocks e Tênis Acervo

ROCK ROCKET

T-SHIRT Black Sabbath; CAMISA Acervo Ruth Contreras; BLAZER Acervo Ruth Contreras; JEANS Colcci

Fotos: Rafael Rocha Texto e Entrevista: Fernando Corrêa Produção Executiva e de Moda: Mely Paredes Agradecimentos: Paola HM e Vitor Lucas, Camila Mazzini, Julia Barth, Maria Joana Avellar, Lisi Zilz e Marco Rubenich.


JEANS King 55 CINTO,T-SHIRT BUZZCOCKS JAQUETA DE COURO e TÊNIS Acervo


JEANS King 55 T-SHIRT King 55 JAQUETA, CINTO e TÊNIS Acervo ÓCULOS Ray Ban


JEANS King 55 CINTO,T-SHIRT SANGUE SUJO JAQUETA DE COURO e TÊNIS Acervo


Alan: Jeans King 55 | Cinto, Jaqueta de Couro,T-Shirt Sangue Sujo e Tênis Acervo Jun: Jeans e T-Shirt King 55 | ÓCULOS Ray Ban | Jaqueta E Tênis Acervo Noel: Jeans King 55 | Cinto, Jaqueta de Couro,T-Shirt Buzzcocks e Tênis Acervo

Foi o Alan, baterista da Rock Rocket, que veio com essa quando perguntei se foi por a grama europeia ser mais verde que eles lançaram seu novo compacto primeiro no Velho Mundo:“Na verdade não é, mas a gente foi buscar lá fora o que não tem no Brasil: uma rádio que toque bandas fora dos padrões impostos pelas grandes gravadoras”. Eu não tenho uma banda com sete anos de estrada, muito menos uma que toque rock sujo, pouco comercial como o punk tem que ser. Então resolvi deixar a Rock Rocket – que também tem Noel na guitarra e Jun no baixo – continuar falando, em vez de eu meter o bedelho no momento que é todo deles. Falem mais sobre esse lance de não seguir os padrões impostos pelas majors... Alan: Esse é o caso da Radio FRO, na Áustria, onde rola um programa de duas horas que está há mais de 10 anos no ar, sempre focando no garage punk. Sem querer ser descrente, mas acho impossível que algo do gênero possa durar tanto tempo no Brasil, ou mesmo existir. Mas aqui tem várias outras oportunidades que outros países não geram. Seria injusto dizer que lá é melhor por causa de um programa de rádio, por mais vergonhosa que seja a indústria brasileira do jabá. O nosso compacto chegou em Londres antes do Brasil, sim, mas isso se deve a um fator simples: a fábrica de vinil é na Europa. Quando acertamos de lançar o compacto pela VinylLand, a Polysom ainda não tinha previsões para retomar as atividades. Então por que não juntar o útil ao agradável e lançar uma edição UK/BR? Assim metade das cópias ficam por lá e metade vêm para o Brasil, mais precisamente dia 12 de setembro! Aliás, esse compacto é mesmo em vinil, certo? E qual a relação de vocês com os bolachões? Alan: Eu sou colecionador de vinil, sempre foi meu sonho lançar uma bolachinha ou um bolachão. Fora isso, também sou responsável pelo Clube do Vinil SP. É um evento que rola no Bar Berlin, só com discotecagem em vinil, bandas, espaço pra venda e troca de disco etc. É bem bacana, e agora que a Polysom vai retomar as atividades eu estou com planos de transformar o Clube do Vinil SP em um selo. Jun: Sou apreciador desde sempre, para mim, nunca morreu. Tenho muitos amigos que pensam como eu, e sempre trocamos idéia. Parece que hoje é meio “moda” falar de vinil, mas é realmente algo que voltou para ficar. Estamos realmente felizes de podermos lançar algo dessa importância por aqui.

Por um Rock and Roll Mais Alcoolatra e Inconsequente foi indicado a melhor clipe indie no VMB de 2004. O cutucão serviu para o rock em geral? Noel: Foi através desse clipe que muita gente conheceu o Rock Rocket, e começamos a tocar fora de São Paulo, além de ter nos incentivado a gravar um disco inteiro. Não acho que mudou alguma coisa no rock nacional, porque de lá pra cá, apesar de a cena independente ter crescido, as bandas só decaíram. As bandas que hoje em dia ocupam o espaço do rock na midia simplesmente não são de rock, isso é uma merda. Minha esperança é que seja uma modinha passageira. Paralelamente a isso, a gente continua fazendo nosso trampo e conseguindo se virar, sobrevivendo de pequenos golpes. E qual seria a atitude menos rock ‘n’ roll que vocês mantêm com frequência? Jun: Minha mente é “música” 24 horas por dia... mas, sendo da Zona Leste, sempre colo no campo do Cruz Credo da Vila Formosa pra rever os trutas do futebol (risos)... Alan: Pensar no futuro. Se cada lugar rendesse uma história, qual seria uma boa em que vocês se meteram? Alan: Teve o dia em que fomos tocar em Porto Alegre e eu acordei dois dias depois, tatuado, sem saber o que tava escrito. E afinal, quem são “Os Legais” (música e clipe dos caras)? Noel: Tem uma banda de Santa Catarina que chama “Os Legais”, tem umas pessoas que são legais e tem um monte de doidão solto por aí.


reviews

_MUTANTES, CIDADAO INSTIGADO, wry mickey gang, barfly, rockz


CIDADÃO INSTIGADO

AMP

Uhuuu!

