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MANUEL REIS

JUSTA E BOA GOVERNAÇÃO

EM TORNO DA GRAMÁTICA PSICO-SÓCIO-ANTROPOLÓGICA (Eixo de Rotação: Espaço/Tempo: Cultura/História) + EM DEMANDA DA CARTILHA DA JUSTA E BOA GOVERNAÇÃO

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JUSTA E BOA GOVERNANÇA Pouco depois de conhecer o professor e filósofo Manuel Reis, estava eu a reler (existem obras que se leem mais de uma vez, como...) Ulysses, de James Joyce, romance que começou a circular em 1918-1919 na The Little Review, por interferência de Ezra Pound, pude finalmente sentar na mesa do café e conversar intelectualmente para abrir espaço cultural e social fora do ranço acadêmico. É verdade. Cheguei a pensar, nas mesas dos cafés de Guimarães e Barcelos, que esse dia nunca chegaria e que a minha intelectualidade teria apenas ´conversa´ entre as obras de vários escritores e escritoras, ou somente no fotojornalismo, que me ligava a uma agência de notícias de Lisboa, em meio à atividade cineclubista, a jornais regionais minho-galaicos e revistas filosóficas de Buenos Aires e Barcelona. Quem sou eu?, questionava-me. A resposta veio depois de várias conversas com Manuel Reis, que havia deixado os meandros acadêmicos de Coimbra e fazia de Guimarães a sua ´cátedra´ quotidiana enquanto docente de mestres para a nova geração portuguesa. Ah, o Ulysses... Pois então, após conhecer obras de Reis, censuradas pelo salazarismo, pude comparar a mente experimentalmente filosófica dele com a mente joyceana. Resultado (inacabado): duas pessoas embarcadas na Sabedoria e a transformá-la na viagem interminável do ato socrático, i.e., tratar a Humanidade como tal nas suas circunstâncias socioculturais e linguísticas sem deixar de a renovar, tal e qual jornalistas que registram o evento e nele vão mais longe para demonstrar que a Pessoa só é o Eu enquanto aprende a viver o Nós. As peripécias do comerciante judeu, em Ulysses, lembram a estrutura sociopolítica que, de ´bolha´ em ´bolha´, experimenta a renovação contínua – essa renovação que está nos livros de Reis e, mais ainda, em Justa e Boa Governança, o último livro que me chegou às mãos e me levou à memória daqueles dias nas mesas de café no norte de Portugal. Uma época em que estava ainda ´quente´ a livre teologia do Padre Mário, da Lixa, mais conforme a circunstância popular e muito longe da hierarquia reinol e mercantil do Vaticano – o mesmo Mário de Oliveira que, hoje, pondera que a Pessoa em renovação é um ato clandestino, precisamente porque o Eu apreende das vivências uma ação que só irá emergir social e politicamente no seio de uma geração humana a viver em Consciência, não em função do lucro mercantil. Era e é o que leio em Joyce e em Reis, por isso, repito-o e sublinho na apresentação de Justa e Boa Governança, que ora faço. Sim, Senhoras e Senhores, o livro Em Torno Da Boa Gramática Psico-Sócio-Antropológica (Eixo de Rotação: Espaço/Tempo: Cultura/História) + Em Demanda da Cartilha da Justa e Boa Governança, é uma leitura a exigir releitura comparativa diante do que Somos enquanto Eu/Nós pelas circunstâncias políticas e teológicas que nos envolvem a cada era em que recomeçamos sob novas tecnologias e dinâmicas socioculturais diante das novas gerações, mesmo quando essas políticas e teologias são escancaradamente postas de lado... É disto que trata o livro Justa e Boa Governança. Um livro e uma lição: Viver é tratar da pluralidade sociocultural da Divindade e do Eu. A todo o instante, as Sociedades oram e ´berram´ por “amor de deus” sem qualificarem os atos, i.e., pessoas de Bem e do Mal acham-se cobertas pelo manto da Divindade podendo praticar o que quer que seja sob o perdão lido em livros ´sagrados´. Ora, mata-se e esfola-se e basta uma oração, ou um punhado de moedas ´para a divindade´, que tudo é perdoado. E pronto. Diante disto

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o que é preciso? Sabedoria conscientemente vivida para se evitar a contaminação mercantil do igrejismo que apela à política para se manter no espaço/tempo do Poder. Manuel Reis enquadra o seguinte: “[...] Elites e governantes, de um lado, e populações e súbditos, do outro, parece que ninguém ousa proceder ao criticismo necessário e pertinente...”. Eis a questão. E por ela é que o Poder desconhece ideologias, políticas e místicas: o Poder o é e com um Eu que se dispõe a destruir o Nós, ou um grupo a assimilar um Eu em tal contexto socioeconômico, dito Elite. Ler o livro de Manuel Reis é fazer releituras antropológicas sob uma visão de humanismo crítico, até para podermos renovar o Eu embarcado no precário e imenso Cosmo... Senhoras e Senhores, aqui vos deixo o livro Justa e Boa Governança para as possíveis leituras que ele exige.

J. C. Macedo | poeta e jornalista América Latina, 2019

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EM JEITO DE EXERGO-BÚSSOLA: ◙ ‘Caminero no hay camino; se hace camino al andar’!... (Antonio Machado). - Em termos bio-psico-sócio antropológicos, se a Humanidade tiver futuro, perante o iminente Apocalipse planetário da Vida no Planeta Terra, é pela Via estreita do ‘Humanismo Crítico’, que temos vindo a esboçar e a programar, que ela há-de sobreviver, fazer caminho e progredir no Quadro do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Estes escritos têm carácter profético e testamentário. ◙ “Guerrilheiros sem ‘spada nem bacamarte’, Que prezem mais a Vida do que a morte, ‒ Resistem ao Poder com toda a arte!... Cumplicidades não ‘stão no seu Norte! … Para que, finalmente, venha a triunfar: o SABER, a Cultura, as Ciências e o Amor!” (M.R. 24 de Agosto de 2008) * ◙ “A teoria social, de que os seres humanos são produtos das suas circunstâncias e sua educação ‒ e seres humanos transformados seriam os produtos de outras circunstâncias, e uma nova educação, por ora transformada ‒ esquecer-se-ia de que as circunstâncias, elas mesmas, são transformadas, precisamente, pelos mesmos seres humanos e que os educadores têm, eles próprios, de serem educados. Acabar-se-ia, assim, de dividir a sociedade em duas partes, uma das quais ficaria elevada acima dela própria (por exemplo, em R. Owen). A coincidência da transformação das circunstâncias e do meio e da actividade vital humana só pode então ser percebida ‒ e, por fim, racionalmente compreendida ‒ enquanto uma práxis revolucionária.” (Ad Feuerbach, Karl Marx e Friedrich Engels, 1845)

N.B.: Esta versão do texto (que é o pórtico genésico do Marxismo) é a mais primitiva e fiel, v.g., em confronto com a 3ª Tese sobre Feuerbach, tal como se encontra formula-da in ‘Textos Filosóficos’ de Karl Marx e Friedrich Engels, Ed. Presença, Lisboa, s/d. N.B.: Esta Tese constitui, legitimamente, a porta de Abertura para o novo Templo da vera Cultura/Civilização Alternativa: a da Liberdade Responsável primacial e pri-mordial; onde os cidadãos são socialmente iguais e responsavelmente livres!

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Logomarca do CEHC utilizada na AmĂŠrica Latina e foto do Casal Reis

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PÓRTICO ● Princípios básicos sobre a Grande/Estrutura Mental do C.E.H.C. ‒ Estamos, visceralmente, contra o Dualismo metafísico-ontológico de Platão e de Paulo (e de todas as religiões institucionalizadas). ‒ Somos socráticos e jesuânicos. ‒Em termos de regimes políticos, patrocinamos, tão-só, a DEMOCRACIA, radical e com todas as exigências. ‒ Estamos contra os Monismos Epistémicos, que são filhos bastardos do Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo e tutti quanti. ‒ Por isso mesmo, somos contra a sistemática e epistemológica doutrina do ObjectivoObjectualismo (onde ainda parece cair, na sua mentalidade ideológica, o próprio filósofo luso JOSÉ GIL, na sua Obra perspicaz e actual ‘CAOS E RITMO’, Ed. Relógio D’Água, Lisboa, 2018). ‒ Acolhemos e cultivamos o Dualismo Epistemológico: A) o que tem por campo e objecto as ciências físico-naturais; B) e o que tem por campo e objecto as ciências psico-sociais e/ou humanas. Esta metodologia epistémica é desconhecida pelo nosso Amigo J.G. no Livro citado. Um Livro, sem dúvida, muito perspicaz e actual… mas o Autor não viu tudo!... Também ele é monista ontológico, sem o saber, mas de raiz na Fenomenologia husserliana. ‒ Quanto à metafísica ontológica, o C.E.H.C. só conhece a que diz, directamente, respeito ao Psico-Sócio-Ânthropos, i.e., aos Sujeitos humanos, qua tais, constituídos na Espécie Sapiens/Sapiens, depois das descobertas iluministas/iluminadas de DARWIN e LAMARCK. ‒ A Fenomenologia husserliana e as restantes fenomenologias acabaram por pôr-se ao serviço das filosofias tradicionalistas, ao serviço do tipo específico do Homo Sapiens tout court, que separa, em dois espaços societários distintos, o Poder Estabelecido e a Liberdade dos cidadãos. Eis por que o C.E.H.C. estabelece, na sua ‘fons et origo’, a filosofia criticista do argelino Jacques Derrida, que dá pelos nomes de DESCONSTRUÇÃO e Desconstrucionismo (cujas origens próximas já se podem encontrar na Obra filosófica de Immanuel Kant). ‒ No horizonte criticista do C.E.H.C., as noções reais de Espaço e Tempo não são, originalmente, percepcionadas como divididas em duas, separadas, mas, outrossim, segundo Albert Einstein, como uma unidade monódica indivisa. Por isso mesmo, há, aí, entre outras, razões e fundamentos sérios para esconjurar e banir a ‘globalização’ vigente, concebida e orientada segundo o catecismo hegemónico dos mais fortes e da mesmidade uniformista. Preconizamos uma Globalidade Alternativa, que faça jus aos Estados-Nações singulares e aos Indivíduos-Pessoas singulares e concretos. ‒ Quanto à Cultura, concebêmo-la como nocionada (segundo o Dualismo Epistémico) no horizonte oposto ao da Natureza (tal como fizera B. de Espinosa). Esta é, apenas, uma 6


exigência fundamental, decorrente da vera espécie humana do ‘Homo Sapiens// //Sapiens’ (identificado com o ‘Homem de Cro-Magnon’), e não do ‘Homo Sapiens tout court’ (identificado com o ‘Homem de Neanderthal’). ‒ No que tange à História, ela é (deveria ser!...) a vera mestra (colectiva) da vida dos indivíduos e das sociedades. Mas, como ainda vige e impera, absolutamente, o ‘Homo Sapiens tout court’… ‒ mesmo depois do Iluminismo ocidental e das Descobertas de Darwin e Lamarck sobre a Evolução e o Evolucionismo e das descobertas sobre o Socialismo (como forma decente de organização das sociedades humanas), atribuídas, entre outros, a Karl Marx e Frederico Engels ‒ ninguém quer saber dela: aprendem dela uns vagos esboços nas escolas básicas; e, nas superiores, aprendem a História dogmá-tica (nacional), pejada de interpretações erradas ad usum delphini e balizada e colorida segundo as ideologias dos Poderes Estabelecidos. (Um exemplo: Alfredo Pinheiro Marques e o CEMAR… as dificuldades que tem encontrado e os esforços que tem desenvolvido para propor-impor a Verdade histórica sobre os Descobrimentos Marítimos dos Portugueses, (nos sécs. XIV-XVI), ao tentar defender e afirmar que as 2 Figuras principais desse Grande Empreendimento foram o Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, e o Rei Dom João II, e não as outras duas Figuras, (o Infante Dom Henrique e a falsa ‘escola de Sagres’ e o rei Dom Manuel I), que têm sido impostas e matraqueadas pela catequese ideológica tradicionalista, segundo a cartilha nacionalista). No horizonte destes jogos sobre a História, que alguns autores ‘espertos e astutos’ fazem passar da vera História aos historicismos ideológicos de todos os tipos, até se poderia pressupor, com indícios de ‘jogo invertido e falacioso’, que a Metafísica ontológica e falaciosa de Platão e Paulo, desde há 5 milénios e meio, (quando foram estruturados, ideológica e miticamente, os Deuses uranianos e o Patriarcado), que tal Metafísica (dentro da fenomenologia da História) até pôde funcionar e exercer o papel de base das Culturas e dos Saberes e da própria constituição ‘ex Deo’ dos Poderes políticos estabelecidos: Dava-se desta sorte a explicação e o fundamento das realidades psico-espirituais do complexo Psico-Sócio-Ânthropos; e, assim, se fundavam os factos, institui-ções e fenómenos do espírito e da Cultura!... Como não se pode deixar de advertir, tal Metafísica ontológica era, confessadamente, dualista: abastardava o paradigma da Espécie do Psico-Sócio-Ântropos, que, desta sorte, era reduzido ao estatuto menor e falso do Homo Sapiens tout court, constituído e a funcionar sob a Potestas-Dominação d’abord e utilizando apenas o seu peco e seco ‘livre arbítrio’, que outra coisa não é senão o ‘pendulo de Foucault’. Ora, desde os sécs. XVII/XVIII em diante, não há qualquer legitimidade para adoptar um horizonte e um estatuto, para o Psico-Sócio-Ânthropos, estigmatizados e corrompidos com aquelas características falaciosas. Há, afinal, 4 ordens de razões e argumentos, que estilhaçaram toda essa triste panorâmica falaz: A) A Cultura criticista, que emergiu, sob a bandeira oitocentista do Iluminismo (‘le Siècle des Lumières’) ou ‘Aufklärung’, precedida da célebre ‘Discussion des Anciens et des Modernes’ (no séc. XVII). B) As ciências novas que surgiram, especialmente, nas áreas da Física/Astronomia, da Química, Biologia, da Sociologia e da Psicologia; e veio a público o Grande Fenómeno da Evolução darwiniana das espécies vivas. C) A Economia política (cuja 7


gramática capitalista assomou aos palcos societários no séc. XVIII pelo cérebro e mãos de Adam Smith (1776)) emergiu e difundiu-se longe lateque por toda a parte. D) Neste contexto, os sécs. XX e XXI polarizaram-se num florão de Técnicas operativas e Tecnologias, que o Mundo passado nunca vira antes!... Nesta galáxia nova do Psico-Sócio-Ânthropos, o que ficou definhado e mal-tratado foram, em geral, os próprios Sujeitos humanos indivíduos-pessoas, que não abandonaram a canga da Potestas-Dominação d’abord e o reles ‘livre arbítrio’, de que eram detentores, segundo todas as cartilhas nacionais do Ocidente. Em suma, com todas aquelas riquezas advenientes, assim de supetão, as Sociedades humanas continuaram a funcionar segundo o catecismo (religioso) do ‘Homo Sapiens tout court’. Como pôde isto acontecer?!... ‒ Falta de Educação, Escola, Cultura crítica… Tudo isso alimentado pela cartilha dos Egoísmos primaciais dos indivíduos e dos Poderes Estabelecidos, se-gundo a marca e o selo da Divindade!... Não ensinara Paulo (por todos os mestres bíbli-cos), na Carta aos Romanos, 13,1: ‘Non est Potestas nisi a Deo’?!... Neste contexto, próprio da Espécie (dita) humana, concebida e encarada segundo o paradigma tradicional do ‘Homo Sapiens tout court’, o que está emergindo na nossa contemporaneidade é esse mostrengo de um Processo de Globalização de marca uniformista, onde, quem manda ou estabelece os Diktaten são os países ricos e poderosos, que são os donos das ciências e das técnicas e das matérias primas (algumas delas raras, à face da Terra). É óbvio que um tal processus, além das singularidades dos Estados/Nações, que são eliminados pela raiz, acumula toda a sorte de predações e poluições excedentárias, que eles obrigam a pagar, igualmente, pelos países pobres. Dir-se-ia que o Imperialismo e o Colonialismo prosseguem a sua marcha, para o futuro, fazendo figas às já pavorosas ‘Alterações Climáticas’, que a Aliança da quase totalidade dos Estados, no Acordo de Paris de 2015, urgia fossem combatidas quanto antes, sob a ameaça iminente de uma catástrofe apocalíptica. Em termos de uma síntese crítica global, há que ter a coragem de proclamar: Mudem de rumo: os Estados/Nações, que se prezam, adoptam os princípios jurídicomorais e políticas da Igualdade inter pares e da Democracia, como a única gramática justa e digna. Carecemos, portanto, de uma Globalização Alternativa, que seja capaz de cumprir tais princípios. Nesta perspectiva, há que dizê-lo sem ambiguidades: Só a cultura democrática do Socialismo autêntico poderá abrir-nos, à escala nacional e à es-cala global, um Caminho Novo!

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Em torno do último Livro do Filósofo luso JOSÉ GIL: ‘CAOS E RITMO’ (já cit.) ● Este (500 pp.) é, sem dúvida, o Livro de Filosofia (no Portugal de Hoje) mais actual, profundo e abrangente, que pressupõe uma grande Cultura histórico-filosófica acumulada ao longo da vida. Deve, pois, ser enaltecido e destacado; celebrado como um bom repositório de saberes múltiplos. Vamos, pois, proceder a alguns respigos desta Obra. Começamos pelo texto da Contracapa exterior, que, através do texto longo aí escrito/seleccionado, dá-nos bem o horizonte e a índole do Livro. Parabéns ao Autor! “O que é pensar? O que é agir? O que é pensar e agir para criar? Em todos os casos, não basta evocar o ‘destino’ ou o ‘inconsciente’ para designar os factores que intervêm, é necessário descrever os mecanismos exactos e as forças que os movem. No tratamento psicanalítico de uma criança, no comportamento homicida de Macbeth, na criatividade ‘delirante’ de Artaud, interferem forças poderosas que se afastam da racionalidade lógica e pragmática habitual. Descobrem-se os nexos claros da magia. Como é que estes processos irracionais podem culminar num objecto com sentido? Inversa-mente, a exploração do que se esconde sob o rigor da razão mais pura (como a que co-manda o trabalho de um Espinosa) abre um mundo novo ao pensamento. O discurso filosófico, a invenção matemática, a criação poética, as sequências de movimento de um bailado, as posturas do ioga, a arte contemporânea ou a retórica do populismo mais des-vairado obedecem a regras precisas, não formuladas pela razão. Regras que nascem do caos e que marcam o ritmo. O que é o caos e o que é o ritmo? De Hesíodo a Paul Klee e à teoria física do caos, de Platão a Olivier Messiaen, colhem-se ideias que ajudam a compreender como as forças do caos podem passar para o outro lado, ritmando a ordem ‒ ou podem falhar, fracassar e vir a destruir perversamente. O que se joga na construção do ‘eu’ ilustra bem essa alternativa. Forças de vida ou de morte, que voltam para o caos. E hoje mesmo, pe-rante a possibilidade real de uma catástrofe planetária, não é o caos destrutivo que nos ameaça? Caos e Ritmo procuram pensar o que nos acontece, ao nível mais concreto do inconsciente, do sensível e do corpo, bem como ao nível mais abstracto do pensamento e da visão. É um livro sobre a criação, sobre os seus poderes e os seus impasses”.

● Sobremaneira, este último parágrafo parece resumir todo o horizonte da Obra; e lembra, igualmente, o composto psico-sócio-antropológico, que o C.E.H.C. sempre tem enunciado/formulado nos seus livros no habitual esquema triádico: A) ‘Sensorium’ (inconsciente e consciente); B) Racionalidade/Inteligência; C) Imaginação (poiética). (= 3/10 + 3/10 + 4/10). Todavia, não há bela sem senão!... A) A galáxia em que o Autor se move é a da pura Fenomenologia contemporânea (iniciada por Husserl). B) Na última frase do texto referenciado do Autor, a palavra e o conceito de criação (aqui como ao longo de todo o Livro) tanto podem ser a noção profana das artes e das ciências, como a palavra religiosa 9


das Teologias e da Bíblia. De resto, o Dualismo metafísico-ontológico de Pla-tão e de Paulo, nunca foi expressamente refutado e condenado, ao longo de todo o Li-vro. Ainda que se veja claramente que J.G. defende, explicitamente, o Monismo Epis-témico. Mas isto mesmo é o que uma Grande Tradição histórico-filosófica tem feito, desde Aristóteles, ao longo de dois milénios e meio. C) Entrámos, pois, num horizonte, em que sempre e por toda a parte, o Caos emerge por Antítese ao Ritmo/Cosmos. De um certo ponto de vista, o Autor faz jus ao princípio sistémico de que o Psico-Sócio-Ânthropos se edifica de baixo (do corpo e suas sensibilidades) para cima! Mas, por outro lado, tudo é examinado e autopsiado ex parte do Objectivo-Objectual, portanto, no esquema sistémico do Objectivo-Objectualismo, que o C.E.H.C. profliga e censura, na medida exacta em que renunciou à aliança (aristotélica) de Matéria e Forma (como constituintes ontológicos) e abriu, tacitamente, o caminho à admissão do Dualismo metafísico ontológico de Platão. José Gil concebe e pressupõe o Aparelho Organísmico Humano estratificado (no seu ser e funcionamento)… porventura, até pela simples razão de não integrar, no seu discurso, de modo entrosado, a Ideia da Evolução darwiniana (que altera, obvia-mente, toda a nossa antiga mundividência). Se esta Ideia estivesse presente, por certo que ele facilmente faria a distinção (histórico-filosófica) entre o paradigma antigo e tra-dicional do ‘Homo Sapiens tout court’ e o moderno paradigma do ‘Homo Sapiens//Sa-piens’ (que, após o conhecimento científico da Evolução da Espécie, deveria refundar a nossa percepção da natureza própria da Espécie: a do ‘Homo Sapiens//Sapiens’). Se tal houvera de acontecer, o Autor (sobremaneira no cap. 10: ‘O populismo e a catástrofe’: pp.436 e ss.) seria muito mais crítico e profundo em matérias sócio-políticas e sociológico-económicas. Embora não cometa, aí, erros que se lobriguem, ele limita-se a repescar temas e assuntos de um qualquer almanaque oficial, com algum distanciamento e sobranceria. Ele não se mostra, sobretudo aí, um Autor engagé. É claro que está certo, ao distinguir o mito do funcionamento da Razão: “O mito é uma narrativa que fornece inteligibilidade, isto é, sentido, à experiência humana através de categorias mentais próprias, diferentes da racionalidade do logos, categorias que relevam da ‘função simbólica’, como diz Lévi-Strauss” (p.46). Com toda a justeza, o mito é configurado no mundo do Imaginário humano. Depois, na sequência de L.-S., J.G. dános uma explicação do fenómeno um tanto obtusa: “Sem entrar em descrições demasiado complexas, lembremos a análise do cruzamento do espelhamento de formas com o espelhamento de forças, e da génese da forma: a sobredeterminação (ou satura-ção) semântica desses objectos advém dos múltiplos fluxos de forças que, desacelerados e cortados, dão origem a símbolos” (ibi, p.47). No confronto (crítico) entre Mythos e Logos, o Autor procura destacar a sua ajuda recíproca (ibi, p.48), não sem referenciar, na linha de muita gente, que o espaço e o tempo das divindades é o Aión, distinto do tempo cronológico, e que é nesse tempo ‘passado’ que se situa o próprio mito (p.48). Por isso, a comunicação oral, que na sua origem é própria do mito, transparece como uma 'encantação', uma ‘sedução e maravilhamento’ (ibidem). Sob o argumento de que a Razão tem raízes irracionais (ibi, p.50), alega-se e conclui-se que há uma base inconsciente na própria Linguagem humana (ibidem). 10


Na p. 53, J.G. afirma: “É verdade que Freud chamava à Metapsicologia ‘a nossa grande mitologia’ (o que se lobriga no saguão é uma ‘teologia cristã-ocidental mítica’…), o que aproxima ainda mais a técnica psicanalítica da terapia primitiva. É tam-bém com essa comparação que Lévi-Strauss termina o seu ensaio, pretendendo trazer uma maior inteligibilidade tanto à psicanálise como à cura mágica”. Reconhecendo que há diferenças entre a literalidade e o símbolo, J.G. fala do composto humano nestes termos: “É, sim, um ser de consciência e de inconsciente. Que significam estas expressões? Tendo em conta que a fenomenologia define a consciência como intencionalidade, ponto de partida de toda a teoria da constituição, é preciso considerar o outro lado da intencionalidade, a partir de trás da consciência, por assim dizer, a que chamaremos a consciência do corpo” (ibi, p.60). E se lhe chamássemos o Sujeito individual concreto e real, que se conhece a si próprio?! Assim, não cederíamos ao logro dos Dualismos metafísico-ontológicos!... Nem que seja como pressuposto virtual… O Discurso do Autor, ao enquadrar tudo e mais umas botas dentro da parelha (metafísica…) Sujeito//Objecto, cria, precisamente, as condições para a admissão tradicional do Vício mortífero do Objectivo-Objectualis-mo e, implicadamente, para a aceitação tradicional, in radice, do Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo, como, além de Descartes e do próprio Husserl, têm feito quase todos os teólogos e filósofos na Cultura (histórica) do Ocidente. Em suma, no Ocidente, somos sempre assaltados por esse ‘Diábolos’ impeni-tente do Dualismo metafísico-ontológico, e esquecemos e condenamos a imperiosa Dualidade epistémica, que é própria e decorrente das leis do Logos. (Como tem explica-do o C.E.H.C.). Confirmando, em termos criticistas, esta temática, leiamos, com atenção, três excerptos de J.G.: a) “Consideremos, primeiro, a noção de impregnação: se ela existe, e se existe uma consciência do corpo ‒ o que parece irrecusável ‒, temos de admitir que nem a consciência nem o corpo constituem duas ‘substâncias’ ou ‘elementos’ separados, que se definiriam por atributos opostos, como no caso da concepção cartesiana, adoptada por Husserl. Pelo contrário, uma tessitura comum atravessa os dois. Qualquer que ela seja, para aceitar tal enunciado, é necessário inverter o ponto de vista cartesiano de um corpo caracterizado por se situar no espaço e uma consciência incorporal. Inverter o ponto de vista significa fazer do corpo e da consciência duas expressões ou manifesta-ções de uma outra instância. Passamos, assim, da fenomenologia à ontologia” (ibi, p. 62). ‒ Quer dizer: passamos ao reconhecimento das Teologias e da Divindade… b) “A impregnação da consciência pelos movimentos do corpo é da própria natureza da consciência. A descrição clássica da consciência como: ‘tomada de consciência’ do objecto diferenciando-o do sujeito implica, curiosamente, essa mesma impregnação. ‘Estar consciente de...’ é, antes de mais, saber imediatamente como aquilo de que se é consciente se insere num contexto (numa paisagem visível); o que não se reduz a uma constatação de existência, mas implica a compreensão das relações que ligam uma coisa às outras e ao meu corpo. A consciência é feita de uma textura que rapidamente a faz devir mapa” (ibi, pp.64-65). c) “Não convém, pois, opor automaticamente consciência e inconsciente ou consciência e corpo. Através do poder de captação imediata das relações ‘sensíveis’, a 11


consciência abre-se ao corpo e ao seu inconsciente (o inconsciente do corpo). Deixa-se impregnar pelos movimentos do corpo iniciando uma transformação descendente ou reduplicando a relação com o objecto para construir a consciência de si no fim de uma transformação ascendente.” (ibi, p.65). ‒ Em suma, a fenomenologia explica tudo e a parelha Sujeito//Objecto pode alargar-se até ao infinito, por forma a manter indestrutível o arqui-arcaico Dualismo metafísico-ontológico!... Há, entretanto, um fenómeno paradoxal, na tríade corpo (próprio…)/imagem/ /consciência, em que o nosso Autor faz uma avaliação certa: Se, de facto, há uma tendência natural para a exclusão (não consciente) do (nosso) corpo na percepção, “o desaparecimento total do corpo (do seu espaço e tempo) é a condição para que as imagens nasçam. Como é que elas adquirem movimento autónomo (uma vez que, na percepção, a captação do movimento das coisas depende do movimento do corpo)? Note-se que a exclusão perceptiva do corpo é como uma antecipação da elisão imaginativa, é já a imaginação que, sob o modo virtual, age sobre os conteúdos da percepção” (idem, ibi, p. 66). Todavia, esta espécie de ‘máquina’ de relacionamento funcional com os elementos daquela tríade, não tem absolutamente nada a ver com os vícios do Objectivo-Objectualismo, ‒ que o C.E.H.C. sempre tem vergastado pelo argumento substantivo de impedir e repudiar, na prática das ciências, a fundamental Dualidade Epistémica entre as chamadas ciências físico-naturais e as ciências psico-sociais e/ou humanas. Desta sorte, não nos restam dúvidas em aceitar a tripartição, que o Autor estabelece entre as categorias da consciência e do pensamento (vd. ibi, p.71): “Consciência vígil ‒ pensamento simples, lógico, pragmático. Consciência do corpo ‒ pensamento por imagens. Consciência de visão [+ intuição] ‒ pensamento puro, visão sem imagens”. É de acordo com a gramática daquela tríade que o nosso Autor fala do confronto entre o mundo exterior e o interior. “Se há consciência da percepção e do mundo, é porque o ponto de vista está e não está no espaço ‒ ou melhor, é num outro tipo de espaço que se ‘situa’. Em segundo lugar, esse outro espaço define uma linha de fronteira entre o interior e o exterior, de tal modo que seria impossível percepcionar o mundo se não se percepcionasse ao mesmo tempo parcialmente o corpo. Vemos o mundo do exterior do interior, da zona de fronteira, que separa o nosso corpo do espaço que o rodeia. Isso faz de toda a zona fronteiriça, a pele, uma consciência ‒ como se víssemos o mundo a partir de cada ponto da nossa pele” (ibi, p.78). Eis por que, etimológica e semanticamente, a consciência é um saber duplicado: saber com! Neste horizonte, pode admitir-se, como se faz no Ocidente, que da mentira nasce a verdade. É esse o slogan de Macbeth (Acto III, cena IV): ‘Fui até tão longe dentro do sangue que, se não atravessar o vau, terei tanta dificuldade em regressar como em avançar’. Para Macbeth, já não há retorno possível depois do assassínio de Duncan, rei da Escócia” (idem, ibi, p.83). Escreve e conclui, com exactidão J.G.: “O crime liga o criminoso ao tempo”, quando a história é verdadeira e o sujeito é real e naturalmente consciente. Eis, igualmente, por que o espaço do sonho não se mistura e confunde com o espaço da realidade; e as transferências psicóticas são possíveis (ibi, p.122). A. Artaud é o grande ilustrador do pensamento mágico (cf. op. cit., pp.123 e ss.), porque sabe muito bem como se entrecruza a loucura e a literatura. Ele chega a esquadriar (na interpretação acertada do nosso Autor (ibi, p.135) três ordens de metafísicas na 12


sua mundividência artística: “Três lógicas de três metafísicas que, ao mesmo tempo, compõem três momentos do tempo ‘histórico’ (sobre este tempo que tem dimensões proféticas e messiânicas o seu pensamento não é muito preciso). Por fim, as três metafísicas são supostas pensar três estatutos ontológicos da realidade: 1º A realidade como nos querem fazer crer que ela é; 2º Essa mesma realidade enquanto ilusão, porque o pensamento de Artaud no-la revela desmascarando as suas origens ‒ Deus enquanto falso ser, a influência, a magia negra, os corpos corrompidos, o espírito como larvas, os órgãos gazosos, os corpos com as partes mal ajustadas e não ajustadas à consciência, etc. 3º A realidade verdadeira do ‘corpo sem órgãos’ ou ‘corpo puro’, isto é, aquilo em que se torna a realidade depois de libertada a vida nos corpos. Esta realidade virá de uma grande ‘revolta integral’, que nos restituirá ‘a vida no que ela tem de mais palpitante e febril’ ”. Este esquema intuitivo visionário tem algo de muito semelhante ao do inglès William Blake!... Uma mundividência crítica e progressista, que é o advento do ‘Ho-mem Novo’, também ele crítico e progressista. Constituem, os dois, o trânsito do paradi-gma do tradicional ‘Homo Sapiens tout court’ para o novo paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ = o que sabe que sabe, no seu mundo interior, e não queima incenso ao Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo, nem às tradições bíblicas institucionalizadas, através de três milénios. Esse é o significado essencial dos três estatutos ontológicos referidos. Esse estatuto ontológico, canalizado pela sabença bíblica tradicional/religiosa não passa de uma ilusão, que é preciso superar e vencer, como é dito em 2º. Essa ilusão é expressa num mundo contraditório e perverso, que partiu do axioma primordial de que o real é uma realidade neutra… Por isso, faz todo o sentido a utilização da perífrase de ‘o corpo sem órgãos’, uma vez que o vero ‘Homem Novo’, ao elevar o seu espírito ao estatuto do ‘Sapiens//Sapiens’, mediante a sua consciência crítica, emergido numa Cultura criticista/humanista, avançada, ganhou a capacidade de olhar para os ‘órgãos do corpo’ de outra maneira, sem tabús nem mentiras ilusórias. ‒ Em resumo, o próprio Cristianismo (paulino) está caduco e ultrapassado; em seu lugar, tem de emergir o que o C.E.H.C. chama Jesuanismo. A própria Bíblia não é um Livro exclusivamente religioso; ele é, primacial e primordialmente, um Livro nacional hebraico. Assim, tanto Artaud como Blake formulam e anunciam uma leitura criticista das tradições (religiosas) bíblicas. Escreve, ainda, o nosso Autor com acerto e convergência connosco (ibi, p.138): “Artaud será Deus [como qualquer ‘Homem Novo’], mas de ‘outro modo’. Porque esse movimento intenso exprime-se através das ‘palavras-acção’ e faz parte das técnicas das respirações destinado a recriar e a refazer um novo corpo e a construir um teatro que se reúna à vida. A passagem da segunda estrutura à terceira exige, por conseguinte, uma fase de devir, ou melhor, de devir do devir. Porque, com a energia da revolta, tudo co-meça a mover-se na segunda estrutura. Fase de processo de identificação, no qual Ar-taud manifesta a sua força e que se estende até às glossolalias. Processo através do qual o homem torna a ser ‘o homem-árvore’. ‒ A unidade identitária do ‘Homem Novo’ (o ‘S.//S.’) é constituída pela síntese indefectível de singularidade e universalidade! Comentando a Weltanschauung de Artaud, escreve o nosso Autor (ibi, pp.148149): “A metafísica surge quando se impelem, para lá dos limites habituais, os meios de 13


realização cénica de um instrumento como a voz, o gesto, a linguagem. Ir para lá da linguagem é entrar numa região onde se descobre o mistério da matéria em que a física e o espiritual já não se distinguem. E esta região é uma região povoada de forças e de magia. Trata-se de alcançar as próprias origens da vida”. É a fonte do Monismo ontológico que, à boa maneira de Espinosa, se pode identificar com Deus. “Por nosso turno, remetemos para a questão que atravessa a filosofia moderna: como filosofar na proximidade máxima da vida? ‒ questão que deverá ser posta em paralelo com a preocupação primeira de Artaud: como construir um teatro que se confunda com a própria vida? […] De tal maneira que, assim como Artaud é levado a conceber uma encenação que é uma ‘metafísica em actividade’, talvez tenhamos o direito de conceber a filosofia como o ‘movimento de um drama’. Teríamos assim duas maneiras diferentes de visar o mesmo fim: fundir pensamento e vida no mesmo núcleo ontológico” (idem, ibi, p.149). Como lembrava Kant, no Prefácio à primeira edição da ‘Crítica da Razão Pura’, a Filosofia é, justamente, esse terreno básico que circunscreve esse ‘campo de batalha destes combates sem fim’. Aí, não se trata, apenas, de opor um sistema contra outros sistemas; mas, outrossim, de combater a doxa e remar contra os oceanos do Poder/Autoridade, que a impõe. Afinal, contra a possibilidade de ter uma opinião, uma ameaça censória, a que Artaud chamava o Perigo. (Cf. ibi, p.152). “Que deverá fazer o Teatro da Crueldade para destruir o teatro e a cultura convencionais? Levar o homem a viver o Perigo ‒ perigo que faz explodir os estratos, os clichés, e dá ocasiões ao irromper da vida” (idem, ibidem), ‒ contra a todos os ‘intelectualismos’, que promovem o status quo e os sistemas. A controvérsia entre Artaud e Derrida (cf. ibi, pp.165-168) não nos interessa… justamente, como já informámos em livro recente, porque é preciso mudar de Deus!... Artaud argumenta ter o ‘sonho de uma vida sem diferenças’; Derrida, por seu turno, argumenta que ‘Deus-Morte é a diferença na vida’. Quanto a nós, achamos que nem um nem outro têm razão. Mas, quanto à mundividência do Psico-Sócio-Ânthropos integral, Cuidado! As tecnologias hodiernas, altamente especializadas, e que são, efectivamente, operacionalizadas por poucos (muito poucos…) conferiram à Ratio, à Racionalidade e suas fun-ções, perante as grandes massas, características feiticeiras (cf. idem, ibi, pp.172 e ss.). Muitas vezes, as suas funções tornaram-se ou ilusórias, ou fictícias ou falsas… A hu-manização, que elas deveriam carrear, tornou-se fictícia e até de efeitos perversos!...

● Escreve o nosso Autor (ibi, p.173): “O capital torna-se ‘o corpo sem órgãos do capitalista, ou antes do ser capitalista’ […] É ‘o movimento objectivo aparente’ que define o ‘mundo perverso enfeitiçado’ do capitalismo. A sociedade ‘constrói o seu próprio delírio’, quer dizer, constrói-se a si mesma segundo o seu delírio”. Os socii, que são a base e a gramática da socialidade e da Sociedade, como que desapareceram por artes mágicas!... 14


Que é feito do Filão psico-sócio-histórico do Humanismo, perante o vendaval das Tecnologias?!... A Tecnocracia levou a melhor, objectiva-objectualmente, sobre o Humanismo, i.e., os Humanos qua Sujeitos livres e responsáveis. Neste capítulo sobre ‘a Razão feiticeira’, José Gil retoma o panorama crítico de Deleuze e o corpo, numa perspectiva fenomenológica. Escreve o Autor (ibi, p.186-7…): “Antinomia: Humanismo/Tecnocracia, que é o mesmo que Passado/Futuro. Medi-da humana (Família, Sociabilidade, Valores morais…)/Desmesura técnica (política de) (desaparecimento do ‘humano’). “Razões da Antinomia ‒ redução do real ao que é pensado à escala macro-humana: o que é evidente para a Tese. A Antítese afirmará que a única solução é adaptar a acção a programas. Decomposição das capacidades e das forças em ‘competências’ cada vez mais finas. “No primeiro caso, identifica-se a vida com o ideal (a finalidade da vida é ideal). No segundo caso, o objectivo da vida é a produção da vida algoritmizada (sendo toda a finalidade particular submetida a esse objectivo geral desejado-despótico). “Dado que a vida não tem outro fim senão ser e perseverar no seu ser: o fim da vida é a vida… a perversão do ideal equivale a reduzir-se a vida a uma ideia; e a perversão do real é reduzir a vida a um objectivo tecnológico ‒ a vida submetida a isto, àquilo; a vida submetida à educação, fazendo-se da aprendizagem de competências o objectivo da educação…” ‒ a vida submetida a tudo mais umas botas!... ‒ O fenómeno do Poder-Dominação d’abord, isso muito raramente é feito objecto de recensão crítica!... A vida individual, essa é sempre objectual e humilhada/sacrificada!... Quanto à solução deleuziana da Antinomia, escreve o nosso Autor (ibi, pp. 187188): “O real da vida não é nem a figuração macro de uma ideia (o Ideal), nem o movimento esquizo do capitalismo; nem é alcançável recusando a técnica e as tecnologias, nem desenvolvendo estas para as aplicar depois ao homem, salvando-o da sua finitude e morte. Tanto a Tese como a Antítese opõem o homem à máquina ‒ não vendo que o desejo é maquínico e que a natureza é desejo; tanto de um lado como do outro as máquinas compõem o grande plano de imanência do universo”. Quanto aos conceitos de Experiência e Experimentação, na óptica de Deleuze, diz J.G. que Deleuze pretendia substituir a ideia de Experiência pela da Experimentação (ibi, pp.190-1); mas que, afinal, manteve as duas categorias. De facto, operar essa substituição seria um Erro/categoria: seria, afinal, eliminar a última prova do humano, em termos psico-sócio-antropológicos. É o próprio J.G. que se mostra de acordo com esta nossa injunção conclusiva/ /crítica: “Contrariamente à experimentação científica, que apaga a subjectividade, a experiência experimentada transforma a subjectividade ordinária, fazendo-a desposar o próprio movimento das coisas, criando o plano da subjectividade filosófica” (ibi, p.193), no horizonte de um Mundo humano da imanência, onde, no fim de contas, a Consciência (crítica) não foi eclipsada. No entanto, não se pensará em estabelecer qualquer enclosure para essa Imanência, como se ela ficasse definitivamente encerrada em si mesma, sem abertura ao transcendente. O próprio J.G. escreve (ibi, pp.208-9): “Diremos então que: 1. O invólucro que compreende e liga os termos em presença é inconsciente. A transmissão é ins15


tantânea, não se efectua ‘deslizando’. 2. A descodificação é universal, tendo a matéria informe e transcodificadora a capacidade de definir toda a espécie de códigos. Por exemplo, as técnicas das respirações e dos mantras vão muito além dos códigos respiratórios rítmicos ou das sonoridades, compreendendo também qualquer outro código possível, de tal modo que a transcodificação põe a nu a vida. É o que se joga nos exercícios de ioga. São forças de vida (e de morte) que finalmente circulam ente os sujeitos”. É aí, ao descrever os exercícios do ioga, que J.G., falando de concentração da consciência no corpo, trata da interligação do inconsciente e da consciência, até concluir pela admissão da tese (que é também do C.E.H.C.) de que só o monismo da imanência pode eliminar o tradicional (platónico-paulino) pensamento dualista. Eis (ibi, pp.211-212): “O iogui desposa, assim, a vida do corpo transformada em energia vital. Concentra-se em si próprio e opera uma dupla transmutação na energia do corpo, trazendo-a à consciência quando ela circulava nos órgãos inconscientes, e transformando-a em energia subtil. Uma última operação vai dissolver a dualidade ‘ligada à inconsciência’. Trata-se de uma operação complexa que implica a neutralização e fusão dos sopros. A cessação absoluta da perturbação dos contrários é, assim, abolida. Deste modo, só o monismo da imanência pode varrer o pensamento dualista”. Ele confirma essa Ideia (feliz), quando, no horizonte de Huygens, assevera: “A noção de forma (como união de dois corpos, de duas proporções de movimento e repouso, e não já, como em Descartes, da união substancial da alma e do corpo) assegura a proporção de movimento e repouso num organismo ou indivíduo” (ibi, p.228). Confirmando este mesmo panorama, escreve ainda (ibi, p.230): “Por isso, o ‘método’ da invenção, contrariamente ao método geométrico, adequado aos conceitos e demonstrações, ‘opera no ‘indecidível’ (espinosiano)’. O discurso e os conceitos são pois incapazes de captar o singular”. A chave espinosiana do problema encontra-se ‒ refere J.G. (ibi, pp.233-4) ‒ no final do Livro V da ‘Ética’, na proposição 23 e seu escólio: “A Alma humana não pode ser inteiramente destruída com o Corpo, mas alguma coisa dela permanece que é ‘eterna’. A Alma não pode durar eternamente enquanto concebe o corpo no tempo, porque deixa de durar quando o corpo deixa de existir. Na medida em que ela concebe isso mesmo como uma ideia clara e distinta, há qualquer coisa de eterno no modo como concebe o corpo, pois tudo o que é concebido clara e distintamente por noções comuns existe no pensamento (essência) de Deus”. ‘Cogito, ergo sum’ de R. Descartes. O sujeito (‘eu’) deste enunciado ‒ lembra J.G. (ibi, p.248) ‒, mediante a inferência ontológica, apreciada por Espinosa, torna-se, ipso facto, ontológico: “A inferência que torna esse mesmo sujeito como ontológicamente existente (escondido que está no sujeito do enunciado) é propriamente ontológica. A inferência ontológica transforma os enunciados lógicos indecidíveis em certezas ontológicas inquestionáveis. É o que faz Espinosa no Livro V da ‘Etica’.” Sobre a formação da relação entre eu e o outro. Ainda na óptica certeira de Espinosa ‒ lembra J.G. (ibi, p.262) ‒: “É na relação com o outro que se forma o ‘eu’. Projecta-se um feixe de afectos sobre o corpo do outro que os vai unir e individuar, formando a figura de um ‘eu’. O eu é primeiro o ‘outro’ antes de ser meu (eu)”. Sobre os mecanismos entre o inconsciente (latente e manifesto) e a consciência. Escreve J.G. (ibi, p.279): “Entre o corpo e o pensamento, fazendo a ponte entre os dois, 16


situa-se o inconsciente do corpo”. É, assim e por isso, que Platão, nos Diálogos, quando não atinge a Ideia, recorre ao Mito!... “O inconsciente é a faculdade do intervalo, dos espaços vazios e das distâncias. Claro que, para aquela comparação entre imagens, a consciência é requerida (a imagem inicial orgânica é consciente); mas o inconsciente trata todo o tipo de conteúdos, consciente e inconsciente (para analisar e separar o rochedo do solo, o inconsciente teve de lidar com a imagem inicial consciente). De facto, o trabalho do inconsciente consiste em analisar, separar, comparar, classificar” (idem, ibidem). A questão de saber, operacionalmente, como nasce o espírito (em termos fisiológicos e psíquicos) no bébé, a partir do corpo da mãe. Apesar de longo, é útil e pertinente citar o parágrafo seguinte do nosso Autor (ibi, pp.281-2): “A fim de examinar como se opera a passagem do corpo para o espírito, constituindo-o, pelo ritmo, resumamos primeiro o processo que acabámos de descrever. Antes de ser capaz de partilhar afectos, a criança não tem o sentimento de si como eu (self) subjectivo autónomo. Ao partilhar afectos com a mãe, reconhece-se (no espelho), unificando o sentimento de si num corpo (uno) e num ‘espírito’ (‘eu’). Este último forma-se pela unificação daquilo que, no sentimento de si, não vai corresponder ao corpo percepcionado (a distância vazia que me separa do outro). O corpo é unificado numa só imagem (apoiada no sentido do corpo coeso e contínuo do ‘eu-núcleo’), mas qualquer coisa vai para além dela, qualquer coisa que subjaz ao movimento autónomo da imagem, qualquer coisa que aparece como um acréscimo relativamente à imagem reflectida no espelho. Os movimentos do corpo que a criança executa diante do espelho não dão imagens incompletas, não unificadas, não coesas, que partem de um fundo obscuro, mas sim uma imagem de um todo uno e consistente. Esta imagem do corpo unifica, portanto, não só as imagens visíveis reflectidas, como o fundo ignorado para que remete a distân-cia de um nada que delas me separa), inacessível que não lhes corresponde. Ao unificá--lo, transmuta o todo visível e reifica-o. Assim se constitui o ‘espírito’, como todo unifi-cado que transborda o corpo (mas sem contornos visíveis, ao contrário do corpo). Ao absorver o fundo para o transformar, a imagem no espelho não só forma o todo do corpo próprio, como dá realidade ao espírito uma vez que o isola em si, para além do corpo. Resumindo, o espírito é o que, vindo do sentimento de si, é unificado fora da imagem do corpo (fora, pois, de toda a imagem). Adquire vida e movimento próprios: dir-se-á dele, ou do pensamento que o manifesta, que ‘corre’, descobre, salta, acelera… Tal co-mo o corpo”. O Autor explicita e resume o processus da formação do espírito, no parágrafo seguinte (ibi, p.283): “O que faz a máquina rítmica? Cria o afecto comum, graças ao ritmo amodal que traduz uma modalidade (o gesto do braço) noutra (a voz); e o afecto comum apresenta-se à criança como um conteúdo psíquico próprio da sua subjectivi-dade, incorporal (ao mesmo tempo que lhe revela a subjectividade da mãe). A máquina rítmica traduziu movimentos corporais em movimentos psíquicos, instaurando a autono-mia substancial do 'espírito' ”. A consciência e a experiência do Indivíduo-Pessoa são a Raínha. A ‘Experiência experimentada’ (segundo Deleuze e J.G.) são já outra realidade, que nem por isso obtém o primado psico-ontológico sobre as primeiras. Escreve J.G. (ibi, p.291): “Chamámos a este tipo de experiência construída, ‘experiência experimentada’. Através de17


la, e com aquelas práticas, acede-se ao inconsciente ‒ e o filósofo também o pode fazer (com a diferença de que este último chega lá por meio de conceitos). O trajecto é sem-pre o mesmo, quaisquer que sejam os meios utilizados para lá chegar (cerimónias, dan-ças, transe, drogas) ‒ consciência → inconsciente do corpo → caos. Visa-se o caos para se poder percorrer o trajecto inverso, transformado. Assim, pode-se considerar que o ‘corpo subtil’ do ioga é a zona do inconsciente construído: caos → inconsciente (corpo subtil) → visão (samâdhi). É por ser construída, isto é, experimentada, que a experiên-cia atinge o inconsciente. É o objectivo da experimentação, a que se submete a experi-ência e com a qual se vai transformar”. Sobre a lógica da envolvência: do corpo ao espírito: Na perspectiva da ‘Ética’ de Espinosa (Livro V) ‒ escreve o nosso Autor (ibi, pp.309 e ss.) ‒ o involvere de B.E., nessa Obra, designa: “a envolvência lógico-matemática, a envolvência corporal por ‘encaixamento’, digamos, ‘fractal’ (a proporção de movimento e de repouso que define um Indivíduo complexo ‘envolve’ as mesmas proporções que definem os Indivíduos simples, compondo estes aquele, da mesma maneira que os pêndulos de Huygens; e ainda a envolvência de Deus em cada essência singular” (p.309). Outro asserto de grande amplitude, no aparelho dedutivo da mente: “Em toda a dedução que implica uma ‘cadeia de razões’, a conclusão e o raciocínio, como já o afirmava Descartes, subentendem a ‘intuição’, isto é, a apreensão imediata e instantânea da inteligibilidade do conjunto, ou ainda de uma certa conexão global do conjunto” (ibidem). Sobre as dificuldades de divisão/oposição do par tradicional corpo/espírito, escreve o nosso Autor (ibi, pp.329-330): “Se a filosofia moderna mostrou sobejamente que o corpo humano não é um objecto situado no espaço euclidiano e no tempo cronoló-gico, não sabe, no entanto, caracterizá-lo, epistemológica e ontologicamente, com clare-za. Nem a ‘unidade psico-física’ de Husserl, nem o ‘terceiro género de ser’ de Merleau-Ponty, nem as várias propostas das neurociências (como as de Francisco Varela e de António Damásio), nem mesmo, talvez, o ‘corpo sem órgãos’ de Deleuze, nos transmitem a evidência de uma singularidade irrecusável do corpo relativamente às diferentes coisas do mundo. Apesar do esforço crescente, científico e filosófico das últimas décadas, continuamos dependentes da velha dicotomia corpo/espírito: ora privilegiamos a natureza física do corpo, ora o espiritualizamos de tal maneira que se torna irreconhecível. Nem as mais sofisticadas tentativas ‒ como nos estudos recentes que combinam as neurociências cognitivas e a fenomenologia ‒ apresentam abordagens que abram para novos campos de investigação prática e teórica”. ‒ A razão deste mal-estar na resolução daquelas dificuldades resulta das duas grandes ‘heresias filosóficas modernas’: o Monismo epistémico (em lugar da Duali-dade Epistemológica, como tem ensinado o C.E.H.C.) e a ‘lei da inércia’ filosófica do Objectivo-Objectualismo (nas ciências e na própria Filosofia). O Ocidente moderno, sobremaneira, construiu todo um Edifício cultural e científico ferreamente estruturado em casinhas (ou áreas…) constituídas aos quadradinhos separados uns dos outros… A grande desgraça (além de outras…) é esta: afirmamos solenemente que a consciência entra no campo do inconsciente, através, precisamente, 18


da sua dimensão afectiva (cf. ibi, p.348). E a Inteligência (com a sua gramática objectiva) não assume, volens/nolens, uma dimensão afectiva?!... É o que defende o nosso Autor, quando escreve (ibidem): “Não temos, pois, de decidir se o trabalho é realizado pela consciência ou pelo inconsciente, uma vez que a consciência, através do seu próprio inconsciente afectivo, entra no inconsciente. Não há que valorizar esta ou aquela instância: as coisas passam-se assim simplesmente”. Entretanto, é o próprio J.G. que declara que o nosso cérebro é ‘inobjectivável’. “’Inobjectivável’ significa que não é objecto e não é pensamento. Mas vai de um para outro e pode traduzir um no outro, expressar-se como objecto (o cérebro das neurociências) e como sujeito (o cérebro que pensa). Em particular, convém precisar que relação entretém com o corpo” (ibi, p.356). O Dualismo ontológico e o Objectivo-Objectualismo persistem na base da mente do nosso Autor, ao abordar as questões da relação entre a linguagem e o pensamento. Eis (ibi, p.372): “Separando cada vez mais rigidamente o léxico que designa a natureza material dos corpos do léxico que nomeia as coisas do espírito, desvalorizando cada vez mais o peso ontológico das metáforas, símbolos e imagens, a linguagem tornou-se cada vez menos apta a sair do pensamento dualista. Mas há certamente uma razão mais profunda, que explica a resistência em pensar positivamente a imbricação corpo-espírito, isto é, a sua ‘natureza’, enquanto substância ou ‘coisa’ una”. ‒ Essa resistência não teria lugar, se, em vez do paradigma do ‘Homo Sapiens tout court’, adoptássemos o vero paradigma (postergado) da Espécie humana: o ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Com Deleuze, o nosso Autor aguarda o fim da própria ontologia (cf. ibi, p.373): “No universo, tudo é fluência e mutação, infinitamente. De certo modo, é o que marca o fim da ontologia [clássica e dualista…]. Deleuze, nas obras finais, afirma que a forma verbal clássica da ontologia, ‘é’, devia ser substituída por ‘e…e…e…’. Movimento infinito de devir, e ‘o Chaos no fim de tudo’, o ‘Chaos que nos procriou ‘(Pessoa)”. ‒ Por trás desta universovidência, está ainda o modelo da simetria/harmonia estática, e a recusa implícita da Evolução (darwiniana, etc.). Às teses sobre o Uno e o Múltiplo, o Autor contrapõe as das Multiplicidades (desordenadas…): “Ora, só a posição de multiplicidades em devir, como movimento do real, assegura a existência de um inalgoritmizável imanente (como, reciprocamente, só este garante a existência de multiplicidades). Se em vez de multiplicidades se afirmasse, o Múltiplo ou o Uno, o incodificável compreenderia em si qualquer coisa como um ‘algoritmo mestre’ de onde derivaria todo o real; e a posição de imanência estaria comprometida, pois a instância do Incodificável tenderia a sobrepor-se, em transcendência, a todo o real (como o algorismo mestre não apresenta uma razão para si mesmo, e como a sua existência exige essa razão ‒ por exemplo, enquanto Deus causa sui ‒, seriam naturalmente levados a defini-lo por qualquer obscuridade e mistério inacessíveis ou abissais, isto é, transcendentes). Enfim, se as multiplicidades declinassem o Múltiplo, visando o Mesmo, teríamos um movimento que fecharia a proliferação das diferenças” (cf. ibi, ibidem). ‒ A argumentação deste parágrafo procede com os mesmos vícios, já assinalados anteriormente, numa tonalidade criticista. O nosso Autor recorre, depois, a textos de Hesíodo e Raynal Sorel sobre a explicitação do Caos (cf. ibi, p.376): “Para Raynal Sorel, o Caos inaugura o aparecimento das 19


coisas, não porque as engendra, mas porque se retira. Na verdade, é porque o caos se retrai que as coisas podem ser nomeadas, porque podem ser diferenciadas, discerni-das: ‘Khaos é a palavra que se impõe quando se trata de pôr ordem. É a grande lição he-siódica que devemos reaprender. O Caos é a resposta espontânea das Musas à demanda não só humana mas também divina de começar pelo começo (έ ξ ἀϱхή ѕ) a fim de des-velar o que se desenrola para que o aparecer, na sua diversidade, possa iniciar-se e as-sim devir. Esse início tem a singularidade de ser plural, na medida em que é logo re-portado, por Hesíodo, a um conjunto de representações sucessivas: trata-se de saber co-mo nasceram a terra, os rios, o mar, as estrelas e o céu. […] Caos é pois uma palavra que não pode ser encarada ‒ em todos os sentidos do termo: nem considerar, nem olhar, nem pensar ‒ enquanto a questão do discernimento absoluto não for colocada”. ‒ O Ca-os ‒ como já ensinavam os Gnósticos judeo-cristãos primevos ‒ separa, cerce e basica-mente, o figurável e o infigurável, o manifesto e o oculto, na linguagem mais típica de-les (cf. et. ibi, p.377). É na perspectiva da Evolução e do tempo próprio dos acontecimentos, que o nosso Autor parece aproximar-se (ainda que vagamente) do que o C.E.H.C. chama a noção/paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’: (notio, que ele nunca expressa no Livro, como Harari, e tantos outros): “Transformar o mundo não significa mudar o curso da História, mas nele inscrever os múltiplos tempos do devir. Ora, se o tempo do devir-‘ser-o-contemporâneo-domundo’ se define pelo poder de fazer nascer o tempo (dos acontecimentos), então pode dizer-se que o gesto (a acção) dos contemporâneos supõe um plano ‒ nele se conectam os mais diferentes devires que, mesmo divergindo, consistem entre eles. Um plano de consistência ou de imanência dos laços de contemporaneidade à vida: e da vida à história e ao tempo cronológico-empírico modificado” (idem, ibi, p.403). É que, nesta óptica, a própria razão e orientação da História, que evolui e se vai fazendo, tem a sua própria primeira ‘fons et origo’ no Psico-Sócio-Ânthropos integral do paradigma ‘Sapiens//Sapiens’. Mas tudo isso não passou de Ilusão: porque o processo da globalização (que estendeu a todo o planeta o presente da ubiquidade (cf. ibi, p.404) ) tornou-se um pro-cessus global inexorável de ‘caotização da vida’ (cf. ibi, p.408). Desta sorte, a própria gramática essencial das Artes, em geral, ao tentar a reversão do interior no exterior, em nome da construção do completo plano de imanência, caotizou-se e dissolveu-se. Num dado, porém, estamos nós de acordo com J.G. (ibi, p.434), é quando ele discute e reformula a noção de criatividade. “Ora, só há criatividade quando o pensamento sai para fora de todo e qualquer sistema de referências ‒ é o que diz Klee quando mostra que o ponto cinzento se situa e se ancora no caos absoluto impensável. Se bem que ‘irradie’ depois, projectando novas dimensões, só a pode fazer criando o novo, fora de toda a dimensão, porque só desse modo as novas dimensões constituirão um quadro inédito de referência. O objecto já não é ‘relativo a’ outros objectos, são estes que de-vem agora referir-se a ele e ao quadro que ele mesmo criou. Quando Picasso pintou Les Demoiselles d’Avignon produziu algo de absolutamente novo (com tudo o que recebeu como influências), não uma obra apenas diferente neste e naquele aspecto, mas um outro sistema de referências para a pintura da época. Criou uma nova singularidade a partir 20


de um ponto irreferenciável, inalgoritmizável, no seio do caos. Eis o paradoxo do novo: ele é, relativamente ao antigo, absolutamente novo”.

