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JOÃO BARCELLOS

UM MORGADO NO IMAGINÁRIO DE UM MARQUÊS [A construção do Brasil através da Villa & Capitania piratininga]

A difícil tarefa do morgado e capitão-general Luiz António de Sousa Botelho e Mourão de pegar a linha onírica do fidalgo Francisco de Souza que acreditou no olhar e no engenho industrial de Affonso Sardinha (o Velho).


Do Autor: Escrever esta ficção memorial foi um desafio que me impus depois dos poemas que escrevi sobre atos e figuras da luso-afro-brasilidade dos Sécs XVI, XVII e XVIII. Tanto o Morgado como o Marquês vivenciaram a realidade encontrada e transformada pelo ´velho´ Affonso Sardinha, e eu não me sentia bem apenas com a poesia épica, até que, em 2011, após uma palestra que fiz na Fazenda Ipanema [para os antigos o ´Cerro Berasucaba´], alguém disse “tudo isto parece uma novela de aventureiros e fidalgos”. Mentalmente, começou aí esta novela para ser lida sob o calor da lareira e uns goles de bom vinho.

Pelas sorocas do Berasucaba e Piratininga, ramal oeste do Piabiyu guarani, 2011-2013.


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A construção poético-historiográfica que conheço do engenho literário de João Barcellos é uma plástica que mistura a realidade documental com a ficção sob doses de profunda investigação. Na sua odisseia sobre a história luso-americana, a partir de Piratininga e dos feitos de Affonso Sardinha, ele encontrou o Marquês das Minas, primeiro, e depois o famoso Morgado de Matheus que capitaneou a região dos bandeirantes. Em todos os seus livros, artigos e palestras, João Barcellos é o investigador sempre além dos documentos pela demanda de outras possibilidades, e isso o levou a encontrar outros dados para recompor a história que o fez português no mundo. Ruy Hernández – poeta e editor. Barcelona/Esp., 2013.

* Ler a historiografia luso-afro-brasileira nos textos de João Barcellos é reinterpretar a portugalidade localizada além-mar e aferir histórias que contrastam com as estórias das cartilhas oficiais das regiões colonizadas e dos próprios governos lusos. O traço do perfil de algumas personalidades dessa história já negam, por si, tais cartilhas, e fazem de João Barcellos um intelectual que prioriza o campo de estudos para redescobrir em cada lasca o que o pó dos tempos teima em esconder por inoperância ou desleixo acadêmico e político. E sabemos: precisamos conhecer o que ontem foi feito para melhorarmos a existência de hoje, ou seja, o amanhã depende da nossa história! Fernanda Marques – Professora e Antropóloga. Curitiba/Br., 2013.


1 Vai alto o verão europeu. Em todas as eiras e beiras portuguesas preparam-se as colheitas em todos os rincões para abastecer o reino.

[Aspecto do Solar de Matheus]

Na longínqua província de Trás-os-Montes, o solar da Família Matheus surge a cortar com elegância a bruta, mas poética, paisagem serrana de Vila Real. Os morgados desta Casa senhorial estão entre os nobres mais requisitados como militares, como diplomatas e como conselheiros pela Casa real. 1764. O morgado Luiz António de Sousa Botelho e Mourão, é o quarto mandante da Casa de Matheus e acaba de chegar de uma viagem a Paris com escala em Lisboa, onde conversou por algumas horas com um nobre em ascensão na Corte do rei José I. Conheciam-se há alguns anos e mantinham um estreito relacionamento político e diplomático no meio reinol. – Tenho para mim, meu caro dom Luiz, que iremos solicitar os seus conhecimentos e empenho numa tarefa de grande vulto a serviço de Sua Magestade – especulara o nobre em seu gabinete ministerial. O morgado trasmontano


sorriu. – A ilustre e mui fiel Casa de Matheus não negará empenho para favorecer os negócios de Vossa Mercê, que são os da Coroa e da Nação! – respondeu. Sentados lado a lado e a certa distância da mesa de trabalho de Sebastião José de Carvalho e Melo, o morgado olhou-o fixamente. – Vi agora, na França, bons resultados da reforma educacional feita a partir de Paris. Eu acredito, meu caro marquês, que a sua política para o setor é a melhor... – disse, no sentido de pinçar do famoso político outras informações a respeito. E escutou: – Ah, Vossa Mercê, também... – disse o político, brincalhão –, agora só me chamam de Marquês. As pessoas de Pombal devem estar contentes. Bem, em relação ao sistema de ensino, acredito que precisamos exterminar a doença chamada jesuítica e impor a nossa língua de uma vez por todas em nossos territórios! E eu sei que tenho a sua compreensão de homem ilustrado e de português autêntico! Aprendi, quando servi nosso senhor, o rei João V, como diplomata em Londres, que a educação tem de ser um instrumento de civilização tendo a língua de cada nação como base. Civilizar, sim, mas teremos de fazer como os romanos: fazer da nossa língua a ponte política e social! O mês de Julho está muito quente. Há uma semana em descanso em seu solar, o morgado é o fidalgo atento a toda a sorte de notícias entre cortesãos.

Nos palácios de Lisboa, logo após a conversa com o Marquês de Pombal, tentou saber mais sobre as políticas em exercício. – O que mais se sabe, hoje, e saiba Vossa Mercê também, é que o marquês é, de fato, o rei... e este rei quer, porque quer, reformar as políticas em relação ao Brasil, além de minar o poderio econômico e religioso que têm os jesuítas por lá! – ouvira de diversas fontes. Iluminista e fiel defensor da sua cultura, dom Luiz tinha para si que a cada dia deveria aprender mais, aprimorar-se, ser diferente dos reinóis que apenas mandam tirar a poeira dos tapetes palacianos a cada nova chegada de Sua Magestade ou do seu secretário de Estado. Sabia ser autoritário no exercício das suas responsabilidades administrativas e políticas, como sempre o foi no campo castrense, mas não deixava de ser o cidadão


atento às dificuldades que todos enfrentavam no cotidiano da sobrevivência. A disciplina e o saber são o segredo do progresso, eis a sua divisa. Ai, os jesuítas..., murmura. Ainda em Paris, conversara com alguns padres jesuítas que andavam “mui preocupados com as notícias de um reino com os cofres vazios”. Para o morgado aquilo era “conversa fiada de gente que quis construir um império próprio nas barbas da Igreja romana”, e disse-o com todas as letras, o que limitou a aproximação dos padres. Indagando sobre a azáfama jesuítica em Paris, quase às escondidas de Portugal, ouviu: “Aqui, damos achegas geográficas para a feitura de mapas do Novo Mundo e, em particular, do Brasil, a partir das minas descobertas”. É verdade, o padre Nóbrega soube instruir muito bem a sua gente nos meandros mercantis e políticos!, constata ele ao recordar o que lera também sobre o assunto, e por que os famosos bandeirantes luso-paulistas armaram as suas bandeiras para expulsarem essa ordem religiosa de padres que já nem o papa respeitavam. A poucos metros da biblioteca, onde se encontra o feudal senhor, uma jovem dama de companhia corre ao encontro de sua senhora. – Chegou mensageiro de Sua Magestade com carta para o nosso senhor dom Luiz! – diz, a voz entrecortada pelo esforço da caminhada em passo rápido pelas alas do imenso solar. A senhora, Leonor Ana Luísa José de Portugal, esposa do morgado, e como bem quista reconhecida por todos como a morgadinha, deixa que uma ruguinha de preocupação lhe marque a fronte. Cuidava de algumas de árvores frutíferas que uma parente muito chegada lhe havia enviado com o recado “do solo dos brasis para as mãos da delicada senhora”. Não sabe o que é, mas sente o corpo tremer. – Ui, parece que estou naquele dia em que Luiz me pediu em casamento... – sussurra para a jovem que, corada, aflita, não sabe o que fazer com as mãos. – Fique quieta, menina. Ai!... – Leonor segura as mãos dela e em instantes aquieta-se. E logo a senhora avança pela ala até chegar perto da biblioteca. A porta está entreaberta, e escuta: – Meu senhor dom Luiz, Vossa Mercê foi escolhido pela sabedoria que possui e por ser dos raros nobres fieis ao espírito aberto e à graça de nosso senhor o Marquês de Pombal, secretário d´Estado de Sua Magestade! O morgado parece refletir, mas percebe um frufru de tecidos vindo da porta e sorri. – Entre, senhora minha, entre! Leonor Ana Luísa José de Portugal entra e mostra um rosto de meia idade, bonito, mas tão branco que parece desfalecer a cada passo que dá. – Para onde ides desta vez, senhor meu esposo e amo? – questiona, enquanto mira o morgado com um olhar de pavor. O morgado não perde o sorriso e pega as mãos da esposa com ternura. – Ai, senhora minha, mas que mãos tão geladas em pleno verão... O que vos assusta? A sós, até que me atreveria a dizer o que me vai n´alma diante de meu esposo, meu senhor, mas estamos com um estranho, mesmo sendo oficial-de-campo do Marquês de Pombal, raciocina. O morgado apercebe-se do recato dela e reforça o sorriso para adiantar: – O sargento-mor Albuquerque já serviu sob minhas ordens em duas missões e reconheço a família dele como uma das fiéis que nos serviu.


Sentindo-se embaraçada com revelação, ela vira-se para o sagento-mor, que a olha com um sorriso debaixo de forte bigodaça já meio branca. – Senhor sargento-mor é um prazer recebê-lo em nossa casa! – E voltando-se para o morgado: – Creio que o Marquês de Pombal envia boas novas à nossa casa... – Sei que não preciso aguardar a resposta que o reino já conhece. Peço permissão para me retirar e preparar os cavalos para o retorno a Lisboa – corta o sargento-mor a respirar cortesia, embora se sentindo a mais na biblioteca. – Sim, o reino sabe sempre qual é a resposta de um senhor da Casa de Matheus a uma solicitação de Sua Magestade! – O morgado abraça o companheiro de armas e ordena a um pagem que se aproxima logo depois que puxou um cordão atrás duma cortina e fez soar um sininho: – Mande preparar comida e um quarto para o sargentomor descansar de barriga cheia e se preparar para o retorno. Enfim sós..., suspira secretamente a morgadinha. – Estamos em guerra, meu esposo e senhor? – quer saber. O morgado solta uma sonora gargalhada enquanto enfia a mão dela no seu braço e a puxa para a ampla janela da biblioteca. – Um morgado da Casa de Matheus não presisa de guerras para ser Portugal por inteiro. – Meu esposo e senhor... – Ora, ora, senhora Leonor Ana Luísa José de Portugal, minha morgadinha, serei por um breve período o novo capitão-general da Capitania de São Paulo, lá nos brasis... A morgadinha quase desfalece. Aquelas mudas de frutas dos brasis foram um aviso, eu sei!, constata para os seus botões. – Esses brasis bárbaros que enlouqueceram o bom fidalgo Francisco de Souza a ponto de ele se amortalhar por lá mesmo...! – Ora, ora, minha morgadinha... – brinca ele. – O bom fidalgo da Casa Souza amortalhou-se, é verdade, mas realizou um trabalho urbano que os outros portugueses não haviam executado nessa terra para onde vou agora. Depois, ele por lá se ficou depois de saber da morte da sua amada esposa!... E tenho a certeza de que vou buscar no trabalho do marquês das minas muitas fontes onde beber para assentar a capitania de São Paulo dos Campos de Piratininga e fazer crescer novas localidades, a par da mineração e da agro-pecuária, e, é claro, minha morgadinha, fazer frente a bárbaros e a jesuítas... porque, tratar do Brasil é tratar de Portugal! – Vejo que é uma decisão tomada, senhor meu! – Sim, e ainda em Lisboa, no gabinete do secretário d´Estado, quando ele me falou que seria escolhido para uma tarefa que exigia pulso firme e maduro. É, não há o que fazer quando o rei manda, então, ou se faz ou se é enjaulado!, diz ela com os olhos no anel de esposa dedicada, enquanto pousa a cabeça no peito do bravo morgado e reinol que a tomou por mulher e a fez senhora da Casa trasmontana.


2 Entre naus e caravelas, Lisboa respira menos sujeira e menos epidemias, mercê das ações públicas que o Marquês de Pombal achou por bem dinamizar nos bairros das sete colinas.