Pharmako Dinâmica

Em tempos em que adolescentes vão antes ao cabeleireiro do que à loja de instrumentos quando pensam em formar uma banda, os dez petardos carregados de distorção e peso de Pharmako Dinâmica, disco de estréia dos recifenses da AMP, mostram que o DNA de uma banda de rock’n’roll só é completo com uma boa quantidade de sujeira. Dos bem executados e inteligentes riffs da dupla Capivara e Djalma – e seus vocais rasgados –, ao baixo marcante de Dudu, o álbum tem tudo para acordar os ouvidos acostumados com a mesmice e bom mocismo do novo rock. Os que saírem incólumes depois de uma dose em alto volume de faixas como “Ensurdecedor”, “Devil’s Prize” e “Lenda Viva”, podem se considerar tudo, menos bons roqueiros. Lucca Rossi

Fernando Catatau é um daqueles caras que já poderiam se aposentar tranquilos por tudo que produziram. Fora outras colaborações (Los Hermanos, Vanessa da Mata, Arnaldo Antunes), seus álbuns anteriores como Cidadão Intigado são marcos do recente rock brasileiro e o terceiro da leva, UHUUU!, é até melhor que seus antecessores. Se a equação permanece a mesma – rock progressivo, música romântica e realismo fantástico – UHUUU! confronta seu Zé Dodim (o “cidadão instigado” que nomeia à banda) com uma paisagem mais ensolarada, quase feel-good. Todas as paranóias ainda estão ali, mas na visão de Catatau elas agora são experiências pelas quais precisamos passar, como diz no single “Escolher Pra Quê?”, a melhor faixa da obra. Livio Paes Vilela

MUTANTES

Haih... or Amortecedor...

Há bandas brasileiras que copiam Os Mutantes bem, e o azar é de Sérgio Dias. Acompanhando as novas da banda desde “Mutantes Depois”, lançada em 2008, após a turnê com Arnaldo e Zélia “Lee”, parece sobrar aos Mutantes dos anos 2000 uns 40 anos de desilusão. Haih é isso mesmo—são os Mutantes parecendo uma dessas bandas que eles inspiram até hoje, e com menos espírito de brincadeira. Claro, há momentos lindos, mesmo nas tentativas mais escancaradas de repetir o passado. Não é, porém, quando convidam Tom Zé (“Dois mil e agarrum”) ou Jorge Ben (“O Careca”) para colaborações com gosto velho e, mesmo assim, incomparáveis a “2001” ou “Minha Menina”. “Bagdah Blues” e mesmo a cacofonia roubada de “Anagrama” fazem de Haih um disco apreciável. Mas, respondendo a pergunta do próprio Sérgio, “Mutantes, e depois?”. Depois, só imitações. Até quando são eles mesmos quem imita. Fernando Corrêa

WRY

She Science

Depois de sete anos em Londres, o Wry está de volta. E não apenas com um novo disco, mas de volta ao Brasil – pelo que dizem, um retorno definitivo. Talvez por isso, She Science cheire a nostalgia e a saudades, recheado com reflexões acerca de partidas e chegadas, de como a vida é e pode ser. Para os sorocabanos, a vida parece ser mesmo o shoegaze. Viajam por boa parte do álbum experimentando com pedais e abusando de um noise suave, melodioso, quase pop – talvez lembrança da espécie de power pop que um dia beliscaram. Ouça “Nothing’s Changed” e “Disorder”, você vai entender e adorar. Esta última é algo como Conor Oberst tendo o My Bloody Valentine como backing band, por mais estranho e bacana que isso possa ser.   Tomás Bello

PITTY

Chiaroscuro

Desde Anacrônico, Pitty permaneceu a única sobrevivente relevante de uma geração inteira de artistas independentes que tinham entrado para alguma gravadora. Chiaroscuro segue exatamente o mesmo ritmo do trabalho anterior, mesmo lançado quase cinco anos depois, uma opção comum aos artistas de público jovem da Deckdisc. Mesmo assim, Chiaroscuro é um bom disco. Tem pelo menos quatro grandes músicas, incluindo o single “Me Adora”. “Descontruindo Amélia”, “Fracasso” e “Assombra” completam a parte boa de ouvir bem alto, como a própria cantora tem instigado os fãs em seu blog. Mesmo assim, não justificam um álbum inteiro. É rock melhor e mais autêntico que um NxZero, sem a originalidade de um Nação Zumbi, mas que pode ser ouvido pelo mesmo público das duas bandas. Bruno Nogueira 59 noize.com.br