● O último capítulo do Livro em questão de J.G. versa O populismo e a catástrofe. A associação destas duas noções/realidades está certa e é indiscutível. O populismo é uma maleita psico-social letal; quando ocorre arruína e destroça toda uma Sociedade, todo um Estado/Nação. Mas, alerta: ele constitui a doença típica e mais destruidora das Sociedades, que ‒ é preciso e urgente dizê-lo, porque nem Marx nem Nietzsche o lobrigaram ‒ ele é próprio e sempre pode ocorrer nas sociedades falsas e hipócritas, que são balizadas e geridas segundo o paradigma do Poder-Dominação d’abord e do ‘Homo Sapiens tout court’. Por definição, isso não se passa nas Sociedades balizadas e orientadas pelo paradigma (novo… porque ainda não existe!...) do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ e da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. Como nós temos aprendido e ensinado no C.E.H.C.. Quem tomou K. Marx a sério?! Quem tomou Nietzsche a sério?! Provavelmente, ninguém. Muitos revolucionários tentaram avançar, para superar e destruir os males e as desgraças gerados pelo Sistema capitalista, mediante as propostas do Socialismo e do Comunismo (como no bolchevismo soviético, no socialismo chinês ou cubano, etc….). Mas, até ao presente, ainda não houve socialismo algum que vingasse. Já na década de ’60 do séc. XX John Kenneth Galbraith chegara, criticamente, no seu Livro ‘O Novo Estado Industrial’, à conclusão clara e certa de que todos esses falsos socialismos não passavam de capitalismo monopolista de Estado (afinal, o avesso do capitalismo liberalista…). Ora, o nosso Autor, nestas matérias, continua a pensar (acriticamente!) segundo os cânones tradicionais, onde prevalece, ainda, o paradigma do ‘Homo Sapiens tout court’ e a Cultura da Potestas Dominação d’abord. Logo no início do cap. Gil diz ao que vem (ibi, p.436): “Marx descreve a transformação que sofre a realidade capitalista quando ‘se instaura um mundo perverso enfeitiçado’ [lembre-se o clássico ‘fetichismo da mercadoria’, que K.M. criticou e combateu, largamente em ‘Das Kapital’ e nas outras obras menores], em que toda a produção, resultado do trabalho e das forças produtivas, parece emanar unicamente do capital. Dois aspectos deste processo interessam-nos particularmente, a fabricação da ‘ilusão’, que envolve todos os elementos da produção; e a sua dimensão universal”. Estes dois aspectos são muito pouco, quer em confronto com a Obra de Marx, quer em confronto com a gramática própria do Psico-Sócio-Ânthropos integral. Refere, logo a seguir, o Autor que Marx insiste na ‘mistificação’ do modo de produção capitalista; num mundo invertido e enfeitiçado (cf. ibidem). O juízo global do Autor pode auscultar-se neste período (ibidem): “O estatuto ontológico do ‘mundo enfeitiçado’, que funciona eficazmente, não só porque toma a aparência da realidade, mas porque é real, intriga Marx, que não parece dar uma resposta clara ao problema”. Isto é, pela negativa, não conhecer bem a Obra de Marx; e, pela positiva, é ficar muito aquém da mundividência criticista do marxismo de Marx. Chega a supor que a realidade ilusó21


ria (mas objectiva) se limita, em Marx, à análise crítica dos fenómenos económicos (cf. ibidem). J.G. completa o seu julgamento global sobre a Obra de Marx, como segue (ibi, p.437): “De facto, Marx mistura constantemente os dois planos, o da transformação perversa do mundo e o seu efeito no ‘obscurantismo da consciência’. Estes confundem-se, não se sabendo como situar a ‘aparência real’ dos mecanismos enfeitiçados objectivos relativamente à ‘verdadeira natureza’ da realidade. Como é nítido neste trecho: ‘a mistificação do modo de produção capitalista, a reificação-metamorfose das condições so-ciais materiais em coisas ‒, a fusão imediata das condições de produção com a sua determinação histórica e social parecem acabadas; é um universo enfeitiçado, pervertido, um mundo virado do avesso, de que Monsieur le Capital et Madame la Terre [em francês], ao mesmo tempo caracteres sociais e simples coisas, conduzem a dança macabra’”. De certeza, que J.G. não conhece a gramática científico-cultural do Psico-Sócio-Ânthropos completa e integral!... A escola da fenomenologia, quando reduz analiticamente toda a realidade a fenómenos (com o mérito bastardo de começar a dissipar as más metafísicas…) chega a impedir-nos de conhecer e ver crítica e holisticamente ‒ co-mo cumpre ‒ toda a Realidade panenvolvente do Psico-Sócio-Ânthropos. Em termos de Pensamento crítico e global, podemos afirmar que, K.M. (no campo das ciências psico-sociais e humanas) prossegue no mesmo horizonte, holisticamente criticista, que adoptou, na ciência da Física do Cosmos, A. Einstein, ao postular e estabelecer a unidade indissolúvel do espaço e do tempo. Ora este princípio da Física moderna/contemporânea desloca o absolutum primacial do espaço e do tempo para a Consciência humana, qua tal, de cada Indivíduo-Pessoa. Sendo a ‘eternidade’ conceptualmente simétrica ao Tempo, a noção desta, em Tomás d’Aquino, reforça a presença de Deus como a testemunha da Verdade na própria Consciência humana. Diz o Doutor Angélico, na Summa Theologiae: ‘Aeternitas est interminabilis vitae, tota simul ac perfecta possessio’! A posse perfeita e totalmente simultânea de uma vida interminável. Por isso, anelamos pela vida urgente do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, cuja vida há-de ser actuada como uma multiplicidade de divindades, convivendo pacífica e harmoniosamente. (‘Ego dixi: dii estis, et filii Altissimi omnes’: Ps. 81,6). Guardemo-nos de pensar Deus como o criador do Universo… Teilhard de Chardin considerava que Deus seria o ‘Ponto Omega’ da Evolução. O que só pode acontecer mediante a evolução dos Humanos para o seu paradigma específico: o ‘Homo Sapiens// //Sapiens’. F. Nietzsche não está muito longe de nós, nem de Marx, nem de Teilhard. É aqui que J.G., de algum modo, acaba por convergir connosco. “Quando, na Gaia Ciência, depois de fazer tábua rasa de todas as filosofias e concepções do Universo, Nietzsche chega ao caos, este parece ser o último pensamento irrecusável ‒ porque, precisamente, impensável, inqualificável e informe. ‘O carácter do mundo como realidade é, em contrapartida, o caos para toda a eternidade, não no sentido de ausência de necessidade, mas no sentido de ausência de ordem, de articulação, de forma, de beleza, de sabedoria, seja qual for o nome que se queira dar a todas as nossas categorias estéticas humanas. Apreciados do ponto de vista da nossa razão, os lances falhados são de longe a regra, as 22


excepções não constituem o secreto objectivo […]’. O caos do Universo não é subsumível por nenhuma das nossas categorias, está fora do nosso alcance: ‘Mas como poderiamos nós criticar ou louvar o Universo! Guardemo-nos de lhe atribuir insensibilidade e irracionalidade ou os seus contrários: ele não é perfeito, nem belo, nem nobre, nem pretende ser nada disso, não aspira, de modo algum, a imitar os homens!’ ” (ibi, p.437). Há outros parágrafos de J.G., em torno de Nietzsche, que estão em convergência connosco. Por exemplo: ‒ “Todo o pensamento de Nietzsche se funda na ideia de um caos primordial, que retira ao conhecimento a pretensão de chegar à verdade ontológica. [Mas… com a fenomenologia acontece o mesmo!...]. Quando, no parágrafo 110, retrata, em termos muito gerais, a genealogia da noção de verdade, começa por notar que durante ‘enormíssimos períodos de tempo, o intelecto não produziu senão erros’ que pressupunham certos princípios enganadores (como ‘há coisas que permanecem; há coisas idênticas; existem coisas, substâncias, corpos’, etc.). No entanto, eram úteis à vida (por exemplo, as crenças e representações mágico-religiosas, as mitologias das sociedades arcaicas eram necessárias à sua sobrevivência). ‘Só muito tarde surgiram os que contestaram ou puseram em dúvida esses princípios, só muito tarde a verdade surgiu, enquanto forma menos forte do conhecimento’. Nietzsche não descreve o processo de formação dos erros e das perspectivas. Mas indica o modo como essas ideias adquirem a força da crença, ‘a força dos conhecimentos não reside no seu grau de verdade, mas sim na sua idade, no seu grau de incorporação, no seu carácter como condição de vida’ (ibi, p.438). Para além da utilidade e do prazer, contribuiu para isso a sua condição de serventuários dos Poderes Estabelecidos. ‒ Outro exemplo, que nos levou à noção do ‘caos primordial’: “A partir destas questões levantadas por Marx e Nietzsche, procuremos responder apenas a um problema: o que é uma realidade construída, aparente mas real (Marx), fictícia mas útil à vida (Nietzsche) ‒ e nos dois casos, objecto de adesão e crença? “Devemos previamente ‒ para esclarecer o que significa ‘construir’ ‒ determinar se o processo de construção da realidade (segundo uma perspectiva ou visão) parte do caos, ou do nada ou de uma coisa. Se a construção é pura e completamente ilusória relativamente a um real preexistente mas inacessível, ou se parte do nada. Se adoptarmos a leitura de Raynal Sorel de Hesíodo, partimos de dois enunciados: 1. Não há criação ex nihilo; 2. Não há (o) nada antes do caos” (ibi, p.440). Esta é, no fim de contas, a Grande Quaestio da Dualidade Epistémica, que o C.E.H.C. estabeleceu desde as suas origens. ‒ Um terceiro exemplo: “Na verdade, o retraimento do caos provém da força-desejo de existir que define a vida. E, certamente, do desejo de conhecer (enquanto, diria Nietzsche, vontade de potência, ou enquanto constituinte do conatus, como diria Espinosa)” (ibi, p.441). ‒ Um quarto (e último) exemplo: “Quando os sinais apresentam uma ordem objectiva que contraria o desejo de conhecer, este deixa de ser hegemónico a partir de um certo limiar. Aquém desta fronteira, o pensamento pode envolver e ordenar os sinais do caos, subtraindo-lhes a neutralidade e obedecendo apenas à sua lei (a curva do seu desejo). Mais exactamente, a pulsão afectiva recobre, numa visão envolvente, os índices de ‘qualquer coisa’ que se move no caos, ultrapassando-os em muito (preenchendo, sem 23


sinais de realidade, o espaço vazio que se estende para além deles). Assim, nasce a perspectiva sobre a realidade, necessariamente ‘enganadora’, não objectiva, construída” (ibidem). Aqui entra a explicação original de K. Marx. Curiosamente, a partir da ‘Genealogia da Moral’ de F.N., pode ver-se, claramente, como ele próprio chega a convergir com K.M., a propósito da questão do ‘bom’ e do ‘mau’. ‘A sublevação dos escravos, na moral, começa quando o ressenti-mento se torna, ele próprio, criador e engendra valores: o ressentimento desses seres, a quem a reacção verdadeira, a da acção, é interdita e que só uma vingança imaginária pode indemnizar’ (cf. idem, ibi, p.442). Nos dois parágrafos seguintes (ibi, p.447), que vamos citar, J.G. não se dá conta do que é, veramente, a Consciência humana do ‘Sapiens//Sapiens’, em esquema ternário, como é imperioso: Sujeito/Objecto/Testemunha, e, por conseguinte, capaz de Dialogar com o Outro, em pé de Igualdade, sem metáforas, em demanda da Verdade. Ora, precisamente, porque esse modelo psico-sócio-antropológico é dessa natureza consistente, a I.A. (Intelig. Artif.), por mais aperfeiçoada que seja, nunca poderá disputar com os Sujeitos humanos, livres e responsáveis, o mesmo estatuto e condição, que são os deles: em suma, a sua semelhança vera e real é com a dos melhores animais domésticos, bem adestrados e domesticados, não com os Seres Humanos, dotados de Consciência real. Este é um princípio ontológico, que não tem necessidade de entrar na ‘fortaleza da metafísica’ (destruenda, como propunha J. Derrida). ‒ “O poder mágico do corpo define-se como garante da impensabilidade (e, portanto, da não algoritmização) da sua génese. Como vimos, é este mesmo poder que dá vida e é criador de pensamento, e põe em movimento a afectividade dos corpos e a sua convivência. Se se pensar que a perspectiva enganadora, ao tomar-se por absoluta e evidente, supõe a pensabilidade do seu processo de criação ‒ delegando-o para um intelecto transcendente divino ou para um poder demiúrgico humano (da ciência e da técnica, por exemplo) ‒, conclui-se que a fabricação de um corpo despojado do seu poder mágico corresponde também a uma certa ideia enganadora do corpo, isto é, de um corpo não criador de real, com uma autenticidade bem definida por algoritmos. Um corpo humano com um movimento objectivo aparente”. ‒ “O objecto técnico e o corpo. Será que a ‘artificialidade’ entra no critério de destrinça que procuramos? [O critério de destrinça é a Consciência humana, qua tal]. Até onde pode ir a transformação tecnológica do corpo, sem que a própria ‘natureza hu-mana’ se modifique radicalmente, tornando-se estranha e hostil para si mesma? Ques-tiona-se a relação entre a técnica e o corpo ou melhor, entre o objecto técnico e o cor-po, porque se pressupõe que houve um ‘momento’ ‒ mesmo que não datável como um acontecimento, mas antes como série de acontecimentos acumulados ‒ em que a ferramenta deixou de ser um prolongamento do corpo para dele se desprender, submetendo-o, enquanto dispositivo com uma lógica própria. Admitindo esta hipótese, é claro que a manipulação do corpo, através de dispositivos tecnológicos que já não dependem dele, visa necessariamente a sua transformação num objecto técnico, com um alto grau de complexidade. Por exemplo, a inteligência artificial requerida para a construção desse novo corpo moldá-lo-á segundo determinados algoritmos. Obter-se-á, então um corpo 24


virtual objectivo em conformidade com uma visão geométrica ‘enganadora’ (do que deixou de ser, mas parece ser, um corpo humano)”. ‒ Se essa hipótese, de que acaba de falar J.G., se concretizar, então isso é sinal ‒ e prova real irrefutável ‒ de que as Sociedades humanas actuais, mesmo técnica e cientificamente desenvolvidas, não passaram nem evoluíram do ‘Homo Sapiens tout court’ para o patamar do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Este é um salto psico-sócio-antropológi-co, que requer uma vera e autêntica Refundação das Sociedades Humanas, no rumo do vero Socialismo, que ainda não existiu, de facto: no rumo, não da obediência e sub-missão aos Poderes Estabelecidos, mas da nova Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial de cada Indivíduo-Pessoa/Cidadão. A Relação (racional e universal) , que os Iluministas e os Enciclopedistas do séc. das ‘Luzes’ instauraram com os objectos técnicos não se exprimiu nem traduziu em qualquer corte radical com o mundo (o que ainda prevalece, então, é o trabalho do ateliê e não da fábrica (industrial), que só floresce e se desenvolve, sans ambages, no séc. XIX). “Os Enciclopedistas ‒ escreve o Autor (ibi, p.449) ‒ conheciam e engrandeciam o moinho de vento […]. A frustração começa com a máquina que substitui o homem, como a tecelagem automática, com as prensas de forja e com o equipamento das novas fábricas; são as máquinas manipuladoras de ferramentas que o operário parte nos mo-tins, porque são as suas rivais, não os motores. O progresso do séc. XVIII deixava intac-to o indivíduo humano, porque este permanecia um indivíduo técnico, no meio dos seus utensílios de que ele era o centro e o utilizador. A angústia nasce das transformações que trazem com elas a quebra dos ritmos da vida quotidiana, tornando inúteis os antigos gestos habituais”. Como muito bem previra Marx e Engels, no ‘Manifesto do Partido Comunista’ de 1848 (o ano da pretensa ‘Revolução dos Povos’ ocidentais), e como não se soube abrir os novos Caminhos das Sociedades Socialistas ‒ como historicamente se impunha ‒, a Humanidade prosseguiu nas suas distopias erradas, até hoje!... J.G. descreve (ibi, pp.449-450) as três etapas histórias dessa via errada: “A partir de Simendon pode, então, distinguir-se duas grandes etapas da história das transformações da relação do homem com a realidade, graças ao trabalho dos objectos técnicos. [a)] A primeira mostra um laço em que a ferramenta não faz mais do que prolongar os gestos do corpo, dando-lhes mais eficácia e ligando ‘maquinicamente’ o corpo, como diria Deleuze, isto é, técnica e magicamente, à natureza. [b)] Numa segunda etapa, a constituição de indivíduos técnicos completos faz com que a máquina substitua o homem, cortando o seu laço com a realidade (o que já se anunciava na etapa anterior, através da racionalização do objecto técnico). As grandes unidades fabris substituem os ateliês de artesãos, a agricultura é mecanizada, os transportes (comboios, na-vios, carros, aviões) desterritorializam radicalmente o homem do seu território natal. Marx refere-se a este universo como a uma realidade enfeitiçada. É este universo que vai prevalecer no séc. XX, e dura ainda hoje (se bem que em plena transformação). “[c)] Uma terceira etapa está em curso. A tecnologia de informação, que se desenvolveu na segunda metade do séc. passado, acentuou o corte do homem com o mundo natural, criando um outro mundo separado e virtual. Não se trata já de substituir o homem pela máquina, mas de substituir o mundo por um universo mecanizado. O uni25


verso virtual, como ponto culminante da história da construção da realidade enfeitiçada, emerge ao mesmo tempo que se acelera a caotização do mundo anteriormente constituído”. É, pois, preciso e urgente ‒ é o Alerta global de hoje ‒ ordenar, cosmizar e humanizar as Sociedades e o Mundo (caotizado globalmente) de hoje. Ou se põe ombros a este Magno Empreendimento, no processus de uma Globalização Alternativa (capaz de cuidar do singular e individual), ou a Humanidade perecerá, através de catástrofes cósmicas e pela redução ao ‘caos primitivo’!... Escreve J.G. (em perfeita convergência connosco) (ibi, p.451): “A máquina é incapaz de capturar e incorporar o tempo cósmico ou, em termos simples, de ‘parar o tempo’. Isto é, reduzir o corpo a uma máquina totalmente algoritmizável. O corpo é uma máquina inalgoritmizável, que contém em si o princípio da impossibilidade de ser absolutamente algoritmizada. O corpo funciona porque não é uma máquina deste tipo, é um corpo criador do seu Tempo, com o Tempo. Neste sentido, Deleuze e Guattari desenvolveram a sua visão do corpo-máquina, não mecânica, mas em permanente devir. O desejo é desejo de agenciamento e criação”. Contra esse Mundo à beira do Apocalipse, desconjuntado, arruinado, erguido no interesse e a favor dos ricos e poderosos, é preciso e urgente que, em estrito regime democrático, as Sociedades humanas e as Nações tomem conta da reconstrução e da melhoria real do Mundo, em nome e a favor de todo o Povo. O ‘Antropoceno’, como era geológica da Terra e o Sistema capitalista hegemónico já comprovaram que as próprias Alterações Climáticas constituíram-se como obra do Homem e do sistema político-económico vigente. A própria globalização, tal como está orientada, continua a encarar a Natureza e o Mundo como simples matéria prima a favor, hegemonicamente, dos ricos e poderosos. Ora, é, por isso, necessário e urgente pensar em outros sistemas (operacionais) de cooperação e promoção da união e harmonia entre a Humanidade e a restante Natureza. Por exemplo, onde está e por onde caminha a tão desejada globalização Alternativa ao Sistema capitalista, que é da sua própria índole (como a História tem provado…) ver apenas o Planeta Terra como Objecto e Matéria Prima (industrial), para uso e abuso, sem se dar conta da situação pobre e miserável da maioria dos Humanos? Como se tem apostado, genericamente, na mudança para as energias renováveis, a fim de impedir que a Humanidade venha a cair e a desaparecer na nova catástrofe planetária, que se aproxima a passo estugado?!... Continua-se a conquistar e capturar tudo e mais umas botas!... No Boletim ecológico ‘PELA VIDA ‒ 1978’ ‒ 40 Anos do Festival pela Vida e contra o Nuclear, (de 31 de Agosto de 2018), há (p.3) um artigo importante do Prof. Jacinto Rodrigues, com um título expressivo e muito bem apropriado: ‘Das lutas Ecológicas à Ecosofia’. Depois de fazer um pouco de história das Lutas ecológicas, entre nós, (a começar, mais decididamente, no combate de 1978, contra a central nuclear, que o Governo de Madrid se havia proposto construir em Ferrol (na Galiza), o Autor estabelece três pontos essenciais, como núcleo duro de um programa ecológico, que, por sua própria exigência, 26


tem de passar das lutas ecológicas a uma panenvolvente Ecosofia, a qual terá de impregnar todo o Sistema económico-político. Como aí é dito, a proposta do Autor constitui um modelo que é um novo paradigma: “1. Rejeita a tecnociência fóssil e contaminante defendendo um outro modelo alternativo, ‒ o da ecotécnica, baseado nas energias renováveis e na reciclagem ‒, contribui para a descentralização, para a autonomia, para a apropriação das ecotecnologias e para a participação cultural e solidária dos povos. 2. Rejeita o metabolismo linear do mundo industrialista, defendendo o mundo da biosfera e da sociedade pós-industrial, que funciona através da interacção dos ecosistemas. Assim, o modelo social coopera com a GAIA, graças a um metabolismo circular, em que se substitui a mecânica pela ecologia, o lixo não reciclável por nutrientes. 3. Rejeita o modelo consumista, gerador de injustiça social, de exploração e dominação política, para dar lugar a uma sociedade descentralizada, participada, ecologicamente sustentável, em que o crescimento baseado nas energias fósseis e o autoritarismo repressivo, darão lugar a um desenvolvimento social e cultural ecologicamente sustentável. Finalmente, descobrimos que o mundo, com que nos quiseram formatar ideologicamente no passado, era baseado no TER e não no SER. O mundo que teremos de construir para o nosso futuro, se quisermos continuar a viver, é o da ciência com consciência. Descobrimos, ao longo deste processo, que o social e a natureza estão sistemicamente ligados e que as questões sociais têm a ver com a natureza, e que as questões ditas naturais (mudanças climáticas, esgotamento, poluição) são também questões so-ciais. Política e ecologia são uma e a mesma coisa, e a biosfera é o lugar de encontro do homem com o universo. É cada vez mais sabedoria ecológica”.

● Com o actual processo de Globalização, não só se baralhou o significado do ‘contemporâneo’, mas também se perdeu a noção das diferenças entre o real e o virtual; a materialização da imagem (= imagem sem signo) (cf. J.G., op. cit., p.410). perdeu-se o controlo do Planeta Terra (idem, ibi, p.408), e, através da caotização do processo da Globalização em curso, até se perdeu o sentido crítico de uma absolutamente necessária Globalização Alternativa. Escreve, com muito acerto, o nosso Autor, ao explicar como se chegou à noção hodierna, de índole unívoca/equívoca, de ‘contemporâneo’ (ibi, p.405): “Reduzir o tempo ao presente, tornar a ubiquidade absoluta e planetária é controlar totalmente o tempo (afastando a ameaça, cada vez mais próxima, da caotização e da extinção do tempo ‒ o Presente ‒, foi o que tornou possível o deslocamento do sentido do ‘contemporâneo’. Como somos contemporâneos de tudo ‒ do passado e do futuro ‒ e tudo é presente, somos apenas ‘contemporâneos’, porque tudo é contemporâneo e presente. ‘Ser contemporâneo de ‘passou a ser uma redundância, por isso o ‘de’ caiu”. A propósito da noção de ‘os corpos contemporâneos’ (cf. idem, ibi, p.411), J.G. mostra-nos como a noção de ‘contemporâneo’ foi assumida univocamente como substantivo; o que torna patente que a referida noção foi performada na esteira do des27


prezível historicismo hegelianista, que, por toda a parte da Cultura mundial, ocidentalizada, nunca chegou a prestar atenção ao Psico-Sócio-Ânthropos integral. Assim, a própria materialização do mundo reverteu-se no fim da corporeidade. Que implicou tudo isto? Os monismos e os dualismos tradicionais/históricos foram, ipso facto, separados, na história real, que, apesar de tudo, se vai fazendo (cf. idem, ibi, p.418/419). O bom senso crítico de José Gil (apesar das nossas críticas pontuais) leva-o a discorrer, acertadamente, sobre as principais duas crises actuais, à escala do Mundo (mas onde a fonte activa da propalação partiu, sem dúvida, do Ocidente, como a Histó-ria o demonstrou…): As duas crises: ecológica e política (ibi, pp.452 e ss.). Como é óbvio, desde logo, as duas crises estão intimamente ligadas e reforçam-se mutuamente. “Dois factores parecem decisivos no aparecimento e alastramento acelerado do populismo: as duas crises globais que afectam as sociedades humanas: e a natureza do discurso populista, como expressão extrema do discurso político e como discurso imanente ao mundo virtual objectivo” (ibi, p.452). Escreve o nosso Autor (ibi, p.453): “De onde vem a impressão de que o processo actual de caotização da sociedade parece ser imparável? Da existência de uma segunda crise que afecta não imediatamente o mundo humano, mas o que o suporta e alimenta (o mundo físico, a ecologia do planeta). A disrupção atingiu a relação que o homem tem com a Terra. Ora, é esse laço com o território que funda o sentido, dando-lhe nexo e consistência, sedimentando-o inconscientemente nos corpos, incorporando-o nas práticas sociais e nas construções humanas (mitológicas, religiosas, políticas, técnicas, éti-cas, estéticas). O factor do ‘Arrazoamento (Heidegger), da sondagem e do exame, do desmantelamento e da exposição, da exploração e arregimentação brutais a que a técnica submete o planeta, graças à lógica e à ganância irrefreável do capitalismo, destrói a Terra como território de criação e espaço envolvente. Não é só a imensa desterritorialização sem retorno, sem possibilidade de dispor de novos territórios, que expulsa as populações do seu espaço e do seu tempo, mas a morte provocada, desse espaço e desse tempo, do clima, das espécies, da água, da terra, do ar, do fogo ‒ tudo entrou em turbilhão suicidário e assassino”. Logo a seguir, (ibi, pp.453-454), o nosso Autor adverte ‒ e bem ‒ que “as duas crises se imbricam, reforçando-se reciprocamente. Quanto mais se exerce a violência sobre os sistemas ecológicos, mais se alarga a disrupção dos sistemas sociais. Quanto mais estes últimos se desagregam, mais se acelera a fuga para a frente na busca de técnicas (sofisticadas e ultra-inteligentes) da manipulação e controlo das forças da Terra, o que, por seu turno, aumenta o seu poder e uso disruptivo, desterritorializante e destruidor. Surgem então as propostas populistas que, tal como as seitas, e muitas vezes com elas articuladas, apresentam valores globais, objectivos e fins englobantes, que respondem directamente às duas crises. No seu discurso, visam restaurar o vínculo rompido (‘regenerar a nação’), a subjectividade perdida (apelo à ‘identidade’) e o espaço envolvente em ruínas (defesa do território pátrio)”. Quanto ao discurso político (populista) ‒ que se julga ‘superior’ a tudo ‒, ele tenta “instaurar um tipo de acção cuja finalidade contém e unifica todas as outras fina-lidades de acções sociais. O seu fim engloba todos os fins, e a sua tradução (na go-vernação e nos 28


seus efeitos) implica uma espécie de saberes de todos os saberes (a política como ‘ciência real’ de Platão), só assim se alcança a ‘vida boa’ (Aristóteles)” (idem, ibi, p.454). ‒ Este pretenso e falacioso carácter globalizante de todos os sectores da praxis política está longe de saber o que é a política de uma boa governação, muito longe de saber o que é a Democracia e o Regime democrático. Porquê?! Porque não rompeu o cerco da ‘Potestas/Dominação d’abord’; e trata, afinal, os Indivíduos-Pessoas/Cidadãos como cabeças de gado num rebanho. É a lógica religiosa da salvação, que aí continua a imperar!... Ainda não se conhece bem, na generalidade, a Alternativa a esta situação miserável e caotizante do populismo, porque as Sociedades humanas ainda não saíram do odre do Poder-Dominação d’abord. Não é verdade que, ao longo dos sécs. XIX e XX, no Ocidente, a cartilha política que funcionou (até hoje…), é que o ideário da Democracia política só era compatível com o Sistema capitalista; não com o Socialismo?!... Todavia, em 1962, J.K. Galbraith disse e demonstrou que o Bolchevismo socialista dos soviéticos não era outra coisa se-não: capitalismo monopolista de Estado. Uma tese acertada, que só confirmou a ideo-logia democratóide corrente!... Então, qual é a saída para o ar livre? Não é, seguramen-te, para compatibilizar a Democracia com o Sistema capitalista, como se havia feito até hoje… O Regime Democrático, ancorado nos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos, constitui, de facto, o melhor Regime político de uma Humanidade adulta. E se o Socialismo é possível, ele só pode ser correctamente edificado pela via democrática. Ao teorizar sobre a Democracia e o regime democrático (não liberalista), Luís Portela (in ‘O Prazer de Ser’, Gradiva, 3ª ed., Lisboa, 2015, p.94) escreveu (aprofundando o ideário da Democracia): “Aos parlamentares caberia estudar em profundidade as mais diversas questões, procurando soluções alternativas apropriadas, mas não apro-var ou reprovar a legislação. Caber-lhes-ia decidir apenas qual a solução ou soluções a apresentar a plebiscito”. Essa seria a tarefa certeira e correcta dos delegados ao Parlamento. Concordamos com José Gil, quando (a propósito ainda da Democracia), no seu Livro citado (p.471), se pronuncia muito criticamente sobre a construção da União Europeia. Eis o seu julgamento: “Numa constatação imediata e superficial, dir-se-.á que o estado actual da União Europeia mostra que a realidade se afasta muito, sem grandes probabilidades de inverter a tendência, do projecto europeu de unificação política. Os estados-membros não se entendem sobre problemas centrais, como a política de imigração, a política financeira ou a democracia comunitária (e a democracia interna). Não há uma política comum, e a moeda única não é aceite por todos nos mesmos moldes de funcionamento. A edificação do espaço europeu, sem ter chegado a uma definição jurídica da ‘nação’ e do ‘Estado’ europeus, favorecendo a hegemonia económica da Alemanha, desenvolveu desigualdades e criou uma tensão permanente entre os 27. A Europa ideal, justa, solidária e igualitária, defensora intransigente dos direitos humanos ‒ que circula nas diversas narrativas utópicas ‒ não existe”. Por que é que o projecto europeu de unificação política não avançou no seu justo caminho inicial (de 1957/Tratado de Roma)…? a) porque a Economia política tem continuado com o primado absoluto sobre a Cultura (como é atestado, desde logo, pela 29


continuada hegemonia da Alemanha, mesmo após a derrota do nazismo, na II G.M.); b) porque, em todas as nações que se têm vindo a juntar aí, nem no seu conjunto, nem cada uma por si, ‒ ninguém, em termos institucionais, saiu do velho odre do Capitalismo primacial, ou seja, da Cultura do Poder-Dominação d’abord. Ora, o Ocidente, já desde o Iluminismo oitocentista, deveria, histórica e ideologicamente, ter passado para o novo patamar de futuro da humanidade: o do paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ e da correspondente Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. Em vez de atribuir o primado à Cultura, a história contemporânea da U.E. ati-rou as utopias (críticas) para a lixeira comum, e entrou no caminho errado da distopia. Como diz o nosso Autor (ibidem): “Já a distopia possui características diferentes, não opostas às da utopia. Põe a nu o lado obscuro da vida dos homens em sociedade, do po-der político e das invenções tecnológicas ‒ numa destruição sem fim, que nunca esgota o inconsciente. Por isso, a distopia está mais próxima da história real, e aponta, muitas vezes, para um final apocalíptico”. Foi assim, e por tudo isso que emergiu, actualmente, o desastroso populismo. Como lembrou bem J.G. (ibi, p.472): “Os elementos distópi-cos da ideia da Europa ancoram-se nos movimentos nacionalistas-populistas”. A fonte de todas as Sociedades não está ancorada no lugar dos Poderes Estabelecidos; mas, outrossim, na Identidade dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos. Ora, essa Identidade, real e crítica, acha-se num processo acelerado de dissolução total. Escreveu, com acerto, J.G. (op. cit., p.473): “Relativamente aos dois tipos de causas do populismo, o seu discurso e a sua prática visam a captação, inscrição e codificação de forças livres que circulam no campo social. Forças não políticas, mas que o populismo pretende politizar. Vindas de domí-nios heterogéneos, que têm em comum que provoque logo o desejo populista de as cati-var e subjugar? Geralmente, este tipo de questão tem versões sociológicas bem precisas ‒ por exemplo, quais as características comuns dos eleitores tão diferentemente reparti-dos segundo o estatuto social, a idade, o sexo, etc., e que votaram na Frente Nacional Francesa? Mas a grelha sociológica ‒ ou outra, histórica ou psicossocial ‒ não fornece explicações satisfatórias do desenvolvimento do populismo. Onde poderemos, então, procurá-las? “Olhemos para os grandes temas do discurso populista: a perda da identidade nacional, a precariedade do trabalho gerado pela globalização e o ‘roubo’ dos empregos pelos imigrantes, a deterioração da cultura nacional pela invasão das culturas de povos estrangeiros (nomeadamente imigrantes) que ocupam o ‘nosso território’, o terrorismo trazido pela jihadismo islâmico, a desigualdade crescente em benefício das multinacionais e da finança mundializada, o fosso cada vez maior entre as elites do ‘sistema’, as instituições e partidos e o ‘povo’ sofredor, e, de uma maneira geral, o caos que invadiu a sociedade inteira, a escola, a família, os valores, o modo de vida tradicional ‒ ‘Vamos pôr o país na ordem!’ era o slogan da campanha presidencial de Marine Le Pen”. J.G. (ibidem), a seguir, define os diferentes grupos, que têm traços comuns: “Os traços comuns a estes temas repartem-se por grupos: o perigo da perda da soberania política (face à Europa), o perigo de desaparecimento do laço com o território (face ao multiculturalismo, ao terrorismo, ao desemprego), e o perigo da destruição das referências que permitiam ao indivíduo reconhecer-se na sua colectividade (perigo de caos na 30


formação e preservação da subjectividade). A estes tipos de perigo correspondem inimigos, claramente identificados: a União Europeia, a globalização e o ‘sistema’ (a democracia) e os imigrantes. Os três perigos convergem num só: o perigo de perder a identidade”. Por outras palavras, a perda da própria Consciência (individual-pessoal). Os robôs… por mais inteligentes e aperfeiçoados que sejam, não têm estes problemas!... O que implica e significa, que a Consciência dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos tem o seu lugar na ‘Polis’; e devendo ocupar, primeiro, o seu lugar no plano cultural, ela tem, necessariamente, extensão e incidências em todos os sectores de uma Sociedade bem organizada. Não esquecer que o populismo (que é a doença mortal da Democracia), quando emerge, produz efeitos e consequências: abre um 1º período de protofascismo; e, logo a seguir, monta na arena societária os bem conhecidos regimes fascistas: “O vínculo à colectividade e ao outro transforma-se em submissão total ao líder” (idem, ibi, p.475). O regime democrático desapareceu!... A situação geral é esta: gerou-se uma Antinomia mortífera entre as Sociedades humanas e a Terra. Ente as tecnociências impantes (que presumem poder resolver os problemas da Humanidade) e os Humanismos tradicionais, ergueu-se uma monstruosa teoria dos contrários… Há solução para a Antinomia; mas, pelos vistos, muito poucos querem pensar nela. Escreve J.G. (ibi, pp.478-479): “De facto, só desenvolvendo de forma ilimitada as potencialidades das novas tecnologias se vencerão os males de que sofre o Homem: a doença e o envelhecimento, mesmo a morte, assim como o sofrimento e a dor. Só o progresso ilimitado do conhecimento (e do numérico) conseguirá pôr termo à guerra e à injustiça, à má governação do poder político e aos conflitos de todo o tipo (sociais, religiosos, territoriais). O fim do humanismo regionalista será o início da civilização universal”. Por isso, ao lado da Robótica de ponta, se fala hoje tanto do ‘Transhumanismo’!... Escreve o nosso Autor (ibi, p.479): “Como resolver a Antinomia? Só há uma coisa que Kant nos ensinou, foi o modo de solucionar antinomias. Dentro do seu próprio quadro problemático, a antinomia não tem solução; torna-se necessário, pois, deslocá-lo, mostrando como noutro contexto conceptual a oposição antinómica se dissolve. No nosso caso, tanto a Tese como a Antítese supõem um movimento unilinear e contínuo da História, construindo um tempo histórico abstracto e ideal; e fazem depender a direcção desse movimento, exclusivamente, da acção ou da ausência de acção, da técnica e das novas tecnologias. Mudar de contexto significa passar da história ideal ao tempo histórico real”. A 1ª condição é a adopção, sem hipocrisias e enganos, do vero e autêntico Regime Democrático, por parte de todos os Governos da Terra. A seguir, instaurar um referendum claro e objectivo, dirigido a todas as populações dos Estados-nações, para que eles possam dar a resposta adequada àquela Antinomia. Mas não tentem ludibriar os Povos!... Com a sua clarividência própria, J.G. escreve (ibi, p.480): “O novo contexto, que altera os dados da Antinomia, é o tempo do presente. Que presente? O da iminência da 31


morte da Terra, do fim da humanidade. Mas esse presente não é como os outros, por-que o fim que ele pressente não é qualquer fim”!... ‒ Gostaríamos de ter encontrado nos textos excelentes de J.G., no presente Livro ‘Caos e Ritmo’, um estilo de pensée plus engagée, no grande Processo Revolucionário, que está ‒ queiramos ou não ‒ em marcha, actualmente: é uma Revolução de dupla face: a ecologia e a política; a Terra (o planeta por nós habitado, do qual não somos donos e senhores, para dele fazer um ‘achado’ de puras matérias-primas), e as Sociedades humanas em estado caótico e de disrupção continuada até ao apocalipse… É que a actual (e complexa) Revolução é global e não poderá falhar, como as anteriores. É a nossa Era que a Humanidade tem de ultrapassar, e mudar-se, se quiser sobreviver!... Por isso, a Mudança tem de iniciar-se no plano cultural. Para a exposição ‘Pensamento e Risco’ (de 124 autores de Livros, em Lisboa, Agosto de 2018), André Manuel Correia iniciou o seu artigo como segue (cf. ‘Expresso/Rev.’, 25.8.2018, p.68): “No princípio era o pensamento, matéria-prima indomável, invisível até se deitar sobre a folha em branco e fazer-se risco. A imaginação desperta e a obra nasce do so-nho. A mente e a mão ligadas intrinsecamente através do gesto esboçado, como um ma-nifesto a escorrer livre, límpido como uma água onírica, corrosivo como uma nova cha-ma. O pensamento riscado , sempre arriscado, a acender o fogo da escrita ou da arte. Ilumina. Aquece. Destrói e reconstrói. Derruba as fronteiras dos dogmas e dos precon-ceitos, com uma incomensurável força para transformar o mundo. A criação artística é uma viagem até aos lugares mais insondáveis e secretos dos autores. É essa a proposta da exposição ‘Pensamento e Risco’, uma mostra internacional de livros de artista, paten-te até 30 de Setembro no Auditório Municipal de Gondomar, na Sala Júlio Resende, onde podem ser vistas 220 obras concebidas por 124 criadores”. De facto, as Revoluções que vingam e pretendem ser fecundas, têm sempre de começar pela Cultura, pela Iluminação das Mentes dos Seres Humanos. Sobremaneira, aquela de que agora se trata: a superação do ‘Homo Sapiens tout court’ (que é uma subespécie!...) e a adopção da Espécie evolutiva do paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (o vero filão específico, que agora ocupa a Terra, procede do ‘Homem de CroMagnon, e não do ‘Homem de Neanderthal’, que se extinguiu há ca. de 30.000 anos).

● Ainda sobre o Livro citado do filósofo José Gil, como pano de fundo. Ele tem e adopta, na sua matriz, como um pressuposto civilizacional a verberar, o Dualismo metafísico platónico e paulino, ‒ o que está certo, mas acaba por ser inconsequente com tal tese, uma vez que não mexe nem vitupera as religiões institucionalizadas. Por outro lado, ele afirma e defende o Monismo epistémico, como de resto quase todos os filósofos e cientistas modernos e contemporâneos… Tudo e sempre na âncora (exclusiva) material/materialista. Também nós, no C.E.H.C., tersamos armas por um horizonte epistémico diametralmente oposto ao Dualismo metafísico platónico-paulino, bem como, em geral, de todas as religiões institucionalizadas (é esta problemática que modernos e contemporâ32


neos sempre olvidam… como de resto, esquecem a separação e o muro, bem real, entre elites e massas!...). Dos modernos, os mais críticos das religiões foram, sem dúvida, F. Nietzsche, K. Marx e S. Freud. Marx, por exemplo, ao afirmar, com desassombro, que ‘a religião é o ópio do povo’, não chegou a ser consequente com tal postulado nas suas reflexões filosóficas. Porventura, o mais decisivo, nesta matéria, terá sido F. Nietzsche, com a sua noção de: ‘Das Ville des Machts’. Em geral, toda a História da Filosofia Moderna acabou por ficar montada e estruturada no ‘Leviathan’ de Thomas Hobbes: as religiões foram eclipsadas deste mundo basicamente natural e material. Vingou, aí, definitivamente, a metodologia vesga do Objectivo-Objectualismo. ‘The real & natural World’ ‒ esse é visível, objectivo e material. Sans ambages!... Pode, portanto, constituir matéria e objecto da ciência e da filosofia. Salvo algumas pouquíssimas excepções, todos os autores comungaram nessa mundividência. Talvez não o filósofo espanhol Ortega y Gasset, com o seu axioma (humanista/existêncialista): ‘Yo soy yo y mi circunstancia’! O próprio Marx, na sua obra, ao reduzir o ‘fenómeno da Economia’ à sua materialidade história, também consentiu na permanência das religiões institucionalizadas… J.G. (ibi, p.436) consegue evocar, a partir dos evangelhos ‘paulinos’ o lógion do próprio Jeoshua: ‘Nem só de pão vive o homem…’. Mas a Orquestra continuou desafinada, como aconteceu a Marx e a todos os outros ‘demolidores das religiões’!... Faz-se de conta que elas não existem; mas elas continuam a funcionar e a condicionar as mentes dos indivíduos. Por seu turno, o próprio K. Marx encara o mundo como uma realidade ‘enfeitiçada’, mas perfeitamente objectivada, e à qual ele vai criticar o seu modo de funcionamento: o Capital em antinomia total com a gramática de funcionamento do Traba-lho!... (ibi, p.436). Não emergiu, na Investigação Crítica de K. Marx, uma criticista vi-são holística, capaz de abordar (ainda que imaginariamente, por contraste), a totalidade do Psico-Sócio-Ânthropos, como nós apreendemos no C.E.H.C.. Ora, emanando do capital e das forças produtivas do trabalho, a ‘ilusão’ propalada é a do primado absoluto do Capital, como sua origem… Desse modo, começa por se convocar os elementos técnico-tecnológicos da produção, com a sua dimensão univer-sal, sem mais problemas. Tudo isto, apesar de K.M. ter deixado escrito, a propósito da sua definição nuclear de ‘o capital’, que ele era e é uma ‘relação social bem deter-minada’!... Desta sorte, por mais voltas que se dê, a Sociedade fica sempre hierarquizada, seja ela socialista ou capitalista. E a exploração/opressão do Trabalho continua a ser um facto terrivelmente inexorável. K.M. mistura, assim, os dois planos: o da transformação perversa do mundo, e o ‘obscurantismo da consciência’ dos trabalhadores e das populações em geral. Perdeu, aqui, o timão da Verdade Crítica do Mundo (cf. ibi, p.437). Percebe-se bem que, nesta introdução, J.G. vai muito para além da visão criticista de K.M. e de F.N…. mas, por outro lado, a sua aparelhagem metodológica não lhe permite dizer-nos, realmente, o que é o caos!... Para Nietzsche, o que o leva a fixar os valores é, incontestavelmente, a ‘Vontade de Potência (ibi, p.478). A verdade nietzscheana começava a ser medida pela sua utilidade para a vida (ibidem), ‒ o que, posterior33


mente, veio a ser consagrado na doutrina clássica de Bentham; mesmo as verdades e as crenças. A Utilidade e o Prazer eram constituídos como os critérios definitivos das ‘verdades’!... Para F.N., as ‘verdades’ são construídas; para K.M., ainda há uma verdade ôntica, por detrás das aparências (cf. ibi, p.439). Realidade ôntica ou puramente construída pelos Humanos ‒ é tudo produto destes. Não criação ex nihilo, não há nada antes do caos (ibi, p.440). A verdade deriva do desejo-força de existir, do conatus espinosiano. O que separa N. e M. sao puras questões de ‘livre pensamento’, no horizonte do caos primordial (cf. ibi, p.441). Chegou-se, assim, entre os dois, a uma espécie de ilusão aparente, objectiva: para configurar a aparência da verdade (cf. ibi, p.442). Certo ou errado, bom ou mau… essas são injunções dos humanos; as ideias mais enganadoras são as que dizem respeito às relações sociais entre os humanos. Onde está a consistência substantiva das duas Epistémes (uma para as ciências físico-naturais e outra para as ciências psico-sociais e/ou humanas),como nós asseveramos e sempre temos defendido no C.E.H.C.?! J.G. não fala disso. A ideia do outro como inimigo recobre e promove a noção de escravo (cf. ibi, p.443). A auto-avaliação é desenterrada pela ‘Vontade de Potência’, vontade de dominar e de subjugar os outros (ibidem). ‒ Sociedades abertas (à K. Popper) e Sociedades fechadas: as primeiras são, naturalmente democráticas; as segundas são ditatoriais (ibi, p.444). Toda a realidade verdadeira resulta de uma constatação crítica; as ilusórias e falsas resultam das crenças imediatas e falsas. Por isso, os chamados populismos são inimigos fatais das Democracias: fecham e não abrem os espíritos dos cidadãos. (Ibidem). As perspectivas não enganadoras têm de começar por respeitar, criticamente, o impensável (o carácter subjectivo) da sua origem (cf. ibi, p.445). As perspectivas enganadoras são fechadas e obscurantistas. ‒ O poder mágico do corpo encerra também o poder genesíaco do pensamento. Um corpo humano tem um movimento objectivo aparente, e acaba sempre por distinguir-se de um robot cibernético (ibi, p.447): a “inteligência artificial’ não se pode confundir com a inteligência natural. Isto concede, perfeitamente e de modo absoluto J.G., ao contrário de Yuval Noah Harari (em particular nos seus 1os dois Livros: ‘Homo Sapiens’ e ‘Homo Deus’; menos no 3º: ‘21 Lições para o Século XXI’). ‒ O corte radical com o mundo não foi produzido pela relação racional e universal, criada pelo Iluminismo oitocentista; a ruptura consumada começa no séc. XX, com as máquinas e os robôs automatizados, nas fábricas da produção industrial e nos diversos laboratórios de vanguarda (ibi, p.449). J.G. parece admitir a 3ª fase das três fases de construção do ‘homo technicus’ (cf. ibi, pp.449-450): concebe isso, entretanto, como realidade virtual, semelhante à dos sonhos. Em contraponto, ele escreve (ibi, p.451): “O corpo é uma máquina inalgoritmizável, que contém em si o princípio da impossibilidade de ser absolutamente algoritmizada. O corpo funciona porque não é uma máquina desse tipo, é um corpo criador do seu tempo, com o tempo”. Em última instância ‒ explicámos nós ‒ porque, simplesmente, é um corpo detentor do fenómeno humano da Consciência!... 34


‒ E quais foram as consequências deste Mundo supertecnológico, que foi capaz de produzir a chamada ‘Inteligência Artificial’ (I.A.)?!... Falamos, aqui, sobremaneira das negativas. Vieram logo duas espécies de crises sócio-históricas cumulativas: a crise ecológica e a crise política, ‒ que são mais gémeas do que muita gente supõe. (Cf. ibi, p.452). Enquanto sua circunstância própria, o Populismo marca as duas crises geminadas, muito mais do que se imagina. Por quê? Porque o assomo das novas tecnologias não é politicamente controlado e escandido, por forma a poderem emergir o que o C.E.H.C. chamou ‘Tecnologias Adequadas’. A globalização financeira foi o seu resul-tado inelutável: o económico-financeiro assumiu o primado, e o político foi dissolvido ou retirado do seu papel de Chefe de Orquestra. No meio destas ruínas, a vera Demo-cracia foi exterminada. As duas crises reforçam-se, imbricadas na sua reciprocidade: Sistemas sociais e sistemas ecológicos… Estamos, cada vez, mais longe de atingir, na praxis societária, a ‘ciência real’ de Platão para a ‘vida boa’ de Aristóteles (ibi, p.454). Escreve J.G. (ibi, p.453): “De onde vem a impressão de que o processo actual de caotização da sociedade parece ser imparável? Da existência de uma segunda crise, que afecta não imediata-mente o mundo humano, mas o que o suporta e alimenta (o mundo físico, a ecologia do planeta). A distinção atingiu a relação que o homem tem com a Terra. Ora, é este laço com o território que funda o sentido, dando-lhe nexo e consistência, sedimentando-o inconscientemente nos corpos, incorporando-o nas práticas sociais e nas construções humanas (mitológicas, religiosas, políticas, técnicas, éticas, estéticas). O furor do ‘Arrazoamento’ (Heidegger), da sondagem e do exame, do desmantelamento e da exposição, da exploração e arregimentação brutais a que a técnica submete o planeta, graças à lógica e à ganância irrefreável do capitalismo, destrói a Terra como território de criação e espaço envolvente. Não é só a imensa desterritorialização sem retorno, sem possibilidade de dispor de novos territórios, que expulsa as populações do seu espaço e de seu tempo, mas a morte provocada, desse espaço e desse tempo, do clima, das espécies, da á-gua, da terra, do ar, do fogo ‒ tudo entrou em turbilhão suicidário e assassino”. Quanto à lógica do discurso populista, ela não é outra senão ‘cantar a cantilena que adormece os ‘ceguinhos’, o fatum dos que não querem ou não conseguem lobrigar a realidade (cf. ibi, p.456). E muitos (mesmo de entre as elites!...) consideram que essa é uma ‘narrativa de salvação’ (ibi, p.459). Ora, todo este processus psico-sócio-histórico se reduz a uma dissolução total da vera e autêntica Democracia, ‒ o único regime polí-tico digno e próprio dos Seres Humanos qua tais. Convém saber que o discurso popu-lista se dá, tanto à Esquerda, quanto à Direita (ibi, p.468): É fruto da inconsciência e da estupidez e é bem aceite pelos indivíduos, que não passam de ‘cabeças de rebanho’ den-tro das sociedades ditas humanas!... ● Sobre a utopia/distópica da Europa = U.E. Nos tempos de Jacques Délors, como Presidente da Comissão europeia, ainda havia a sabedoria e a sensatez da busca de um roteiro digno e justo: o modelo da Confederação de Estados era o mais desejado e estava acima de qualquer suspeita. Depois… vieram os Tratados de Maastricht e de Lisboa, que já não falaram no assunto. A Econo35


mia (a nível mundial e mesmo europeu) assumiu o primado sobre a Política, uma vez que aquela começou a ser determinada e comandada pelas multi-transnacionais. Assim, continua a não haver, hoje, uma gramática política bem estabelecida e positivamente uniformizada, para a constituição e o funcionamento da U.E.. Na sua origem, no próprio Tratado de Roma (1957) não se chegou a formular um Desígnio claro e bem determinado no sentido de prosseguir o modelo (acertado) da Confederação de Estados. Desta sorte, nem o desenho de uma Federação (como os U.S.A.) veio a resultar!... Assim, a odisseia actual da U.E. é uma manta de retalhos, prontamente preparada para a desunião e a desagregação (cf. idem, ibi, p. 470). E, mesmo quando se pensa no seu Desígnio original, temos de reconhecer que estamos cada vez mais afastados do projecto político europeu inicial (cf. ibi, p.471). Como, nos inícios, não foi pensada e construída, nem como ‘Nação’, nem como ‘Estado’, a U.E. está a promover (sem disso, porventura, se dar conta) a hegemonia (absoluta) da Alemanha (cf. ibidem). Por essa via, não lhe resta outra saída senão pôr-se ao serviço da máxima Super-Potência hegemónica (USA). Neste contexto, a noção apelativa da ‘Utopia’ de Thomas Morus ou de Tommaso di Campanella está cada vez mais distante… uma vez que tudo se mexe e funciona sobre o eixo do Economicismo (capitalista) primacial e primordial. Por este caminho, a U.E. marcha entre a distopia e o apocalipse (cf. ibidem). Nesta perspectiva, os famigerados ‘populismos nacionalistas’, muito embora sejam um mal, têm o condão, ao mesmo tempo, de impugnarem as soluções reais, que descarrilam. Carecemos, em suma, de uma gramática de governação (democrática) completa e bem entrosada em todos os planos: jurídico-societal, social e económico, com o necessário e devido controlo político-jurídico do mercado; Instrução aberta a todas as tecnologias (antigas/tradicionais e novas), e, acima de tudo, a Boa Educação moral e cívica (ministrada nas famílias e nas escolas nacionais e transnacionais). É preciso conhecer e praticar, enquanto cidadãos adultos e responsáveis, a Magna Carta da Democracia republicana, em todos os patamares e escalas. Convirá saber que o discurso populista ainda agrava mais, a médio e a longo termo, as desigualdades sócio-económicas, que afectam dramaticamente a maior parte dos países do Mundo. (Cf. ibi, p.473). Em vez de um processo de globalização super-centrado em função e benefício das indústrias de vanguarda (Informação e Comunicação), carecemos de uma mundialização alternativa, por forma a que a globalização não se processe, avançando apenas com os traços comuns negativos (cf. ibidem). O que se está verificando é a crescente perda de identidade, em todas as plataformas e escalas (grupal, pessoal, regional, nacional e internacional…). (Cf. ibi, p.474). É preciso, desde logo, mudar de eixo na própria formação dos Indivíduos-Pessoas. Antes de tudo, suprimir e evitar a prática nefasta do teorema: ‘O vínculo à colectividade e ao outro transforma-se em submissão total ao leader’. (Cf. idem, ibi, p.475). Se tal comportamento era próprio das sociedades tradicionais e antigas, tornou-se im-próprio das sociedades modernas e contemporâneas! No que tange as actuais Alterações Climáticas no Ecossistema planetário da Terra, tudo continua a degradar-se, quando vemos Chefes de Estado da estirpe de Trump, 36


nos USA, a botar a todo o mundo declarações insensatas do tipo que, simplesmente, não as reconhece!... A que ponto pode chegar a ignorância dos próprios Chefes de Estado!... Onde está esculpido e reivindicado o estatuto de que o homem é o bem mais precioso para outro homem? (Cf. idem, ibi, p.476). O ‘Mitsein’ heideggeriano estava certo. Segundo Primo Levi e a horrenda experiência de Auschwitz, a sociedade moderna transformou-se, no meio da Guerra, num inominável ‘campo de concentração’: a perda do humano nos seres (ditos) humanos (cf. ibidem)!... Onde se encontra essa praxis, que garanta a realização da Liberdade e Igualdade responsáveis, alimentadas por uma Imaginação pessoal, que não se cansa de sonhar a Utopia? (Cf. ibi, p.477). É com este ‘corpo algoritmizado’ da U.E., que está perdendo a sua virtude e força moral, assolada/invadida pelas migrações aos milhares de refugiados e asilados, na medida em que se tornou uma ‘fortaleza’ e se pôs a caminho de uma ‘superpotência’ (capitalista)?!... (Cf. ibidem). ‒ Tese//Antítese: A) Tradição e Humanismo (crítico); B) Tecnociência (tout court): Aposta destruidora (cf. ibi, p.478). Estamos, hoje, nos tempos da Antinomia (cf. ibi, p.480), que vai fatalmente desembocar na Catástrofe (cf. ibi, p.483): segundo o axioma/bússola do ‘Homo tantum’ (cf. ibi, 482). Em vez da humanidade como ‘sujeito da História’, J.G. prefere a semântica do ‘Homo tantum’. Para nós, isso não basta. É absolutamente preciso que esses Humanos sejam dotados de consciência e capacidade crítica. De contrário não terão força suficiente para abater o monstro hegemónico da acumulação do Capital. ‒ Por último, peço-vos que leiam a contracapa do Livro ‘Caos e Ritmo’ de José Gil, que é um bom resumo de todo o Livro. Dispenso-me de transcrever aqui o seu texto. Mas permito-me, em resumo, adicionar alguns enunciados críticos: A) A autópsia do Livro impõe-me a denúncia crítica do seu incontornável Objectivo-Objectualismo, apesar do discernimento e oposição, que pratica, entre a esfera do Zoos e a esfera do cosmos omni-toto-abrangente. B) Porfia, sistemicamente, na Teoria (tradicional) do Monismo Epistémico. C) Não critica, suficientemente, o cartesianismo e a ontologia dualista de Platão e Paulo. D) Não se enquadra, de modo nenhum, nas Teses essenciais do Dualismo Epistemológico, que constituem o cincho do C.E.H.C.. E) A metodologia linear do seu pensamento condu-lo a tudo polarizar nos esquemas do Objectivo-Objectualismo. F) A morte como experiência filosoficamente alargada (ibi, pp.489-491): O que é importante e válido na eutanásia (como diria John Donne) é a noção de uma morte di-gna (ibi, p.494). Como os sucessores de Sócrates e de Jesus. ● ‘O Desenvolvimento da I.A. generalizada poderia significar o fim da Humanidade’ (Stephen Hawking ‒ (morreu em março de 2018) ‒ cit. in ‘Le M.D.’, Agosto de 2018, p.20). ‒ O Transhumanismo nasce na Califórnia, em Silicon Valley, em 1980; o que ele pretende e promete é a ideologia da fusão do humano e da máquina!... 37


‒ O Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo foi de tal modo propalado, no Ocidente (e não só…), em todas as escalas e áreas disciplinares… que muito poucos filósofos e cientistas criticaram Descartes para seguir Francis Bacon, nos alvores da Modernidade; e, paradoxalmente, o Monismo epistémico mascarado é que se impôs, historicamente, em todas as religiões, e através da Dialéctica hegeliana na Modernidade profana. Eis o grande paradoxo ideológico-histórico! Até o nosso melhor filósofo luso vivo, J.G., aqui ou além, veio a ceder a essa tentação. O que é o Transhumanismo? Um caso a ser percebido e a tomar forma no quadro da incontornável dialéctica hege-liana (à qual sucumbiu, embora em outra direcção o nosso Karl Marx).

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GRAMÁTICA PROPEDÊUTICA EXIGIDA PELO PSICO-SÓCIO-ÂNTHROPOS SEGUNDO O PARADIGMA DO

‘HOMO SAPIENS//SAPIENS’

N.B.: ‘O Poder (absoluto) corrompe sempre… E o Poder absoluto corrompe Absolutamente’!... (Lord Acton)

INTRODUÇÃO PARA ENQUADRAMENTO

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● Continuamos a sobreviver, até ao Presente, na galáxia psico-sócio-histórica da Cultura do Poder-Dominação d’abord. Aí, a hegemonia absoluta é a do Poder!... Das liberdades, só nos resta a migalha do ‘livre arbítrio’ = lei do pêndulo de Foucault. Paulo, Agostinho, Lutero, Tomás d’Aquino, Erasmo, o próprio Stuart Mill não conheceram o que o C.E.H.C. designou por Liberdade Responsável. Esta Era em que sobrevivemos começou há 3.500 anos antes da Era comum. De 7.500 anos até 3.500 anos, vigorou a GILANIA ou Matriarcado, onde Mulheres e Homens eram livres e iguais, na sua condição humana. A partir de meados do IV milénio a.E.c., o Processo civilizatório e suas elites condutoras instauraram, a um só tempo, os Deuses uranianos e o Patriarcado, com todas as hierarquias do Poder-Dominação d’abord. As Ideologias são próprias e conaturais desta nova Era, bem como as Reli-giões institucionalizadas. Se é pela Imaginação e pelo Sonho que caminhamos (‘caminero no hay camino; se hace el camino al andar’: A.M.), constitui um imperativo categórico ter os olhos postos no Futuro, com o objectivo de emendar e recuperar o Presente da Caminhada Humana: um Presente marcado pela disrupção e pelo caos, pelo ambiente de Apocalipse a que chegámos, tanto no plano ecológico como no plano societário. Eis por que o horizonte de que parte o C.E.H.C., na sua prospecção e análise, é o Futuro da Humanidade, (que é preciso preservar!), e não propriamente o Presente (que precisa, urgentemente, de ser recuperado, para evitar a sua marcha fatal para o abismo.

TEXTOS EM EXERGO PARA ENQUADRAMENTO

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Vamos, aqui, estabelecer, muito embora de modo abreviado/lacónico, alguns excerptos de textos significativos e indéticos, que esboçarão o nosso horizonte de trabalho; e ajudarão a esclarecer a mundividência humana do Futuro Evolutivo.

