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balthazar is a cinematographer who makes synchronized musical documentaries. what do you do? converseallstar.com.br/linhapremium


twist/brit


• COLABORADORES |NOIZE #38

DO UNDERGROUND AO MAINSTREAM

• EXPEDIENTE #38 // ANO 4 // OUTUBRO ‘10_ DIREÇÃO: 
 Kento Kojima Pablo Rocha Rafael Rocha COMERCIAL:


 Pablo Rocha pablo@noize.com.br Silvana Fuhrman silvana@noize.com.br EDIÇÃO:
 Fernando Corrêa nando@noize.com.br DIREÇÃO DE ARTE: Rafael Rocha rafarocha@noize.com.br DESIGN: Douglas Gomes doug@noize.com.br ASSIST. DE CRIAÇÃO: Cristiano Teixeira cris@noize.com.br



REDAÇÃO: Bruno Felin bruno@noize.com.br Ana Laura Malmaceda ana@noize.com.br Gustavo Foster foster@noize.com.br Maria Joana Avellar joana@noize.com.br

SCREAM & YELL: Marcelo Costa www.screamyell.com.br

REVISÃO: João Fedele de Azeredo jp@noize.com.br 
 Fernanda Grabauska fernanda@noize.com.br


RRAURL: Gaía Passarelli www.rraurl.com

ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO: Júlia Alves julia@noize.com.br DISTRIBUIÇÃO: Ricardo Carvalho ricardo@noize.com.br PROJETOS: Leandro Pinheiro leandro@noize.com.br

MOVE THAT JUKEBOX: Alex Correa Neto Rodrigues www.movethatjukebox.com

agenda@noize.com.br

 ASSESSORIA JURÍDICA: Zago & Martins Advogados

FORA DO EIXO: Ney Hugo Camila Cortielha Marco Nalesso Michele Parron www.foradoeixo.org

PONTOS: Faculdades Colégios Cursinhos Estúdios
 Lojas de Instrumentos Lojas de CDs Lojas de Roupas Lojas Alternativas Agências de Viagens
 Escolas de Música Escolas de Idiomas
 Bares e Casas de Show
 Shows, Festas e Feiras

 Festivais Independentes

ANUNCIE NA NOIZE: comercial@noize.com.br



TIRAGEM: 30.000 exemplares

ASSINE A NOIZE: assinatura@noize.com.br



CIRCULAÇÃO NACIONAL

AGENDA: shows, festas e eventos

• EDITORIAL A ressaca do mês da independência vem a galope. Você pode folhear estas páginas que seguem e pensar, “De que adianta fazer uma edição dedicada ao Brasil se a seguinte parece devota aos gringos?”. Não podemos culpá-lo, mas… A NOIZE #38 está mesmo repleta de entrevistas internacionais. O Dinosaur Jr. veio para o No Ar Coquetel Molotov e aproveitamos a deixa para acompanhar eles, mestres, veteranos, dinossauros. O Pixies, que também tem suas décadas de vida, toca no SWU e bateu aquele papo relâmpago que se costuma disponibilizar nas vésperas de shows. O Ok Go veio para falar de música, mercado e, claro, clipes. E o Vive la Fête falou com a gente um tempo atrás, mas só hoje conseguimos disponibilizar parte da entrevista com a dupla. Mas aí há o equilíbrio. Primeiro com nossa grande matéria sobre o menos óbvio, o lado B da Tropicália. Enquanto o Brasil assiste estupefato ao ótimo longa Uma noite em 67, a gente publica uma matéria que explora os personagens menos evidentes do grande movimento que surgiria dos festivais. E o Garotas Suecas, que estampa nosso ensaio de fotos estendido, é um pouco filho desse tropicalismo, também, mas faz sua própria antropofagia, e o passado é apenas alimento. Equilibrou ou não equilibrou?

• ARTE DE CAPA_ Walter Nomura a.k.a. Tinho Confira mais trabalhos do artista em seu blog e flickr pessoal. walternomura.blogspot.com flickr.com/tinho_nomura

• BÉÉÉÉ_ O disco Em Boas Mãos, da banda gaúcha Gulivers, saiu com nota de 3,5 estrelas, enquanto a classificação correta mandada pelo colaborador era de 4 estrelas. Mal aê.... Dicas, sugestões e reclamações: noize@noize.com.br

1.Walter Nomura a.k.a. Tinho_walternomura.blogspot.com 2. Gaía Passarelli_ Jornalista, confunde-se com a própria história do rraurl.com, maior portal sobre cultura eletrônica do Brasil. 3.Vinícius Bracin_ Jornalista em formação. Mas sempre com o plano B de ir vender pastel na praia disponível. É encontrado em http://blogdobracin.tumblr.com/ 4. Bruno Nogueira_ jornalista e edita o PopUp.mus.br 5. Alex Correa_ Carioca, mas gosta mesmo é de São Paulo e acredita na genialidade do Kasabian até o fim. 6. Marcelo Costa_ Editor do screamyell.com.br, trabalha na edição da capa do portal iG e escreve sobre cultura pop como conversa na mesa do bar. 7. Samuel Esteves_ É nóis que tá. samuelesteves.com 8. Camila Mazzini_ Jornalista e fotógrafa morando em são paulo mas não sabe o que quer da vida. flickr.com/photos/camila_mazzini 9. Ariel Martini_ ainda insiste em fazer fotos de show. flickr.com/arielmartini 10. Neto Rodrigues_ Morador de Minas há incontáveis anos, quase foi um engenheiro. Hoje ronda a publicidade e torce pela volta do Oasis. 11. Daniel Sanes_ Jornalista por formação, lunático por opção e roqueiro de nascimento 12. Eduardo Guspe_ Membro fundador do Núcleo Urbanóide, ultimamente se dedica a produzir DONUTS. facebook.com/eduardo.guspe 13.Victor Sá_ Formado em comunicação social, trabalha como jornalista, roteirista e fotógrafo em diferentes mídias sociais. flickr.com/victor_sa 14. Lidy Araujo_ Jornalista, baixista frustrada e louca por Ramones e Red Hot Chili Peppers. Seu site é lidyaraujo.com.br 15. Leonardo Bomfim_ Jornalista e diretor de cinema, edita o freakiumemeio.wordpress.com 16. Diego de Carli_ Jornalista a serviço da publicidade. Já segurou a mão de Beth Gibbons e soltou lágrimas no Rio Danúbio. Hoje vive num quartinho de empregada. 17. Mariana Korman_ Fotógrafa flickr.com/marikorman 18. Gustavo Lacerda_ Estudante de jornalismo que enfim vai se formar, com um pé na literatura e o outro no ar. 19. Ricardo Finocchiaro_ jornalista, trabalha com produção cultural. Rock and roller de sangue e alma, vive de música, 8 days a week. www.abstratti.com.br. 20. Fernando Schlaepfer_ Designer por formação, ilustrador por aptidão, D.J. por diversão e fotógrafo por paixão. 21. Felipe Neves_ Fotógrafo e baterista. Ultimamente se viciou em fotografia analógica. Seus trabalhos: www.flickr.com/felipeneves 22. Gustavo Corrêa_ Jornalista e estudante de direito, tem um gosto musical crescentemente duvidoso. 23.Thiago Aita_ Jornalista, fotógrafo, fã de Hunther Thompson e Black Flag. 24. Leonardo Foletto_ Jornalista, gaúcho, colorado, editor do baixacultura.org, fã de Juan Carlos Onetti e, no momento, morador do Bela Vista paulistano.


Os anúncios e os textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da revista.. Revista NOIZE - Alguns Diretos Reservados

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• THIS IS NOIZE SUPERSTYLLIN’! Se Você Não Gostou da NOIZE Passe Adiante

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www.noize.com.br

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NOIZE

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_foto: FELIPE NEVES | FLICKR.com/felipeneves

l ife is music


NOMES_ 1.Klaus Mitteldorf 2.Felipe Cretella 3.Marinho Neto 4.Lucila Wroblewski 5.Roberto Schmitt-Prym PROFISSテグ_ Fotテウgrafos UM DISCO_ 1.Jake Shimabukuro / Live | 2. Naテァテ」o Zumbi / Fome de Tudo | 3. The Hours Soundtrack by Philip Glass / 4. Charlie Haden / Closeness | 5. John Coltrane / A Love Supreme


ALEGRE / SALVADOR / SÃO PAULO / FESTIVAL ARTE.MOV / 2010 - BELÉM / BELO HORIZONTE / PORTO ALEGRE / SALVADOR / S

ARTE E TECNOLOGIA DESENHANDO UMA NOVA PAISAGEM.

apresenta:

FESTIVAL

ARTE.MOV ARTE EM MÍDIAS MÓVEIS

2010

PORTO ALEGRE 03 A 07/NOVEMBRO - 2010

USINA DO GASÔMETRO SIMPÓSIOS/WORKSHOPS EXPOSIÇÕES/PERFORMANCES EVENTOS AUDIOVISUAIS INTERVENÇÕES ARTÍSTICAS

FESTIVAL ARTE.MOV / 2010 - BELÉM / BELO HORIZONTE / PORTO ALEGRE / SALVADOR / SÃO PAULO / FESTIVAL ARTE.MOV / 20

NOVAS CARTOGRAFIAS URBANAS:

PROG TUDO

O Festi arte em campo, ações,

Em sua Festiva transfo Belém, A progr diversi dades d

Saiba m www.viv

E parti twitter


GRAMA VIVO ARTE.MOV. O SOBRE A CULTURA DA MOBILIDADE.

ival arte.mov é o maior e mais abrangente festival de m mídias móveis e locativas do Brasil. Pioneiro neste integra o Programa Vivo arte.mov, que reúne diversas projetos e eventos em torno da cultura da mobilidade.

quinta edição, concretiza-se o movimento em que o al, originalmente criado em Belo Horizonte em 2006, orma-se num Programa Cultural nacional, acontecendo em Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte e São Paulo. ramação reúne nomes internacionais e locais e se ica em cada cidade, dialogando com as particularide cada uma delas.

mais em vo.com.br/artemov

icipe de nossas redes sociais: r.com/artemov e facebook.com/festivalvivoartemov


um importante processo evolutivo para o planeta. Eugene Hütz | Gogol Bordello

sastres naturais ou guerra. Mas agora, cada vez mais é uma escolha intelectual,

passado, a imigração acontecia principalmente por razões econômicas, ou por de-

paração e divisão de comunidades. A imigração é uma parte crucial dessa ideia. No

“Cidadania mundial é uma ideia nova para muita gente, mas para a gente é uma

“Eu não estava pensando claramente. Tomei uma decisão terrível de acabar com a vida de outra pessoa, por razões egoístas. Achei que matando Lennon eu me tornaria alguém e, em vez disso, me tornei um assassino.” Mark Chapman | Assassino muito louco de Lennon

“Músicos incrívceis do Brazil, Russia, Itália, França, acabaram na seção de world music e nunca encontraram público porque não falam Inglês. A “World music” arruinou a carreira de muitos músicos.” Eugene Hütz | do Gogol Bordello, de novo

velha ideia. É um antídoto para a política ao redor do mundo que tem ditado a se-

LEIA ISTO

SC: São 23 hits absolutos! Quantos foram primeiros colocados? SM: Não muitos... SC: Houve algum que foi? SM: Não. Stephen Colbert e Stephen Malkmus | O host conversa com o líder do Pavement. Genial.

“Não consigo me ver fazendo [música] daqui a 10 anos. A música pop é um jogo para os jovens. Nós somos uma banda que já durou o mesmo tempo que os Beatles.” Win Butler | Arcade Fire


_pixies, white stripes, ok go, ronnie wood, , gogol bordello, mark chapman

“Sinto vergonha por algumas bandas existirem, como o Nickelback, e outras tantas que eu prefiro nem mencionar.” David Lovering | Pixies, em entrevista que você confere mais adiante.

“Quando as pessoas perguntam ‘Não é preocupante os clipes aparecerem mais do que a música?’ é como perguntar para Orson Welles: ‘Não é preocupante a atuação aparecer mais do que a sua direção no filme?’.” Damian Kulash | OK GO, em entrevista que você lê nesta edição da NOIZE.

“Este é um dos muitos jogos mentais que gostamos de jogar com você na Third Man Records.” Jack White | White Stripes, sobre o superestimado lançamento de um vinil 7” que vem embutido em uma embalagem que é um vinil de 12”. lembra que Keith Richards não lembra muito.

anunciar o fim das grandes gravadoras

“Eu até sei a maioria das músicas melhor do que Keith. Ele me pergunta quais são os acordes. As vezes eu ensino ele a tocar alguma de suas próprias músicas e ele pergunta: ‘Podemos passar por essa de novo?’ Keith tem uma frase: ‘Só porque escrevi não quer dizer que eu sei’” Ronnie Wood

“Uma coisa eu nunca entendi é que o mundo está cheio de cenários para oferecer. Há um grande desperdício por parte das grandes gravadoras, eles perdem muito dinheiro. Eles vêm com essas ideias grandiosas que parecem não funcionar. De 1987 a 1990, você colocava U$ 10 mil em algo e fazia um milhão.Hoje em dia você coloca um milhão de dólares em algo e ganha U$ 10 mil. Quando a árvore está inclinada em 45 graus não é mais uma previsão de que vá cair, é inevitável” Chuck D, do Public Enemy, querendo

noize.com.br

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Flavio Sam elo

© 2010 adidas America, Inc. adidas, the trefoil logo and the 3-Stripes mark are registered trademarks of the adidas Group.

Desde 1992 , Flavio Sam elo procura a inspiração andando pel para seus tr as ruas de S abalhos ão Paulo, fo tografando sk o trabalho d atistas e obse e pichadores rvando e grafiteiros. Foi essa pai que fez Sam xã o p el a arte da rua elo entrar par a o mundo d A partir de en a arte e da fo tão, ele passo tografia. u a buscar, ca da vez mais, com resultad um trabalho o plástico e gráfico, unin com as teor d o as fo to grafias urban ias e a pesq as uisa visual so bre a arte ne oconcreta b rasileira.

convidou ade, a adidas Originals Para celebrar a originalid s, conceitos etem, em seus trabalho quatro artistas que refl e. tenticidade e criatividad como individualidade, au hepare Flavio Samelo e Pablo Etc Bruno 9li, Carla Barth, ality. gin o tema Celebrate Ori criaram peças únicas, com onáveis, trar uma das artes coleci Para saber onde encon idasoriginals acesse facebook.com/ad Pa

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noize Bill Bernstein / Divulgação

fuck yeah paul mccartney Paul McCartney estará no Brasil. Pare tudo o que você está fazendo agora, largue a revista e entenda: Paul McCartney fará shows no Brasil. Sim. Numa redação de música como a da NOIZE, não espere uma reação diferente: todos ouviram RAM até doer os ouvidos e sonharam com o dia em que Paul is Live, mágico disco ao vivo do ex-Beatle, seria concretizado em terras tupiniquins. É difícil o texto não começar com um “Querido diário”, seguido de gritos e corações. Apenas o provável setlist já estremece: “The Long and Winding Road”, “Blackbird”, “Dance Tonight”, “Live and Let Die”, “Something”, “And I Love Her”, “Back in The U.S.S.R.”, “Drive My Car”, “Jet” . A lista vai longe. Enfim, depois de muito plenejamento e espera de alguns (já que o Planeta Terra Festival acontece no mesmo mês), está confirmado: shows em Porto Alegre, no Estádio Beira-Rio, no dia 7 de novembro, e São Paulo, nos dias 10 e 11 do mesmo mês, no Estádio do Morumbi. O show deve ter um quê de retrospectiva. Antes de subir ao palco, dois telões mostram uma seleção de imagens do artista durante as cinco décadas de sua carreira, com a trilha sonora de todas as épocas. O concerto dura em média três horas, e começa com um hit de Paul com o The Wings: “Venus and Mars/Rock Show”. No ano dos shows gringos no Brasil, Paul torna o clichê de “fechar com chave de ouro” menos intragável.