Avante Royale

VOLANTES

EP

Com produção de Gabriel Guedes, da Pata de Elefante,  o quarteto instrumental  Avante Royale acaba de lançar seu primeiro EP. Mesmo sem a energia dos shows que tem feito em Porto Alegre, a banda  mostra maturidade na estreia. Com ótimos solos de guitarra, “Avante Royale Apresenta” e “A Ressaca na Pracinha” são os pontos altos. “La Prima Noche vs. Carmão 1 Pulmão” é puro surf music, enquanto “Surfing the Samba Fácil” mostra que o bom samba com rock não é só aquele que faz dançar. “Ginpelo’s Destiny” fecha o disco com toques  orientais.  O caminho é longo, mas começou sem tropeços. Lucca Rossi

Sobre Gostar e Esperar

Sabe o processo pelo qual uma banda “tem” que passar até gravar um disco? Esqueça. A gaúcha Volantes, mesmo com pouquíssimo tempo de vida, já era escolhida pelo público para participar de um show promovido pelo MySpace. O registro do trabalho, o CD Sobre Gostar e Esperar, condiz com o discurso: baladas com toques eletrônicos, letras que tratam do universo de festas, rock e tudo o mais, com entrelinhas quase explícitas, como em “Um Pouco Disso”. Há uma tentativa de fugir do estigma banda de rock gaúcho, com uma referência a um quarto de hotel na Av. Paulista, mas que não convence. Ana Luiza Bazerque

Escute também: RAUL ROCK SEIXAS, PANELA DO DIABO.

DiscografiaBásica

por Maria Joana Avellar

TONHO CROCCO

Teto Solar

Tonho foi a Nova York após o fim da Ultramen e se juntou a gente boa, como o produtor Simon Katz, para conceber este EP. Registrou cinco faixas que talvez fossem até as medianas em um disco de sua antiga banda. Graças ao tempero acentuado do samba nos arranjos, atestado por “Árida Saudade”, expiram ar fresco. A canção de exílio da faixa-título se destaca, mas reforça a fórmula vocal exercitada pelo músico nas últimas duas décadas. Ainda falta à nova fase de Crocco algo que faixas como a ótima e funky “Abre Alas” apenas sugerem. Talvez porque o EP foi gravado quase por acaso e com músicos reunidos no ato? F. Corrêa

RAUL SEIXAS

Gita

As letras de Gita (1974) foram consideradas subversivas pelo Regime Militar e renderam o exílio a Raul e Paulo Coelho - seu parceiro em composições desde o anterior e primeiro álbum solo, Krig-Ha Bandolo!, e em exaltar, em pleno Brasil ditatorial, a famosa Sociedade Alternativa idealizada pelos dois. Contudo, foi o sucesso do disco que os devolveu o carimbo de entrada no país. Gita foi Disco de Ouro. Além da música que o intitula, uma referência ao texto sagrado “Bhagavad-Gitā”, o álbum consagrou a hits “Medo da Chuva” e “Loteria da Babilônia”, e evidenciou a influência que Raul sofrera de rocks norte-americanos e de artistas nordestinos como Luiz Gonzaga, em especial na canção O “Trem das Sete”. Novo Aeon

Em uma leitura superficial, o termo Novo Aeon (1975) significa mudança, mas o trabalho mostra um Raul tão roqueiro e místico quanto nos dois discos anteriores. Lançado menos de um ano após o sucesso de Gita, o terceiro álbum solo vem com canções em parceria com outros escritores além de Paulo Coelho, entre elas o mestre de ocultura Marcelo Motta. Liderado pelo hino rock ‘n’ roll e otimista “Tente Outra Vez”, o disco contém as faixas “Tu és o MDC da Minha Vida”, “A Verdade Sobre a Nostalgia” e “Rock do Diabo”, que mostram a influência do blues e de artistas como Elvis Presley e Jerry Lee Lewis na formação musical do Maluco Beleza - produtor de álbuns da Jovem Guarda antes de engrenar em sua carreira musical. Há 10 mil anos atrás

Há 10 mil anos atrás (1976) é outro disco recheado de canções clássicas e representativas do músico baiano, todas com um misto de descrença e fé na vida em geral. O disco inicia com o trágico e intenso tango “Canto Para Minha Morte” e continua no clima de nostalgia feliz com “Meu Amigo Pedro” e triste na gospel “Ave Maria da Rua”. A partir daí, esquenta, especialmente em “Eu Também Vou Reclamar”, na qual Raul critica a sociedade capitalista e a vida ordinária com mais humor do que no antigo sucesso “Ouro de Tolo”, e mais próximo ao folk de Bob Dylan – estridente em “As Minas do Rei Salomão”. Os álbuns que sucederam Há 10 mil anos atrás foram sucesso de público, mas fracasso de crítica, e Raul começou a ter problemas de saúde devido ao consumo excessivo de álcool.