GUIÕES ● “Quando procuramos as condições psicológicas dos progressos da ciência, chegamos cedo a essa convicção de que é em termos de obstáculos que é preciso pôr o problema do conhecimento científico. […] De facto, nós conhecemos contra um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal feitos, ao superar o que, no próprio espírito, constitui obstáculo à espiritualização. O espírito científico interdiz-nos alimentar uma opinião sobre questões que não compreendemos, sobre questões que nós não sabemos formular claramente. Antes de tudo, é preciso saber pôr problemas. […] Nada ocorre por si mesmo. Nada está dado. Tudo é construído”. (Gaston Bachelard, in ‘La Formation de l’esprit scientifique’, Vrin, Paris, 1938: cit. in ‘Manière de Voir’, Oct.Nov., 2018, p.94). ● A orientação da marcha: “Todo o progresso da agricultura capitalista é, não somente, um progresso na arte de pilhar o trabalho, mas, também, na arte de pilhar o solo; Todo o progresso no crescimento da sua fertilidade, num lapso de tempo dado, é ao mesmo tempo um progresso da ruina das fontes duráveis dessa fertilidade. Quanto mais um país como, por exemplo, os EUA parte da grande indústria, como ante-câmara do seu desenvolvi-mento, tanto mais este processo de destruição é rápido. Do mesmo modo, a produção capitalista não desenvolve a técnica e a combinação do processo social de produção, a não ser arruinando, ao mesmo tempo as fontes vivas de toda a riqueza: a terra e o tra-balhador”. (Karl Marx, ‘Le Capital’, livre I (1867), Les Éditions sociales, Paris, 2016). (Cit. ibi, p.92). ● Contrastes: “Acima e antes de tudo, as novas tecnologias têm servido aos patrões para despedirem os seus empregados, para reduzir os seus custos de mão-de-obra, para deslocalizar. Da oficina à exploração agrícola, da refinaria aos ‘offices’ da burocracia, nenhuma profissão tem escapado à ofensiva. Todavia e sempre, nada de revoltas, de exigências de protecção, de resistência. Que contrastes com a primeira revolução industrial, que deixou aterradas um número incalculável de pessoas, mas suscitou uma resistência enfurecida e acabou por desembocar no movimento operário e no seu corolário, a legislação social progressista” (David Noble, ‘Le Progrès sans le peuple’, Agone, Marseille, 2016.). (cit. ibi, p.95). ● A Separação e o Isolamento, por paradoxal que pareça!... 41


“A afirmação segundo a qual os meios de comunicação são fonte de isolamento não é válida, somente, para o domínio intelectual. Não é só o discurso mentiroso do speaker na rádio, que se imprime no cérebro dos homens e os impede de comunicar uns com os outros; não é só a publicidade Pepsi-Cola que recobre informações concernentes à desordem e ruína de continentes inteiros, não é só o exemplo do herói de cinema, que vem interpor-se como um espectro, quando os adolescentes se abraçam ou os adultos comentam um adultério. O progresso separa e atomiza literalmente os homens.” (Max Horkheimer e Theodor Adorno: ‘La Dialectique de la raison’ (1947). Gallimard, Paris, 1974). (Cit. ibi, p.93). ● Que é a IDEOLOGIA? “A) Filos. [Fim do séc. XVIII: palavra criada por Destutt de Tracy para substi-tuir psicologia]. Estudo das ideias (no sentido geral dos factos de consciência), análise das origens do pensamento. B) Conjunto das ideias, das crenças e das doutrinas filosóficas, religiosas, políticas, económicas, sociais, próprio de uma época, uma sociedade, uma classe e que orienta a acção. Ideologia cristã, conservadora, revolucionária… ‘O comunismo é uma ideologia, e ele não pode ser vencido senão por uma outra ideologia ‒ mais estúpida se possível’ (Pierre Gaxotte). • Termo entrado na reflexão social com o marxismo, designando uma visão do mundo, isto é uma construção intelectual, que explica e justifica a ordem social dominante, da qual ela emana. Nunca é neutra. • Teoria nebulosa, sem ligação com os factos reais. Que é que tu queres que eles desprezem, todos estes precursores que esperam a hora da acção? Eles falam! Eles enervam-se de ideologia!” (Roger Martin du Gard). (De acordo com o Centro nacional de recursos textuais e lexicais (CNRTL), wwwcnrtlfr). (Cf. ibi, p.90). Deu-se conta do como e do porquê surgiu a palavra Ideologia no séc. XVIII. Começava a fazer falta, na Árvore das disciplinas científicas, filosóficas e políticas… Depois, começou a ser arrolada com três sentidos semânticos diferenciados, como se viu no quadro acima. A nós, interessa-nos, aqui, dar conta de dois tipos semânticos do vocá-bulo Ideologia: A) o tipo explícito e B) o tipo implícito. O 1º refere-se ao uso corrente, substantivo, em que a palavra é usada, onde predomina mais a Imaginação e a Vontade; o segundo reporta-se ao uso natural que acompanha o trabalho científico ou filosófico, cujo carácter é apenas adjectivo. Agora, duas Teses fundamentais a propósito da Ideologia substantiva: A) Este tipo de Ideologia é naturalmente criado e destilado pela Cultura do Poder-Dominação d’abord, onde a Humanidade ainda sobrevive; B) Esse tipo de Ideologia perde a sua razão de ser e a sua função operatória na adveniente e futura Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. Como aqui se cultiva, primacialmente, a ciência e suas funções operativas e as Liberdades dos cidadãos(ãs) assumem um valor primordial e substantivo, é ipso facto o próprio Poder que se reveste de uma índole adjectiva. Nesta perspectiva, é óbvio que os próprios partidos políticos, no sentido tradicional, perdem o seu sentido e à la longue desaparecerão, tal como o Estado-gendarme. 42


● A Ciência (vera e autêntica) não é inimiga da Democracia. Nem é hostil ao vero e autêntico Socialismo. É, outrossim, inimiga do Capitalismo, sobretudo, nas suas formas selvagens, como foi assumido pelo hodierno neoliberalismo capitalista globalzado. O próprio Descartes (que tanto mal fez nos Tempos Modernos, ao ponto de subverter a Modernidade ocidental ‒ por causa do seu Dualismo metafísico-ontológico ‒ à rebelia da alternativa Linha positiva do Pensamento crítico-experimental de Francis Bacon) deixou solenemente escrito em nome da Vera Ciência: “Para chegar à verdade, é preciso, de uma vez por todas, desfazer-se de todas as opiniões, que se receberam, e reconstruir de novo, e a partir dos fundamentos, todos os sistemas dos seus conheci-mentos” (Cit. in ‘M. de V.’ cit., p.47). Poderemos nós, acaso, permitir que, em nome de uma concepção fanática do Progresso das ciências, seja posta em causa a nossa liber-dade e a sorte, presente e futura do Planeta Terra, já gravemente posto em perigo?!... Prosseguiu (ibi, pp.47-48) Ignacio Ramonet: “Sobre essa base, que faz da Razão o único guia do espírito, será edificada a filosofia das Luzes e a reflexão dos enciclopedistas. Estes irão ao ponto de sonhar com um ‘governo científico dos homens’ [como fez o marquês de Condorcet], fundado no progresso das ciências da natureza. O que será, igualmente, reclamado pelos socialistas utópicos como Charles Fourier, e sobretudo pelo positivista Auguste Comte, que preconizava ‘a aliança natural entre ciência e democracia’”. “Começa, então, a pôr-se, um pouco por toda a parte, uma questão política maior a propósito do controlo democrático da ciência e dos seus efeitos. Questão que Dominique Lecourt formula nestes termos: ‘Que mecanismo de decisão pôr de pé, que permita ao conjunto dos cidadãos fazer valer o seu ponto de vista, não sobre a pesquisa em si mesma, mas sobre as questões postas pelas aplicações da investigação?” (I. Ramonet, ibi, p.48). “O cidadão pergunta se pode tolerar que, em nome de uma certa concepção do progresso das ciências, a sua liberdade, a dos seus descendentes e a sorte do planeta sejam postas em perigo. Tanto mais que não deixa de fazer-se sentir que a real complexidade dos problemas fornece um excelente alibi aos peritos, para evitar a discussão democrática das decisões. Assim se edifica, pouco a pouco, o poder da tecnociência: no coração do Estado, mas à margem do vero debate político, e fora da natural curiosidade dos cidadãos” (idem, ibidem). O catedrático da Univ. hebraica de Jerusalém, Yuval Noah Harari escreveu (na década de 2010…) dois livros célebres, que nós lemos integralmente, mas, de igual modo, criticámos severamente. Tinham por título: o primeiro, ‘Homo Sapiens’; o segundo, ‘Homo Deus’. São livros de embandeirar em arco sobre as últimas inovações tecnológicas!... É um autor que, na História Geral e na história específica da Arqueologia humana, não conhece o ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (paradigmaticamente identificado com o ‘Homo de Cro-Magnon’, o nosso vero ancestral (do qual, desde há cerca de 30.000 anos, toda a Humanidade actual procedeu). Estes dois livros são ingénuos e pouco amadurecidos (um pouco semelhantes ao best-seller de F. Fukuyama, na década de 1990: ‘O Fim da História e o Último Homem’. 43


O israelense de que estamos a falar escreveu um terceiro Livro, titulado ‘21 Lições para o Século XXI’ (editado por Elsinore e com a data de 2018). Muito embora não conheça, ainda, o ‘Homo Sapiens//Sapiens’, é um Livro mais sensato e maduro. Antropologicamente, já encontrou lugar para a Consciência humana; e, em termos político-económicos, já começou a pôr em causa a chamada Democracia liberal do Modo de produção capitalista (como diria K. Marx). Escreve ele na Introdução (ibi, pp.18-19): “Grande parte do livro analisa as falhas da mundividência liberal e do sistema democrático. Não é por julgar a democracia liberal particularmente problemática, e sim por pensar que se trata do modelo político mais bem-sucedido e versátil, que os seres humanos já desenvolveram para enfrentar os desafios do mundo moderno. […] Assim, ao analisar os desafios que temos diante de nós, é necessário compreender as limitações da democracia liberal, e explorar de que modo podemos adoptar e melhorar as suas instituições actuais”. Mais do que político, o Problema nº 1 da Espécie Humana é, hoje, incontestavelmente, de índole antropológica: precisamos de contar com o Psico-Sócio-Ânthro-pos, todo-inteiro, e não com ‘cabeças de rebanho’, dotadas ‒ como é dito: de livre arbí-trio ‒ mas prontas a seguir o 1ª Gauleiter, que lhes apareça pela frente!... Foi o liberalismo que venceu, perante os fascismos e os comunismos? Pergunta o Autor (ibi, p.16). Para logo responder do seguinte modo (ibidem): “Esta pergunta é particularmente premente, porque o liberalismo está a perder a sua credibilidade no preciso momento em que as revoluções gémeas da tecnologia da informação e da biotecnologia nos confrontam com os maiores desafios, que a nossa espécie algum dia encarou. A fusão da tecnologia da informação e da biotecnologia pode, em breve, deixar milhares de milhões de seres humanos fora do mercado de trabalho e sabotar tanto a liberdade como a equidade. Os algoritmos da Big Data podem criar ditaduras digitais, em que todo o poder se concentra nas mãos de uma pequeníssima elite, enquanto a maioria das pessoas sofre, não devido à exploração, mas devido a algo muito pior: a irrele-vância”. O Autor confessa que, se no seu livro anterior ‒ ‘Homo Deus’ ‒ se dedicou à discussão da fusão da tecnologia da informação com a biotecnologia, numa perspectiva de séculos ou milénios, aqui pretende dedicar-se à discussão das instituições do Estado Social (ibi, p.17). Nesta órbita, pergunta-se Y.N.H.: “Conseguirão os engenheiros do Facebook usar a inteligência artificial, para criar uma comunidade global que salvaguarde a liberdade e a equidade humanas? Será a solução reverter o processo de globalização e restituir autoridade ao Estado-nação? Ou será preciso recuar ainda mais e ir buscar esperança e sabedoria às nascentes das tradições religiosas ancestrais?” (Ibidem). À 1ª pergunta, respondemos não redondamente. À 2ª diremos sim, mas pensando na ressalva crítica obrigatória: Hoje, quem manda, substantivamente, no Mundo é a Alta Finança, as Multi-transnacionais… Os Estados/nações não passam de peões de brega, no Processo da Globalização dos Mercados!... À 3ª pergunta nem vale a pena responder… porquanto, aumentando e corrigindo K.M., ‘as religiões institucionalizadas são o ópio do povo’!... Continua o Autor (ibi, pp.17-18): “A quarta [e última parte] lida com a noção de pós-verdade, e interroga até que ponto ainda conseguimos compreender os desenvolvimentos globais e distinguir entre transgressão e justiça. Será o Homo Sapiens capaz de 44


interrogar o mundo que criou? Ainda há uma fronteira nítida a separar a realidade da ficção?” ‒ Quando leio ou ouço falar de pós-verdade (uma época ou idade, assim caracterizada…), sinto arrepios na espinha… porque a espécie humana terá acabado na época anterior!... Ora, é óbvio que só o padrão do Sapiens//Sapiens (os humanos que sabem que sabem têm a capacidade de distinguir a realidade da ficção, porque só eles cultivam a Verdade até ao fim!... A conclusão da Introdução pelo Autor tem uma certa tonalidade patética (ibi, p. 19): “Depois de alguma introspecção, optei pela discussão aberta em vez da autocen-sura. Sem criticarmos o modelo liberal, não conseguiremos corrigir os seus defeitos nem ir além dele. Mas, por favor, que fique claro que só foi possível escrever este livro, porque as pessoas ainda são relativamente livres de pensar o que quiserem e de se expri-mirem segundo a sua vontade. Se der valor a este livro, também dará à liberdade de ex-pressão”. Um raciocínio tão claro e clássico, que desaguou na cloaca do triste argumen-to ‘pro domo sua’!... Gostava que Y.N.H. não fosse tão alvissareiro de ‘fake news’!... • O chamado/proclamado ‘mundo pós-verdade’ é um non-sens, um completo absurdo… Porque mistura e confunde ciência e tecnologia, enquanto constitui imperativo categórico, de índole epistémica, distingui-las e separá-las na sua original autonomia recíproca. Por isso, o catecismo da ‘pós-verdade’, que queima incenso à ‘tecnociência’ (de aparelho), é capaz de se dar à petulância de criticar a própria ciência (honesta e sé-ria), em nome do obscurantismo; é capaz, igualmente, de proclamar o autismo tecnoló-gico como estado mental/cultural saudável, quando o autismo tecnocientífico, hoje generalizado, não passa de uma doença letal, para o género humano. A vera e autêntica Autonomia da Ciência perante a tecnociência (de aparelho, como nós dizemos no CEHC) pode exprimir-se e encontrar o seu padrão e balizamento no célebre Livro do Filósofo/Sociólogo Edgar Morin, que dá pelo título sugestivo ‘Ciência com Consciência’ (editado em português pela Ed. Europa/América, Mem Martins, 1982). A linha vermelha aí estabelecida é correcta cientificamente e honesta e séria moralmente. Teremos de recuar na boa sabedoria da Espécie humana, no ‘Laboratório’ da História das civilizações, muito mais do que Y.N.H. pressupõe. Desde logo, a Igual-dade, a Equidade e a Liberdade Responsável ‒ esta tríade terá de escutar bem as Lições da Era da Gilania e do Matriarcado (que começou há ca. de 7.500 anos antes da era comum e terminou em ca. de 3.500 anos antes da era comum, quando foram instaurados os Deuses uranianos e teve início o patriarcado e o processo dito civilizatório, baseado na exploração e opressão, na conquista e na guerra. O Mundo actual chegou a uma tal situação de ruína e catástrofe, na terra firme e na poluição dos mares e oceanos, que, se não houver um rebate de consciência generalizado e capaz de operar revoluções pacífi-cas, só nos pode esperar o apocalipse!... Temos na mesa de trabalho um Livro/Revista (nº 5, referente a 2018), oferecido por um antigo Companheiro e Amigo nosso, Júlio Henriques. Tem por título ‘Flauta de Luz’ e a Ideia/bússola matricial é a da Revolução impossível mas necessária, baseada na Liberdade Responsável (em perfeita convergência com o nosso C.E.H.C.). É um Li-vro honesto e luminoso (distribuído pela Antígona/Editora). 45


Começa (na p.3), com um texto de J.M.G. Clézio/Prémio Nobel da Literatura, autor do livro ‘Índio Branco’ (Fenda, Coimbra, 1989), sobre a experiência e os sentimentos de um índio branco, que vamos transcrever: “Não sei muito bem como é possível, mas a verdade é esta: sou um índio. Não o sabia antes de ter encontrado os Índios, no México e no Panamá. Sei-o agora. Não sou talvez um índio muito bom. Não sei cultivar o milho nem afeiçoar uma piroga. O peiote, o mescal ou a chicha mostigada não exercem em mim grande efeito. Mas, quanto ao resto, quanto à maneira de andar, de falar, de amar ou de ter medo, posso dizer o se-guinte: quando encontrei esses povos índios, eu, que não julgava por aí além ter família, sentime como se de repente tivesse conhecido milhares de pais, de irmãos e de esposas. […] O encontro com o mundo índio não é hoje um luxo. Tornou-se uma necessidade para quem quer compreender o que se passa no mundo moderno”. Na p.185, o Livro traz um texto com o título ‘Survival International’ em Defesa dos Povos Indígenas (chegado de Madrid/España). Nas pp.214 e ss., fala-nos de uma Aldeia revolucionária no Curdistão, de ROJAVA e do Feminismo e do movimento curdo de libertação, num texto de Dilar Dirik (activista desse movimento: licenciada em história e ciências políticas e doutorada, por Cambridge em sociologia; é ela que tem alimentado a revolução de Rojava). Escreve a Autora na p.215: “É tarefa das pessoas, em todo o mundo, defenderem esta revolução, para que ela possa atingir o seu potencial e alimentar a nossa humana criatividade emancipadora. Rojava não tem resposta a todas as situações, que há no mundo, e é impossí-vel descrevê-las com um único adjectivo. Não é certamente uma revolução perfeita, mas é o manifesto da vida, a vida que se manifesta. Rojava é uma verdadeira revolução do povo, uma tentativa que ousa imaginar e criar um outro mundo”. Na contracapa do Livro, sobre o mesmo tema, pode ler-se o seguinte: “Rojava precisa do mundo, mas o mundo, se não quiser atolar-se na barbárie, onde já tem os pés, precisa ainda mais de Rojava, de todas as Rojavas que vão ter de surgir. A revolução social nos cantões curdos do norte da Síria, que em 2012 se tornaram república autónoma, é uma experiência inédita e que está em curso num contexto particularmente difícil, como demonstra o brutal massacre e ocupação do cantão de Afrin pelo exército turco no início de 2018. Defensora de uma Democracia sem Estado, assente no autogoverno local, na ecologia política, na igualdade plena de homens e mulheres, no pluralismo étnico, cultural e religioso, não é por acaso que uma sociedade contra o Estado está a irromper no Crescente Fértil, na região do mundo onde há cinco mil anos as primeiras estruturas estatais começaram a emergir e as mulheres começaram a perder a milenar posição de relevo, que tinham na sociedade [nos ancestrais tempos da Gilania]”. A acrescentar ao belo texto de Pedro Fidalgo ‒ uma Reportagem sobre a Z.A.D. (Zonas a Defender), pp.162-184 ‒, referenciado à ZAD de Notre Dame des Landes, traznos em folheto de 6 pp., assinado pelo escritor revol. Girard Lambert, a adicionar ao artigo de Fidalgo. Na janela do folheto, foi escrito o seguinte (p.2): “A importância do que está a acontecer em França, na ZAD de Notre Dame des Landes ‒ a criação em plena Europa de um território de experimentação social, ambiental e agrícola leva-nos a acrescentar ao dito artigo […] um suplemento sobre a situação posterior à derrota do Governo e sobre a resistência dos zadistas às ameaças que pairam sobre eles”. 46


O folheto/suplemento, que é de Gérard Lambert, assinado com a data de 25 de Abril de 2018, apresenta-nos, na conclusão, este parágrafo final: “A palavra final, provisória, compete aos habitantes da ZAD: “Para todos quantos, por trás dos seus belos discursos, esperam continuar a extrair lucros da destruição dos recursos naturais, das desigualdades crescentes e da domesticação das populações, é inaceitável, visivelmente, que qualquer pessoa tente organizar-se ‒ de uma forma um pouco clara e consequente ‒ contra a corrente dos seus valores mortíferos. No entanto, podemos apostar, face a um mundo que avança direito ao abismo, que aquilo que tentamos concretamente criar na ZAD de Notre Dame des Landes ‒ e noutros espaços ‒ para voltar a ter a vida nas nos-sas mãos, irá continuar a ser considerado essencial e apoiado por um número cada vez mais importante de pessoas”. O grito ‘ZAD em toda a parte’ não está em vias de se ca-lar”. Há, na Rev./Livro, um texto programático (de Günther Anders, na sua obra ‘Die antiquierheit des Menschen’, II Tomo, 1956), que é obrigatório transcrever, para, de uma só vez, nos darmos conta da atmosfera radical da Obra em questão. “A ideia fixa da terceira revolução industrial é esta: o que pode ser feito deve obrigatoriamente ser feito. O mundo é encarado como uma mina a explorar. Não só somos intimados a explorar tudo quanto for explorável, como temos também de descobrir a explorabilidade ‘oculta’ em todas as coisas. Inclusive no homem. A tarefa da ciência actual já não consiste em descobrir a essência secreta e escondida do mundo ou das coisas, ou as leis a que obedecem, mas sim em descobrir a possível utilização que o mundo ou as coisas dissimulam. A hipótese metafísica das investigações actuais é, portanto, que não há nada que não seja explorável. ‘Para que serve a Lua?’ Nem por instantes se perde a esperança de que ela deva servir para qualquer coisa. À questão de saber o que deve ser encarado como ‘mundo’ deram-se, no decurso da história, três res-postas muito diferentes (o ‘cosmos’, a ‘criação’, o ‘objecto do conhecimento’ ou o ‘conjunto dos processos físicos’). Se esta mesma questão for posta agora, a resposta só pode ser a seguinte: o mundo é a ‘matéria prima’. O mundo não é encarado como algo ‘em si’, mas como algo ‘para nós’. […] Por analogia com as vidas ‘que não merecem ser vividas’, de que falavam os nacionais-socialistas, há existências ‘que não merecem existir’. Em suma, para existir, é preciso ser-se matéria-prima: ser é ‘ser matéria-prima’ ‒ tal é a metafísica fundamental do industrialismo” (ibi, p.7). Seja, aqui, recordado que este texto é da década de ‘60 do séc. XX. Está já pe-jado de ironia e sarcasmo. É percorrido por uma hybris sem medida!... Hoje, no séc. XXI, temos de recuperar a harmonia e o equilíbrio entre o curso das sociedades e da Civilização, dum lado, e do outro, a sustentabilidade e a autonomia do Planeta Azul. A Revista/Livro, em questão, tem artigos e entrevistas cheios de interesse e alto nível crítico e radical. Vamos proceder à enunciação de alguns títulos. ‒ ‘Invasão da Alta Tecnologia: ‘O BIOCOLONIALISMO’, por Debra Harry (membro da tribo dos Paiute do Norte, estado de Nevada, EUA. Directora Executiva do Conselho dos Povos Indígenas sobre o Biocolonialismo, Doutora em Educação): (ibi, pp.49-56). ‒ ‘No Âmago da Resistência YANOMAMI (Um Acontecimento literário e filosófico: A Queda do Céu, Autobiografia do Xamã Yanomami), por Joëlle Ghazarian (ibi, pp.93-107). 47


‒ ‘Aqui não há porquês’: a Exorbitância do Político na Sociedade Indus-trial; por Jorge Leandro Rosa (ibi, pp.124-131). O artigo ainda inclui (ibi, pp.133-135) um painel de Debates e Encontros/2018-2020, subordinados à temática: ‘No seio da ódiosa sociedade moderna’: ‘200 Anos de Resistência à Sociedade industrial’. ‒ ‘O Sinistro Mundo Novo da UTOPIA TECNOCIENTÍFICA’, por Álvaro Fonseca (ibi, pp.137-143). ‒ ‘A População Contra os Decisores’/ZAD’, por Pedro Fidalgo (ibi, pp.162194). ‒ ‘O Industrialismo e os seus Descontentamentos’: ‘Dos ludditas e dos seus herdeiros’, por John Zerzan (ibi, pp.191-205). ‒ ‘Emancipação ou Barbárie’: Anselm Jappe entrevistado por Alastair Hemmens (da Univ. de Cardiff, na Grã-Bretanha): (ibi, pp.227-240). ‒ Um Livro de Charles Reeve sobre ‘Le SOCIALISME SAUVAGE’, seguido de entrevista (ibi, pp.241-247), com um tema forte bem desenvolvido: ‘Uma Crítica Radical da TECNOCIÊNCIA’. Aí se defende ‒ como faz o CEHC ‒ o apelo e a defesa à Autonomia recíproca no interface da Ciência e das Tecnologias. ● Vamos, agora, transcrever alguns nacos de texto sobre os quais recaiu a nossa Atenção: ‒ Sobre a problemática da famigerada Transformação das pessoas e das Sociedades, iniciada por Marx: “Mas o que será uma transformação, que não se confunde com as mudanças que ocorrem em todos os domínios e em todos os espaços deste planeta? Alguns entende-ramna como a vinda de um programa político, mas colocar-se-á, então, a pergunta so-bre o que possa ser um programa político depois da mudança ter penetrado tudo, inclu-indo a própria decisão da mudança. Como já referi, a transformação alicerçada na polí-tica, enquanto programa crítico, parece estar comprometida: a emancipação clássica foi capturada pela mudança tecno-industrial, e dela só restam fragmentos, que facilmente são sacrificados às necessidades, quer do dispositivo geral desta, quer das suas opera-ções sectoriais. “Assim, a injunção de Marx, que não visa o simples acréscimo do sentido à operação industrial, coloca a transformação no plano da vida, por contraste com o devir abstracto das coisas e dos seres, seja essa medida económica ou metafísica. Significa isso que há uma desrealização do mundo, que se desdobra em cada acção, e a sociedade industrial é a operação desse desdobramento. Marx analisa a captura da transformação pelo capital (e, portanto, pela indústria), mas não afirma que a transformação se faça, em algum momento, ela própria capital. Nada muda a natureza da transformação, por-que esta não tem uma natureza distinta. É por isso que a industrialização pode iludir-nos relativamente à sua captura da transformação: ao dizer-nos que a produção é ela mesma a transformação, a indústria relança o paradoxo nuclear do conceito de riqueza, já que se trata, aí, de uma impossível equivalência entre riqueza real e riqueza económica. Se a riqueza real pode diminuir enquanto a riqueza económica aumenta, também a riqueza económica diminui enquanto a riqueza real é incrementada. Este desencontro incessantemente relançado, sendo produtivo, é sempre um desencontro com a transformação e só 48


pode subsistir graças a esse desencontro. Na verdade, e abandonando Marx neste ponto, quanto mais progride a industrialização contraprodutiva, mais esta aparece como uma incógnita para as sociedades”. (J. Leandro Rosa, pp.125-126). Onde vai desaguar o processus do industrialismo (contraprodutivo…)? Ao fatídico transhumanismo: “[…] o único passado relevante é aquele que contém virtualidades inumanas: o património genético ou as reservas energéticas constituídas ao longo da história da Terra” (idem, ibi, p.128). Ora, o transhumanismo: (tal como a pós-verdade) são noções, que não passam de ‘fake news’, absurdas e sem qualquer sentido positivo e aceitável. O que elas exprimem e ostentam, despudoradamente, é a continuação (sócio-história) das práticas erradas, em todos os sectores (e, muito particularmente, no hemisfério das ciências psico-sociais e/ou humanas do que o CEHC tem chamado e zurzido o catecismo (cientificista…) do Objectivo-Objectualismo. Neste contexto, os Sujeitos humanos, individu-aispessoais foram reduzidos à condição de puros fantasmas. “Se os malefícios desta sociedade foram sempre evidentes desde os primórdios [desde a origem do sistema do patriarcado], eles alcançaram na actual situação ambiental e social uma dimensão avassaladora, o que põe em relevo a letal eficácia de uma ideologia construída em torno dos supostos benefícios da industrialização” (J. Leandro Rosa, ibi, p.135). “A lógica produtivista da industrialização apoderou-se das nossas concepções sociais, da vida económica, da política e da cultura, o que foi ocultando outras concepções possíveis, e, para muitos autores mais desejáveis e benéficas” (idem, ibidem). “Hoje, alguns informam-nos da chegada de uma nova revolução industrial, que já não terá custos sociais, ambientais ou climáticos. São mentiras estrategicamente cultivadas, que constituem um motivo mais do que suficiente para voltarmos a pensar com os autores que aqui queremos dar a ouvir de novo” (idem, ibidem). O Trans-humanismo, de que hoje tanto fala o novo mundo sinistro da Tecnociência (substantiva), ao proclamar a fusão integral do homem-máquina, não passa de uma ilusão (ideológica) mortífera da própria Espécie humana Sapiens//Sapiens. Impede e evita que as veras revoluções industriais se ponham ao serviço das transformações evolutivas (Marx e Darwin) da Espécie Humana!... O Trans-humanismo (configurado a partir da Tecnociência de Aparelho visionaria, do tipo da que tem livre curso na California, em Silicon Valley), no fim de contas, acaba por desaguar nos autoritarismos clássicos e nos fascismo-nazismos de todos os matizes (cf. op. cit., pp.139-141). “Se pudéssemos concordar, como espécie, sobre o que queremos, para onde vamos e porquê, tornaríamos talvez o nosso futuro menos perigoso ‒ saberíamos aquilo a que podemos e devemos renunciar” (Bill Jay, cit. ibi, por Álvaro Fonseca, p.137). Isso, porém, não acontece, pela simples razão elementar, mas que é de tomo: Temos definido e tratado a Espécie como ‘Homo Sapiens tout court’; não como ‘Homo Sapiens//Sapiens’!... Ora, “o mito do progresso tecnológico está profundamente enraizado na Tecnocracia ‒ um vasto entrelaçamento entre tecnologia e estruturas sociais. No entanto, não é reconhecido como um mito dentro desses sistemas, pois é considerado uma necessi-dade 49


evidente. Torna-se assim apolítico e aceite universalmente” (Per Espen Stoknes, cit. ibi por A. F., ibidem). Desta sorte, a transformação marxiana psico-social e a evolu-ção biopsíquica/social de Darwin não têm lugar na História da Humanidade e da Ci-vilização humana. Neste horizonte, é preciso e urgente erguer a bandeira criticista da crítica radical da Tecnociência. Na Rev./Livro cit., escreve-se no meio de toda a p.242: “O Grupo Oblomoff, partindo de posições libertárias, tem vindo a exercer em França, onde a ideologia do progresso científico é também avassaladora, uma actividade sumamente interessante no terreno da crítica da ciência e da tecnologia, tanto atra-vés de intervenções no terreno como da publicação de livros marcantes. [V.g.:’Un futur sans avenir, pourquoi il ne faut pas sauver la recherche scientifique, Ed. L’Échap-pée, Paris, 2009]. Algures, no sul de França, conversámos com Matthieu, um dos seus membros”. Na p.241, pode ler-se um apontamento cheio de interesse sobre Charles Reeve, autor do Livro ‘Le Socialisme Sauvage’. É do seguinte teor: “Charles Reeve, colaborador da Flauta, publicou este ano, na editora francesa L’Échappée, um ‘ensaio sobre a auto-organização e a democracia directa nas lutas sociais, de 1789 aos nossos dias’, livro que será editado na Antígona, em português. A memória do que nas revoluções sociais é sistematicamente censurada pela história oficial decorre do que isso contém de inadmissível e selvagem para o poder: a subversão da relação entre dominantes e dominados, e a extraordinária criatividade resultante dessa ruptura decisiva. São as revoluções sociais que põem a nu a infâmia das relações subjugadas e procuram subvertê-las, com vista a criarem sociedades livres da exploração, do medo e da mentira”. É justamente aquilo que o CEHC designa sob a fórmula: ruptura e transição da Cultura do Poder-Dominação d’abord para a Sociedade Alternativa da Liberdade Responsável primacial e primordial, onde todos os poderes futuros estarão subordinados à Liberdade Responsável; uma vez que, na Cultura que ainda vige nas Sociedades contemporâneas, não há Liberdade: o que há é, tão só, o ‘livre arbítrio’, a lei do pêndulo de Foucault. A própria História tem sido driblada e ignorada: sempre construída ‘ad usuam Delphini’ e dos vencedores: ‘Vae victis’! ‒ Diz o adágio latino. Está cheio de razão o historiador norte-americano Joseph C. Miller, no seu artigo ‘O ensino da História tem de mudar’ (in ‘Expresso’ de 5.10.2018, 1º Cad., p.19). Aí diz ele ‒ entre outros assertos: ‘Sem a História, as ansiedades da ignorância só se acumulam até explodirem’!... A propósito do ‘Museu dos Descobrimentos’ (de que se tem falado em Portugal), com os objectivos de superar, de vez, tanto o racismo como o colonialismo, ele propõe a fórmula ajustada: ‘As Descobertas e o Nascimento do Mundo Moderno Globalizado, incluindo as dores’ (ibidem). Só que, para que isso mesmo possa ser verdade inconcussa, carece-mos ‒ todos os Estados-Nações ‒ de uma Globalização Alternativa, que afaste a ex-ploração e a opressão, a subjugação e as hierarquias de submissão!... Não esquecer o que ensinou o grande Economista John Kenneth Galbraith, em ‘O Novo Estado Indus-trial’ (1962), erguido pelo bolchevismo, na ex-U.R.S.S.: Esse Socialismo selvagem não é outra coisa senão a outra face do Sistema capitalista: capitalismo monopolista de Es-tado!... 50


Na entrevista com Matthieu, subordinada ao tema ‘Uma Crítica Radical da TECNOCIÊNCIA’ (in ‘Flauta de Luz’, pp.242 e ss.), não só se exerce a crítica acerada sobre a ‘Tecnociência de Aparelho’, como se abre caminho para um outro Mundo Alternativo, criticista e aberto ao Humanismo Crítico. Aí se diz que a tecnociência “é uma actividade prática, que tem implicações políticas muito profundas, uma vez que parti-cipa na criação de um mundo onde os indivíduos não participam na elaboração das suas condições de vida quotidiana. Estamos rodeados de fenómenos que só os especialistas podem compreender, em geral as inovações científicas têm como efeito tornarmo-nos mais dependentes deles” (p.245). Por que se reivindica a plena Autonomia da Ciência, perante a ‘Tecnociência de Aparelho’ ?!... Desde logo, há uma injunção axiomática, que atribui à própria ‘ciên-cia pura’ uma função ideológica. A resposta de M. (ibidem): “Quando alguns cientistas decidem encarar a nossa crítica, a principal linha de defesa que expõem é assinalar que só uma parte reduzida da investigação científica foi absorvida pelo aparelho industrial e militar, e que a maior parte daquilo que os cientistas fazem nos seus gabinetes e laboratórios é essencialmente uma actividade pura, desinteressada, espiritual, que se propõe simplesmente a procurar a verdade. Nós rejeitamos firmemente esta ideia. A ideia de uma ciência pura é absolutamente indefensável, perante o conjunto de transformações radicais que a tecnociência impulsionou no mundo humano e no seu ambiente. Esta noção aponta precisamente para a ocultação do facto de estarmos numa sociedade, onde a acumulação de meios se converte num fim em si mesmo e onde o saber é quase sempre um instrumento ao serviço do poder. Estamos numa sociedade que renunciou a questionar-se sobre os fins que persegue e por que razão os persegue. A ciência moderna esteve sempre em relação com os processos políticos, e agora acabou por criar uma nova frente de poder político que são os especialistas. Isso fez com que a ciência se tenha convertido numa instituição incompatível com a igualdade e a democracia, em suma, com as estruturas horizontais de discussão e decisão. Isso não seria para nós um motivo de rejeição total do espírito científico, se não fosse a instituição científica ter uma tendência imperialista e impor os seus critérios do funcionamento à restante sociedade e, sobretudo, a sua concepção de verdade” (ibidem). Este estigma (que foi apropriado pelas elites científicas) deriva, na história do Ocidente e do Mundo ocidentalizado pelo colonialismo e pelo imperialismo, da Teologia dogmática e da Igreja hierárquica do Cristianismo paulino; bem como, na base, de a Humanidade estar, ainda, quase toda, embarcada na Nau civilizatória do patriarcado (há ca. de 5.500 anos). Em convergência connosco, há um artigo no ‘Le M.D.’ de outubro de 2018, pp. 10-11, assinado por dois Autores conhecidos (Renaud Lambert e Sylvain Leder), subordinado ao título: ‘Face aux marchés, le scénario d’un bras de fer’ (Si un Gouvernement voulait vraiment changer la donne…’). Trata-se, em resumo, da estratégia mais apropriada, para desmantelar o Sistema Financeiro europeu e mundial (de base capitalismo selvagem), polarizado no ilimitado poder accionarial, por forma a abrir caminho para uma vera globalização Alternativa, capaz de se pôr ao serviço dos povos e das massas populares. 51


Na janela do artigo, pode ler-se o resumo oficial: “Après un premier article analysant l’emprise de la finance sur les Etats (‘l’investisseur ne vote pas’, juillet 2018), ce second volet s’intéresse aux moyens d’y résister. Sur le mode de la fiction, il imagine une crise profonde conduisant une population à engager le combat, avant de proposer un plan de bataille ouvrant des perspectives d’émancipation, mais sans en ignorer les coûts ». Ignacio Ramonet (director, então do M.D.) abriu a Quaestio no número de Dezembro de 1997. 21 anos depois, não desapareceu o fatídico Antagonismo entre a Finança e a Soberania popular, mesmo num regime que se pretende Democrático. Vamos, aqui, transcrever cinco nacos de texto do Artigo citado (Out. 2018). Eles correspondem, mais ou menos, a cinco estações do processus estratégico, para combater e demolir o actual Sistema Financeiro nacional e internacional, que subjuga e submete todos os Estados-nações, que a ele se rendem sem pensar nisso… mesmo e principalmente em regimes ditos democráticos, onde política e economia se devem manter reciprocamente autónomas e substantivas!... A) Em situações de crises graves: “Na ocasião de uma crise maior, a paisagem política francesa oscila. A população sugere o virar de página do neoliberalismo: ela elege uma pessoa determinada a operar nesse sentido e dota-a de uma maioria confortável no Parlamento. A equipa no poder pode contar com uma formação política amadurecida, dotada de quadros competentes e em número suficiente para substituir os altos funcionários, que resistem à mudança. Na rua, uma mobilização popular, massiva e festiva erradica as maningâncias da reacção. Desacreditados, os media privados não conseguem fazer o jogo da oposição: a sua animosidade em confronto com o poder conforta a determinação da população. Do seu lado, polícia e exército atribuem-se um legalismo, que descarta a perspectiva de um golpe de Estado” (p.10). B) Numa corrente atmosfera de agarelas: “Uma atmosfera de aguarelas, ao passo que o real é pintado o mais das vezes à faca? Sem dúvida. E todavia, a despeito deste cenário idílico, as forças progressistas vão ter de travar um combate de uma rara violência. Porquanto, a simples vontade de manter as suas promessas constitui uma declaração de guerra: ‘Um dirigente progressista, que anunciasse a sua determinação, desencadearia imediatamente uma reacção hostil dos mercados, e, mais geralmente, de todas as forças do capital, analisa o economista e filósofo Frédéric Lordon. Reacção que o constrangeria a passar a uma velocidade superior, numa escalada conduzindo a medidas muito radicais, a não ser que ‘baixasse a vela’’. Mas se a batalha contra os mercados tem o seu custo ‒ vê-lo-emos mais adiante ‒ ela torna possíveis as transformações proscritas pela oligarquia financeira: fim da precariedade, da corrida à produtividade, do esgotamento irreflectido dos recursos naturais, do consumo frenético, do cocktail diário stress-psicotrópicos, das desigualdades abis-sais… ‘Do que se trata de medir bem, precisa Lordon, é o nível de hostilidade ao qual uma pessoa se expõe, e que uma vez lançado, não mais se pode parar. Porque não há, aí, opção gradualista’” (p.10). C) Sob o ambiente da apoplexia nas redacções: 52


“O mais importante, prossegue Nikonoff, é que, instantaneamente, a relação de forças foi invertida: já não é o Estado que sofre a pressão dos investidores, mas o contrário. Desde logo, ele está em condições de criar a incerteza no meio deles dividindo-os completamente ‒ um aspecto crucial das coisas, que evitará a emergência de uma frente unida’. Como? ‘Anunciando, por exemplo, que certos actores serão reembolsados, mas não outros. E sobre a base de taxas, de que o poder político se reserva a liberdade de decidir…’ ” (p.11). D) A moeda única começa a oscilar: “Evidentemente, a moeda única vacila. Ou seja: a França é expulsa da União Europeia, por não respeitar os tratados, que interditam, por exemplo, todos os entraves à livre circulação dos capitais (o próprio princípio das medidas que viram a luta contra os mercados); ou seja, ainda, o Euro voa em estilhaços sob as tensões financeiras que a amotinação francesa provocou. Neste estádio, configuram-se dois cenários: um optimista, outro nem tanto. “Idealmente, o momento político que a França conhece encontra ecos no estrangeiro. Ou uma crise similar produz os mesmos efeitos, ou o exemplo francês estimula outras forças políticas; assim um grupo de países vacilam, por sua vez. Eles, todos, elaboram com Paris uma estratégia, com vista a desembaraçarem-se do império dos mercados, e unem-se para se dotarem de uma moeda comum, que permita proteger dos mercados as moedas nacionais” (p.11). E) A expectativa dos resultados do processus: “Ninguém imaginará, por conseguinte, que o cenário, que acaba por ser descrito (revolução monetária e fiscal, transformação dos circuitos de produção, reviravolta dos hábitos de consumo) possa captar a adesão de uma maioria política em tempos de acalmia. Mas o futuro não incita à serenidade. Assim que estoirar a próxima tempestade, os liberais estarão prontos, uma vez mais, dotados de uma folha de roteiro, da qual se observou, na Grécia, até onde ela podia levar. Por que não nos havemos de preparar, igualmente, para o combate, mas para que ele abra a via para um mundo mais solidário?” (p.11).

PROBLEMÁTICA CONCERNENTE À MUNDIVIDÊNCIA HUMANA DO FUTURO EVOLUTIVO

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● ‘Amarás ao teu Próximo, como te Amas a ti mesmo’! Este é o máximo Mandamento do Jeoshua de Nazaré. ‘Conhece-te a ti mesmo’: ‘Gnothi s’auton’! Este é o axioma (gnóseo-epistemológico), que se encontra à cabeça do Arsenal de todos os Conhecimentos humanos. É oriundo do Mestre Sócrates de Atenas (na Grécia) e resume toda a sua Filosofia baseada no Diálogo (entre, pelo menos, duas pessoas), no Discurso dialógico, para a própria formação dos conceitos ou noções das coisas. A Gramática psico-sócio-antropológica, completa e crítica, não pode ignorar, nem abastardar estes dois Princípios Primeiros. Não dizemos que os Seres Humanos são seres que sabem que sabem?! O que vem a implicar este asserto fundamental que nociona e define o que o CEHC chama o paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’? A este padrão pertence (des-de há 60.000 anos, a Humanidade inteira), ‒ padrão que é identificado, na História da Arqueologia (mais especificamente, na Paleoantropologia) com o ‘Homem de Cro-Magnon’, mais evoluído, psíquica e fisiologicamente, que o ‘Homem de Neanderthal’, desaparecido completamente por volta de 30.000 anos antes da era comum. Ao existirem e comunicarem as suas respectivas Mensagens, Sócrates (no séc. V-IV a.E.c.) e Jesus (no início da E.C.), ‒ esses dois Grandes Mestres, na Grande Odisseia (darwiniana/lamarckiana) da Evolução das Espécies e da Grande História Evolutiva da Espécie (dita) humana, já, em boa verdade, deveriam ter dado origem ao ‘Homem Novo’ = o ‘Homo Sapiens//Sapiens’! Este teria operado a continuação do alegre e feliz tempo da GILANIA (desde 7.500 a 3.500: 4 milénios antes da E.C., onde homem e mulher se viam, reciprocamente, como dois seres, ontologicamente, iguais e livres). Mas a Grande História das Civilizações (ao iniciar a Grande Recusa → o vero ‘pecado original’, três milénios e meio a.E.c.) acabou por instaurar, no hiperurâneo (platónico) as Divindades uranianas e, com elas, o sempiterno Regime do Patriarcado e das Hierarquias (e monarquias) societárias, proclamando as desigualdades entre Homem e Mulher e a subordinação da mulher ao Homem, ‒ o que levou à aceitação e legitimação da escravatura. E, ao mesmo tempo, foi estabelecida, in aeternum, a sempiterna Cultura (societária) do Poder-Dominação d’abord e os Dualismos metafísico-ontológicos de Platão e Paulo, que constituem o cincho, em que foram moldadas quase todas as religiões institucionalizadas, a começar pelo Hebraísmo, o Cristianismo e o Islamismo (as chamadas ‘três religiões de O Livro’). O Amor (primacial e primordial) e o Diálogo (como fonte e matriz de toda a Filosofia e de todo o Saber científico) constituem, por conseguinte, os dois Grandes Pilares, sobre os quais assentam todos os edifícios da Espécie Humana, qua tal. Estas duas Mensagens/Lições, bem entrosadas, nunca a vera e autêntica Humanidade as poderá esquecer, ao longo dos espaços e dos tempos. Por que é que, a partir de uma certa Emancipação/Libertação humana, operada na Idade Moderna (a começar pelo Ocidente…), e, principalmente, a partir do Iluminis-mo (Lumières, Aufklärung…) oitocentista, continuou a incorrer-se, tão fácil e dapertut-to, nessa Grande Heresia (que o CEHC sempre tem profligado), que dá pelo nome de Objectivo-Objectualismo (= primado do Objecto sobre os Sujeitos humanos)? R.: Precisamente porque os dois teoremas/doutrinas de Sócrates e de Jesus foram esquecidos ou simplesmente ignorados!... 54


● Por que descuramos e prezamos tão pouco a vera e justa Educação (acompanhada, sem dúvida, da Instrução), mas atribuindo o primado à 1ª, tanto nas famílias como nas escolas?! Estamos, todos, carentes de um prodigioso alargamento da Imaginação humana (que, na composição do Indivíduo humano, conta 4/10, ao lado da Sensibilidade com 3/10 e da Racionalidade com 3/10). Temos absoluta necessidade de uma nova Weltanschauung, desde logo, para corrigir e alargar o nosso Imaginário humano. O que deve contar, na Gramática psico-sócio-antropológica, para todos os indivíduos humanos, é o paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, o da Liberdade Responsável, e não o ‘Homo Sapiens tout court’, que vige, ainda, na Cultura do Poder-Dominação d’abord, e que só conhece o ‘livre arbítrio’, ou seja, a lei do pêndulo, que leva os huma-nos a actuarem como cabeças de gado num rebanho!... É preciso que sejamos, todos, capazes de prosseguir por caminhos justos, que nos facultem motivos para valorizar a Vida e as nossas acções e comportamentos. Como nos ensina o grande economista e filósofo ético (Prémio Nobel) Amartya Sen, lembran-do o próprio Aristóteles (que foi, por muitos séculos, reconhecido como ‘O Filósofo’) (in ‘Escolha Colectiva e Bem-Estar Social’, Ed. Almedina, Coimbra, 2018, p.422): “Aristóteles viu isto em termos de ‘florescimento humano’. Entre outras coisas, ele indicou, em Nicomachean Ethics, que a riqueza ‘não é, evidentemente, o bem que busca-mos’ ‒ ‘pois é meramente útil e para outro propósito’ ”. Logo a seguir (ibidem), escreve A.S. o seguinte parágrafo: “Esta abordagem pode ajudar a sistematizar a investigação sobre a qualidade de vida ‒ um assunto de muito interesse nos últimos anos. O interesse generalizado num quadro avaliativo rico em termos informativos, especialmente na literatura sobre o desenvolvimento económico, proporciona uma excelente motivação para seguirmos nesse sentido. Uma teoria da justiça pode usar os ingredientes da qualidade de vida como espaço basal”. (Aqui, podem ser evocados com muita pertinência) o Livro de A.S.: ‘The Idea of Justice’, Cambridge, Mass.: Harvard Univ. Press, 2009; e o Livro de John Rawls: ‘ A Theory of Justice’, Cambridge, Mass.: Harvard Univ. Press). Quando A.S. ganhou o Prémio Nobel de Economia, em 1998, a Academia Sueca das Ciências fixou-se no seu Livro que dá pelo título: ‘Collective Choice and Social Welfare’ e arrolou os seguintes problemas, discutidos no Livro (vd. na contracapa do 1º Livro que referimos): ‘Poderão os valores que os membros individuais da sociedade atribuem a diferentes alternativas ser agregados em valores para a sociedade como um todo, de uma maneira que seja justa e teoricamente sensata? Será o princípio da maioria uma regra aplicável para se tomar decisões? Como é que a desigualdade de rendimentos deveria ser medida? Quando e como podemos comparar a distribuição do bem-estar nas diferentes sociedades?’ Neste horizonte (de exigências científicas honestas, que atribuem o primado antropológico aos Sujeitos humanos, e não aos objectos), as doutrinas utilitaristas de Bentham ou as positivistas de Kelsen não passam de fogos fátuos e malogro das massas populares. ‘Direitos naturais’ ou ‘Direitos humanos’ constituem, a um só tempo, expressões ou enunciados morais e jurídicos, que devem ter a sua residência no motor central da Cultura do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (cf. A.S., op. cit., pp.491-2…). O utilitarismo e o positivismo (éticos ou jurídicos) queimam incenso à sempiterna Cultura do Po55


der-Dominação d’abord. Por outro lado, o Direito perde sempre o seu caminho, quando não se apoia numa Ética/Moral de teor incontornável. É nesta óptica que é legítimo e certo afirmar-se: os Direitos humanos, qua tais, são a matriz ideal/real de toda a legislação. O que sai deste quadro vai por caminhos errados!... É por tudo isso, que não há apenas ‘direitos legais’ (expressos e ditados por um legislador de ocasião…); há também ‘direitos éticos’; e a própria Ética deve envolver e fundar todas as espécies de Direito. A positividade do Direito é toda outra coisa. A positividade jurídica do Direito é uma característica essencial dos Aparelhos jurídicos dos Estados-Nações (a começar pelas suas respectivas Constituições), e nada tem a ver com a episteme ou a hermenêutica jurídicas da escola do positivismo jurídico. A positividade do Direito é uma nota essencial ao próprio Direito estabelecido e às leis estabelecidas, desde logo, porque vivemos em Sociedade (não somos espíritos desencarnados): assim, essa positividade garante aos cidadãos as condições sócio-objectivas, quer para urgir a obediência às leis (positi-vas), quer para delimitar e fundar as penas e a respectiva graduação, quando o cidadão é julgado. A pergunta que A.S. faz, com pertinência, no seu Livro (já cit. ‘Escolha Colectiva e Bem-Estar Social’ (p.495)), é esta: ‘Estarão os Direitos Humanos legislados de forma ideal?’ A via legislativa é, sem dúvida, a mais apropriada. Mas, quando se fala de Direitos humanos deve saber-se que esta é uma linguagem moderna, do Tempo das Revoluções sociais; na Idade antiga e na Idade Média, dizia-se a mesma realidade com a expressão ‘Direitos naturais’ (vd. ex.g., Paulo ad Rom. 1,20). Estas duas expressões conduzem-nos a uma constatação elementar: há sempre uma base ética (referenciada à consciência dos Sujeitos, que acaba por ser inobjectivável…) nos Direitos humanos ou naturais (cf. idem, ibi, p.494). Eis porque eles têm de ser aprendidos e ensinados, na Família e na Escola, na Cultura, em geral. Podemos, assim, chegar à conclusão de que os Direitos humanos se estabelecem e impõem, sócio-culturalmente, por três vias: a) legislação; b) sistema educativo; c) debate público. Uma Verdade não se pode esquecer: Os Direitos humanos (positivados ou não…) constituem a fortaleza de afirmação e defesa das essenciais Liberdades psico--sócioantropológicas (cf. idem, ibi, p.496). Joseph Raz (1986) está em convergência com o CEHC, quando estabeleceu o enunciado de ‘moralidade da Liberdade’. É óbvio que se trata da nossa ‘Liberdade Responsável’; não do mero ‘livre arbítrio’, (percepcio-nado apenas na óptica psicológica), e que é apanágio da tradicional e ainda actual Cul-tura do Poder-Dominação d’abord.´ É claro que o papel da Racionalidade (humana) é importante e decisivo em todo este conjunto de operações. Escreve A.S. (ibi, p.538): “a ligação com o papel da Racionalidade humana, incluindo a reflexão pública, mantem-se forte. É uma parte essencial daquilo a que denominamos abordagem da escolha social”. No parágrafo seguinte (ibi, p.539), ele amplia a reflexão: “Juntamente com isso, é preciso ver a relevância do foco de Condorcet sobre a reflexão pública, antecipando a defesa, por parte de John Stuart Mill, da governação pelo debate. O raciocínio nos contextos sociais é muito enriquecido pelo debate público e o intercâmbio de ideias, preo56


cupações e crenças, sobre os quais outro teórico do Iluminismo, Adam Smith, tinha muito a dizer (Smith, 1759-1776). As ligações entre os valores individuais, a reflexão pública e a discussão livre com os outros não podem deixar de ser fundamentais para a arte da escolha social, amplamente entendida ‒ uma questão que recebeu exposição ilu-minadora não só de Condorcet, Smith e Arrow, mas também da escola contemporânea da ‘escolha pública’, liderada por James Buchanan (1954a, 1954b, 1986)”. ● É o histórico Sistema capitalista que constitui, em última instância, a raiz dos contrastes, confrontos, conflitos, oposições sociais/societárias, entre os que não têm e os que têm, entre os operários (proletarizados ou precários) e os patrões, supostos donos dos meios de produção. Não há cultura (ou civilização) nenhuma, à face da Terra, que não dê atenção (pelo menos, o mínimo…) ao bem-estar físico/fisiológico dos seus cidadãos. “Ora, é essa necessidade básica, essa ‘sourde pression de rapport économique [Karl Marx, ‘Das capital’, Livro 1º, cap.28, 1867/1ª ed.], para retomar a expressão precisa de K.M., que lança os trabalhadores nas fileiras da exploração, independentemente das culturas e das ideologias. Ela alimenta, igualmente, a resistência. A universalização do capital tem por corolário a luta universal dos trabalhadores, com vista a assegurar a sua subsistência. É preciso dar a esta necessidade o lugar central que ela merece, nos projectos de transformação social” (Vivek Chibler, in ‘Manière de Voir’, Oct./Nov., 2018, p.87). Nesta óptica precisa, escrevemos nós um dos primeiros Livros do C.E.H.C. (na década de 1980), ‒ exactamente sobre a problemática das (novas) ‘Tecnologias Adequadas’. Implica isto, em última análise, que as invenções tecnológicas não devem ser operadas e logo lançadas como ‘alvíssaras’ nos mercados, para os patrões capitalistas acumularem mais dinheiro e lucros; mas, outrossim, devem ser determinadas em função real dos proveitos e da produtividade do trabalho e dos trabalhadores. É óbvio que, nes-te contexto, a inteira Sociedade e, em 1º lugar, os Sindicatos dos Trabalhadores devem ser ouvidos (e dar o seu assentimento), pelo menos, sempre que as ditas inovações tecnológicas, nos processos de trabalho, alterem as condições, no sentido (objectivo) de abrir francamente as portas para o desemprego em massa. Ora, o que acontece frequen-temente, no Sistema capitalista, é como se os patrões fossem, não só, os donos dos meios de produção, no presente, mas também os donos das novas tecnologias, no hori-zonte do futuro!... Isto é um roubo sistémico e um absurdo, em termos jurídicos. Aceitar e legitimar tal situação é subscrever a heresia filosófica ancestral do Objectivo-Objec-tualismo! O falso dilema entre Liberdade e Igualdade é oriundo dos princípios do Liberalismo capitalista e da cartilha ideológica da ‘Democracia liberal’, onde tudo é subjectivamente pensado e determinado, por parte dos senhores e patrões, por parte dos que estão nos postos de comando, no topo das hierarquias societárias. (Cf. ‘Manière de Voir’, Oct./Nov. 2018, pp.33…). Como não se falou (nos tempos da paradigmática ‘Re-volução Francesa’ de 1789…) na Liberdade Responsável, o que veio logo a seguir ao primeiro andamento ‘allegro/vivace’, foi o segundo andamento do ‘Terror’ (Robespier-re). Neste horizonte, a Autoridade/Poder despótico, ao carrear a igualdade dos jacobi-nos, anulava as liberdades individuais e impunha a ditadura como a única e derradeira solução. 57


A conclusão é óbvia: a) as democracias liberais são falsas democracias, porque estão, ideologicamente, enquadradas na Cultura do Poder-Dominação d’abord; b) não há outro regime político, digno dos Humanos, a não ser o que é próprio e oriundo da gramática do ‘Sapiens//Sapiens’: aí, pode ter lugar e vigorar, pacificamente, uma vera e autêntica Democracia participativa e responsável. Vemos e assistimos, assim, à comprovação existencial/social da conciliação perfeita de Liberdade e Igualdade. Nas democracias liberais, é tudo pensado, decidido e determinado do lado e segundo o diapasão dos Objectos (aí reina e impera a heresia filosófica do Objectivo-Objectualismo); e a Autoridade/Poder constituída é exterior aos Sujeitos pessoais. Tudo é visto e controlado segundo essa ‘métrica’. O Igualitarismo dos jacobinos, no processus histórico da Revolução Francesa, derivou do Individualismo típico dessa época e de uma lógica linear dos ‘direitos do homem’, considerados e assumidos segundo essa bi-tola. Na Declaração dos ‘Direitos do Homem’ de 1793 (redigida conjuntamente por Girondinos e Montanheses (Condorcet e Robespierre à cabeça, respectivamente), os direitos naturais fundadores são: igualdade, liberdade, segurança e propriedade). Ora, essas são as teses oriundas de John Locke (1632-1704), pai do liberalismo moderno. Este filósofo considerava o direito de propriedade como inerente à própria vida do indiví-duo, da sua liberdade e dos seus bens, compreendendo, desta sorte, o direito do acumu-lar riquezas e disfrutar delas sem entraves nem condicionamentos. No artigo bem feito ‘Les Jacobins contre le Grand Capital’ (in ‘M. de V.’ já citada, pp.33 e ss.) do historiador Jean-Pierre Gross, pode ler-se na janela inicial: “Le projet égalitaire des Jacobins portait-il en germe une idéologie liberticide, comme l’affirme aujourd’hui la pensée dominante ? Une tel interprétation, qui établit une antinomie entre liberté et égalité, occoulte les réflexions et les actions engagées par Maximilien de Robespierre et ses partisans pour concilier ces deux principes au sein d’un modèle de société fondé sur la justice disributive et le bien commun”. Efectivamente, as reflexões de Robespierre não saíram da gaiola tradicional do Objectivo-Objectualismo!... Como, de resto, aconteceu com todos os projectos do Socialismo, ainda no séc. XX. Eis por que “ao dilema filosófico entre liberdade e igualdade, juntou-se a problemática do Terror, tal qual foi declinada pelos autores modernos” (idem, ibi, p.33). Mesmo hoje em dia, muito pouca gente das elites pensantes se deu conta de que os problemas sócio-pessoais têm de ser tratados, fontalmente, a partir das consciências dos Sujeitos individuais. De contrário, recai-se sempre na here-sia do Objectivo-Objectualismo. Quem fala da Liberdade Responsável como âncora da Cultura (alternativa) da Liberdade Responsável primacial e primordial?! Que deve estender-se, no Novo Mundo social, a todos os Seres Humanos? A Igualdade, na base, e a Liberdade, como expoente!... É o próprio artigo e o seu autor que nos dão a chave da resolução do enigma, na tese seguinte (ibi, p.34): “Se, na Declaração de 1793, a igualdade precede a liberdade [como se viu acima] é porque o obstáculo da pobreza se opõe à realização dos direitos recíprocos”. Ora, isto mesmo é função directa da Responsabilidade individual-pessoal. Eis por que ‒ afirma o nosso Autor (ibi, p.36) ‒ “A propriedade não pode, jamais, estar em oposição com a subsistência dos humanos, essa mesma constituindo um direito ‘tão sagrado como a própria vida’ ”. 58


Quem defendia o direito igual à liberdade, enquanto implicando a reciprocidade (sendo aquela mesma responsável) (desde logo o dever de respeitar a liberdade do outro) foi Amartya Sen. Desta sorte, a oposição entre Liberdade e Igualdade resulta fictícia, falaz, inexacta, quando são aplicadas a todos os cidadãos. De qualquer forma, “o liberalismo igualitário, especificamente francês, opõe-se tanto ao mercantilismo quanto à tendência liberal clássica, que desemboca no capitalismo” (J.-P, Gross, ibi, p.35). Por sua vez, é preciso saber e relevar que ‘a solidariedade não é a filantropia’ (vd. ibi, artigo de Alain Supiot, professeur au Collège de France, pp.44-46). Por quê? “Porque ela nunca se deixa dissolver num puro cálculo de interesse; a solidariedade é um factor de resistência ao empóreo liberal” (idem, ibi, p.44). Na janela do artigo (p.44), pode ler-se: “A organização de um regime de solidariedade é a própria expressão do reconhecimento da igual dignidade dos seres humanos. Cada um deverá contribuir para isso segundo as suas capacidades, e beneficiar disso segundo as suas necessidades. Contorná-la, desnaturá-la, abortá-la, como tenta fazê-lo o Tribunal de Justiça europeu, é regressar, traiçoeiramente, a um mundo dividido entre os que querem dar por bem e… os outros”.