_ouca agora ´

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Cidadão Instigado - Uhuuu Holger - Sunga Of Montreal - Hissing Fauna Are You the Destroyer Procol Harum - Procol Harum The Roots - How I Got Over

NOIZE

__Solucionando confli-

tos no Planeta Terra | Passion Pit ou Phoenix? Pavement ou Hot Chip? As perguntas que mais têm sido feitas desde que o Planeta Terra anunciou a escalação completa do festival, com horários e tudo o mais, têm deixado muita gente roendo as unhas. O problema: o Passion Pit entra no palco às 21:30 e sai às 22:30, quando o Phoenix já terá tocado por meia hora no outro palco. Com Hot Chip e Pavement, o problema é o mesmo: quem quiser ver o primeiro, que começa às 23h e vai até 0h, perderá o início do Pavement, que começa às 23h30. Nos baseamos nos set list dos shows das quatro bandas em cinco festivais diferentes para montar as tabelas ao lado. Elas indicam o que é mais provável que você perca de cada show, dependendo do momento em que resolver partir de um para o outro. Em preto, estão as músicas que todo mundo pode ver. Em marrom, a zona de incerteza. Em vermelho, aquilo que requer exclusividade: “Ou ela, ou eu”.

direto ao ponto Rolou a semana do vinil na NOIZE. Um dos belos compactos 7’’ do selo Vigilante tocado por dia via Twitcam. O melhor de tudo é que você pode ouvir tudo de novo, pois estão reunidos em um belo post no link tiny.cc/semanadovinil

O clássico selo inglês de música eletrônica, Ninja Tune, que já lançou do hip hop ao drum n’ bass, do nu-jazz ao chillout, completou 20 anos e fizemos uma seleção com alguns petardos sonoros em tiny.cc/ninjatune20anos

Após o lançamento de “Emicidio”, conversamos com o rapper paulista sobre essa nova empreitada em parceria com a rede Fora Do Eixo, lançando a mixtape a R$ 5,00.Tudo no tiny. cc/emicidio

Estaria Tupac Shakur vivo? Essa é bem velha, mas juntamos algumas coisas que saíram postumamente, principalmente em 2010, e que nos fazem ainda ficar na dúvida em tiny.cc/ tupac14anos


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__BELLE & SEBASTIAN E O POVO| A edição passada da Noize falou sobre o show do Miike Snow, que foi patrocinado por fãs pela falta de iniciativa das produtoras cariocas. Bruno Natal e seus amigos cariocas fizeram tudo de novo, agora com Belle & Sebastian. Com o crowdfunding, cada um paga uma parcela do investimento e quem bate o martelo na hora de decidir a vinda de um artista é o público. Pois a banda sueca estará em São Paulo e no Rio de Janeiro nos dias 10 e 12 de novembro, respectivamente. Mais informações em www. queremosbasnorio.com.br

__LENDAS DE RAIZ | O objetivo inicial da reunião entre o The Roots e John Legend era fazer uma versão de “Wake Up” do Arcade Fire, mas a junção acabou em ótimas versões de clássicos do R&B dos anos 60 e 70 e a música do Arcade Fire ficou de fora. A reunião virou álbum e o título se manteve graças à inclusão de “Wake Up Everybody” de Harold Melvin & The Bluenotes no repertório. As 11 faixas são clássicos de protesto, otimistas ou pessimistas em relação à época em que foram escritas. O disco reúne faixas que vão dos consagrados Nina Simone e Marvin Gaye a coisas mais obscuras como Baby Huey (uma estrela perdida do soul), Mike James Kirkland e Ernie Hines. No site da NOIZE reunimos as que já foram sampleadas em suas versões originais por caras como Dr. Dre, Ghostface Killah, e Pete Rock & CL Smooth em tiny.cc/ legendroots

Reprodução/Eduardo Rosa

Reprodução

Marisa Privitera

NOIZE

__MIXTAPE NOIZE | A edição anterior da NOIZE como você deve(ria) saber foi especial sobre bandas independentes brasileiras. Para não deixar barato, reunimos boa parte delas em um mixtape de responsa, com faixas exclusivas de vários artistas que fizeram parte da edição #37. Um download para você levar pra cima e pra baixo uma bela seleção da música brasileira com artistas como: Romulo Fróes, Tulipa, Sugar Kane, Guizado, Filipe Catto, Pública, Cérebro Eletrônico, Apanhador Só e muito mais. Disponível em tiny.cc/mixtapenoize


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lado a LADO B SITIOS

Gogol Bordello | We Comin’ Rougher _Que eles lavam carros, pratos, costuram, limpam o lixo de todo mundo você já sabe. Agora, o Gogol Bordello traz o espírito do punk e une a ciganagem com a arte pra mostrar a realidade dos imigrantes. Já é um grande clipe.

_http://toazted.com/ Você está em Amsterdam e quer filmar os músicos de passagem pela cidade durante seus dias. Mas eles estão sempre no ritmo lento que só as “cafeterias” holandesas ocasionam. Então você une as duas coisas. _http://www.epicshit.com.br/ Site de jornalismo que não tem nada a ver com o Ego que você conhece, mas...

posts tiny.cc/autotunehits Os hits em auto-tune que os últimos 2 meses deram de presente para o mundo. http://tiny.cc/multiphoenix O Phoenix liberou TODAS as músicas de Wolfgang Amadeus Phoenix em formato aberto.“Hein?” É, você pode remixar as faixas. http://tiny.cc/melhorpost Embora tenha título sugestivo, é meio auto ajuda o tal melhor post de blog do mundo.

Tags: tags gogol bordello rougher

Cartolas | Partido em Franja _ Com luzes neon incansáveis, meninas dançando e uma música que nasceu em forma de hit, “Partido em Franja” é o novo clipe dos Cartolas. Tags: cartolas partido em franja

Courtney Love toca Pearl Jam _Quem imaginou ver Courtney Love prestar homenagens repetidas a Eddie Vedder? Antes de tocar um dos hits de seu inimigo número 1, Love avisa que ela precisava fazer aquilo – exorcizando demônios, saca? Preferimos o Pearl Jam. Tags: tags courtney hole jeremy

tag yourself

triple decker record shakira nothing else matters sleigh bells infinity guitars delorean real love michael cera school acting defalla reunion florence and the machine heavy in your arms mario 25 years mia story to be told vergonha alheia alltv roger watts big muff emicida samba vela

syd matters a change is gonna come


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o que voce viu e nao viu neste mes_

audio

Pata de Elefante | Na Cidade _O roteiro é simplaço: depois de confabular bastante sobre os primórdios da Pata de Elefante, Daniel, Gabriel e Gustavo executam o “Pesadelo Hippie” que serviu de trilha para o longa Wood & Stock (2006). E tudo funciona. Tags: pata elefante setlist

Surfer Blood | Floating Vibes _Apostando numa espécie de metalinguagem, o Surfer Blood fez seu novo clipe noventista até o osso. Resultado: eles são melhores fazendo música como os titios daquela década do que emulando os programas de TV do Polishop.

Pro Mar | Fluxo Quando se ouve essa música do Fluxo, fica evidente que esses caras vem do Rio de Janeiro: sotaque, clima de verão e a letra positiva dão uma levantada no rótulo rap com samba. Bichinho do Sono | Bruno Morais Bruno Morais regrava essa música de Lulina com muitos samples e nuances que dão um ótimo clima para acordar feliz. Guizado no trompete, Zé Passetti na guitarra, Ricardo Prado no baixo, Guilherme Kastru formam um backline de responsa.

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Tags: surfer blood floating vibes

Kings of Leon | Radioactive Disse-se “gospel”a nova músia do Kings Of Leon.Alguns comemoram e outros pensam: “Era só o que faltava”.

Voce nunca ouviu

Ragatanga em Ópera _Sem palavras. Uma prova de que a mistura entre o entretenimento e a erudição rendem os produtos mais... bizarros. Tags: ragatanga opera

www.headunderwater.com Além de um day-by-day blogging decente e antenado (mas não demais) que vale a visita, o Head Underwater produz mixtapes bacanudas.

Bobby Jenkins é uma garota que consegue cantar “Song to the Siren”, música difícil de Tim Buckley. Os olhos de Jenkins lacrimejando levam instantaneamente ao arrepio.

TUMBLIN’

follow up

perpetua.tumblr.com Um tumblr para fãs da Matador, faz ligações dos gênios indie do passado com uma bem humorada crítica do presente, em que o indie dita boa parte da cultura pop.

twitter.com/brega_falcao Ele avisou:“É triste a dor do parto, mas eu vou partir.Vou viajar.” Então, siga o mestre.


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bandas que voce nao conhece mas deveria conhecer_ Divulgação

Ariel Pink Origem:

Califórnia, EUA Som:

Mais uma viagem garageira californiana, lo-fi vintage que também vem na forma de black music envenenada e outras variações setentistas. Escute:

myspace.com/arielpink

Telecines Origem:

Porto Alegre, RS Som:

Você já ouviu stoner garageiro como o da Telecines, mas não em português. E isso quer dizer que você não ouviu stoner rock como o da Telecines – então ouça. Escute:

myspace.com/telecines

Budos Band Origem:

Nova York, EUA Som:

Número incerto de instrumentistas afim de fazer música boa. Algo como uma jam gigante com músicos de jazz tocando música africana. Escute:

myspace.com/budosband

chromeo Os discos de eletrofunk anos oitenta que dois amigos de infância – um de origem judaica, o outro, árabe – ouviam sem parar aos dez anos de idade tornaram-se dois teclados com pernas, comandados por tipos bem diferentes: o primeiro parece um judeu hipster, o segundo, um rapper palestino. O Chromeo surge assim, da longa parceria musical entre Dave One e Pee Thug, e também da mistura entre o electrofunk e o ítalo disco com bandas como Daft Punk e Halls & Oates. Como influenciados, temos um exemplo tupiniquim: Boss in Drama, do produtor Péricles Martins. O duo canadense aparece como uma agradável descoberta da música eletrônica atual pelas letras objetivas e charmosas, que falam principalmente sobre mulheres, festas e todas

aquelas coisas que procuramos na música eletrônica. A única diferença é o tom: enquanto a maioria parece dizer a mesma coisa, eles dizem com aquele jeito que Mick Jagger usa para cantar “Miss You”. O lado funk fala mais alto, tanto no flerte quanto nas composições: os shows do Chromeo são conhecidos por orquestras de loiras uniformizadas, beat box e teclados com pernas femininas. Desde as primeiras apresentações do Chromeo, em 2003, o duo já lançou três discos: She’s In Control, Fancy Footwork e Business Casual. Em setembro, os caras tocaram aqui pela primeira vez. Você que perdeu, escute e não pare com “Night By Night”, “100%” e “Don’t Turn the lights on”. Escute: myspace.com/chromeo Ana Malmaceda


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bandas que voce nao conhece mas deveria conhecer_ Eduardo Gabriel

Red Fang Origem:

Portland, EUA Som:

Longe de ser a banda mais original que você vai ouvir esse ano, mas tão pau na mesa que se lerem essa definição, eu que me cuide... De quando metal era uma vertente do rock. Escute:

myspace.com/redfangpdx

Bárbara Eugênia Origem:

São Paulo, SP Som:

As etiquetas “psicodélico” e “rock” não devem ser levadas ao pé da letra, mas são cérebro e voz femininos dedicados a composições que seguem linha diferente da que impera no gênero. Escute:

myspace.com/barbaraeugenia

The Wave Pictures Origem:

Londres Som:

Rock inglês puro e simples, com aquele background de Clash a Smiths e Libertines. Música contemporânea sem adornos modistas. Escute:

myspace.com/thewavepictures

bicicletas de atalaia O trajeto entre a bossa nova e o rock não é uma trilha em mata fechada. Os uruguaios Los Shakers o percorreram em 1969, quando os lendários irmãos Hugo e Osvaldo Fattoruso gravaram um disco inspirados pela jovem bossa. Lembrei desse disco ao ouvir o Bicicletas de Atalaia, e descobri ainda mais coincidências: ambos são duos formado por irmãos. Em Aracaju, no Sergipe, Leo e Bruno Mattos tinham o Rockassetes. Em São Paulo, deram início a este projeto, em que Leo toca bateria, percussão e faz segunda voz; e Bruno é responsável pela voz principal, pelo violão e pelas composições. Seu primeiro EP, que chamou minha atenção, é quase todo em português. Da elaboração dos ótimos arranjos, participaram, além deles, Kaneo Ramos

(guitarra), Ilya Amarante (baixo) e Renan Cacossi (flauta transversal e sax tenor), que gravaram o EP e tocam ao vivo com os irmãos Mattos. A balada “Diga-lhe que mando a meia” abre o disco conduzida pelo violão, mesmo quando somam-se a ele guitarras. Bruno arrisca floreios de violão clássico – uma síntese do que é a música brasileira, que desde a origem é tão popular quando erudita. A bossa roqueira de “Alcoholic Dreams” revela que se, como eles dizem, as influências da MPB viriam à tona mais cedo ou mais tarde, a força de sua música hoje é como uma segunda adolescência em que Brasil soma-se ao rock contemporâneo em uma benvinda e genuína mistura. Escute: myspace.com/bicicletasdeatalaia Fernando Corrêa


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soundcheck

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Rafa Rocha

VIVE LA FÊTE

A vocalista do Vive la Fête, Els Pynoo, diz ter perdido a timidez no momento em que se apaixonou. Depois que conheceu o músico Danny Mommens, encontrou a música e subiu no palco.Transformou-se na quase heróica loira belga, símbolo de fashionistas como Karl Lagerfeld. O duo que flerta com punk, sensualidade de Serge Gainsbourg e música eletrônica, passou pelo Brasil e falou principalmente sobre uma história que nasceu junto com a música: o amor entre os dois.

“O humor e as sensações boas são o mais importante. Não se leve muito a sério, tudo pode acabar amanhã. Então você tem que aproveitar.”