Mas no cais de todas as raças e cores, formado após a primeira viagem de Vasco da Gama para a Índia, ao tempo de Manuel I e sob a glória do plano traçado por João II com a graça do duque Pedro, o seu avô dito Infante das 7 Partidas, pulsa um universo humano que clama por mais justiça e menos intolerância ideológica. É verdade que muitos torna-viagem o são por muita prata e muito ouro faiscado no Novo Mundo, e aqueles que no Brasil enriqueceram fazem de Lisboa e Porto, e também de muitas aldeias no Minho e Douro, um passeio alegre com as modas adquiridas em Londres e Paris. E esses, na contracorrente dos que, ricos, fizeram-se empreendedores naquela Piratininga que ligava todas as minas e, logo, assentaram Minas gerais. Sim, Lisboa não é mais e somente Portugal: ora, Lisboa é o cais do mundo que o Infante das 7 Partidas perspectivara e seu neto João II deu de bandeja a Manuel I. Ninguém entendeu, então, a odisseia intelectual e científica de Pedro, aquele infante e duque de Coimbra, e quando a Índia surgiu aos olhos de um Portugal farto de misérias e sedento de riquezas, o sonho de um império administrativamente articulado com outros povos virou um mar de sangue: a ciência foi a pique e o comércio virou uma selvajaria sem freios. Razão tinha o dramaturgo Gil Vicente em reclamar em seus autos da falta de justiça, da falta de amor, ao ver Portugal se esvair na vilania. Lisboa é a metrópole medieval da ousadia ultramarina, mas o progresso que deveria acompanhar o todo social português fica estancado na falta de escrúpulos de reinóis e políticos corruptos, corja abençoada por um catolicismo não menos corrupto e não menos violento que age à sombra das cabeças coroadas. – Esta bela e boa Lisboa é para uns, não é para todos! – diz-se de doca em doca, de casa em casa, de bairro em bairro. E a província... – Ah, a província é a paisagem pitoresca dos feudais cavaleiros e seus solares abastados. E lá, mais uma vez, nobreza e clero são gêmeos da barbaridade! – contam à boca pequena, porque a católica inquisição ainda escuta e observa até entre quatro paredes...


Lisboa, Janeiro de 1765.

[Rei José I]

Há três dias como hóspede do secretário de Estado, o morgado de Matheus recebe as ordens e logo se encontra no paço com o rei José I. – O que vos ofereço é o mimo do nosso povo e o apreço da minha Casa Real, meu caro senhor capitão-general, e sei que é pouco para tamanha obra que vos aguarda no Brasil! – O meu empenho a serviço de Sua Magestade, como já o referi ao senhor e meu leal amigo Marquês de Pombal, é o de servir o melhor que puder, pois, Portugal está acima de tudo e de mim! Estar numa audiêncial formal com o rei e para tratar de assuntos próprios é uma honra que cabe a poucos reinóis, mas até os reis sabem que a Casa de Matheus não é apenas um morgadio, é parte do celeiro intelectual de um Portugal que se faz ao mundo e cria oportunidades nunca antes vislumbradas. Para o rei José I o fidalgo trasmontrano é o homem certo para o lugar certo e acatou a escolha feita pelo Marquês de Pombal com a certeza de um xeque-mate militar e diplomático. Para o morgado e cavaleiro Luiz António de Sousa Botelho e Mourão o momento, pesem as lágrimas de Leonor em seu coração, é o de refazer na Piratininga jesuítica o percurso urbano iniciado por Francisco de Souza e dotar a região de mais vilas, mas gente socialmente disciplinada para assentar entre os rios bravios as rotas e as fronteiras desse outro Portugal com as dos castelhanos.

[Marquês de Pombal]

– Sei que o caro morgado estudou os papéis deixados pelo nosso marquês das minas e sabe, agora, como tomar as rédeas dessa montada rebelde em que os jesuítas transformaram a vila bandeirante – revela o secretário a um rei muito atento à questão. José I tem um olhar penetrante, bem diferente do quadro que lhe pintam nas ruas e praças. É um homem de convicções e uma delas, e dá graças a Deus por isso, é


descentralizar a ação política e administrativa para as mãos de quem realmente é talhado para governar. – Sei, sei que é dificil governar na distância, Sebastião José de Carvalho e Melo – fala o rei, desenvolto e a soletrar pomposamente o nome do seu secretário. Assim o faz quando o quer elogiar na frente de outros. – Mas também sei que dom Luiz é o militar e o administrador certo para acabar com os distúrbios de mando que, sabemos, afligem a vila dos jesuítas, e terá pulso sobre os colonos e sobre os religiosos que ali se acham cada qual um rei e um papa com direito a lavapés com escravos! Mas há algo muito importante (isto está nas instruções) para a sua missão: resguardar as fronteiras que os bandeirantes abriram naqueles matos e rios imensos! Ah..., o senhor marquês disse-me que o senhor capitão-general estudou as manhas de Francisco Souza..., veja lá!, veja lá!, não se deixe levar pelos oiros de tolo..., pois, ferro que engana, nós também o temos por aqui, mas precisamos do ferro que em tempos foi por lá feito! – remata o rei com voz rouca, entre um e outro gole de Porto. A boa disposição do rei leva o secretário a propor um jantar a três para que o morgado o ponha par do noticiário sociopolítico europeu, e mais o ibérico, pois sabe ele das boas relações mantidas pela Casa de Matheus com os gran d´España na vizinha e amistosa Galícia, a bela galega que o rei Afonso Henriques ousou perder para Castela em troca da liberdade, após um cerco árabe em que ficou refém. Diferente do habitual jantar entre cavaleiros e damas, aconteceu um encontro entre políticos e conselheiros, do circulo restrito do Marquês de Pombal, interessados, tanto quanto o rei, em ouvir o senhor de Matheus. – Majestade, senhor secretário, meus senhores – diz dom Luiz –, o problema fulcral da França é a extravagância da corte de Luis XV e os enormes gastos com as guerras (obvio, a Marquesa de Pompadour não é um gasto...) – e é interrompido por uma gargalhada de José I, que deixa todos mais à vontade – e, como ia a dizer, as alianças e a Guerra dos 7 Anos, o próprio Pacto de Família para unir os Bourbon, e a perda da Índia e do Canadá, pelo Tratado de Paris, criou um burburinho político contínuo, e isso se complicou com outro ato contínuo: a perseguição cruel aos protestantes. Entretanto, Luis XV marcou um ponto a nosso favor, no ano passado: a expulsão dos jesuítas. Mas sem uma reforma adequada o reinado de Luis XV não tem a sorte do progresso que vivemos aqui, em Portugal, com a reestruturação consentida por nosso rei e senhor dom José, pela inteligência do senhor Marquês de Pombal, reformas que levo para incrementar no Brasil... – ...e um cavaleiro e administrador como Vossa Mercê é o que Portugal precisa alémmar para reorganizar a grande e, como dizem lá... bandeirante capitania de São Paulo! – corta o rei enquanto levanta uma taça de vinho na direção do morgado.

3 Engenheiros militares, cartógrafos, peritos montanísticos e especialistas de diversas áreas técnicas, fazem parte da comitiva a embarcar com o capitão-general. Na sempre apertada, mas graciosa Tasca do Janota, onde na noite lisboeta se oferece secos e molhados, bom tabaco, vinhos e, obviamente, mulheres, não cabe gente com os bolsos vazios: “a tasca é ponto d´encontro pra putas e pra putos, é claro, mas também é mesa pra mercadores”, lembra diariamente o taberneiro, porque “um


dia eu só vivia da fome, e quando fui à Índia e vim passei a ter os meus dias de fartura, e se abri esta tasca é porque acho que outros têm o direito de gastar o que ganharam ou roubaram por aí”, não se cansa de dizer. Se o senhor de Pombal se faz rei na sombra do próprio rei, os torna-viagem como o taberneiro d´Alfama têm a mesma importância social na Lisboa onde se espraia quem vai às sortes... com os bolsos cheios! E outras gentes... – Mas, meu jovem senhor, isto é um mapa que pode ajudar quem vai governar aquela banda acima da Serra do Mar! E eu estive lá, em Santos, sei como é dif ícil chegar na Piratininga dos jesuítas... – Mas que raios! Ó merda!, deixe-me em paz... Mas, d´onde veio este parolo com cheiro de nabo?! – grita um homem de vinte e poucos anos com cara de estudado, mas talvez um técnico em início de carreira. Do jeito que olha para as raparigas d´Alfama, apenas quer uma mulher para não passar a última noite lisboeta a olhar a lua minguante. – Que mal fiz eu a Deus pra ele m´enviar o Diabo em forma de mercador! – vocifera ele, vicentino, com um sotaque bem trasmontano, que o faz tão estrangeiro quanto qualquer marujo francês ou castelhano. – Olhe, mas é um mapa com as minas! Como se uma onda tivesse galgado o bairro d´Alfama, o jovem estaca na rua como jumento em hora difícil, encara o mercador e dá uma patada: – Minas?... Ai, deixe-me ver essa coisa! Arisco, o mercador até que pensa em aceitar a patada, mas quer é vender o seu peixe. Avança um braço para impedir o jovem de pegar o mapa. – Alto aí, meu jovem senhor! Alto aí! Desde o início estou a oferecer a vossa senhoria uma mercadoria valiosa, pois, sei que vai embarcar amanhã para o Brasil. Ele é um jovem da comitiva do morgado. Está desgarrado da turma porque é um dos poucos com dinheiro suficiente para alegrar sexualmente a noite de despedida. Conhece o manejo dos instrumentos montanísticos e se faz importante como ajudante de engenheiro de minas. Ao escutar “é um mapa com as minas” parou para pensar que “o senhor morgado vai se interessar por uma peça que mostra as minas brasileiras”. E diz: – Olhe, eu não tenho dinheiro pra isso, pá!, mas, acredito que o meu senhor dom Luiz, queira comprar o mapa! – Ora – ri o mercador, zombateiro. – O jovem senhor aprendeu rapidinho a dar valor a uma informação. E onde encontro o senhor dom Luiz? Ah, e não se preocupe, se o negócio for bom eu mesmo lhe consigo uma rapariga catita... Inicio de manhã numa Lisboa nebulosa, mas com o sol a querer aparecer entre brechas generosas. O morgado de Matheus, agora capitão-general da Capitania de São Paulo, no Brasil, despede-se do Marquês de Pombal e toma o caminho da sua cabine. É dado por finalizado o processo de embarque com a contagem de objetos, de animais e de pessoas. Mas nem todos estavam em seu devido lugar... – Ei, inda estou aqui! De uma caravela ouve-se uma gargalhada uníssona. – Olhem lá o gajo! Olhem lá. Coitado, parece que foi depenado pela galinha d´Alfama...! – Raios vos partam, idiotas! – atira o jovem ajudante de montanistica. Da sua cabine, o morgado dom Luiz observa a cena e ri. – Ai, como é bom ser jovem e ter umas moedas nos bolsos nesta Lisboa de perdição...


Em cima de um baú está aberto o mapa que o jovem lhe indicara para comprar. – Só os padres jesuítas têm cópia disto aqui, senhor! – dissera o mercador, na verdade, mais um entre os malandros do cais. E ele o sabia, sim. Vira como em Paris alguns artistas viraram cartógrafos para desenharem as notícias geo-mineiras dos jesuítas.

E também sabia quem era o autor daquele mapa que viu ainda em esboço. – Muito bem, eu fico com o mapa – disse, e deu algumas moedas ao mercador. Quis saber qual fora o trato do seu subordinado com “aquele rato do cais” e ao saber que o jovem ia “ganhar uma rapariga catita para esta noite, senhor” pediu-lhe para se lavar antes e depois. – Barcos ao mar! Barcos ao mar! A névoa começa a ser rompida pelos raios do sol quando a primeira nau levanta âncora do cais.