BARFLY (H)Our

Em seu terceiro disco, a goiana Barfly mantém as influências do rock britânico já características dos outros registros, mas, desta vez, de forma mais branda. (H)Our abre um leque maior de sonoridades, e predomina um clima mais psicodélico, viajandão. As mudanças de ritmos dentro de uma mesma música também são algo a ser destaca, como na inconstante “End”. Os vocais suaves somados às baladinhas dançantes fazem de (H)Our um disco agradável, feliz, com uma dose exata de melancolia, sem pesar a mão.  Faixas como “The Watch” têm uma densidade a la Frusciante, comparações à parte. Para os fãs do rock contemporâneo que não perdem a vista o que deu certo no passado. Ana Luiza Bazerque

Mickey Gang We Have Feelings Too

Músicas fáceis, dançantes e pouco cansativas: são elas que compõem We Have Feelings Too o primeiro EP do Mickey Gang, um grupo formado por cinco adolescentes que só queriam fugir do tédio da pequena Colatina, no Espírito Santo. “I Was Born in the 90’s” e “Horses Can’t Dance”, duas das cinco faixas do registro, estão entre as gravações mais redondas do ano. Seja quando celebram a juventude (“All we think is about fuck”) ou desprezando-a (“Why did I come so late?”), o electro-rock despretensioso e sem produção da gangue pede múltiplas execuções. O destaque fica para o “Naji Nahas Footloose Remix” de “I Was Born In The 90’s”, um ótimo combustível pré-balada. Alex Corrêa

ROCKZ

A Tão Sonhada Bicicleta

Apesar da troca de vocalista, que é sempre difícil, o novo CD do RockZ chega mais bem humorado, com uma interessante pitada de loucura no som. A tão sonhada bicicleta dialoga com Queens of the Stone Age e The Killers ou com Mundo Livre S/A e Acabou La Tequila, misturando rock com o espírito jovem, cabeça e alegremente lírico desses clássicos da década de 1990. Ouça “As horas passam Crazy” para entender. “Tô planejando” é hit certo e poderia estar tocando em qualquer beco em Porto Alegre, mesmo que a banda não seja tão conhecida fora do centro do País. O fato de já serem músicos experientes e de variadas influências contribui muito para não serem apenas mais uma banda. Bruno Felin

ta por vir .: Outubro_ Nina Becker | Azul e Vermelho “Nina começou como backing do Zeca pagodinho, era cenografista de cinema, virou estilista, entrou pra Orquestra Imperial, gravou com minha produção dois discos (Azul e Vermelho) ao mesmo tempo, um ao vivo no estudio com a Do Amor, outro com Mauricio Tagliari, Luca Raele, Nelson Jacobina.Certissimo!”, contou Miranda, produtor dos discos.

confira Frank Jorge Volume III ___O Volume III de Frank Jorge consagra a mistura de Jovem Guarda e música romântica, em temas que brincam justamente com temáticas como a obsessão pelos anos 1960 e a fase decadente – e ainda assim boa – de Elvis Presley.

Clube do Balanço Pela Contramão ___Mantenedor do suingue, o grupo paulista traz em Pela Contramão um mix 100% autoral, sem deixar de lembrar a todo o momento os mestres que misturaram o samba ao rock, ao funk, ao soul, como Jorge, Trio Mocotó e Bebeto.

Conexão Baixada Uma onda tsunami ___Som para quem gosta daquela velha mistura de rap, rock e ragga unidos pelo reggae, como muitos charlies já fizeram por aí. Aliás, a Conexão é aposta de uma das grandes gravadoras do país. Se te parece bom, certamente gostarás.

DVDS TITÃS

A Vida Até Parece Uma Festa

Quem começa uma banda deve filmar tudo. Se não durar, haverá bons motivos para risadas. Se durar, você pode depois lançar um filme tão interessante como este. Branco Mello pensou nisso, gravou tudo e chamou Oscar Rodrigues Alves para juntos analisarem horas de imagens e delas gerar um filme de 100 minutos. Sem narração e com legendas só quando necessário (o som às vezes é ruim), as sequências da câmera de Branco e os arquivos de TV formam um belo panorama da história dos Titãs. Desrespeitar a cronologia permitiu partes ótimas, como Nando Reis novinho cantando “Querem Meu Sangue” com Jimmy Cliff no Acústico MTV. Despretensioso, é como um poema simples e bem feito—ou seja, com muito trabalho por trás (íntegra em paradacritica.blogspot.com). Tiago Mota