Você conheceu Danny e depois entendeu que poderia criar com ele. Como isso aconteceu? Aconteceu muito rápido, em algumas semanas. Antes de conhecer o Danny eu não entendia muito de música, nunca pensei que pisaria num palco, pois era muito tímida. Quer dizer, às vezes ainda sou, eu tenho os meus dias. A forma como vocês vivem a música é como vocês vivem a vida? Sim. É magico, eu acho. A inspiração para as minhas músicas vêm disso, o meu cotidiano e a forma como vivemos, tudo. Nós vivemos o agora, não o passado. Temos ótimas memórias, mas vivemos o presente, não pensamos no futuro. Usamos cada minuto do dia, é por isso que uso o nome Vive La Fête, por que todos os dias deviam ser uma festa por si só. Digo, não no sentido de bebida, drogas e garotas. Só o sol batendo, dormir bem e comer algo bom já é uma festa pra mim. Isso é realmente Vive La Fête. Vocês são apaixonados por moda ou a moda se apaixonou por vocês? Acho que foi a moda, por que eu nunca fui muito ligada. Talvez quando adolescente, mas eu não procuro muito, não vejo revistas de moda. Eu sei o que acontece na moda desde a nossa “aventura” com a Chanel. Conheço mais e agora tenho mais respeito. Antes eu não gostava, mas agora eu os vejo como artistas. Eles pronunciam suas emoções da mesma forma que a música faz, eu tenho uma conexão emocional. Eu não sei o que

é cool, o que as pessoas estão usando, nem sei o que está nas lojas agora. Eu vejo como uma forma de arte. E isso é bom, eu acho. As letras das músicas e todo o conceito da banda possuem um sentimento quase militar da diversão.Vocês vêem a banda como um ideal de diversão e festa? É o que queremos. Um show para nós é uma coisa muito importante, ficamos muito nervosos antes de entrar no palco. Às vezes passo mal, vomito antes de entrar. É só que queremos dar cem por cento, duzentos, se conseguirmos. Queremos criar um ambiente de felicidade. Não é como se eu fosse uma cigana ou algo do gênero, é só que queremos que as pessoas aproveitem o show e esqueçam todos os problemas, que entrem em algo cheio de felicidade, com bons sentimentos, é tão importante. Principalmente entre Danny e eu, mantemos a paixão. Eu ainda olho para ele no palco e suspiro, isso é muito importante para mim. O humor e as sensações boas são o mais importante. Não se leve muito a sério, tudo pode acabar amanhã. Então você tem que aproveitar. Escute: myspace.com/vivelafeteband

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move that jukebox BLOGS Divulgação

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__Hey, Molly’s Chamber irá mudar sua mente | Época dos grandes festivais brasileiros chegando e você se pega, vez ou outra, pensando em como irá reagir quando AQUELA música sair disparando decibéis ensurdecedores por todo o recinto. Pensa em quem estará ao seu lado, se vai enxergar o palco, se vai filmar ou tirar uma foto, etc. Afinal, é um momento único e tudo merece estar perfeito. E o melhor é saber que, em muitos casos, a música mais esperada nem é aquele hitzaço que até a tia da padoca conhece.

Sentamos com o Holger para descobrir como anda a cabeça da banda mais hype do Brasil depois do lançamento de Sunga. Leia: tinyurl.com/entrevistaholger

Pra quê “Use Somebody” se tem “Molly’s Chamber”? Não só ninguém mais aguenta ouvir a música, como também já vai ter muito, hm, fã gritando os famigerados “uôôôô uôôôô” de Caleb Followill. E “Drive”, do Incubus, então? Surpreenda a comoção geral que o hit causará com pulos frenéticos em “Anna Molly”. Mais uma? Dance como se não houvesse amanhã em “Hey”, em vez de achar que sabe cantar os versos de “Here Comes Your Man”. Cole na grade quando o Phoenix começar “Armistice” e deixe pra gritar o refrão de “1901” de longe, apreciando o momento. E quando Billy Corgan for o centro de todo o Playcenter? Que tal deixar rolar aquela lágrima em “Stand Inside Your Love”? Vá pegar uma cerveja com “Open Your Eyes” rolando de trilha sonora, ao fundo—e volte correndo quando o Snow Patrol começar a excelente “Spitting Games”. “Pô, tu é

O Lucy and the Popsonics lançou disco novo e liberou o download gratuito no Move. Quer baixar? tinyurl.com/downloadlucy

Tá chegando o Planeta Terra! Que tal ficar ainda mais ansioso pro show do Pavement? tinyurl. com/tvpavement

contra os grandes hits, seu proliferador da síndrome do underground?!” De forma alguma. Curto todos eles. Só que os mais óbvios podem não ser tão empolgantes quanto a maioria espera. Por vezes, o ápice de um show é ser surpreendido e ter aquela catarse imprevista e arrebatadora em músicas pras quais você nem dava tanto bola—ou sequer conhecia. Mas, como tudo nessa vida, é claro que há exceções. Ou você acha que alguém vai passar incólume aos acordes iniciais de “My Favorite Way”, “Cut Your Hair” e “No One Knows”?

Road trip! Preparamos uma mixtape para você ouvir durante a viagem da sua vida: tinyurl. com/mixthatjukebox


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RRAURL

Divulgação

BLOGS

__A edição comemorativa de dez anos do ATP, na pequena Monticello, interior de Nova Iorque, aconteceu nos primeiros dias de setembro. O ATP NY é filhote do All Tomorrow Parties, que acontece todos os anos na Inglaterra, sempre com curadoria de alguém bacana – o criador do Simpsons Matt Groening, os caras do Pavement ou do Flaming

Lips. Não por acaso, é considerado o melhor festival de música dos Estados Unidos. É um festival para quem gosta de música, mas sem ser pentelho. Fácil conhecer gente conversando sobre os shows em clima bêbado e relaxado. Mas não é pra todo mundo: o café (você vai precisar) é ruim de doer, não existe segurança no gargarejo do show do

__ T Model Ford | Bluesman de 90 anos, Ford aprendeu a tocar guitarra no Mississipi durante um porre de bourbon - e nunca mais fez outra coisa da vida.Virtuoso, com saúde frágil, e certo de que ninguém toca melhor do que ele, foi venerado por uma respeitosa plateia. E ainda deu canjas no lobby do hotel, sem avisar.

__Sunn 0)) + Boris = Altar | Aí a gente entra na categoria “não é pra mim”, mas o show, baseado no álbum de 2006, é uma experiência mística que usa o poder físico da música para levar a plateia a um estado de êxtase. Reverberações, um gongo gigante no palco, pessoas vestidas com mantos e VOLUME. Muito volume.

Stooges e, se você perder o último ónibus pra ir embora, não tem táxi na rua – e, à noite, em Monticello é fácil entender filmes como Sexta-Feira 13. A curadoria da edição 2010 foi repartida entre o ATP e o cineasta Jim Jarmusch – que podia ser visto o tempo todo circulando pelos corredores do Kutchers Country Club, clube de campo que teve auge nos anos 60 e que o festival ocupa por três dias, com dois palcos, bares, loja de camisetas, galeria de arte, piscina, comida caseira e surpresas escondidas pelos corredores. Também é no Kutchers que se hospeda a maior parte do público, o que significa festas nos corredores, halls e quartos a qualquer momen-

to. Os shows variam entre insuportáveis e incríveis, sempre com uma explosão de euforia. Mas o melhor é se perder pelos muitos corredores do Kutchers, onde você pode encontrar um bingo rocker, uma sala forrada com colchões, uma mesa de pôquer que nunca pára, uma pequena sala de cinema, um campeonato de karaokê ou uma piscina aquecida. Ou sair com uma sacola cheia de discos de vinil, comprados diretamente dos artistas. A um universo paralelo, onde não há sinal de celular, rede 3G ou wifi). Em algum momento, enquanto você se perguntar há quanto tempo os carpetes do Kutchers não vêem uma limpeza, você vai se sentir em casa.

__Girls | Coitado do Girls, tão inofensivo e bobinho no meio de gente mais freak e experiente. As canções pop-retrô cheias de distorção da banda, um dos destaques de 2009, não funcionaram muito. Mesmo assim o caçula do lineup do festival teve plateia lotada.

__Explosions in the Sky | Som, luz, quatro guitarras e os onipresentes protetores de ouvido. É um belo show, que mantém o público imerso e quieto em um clima etéreo e intenso. A plateia aplaudiu quando a banda voltou ao palco, junto com seus roadies, para desmontar o próprio esquipamento. É esse o espírito.


SCREAM & YELL

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SCREAM & YELL

Divuglação

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__Restart foi o grande vencedor do VMB | Os moleques estão fazendo a parte deles, a serviço da gravadora e de suas roupas coloridas, e podem ser acusados de muita coisa, mas você não pode negá-los. Só o fato do happy rock (a la Menudo: “Não se Reprima”) ter desbancado o emo nas paradas e no gosto popular dos jovens diz muito sobre o mundo que você, leitor, vive. Mas essa é uma análise secundária, de mesa de bar. O

questionamento que quero propor aqui é outro. Olhe para a foto acima: ela representa você? Se sim, ok. Você tem uma banda se vestindo como você e tocando as canções que você gosta em rádios, programas de TV e na internet. Se a resposta for não, vale a análise: quem é que te representa na música brasileira atual, cara pálida? Nada de citar medalhões. O que nos interessa aqui é saber quem da sua geração faz música que lhe emociona? A diminuição do mercado achatou o mainstream, que ocupou o espaço que era do mids-

tream, e jogou um punhado de gente nova—que teria mais espaço anos atrás—no universo nada colorido do cenário independente. Claudia Leitte, Ivete Sangalo, Seu Jorge, Maria Rita ocupam o midstream. Eles dizem algo a você? A música deles lhe passa algo? Reflita com calma. A indústria nacional parou no tempo, e está sufocando a criatividade musical. E depende de você, de mim, de todos nós tirarmos o cenário deste coma induzido. Onde conhecer novas bandas, gente que fale a mesma língua que você? Aqui mesmo nas páginas da

NOIZE, e não só: Scream & Yell, Urbanaque, Move That Jukebox!, Alto Falante, Bloody Pop, Rock ‘n’ Beats e dezenas de outros lugares estão discutindo o novo. Faça parte disso indo a shows, buscando conhecer novos artistas. Quem sabe ano que vem ele ocupe o lugar da Restart. É difícil, mas se fosse fácil eu não estaria escrevenwdo este texto, não estaria pedindo sua ajuda. Tudo tem um começo. Que tal… agora? Pense nisso. E faça algo.


Porto Alegre • Padre Chagas www.vulgo.com.br

318 • Brasil


FORA do eixo

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__O Compacto REC teve início em 2007 com o objetivo de lançar singles virtuais em rede, através dos veículos de comunicação, e já lançou artistas de todas as regiões como Porcas Borboletas (MG), Rinoceronte (RS), Linha Dura (MT), Johnny Suxxx (GO), Nevilton (PR), Uganga (MG) e Jair Naves (SP), entre outros. A iniciativa foi contemplada recentemente no edital Bolsa Funarte de Reflexão Crítica e Produção Cultural para Internet. O lançamento agora é a instrumental argentina Falsos Conejos, com o YYY, primeiro LP do grupo, também o primeiro nesse formato lançado pelo Compacto. O trio entrará em turnê pelo Brasil em outubro, passando por regiões como Sul e Nordeste.

Alan Lima

__Estão abertas até o dia 25 de setembro as inscrições para o III Congresso Fora do Eixo, que será realizado de 11 a 16 de outubro, em Uberlândia (MG), durante o Festival Jambolada, e reunirá diversos agentes culturais representantes de pontos fora do eixo situados nos mais variados estados brasileiros. O III Congresso Fora do Eixo foi contemplado pela seleção pública de debates presenciais do Programa Cultura e Pensamento, realizado pela FAPEX e Ministério da Cultura, com patrocínio da PETROBRAS. Durante 7 dias o evento irá promover debates sobre temas ligados à cultura brasileira, como economia criativa, artista e mercado musical, tecnologia social, empreendedorismo e economia solidária. Mais informações em: bit.ly/COFE2010

direto ao ponto O Festival Demo Sul acontece de 15 a 23/10, em Londrina. Comemorando a 10ª edição, o Festival traz 2 bandas internacionais: Mitch Mitch (POL) e Silver Shine (HUN), além de outros 26 artistas, o VI Simpósio de Música, Oficinas e Workshops. bit.ly/demosul

Em seu blog,Ynaiã Benthroldo, baterista da Macaco Bong, explica como funciona o planejamento da banda e dá dicas sobre formas de capitalização, trabalho de bases locais e Circuitos de Festivais. Leia: bit. ly/gargalo

Anote na agenda: dia 19/11 vai rolar o lançamento do tão esperado primeiro DVD da Móveis Coloniais de Acaju, que foi gravado em janeiro, no Auditório Ibirapuera. O local escolhido para a festa de lançamento foi a Fundição Progresso, na Lapa. Não perca!

A partir da oficina de mídias livres realizada no Festival Transborda, foi gerada uma produção de conteúdo histórica: resenhas com fotos e entrevistas com as bandas eram publicadas no site poucos minutos após os shows. bit.ly/proativa


_texto Ana laura malmaceda

_AGRADECIMENTOS BECO203.com.br


OK GO: MUSIC LAB //041

Criatividade está no lado oposto ao clichê. E o confronto na busca de projetos genuinamente criativos não consiste em ir contra ele, e sim fugir, escapar. Sair de um lugar e mostrar algo novo, só pela diversão da fuga. Se qualquer coisa que foi dita até agora faz sentido, Damien Kulash, vocalista do Ok Go, é um maratonista. Com inquietação quase infantil, ele vê tudo como uma coisa só: vídeo, música, imagem, diálogo. Coordena o que chama de “projeto criativo” com o mesmo afinco de uma criança ao construir uma maquete de vulcão para a feira de ciências da escola. A inventividade no Ok Go é uma condição.

Em 2010, o Ok Go é uma banda em transição. Com o estigma de música bobinha e vídeos virais, tiveram que deixar as grandes gravadoras para buscar um terceiro álbum, sem pensar em qualquer expectativa de fãs, crítica e tudo que pressiona a maioria das bandas. Of The Colour of The blue Sky+1 é um disco arriscado e feito de descobertas, completamente diferente da sonoridade de seus antecessores. De passagem pelo Brasil, o quarteto de Chicago foi agendado para um evento um tanto caótico: o colorido e vaiado VMB 2010. A Noize entrevistou o quarteto antes do show em Porto Alegre, depois do evento da emissora. A conversa passa pelo processo criativo da banda, o terceiro disco e as diversas formas de ver a música que, para o guitarrista e vocalista Damien, significa muito mais do que uma simples gravação. No último álbum, vocês cresceram como músicos? Digo, mais do que nos outros discos? Sim, eu realmente acho. Também acho que o sucesso dos vídeos nos outros discos nos deram um empurrão.