4 [...] Foi Sua Majestade servido de me mandar com o governo desta Capitania, encarregando-me de procurar por todos os meios estabelece-la ao seu antigo esplendor, procurando os modos mais eficazes de acrescentar as suas povoações, estender aos confins dos seus domínios, fertilizar os campos com a agricultura, estabelecer nas terras diferentes fábricas, idear novos caminhos, penetrar incógnitos sertões, descobrir o ouro das suas minas e, finalmente, fortificar as suas praças, armar o seu exercito, fazer observar as leis e respeitar as justiças [...]


O entendimento que dom Luiz tem da sua nomeação em 6 de Janeiro de 1765 é pleno. E sabe que não foi por acaso que em 18 de Junho de 1710 a coroa idealizou e estabeleceu a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, tampouco, que a urbanização a ser estabelecida a partir da vila jesuítica não é mais importante que a busca por esse ouro que amortalhou o Marquês das Minas, mas já havia feito do ´velho´ Sardinha um poder paralelo na região, apesar de ter colaborado intensamente com o governo daquele fidalgo e cavaleiro. – Fronteiras, vilas, prata, ouro, ouro e mais ouro... Meu bom Fiuza, o que temos aqui é um campo aberto para muito e muito trabalho! – desabafa Luíz António de Sousa Botelho e Mourão na frente do jovem que o levara a adquirir o mapa das minas, ainda no cais de Lisboa. – Sim, meu senhor, vai ser uma jornada difícil, mas nem tanto se os jesuítas forem postos no seu devido lugar, quero dizer, senhor, lugar de padre é na capela e não na administração pública das coisas do reino! – diz Fiuza, com o sangue à flor da pele do rosto que a barba escura mais realça. – Pois então, meu jovem, vamos à luta! Fiuza fora encarregado de dar uma olhada na casa episcopal estabelecida em dependências jesuíticas. – Senhor, quando cheguei aqui em São Paulo, à vossa frente, verifiquei que o representante do bispo terá de ser removido daquela casa grande para dar guarida a Vossa Senhoria. Aqui, o falso bispo manda que até parece papa! – relatou ele, quando se encontrou com o capitão-general, ainda na borda do campo a algumas milhas do planalto. O morgado foi rápido: – Muito bem, Fiuza, alguns militares da minha guarda vão contigo. O paço do bispo será o paço da Capitania de São Paulo. Desocupem o espaço! – ordenou. Enquanto falava com colonos esparsos e dava a boa nova da refundação da capitania, o tortuoso e lento avanço da comitiva prenunciava mudanças tão imediatas quanto extremas.


Ao adentrar a villa jesuítica, o iluminista e capitão-general percebe a grandeza do serviço qe terá de prestar ao reino luso. O puxa-saquismo e a intolerância de bacharéis e religiosos fazem-no prever um primeiro período de luta contra o despotismo absolutista que os jesuítas ajudaram a instalar na região. – Meu senhor... – é Fiuza na sua frente e com o rosto lívido. – Dize-me. – Meu senhor, o padre que representa o bispo está possesso de ódio por ter sido despejado desta casa... O capitão-general pega numa pena, enfia o bico no tinteiro de vidro, e escreve uma nota. – E diz a esse bispo que as minhas ordens são as ordens do rei! Fiuza recebe o papel dobrado em quatro e com uma vênia deixa o local. O morgado, por experiência própria, sabe que a burguesia colonial precisa de espaço. Essa gente tem o poder do dinheiro, mais o da política. Os burgueses d´alémmar e desta Piratininga precisam observar as leis, mas o Poder que represento também precisa dialogar com eles!, pensa. E, na verdade, já começou a agir... – Mas, mas... O religioso está perplexo com o arrojo do capitão-general. – Mas, ele quer um Te Deum em sua homenagem...! Amanhã... Fiuza curva a cabeça respeitosamente e deixa o bispo a confabular com os próprios botões. Já na presença do capitão-general, sorri ao perceber que o seu senhor está de ótimo humor. – E o bispo, gostou? Dize-me... – Ai, se gostou, meu senhor! Creio que se ele pudesse mandaria excomungar Vossa Senhoria e toda a família, e eu junto, é claro! – Ele vai entender! Ele vai entender! Fiuza não é um analfabeto funcional, é um técnico já habituado a leituras e gosta de interpretar os sinais que recebe. – Sim, ele vai entender que quem manda aqui é o rei através do capitão-general! O senhor de Matheus dá-se por satisfeito com a análise rápida de Fiuza. Este rapaz é inteligente, é bom que fique comigo enquanto ordenança e conselheiro montanístico. E precisa de vestimenta mais adequada para estar ao meu lado, reflete. Voltaire dizme do pensamento livre, sim, mas continua a ter escravos como mercadoria no cais de Paris, e Montesquieu secciona o Estado entre Legislativo, Executivo e Judiciário; ora, juntando liberdade e organização, teremos um Estado onde a Sociedade se encontra para decidir de si mesma. Nada mais justo. Eh, nada mais justo. E o absolutismo (o nobre e o clerical) obstrui o progresso mercantil que se evidencia já na Burguesia. Então, é preciso agir por uma nova Ordem social e econômica, continua ele, que não esquece nunca a receita da boa administração na Casa de Matheus que recebeu da família, nobre e burguesa. Fiuza vê dom Luiz profundamente focado em pensamentos e nem percebeu que um serviçal que lhe trouxe água fresca. – Meu senhor... Apesar do tímido chamado, o fidalgo continua absorto em suas considerações sociológicas. É um homem entregue à questão pública que o Estado deve enfrentar de uma vez por todas. Iluminista, percebe que o social deve ser tratado como referencial político e não como paisagem no quadrante econômico. – Fiuza... O jovem quase se assusta com o rompante dele. – Senhor, em que posso servi-lo?


O fidalgo olha para o serviçal e faz um gesto para que coloque a vasilha d´água junto dos copos numa pequena mesa ao lado daquela que utiliza para os despachos do dia. O mobiliário é precário, mas o suficiente para o trabalho administrativo do capitão-general. – Fiuza, meu rapaz – continua ele. – A partir de agora quero-te como meu ordenança e meu conselheiro para assuntos montanísticos. Dize-me: estou certo? Embasbacado, não acreditando na tamanha responsabilidade que dom Luiz lhe oferece, diz: – Meu senhor, o vosso querer é um mando. Estou mui honrado em servilo nesta sua casa! – Muito bem, meu rapaz. Hoje mesmo farei o despacho com a tua nomeação. É um prêmio para a tua dedicação e inteligência. Ah, ainda hoje vamos fazer um estudo detalhado daquele mapa que adquiri em Lisboa. Temos um rio, aqui, o Anhamby (outros dizem Tietê), que recebe o Jurubatuba (outros dizem Pinheiros), que pode ser navegável como o rio Douro e por ele podemos criar novas vilas, se administrarmos bem o corte das árvores e dimensionarmos bem o número de fogos em cada vila.

A piratininga São Paulo não é mais a mesma vila de recursos parcos, apesar da abastança dos burgueses coloniais e do clero pançudo. Sob o ímpeto do senhor Casa de Matheus a vila acaba de renascer como phenix no meio do sertão.

5 Enquanto elabora estudos sobre a navegabilidade do Anhamby, o capitão-general faz da vila piratininga uma urbe com serviços públicos, do mercado municipal à malaposta, retira os jesuítas do mando educacional e faz prevalecer o ensino laico, humanista e tecnológico, e então, os burgueses da piratininga São Paulo têm, enfim, um Poder com o qual podem dialogar para a construção do progresso social e capitalista.


“Bem se pode dizer que todo ele é uma contínua cachoeira!”

A frase do notável engenheiro e militar José Custódio de Sá e Faria sobre o Anhamby ainda está nos pensamentos do capitão-general quando relê outra observação importante, em voz alta:


– Aproximadamente a trinta léguas da mesma cidade de São Paulo pelo sudoeste são as montanhas de Berasucaba ou Ibiraçoiaba, abundantes em veio de ferro: não tem falta de veios de ouro que os selvagens cananeas tinham o costume de tirar. Nessas montanhas, os portugueses construíram no presente um povoado chamado São Philippe, mas que não tem grande conseqüência: o ribeirão Iniambi ou Anhamby alarga em sua direção e recebe vários outros riachos que desembocam nele, tanto do sudeste quanto do noroeste, e daí dizem que enfim ele vai se encontrar com aquele do Paraná: ele não é, contudo, navegável até a confluência dos dois por causa de vários acidentes... – É verdade, meu senhor. Também li essa Histoire du Nueve Monde, de Jean de Laet, nas páginas de Descrições das Índias, e isso mostra que o Anhamby já era utilizado por gente como o tal Affonso Sardinha (dizem o velho), que da Casa de leis daqui foi vereador e presidente, e mais: minerou ouro, prata e ferro. E na mina de ferro de Berasucaba deu um forno de presente a dom Francisco de Souza, que por aqui se ficou sem encontrar mais nada, mas legou aqui uma vila mais organizada... – Sim, meu caro Fiuza – corta o fidalgo. – Quanto ao Anhamby é também o que acabou de constatar o engenheiro Sá e Faria, e vamos ter muito trabalho para ligar mais esta parte da nossa América. – O senhor engenheiro Sá e Faria também anotou, nos primeiros esboços entre o Anhamby e o Jurubatuba, que estes cursos d´água do tamanho de braços de mar, já foram a porta de saída dos primeiros mineradores e bandeirantes para adentrarem os ramais do tal Piabiyu dos guaranis e chegarem à confluência Paraguay, Asunción, Brasil e Buenos Aires... – ...onde os conflitos de fronteira continuam! – Sim, meu senhor, é verdade! – Meu senhor e amigo, o Marquês de Pombal, secretário d´Estado do reino de dom José I, quer aqui uma continuidade de Portugal, uma vez que Portugal não sairá de sua ibérica raiz para aqui se assentar como Nação. O nosso trabalho, Fiuza, é dar largueza aos esforços bandeiristicos e assentar as fronteiras que o nosso engenheiro Sá e Faria já começa a definir por aí, além do Forte de Iguatemy. E, na verdade, e tens razão, sim, ó Fiuza, o infortunado Marquês das Minas conseguiu com a suas manhas políticas dar um primeiro prumo nesta vila que os jesuítas queriam, ao que me parece, um nada no meio de tudo! Ai, tanta inteligência e tão pouco labor público... Fiuza estende para as mãos dele duas pastas. – Meu senhor, eis aqui os documentos que consegui sobre os atos do senhor Affonso Sardinha, lá em Berasucaba, e também os do senhor Francisco de Souza, também por lá e aqui... – mais por lá do que por aqui! – atalha o fidalgo com humor diante da ainda recente história do Marquês das Minas. – E é interessante, ó Fiuza, como esse fidalgo foi coerente em tudo e na religião: defendeu e atuou por Portugal mesmo sob o domínio castelhano dos Felipes, e levantou o andor da Senhora de Monte Serrat até no assentamento da vila na mina de ferro do Berasucaba! – Só não teve sorte... – Não foi afortunado mesmo com toda aquela religiosidade e o sonho foi a sua mortalha! – Pela documentação, meu senhor, não foi só sonho. Ele chegou a despachar na mina de ferro do senhor Sardinha... – Sim, e é por isso que precisamos estudar muito bem a importância do Affonso Sardinha e a de dom Francisco de Souza para criarmos soluções e fazermos o progresso enquanto fazemos a defesa de Portugal por aqui! Ah, e quando chega o técnico... – ...o senhor Domingos Pereira Ferreira? Acaba de chegar na vila e estará aqui pela manhã, senhor. Pelo que sei, senhor – adianta Fiuza, já habituado a não aguardar perguntas óbvias –, Domingos Pereira Ferreira é realmente perito em montanística. E só.


– Tu estiveste lá em Berasucaba, a velha Vila de Nossa Senhora do Monte Serrat. O que tu viste das minas? – Que deu ferro, deu! Mas, ora a mina está ao deus dará... Dom Luiz debruça-se sobre os papéis que lhe informam das sucessivas comercializações das minas da Família Sardinha com outras famílias, mas nunca ao arrepio das leis, de tal sorte que os Sardinha, o Velho e o Moço, receberam o respeito e o apoio de dom Francisco de Souza, e o Velho viria mesmo a morrer na casa da mina de ouro e prata do Pico do Jaraguá, onde constituiu fazenda do mesmo porte daquelas que teve no Ybitatá e na Carapocuyba. Mas esse velho Sardinha era um creso e dom Francisco soube muito bem captar-lhe a atenção, pensa.