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EM DEMANDA DE UMA BOA E JUSTA GOVERNAÇÃO

CONTEXTO PARADIGMÁTICO PARA REFLECTIR E MEDITAR!... (Preâmbulo)

● Z.E.G. ‒ O Dueto começou a ser emparelhado em fins da década de ’60 e Z.P.G. princípios da década de ’70 do séc. XX. ‘Zero Economic Growth’ e ‘Zero Population Growth’. Eram todos contra o tradicional Sistema Capitalista depredador da Natureza e incapaz de resolver os problemas da miséria e da pobreza; e mais: não era qualquer movimento (renascido das cinzas…) malthusiano que os movia e determinava. Estas foram as principais acusações dos seus adversários/inimigos. A batalha era científico-cultural. E era preciso abandonar dogmas cristalizados!... Que veio nas últimas décadas do séc. XX? O reforço inimaginável do Sistema Capitalista, na sua vertente mais feroz e selvagem: o Neoliberalismo capitalista global, sem adversários verdadeiros… A excepção da ‘Comuna de Paris’ (1871), que foi jugulada pelo exército prussiano, todas as diferentes formas de Socialismo, que emergiram, como alternativa ao Capitalismo, não passaram de falsidades e mentiras: o seu vero nome é ‘Capitalismo monopolista de Estado’ (a outra face da mesma moeda do capitalismo (dito) liberal. (John K. Galbraith dixit). Ora, como se pode adivinhar, crescimento (econ.) é sinónimo material de liberalismo (capit.). As democracias liberais contêm um íman magnético que atrai, a um só tempo, a ideologia económica liberalista e os populismos: a chave desse fenómeno é dupla: a) toda a vida sócio-económica está fundada no ter dos indivíduos (não no ser); b) os pobres e miseráveis que não têm acesso ao ter satisfatório para as suas vidas come-çam a seguir os caudilhos, que lhes acenam com promessas incumpríveis!... (Cf. ‘Exp.’ de 20.10.2018, 1º Cad., p.29: art. de M. Monjardino sobre ‘Desintegração e transforma-ção política’). Em conclusão: é o Egoísmo individualista dapertutto!... Até nas opera-ções de trânsito… Quem cumpre, hoje, sóbria e prudencialmente, as Regras do Trânsito Viário?!... Estas teses eram conhecidas e estavam consciencializadas pelas trinta personalidades (de 10 países) que se reuniram em Roma, a convite do economista italiano Aurélio Peccei, em Abril de 1968. Essa Reunião célebre foi chamada de ‘Clube de Roma’. E o livro, que saiu dessas reuniões, com as suas principais teses e conclusões, e aprovado 60


pelo Conselho da Reunião, em 1972, tinha, significativamente por título: ‘The Limits of Growth’.(Cf. Enc. Verbo, Lisboa/São Paulo, Vol. 8, 1999. O artigo é assinado por J.L. da Cruz Vilaça). No ‘Clube de Roma’, o projecto crítico de investigação havia sido institucionalizado sob o seguinte epíteto: ‘Project on the Predicament of Mankind’. (E dizem os parolos que o inglês não é uma língua latina, também… A palavra Predicament pode, até, evocar os 10-predicamentos aristotélicos, que ele considera na Metafísica; segundo a Escolástica latina: ‘substantia, qualitas, quantitas, relatio, actio et passio, locus, tem-pus, situs et habitus’). Ainda hoje, esses dez predicamentos de ‘O Filósofo’ detêm um significado e uma importância hermenêuticos e epistémicos. No enunciado do ‘Clube de Roma’, eles tratam, precisamente, dos fundamentos essenciais da Espécie Humana, qua tal. O mal estrutural da Idade Contemporânea (= ‘a 2ª modernidade’), foi, justamente (depois de I. Kant e da Rev. Franc.), o ter perdido o caminho, que fora desbravado na ‘Primeira Modernidade’, que tinha feito o seu curso inovador e revolucionário (face à servidão da gleba e da medievalidade), antes da emergência da ‘revolução industrial’, por volta de 1720, na Inglaterra. Mas voltemos ao Contexto-padrão (histórico), enquadrado pelos textos do ‘Clube de Roma’ e difundidos pelo Livro ‘The Limits of Growth’. O ponto da situação (ou balanço crítico), que, em 1968, era considerado actual e exigia um severo criticismo, pode esboçar-se com um naco de texto extraído do op. cit.: (Seja aqui recordado que o grupo de especialistas começa a trabalhar e a debater os Temas culturais/civilizatórios principais, no mês que precedeu a famosa ‘revolução de Maio’, das juventudes de várias Nações reunidas em Paris!): (adivinhava-se uma rotura histórica, que foi impedida pelas elites dominantes e respectivas gendarmarias…): Reza assim o texto: “O problema não é, pois, o de parar o crescimento por causa dos seus limites físicos e económicos. É, antes, o dos seus limites sociais (Daniel Bell); da sua composição, da repartição nos planos nacional e internacional; do aperfeiçoamento dos mecanismos de mercado; de como assegurar o crescimento com recursos limitados, mantendo a qualidade do ambiente; de como promover, ao mesmo tempo, o desenvolvimento das populações famintas ou subdesenvolvidas. [Recorda-se, aqui, que em 1955, reuniu-se, em Bandung, o grupo dos Estados/Nações, que se auto-designaram de ‘Não Alinhados’ (= o ‘Terceiro Mundo’), tanto diante do Sistema capitalista como face ao suposto Sistema Socialista]. Temas esses a que as grandes fomes recentes (Etiópia, Sudão, Moçambique, Chade) vieram dar uma ressonância muito especial, relegando a questão do C.N. [crescimento nulo] para a arca dos mitos do ‘radicalismo pequeno-burguês, de intelectuais abastados e acentuando a dimensão moral do ‘espírito’ do crescimento e as exigências de solidariedade e co-responsabilidade na sobrevivência e progresso do género humano”. (J.L. da Cruz Vilaça). Estivémos já a esboçar as últimas posições críticas, do ‘Clube de Roma’, advindas dos seus adversários em confronto com o 1º Grupo. Este havia polarizado as suas reflexões criticistas numa tonalidade moderada mas acríbica, que foi geralmente aceite, na base, por todos. Eis um pequeno resumo do texto (ibi): “o uso intensivo e a degradação dos recursos naturais; o aumento da poluição e da deteriorização do ambiente; excesso crescente da população; alargamento da intervenção do Estado, com redução da 61


liberdade individual, custos sociais e psicológicos dos processos de adaptação; enfraquecimento da qualidade das relações humanas; destruição dos valores espirituais e estéticos”. O status quo antea ‒ como se vê ‒ está aqui descrito com moderação, mas atingindo os pontos fulcrais do sempiterno S. Capitalista vigente, a tal ponto que quase deixam perceber que a sua âncora é o ‘Sapiens//Sapiens’ e não o ‘Sapiens tout court’. A confluência dos dois movimentos críticos foi feliz, ao ponto de parecer augurar uma vera viragem civilizacional e cultural nos finais da década ’70 do séc. XX. Essa ruptura não veio então… nem sequer, em finais da década ’80 e princípios da década ’90 (1989: queda do Muro de Berlin; 1991: Colapso da U.R.S.S.). A marcha para um Futuro de ruina e catástrofe prosseguiu; ao ponto de em 1992, no Rio de Janeiro, se ter reunido, promovida pela O.N.U., a 1ª Cimeira da Terra, para começar a encarar a poluição desas-trosa do Planeta e a problemática das Alterações Climáticas. Os efectivos iniciais do ‘Clube de Roma’ e seus seguidores viram-se, nas décadas de ’70 e ’80, obrigados a mitigar ainda mais os seus argumentos e razões, alegando que o principal era alertar a opinião pública e os decisores políticos, para os problemas suscitados, que eram demasiado graves para serem esquecidos ou ignorados. No seu ardor pela polémica e pretendendo exercer o seu direito ao contraditório, os adversários dos efectivos iniciais puseram toda a sua acribia e esforço de exploração nos 5 factores contemplados, inicialmente, e carecendo de limitação (por vezes draconeana): a) população; b) produção agrícola; c) utilização dos recursos naturais (a começar pelos minérios…); d) produção industrial; e) poluição (da atmosfera, dos terrenos agricultáveis e dos oceanos). Contra a inércia do processo ‒ argumentavam ‒ e a sua limitação dentro de um século, havia uma solução: acabar com a poluição atmosférica e promover a estabilização (simultânea) da economia e da ecologia, susceptível de prosseguir no futuro. Esqueciam-se, entretanto, de acrescentar que a dita solução só poderia funcionar, adequadamente, em regime socialista cooperativista (v.g. segundo o modelo de António Sérgio). De contrário, só haveria a esperar o mal pior: sempre segundo o malfadado Sistema Capitalista (que não se põe em causa…), o declínio crescente das condições de vida e o colapso da Terra e das Sociedades humanas. Os contraditores dos efectivos iniciais não se esqueceram da acusação primacial, que sempre desfecharam contra os inovadores: ‘O que os efectivos iniciais propunham era demasiado tecnocrático e malthusiano’. E, no seguimento de tal acusação, a outra, subsidiária da primeira: ‘o modelo ignora totalmente as influências do funcionamento do mecanismo dos preços e mercados, na auto-regulação de todo o Sistema. ‒ Claro, sem o trazer à colação, é sempre o sacrossanto Sistema Capitalista, que está em causa e se defende per fas et nefas: a sagrada cartilha tradicional, que nunca se deixa pôr em causa expressamente… e a melhor estratégia é mesmo não falar dela!... Hoje em dia, todos os Partidos (à Direita ou à Esquerda, na orquestra do Parlamento, ordenado segundo a Cultura do Poder-Dominação d’abord), partilham da Ideia/ /Dogma do Crescimento (lei do) para a Economia política, esconjurando, de todo em todo, o famigerado C.N.. Consideram mesmo que essa é uma ideia saudável para a Econ. política de um País ou conjunto de países (como a U.E.). Não esquecer, aqui, que a lei da 62


Concorrência (que tem por objectivo a condenação de qualquer assomo de monopólio!...) constitui o dogma sacrossanto, na sua raíz, que sobredetermina o fenómeno do Crescimento. E, não obstante, o dogma/heresia do Crescimento económico, considerado como Regra absoluta e incontornável é filho (bastardo) herético do Liberalismo (económico e político… ao serviço do Capitalismo). Tal dogma pressupõe, em termos ideologicamente organicistas, que os Indivíduos/Pessoas são ontologicamente superiores à Humanidade como entidade Colectiva. Quando a França se encontra mergulhada, sob o novo Presidente Macron, num tsunami de greves, Gabriel Attal, porta-voz do Movimento (macroneano) ‘République en Marche’, esse porta-voz tem a petulância, em regime republicano, de contestar a cul-tura da greve!... Ora, como é sabido, esta é sempre a última solução, encontrada pelos Trabalhadores, quando os Governos não são capazes de dialogar com um sector tão importante da Nação. As Greves ‒ como é sabido ‒ pressupõem sempre uma realidade societária de natureza conflitual entre o Governo e os cidadãos. Esta é a ‘marca d’água’ de um Regime democrático! Constituem uma realidade conflitual episódica, dentro do Processo histórico do Conflito estrutural entre explorados e exploradores, oprimidos e opressores, afinal a sempiterna luta de classes, que tem lugar na Cultura do Poder-Dominação d’abord. “Não serão portanto os apelos dos senhores Attal que por aí andam ‒ que possivelmente até sonharão com o dia, o grande dia, em que trabalhadores e sindicalistas compreensivos, fartos de combater sem ganhar grande coisa, deporão as suas armas e seguirão os seus avisados conselhos ‒ que mudarão o rumo da história! É que, srs. Attal, a luta, a luta de classes, a histórica luta de classes está aí! E vai continuar. Continuará até que os factores que a provocaram se extingam. Até que o sistema se extinga!” (H. Viegas, in ‘Seara Nova’, Out. de 2018, p.42). Os nazi-fascismos estão sempre à espreita, nos conflitos que emergem no regime democrático, ‒ o único regime político digno da natureza dos Humanos duplamente Sapientes. Só que, infelizmente, ele ainda não é dessa natureza. Como estamos a sobreviver segundo as balizas da ‘democracia liberal’ (burguesa), o que ainda prevalece é a gramática do ‘Homo Sapiens tout court’!... E, como o Diabo, aqueles estão à espera de os fazer cair na tentação, porque a Espécie Humana ainda não abandonou, na sua Evolução, o patamar da Cultura do Poder-Dominação d’abord, para passar ao novo patamar da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial! A propósito dessas tentações, vamos citar três parágrafos esclarecedores (e oportunos!...) de uma excelente Palestra do Mestre João Barcellos, em S. Paulo (Br.), no dia 20 de Out. de 2018, ‘O Fascismo: Que raio é isso?!’, e dirigida a uma audiência de professores (da qual recebi e-mail, em jeito de sinopse). ‒ “A simples retórica publicitária de um caudilho já enuncia o exercício do (seu) Poder, porque ele desconhece a presença das Pessoas. E as Pessoas são para ele uma massa de manobra, que em Política faz girar interesses egocêntricos. Por isso, o caudilho (aqui, o chefe político, militar ou religioso) é sempre o Alguém plenamente isolado no meio da multidão ‒ a multidão que é composta por ‘puxa-sacos’ de plantão partidá-rio 63


ou simplesmente comunitário-familiar, e também, a multidão de funcionários públi-cos, ou privados, chamados a aplaudir a cena publicitária, montada na praça para o cau-dilho exibir o que acha que ele mesmo fez, mas não, é o que ele mandou fazer com o di-nheiro público… Entretanto, na sua retórica política, ele enfatiza o ‘eu fiz e vos apresen-to mais uma obra’. Eis a estética do Fascismo na sua essência” (p.2). ‒ “A estética do Fascismo é o Poder absolutamente exercido sobre as massas encurraladas social e economicamente. Mas também via Comunicação Social, i.e., a grande ‘média’ [jornais, revistas, canais de televisão e rádio, e agora a internet com as suas ‘redes sociais’], quando tudo é direccionado para um Consumismo robotizado sob orientação da Publicidade industrial. Isto é o Fascismo em movimento” (p.3). ‒ “O que fazer diante do Fascismo? Combatê-lo. Buscando informações e, por exemplo, fazendo da Política eleitoral uma arma para levar ao seio desse Poder vozes que representam a Pluralidade sociopolítica. Ora, se o Fascismo age com manobras de Singularidade (a individualidade corporativa-familiar), cabe ao Todo social encarar uma representação republicana, à Direita ou à Esquerda [enquanto estivermos sob o jugo do Liberalismo cap. burguês], às vezes uma social-democracia liberal, que agrega os dois lados, na conveniência de defender uma base política republicana para evitar os extremos” (ibidem).

REGIME DEMOCRÁTICO: A OUTRA METADE QUE FALTA!... ● Assinada na Convenção de Philadelphia, em Setembro de 1787, a Constituição Democrática dos U.S.A. entrou em vigor em 1789 (no mesmo ano em que se ini-

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ciou, no Velho Continente, na França, a paradigmática ‘Revolução Francesa’ (17891795). Ainda hoje, o seu intróito pode constituir, para nós europeus, uma grande Lectio. Vejamos os termos em que o Intróito foi redigido: “THE CONSTITUTION of the UNITED STATES OF AMERICA: WE THE PEOPLE of the United States, in order to form a more perfect Union, establish Justice, insure domestic Tranquility, provide for the common defence, promote the general Welfare, and secure the Blessing of Liberty to ourselves and our Posterity, do ordain and establish this CONSTITUTION for the United States of America” (Encyclopedia International/Grolier, New York, 1974, vol. 5). ‘WE THE PEOPLE’: estes 3 termos, com que o texto da Constituição faz a sua entrada solene, estão prenhes de uma semântica incontornável: é toda uma Nação que se ergue e consolida como Estado Federado ou Federação de Estados: um só Estado, sem dúvida, mas a necessária Regionalização, que não pode ser esquecida. O seu texto é, a um só tempo, personalista e universalista. O principal factor para assegurar o carácter Democrático desse Regime político era, ao tempo, o processo das Eleições políticas periódicas. Hoje, ainda continua assim, para a maioria dos regimes democráticos. Mas nesses três termos, há um dado actancial novo, que, via de regra, foi esquecido ou ignorado na própria Constituição francesa saída da Grande Revolução e, porventura inadvertidamente (?...), está ausente das Constituições do Velho Continente. A Constituição francesa foi elaborada em nome de 3 classes sociais (na linguagem técnica, até se chamavam Estados do Reino), que se juntaram e uniram na Convenção: Clero, Nobreza, Povo. E continuaram assim, durante as sucessivas Repúblicas constituídas. ‒ Mais uma razão séria para que a União Europeia não seja constituída como uma simples federação de Estados, mas, sim, como uma Confederação (jurídica) de Estados/Nações (como sempre tem defendido o C.E.H.C., na esteira, aliás, do antigo Presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors). ‒ Qual é a outra metade que falta ao Regime Democrático?!... Vejamos, em primeiro lugar, o que vem a ser um Regime Democrático digno do nome. Regime (político) do Povo, para o Povo e pelo Povo. Povo, no sentido da Constituição norte-americana (não do Continente europeu). Mais: o Regime político da Democracia é o único Regime político digno e próprio dos Humanos, da estirpe do paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. E todos os actuais Seres humanos, que vivem à face da Terra, são descendentes exclusivos do ‘Homem de Cro-Magnon’, o ‘Homo Sapiens//Sapiens’, não do ‘Homem de Neanderthal’, o ‘Homo Sapiens tout court’, que desde há ca. de 30.000 anos desapareceu definitivamente da Terra. Eis por que, se quisermos caracterizar, plenamente, o Regime político da Democracia, próprio do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, te-mos de ter por horizonte, a Cultura do Futuro, a Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. A Cultura civilizacional (histórica) do passado era polarizada e balizada pela Cultura do Poder-Dominação d’abord (como bem a caracterizou Max Weber); as classes sociais e as guerras faziam parte da ementa, juntamente com a paz (que não passava do interregno entre duas guerras)!... Tudo evolui, ao longo do Tempo histórico, inclusive a nossa noção de Deus, como foi, por nós demonstrado e esclarecido no Livro recente sobre esta matéria, com o título: ‘Mudar de Deus!’ (Edicon, São Paulo, 2017). Não era Paulo que defendia a Te65


se: ‘Non est Potestas nisi a Deo’ (Rom.13,1)? No séc. XIII (em plena medievalidade), já havia teólogos e filósofos, influenciados pelas doutrinas de Aristóteles, que defendiam que os Poderes Estabelecidos procediam do Povo, através de eleições. Francisco Soares (1605-1659) já estabelecia a Tese, que hoje pode ser reeditada: ‘Omnis Potestas a Deo per populum’: Todo o Poder vem de Deus através do Povo. No séc. XVIII, através de Rousseau e outros, veio a doutrina da Democracia e das eleições pelo Povo de cada Nação. O séc. XVIII foi, por excelência, o séc. das Revoluções sociais: francesa: 1789; norte-americana: 1776. Mas foi também, por antonomásia, o século das Luzes, do Iluminismo. Só que, a partir daí, com a obra de Adam Smith: ‘A Riqueza das Nações’ (editada no mesmo ano da Rev. norte-americana), foi o Sistema capitalista que prevaleceu, ao longo dos três últimos séculos, apesar das revoluções (ditas) socialistas. Neste con-texto, e dado o peso ciclópico da Economia face à política, foi o Liberalismo (econó-mico e político) que emergiu. Ora, se a Constituição e o Estado de Direito são noções mais ou menos incontornáveis, o liberalismo, por seu turno, é filho bastardo do Ilumi-nismo. Pior ainda, o neoliberalismo capitalista hodierno!... Constituem caminhos e orientações, que precisam ser criticadas e censuradas por Livros como os nossos e os de N. Chomsky e, em especial, pelo Livro de Erich Fromm: ‘TER ou SER?’, (Editorial Presença, Lisboa, 1999). Sem dúvida, o ‘pecado original’ do Liberalismo (que nasceu no berço da Economia e dos Mercados) é o de ter configurado, antropologicamente, a existência e o comportamento dos Humanos, a partir da âncora do TER e não do SER. A) Democracia eleitoral(ista); B) Democracia participativa e directa. B é a 2ª parte que falta, normalmente, às actuais Democracias vigentes. A vida colectiva/individual concerne, no fim de contas, todos os cidadãos e cidadãs do Estado/ /Nação. Os partidos políticos, que a Tradição nos legou, são os existentes em cada Parlamento (nacional, ou internacional como na U.E.). O que aí funciona é a chamada Democracia eleitoral(ista): com eleições disputadas periodicamente. Os partidos políticos, que aí tomam assento, estão, como é hábito, burocratizados e ocupados por gente (depu-tados dos 40 anos para cima…), que continua a reger-se por ideologias e horizontes ca-ducos e ultrapassados. É, agora, em tal contexto, que, através dos meios da NET/WEB (‘redes sociais’ em particular), começaram a configurar-se algumas novidades de torno: Entre nós, e através desses meios, há jovens (dos 14 aos 30 anos) que se iniciam num programa de novos grupos político-partidários (dispersos pelos ca. de 300 concelhos do País), e argumentando, justificadamente, que tais jovens representam mais de 20% da população adulta do País. Eles instruem-se e comunicam entre si, mediante as conhecidas ‘redes sociais’. Dir-se-ia que aprenderam com os nossos vizinhos, com o Partido espanhol ‘Podemos’, que se constituiu de modo análogo. Eles estão a organizar-se politicamente, fora dos partidos tradicionais (formatados dentro dos moldes da Cultura do Poder-Dominação d’abord); e atribuindo relevo a programas concretos e problemas não resolvidos, que estão urgindo solução. Não é que 66


estejam contra os partidos… mas estes ‒ consideram eles ‒ estão a burocratizar-se cada vez mais e a cair em tendências ideológicas ultrapassadas. Os jovens portugueses aprenderam cedo com os espanhóis, nos últimos anos, e não vão desistir desta nova Via da Democracia participativa e directa, a tal metade, que falta às tradicionais democracias (representativas e indirectas) eleitoralistas. A Reportagem sobre esta problemática foi benvinda e bem discutida no canal 3 da RTP de 17.10.2018. Os jovens presentes revelaram, ainda aí, que estão a procurar, em todos os concelhos do País, representantes capazes e dignos, para constituir, pelo menos, uma rede de jovens politicamente responsáveis e com uma mentalidade arejada e convergente.

DAS DIFICULDADES EM PERSONALIZAR OS INDIVÍDUOS HUMANOS ● O Processo Civilizatório, que a psico-sócio-História tem registado (desde as origens do Patriarcado e dos Deuses uranianos, há ca. de cinco milénios e meio…) caracteriza-se pelo Dualismo metafísico-ontológico (no Imaginário humano) e pelo Dualismo estrutural/funcional, no plano das Realidades societárias: há os Senhores e Donos do mundo, e há os servos que obedecem e executam as ordens ‒ os de cima e os de baixo. Na verdade, ainda sobrevivemos na sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. A maior parte dos indivíduos, nas ditas Sociedades humanas, ainda funcionam segundo o padrão das ‘cabeças de rebanho’!... É por isso que, perante o ‘Leviatão’ da Potestas Estabelecida, via de regra, as ditas Esquerdas e as ditas Direitas costumam adoptar, sensivelmente, os mesmos comportamentos e estratégias: como se a História vera funcionasse em esquemas cíclicos/ /circulares!... São prenhes de significado político criticista, nessa linha, os três pará-grafos (que vamos citar) de um Texto de 3 pp., elaborado pelo Grupo de Debates NOÉTICA sobre as eleições presidenciais no Brasil e a derrota do P.T. face ao candi-dato a ditador Jair Bolsonaro, em 28 de Out. de 2018. (Extraídos do e-mail, enviado em 31.10.2018). “Que os bajuladores lulistas, como frei Betto é um bosta como esse Leonardo Boff, nunca vieram a público para criticar a corrupção dos governos lula-petistas que geraram o Mensalão e o Petrolão. O que significa dizer que, para eles, tudo está bem enquanto se rouba pela ‘causa’! E mais: Convidado por Lula a ser o vice na chapa presidencial [Ciro] com a máscara lulista, ele disse não, ‘porque isso é uma fraude’. Era o político de centro-esquerda Ciro Gomes, no âmbito da Nação e do seu trabalho, tudo se resume numa frase: ‘fomos miseravelmente traídos’ pelo lula-petismo. “Tudo isto mostra que as análises do Grupo de Debates Noética, muitas delas com base nos estudos de João Barcellos e de Manuel Reis, outras mesmo com o toque das análises do padre Mário de Oliveira (da Lixa), foram e são ‘análises que montam quadros de investigação filosófica acerca das circunstâncias, que nos rodeiam e das que geramos’ [da carta de fundação do Grupo]. 67


“Crítico severo de quem manipula a religião politicamente, Barcellos diz que ‘… Boff e Betto, entre outros religiosos, não souberam, e nem querem, agir sob a luz universal da Palavra jesuana, preferem ‘o jugo de ditaduras que, no embate com outras, igualam-se’ e distanciam-se da realidade do grito popular’ [frase copiada de vários mensagens de Figuera de Novais, amigo e companheiro do bispo salvadorenho Oscar Romero]”. ‒ Nós não andamos a arrolar gambuzinos de indivíduos, no oceano das sociedades (ditas) humanas!... Com efeito, quando procedemos à análise crítica dos fenómenos sociais, ao longo da História real das Sociedades (ditas) humanas, é triste e lamentável ter de chegar à conclusão incontornável: Libertar (= ajudar a promover) os Indivíduos humanos para a sua nova condição de Sujeitos/Pessoas, livres e responsáveis, constitui um colossal plano/empreendimento, que o histórico Processo Civilizatório tem negligenciado e omiti-do, em suma, não tem praticado… a não ser (é o caminho errado!...) mediante a conver-são draconeana dos Sujeitos em Objectos (objectivo-objectuais), convertidos, ipso facto, em coisas (mercadorias), em tudo semelhantes aos objectos/coisas, que encontramos e descobrimos na Madre-Natura. Na História das Culturas e das Civilizações, é sempre o padrão do Homo Sapiens tout court que tem prevalecido, precisamente porque as sociedades (ditas) humanas se acham divididas e separadas em dois patamares: Os que mandam e são os donos do Poder, e os que são submetidos (ou se submetem…) e executam ordens, advindas dos seus superiores. Uma das descobertas capitais de Karl Marx, por sua própria índole estrutural-matricial, foi, precisamente, a da divisão/separação dual nas sociedades humanas: “Na medida em que é burguesa [os economistas burgueses apresentam a ordem capita-lista como uma realidade única e trans-histórica, não como uma etapa historicamente transitória…], a economia política só pode permanecer como ciência, enquanto a luta de classes permanecer latente, ou se revelar apenas em fenómenos isolados”. (In ‘O Capital’ [Marx-Engels: Obras Escolhidas em três tomos (2ª ed.), Lisboa: Ed. ‘Avante’, 2008, Posfácio, p.14]. Mas os seres humanos têm que se assumir com os seus papéis e funções sociais activos. Os dois vícios correlatos são: o expectativismo passivo das massas populares e dos trabalhadores; e o conformismo activo ou resignado à ‘Ordem Estabelecida’ (este é, em última instância, a interiorização incapacitante daquele). Eis por que é preciso ter sempre em conta tudo quanto K.M. escreveu sobre o ‘carácter feitiço da mercadoria’. E não esquecer, entretanto, que o próprio Capital é, por ele, definido, em última análise, como ‘uma relação social determinada’. Essa é a sua fons et origo! ‒ É o predicamento (aristotélico) ontológico da qualitas (e não o da quantitas) que aí é decisivo! Para além do resto, convém sempre, a propósito da Grande Mensagem que a Obra de Marx nos deixou, não esquecer essa máxima englobante e revolucionária: “Os filósofos, até ao presente, têm apenas interpretado o Mundo de maneiras diferentes; ora, a Questão, porém, é transformá-lo (activamente)”. Na óptica do C.E.H.C., diríamos: ‘É preciso, com toda a urgência, preparar e proceder ao trânsito da sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord para a Nova Cultura (Alternativa) da Liberdade Responsável primacial e primordial’. Só nesse horizonte, efectivamente, se pode equacionar, 68


com toda a sua performance, os dois predicamentos psico-sócio-antropológicos: a LIBERDADE e a IGUALDADE sociais! A propósito do seu novo Livro, ‘Um Bailarino na Batalha’ (ed. Relógio d’Água, Lisboa, 2018), a grande escritora Hélia Correia deu uma Entrevista surpreendente ao ‘JL’ (24.10-6.11, 2018, (pp.14-16) sobre o essencial e decisivo do Humano: o que o caracteriza, essencialmente, é a sua capacidade de criação, de transcender-se continuamente. “A nossa época é muito fascinante, mas não há instrumentos para a olhar de frente. A própria democracia tem de ser pensada de outra maneira, porque o mundo está numa aceleração brutal” (eadem, ibi, p.15). A autora considera a Literatura como uma das características essenciais do Ser Humano. “Na minha prosa, a frase obedece tam-bém à música e a esse motor poético. De resto, este é um livro muito coreográfico. A dança é sempre muito forte no meu imaginário” (eadem, ibi, p.14). A propósito das identidades culturais, a sua convicção é que as culturas devem conviver pacificamente umas com as outras. (À semelhança de uma ‘marioska’ russa). “Tolerância?! Vivemos confortados à sombra dessa palavra, mas não temos que tole-rar, antes respeitar e aceitar. Estamos vaidosos por termos uma civilização tolerante, por oposição a outras, intolerantes, e que são realmente muito assustadoras. O ser huma-no transcende a animalidade quando está confortável, mas quando se sente ameaçado, acorda nele o animal, é uma fera em guerra, territorial, que quer defender a sua família, o seu território, a sua ideologia, a sua religião, o que tanto mal tem causado. Neste mo-mento, temos no mundo jogos de animais, territoriais, de extermínio. Por isso, à socapa, milhões de pessoas votam na extrema-direita. São os animais a acordar” (eadem, ibi, p. 15). “A nossa época é muito fascinante. Mas não há instrumentos para a olhar de frente. A própria democracia tem de ser pensada de outra maneira, porque o mundo está numa aceleração brutal” (eadem, ibidem). ‒ Carecemos de uma Democracia, cada vez mais participativa e directa. Como se faz a preparação para este novo Mundo? Essencialmente, mediante o alargamento e o aprofundamento da Cultura substantiva e através de um bom e justo e actualizado Sistema Educativo. E aqui, tem de funcionar a díade, em termos científicos: as Humanidades e as Tecnologias, ‒ o que concerne ao comportamento dos Sujeitos, e o atinente aos Objectos. ‒ Só por essa Via, a Psico-Sócio-História deixará de ser o famigerado processo de conquista e dominação, dando gás ao Animal humano e à cartilha dos Egoísmos d’abord, ‒ a História da Guerra e da Dominação (‘Si vis pacem, para bellum’!...) ‒, e começará a ser a convivência justa, pacífica e amorosa de todas as humanas Sociedades nacionais. Como diria o Guru/Filósofo luso do séc. XX, Padre Manuel Antunes (1918-1985): Contra o ‘homo mechanicus’, é preciso construir o ‘homo misericors’; ‘sem ciên-cia e sem técnica, a Humanidade não pode subsistir; sem misericórdia, ela não pode subsistir humana’ (ibi, p.8). No seu óptimo artigo, ‘A palavra que Interroga’ (a propó-sito do Padre Manuel Antunes, no centenário do seu nascimento), Luís Machado de Abreu escreveu com acerto: “Lembremos as traves mestras de uma proposta apresenta-da de forma binária, forma frequente no discurso deste pedagogo, marcando bem qual a acção que axiologicamente deve prevalecer. Aponta assim o primado da formação sobre a informação, das ciências do homem sobre as da natureza, do permanente sobre o transitório, da imaginação sobre a razão, da socialização sobre a individuação, da personali69


zação sobre a massificação. Depois de explicitar o significado e alcance dos princípios enunciados, sintetiza-os em três proposições que devem orientar superiormente a educação do futuro. São eles: ‘Fé na Ciência; confiança na Imaginação; abertura à Transcendência’ ” (ibi, p.8). Eis, aqui, um bom Quadro/Projecto, de índole psico-sócio-antropológica, para o séc. XX e, igualmente, mas sobretudo, para os tempos conturbados e indefinidos do séc. XXI, neste 1º quarto de século. Subscrevêmo-lo totalmente (com a ligeira reserva da noção híbrida de Transcendência!...). Manuel Antunes será, porventura, o maior filósofo português do séc. XX: ele é, simultaneamente, criticista e trans-histórico, visto que alia e entrosa o estudo sistémico dos Clássicos (gregos e latinos) à Sensibilidade e à Mundividência da nossa Contemporaneidade. É contra o ‘homo mechanicus’ da Modernidade e, implicitamente, a favor da refundação do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, professado pelo C.E.H.C.. Pensamento crítico e sempre aberto aos outros. (Vd. os artigos dos sete autores, que escreveram sobre ele e sua Obra, no já cit. ‘JL’ (pp.7-13). Como se combate o populismo? Articulando e entrosando as duas dimensões: a do passado histórico e a do presente. Não se esqueça, entretanto, que a ideologia do populismo é filha bastarda da era do Consumismo desenfreado!... Na sua intervenção, na Aula Magna da Univ. de Lisboa, ao receber o grau de doutor honoris causa (2.10.2018), Manuel Alegre declarou solenemente: “Eu sei que o sentido do poema é o próprio poema. Mas ninguém está fora da história. Ninguém foge a um outro sentido, que tem a marca do seu tempo. Muitas vezes me perguntam porque é que, sendo poeta, eu me en-volvi na política. E eu respondo: por isso mesmo” (in ‘JL’, 10 a 23 de Out. de 2018, pp. 6-7). Manuel Alegre não esconde que tem “uma visão poética de Portugal, uma visão integradora, em que se misturam poemas, batalhas, revoluções” (ibi, p.7). Sintomaticamente, o título que ele deu ao texto da sua intervenção é este: ‘Eu sou desta Língua e daquela Madrugada que e é preciso não deixar anoitecer’ (ibi, p.6). É urgente reabilitar a força libertadora da Palavra! Disse, na sua intervenção, Manuel Alegre (ibi, p.7): “A História acelerou outra vez. Mas em sentido contrário. Parafraseando Milan Kundera, o esquecimento está outra vez a vencer a memória. O populismo é o novo fantasma que ameaça a Europa e o Mundo. Nasceu da hegemonia cultural do poder financeiro globalizado. Ressuscitou de velhos preconceitos e novas capitulações. “Creio que é num tempo assim que os poetas, escritores e filósofos são mais precisos. Para sacudir a anomia, como fez Antero de Quental. E escrever Sol, como Ramos Rosa. Para proclamar que os Estados não podem ser aprisionados pela mão invisível do mercado e por interesses que se sobrepõem ao interesse geral. Para chamar a atenção dos distraídos, como fizeram Miguel Torga e Natália Correia, quando vieram avisar que o Tratado de Maastricht significava a vitória do neoliberalismo sobre o modelo social europeu”. 25 de Abril de 1974: a chamada (com propriedade e rigor) ‘Revolução dos Cravos’! Por excelência e antonomásia. Surpreendeu e admirou o Mundo, uma Revolução ‘sem sangue’!... O P.R.E.C. (processo revolucionário em curso), (que durou 2 anos), foi agitado, conturbado e com alguma dificuldade em definir e balizar o caminho a seguir. De qualquer modo, na Constituição da República, aprovada em 2 de Abril de 1976, fi70


cou estabelecido, no 1º Art., que a República portuguesa é uma Sociedade democrática a caminho do Socialismo!... “A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno”. Este texto ainda se pode ler, como recordação, no Preâmbulo à 7ª Revisão (2016), em formato de ‘livros de bolso’ (pp.25-26). Entretanto, nesta 7ª Revisão, o Art. 1º mudou de rosto. As ‘tentações’ do ‘a caminho do Socialismo’ já tinham vindo a desaparecer em edições anteriores, sobremaneira a partir de 1986, a quando da adesão de Portugal à U.E.. E a odisseia da U.E. é conhecida pela sua integração ‘fanática’ dos países do Euro nos espaços societários do Neoliberalismo capitalista global. O garrote do Euro não deixou margem a Portugal, de modo a cumprir a sua vontade constitucional primeva. Até porque, a Ocidente e a Oriente, muito pouca gente sabe o que é o Socialismo autêntico: este ainda não foi cons-truído em país algum do Mundo. O que nos ditos países ‘socialistas’ foi montado não passou de ‘capitalismo monopolista de Estado’ ‒ J.K. Galbraith dixit (como aprendeu e tem ensinado o C.E.H.C.). O nosso eminente ensaísta crítico, António Sérgio (1883-1969), ao promover o Cooperativismo, teórico e praticamente, ‒ esse, sim, conhecia bem as bases e os fundamentos estruturais do vero Socialismo! (Ver, sobre o tema o artigo/resumo de G. d’Oliveira Martins, intitulado ‘A Actualidade de António Sérgio’ (in ‘JL’, 30.1-12..2.2019, p.28)). Pois o Art. 1º da 7ª Revisão, sobre a República Portuguesa, reza assim: “Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”. Só as boas palavras não resistem, quando lhes falta o fôlego adequado, que lhes possa restituir a significação identitária!... O Prof. e historiador inglês, Ian Kershaw (autor de dois livros famosos: ‘À Beira do Abismo: a Europa, 1914-1949’ e ‘Continente Dividido: A Europa, 1950-2017’) considera, em entrevista ao ‘Expresso-Rev.’ (20.10.2018, pp.56-60), com razão, que a classe política actual, à escala mundial, entrou numa sorte de ‘Limbo’ no reino da mediocridade… pouca qualidade e carácter para decidir e governar… está tudo entregue ao carrossel da ‘economia’ tout court, que as duas ou três gerações anteriores ainda chama-vam de ‘política’!... Onde estão os Gorbatchov (a figura mais extraordinária nas polí-ticas do séc. XX), os Adenauer, os De Gaulle, os Willy Brandt, os De Gasperi, os John Kennedy? Esta era gente que, na Política, procurava cumprir as duas dimensões conju-gadas: a) a Questão do ‘Que Fazer?’; b) a Questão do ‘Modo de Fazer’. Sobre o apren-der com a História, disse ele (ibi, p.60): “Bem, é possível aprender com a História, cla-ro, num sentido alargado. Acho que da leitura dos meus livros, isso resulta bem claro. A própria criação da União Europeia foi, em si, o resultado consciente de lições políticas e económicas, retiradas das circunstâncias da divisão, de inimizade e de hostilidade, que conduziram à Segunda Guerra. Houve um sentimento comum, no continente, para não deixar que aquelas circunstâncias voltassem alguma vez a ocorrer”. Mas foi tudo, em geral, mal conduzido e mal estruturado. Quem ouviu as Lições do Grupo político de 71


Jacques Delors, no sentido de se moldar uma vera Confederação de Estados, em vez da simples Federação à la carte?!... ‘Yo soy yo y mi circunstancia’! Ensinava o filósofo español Ortega y Gasset. E o filósofo salmantino Miguel de Unamuno, penetrando até à força motriz e matricial das civilizações, proclamava: ‘A liberdade que tem de ser dada ao povo é a cultura’! Os bons Sistemas educativos constituem o motor psíquico-sócio-cultural da vera riqueza das Nações (nisto mesmo contrariando o título da Obra prínceps de Adam Smith). O populismo e a corrupção andam de mãos dadas, como tem mostrado a Experiência brasileira, entre outras. Escreveu, com acerto Miquel Sousa Tavares (in ‘Expresso’, 1º Cad., 13.10.2018, p.9): “Essa esquerda elitista, classista, arrogante e auto-suficiente, contribuiu em muito para formar uma maioria popular, que se afastou da cultura como coisa estranha e alheia e que encontrou nas redes sociais a terra fértil onde a sua incultura e a sua desinformação, longe de serem um anátema, se tornaram motivo de partilha e de orgulho militante. É essa mole humana de deserdados de muitas coisas, e também do acesso à cultura, que está a ajudar a formar o exército de sombras da nova Internacional Fascista, que partiu à conquista das democracias ocidentais através do voto popular”. “’O povo unido jamais será vencido!’ ‒ lembram-se? E o que fazer quando o povo unido vota no fascismo?” (idem, ibidem). Escreve, ainda, aí, o nosso Companheiro M.S.T.: “Foi assim que Fernando Henrique Cardoso obteve uma revisão constitucional, que lhe permitiu exercer um segundo mandato não previsto, foi assim que José Dirceu pariu o ‘Mensalão’, para permitir a Lula governar no seu primeiro mandato. Aberta a porta para a compra de votos, o resto vem por arrasto: a corrupção política a favor de todos os partidos e de todos os políticos. Não é um mau hábito de alguns, nem uma simples doença difícil de erradicar: é uma forma de vida de todos. De cima a baixo, do Congresso até ao polícia de giro, passando pelos governadores, deputados estaduais, prefeitos e milhares de funcionários do gover-no federal, dos governos estaduais, das prefeituras ou das entidades públicas, não deve haver quem não esteja disposto a corromper ou a deixar-se corromper. Curiosamente ou talvez não, a única excepção de que há notícia foi Dilma Rousseff, apeada da Presidên-cia num golpe parlamentar do mais baixo nível, orquestrado por um bando de salteado-res sob o comando do seu vice e actual Presidente Michel Temer (olhem-lhe para a cara e está lá tudo escrito)”. O publicitário e jornalista inglês, Paul Arden, best seller mundial com o seu livro: ‘Não Basta Ser Bom, É Preciso Querer Ser Bom’ (Clube do Autor, S.A., 3ª ed., Março de 2018), é ainda Autor de ‘Tudo o que Pensar, Pense ao Contrário’, 2ª ed., (PromoFNAC, 1ª reimpressão, 2016). Em termos genéricos e intuitivos, poder-se-á di-zer que Paul Arden está inteiramente (no seu objectivo final), no horizonte do C.E.H.C.. É, pois, nosso ‘campagnon de route’! Em última instância, cultor da nova e alternativa Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, ancorada em cada Indivíduo-Pessoa/Cidadão. O 1º Livro acha-se polarizado na âncora, que é a Vontade livre e responsável e no seu acto original que é o Querer; este Querer encontra-se sobredeterminado naturalmente para o Bem. Não se trata, por conseguinte, aí, do simples ‘livre arbítrio’ pendular 72


entre o bem e o mal!... O 2º Livro encontra-se polarizado na órbita do Pensamento. Ora, dado que o Establishment se encontra mal e erradamente estruturado e orientado, não há, pois, outro remédio senão pensar ao contrário (à rebours) do que está estabe-lecido! Na contracapa do 2º Livro, pode ler-se o seu resumo: “Ao longo da sua brilhante carreira como publicitário, Paul Arden percebeu que a melhor estratégia para triunfar consiste na diferença. As pessoas que se adaptam ao que as rodeia, renunciando às suas próprias ideias, não passam da segunda linha. [O vulgo chama-lhes ‘macacos de imitação’ ou, com o jargão de Molière, ‘carneiros do Panúrgio’, ou ‘cabeças de rebanho’, como é hábito de falar, no C.E.H.C.]. Para Paul Arden, o segredo reside em pensar exactamente o contrário daquilo que primeiro nos vem à cabeça. [Como eco do ‘koinè diálektos’]. Nadando contra a corrente, conseguimos tirar maior partido do nosso poten-cial e ser uma pessoa especial e única. Os ensinamentos de Arden ultrapassam a esfera profissional e constituem uma estratégia de afirmação pessoal e potenciadora do talento de cada um de nós”.

DO SISTEMA EDUCATIVO NACIONAL LUSO ● Ele está enfermo e consumido por contradições e disfuncionalidades: desde o Pré-escolar, aos 3 ciclos do Preparatório, ao Secundário e ao Universitário. Tudo come-ça pela falta de investimento governamental. Designadamente, pelo desatendimento do Governo, não só à recuperação dos salários dos docentes, reduzidos e congelados no período da ‘Troika’, como também à não abertura das promoções normais previstas nas carreiras. Recebemos (como sindicalizado), há poucos dias, o ‘Jornal da Fenprof’, relativo ao mês de Outubro de 2018. Ficámos aterrados com o que vimos e lêmos. É um Boletim especial (formato A4), de 95 páginas, todo ele dedicado ao Tema: ‘Desgaste na profissão docente/Burnout’ (Divulgação dos resultados do estudo sobre ‘As Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal (INCVTE)’. Na 3ª p., pode ler-se no frontis-pício: ‘Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal (INCVTE). Primeiro Relatório/Lisboa, Outubro de 2018: Na p.4, podem ler-se os nomes de 11 peritos que formaram a equipa científica, que elaborou o Relatório. Nas 2 tábuas do Conteúdo (pp.5-6), salientámos algumas secções, do Relatório do Inquérito, que, por serem mais decisivas, nos mostram que se trata de um trabalho sério, honesto e responsável: ‒ Mas há, afinal, alguma respecificidade sócio-ocupacional no chamado ‘burnout’ docente’? [Esgotamento psíquico e orgânico] ‒ p.29… ‒ Questões Metodológicas: a necessidade da razão crítica versus Homo Economicus ‒ p.31… ‒ Pode a psiquê humana ser metrificada? ‒ p.37… ‒ Desgaste Profissional (‘Burnout’) ‒ p.47… ‒ Determinação do Mal-Estar ‒ Q3 ‒ p.58… 73


‒ ‘Politecnia’, educar seres humanos, em vez de produzir ‘capital humano’ ‒ p. 74… ‒ Também foi abordada a Burocracia (p.61…) e a já crónica Indisciplina/fruto podre do nosso tempo (p.61…). Em jeito de Leit-motiv, é reproduzida (bem a propósito) a 3ª Tese de Marx-Engels sobre Feuerbach, que vale a pena transcrever, também, aqui (ibi, p.7): “A teoria social de que os seres humanos são produtos de suas circunstâncias e sua educação ‒ e seres humanos transformados seriam os produtos de outras circunstâncias, e uma nova educação, por ora transformada ‒ esquecer-se-ia de que as circunstâncias, elas mesmas, são transformadas, precisamente pelos mesmos seres humanos e que os educadores têm, eles próprios, de serem educados. Acabar-se-ia, assim, por dividir a sociedade em duas partes, uma das quais ficaria elevada acima dela própria (por exemplo, em R. Owen). A coincidência da transformação das circunstâncias e do meio e da actividade vital humana só pode então ser percebida ‒ e, por fim, racionalmente compreendida ‒ enquanto uma práxis revolucionária” (1845). Eis por que a vera e autêntica Cultura é a primeira e universalmente original ‘Revolução sem sangue’!... O que mais nos surpreendeu e aterrou, ao ler o Relatório, foram duas verifica-ções feitas: A) cerca de metade dos professores, no Sistema, são vitimados pelo ‘Esgo-tamento psico-sócio-profissional’ (‘Burnout’: um phrasal verb, sem tradução precisa nas línguas neolatinas) (cf. ibi, p.14). B) cerca de 70% dos docentes têm problemas de adaptação ao trabalho psico-sócio-profissional, que exercem, ou por questões burocrá-ticas ou motivos de indisciplina ou incorrecção dos alunos. Esta situação, actual, é gra-ve… e não se encontram, ao que parece, meios de a remediar. É claro que a não resolu-ção dos problemas sindicais dos professores também pesa enormemente, em toda esta problemática. Sobre os antecedentes nosográficos e psico-patológicos do burnout, pode ler-se no Relatório (pp.15-16): “As preocupações com os efeitos nocivos da fadiga são uma característica da modernidade. Na Europa do final do séc. XIX, o esgotamento moral derivado das novas formas de vida é apontado como uma fonte da decadência da juventude da época por médicos, filantropos e políticos. É dentro dessa tradição de pensa-mento que a fadiga psíquica ou o esgotamento se tornaram num objecto de estudo para a psicopatologia, isto muito antes da invenção da categoria de burnout. No final do séc. XIX, proliferam as publicações sobre a neurastenia, dando a impressão de que uma verdadeira praga se espalha entre as populações dos principais países civilizados”. Este diagnóstico dessa época pode sintetizar-se na fórmula: a vida apressada acaba por ser o resultado dos ritmos velozes da produção, carreados pelas novas tecnologias de então, que foram impostos por patrões aos operários e pelo Establishment aos cidadãos. Ora, esta generalizada situação nosográfica tem acelerado, recentemente, desde os inícios da última década do séc. XX, pelos mesmos efeitos paralelos, resultantes da emergência, não só do neoliberalismo capitalista global, mas igualmente da nova vaga das ‘Novas Tecnologias’, que são introduzidas na economia e na sociedade, ditatorialmente e de modo desadequado (como impõe o capital e as finanças das multi-transnacionais). 74


Nunca se pode esquecer, em Ciência que se preze, que a chamada Modernidade constituiu um Projecto contraditório, onde a bússola da Razão Crítica tem mesmo de funcionar, activamente, a favor dos interesses Humanos e das Sociedades humanas, e contra o ‘Homo Economicus’, ou seja, contra o Capital e o Capitalismo (selvagem ou neoliberal…). A chamada Razão Instrumental tornou-se absolutamente hegemónica (cf. ibi, p.33). Esta hegemonia é tal, que gerou contradições e expulsou do campo de ac-ção a própria Razão Crítica (ibi, p.34). A ideologia imperialista, em que temos sobre-vivido na Modernidade é o resultado do primado absoluto atribuído à Ciência da Econo-mia política e seu sector (autonomizado) das Finanças. O Relatório em causa não escamoteou esta problemática. “Um conflito de racionalidades tem lugar no próprio coração do projecto iluminista. A razão crítica e a razão instrumental ‒ que se encontravam presentes, na origem desse projecto ‒ travam, entre si, uma luta implacável, que deita as suas raízes nos antagonismos sociais. Nesse conflito, a razão instrumental afirmou a sua mais absoluta hegemonia sobre todo saber-fazer” (ibi, p.33). A Razão instrumental misturou e confundiu fins e meios: o que implica a exclusão da Ética e da Moral dos campos de acção e de batalha. “A razão instrumental, por sua vez, assenta na capacidade de calcular probabilidades e dessa forma decidir a respei-to dos meios que devem ser utilizados para atingir um fim esperado. Apenas o sujeito pode ter razão de verdade, na medida em que somente ele seria capaz de avaliar a exacta correlação existente entre meios e fins, desse modo, os critérios de validação destes últimos são unicamente internos. Não interessa, aqui, se os propósitos são racionais ou até mesmo se podem ser moralmente justificados” (ibidem). E qual foi o plano moderno da Razão Instrumental?!... “Mas uma tal razão instrumental resiste a uma posição subalterna perante uma razão crítica. [Basta avaliar e vcr bem como tem evoluído o moderno processo civilizatório.] Como parte do projecto da modernidade, a razão instrumental consolidou-se com o firme propósito de subjugar a natureza e tornar o homem senhor do seu próprio destino. Para cumprir esse propósito, ela precisava remover todos os obstáculos, sem excepção à regra, inclusivamente aqueles apresentados pela razão crítica, i.e., reduzindo todo o ‘Logos’ a si própria. O projecto iluminista acolhe em seu interior a contradição entre uma razão crítica, que o conduz a rejeitar, por meio da análise racional, todas as superstições, preconceitos e pré-noções, e uma razão instrumental, que o conduz a recusar como objectos da razão essas superstições, preconceitos e pré-noções, e a afirmar estas como próprias à dimensão subjectiva dos indivíduos” (ibidem). Filha directa do Poder-Dominação d’abord e sua Cultura milenarmente estereotipada, “a razão instrumental nega a legitimidade de tudo aquilo que já não pode dominar” (ibi, p.34). Os nossos Autores continuam a desenvolver o tema da Economia como se ela fosse a única ou hegemónica, entre todas as ciências sociais, do seguinte modo: “A trajectória da economia política é, a esse respeito, exemplar. Ela só pôde fazer as pazes consigo própria ao expulsar o trabalho da teoria do valor. E, com ele, o antagonismo social fulcral (luta social, luta de classes ou fracções de classe) ao converter indivíduos 75


maximizadores de utilidades orientados por uma razão instrumental, os homo economicus, no sujeito da acção económica. “Findo esse processo, a economia política anuncia que, agora, a acção económica estava baseada num critério de previsibilidade, a denominar-se, simplesmente, Economia, apresentando-se, então, qual única das ciências humanas sociais. Autodenominada Ciência, a Economia reivindicou, para si, por meio de certo imperialismo epistemológico, todos os demais campos das chamadas ciências sociais e humanas. Paradoxalmente, desde um tal momento, a economia passou a guardar pouca semelhança com uma reflexão crítica ‒ sobre a organização societária ‒ e a parecer-se cada vez mais como uma ramificação das ‘matemáticas puras’ ” (ibidem). Em suma, o pensamento (científico) cauciona (como servo) os bons e os maus empenhos concretos, decididos pelos poderes constituídos… Não cuida de harmonizar ou prevenir interesses em conflito. “Ao renunciar a essa tarefa, a razão abdicou, tam-bém, da possibilidade de reflectir sobre a própria ordem objectiva do mundo e das coi-sas, i.e., renunciou ao próprio pensamento crítico. É esse o fundamento da crise presen-te da razão. Livre de toda a coerção externa, a razão instrumental pode desenvolver-se sem interferências e reduzir-se a si. Todo o pensamento se torna, assim, algo totalitário, autotélico ou solipsista” (ibidem). Neste contexto, pergunta-se à puridade: como pode sustentar-se e balizar-se um regime político, que se pretenda vera e honestamente Democrático?! Se ‘o Povo é quem mais ordena’ (como dizia o mantra corrente do PREC luso de 1974), os povos, afinal, nem sempre têm razão; as próprias maiorias eleitorais não têm sempre a razão consigo, por mais que esta situação seja recusada pela ‘beatice’ democrática. Leia-se com atenção o artigo clarividente de Sérgio Sousa Pinto, ‘O homem invisível’ (in ‘Exp.’, 1º Cad. 3.11.2018, p.35). Escreve, aí, o Autor: “A questão pertinente será, então, quem matou a democracia? E a questão importante será esta: como se mata uma democracia? Uma tempestade perfeita de factores concorre para isso, não há uma causa singular, como, por exemplo, a crise de 1929. Isso explicará que a ascensão do populisimo de extrema-direita ocorra simultaneamente em realidades que pouco ou nada têm que ver umas com as outras. A causa política mais importante é a desestruturação dos sistemas representativos tradicionais com o colapso da esquerda democrática”. No fundo de toda esta problemática, estão três factores/fenómenos entrosados: a) a confusão ou pura redução da Política à Economia e desta às Finanças e ao O.G.E.; b) a anulação ou extinção do primado de uma Política (responsável) sobre a Economia; c) e a ausência do primado (cívico) da Cultura (substantiva) ensinada e recebida nas Fa-mílias, nas Escolas e no Sistema Educativo: o primado absoluto, nestas delicadas e críti-cas matérias pessoais/sociais, deverá ser, sempre, atribuído à CULTURA. A Língua/Linguagem de um Povo ou Nação, ‘apud quem est ratio et jus loquendi’ (Terêncio Varrão) constitui a 1ª componente, básica e essencial, determinante e decisiva, da Cultura nacional de um Povo, que até o ajuda a criar, por esse meio, só-ciopsicologicamente, uma personalidade colectiva própria.

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Esta tese essencial/estrutural de todas as culturas nacionais tem sido torturada, maltratada, desprezada e, por vezes, destruída. Veja-se, v.g., (O caso de Macau, outrora português, e agora integrado na China é deveras significativo). Cuidado e muita atenção, criticista, ao contemporâneo Processus de Globalização (que é movimentado no Quadro do Sistema capitalista e segundo a cartilha materialista do ‘homo oeconómicus’; não se vislumbra, ainda, uma Mundialização Alternativa, que respeite cabalmente a geometria (tradicional) dos Estados/Nações e respectivas Línguas ‒ a base estrutural de uma Cultura substantiva. É óbvio que estamos a falar das Línguas naturais ou nativas dos Povos. Aqui, tem de fazer-se menção dos atropelos e extermínios das línguas nativas dos povos que sofreram os modernos processos de colonização, segundo o espírito imperialista. Na maior parte dos casos foi imposta, draconeanamente, a língua dos povos colonizadores e as línguas dos indígenas foram eclipsadas, sem sequer se ter passado pelo estádio médio de qualquer ‘creoulização’. Há ca. de 2 décadas, teciam-se loas ao Multiculturalismo… depois, verificou-se que os ‘creoulos’ ou mestiçagens linguísticas acabavam por reduzir os factores constitutivos das personalidades humanas; o que se passou com o Des/‘Acordo Ortográfico’ de 1990, levado a efeito pela Comissão linguística presidida pelo Prof. Malaca Casteleiro, com carácter unilateral, e destinado a ser assinada por todos os países do Grupo da Lusofonia. Acabou por ser recusado por vários países… Nós próprios o criticámos num livro, que foi vendido também no Brasil. É o caso de um ‘acordo ortográfico’, que nunca deveria ter sido feito: não respeita regras essenciais: a distinção óbvia entre direito natural e direito positivo (à Kelsen, por exemplo); trata a língua viva (fonemática e grafemática) como se tudo pertencesse à área do direito positivo. Ora, a língua natural de um Povo é do direito natural, não positivo. Por isso, o ‘Desacordo’ levou à pretensão absurda de configurar um painel de grafemas novos, os quais, só por si, vão alterar a fonemática da Língua, ‒ O que é impensável!... Foi, assim, neste contexto, que se adre-gou a falar, antes, de cosmopolitismo (com a semântica do reconhecimento e respeito por todos os Humanos e todas as Nações). A propósito desta densa e complexa problemática, vale a pena transcrever um naco de texto e o respectivo painel dos modos vários de Multiculturalismo, que são configurados na Introdução ao Livro ‘Reconhecer para Libertar’ (Os caminhos do Cosmopolitismo multicultural), org. de Boaventura de Sousa Santos, ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro de 2003, pp.228-29. (O texto é de B.S.S. e J. Arriscado Nunes e tem por título: Introdução: para ampliar o cânone do reconhecimento, da diferença e da igualdade). “É o grau em que o multiculturalismo como descrição das diferenças culturais e dos modos da sua inter-relação se sobrepõe ao multiculturalismo como projecto político de celebração ou reconhecimento dessas diferenças que tem suscitado críticas e controvérsias, vindas tanto de sectores conservadores quanto de diferentes correntes progressistas e de esquerda. As críticas conservadoras têm encontrado expressão e eco sobretudo nos EUA, como resposta às transformações na composição étnica da população americana; à presença crescente de imigrantes, sobretudo de um forte contingente de imigrantes ilegais com origem na América Latina; aos programas sociais de discriminação positiva dirigidos a grupos excluídos ou marginalizados, como os afro-americanos ou os 77


hispânicos; ao desenvolvimento, no meio académico, de programas de estudos culturais e de estudos sobre as mulheres, e às transformações no curriculum de áreas tradicionais como a literatura, destinadas a conferir visibilidade e voz às mulheres e às minorias; a algumas políticas públicas de apoio à criação cultural de minorias, e, finalmente, ao surgimento, no espaço público, de movimentos defendendo políticas de identidade baseadas no reconhecimento da sua diferença. Stam (1997) sintetiza essas críticas nos quatro aspectos seguintes: [Painel…] “a) O multiculturalismo seria antieuropeu, procurando substituir os valores e realizações da civilização ocidental por uma promoção sem critério de realizações ‘inferiores’. “b) O multiculturalismo promoveria a desunião e a divisão, fragmentando a sociedade e ameaçando a coesão e unidade de objectivos da nação. “c) O multiculturalismo seria uma ‘terapia para minorias’, destinada a promover a auto-estima destas em face de sua manifesta incapacidade de desempenho adequado no sistema educativo e na sociedade. “d) O multiculturalismo seria um ‘novo puritanismo’, apoiado em um policiamento da linguagem e na imposição totalitária de uma linguagem ‘politicamente correcta’. “Algumas respostas progressistas a esta caracterização acentuam o carácter antieurocêntrico (e não antieuropeu) dos projectos multiculturais, assegurando o reconhecimento e visibilidade das culturas marginalizadas ou excluídas da modernidade Ocidental; o reconhecimento das diferenças culturais e de experiências históricas, do diálogo intercultural com o objectivo de forjar alianças e coligações políticas para a promoção das culturas e grupos subalternos; a promoção de um ‘contraponto de perspectivas’ históricas e culturais, de modo a produzir uma história relacional que inclua os subalternos; a denúncia de que as manifestações de ‘correcção política’ ocorrem em todos os sectores e quadrantes da sociedade e do espectro político mas são atacadas apenas quando associadas à defesa da igualdade ou do reconhecimento das diferenças". ‒ Para o C.E.H.C. é preciso tomar consciência crítica de 3 dados estruturais/estruturantes: A) Há Povos e respectivas Nações (Estados). B) No presente Processus de Mundialização, há, em termos teórico-culturais, a emergência do espírito cosmopolita e um cosmopolitismo sadio à moda de I. Kant. C) O multiculturalismo (que se tem apregoado doutrinalmente) não passa de uma ‘persona’ ou máscara de teatro helénico, cozinhado pela Cult. do Ocidente, para afirmar a sua superioridade perante a neces-sidade (ontológica) de ter de reconhecer e respeitar o Outro!...