Pra mostrar algo novo? Sim, para sermos um pouco mais ousados na forma que pensamos música. Quer dizer, eu lembro que no nosso último disco, Oh No+2, existiam algumas músicas que tínhamos escrito, eram cançõezinhas soul. Então pensamos tipo: “Essas músicas são boas, mas não são para a nossa banda. Ninguém acreditaria. Somos uma banda de rock, as regras não permitem que a gente faça coisas assim”. Acho que começamos a estabelecer condições muito restritas sobre o que as pessoas acreditariam do Ok Go, sobre o que temos permissão para fazer. Então os vídeos nos ajudaram a entender que, se as pessoas gostavam da banda por causa de um vídeo em que eu danço na porra do meu jardim, então não precisamos ligar para o que os outros podem pensar e em como fazemos nossos projetos. Por que não importa o que a gravadora quer, o que a rádio quer, não importa. A regra é: nunca pare de fazer o que você sente ser certo. É por isso que vocês não parecem irritados

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com a história dos vídeos? A razão pela qual eu não me incomodo particularmente é por que acho que uma música é uma gravação de uma melodia, o resto é divulgação. Eu não sinto criatividade assim. Então quando as pessoas perguntam: “Não é preocupante os clipes aparecerem mais do que a música?”, é como perguntar para Orson Welles: “Não é preocupante a atuação aparecer mais do que sua direção?” Então os vídeos não possuem relação com a música? Não, eles estão conectados. É como quando perguntam: “Não é preocupante o show aparecer mais do que o disco?”. São todas coisas que fazemos, e amamos fazê-las. Eu acho que o mundo vai chegar ao ponto onde pensaremos que criatividade não precisa ser colocada em caixas, como dizer que músicos gostam de bateria, guitarras, letras, e eles gravam e acabam o

o que sentimos e queremos por que não precisamos seguir qualquer regra, sabe. Se sabemos que os vídeos vão levar algo ao mundo de qualquer forma, então não precisamos nos preocupar com o que uma rádio tosca do Kansas vai dizer ou não, entende? O que conecta, então, os vídeos às músicas? É a comunicação da maneira mais cerebral possível. É comunicar por um sentimento ao invés de palavras. Obviamente, você pode ver que falo demais. Meu cérebro está sempre funcionando de forma caótica, então acho que a música é um antídoto pra mim. Por que um milhão de palavras não podem chegar ao mesmo nível de uma batida certa, de uma melodia perfeita no piano. Música fala em seis dimensões de sentimentos impossíveis, tão impactante que acaba unindo as pessoas. Quando você está num show, você olha e vê centenas de pessoas, e é como se todos estivessem com a mesma coisa dentro de si e ninguém

“Acho que é uma posição difícil de chegar por si só, mas a autoridade de dizer “é assim que eu faço”, sabe?” processo; e isso é tudo o que eles podem fazer, o resto é promoção, divulgação, sabe? Não. A internet fez um trabalho fantástico, por que mistura todas as mídias, e daí uma boa ideia é uma boa ideia. Então, não importa se a boa ideia é primeiramente visual, ou primeiramente áudio, ou se o espaço é digital ou físico. Se é uma ideia única, se é uma ideia colaborativa. É só que todos sabem o que é uma boa ideia quando vêem uma, escutam ou sentem. E se você é uma pessoa que quer passar o resto da vida perseguindo seus projetos, quando eles fizerem sucesso a última coisa que vai fazer é reclamar como “Ah, não! Esse fez sucesso demais!”, sabe? É ótimo. E realmente ajuda a música, até na forma mais tradicional, não só por que é uma divulgação, mas como criadores. Quando sentamos e fazemos coisas nos sentimos muito mais livres para fazer exatamente

precisa dizer algo sobre isso. É puramente comunicação emocional. Os vídeos são uma tentativa de fazer o mesmo com uma forma de arte diferente. É um processo completamente diferente, mas com a mesma ideia básica. Você quer três minutos de puro sentimento. E não existe história, eles não devem descrever uma música ou fazer que você a entenda melhor. Só devem te entregar o sentimento, sabe? Então é o mesmo projeto, de certa forma. A estrutura da banda é bem autoral, vocês conseguem comandar cada aspecto do que fazem. Isso é importante para o trabalho? É importante para a minha banda. Não acho que é importante para todas. Certamente a Lady Gaga está se dando muito bem, sabe? Na verdade eu acho que


OK GO: MUSIC LAB //043

ela sabe exatamente o que quer, talvez não seja um bom exemplo. Elvis nunca escreveu suas músicas. Ele obviamente era um intérprete, e ele era incrível, ele mudou o mundo. Só que não era importante para ele escrever músicas, não era o projeto dele. Mas, do outro lado, os Beatles sempre escreveram os discos, digo, pós-64. E o processo de gravação foi parte da arte deles de uma forma que não foi para Johnny Cash, por exemplo. Acho que quando as pessoas estão realmente inspiradas elas fazem as coisas que querem fazer, e fazem as coisas em que são boas. Existem milhares de bandas por aí que fazem o que querem, e o que elas querem fazer são discos. E eles querem obter sucesso da mesma forma que o Velvet Underground, que o Nirvana ou o Michael Jackson. Todos têm alguma ideia do que querem fazer, e, se isso pede por gravadoras majors, bom para eles. Eu realmente não acho que exista alguém que tem de fazer o que fazemos, mas sinto que tenho muita sorte por fazer dessa forma. Acho que é uma posição difícil de chegar por si só, mas a autoridade de dizer “é assim que eu faço”, sabe? Por que levamos anos para chegar num ponto onde estávamos seguros em nossas carreiras. Conseguir o dinheiro para fazer os vídeos não foi fácil, conseguir o dinheiro para fazer turnês não foi fácil, fazer dinheiro até para pagar uma conta de gás não é fácil. As turnês não são simples. Então, só nos sentimos muito sortudos por não vivermos segundo as agendas de outros, pois a maioria dos músicos são guiados pelos interesses das gravadoras, rádios, empresários. Então, para escapar, vocês tem de fazer alguns sacrifícios? Sim. Fazer uma turnê de dois anos e meio foi o preço. Se não quer um “Aperte um grande botão e ganhe um hit”, você tem que fazer por si mesmo, o que significa fazer turnês longas constantemente, administrar um negócio sozinho. É muito estressante, existe muita ansiedade nisso. Tudo vale a pena quando as coisas funcionam e você sente que seus esforços estão realmente sendo válidos de certa forma. Quando você trabalha com música, faz decisões baseadas no que

você sente e quando decide algo, você faz e continua fazendo. Mas quando trabalha para alguém, tentando ser criativo enquanto existem várias regras ajustadas, você está preso. No final do dia você está exausto e ainda não tem nada pronto. Nos sentimos assim quando trabalhamos com as grandes gravadoras. Agora, temos muito mais trabalho, mas toda vez que fazemos alguma coisa, acontece. Então você nunca tem aquele sentimento de gritar no telefone por dez horas com alguém e não estar nem perto dos seus objetivos. Você acha que o sentimento que divide com o público, quando está no palco, é parecido com o que você divide quando compõe? Um pouco, mas existe algo estranho sobre compor músicas, é muito introspectivo. É extremamente pessoal. E você tem que projetar sua ideia, o que escrevo agora será escutado por outras pessoas, no domingo ou em dez anos, é uma mensagem sem tempo. No palco é muito imediato, a resposta do público é direta. Quando você escreve, é tipo “Isso é o que estou escrevendo”, e ninguém consegue te dar uma resposta dentro disso. Eu escrevo a música por que sinto, e ninguém precisa gostar, mas se ouvirem, terão uma resposta. Eles não podem me dar algo sobre a experiência, não está no meu controle. No palco existe uma reação constante, e não sei ao certo quanto você pode dizer pelo público, mas no palco você realmente sente a plateia, as atitudes das pessoas e o espírito delas, um nível de energia. E você sabe quando todos estão sentindo o mesmo, juntas. É impossível saber isso no processo de criação, não sei como ouvirão em dez anos.


_texto BRUNO NOGUEIRA

_FOTOS E MOSAICO SAMUEL ESTEVES | SAMUELESTEVES.COM


DINOSAUR JR. //045

A figura de J Mascis é bastante mítica. Os cabelos brancos, enormes, com a cabeça sempre baixa olhando para a guitarra, cercado por uma parede de amplificadores que desafiam o ouvido de qualquer um que se aproxime. Um verdadeiro Deus do rock, que descarrega poderosos acordes como Odin lança raios de suas próprias mãos. O que sua banda, o Dinosaur Jr., escreveu na história da música, é apenas prova desse poder.

Fora dos palcos, Mascis está bem distante dessa figura de devoção que seus fãs criaram. Sempre calado, com um olhar semi-serrado, ele percebe cada atitude das pessoas como se estivesse fazendo piadas pessoais na cabeça. Diversão favorita de qualquer nerd com humor ácido, assim como o dele, é exatamente isso que ele faz. Suas participações em conversas são sempre pontuais. Ele retoma um raciocínio inteiro apenas para dar o desfecho cômico. As vezes apenas ele ri. Para qualquer pergunta minimamente elaborada, que exija algumas frases a mais, recebe-se apenas uma única resposta: “I don’t know” (“eu não sei”). Seria uma entrevista um tanto frustrada não fossem dois motivos. O genuíno tédio dele em acreditar que está fazendo parte de algo realmente maior que sua paixão por tocar; e o fato que a frase, mesmo na voz cabisbaixa, soa como um verso perfeito de “Over it”. Ele canta, impressionantemente, da mesma maneira que fala. Em sua passagem pelo Brasil (o Dinosaur Jr tocou no festival No Ar Coquetel Molotov, no Recife e em Salvador, além de dois shows em São Paulo) Mascis só esboçou um sorriso maior em uma ocasião. Quando viu nas mãos de um fã a Fender Jazzmaster,

guitarra que mais idolatra e curte tocar, e percebeu que estava entre verdadeiros fãs de sua música. Era Marcelo Gomão, da banda pernambucana Vamoz, que acompanhou o trio em toda a turnê. O set dos shows partiu de uma conversa com Marcelo. “O que as pessoas que conhecem o Dinosaur Jr no Brasil gostam de ouvir?”, perguntou Mascis, sacando o iPod e registrando na hora o que seria tocado ao vivo. Na maior parte do tempo ele tinha um passatempo que divertia apenas a si mesmo. Dedilhava uma guitarra no braço, simulava os sons com a boca e perguntava “que música é essa?”. Só Mascis as conhecia. Se ele achou o retorno da banda, em 2005, difícil; se o Dinosaur Jr tinha mudado nessas duas fases; se o rock ainda podia ter o poder transformador do passado; para essas e outras tantas perguntas como “o que falta hoje no rock?”, Mascis - que disse conhecer a Abrafin não pela sigla, mas pela função - seguia apenas com uma resposta: “I don’t know”. Todas as vezes que repete são acompanhadas por um leve sorriso de desaprovação de Lou Barlow, baixista do grupo. “Não somos amigos, não é como se ele me ligasse para falar de problemas”, contou Barlow, depois.


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“Nós viajamos juntos, trabalhamos juntos, mas até hoje ele não gosta de mim, desde que me apaixonei pela primeira vez e me tornei uma pessoa mais confiante e falante. Isso irrita o Jay”, revela o baixista, mas sempre em tom de respeito. “Faz parte dele. J Mascis é uma pessoa única”. Barlow ainda traçou um paralelo sobre como essas relações superficiais, na verdade, são a essência da profundidade da banda. “Quando os elementos se juntam, vira algo profundo”, teoriza. Fundador da banda lo-fi Sebadoh, ele disse que hoje, assim como o baterista Murphy, é na verdade um músico contratado do Dinosaur Jr. “Nós ganhamos menos da metade do que Mascis por show”, conta. A volta foi arquitetada pelo atual empresário da banda, que trabalhava shows

solo de J Mascis. O motivo para aceitar o acordo é algo presente em toda conversa com Barlow, que está com 43 anos e é admirador confesso da trajetória do presidente Lula. “Tenho uma filha, precisava dos shows”, conta. Ele cita a filha, de cinco anos, sempre. Até quando alguém pergunta o que ele está achando das mulheres brasileiras. “Tenho uma filha, não penso muito nessas coisas”. Em seus shows solo - como o que fez de surpresa no espaço Soma, em São Paulo - Barlow sempre toca músicas dedicadas a ela. A volta pode ser orquestrada, mas a energia que envolve a banda é bem autêntica. “Temos tudo que precisamos para tocar aqui, se acharem algum lugar para um show secreto, nós topamos”, disse Mascis.


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Mesmo com uma agenda, contratantes e cachês, eles estão dispostos a fazer a qualquer momento o que mais gostam e fazem melhor. Essa história um tanto despedaçada do indie internacional passa despercebida pelo público. Mesmo sem a presença de Mascis, a parede de amplificadores de guitarra é alvo de dezenas de flashs de câmeras antes da banda subir ao palco. Garotos bastante jovens e alguns que já têm cara de não sair de casa por qualquer motivo se misturam como iguais, alguns desesperados pela distorção ensurdecedora, outros contemplando o momento histórico. Alguns até chorando. “Eu vim do Paraná, essa banda é a trilha sonora da minha vida, é importante demais para mim, vou ver toda a turnê”, desabafava em lagrimas Luis Augusto, 32, que junto com a namorada não saiu da frente da pa-

rede de seis amps de guitarra que descarregavam 115 decibéis no público. Quase o mesmo volume do show que o Motorhead fez no Recife, com a diferença de ser um espaço bem menor e que, em teoria, suportaria apenas 80 decibéis. A partir da quinta fileira de cadeiras do teatro era difícil ouvir qualquer outro instrumento ou mesmo voz, de tão alto. Apesar da constante resposta (“I Don’t Know”) durante a entrevista, J Mascis é um cara que realmente sabe das coisas. Sua comunicação com o público é quase inexistente - ao menos no padrão tradicional - mas no final de cada nota ele presta atenção atentamente aos olhos de cada um nas primeiras fileiras. É nessa hora que ele sabe que o retorno do Dinosaur Jr era algo fácil e que o poder do rock em transformar as pessoas está ali em cada verso e cada acorde.