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cinema TEMPOS DE PAZ

Diretor_ Daniel Filho Elenco_ Tony Ramos, Dan Stulbach, Daniel Filho, Louise Cardoso Lançamento_ 2009 Nota_ 3 de 5

Abril de 1945 e os combates da II Guerra Mundial acenavam para um término iminente na Europa. Solo brasileiro, mais precisamente o Rio de Janeiro da Era Vargas. Em questão, o interrogador alfandegário e ex-torturador da polícia política do governo, Segismundo, frente ao ex-ator polonês Clausewitz, fugido da perseguição nazista e com planos de aqui assentar-se. A breve sinopse refere-se à nova produção do ator e diretor Daniel Filho, Tempos de Paz.Texto extraído da peça de Bosco Brasil, intitulada Novas Diretrizes em Tempos de Paz, o filme conta com atuações contundentes da dupla de protagonistas encabeçada por Dan Stulbach e Tony Ramos. A tensão cênica gira em torno do embate entre os dois personagens e consiste na tentativa de um (o ex-ator polonês) em persuadir o outro (o agente

da Alfândega) a lhe conceder o salvoconduto e assim garantir permanência em terras brasileiras. Para isso, o ex-ator usará de todo o seu talento e recorrerá à emoção que o teatro desperta para garantir o seu destino. É desta maneira que a narrativa alcança um ponto de convergência entre todas as vidas ali envolvidas (também o próprio diretor Daniel Filho aparece como um médico torturado pelo regime) e minimiza as dores da perda e da culpa, em uma referência sublime ao papel da arte na vida. Por fim, Tempos de Paz presta uma bela homenagem a todos aqueles que a guerra trouxe ao Brasil e que aqui tornaram-se grandes nomes de nossa história nos campos mais diversos de atuação. Marcela Jung

BRÜNO

Diretor_ Larry Charles Elenco_Sacha Baron Cohen e Gustaf Hammarsten Lançamento_ 2009 Nota_ 4 de 5

Uma mesma piada contada duas vezes continua sendo engraçada? No caso de Brüno, a resposta varia. O filme é menos uma comédia do que um experimento social radical do qual o camaleônico Sacha Baron Cohen se utiliza para fazer o que sabe como comediante: derrubar máscaras. Brüno, seu personagem da vez, é um repórter fashionista über gay que, após ser “expulso” do mundo da moda, viaja aos EUA acompanhado de seu assistente Lutz, determinado a tornar-se “o maior popstar austríaco desde Hitler”. Suas tentativas se sucedem na forma de um piloto de programa de TV (provavelmente a parte mais insana e engraçada do filme), programas de entrevistas ou adoção de bebês africanos (afinal, se Angelina e Madonna podem, Brüno também pode), até concluir que a úni-

ca forma de ficar famoso é tornar-se hétero - o que lhe dá a oportunidade de entrevistar pastores evangélicos, caçadores de animais, militares e todo tipo de ambiente onde a homofobia é regra, culminando com uma arriscada apresentação num ringue de vale-tudo (onde, não tenho dúvidas, Baron Cohen correu certo risco de vida). Sua grande habilidade continua sendo incorporar personagens que são puro Id, correndo descontroladamente sem superegos que os controlem, de tal forma provocando choque e surpresa naqueles com que interage, que não há verniz social que se mantenha. Samir Machado


cinema

livros

GUIDABLE

CASA DE ALICE

SINUCA EM BAIXO D’ÁGUA

O documentário Guidable – A Verdadeira História do Ratos de Porão retrata em vídeo os 30 anos de carreira da banda paulista de hardcore. Em 121 minutos de material, entrevistas com integrantes, ex-integrantes, amigos e personagens importantes da cena hardcore brasileira montam a biografia do grupo, disco por disco. O documentário se completa com vídeos e fotos inéditas do Ratos desde seu início. Guidable tem a direção de Fernando Rick e Marcelo Appezzato, convidados pela própria banda, em 2006. Concluído este ano, foi lançado pelo selo Black Vomit Filmes e tem sido exibido em sessões pelo Brasil inteiro. O filme estará à venda em breve, em uma versão de DVD duplo com material bônus. Informações e agenda completa das sessões aqui: blackvomit.com. br/guidable. Rafael Lamim

Primeira incursão do diretor/documentarista Chico Teixeira no universo da ficção, o longa A Casa de Alice oferece frescor e novas perspectivas ao cinema nacional. A produção apresenta a crônica urbana de uma família de classe média assolada por conflitos velados e pela degradação emocional de cada um de seus personagens em seu universo individual. Seco na forma e apresentação, o filme retrata o cotidiano de uma manicure quarentona, a Alice protagonizada pela competente atriz Carla Ribas, que sustenta praticamente sozinha a família formada pelo marido, a mãe e os filhos. Na tentativa de traduzir e denunciar as mazelas que assolam os seres humanos, A Casa de Alice discute a traição, as frustrações, a solidão e a cegueira, concreta ou metafórica, que acomete o homem no sentido de minimizar o entendimento da realidade. Marcela Jung