[Affonso Sardinha e seu famoso Sinal. Desenho de J. C. Macedo; Lisboa, 1975.]

[Ata da vereança paulista com sinal de Affonso Sardinha e sua casa no Pico do Jaraguá; Sinal e Assinatura.]


6 Entre te deum e festas literárias, o capitão-general mostra o seu ímpeto liberal, mas também lhe sente o pulso firme quem não obedece às leis ou desdenha do poder que ele exerce. É um homem à frente do tempo colonial. Ao ver que os barcoes do tipo rabelo, como os que navegam no rio Douro, não podem ser colocados no rio Anhamby, por causas das cachoeiras e outros obstáculos, então, que façam canoas como as dos nativos, pois se eles vivem e sobrevivem nestes cursos d´água nós também podemos, e a levantar povoações além rio vamos vencer e levar Portugal adiante, diz.

[Barco utilizado por Sá e Faria entre Piratininga e Yguatemi. Desenho do próprio engº-militar.]

A seu lado, Fiuza é o jovem encantado com a missão que lhe foi confiada, mas também o jovem que apreende nas ações do seu senhor como planejar a vida... O técnico montanístico aproveita a presença de engenheiros como Sá e Faria para melhorar os seus conhecimentos, e já passou uma semana com Domingos Pereira Ferreira na mina de Berasucaba, de onde carreou a primeira peça forjada com o ferro daquele cerro.


Entretanto, se se dedica com afinco a melhorar os seus conhecimentos, que o seu senhor reconhece com admiração, está também, há alguns dias, preso no chão de terra... O que eu faço agora? Uma rapariga do cais a gente paga e ela até se diz apaixonada, mas uma moça tão linda como ela não se compra, conquista-se... Ele não sabe o que fazer. E é tão prendada que sabe ler e escrever. É uma flor...!

* Ela é uma moça morena, de longos e belos cabelos. Um encanto de mulher que desabrocha. Conheceu-a quando buscou documentos da Família Sardinha. Ao adentrar a casa de dona Geretrudes, a matriarca, ele deu com aquela adolescente exuberante. – O que o senhor deseja aqui, moço? – ouviu-lhe a voz de ave na primavera da vida. Engasgou, mas conseguiu articular uma explicação: – Senhorita, eu sou funcionário do senhor capitão-general e peço licença para perguntar sobre documentos da Família Sardinha, que são do interesse do meu senhor... A moça mostrou-se um pouco inquieta, mas, e a vila é pequena, como já vira o moço entrar e sair da casa do governador, achou por bem responder. – Eu sou Luiza Sardinha... – Mas, perdoe-me: Luiza Sardinha não era a filha de Affonso Sardinha, dito O Moço?... – É certo, moço. É certo. – A jovem mostrava uma desenvoltura pouco comum entre as mulheres da colônia, e principalmente entre as jovens. – Minha mãe batizou-me com o nome dela, mas mais em homenagem a Affonso Sardinha, dito O Velho... – rematou ela com um gracejo que a fez mais bonita e senhora de si. – Senhorita – e ele estava encantado. Mas assustado ao perceber que a moça não era qualquer e falava com ele de igual para igual. – Hum, hum. Pois, senhorita, estamos a avaliar como melhorar a mineração do ferro lá em Berasucaba... – ...Ah, Berasucaba! – exclamou. Fiuza ficou aterrado. Será que falei de mais e ela não vai querer cooperar?, pensou. E sentia-se preso naqueles olhos negros grandes. – Muito bem, o senhor é?... – Perdão, mil perdões, senhorita! Eu sou Fiuza, além de técnico em montanística, sou servidor do capitão-general. – E não soube como, mas pegou a mão delicada de Isabel e beijou-a, ousado. Percebeu que ela não ficou indiferente ao gesto. – Muito bem, senhor Fiuza – continuou ela, parecendo mais à vontade. – O que eu tenho sobre a mina de Berasucaba são papéis de compra e venda anotados em cartório que me foram passados há três anos pela minha bisavó. Esses papéis nunca foram arrolados nos testamentos do avô Affonso Sardinha, senhor do Ybitatá, da Carapocuyba, do Berasucaba e do Jaraguá, porque as minas (e você o sabe, nê) eram de propriedade real, cabia a quem as achava ou arrematava somente o manejo. Não sei que valia terão estes papéis para o seu senhor da Casa de Matheus e fidalgo do Rei, mas poderá fazer cópia dos mesmos... – ... Ah, não será preciso, senhorita, pois, o meu senhor apenas quer saber como funcionaram tais negócios naquela época dos primeiros bandeirantes! Fiuza percebeu que Luiza Sardinha havia adquirido conhecimentos, falava como se bacharel fosse. – Senhorita, perdoe-me o atrevimento, mas como conseguiu, neste meio, ter tantos conhecimentos? – Na biblioteca da casa do Jaraguá, que o meu avô Affonso Sardinha possuia (não sei se tinha tempo para ler, mas não era analfabeto como ainda dizem alguns


cronistas por aí, pois lia e escrevia). Ali foi que eu li tudo o que podia ler, mas tive um tio bacharel, formado lá na sua Coimbra, que me fez ajudante e me tirou da ignorância em que vivem muitas mulheres desta banda de Portugal! – respondeu ela com um remate sarcástico. – Vocês, que vêm de Portugal, falam mal, muito mal, do velho Affonso Sardinha, mas foi ele o primeiro a tirar esta vila do isolamento, pois, foi ele que ajudou a desbravar o sertão dos guaranis depois de tomar a Carapocuyba... – ... sim, sim, senhorita – cortou ele ao ver no discurso dela a brecha que precisava para uma aproximação. – Senhorita, saiba que conheço, e bem, a história da mineração e da política municipal do seu velho Affonso Sardinha, e defendo que a história deve ser revista em muitos pontos, e este é um deles! – Oh, que bom, que bom, senhor Fiuza! – exclamou, ferverosa. E beberam água fresca com limão, petiscaram bolo de fubá, enquanto as horas passaram sem perceberem que as mãos estavam dadas e eram já uma só alma no caminho do enamoramento. – Ai, minha bisneta! Acordaram daquele sonho com a entrada de dona Gertrudes, a bisavó da moça. – Minha bisneta, quem é este moço?! – Bisa, querida, ele está aqui a serviço do senhor governador que quer consultar papéis do patriarca Affonso Sardinha, sim, ah... acerca do Berasucaba! – Hum... Consultar papéis, nas mãos vazias da minha bisneta?! Ora... Os jovens tiveram que se explicar diante da matriarca, mas nem sabiam como se explicar. De sorte que dona Geretrudes sabia das virtudes de Luiza, e gostou do português. Um rapaz ilustrado..., pensou, enquanto o ouvia nas vãs tentativas de explicação. *

Em conversa com um sargento, Fiuza recebe um chamado do seu senhor e deslocase rapidamente das cavalariças para a área administrativa. – Anotei o que eu preciso desses papéis da Família Sardinha. Agora pode devolvêlos a essa dona Geretrudes – anuncia dom Luiz. Era tudo o que ele queria ouvir no momento. A ordem soa-lhe como música celestial enquanto a alma parece não se conter no corpo como que a dar-lhe corda para apressar o passo. – Fiuza, meu rapaz – mas parecia que dom Luiz não estava disposto a dispensá-lo tão rapidamente –, que discussão sobre o fado foi aquela hoje pela manhã? – Ih, meu senhor... – ... continua, dize-me o que foi aquilo...


– Meu senhor, dois fidalgos queriam que eu atestasse que o fado, essa cantiga de levantar ferro que os marujos cantam na proa do barco, é cantiga nativa portuguesa... – ...e tu? Dize-me... – É notório que dom Luiz soube de pormenores da discussão. – Meu senhor, com todo o respeito, eu acho que se o fado fosse coisa portuguesa seria coisa de todo o Portugal, e o fado é coisa só do cais de Lisboa, do ir e vir de marujos. E até o dono da Taverna do Janota, lá em Alfama, disse-me que essa cantiga é coisa ligada às danças nos terreiros dos negros no Brasil e que, na longa jornada pelo mar, foi um ritmo alterado até ser o que se escuta ora na proa do barco, que é o lamento e que é o destino de cada um de nós vida fora! Falou de um fôlego só e já a aguardar um raspanete do seu senhor pela ousadia de ter enfrentado os dois fidalgos do paço real. – E também há quem diga que essa cantiga veio dos árabes, o que é pouco crível, se se considerar o ritmo do tambor que ecoa em toda a cultura musical mourisca. Fiuza fica perturbado. O meu senhor está a falar comigo das coisas da cultura. Está a desautorizar aqueles fidalgos que julgavam saber mais do que eu... E sabem menos! – Sim – continua dom Luiz –, e é possível, sim, que a modinha dos terreiros do Rio, e mais aquele ritmo lundum (que também o temos aqui na Piratininga), tenham criado esse fado, que existe mesmo nos terreiros abertos pelos africanos, mas num ritmo mais afoito... – Obrigado, meu senhor, as palavras de Vossa Senhoria são sempre uma lição para este humilde servo! – Fiuza, Fiuza, na próxima reunião com os artistas da terra tu vais comigo. Não podes desperdiçar a tua sabedoria, meu rapaz! Ah, e agora leva esses papéis para a tal dona Geretrudes, eu não quero que uma descendente do velho Affonso Sardinha fique zangada comigo. Ah, ia-me a esquecer: entrega esta carta de agradecimento a ela... A transbordar de felicidade, e ao mesmo tempo um pouco amedrontado, Fiuza curva-se e deixa o paço do governador. Na sua cabeça apenas uma imagem: a bela Luiza. Havia recebido o soldo, coisa com que se pode comprar um agrado para quem se quer bem, e pensou em comprar um ramalhete de flores. Está alojado num quartito perto das cavalariças, e não sendo um palácio é um quarto limpo e aconchegado para moço solteiro e estudioso, pois tem mesa para estudo e baú para guardar livros, como quis e ordenou o seu senhor. Decide passar no quarto primeiro. Um poema com um ramalhete..., pensa. Tira uma folha de um maço que dom Luiz lhe havia oferecido, puxa a pena e molha o bico de pena de papagaio. O poeminha sai-lhe tão rápido que o lê várias vezes e nem crê que o escreveu. Em casa de dona Geretrudes entrega o ramalhete a uma Luiza emocionada. Os dois não vêem a matriarca que se aproxima da saleta das visitas. – As flores são lindas. E... e o que é isto? – Ela vê o papel dobrado entre as flores. Nervoso, vermelho de timidez, Fiuza retira o papel e desdobra-o com pressa. E logo lê, com voz terna... Ai, menina minha, Não me acheis fútil nem ousado, Sou apenas um homem de sorte Sob o vosso terno olhado. E quero dizer-vos que sois o norte Que me guia pelo horizonte farto, Oh, menina minha! Luiza é um deslumbre de felicidade enquanto escuta Fiuza declamar o poeminha.


Ao lado, na penumbra, a matriarca percebe que a bisneta já é uma mulher tocada pela paixão. – A senhorita... gostou?... Breves segundos que são um vazio de vida inteira. Luiza capta a fragrância das flores sem tirar os olhos negros, grandes, do azul que a mira com ansiedade. – Sempre sonhei que o meu senhor, um dia, seria um senhor poeta! Fiuza não se contém e beija as mãos de Luiza. – Menina minha, senhora minha... – Alto aí com esse andor, meu rapaz! Que santinho é esse que corre tanto...? – escutam e quase gelam de medo. – Senhora dona Geretrudes – corta ele, decidido. – Senhora, trago até Vossa Mercê a carta de agradecimento do meu senhor dom Luiz, o Governador da Capitania. Estende a carta e vê que a matriarca se emociona. – Bisa, o senhor fidalgo de Matheus agradeceu por carta. Que honra... – diz Luiza, meio atrapalhada, mas a saber que aquilo mudaria tudo. Dona Gertrudes sente-se a reencarnação do velho Affonso Sardinha, quando ele recebeu na casa do Jaraguá a visita do fidalgo e governador Francisco de Souza. – O senhor, meu jovem, faze-me muito honrada, e muito feliz a minha bisneta querida! Recompensado, Fiuza está no pico da felicidade que um apaixonado pode experimentar. Ó, menina minha..., e a sua alma é um poema a cantar pela eternidade do momento.