_texto LEONARDO BOMFIM


OUTRA TROPICÁLIA //049

1968. Quando Caetano Veloso ofereceu aos leões seu discurso inflamado de É Proibido Proibir, no III Festival Internacional da Canção, o ápice da histeria pontuava: “Fui eu, foi Gilberto Gil e fui eu!”. Inegável o protagonismo da dupla naquele momento de ruptura. Da mesma forma, não dá para esquecer a genialidade anárquica de Mutantes, de Tom Zé e de Duprat, as palavras e ideias inspiradas de Torquato Neto e de Capinam, o lirismo raivoso de Gal Costa e a doce melancolia de Nara Leão. Fecham-se aí os personagens da capa do disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis. Pois a história oficial, que direciona todas as glórias aos grandes baluartes do tropicalismo, ajuda a esconder cada vez mais alguns personagens também importantes da arte brasileira. Mais do que uma ruptura particular, a Tropicália foi fruto de uma forte troca intelectual. A letra de “Baby”, de Caetano, é direta: para não ficar pra trás, era preciso estar ligado em tudo. E foi na casa do compositor Jards Macalé que a bagunça realmente começou a ganhar corpo. Embora negue o rótulo de tropicalista, o compositor não foge da responsabilidade: “O começo de tudo foi na minha casa. Virou uma espécie de república; no quarto dos fundos, Capinam, Caetano, Torquato, Rogério Duarte e eu nos fechávamos para conversar”. Se o quartinho de Macalé foi um dos cenários iniciais da ruptura tropicalista, sua figura acabou deslocada. Dois anos após a explosão tropicalista de 1967,

Macalé aparece, escandalizando o IV Festival Internacional da Canção com a canção “Gotham City” (parceria com Capinam). O público, assustado, fez o de sempre: vaiou. “A gente já esperava vaia, o festival era careta e a gente queria quebrar mesmo”, recorda. Na época, Macalé se aproximou ainda mais da carreira de Gal Costa, foi fundamental para alguns dos momentos mais inspirados da cantora. De suas mãos, saíram composições marcantes como “Pulsars & Quasars” (com Capinam) e “The Archaic Lonely Star Blues” (Com Duda). Também foi dele a direção artística do show “Meu Nome É Gal”, de 1969, e a produção do clássico disco Legal, no ano seguinte. Pouco depois, seu trabalho definitivo no ambiente tropicalista: os arranjos de Transa, obra-prima da fase londrina de Caetano. O relacionamento entre os dois ficou bastante estremecido na época do lançamento, os créditos não apareceram. “O problema já está resolvido, mas direitos autorais são igual política, é a cultura da permanência, do nepotismo, da escrotidão, do roubo”, observa Macalé. Ao lado de Macalé, anarquizando as gravações de Gal Costa, estava o jovem guitarrista Lanny Gordin. É outro nome que não pode ser esquecido quando o assunto é Tropicália. Sua guitarra, ora agressiva num sentido hendrixiano da palavra, ora jazzista de acordes impossíveis, foi decisiva para aquela ruptura. Mas Lanny acabou conhecido como o talentoso músico que gravou coisas maravilhosas, pirou e sumiu de cena. Macalé relembra as loucuras da época: “A gente tomou muito


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“Mais do que uma ruptura particular, a Tropicália foi fruto de uma forte troca intelectual.”

ácido, ele era muito novo, não soube se defender”. De qualquer forma, talvez seja covardia tocar no assunto insanidade quando a música de Lanny está em jogo. O que ele fez com a guitarra nas harmonias tropicalistas não é algo pequeno. Principalmente nos três álbuns radicais de 1969 do trio Caetano, Gil e Gal. Se a psicodelia dá o tom, é muito por causa de Lanny. Como esquecer o riff de “Cinema Olympia”, canção de abertura do disco de Gal? Da mesma forma, os solos esquisitos em “Volks-Volkswagen Blue”, de Gil. Já no disco de Caetano, a liberdade foi total. Muitas vezes sua guitarra toma conta, se sobressai inclusive à voz. Felizmente, Lanny retomou a carreira nos anos 2000, lançando discos, fazendo shows e participando de gravações. Macalé sentencia: “Ele ainda toca pra caralho!” A memória oficial também deveria ficar atenta às bandas de apoio. Os Beat Boys, radicados no Brasil após fugirem do serviço militar na Argentina, acompanharam “Alegria Alegria”, de Caetano, e “Questão de Ordem”, de Gil; duas performances emblemáticas dos tropicalistas nos festivais. Se a ideia anterior de Caetano era ter a RC7, banda de Roberto Carlos; a provocação soou mais forte com os cabeludos e esquisitos argentinos. Os Beat Boys foram uma legítima banda de garagem. Vale a pena procurar as raras gravações de estúdio, principalmente a versão avassaladora de “Wake me shake me”, do Blues Project. Os Brazões também foram importantes nesse período, destacando-se como a banda por trás das performances de Tom Zé, Macalé e Gal. Até atingiram uma autoridade cool ao longo dos tempos: Mark Arm, do Mudhoney, coloca o único rebento deles como um dos melhores de todos os tempos. Na contracapa, Nelson Motta cravava: “Eles produzem o mais moderno som instrumental/vocal da música jovem brasileira. Juro, acredito

e assino embaixo”. Trata-se de um discaço, o melhor dos filhos bastardos do tropicalismo. A intenção era clara: misturar psicodelia, macumba, samba e outros sons brasileiros, com canções que variavam de Tom Zé a Jorge Ben. Dos grupos que serviram de suporte aos tropicalistas, o menos comentado é o The Bubbles, banda do show de Gal Costa dirigido por Jards Macalé. Pouco depois o grupo se tornaria A Bolha, uma das referências roqueiras do país. Em 1970, três integrantes (Arnaldo Brandão, Pedro Lima e Gustavo Shroeter) foram para a Inglaterra com a cantora e chegaram a se apresentar no mítico concerto brasileiro no festival da Ilha de Wight. Quase nas sombras, também aparece o baiano Os Leif´s, que contava com Pepeu Gomes na guitarra. Tocaram no show de despedida antes do exílio londrino de Caetano e Gil. Anos depois, o concerto foi lançado em disco sob o nome de Barra 69. Apesar da péssima qualidade de som, dá pra sacar o potencial instrumental do grupo, principalmente nas versões de “Superbacana” e de “Atrás do Trio Elétrico”. No repertório do show de abertura, o power trio baiano arriscou “Fire” de Jimi Hendrix e a original “Fobus In Totum”, de versos surreais emprestados da ficção-científica. Em 1970, tocaram no seminal É Ferro Na Boneca, estreia de outros gênios da terra de João Gilberto: Os Novos Baianos. Voltando ao quartinho de Macalé, essencial naquele momento foi Rogério Duarte. Não seria exagero colocá-lo entre as figuras seminais da efervescência cultural brasileira dos anos 1960. Glauber Rocha, por exemplo, sempre o citou como alguém importantíssimo para o próprio Cinema Novo. É o mais outsider e polivalente dos baianos: estudou arte, foi tradutor, compôs trilhas, fez cartazes de filmes marcantes como


OUTRA TROPICÁLIA //051

FOTO: DIVULGAçÃO/MARIA BRAGA PRODUÇÕES

Jards Macalé (à direita), sempre bem acompanhado – aqui com Wally Salomão: muitas das ideias tropicalistas surgiram em sua casa.


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“A memória oficial também deveria ficar atenta às bandas de apoio: Beat Boys, Brazões, The Bubbles e Os Leif’s.” Deus & O Diabo Na Terra do Sol e Terra em Transe, de Glauber, e Meteorango Kid - O Herói Intergalático, de André Luiz Oliveira. Ainda escrevia como poucos. Rogério movimentou a vanguarda brasileira da época; não à toa seu apelido era Rogério Caos. Difícil imobilizar sua produção em conceitos, estava em todos os lugares. No âmago da ruptura tropicalista, além da troca de idéias, Rogério foi responsável pelas belíssimas capas dos primeiros discos de Caetano e Gil. O desenho psicodélico de uma mulher libidinosa ao lado da serpente, emoldurando um Caetano descabelado, representa muito da cara da Tropicália. Mas foi em 1969 que o protagonismo de Rogério se ampliou. Passou um tempo próximo de Gil em Salvador, conversando sobre discos voadores, esoterismo e arte. O resultado é a obra-prima que Gil lançou naquele ano. Canções como a colagem interplanetária “Objeto Semi-Identificado” são assinadas pela dupla. Para completar, é da autoria de Rogério o incrível poema-gráfico que ilustra a capa do disco. Tão influente quanto Rogério, porém de trajetória mais singular, foi José Agrippino de Paula. Em 1965, lança sua primeira bomba: Lugar Público. Livro que revela fantasmas pessoais, ao mesmo tempo em que ilustra um panorama da juventude sufocada e apaixonada pelas coisas de uma metrópole. Tudo pontuado por uma narrativa completamente fragmentada. Dois anos depois surge PanAmérica, obra ímpar da literatura brasileira. São blocos da vida de um Eu-poderoso que ora está filmando a superprodução A Bíblia, ora está transando com Marilyn Monroe num supermercado enquanto um voyeur Marlon Brando se masturba, ou guerreando enfurnado na lama com Che Guevara, ou ainda sendo masturbado por uma criança.

A influência dos livros em canções de Caetano como “Tropicália”, “Superbacana” e “Paisagem Útil” é gritante. Agrippino também se envolveu com cinema e teatro, realizando ao lado da esposa, a dançarina Maria Esther Stockler, e seu grupo Sonda, algumas obras impressionantes. Tarzan III Mundo – O Mustang Hibernado, de 1968, era uma peça-happening que abordava o universo pop com direito a Batman & Robin homossexuais e derrotados por bandidos, lutas de boxe, candomblé, centopeias gigantes, projeção de imagens, Adão & Eva black power e Jimi Hendrix. No ano seguinte, motivado pela chegada do homem à lua, Agrippino se juntou aos Mutantes e escreveu o espetáculo O Planeta dos Mutantes, exclamado na época pela jornalista Marisa Alvarez Lima como “uma colagem do assunto cotidiano: transplante – sexo – ficção científica – televisão – super-heróis – violência – conquista do espaço”. Foi um dos eventos mais aclamados do ano, com os Mutantes no auge da insanidade tocando pérolas como “Quem Tem Medo de Brincar de Amor” e “Dom Quixote”, em meio a aparições de monstros e distribuição de absorventes usados para a platéia. Ainda em 1969, Agrippino realizou seu último espetáculo ao lado do grupo Sonda: O Rito do Amor Selvagem. Era um aprimoramento do conceito de mixagem das outras peças, reforçado pela ideia de “situações” e “intervenções”. O caos tomava conta do palco, nada era previsto, de repente surgiam Mussolini, Hitler, Marlon Brando, bolhas gigantes que caiam na platéia. Apesar do esquecimento do grande público, Caetano Veloso sempre faz questão de lembrá-lo. O nome de Agrippino é um dos mais citados em Verdade Tropical, seu livro de memórias sobre o tropicalismo. Quando a revolução é vencida por apenas um herói, é porque seus amigos são mais discretos.


FOTOS: REPRODUçÃO

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Dois lados da Tropicália: o clássico disco de Gil, com poema gráfico de Rogério Duarte, e a rara garagem dos Beat Boys.


_texto DIEGO DE CARLI


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Frank Black, Kim Deal, Joey Santiago e David Lovering: estes são os quatro “disfuncionais” que há 25 anos estão à frente do Pixies – ou 14, se descontado o hiato de 11 anos da dissolução da banda, em 1993, até o retorno aos palcos.

Escolhido como porta-voz do grupo na entrevista que segue, David, o condutor das baquetas, parece ser o menos disfuncional de todos: sua voz grave e suave ao mesmo tempo, daquelas estrategicamente interrompidas por um “ahm...” antes de qualquer afirmação, não parece ter sido erguida muitas vezes com os demais integrantes da banda - ao contrário de Frank, o frontman, e Kim, a voz feminina e a mão do baixo, que motivaram o pouco mais de uma década em branco na cronologia da banda por problemas de relacionamento. Longe do clichê rockstar, David divide sua habilidade manual entre a bateria e os números de mágica que protagoniza. Pouco dado às extravagâncias, viaja com o estritamente necessário e só abusou do álcool nos tempos difíceis que sucederam a morte do seu pai, em 2004. Segundo Frank, a bebida afetou a performance do baterista durante a tour de reunião da banda, aquela mesma que trouxe o primeiro show do Pixies ao Brasil, no lotado Curitiba Pop Festival. But hey! Seis anos se passaram e, aos ansiosos pela segunda oportunidade de vê-los de perto, desta vez no palco do SWU, em Itu, Lovering avisa: “Daremos (e tocaremos) o nosso melhor.”

Depois de tanto tempo de estrada, como vai o relacionamento entre os membro da banda? Está tudo bem. Kim e Frank não brigam mais? Talvez nos anos 80, 90… Ahm... Primeiro de tudo, toda a banda é sempre disfuncional, entende? Não importa qual banda, todas são disfuncionais. Com a gente não é diferente. Desde que nos separamos e depois voltamos a trabalhar juntos amadurecemos bastante. Continuamos todos com os mesmos problemas, mas a diferença é que agora sabemos controlar melhor nossos sentimentos. Como as mudanças na indústria fonográfica, que já não é a mesma dos anos 80 e 90, afetam vocês? Muito já mudou desde que começamos a fazer música. O cenário alternativo já não é o mesmo. Eu conheço muita gente da minha geração que reclama destas mudanças e acha que o que se faz hoje em dia é música de criança. Mas eu acho que está tudo bem. Existem coisas boas por aí, cada uma com seu público. Mas confesso que sinto vergonha por algumas existirem,


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“Confesso que sinto vergonha por algumas existirem, como o Nickelback, e outras tantas que eu prefiro nem mencionar.” como o Nickelback, e outras tantas que eu prefiro nem mencionar. Existe espaço para bandas com uma longa história, como a de vocês, fazerem um grande sucesso hoje em dia? Sim, definitivamente sim. O lance é: você precisa ser diferente, e você precisa ser bom. Independente do estilo musical, você tem que surpreender a audiência, captar a sua atenção. Então, você precisa se destacar primeiro fazendo a diferença. Mas não sendo estranho, sendo bom no que faz.

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O que os novos tempos agregaram ao seu processo de composição, ao seu gosto? Ahm… A única diferença que eu consigo ver é mesmo a evolução da guitarra, da bateria, enfim, dos instrumentos,que estão melhores. É diferente para mim, como instrumentista, entende? É tudo digital, temos DJs fazendo um trabalho excelente por aí. Mas acredito que as inspirações sejam as mesmas do passado, só que exploradas com novos recursos. Isso possibilita toda uma nova interpretação para uma mesma fonte.

de inspiração espanhola, ou porto-riquenha. Acredito que seja apenas uma parte de quem nós somos que veio para fora, entende? De repente é alguma coisa relacionada a sonoridade dos instrumentos que nos chamou a atenção. Mas é algo pontual, que só aparece no nosso trabalho de vez em quando. Acho que os álbuns mais tardios tem um pouco mais dessa vertente latina, mas não é nada que defina o nosso trabalho. E o álbum Bossanova+3, de 1990? Nós estávamos quebrando a cabeça para encontrar um nome para este álbum e eu sugeri que chamasse “Bossanova”. É bastante sonoro e pareceu ideal para batizar este trabalho. Todos concordaram e assim ficou. Vocês gostam pela sonoridade do nome ou do estilo musical? Nós gostamos do nome.

Muita gente avalia a sonoridade do Pixies como sempre contemporânea.Você concorda? Sim, concordo. Nós temos algumas canções que parecem ter sido compostas ontem. Acho que somos muito sortudos por ainda ter uma audiência fiel, continuar fazendo shows com os mesmos materiais e obter excelentes resultados.

Em 2004, quando a banda se juntou novamente, você disse que o single lançado [“Bam Thwok”] não soava como Pixies.Você acha que é possível produzir coisas novas depois de tanto tempo e continuar soando como Pixies? Ahm… Eu acho que sim, nós temos um certo estilo. A forma como nós quatro contribuímos com a banda, de acordo com as referências individuais de cada um, torna impossível ser diferente do que é. Nosso som passeia por diversos estilos melódicos, mas a essência da banda, que é a forma como interagimos entre nós, sempre esteve e sempre vai estar presente. Aquele single foi completamente diferente de tudo que já fizemos, mas, mesmo assim, representa o nosso trabalho.