Agora que lançou seu romance Sinuca embaixo d’água pela Cia. das Letras, Carol Bensimon tem sido alardeada como uma das grandes revelações da literatura brasileira. Sempre que surgem declarações desse tipo, o público desconfia de “panelinha” ou exagero da crítica. Porém, é só começar a leitura de Sinuca que se percebe que, se Carol chegou onde está, foi pelo trabalho árduo. No romance, que narra de vários pontos de vista a maneira como a morte de uma garota em um acidente de carro afetou a vida dos que ficaram, Bensimon demonstra um cuidado formal quase obsessivo com as frases e uma atenção aos detalhes do que é descrito tão intensa como a de uma seguidora de Flaubert. O livro se move às vezes em uma falsa estrutura policialesca, culminando em vários anticlímaxes (no bom sentido): nada se descobre de concreto, mas o que se poderia encontrar? Afinal, são personagens que buscam, acima de tudo, dar sentido a uma morte tão gratuita. Antônio Xerxenesky

de Fernando Rick e Marcelo Appezzato (2009)

de Chico Teixeira (2009)

de Carol Bensimon (2009)

games Batman: Arkham Asylum Embora Batman: Arkham Asylum possa ser desfrutado por todos os apreciadores de jogos arcade, é pouco provável que você conheça este episódio da série se não for um verdadeiro fã dos quadrinhos do homem-morcego. Arkham é o principal hospital psiquiátrico de Gotham City, por onde passaram Coringa, Charada e este ou aquele outro vilão que você for capaz de lembrar. O jogo corre em terceira pessoa, enquanto o jogador precisa usar das habilidades lutadoras de Batman, que conta com um set legal de armas e artefatos. Além da ação, você precisará ser sorrateiro e solucionar enigmas que constituem a outra metade da cara do jogo, porque Batman não se resume a músculos. Gameboy

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fotos: 1 | Bruna Sanches

2 | Divulgação

3 | Luiz Silveira 4| | Adriana Neves

5 | Camila Mazzini

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shows

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_LITTLE JOY, MUSICA DO MATO, CEU, MUTANTES, LUDOV


OS MUTANTES EUA,Vários, Setembro

Enquanto o Brasil olha desconfiado para a nova formação dos Mutantes, Sérgio Dias e cia. andam muito bem e ocupados em sua turnê norte-americana de 30 shows para o lançamento de Haih or Amortecedor. Com a vantagem de o público internacional não fazer parte do movimento de viúvos de Rita Lee, as criticas não poderiam ser melhores. “Grupo brasileiro de 43 anos desafia o tempo e a lógica”, diz a renomada revista SPIN. “O inexplicável e imprevisível foi o que esta banda brasileira fez de melhor e acaba de fazer novamente, quase quatro décadas depois”, escreve o maior jornal cultural de New York. Tive a grande oportunidade de acompanhar de perto o começo dessa turnê pela costa oeste. O primeiro show, em Los Angeles, dois shows em San Francisco, Portland e recentemente em Seattle. Percebi uma receptividade calorosa por toda parte, com pessoas que tinham acabado de conhecer o som e dançavam sem medo, e fãs gringos alucinados, brigando pelo setlist no final dos shows. Em Seattle não foi diferente. Conhecida como um dos grandes pólos culturais do país, a cidade abriga o Bumbershoot Music & Art Festival desde 1971 e não foi difícil colocar Os Mutantes para tocar por lá. O que parecia ser uma platéia pequena e monótona no começo acabou por lotar o espaço assim que Sérgio Dias tocou os primeiros acordes de “Minha Menina”. O que já era puro humor transformou-se em êxtase dos fãs presentes quando Sérgio anunciou a vitória brasileira sobre a seleção argentina enquanto a vocalista Bia Mendes abria um enorme sorriso apontando “3 a 1” com os dedos. Os yankees tentaram até o fim balbuciar alguma coisa em português, e mesmo quando Bia perguntou se eles gostariam de ouvir “Baby” em inglês ou português, a resposta foi a favor dos brasileiros. “Batmacumba”, “Balada do Louco”, “Tecnicolor” e até as no-

vas músicas “Bagdah Blues”, “Querida Querida” levaram o público a vibrar e cantar junto até o final. Nosso maior representante tupiniquim segue em turnê com shows até o final de outubro. Luiz Silveira