7 – Ora, meus senhores – argumenta o capitão-general dom Luiz –, temos hoje pouco mais de dois milhares de pessoas nesta vila, e não sabemos quantos a volante por aí fora, além dos fogos erguidos sem eira nem beira nas margens dos rios... Em sua discusão com os engenheiros, entre eles Sá e Faria, o morgado é um bandeirante a abrir caminhos. – Senhor, já temos uma parte dos borrões prontos no que à vila diz respeito – anuncia Sá e Faria –, e agora vamos, na junção do Jurubatuba com o Anhamby, adentrar até Araratyguaba, o porto das monções. Entretanto, nestas bandas da vila já se pode desenhar outras aldeias para povoar e defender as margens ribeirinhas, senhor! Era o que o morgado queria escutar. – Lá no Berasucaba a reconstituição da mineração do ferro já vai a bom termo com Domingos Pereira Ferreira, e sei, por ele, que as forjas podem receber 320 quilos do minério numa jornada e dar 100 quilos de ferro. Ah, não é aquele ferro sólido, este não vai a líquido, é uma forma de esponja a escorrer em brasa pelo forno para ser depurado. Um trabalho e tanto. Mas, ainda não sei se o esforço valerá a pena, pois precisamos de mais ferro, mais ferro, e não me consta que o velho Affonso Sardinha tivesse ido além de pregos, cruzes, enxadas, panelas, peças para montaria... – ele faz um gesto largo com os braços a mostrar incertezas –, teremos que aguardar para ver o que nos trará de novo Domingos Pereira Ferreira... se a indústria posta pelo


Sardinha, se a miragem do fidalgo que da mina despachou para o Brasil, se o Ferreira é mesmo um entendido nesse negócio...

[Morro Araçoiaba e desenho da Mina dos Sardinha, disponíveis na Web.]

– ... ficamos a saber que ele utiliza também os velhos fornos dos tempos do Sardinha, senhor! – interrompe um fidalgo. – Sim, é verdade. Terá que se ajeitar com o que por lá ficou e construir outros fornos, e para isso tem carta régia por dez anos – finaliza o morgado. Por vezes ele olha para os lados e parece não enxergar o que quer. De repente, com uma mesura, Fiuza entra na sala de despachos. – Ora, ora, senhor Fiuza! O meu ajudante de ordens e consultor para a coisa montanística não pode se demorar a entrar em cena... – exclama, a reprovar diante dos presentes a falta de compromisso do jovem. Apavorado, ele sabe que a falta pode acarretar na perda da confiança do capitãogeneral. – Meu senhor, eu peço mil desculpas, mas... é... bem, é que conheci hoje a mulher da minha vida! Dom Luiz, de boca aberta, não sabe o que dizer diante de tal rompante de humildade e felicidade. O sorriso está no rosto dos presentes. – Ai, o amor! Por amor perdoa-se tudo! – diz o engenheiro Sá e Faria, que já conhece Fiuza de várias conversas técnicas e o tem em boa conta. – Ora, meu rapaz – diz dom Luiz em tom descontraido e seguindo a linha do engenheiro –, e quem é essa flor tropical que vieste colher nesta banda do Portugal americano? Mais parecendo um tomate com braços e pernas e até barba, Fiuza percebe que alguns fidalgos querem aproveitar para zombar dele, mas tanto o engenheiro como o seu senhor deixam-no à vontade. – Bem, meu senhor – começa ele, trémulo –, quando fui buscar os papéis que Vossa Senhoria achou melhor copiar, eu conheci Luiza que, por enquanto, é a última descente direta do senhor Affonso Sardinha, o velho, linda e letrada...


Dom Luiz olha-o de alto a baixo e dispara: – Tu gostas de ir fundo na história, e, pelos vistos, gostas de fazer história! – E, realmente, senhor, é uma boa história! – continua Sá e Faria. – Quem diria?, uma descendente do velho Sardinha... – Bebamos um refresco de limão em honra do novo amor que por aqui acontece! – propõe dom Luiz, entusiasmado. – E então, senhor Fiuza, deixemos a paixão de lado, por enquanto, pois acho que o senhor tem algo a dizer a estes cavalheiros. Ou não? Fiuza apressa-se a pegar alguns papéis já deixados na véspera prontos para a reunião e que havia guardado numa escrivaninha. Enquanto se senta e bebe mais um gole d´água com limão, o capitão-general observa como Fiuza é um serviçal organizado. E pede a atenção de todos para ele... Senhores, pelos estudos até ora feitos, nesta Capitania se entende que ao longo do Anhamby podem ser erguidas povoações com até 50 vizinhos e congregar as pessoas que ainda vivem esparsas. Pois, segundo o senhor capitão-general, é contra o serviço de Deus viverem em matos, longe do comércio, sem assistência religiosa e sem tempo para prestar serviço à República. Por outro lado, é hora de se providenciar a defesa das nossas fronteiras, pelo que já se fazem estudos para que junto a um povoado urugayo se dê obra à Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres do Iguatemy e, na linha de defesa, também o Presídio de Nova Coimbra. A ideia geral, senhores, e as ordens do senhor capitão-general, é montar uma linha de defesa desde o porto das monções de Ararytaguaba até o Iguatemy para que, por um lado, o cultivo e o lucro do açúcar em nossas roças e usinas se faça como habitualmente, sem obstáculos; e, por outro lado, seja esta Capitania o ponto de referência da soberania portuguesa. Senhores, assim o disse o senhor capitão-general dom Luiz António de Souza Botelho e Mourão, e eu, Fiuza, seu servo, anotei. Dom Luiz levanta-se com uma calma impressionante. Ccom um gesto incentiva Fiuza a tomar um refresco, e diz: – Senhores, trabalho não nos falta e peço que sejam ligeiros, cada qual em seu mister.


A claridade tropical da manhazinha anuncia um dia de calor, quando Fiuza cai da cama e se dirige a um tanque para refrescar o corpo dilacerado com os sonhos de uma donzela e vê o janelão da sala de despachos já escancarado. – Ó raios!, é lá que me vou... – resmunga. – O senhor precisa deste seu criado? Absorto em seus pensamentos, depois uma longa reunião de trabalho com o engenheiro militar Sá e Faria, ainda na madrugada, dom Luiz quase se assusta. – Ah... Ora, e não é que és tu, ó Fiuza! – Eu, eu mesmo! – Parece que estás a fazer adeptos, ó Fiuza. Até o engenheiro Sá e Faria queria requisitar os teus préstimos... – E ao ver o olhar de espanto do jovem adianta: – Pois, pois, ó Fiuza, mas eu pensei que não seria bom mandar-te agora... e logo agora!, para os quintos do sertão. E a tua querida Luiza?... – Eu só tenho que agradecer, meu senhor, que tanto faz por este vosso servo e, agora, protege o meu amor. – Ora, ora, ó Fiuza – o semblante do fidalgo é de quietude –, tu bem sabes que preciso de ti neste paço. E vamos ao trabalho... Apaga as velas e traze-me um pouco d´água para beber! Fiuza observa que dom Luiz estivera debruçado sobre os borrões do engenheiro e fizera anotações em dois papéis. Ele não dormiu. Vai despachar de manhã e tirar aquela soneca à tarde, faz Fiuza as suas contas. Posso levar Luiza a andar de canoa no rio... E sonha alto. E... – Os castelhanos fizeram Asunción e fizeram Buenos Aires para captarem uma geografia favorável, e nas minas desenvolveram até oficinas de preparação de novos mineiros. E nós?, ó Fiuza... Nada. Só o ouro, a prata e os diamantes que faiscavam facilmente aos olhos dos nossos aventureiros. Trabalho?, ó Fiuza, trabalho tiveram o velho Sardinha e o governador Francisco de Souza. E vê: quando foi preciso minerar com trabalho inteligente os mineiros escafederam, foi, e o rei teve que leiloar jóias para continuar... rei! Com um pouco de receio no olhar, Fiuza dispara: – Meu senhor dom Luiz, não seria o caso de, agora, se pensar no Liceu de Artes para esta banda? – Hum, ó Fiuza. Vejo que está afinado... – observa. – Já vamos dar início à reforma da educação por aqui e o Liceu de Artes já será uma realidade na primeira jornada. Mas... – ele lembra algo –, dizia eu que os castelhanos se organizaram com muita urbanidade na outra banda da Linha de Tordesilhas, e nós ficamos com lugarejos avançados na caminhada bandeiristica, e nem a vila posta com pelourinho na mina do Berasucaba vingou... Ah, a mina. Está-me a parecer que aquele Ferreira caiu por aqui como periquito (eh, digo, papagaio...) a querer bicar fortuna...! – Ah, ah, ai... meu senhor – desconserta-se o jovem. – Na verdade, é ele um técnico, mas o que é ele além disso eu não percebi... – E acha melhor não se adiantar no assunto que é da fidalguia e não dele. – Quanto ao que falavamos, meu senhor, eu acho que no levantamento de novas vilas nas margens do Anhamby ficaremos com uma linha urbana que poderá definir melhor esta vila que dos jesuítas foi como o eixo de tudo o que corre neste Brasil. – Sim, sim – concorda o governador –, e toda aquela região de canaviais já contribui na economia como se cada gota de pinga e torrão d´áçugar fossem pepitas d´ouro! Ah, e o ferro vinha a calhar agora... – Meu senhor dom Luiz – interrompe Fiuza –, não podemos esquecer que o freio colocado por Vossa Senhoria nos atos da Inquisição e a maior liberdade dada aos cristãos-novos (ah, aquele velho Affonso Sardinha era um judeu disfarçado...), como faz o senhor Marquês de Pombal no continente, foi o que permitiu a esta gente honrada e trabalhadeira arregaçar as mangas e fazer coisas novas nesta banda! E como os jesuítas já longe estão...


Dom Luiz observa atentamente o jovem. E não é que está a sair melhor que a encomenda, o gajo... Pensa, mas não o diz. Sabe muito bem que certos elogios estragam, chegam até a corromper. – É verdade, essa reforma traçada pelo Marquês de Pombal veio no momento certo. E agora, o Brasil está atrelado a esta vila e capitania de São Paulo, porque por aqui passa tudo, além da famigerada Linha de Tordesilhas, claro! E agora, o que temos é de erguer vilas e fortes para defender este outro Portugal!

8 – Ai, mas que porra! A braços com a jornada de transformar o minério em ferro e fazer justa à carta real que lhe permite ser o senhor das minas que do velho Sardinha foram, e deram ferro, o perito em montanística e industrial Domingos Pereira Ferreira está a um passo de enlouquecer. – Estas minas foram proveitosas para aquele parco empenho dos Sardinha, pois, aquela gente fez o ferro, é verdade, mas queria ouro... Como é que aguentaram tanto tempo neste fim de mundo?... Muito bem, se o Luiz Lopes de Carvalho andou a fazer ferro com esta tralha, eu vou fazer o mesmo, mas... a reforma da tralha é de vulto! Mas isto só não vai dar pra encomendas... Vou ter que emendar por aqui aqueles fornos africanos e fazer mais ferro que os Sardinha e o Carvalho! De mãos a abanar não vou sair daqui deste Cerro Berasucaba...! Tanto esforço para achar esta tralha... Agora, meu rapaz, mãos à obra ou a miséria te espera debaixo do riso de um morgado! Parece que fala sozinho, mas está entre vários ajudantes que o escutam. – Ei, e vocês, não têm o que dizer? Um dos ajudantes, descendente dos primeiros negros que trabalharam para os Sardinha e o marquês, e bom conhecedor do cerro das pedras negras, como diz, aponta para a floresta: – Olhe, sô Ferreira, nois num vamo conseguir se não trazer mais lenha boa pr´arder nos forno! O português lança o olhar em volta e vê o que já conhece, mas responde: – Eu vou ganhar um alvará para fazer ferro aqui, e até mesmo umas terras, e tudo terá que funcionar direitinho, cambada, porque se não funcionar adeus minas e adeus terras, adeus ao vosso soldo, e então, adeus tudo! Está quase posseso.