● Voltemos à nossa Temática central: a Razão crítica (abandonada pela hegemonia absoluta da Razão Instrumental) versus ‘Homo oeconomicus’. Poderá a Psique Humana ser mesmo metrificada?!... Questão deveras espinhosa e que a Modernidade ocidental resolveu fácil e imediatamente pela positiva, visto que, ela mesma, esteve sempre viciada e contraditória pela sua Ideologia do Dualismo 78


metafísico-ontológico de Platão e Paulo. Por isso, ela nunca conheceu bem a Espécie Humana padronizada no ‘Homo Sapiens//Sapiens’; e esteve sempre enfeudada à Cultura do Poder-Dominação d’abord. Haverá uma ‘medição psicológica’, capaz de justificar uma ‘razão psicométrica’?!... (Cf. Relatório cit. do INCVTE, pp.36 e ss.). ‒ Em derradeira análise, diremos que não. A psicometria tem por objecto próprio a ‘medição’ psíquica/psicológica: o que aí intervém é o predicamento aristotélico da quantitas e não o da qualitas (como cum-priria, atendendo à ‘matéria-prima’, que está em causa). Isso mesmo constitui uma ‘contradictio in terminis’, se tivermos presente o que está veramente em causa: o ‘Ho-mo Sapiens//Sapiens’. O seu campo actual de utilização é o da Educação e, em geral, o do Social, no concernente à avaliação das capacidades individuais, para o exercício de determinadas actividades profissionais. A noção pejorativa de ‘Res humana’ ou de ‘Capital humano’ é tributária dessa cartilha de avaliação. A noção categorial central, nas análises em questão, é a de ‘Quociente intelectual’ (QI). É de advertir, entretanto, que a chamada ‘Psicologia experimental’ (iniciada por Wundt) não é toda a Psicologia!... Os testes metrificados da Psique são sempre uma tentativa de reduzir os Sujeitos humanos a Objectos!... Este processo é o intróito da sempiterna Cultura do Poder/Dominação d’abord. Já se deram conta de que toda a razão instrumental pressupõe como dado de base, na sua construção, uma descrição neutra da realidade?!... E não há neutralidade psico-social e, afinal, em todo o hemisfério das ciências psico-sociais e/ou humanas (aí incluída a História). Escrevem aí os Autores (ibi, p.38): “Discutir os testes não é pôr em confronto gostos e/ou opiniões pessoais; ou muito menos transformar os debates em ringues para divertir a plateia. O que está em causa não são os testes em si mesmos, mas uma discussão teórica, de carácter muito mais amplo ‒ o da própria concepção de conhecimento, de homem, de vida e de mundo que lastreia parte da Psicologia, que está nas bases da criação de instrumentos para fins de avaliação e classificação de indivíduos e grupos. Psicologia esta, a qual tem sido qualificada como positivista, instrumental, objectivista e fisicalista. Se assim é, a conclusão bastante usual a que chegam participantes ‘tal fu-lano não gosta de testes’, prova só que não houve debate algum” (ibi, p.38). O Marxismo denunciou e pôs de pé noções incontornáveis, que ninguém terá a coragem estúpida de rejeitar: Tais são: a alienação do trabalho assalariado: o trabalhador não pode identificar-se com o produto do seu trabalho. O auto-estranhamento do género humano: o indivíduo, na produção e na reprodução dos seus laços com a Espécie e com seus semelhantes, foi de tal modo coisificado/objectualizado, que se perdeu como Sujeito livre e responsável. Por seu turno, a reificação é a coisificação do humano, a objectificação do ser social do indivíduo!... “A razão instrumental pressupõe a possibilidade de uma descrição neutra da realidade, mesmo que esta realidade seja psicológica, social e/ou histórico-política, isto é, mesmo naquilo que se refere aos homens, ao passo que a razão crítica não pode deixar de considerar a génese e devir dos problemas sociais, as situações reais nas quais a ciên-cia é empregada e a relação entre meios e fins que são buscados, a crítica marxista do conhecimento que faz do sujeito um objecto tem origem na análise do fetichismo. O conceito de fetichismus, presente na análise de Freud e no materialismo de Marx, parte 79


da descoberta pelos portugueses das religiões-tribais no continente africano e da prática de atribuir poder humano a objectos inanimados. Teorias do teor da mercadoria, e o desejo sexual, adviriam desde tal base. As formas económicas ocultam relações sociais que lhe são já subjacentes; é nela que se alicerça o desvelamento do saber que coisifica o homem” (ibi, p.39). ‒ Não esquecer que, ao estabelecer a objectualização do Sujeito, no processo do Conhecimento, Marx defende a vera e inteira restauração da índole subjectiva dos Sujeitos, precisamente (e relacionada com a Educação), na 3ª Tese sobre Feuerbach (que já foi citada…). É de toda a evidência que o maquis do relacionamento entre Sujeito e Objecto, no Processo do Conhecimento, se articula, incontornavelmente, com as Questões da nossa condição de Seres sociais. “Toda a ciência implica uma escolha. As visões sociais do mundo das classes e grupos sociais fundamentais condicionam, pois, não somente a última etapa da pesquisa cientifico-social, a interpretação dos factos e a formulação das teorias, mas a escolha do objecto de estudo e os recortes de colecta de material. O método científico-social distingue-se do modelo científico-natural, não somente ao nível dos esquemas teóricos, técnicas de pesquisa e processos de análise mas, também, e principalmente, ao nível da própria relação com os indivíduos, grupos e classes sociais. As visões sociais do mundo ‒ em sentido amplo, como complexos coerentes de ideias-força, remissão a valores, pressupostos ‒ modelam de maneira decisiva, directa ou indirecta, consciente ou inconsciente, as ciências sociais, colocando assim o problema da objectividade em termos da totalidade, absolutamente distintos da ciência da natureza, porque o objecto das ciências humanas e sociais é, sobretudo, histórico”. Neste longo parágrafo vemos nós resumida uma das Teses centrais do C.E.H.C.: a da Dualidade Epistémica (i.e.: há 2 Epistémes distintas: a das ciências físico-naturais e a das ciências psico-sociais e/ou humanas, tal como nós expusemos e argumentámos em livro autónomo, nos primeiros anos da década primeira do séc. XXI). É curioso vermos, agora, muitos Autores a convergirem plenamente connosco nesta problemática epistemológica!... Qual é o vero significado, o vero sentido do ‘Ensino unificado’, no Sistema Educativo Português, que foi logo experienciado, no encalço da Revolução dos Cravos, durante o PREC de 1974-76? Era justamente o que albergava os dois mundos daquelas duas Epistémes, em paridade de interesses educativos e de valorização ética e cientí-fica. Se a palavra ‘Politecnia’ ‒ como se lê no Relatório (p.74) ‒ pretende, agora, trans-mitir um sentido análogo àquela fórmula original: tudo bem! De contrário… A frase completa que serve de título de secção, no Relatório, é esta: ‘Politecnia’, educar seres humanos em vez de produzir ‘capital humano’! É de crer que sim, atendendo ao texto escrito seguinte (pp.74-75): “Uma das características dos conflitos do biénio de 1974-1975 é a sua radicalidade e a sua democraticidade, que derrubou barreiras clássicas do mundo do trabalho, estranhado nas sociedades capitalistas. Em 1974 e 1975, embora em processo de aprendizagem, a que mui-tos apelidaram de ‘caótico’, como referimos, assistimos de facto ao encurtar do caminho entre trabalho manual e trabalho intelectual, pensamento e execução, entre quem governa e é governado. E uma sociedade em que as aspirações do trabalho ganharam ob80


jectivos claros de valor de uso (e não de valor de troca, ou de mercadoria como é hoje dominante, o ‘capital humano’). “O Estado deixou de ser o único centro de poder, tendo de o dividir, em tensão, com as comissões de trabalhadores, moradores, escolas, gestão de saúde, etc. Esta nova sociedade gerou uma nova escola, que forjava uma nova sociedade, onde se diminui a relação entre trabalho manual e intelectual ‒ todo o operário deve ser um artista, é esse o significado do ensino unificado; a todos deve ser dado o conhecimento produzido pela humanidade, em contraposição ao ensino para os requisitos imediatos do mercado de trabalho; maior autonomia dos locais de trabalho e um controlo democrático sobre decisões e execuções ‒ não é ausência de controlo, nem de diferenças nos graus de responsabilidade ao nível das instituições, mas sim a eleição de dirigentes de baixo para cima e não de cima para baixo, que assim granjeariam maior respeito entre os pares. É patente a intensa relação entre as relações de hierarquia burocráticas e o esgotamento docente em Portugal, como o teste TH16 não deixa dúvidas”. Em suma, os Docentes lusos, que fizeram e assumiram a ‘Revolução dos Cra-vos’ sentiram, de modo muito particular, na sua experiência profissional posterior, que a sua Revolução (no Ensino e Educação) fracassou, abortou totalmente, e cada vez mais à medida da passagem dos anos e, muito especialmente, desde o ano fatídico (1986), em que Portugal ficou amarrado ao Establishment (neocapitalista) da CEE/UE. Os dois parágrafos acima resumem bem o embrião em evolução para a Nova Sociedade da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, contra a sempiterna Cultura da Potestas/Dominação d’abord, que, infelizmente, continua a ser a gramática de funcionamento e organização da U.E. e, com maior detalhe, do Grupo do Euro. Diz-se no citado Relatório que, até aos anos 80, “todos deviam ter acesso à educação da politecnia (que em Portugal se materializou no Ensino Unificado, hoje ameaçado pela flexibilidade curricular e o constante desnatar dos conteúdos): Politecnia, como refere aquele que é um dos mais importantes pedagogos vivos no Brasil, Demerval Saviani, ‘significa, aqui, especialização como domínio dos fundamentos científicos das diferentes técnicas utilizadas na produção moderna. Nessa perspectiva, a educação moderna, a educação de nível médio tratará de concentrar-se nas modalidades fundamentais, que dão base à multiplicidade de processos e técnicas de produção existentes’ ” (ibi, p.77). Reza, ainda, o texto do Relatório (pp.77-78): “Podemos afirmar que o homem/ /mulher professor em 1974 estava mais próximo da sua essência, menos alienado. O género humano distingue-se das demais espécies em função do desenvolvimento históri-cocultural e da sua capacidade [limitada] de transformar a natureza, o meio e a si pró-prio. A actividade vital humana, que embasa a afirmação do trabalho, linguagem e sociabilidade, é a mais importante característica distintiva do ser social. No princípio foi a acção e o verbo: actividade-consciência. Não há Homo Sapiens sem Homo Faber, e vice-versa. [É preciso acrescentar um 2º Sapiens, que é o veramente próprio da Espécie humana, descendente do ‘Homo de Cro-Magnon’, e nos faculta a razão crítica/re-flexiva, em contraposição à razão instrumental]. Os seres humanos vêm ao mundo morfologicamente, enquanto ‘candidatos à humanidade’. É a educação realizada pelos seres humanos mais desenvolvidos, avançados e completos, i.e., os adultos, que garante hu81


manização integral às crianças, ‘seres-em-criação’”. Eis por que a Família, a escola e os Professores constituem a balança de rotação do processo de humanização e da civilização humana qua tal! Como nos esclarece Demerval Saviani, o homem forma-se pela centralidade do Trabalho: “O acto de agir sobre a natureza, transformando-a em função das necessi-dades humanas, é o que conhecemos com o nome de trabalho. Podemos, pois, dizer que a essência do homem é o Trabalho. A essência humana não é, então, dada ao homem, não é uma dádiva divina ou natural; não é algo que precede a existência do homem. Ao contrário, a essência humana é produzida pelos próprios homens. O que o homem é, é-o pelo trabalho. A essência do homem é um feito humano. É um Trabalho que se desenvolve, se aprofunda e se complexifica ao longo do tempo: é um processo [evolutivo] e histórico” (cit. ibi, p.78). ‒ Quando, no Programa Revolucionário do PREC de 1974/75/76, a efectividade do Trabalho docente no S.E.P. era um direito adquirido, e o trabalho precário era coisa impensável!... Nesse contexto, eram convergentes e indissociáveis a democratização da Educação e das Escolas e a luta pelas boas e eficazes condições de trabalho dos professores. Foi o ‘projecto’ mistificador da adesão e adaptação de Portugal (a partir de 1986) à U.E. e à ‘globalização’, que trouxe o caos e a desordem, as burocracias e as hierar-quias às escolas portuguesas, com o fatalismo do ‘trabalho precário’ às cavalitas, a par-tir da década de 1990. Este processo constituiu uma rendição total, e sem balizas, ao neoliberalismo capitalista selvagem, em confronto com o Projecto Revolucionário, nascido na ‘Revolução dos Cravos’ de 1974. Abriu as portas à total submissão da Educação e da Cultura, ao Mercado e ao primado absoluto, imperialista, das Novas Tecnologias sobre as próprias Ciências, enquanto tais. Foi a queda na heresia (economicista), pelo C.E.H.C. há tanto tempo vergastada, do Objectivo-Objectualismo. Foi à sombra desta bandeira que a ocidental Modernidade contraditória praticou os pecados graves do colonialismo (esclavagista) e da predação capitalista, ‒ tudo sob o estro do Imperialismo ocidental. Nos horizontes de uma pseudo-‘globalização’ (que, em vez de libertar, submete e oprime…), tudo se passa incensando a Velha Divindade do Neocapitalismo e do Objectivo-Objectualismo, procurando sempre que a História humana se repita cíclicamente, de qualquer modo que seja!... Por isso, as contradições estruturais prosseguem. “Igualmente em expansão, a perspectiva pós-moderna, preocupada com as opressões, é crítica em relação à agenda neoconservadora, mas não enfrenta a ofensiva do capital, recontextualizando, de distintos modos, a agenda do novo espírito do capitalismo (flexibilidade, autorregulação e autonomia, individualismo, identidades, antiestatismo, celebração de uma edulcorada sociedade civil, crítica à história e à própria teo-ria), sem tornar pensável o modo de produção capitalista em seus nexos com a educa-ção. A combinação inusitada, pois não desejada, entre neo-liberais e pós-modernos, afasta a teoria da educação da luta de classes, combinando capital humano, competên-cias, ‘oportunidades educacionais’, ‘escolhas racionais’ com o culturalismo, a identi-dade e o relativismo epistemológico” (ibi, p.82). 82


Desde o Dec.-Lei 75/2008, que instituiu as hierarquias nas Escolas lusas, com a instauração da Figura do director-nomeado, quase com poderes absolutos, não só parou a direcção colegial e a democratização da Escola, mas também foi reforçado o movi-mento inercial no sentido do desmoronamento de um Sistema educativo autónomo e independente do Mercado!... Os nossos Autores assinalaram o fenómeno, ao estabelecerem a tese: “A AVALIAÇÃO, O FIM DA GESTÃO DEMOCRÁTICA E A DIVISÃO ENTRE PROFESSORES TITULARES E NÃO TITULAARES quebraram cumplicidades e solidariedades muito necessárias a um bom desempenho” (ibi, p.83). “Foi esse o trabalho sujo do sistema de avaliação dos professores: pôr uns contra os outros, com custos pessoais e sociais. Em termos de transmissão de know-how foi um hiato que se reflectirá com toda a certeza no futuro” (ibi, p.84). Em suma, a Escola lusa está enferma e desumanizada; foi capturada pela ideologia das Empresas de produção de Mercadorias. A Eurocracia, com uma maré-cheia de regras, regulamentos, planificações a curto, médio e longo prazos tomou de assalto a Escola portuguesa!... Desta sorte, quase no fim do Relatório (p.87), os nossos Autores chegaram a uma noção mais detalhada e completa do ‘Burnout’, que atinge, actualmente, mais de metade do corpo docente nacional. “Numa análise mais detalhada, no entanto, parece-nos possível considerar o burnout como a consequência de um processo prolongado de perda de sentido do trabalho. A análise clínica mostra que os trabalhadores, que acabam por sucumbir ao burnout não são forçosamente mais fracos ou mais vulneráveis. Ao invés, são em geral os mais ciosos, os mais profissionais. São os que lutam para conservar a qualidade do trabalho para prestar um serviço digno aos usuários, pacientes ou alunos. Na procura deste objectivo, e face á falta de meios e de apoios institucionais, não medem esforços, correndo então o risco de se sobrecarregarem. Paradoxalmente, somos levados a acreditar que os trabalhadores que hoje são vítimas de burnout ou que se suicidam no seu local de trabalho, são os mais comprometidos com a sua actividade, aqueles que, de uma certa forma, mais têm para dar” ‒ Miséria de Sociedade!... Uma nota histórica sobre a descoberta e a semântica original do burnout ou stress laboral: “H.J. Freudenberger (1926-1999) foi psicólogo social comunitário, ame-ricanojudeu-alemão. Embora Freudenberger tivesse tido muitos empregos na sua vida, incluindo os de clínico, editor, teórico e autor, a sua contribuição mais significativa foi a compreensão e o tratamento do stress laboral, do esgotamento profissional e do abuso de substâncias [para lhe resistir]. Foi um dos primeiros a descrever os sintomas de exaustão, profissionalmente, e a realizar um estudo abrangente sobre o burnout. Em 1980, ele publicou um livro sobre o burnout, o qual se tornou referência literária sobre este fenómeno social” (Cf. Relatório citado, p.31).

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NA ERA DIGITAL (CIBERNÉTICA)

● Web ou Internet (com mais precisão semântica). Redes sociais (tais como Facebook, Tweeter, Amazon, You Tube, etc.), os hackers e a corrente (não apenas esporádica…) actividade (ou operações) de hacking: assim vão os principais (e hegemónicos!...) Media (sem acento gráfico, visto que a palavra é latina!), hoje em dia!... Elites e governantes, de um lado, e populações e súbditos, do outro, parece que ninguém ousa proceder ao criticismo necessário e pertinente: a Imprensa escrita foi diminuindo, assustadoramente, nas últimas duas décadas. O Jornalismo escrito e divulga84


do em papel sofreu uma redução drástica. Foi, sem dúvida, uma má medida… Os humanos continuam a funcionar como unicórnios… Continuam a ser vítimas pelos métodos e critérios do epidémico Objectivo-Objectualismo. Não se personalizam nem se singularizam, apesar de os curricula, nos Sistemas ditos de Educação e Ensino, aumentarem cada vez mais!... Há uma faceta, nas ‘Novas Tecnologias’ que, em vez de informar e educar, desinforma e deseduca; há, aí, muito mais espaço para a desinformação e as ‘fake news’: de facto, os dois fenómenos constituem uma mesma e indivisa parelha, cujo resultado é a crescente Mediocridade generalizada, acompanhada dessa bitola, que se chama a ‘Regra do efémero circunstancial’. Perdeu-se o senso e o sentido da Psico-Sócio-História. Como não fomos capazes de manter a norma das Tecnologias Adequadas (porque prevaleceu o princípio do Capitalismo selvagem), não fomos, igualmente, capazes de assegurar uma via cultural/civilizatória de Equilíbrio de métodos e processos!... O resultado geral, não foi o Progresso (tal como ainda se concebia no séc. XVIII), mas a regressão das Sociedades humanas aos tempos passados. Os dois factores, que sobredeterminam os comportamentos e a praxis societária, são: a) a polarização da atenção e dos interesses dos receptores (domésticos) em matérias escolhidas de sua predilecção; b) o excesso generalizado de montanhas de informação, que deixa as clientelas (em casa) completamente estonteadas e aturdidas. ‒ “Em sete anos, as tecnologias digitais, que antes eram saudadas como instrumentos de liberdade e mudança, passaram a ser responsabilizadas por subversões das democracias ocidentais” (cf. ‘Exp./Rev.’, artigo ‘O Inferno depois do Paraíso’, 10.11. 2018, pp.42-48: p.44, Zeynep Tufecki/MIT Technology Review). ‒ “Desde a Primavera Árabe que o autoritarismo e a desinformação têm prosperado, enquanto o livre debate de ideias não” (idem, ibi, p.48). ‒ Na celebração de ‘O DIA DA PAZ’: 1918-2018, no centenário do fim da I Guerra Mundial (vd. ibi, pp.35-40: p.38), pode ler-se o texto, assinado por Christof Weil, embaixador da Alemanha em Portugal e de Jean-Michel Casa, embaixador de França em Portugal: “Queremos uma globalização com sentido de humanidade! Porque se as pessoas se sentirem abandonadas devido à globalização, isso torna-se um proble-ma para nós todos nas nossas sociedades democráticas. A história e os valores condicio-nam a nossa convivência e a nossa visão comum do mundo do ponto de vista alemão, bem como do francês, as lições da história do século passado só permitem estabelecer um compromisso inabalável com a integração europeia, conjugado com uma pareceria transatlântica equilibrada e com multilateralismo eficaz ‒ e sabemos que, nesse sentido, podemos contar com Portugal ao nosso lado”. ‒ Os mesmos Senhores, supra-citados, escrevem (ibidem) o texto seguinte: “Os desafios, que os fluxos migratórios e de refugiados, colocam à Europa também exigem que nos confrontemos com o nosso próprio legado histórico. Também aqui se constata que a possibilidade de conceber o futuro pressupõe que a memória do passado não seja enterrada. O armistício de 1918 põe fim à guerra, mas um fim provisório, nomeada-mente por causa dos erros cometidos na implementação da paz, depois de 1918. De fac-to, a guerra civil europeia durou até 1945, determinantemente alimentada pelos delírios de conquista e extermínio da Alemanha nazi. No fim do seu processo de autodestruição, que 85


se iniciara em 1914, o nosso continente viu-se despojado da sua antiga preponde-rância no palco mundial, encravado no seio dos conflitos entre as superpotências”. Permanecia, então, (como, ainda hoje!...) o catecismo: ‘Si vis pacem, para bellum’! Predominava, então, a Cultura do Poder-Dominação d’abord, que ainda prossegue, hoje em dia!... Enquanto não procedermos à passagem para o outro lado do rio da História… ou seja, para a prevalência da Cultura da Liberdade Responsável, primacial e primordial, meus caros Senhores, tudo ficará como dantes, Quartel-General em Abrantes!... Assim tem aprendido e ensinado, criticamente, o C.E.H.C.. A própria História nunca é absolutamente neutra… ela é sempre tributária da Ideologia do Autor, enquanto predominar, hegemonicamente, a Cultura da Potestas-Dominação d’abord! As chamadas ‘guerras justas’ (tal como, v.g., as justifica Tomás de Aquino), elas mesmas, só têm cabimento nessa Cultura, ‒ que admite e recorre à Força bélica/material, para encontrar e balizar os períodos de paz, a qual, em tal contexto estrutural, não pode deixar de ser adjectiva (não substantiva). Na época tecnologicamente revolucionária, em que vivemos, há quase três décadas, no concernente às actuações e movimentações dos media on line (e respectivas ‘redes sociais’), há muito mais espaço para a desinformação e as chamadas ‘fake news’, contrariamente ao que acontecia anteriormente. Os dois fenómenos são uma só parelha, que tem, como resultado, a mediocridade generalizada e a Regra, demolidora e sombria, do efémero circunstancial. A razão estrutural deste conglomerado de fenómenos é a carência de Tecnologias veramente Adequadas às funções sócio-económicas (para que são chamadas), ‒ como, há ca. de duas décadas já assinalava, criticamente, o C.E.H.C.. Em suma, não são os Sujeitos Humanos e os espíritos bem formados o motor do Processo Civilizacional e Cultural, na Psico-Sócio-História, mas a materialidade das coisas e a sorte ou azar, à mistura!... A comprovar a legitimidade e a racionalidade dessa nossa Tese pode arguir-se, com a seguinte ‘Quaestio ad hominem’ (cf. ‘Exp./Rev’. de 10.11.2018, p.42): “Como é que as Tecnologias digitais, em vez de darem poder aos cidadãos e derrubarem ditadores, se tornaram instrumentos de opressão e discórdia? Neste artigo, publicado, antes da vitória de Jair Bolsonaro, vemos como os efeitos políticos e sociais das tecnologias não podem ser entendidos sem ver o que está além delas”. É sempre a Cultura do ‘Homo Sapiens tout court’, que, uma vez tornada historicamente hegemónica, prevalece absolutamente, e conforma os espíritos dos inventores e os cidadãos consumidores como mentes unilineares e unicórnias!... E, nesta óptica, Portugal não é excepção à Regra; antes, pelo contrário… Portugal é, efectivamente, o País mais centralizado da Europa. (A notícia procedeu da Univ. do Minho e foi difundida pelos media em 13.11.2018). Malogrou-se o Referendo de 1998 (suscitado pelo Presidente Jorge Sampaio), para o processo de Descentralização e Regionalização do País. Falta de cidadania, autonomia e cultura: um povo, historicamente mais inclinado a submeter-se, como vassalo do Rei ou do Chefe, do que a fazer valer os seus direitos!... A história miúda das ‘lutas liberais’, nas 3ª e 4ª décadas do séc. XIX, é isso que demonstram à saciedade!... 86


● Sobre a nova ‘revolução’ na chamada ‘Inteligência Artificial’. Depois do nosso Livro sobre as ‘Tecnologias Adequadas’ (de há ca. de duas décadas), em diapasão moderadamente criticista, não nos temos cansado em verberar este novo ‘baptismo’ da Inteligência (que, qua tal, é exclusivamente humana: já o fize-mos, também, nesta obra). O padrão e a bitola, para este nosso julgamento ‒ não se es-queça ‒ é o ‘Homo Sapiens//Sapiens’, que é o paradigma próprio da Espécie humana, evolucionariamente actual. Saiu a público (em Jan. de 2019) um livro (destinado ao grande público) do Presidente do Inst. Superior Técnico, Arlindo Oliveira, (edit. pela Fundação Fr. Manuel dos Santos), com o título: ‘Inteligência Artificial’. É escrito com prudência e sensatez, mas aberto ao que se chama (na Robótica e na Matemática) ‘singularidade tecnológica’ (John von Neumann). O Autor, entretanto, ainda não conhece, a partir da história da Pá-leoAntropologia, o nome exacto da Espécie Humana, qua tal, i.e., o ‘Homo Sapiens// //Sapiens’. Os dois caps. com mais interesse: Consciência (pp.81 e ss.); Riscos (pp.91 e ss.). Quanto à noção de consciência, ele mostra-se, no máximo, perplexo e reticente. Encara-a, com os seus sentimentos e emoções, apenas no atinente à capacidade evolutiva de adaptação, e no concernente às potencialidades da redistribuição societal. Mes-mo, aqui, com desconfianças reais. Evoca Searle a concluir ‘que a manipulação de sím-bolos, por si só, nunca pode conduzir à compreensão nem a comportamento consciente’ (ibi, p.85). Se ‘imitação’ houver, na robótica superinteligente, os Aparelhos em causa não passarão de ‘zombies’. No Posfácio (p.110), o Autor faz a seguinte recomendação: “Dos numerosos livros que abordam a questão da consciência, hoje tão polémica, como sempre, opto por recomendar Consciousness Explalined, de Daniel Dennett, que, em minha modesta opinião, é o que mais se aproxima de aparentar uma explicação conclusiva, para um fenómeno que permanece obscuro”. Mas o melhor ainda será a releitura atenta das Escrituras Védicas do Hinduismo, o Bhagaved Gita, onde é caracterizado o Deus Supremo dessa Religião, i.e., Brahman: Ele é que se exprime numa linguagem interior. (Este era o Deus de Gandhi: cf. ‘A minha vida e as minhas experiências com a Verdade’, ed. de ‘Expresso’, Jan. de 2019, t.3, p.39, p.40: é uma espécie de ‘linguagem interior’, que funciona a se, autonomamente ‒ é o que nós chamamos a 3ª parte da tríade da Consciência). ‘Vem aí uma nova revolução dos computadores: Algoritmos sofisticados vão finalmente ter onde funcionar. Mas é preciso regular a Inteligência Artificial, alertam os especialistas’. (Vd. artigo de Raquel Albuquerque, sobre o tema, in ‘Expresso’/1º Cad., 10.11.2018, p.26). Por quê? Porque, tradicionalmente, se tem feito, muitas vezes, ‘ciência sem consciência’ (contra o preconizado pelo sábio francês Edgar Morin, no seu Livro ‘Ciência com Consciência’, Pub. Eur.-América, Mem Martins, 1982). Falta regular toda a Cibernética, a actividade e o funcionamento dos Computadores, segundo o paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’.

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Escreve R.A. a iniciar o seu texto: “O primeiro supercomputador capaz de imitar o funcionamento do cérebro humano acordou para o mundo há oito dias em Inglaterra”, ca. de 20 anos depois do seu esboço em papel… Citado por R.A., diz o Prof. de Física e Astronomia da FEUP, Ariel Guerreiro: “Estamos na véspera de uma mudança de paradigma, na computação, uma quarta revolução industrial, que pode alterar a forma como a sociedade se organiza, produz e trabalha” (ibi)… Escreve R.A, (ibidem): “Só que se tornou impossível ir mais longe, com a tecnologia actual, e foi preciso procurar formas alternativas de computação. Há duas principais: a quântica e a neuromórfica (inspirada no funcionamento do cérebro humano. É nestas duas soluções que as grandes empresas como a Google, IBM ou Intel têm vindo a apostar”. Por que falta, de facto, a regulação séria de todos estes instrumentos de trabalho e lazer?!... “Só que, a par das vantagens da automatização, vêm riscos e receios. Uma das maiores preocupações é o impacto na perda de postos de trabalho. António Guterres, secretário-gereal das Nações Unidas, vai ainda mais longe, vendo a militarização da Inteligência Artificial como um grande problema mundial. ‘Máquinas que têm o poder de tirar vidas humanas são politicamente inaceitáveis, moralmente repugnantes e devem ser banidas’. (eadem, ibidem). Cá está o Problema nº 1: Enquanto, colectivamente, as Sociedades ditas humanas não suplantarem o padrão da Cultura do Poder-Dominação d’abord e ascenderem ao patamar da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, a paz (possível) que emerge e é constituída é, tão só, a ‘paz de armistício’, a ‘paz entre duas guerras’. O que, na vida humana, é substantivo é a guerra, e o que ressalta, como adjectivo, é a paz!... Apoiada em declarações de Mário Silva (Prof. de Engenharia Informática no I.S.T.), a articulista escreve (ibidem): “’A questão é saber como é que os algoritmos e a informação podem ser controlados, de forma a que a sociedade conviva com este modelo, com confiança, e saiba que alguém está de vigia. É preciso um mecanismo de supervisão, que não impeça a inovação, mas evite abusos indevidos’, afirma Mário Silva, defendendo mais transparência e formas que nos permitam ‘saber o que se sabe sobre nós’ ”. ‒ Uma Quaestio ad hominem: A) É ou não verdade que, com esta retórica, só se comprova que há uma divindade supervisora, que transcende e regula os comportamentos de todos os indivíduos, dentro, portanto, do horizonte da Cultura do Poder-Dominação d’abord?!... B) E se esse ‘controlo’ fosse desempenhado, no sacrário da Consciência crítica e duplamente reflexiva, que é própria do ‘Homo Sapiens//Sapiens’?!... Aqui, a Consciência dos Indivíduos/Pessoas/Cidadãos é constituído por uma tríade: Sujeito cognoscente, Objecto conhecido e Testemunha (que averigura e pode jurar se é verdade ou mentira o que o Sujeito está conhecendo). É por tudo isto que a retórica, atinente a toda esta problemática, continua a percorrer a sempiterna ladainha das ‘contas do Rosário’ (seja este cristão, budista, shin-toista, muçulmano ou judaico…). “Criar regulação, mas sem travar a evolução tecnológica, e o desenvolvimento da Inteligência Artificial é fundamental” (eadem, ibidem). ‒ A Inteligência Artificial não 88


passa de uma mistificação e um mito (a combater). O postulado de não se poder tra-var a evolução tecnológica é um pressuposto errado, pela simples razão de prestar tribu-to à heresia moderna/contemporânea do Objectivo-objectualismo, relegando sempre, para 2º plano, os Indivíduos/Pessoas/Cidadãos e a sua incontornável Consciência/Inte-ligência natural de Sujeitos humanos, livres e responsáveis. Batendo, ainda, na mesma tecla, mas de modo mais moderado, diz, aí, Sousa Antunes: “Mas também é preciso evitar que se chegue a patamares de receio ou de medo. É aí que entra o Direito. É necessário garantir que o ser criado não domina o criador”. “Para já o grande risco ainda não é o da máquina autónoma, mas sim a utilização da inteligência artificial por outros seres humanos, tomando decisões, que ponham em risco a nossa privacidade” (ibidem). Onde está a fonte de toda esta sorte de ‘bazar chinês’, onde se põe a pontificar, como um Adamastor, uma Inteligência Artificial (que não passa de um mito e que, não obstante, emerge e é constituída como realidade com créditos científicos? ‒ Em todas as religiões institucionalizadas à face da Terra; ‒ e, consequentemente, na sua recusa, generalizada, de apreciar e reconhecer, positivamente, a Evolução natural da Espécie humana do padrão do ‘Homem de Neanderthal’ para o actual ‘Homem de Cro-Ma-gnon’. Quando este 2º tipo for, definitivamente, reconhecido como o paradigma incon-tornável da Humanidade, então, entraremos na mundividência do ‘Homo Sapiens//Sa-piens’ e da Reflexão ao quadrado. Neste horizonte, nem estes problemas seriam levan-tados, e a própria história da Humanidade seria outra!... Acaba de chegar-nos um e-mail da AMNETIC e do CEMAR sobre uma tema-tica de controlo dos operários, tão absurda, que, para nós seria impensável: ‘Alarm over talks to implant employees with microchips’… No texto, já em português, pode ler-se: “Não é uma brincadeira, nem é uma ‘teoria da conspiração’, nem é um exagero invero-símil… É a sério… agora (neste momento…), e já está a acontecer… (e a resposta para uma situação inacreditável como esta só pode ser uma cidadania livre, consciente e responsável, com informação plena, atempada e crítica… e com tomadas de posição firmes, cívicas e determinadas)”. Na verdade, o novo paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (cujo ancestral 1º é o ‘Homem de Cro-Magnon’, do qual, desde há 30 mil anos, pelo menos, descendem todos os Indivíduos vivos à face da Terra, com ca. de 1.500 centímetros cúbicos de cai-xa craniana, uma vez que nessa altura já haviam desaparecido os indivíduos oriundos do padrão do ‘Homem de Neanderthal’, com ca. de 900 centímetros cúbicos de caixa craniana), é o Indivíduo/Pessoa, que sabe que sabe, portanto, o seu pensar é reflexivo, ‘ao quadrado’: Não precisa, pois, que lhe dêem ordens, para balizar o seu comportamento; o seu tipo de comunidade/sociedade configura-se no plano horizontal, não vertical (como acontecia com a sub-espécie anterior). Eis a razão e o argumento, estrutural e fundador, para que ele possa e saiba discernir e distinguir (não dizemos separar estruturalmente) a órbita do Sujeito e a órbita do Objecto. Por tudo isto, ele não incorre na heresia psico-sócio-cultural da Modernidade, que dá pelo nome do Objectivo-Objectua-lismo, que o C.E.H.C. não se tem cansado de fustigar. O nosso querido Amigo e camarada Viriato Soromenho-Marques (filósofo de primeiras águas e, porventura, o nosso melhor e mais atento ecologista) escreve (in ‘JL’, 89


de 21.11. a 4.12.2018, p.31) um óptimo artigo subordinado ao título: ‘O TGV da Inteligência Artificial, sem travão nem destino’; mas, ele próprio, se der conta disso, obterá a mesma impressão que nós: o seu discurso cai, igualmente, nessa heresia moderna (e já muito antiga… porque ela acompanha todo o Processo histórico do que se tem chamado ‘Civilização’). No subtítulo, pode ler-se, com acerto, o seguinte: “o caso da Inteligência Artificial atinge os mitos da neutralidade axiológica da técnica e coloca sérias sombras sobre as esperanças de uma bifurcação entre uma técnica fáustica e uma técnica prometeica’ [a 1ª ousada e letal; a 2ª ousada mas não letal…]”. É o velho problema das Tecnologias Adequadas, de que já escrevemos um livro sobre a problemática das Novas Tecnologias, nos inícios da 1ª década do séc. XXI. Tudo quanto aí escreve o filósofo é francamente positivo e tem a nossa concordância, do ponto de vista da chamada Objectividade científica. Podemos aduzir nacos de texto a confirmar isto: ‒ Na Inteligência Artificial é difícil separar o trigo do joio. A actual vanguarda tecnocientífica apresenta-se como um Triângulo formado pela Inteligência Artificial, biotecnologia e nanotecnologia. Cada um destes vértices, vistos separadamente, apresenta prodigiosas promessas e gigantescas ameaças. Contudo, o futuro aponta para a sua convergência, até à plena fusão, num processo dominado pela IA, por ‘máquinas’ que simulam exponencialmente a inteligência humana, por programas (software) que fazem as suas actualizações com autonomia”. O Autor, evoca, logo a seguir, 5 cientistas/filósofos, que desconfiaram e foram cépticos sobre a temática da IA: Stephen Hawking (recentemente falecido), o empresário visionário Elon Musk, o filósofo adepto do transhumanismo Nick Bostrom, o historiador best-seller Yuval Noah Harari e o filósofo alemão Martin Heidegger. Desde logo, um dos grandes problemas que V.S.-M. põe é o de carácter societário (que nós também púnhamos no livro já referenciado): “… como absorver as dezenas de milhões de desempregados, que vão ser gerados pela substituição de pessoas por algoritmos e robôs inteligentes?” (ibidem). Ele cita, a seguir, a posição do historiador Harari, a partir do seu terceiro Livro conhecido, ’21 Lições para o Século XXI’ (os 2 primeiros são: ‘Homo Sapiens’ e ‘Homo Deus’, onde o autor não conhece o ‘Sapiens//Sapiens’!...). “Perder o controlo sobre as nossas próprias vidas, no entanto, é um cenário muito mais assustador. Apesar do perigo do desemprego em massa, o que nos deve preocupar ainda mais é a mudança de autoridade dos humanos para os algoritmos, o que pode destruir qualquer fé remanescente na história liberal e abrir caminho para o surgimento de ditaduras digitais”. A perspectiva criticista de V.S.-M., a partir desta premissa, vai na linha de um cepticismo confirmado, por total escassez de meios para obviar à densa e agónica problemática!... Será que teremos, apenas, de seguir o lema da liga Hanseática: ‘navegar é preciso, viver não é necessário’!... Em suma, tudo é percepcionado e avaliado sob o diapasão do Objectivo-Objectualismo… E, mais uma vez, nos deparamos com o Enigma moderno da Técnica. “Será que a essência da técnica pertence à mera categoria das utilidades, que desde o homo faber são fabricadas para comodidade da nossa espécie? Será que, apesar da sua sofis90


ticação, a IA poderá ser vista no quadro de uma racionalidade instrumental, subordinada a uma racionalidade teleológica, que tenha como centro a dignidade humana, no seu sentido kantiano, de fim-em-si-próprio, de fim final (Endzweck) da Natureza?” (Idem, ibi, pp.31-32). Para chegarmos ao que esta Quaestio pode postular, é conveniente ter em conta dois pressupostos: A) a distinção psico-sócio-antropológica entre Sujeito e Objecto: não são, afinal, os Sujeitos humanos que ligam e desligam (electricamente) a ‘máquina robótica’?! B) O que, em termos psico-sócio-antropológicos, caracteriza os Humanos é a tríade: Identidade; Autonomia; Dignidade. São os predicamentos ontológicos dos Indivíduos pertencentes à Espécie ‘Sapiens//Sapiens’. Entretanto, o nosso Autor está certo, ao afirmar, em Tese conclusiva (ibi, p.31): “Não temos de momento qualquer meio disponível para travar ou modelar a marcha da IA rumo à realização de todos os seus possíveis tecnológicos, incluindo os que se nos poderão revelar como funestos e existencialmente ameaçadores”. Claro, tudo encarado, apenas, do ponto de vista objectivo!... Não estamos, todos, a sobreviver, ainda, na sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord?!... Há duas Lições, importantes e decisivas, a extrair de toda esta Problemática: A) A primeira pode enunciar-se como segue: por princípio, e em todas as circunstâncias (mesmo nos campos da Economia política e da legislação do Trabalho profissional), os Sujeitos-Indivíduos humanos detêm o primado absoluto sobre os Objectos e as Coisas e a confecção das mercadorias. (O Marxismo já pressupunha isto, pelo menos, como Hipótese de Trabalho e Investigação). B) Este tesário só poderá ser configurado e cumprido, verdadeiramente, na outra Cultura/Civilização Alternativa à tradicional e ainda actual Cultura do Poder-Dominação d’abord, ou seja: a nova Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, onde o ‘livre arbítrio’ se extinguiu, por definição, e a Potestas não tem outras funções senão as de coordenar a actuação dos cidadãos, considerados inter pares, no horizonte da percepção crítica do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, que é chamado, por definição, a viver em comunidade/colectividade. Obviamente, os coordenadores são, por definição, eleitos em regime democrático (como muito bem ensinou António Sérgio, o doutrinador luso, que mais e melhor se aproximou do vero Socialismo).

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DA GUERRA E DA PAZ (Sobreviver sob o Regime da ‘Paz de Armistício’?!...)

● ‘Si vis Pacem para bellum’: Se pretendes a paz, prepara-te para a guer-ra!... Este antigo axioma latino constituiu a âncora fundadora e asseguradora para a organização de todas as Sociedades humanas: desde o início do Processo Civilizatório (há cinco milénios e meio, quando teve a sua origem o Regime patriarcal e a trágica invenção/configuração dos deuses uranianos, que puseram termo aos 4 milénios anteriores da Gilania ou Mariarcado, onde todos os Humanos (machos ou fêmeas) eram plenamente considerados em pé de igualdade), até ao presente. Em todo esse transcurso histórico, o que predominou e foi hegemónico foi a sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. Será que a Humanidade, qua tal, poderá continuar a viver na órbita da chamada ‘paz de armistício’?!... Este substantivo perifrástico (ou ‘noun phrase’), implica, axiológica e ontologicamente, o primado absoluto da Guerra sobre a Paz. A Guerra, por conseguinte, foi sempre hegemónica, ‒ o que é igual ao enunciado clássico: ‘a paz é o período histórico e societário entre duas guerras: a 1ª o terminus a quo; a 2ª o terminus ad quem!... Tudo, aí, acontece e ocorre no horizonte da sempiterna Cultura da Potestas/Dominação d’abord! Apesar de tudo, uma vez que cada Indivíduo-Pessoa é detentor de uma consciência e juízo/julgamento próprios e identitários, sobre a guerra e sua estratégica e condução, podemos aprender Lições diferenciadas, consoante seguirmos e adoptarmos, como mestre, ou ‘SUN-TZU/The Art of Warfare’ ou ‘KARL VON CLAUSEWITZ/ON WAR’: ‘The Book of War’. (Series Introduction by Caleb Carr; Introduction by Ralph Peters; The Modern Library, New York, 2000). Vamos, tão só, aqui, transcrever dois parágrafos de Ralph Peters, da sua Introdução, titulado: ‘The Seeker and the Sage’: ‒ “This book allies humankind’s two most powerful works on warfare. Distant in time, space, and culture, Karl von Clausewitz and Sun-Tzu offer dueling visions, with the Prussian appalled by fantasies of bloodless war and the Chinese crying that blood-less victory is the acme of generalship, and with Clausewitz anxious to increase military effectiveness, while Sun-Tzu pleads, cleverly, for military restraint. Such discord as-sures their relevance to our time” (ibi, p.VII). ‒ “The Western text embraces war’s necessity, while the Eastern one despairs of its inevitability, but they are united by the recognition that the human remains at the heart of each combat encounter and every campaign. Each holds a flank in our approach to war: Clausewitz is the apostle of the relentless will, convinced there is no substitute for victory, while Sun-Tzu seems a closer pacifist, wary of victory’s hollowness. The first sought to sharpen the sword, the second to restrain it. The Prussian saw the power of the armed mass, while the Chinese pitied the suffering of the common man. Sun-Tzu believed that the outcome of a campaign was predictable, but Clausewitz insisted that, although the odds can be improved, risk is inherent in warfare. This debate across mil-lennia continues 92


today, and placing these two works together highlights the strengths and weaknesses ‒ and the inestimable value ‒ of each book” (ibi, pp.VII-VIII). O adagio/emblem de Sun-Tzu enuncia-se como segue: “He who knows the enemy and himself/Will never in a hundred battles be at risk” (ibi, no Preface to the Ballantine Edition, p.65). As Lições a extrair destes excerptos icónicos das duas obras destes generais da guerra, podem ser os seguintes: a) C. é monolinear no seu pensar, ‒ dir-se-ia unicórnio: uma vez chegado à 1ª conclusão, aí se fixa e polariza; S. é plurilinear, dir-se-á que trabalha, perante o fenómeno em causa, com várias hipóteses na mão. b) C. privilegia a táctica (imediata), em detrimento da estratégia; C. está polarizado numa só posição/decisão final: é preciso fazer a guerra a todo o custo: por isso mesmo, ele foi capaz de pensar e escrever: ‘a guerra é a continuação da economia política por outros meios. S. era incapaz de pensar uma conclusão semelhante. c) C. sobrevaloriza mais a guerra do que a paz; S. pensa ao contrário, admitindo o recurso à diplomacia, e o diálogo entre os contendores sobre o bom Direito entre as partes inimigas/adversárias. Nesta problemá-tica, há, pois, mais e melhor saber/sabedoria, por parte do Oriente, em confronto com o Ocidente. Tratase de uma variante, mais mitigada, da sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. Esta Cultura, que foi instaurada, no Processo civilizatório, 3.500 anos antes da Era comum, mediante a afirmação apodíctica e dogmática do Patriarcado (pondo ter-mo à GILANIA ou Matriarcado) e a criação ficcionada dos Deuses uranianos, tor-nou-se a base e o fundamento na defesa da Doutrina clássico-tradicional da existência da corporação das Forças Armadas, enquanto garantia suprema da ‘Law & Order’, da Ordem, Disciplina societária e paz interna e externa dos Estados/Nações. Ora, esta é a gramática própria do que o C.E.H.C. chama o ‘Homo Sapiens tout court’; não, de modo algum, a do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, procedente do seu avatar específico, o ‘Homem de Cro-Magnon’, que foi o único specimen que prevaleceu, na Evolução histórico-arqueológica, desde há ca. de 32.000 anos até ao presente! Contudo, alguma evolução ideológico-cultural tem, de facto, ocorrido, no Ocidente, desde o ‘siècle des Lumières’. Em cada Estado/Nação, a corporação ou ministério das Forças Armadas, em lugar de ‘Ministério da Guerra’ começou a chamar-se ‘Ministério da Defesa’. Por vezes, assalta-nos a impressão de que essa mudança de nome não passou de pura retórica ‘pour épater le bourgeois’!... ● Thomas Hobbes (1588-1679). Foi o fundador e arquitecto da doutrina moderna sobre a organização política dos Estados. Concebeu uma teoria mecanicista do Mundo, semelhante à de Descartes, i.e., apoiada no Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo. Tudo se acha reduzido ao movimento da matéria, ao utilitarismo egoísta, dado que o homem é um ser antissocial, regido pelas leis do interesse individual. Por isso ele é defensor do despotismo. É autor do seu Livro-padrão (cartilha indefectível de toda a política moderna, precisamente por ter posto de parte o espírito e a consciência): ‘Leviathan’. Escreveu, ainda, ‘Objecções às Meditações de Descartes’. Mas, na verdade, se alguns dizem que ele foi discípulo de F. Bacon, ele foi, muito mais, discípulo de Descartes (surpreendentemente, este filósofo, no último período da sua vida ainda foi 93


virando a sua atenção para os problemas complexos da Psique e da Mente): devido ao seu mecanicismo cartesiano, ao seu Dualismo metafísico-ontológico. A defesa da monarquia e do despotismo foram as sequelas da sua doutrina. Assim, no horizonte desse pai fundador do catecismo orgânico da Organização política dos Estados modernos (que prossegue até ao presente, seja em democracia liberal seja em ditadura, mutatis mutandis…): a) Tudo é constituído do vértice da pirâmide para a sua base (o povo iletrado e plebeu); b) há, necessariamente, elites domi-nantes e classes sociais, na ‘Árvore’ invertida dos Poderes estabelecidos, da Ordem (de-sordem) Estabelecida; c) ‘Non est potestas nisi a Deo’ (ensinou a Igreja, ancorada no dogma de Paulo aos Rom. 13,1); d) as religiões estabelecidas, uma vez que se ocupam da espiritualidade e da ‘vida interior’, não contam, directa e expressamente, no maquis jurídico-societário da Organização sócio-material/exterior da Sociedade. Entretanto, segundo esta compositio societária hobbesiana, foi estruturalmente instaurado o Dualismo na própria praxis societária, simetricamente à instituição, prévia, do Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo. A Societas ficou irremediavelmente esquizofrenada, para todos os efeitos: há os Poderes Estabelecidos e há o ‘Livre Arbítrio’ dos supostos cidadãos, convertidos em cabeças de rebanho. De resto, a Teologia e a própria Filosofia tradicionais, no Ocidente, sempre inverteram e trocaram as problemáticas estruturais das Sociedades humanas, tanto nas áreas científicas como nas áreas da Praxis societária: a palavra DUALISMO, que deveria, em rigor, ser aplicada na óptica da Dualidade Epistemológica (ciências físico-naturais têm uma epistéme di-ferente da que têm as ciências psico-sociais e/ou humanas), foi, erradamente, adoptada para o horizonte da Metafísica e da Ontologia. Desta sorte, o Monismo (como método e sistema) foi, irremediavelmente, adoptado e aplicado em todas as áreas e nos dois campos (referidos) dos Saberes científicos. ‘Si vis pacem, para bellum’!... Como é sabido, coexistem, societariamente, estas duas realidades sociais, umas vezes aparentemente separadas, outras vezes misturadas… É, de facto, assim, que funciona a Potestas-Dominação d’abord e sua respectiva Cultura civilizacional. É, igualmente, nesse horizonte, que se afirma e defende, dogmaticamente, a doutrina clássica da existência das Forças Armadas e de três ou mais baterias de Polícias, enquanto suprema garantia da ordem e da disciplina dos povos, capazes de assegurarem a paz interna das respectivas populações, nos chamados Estados/Nações. Ora, esta é a gramática própria do paradigma ancestral do ‘Homo Sapiens tout court’, em confronto com o mais recente padrão da Espécie, que é o ‘Homo Sapiens//Sapiens’. E todos os Humanos viventes, hoje, à face da Terra, são, desde há ca. de 32 mil anos, oriundos do 2º padrão (o ‘Homem de Cro-Magnon’) e não do 1º paradigma (o ‘Homem de Neanderthal).

Conclusões/Postulados para a nossa e nova/Alternativa: PRAXIS SOCIETÁRIA ● A) O Poder (histórico-tradicional), com a sua constringência legal e penal, toda a sua ‘absurda’ implacabilidade, por força da Evolução bio-psico-sócio-antropoló-gica 94


e cultural/crítica (a gramática do ‘Homo Sapiens//Sapiens’) está em vias de se ‘eclipsar’, em vias de evolução e superação para o novo patamar da Cultura da Liber-dade Responsável (= reflexiva e crítica) primacial e primordial. Até ao presente, os Humanos e a cartilha enviesada da Espécie não tem conhecido outra coisa senão: dum lado, a implacabilis Potestas (que ninguém discute…); do outro, o ‘livre arbítrio’ (a lei do pêndulo de Foucault), que tem sido proposto e ensinado por Platão e Paulo, Agostinho de Hipona (já não Pelágio, com quem ele discutiu…), Tomás de Aquino, Lutero, Erasmo, o próprio moderno Stuart Mill, no seu Livro ‘On Liberty’. Nos filósofos modernos, deverá salientar-se, em defesa da vera e completa e autónoma Liberdade, o existencialista Jean-Paul Sartre, sinteticamente resumida no axioma que ele cunhou: ‘Se eu sou Livre, Deus não pode existir’. (É claro: no seu Tempo, era do Deus, transcen-dente e extrínseco ao universo que se tratava; não do nosso, que é a 3ª parte do trinómio da Consciência dos Humanos reflexivos e críticos). B) No lugar da sempiterna Cultura do Poder/Dominação d’abord, (histórico-tradicional), irão emergir as Agências Alternativas (e delegadas mediante eleição democrática) da Coordenação estrutural da Sociedade (nacional/estatal). Como se pode prever e é já intuído, tais Agências são constituídas de baixo para cima, da base para o topo, nos diferentes escalões de uma Sociedade bem organizada (política e economicamente) segundo a gramática da Justiça e da Bondade. C) O único Regime verdadeiramente próprio e digno dos Seres humanos, reflexivos e críticos, é o Regime político da DEMOCRACIA (eleitoral em sufrágio universal, a partir dos 18 anos, e com um estatuto claro e estabelecido da democracia participa-tiva. Todos os restantes tipos de regimes políticos são considerados errados, imorais e injustos, obscenos, numa palavra!... D) Não é possível promover e viabilizar toda esta Estrutura arquitectónica Alternativa, sem um Sistema Educativo nacional, criticamente balizado e bem orientado para o cumprimento destes implicados Valores ético-morais, a começar pelo Direito e Dever da Verdade, na Linguagem e no Discurso. Madeleine Albright dizia, com acerto: ‘O Fascismo cresce onde as Pessoas são convencidas de que toda a Gente mente’ (cf. ‘Exp./Rev.’, 17.10.2018, p.22 e ss.). O 1º Ministério de um Governo de uma Sociedade nacional bem organizada, por paradoxal que pareça, é o Ministério da Educação e do Ensino! Era o próprio Nelson Mandela que já proclamava o parergo solene: ‘A educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo’! O legado/mote de Mandela consistia na questionação central: ‘O que é que podemos e devemos fazer, para garantir que a democracia, a paz e a prosperidade prevaleçam em toda a parte? ‘As raízes dos conflitos e das guerras assentam na exclusão social, na injustiça e na pobreza. O que implica que um mundo mais pacífico e estabilizado só se pode obter através da emancipação económica, da justiça e da paz, da reconciliação e do respeito pelos direitos humanos. É justamente, aqui, nesta área, que mais se cumpre e tem razão o velho axioma: ‘Navegar é preciso; viver não é preciso’!... Apesar do seu significado algo enigmático, este mantra traz-nos a evocação certa das veras Revoluções que têm a sua origem na Consciência dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos, na sua Vida Interior, e não na sua Vida Exterior!... 95


E) Confirmando o que escrevemos em C) e D): ‘Vox populi, Vox Dei’’! É o adágio ocidental da Tradição, que até se aplicava às monarquias (na linha de Rom. 13,1…), e que F. Suarez modificou, no séc. XVII, adicionando à curta frase o medium necessário às democracias liberais: 'per populum’ = através do sufrágio universal do Povo, segundo os usos e costumes, a partir da idade amadurecida e da formação no Sistema Educativo, que são os 18 anos. Hoje em dia, para todos os eleitores, com capacidade legitimada, se não estudam mais ou se acham desempregados, deveria haver um salário mínimo nacional entre os 800 e os 1000 euros. (Segundo o ‘poder’ de compra relativo de Portugal). Hodiernamente, a semântica daquele adágio ainda obriga a perguntar: de qual Deus se trata?! Do tradicional extrínseco e transcendente ao Universo?!... ou do agostiniano ‘intimior intimo meo’ = a testemunha interior, que é a 3ª parte da Consciência que deverá ter o Humano bem formado?!... F) Os Indivíduos humanos da tradicional Cultura do Poder-Dominação d’abord, no que tange à Libertas, não conhecem outra coisa senão o ‘livre arbítrio’, ou lei do pêndulo. Por isso mesmo, a gramática encalacrante das religiões, inclusive o Novo Testamento orquestrado por Paulo, o nome que aplicam aos dirigentes (Pontífices, Bispos, Padres, etc.) é o de Pastores… de todo um Povo, que admite e aceita, piamente, ser tratado como Rebanho, o ‘rebanho do Senhor’!... É óbvio que o imperativo de carácter que aí deveria ter lugar, não existe: a emancipação e a libertação de Prometeu não existe… Nada de personalização singular e pessoal (v.g. à Émmanuel Mounier). As sociedades classistas, a pobreza sistémica e a escravatura/servidão constituem uma corveia incontornável, inultrapassável. A Linguagem das melhorias prometidas, por parte dos Governantes, tem o sabor amargo a demagogia pura!... ● Depois destas seis premissas ou pressupostos críticos, a Quaestio central: Paz substantiva, ou, tão-só, a tradicional paz de armistício, ou paz entre duas guerras, ‒ o que implica que a vera substantividade é a da Guerra e não a da paz. O primado é da Guerra, i.e., do Capital contra o Trabalho (os operários são apenas um elemento na fórmula da produção capitalista, ‒ os quais, agora, cada vez mais serão reduzidos e ficarão desempregados, à medida que avança a 4ª revolução científico-tecnológica, de modo desadequado, sistémico, por parte dos patrões e das empresas capitalistas…). Os donos do Mundo são sempre os mesmos… estão sempre do lado do Capital!... Neste contexto, as sociedades humanas serão, incontestavelmente, hierárquicas e classistas. O primado é, irremediavelmente, o das coisas, dos objectos e das mercadorias; não dos Indivíduos humanos/Pessoas/Cidadãos(ãs). Ora, estas são, inexoravelmente, sociedades mal formadas e mal organizadas, ‒ todas essas Sociedades, que não são capazes de atribuir os predicados da Emancipação-Libertação a toda a Gente, que, por conseguinte, não podem reconhecer os Indivíduos-Pessoas/Cidadãos(ãs) em perfeito pé de igualdade societária. Em jeito de ponto da situação contemporânea, escreve, com acerto J. Tolentino Mendonça (in ‘Exp./Rev.’, 17.11.2018, p.90): “Aparentemente, trata-se apenas do florescimento da tecnologia, com a proliferação cada vez mais acelerada de ferramentas, dispositivos e aplicações, seja o algoritmo do Google, o ecrã intuitivo do iPhone ou indutores de sociabilidade como o Facebook e o Instagram. Mas modificando radicalmen96


te a nossa prática do mundo, não se modificam apenas os nossos hábitos, os nossos modos de fazer ou as nossas dependências. Um dos gurus da revolução digital em curso, o norte-americano Stewart Brand, resume o que está sobre a mesa, de um modo muito claro: ‘Pode-se tentar mudar com esforço a cabeça das pessoas, mas simplesmente per-demos o nosso tempo. Mudem-se os instrumentos que as pessoas têm na mão e, aí, sim, mudar-seá o mundo’. ” Ora, se T.M. e S.B. estão, seguramente, a utilizar um discurso da era digital contemporânea, eles, ao mesmo tempo, na medida em que a dita ‘revolução tecnológi-ca’ foi atirada para o Mercado de maneira desadequada e na órbita do Capitalismo, não há mesmo nada para ensinar, no horizonte da Emancipação/Libertação das Sociedades Humanas. É o ‘Homo Sapiens tout court’ que aí funciona. No parágrafo seguinte, N.T. já se aproxima mais de uma Densidade compacta e realista do Discurso: “O termo ‘digital’, que genericamente descreve a época ou, segundo alguns, a transição epocal em que estamos mergulhados, deriva do latim digitus, que se pode traduzir por ‘numérico’ [tal como a Web é conhecida na francofonia]. E o que lhe serve de suporte é a descoberta de que qualquer porção do real pode ser agora traduzida numericamente, transformada numa estrutura de dados, num algoritmo. Essa tradução numérica representa, ao mesmo tempo, um instrumento novo e uma forma diversa de vida: uma vida desmaterializada, aligeirada do peso das contingências, incrivelmente veloz, acessível a todos a qualquer hora (superando as restrições do tempo) e em qualquer lugar (superando as restrições do espaço). Definir, por exemplo, um computador como uma mediação tornou-se um modo de pensar arcaico. Os nativos digitais sabem que as novas máquinas são uma extensão deles mesmos, como um elemento a cada momento indispensável para operarem a sua relação com as coisas. Faço parte dos que consideram intrusivo o uso do telemóvel, quando se está à mesa ou dos que se alegram com a sua proibição por algumas escolas. Mas sei que isso é o séc. XX a lutar com o séc. XXI, uma batalha que está perdida. Estamos no olho de uma tempestade e teremos, como indivíduos e sociedades, de encontrar uma via de equilíbrio, que ainda não vemos clara. Porém, já não podemos agir como se tudo continuasse como dantes e não tivesse irrompido o ‘grande jogo’ ”. ‒ Ora, a via do equilíbrio, só poderá ser, globalmente, encontrada, na gramática do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Ainda desconhecida… É que a Internet ou Web e o funcionamento dos computadores assentam em dois princípios básicos essenciais: a) a redução da complexa e diversíssima Realidade do Mundo e do Universo a números (os famosos algoritmos…); b) e a equação das realidade materiais a imagens: por isso a sua linguagem de construção da ‘realidade’ é binária. ● Quando é que a União Europeia (U.E.) de hoje se há-de levantar, em nome do Ocidente (que tão leviana e de modo interesseiro: 1º colonialismo; 2º imperialismo) se tornou campeão e vanguardista da Civilização?!... As recentes propostas de A. Merkel e E. Macron, no sentido da reconstituição reforçada do chamado ‘Exército Europeu’ são infelizes e historicamente aberrantes. Sabemos que a nossa época hodierna é heteróclita e muito variada e complexa; os nossos tempos são, indiscutivelmente, pouco ou nada definidos, quanto à rota do Futuro!... Mas 97


alguém ‒ mais preparado cultural e eticamente ‒ tem de assumir a vanguarda axioló-gica, a vanguarda dos Valores. É que fenómenos soberanistas de agressão a outros países, como os ocorridos depois de 1989-91, na ex-Jugoslávia, depois, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria e no Iémen e na Rep. Centro-Africana, com todo esse cortejo consequente de refugiados da guerra a pedirem asilo… tem, urgentemente, de se pôr termo a uma via de soluções desta natureza, puramente circunstancial e sem rumos nem balizas!... O que está a operar é sempre a cartilha errada da Paz pela Força e Violência do mais forte!... Ora, todo este processus tem de ser definitivamente estancado. Através da Autonomia e Independência aos Países que as desejam e mediante a ajuda económica e a assistência financeira das Nações ricas e mais poderosas. ‒ Essa caminhada não interessa ao futuro da U.E. e a NATO, por seu turno, o seu natural destino é ser dissolvida, como outrora aconteceu ao chamado ‘Pacto de Varsóvia’. Do que as Sociedades humanas carecem, verdadeiramente, é de uma Paz substantiva, que torne inútil o recurso à guerra!... Recorde-se que o ‘armistício’ de Ver-salhes, de 1918-19, que pôs termo à Iª Guerra Mundial, acabou, ele mesmo, por ser o detonador, por parte da Alemanha, da IIª Guerra Mundial (de 1939-45). Na Rubrica DUELO (in ‘Exp./1º cad.’, de 17.11.2018, p.5), entre Ana Gomes e João Ferreira, a primeira argumentou a tese: “Almejo Forças Armadas da União Europeia, que respeitem o Estado de direito e os Direitos Humanos” (ibidem); o segundo argumentou a tese: “A associação e subordinação de Portugal à estratégia agressiva das grandes potências da NATO e da UE não serve os interesses do país”. Para nós, é o 2º que tem mais Razão que a 1ª. A 1ª lembra-nos a posição tradicional da conciliação admitida da Democracia com o Sistema capitalista sem freios; o 2º evoca-nos os que sustentam a posição contrária… E, na verdade, a sua e nossa posição configura-se totalmente indesmentível, na situação actual do Neoliberalismo capitalista, em que vamos sobrevivendo. E, a concluir a sua posição, em resposta à Questão: ‘Faz Sentido Existir um Exército Europeu?’, João Ferreira escreve: “A paz na Europa e no mundo precisa de outro caminho, que passa pelo fim da ameaça e do uso da força nas relações internacionais, pela dissolução da NATO e o fim da militarização da UE, pela criação de um sistema de segurança colectivo, que respeite os princípios da Carta das Nações Unidas e que abra caminho a uma ordem mundial de paz, desarmamento, de soberania, de progresso e cooperação entre os povos” (ibidem). Já temos um bom exemplo realista e bem sucedido e vero padrão vanguardista no Estado-Nação da Suíça. ● PU|TAO|YA: Portugal visto da China. É o título do artigo de António Caeiro, em torno da visita do Presidente chinês Xi Jinping, que chega 3ª feira a Lisboa em visita oficial (4.12.2018). Portugal é visto em Pequim como ‘um país amigo da China’ e ‘um parceiro de confiança na Europa’, diz A.C.. (In ‘Exp./Rev., 1.12.2018, pp.42-46). Escreve A.C. (ibi, p.44): “ ‘O que os portugueses descobriram no Extremo-Oriente foi civilização, uma civilização chinesa altamente desenvolvida, muito anterior à civilização cristã’, diria o professor Zhang Xiping, especialista de História da Sinologia Europeia”. 98


A.C. descreve, ainda, o que se passou (o massacre dos estudantes…) na Praça Tiananmen, em Pequim, em junho de 1989: “A ‘turbulência’ estava associada à repressão militar do movimento pró-democracia da Praça Tiananmen, em junho de 1989. [Foi em nov. desse ano que o Muro de Berlin caiu…]. Para o governo, o levantamento popular liderado pelos estudantes continua uma ‘rebelião contra-revolucionária’ e ‘se o partido não tivesse tomado medidas firmes, o país cairia no caos’. Centenas de pessoas morreram e milhares foram presas ou exilaram-se” (ibidem). Explicações possíveis? ‒ Ca. de 1.300 mil milhões, na demografia do ‘Império do Meio’; + uma grande diversidade de etnias; + a cartilha do seguidismo dos Poderes Estabelecidos e a falta de autonomia e personalização da generalidade dos Indivíduos/ /Cidadãos. Em suma, os princípios da Identidade pessoal, para os quais, há Sensibilidades diferentes: no Ocidente e no Oriente. A 1ª grande humilhação, que a China sofreu, foi na ‘guerra do ópio’ (1839-42), conhecida em Londres como ‘Guerra Anglo-Chinesa’. Escreve, a propósito dessa humilhação, A.C. (ibi, p.45): “Para os historiadores marxistas, a Guerra do Ópio assinala ‘o início de um século de humilhação nacional’ e ‘a transformação da China numa sociedade semifeudal e semicolonial, sem independên-cia política’. A China, que já tinha sido ‘a civilização mais avançada’ do mundo, ‘capi-tulou perante os imperialistas e colonialistas ocidentais’. Várias gerações foram ensinadas a ‘nunca esquecer’ duas coisas: a luta de classes e a ‘humilhação nacional’. Com a política de Reforma e Abertura, no final da década de 70, em vez de procurar ‘aprofundar a luta de classes’, a liderança chinesa privilegiou o crescimento económico. A memória dos ‘100 anos de humilhação nacional’ continua, contudo, muito viva. Muitos comunistas chineses acreditam que ‘o Ocidente quer conter a China’ ”. Apesar de ser o Estado-Nação mais populoso do Mundo, e tradicionalmente, considerado ad intra, ‘o Império do Meio’, a China tem vindo a despertar para todo um Movimento de autonomia e personalização, como Nação inter pares, digna de todo o respeito, e com os sentimentos de repúdio dos vícios históricos do Ocidente: o colonialismo e o imperialismo das grandes e médias potências. Uma grande Lição a reaprender, na Europa e no Ocidente, em geral. Cumpre, por conseguinte, ao Ocidente, protagonista do Processo Civilizatório, ao longo de mais de dois milénios (se incluirmos as suas fontes e raízes, no Imperium Romanum, na Hélade e na Hebraeia), reiniciar, sem arrogância nem supremacia, a sua condição de Vanguarda, ética e axiológica, justamente a partir do reconhecimento (criticista) da sua Experiência sócio-histórica, marcada de contradições estruturais e de lições erradas e frustrantes, legadas a partir da sua História no vasto Mundo. Como tem ensinado o C.E.H.C., o novo paradigma, que ele deverá adoptar e admitir, sem tergiversações, é o do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (procedente do padrão do ‘Homem de Cro-Magnon’) e não o do ‘Homo Sapiens tout court’ (oriundo do ‘Homem de Neanderthal’). O segundo paradigma deu início à sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord; o primeiro dá origem, por definição, à Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. 99


O ensino e a aprendizagem da História tem, necessariamente, de mudar. É a lectio, que nos debita o insigne africanista Joseph C. Miller (professor emérito na Univ. da Virgínia e autor do Livro ‘Way of Death: Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade’, 1988). O Prof. está, agora, a preparar uma História Mundial da Escravatura. (Cf. ‘Exp., 1º Cad.’, 5.10.2018, p.19). O seu mote é este: ‘Sem a História, as Ansiedades da Ignorância só se acumulam até explodirem’ (cf. ibi). ‒ Já não basta chapinhar na lama da ‘história ad usum delphini’ ou dos heróis, da história fisicalista; precisamos de uma História criticista, capaz de aprender no património da Arqueologia evolutiva das espécies vivas e na dimensão senciente e psicológica dos seres vivos, sobremaneira os dotados de résteas de consciência. É, afinal, o que tem feito o C.E.H.C., superlativamente no Livro ‘Traição de S. Paulo’ (ed. de São Paulo/Br. e edição de Guimarães/Port. ‒ de 2007), o vero Autor do Cristianismo, que não foi capaz de criticar a escravatura. Diz o Prof., nessa entrevista, que ‘nós, em Portugal, temos muito a aprender ao revisitar a história’ (ibi). “A História não pode ser vista como um passado deixado para trás, mas como uma forma de nos entendermos no presente”. Por exemplo, no séc. XV, o das Descobertas oceânicas, houve duas histórias: a das façanhas de coragem pessoal e colectiva dos marinheiros, de um lado, e do outro, a escalada e a presúria das antigas práticas de escravização e concentração da riqueza nos países do Ocidente: a 1ª foi contada, a 2ª foi descartada e ignorada. Quanto ao já proposto ‘Museu das Descobertas’, o Autor propõe: “Um museu das chamadas Descobertas pode destacar as realizações dos navegadores, reflectindo também a complexidade irónica e trágica das suas consequências não intencionais” (ibidem). Sobre a temática central do Museu, o Prof. é categórico: “ ‘As Descobertas e o Nascimento do Mundo Moderno Globalizado’, incluindo as dores. Na vitalidade das discussões sobre como repensar o Portugal do futuro, vejo um caminho vigorosamente saudável, desde que todos os lados se continuem a escutar uns aos outros e a respeitar as suas contrapartes. O projecto do museu é uma oportunidade para colaborar, não uma ocasião para competir” (ibidem). Em resumo: É deveras preciso e urgente alterar e mudar substantivamente a elaboração da História e o seu Ensino nas Escolas e Academias universitárias. Mas, em conclusão, isso mesmo não chegará a passar de uma falaciosa ilusão, se, de facto, no horizonte criticista admitido, e no estabelecimento do rumo e da rota, não pensarmos e avaliarmos a História e sua Evolução (cultural), a partir do cincho do Psico-Sócio-Ânthropos integral, como nós temos feito no C.E.H.C.. Ou seja: discernindo bem, na história arqueológica, a sub-espécie (dita) humana e a Espécie humana final, da qual, todos os Humanos viventes à face da Terra são oriundos, há ca. de 32.000 anos. A sub-espécie deu origem ao padrão do ‘Homo Sapiens tout court’; a Espécie ao padrão do ‘Homo Sapiens//Sapiens’.