LITTLE JOY

Porto Alegre, Bar Opinião, 13 de Agosto

Foi em uma quinta-feira quente, mas não muito, que a banda Little Joy tocou em Porto Alegre pela segunda vez em um intervalo de seis meses. O trio Rodrigo Amarante, Binki Shapiro e Fabrizio Moretti iniciava mais uma turnê brasileira pelo lado de cá do País. Fui esperando a repetição do show anterior – faixas de 1 a 11, executadas com simpatia e bom humor. Acabei me deparando com um show diferente, na medida do possível. A começar por Adam Green, que abriu a noite. Sem camisa, com a guitarra em punho, berrando palavras de ordem bêbadas de cima do palco. Adam quem? De todos os jovens presentes no bar Opinião, talvez 30 conhecessem o trabalho excelente desse nova-iorquino de voz grave – e apenas 15 mostravam apoio ou compreensão ao músico em frente ao palco. Literalmente sozinho no meio da multidão, Adam fez piada e deu muitos e fracassados moshs. O público parecia não querer segurá-lo, muito menos ouvi-lo. Depois de o Sr. Green se esforçar com sua performance junkie e destruir todo o trabalho dos técnicos de som, foi a vez de os Dead Trees tocarem suas músicas. Uma excelente banda de rock, que fez o possível e o impossível com os instrumentos desregulados pelo saltitante Green. Os Dead Trees agradaram bem mais ao público um tanto eclético do show. Ao menos foram ouvidos e arrancaram alguns aplausos. Esse público tão desanimado com as bandas de abertura foi a prova de que agora, o Little Joy é definitivamente uma banda de rádio. Quase nenhum dos indies, roqueiros, ou fãs de Los Hermanos e Strokes que foi ao primeiro show estava lá. Fosse pelo medo de ver um

show idêntico ao anterior, fosse pelo preço salgado dos ingressos, desta vez quem entrou no Opinião para ver Little Joy era bem menos “do rock”. O melhor? Mais espaço para respirar, e dessa vez o suor não escorria pelas paredes. O pior? Adam Green e os Dead Trees que o digam – que desânimo com o rock, juventude! Mas finalmente Amarante e seus amigos entraram no palco e fizeram a alegria dos “fãs”. Apesar das falhas técnicas quase imperdoáveis – microfones que não funcionavam, cabos desconectados e instrumentos desafinados – o trio cumpriu sua função. Animados e sempre muito simpáticos, Amarante e Moretti levavam as garotas ao delírio cada vez que falavam no microfone. “Essa aqui nós compusemos no hotel, aqui em Porto Alegre” disse Amarante. Verdade ou não, a música agradou pelos sopros bem empregados remetendo ao primeiro disco, mas com muito mais ânimo. Ao todo foram quatro canções novas, todas com essa cara de Little Joy. A apresentação também contou com todos os clássicos do primeiro CD e com um cover de Gilberto Gil que cairia melhor se não fosse tão forçadamente ufanista. Um show que valeu a pena por deixar aquele gostinho já distante de Strokes e Los Hermanos, já que Little Joy até em propaganda de bombom ninguém mais aguenta. Tudo bem, a saudade nos leva a atitudes impensadas. Brunna Radaelli

CÉU

Porto Alegre, Bar Opinião, 27 de Agosto

Depois do lançamento do CD de um artista, o momento mais esperado pelos fãs é o início de sua turnê. O palco tanto realça o que o trabalho tem de bom, quanto evidencia suas falhas. Na quinta-feira, 27 de agosto, chegou a vez da cantora Céu passar por esta prova de fogo. Ela subiu ao palco do Bar Opinião para a primeira apresentação de seu novo trabalho, Vagarosa, e provou que a perfeição de sua música sobrevive. Mas, muitas vezes, não funciona 65 noize.com.br


como o espetáculo que a maioria está acostumada. Já na abertura, “Espaçonave”, a expectativa se concretiza: ela sabe o que faz e tem a verdade como sua maior aliada, sem maquiagem ou poluição. Estamos diante de alguém de muita técnica, de perfeita afinação, que sabe de seus limites vocais e usa isso a seu favor: não vai além, não quer e não precisa provar nada. O som é natural, tão natural que pode causar estranhamento aos desavisados. Céu não mudou, mas agora se mostra de outra forma, um ângulo mais jamaicano e despreocupado. Os músicos também estão na mesma freqüência de novidade: Bruno Buarque, que antes comandava a percussão, agora se apresenta como baterista; Guilherme Ribeiro se divide entre teclado, acordeon e guitarra; outra novidade é a presença de Lucas Martins no baixo; e por último, o genial DJ Marco, que mais uma vez se superou nos backing vocals e nos mais inusitados efeitos sonoros, gerados com apenas com um par de toca-discos e uma MPC. Céu veio vagarosa e na maciota, mas sem deixar de, como ela mesma diz, “pegar como um bocejo”. Sua capacidade de envolver está lá, forte e intacta. Algumas pessoas disseram que foram embora com o sentimento de que faltou algo. Mas para a essas pessoas digo que se, ao invés de ter olhado para o palco, tivessem em alguns momentos fechado os olhos, teriam visto e sentido um outro show. Laila Garroni