Meses antes, Fiuza pegou a primeira barra de ferro forjada sob direção de Domingos Pereira Ferreira, num dos fornos catalães dos Sardinha. – Leva esse ferro ao senhor governador, ele o fará chegar ao Marquês de Pombal – escutou, enquanto guardava no alforge da mula a peça trabalhada como se fosse ouro. Percebeu na ênfase dada ao marquês que a encomenda era um recado. – Vejo que está a montar fornos


africanos, senhor... – disse Fiuza de maneira a fazer o outro responder. – É verdade, rapaz, é verdade. Só com as tralhas dos Sardinha não conseguiria fazer melhor, e Sua Majestade ordenou que se fizesse ferro por aqui, tanto ou mais que no tempo do senhor das manhas. Mas, com a amostra que levas terei eu alvará novo e terras, então, condições para negociar parcerias e enriquecer por aqui! – respondeu Ferreira. Entretanto, Fiuza já sabia, das conversas com os ajudantes de Ferreira, que as jornadas nas minas serão difíceis enquanto não fizer a fábrica de ferro abaixo da curva larga do rio que corta o cerro, pois, as sorocas são de brava travessia para gentes e animais. Tal logística já Fiuza havia previsto numa rápida análise. Já não se fazem Sardinhas como antigamente, quis responder aos homens, mas achou melhor não o fazer. Eles sabem melhor que outros o quanto de dificuldade haverá na região mineira. E pensar que isto aqui já foi a Vila de Nossa Senhora do Monte Serrat e que o governador Francisco de Souza por aqui despachou suas ordens...

– Será que aquele marmanjo quase janota, que se diz técnico montanístico, entregou a barra de ferro ao governador? – resmunga em voz alta. – Ei! – ouve-se um grito de chamado no meio do cerro. – Ai, mas que porra! – vocifera Ferreira. E grita: – Quem vem lá?... – É da capitania. Onde está sô Ferreira? – Sou eu mesmo. Pode passar o riacho! O semblante de Domingos Pereira Ferreira está alterado. Não parece o homem a reclamar de tudo minutos atrás. No entanto, aquele sô Ferreira soou-lhe falso. Quem vem lá não é o Fiuza..., constata. Cauteloso, manda os homens se armarem e ficarem d´atalaia, dispersos e atrás do mato. – Ufa, parece qu´estamo no tempo das caverna! É homem moreno, com talvez quarenta anos, de quase dois metros e dono de uma musculatura que assusta Ferreira. – Eu venho com cartas do senhor governador para o senhor Ferreira – anuncia. Ferreira não sai do centro do pequeno terreiro de onde vê a curva do riacho. Dá uma olhada na comitiva de três homens, que deixaram as mulas no acampamento mais abaixo. – Estás na frente dele! De uma sacola de pano, o homem tira dois rolos lacrados e passa-os para as mãos de Ferreira. – Tu és o gajo da mala-posta do governador? – Não! – Diz o homem, de mau humor diante da rispidez de Ferreira. – Não. Eu sou oficial de campo do senhor capitão-general, homem bom que tenho a honra de servir! – Muito bem. Muito bem – aquieta-se Ferreira. Percebe que o murro de um dos punhos daquele homem pode fazer muito estrago. – E o que é feito do Fiuza? – O senhor Fiuza, meu jovem amigo, tem mais o que fazer e é o braço direito do senhor capitão-general. Ferreira sabe que continuar a conversa será tentar tirar leite de pedra, ou pior, tentar fazer oiro do ferro. – Senhor, tenho que levar uma encomenda. Certo? – questiona o homem. Ele chama os seus homens. – Rapazes, tragam as barras de ferro que estão separadas e entreguem a esta gente.


Ao ver a cara de quase espanto dos três emissários do governador diante de dez homens que surgem da mata, Ferreira explica: – Aqui, temos de tomar todas as precauções, pois, vivemos isolados! Na barraca adiante, têm água e redes, descansem um pouco antes da torna-viagem. – Agradecido, senhor! Enquanto o homem se afasta, Ferreira dá uns passos atrás e senta-se numa mureta de pedra. Tira o lacre dos rolos e abre o primeiro. Segundos depois o seu olhar é de euforia. – Nova carta régia para explorar ferro e estanho e chumbo na capitania! – murmura. Não cabe em si de felicidade. E abre o segundo rolo... – Ai, meu Deus! Agora as terras do outro lado são terras minhas! – quase grita. O segundo rolo é uma sesmaria autorizada por dom Luiz enquanto na região do Berasucaba se fizer o serviço da mineração e forja do ferro.

[Resgistro de Sesmaria]

– Ai, mas que porra! O fidalgo de merda não dá, empresta... – berra ele ao dar-se conta do mecanismo que ali está em bom vernáculo. Dom Luiz não era bem quisto pelas pessoas que gostavam de rédea solta nos apetites financeiros e territoriais, apetites a que ficaram mal habituadas pelo clero e pela nobreza de pouco espírito público. Parece-me, ó Fiuza, que este Ferreira se acha o dono do mundo e quer o que quer num estalar de dedos!, confessara o morgado ao seu jovem protegido. Quem sabe, senhor, ele tem alguém que o protege lá nos salões de Lisboa!, respondeu ele. Por isso, à cautela, o capitão-general achou por bem e em nome da capitania doar terras a quem delas se fizer merecedor. E assim o fez em relação a Domingos Pereira Ferreira, minerador e industrial. – Esses reinóis de merda vão acabar em nossas mãos, a burguesia que trabalha e faz riqueza enquanto eles vadiam por aí! Ah, se vão... Bem, mas por enquanto esta sesmaria está em minhas mãos... – berra e, ao mesmo tempo, pondera Ferreira.


9 Quando adentrou a pacata vila jesuítica de Piratininga batizada de São Paulo, o governador Francisco de Souza o fez enviando na frente uma fanfarra. Cheguei!, quis dizer com todos os sons e cores o fidalgo. Ao saber da fanfarra o já mui poderoso Affonso Sardinha comentou que o governo de sua majestade nos brasis vai bem e agora tem tapete vermelho que faz da aldeia um palácio.

[O espalhafatoso e manhoso Marquês das Minas]

O sarcasmo do velho político e minerador chegou ao ouvidos do fidalgo que, por sua vez, não se fez rogado e atirou ser mister da fidalguia que a sua majestade serve mostrar ao gentio que o pode e o é em presença... Talvez por isso, os dois homens se deram tão bem e fizeram negócios juntos. Para o governador dom Luiz aquele espírito espalhafatoso não se adequa ao Poder, mas sabe que os trabalhos urbanos daquele fidalgo, apesar da presença da Espanha, foram de grande serventia às gentes portuguesas por onde ele passou, mesmo com alguns dos percalços políticos que teve de enfrentar. – O espírito de dom Francisco era marcar presença onde quer que estivesse, e ele fazia isso bem feito, até porque era um homem sociável, e pela manha impunha a lei e os seus rigores – diz dom Luiz. Fiuza abana a cabeça, entre o sim e o não, e deixa o fidalgo a matutar mais no assunto. – Parece-me que não fui claro, ó Fiuza – continua ele. – O que ele viu nesta vila de nada e pouca gente? Nada. E a pouca gente trabalhava para os jesuitas e a pança dos padres. Era a informação que ele tinha. Como adentrar uma vila que era nada no meio do nada? Com uma fanfarra, ora pois! De uma bailada só espantou os lobos e fez correr para si as ovelhas. Ganhou as gentes e assentou na vila de tudo um pouco. Era o olhar urbano do fidalgo que conhecia, e muito bem, o valor da diplomacia. Ela não era o manhoso, como dizem e ficou nas crônicas, ele era o diplomata. – E vê que Fiuza abana a cabeça, mas agora de forma positiva, sem dúvidas. – Anota aí, Fiuza... – e dita para ele, que já de pena na mão aguardava a novidade. – A igreja é o marco cristão, o ponto de encontro de gentes catequecizadas. Então, a


igreja deve ficar no melhor sítio na frente da praça principal. Que assim se faça em todas as novas povoações a erguer daqui em diante e nesta capitania. Ajuntem-se, então, forros, carijós, e administrados de que tiver notícia andam vadios e não têm casa nem domicílio certo, nem são úteis à República, porque é preciso dar urbanidade a esta villa e a esta capitania. – Meu senhor – ousa Fiuza interomper –, noto que Vossa Senhoria utiliza a palavra República em quase todos os seus documentos... Dom Luiz levanta a cabeça dos papéis que lê, enquanto dita para a cópia de Fiuza, e olha-o. Coloca o cotovelo direito sobre a mesa de despachos e logo o queixo na palma da mão. – Bem reparado, rapaz. Bem reparado. Estás afinado... Olha, quando se instalaram por aqui as câmaras municipais, instalou-se também o modelo republicano de governar com chefes eleitos entre os homens bons das comunidades, ou seja, aquilo que os gregos chamavam de governo da aristocracia, embora muitos desses chefes só governem para si mesmos... – Ah, ah, ai... – É verdade. Podes rir – mas dom Luiz logo prossegue. – As câmaras municipais nada mais são que unidades republicanas onde se legisla e se aplica a lei a bem de todos. É o principio do bem comum com administração pública, diferente das coisas absolutistas que regem as linhagens coroadas, na nobreza e no clero! – Meu senhor, o senhor é muito iluminado! – Ora, ora – contesta o fidalgo. – E agora, ó Fiuza, uma carta para o senhor Marquês de Pombal. Pronto? Aqui vai... Não há coisa tão dificultosa de conseguir e que necessite de tanto trabalho e paciência como é povoar e fundar estabelecimentos, porque sendo o povo composto de diferentes gênios e de diversas vontades, é cada pessoa que se pretende mudar uma oficina de novidades capaz de apurar o mais constante sofrimento. As povoações fundam-se de novo onde nada há, as faltas que necessariamente se experimentam - porque as utilidades não podem vir de repente - fazem aos primeiros povoadores impacientes e só com muita paciência e jeito se conservam... Muito bem. E agora, uma anotação para o meu amigo bispo de Angola, no meu papel da Casa de Matheus: A folha eclesiástica é tão bojuda por aqui que prejudica até as contas públicas, e tive que lançar mão forte para fazer notar que um padre, como um magistrado ou como um militar, não pode fazer vida larga sobre a desgraça alheia. E saiba, os maiores Opostos que sempre encontrei foram os Doutores das mesmas Leis. V. Exa. queime logo êste papel...