DUODECÁLOGO 100


Em nome e no horizonte da Igualdade Social Humana e da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial 1. ‒ Para destruir e combater a Potestas d’abord (Rom. 13,1) e o Poder da Dominação (Max Weber), incontornável e ilimitado, é preciso e urgente inverter totalmente a tradicional pirâmide societária, hierárquica e descendente. 2. ‒ É preciso partir do pressuposto inabalável do primado absoluto da Consciência de cada Indivíduo-Pessoa/Cidadão(ã), adulto e responsável; é, de facto, aí, que a Divindade (hebraico-cristã) tem o seu habitat como ‘testis’ (ou 3ª parte da consciência), entre o Sujeito cognoscente e o Objecto conhecido. A função da testemunha é a de reconhecer, perante o Sujeito responsável, a verdade ou a falsidade do objecto do conhecimento. 3. ‒ A Sociedade e o mundo humanos têm de ser edificados, activa e responsavelmente, pelos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos(ãs), que se situam na base das Sociedades humanas: são eles e elas que constituem o anterior vértice da Pirâmide societária, que foi invertida. É por isso que o Regime Democrático é o único Regime digno dos Seres Humanos, qua tais. 4. ‒ O chamado, tradicionalmente, ‘Livre Arbítrio’ é dissolvido e estilhaçado, porque, na verdade, ele constitui, apenas, uma Ilusão de Liberdade: é a rançon da sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord, em que ainda, tristemente, sobrevivemos. Ele não passa da ‘lei do pêndulo’ de Foucault!... 5. ‒ O que, na nova Cultura/Civilização do Futuro vai, de facto, substituir o ‘Livre Arbítrio’ é a Liberdade Responsável primacial e primordial de todos (compotes sui) e cada um dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos(ãs). Esta é a bandeira e a gramática de actuação, que procede do ‘Homem de Cro-Magnon’, o ancestral definitivo, na Evo-lução (arqueológica) do Ânthropos, ao qual nós chamamos justamente e atribuímos o paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (= Ele sabe que sabe… por isso a sua consciência é responsável). É este o paradigma próprio da Espécie Humana. 6. ‒ Neste horizonte, é óbvio que a Natureza, sendo a base, não é, porém, suficiente. Assim, a Educação/Ensino e a Cultura devem deter o primado absoluto sobre as demais actividades e funções/ofícios e o horizonte dos diversos sectores de acções/ /operações. 7. ‒ As filosofias específicas, em que pode e deve ancorar-se este novo Projecto de Humanidade podem ficar seleccionadas, como segue: Além do C.E.H.C., Aristóteles (na esteira de Sócrates), Jesus, Espinosa, F. Bacon, Teilhard de Chardin, I. Kant, e Edgar Morin, Mohandas Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King. 8. ‒ As tradicionais ‘dialécticas’ (não esquecer que dialéctica procede, etimologicamente, de Diálogo… mas, a partir de Hegel, esqueceu-se o Diálogo e o processo cultural tornou-se uniformista e unicórnio e, em última instância imperialista!...) entre o Bem e o Mal (a virtude e o vício…), entre a Paz e a Guerra têm de ser resolvidas, em termos definitivos e radicais, no sacrário interior das Consciências dos Seres Humanos, mediante a discussão dialógica, inter pares, e, colectivamente, através de referendos, tomados a sério. 101


9. ‒ Com efeito, não são as Forças Armadas (no universo humano), que asseguram a Paz social; ‒ essa é a cartilha da Potestas-Dominação d’abord e de todas as suas sequelas. Aí, elas apenas apõem a sua chamada exterior e visível. Na verdade, o Ocidente tem muito a aprender do Oriente. Tanto na Medicina como na organização das Sociedades e suas relações mútuas no Mundo! A Bauhaus (a mais mítica e revolucionária Escola de Artes de todos os tempos, criada na Alemanha, no séc. XX) soube, sem dúvida, aprender do e com o Oriente. No manifesto de 1919, re-digido por protagonistas como Walter Gropius, o projecto da dita escola liberta-se de to-das as amarras historicistas e estabelece uma relação intrínseca entre arte e indústria. “Ao propor um design sensível em que a forma segue a função [dir-se-ia que estamos com a orientação expressa no axioma biológico-evolutivo de Lamarck: ‘a função cria o órgão’!] e os ornamentos e artifícios decorativos são erradicados, numa violenta reacção aos maneirismos e decorativismos arquitectónicos, a Bauhaus assume-se como uma es-cola de artes e ofícios, por oposição ao elitismo contido nas velhas academias de arte europeias” (Valdemar Cruz, in ‘Exp./Rev.’, 24.11.2018, p.50). No manifesto, Gropius escreve ainda: “Arquitectos, escultores e pintores, regressemos todos ao artesanato, pois a ‘arte como profissão’ é algo que não existe” (cit. por V.C., ibi, p.51). No art. de Bruno Maçães sobre a China hodierna (ibi, pp.35 e ss.), podem destacar-se algumas teses que podem surpreender: ‒ “Para os estrategos chineses, a ordem global ocidental teve início com o império português na Ásia” (p.40). ‒ “As tropas vitoriosas começam por ganhar e só depois é que se lançam na batalha; os derrotados começam por se lançar na batalha e só depois é que tentam ganhar” (ibi, p.38). Parece que estamos a ouvir Sun-tzu, o maior general/estratego da China. E qual é o plano da China hodierna? Escreve Bruno Maçães (ibi, p.37): “A Cintura e Rota é um rival ou alternativa ao Ocidente. Uma ordem mundial, permeada por princípios políticos chineses e com a China no centro”. Em suma, a China (o ‘Império do Meio’) e os orientais, em geral, assimilaram uma percepção experienciada da realidade, focalizada na globalidade do conjunto ou totalidade, na energia vital do organismo vivo, seja ele o indivíduo ou a sociedade, e não sobre as minuciosas particularidades, geometricamente isoladas, como se faz no Ocidente!... 10. ‒ Nesta nova galáxia, oriunda do paradigma da nova Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, própria do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, a Educação/Ensino e a Cultura deverão deter e assumir, positivamente, o primado absoluto sobre as demais actuações e ofícios e os diversos sectores profissionais. 11. ‒ O ‘Le Monde Diplomatique’ de Nov. de 2018, traz na p.28 um Artigo surpreendente e excelentíssimo, de Paul Ariès, sobre: ‘Eloge de la gratuité’. Há ca. de uma década, foi editado no Brasil/São Paulo, pela Edicon, um Livro nosso, que foi Tese de Sapiência, no Auditório do Seminário Maior de Coimbra, em 1963/Novembro: ‘A Economia do Dom’ (inspirado no Mestre Marcel Mauss). Agora, são Grupos de Estudo, nas áreas da Sócio-Economia, que vêm a fazer as mesmas descobertas, numa perspec-tiva renovada, especialmente em França e na Inglaterra. 102


O Artigo, acima referido, gira em torno do Mote: Contra a mercadorização do Trabalho e dos Trabalhadores. Chegam mesmo à conclusão de que ‘la gratuité sem-ble a priori plus ‘realiste’ économiquement que le revenu universel’ (ibidem). Na se-quência do apelo (de 1 de Out. de 2018) ‘vers une civilisation de la gratuité’, lançado em torno do livro-manifesto ‘Gratuité versus capitalisme’, o Art. tem a sabedoria de distinguir entre a gratuidade para com os pobres e desprotegidos, que acompanha o Sis-tema, e a chamada gratuidade de emancipação. O Art. conclui da seguinte forma (ibidem): “Émancipatrice, la gratuité constitue un hymne au ‘plus à jouir’. On peut formuler mille reproches à la société de consommation, elle parvient toutefois à séduire en invitant à consommer toujours plus. Rompre avec cette ‘jouissance de l’avoir’ implique en opposer une autre : celle de l’être ». De resto, K. Marx já estava no mesmo horizonte da gratuitidade, quando, estribado nos Sujeitos, e não nos objectos, estabelecia o mote: ‘De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades’! Nas suas horas mais felizes, o Grande Mestre sabia resistir à tentação ciclópica moderna do Objectivo-Objectuaismo. A partir do Livro recente de José Gil: ‘Caos e Ritmo’ (edição da Relógio D’Água, 2018) Danil Tércio arquitectou uma entrevista com o Autor, in ‘JL’ (7-20.11.2018, pp.22-23), da qual vamos extrair um painel apropriado das suas teses em destaque na entrevista: ‒ “A primeira parte [do Livro] é sobre a magia, a segunda sobre a razão. Mas é uma magia pensada pela razão, e uma razão em que vamos encontrar uma série de mecanismos da magia” (ibi, p.22). ‒ “A natureza tem, portanto, máquinas técnicas que, ao mesmo tempo, ultrapassam a causalidade científica. São portanto máquinas que poderemos chamar tecnomágicas. A tecnologia vai ser o futuro” (ibi, p.23). ‒ “O multiculturalismo é uma combinação de culturas, como se preservássemos a identidade de cada uma. As identidades vão estilhaçar-se e vamos pegar em bocados uns dos outros e vamos fazer disso um caldeirão mágico” (ibidem). ‒ “Que corpo sem órgãos podemos criar, para criar o novo, tanto em arte, quanto social e politicamente? Mostro que há hoje um corpo sem órgãos que é perverso e que tem a ver com os media” (ibidem). ‒ “O que acontece no populismo é que o plano de coexistência da heterogeneidade é pervertido em plano de violência e de exclusão” ((ibidem). São os caudilhos ou caciques, de um lado, e do outro, a plebe ignara. São os pastores, de um lado, e do outro, as cabeças do rebanho (humano). É o estatuto/quadro do ‘Homo Sapiens tout court’, com toda a sua violência e estupidez. 12. ‒ Ainda sobre a I.A.. Duas ou três glosas a partir do excelente Art. de Viriato Soromenho-Marques: ‘O TGV da Inteligência Artificial sem travão nem destino’ (in ‘JL’, 21.11 ‒ 4.12/2018, p.31). No simples enunciado, reinam aí várias confusões, que o Autor denuncia (algumas delas). Reparemos que, em todo o discurso de V.S.-M. im-pera também a heresia moderna, que o C.E.H.C. designa por Objectivo-Objectualismo. Na janela do Art. foi escrito o resumo do texto: “ ‘O caso da Inteligência Artificial atinge os mitos da neutralidade axiológica da técnica e coloca sérias sombras sobre as esperanças de uma bifurcação entre uma técnica fáustica e uma técnica prometeica’, 103


escreve o nosso colunista-filósofo e prof. catedrático de Filosofia, ambientalista, ensaísta, neste texto que serviu de base para a intervenção com que abriu o Festival de Filosofia de Abrantes, a que nos referimos em edições anteriores e de que na próxima apresentaremos um breve ‘balanço’ ”. O Prof. Viriato configura bem a questão no concernente a Autores que estão com ele e connosco, mas sempre do ponto de vista objectivo-objectualista, que é o de toda a ciência moderna/contemporânea!... “Chamo a atenção do leitor para esta raridade: quatro das personalidades mais brilhantes da vertigem tecnocientífica, em que desde a modernidade embarcámos, primeiro na Europa e agora no planeta inteiro, convergem num profundo cepticismo em relação aos perigos existenciais para a humanidade representados pelo crescimento exponencial da IA: o falecido físico Stephen Hawking, o empresário visionário, Elon Musk, o filósofo e adepto do transhumanismo, Nick Bostrom, e o historiador e autor de best-sellers, Yuval Noah Harari. Seria irónico, se não fosse trágico, verificar a coincidência destas preocupações com o teor dos oraculares murmúrios de Martin Heidegger, quando confessou à revista Der Spiegel, em entrevista publicada postumamente, em maio de 1976, que perante os riscos da técnica ‘apenas um deus nos pode salvar’ (Nur noch ein Gott kann uns retten)” (ibi). É que estamos, de algum modo, a chegar ao ‘nó górdio’ do processus da pro-dução mediante o Trabalho humano, ao longo de séculos e milénios: ao lado da evolu-ção da mais avançada Tecnologia, surgem dezenas ou centenas de milhões de desem-pregados, e em tais matérias, os especialistas nunca chamaram a terreiro os Sindicatos… o que só interessa mesmo é deixar os especialistas e os patrões das novas indústrias au-mentar e promover o Capital!... No seu último Livro, ’21 Lições para o Século XXI’, o próprio Harari já se começa a dar conta dos problemas do Desemprego massivo, ‒ o que ainda não ocorria nos dois primeiros. Diz ele, aí (cit. por V.S.-M., ibidem): “Perder o controlo sobre as nossas próprias vidas, no entanto, é um cenário muito mais assustador. Apesar do perigo do desemprego em massa, o que nos deve preocupar ainda mais é a mudança da autoridade dos humanos para os algoritmos, o que pode destruir qualquer fé remanescente na história liberal e abrir o caminho para o surgimento de ditaduras digitais”. V.S.-M. chega, pois, à conclusão de que não dispomos de meios para travar o desenvolvimento futuro da IA, muito especialmente no que tange os avanços mais funestos e existencialmente ameaçadores (ibidem). “Também aqui, no futuro da IA, prevalece o lema da Liga Hanseática, ‘navegar é preciso, viver não é necessário’ ”. Desta sorte, o nosso Autor fica-se com esta interrogação solene (ibi, pp.31-32): “Será que a essência da técnica pertence à mera categoria das utilidades, que desde o ‘homo faber’ são fabricadas para comodidade da nossa espécie? Será que, apesar da sua sofisticação, a IA poderá ser vista no quadro de uma racionalidade instrumental subordinada a uma racionalidade teleológica, que tenha como centro a dignidade humana, no sentido kantiano, de fim-em-si-própria, de fim final (Endzweck) da Natureza?”. Qual o sentido preciso desta frase: ‘A Condição Humana ‘cavalgada’ pela Completude Tecnológica?’ ‒ Esta frase ainda queima incenso à heresia moderna do 104


Objectivo-Objectualismo!... Mais: ela tem a sua origem semântica na Cultura do Poder-Dominação d’abord. Predicados essenciais do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ e de todos os Seres humanos viventes, desde há 32.000 anos, oriundos do paradigma do ‘Homem de Cro-Magnon’: ‒ A Consciência, que é uma realidade triádica: Sujeito cognoscente/Objecto do Conhecimento/Testemunha (que me diz se é verdade ou mentira o que digo…). ‒ Esta Consciência é, por definição, reflexiva e crítica (criticista). ‒ Sabe que sabe, ou seja, é detentora de um saber ao quadrado ou ao cubo, na medida em que entrou, aí, o Sujeito livre e responsável, juntamente com a Testemunha. ‒ Até ao ponto de poder afirmar, com Francisco Sanches: ‘Eu só sei que nada sei, visto que o Universo do Saber é infinito. ● No Artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos (promulgada a 10 de Dezembro de 1948: passa no próximo dia 10 de Dez. o seu 70º Aniversário), pode ler-se o enunciado que, em resumo, se pode considerar representativo do ‘Homo Sapiens//Sapiens’: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. N.B.: Segundo a Cultura (tradicional) do Poder-Dominação d’abord, a Organização e a Geometria, societárias e político-económicas, estão constituídas em hierarquias descendentes (do topo às bases) nos diversos Estados/Nações antigos e modernos. Qual é a Alternativa (para cumprir o Art. 1º da Declaração Universal)? ‒ Promover e institucionalizar a nova Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. N.B.: Qual é o cincho, a âncora dos 12 imperativos categóricos, que deixámos alinhados supra? ‒ Primado absoluto dos Sujeitos humanos Individuais-Pessoais so-bre os Objectos (as coisas e as mercadorias, aí incluídos os aparelhos tecnológicos das mais avançadas IAs).

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BALIZAS GERAIS DA BOA E JUSTA GOVERNAÇÃO

● Na Galáxia da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial: sob a bitola do Psico-Sócio-Ânthropos integral

As balizas e a gramática serão ordenadas e enquadradas, metodologicamente, no esquema de dois tipos de Cláusulas: A) Cláusulas negativas: Dado que a problemática (toda) é sempre bicéfala (há a ‘Quaestio’/Decisão do que fazer, em dado tempo e circunstância; e há o Modo de Ac-tuar maximal e melhor producente, nesse tempo e circunstância (esta é a implicada 2ª 106


Quaestio): Assim, deve avaliar-se, à partida, tanto a primeira como a segunda questões: ‒ o que não se pode fazer; ‒ como não se deve fazer. B) Cláusulas positivas: Como, necessariamente, no chamado período de transição entre as 2 Culturas (a C. do Poder-Dominação d’abord, em que ainda sobrevivemos, e a Alternativa futura da C. da Liberdade Responsável primacial e primor-dial), é preciso ter sempre presente a Quaestio metodológica: O que se deve fazer de outra maneira! O imperativo categórico, aqui, é o que junta, na mesma decisão, os dois itens referidos da alínea A). ● Mc.10,25: “Facilius est camelum per foramen acus transire, quam divitem intrare in regnum Dei.” ‘É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha, do que um rico entrar no reino de Deus’. Lc.16,13: “Nemo servus potest duobus dominis servire; aut enim unum odiet et alterum diliget; aut uni adhaerebit et alterum contemnet ; non potestis Deo servire et mamonae.” ‘Nenhum servidor pode servir a dois patrões: ou odiará um e amará o outro, ou ele se prenderá a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir Deus e o Dinheiro’. Ora, estes são dois lóguia genuinamente jesuânicos, que se encontram nos evangelhos canónicos sinópticos. Também aqui se pode vislumbrar o postulado clássico de que a Democracia, vera e autêntica, é absolutamente incompatível com o Sistema capitalista. Quanto à exclusão, no discurso de Jesus, do Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo, é fácil adivinhá-la, se tivermos em conta uma boa hermenêutica de dois vocábulos: Deus e Céu. É que outros evangelistas, em lugar de Reino de Deus, escreveram Reino do Céu. Tudo se passa no universo dos Humanos viventes e na organização mais aperfeiçoada das Sociedades humanas. Deus, aqui, não é o Deus extrín-seco e transcendente ao Universo, pode muito bem ser o ‘intimior intimo meo’ de Aurélio Agostinho, ou a ‘Testemunha’ como 3ª parte da Consciência Individual-Pessoal dos Seres Humanos qua tais, como nós entendemos no C.E.H.C.. Céu, etimologica-mente, deriva de Kohl, no Sânscrito, e passou para o Latim: ‘coelum’, com o significado do Tâlamo nupcial. Do Latim procede a palavra céu, em Português. ● A democracia liberal, em que vivemos, é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada e leiloada (José Saramago e Editorial da Rev. ‘Seara Nova’, Outono de 2018, p.1). Decisivamente, entrou no seu universo ‘o ovo da serpente’. Ela deixou de ser há muito o que deveria ser, segundo os melhores tratados teóricos: ‘Governo do Povo, pelo Povo e para o Povo’. Segundo o axioma moderno: ‘Omnis Potestas a Populo’! Escreve, com sensatez e acribia, o Editorial da referida Revista (p.2): “Manifestamente, o Estado nacional deixou de ser compatível com os interesses do capitalismo global. E a Comunidade Europeia, como se sabe, é, na sua essência, na actual fase da evolução da Europa, uma rede de instrumentos institucionais de articulação do capitalismo transnacional, que, com a introdução da moeda única, deu impulso decisivo em direcção ao federalismo. [A solução adequada e menos má seria a Confederação, assegurando a Autonomia e a Independência de cada Estado: veja-se o padrão na Confederação Helvética.]. 107


“E esse garrote asfixia a possibilidade de auto-determinação dos povos europeus e ‘expropria’ os poderes de soberania dos Estados, sujeitando-os aos ditames e aos interesses estratégicos do capitalismo global. “A crise dos Estados nacionais e a promiscuidade do exercício de funções públicas e privadas, nas altas instâncias do poder económico-político, acarretam inevitávelmente a crise da política e da cidadania e crise também dos direitos fundamentais, que permanecem como salvaguarda ideológica do domínio do capitalismo global ‒ meras formalidades no altar dos direitos humanos. “Por outro lado, em situação de debilidade económica, os cidadãos, perante o vazio de suas vidas e da alienação ideológica, são facilmente seduzidos por ‘salvadores’ populistas e promessas redentoras. Assim, tanto quanto se alcança, será neste quadro de referências, que não esgota a análise do Problema, que se deverá entender a emergência da extrema-direita na Europa, designadamente, na França, Alemanha, Áustria, Itália, República Checa, etc.. “A gravidade desta Questão reforça as prevenções daqueles que, preocupados com a aceleração do ‘processo de fusão da técnica e da economia’ e o rumo que o capi-talismo está a impor à Humanidade, afirmam que a mais eminente missão dos políticos preocupados com a democracia será, nos alvores do séc. XXI devolver aos Estados as suas funções de soberania e de restabelecer o primado da política sobre a economia”. ‒ Não há mesmo outra via para estabelecer e confirmar, definitivamente, o primado absoluto das Pessoas sobre as coisas, dos Sujeitos humanos sobre os objectos e mercadorias. Estamos perante os autores dos dois monstros mais conhecidos, os dois Frankensteins: o de Mary Shelley (que comemorou recentemente 200 anos) e o de Boris Karloff (aquele no romance, este no cinema). (Cf. ‘JL’, 29.8-11.9/2018, pp.6 e ss.). São, ambos, o ícone (satírico) da hubris ou desmesura, do que não se deve, sabiamente, prudencialmente, ousar!... Diz Rogério Miguel Puga, no seu artigo (ibi): “A criatura sem nome, que se apoderou do apelido do seu criador, ecoa e responde a complexas questões antropológicas e filosóficas; daí que ambos os Frankensteins funcionam como espelhos um do outro e do leitor”. Tudo começou com as novas experiências científicas modernas, a começar com a electricidade. “Essas experiências científicas ‒ escreve Rogério Miguel Puga ‒ ecoam no subtítulo do romance, na medida em que a expressão ‘Prometeu dos tempos moder-nos’ foi cunhada, em 1755, por Immanuel Kant para se referir a Benjamin Franklin e às experiências com electricidade, sobretudo para enfatizar os perigos de desafiar a Natureza, concluindo Kant, tal como o romance, que ‘o ser humano nunca poderá ser mais do que ser humano’. Aliás, o prefixo Frank(enstein) poderá remeter para Franklin. Em 1820, Percy Shelley publicava a peça Prometeu Desacorrentado. “São inúmeras as (re)leituras da obra [de Mary Shelley], e o monstro talvez metaforize os ideais (falhados) da Revolução Francesa, o sistema feudal e o esclavagismo já criticados pelos pais de Mary, William Godwin e a protofeminista Mary Wollstone-craft, podendo as acções violentas da criatura ser fruto de miséria social. Victor, o Pro-meteu moderno, transgride e ‘concebe’ um ser vivo (humano?) sem mulher assumindo os poderes de um deus, mas falhando, negligente, como ‘pai’ e cientista […]. As influ-ências 108


filosóficas, políticas e literárias dos pais de Mary são óbvias, nomeadamente as teorias sociais, a crítica cultural e a alegoria política, pois o texto questiona a confiança do Iluminismo na Ciência, e o protagonista marginalizado é fruto e vítima de ambição desmesurado” (ibi, p.7). Será que monstros como Frankenstein, em Mary Shelley, o Adamastor, em Camões, Caliban, em Shakespeare ‘farão sempre parte da nossa natureza, questionando-nos sobre o que nos torna (mais) humanos’ (idem, ibidem)’!... ‒ Não é essa a nossa vi-são e interpretação. Os monstros e toda a sorte de crenças em superstições são comportamentos típicos da sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord, e o resultado do nosso (concomitante) esquema pedagógico de aprendizagem e actuação: concorrên-cia, rivalidade, imitação (egocêntrica) dos outros… exactamente o contrário dos comportamentos e actuações do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ e da Cultura Alternativa da Liberdade Responsável primacial e primordial. Por que chegam quase sempre atrasadas as ciências ao Futuro?! V.S.-M. escreve, no nº cit do ‘JL’ um artigo criticista de tomo, sob o título: ‘Por que chegaram as ciências atrasadas ao futuro?’ (ibi, p.33). Umas vezes por traição e egoísmo dos cientistas; outras vezes, por lobbies e interesses combinados com os patrões das empresas; outras, ainda, porque as ciências perderam a sua autonomia de investigação e deixaram-se integrar nas multinacionais da produção, que os subsidiam opiparamente. Escreve, com acerto e perspicácia, o nosso Autor (ibidem): “O atraso das ciên-cias sociais e humanas em relação à crise global do ambiente e do clima é uma realidade trágica. Em muitos casos, reina uma verdadeira iliteracia em relação a conceitos bási-cos. Particularmente enervante é escutar colegas de economia, direito, ciência política ou psicologia falarem sobre as alterações climáticas, como se tal fosse assunto exclusivo para físicos, biólogos e climatologistas. Como se não fosse uma tarefa fundamental das ciências sociais e humanas contribuir para o direito, a economia, a estrutura política, e até a saúde mental em sociedades cada vez mais atingidas pelos danos do ambiente e as disfunções climáticas..." O célebre escritor irlandês, Oscar Wilde (1856-1900) tinha um aforismo prenhe de semântica artística: ‘Não é a arte que imita a vida; mas a vida que imita a arte’. O Retrato ‘tirado pelo natural’ teve a sua justificação na época do Renascimento, como iniciação a uma escola de Arte, que procurava fazer um corte com o passado e a medievalidade. Mas, ao longo da Idade Moderna, essa experimentação renascimental não foi, em resumo, bem sucedida, pela simples razão de pretender condensar o estro artístico no simples princípio da imitatio. Era o reino do ‘Homo Sapiens tout court’ e da Cultura do Poder-Dominação d’abord. Eis por que o axioma indiciário/icónico de O.W. pode considerar-se o precursor ‘avant la lêttre’ da nova Idade Alternativa da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, configurada, par excellence, na distinção judiciosa entre Natura e Cultura. Aqui, emerge o ‘Homo Sapiens//Sapiens’ em todo o seu fulgor! Há, por vezes, na História passada das Nações, Figuras notáveis, que nos transmitem a sensação e o sentimento de personagens icónicas da futura Cultura da Liber-dade Responsável, que há-de vir: Por exemplo (em Portugal, o casal que iniciou a 2ª Di-nastia), em particular a Raínha Dona Filipa de Lencastre. Poucos dias antes de morrer, em 109


19.7.1415, numa sorte de testamento, chamou os seus filhos (que, pelas suas faça-nhas, a história nacional chamou de ‘Ínclita Geração’), para os incumbir das suas res-pectivas missões. Diz o cronista Zurara que ela mandara fazer três espadas, para o pai João I os armar cavaleiros antes da partida para Ceuta. Continua o cronista, textualmente: “fez chegar para acerca de si seus filhos, e tomou a espada maior, e disse contra o infante D. Duarte: Meu filho, porque Deus vos quis escolher, entre vossos irmãos, para serdes herdeiro destes reinos, e tivésseis o regi-mento e justiça deles, a qual vos já el-rei vosso padre vos tem cometido, conhecendo vossas virtudes e bondades, tão cumpridamente como se já fosse vossa, eu vos dou esta espada, e vos encomendo que vos seja espada de justiça, para regerdes os grandes e os pequenos destes reinos, depois que a Deus prouver que sejam em vosso poder, por fale-cimento delrei vosso padre, e vos encomendo seus povos, vos rogo que, com toda a fortaleza, sejais sempre a eles defensão, não consentindo que lhes seja feito nenhum de-saguisado, mas a todos cumprimento de direito e de justiça. E vede, filho, como digo justiça com piedade, ca a justiça que em alguma parte não é piedosa, não é chamada jus-tiça, mas crueldade. E assim vos rogo e encomendo que queirais ser com ela cavaleiro”. Depois disso, diz o cronista, que D. Duarte lhe beijou a mão e ela lhe lançou a bên-ção. (Cf. ‘O Essencial dos Reis de Portugal’, edição do ‘Expresso’ em 8 vols., Set. de 2018; vol. III, pp.31-32). Fernando Pessoa, a propósito da Rainha D. Filipa de Lencastre e da Fundação da Dinastia de Aviz, escreveu estas duas quadras impressionantes, na sua famosa ‘Mensagem’:

“Que enigma havia em teu seio Que só génios concebia? Que arcanjo teus sonhos veio Velar, maternos, um dia? Volve a nós teu rosto sério Princesa do Santo Graal, Humano ventre do Império Madrinha de Portugal!”

Ѳ Sobre o Modo como o Oceano da História é surfado!... (poema de João Barcellos, 6.12.|2018) Da Descolonização que nunca Aconteceu (ou: o umbigo luso-católico-brasileiro) “O que mais sei é que o Brasil é o que é pela 110


Descolonização que deixaram de fazer… Da medieval Monarquia luso-católica o império brasileiro bebeu a essência do Poder em mão-beijada; e logo, a República foi à mesma fonte para gerar uma Política de liberdades com ‘o rei na barriga’ ‒ i.e., a ‘liberdade’ assistida no chicote económico das velhas elites. E eu soube disto ao ler ‘A Selva’, o livro de Ferreira de Castro e, muitos anos depois, no Brasil, ao ler ‘Regionalização: o que Não Foi Dito…!’ do filósofo Manuel Reis, acerca da problemática urbana lusa de hoje. E isto, para vos dizer que o Brasil é o Portugal de sempre: o Poder centralizado com alicerces na escravatura industrial e mediática dos tempos de ontem e de hoje. Esta anotação é uma talvez psicologia de choque…, e sim, é mesmo, porque pensar e não agir permite outros tipos de colonialismo/colonização, principalmente a dos políticos embasados na hipocrisia de um republicanismo monárquico. Que esta breve anotação sirva para elucidação e para mais leituras comparadas, pois, são precisas novas leituras para gerar novos tempos…!” (6.12.2018). N.B. Das oito colónias ou ‘províncias ultramarinas’ (como Marcelo Caetano as edulcorou na linguagem nacional…) o Brasil (esse grande ‘império’!) foi a única colónia que não passou por um processo de descolonização… e da melhor maneira possível. Quase todos os outros territórios só adquiriram a Independência, após a Revolução do 25 de Abril de 1974 (a chamada ‘revolução dos Cravos’!), depois da Luta armada e da resposta metropolitana através da ‘Guerra do Ultramar’, que durou 13 anos, e Timor Lorosae contra a tentativa de anexação pela Indonésia de Suarto. Com a Nação Metrópole, acossada pelas invasões napoleónicas (a partir de 1807…), em risco de perder a independência nacional, o rei João VI e sua Comitiva (com o apoio da Inglaterra) saíram de Lisboa, em navio, com os pertences da Coroa, em demanda do Rio de Janeiro, para fazer aí a Metrópole-capital do Reino. O estratagema foi bem sucedido. Depois da Revolução liberal, em Portugal, em 1820, tudo começou a preparar-se para a Independência do Brasil. Escreve o historiador (‘O Essencial dos Reis de Portugal, edição do ‘Expresso’, 2018, vol. 7, p.89): “A frota levantou ferro a 26 e saiu a barra com destino a Portugal. Ano e meio depois, a 7.9.1822, o príncipe D. Pedro gritava a independência brasileira nas margens do Ipiranga”. “Sem nos alongarmos sobre os acontecimentos que levaram à proclamação da independência do Brasil, há que reconhecer que a incompreensão das cortes a respeito da situação brasileira foi um estímulo. “Camaradas! As cortes de Lisboa querem mesmo escravizar o Brasil” ‒ gritou D. Pedro ‒ “cumpre, portanto, declarar já a independência. Estamos definitivamente separados de Portugal” (ibi, pp.91-92). Foi este o célebre grito do Ipiranga, dado a 7 de Setembro de 1822. “A 23 de Setembro, era votada a primeira Constituição portuguesa, promulgada ‘em nome da Santíssima e Indi111


visível Trindade’ “ (ibi, p.92). ‒ Assim, a Nação portuguesa não perdeu a sua Independência às mãos dos exércitos de Napoleão Buonaparte, e, no mesmo processus, o ‘Império brasileiro’ ganhou a sua Independência. ● Entretanto, o Pensamento liberal (o ‘ovo’ que é chocado dentro do Sistema capitalista e o alimenta continuamente…) corrompe e destrói tudo quanto encontra pela frente. O Neoliberalismo produziu duas grandes heresias de tomo: a) a péssima redistribuição da riqueza produzida: 82% da produção mundial de riqueza, em 2017, estava alocada a 1% da população mundial; b) os anteriores contratos colectivos de trabalho foram descartados, para o tipo de contrato individual de trabalho, no esquema introduzido de ‘trabalho precário’. Hoje, a ‘precarização do Emprego’ tornou-se a maior chaga sócio-económica no mundo. Escreve, com acerto e acribia Hugo Fernandes (in ‘Seara Nova’, cit., p.16): “O grande problema para estes eurocratas é que ‘os custos do despedimento individual de trabalhadores permanentes sem justa causa [sublinhado meu], são incertos para os empregadores’ [dependendo das inovações tecnológicas…], reiterando-se a necessidade de flexibilizar os procedimentos para o afastamento coercivo daqueles que ficam sujeitos à determinação das eufemísticas ‘razões económicas’ ”. Por outro lado, “há que contestar fortemente a narrativa do ‘vivermos acima das nossas possibilidades’, quando, de acordo com o relatório da organização internacional de luta contra a pobreza Oxfam de Janeiro deste ano, 82% da riqueza mundial produzida em 2017 está alocada apenas a 1% da população mundial, ou quando as oitenta maiores fortunas equivalem à riqueza da metade mais pobre da população mundial” (idem, ibidem). Citando texto de Manuel Couret Branco, escreve H.F. (ibi, p.17): “A teoria liberal justifica a propriedade enquanto direito humano, sustentando-se na sua putativa virtude emancipadora, na sua capacidade de conferir ao indivíduo liberdade e independência. A mesma teoria liberal menospreza, contudo, a sujeição do indivíduo, que a propriedade também implicaria para quem não a possui”. É a guerra sem freio nem limites entre os possidentes e donos de tudo, contra os não-possidentes e de tudo (ou quase) carenciados. Será nesta base, que se pode construir uma vera Sociedade humana?!... O Sistema capitalista nunca foi capaz de forjar uma democracia de corpo inteiro… a sua é liberal, neo-liberal… uma democracia doente e ‘pour épater le bourge-ois’!... “Em breve, há-de ser entre os que têm e os que não têm que se virá a estabelecer a luta política; o grande campo de batalha será a propriedade e as principais questões da política andarão em torno das modificações mais ou menos profundas sobre o direito de propriedade”. (Patrick Savidan, Posfácio a Crawford B. Macpherson, La Théorie politique de l’Individualisme Possessif, Paris, Gallimard, 2004, pp.540-541). Os Tratados europeus que estabeleceram os máximos de dívida pública em 60% do PIB e de 3%, no OGE, têm uma mente geométrica e unicórnea, visto que, por um lado nem os maiores países da zona euro cumprem o regulado; por outro lado, consideram todos os Estados envolvidos, em pé de igualdade, quando isto é um absurdo: são historicamente diferentes os seus níveis de desenvolvimento… e são teórica e matematicamente considerados e assumidos como iguais!... 112


● A Economia política lida com os Seres humanos, livres e responsáveis, e, ao mesmo tempo, com o seu habitat, a Terra, a Natureza-Mãe. Fora com a noção redutora da Ecologia, que a reduziu a uma ciência auxiliar da biologia. “Pelo contrário, a ‘economia geral da natureza’, de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) expressa o entrosamento íntimo e a acção recíproca de todos os entes, fluxos, e processos constitutivos da ‘imensa cadeia do universo’ ” (V. Soromenho-Marques, in ‘JL’, 10-23/10/2018, p.30). Quem cunhou, o vocábulo Ecologia e sua semântica integral foi o cientista e sábio alemão Ernst Haeckel, em 1866; formulou-a do modo seguinte (cit. ibidem): “ ‘Por ecologia entendemos a ciência completa das relações do organismo com o mundo externo circundante, onde, num sentido mais amplo, podemos incluir todas as ‘condições existenciais’. ‘Estas são parcialmente de natureza orgânica e parcialmente inorgânica’ ”. Andrada e Silva, no mundo lusófono, foi, sem dúvida, o pioneiro de uma ecologia integral, como diz muito bem V.S.-M. (ibi). E cita um passo vigoroso e fulgurante do texto do mestre: “ ‘Nossos montes e encostas vão-se escalvando diariamente. E com o andar do tempo, faltarão as chuvas fecundantes, que favoreçam a vegetação e alimentem nossas fontes e rios, sem o que o nosso bello Brasil, em menos de dois séculos, ficará reduzido aos páramos e desertos áridos da Lybia. Virá então esse dia (dia terrível e fatal), em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos’ ” (ibidem). Prossegue, agora, V.S.-M: “Numa época como a nossa, em que assistimos ao crescer da ameaça ontológica global das alterações climáticas ou, a nível regional, verificamos como a própria existência da grande floresta amazónica está posta em risco, estas palavras de Andrada e Silva não podem deixar de ser um indício profeticamente sombrio do seu génio” (ibidem). “Nietzsche, Emerson e Thoreau comungam da tese de que o pensar na plenitude silenciosa e mágica da paisagem natural nos conduz a uma nova perspectiva sobre nós próprios” (V. Soromenho-Marques, in ‘JL’, 5-18/10/2018, p.29). Escreveu Emerson (Ralph Waldo: ‘Nature and Other Writings’, edit. by Peter Turner, Boston & London, Shambhala, 1994, p.400-401): “A natureza é a encarnação de um pensamento, que regressa ao pensamento, de novo, do mesmo modo que o gelo se transforma em água e gás. O mundo é a precipitação da mente, e a sua essência volátil está permanentemente a escapar-se, uma e outra vez, para o estado de pensamento livre. Daqui deriva a virtude e pungência da influência sobre a mente dos objectos naturais, sejam inorgânicos ou orgânicos. O homem aprisionado, o homem cristalizado, o homem vegetativo fala com o homem em pessoa”. Foi a heresia do Objectivo-Objectualismo que, no Ocidente, nas diversas áreas científicas, levou ao cisma do mais variegado leque de especialismos, acabando por estabelecer e cavar a rotura entre Natureza e Cultura. O Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo reforçaram esse dique!... O que, em contrapartida, devíamos percepcionar é “a eclosão de uma dimensão espiritual de comunhão e unidade, incapaz de ser reduzida à esfera do quantitativo e do formal” (V.S.-M., ibidem). Com alguma ironia, escreve o nosso Autor (ibidem): “Apetece dizer que as máquinas estão a ficar inteligentes, na proporção directa da estupidez dos indivíduos”. 113


● Porquê e como surgiu, precisamente nas últimas três décadas, o chamado Neoliberalismo capitalista globalizado?!... Como não emergiu a esperada Alternativa de um Mundo Novo e Melhor, o que a marcha da História nos trouxe foi o encalacrar da concorrência e do Egoísmo e da Rivalidade e violência. O ‘Homo Sapiens tout court’ e a Cultura da Dominação d’abord. A partir de Marx e do Marxismo, em meados do séc. XIX, o dogma que vigorou entre os Trabalhadores, para avaliar o preço da ‘força de trabalho’, eram os chamados ‘contratos colectivos’, diferenciados segundo as tarefas profissionais, mas, aí mesmo, colectivos. Hoje, o que predomina é o emprego precário (v.g., os estivadores do Porto de Setúbal, englobam 1/3 de permanentes, e 2/3 de precários; ‒ o que não acontece em outros países da U.E.. A bandeira, que se agitou, para conduzir a uma tal situação foi a famigerada fórmula da Economia do Conhecimento. É óbvio que uma tal bandeira não quer saber dos Trabalhadores/Pessoas. Quei-ma incenso à heresia do Objectivo-Objectualismo; e o resultado é o aumento crescente dos desempregados. Este esquema de actuação e decisões só favorece os patrões, os ricos que enriquecem cada vez mais. Os anteriores contratos colectivos (segundo as justas advertências do Marxismo) constituíam a única salvaguarda dos Trabalhadores enquanto Pessoas. Assim, sempre que houver actualização tecnológica, numa dada em-presa, é obrigatório ouvir as assembleias dos Trabalhadores e os seus Sindicatos. Luís Mira Amaral publicou, recentemente, o livro ‘Gestão para Engenheiros’ (ed. da Nomics). Foi aluno do Prof. Paul Romer sobre a temática Teoria do Cresci-mento Endógeno, baseado no factor do Conhecimento, na Graduate School of Business da Univ. de Stanford. Na tentativa da divulgação da Teoria do Mestre norte-americano, L.M.A. escreveu (in ‘Exp.’, 2º Cad., 8.12.2018, p.37): “Romer, com a sua Teoria, incor-porou o conhecimento como variável explicativa (endógena) do crescimento económi-co, passando o conhecimento a ser um novo e virtuoso factor de produção, a par do ca-pital e do trabalho. Chegamos, assim, à chamada Economia do Conhecimento. O cresci-mento pode ter rendimentos marginais crescentes, gerando-se, assim, círculos virtuosos de crescimento nas empresas e regiões, que conseguem criar e gerir o conhecimento”. Ora, esta solução (parecendo boa…) é perniciosa, na medida em que reduz, automaticamente, no próprio processo de produção, os desempregados, que não se acham aptos ou disponíveis. Os novos conhecimentos deveriam ser adquiridos em outro local, v.g. no Sistema Educativo (13º ano, na formação profissional). Tal solução, ainda que repartida em 3 partes, não altera: a) a dualidade marxista entre patrões capitalistas e operários explorados; b) nem implica a diminuta autonomia do Sistema Educativo, que deveria ensinar essas matérias na sua sede própria. Todas as novidades científicas que o Conhecimento nos pode e deve aportar devem passar pelo S.E. e pelos seus ramos práticos e profissionais. Só desta sorte é possível: a) implementar e promover a boa fé nos diferentes patamares sociais; b) evitar os sequestros (por vezes engendrados pelas pequenas empresas start-ups, na mira do aumento crescente dos lucros…). Ao estruturar o Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo, o Ocidente caiu na heresia fundamental do Objectivo-Objectualismo. Quer isto dizer que os cien114


tistas, se meteu cada um na sua especialização, cultivando à outrance o especialismo, e deixando o mundo a conhecer tudo desfeito en miettes. Ainda se o caminho e as tendências fossem ao contrário… no sentido da cooperação inter pares: outro galo cantaria!...

● Que é uma Guerra Justa?! Sem equidade das duas partes, adversárias, não pode haver guerra justa. A equidade tem a sua raiz na beleza (quanto possível… a guerra de Tróia não esqueceu isso). Não pode haver guerra justa se ela é levada a cabo por vingança!... Agostinho e Tomás d’Aquino foram quem melhor escreveu sobre o fenómeno da guerra, no Ocidente. Mas, apesar de tudo, eles não conseguiram cavar suficientemente a distância do horizonte, em que ainda estamos embrenhados: a Cultura do Poder-Dominação d’abord. O artigo que vamos citar é de Gabriel Galice e tem por título: Qu’est-ce qu’une guerre juste? Começa assim: “Interventions militaires, violation du droit des peuples à disposer d’eux-mêmes : les infractions récurrentes du droit international s’appuient souvent sur la notion de guerre juste et invoquent la légitimité d’une action militaire par op-position à sa légalité. Um exemple parmi bien d’autres : les bombardements effectués par les ÉtatsUnis, le Royaume-Uni et la France en Syrie, le 14 avril 2018, qui violaient l’interdiction du recours à la force définie par la Charte des Nations unies ». (Cf. ‘Le M.D.’, Août 2018, p.26). Em contraponto, sobre a situação ainda na Síria, M. Ammar Bagdache, secretáriageral do Partido comunista sírio estabelece: “En Syrie, à la différence de l’Irak et de la Libye, il y a toujours eu une forte alliance nationale (…). La Syrie n’aurait pas pu résister en comptant seulement sur l’armée. Elle a pu résister parce qu’elle a su compter sur une base populaire ” (ibidem). O cristão coronel François-Régis Légier (apoiado em Agostinho, T. d’Aquino, Vladimir Soloviev, Albert Camus e Henri Hude) “a le mérite de récuser les ‘illégitimes théories du droit d’ingérence’, ‘les illusions de la guerre contre le terrorisme, et l’interventionisme occidental sous l’influence américaine’ ” (ibidem). Quase sempre sob o lábaro da NATO. “Dans son poème La Rose et le Réséda (1943) Louis Aragon proposait jadis une vision plus large de la défense de la patrie : ‘Celui qui croyait au ciel/Celui qui n’y croyait pas/tous deux adoraient la belle Prisonnière des soldats’ » (ibidem). ‒ Tudo no horizonte da Cultura do Poder-Dominação d’abord. O médico psiquiatra da Univ. da Virgínia Ian Stevenson (1918-2007) à união corpo-alma chama ‘psychofore’, com o fito de não carrear, indevidamente, o eco e o horizonte das religiões institucionalizadas. ● Sobre o género literário ‘ENSAIO’. Michel de Montaigne (1533-1592) é considerado, na França e internacionalmente, o grande inventor da forma Ensaio, em Literatura. Nessa escrita, intervem, simultaneamente, os dados objectivos observados e os sentimentos e emoções da dimen115


são do Sujeito/autor interveniente. Hoje, que tudo está mais iluminado e esclarecido, não há ensaio que não aborde a vida pública: a política, a economia, a sociologia, a psi-cologia e a psicanálise. Ele é o Observador-paradigma, capaz da clareza na frase e da utilização das palavras exactas. Nicolas Boileau (1636-1711), escritor e poeta francês caracterizou esse modo de estar na Literatura, como segue: “Ce que l’on conçoit bien s’ennonce clairement, et avant donc que d’écrire, vous apprenez à penser”. Aprender, primeiro, a pensar constitui a fórmula para, na escrita, ser claro. Outra grande vantagem que foi a dos ensaios de Montaigne: Buscando-se a si próprio, juntamente com os outros e o mundo, ele ensina e comunica admiravelmente com os outros, seus semelhantes da mesma Espécie. Assim, ele eleva toda a Sociedade com a sua escrita. Boileau e Montaigne são os dois renascentistas/humanistas franceses de maior nomeada, que enriqueceram a Língua francesa, como Lutero enriqueceu o Alemão. Os géneros literários (a sua escolha e prática) dependem, em grande parte, da natureza e índole das sociedades humanas. ‒ Hoje, o Mundo está muito mal, no concernente à Natureza e à Cultura e Sociedades. Estamos à beira da catástrofe… É, sem dúvida necessário, recuperar a paz interior e uma consciência ilustrada, recta e honesta. Mas o mundo não se muda apenas, com a alteração ambiental e a interiorização da paz. Por isso está incompleta e falha o alvo Luís Portela, no seu livro ‘Da Ciência ao Amor’ (Gradiva, 2018, p.131): “A paz interior parece ser a única alavanca capaz de soerguer a paz mundial. Esta começa em cada um de nós. A paz mundial é, afinal, uma questão individual. Atentando em alguns bonitos exemplos, poderemos concluir que não é necessária uma mudança de consciência, ou seja, uma real sintonia com a har-monia universal”. ‒ Mas o vero ‘universalismo’ só pode resultar do autêntico humani-tarismo e do correspondente Diálogo/Dialéctico entre o interior e o exterior. É esse o sentido do transcendentalismo de Emerson e Thoreau: o diálogo entre a Cultura/So-ciedade e a Natureza. George Orwell, no seu livro famoso ‘1984’ batia-se por um socialismo democrático e contra o Totalitarismo (como fez, igualmente Hannah Arendt, no seu livro homólogo, mas no género de reflexões filosóficas). No seu trabalho, ‘O Livro de um Fim’, Luciana Leiderfarb escreveu no frontispício (in ‘Exp./Rev.’, 8.12.2018, p.19): “Em 1948, na ilha escocesa de Jura, George Orwell pôs o ponto final na obra que lhe ocupou os últimos sopros de vida. E ‘1984’ nascia para marcar o mundo para sempre. Poucas obras foram tão faladas, comentadas e criticadas, recriadas, temidas e admiradas como esta. Porque poucos conseguiram dissecar o totalitarismo de um modo tão assustador e eficaz”. “Na viagem ao inferno de uma Sociedade totalitária, Orwell põe em evidência, à lupa, os infernos sub-reptícios que não necessitam de uma ditadura para vingar” (ibi, p.24). “ ‘A liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro. Admitindo-se isto, tudo o mais continua’, reflectiu Orwell, sabendo que, ‘no fim, o Partido anunciaria que dois e dois são cinco e todos teriam de acreditar. Era inevitável que o proclamasse mais cedo ou mais tarde; exigia-o a lógica da sua posição’ ” (ibi, p.25). 116


“ ‘Se permitimos que o Mundo de ‘1984’ exista’ ‒ escreveu Bertrand Russell, ‘não existirá por muito tempo’ ”. (Cit.ibi, p.30) ‒ A Democracia é um dado pertencente à natureza dos Seres Humanos, oriundos do paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. ● Sobre o Sono. O bom sono (sem pesadelos, mas com alguns sonhos positivos…) constitui uma boa metade da nossa vida!... Alguns elementos histórico-cientí-ficos sobre esta matéria delicada, e que precisa ser preparada na vida de vigília. (Cf. ‘National Geographic’, 8.2018, pp.46 e ss.). O cérebro desperto está preparado para a colheita de informação e saber. O cérebro que dorme está a solidificar o que já colheu. Os europeus dormiam ca. de 9 horas, no séc. passado; os norte-americanos ca. de 7 horas, menos duas horas do que no séc. passado. O bom sono faz muita falta para uma boa saúde e o fomento de energia vital. Esse encurtamento do período do sono é, geralmente, atribuído à nova era da proliferação de luz eléctrica. Há uma metamorfose desencadeada pelo sono. Este começou a ser estudado desde 2.300 anos a. da E.c.. Em 350 (a.E.c.), Aristóteles começou, sistematicamente, a estudar o fenómeno do sono; e em 1924, o psiquiatra alemão Hans Berger inventou o encefalograma, para poder escandir as diversas fases do sono. O sono normal processa-se em quatro estádios: 1 → 2: Uma vez caídos no sono, o cérebro continua activo a consolidar as memórias e influências colhidas durante o dia e a proceder à selecção do que interessa mesmo reter (ibi, p.50). Desta sorte, o bom so-no reforça a memória. Nos estádios 3 → 4, entra-se no sono profundo, como no estado de coma. Mas o cérebro continua o seu trabalho activo: é tempo para a restauração da guarda da casa psicológica, não propriamente para sonhar, muito embora o sonho possa existir aí. ‒ O ideal seria dormir 10 horas por dia. O sono pode ser, para nós, mais importante que o alimento: para manter um sistema de saúde imunitário. ‒ Na mitologia helénica, os deuses ‘Hypnos’ e ‘Thánatos’ (morte) são irmãos gémeos (ibi, p.66). ‒ A parte que mais fica afectada pela falta de sono é o cérebro pré-frontal, e o sector das tomadas de decisão e de resolução de problemas. ‒ REM (os movimentos rápidos dos olhos), descobertos em 1953, podem assinalar estados psicóticos, com alucinaçôes ou desilusões. O sonhar nem sempre é sinal de psicose. (Cf. ibi, p.73). ‘Não sejas um inemuri (= a dormir estando presente). ‒ “Every time we experience REM sleep, we literally go mad. Psychosis is a condition characterized by hallucinations and delusions. Dreaming, some sleep scien-tists say, is a psychotic state ‒ we fully believe that we see what is not there, and we accept that time, location, and people can morph and disappear” (ibidem).