LUDOV

São Paulo, Clash Club, 22 de Agosto

Noite de sábado. Frio em São Paulo. A temperatura chegou a 12°C. Mas, dentro da Clash, o clima é de expectativa, para o show de lançamento de Caligrafia, novo álbum do Ludov. A apresentação começou com um pequeno atraso, às 21h46 (estava programada para 21h30). Logo de cara, “Luta Livre”, música que abre o quarto trabalho da banda. Ótima escolha, já que a canção é bastante enérgica, com uma levada de bateria quase punk. “Vinte por

Cento”, outra nova, vem na sequência. A plateia, se não chegava a lotar o clube, demonstrava bastante empolgação. O Ludov jogava em casa, com a torcida ganha. Além disso, se em disco as melodias bem produzidas e a bela voz de Vanessa emprestam um caráter muitas vezes de balada às canções, ao vivo elas ganham em peso e energia. Um dos principais responsáveis por isso é o competente guitarrista, Mauro Motoki. A cozinha, com Habacuque Lima no baixo e Chapolin na bateria completa o clima rocker que a banda cria no show. Além das músicas lançadas fisicamente, o Ludov não deixou de mostrar as canções bônus, disponibilizadas apenas online. “Teu Perfume”, a primeira lançada desta forma, foi também a primeira mostrada na noite. Fica claro que, longe de serem sobras de estúdio, algumas músicas saíram online apenas para acompanhar os novos tempos, pois poderiam facilmente fazer parte do CD. Depois de mais algumas novas, o Ludov entoa aquela que é o hino da banda e não pode faltar nos shows, “Kriptonita”. O público, emocionado, canta junto. O palco da casa, próximo da plateia, ajuda a criar o clima de comoção. Mas, como a noite era de lançamento, Caligrafia volta a tomar conta do set. “Notre Voyage”, com letra em francês e “Paris, Texas”, com diversas referências cinematográficas, são duas das melhores do novo trabalho e funcionam ao vivo. Quem sabe Vanessa não se empolgue e banda volte a apostar em novas letras em francês? Pouco mais de uma hora e meia de apresentação foi o bastante para o Ludov marcar seu retorno aos palcos e mostrar sua nova fase (publicado originalmente em bloodypop.com). Israel Bumajny

MÚSICA DO MATO Recife, Rua da Moeda, 28 de Agosto,

Música do Mato é o projeto de exportação da música matogrossense. As estéticas são variadas e envolvem rock, jazz, MPB, hip hop e música eletrônica. Foi esse conteúdo que os pernambu-

canos presenciaram na Rua da Moeda, no Recife Antigo. Depois de passar por Pirinópolis (GO), Inhumas (GO), Uberlândia (MG), Fortaleza (CE), Natal (RN) e João Pessoa (PB), o projeto desembarcou em Recife para um show em parceria com o Lumo Coletivo. A apresentação teve início com a clássica “Mas que Nada”, de Jorge Ben. A mesma gig permaneceu no palco para a apresentação de Paulo Monarco, compositor cuiabano novo e dono de um diferencial no controverso termo MPB: faz música refinada e ao mesmo tempo pop, pautada em harmonias cabeludas e rock’n’roll. Troca de bateristas, Macaco Bong no palco toca enquanto o rapper Linha Dura manda letras politizadas que fogem do senso comum. Sai Linha Dura e o som passa a não ter mais voz. É a vez do Macaco Bong destilar seu aclamado rock instrumental. A apresentação foi memorável. No ano anterior, a banda se apresentou na mesma Rua da Moeda debaixo de chuva. Dessa vez, com uma tenda protetora e com o Música do Mato, o enlace com o público foi ainda maior. A noite é encerrada com o som de DJ Farinha, que instaurou uma verdadeira balada em pleno Recife Antigo. Houve quem dissesse que o som do Música do Mato abafava a roda de pagode, a 300 metros dali. O Música do Mato faz jus ao novo modelo de se trabalhar a música pela autogestão. Leva em seu case workshops de instrumentos e oficinas de sonorização, produção de palco, roadie, mídias digitais e web rádio. Uma das metas é criar mecanismos e ações sustentáveis para que a música produzida naquela região encontre um lugar expressivo no mercado nacional e internacional, apresentando sua diversificada e rica produção, escoando seus produtos e formando público para seus artistas. Dá para saber mais no blog do projeto, musicadomato.wordpress.com. Dríade Aguiar


_ilustra Shock

flickr.com/shockmaravilha

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Revista NOIZE #27 - Setembro de 2009  

Independente, Krisiun, Rock Rocket, Coletivos, Pancadão, ...

Revista NOIZE #27 - Setembro de 2009  

Independente, Krisiun, Rock Rocket, Coletivos, Pancadão, ...

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