– Meu senhor, ai se alguém põe a mão nesta carta... – alerta Fiuza, deveras preocupado com o conteúdo político. – Sermos nós mesmos, ó Fiuza, é um risco que devemos correr, tão necessário como aprendermos a sobreviver, ou não morreremos em paz! São tantas as dificuldades construidas por algumas autoridades, civis e religiosas, para ganhar foro privilegiado e ter um largo saldo financeiro, ou territorial, que dom Luiz se espanta com a história de Affonso Sardinha: Não sei como é que ele conseguiu ser um creso, mesmo com essa gente no seu calcanhar o tempo todo, e ainda dar conta da política republicana e da governança das minas... Foi isso que encantou o fidalgo das manhas e dele tirou o necessário proveito social e político. Ao adentrar a história de Brás Cubas e do velho Sardinha, tomar ciência das façanhas do Bacharel de Cananéia, é que Luiz Antonio de Souza Botelho e Mourão se dá conta da história em que ele mesmo está... – Sinto-me muito honrado, como homem da Casa de Matheus e servidor da Coroa, de construir esta Casa em nome dos bandeirantes e daqueles que lhes abriram os sertões depois que o velho Sardinha tomou o Pico do Jaraguá! – diz, orgulhoso. – Eu sei, eu sei que tenho muitos opositores, mas na maioria são aqueles que sempre gozaram da liberdade para fazerem o que lhes dava na telha a coberto das próprias leis que diziam ser para todos! Muita gente não gosta do progresso, acha que o progresso tira-lhes as vantagens... Dize-me, ó Fiuza, o que encontramos aqui além de fidalgos e religiosos pançudos? Só miséria! Ou só nós estamos enganados? Fiuza vê o fidalgo dar uma olhada alongada pela sala de despachos. – O senhor, senhor capitão-general..., engrandece as gentes desta banda do Brasil quando lhes dá a oportunidade de casa e comida, trabalho e dignidade, em vez do nomadismo que nada resolve e cria pobreza... Dom Luiz dá alguns passos na sala, pensativo, e encara o seu subordinado. – Oh, oh, oh, ó Fiuza! – e abre os braços com as mãos a desenharem salamaleques no espaço. – Olha, meu rapaz, acho que a leitura das coisas do Voltaire e do Rousseau estão a fazer-te filósofo. Ah, e é melhor não começares a falar filosofês com a tua Luiza... – ... meu senhor? – O que tu ouviste, meu rapaz! Conversar com a minha pessoa sobre esses aspectos, vai fazer-te mais astuto, mais versado nas coisas da vida, mas não ouses conversar com a tua Luiza nestes termos. Mulher gosta da palavra burilada, sim, mas terra a terra, e de preferência em poesia com perfume de rosas! Outra coisa, meu rapaz: toma cuidado com discussões como aquela do fado e livra-te de meter nariz em conversa filosófica de alguns peraltas janotas, que eles vão arrancar o teu couro, curtilo e vendê-lo para madame de Lisboa ou Paris como pele de onça brava... – remata dom Luiz com um alerta providencial, pois, sabe que Fiuza não se contém diante das muitas asneiras e imbecilidades que escuta entre os fidalgos. E continua a olhar a sala. É o cómodo maior e no qual o bispo tinha altar particular e confessionário para atender as necessidades espirituais das beatas endinheiradas. O mesmo tipo de capela ora posta em casas de colonos abastados e bandeirantes. É no pavimento térreo que as secções administrativas estão situadas. Em cima, os cómodos reservados à vida íntima do governador e suas visitas, oficiais e particulares.


A casa grande corresponde à arquitetura de todas as outras casas e difere apenas no tamanho, porquanto as gentes, as fidalgas e as outras, vivem o cotidiano naturalíssimo e têm a casa como abrigo para o íntimo e seguro repouso, logo, é uma casa forte onde luxos são desnecessários. O luxo maior é a parede da grossura de um braço e as portas de madeira forte. A diocese de São Paulo foi instalada em 1745, mas quase sempre subordinada ao bispo do Rio de Janeiro e, sempre, debaixo das ordens dos senhores de escravos e de terras. Existia a missa dos senhores pançudos e a dos pobres e negros da terra. Mesmo assim, o bispo ou o representante do bispo é, em terras de sertão, o rei-papa que se impõe não por si, mas em nome de Deus. E como em nome de Deus se faz a Inquisição aos opositores e se lhes tira o couro e o sangue nas masmorras, onde impera a tortura, o rei divino reina raivosamente. Para o fidalgo da Casa de Matheus a autoridade deve-se impor pela consciência do dever a ser cumprido na sociedade, e por isso se fez adepto ferveroso da reforma pombalina que ataca a Inquisição e os métodos bárbaros da tortura que, sabe, métodos não repudiados pela Santa Sé, o que o deixa às vezes a falar com Deus em si mesmo e tendo a sua experiência de vida como altar. É um homem de fé, acredita que a humanidade pode ser feliz. Construir uma casa como esta é ter fé na divina providência e no engenho das gentes, e esta casa não pode ser simbolo da destruição humana, e sim do seu progresso..., pensa. A umidade toma conta da sala e dom Luiz esfrega a sua camisa rendada no próprio corpo. Nos momentos de umidade mais densa a sua garganta sofre e se esforça para não falar muito com o medo de perder a voz. – O reino permitiu que os religiosos e os políticos que ocupam este tipo de casa grande vivessem na opulência, e pior, ó Fiuza... – pensa alto o fidalgo com o olhar em cada particularidade da sala –, centraram no Rio de Janeiro toda a administração sobre as minas d´oiro e a região sul, e esta por causa da ameaça castelhana. Óbvio, a Santa Sé representada no reino optou por seguir os passos do rei, e a corrupção quase é, agora, uma divina comédia! – Mas, meu senhor, sem o bispo por aqui o senhor tem menos dores de cabeça, e o senhor mesmo indica os santos e as santas para cada povoação nova que se alevanta... E, meu senhor, de certa maneira até imita dom Francisco de Souza... – ...Oh, oh, oh, ó Fiuza... – ri o fidalgo –, não é bem assim, não. Esse aí deu de oferecer altar e imagem da Senhora do Monte Serrat a eito..., e até na mina do velho Sardinha fez vila e pelourinho! – Seja como for, meu senhor – continua o jovem –, nesta capitania assentou o senhor a defesa militar do sul, parte da área paulista das minas d´oiro, e na vacância do bispo dá a assistência religiosa que urge neste sertão. Se não precisamos de jesuítas, por que aturar bispo...? – Fiuza, Fiuza, devagar, mais devagar... O furor libertário do jovem preocupa o fidalgo. Qualquer palavra mal dita pelo rapaz e a fidalguia, e o clero, caem em mim como raios fatais!, raciocina. Por que lhe dei a ler tanta coisa do Voltaire e do Rousseau?... – Fiuza, Fiuza – repete. Põe a mão no ombro dele, paternal. – Tu queres viver a vida como um coche cheio de ilusões e das ilusões queres fazer certezas. Mas não é assim, não. Vive o que tens a viver aqui, neste serviço (e neste serviço estás tu mui bem), e vive esse amor com a tua Luiza, e verás que vida está a sorrir para ti!


– Meu senhor, eu sei que às vezes me folgo e abro de mais a boca, mas é tanta besteira que escuto... Mas eu sei, meu senhor, que num deslize meu e estarei a prejudicar o vosso trabalho honrado e mui esforçado – Fiuza fala de modo emocionado, sente-se adoestado delicadamente pelo capitão-general, mas entende o recado. – E sei, também, meu senhor, que há uma corja prontinha para prejudicá-lo. Pode ter a certeza, meu senhor, terei mais cuidado! Dom Luiz dá duas palmadas no ombro de Fiuza e sorri. De repente ambos olham além da janela. Faz-se escuro, um raio cruza o espaço próximo e logo um trovão se anuncia com estrondo a estremecer a vila. Pequenas e grossas gotas de chuva começam a cair e, em instantes, desaba uma tromba d´água sobre as casas, as praças e as ruas. Como que irmanados do mesmo desejo, o fidalgo e o técnico montanístico quase correm para a janela a respirar o ar de terra molhada que há mais de um mês não saboreavam. – Ai, natureza farta e boa! Dom Luiz abre os braços, estende-os para a chuva e deixa que as mãos se encharquem com o mimo naturalíssimo.

10

Porquanto nas novas povoações que mandei fundar tem chegado o seu augmento ao ponto de se erigir em Villas e tenho estabelecido na mayor parte dellas, não só o governo civil das Camaras, mas também os postos militares da ordenança, e ao mesmo tempo hé necessario continuar o mesmo Director às suas funções para irem as mesmas Povoações em crescimento, e haverem de se estabelecer novos moradores que vem concorrendo de fora, aos quaes hé necessário repartir terrenos para cazas e terras de sesmarias ou sitios para suas fazendas [...]ordena que os Capitães Mores, de Ordenança e outros oficiais tenhão a graduação dos das ‘terras já estabelecidas’, submetendo-se às disposições do Director.


Fiuza relê a carta ditada pelo capitão-general no início da tarde. É uma decisão iluminada esta de dar continuidade às gentes de bem que administram as aldeias ora villas da capitania, diz para si. Está convencido de que não fosse o pulso firme do meu senhor e esta villa, que nem era villa, mas aldeia perdida acima da Serra do Mar, continuaria um lugarejo d´almas penadas a carregar o fardo de fidalgos e padres pançudos, quando não eles mesmos, analisa, quase a soltar uma risada. – Olhem só, e não é o peralta montanístico...! Fiuza levanta-se de um pulo. – Ah, e não é o glorioso homem das montanhas! O gracejo apanha Domingos Pereira Ferreira de surpresa. Mas este gajo já se acha o governador em pessoa, diz para os seus botões, melhor, para os seus laços mal ajeitados e empoeirados. – Isso são lá modos de receber um senhor com sesmaria e mineração própria?! O jovem não se dá por achado. – Aguarde aqui, senhor, vou anunciá-lo ao excelentíssimo governador. Enquanto isso, Ferreira dá uma olhada na carta que Fiuza deixou na mesa. Está na leitura quando escuta: – Senhor, o excelentíssimo senhor governador o aguarda! – Obrigado, rapaz, assim está melhor, muito melhor! Um sargento, nos seus trinta e poucos anos, puxa Fiuza pelo braço. – Quem é esse brutamontes? – É o que está a fazer o ferro lá no cerro Berasucaba. É da natureza dele ser assim, mas acho que o gajo está é a aproveitar-se da situação e deve ter, lá em Lisboa, fidalgo a mamar alguma porcentagem... – responde ele, sem ressentimentos. – E tu, as mulas estão prontas? – Do meu serviço, rapaz, eu cuido! – diz o sargento, senhor de si, a aparar as pontas da bigodaça farta e bem cuidada. Com certa solenidade, Ferreira adentra a sala de despachos e vê um Morgado de Matheus mais envelhecido, gasto. – Excelência, vejo que os últimos tempos foram bem pesados por aqui – diz, à guisa de cumprimento. – Eu li de soslaio uma carta de Vossa Senhoria a explicar o aumento das gentes e, então... a fazer-se novas vilas nesta capitania! Dom Luiz levanta a cabeça dos papéis e mapas. – Ora, eis aqui o industrial do ferro! – exclama, e levanta-se para cumprimentar o novo senhor das sorocas do Berasucaba. – E dizei-me, prezado Ferreira, como vão as minas? Com um gesto, o fidalgo convida o visitante a se sentar e tomar um refresco. – Excelência, não é fácil conseguir parcerias para fazer singrar melhor o empreendimento... – Mas, Vossa Senhoria não recebeu carta real e sesmaria para tomar parcerias, mas para fazer o progresso industrial daquele lugar pelo esforço próprio! O industrial percebe na fala do morgado um tom mordaz. Neste momento, Fiuza se faz presente. – Ah, entre, entre. Traga-me os papéis do senhor Ferreira, ó Fiuza! – solicita o governador.


– Bem, excelência – continua Ferreira –, deu para sentir que não é um negócio para ser tocado por um homem só, e o senhor autorizou-me a buscar apoios de outras pessoas... – ... sim, é verdade! – concorda dom Luiz. – Entanto, também é verdade que os seus direitos à mineração e à sesmaria terminam se de lá não soubermos do progresso prometido! – E por isso trago comigo, excelência, as anotações do progresso feito e dos gastos. Mas o certo é que não consegui mais parcerias para o negócio. E é disto que venho à conversa nesta casa. Dom Luiz, com uma quietude impressionante, está junto da janela e mira o homenzarrão em quem pôs as esperanças de renovar as minas de ferro do Berasucaba. O mesmo que ora lhe diz estar à beira da falência. Fiuza observa os dois homens. Existe um ponto de ebulição entre os dois, mas enquanto o industrial se mantém na guarda, o fidalgo domina a situação e faz do instante de incertezas um instante de pompa e circunstância com a sua quietude majestosa. – Meu prezado senhor Domingos Pereira Ferreira – retoma dom Luiz a palavra –, disse-me anos atrás estar preparado para levantar o velho lugar das minas dos Sardinha, gente que naquele cerro, sem os dispositivos que temos hoje à disposição, logrou fazer ferro para abastecer esta villa dos bandeirantes, certo..., não as necessidades da nação! Mas o certo é que fizeram progresso por lá, e por lá o senhor logrou unicamente fundir dinheiro do erário público e dinheiro de parceiros que conseguiu iludir... O industrial não sabe o que dizer, mas ousa: – Sei que não era isto que Vossa Excelência queria e deveria ouvir, mas não tenho condições de progredir naquele negócio, pois, todo o meu arcabouço financeiro se foi no esforço! Tudo o que foi feito e gasto está neste relatório que vai assinado por mim... – Meu senhor, os papéis... – intervém Fiuza já a entregar documentos ao fidalgo. O jovem vê um capitão-general que se reserva à indignação, e até ao vício de logo intimidar quem falha no trato dos acordos. Parece o dragão pronto para assar a presa, mas... O fidalgo desenrola o papel que Ferreira havia colocado na mesa e lê atentamente. – Nós estamos em 1772, prezado senhor Ferreira, e o senhor traz-me anotações que o velho Sardinha teria vergonha de subscrever lá em 1591! Ferreira sente-se ameaçado pela primeira vez. Raios me partam! Não deu para fazer o negócio que eu queria, e pronto!, diz para todos os deuses que o possam escutar. – Sabe, meu prezado senhor Ferreira – continua dom Luiz, que dá uns passos e senta-se, enquanto deixa cair o papel na mesa –, o senhor leu de soslaio o que é realmente progresso social, e esse progresso é feito de muito trabalho pelo esforço certo de dar dignidade às pessoas. Mas, veja – ele gesticula e faz um gesto largo na sua frente com os braços estendidos –, para se levar progresso às pessoas é preciso imaginar o dia de amanhã na ponta da pena para que o dia de hoje seja mina do sucesso desse esforço. Entendo que o senhor falhou no seu esforço e disso farei notícia imediata ao senhor secretário d´Estado de Sua Majestade. – Lamento não ter podido ter o sucesso nas minas que Vossa Excelência alcançou na urbanização e na defesa desta capitania! Num relance, Ferreira mira um Fiuza que não ri, parece emular a quietude do seu senhor.