Vocês têm músicas como “Isla de Encanta”, do primeiro álbum+1, e “Vamos”, do Surfer Rosa+2. De onde surgiu essa inspiração latina? Nós temos duas, talvez três músicas com um pouco

E por que é tão diferente de todo o resto? Nós tínhamos apenas dois dias no estúdio e precisavam resultar em alguma música. Havia muita coisa acontecendo ao nosso redor e nós precisávamos produzir algo. Todos nós tínhamos muitas ideias e

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“Nós tínhamos apenas dois dias no estúdio e precisavam resultar em alguma música.” pouco tempo, então acabamos revendo muitas delas, misturando um pouco de tudo. Nos divertimos muito e colocamos uma música pra fora. Foi isso. Definitivamente é diferente de tudo o que já fizemos, mas foi bom. E não deu vontade de fazer mais músicas, já que foi tão bom? Nós tivemos vontade sim, mas não passou disso. Vocês estão vindo para o Brasil em breve. Como foi a primeira visita, em 2004? Foi a nossa primeira vez no Brasil, e foi absolutamente fantástico porque eu nunca havia pisado aí, então andava sempre com os olhos abertos, atento a tudo. O tempo estava fantástico, a comida era muito boa. E nossos fãs aí são mais jovens do que alguns de nossos álbuns, o que não os impede de cantar cada palavra das músicas junto com a gente. Isso é fantástico, lembro que nos sentimos muito afortunados por aquela apresentação que fizemos aí. Você é conhecido por carregar pouquíssima bagagem, certo? O que você levou do Brasil quando esteve aqui? Sim, eu não me importo muito com malas e essas coisas. Acho que trouxe daí apenas uma barriga maior do que quando cheguei. E do que mais gostou na nossa comida? Vocês tem muitas coisas aí que eu nunca havia provado. Não me lembro os nomes, mas muitas coisas com carne, que eu amo. Sobre o Festival onde vocês vão tocar em breve, o SWU. Sabe alguma coisa sobre a proposta do evento? Não, não sei.

A ideia é debater a sustentabilidade do planeta, conscientizar as pessoas através da música e da informação.Você acredita nessas iniciativas? Isso é uma questão bastante pessoal, e eu estou aqui falando em nome da banda. Eu não sei, mas acho que qualquer tipo de tentativa para conscientizar as pessoas é bem vinda. A proposta do Festival é reviver, no Brasil, o que o Woodstock foi nos EUA. A organização tem sido um pouco polêmica devido a Área Vip criada em frente ao palco [Tom Morello, guitarrista de outra atração do mesmo Festival, o Rage Against the Machine, incitou o público via Twitter a derrubar a grade de proteção]. O que você, David, acha sobre isso? Entendo. Nos EUA é a mesma coisa. Sempre existe um espaço para quem paga mais caro, pessoal da gravadora, convidados da banda. É normal, eu nunca vi acontecer diferente. Qual a sua expectativa sobre esse segundo show no Brasil? Nós estamos preparando um Best Of cronológico da nossa carreira, então esperem ouvir o que de melhor fizemos durante todos esses anos. Podemos esperar algum material novo? Falamos sobre novas músicas há dois anos, mas andamos ocupados nessa tour que deve durar até novembro. Não temos nada certo ainda, mas vamos ter 2011 livre para talvez criar alguma coisa. Se sair, você espera que soe bastante como Pixies? Sim, espero que sim. Se lançarmos um novo álbum deve ser algo completamente diferente. Ou apenas o mesmo que fizemos até agora, só que melhor.


GAROTAS SUECAS O Garotas Suecas é a prova de que não existe época certa para se fazer música boa. Com um nome mais do que adequado, Escaldante Banda já pode ser considerado um dos melhores discos do ano e um verdadeiro presente aos que vivem em constante nostalgia, em especial da ousadia e do power gingado dos anos 1970. As já conhecidas referências ao funk e à tropicália, somadas a letras inocentes e divertidas, são embrulhadas com frescor de novidade e superam as infladas expectativas geradas pelos EPs anteriores+1. Enquanto eles estão em turnê no melhor estilo Jack Kerouac nos Estados Unidos, você pode ler a entrevista e se deliciar com o ensaio fotográfico. Ao escolher a trilha sonora, não se engane: eles definitivamente não nasceram na década errada. E a sorte é toda nossa.

Fotos e Direção de Arte: Rafael Rocha Assistente de Fotografia: Lucas Tergolina Produção de Moda: Ana Laura Malmaceda Texto e Entrevista: Maria Joana Avellar Agradecimentos: Guilherme Netto, Helen Rödel, Folklore e Beco203 Produtora.


Irina veste: vestido Helen R枚del Acess贸rio dE cabelo Folklore


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Como está a turnê nos Estados Unidos agora? Anda bem. Começamos no início de setembro em Los Angeles, tocamos por toda costa oeste e voamos para a costa leste. Agora vamos começar a descer para o sul, pela primeira vez. Ontem tocamos em Nova York com o Holger, foi super legal, um dos nossos melhores shows até agora. O festival em Seattle também foi muito bom, a gente tocou para um público enorme, ao ar livre, um clima muito astral. Preciso perguntar sobre a história de vocês e a relação de vocês com a música. De onde vem essa bagagem tão boa? A bagagem vem de fuçar em tudo quando é canto atrás de música boa. Seja no computador alheio, na estante de uma loja de disco em Cleveland, escutando uma banda boa na Rua Augusta, é por aí. O som de vocês me remete a tempos musicalmente melhores do que o atual.Vocês não vivem com uma certa nostalgia? Vocês têm vontade de ter vivido em outra época? Não. Essa é melhor época para se estar vivo no Planeta Terra.

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Em um post no blog da MTV vocês falaram que acabam ouvindo muita coisa brasileira nos Estados Unidos. Ultimamente também anda assim? Sim, mas acho que menos do que das outras vezes. A gente está numa fase em que cada um está curtindo a sua coisa. O Perdido e o Nico sempre colocam Parliament na van, e quem está no fundo vai reclamando que o som está muito alto. O Sessa está comprando uns discos com ruídos de Moog que está me deixando meio preocupado. O Tomaz é o cara que está mais próximo da música brasileira. Eu estou viciado em Isaac Hayes, ouço Soulsville pelo menos uma vez por dia. Vocês acham que quem escuta vocês pode pensar que se trata de uma banda do passado ou vocês têm e procuram ter características

bem contemporâneas? Espero que não. O fato de o disco estar sendo super bem recebido já indica que este é um álbum de 2010. A gente está falando com as pessoas de hoje. A proposta do Escaldante Banda era ser um Sgt. Pepper’s tropical, vocês acham que conseguiram? E o nome seria “A Escaldante Banda do seu Tião Brilhantina” (homenagem a Jorge Ben), mudaram de ideia? Não, mas fizemos um disco bom. O nome vem da música do Jorge Ben mesmo mas decidimos encurtá-lo. As primeiras gravações mostram que vocês tinham um som mais de garagem e, depois, ficaram mais tropicália e funk. O som de vocês vive em constante mutação ou vocês acham que encontraram um estilo bem próprio e não vão mudar nunca mais? Acho que a gente conseguiu encontrar um estilo interessante, e sentimos que era bom o bastante para investirmos isso num disco LP. Mas não mudar nunca mais é impossível. O esquema de tocar nos Estados Unidos e fechar com a Michelle Cable começou meio por acaso quando vocês foram visitar o Sesa, né? Sim. Em julho de 2008 nós viemos visitar o Sesa aqui em NY e conseguimos marcar meia dúzia de shows no Brooklin e em Manhattan. No nosso primeiro show estava um amigo da Michelle, que hoje é nosso amigo também, o Hartwell Littlejohn. Ele mandou uma mensagem para a Michelle enquanto estávamos tocando, “You got to check this guys!”. E o resto é história... Vocês falaram em uma entrevista que “cortar os laços com o que rola no Brasil seria um pouco complicado”. Não mudaram de ideia mesmo, né? Ou já pensam em fixar residência fora? Isso quase aconteceu, mas no final das contas decidimos ficar no Brasil, mesmo. Cara, aqui nos EUA e


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Sal veste: Camisa Folklore

“Não [temos vontade de ter vivido em outra época]. Essa é melhor época para se estar vivo no Planeta Terra.”


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Perdido e Nico vestem: Camisa Folklore

em NY e no Brooklin rola uma energia criativa muito boa, é difícil não sentir nem uma vontadezinha de se envolver mais a fundo nesta cena.

português e só em português nos sentimos a vontade para explorar as possibilidades da composição mais a fundo.

Vocês estão ficando tão queridos nos Estados Unidos… não pensam em cantar letras que eles entendam? Sim, na verdade até já temos algumas composições em inglês. É uma parte que realmente faz falta. Lendo as críticas aqui, dá pra ver que o pessoal se liga no som e não tem vinculo com as letras. Mas nossa língua é o

É verdade que um dos objetivos da banda é tocar num trio elétrico no carnaval? Sim, nosso plano era fazer um trio elétrico em São Paulo. As bandas iam tocar e fazer um carnaval muito louco. O problema é que ainda não achamos uma concessionária de trios elétricos onde seja possível comprar um...


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Tomáz e Sérgio vestem: Camisa Folklore

Vocês acreditam que no rock tem tudo mesmo? Ou é uma ironia? Não é ironia, não. Dá pra misturar tudo num disco de roque. Quanto mais você ouve, mais coisa louca você descobre. E se não foi feito, com certeza dá pra fazer. O vinculo com o gênero “roque” é muito mais permissivo do que com outros tipos de musica. Se fossemos uma banda de mambo, ia ser bem difícil fazer um disco que nem o nosso... Fui procurar bandas que vocês indicaram e

encontrei Trupe Chá de Boldo e Haxixins. Vocês têm mais sugestões? Acabamos de tocar aqui com os caras do Kings Go Forth, que foi um dos melhores shows que já vimos. Altamente recomendado. O disco desse ano do Black Keys também é um puta disco. Outra banda excelente com quem tocamos foi o Bellrays, que inclusive já fez um show memorável no Inferno, em São Paulo. Uma banda bem nova com quem a gente tocou e que ainda vai dar o que falar é o Ava Luna. Quem ainda não ouviu estes caras precisa ir atrás!


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vizupreza

_por lidy araújo lidyaraujo. c om. b r

Papelaria_

AMPLI_

SAFADINHO_

Para criativos fashionistas, Marc Jacobs incluiu em sua linha de papelaria um charmoso caderno de ideias. Está à venda na livraria que o estilista inaugurou, mês passado, em Nova York, a BookMarc, especializada em livros de arte.

O charme do recém-lançado Borne Strike G80 Hollywood está no design, mas ele tem alto-falante de 8” 8 ohms específico para guitarra e potência de saída de 23 watts RMS, suficientes para os canais limpo e over drive gritarem.

As criações utilitárias e bem-humoradas da holandesa Mr. P chegam ao Brasil pelas mãos do coletivo Amor de Madre. A marca é conhecida por seus produtos inspirados no símbolo fálico masculino, como o chaveiro da foto.

Preço: US$ 24 em marcjacobs.com

Preço: R$ 380 em playtech.com.br

Preço: R$ 62 em coletivoamordemadre.com

POP ART_

CARIOQUISMO_

DUAS RODAS_

Em 1921, Chuck Taylor uniu-se à Converse para aperfeiçoar o primeiro tênis de basquete endossado. Batizado com seu nome, o modelo já ganhou muitas versões, como a Art Collabs, com estampas vencedoras de um concurso.

Com licença da Disney, o divertido Zé Carioca estampa a nova coleção da Orientavida. Pelos olhos da designer Ana Strumpf, a artesãs da ONG criaram objetos de decoração e utilitários, como as fofas garrafinhas de pinga.

Um luxo os capacetes retrô Ruby by Jorome Coste, The Belvedere. Têm as mesmas características dos originais, como revestimento em fibra de carbono e interior acolchoado em couro vegetal, e vêm com três visores diferentes.

Preço: R$ 129,90 (cano longo) em converseallstar.com.br

Preço: R$33,20 em orientavida.org.br

Preço: € 710 em colette.fr


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estampa

do mĂŞs Marca: MCD

Onde Encontrar: mcdbrasil.net

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_ilustra Diogenes - DSM | www.flickr.com/dsm_

jammin’


[FOTOS POR DÉBY SETTON]

E VOCÊ, QUER TOCAR?

WWW.TOQUENOBRASIL.COM.BR


_FOTO MARI KORMAN | flickr. c om/marikorman

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reviews

_E aí, quer ver sua foto publicada nesta seção? Mande um email com uma foto em alta resolução (300dpi) que represente a sua visão da música para FOTO@NOIZE.COM.BR


EMICIDA

OF MONTREAL

Emícidio

False Priest

O começo de Emicidio faz todo sentido. Uma voz diz: “Entendi! Você vai ser tão real que as pessoas vão achar que você é de mentira”. O MC evoluiu na arte de recortar as ruas em palavras e alinhá-las no fluxo da avenida das rimas sendo real. Demonstra mais uma vez o talento ao contar histórias musicadas que juntam do Senhor do Bom Fim ao vestido da Geyse, do tênis Le Cheval a Sun Tzu. Mesmo que a mixagem não seja uniforme nas 18 faixas – reforçando o caráter de mixtape – nenhuma delas está fora de contexto. “Só Mais Uma Noite” com vocal do irmão mais novo Fióti e beat do DJ Zegon é um dos destaques. “Rua Augusta” também é um ótimo capítulo desse trabalho artesanal, empreendedor e principalmente honesto, como a música deve ser. Bruno Felin

Em False Priest, o Of Montreal mantém a inventividade característica e intrínseca a tudo que emana de Kevin Barnes e trupe. É pop imprevisível. As tradicionais reviravoltas melódicas não estão tão presentes e – fato – há um alicerce mais digerível ao não-ouvinte de Of Montreal. Barnes, compositor e mito, chama o público a uma festa repleta de criatividade. Da inequívoca influência de David Bowie em “I Feel Ya Struter”, passando pelo vocal sussurrado e refrão canalha de “Enemy Gene”, pela melancolia sincera de “Casualty of You” e encerrando com a overdose lisérgica que forma “You Do Mutilate?”. Resumindo: “you look like a playground to me, playa, yeah”. Gustavo Corrêa