● Socialismo Cooperativista: António Sérgio de Sousa (nome completo) O expoente máximo da Escola cooperativista do Socialismo, em Portugal, no séc. XX, foi António Sérgio (1883-1969). Foi um polígrafo de alto coturno (ensaísta, crítico, 117


pedagogo, historiador, político, sociólogo, filósofo). E a grande mensagem que dele se apoderou, ao longo da sua vida, foi a ‘Reforma da Mentalidade’ do povo por-tuguês. Teórica e praticamente, esteve sempre nos lugares das melhores decisões. (Com o advento da República (1910), ele abandonou a carreira de oficial da Marinha, para se agarrar a outros voos. Fundou a Revista da Renascensa Portuguesa, com os companhei-ros Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes e outros, primeiro, em forma de jornal, A Águia; em 1918 fundou e dirigiu a Revista Pela Grei. No concernente às reformas económicas, promoveu o Cooperativismo, como meio de realizar o Socialismo autêntico e personalizado; foi ajudado nisto com a colaboração de E. de Campos. Fundou, depois, em 1921, a Seara Nova e a Lusitânia, sendo que a 1ª representava o grupo dos ‘homens livres’, e a 2ª o ‘grupo da Biblioteca Nacional’, que, por muitos anos divulgaram a sua tese central: a ‘Reforma da Mentalidade’ do Povo Português. Sem ‘homem novo’ não haverá Regime político novo. São de destacar, na sua vasta obra, Notas sobre Antero de Quental (um dos seus ídolos), História de Portugal, Antígona, Ensaios, Educação Cívica, e acima de tudo, os Ensaios. Assinado por Jean-Arnault Dérens (jornalista e autor de livros sobre os países dos Balcãs), o ‘Le M.D.’ de Agosto de 2018, traz um artigo surpreendente sobre as fa-çanhas do movimento dos ‘Não-Alinhados’, que começaram com Tito versus Stáline, e fundaram, em Bandung, em 1955, o seu Movimento próprio e autónomo. Título do artigo: ‘Au temps de la Yougoslavie anticoloniale’ (a Irradiação de um país não-alinhado: isso mesmo já a ‘guerra fria’ havia começado). Na janela do Art., pode ler-se: “L’éclatement de la Yougoslavie a fait oublier que ce pays avait joué un rôle majeur dans les relations internationales. Au moment des grandes luttes de libération nationale, il leur apporta son appui, en particulier en Afrique. À la même époque, l’Union Soviétique se montrait plus prudente, soucieuse de ménager ses rapports avec les États-Unis et avec les anciennes puissances coloniales” (ibi, p.16). O diplomata, que encetou carreira nos inícios dos anos ’60, diz o seguinte acerca de Tito: “Tito é o nó dirigente da Liga dos comunistas da Jugoslávia [LCY]. Eles viam verdadeiramente nas lutas de libertação do ‘Terceiro mundo’, uma réplica do seu pró-prio combate, contra os ocupantes fascistas da segunda guerra mundial. Eles vibraram ao ritmo dos avanços ou dos recuos da FLN ou do Vietcong” (ibidem). O balanço dessas façanhas, a partir das reacções de Tito: “Na origem, o novo regime de Belgrado pretende-se ser, todavia, uma cópia conforme ao modelo soviético. As inovações como a introdução da autogestão socialista teorizada pelo Esloveno Ed-vard Kardeli (1910-1979) não apareciam senão progressivamente. Num mundo bipolar tetanizado pela guerra fria, o compromisso resoluto a favor da descolonização será a chave da irradiação internacional da Jugoslávia. Em parte por oportunismo: não somente Tito, isolado no seio do movimento comunista, tem necessidade de aliados e de partidários, mas ele deve também, e sobretudo, provar a validade do socialismo ‘diferente’, que experimenta o seu país” (ibidem). É claro e óbvio que os movimentos de Libertação das antigas colónias dos impérios capitalistas vinham, naturalmente, em suporte e apoio do vero Socialismo. Todos, porém, andavam enganados, ‒ segundo a tese e o veredicto do Assessor para a Econ. de J. Kennedy, John Kenneth Galbraith, autor do Livro/Revelação, no Rio de Janeiro, em 118


1962, ‘o Novo Estado Industrial’. O que estava acontecendo no movimento soviético ‘bolchevista’, não passava de capitalismo monopolista de Estado. Os caciques ou caudilhos, tipo Stálin e Hitler, se não tivessem existido não haveria a II Guerra Mundial, tal como a conhecemos, com mais de 60.000 mortos e o execrando ‘Holocausto’ de Judeus e Ciganos. Eles (e outros semelhantes…) exploram, até ao tutano os sentimentos de disciplina e adoração como se eles fossem deuses… É a fábrica, por excelência, dos populismos; dotados apenas de ‘livre arbítrio’, os elementos da plebe (ignara) clamam por deuses que os salvem!... Conduzem-se como cabeças de rebanho para o matadouro!... Quem foi o timoneiro dessa Façanha global, que foram os Descobrimentos portugueses, iniciados na era de Quinhentos, onde as pobres mas destemidas populações lusas foram os pioneiros de todo esse Odisseico Empreendimento?! Foi o Infante e Regente do Reino D. Pedro, 2º filho legítimo do Mestre de Aviz, D. João I, e da inglesa Dona Filipa de Lencastre. Em 10.12.2018, chegou-nos um e-mail do nosso muito querido Sobrinho, Director do CEMAR, com uma vasta obra já produzida e publicada, procurando ressuscitar verdades históricas (como a encomenda do Mapa de Fra Mauro, em Veneza) e destroçando as patranhas e erros debitados pela História lusa oficial em torno do Infante D. Henrique, figura cinzenta e abúlica, cujo perfil, nesta ordem de ideias malsinadas, tem sido debitado aos portugueses, ao longo de mais de cinco séculos!... O texto-chave, que desejávamos transmitir-vos, é logo o 1º parágrafo, titulado: Comunicado e Nota de Informação de 9.12.2018: “Hoje, 9.12.2018, é o dia em que se completam 626 anos do nascimento (13922018) do Infante Dom Pedro, Regente de Portugal, Duque de Coimbra e Senhor de Montemor e Buarcos, de Aveiro, Ílhavo e Sá, de Mira e de Penela, e de muitas outras terras da Beira Litoral, em Portugal (Ducado de Coimbra)… a figura mais fascinante e injustiçada da História de Portugal… (Dásir…) e que, por isso, e pelas profundas repercussões que teve para o destino português o fracasso do seu projecto modernizador (com o seu assassínio em 1449, em Alfarrobeira e, depois, o assassínio do seu neto, vingador, e herdeiro político, o ‘Príncipe Perfeito’ Rei Dom João II em 1495 em Alvor) ficou para sempre como a mais significativa e importante figura da História Portu-guesa… (séc. XII-XXI). “A figura que, pelos medíocres reinantes, sempre foi silenciada, e maldita, na secular ‘Maldição da Memória’ que ficou para sempre… uma ‘Maldição da Memória’ praticada ao mesmo tempo que, secularmente, Portugal foi sempre mais e mais sendo levado ao subdesenvolvimento, à miséria endémica, e à calamidade periódica”. Não esquecer que D. Henrique, investido por sua vontade, contra o Pai, na conquista e guerra de Fez, uma vez derrotados, os islâmicos exigiram que fosse devolvido um refém… e logo D. Henrique ofereceu o seu irmão mais novo, D. Fernando,onde veio a morrer à míngua de tudo. O chamado ‘III Mundo’, caracterizado de não alinhado, (em confronto com os dois Blocos da ‘Guerra Fria’ (capitalista e bolchevista), com as suas diferenças nítidas em relação à URSS, à China e a Cuba, não se podia confundir com esses três países: o capitalismo é colonizador por definição e natureza. Isto era o que se sabia, em Bandung 119


(Índia), em 1955, movimento fundado sob os auspícios de Josip Broz de Tito (18921980). Ora, em 1962, foi editado pela ‘Civilização Brasileira’, no Rio de Janeiro, um Livro de J.K. Galbraith, com o título ‘O Novo Estado Industrial’. Aí se mostra o erro em que se caiu: O que ocorria na URSS e na China não passava de ‘capitalismo monopolista de Estado’: (a outra face escondida do Sistema capitalista). A partir deste Livro foi o Despertar crítico, o Eureka necessário. No art. de V. Soromenho-Marques (in ‘JL’, 21.11 ‒ 4.12/2018, p.31) escrevia V.S.-M.: “Chamo a atenção do leitor para esta raridade: quatro das personalidades mais brilhantes da vertigem tecnocientífica, em que desde a modernidade embarcámos, primeiro na Europa e agora no planeta inteiro, convergem num profundo cepticismo em relação aos perigos existenciais para a humanidade representados pelo crescimento exponencial da IA: o falecido físico Stephen Hawking, o empresário visionário Elon Musk, o filósofo e adepto do Transhumanismo, Nick Bostrom, e o historiador e autor de best sellers, Yuval Noah Harari. Seria irónico, se não fosse trágico, verificar a coincidência destas preocupações com o teor dos oraculares murmúrios de Martin Heidegger, quando confessou à Revista Der Spiegel, em entrevista publicada postumamente em maio de 1976, que perante os riscos da técnica ‘apenas um deus nos pode salvar’ (Nur noch ein Gott kann uns retten)” (ibidem). Esse Deus que nos pode salvar é a 3ª parte da nossa Consciência individual-pessoal. Contra a heresia modernaça do Objectivo-Objectualismo. É essa Consciência que funda a Subjectividade do Sujeito Livre e Responsável. “Perder o controlo sobre as nossas próprias vidas, no entanto, é um cenário muito assustador” (ibidem) ‒ “Será que a essência da técnica pertence à mera categoria das utilidades, que desde o homo faber são fabricadas para comodidade da nossa espécie? Será que, apesar da sua sofisticação, a IA poderá ser vista no quadro de uma racionalidade instrumental, subordinada a uma racionalidade teleológica, que tenha como centro a dignidade humana, no seu sentido kantiano, de fim-em-si-própria, de fim final (Endzweit) da Natureza?” (ibi, pp.31-32). A dissidência de Tito perante a URSS, diante da sua exigência de normativizar todas as construções do Socialismo em cada Nação, foi um grito com promessas de futuro, que a História oficial não registou. E colheremos todo o sabor das diferenças se tivermos em conta a primeira dissensão de Trotzsky em confronto com Lénine. O 1º respeitava o quadro das Pátrias e das Nações, apostava na singularidade individual-pessoal de cada Ser humano; não se passava o mesmo com o segundo!... Havia, por certo, muito a aprender com os Movimentos de Libertação de todas as ex-colónias. Isso já era património do Socialismo… Esquema em três actos: 1º centro polarizador (os Chefes mais sábios e responsáveis) com a sua experiência no quadro da Pátria-Nação novel a emergir; 2º Planos nacionais de Libertação, promovendo sempre a Liberdade Responsável (o livre arbítrio é uma farsa…); 3º Cooperativas socialistas (segundo o padrão das de António Sérgio). Ora este simples esquema mostra bem a analogia e a sintonização com o Movimento titista. Foi uma pena enorme a História passada, recentemente, não haver todo o cuidado de valorizar todo este espólio!... Poderá, até, dizer-se que a pós-contemporaneidade começou, precisamente, aí: em Bandung, 1955, com os dois Movimentos considerados gémeos, apesar das diferenças. Não esquecer que Tito, como Chefe respeitado do Grupo, já se havia adestrado neste modus vivendi et 120


faciendi, quando, em 1948, se rebelou contra as posições despóticas de Stáline. Ele considerava o que se estava a passar na Rússia, como uma herança delapidada. Vem tudo isto a propósito de mostrar que todo este Questionário é mais com-plexo do que parece. Por exemplo, ‘o anti-colonialismo e o anti-fascismo (cujos objec-tivos centrais são os de patentear a Verdade (indiscutível) da DEMOCRACIA) fazem parte dessa herança jugoslava/titista, que todos os países sucessivos procuram esquecer hoje’. Isto foi dito pela comissária Ana Sladojevia, na exposição ‘Tito en Afrique’, que teve lugar no Museu de História da Jugoslavia, em Belgrado, no verão de 2017. ‘A Liberdade que, efectivamente, tem de ser dada ao Povo é a Cultura’ ‒ disse Miguel de Unamuno. E a Reflexão de Madeleine Albright, em entrevista (in ‘Exp./ /Rev.’, 13.10.2018, pp.22-23) leva-nos a meditar duas vezes: ‘O Fascismo cresce onde as pessoas são convencidas de que toda a gente mente’. Tudo começa pelas ‘maiorias si-lenciosas’. Por isso, o que é mister postular é uma Democracia participada; uma Cultu-ra do Regime de Direito Democrático, ao quadrado. Neste contexto, as hipóteses reais de que há pessoas que não mentem, é completamente descartada. De contrário, só se confia no Poder estabelecido e em quem o detiver, com as maiores margens de volubi-lidade nunca vistas…

A MATRIZ DO PSICO-SÓCIO-ÂNTHROPOS

N.B.: Essa Matriz procede do estatuto/gramática do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (oriundo do padrão do ‘Homem de CroMagnon’, duplamente sábio). Essa Matriz constitui o cincho fundador da Autonomia/Independência identitária das Sociedades Humanas do-tadas de uma boa e justa Governação. Tudo, aí, passa pela Consciência Crítica, uma vez que tais Seres Humanos sabem que sabem. Assim, de acordo com a gramática do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ não existe Liberdade verdadeira sem a sua base, ancorada na Igualdade social humana.

Direitos civis e políticos; direitos sociais e económicos; direitos pessoais e culturais, ‒ todos os direitos humanos são indivisíveis, muito embora tenham sido escandidos, formulados e estabelecidos, ao longo dos tempos e das épocas. Kumi Naidoo 121


(Secretário Geral da Amnistia Internacional) escreveu (in ‘Le M.D.’, Dez. de 2018, p.1 e pp.10-11) um bom art. sobre o tema: ‘Indivisibles Droits Humains’ (à cabeça), e como título, bem certo e apropriado: ‘Pas de Liberté sans Égalité’! Esta é uma frase axiomática, cuja evidência decorre da simples leitura atenta. Os ricos e os hipócritas gritarão logo que ela é errada… O mesmo dirão os que não concebem as sociedades humanas sem as respectivas hierarquias substantivas!... Não obstante, ela está certa. E é da equação entre as duas palavras que decorre a 3ª: a Fraternidade vera (o tríptico da inicial Rev. Franc.!) é, igualmente, nesse esquema triádico que emerge o postulado da Liberdade Responsável: Eu perante o Tu, e vice-versa; Nós perante Vós, e vice-versa. Os liberais ‒ como é sabido ‒ prezam de tal modo o Ter como primacial e primordial, que logo estabelecem as tais hierarquias substantivas; os que são verdadeiramente livres honram o Ser, acima do Ter, e a sua conclusão é logo a de amar e ajudar o próximo como a si mesmo. Na janela do art., que funciona como um resumo, pode ler-se: “En adoptant la Déclaration universelle des droits de l’homme, le 10 décembre 1948, les membres des Nations unies s’accordaient pour la première fois sur des principes permettant aux êtres humains de vivre dans la liberté, l’égalité et la dignité. Si de nombreux progrès ont été accomplis depuis, l’explosion des inégalités et l’emballement sécuritaire des États menacent les droits tant politiques qu’économiques et sociaux ‒ d’autant plus fragiles qu’ils sont envisagé séparément » (p.1). 70 anos decorridos sobre a proclamação, pelas Nações unidas em Paris, dessa Declaração universal dos Direitos humanos, o saldo global parece mais negativo que positivo: continua a intolerância, o racismo e os ódios, as guerras e os conflitos regio-nais prosseguem. A IIª G.M. parece não ter ensinado nada… a tal ponto que as grandes potências continuam a sua corrida aos armamentos, cada vez mais sofisticados. “L’article 2 de la Déclaration universelle énonce que les droits qu’elle proclame appartiennent à chacun d’entre nous, que nous soyons riche ou pauvre, quels que soient notre sexe ou la couleur de notre peau, le pays où nous vivons, la langue que nous parlons, nos opinions ou nos croyances. Loin de s’être traduit dans les faits, cet universalisme, qui soustend tous les droits de la personne, subi aujourd’hui des attaques violentes » (idem, ibidem). ‒ Quão longo e duro tem sido o caminho para a conquista da Dignidade Humana!!!... Na janela do mesmo artigo, pode ler-se: “Quelles libertés fondamentales les États membres des Nations unies se sont-ils engagés à défendre ? La lecture de la Dé-claration universelle des droits de l’homme, adoptée le 10 décembre 1948, donne le ver-tige : ele garantit à peu près tous les droits politique et sociaux. Mais avec quels moy-ens ? Aboutissement d’un long combat, la Déclaration demeurs un efficace outil de pro-grès » (idem, ibi, p.10). Batendo na mesma tecla central, o nosso Autor escreve um 2º art. com o título: ‘Pas de Liberté politique sans égalité sociale’ (ibi, pp.10-11). “Se as múltiplas razões, que têm contribuído para um tal estado de coisas são complexas, uma coisa, porém, é segura: o que está em causa, é, em parte, a nossa incapacidade em considerar os direitos humanos como um conjunto indivisível de direitos intrinsecamente ligados e aplicados a todos. A Declaração universal não separava os direitos cívicos dos direitos 122


culturais, económicos, políticos e sociais. Ela não estabelecia distinção entre a necessidade de concretizar o direito à alimentação e o de assegurar a liberdade de expressão. Ela reconhecia já o que nós admitimos correntemente hoje: os dois estão intrinseca-mente ligados” (idem, ibi, p.10). O jornalista saudita, Jamal Khashoggi (morto/esquartejado sob o mando da corte real da A.S.) sabia muito bem que os Direitos Humanos são indivisíveis; escrevia ele (cit. ibi, p.11): “ ‘Nós sofremos da pobreza, da incúria política e de uma má educação. A criação de um fórum internacional, independente dos governos nacionalistas que semeiam o ódio, permitiria aos cidadãos ordinários do mundo árabe encontrar soluções para os problemas estruturais da sua sociedade’. Khashoggi tinha compreendido perfeitamente por que razão os direitos humanos formam um todo. A liberdade de expressão é essencial, porque ela nos permite reivindicar os outros direitos, mas ela não basta. É por isso que o povo egípcio escandia: ‘Pão, Liberdade e Justiça social!’, aquando da ‘primavera árabe’, em 1911. O que nós nem sempre conseguimos agarrar, os manifestantes da Praça Tahrir, no Cairo, haviam-no compreendido dolorosamente há sete anos: os direitos humanos, é tudo ou nada. Ou nós podemos exercê-los todos, ou não teremos nada!...” (idem, ibidem). Sobre a vocação das Nações Unidas (O.N.U.), pode encontrar-se, na p.11, no enquadramento rectangular à dta.: o preâmbulo e a lista dos diferentes órgãos. O articulista resume o Preâmbulo, como segue (ibidem): “O preâmbulo refere-se aos princípios fundamentais da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU): o ‘reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana’, ‘a igualdade das mulhe-res e dos homens, bem como o engajamento dos países membros em assegurar a efecti-vidade dos direitos. Seguem trinta artigos, o 1º dos quais proclama: ‘Todos os seres hu-manos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos’. Quanto às greves monumentais dos ‘coletes amarelos’, em França (Dez. 2018), elas envolvem muitas motivações, além dos aumentos do imposto sobre o carburante. Designadamente, as classes populares que são sempre prejudicadas; os automóveis particulares ‒ as suas empresas produtoras (multinacionais) estão bem protegidas: podem passar a propriedade de pais a filhos sem pagar impostos… Em detrimento dos transportes colectivos, que escasseiam cada vez mais. É de questionar se é preciso preservar o ambiente ou asfixiar os automobilistas!... (Cf. ibi, p.22). Onde está a Justiça social e a Equidade entre as classes sociais. Na esteira do ensinado por Platão, as multinacionais, para além dos 400 elementos, deveriam ser destroçadas… Enquanto não acontecer isso, os impostos às multinacionais deveriam ser aplicados por unidade industrial, e no país de origem elas deveriam ser tributadas às escalas das respectivas vendas globais. Na Rev. ‘National Geographic’ de Dec. 2018 (pp.120-121), há uma composição, na paisagem, em acabamento de construção de três monumentais cabeças ‘coroadas’ de três índios nativos (dos USA). O título em unciais diz o seguinte: OUR WORLD, BUT NOT OUR WORLDVIEW: Em texto de tamanho menor, pode ler-se: ‘For indigenous people, everything from the word ‘America’ to the insulting ways na-tive symbols are used is a reminder of how those of European ancestry nearly killed a culture ‒ and still misrepresent it’. ‒ Sabemos o que é o ‘pecado’ do genocídio (v.g., o do povo arménio…). Por analogia, deveríamos saber o que é o ‘pecado’ do ‘linguocí-dio’: o 123


processo de matança global de uma língua natural/viva, ‘apud quem est ratio et jus loquendi’ (como dizia o escritor latino Terêncio Varrão). Dir-se-ia que não reconhe-cer as tribos e os povos nativos/indígenas é um processo ainda pior que a própria colonização. O que, aí, vigora, hegemonicamente, é a axiomática do Ter e não a do Ser (o Mitsein de M. Heidegger).

● Cibernética//Robótica. (Palavras apropriadas, para designar a Engenharia tecnológica dos Aparelhos automáticos; não, de modo algum, a I.A. (a chamada ‘Inteligência Artificial’… É que tal coisa só pode ser, assim referida, de modo metafórico e abusivo!...). O Aparelho Humano do Conhecimento (natural) é de ordem triádica: ‒ Sujeito cognoscente; ‒ Objecto conhecido; ‒ Testemunha (da verdade ou falsidade conhecida como tal). Se há uma vera divindade, o seu lugar é no sítio da nossa Consciência que ela habita e funciona, aí, como testemunha da verdade ou falsidade do processo do Conhecimento. Apesar de tudo e na medida em que envolve, como uma tripeça, os três elementos referidos, o nosso processo do Conhecimento, segundo o paradigma oriundo do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, é unitário. Eis por que não há Consciência in actu exercito, senão na relação concreta (ainda que imaginária) entre Sujeito ↔ e Objecto (tem de haver sempre um objecto, para despertar o interesse da Consciência. Nesse paradi-gma de Humano, é a Consciência (sobre a Inteligência…) que predomina e comanda todo o processus, ‒ como já advertia Edgar Morin, em 1982, no seu Livro célebre: ‘Ci-ência com Consciência’. Aurélio Agostinho, bispo de Hipona, já intuíra indeticamente essa função da Consciência, no processo do Conhecimento Humano, ao fazer referência, nas suas ‘Confissões’ ao que ele chamava ‘o intimior intimo meo’. Eis por que a minha cate-quista, nas aulas de catequese (aos meus sete anos!...) não se esquecia de nos lembrar: ‘há um pecado que ninguém pode perdoar… a não ser o próprio: o pecado de contrariar o que nos diz a Consciência, o que ela chamava, com alguma propriedade, ‘pecado contra o Espírito Santo’. Quanto precisam as Sociedades humanas de uma Nova Espiritualidade, capaz de agir e funcionar como um vero Condomínio que é toda a Terra! Will Steffen (líder mundial na Investigação das Alterações Climáticas) procla-ma, com justeza: ‘É preciso um compromisso político para mudar a sociedade nos pró-ximos 20 a 30 anos’. (In ‘Expresso’, 22.9.2018, p.23). “O problema é que temos um sistema económico liberal, baseado no crescimento constante da produção e no consu-mo de massas. E os grandes países beneficiam muito com este sistema. Têm de ser to-madas decisões políticas, e as mudanças sociais e económicas têm de acontecer” (idem, ibidem). Identificação da Consciência in actu exercito: A) No plano da Lógica: com a máxima intensidade nos dois juízos/premissas do Silogismo; ‒ com intensidade média na elaboração e conclusão do Silogismo; com intensidade mínima, na formação do conceito. B) No plano da Heurística: ‒ com maior intensidade na selecção dos Textos recolhidos com dada finalidade; ‒ com intensidade mediana, no estudo desses textos e na 124


elaboração da obra. C) No que tange os sentimentos e emoções: intensidade forte, na Alegria e na Tristeza; intensidade mediana, no curso da vida quotidiana.

● Depois do tipo do ‘Homo Faber’, a Evolução não parou: fez emergir o ‘Homo Sapiens tout court’ (que separou em duas partes o mundo do Poder/Autoridade e o mundo do simples ‘livre arbítrio, numa sociedade necessariamente verticalista e hierárquica); e, a seguir, emergiu o ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (o que sabe que sabe, e, por isso, unificou aqueles dois mundos: estabeleceu o ideário democrática da horizontalidade e da Igualdade Social, atribuída a todos os Indivíduos/Pessoas humanos; o que, assim, ficou postulado para o Futuro, foi a Fraternidade de toda a família humana). Um axioma primordial: Quanto mais a Espécie humana evoluiu, em termos psico-sócio-antropológicos, mais ela avançou para os domínios da Cultura (o que, de modo algum, implicou o corte com a Natureza!...); e, para se desenvolver, teve de recorrer a todas as espécies de História: teve de penetrar, a fundo, nos domínios da Educação e da Instrução. Há ca. de 10 anos, pediram-me do Brasil (os militantes do C.E.H.C.) um livro sobre a Educação. O livro, de ca. de 300 pp. teve por título: ‘De Educatione et De Instructione’ (entendemos que o Latim é mais prenhe na sua dimensão semântica). Nestas matérias, para que tudo corra bem, é mister assinalar que se evolui para a confluência da Família e da Escola. Um País sem Escola pública é uma nação invertebrada, incapaz de cuidar de si próprio… No horizonte da mundividência do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, Educar não é de modo algum, uma Tecnologia; é, outrossim, uma Metodologia Antropológica. Tem, por conseguinte, razão o pedagogista (na linha do mestre Paulo Freire) José Luís Gon-çalves, no título que deu à sua Entrevista (in ‘A Página da Educação’, Verão de 2018, pp.6-15): ‘Educar não é uma Tecnologia; é uma Antropologia’. In fieri, e elaborada em diálogo criticista entre professores e alunos. (Acrescentamos nós). Do que se trata, no fundo, é de Educar os Alunos-Pessoas para servir os outros, seus semelhantes, para servir a Comunidade e a Sociedade. Estes objectivos finais são tão importantes, quanto é preciso transformar, de fond en comble, a má ética e a má mo-ral de toda uma Sociedade a caminho do Apocalipse final. Quanto às lideranças, só interessam verdadeiramente as que se empenham, leal e honestamente, no serviço dos seus semelhantes. J.L.G. fala-nos, de ciência aprendida e praticada, dessa Língua Africana, que dá pelo nome de Ubuntu e que constitui, por definição, a alavanca de Sustentação das populações que a falam. Escreve, aí (p.9), o nosso Autor: “O Ubuntu é uma filosofia de vida sul-africana e está desprovida do religioso. Tem um sentido de pertença comum, de comunidade, ou seja, como é que alguém se constrói pessoa na relação com os outros e a partir dessa relação; aliás ‘ubuntu’ significa ‘eu sou porque tu és’. É esta condição de reciprocidade, de construção de sentidos de pertença. Mas a propósito da sua pergun-ta… Eu gosto de uma corrente de pensamento, e de acção, que trabalha a questão da dádiva e do dom como paradigma, até de antropologia educacional. Vinda da obra de Marcel Mauss [Ensaio sobre a Dádiva, 1925], foi desenvolvida por um grupo de fran-ceses e, basicamente, prescreve que as pessoas se realizam na capacidade de dar e no 125


reconhecimento por esta dádiva. Esta é uma lógica antiliberal, anticapitalista, porque não é a capacidade de ter sucesso, mas a capacidade de, na doação de si ao serviço de um projecto, ou seja, na dimensão de missão-realização, as pessoas se porem ao serviço dos outros. E aqui não cabe a ideia de lucro, no sentido capitalista do termo. A ideia é que quanto mais nos damos, e isto constrói os outros, mais recebemos, porque se estabe-lece uma dívida mútua positiva, como diz Jacques Godbout [O Espírito da Dádiva, 1992]. É mesmo por esta via que o Ubuntu sul-africano é capaz de romper, definitivamente, com a consciência de vítima!... “A propósito disto, o Ubuntu trabalha cinco pilares fundamentais: autoconhecimento, resiliência, capacidade colaborativa, liderança servidora e capacidade de inovação social. São cinco pilares, que as pessoas precisam de desenvolver para deixarem de ter a noção de que são eternamente vítimas de alguma coisa” (idem, ibidem). Reflectimos e trabalhamos na óptica pedagógica e filosófica do Mestre Paulo Freire: muito especialmente, a partir dos seus dois Livros icónicos em Psico-Pedagogia: ‒ ‘Educação como Prática da Liberdade’ e ‘Pedagogia do Oprimido’: As palavras-chave em tal horizonte são: Dinâmica entre as duas partes; conscientização e dialogici-dade (à maneira do Diálogo socrático, tão esquecido nas sociedades de estruturação vertical/hierárquica); a teoria tem a sua vera origem na práxis societária. O trinómio freireano formula-se segundo esta sequência: ‘acção, reflexão, acção’. Assim, o que se pretende, numa Boa Educação, é todo um processus pessoal de consciencialização crítica rumo à Libertação societária do Indivíduo-Pessoa/Cidadão. Desta sorte, a condição docente implica, naturalmente, um sentido de missão. A condição do aluno pressupõe, por parte do prof., o seu reconhecimento panenvolvente como pessoa. Assim, “as ferramentas, as estratégias, os conteúdos não são indiferentes. Cá está a carga ideológica! [Que só se chama assim, porque, continuamos a sobreviver dentro da Cultura do Poder-Dominação d’abord.]. Quer dizer, educar não é uma tecnologia ‒ é uma antropologia, é uma ideia de pessoa, é, antes de mais, saber que pessoa eu quero educar” (idem, ibi, p.12). Porque os Seres humanos são seres situados e concretos (cada um na sua circunstância), os actos ou operações educativos desdobram-se numa dupla dimensão: pessoal (educatio) e profissional (instructio). Neste horizonte, a relação pedagógica envolve sempre duas dimensões: a competência pessoal e a competência profissional/ /técnica. Hoje em dia, tem-se generalizado uma certa atmosfera de receio nas Escolas, devido à ‘invasão inesperada’ das ‘novas tecnologias’, que são aproveitadas para tudo e mais umas botas… Isso criou, entre a classe docente, particularmente entre os seniores, um certo complexo de inferioridade. Ora, se a nova aparelhagem é útil e prática, para muitas operações e exercícios na área das ciências físico-naturais, já o mesmo não se passa nas áreas das ciências sociais e/ou humanas. Aqui, as novas tecnologias têm de saber limitar o seu âmbito de acção. Uma anotação crítica sobre a relação/confronto entre a computação na produção industrial ou comercial, dum lado, e do outro, os chamados Politécnicos (que, por definição e profissionalismo, lidam mais directamente com a indústria e o comércio). Se bem que as duas partes possam e devam colaborar, consideramos que não são boas prá-ticas a 126


confusão/mistura das duas partes: as funções exercidas, por uma parte e as exer-cidas pela outra, são diferentes: numa, é de produção que se trata; noutra é mesmo de ensino e instrução. Não consideramos que, por exemplo, a ‘profissionalização em exer-cício’, em fim de curso, esteja fora do seu campo, se houver, na fábrica, professores competentes para proceder à vigilância crítica. Concordamos, plenamente, com o nosso Autor, Prof. José Luís Gonçalves, quando se refere a uma candidatura da relação educador-educando a património imaterial da humanidade (ibi, p.14): “É uma ideia brilhante, porque esta é uma prática milenar que perpassa culturas, fronteiras, séculos. E se nos ajudar a ir fundo para perceber como esta prática milenar é fundamental para o desenvolvimento das pessoas e dos povos, teremos encontrado também a chave do futuro para a relação do educador com o educando. A busca e o aprofundamento desta relação como património imaterial é de tal maneira interessante, que pode unir os docentes, as famílias e as comunidades educativas à volta daquilo que é o mistério de ensinar e aprender, que pode ter matizes culturais diferentes, mas não deixa de ter um fundo comum, que é a relação intersubjectiva, pessoal, que educador e educando estabelecem”. O Editorial desta mesma Revista, redigido por Isabel Baptista (p.5) vai, igualmente, no mesmo sentido do enobrecimento da Docência, ao nível da UNESCO e da O.N.U.. “A Página junta-se assim a todos aqueles que consideram que é tempo de elevar a relação professor-aluno ou, num sentido mais amplo, a relação educador-educando, a Património Imaterial da Humanidade, em conformidade com os objectivos que presidem a esta distinção da UNESCO. Valorizar esta relação significa, na verdade, reconhecer a especificidade, a relevância e a dignidade das profissões educativas, perspectivando o direito universal à educação num quadro de reafirmação dos valores humanos fundamentais. Na qualidade de docente que, desde há décadas, trabalha na formação de educadores e professores, conheço bem o lugar que a relação pedagógica ocupa nas narrativas pessoais, tanto de professores como de alunos. Não por acaso, ela aparece, recorrentemente, entre as principais razões que explicam as escolhas profissionais, e, em particular, o gosto e a paixão por ensinar”. No Quadro/Resumo final do seu Artigo, J.L.G. conclui como segue: “Acto de Amor. ‘A relação pedagógica não é um negócio, não é um produto, não é uma relação de ‘toma lá, dá cá’. Como dizia Paulo Freire, é um acto de amor ‒ não uma paixão, que as paixões são equivocadas, mas um acto de amor. O amor leva, inclusivamente, a renúncias, como acontece à maioria dos professores, para estarem ao serviço de pessoas a quem ajudam a construir a própria vida e que depois desaparecem. ‘A relação educativa é, antes de mais, uma relação de dádiva, numa lógica de doação ao outro daquilo que ele precisa para evoluir, para se fazer pessoa, para se humanizar. […]. ‘A autoridade pedagógica tem legitimidade e a responsabilidade de pôr em andamento o processo educativo. Quando entra numa sala de aula, o professor tem de saber como quer conduzir aquela sessão, que objectivos quer atingir, qual a estratégia, as metodologias… […]. 127


‘Do ponto de vista pragmático, a relação pedagógica é uma relação ética, de reciprocidade, mas também de assimetria. Nós temos muito medo de entender a relação pedagógica a partir de uma assimetria de princípio, mas… Quer a gente goste quer não, a relação pedagógica é assimétrica: o professor tem responsabilidades que o estudante não tem. Mas sendo assimétrica, não é desnivelada do ponto de vista da dignidade, e aqui voltamos ao Freire: na relação educativa, todos aprendem com todos. Mas, evidentemente, também tem de ser respeitadora do caminho e do processo: quer do que o professor é capaz de fazer, quer do que ainda não é capaz de fazer: quer do que o aluno é capaz de aprender de determinada forma, quer do que não é capaz de aprender de determinada forma. ‘[…] O direito à educação corresponde ao direito de aprender, é concomitan-te’ ”. O Bio-Psico-Sócio-Ânthropos (integrado no Processo de Evolução de toda a Natureza viva), proximamente, passou, na sua Evolução, pela categoria dos Primatas, aqui, dividiram-se em duas classes: os primatas simiescos, e os primatas hominídeos, que, posteriormente, dados as surpresas das suas actuações, a ciência veio a classificar de ‘Homo Faber’; a seguir, já dotado de Inteligência superior aos seres anteriores e de capacidade de iniciativas, (uma vez descoberto o fogo), evoluiu para o padrão do ‘Homem de Neanderthal’, ou seja, o ‘Homo Sapiens tout court’. Depois, há ca. de 32.000 anos, evoluiu para o paradigma novíssimo do ‘Homem de Cro-Magnon’, do qual é oriunda toda a Humanidade vivente: Este é o ‘Homo Sapiens//Sapiens’, onde a Cultura predominou, definitivamente, sobre a Natura. Assim, a partir dos inícios das civilizações (ca. de 3.500 a.E.c.), da escrita e da História, a base da Evolução da Espécie Humana foi transformada: da Natureza e seu primado (absoluto) transitou-se para o primado (relativo) da Cultura (da Educação e do Ensino).

● O Mundo está mal… muito mal!... Em lugar da Harmonia, a Desarmonia e o Caos. Até já é perfeitamente consensual o nome de uma nova Era geológica = o Antropoceno (desde os anos ’50 do séc. XX) dado aos estragos e ruínas que os efeitos da Civilização tecnológica/capitalista tem operado sobre a própria Natureza e a Biosfera. Ora, a Lição que nos vem da África do Sul, do Ubuntu, é bem diferente, em termos semânticos: ‘Eu sou porque tu és’; ‘eu sou porque nós somos’! Ubu + nto = tornar-se pessoa! Em zulu: Ummuntu, ngumuntu, ngabantu = ‘uma pessoa é uma pessoa, por meio de outras pessoas’. Este constitui, mesmo, um aforisma geral da nossa África das origens da Humanidade. Título da reportagem, com textos de Virgílio Azevedo: ‘Condomínio TERRA’ (in ‘Exp./Rev.’, 15.9/2018, pp.56-63). Na janela: ‘Chama-se Casa Comum da Humanidade e é um projecto pioneiro de governação global dos recursos naturais do planeta ‒ liderado por Portugal. Na base está um novo sistema de contabilidade ambiental e económica que compensa quem conserva e valoriza a Natureza e penaliza quem a destrói’ (p.56). Na base do art. está o livro de Paulo Magalhães (fotógrafo profissional e licenciado em Direito): ‘Condomínio da Terra ‒ Das Alterações Climáticas a uma Nova Concepção Jurídica do Planeta’ (Edições Almedina, Coimbra, 2007). O Movimento C.C. 128


da H. tem a sede instalada na Univ. do Porto e já está a ser financiado pelo Ministério do Ambiente e pelas câmaras do Porto e Gaia. É preciso levar a sério a expressão Condomínio da Terra: ‘Uma Extraordinária Inovação’! (Ibi, p.59). “No comportamento dos Estados continuamos a agir como se ainda estivéssemos no tempo em que se pensava que a soberania nacional era um valor absoluto” (idem, ibidem). É preciso aprender a jogar com os limites cientifica-mente calculados do Planeta, mormente no tocante ao CO2 e à Biosfera. V.A. faz a escansão meticulosa dos 11 conceitos fundamentais: ‒ 1 Sistema Terrestre; ‒ 2 Limites do Planeta; ‒ 3 Espaço de Operação Segura; ‒ 4 Casa Comum; ‒ 5 Quotas planetárias; ‒ 6 Reconhecimento legal; ‒ 7 Benefícios económicos; ‒ 8 Ob-jecto intangível; ‒ 9 Condomínio da Terra; ‒ 10 Soberania nacional; ‒ 11 Governação mundial. ‒ Esta é uma pauta de itens a tomar mesmo a sério, de contrário… é o Apoca-lipse que nos espera!... Escreve, com vigor e assertividade, o nosso Autor (ibi, p.61): “O estado favorável à vida do Sistema Terrestre gerado pelos ciclos biogeofísicos é o nosso património. Fora dele, a Terra não serve como nossa Casa Comum”. O Ministro do Ambiente (João Matos Fernandes) secunda o processo nestes termos: “O Governo está a dar todo o apoio. É um projecto absolutamente disruptivo, que vai à procura de uma coisa que não existe: um modelo de governança global para um conjunto de problemas ambientais globais. Por isso vai certamente demorar um bom par de anos, até se poder afirmar se pensamos, por exemplo, que entre a Convenção do Clima da ONU (1995) e a Cimeira de Paris (2015) se passaram 20 anos até concretizarmos um compromisso firme com metas concretas. Se o mundo cumprir o Acordo de Paris, acredito que o planeta pode regenerar-se um pouco, no que diz respeito à temperatura, mas quando falamos de matérias-primas não há regeneração possível. Por isso, a Casa Comum da Humanidade é muito importante e não tenho a mais pequena dúvida de que este projecto se vai afirmar” (idem, ibi, p.62). Para isso, é preciso alterar as Regras do Jogo na Economia política. Os empresários, que respeitam as Regras, vão ter de operar ‘uma mudança de paradigma económico dominante, baseado na extracção e consumo de recursos naturais, para um novo modelo, em que a provisão de serviços ambientais deve ser a verdadeira actividade económica’. Como todos os países realizam contributos positivos e negativos, ‘só através de um sistema de contabilidade internacional, que obtenha um saldo ambiental, é possível criar condições necessárias para construir confiança e previsibilidade’, defende o investigador” (idem, ibi, p.63). E o nosso articulista conclui: “Contabilizar a Natureza intangível é a condi-ção para a nossa mudança de exploradores para curadores do Sistema Terrestre” (idem, ibidem). Will Steffen (líder mundial na Investigação das Alterações Climáticas) assevera-nos, com muita preocupação: “Poderemos precisar de séculos para reequilibrar o Sistema Terrestre” (In ‘Exp.’, 15.9/2018, 1º Cad., p.23). E o articulista Virgílio Azevedo resume a entrevista como segue: “É preciso um compromisso político, para um-dar a Sociedade nos próximos 20 a 30 anos” (ibidem). 129


ESTAMOS NA PRÉ-HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO/CULTURA DO ‘HOMO SAPIENS//SAPIENS’

• ‘Quem decide um caso sem ouvir a outra parte não pode ser considerado justo, ainda que decida com justiça’. (Lúcio Aneu Séneca ‒ 4 a.E.c. ‒ 65 d.E.c. ‒ escritor, dramaturgo, filósofo estóico, senador, questor e juiz do Império Romano).

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● Séneca é substantiva e eminentemente democrata. Por que tem razão o juiz Séneca? Porque, no juízo/julgamento, faltou o contraditório: a audição da outra parte, o Diálogo socrático. Por isso, a justiça feita foi, no máximo, uma justiça ‘puramente legal’… Fez jus apenas à ‘ordem estabelecida’. E o primado absoluto é o da Pessoa Humana, mesmo que tenha praticado delito ou crime!... Séneca é um ícone do padrão do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. O nosso Mundo contemporâneo está mal e cada vez pior… As guerras continuam; os medos e receios e a falta de Segurança multiplicam-se. Sobrevivemos entre as Forcas Caudinas das Alterações Climáticas do Planeta e os males societários potenciados ao infinito: corrupção, hipocrisia, desordem, racismos, populismos, povos que têm de pedir asilo por causa das guerras em curso, ou que são obrigados a emigrar para sobreviver!... Reina a Desorganização e a falta de Solidariedade Humana. As Desigualdades sociais compeiam: meia dúzia de multimilionários detêm metade da Riqueza produzida, restando a outra metade para o resto das populações da Terra!... O Mundo está mesmo mal… e à beira da catástrofe: porque, dum lado, estão os donos da Potestas d’abord; e do outro, a liberdade (híbrida ou falsa) reduzida, apenas, ao ‘livre arbítrio’ binarista, que não passa do pêndulo de Foucault. Os Indivíduos não chegam a personalizar-se; estão reduzidos a cabeças de rebanho (os ‘carneiros de Panúrgio’ de Molière), sempre enquadrados na sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. Os U2 e Bono querem e proclamam a necessidade imperiosa de mudar o mundo, entre bandas e canções!... Pregam a sua doutrina da forma mais subtil e soft possível… mas pensarão eles para além da chamada ‘democracia liberal do ‘Homo Sapiens tout court’, sempre infestada de contradições e abusos, onde os populismos (à falta de Educação e Instrução…) cruéis ditam a cartilha e as normas societárias?!... ‘A demonização do ‘outro’ está de volta’!... O que é potenciado é a desconfiança sobre os outros!... Só com canções não se vai lá… (Cf. ‘Exp./Rev.’, 15.9.2018, pp.51 e ss.). ‘Love and Love is all we have left’!. ‒ canta Bono (ibi, p.56). ‘No Ocidente, até há pouco, conheceu-se uma trajectória em direcção à justiça, e à igualdade para todos’ (Bono, ibi, p.59). Mas os tempos e as idades mudam, e os cidadãos deixaram de ter mão neles!... Os populismos (ou seja, a ‘cultura da sargeta, do diz que disse’) têm aumen-tado exponencialmente. São muito poucos os que pensam por cabeça própria!... Entre-tanto, é igualmente conhecida a frase axiomática de Martin Luther King: ‘O arco do universo moral é longo, mas inclina-se na direcção da justiça’ (cf. ibi, p.59). E é em tom de lamento, que Bono confessa: ‘No Ocidente, até há pouco, conheceu-se uma trajectória em direcção à justiça e à igualdade para todos’, (ibi-dem). “Os direitos humanos que estão a ser queimados, as vidas que estão a ser destruídas no estado de Rakhine são mais importantes do que uma unidade sem elas” (idem, p.61). E, quanto à governação péssima da Birmânia, diz Bono: “Sinto-me agoniado com Aung-San Sun Kyi, porque me custa acreditar naquilo. Mas há limpeza étnica. E ela tem de sair, pois sabe o que está a acontecer” (ibidem). A doutrina do Capitalismo puro e duro está a chegar ao fim… Temos, urgentemente, de saber articular a Economia à Ética e à 131


Filosofia Política, como fez Amartya Sen, no seu último livro ‘Escolha Co-lectiva e Bem-Estar Social’ (Almedina, 2018). O ‘Prémio Nobel’ de 1998 sabe muito bem que a boa e justa governação deve estruturar-se sobre os planos da Igualdade so-cial e não sobre os esquemas verticalistas e piramidais das sociedades capitalistas. Nessa mesma entrevista, diz ainda Bono: “A França e o Reino Unido são Nações/Estados reais; a América (foi escrito na ‘American Soul’/constitui um sonho que pertence ao Mundo inteiro” (ibi, p.60). Dir-se-ia, porque foi, no seu processo sócio-histórico, uma Natio constituída por ‘romeiros’/pessoas: o ser antes do ter!... “A América é a maior ideia que o mundo jamais teve, e isto [populismo e Trump] é, potencialmente, a pior ideia que jamais lhe aconteceu” (idem, ibidem). O Prof. e historiador de Hitler, o alemão Kershaw Herzlich, escreveu dois Livros de tomo com os títulos: ‘À Beira do Abismo: A Europa, 1914-1948’, e ‘Continente Dividido’: A Europa, 1950-2017’. (Cf. Entrevista in ‘Exp.Rev.’, 22.9.2018, pp.55 e ss.). Aí, escreveu ele: “Os grandes primatas sempre dominaram os ambientes e a democracia não é o habitat natural do homo sapiens [Perdeu-se o Esquema real da evolução do Ân-thropos do Sapiens tout court para o Sapiens//Sapiens]. A democracia é uma concepção notável, que depende de uma Imprensa eficaz [Cultura substantiva]. Portanto, as fake news não são uma falsa ameaça. Há um Presidente pós-verdade a dirigir um país pós--verdade. O que nos faz gelar não é o grande primata ser bastante esperto, que é clara-mente, mas ser muito esperto e difícil de ler. O que devia ser fácil de ler são as lições que a esquerda e a direita têm de aprender sobre o modo como este absurdo aconteceu. Não devia ser necessária uma estrela de reality TV para ler os apupos e os assobios de gente descontente, pronta a apostar no que não é habitual. Temos de perceber melhor de onde vêm essa raiva e esse sentido de deslocamento”. Ora, um tal processus é fácil de ler e perscrutar: os diferentes populismos, que estão a atingir o Velho Continente (depois de se terem difundido everywhere) são absolutamente incompatíveis com as tradicionais democracias liberais, que o Sistema capitalista nos ensinou... Mais: a vera e autêntica Democracia é estruturalmente contraditória com tais populismos, como água e azeite não se misturam. Eis por que, também a própria globalização em curso padece das mesmas maleitas das chamadas ‘democracias liberais’, ditadas pelo Capitalismo!... Diz o nosso Autor, alemão, também ele meio-enganado (ibi, p.60): “A própria criação da União Europeia foi, em si, o resultado consciente de lições políticas e económicas retiradas das circunstâncias de divisão, de inimizade e de hostilidade, para não deixar que aquelas circunstâncias voltassem alguma vez a ocorrer”. ‒ Mas a solução da U.E. foi mal e pessimamente concebida e estruturada: Quer do ponto de vista do seu tamanho e dimensão, quer do ponto de vista da natureza da sua coesão. Assim… em vez de uma vera Confederação de Estados//Nações, pôs-se em marcha uma sorte de Federação de Estados, com supostos estatutos uniformizados de desenvolvimento económico-social, (v.g., o máximo de 3% nos défices orçamentais nacionais, quando, já os ní-veis sócio-económicos de desenvolvimento, já a história unificada de cada um dos 27 ou 28 países é muito diversificada.) Nestas condições, o que veio a resultar foi um ‘monstro’, que não pode ser uma federação de Estados, nem pode aceder ao patamar da 132


Confederação de Estados/Nações (que deveria ser política e historicamente, o mo-delo a adoptar). Porque é que o Ocidente e a Europa deixaram de sustentar e erguer a Bandeira dos seus Valores, no Processo civilizacional comum à Humanidade, e se deixaram embrenhar e perder na ‘hybris’ tecnológica, especialmente, desde 1989?!... Por que vingou, hegemonicamente, o espírito fáustico e prometeico?!... E o Sistema Capitalista não foi ‘domesticado’ nem superado, como as diferentes Revoluções sociais foram mostrando e exigindo?!... No seu inteligente e sagaz artigo ‘A tecnologia como aventureirismo político’ (in ‘JL’, 12-25.9.2018, p.25), o filósofo e ecologista Viriato Soromenho-Marques convoca, muito bem Hannah Arendt, para fundar criticamente as suas posições acertadas. Escreve ele aí: “Num ensaio de 1961, intitulado O conceito de História, H.A. chamou a atenção para a mudança qualitativa operada na tecnologia contemporânea: ‘Nós começámos processos naturais criados por nós próprios, sendo a cisão [ou fissão] do átomo um processo natural desse tipo, fabricado pelo homem’. A tecnologia moderna não se limita a aumentar exponencialmente o poder humano sobre a natureza, mas ‘pela pri-meira vez nós trouxemos a natureza para o interior do mundo humano’, abolindo as bar-reiras de protecção entre o mundo natural e o artifício humano, que foram prevalecentes em todas as civilizações anteriores”. O que é, desde logo, a nova era geológica, a que, já nos anos 30 do séc. XX, se deu o nome de ‘Antropoceno’?!... Eis por que o princípio fundamental da Ecopolítica se pode enunciar, como o fez V.S.-M. (ibidem): “todas as acções que contribuam para a sustentabilidade da nossa habitação planetária, para a redução da nossa pegada ecológica e dos impactos ambientais negativos devem ser estimulados. Isso significa, menos consumo de matérias-primas, menos produção de resíduos, descarbonização total da energia, em favor das renováveis, e a criação de um largo consenso em torno de uma ética da frugalidade e do respeito pela diversidade biológica, paisagística e cultural”. O Autor não deixa de reparar, em caixa central, no que se passou recentemente em Portugal: “Os mega incêndios de 6ª geração, iniciados em 2017, antecipam o que nos acontecerá, como novo normal, se não reordenarmos o território. [Dentro de uma vera Regionalização, carecemos, para o mundo rural, de uma vera lei das Sesmarias]. Se lhe juntarmos a inevitável subida do nível médio do mar, percebe-se que Portugal corre o risco de perder as bases ecológicas da sua viabilidade como Estado e nação” (ibidem)

● Carecemos, em termos culturais e civilizatórios, de entronizar a praxis do DIÁLOGO (socrático), antes e acima de tudo. A praxis do Diálogo deverá concretizar-se em dois patamares distintos, que devem ser destacados: A) no patamar da Inteligência dialógica (objectiva e subjectiva) do Mundo e seus recursos; B) no patamar da Linguagem societária, que deve ser simples, sincera e honesta. Os cidadãos podem e devem entender-se, sem sofismas e artimanhas. Por seu turno, os ministros e a Governação, em geral, devem adoptar um comportamento de honestidade e incorruptibilidade, uma atitude de Diálogo franco com os cidadãos e honrar os programas políticos prometidos. As Pessoas sempre no topo das preocupações, em contraste com a produção de 133


coisas e objectos. ‒ Salientámos, no concernente à prática das Ciências, a Inteligência dialógica da Natureza e do Mundo, no horizonte do velho Sócrates de Atenas, por-quanto são os próprios conceitos das coisas e dos processos, que devem ser concebidos e formados em comum. Se apostarmos em vencer e superar a sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord, como cumpre, de acordo com a gramática do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, teremos de, no leque dos ministérios do Governo, atribuir a prioridade (até orçamental!), ao Sistema de Educação e Ensino: Aprendizagem/Ensino. A ‘Pedagogia do Oprimido’ de Paulo Freire, que abriu caminho nos anos 50-60 do séc. XX, constitui mesmo o padrão frontispicial da nova Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. “Dizer a palavra não é privilégio de alguns homens, mas direito de todos os homens. Precisamente por isto, ninguém pode dizer a palavra verdadeira sozinho, ou di-zêla para os outros, num acto de prescrição, com o qual rouba a palavra aos demais… Não é possível o diálogo entre os que negam aos demais o direito de dizer a palavra e os que se acham negados deste direito. É preciso primeiro que os que assim se encontram negados no direito primordial de dizer a palavra reconquistem esse direito, proibindo que este assalto desumanizante continue” (Paulo Freire: ibi, + in ‘A Página da Educa-ção’, série II, nº211, 2018, p.118). Ruben Alves (in ‘A Alegria de Ensinar’, 1994) ousava dizer este mantra pedagógico: ‘Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais…’ (Cf. na contra-capa exterior da citada ‘Página da Educação’). Na verdade, a Educação não é, apenas, um bem público ou privado!... (Cf. ibi, p.51). Não discutiremos a perfeita legitimidade, em Democracia, da existência do Ensino Privado. De resto, na sua versão original, a própria Const. da Rep. Port. de Abril de 1976 asseverava e defendia que o sector privado do Ensino, no Sistema Educativo Nacional, era de índole subsidiário ao serviço público. Nessa perspectiva, compreende--se perfeitamente a razão. De resto, é na Escola Pública que os Alunos podem aprender (com todos os matizes psico-pedagógicos) a vera notio de Autoridade → Poder, dir-se-ia o seu modelo-padrão: A Autoridade (cultural/científica) do Professor constitui o caminho para o Aluno poder, assim, fundamentar a sua Liberdade Responsável, justamente a que é própria e específica da Cultura Alternativa, já assinalada! (Cf. ibi, p.5).

● IDEOLOGIA: Sintagma prenhe de ambiguidades e confusões!... Para nos podermos entender, minimamente, e de modo crítico, deveremos estabelecer dois axiomas distintos: A) Ela constitui a regra básica de toda a Cultura do Poder-Dominação d’abord… na medida em que ela decorre (como a chuva das ‘nuvens negras’) dos Poderes Estabelecidos e dos seus desempenhos, na sempiterna Cultura da Potestas-Domina-ção d’abord. B) Em bom rigor, ela não deveria subsistir na novel Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. Pela simples razão de que, aqui, não há a Dualidade 134


Poder//Livre Arbítrio. O que conta é a vera Liberdade Responsável de todos os Indivíduos-Pessoas/Cidadãos. A Autoridade/Poder é, aqui, tão só adjectiva: aqui o lugar do Poder é ocupado, transitoriamente, num vero Regime Democrático, ‒ resultante do sufrágio universal, escandido temporariamente. Dado que, aqui, a Ideologia não é substantiva, nem sequer se vislumbram razões para haver ‘partidos políticos’ propriamente ditos. Haverá, ainda, razões, para, na nova Cultura Alternativa, surgirem os partidos?!... Só na medida em que eles possam ser resultantes e predicáveis (no sentido aristotélico!) dos Sujeitos Individuais/Cidadãos. Como dizia Ortega y Gasset, ‘Yo soy yo y mi circunstancia’, acrescentando ao axioma o seu complemento natural: ‘e se não a salvo a ela, não me salvo a mim’! Nesta acepção os partidos políticos poderão ainda en-contrar a sua justificação… Desta sorte, poderemos concluir, sumariamente, o seguinte: Ideologia: é uma categoria sócio-político-partidária, que tem aplicação e estratégia nas Sociedades (actuais) constituídas e balizadas pela Cultura do Poder-Dominação d’abord; acabará por não existir, propriamente, nas Sociedades balizadas e fundadas na Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, visto que a sua fonte principal é a cartilha doutrinal do Objectivo-Objectualismo (com seus programas e planos diferenciados). De modo indirecto, o sociólogo brasileiro, Ivonaldo Leite, acaba por confirmar o bem fundado do panorama da nossa Razão analítica sobre a Ideologia, ao escrever o parágrafo final do seu art. ‘Sociologia das margens: sociedade e ilusão social’ (in ‘A Pág. da Educ.’ citada, p.71): “Enfim, podemos dizer que o aspecto central da ideologia é a construção de uma representação, que se coloca como sustentáculo da realidade; no entanto, o que essa representação efectivamente constitui, ao fim e ao cabo, é uma ilusão imbuída do propósito de produzir o universo axiológico que regula a nossa existência. Captar as bases sobre as quais se ergue tal fantasia é uma tarefa que requer um tipo de análise social situada nas margens da sociedade ‒ e à distância dos enfoques dominantes e ‘na moda’ ‒ como forma de, examinando panoramicamente o mosaico que compõe a realidade, des-vendar as categorias do discurso ilusionista que, em geral, pré-determinam o modo de pensar quotidiano”. Cuidado, pois, com as ilusões!... Por exemplo, as ‘classes sociais’ concebidas e estruturadas pelo Marxismo estão muito longe de ser fantasias e ilusões: elas são realidades científicas, que arquitectam e estruturam as sociedades capitalistas, a que o Sistema capitalista hegemónico, ele próprio, pretende passar por ilusões dos Socialistas. A Igualdade Social é um Projecto cultural/científico estabelecido pela boa e honesta ciência, para todos os Filhos de Homem e Mulher. É preciso separar bem o trigo do joio!... Ao lado das coisas e dos instrumentos de trabalho, há os Indivíduos/Pessoas: os Trabalhadores, que devem ser reconhecidos e tratados com toda a sua humana Dignidade! O Multiculturalismo que, há ca. de duas décadas e ainda hoje, se pretendeu como capaz de promover e orientar as sociedades para a Inclusão social, converteu-se numa ilusão, esse sim, precisamente para dissimular e esconder as realidades heterogéneas da Sociedade. Nesta óptica, pode bem dizer-se que ele contribuiu para fermentar e fortalecer a xenofobia, o racismo, a homofobia… (Cf. ibi, artigo de Carlos Cardoso, sobre 135


‘Educação, investigação e média na renovação de uma cultura da igualdade’, pp.90-91). Assim, o multiculturalismo (liberal) é um fenómeno negativo; a multiculturalidade (em si mesma) constitui um fenómeno positivo. Hoje em dia ‒ como tradicionalmente ‒ só é suposto haver produção, em termos económicos, se houver competição e concorrência!... Aflora sempre o Capitalismo estrutural-estruturante. Ora, desde as origens dos Humanos, sempre houve e continua a haver outro modo de operar, agir e actuar: esse Modo dá pelos nomes de colaboração e de cooperação (cf. ibi, p.96). Escreve Raquel Varela, citando o psiquiatra António Coimbra de Matos (ibi, pp. 96-97): “Vivemos numa sociedade em que a competição e a concorrência é que levam ao desenvolvimento. Mas não é verdade. Isso é a teoria da soma zero: aquilo que eu ga-nho é o que tu perdes. Mas há um outro sistema que é de aliança, de colaboração e de cooperação, em que podemos ganhar os dois e, mais do que isso, podemos produzir um terceiro: uma obra de arte, um trabalho científico, a criação de um filho ou modificar o próprio contexto. As Ideologias foram, sobremaneira, identificadas e postas a nú pelo Psicólogo e Psiquiatra Jacques Lacan. A sua Psicanálise é, sem dúvida, das mais acertadas e completas, nesta grande Área. Elas são, na verdade, segundo a percepção crítica global do C.E.H.C., a cobertura fenomenológica do universo cultural da Cultura (tradicional) da Potestas-Dominação d’abord: trocam o sim pelo não e o não pelo sim… são ‘hipócritas’, por definição, como os fariseus da ‘Antiga Aliança!... ‒ Em rigor, quem melhor as definiu foi o filósofo e sociólogo eslavo Slavoj Zizek: as ideologias envolvem, sempre, um certo ‘grau de cinismo’. Com efeito, também em bom rigor, elas desaparecerão (as substantivas…), basicamente, no Novo Mundo Alternativo da Liberdade Responsável primacial e primordial. As Ideologias são como as enguias vivas num alguidar de água: se queres agarrar uma só que seja, dificilmente o conseguirás. É que elas têm o seu lado activo e o seu lado passivo, distribuídos pelos agentes activos e pelos agentes passivos. Mas é uma dessas ‘coisas’ em que, via de regra, nem uns nem os outros atentam na sua presença (inelutável) na sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord: a diferenciação entre Sujeito e Objecto no processo do Conhecimento! As Ideologias impedem, na verdade, que as coisas boas, os bons acontecimentos, tenham lugar: “Há algo de profundamente transformador no envolvimento numa luta sustentada, na resistência activa à injustiça e na união com outras pessoas, para fazer as coisas acontecer. As interacções forjaram novas solidariedades, compartilharam ideias e criaram um sentido de contrapoder que muitos nunca sentiram antes” (Mario Novelli, ibi, p.73). ‒ ‘Où est née la mondialization?’ ‒ art. de Alain Bihr (Prof. honorário de Sociologia). Este texto procura proceder à inquirição e ao enquadramento das origens da chamada ‘Histoire Globale’, precisamente no quadrante geocivilizacional do Ocidente. Na janela do artigo (in ‘Le M.D.’, Set. de 2018, p.3), pode ler-se: “A intenção é legítima: construir uma ‘história mundial’, escapando à sobrestimação da história ocidental. Desta sorte, ser-nos-á interdito observar que factos históricos maiores tiveram na 136


Europa, justamente, o seu actor inicial? Assim, por exemplo, a mundialização. Durante muito tempo, instrumento de dominação do Ocidente, ela encontrou, hoje, outros artesãos em outros quadrantes”. Na verdade ‒ sejamos claros ‒ esteve sempre na base do Processo histórico, a permanência e a continuidade do Sistema Capitalista, que havia constituído o berço, tanto dos colonialismos como dos imperialismos dos mais diversos tipos. O Desenho/Projecto de ca. de 200 Países/Estados/Nações, constituídos em pé de igualdade jurídico-jurisdicional, sob a coordenação suprema da O.N.U. é matéria que muito raramente tem sido, historicamente, vislumbrada, quanto mais não seja como antídoto eficaz aos vícios políticos e sócio-económicos que têm sido censurados e historicamente listados. Numa percepção sumária, podemos escandir em três momentos históricos os passos dados rumo à actual Globalização do Planeta: A) As Descobertas trans-oceânicas de novas terras e ilhas, nos sécs. XV e XVI, inicialmente por parte dos dois Países Ibéricos. B) O Processus da Globalização vem, depois, a concretizar-se no 4º quartel do séc. XX, sub-repticiamente, com o objectivo principal: a) de proceder à ‘lavagem’ do colonialismo e das dominações despóticas; b) de proporcionar a retoma, indisfarçável, do Sistema Capitalista e a sua progressão ad aeternum. C) Assim, é o Capitalismo (hoje indiscutível…), enquanto Sistema económico global, que mantém a hegemonia indiscutível, no Processo de Globalização, em todos os níveis e regiões do Globo. Quem discute a ‘democracia liberal/capitalista’ (que não passa de um novo embuste…), e é apresentada como a última forma de regime político?! A quem deve ser atribuído o comando das Nações soberanas? À Economia e ao jogo obstinado e obscuro das Finanças e das Bolsas a funcionar à escala global?!... Na era da globalização economicista/financeira, tudo vem a ser sobredeterminado pelo financeirismo económico… e as próprias Nações (pequenas, médias e grandes) começam a ser ameaçadas pela perda crescente da sua Autonomia e Soberania!... A Europa e o Ocidente, em geral, sempre têm funcionado, historicamente, como o coração e o cérebro do Planeta!... “De facto, a ‘global history’ ilustra, uma vez mais, o princípio segundo o qual a história se escreve sempre no presente. A sua inspiração advem-lhe do que se chama, correntemente, a mundialização, ou seja, a última época em data do devir mundo do capitalismo, na qual entrámos na 2ª metade do séc. XX, mais precisamente a favor (se assim o podemos dizer) da crise estrutural do capitalismo, que emergiu nos anos 1970, e da retoma, em resposta a essa crise, das políticas neoliberais” (Alain Bihr, ibidem). É costume histórico as governações adiarem para resolução no futuro as crises mais espinhosas com que são confrontadas no ‘hic et nunc’!... Eis por que, hoje, se chega a esta conclusão infantil: “Na sua caminhada até hoje, a humanidade nunca havia conhecido nada semelhante à expansão que os navegadores, mercadores e conquistadores europeus empreenderam a partir do séc. XV em direcção à África, à Ásia e às Amé-ricas” (idem, ibidem). O ‘Homo Sapiens tout court’ nada prevê… deixa tudo à divin-dade ou ao destino!.. 137


Pode perguntar-se por quê esta Europa hegemónica, no processus de Globalização?! A esta questão, o Autor responde (ibidem): “A hipótese directora, aqui retida, é que a originalidade histórica da Europa é a de ter servido de berço ao capital, entendido no sentido que lhe deu Marx: como relação social de produção, implicando, nomeadamente, a acumulação de capital-dinheiro (essencialmente sob forma de capital mercantil) e a expropriação dos produtores imediatos, ‘libertando’, por conseguinte, forças de trabalho e meios de produção, permitindo tornar-se mercadorias apropriáveis pelos detentores de capital-dinheiro, cuja combinação produtiva destas condições subjectivas e objectivas do processo de produção, vai alargar consideravelmente a esfera da valorização”. Alain Bihr conclui como segue o seu artigo (ibidem): “Em suma, é a favor desta primeira mundialização, mediante a qual a Europa começou a instituir-se como centro do mundo, organizando e controlando as relações económicas, políticas, culturais entre o conjunto das civilizações do planeta, que a relação capitalista de produção se completou, no próprio movimento pelo qual ela deu, em simultâneo, à Europa os meios da sua dominação mundial”. ‒ A ingenuidade desta escrita é contrariada pelo estro do maior épico luso: ‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/Muda-se o ser, muda-se a confiança’ […].