O fidalgo retira uma folha de um maço referente às atividades no Berasucaba e entrega-a a Ferreira. – Traga tinteiro e pena, Fiuza. Ferreira lê o documento de poucas linhas e percebe que o texto da sua renúncia já havia sido escrito antes de partir para as minas de ferro. – Senhor, assino com a dor de não ter havido êxito nesta empreitada do ferro! – Acredito que não vamos nos ver mais. Passe bem, senhor Ferreira e que tenha sucesso em outros negócios! – Agradeço a Vossa Excelência o apoio que me foi dado! Simplesmente chocado, Fiuza vê o homem que foi senhor do Berasucaba, da mina e da sesmaria, ir embora completamente humilhado. – Meu senhor, o senhor não alevantou a voz, não chamou a guarda... – Oh, oh, oh, ó Fiuza, meu rapaz – interrompe dom Luiz –, tens de aprender que uma lição só o é quando o mestre está presente, e a palavra certa no momento certo é uma arma mortífera... também, nestes negócios d´Estado! Ah, por que as cartas minhas ficaram à mercê de quem as pudesse ler de soslaio, ó Fiuza? – Ai, meu senhor, foi no instante em que o senhor Ferreira chegou e pediu para ser anunciado... – ...pois, meu rapaz, que tal falha não se repita! – exclama o fidalgo em jeito de sova enluvada. – A disciplina e o saber são o segredo do progresso! – remata com voz algo pomposa para sublinhar o dito. Na tarde do dia anterior, o morgado recebera carta da sua Casa trasmontana, mas foram tantos despachos oficiais que só agora põe os olhos nela. – Ah, mas é carta da minha morgadinha... Ele penitencia-se pelo atraso da leitura. – A minha Leonor Ana Luísa José de Portugal não é apenas a minha morgadinha, é a minha mais do que tudo. – murmura. É uma missiva de quatro folhas escrita com letra arredondada e perfeita e que ele lê numa mistura de saudade profunda e etermo enamoramento. A certo passo, assustase, ao ler... ...e sei, por nosso amigo bispo, que a vossa luta no Brasil tem sido por de mais exausta. Sei, também, que o vosso trabalho é valorizado no Reino e que os daí ora têm mais vilas e serviços como os que aqui temos. Mas, meu marido e senhor, é hora de retornares a nossa casa, nosso lar...


[Solar de Matheus]

Sempre convidado para a festa da uva na Casa de Matheus, o bispo de Angola passou alguns dias no abastado morgadio sob a guarda e os mimos da morgadinha e suas aias. Vou me amanhã para Vila Real a lavar minh´alma com aquele vinho doce de vossa ilustre casa, lera dom Luiz uma carta do bispo que lhe anunciava o passeio anual em meio ao reconhecimento da carta que recebera do Brasil com as notícias das querelas. E foi da boca do bispo que a morgadinha soube das muitas encrencas a que o seu morgado e esposo já dera solução no Brasil. Dom Luiz acerca-se da janela e fixa o olhar na vila que administra. Sim, eu sei que no reino sabem de mim e do que faço neste outro Portugal. Mas ainda não terminei o meu trabalho e daqui me irei para nossa casa, nosso lar, minha morgadinha, tão logo der por finda a jornada, que (nem o penses, minha morgadinha) não me dará por mortalha o Brasil, pois, aqui trato das coisas e das gentes e só de longe o oiro e os diamantes. O meu sonho, minha morgadinha, era dar a este outro Portugal o que de melhor o nosso Portugal tem, e a jornada vai bem, vai bem..., pensa, e não tira o olhar da vila. Leonor Ana Luísa José de Portugal ocupa todo o espaço em sua alma e nem rivaliza com Portugal, pois, ela o é também! No olhar alongado de Luiz Antonio de Souza Botelho e Mourão, pela vistas que alcança da vila, percebe-se um homem apaixonado pelo que faz. Esta vila que aldeia foi no meio do nada é agora um pedaço de Portugal e cabeça de capitania com muitas repúblicas asseguradas, diz para si o fiel amigo da arte pombalina de criar na sociedade o espectro do progresso e nele gerar o hoje. Sob o olhar do Morgado de Matheus ora está a capital de uma capitania que carrega em si a fé e o empenho humano de servir credos vários e falares diversos.


NOTAS AFFONSO SARDINHA – dito O Velho. Português, militar com patente de alferes, foi político, minerador e banqueiro, senhor de Ybitátá, Carapocuyba e Jaraguá. Para a conquista do Pico do Jaraguá foi nomeado Capitão das Gentes da Villa de São Paulo. Aquela conquista abriu definitivamente os sertões do oeste piratiningo aos desbravadores portugueses, particularmente os que desciam o Juribatuba e prosseguiam pelo Anhamby. Outros, faziam o Piabiyu, rota ancestral dos guaranis. Entre as sorocas do oeste, no cerro Berasucaba, o ´velho´ Afonso Sardinha e o filho (dito O Moço) estabeleceram a primeira siderurgia da América e ali deram início à indústra brasileira. BERASUCABA – Ou, Ybyraçoiaba, Biraçoiaba, Araçoiaba e etc. Morro onde a Família Sardinha, no final do Séc. XVI encontrou e minerou ferro, construindo a primeira siderurgia da América com fornos do tipo catalão. A mina, e depois vila de Nª Sª do Monte Serrat, foi o berço da Indústria brasileira e da região denominada Sorocaba. Berasucaba ou Ybiraçoiaba, no tupi-guarani, significa Esconderijo do Sol. CAPITANIA DE SÃO PAULO – Os paulistas, de 1748, estavam sob a jurisdição do governador do Rio de janeiro, da qual os (atuais) Estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, em seu conjunto, se tornaram mera comarca. Ou seja: a Capitania ficou sem mando próprio durante 17 anos, até que o rei José I, por indicação do Marquês de Pombal, seu secretário de Estado, nomeou Luiz António de Souza Botelho e Mourão, Morgado de Mateus, seu governador, por ato de 6 de janeiro de 1765. CRESO – Pessoa abastada, financeira e/ou territorialmente. BORRÕES – Esboços de mapas. DOMINGOS PEREIRA FERREIRA – Técnico montanístico e industrial, foi contratado pela Coroa portuguesa e sob carta de régia, ao tempo do governo do Morgado de Matheus, na Capitania paulista, reproduziu o engenho dos Sardinha e instalou, também, fornos do tipo africano para mais produzir ferro. Ele personalizou os esforços do morgado-governador para recuperar o engenho dos Sardinha e ampliar a produção de ferro com vista à instalação de uma Fábrica Real de Ferro. FOGOS – Moradias. LEVANTAR FERRO – Puxar a âncora para o barco zarpar. LUIZ LOPES DE CARVALHO – Minerador e explorador português que, poucos antes da formação da Capitania paulista, utilizou o espaço deixado pelos Sardinha no Morro Berasucaba. MARQUÊS DAS MINAS – ou Francisco de Souza. Pertenceu ao Conselho real; esteve em Tânger com João de Meneses; acompanhou o rei Sebastião a África, em 1578, como capitão de um dos galeões do seu tio Diogo de Sousa; foi ainda capitão-mor de Beja e comendador de Orelhão na Ordem de Cristo. Governou o Brasil por duas vezes, uma como governador-geral, entre 1591 e 1602, e outra como capitão-geral e superintendente das capitanias do Sul, entre 1608 e 1611. A urbanização definida pelo Morgado de Matheus, no Séc. 18, para a Capitania paulista, teve algumas bases no trabalho de Francisco de Souza. MARQUÊS DE POMBAL – Sebastão José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, nobre, diplomata e estadista português. Foi secretário de Estado do Reino durante o reinado do rei José I. Déspota iluminado; deu fim à escravatura em Portugal Continental, e, na prática, com os autos de fé e com a discriminação dos cristãos-novos, mesmo não tendo extinguido oficialmente a Inquisição portuguesa. MORGADO – Do morgadio. Organização rural de família, clã, em cuja linhagem existe um código próprio de sucessão, como era próprio dos clãs celtas e celtiberos. MORGADO DE MATHEUS – Luiz António de Souza Botelho e Mourão, o quarto Morgado da casa de Matheus, foi nomeado capitão-general e governador da Capitania de São Paulo, de 1765 a 1775, e após isso retornou ao morgadio em Vila Real, Trás-os-Montes. Iluminista, dom Luiz carreou para a antiga vila jesuítica os valores da urbanização que humanizavam as populações ainda à deriva nos arredores do Poder colonial. O seu ímpeto urbanizador dotou a vila piratininga de estruturas que a tornariam o eixo do progresso econômico e social do Brasil. NABO – Expressão popular portuguesa para indicar pessoa que não sabe o que fazer. PAROLO – Homem rústico, caipira. RABELO – Famosos barcos que transportavam as pipas de vinho da região montanhosa do Douro para os armazéns do Porto, em Vila Nova de Gaia. Por causa dessa ligação o vinho foi designado Vinho do Porto. SÁ E FARIA – José Custódio de Sá e Faria, nascido em Portugal, foi um engenheiro militar, cartógrafo, arquiteto, geógrafo e administrador colonial do século XVIII. Formou-se na Academia Militar das Fortificações de Portugal, no ano de 1745. Faleceu em 1792, na Argentina. Foi designado pelo vice-rei Gomes Freire de Andrade para fazer parte da Comissão Demarcadora, que assentaria os limites entre as possessões ultramarinas dos reinos de Portugal e Espanha, resultado das negociações do Tratado de Madri de 1750, na América do Sul. Devido ao seu preparo técnico e ao seu desenho elaborado, Sá e Faria foi nomeado o primeiro comissário da Terceira Partida Demarcadora, que iria realizar o estudo cartográfico da zona compreendida entre os rios Paraná e Paraguai, o plano da Colônia de Sacramento e o mapeamento do Salto Grande do Paraná, realizadas no período 1753-54. SESMARIA – Terras doadas pela Coroa, ou em nome da Coroa, a quem as cultivasse e delas fizesse economia para o reino. Durante a colonização do Brasil, a sesmaria serviu para brindar os amigos dos governadores e as pessoas que, a serviço da Coroa, tinham necessidade de terras para a execução dos seus ofícios contratados.


SOROCAS – Terras que se recortam entre cerros e mães d´água. Da designação surgiu o nome sorocaba para a região das minas e das comitivas de gado e mantimentos que atravessavam o sul e o sudeste com parada além do cerro Berasucaba. SOVA – Tareia, porrada. TE DEUM – Hino litúrgico católico.

Um Morgado no Imáginario de um Marquês  

[A construção do Brasil através da Villa & Capitania piratininga] A difícil tarefa do morgado e capitão-general Luiz António de Sousa Botel...

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