GAROTAS SUECAS Escaldante Banda

A capa denuncia o clima retrô. As influências, também: Jovem Guarda, Tropicália, Motown, Tim Maia, Jorge Ben e, claro, muito rock das antigas. Mas não há cheiro de naftalina em Escaldante Banda. E, mesmo que houvesse, o suíngue dos paulistas é tão contagiante que isso seria um mero detalhe. Deixando de fora o hit underground “Codinome Dinamite” (presente em um dos EPs que antecederam o álbum), o sexteto conta com muitos outros coelhos na cartola. “Tudo Bem”, “Banho de Bucha”, “Ela” e “Não se Perca por Aí” têm potencial para cair na boca do povo – e quando digo povo, não falo só da galera indie. Há uma faixa em inglês, “Sunday Night Blues”, cantada pela pianista Irina Bertolucci. Mercado pra eles lá fora não falta, mas e aqui? Santo de casa faz milagre, sim, mas precisa pagar as contas, como todo mundo. Daniel Sanes

KATY PERRY Teenage Dream

Katy Perry flutua entre o pop infantil, o indie modernoso e o hip hop safado (e absorve o que a interessa de cada mundo).  Em seu novo disco, ela consegue demonstrar essa mistura claramente, mas só chega a bons resultados em dois dos três universos propostos. Com Snoop Dogg, pôs “California Gurls” em primeiro lugar na Billboard. “Teenage Dream”, “Peacock” e “Firework” são outros hits inevitáveis. A cantora também aposta no indie-crunk-pop de 3OH!3 e de Lil Jon, referência que fica clara na faixa “E.T”. O problema é quando o disco vai para o lado pop meloso. Katy soa como uma Christina Aguilera sem vontade e a sequência de músicas parecidas deixa o disco repetitivo e chato. Mas, no final das contas, Katy vai bem em dois dos três fronts. Gustavo Foster

INTERPOL Interpol

A capa mostra o nome em pedaços e a faixa de abertura fala sobre sucesso, segredos e dúvidas. O primeiro single, “Lights”, cativa justamente pela proximidade sonora com o álbum anterior. É forte, agressivo, passional, crescente. A ausência de mudanças poderia ser positiva, mas as melodias mais fluidas e menos bruscas decepcionam—exceto, é claro, quando se trata da voz de Paul Banks. Se as elaboradas linhas de baixo eram um dos grandes méritos dos nova-iorquinos, a perda de Carlos Dengler é sentida no álbum homônimo. Para uma banda dona de canções tão impactantes à primeira ouvida, talvez o quarto trabalho fuja à regra e necessite de mais tempo para ser compreendido. Trata-se de um Interpol menos sombrio, mas ainda melancólico, ainda obsessivo. Maria Joana Avellar

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EELS

Tomorrow Morning

Escute também: The Desert Sessions, Queens of the Stone Age, Lullabies to Paralyze

Tomorrow Morning é como um novelo de lã: as sonoridades são sobrepostas até formarem um emaranhado em que tudo se torna uma coisa só. O grosso fio que liga o blues, as bases eletrônicas bizarras e a confusão de sentimentos é Everett (ou “Mr. E”), músico que assina o Eels. O disco – último de uma trilogia que começou em 2009 – é feito muitas vezes de esboços, mas também de obras impecáveis, como a extasiante “Looking Up” e “I Like The Way This is Going”, que parece pedir por perdão. Talvez o grande tema do álbum seja uma certa recuperação de Everett, uma busca por libertação que aparece clara em “I’m a Hummingbird”. Mesmo com tropeços, parece que Mr. E escreveu um disco que relata perfeitamente sua própria redenção. Ana Malmaceda

DiscografiaBásica

Superchunk Majesty Shredding

“Digging for Something”, primeira faixa do novo disco do Superchunk mostra a banda com o vigor e a vontade de quando eram 20 anos mais novos. Há quase uma década sem lançar um CD completo, os veteranos parecem ter passado o tempo de retiro guardando fôlego para gritar nas novas 11 faixas. Majesty Shredding é uma fila indiana de melodias alegres, vocais displicentes e guitarras noventistas que chegam a dar saudade. É o Superchunk em sua máxima potência. Se há uma característica marcante, é a naturalidade da banda. O Superchunk não se importa em fincar pé na época em que cresceu e isso não passa a impressão de temporalidade ou atraso. Majesty Shredding é o melhor disco dos anos 90 lançado nos anos 2010. Gustavo Foster

QUEENS OF THE STONE AGE

por Gustavo Foster

RATED R | Em seu segundo disco, a banda uniu à sujeira desértica dos trabalhos anteriores uma

ambientação agradável e melodiosa, com linhas vocais tranquilas. O álbum lembra muito o clima das Desert Sessions de Josh Homme, gravadas no Rancho de la Luna. Os riffs stoner-grunge são perceptíveis durante todo o álbum—especialmente em faixas como “Quick and to the Pointless” e “Tension Head”—, mas dão lugar importante para levadas de violão, batuques de xamanismo e coros chapados de maconha, que dão a Rated R um ar de disco gravado em uma tarde ensolarada,no deserto (e para ser escutado em uma tarde ensolarada, no deserto). Feel good hit of the Summer! SONGS FOR THE DEAF | O ápice do QOTSA é uma viagem de Los Angeles ao deserto de

Joshua Tree—cidade natal do líder da banda Josh Homme. As 14 faixas do disco são narradas por radialistas de estações imaginárias. Gravado pelo dream team Josh Homme, Nick Oliveri, Mark Lanegan e Dave Grohl, Songs for the Deaf impressionou em seu lançamento e impressiona até hoje pela gravação perfeita e pelo peso do grupo. Os caras encontram o equilíbrio entre barulho e melodia em músicas históricas como “First it Giventh”, “A Song for the Dead” e “Hangin’ Tree”. Porém, não vale destacar faixas e ignorar outras: Songs for the Deaf é uma obra coesa que deve ser ouvida do início ao fim, como uma unidade. ERA VULGARIS | Se nos álbuns anteriores o Queens of the Stone Age investiu em riffs marcantes

e batidas rápidas, em Era Vulgaris as músicas têm uma cadência mais arrastada e mostram uma banda experimentando caminhos distintos do stoner e do garage. Faixas mais longas e de certa forma mais trabalhadas apresentam sintetizadores que remetem à new wave, combinações de bateria e guitarra características da música eletrônica e melodias densas de blues, com improvisações de Josh Homme. “Make it Witchu” mostra claramente a levada que terá sequência no restante das faixas. É talvez o disco mais difícil de ser digerido do QOTSA. Os vocais sombrios sobre o instrumental acinzentado fazem de Era Vulgaris o trabalho de alma mais triste da banda.


A Banda de Joseph Touton A Banda de Joseph Touton

É bom o fazer instintivo a que parece recorrer o time sub-21 d’A Banda de Joseph Tourton. Experimentam como quem tateia melodias, às vezes mais com a subjetividade do drible do que com a objetividade do gol. E daí, surgem os mais variados gols instrumentais – mesmo que amparados por referências artísticas alternativas, contam histórias com mais ginga que a música mais pop e acessível. Nos 5 minutos de “16 minutos”, basta a adição de uma flauta para que uma ameaça pinkfloydiana seja revertida em Brasil contemporâneo. Não se deve esperar que um disco de estreia ouse revolucionar, mesmo que, não raro, ele reuna a matéria prima mais seleta, daquela que talvez nunca mais brote tão primal. Golaço. Fernando Corrêa

Jerry Lee Lewis Mean Old Man

Deveriam os antigos ídolos do rock seguir fazendo novos sons ou apenas preservar seu legado com músicas que ficaram para a história? Jerry Lee Lewis regravou diversos sons e chamou vários parceiros para acompanhá-lo. Ao terminar de ouvir Mean Old Man, de 18 faixas, ficou a sensação de que as versões antigas sem dúvida alguma são muito superiores; então, qual o motivo para regravá-las? Mesmo tendo parceiros de altíssimo calibre, como Rolling Stones, Eric Clapton, Sheryl Crow, John Fogerty, entre outros, o álbum inteiro soa como country, não como rock ‘n’ roll. Obviamente que Lewis quis soar assim, mas ele fica repetitivo e morno. Não é um álbum ruim, mas não tem tempero e, vindo logo deste homem, não dá nem vontade de terminar o prato. Ricardo Finocchiaro

!!!

Strange weather, insn’t it?

Mesmo há 15 anos juntos, o !!! aparece com seu novo álbum, Strange Weather, Isn’t It? sem demonstrar sinais de cansaço. Que pique. Aqui ficam mais pop, mas continuam estranhos. Não há saídas fáceis e refrões grudentos. Bateria e baixo comandam boa parte do disco, principalmente nas boas “AM/FM” e “The Most Certain Sure”. Mas as guitarras não ficam atrás. Basta notar como elas dobram na introdução de “Steady As The Sidewalk Cracks”, a melhor faixa, ou são dedilhadas no refrão da excelente “Jamie My Intentions Are Bass”. E não faltam os títulos bizarros das músicas, marca do !!!. “Even Judas Give Jesus A Kiss” é prova disso. O peso dos anos ainda não bateu nesses nova-iorquinos, pelo contrário. Vinicius Felix

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ta por vir .: 1º de Novembro_Jamiroquai | Rock Dust Light Star “Numa época em que há muitos projetos influenciados por disco e eletronica, decidimos focar em música mais orgânica”. Mais ou menos assim, uma nota publicada no site oficial do Jamiroquai anunciou o novo disco da banda. O vocalista Jay Kay complementou: “Tudo neste disco é ao vivo. É um verdadeiro disco de banda. No último disco tudo ficou um pouco estéril. Dessa vez capturamos o flow dos nossos shows.”

confira The Walkmen Lisbon ___O Walkmen volta com um disco que, segundo dizem, conta com uma boa dose de inspiração nos velhos consagrados do rock, como Johnny Cash. No entanto, para velhos fãs faz falta o vigor de outrora.

Brandon Flowers Flamingo ___Pra os fãs de Killers, “Flamingo” é uma forma não só de matar a saudade, mas de conhecer um trabalho livre de Brandon Flowers. Menos eletrônico, mais country, a veia pop inerente do disco agrada e não exige muito de quem escuta.

Bad Religion The Dissent of Men ___ Com 30 anos o Bad Religion lança o 15º disco mostrando que, apesar das trocas na formação, continua honrando as origens. Um dos discos mais variados da banda, reúne sons mais cadenciados com os hardcores tradicionais.

redescoberta Lou Reed & John Cale Songs for Drella (1990)

Das seqüelas históricas do Velvet Underground, o reencontro entre Lou Reed e John Cale. Já foi muito falado: Songs for Drella é a melhor biografia de Andy Warhol. O disco narra – com precisão e humor – a trajetória do artista, morto três anos antes. A começar pelo apelido no título, o cruzamento entre Dracula e Cinderella. Pois há uma sintonia, uma intimidade que poucos tinham com o universo de Warhol.Trata-se, no entanto, de uma obra-prima difícil. O instrumental é mínimo: guitarra, piano e viola; a maioria das letras é recitada em tom informal. Apesar do caráter conceitual, destacam-se canções como “Trouble with Classicists” — Cale dissertando sobre arte com propriedade — e a divertida “Small Town”. Leonardo Bomfim


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cinema A ORIGEM

Diretor_ Christopher Nolan Elenco_ Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Marion Cottilard, Ken Watanabe e Tom Hardy Lançamento_ 2010

Num ano particularmente fraco de blockbusters, A Origem surge como uma tábua de salvação para o cinemão americano: um filme com o cada vez mais raro roteiro original, onde todos os protagonistas são adultos que se comportam como adultos, e cuja história não se preocupa em nivelar a inteligência do espectador por baixo. DiCaprio é Don Cobb, especialista em “segurança do subconsciente” que, junto com sua equipe, é contratado para invadir os sonhos de um herdeiro e plantar uma ideia em sua mente. Com uma história que se desenvolve, literalmente, em várias camadas, o filme só não é melhor pelas limitações do diretor Christopher Nolan (de Amnésia e Batman:

O Cavaleiro das Trevas) em seu modo sempre rígido e funcional de olhar a cena. Ainda assim, traz aquela que provavelmente é a seqüência de ação mais marcante do ano, em que Joseph Gordon-Levitt protagoniza uma luta em gravidade zero nos corredores de um hotel. Amparado no roteiro inteligente e engenhoso, num elenco impecável (com destaque para Marion Cotillard, dominando suas cenas com vigor impressionante) e na trilha minimalista e impactante de Hans Zimmer, A Origem é um dos poucos filmes americanos desse ano que dá ao espectador o prazer de não ser subestimado. Samir Machado

OS MERCENÁRIOS

Diretor_ Sylvester Stallone Elenco_ Sylvester Stallone, Jason Statham, Dolph Lundgren e Jet Li Lançamento_ 2010

A cena mais emblemática de Os Mercenários é aquela que, via de regra, é o único motivo de o público ir ao cinema: a ocasião em que estão Stallone, Bruce Willis e Schwarzenneger reunidos, decidindo quem vai pegar a missão oferecida pelo personagem de Willis. Schwarzenneger sugere que o amigo Stallone fique com o serviço e parte com um sorrisinho irônico: o governador da Califórnia sabe bem da bomba que está se livrando, e não me refiro à história batida de ilha governada por ditador latino-americano. O filme reúne todos os clichês que se espera do gênero cinema-brutamontes protagonizado pelo próprio Stallone e por Schwarzenneger nos anos oitenta, mas não consegue fazer deles nem

uma releitura, tampouco uma reencenação competente. Stallone como diretor não tem o talento de um John McTiernan (diretor dos clássicos oitentistas Comando para Matar, Predador e Duro de Matar) para criar suspense e impacto, e está a anos luz de um Paul Verhoeven em fazer da violência do gênero uma estética própria. Fato é que, fosse desprovido do fetiche saudosista de ver tantos astros decadentes reunidos no mesmo filme, Os Mercenários se perderia no limbo dos filmes de ação medíocres que lotam as prateleiras de locadoras, desprovidos de qualquer coisa que dê a eles o mínimo de relevância dentro do seu gênero. Samir Machado


cinema

ELES AINDA ACREDITAM Dos arredores da explosão punkrocker nos Estados Unidos até o início deste século, o hardcore brasileiro viveu um ciclo completo de incipiência, explosão, consolidação e quebra. Contrariam as estatísticas sobreviventes como o Sugar Kane, o Dead Fish e o Rancore, cujos membros depõem pelo registro histórico e a discussão da cena que ajudaram a construir. Não se engane, houve quem passasse imune ao largo da falência dessa cena semi-falida e ainda inaugurasse o emo brasileiro, também conhecido como “pagode-rock”. Quem não vendeu a alma para o Capeta segue tentando conquistá-lo na marra. São eles que falam no documentário de Diego Lo Pomo, porque algum adolescente que reverta seu desamparo em revolta ainda deve existir. Fernando Corrêa

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LOGORAMA

A MORTE DE BUNNY MUNRO

Logorama é atual: fruto da preocupação ecológica e do discurso apocalíptico que alerta para a destruição precoce da Terra caso o consumo siga nesse ritmo. É original: curta-metragem de animação que utiliza somente logos e símbolos de marcas. O meio faz jus à mensagem: são os próprios produtos que habitam um planeta que é devastado por um terremoto. Isto acontece quando os bonecos da Michelin iam capturar Ronald McDonald, que havia feito de refém as crianças Haribo. O filme cativa pelo jeito infantil de tratar o tema. O cenário parece de quarto de criança que sucateia embalagens para brincar. A trilha sonora ajuda a criar uma atmosfera nostálgica. Nostalgia, pois parece que a coisa está mesmo acabando. Gustavo Lacerda

Quem aprecia o clima denso das músicas de Nick Cave já sabe o que esperar do segundo livro do músico (o primeiro, And the Ass Saw the Angel, saiu em 1989). Mesmo assim, A Morte de Bunny Munro está longe de ser previsível. O romance narra a conturbada vida de um vendedor de produtos de beleza logo após a morte da esposa. Desnorteado, o cara põe o pé na estrada junto com o filho em busca de algo que nem ele sabe o que é. A compulsão do protagonista por sexo e suas conversas com Bunny Junior rendem as passagens mais hilárias do livro. Aliás, a ligação entre os dois é o ponto-chave da obra. Entre uma realidade deprimente e alucinações assustadoras, o pobre vendedor tenta, a seu modo, ser um pai zeloso. Com um texto de leitura fácil, Cave nos mostra como as relações humanas são complicadas e, mesmo assim, fazem a vida valer a pena. Mesmo que ela não seja tão tragicômica como a de Bunny Munro. Daniel Sanes

de François Alaux, Hervé de Crecy e Ludovic Houplain (2009)

de Diego Lo Pomo (2010)

livros

de Nick Cave (2010)

Redescoberta Sherlock Jr. (BUSTER KEATON, 1924) Trata-se de uma das primeiras obras a abordar o cinema. Mais especificamente, a relação entre espectador e filme, algo que até hoje se discute. Temos um projecionista — Buster Keaton em plena melancolia — que, na verdade, quer ser detetive particular. É através dos sonhos com a tela grande que ele se torna bem-sucedido. O filme justifica a famosa frase, errônea ou ironicamente atribuída a André Bazin (é de Michel Mourlet), citada por Jean-Luc Godard no início de O Desprezo: “o cinema mostra-nos um mundo de acordo com nossos desejos”. Ainda mais visionário, Sherlock Jr. indica que o cinema também tem o poder de nos ensinar a viver. Leonardo Bomfim


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SHOWs

fotos: 1 | Divulgação 2 | Mari Korman 3 | Fernando Schlaepfer

1

GORAN BREGOVIC Porto Alegre, Teatro do Bourbon Country, 09/09

Pancada de arrepio. Peguei a expressão de Carlinhos Brown emprestada para tentar definir o show de Goran Bregovic e sua orquestra para casamentos e funerais em Porto Alegre. Ansiedade e decepção seguravam minha mão antes de o show começar. A primeira já me acompanhava no caminho até o teatro, a segunda se deu por conta das cadeiras. O chão imploraria surras dos pares de pés presentes quando conhecesse a trilha sonora da noite. Subitamente, as duas me abandonam. Os músicos responsáveis pelos metais aparecem na plateia e dialogam com as cordas, que já se encontram no palco. Acompanhado dos tenores, Goran Bregovic é o último a entrar em cena, com o figurino padrão, terno branco e sapatos vermelhos, e com um carisma elegante e quase cafajeste. Duas ciganas assumem magistralmente os vocais femininos. O galã Alen Ademovic, além de percussionista, revela-se o vocalista mais versátil que já vi ao vivo. Lentas trilhas de filmes dominam o início do show. Bregovic rege os cinco tenores por cima da cabeça e o som monofônico lembra um canto gregoriano. É quase impossível acreditar na sincronia dos estalares de dedos. A solista atinge agudos surpreendentes e as vozes em uníssono preenchem o teatro quase lotado. Um flautista não consegue evitar, e sorri. O palco cheio parece pequeno para tanto som. Para a plateia, tudo é surpreendente e inusitado, ao mesmo tempo em que faz pleno sentido. Quando se iniciam os primeiros acordes de “Kalashnikov”, trilha do filme Underground, de Emir

Kusturica, tenho a impressão de sentir um arrepio coletivo. “Meu Deus”, leio em meu caderno de anotações. Goran só abandona a guitarra pelo metalofone e pelo copo de shljivovitza. Começa “Gas Gas” e o público quase salta das cadeiras. Vejo uma cabeça de criança pulando no horizonte e acompanho o movimento. Uma moça levanta, pula, salta, dança, vibra. É à flor da pele que se escuta Alan cantar “Ausência”, célebre na voz de Cesária Évora. Quando a velocidade volta, vejo corpos se libertarem dos assentos. O chão treme. “Me ajuda a ouvir”, gritam os garranchos no meu caderninho. Nessa hora, percebo que se não fossem as sisudas e inconvenientes cadeiras, eu provavelmente não teria pulmões para três horas de show. Mas o que é a música balcânica se não um truque para iludir limites? A apresentação é tão sincera que em “In the Death Car”, trilha de Arizona Dream, originalmente acompanhada de Iggy Pop, Goran pede que a plateia pare de bater palmas e, depois da aparente indelicadeza, ainda consegue fazê-la cantar junto. Vejo o menino que dançava com a cabeça protestar na hora de ir embora. Vejo ombros requebrarem em “Balkañeiros”, versão em espanhol de “Ovo je Balkan”, cantada com malemolência por Ademovic. Vejo um grupo dançando horizontalmente em frente à primeira fila. Com um bis deliciosamente longo, muitos se vão e quase todos levantam. Eu não mais escrevo, apenas danço. Maria Joana Avellar


//079

2

3

OK GO

CRYSTAL CASTLES

Porto Alegre, Teatro Hebráica, 18/09

Rio de Janeiro, Circo Voador, 25/09

Ao abrir a tampa branca do notebook, a primeira janela que surge no canto da tela diz o seguinte:”@chinisalada: Show do @okgo: tinha (variados tipos de) pirotecnia, sinos, stand-up comedy e rapazes bonitos. Não sei o que um concerto precisa além disso”. Maldição. Resumiram o show antes que pudesse traçar as primeiras frases. A graça de tudo isso é realmente fazer sentido. O Ok Go tem, sim, tudo que um concerto necessita: declaração de que público é igual a artista, músicas feitas para cantar junto, ausência de pose. Entretanto, o que o show não precisa é que acaba por ser falado: luzes batendo em pedacinhos de papel intermináveis, microfone com câmera, guitarras de LED, foto do público pra se taggear no Facebook, música acapela com sinos quase mágicos, banda tocando a mesma música duas vezes, só para que três meninas pudessem completamente sem jeito - dançar uma das coreografias e ter uma grande história pra contar no colégio depois. As dançáveis e conhecidas não faltaram: de “Oh No”, segundo álbum da banda, “Here it Goes Again” (a música das esteiras) e “A Million Ways”. Do novo disco da banda, a nonsense “WTF?” e “What To Do”, tocada com diversos sinos. A música é quase tão bonita quanto a luz que batia na nuca do vocalista Damien Kulash enquanto cantava “Last Leaf ” no meio da plateia. No outro dia, uma outra janela aparece no canto da tela: o Facebook diz que 30 amigos meus curtem Ok Go agora. Eu também. Ana Malmaceda

O Circo Voador foi palco para a comemoração de 4 anos das festas cariocas Shout! e Electroshake. O line up teve: Diogo Reis, Badenov, Digitaria, Database, Yugo e André Câmara e, como atração principal, Crystal Castles, duo canadense de electroindie, noise, 8-bit, entre tantas outras definições que os dão. A expectativa era grande. Eis que Ethan Kath e Alice Glass surgem. Iniciam ao som de “Fainting Spells”, com sua pegada noise e emendam com “Baptism”. O show segue com “Courtship Dating”, “Insectica” e “Doe Deer”. Depois de uma sequência de um som mais pesado com distorções, surge “Celestica”, considerada uma composição mais “pop”. Continuaram com “Empathy” e a instrumental “Reckless” foi seguida por “Crimewave”, com seus vocais robóticos e batida marcante. A dupla é tímida, lembrando uma postura Shoegaze, mas o clima que trazem é entorpecente, além da bateria que contribui para um som mais agressivo. Várias vezes durante o show, a vocalista descia do palco com uma garrafa de Bourbon, pendurava-se nas grades e misturava-se ao público, que tentava agarrá-la. Depois de “Air War”, o show seguiu com “Alice Practice”, e “Black Panther”. “Unstrust Us” seduziu com seu ar melancólico. Voltaram para um bis com “Intimate” e “Yes No”. A incansável jovem continuava subindo no bumbo da bateria e, ensandecidamente, batia com o microfone nos pratos. Com essa cena se encerrou o intenso show do Crystal Castles no Rio de Janeiro. Vanessa Marçolla


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SHOWs

fotos: 4 | Camila Mazzini 5 | Laura Wrona

4

5

SHE WANTS REVENGE

ARTHUR DE FARIA E JÚPITER MAÇÃ

São Paulo, Clash Club, 09/09

São Paulo, Choperia do Sesc Pompéia, 17/09

E todos se sentiram vingados. Após o atraso de duas horas, causado pelo extravio de bagagem no aeroporto, o She Wants Revenge se desdobrou para compensar a paciência da platéia que não arredou pé. Assim foi a segunda passagem dos californianos por São Paulo, na noite de 09 de setembro, na Clash Club. Os caras, realmente constrangidos, tiveram que passar o som segundos antes do show com todos assistindo, o que tirou um pouco o frenesi natural do início de show. Após pedir inúmeras desculpas, Justin Warfield, bastante simpático, prometeu tocar até a exaustão e algumas surpresas. Ainda timidamente,“Red Flags And Long Nights” deu início, mas já na terceira música a platéia estava mais do que conquistada. Hits como “True Romance” e “These Things” extasiaram à todos. A bela “Out Of Control” contou com um emocionado coro do devoto público. A euforia era tanta que, durante “Replacement”, uma menina chegou a subir ao palco, mas foi imediatamente retirada. O duo desmistificou a áurea gótica e antipática em torno de si. Cada música era apresentada e comentada e, além do setlist recheado de “clássicos” e de inéditas, constavam dois inesperados covers, “Love My Way” do Psychadelic Furs e a história “Wave Of Mutilation” do Pixies. Visivelmente cansados, Adam 12, Justin Warfield (e músicos de apoio) dispensaram a manjada saída do palco e emendaram um bis matador, que culminou em “Tear You Apart”, encerrando uma noite a se lembrar. Victor Sá

Arthur de Faria & Seu Conjunto e Júpiter Maçã fizeram a primeira noite do festival “Das Bandas de Lá”, na Choperia do Sesc Pompeia, que teve no seu segundo dia Apanhador Só e Procura-se Quem Fez Isso. O multi-instrumentista Arthur mostrou, em 30 minutos, que deveria ser mais conhecido por aí. Suas misturas sonoras – milongas balcânicas, tangos politonais, polkas centenárias, jazz com guturais – aliados ao carisma carregado da típica chinelagem gaudéria de Arthur e da qualidade da banda (contrabaixo, guitarra, bateria e mais quatro instrumentos de sopro) que o acompanha são um típico caso de música mais palatável fora do Brasil do que dentro – não me pergunte aqui por quê. Júpiter, acompanhado pela nova banda em que se destaca o ótimo Astronauta Pinguim no piano e órgão, trouxe algumas surpresas no show. Primeira: uma barriguinha sadia, salientada pela calça apertada de couro. Segunda: “Identidade Zero”, dos primórdios do TNT, e “Morte por Tesão”, dos Cascavelletes, dois clássicos do rock gaúcho que levaram parte do público a um baita porre de nostalgia. Terceira: uma roupagem “eletro-psicodélica” em quase todas as músicas – e mais forte nas novas “Modern Kid” e “Calling All Bands!”. Ainda teve clássicos (“As Tortas e As Cucas”, “Beatle George”), surpresa da fase Apple (“Hisscivilization”), antiga repaginada (“Eu e Minha Ex”, em linda versão cabaré), além, é claro, do hino “Lugar do Caralho”, que fechou o show sem bis e em míseras uma hora. Leonardo Foletto


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Qualquer coisa Divulgação

CHINA FALA SOBRE... __SIMULACRO|Além do meu trabalho solo, sou vocalista do Del Rey, grupo que toca sucessos de Roberto Carlos. Sempre achei que fôssemos uma banda cover, mas depois que assisti aos Beatles cover saquei que somos uma banda que tenta ser cover. Cover mesmo são os caras que tocam Beatles e arrancaram 80 pratas da minha carteira, porque meu filho mais novo é beatlemaníaco e queria vê-los. E por que eles são covers originais mesmo? Vamos lá: (1) eles se vestem como os Beatles; (2) imitam os trejeitos dos Beatles; (3) seus instrumentos são iguais aos dos Beatles; (4) falam inglês com o pú-

blico (mesmo sendo paulistas); (5) tocam até músicas que os Beatles nunca tocaram ao vivo. John, Paul, George e Ringo, trajando os famosos terninhos, entram depois de uma introdução do tipo “Jesus tá descendo do céu”. O público vai ao delírio, parecia que eu estava no Cavern Club, em Liverpool. Mas aí uma menina atrás de mim gritou: “John, gostoso!”Toda a aura inicial se apagou e me dei conta de aonde estava. A cada música a plateia gostava mais, e eu botando defeito em tudo. “O som tá ruim, essa luz é cafona, esse cara jura que é McCartney.”Tava puto! Foi então que olhei para o lado e vi meu filho completamente alucinado – cantava as músicas, batia palmas. Se eu não dissesse que era uma banda cover, ele ia sair de lá falando que o sonho não acabou. Deixei a chatice de lado e me contagiei pela euforia. Daí em diante, foi tudo lindo. Cantei todas as músicas e até fiz “uuhhuuu” no final delas.Terminei a noite feliz da vida, abraçado com Tom em “All we need is love”. “Beatles cover é do caralho! Mas prefiro o original.” Foi com esta frase que expressei meus sentimentos no Twitter. Um cara respondeu: “Concordo! […] E porque você continua insistindo em tocar Roberto?” Essa pergunta me fez pensar bastante...Imagina se o Del Rey fosse uma banda cover mesmo. Eu teria que: (1) vestir azul em todas as ocasiões; (2) cantar parado; (3) desenvolver manias; (4) ganhar mais

do que os outros músicos (que também deveriam usar azul); (5) ser mais afinado. Deu pra perceber que não tenho como insistir em ser Roberto. Depois da experiência Beatles cover, saquei a diferença entre banda cover, banda que tenta ser cover e banda autoral que parece cover: banda cover é aquela que executa ao vivo e com todos os detalhes, os sucessos de um artista renomado; banda que tenta ser cover é a que não consegue reproduzir o som original e acaba criando versões para as músicas já consagradas; banda autoral que parece cover é a que compõe as próprias canções, mas não passa de uma cópia mal feita do tal artista renomado. No fim das contas, cover ou não, tudo se parece.Tudo é cópia, xerox, mimeógrafo, espelho invertido... simulacro!


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Revista NOIZE #38 - Outubro de 2010  

Pixies, Garotas Suecas, Vive La Fete, Dinossaur Jr, A outra Tropicália, Ok Go

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