● Das Origens ou fontes originais das Ideologias: A) A heresia noética, moderna, do Objectivo-Objectualismo (de que tanto tem falado e censurado o C.E.H.C.). B) A ausência ou fuga à Consciência humana, qua tal. N.B.: A Igualdade social entre os Humanos (a vera, não a hipócrita/fingida) só pode ser apreendida e percepcionada do lado dos Sujeitos Individuais-Pessoais. Justamente, por-que ela não é percepcionável, em definitivo, por parte do Conhecimento objectivo-ob-jectual, é que o Diálogo socrático é tão raro e difícil; e, no plano da Praxis, na tríade da Revol. Franc., entre a Liberdade e a Fraternidade, a Igualdade é a virtude mais difícil de realizar. Os Sujeitos Humanos auto-constituem-se, na e pela sua Liberdade Responsá-vel; os Objectos são formados e constituídos pelos Sujeitos qua tais.

C) É por obra e graça da Consciência Humana (qua tal), enquanto testemunha da Verdade ou Mentira do Conhecimento (de um dado objecto) que se opera a distinção abissal entre os Sujeitos e os Objectos. É por isso que os Seres Humanos (viventes e oriundos do paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (desde há ca. de 32.000 anos, segundo o padrão do ‘Homem de Cro-Magnon’) são dotados de uma Consciência, constituída por um Fenómeno Triádico: Sujeito/Objecto/Testemunha (= divindade), que chamaremos psíquica, porque, simplesmente, não é física! Assim, a ruptura abissal entre Sujeito e Objecto tem a sua vera fonte original na própria Consciência do Indivíduo-Pessoa. As reflexões, que até agora fizémos neste início de capítulo, são dados ou atributos do ‘paradigma constituído pelo ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Eles não têm lugar no ‘Homo Sapiens tout court’, que é o padrão ainda corrente no Processo cultural/civilizatório ainda vigente e hegemónico. Por isso, neste horizonte, se fala de ‘livre arbítrio’ (= a lei do pêndulo de Foucault); não de Liberdade Responsável. Por isso se estabelece, em 138


tal horizonte, uma separação (tipo ‘muralha da China’) entre o ‘livre arbítrio’ e o Poder/Autoridade societário. Esta é a caracterização sumária do ‘Homo Sapiens tout court’, que ainda predomina, hegemonicamente, no Processo civilizatório em curso. As pautas axiológicas do herético Objectivo-Objectualismo têm o seu lugar próprio, absolutamente, no Processo cultural/civilizatório atinente ao ‘Homo Sapiens tout court’. Aí, não se cuida de fazer ciência com consciência, como postulou muito bem o sábio Edgar Morin, num livro homólogo (1982). Aí, tudo parece correr segundo as pulsões e os instintos do Frankenstein de Mary Shelley. E até se põem problemas estúpidos do tipo: … E se a I.A., um dia, superar o mais potente cérebro humano?!... E é com tais problemas que a triste e votada à servidão, humanidade, sobrevive até ser lançada no abismo!... Os Problemas bio-psico-societários e políticos de hoje são da mesma natureza e gravidade que a problemática das famigeradas Alterações Climáticas, que quase todos os Países estão nas encolhas para resolver, e que, de tão graves, já obrigaram os cientis-tas das especialidades a cunhar (desde meados do séc. XX) uma nova idade geológica com o nome apropriado de ‘Antropoceno’. Cumulativamente, é o Psico-Sócio-Ânthro-pos que está em causa, por causa dos seus desvios evolutivos fatais. Em primeiro lugar, a Cultura do Poder-Dominação d’abord, no processo das civilizações, desde a instau-ração do Patriarcado e, simultaneamente, dos Deuses uranianos, há cinco milénios e meio. Yuval Noah Harari (prof. de História na Univ. hebraica de Jerusalém), depois dos dois livros (que foram ‘bestsellers’ internacionais: ‘Homo Sapiens: Breve História da Humanidade’ ‒ Elsinore, 2013; ‘Homo Deus: História do Amanhã’/2017), escreveu um 3ª livro titulado ‘21 Lições para o Século XXI’/Elsinore, 2018. Démo-nos ao cui-dado de ler, atenta e criticamente, os três Livros, que aparentemente me suscitaram inte-resse e curiosidade. De fio a pavio!... O 3º é, em geral, mais criticamente consensual que os dois primeiros. Ora, em nenhum dos três Livros encontrámos a fórmula/padrão da Espécie Humana, em constante evolução, que está em vigor, em todos os Humanos viventes, desde há ca. de 32.000 anos. Essa fórmula enuncia-se como é sabido: ‘Homo Sapiens//Sapiens’; e não ‘Homo Sapiens tout court’. A bandeira, que ilumina os conteúdos do 3º Livro é a seguinte e encontra-se na contracapa exterior: “Criámos os mitos, para unir a nossa espécie; Domámos a Natureza, para que nos desse o seu poder; Agora, estamos a redesenhar a vida, para que possamos alcançar os nossos sonhos mais ousados. Mas será que ainda sabemos quem somos? Ou será que as nossas invenções acabarão por nos tornar irrelevantes? Como podemos proteger-nos de uma guerra nuclear, de cataclismos ecológicos ou de falhas tecnológicas? O que podemos fazer contra a epidemia de notícias falsas ou a ameaça de terrorismo? O que devemos ensinar aos nossos filhos?”. Ora, desde logo, toda esta retórica é própria de um Autor, que não conhece o vero paradigma da Espécie em questão: o ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Só tem conheci-mento do ‘Homo Sapiens tout court’!... Na Introdução, Harari escreve o seguinte (p.15): “Algumas secções centram-se na tecnologia, outras na política, outras na religião e outras na arte. Certos capítulos elo-giam a sabedoria do ser humano, enquanto outros apontam o papel decisivo da estupi-dez 139


humana. Mas a questão transversal mantém-se: o que se passa no mundo, hoje, e qual o sentido mais profundo dos acontecimentos? […] “Quero dar ênfase às ligações entre as grandes revoluções do nosso tempo e as vidas interiores dos indivíduos. Por exemplo, o terrorismo é simultaneamente um problema político global e um mecanismo psicológico interno. O terrorismo acciona o medo nas nossas mentes e sequestra a imaginação de milhões de pessoas. Do mesmo mo-do, a crise da democracia liberal desenrola-se não apenas nos parlamentos e nas mesas de voto, mas também nos neurónios e nas sinapses. É um lugar comum dizer que tudo o que é pessoal é político. Mas numa era em que cientistas, empresas e governos estão a descobrir como manipular o cérebro humano, essa trivialidade é mais sinistra do que nunca. Assim, o livro tece simultaneamente considerações sobre o comportamento dos indivíduos e o comportamento de sociedades inteiras”. Acerca da noção de ‘democracia liberal’, Y.H. consegue, ainda assim, dizer o seguinte: “Sem criticarmos o modelo liberal, não conseguiremos corrigir os seus defeitos nem ir além dele. Mas, por favor, que fique claro que só foi possível escrever este livro, porque as pessoas ainda são relativamente livres de pensar o que quiserem e de se exprimirem segundo a sua vontade. Se der valor a este livro, também dará à liberdade de expressão” (ibi, p.19). A primeira parte é sobre o Desafio Tecnológico (pp.21 e ss.). O guião, que abre caminho ao texto, reza assim (ibi, p.21): “A Humanidade está a perder a fé na narrativa liberal, que dominou a política global nas últimas décadas, precisamente no momento em que a fusão entre a biotecnologia e a tecnologia da informação nos confronta com os maiores desafios, que a Humanidade algum dia encarou”. “Mas ‒ escreve H. ‒ o liberalismo não tem respostas claras para os grandes problemas que enfrentamos: colapso ecológico e disrupção tecnológica. Tradicionalmente, o liberalismo dependia do crescimento económico para resolver, como que por magia, os difíceis conflitos sociais e políticos. O liberalismo reconciliou o proletariado com a burguesia, os devotos com os ateus, os nativos com os imigrantes e os europeus com os asiáticos, ao prometer a todos eles uma fatia maior do bolo” (ibi, p.37). O Liberalismo não pode ter respostas, porque é construído a partir do ter egoísta e é excludente dos outros, por definição: é uma espécie de ‘bellum omnium contra omnes’ ‒ como já vislumbrara o próprio T. Hobbes. No que tange o mundo do trabalho e o desemprego endémico crescente, Y.H. escreve (ibi, pp.43-44): “Assim, a ameaça da perda de postos de trabalho não resulta apenas do desenvolvimento das tecnologias da informação. Resulta da confluência das tecnologias da informação com a biotecnologia. […] O que os neurocientistas estão a descobrir hoje sobre a amígdala e o cerebelo pode permitir aos computadores ter um desempenho melhor do que os psiquiatras e guarda-costas humanos em 2050”. Sendo assim, a problemática hodierna do desemprego pandémico, tem de pôr-se, necessariamente, no quadro de um outro estatuto do simples contrato de trabalho (individual ou colectivo), para a sobrevivência digna na sociedade. Uma vez alterados, objectivamente, os meios e o modo de produção, os cidadãos, maiores de 18 anos, têm, para começar a vida, um direito objectivo absoluto, em cada País, a um salário mínimo/ /base, segundo a média do poder de compra em cada Estado/Nação. Estas são questões 140


em que, no horizonte do neoliberalismo capitalista, poucos economistas pensam… mas elas são inderrogáveis!... No tema Da exploração à irrelevância, o Autor parece aproximar-se, indirectamente, das nossas posições (ibi, pp.57-58): “As soluções possíveis enquadram-se em três grandes categorias: a) o que fazer para evitar a perda de empregos; b) o que fazer para criar novos empregos em número suficiente; c) e o que fazer se, apesar dos nossos esforços, a perda de empregos ultrapassar em muito a criação de postos de trabalho. [Aqui é caso para a intervenção do Governo…]. Evitar completamente a perda de empregos é uma estratégia pouco atractiva, e, provavelmente, impraticável, porque significa abdicar do potencial imenso da inteligência artificial e da robótica. Todavia, os governos podem decidir abrandar deliberadamente o ritmo da automatização para mitigar os choques que daí resultarão e conseguir mais tempo para fazer ajustes. A tecnologia nunca é determinista, e o facto de algo poder ser feito não quer dizer que deva ser feito. A regulação estatal pode, com sucesso, impedir o aparecimento de novas tecnologias, mesmo que elas sejam comercialmente viáveis e economicamente lucrativas”. De contrário, é o Capitalismo selvagem que vinga e, em consequência disso, as mercadorias e o lucro detêm a supremacia sobre as Pessoas. Um outro modelo, que começa a fazer caminho, é o de os governos nacionais taxarem os bilionários que controlam as empresas e os algoritmos. Isto é sumamente pertinente, no concernente às multi-transnacionais, que o neoliberalismo permitiu crescessem desmesuradamente, desafiando os próprios Estados/Nações (cf. ibi, pp.61-64). Decididamente, não falemos mais de ‘livre-arbítrio’ como se fosse uma realidade equacionável à vera Liberdade humana (cf. ibi, p.71). Por seu turno, não percamos tempo com especulações idiotas, como se os computadores e os robots viessem um dia a ter problemas com a dimensão ética. Se eles não possuem Consciência (como o C.E.H.C. já a definiu e enquadrou), eles, por definição, nunca se confrontarão com pro-blemas éticos ou morais!... A Consciência humana envolve sentimento, entendimento, inteligência e sentido comunitário. Nada disto se encontra nos aparelhos cibernético/ /robóticos, por mais aperfeiçoados que venham a ser (cf. ibi, pp.95-98). A 2ª Parte do Livro, que versa a problemática do Desafio Político, ostenta como guião a tese: “A fusão da biotecnologia com a tecnologia da informação ameaça os valores modernos essenciais da liberdade e da igualdade. Qualquer solução para o desafio tecnológico terá de implicar a cooperação mundial. Mas o nacionalismo, a religião e a cultura dividem a Humanidade em facções hostis e dificultam muito a cooperação global” (ibi, pp.109 e ss.). Sim: preservar a via certa da Modernidade; aqui, o Autor acertou em cheio. Quanto à cooperação mundial… ela não se conseguirá, de verdade, se destruirmos as nações e as culturas nacionais. Há que mudar de eixo, diapasão e registo: em vez das rivalidades e dos ódios, as amizades e o Amor. O Bio-Psico-Sócio-Ânthropos integral, em cada Indivíduo-Pessoa/Cidadão. As religiões institucionalizadas, essas sim, deverão dar o seu lugar a uma Cultura crítica! Mudar do eixo significa passar do ‘Homo Sa-piens tout court’ ao ‘Homo Sapiens//Sapiens’. 141


A 3ª Parte do Livro, que versa os temas do Desespero e da Esperança, é introduzido pelo seguinte guião: “Embora os desafios sejam maiores do que nunca, e embora a discórdia seja intensa, a Humanidade pode mostrar-se à altura das circunstâncias se mantivermos os nossos receios sob controlo e formos um pouco mais humildes, quanto aos nossos pontos de vista”. ‒ Uma prova insofismável de sensatez e prudência. E uma Lição solene, sobretudo para as elites e as classes dirigentes, que, via de regra, foram formadas e formatadas segundo os padrões do ‘Homo Sapiens tout court’, e têm, seguramente, muita dificuldade em levantar o pendão da Igualdade e da Fraternidade universais (cf. ibi, pp.187 e ss.). Uma frase do Autor, que é digna de um super-destaque: “O preconceito do monoteísmo: De um ponto de vista ético, o monoteísmo foi, provavelmente, uma das piores ideias da história da Humanidade” (ibi, p.223). A 4ª Parte do Livro, que se ocupa da Verdade, é introduzida pelo seguinte guião: “Caso se sinta assoberbado e confundido com o dilema global, está no caminho certo. Os processos mundiais tornaram-se demasiado complicados para que uma única pessoa consiga compreendê-los. Assim, como podemos descobrir a verdade acerca do mundo e evitar cair nas garras da propaganda e da desinformação?” (cf. ibi, pp.251 e ss.). ‒ Terapêuticas para os diferentes populismos?!... É pouco. Termos de meter ombros à construção do Bio-Psico-Sócio-Ânthropos completo e integral; e esconjurar, de vez, todas essas falsas teorias/doutrinas da chamada ‘Pós-Verdade’!... Não esquecer que a Verdade só pode emergir num Quadro de JUSTIÇA; e para ela ser completa e cabal é preciso aceder ao patamar do vero e autêntico paradigma dos Humanos: o ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Aquele que, honestamente, sabe que sabe, e é dotado de consciência crítica, que faz parte da sua Identidade real. Em suma, em lugar da proliferação da ficção científica, do que carecemos é de mais ciência, honesta e criticista, para nos tornarmos adultos segundo as pautas do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Escreve Y. Harari (ibi, pp.2285-286): “Talvez o pior pecado da ficção científica seja ela confundir habitualmente inteligência e consciência. Em função disso, está demasiado preocupada com uma possível guerra entre robots e seres humanos, quando, na verdade, o que devemos temer é um conflito entre uma pequena elite de super-humanos equipada com algoritmos e uma enorme subclasse de Homo Sapiens desapoderados. Quando pensamos no futuro da inteligência artificial, Karl Marx ainda é um guia mais fidedigno do que Steven Spielberg”. Esta é uma das raras oportunidades, em que estamos completamente de acordo com o Autor: A) Como se pode compreender toda a analítica marxiana das diferentes classes sociais e dos seus conflitos permanentes, se toda essa fenomenologia não estivesse ancorada na consciência de classe, na Consciência Individual/Pessoal dos Trabalhadores?! B) Como se poderiam legitimar todos esses conflitos de classes, se não houvesse, nas suas consciências, o impulso e o desejo de ascenderem ao novo patamar da Espécie (‘Sapiens//Sapiens’), que só pode edificar-se no plano da horizontalidade societária, onde os Seres Humanos se podem sentir verdadeiramente Iguais e dotados, todos, de uma Liberdade Responsável, sem Deuses nem Mestres?!... A 5ª Parte do Livro, que trata da necessária Resiliência, para resolver todos os problemas estruturais e vencer as dificuldades, é introduzida por este guião genérico (ibi, 142


pp.297 e ss.): “Como viver numa era de perplexidade, quando as velhas histórias faliram e ainda não emergiu uma nova narrativa que as substitua?”. Aqui, temos de recuar muito no aplauso a Harari. A) Até se pode depreender que o Autor não tem um Sentido genuíno da História (da Civilização e das Culturas). Se aprendeu com C. Darwin, no concernente à Evolu-ção dos Seres vivos, porque não aplica ele o conceito de Evolução à própria História das Culturas e Civilizações?!... B) Desta sorte, é preciso, antes de tudo, identificar os erros e descaminhos da História passada… e aqui, as opiniões são como as areias da praia!... Aprender com o C.E.H.C. parece constituir a via mais certa e sensata. C) Assim, as ‘Good News’ têm de ser concebidas e percepcionadas pelos Humanos mais sensatos e sabedores, primeiro, em diálogo uns com os outros, depois em li-ções adequadas às massas. Com esta marca no estandarte: ‘Caminero, no hay camino; se hace el camino al andar!’ (Antonio Machado). Nisto, tem razão o Autor: Começar toda esta Parte com os Temas da Educação e do vero e autêntico Ensino. Já não o aplaudimos, quando propõe a via da ‘meditação’ (individual), oriunda dos misticismos religiosos, em vez de falar e promover o genuíno Diálogo socrático, que é, de longe, mais correcto e eficaz (ibi, p.359). Sobre a descriptação crítica das três obras, sob o signo do ‘Sapiens’, de Yuval Noah Harari, Evelyne Pililler faz um artigo admirável (e em consonância com o CEHC), titulado ‘Tout est fiction, reste le marché’, (in ‘Le M.D.’, Jan. de 2019, p.23). Na janela do artigo, pode ler-se: “Alimentado por anedotas e precisões sabedoras, ‘Sa-piens’ de Yuval Noah Harari, configura-se, simultaneamente, como um sedutor empre-endimento de vulgarização concernente à história da nossa espécie e como uma reflexão sobre o sentido desta história. A pedagogia desdobra-se, assim, de considerações que, a coberto de ciência, acabou por atraiçoar uma defesa banal da ideologia dominante”. A tentativa central é a de procurar uma “chave para compreender a nossa história e a nossa psicologia. A chave é a capacidade da espécie de nomear identidades que não existem e de partilhá-las: esta ‘revolução cognitiva’, operada pela linguagem humana, permite criar ficções colectivas. Desde logo, ‘um grande número de elementos desconhecidos podem cooperar com sucesso mediante a crença em mitos comuns’. Os Sa-piens vivem, então, uma dupla realidade, objectiva e imaginária, mas é a realidade ima-ginária que devém a mais potente: uma religião, uma nação. Google… Os princípios universais, o liberalismo, o socialismo? Mitos, e que, por acréscimo, podem mudar de-pressa: ‘Em 1789, a população francesa mudou de crença quase de um dia para o outro’. Mitos perigosos, muitas vezes, nomeadamente a crença na razão, o livre-arbítrio. São ‘leis, forças, entidades, lugares que não existem senão na sua imaginação comum’, que suscitam, junto dos seres humanos ‘as cruzadas, as revoluções socialistas, a defesa dos direitos do homem’. “Parece, apesar de tudo, sem querer ser desagradável, que esta leitura da história humana não esteja muito afastada dos estereótipos habituais: tudo não é senão crença, a verdade não existe, o universalismo ainda menos. A realidade objectiva dissolve-se no recital que se faz. Compreende-se que o autor seja um pouco obsessionado pelo materialismo histórico e o ‘comunismo’, o qual lhe agrada converter no símbolo do erro trá143


gico ‒ tendo estado os seus fiéis, segundo ele, ‘prestes a correr o risco do holocausto nuclear, por causa da sua crença no paraíso comunista’. Eis um pensamento agradavelmente conforme à ideologia vigente, tanto mais que, aos olhos do autor, o capita-lismo, outra versão de uma religião centrada no homem, tem ‘reduzido a violência hu-mana e acrescido a tolerância e a cooperação’. Bom. Para a igualdade postulada pelos direitos do homem, o mesmo empreendimento de pulverização: será preciso passar adi-ante. Como não reconhecer, pelo simples bom senso, que isso é uma falta de juízo?, in-terrogase Harari. A aptidão à felicidade, por exemplo, é genética, e os humanos são, as-sim, por natureza designais, perante ele…” (eadem, ibi). A confusão, no universo mental/ideológico de Harari, é cada vez maior: “Mas o que é que desencadeia a mecânica, faz conectar as sinapses, faz, em resumo, que sejam produzidas palavras e ideias, por exemplo? Precisamente, os ‘algoritmos’ estabelecidos pelos genes e pelo meio-ambiente. Reflexão, trabalho de emancipação? Algoritmos. Sejamos claros: nós somos programados. Como em Matrix, salvo que, aqui, é sem expectativa. Não podemos sair daí. Uma solução para a aceitar: a meditação vipassana ‒ de modo aleatório, o autor confia-nos que é seu adepto, somente lá para o fim do seu terceiro livro. Ela permite assegurar ‘que a vida não tem sentido e que não é necessário procurar um qualquer sentido’, como já o pensava Budda, mas também, acolher o facto de que o eu, como qualquer outra entidade imaginária, é uma ficção” (eadem, ibidem). Em resumo: o Liberalismo de Harari é o ‘fim da História humana’. A Natureza é, apenas, matéria-prima… Ora, para esta doutrina, tudo é relativo; não há verdade última. A razão não passa de uma máscara das emoções; e são estas que se tornam veramente determinantes. Quase toda a agente esquece ou ignora (a propósito do ‘diferendo’ entre Alterações Climáticas e Desigualdades sociais) que é a própria Justiça social que vai constituir a chave da Transição Ecológica. (Cf. Philippe Descamps, in ‘Le M.D.’, Jan. de 2019, pp.14-15). ‘Le Front commun’ de Léon Blum, em 1936, já começava, ele próprio, a indiciar este caminho. Entretanto, que se passa hoje?!... Assistimos à irrupção de um capitalismo de sobrevigilância (através dos novos media electrónicos), onde os produtos ou mercadorias são os próprios anúncios, previsões ou prognósticos adequadamente dirigidos. (Cf. ibi, pp.10-11). Escreve Shashana Zuboff (ibi, p.11): “Não pode haver rendimentos assegurados, se a gente não se dá os meios. Os novos instrumentos internacionais de modificação comportamental inauguram uma era reaccionária, onde o capital é autónomo e os indivíduos heterónomos; a própria possibilidade de uma expansão democrática e humana exigiria o contrário. Este sinistro paradoxo está no coração do capitalismo de sobrevigilância: uma economia de um novo género, que nos reinventa no prisma do seu próprio poder. Qual é esse novo poder e como transforma ele a natureza humana em nome das suas certezas lucrativas?”

● A Mundialização e o Bio-Psico-Sócio-Ânthropos. 144


O berço da globalização foi, indiscutivelmente, o Ocidente e a Europa: primeiro, através dos Descobrimentos transoceânicos e pelos caminhos errados do Colonialismo; depois, através das Revoluções (a maior parte falhadas…) mas, em geral, todas elas detonadas e promovidas pelos ideários da Liberdade/Igualdade, Prosperidade e Fraternidade. Se outrora, ela foi instrumento de Dominação, ela ainda continua a sê-lo pela sua teimosia em nortear-se pela busca do capital e pela sua organização segundo o Sistema capitalista. Mas a Democracia liberal não pode ser a última forma de religião política. É preciso juntar e articular bem o coração e o cérebro do planeta, nos tempos da Globalização. Tudo quanto for em sentido contrário/imperialista é um erro tremendo e a morte certa da Humanidade. Que nos ensinou a história global?! Que os Valores e o desenvolvimento do Capital procederam da Europa e espalharam-se pelo Mundo. Mas o próprio Sistema Capitalista começou a ser severamente criticado por muitos, (logo no séc. XIX) entre os quais, Marx e Engels, e pelas próprias revoluções históricas de turno, levadas a cabo pe-los povos mais esclarecidos. Desta sorte, “a originalidade histórica da Europa foi a de ter servido de berço ao capital, entendido no sentido que lhe dá Marx: como relação social de produção, implicando, nomeadamente, a acumulação de capital-dinheiro (essencialmente sob forma de capital mercantil) e a expropriação dos produtores imediatos, ‘libertando’, por conseguinte, forças de trabalho e meios de produção, permitindo-lhes devir mercadorias apropriáveis pelos detentores de capital-dinheiro, cuja combinação produtiva destas condições subjectivas e objectivas do processo de produção vai consideravelmente alargar a esfera da valorização”. (Alain Bihr, in ‘Le M.D.’, Setembro de 2018, p.3). “Em suma, foi a favor daquela primeira mundialização, mediante a qual a Europa começou a instituir-se como centro do mundo, organizando e controlando as relações económicas, políticas, culturais, entre o conjunto das civilizações do planeta, que a relação capitalista de produção se consumou, no próprio movimento mercê do qual deu, simultaneamente, à Europa os meios da sua dominação mundial! (idem, ibidem). Hoje, contudo, as atmosferas ideológico-culturais e, sobretudo, mentais dos cidadãos (intelectuais ou operários) alteraram-se e subiram de nível, principalmente perante a exasperação do novo modelo capitalista, que, desde os anos 90 do séc. XX, tem sido nomeado como neoliberalismo, protagonizado, acima de todos, pelas multi-transnacionais. ‒ Ora, na presente situação, os velhos moldes da chamada ‘Democracia libe-ral’ (a única conhecida pelo capitalismo…) já são uma remota ‘story’ contada, sem sentido, inútil, impraticável!... Como são errados, inúteis e impraticáveis outros aforismos tais como: Israel = ‘Estado/nação do povo judeu’: (lei votada no Knesset, a 19.7.2018 (ibi, p.8). Israel deveio, assim, uma ‘etnocracia’. A privatização da Escola foi um redondo fiasco, na Suécia!... (Ibi, pp.18-19). Ainda por cima, em nome da ‘liberdade de escolha’!... Que sentido terá entregar a paz escolar aos Fundos de Pensões? (ibi, p.20). Os docentes ‘republicanos’ nos U.S.A. estão em revolta com o seu teor de escola!... (ibi, p.21). Liberais contra populistas constituiu, na China, uma clivagem enganadora (ibi, p.1 e pp.22-23). ‘O povo escolhe, mas é o capital que decide’!... Sob o regime único da ‘democracia ca-pitalista’!... ‘Um País: dois Sistemas’!... Isso não passou de um embuste, desde 1962, quando ouvimos 145


e lemos a Lectio de J. Kenneth Galbraith sobre o Socialismo na U.R.S.S. e na China!... ‘Capitalismo de Estado’ ‒ era o seu verdadeiro nome. A socióloga brasileira, num estudo rigoroso e exigente sobre o Brasil (subordinado ao título ‘Imperialismo é um cancro político’ (in ‘Seara Nova’, Inverno de 2018, pp.23-26), conclui, claro e solenemente (ibi, p.26): “O imperialismo organiza a destruição do sistema político através de assessorias, financiamento e denúncias, ficando acima do bem e do mal, como um deus técnico, amoral, poderoso, empreendedor, que extraiu da história das religiões uma Igreja medievalista e pentecostal, que aceita o nefasto papel de formar consciências robotizadas (para que a questão racial seja um caso de polícia) e manipular através da moderna tecnologia digital as eleições, de modo a quebrar as estruturas políticas que a história lentamente constrói. Exacta-mente como um tecido cancerígeno mina um organismo humano”. Preservar e defender a Democracia autêntica (não a confundindo com a ‘liberal’) é tarefa difícil e permanente; e carece, em primeiro lugar, de um bom Sistema Educa-tivo, robusto e esclarecido, onde os Profs. sejam societariamente considerados e dignifi-cados. Tanto mais, quanto, hodiernamente, os sistemas democráticos acham-se ameaça-dos por obra da desinformação das ‘Fake News’ e de toda uma malformação populista (destilada pela hegemonia de Mercado…), vítima, ela própria, da sua mesma autofa-gia!... “A inexistência de informação credível e mediada constitui uma grave ameaça aos sistemas democráticos; e as ‘fake news’ são símbolos de um problema social mais vasto, onde a manipulação da opinião pública afecta o mundo real”. (Paulo Frias, in ‘JL’, 215.1.2019, p.9). A situação agrava-se imenso, quando já não se presta atenção a duas teses essenciais: a) a distinção necessária entre a Democracia autêntica e a demo-cracia liberal; b) esta é considerada a única compatível com o Capitalismo… porque se atraiçoa a si mesma, ela é a 1ª fake news do Sistema, que, por isso mesmo, devém popu-lista!... Depois do ‘Maio de 68’ (em Paris e França…), veio a criação dos grandes grupos empresariais e, a partir da década de ’90, a livre ascensão do neoliberalismo. Desta sorte, “o legado actual do maio francês de ’68 é mais a onda arco-íris associada à ‘nova política’, aos novos movimentos sociais e à política das identidades, do que a vaga vermelha das greves operárias e da contestação do capitalismo” (André Freire, ibi, p.25). Então, o quadro societário genérico era o seguinte: “Além da solidariedade com os estudantes, as reivindicações de melhores salários e de melhores condições de vida, juntavam-se demandas de maior participação dos trabalhadores na gestão das empresas e na concertação social (até aí inexistente), no limite autogestão, além de uma contes-tação mais difusa do próprio capitalismo (ocupações de fábricas, sequestro de dirigen-tes, batalhas campais com a polícia)” (idem, ibidem). ‒ Debray, que foi um dos mais destacados dirigentes do movimento contestatário, resumiu tudo isso numa pequena frase cheia de sentido: ‘uma contrarrevolução conseguida’!... ‒ Mas as veras Revolu-ções (sociais) não acontecem por acaso… emergem coerentemente de uma polarização de factores com evolução negativa e que estão maduros para o desfecho final. Hodiernamente, porém, em tempos de globalização tecnológica, não só as revoluções sociais perderam o seu atractivo, como, antes, tem sido promovidas as ‘revoluções/inovações tecnológicas’, a um ritmo trepidante, trazendo à maior parte das popula146


ções mais piorias do que melhorias. Por isso mesmo… por causa da sua ‘velocidade’ e falta de aclimatação societária. Escreveu Virgílio Azevedo e Gonçalo Viana (in ‘Exp./1º Cad.’, 12.1.2019, p. 24): “O mundo maravilhoso, prometido pelas empresas tecnológicas começa a ser posto em causa e há mesmo conhecidos futurólogos como o alemão Gerd Leonhard ‒ autor do livro ‘Tecnologia versus Humanidade’ ‒ a defender que se a tecnologia não faz o ser humano feliz e não cria uma sociedade melhor, não deve ser usada ou terá de ser forte-mente regulada e limitada pelas leis. “Assim, os governos têm de definir claramente a fronteira entre as tecnologias que elevam a Humanidade em termos sociais e espirituais e as tecnologias que não o fa-zem. E os investigadores e utilizadores da ciência e da tecnologia ‘devem ser mais responsabilizados’, defende Rodrigo Martins, presidente da Academia Europeia das Ciências”.

● Na história evolucionária da Vida na Terra (desde há 3.500 milhões de anos), o Bio-Psico-Sócio-Ânthropos ocupa o eixo central no Cosmos/Universo: Tudo come-çou com a Física (as ciências físico-naturais); depois veio a Alquimia como Advento da Química, que, através das suas acções e reacções fez emergir as células e os seres unicelulares e, logo a seguir, os pluricelulares. Os Humanos surgiram assim no topo da Evolução da Vida (dando início às ciências bio-psico-sociais e humanas), no patamar dos primatas (símios e hominídeos…) com o desígnio de exercer o comando no Univer-so, dentro de balizas e orientações dadas pela Ordem cósmica. (As 2 narrações bíblicas da criação, nos primeiros 3 caps. do Génesis, é isso mesmo que, de algum modo, já indiciam e prescrevem. A Evolução da Espécie Humana emergiu em duas fases: a 1ª foi a do ‘Homem de Neanderthal’, o ‘Homo Sapiens tout court’; este, que chegou a conviver com o paradigma definitivo (que é o do ‘Homem de Cro-Magnon’) desde 70.000 a ca. de 30.000 anos antes da E.C., extinguiu-se completamente com o chegado padrão da 2ª fase. Este é o Quadro, dentro do qual cumpre perceber e assumir a História da Espécie Humana (a partir dos evolucionistas modernos, principalmente Lamarck e Darwin). Assim, o ‘Man makes Himself’ de Gordon Childe (que o Autor destas pp. e fundador do C.E.H.C.) lera aos quinze anos, sem saber de onde viera…). Todo este intróito é para nos ajudar a percepcionar: A) que há uma Ordem pré-via na Natureza (Mãe-Natureza) que é preciso respeitar; B) que a invenção e a criativi-dade humanas têm, necessariamente, os seus limites: elas propõem-nos as balizas e a orientação; C) o Psico-Sócio-Ânthropos completo e integral, que, até ao presente, se tem confinado ao padrão do ‘Homo Sapiens tout court’ terá de emergir para o patamar superior da Espécie, ou seja, para o paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’: é que só neste patamar, o Bio-Psico-Sócio-Ânthropos poderá cumprir a sua missão hilemórfica-aristotélica específica: entrecruzando e articulando os seus dois universos: o da Objectividade e o da Subjectividade, o do mundo exterior e do seu corpo e o do mundo interior e do seu espírito identitário. Ora, esta área nova das ciências humanas e sociais está quase totalmente deserta e à espera de investigação aturada. Entretanto, deve saber-se que essa área nova só 147


poderá ser cumprida, no horizonte da Cultura Alternativa da Liberdade Responsável primacial e primordial. ‒ Uma Quaestio ad hominem, anunciadora da Nova Era: Comparem-se as duas ordens de poemas épicos: ‘Os Lusíadas’ de Luiz Vaz de Camões (1572), dum lado; e do outro: ‘Naufrágio e Lastimoso Sucesso e Perdição de Manuel de Sousa Sepúlveda’ (1594), e ‘Sucesso do Segundo Cerco de Diu’ (1574), de Jerónimo Corte-Real (15301590). A epopeia de Camões é concebida e redigida segundo as normas canónicas clássico-tradicionais: ‒ é composta, no horizonte da Objectividade, da narrativa histórica objectiva e visível; ‒ eis por que facilmente se tornou a epopeia nacional por antonomásia. As duas epopeias de Corte-Real primam por descrever e narrar as tragédias, os sentimentos trágicos dos actantes/personagens; o que preocupa, sobremaneira, o Autor, é o mundo da Subjectividade dos personagens. Como não estamos ainda na nova Cul-tura Alternativa, estas obras épicas de Corte-Real têm sido quase ignoradas (não fora a diligência laboriosa e inteligente do nosso sobrinho Hélio João dos Santos Alves). Ora, já existe, actualmente, em termos metodológicos, um Livro-padrão, que foi capaz de articular e entrosar as duas dimensões ou horizontes: o da Objectividade (das obras d’arte, nomeadamente, a Música) e o da Subjectividade (as reacções do organismo humano vivo, perante o fio de ocorrências e sons dos actores e actrizes no palco). O Livro é de João Paulo André (Prof. de Química na Univ. do Minho); e titula-se: ‘POÇÕES E PAIXÕES/Química e Ópera’ (Gradiva, 2018). Com Prefácio de Carlos Fiolhais, titulado: ‘A Ópera e a Química: duas fitas de uma só hélice’ (pp.11-17). J.P.A. parte do axioma de que a Química é a ‘ciência central’, no leque diferenciada das disciplinas científicas: é aí mesmo que se descobre como a ciência é criadora! A Química situa-se, por um lado, entre a matemática e a física, e por outro, entre a biologia e a geologia (contracapa). “O que há de comum entre a poção de amor de Tristão e Isolda, o voo das bru-xas em vassouras, a morte do príncipe Hamlet, a mãe do imperador Nero, Marilyn Mon-roe e… o compositor Giacomo Puccini? Tendo a ópera como fio condutor, o leitor é conduzido nesta obra numa viagem ao extraordinário mundo das poções e das paixões, que a química pelo menos em parte explica” (na contracapa). Nesta obra, o Autor foi capaz de articular e unir, de modo surpreendente, a química e a ópera (o subjectivo e o objectivo!... Escreve o Autor: “Segundo a compositora [mexicana, Gabriela Ortiz, 2010], a ópera ‘iUnicamente la verdad!’ [que ela mesma compôs] não é uma obra dramático-musical estritamente acerca da guerra da droga, porquanto também nela é levantada a questão da forma como a verdade é construída, acrescentando que ‘costumamos falar de tudo, excepto da própria verdade’ ” (ibi, p.228). J.P.A. desenvolve magnificamente este mesmo tema no parágrafo seguinte (ibidem), como segue: “Curiosamente, este ponto de vista vem exactamente ao encontro do que Terence McKenna defende no seu célebre (e radical) O Pão dos Deuses (1992). Segundo o autor etnobotânico, a planta do tabaco e a papoila dormideira, criadoras de dependência e destruidoras de indivíduos e sociedades, são as plantas com que o ser humano tem as relações mais intrincadas, apesar da forma completamente distinta como a sociedade olha para uma e para outra. Enquanto uma é ilegal (‘ferozmente reprimida, 148


atacada como suicidária e vista com o mesmo horror irreflectido, que gerações anteriores reservaram aos bolcheviques, às sufragistas e ao sexo oral'), a outra é permitida, sendo o tabaco a droga de origem vegetal mais consumida no planeta, causando morte precoce a milhões de pessoas. Trata-se de pura hipocrisia da sociedade, a qual, como McKenna refere, ‘selecciona as verdades e realidades com que se sente confortável’ ”. Em termos das normais operações/funções das sociedades, trata-se, como é óbvio do vício/heresia do que o C.E.H.C. tem chamado o esquema unicórnio do Objectivo-Objectualismo, próprio e inseparável das Sociedades tradicionais, balizadas e orientadas pela sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. Por isso mesmo, há, em tais sociedades tradicionais, tantas revoluções sociais falhadas nos seus objectivos essenciais. Por ex., a do Maio-’68, em Paris/França. “O legado actual do maio francês de ’68 é mais a onda arco-íris associada à ‘nova política’, aos novos movimentos sociais e à política das identidades, do que a vaga vermelha das greves operárias e da contestação do capitalismo” (André Freire: ‘Maio de ’68 ‒ Mudar de Sociedade ou mudar a Sociedade?’ (in ‘JL’, 2-15.1.2019, p.25).

DA VERA E AUTÊNTICA DEMOCRACIA ● O Bio-Psico-Sócio-Ânthropos (completo e integral) não pode ter outro Regime político senão o da vera e autêntica DEMOCRACIA, pela razão mais subs-tantiva e elementar: ele é um exemplar Humano, que funciona e opera segundo a nova gramática do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. (Esta gramática foi axiomaticamente proclama-da e explicada, operatoriamente, pelos dois Grandes Sábios/Profetas, suicidários: SÓCRATES E JESUS). O que é supremamente de lamentar é que, passados dois milénios e meio, a Humanidade e as Sociedades humanas ainda não se tenham dado aos cuidados e aos esforços de aprenderem, de facto as suas Lições. … Continuamos, ainda, sob o si-gno do ‘Homo Sapiens tout court’, em lugar de termos activado a transição para o pa-tamar superior do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, capaz de vivenciar a Liberdade Responsá-vel primacial e primordial. ‘Tu camino, mi camino… vien conmigo a buscarlo!... Es que el Camino se hace al andarmos ‒ los dos’!... (Glosando o poeta sevilhano Antonio Machado). Sócrates é, por excelência, o inventor do conceito e do Diálogo socrático para chegar a ele; ao mesmo tempo, com a sua morte, ele chancela o regime democrático, que estava ameaçado pelos ‘donos’ da Pólis. O Cristianismo é invenção de Saulo/Paulo, que nunca deixou a sua formação farisaica. Jesus, por seu turno, não quis fundar religião nenhuma: a um só tempo (Homem político, como o plasmou o Evangelho (Mensagem) Siríaco, titulado, metaforicamente, ‘José e Assenat’), Ele pregou um Evangelho centrado no Amor e na Justiça e, em prova disso, entregou-se à morte!!! Os Humanos são Seres de Evolução (a sua própria Identidade evolui!...). A Democracia (do ‘Homo Sapiens//Sapiens’) é como uma Grande Árvore (= vida vegetativa), que tem de nascer, crescer e desenvolver-se num grande Árvore frondosa, a partir de 149


terreno próprio, cultivado, adubado e regado periodicamente; e sempre bem cuidada, em face das más ou desviadas condições climatéricas. Essa Árvore, por sua própria natureza, invoca e radica-se nos Direitos Huma-nos, que, para conhecimento geral, foram solenemente proclamados a 10 de Dezembro de 1948, nos finais, portanto, das tristes e trágicas experiências dos Humanos, durante a IIª Grande Guerra (1939-1945). O Quadro societário dessa Democracia implica ou postula, necessariamente, a inclusão de todos os Alunos nas diferentes classes ou turmas, na Escola pública, integrada num bom e justo Sistema de Educação e Ensino. Sejam esses Alunos ditos normais, sejam eles portadores de N.E.E. (necessidades educativos especiais). Tal Quadro societário implica ou postula, ainda, a necessária reinvenção dos Sistemas Educativos, segundo a nova gramática da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, ‒ o que se exprime e desdobra numa práxis (docente e discente) de Equidade e Justiça, numa palavra, a gramática da Horizontalidade nas Relações Humanas. Não esquecer, aqui, que, na Nova Cultura, o Poder e a Autoridade são funções adjectivas e de coordenação, não substantivas e de imposição de regras e normas. Esse Quadro societário implica ou postula, ainda, uma índole e dimensão de autêntica psico-pedagogia Social. A obra do brasileiro Paulo Freire pode muito bem constituir o Almanaque constante e permanente, visto que articula, como ninguém mais fez, a Psico-Pedagogia, dum lado, e a Sociedade e as ciências sociais, do outro. ‒ Insistimos muito nisto, porquanto só por esta via poderão emergir e amadurecer (na idade adulta), enquanto métodos de vida, as mediações/institutos inter-culturais necessárias à Nova Sociedade, com a implicada transformação gradual das ‘velhas sociedades’ do ‘Homo Sapiens tout court’ para as Novas Sociedades do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Seja aqui lembrado o mantra de Nelson Mandela. ‘A Educação é a arma mais poderosa para mudar o Mundo’!... Bem como o axioma que é o significado preciso do Ubuntu (língua de tribo sul-africana, que se tornou a filosofia nacional da vida do Povo sul-africano): ‘Eu sou porque tu és’! Se o acesso ao conhecimento é primacial e fundamental para fundar a Liber-dade Responsável dos Indivíduos-Pessoas, por outro lado, a tomada de consciência de que há limites para os saberes práticos/operativos (a praxis), relativamente a terceiros, aos outros, é absolutamente necessária e indispensável para refundar a Liberdade Responsável, em termos firmes e inabaláveis. Ora, é, de facto, em tal horizonte que se deve moldar a relação simétrica/assimétrica de Educador-Educando. E, nesta perspectiva, não é demais solicitar à UNESCO, que tal Relação seja reconhecida como Património imaterial/material da Humanidade, com a sanção oficial da O.N.U.. Assinala o facto a directora da Revista ‘A Página da Educação’ (de verão de 2018, p.5), Isabel Baptista: “A Página junta-se assim a todos aqueles que consideram que é tempo de elevar a relação professor-aluno ou, num sentido mais amplo, a relação educador-educando, a Património Imaterial da Humanidade, em conformidade com os objectivos que presidem a esta distinção da UNESCO. Valorizar esta distinção significa, na verdade, reconhecer a especificidade, a relevância e a dignidade das profissões 150


educativas, perspectivando o direito universal à educação, num quadro de reafirmação dos valores humanos fundamentais”. A vocação/missão dos professores é difícil e desgastante; mas é, no entanto, a mais nobre e fecunda do mundo. Ao articular os tempos e as eras da História, mediante a ensinança-aprendizagem, é capaz de forjar e formatar, por inteiro, o vero ‘esprit de l’Humanité’. No parágrafo supra, Isabel Baptista caracteriza bem essa vocação/missão (ibidem): “Neste sentido, desrespeitar a autoridade daquele que ensina corresponde a um atentado contra a própria humanidade. Os professores são muito mais do que meros adultos de referência. Os professores são detentores de um conhecimento profissional específico e particularmente exigente, que os habilita para o exercício de uma autori-dade, que visa o desenvolvimento da liberdade ‒ a Liberdade de todos e de cada um. Tarefa complexa, difícil e por vezes impossível. Sobretudo se tivermos em conta que, enquanto relação intersubjectiva particular e original, a relação professor-aluno não se circunscreve a um mero ‘encontro a dois’, ela tem lugar num determinado contexto situacional, num grupo-turma, numa escola e numa comunidade, remetendo sempre para ecossistemas relacionais especialmente intrincados. Para que possam exercer com dignidade a difícil missão social e humana de que são investidos, para que possam actuar criativamente em contexto, em relação e em situação, os professores necessitam, eles mesmos, de mais liberdade, mais estima e mais reconhecimento” Num meio-ambiente mais largo e profundo, à escala planetária, do que a Escola e a sala de aula precisam, ‒ convirá meditarmos em parergos, simples mas densos, para uma boa Orientação. Fazêmo-lo, até a pensar nas correcções a exercer na obra última de Harari: ’21 Lições para o séc. XXI’ (já citada). Axiomas escolásticos/medievais, oriundos de Aristóteles: ‒ ‘Quo maior extensio, eo minor comprehensio, et vicissim’: Quanto maior é a extensão dos conceitos (ou noções), tanto menor é a sua compreensão e vice-versa. Este constitui um princípio válido: para as consequências tecnológicas das ciências físico-naturais; e, igualmente, para as acções e operações levadas a efeito no hemisfério das ciências bio-psico-sociais e humanas, em suma para toda a praxis societária. Por isso mesmo, o próprio Platão, em ‘A República’, quando pensava no conhecimento recíproco entre os cidadãos e os seus representantes eleitos, avançava com a dimensão de 400 cidadãos na pólis. Tudo isto não é outra coisa senão a aplicação do mesótes, o princípio formulado por Aristóteles (‘o meio-termo’). No Latin: ‘In médio Virtus’! ‒ Será a consciência humana um mistério, como pretende Harari, em última instância? Sim e não. Não é mistério, para o paradigma da Espécie ‘Homo Sapiens//Sapiens’, como já explicámos, antes, no seu Esquema triádico: Sujeito/Objecto/Testemunha. ‒ A Mente não se confunde com o cérebro: a Mente é o ícone e a abóbada de toda a vida interior do Indivíduo-Pessoa. ‒ O que é próprio e específico do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, como sua marca identitária é o parergo/mantra seguinte: Não há vera Liberdade sem a sua base constituída e fundada na Igualdade social comum. (Cf. ‘Le M.D.’, Dezembro de 2018, pp.1 151


e ss.). O Capitalismo de super-vigilância (que já vai sendo o de hoje…) está baseado, apenas, na noção de ‘livre arbítrio’ (a lei do Pêndulo de Foucault), que logo dribla, convertendo todos os processos e operações em previsões determinísticas. (Cf. ibi, p.3). ‒ O insuspeito Adam Smith (1723-1770) já dizia sobre a Governação: ‘Não há arte que um governo aprenda mais depressa com outro do que a de tirar dinheiro da bolsa do povo’ (in ‘A Riqueza das Nações…’). ‒ Jean de La Fontaine (1621-1695: o famoso das fábulas!...): ‘A paciência e o passar do tempo fazem mais do que a força ou a raiva’. ‒ Martin Luther King e a sua famosa citação: ‘O arco do universo moral é longo, mas inclina-se na direcção da justiça’. Eu justifico: por causa da lei moral da Igualdade Humana e da lei física da horizontalidade dos humanos, sempre à espera/esperança de concretização. ‒ Igualdade?!... Qual Igualdade social?... Quando 6 multibilionários dispõem de mais de metade de toda a Riqueza do Mundo?!... O resto da população tem de repartir a metade do Bolo em pequenas parcelas, deixando as migalhas aos pobres e sem tecto… (Cf. ‘JL’, 19-12 ‒ 2.1.2019, p.31). O Art. é de Boaventura de Sousa Santos e tem por título: ‘Explicar a igualdade aos 1% mais ricos do Mundo’. ‒ Quem vai perder no Futuro? O homem ou a máquina?... (Vd. art. de Cátia Mateus in ‘Exp.’, 1º Cad., 24.11.2018, p.38). A visão exposta ainda se encontra estruturada no quadro da Cultura do Poder-Dominação d’abord: dualista, portanto. A Gramática do C.E.H.C. não contou quase nada para a concepção e o plano das Tecnologias Adequadas.

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EM BUSCA DA ‘CASA COMUM DA HUMANIDADE’

CULTURA/CIÊNCIA ECOLÓGICA EM UNIÃO ARTICULADA COM O REGIME DEMOCRÁTICO UNIVERSALIZADO

N.B.: ‘Ut unum sint’ (do genuíno Evangelho de JESUS): ‒ A partir da Base e não do topo da pirâmide societária: os Indivíduos/Pessoas/ /Cidadãos. ‒ Mediante o exercício da Liberdade Responsável primacial e primordial: a Nova Cultura Alternativa. ‒ A Autoridade/Poder transmutou-se em exercícios de Coordenação e de Cooperação, como convém a uma Sociedade fraterna e horizontalista. ‒ Sem Divindades uranianas nem Mestres aureolados. ‒ Incluindo todas as Nações/Estados da Terra (ca. de 200…): Todos os que detêm o exercício de comando (para o que foram preparados), terão de ser eleitos pelas diferentes comunidades nacionais. ‒ Não mais a Guerra, para dirimir as Questões. Há modos pacíficos para resolver todos os problemas.

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N.B.: ‘Regnum meum non est de hoc mundo’! ‘Si ex hoc mundo esset regnum meum, ministri mei utique decertarent ut non traderer Judeis; nunc autem regnum meum non est hinc’ (Jo. 18,36). (Do genuíno Evangelho de Jesus: até porque o evangelho de João é obra de três autores: João, Filipe e Jesus): O meu Reino não é deste mundo! Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus ministros combateriam, por certo, para que Eu não fosse entregue aos Judeus. Ora, o meu Reino não é nada que se assemelhe a isto!... ‘Se o meu Reino não é daqui’… ‒ também não é do ‘outro mundo’, do Além, post-mortem, como se tem concebido e interpretado, tradicionalmente, desde há mais de dois milénios, segundo o pré-configurado Dualismo metafísico-ontológico de Platão e de Saulo/Paulo. Como tem ensinado os Cristianismos e o Catolicismo tradicionais, e, por ricochete, a maior parte das religiões institucionalizadas (estas e o dogma do monoteísmo hebraico, islâmico e cristão constituem as maiores heresias do mundo). É claro que as religiões, enquanto tais, fazem parte da Filosofia e, por essa razão, ajudam-nos a pensar e a procurar os caminhos mais acertados que a Filosofia e as Ciências (psico-sócio-humanas) nos ditam ou inspiram. Os caminhos certos, que nos podem indicar uma boa Filosofia criticista e dialógica e as ciências bio-psico-sociais e/ou humanas, não são, seguramente, os do Dualismo metafísico-ontológico, mas, outrossim, os que emergem e se configuram, a partir do Diálogo socrático, da Justiça jesuânica e do Hilemorfismo aristotélico (o hilemorfis-mo tomista, colhido nas traduções árabes de Aristóteles é só ‘meia missa’: constitui um remendo medieval, para servir às gentes, através de Tomás d’Aquino, um cristianismo legitimado e aceitável, sem questionar o estrutural-estruturante Dualismo platónico-paulino institucionalizado nas religiões instituídas, mormente nas monoteístas. Eis por que, para o Filósofo/Sábio JESUS, que no seu processo e na resposta a Pilatos disse o que acima foi exarado, o dilema pertinente que se nos põe é só um (que resume todas as outras Questões). Ou a tradicional Cultura do Poder-Dominação d’abord (esta noção da Dominação já fora largamente explorada por Max Weber); ou a nóvel Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. Nesta Cultura, não se fala de ‘livre arbítrio’ e do Poder substantivado; fala-se, outrossim, da Liberdade Responsável substantivada (como a pensava o ateu Sartre) e da Autoridade/Poder adjectivada.

A GRAMÁTICA DA ‘REDUCTIO’ DE TODAS AS INSTITUIÇÕES E EMPRESAS AO CINCHO/ÂNCORA DOS INDIVÍDUOS-PESSOAS/CIDADÃOS 154


● É isso mesmo que pressupõe e implica, desde logo, o Princípio Alternativo da Liberdade (pessoal) Repsonsável. Haver Instituições (como alguns Estados) ou Empresas (como as multinacionais) a funcionarem (ou a disfuncionarem… com ‘passes de mágica’, corrupção real ou disfarçada) é, desde logo, um non-sense, e em última instância, um crime contra o Direito justo e a Democracia legitimada: na Lei Natural!!! Vendo bem, e criticamente, os problemas societários, que surgem quotidianamente, é forçoso concluir que, em Regime verdadeiramente Democrático (não há outro para os cidadãos cujo pedigree é buscado no paradigma do ‘Homo Sapiens//Sapiens’), o Sistema Capitalista não tem assento: muito menos, quando se configura de modo selvagem, como tem ocorrido nas últimas três décadas, sob a chancela do Neoliberalismo (capitalista) global. Por definição, o Sistema capitalista só suporta e promove a chamada ‘democracia liberal’; mas tal democracia não passa de um embuste, um grande malogro para ¾ das populações de um País. Aí, em vez do Ser (dos cidadãos) é o reino do Ter que impera e é hegemónico. Deve atentar-se e estar precavido para este descaminho. A cartilha da Modernidade ocidental nunca conheceu outra gramática da Democracia senão a da ‘democracia liberal’, até sob o pressuposto que, de tal sorte estava a fazer oposição ao ‘comunismo soviético’ (no séc. XX), quando, na verdade, segundo J.K.G., o regime soviético não passava de a outra face da Moeda do Capitalismo (‘capitalismo monopolista de Estado’). Há, pois, que mudar de rumo: meter o comboio da Civilização humana nas veras e autênticas calhas da História. O exercício do Capitalismo tem sempre de ser domado e regulado pela soberania dos Estados. O princípio é, inabalavelmente, o seguinte: Em Regime Democrático, o primado da Política deve exercer a sua preponderância sobre os movimentos e as operações da Economia política e sobre os próprios Orçamentos de Estado. De contrário, o Estado, singularmente considerado, não poderá ajudar e apoiar as classes sociais mais desfavorecidas, ‒ o que acontece, necessariamente, quando um Estado (como Portugal) se acha integrado na U.E. e, por isso, submetido à regra da não ultrapassagem do déficit orçamental dos 3% (segundo o Tratado de Lisboa). Essa regra constitui, na sua inflexibilidade, uma aberração, dado que os poderes de compra dos cidadãos dos diferentes 27 Estados são diferenciados. Por que não se adoptou uma regra flexível, para deixar margem de actuação à Questão em causa: v.g. um limite entre 2 e 6?!... O novo universo virtual (na base da Hegemonia do Mercado) trouxe, consigo, não só a turbulência crísica do Neocapitalismo global, como todo um sistema do chama-do ‘supercapitalismo de vigilância’, onde é possível acumular dinheiro e capital, simplesmente através de propostas, anúncios, imagens de publicidade!... Por outro lado, as multi-transnacionais (com as suas sucursais deslocalizadas), não só se furtam aos respectivos pagamentos de impostos como recorrem a off-shores para o mesmo efeito. Em suma, exercem, sem dolo nem pena, uma autêntica hegemonia (global) sobre os Esta-dos. O primado absoluto do económico sobre o político. O que constitui o pecado ori-ginal das ‘democracias liberais’ modernas. Em resumo: todos estes são problemas de organização, graves e estruturais, que não encontram a sua vera e eficaz solução no quadro do Sistema Capitalista. Estamos, por conseguinte, absolutamente carentes (os Estados/Nações e a Economia política) de 155


toda uma Política Alternativa, que tem de ser estruturada e orientada no sentido da edificação do vero e autêntico Socialismo, que tem de passar, adequadamente, pela Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. As relações humanas ‒ todas elas ‒ têm de ser sincronizadas, subjectiva e objectivamente, do lado do Sujeito (falante) e do lado do seu interlocutor. Ora, quando ‒ como acontece, em regra, no nosso mundo actual ‒ se entrega (quase) tudo no mare magnum da heresia moderna do Objectivo-Objectualismo (as Grandes Empresas, as Grandes Instituições), como se elas constituíssem uma natureza própria (e primeira...), distante da responsabilidade das pessoas e empregados, ‒ é fatal que, a curto, médio e longo prazos, sempre haverá crises e falhanços e desfalques e falências, que ninguém poderá moderar ou controlar. As indústrias e o próprio comércio modernos estão cheios e saturados destes desastres cíclicos. A isto chamam, com bonomia ou rebeldia cínicas, ‘crises periódicas’. Ora, na verdade, todo este processus desviado entronca, sempre, nessa moderna heresia do Objectivo-Objectualismo (que o C.E.H.C. não se tem cansado de repudiar). O que se pode fazer entre um ‘Eu’ e um ‘Tu’ não reclama interven-ção de ‘terceiros’!... ‒ Será a Humanidade, no seu conjunto, capaz de cumprir o Acordo climático-ecológico estabelecido em Paris (2015)? Pedia-se, nesse Pacto, que até 2050, pelo menos, as So-ciedades humanas (no que toca às Alterações ecológicas e climáticas e, sobretudo, aos ‘efeitos de estufa’ (dióxido de carbono acumulado…) fossem capazes de baixar de 2 graus centígrados a temperatura média actual, até aos tempos do início da Revolução Industrial (1720). Ora, a recuperação e a preservação continuada do Sistema das temperaturas terrestres e a continuada governação neoliberalista/capitalista, à escala global, das economias nacionais são absolutamente incompatíveis. A primeira conclusão a extrair da situação de catástrofes (em que já nos encontramos) impõe-nos que o Sistema económico capitalista seja drasticamente regulado e controlado pelos Governos dos Estados/Na-ções. A segunda conclusão (quase em jeito de Plano B) é a seguinte: esse plano (climatico/ecológico), a melhor maneira de o executar é constituída pelo Esquema veramente socialista de organização das Sociedades humanas, ‒ o que, na Modernidade nunca veio a acontecer!... No caso de começar a falhar o Plano A para resolver a problemática das temperaturas e das Alterações climáticas, terá a O.N.U. (agora dirigida pelo socialista António Guterres, como seu Secretário-Geral) capacidade e ousadia para promover o Plano B, solenemente, argumentando, numa retórica honesta, que as duas ordens de Questões são indissociáveis e é chegada a oportunidade histórico-societária, para pensar seria-mente, e sem disfarces, no plano do vero e autêntico Socialismo?! Os sistemas democráticos modernos (no Ocidente, seu protagonista) devieram, sempre, falazes e dúplices, na medida em que estavam baseados em ideias/ideologias, políticas/ideológicas (próprias da Cultura do Poder/Dominação d’abord); isso acontece desde a Revolução Americana (1776), desde a Rev. Francesa (1789), depois, desde as revoluções socialistas e comunistas/bolsheviques, até ao presente. Dir-se-á que tais sistemas democráticos não se apoiavam, positiva e expressamente, nos Sujeitos huma156


nos, enquanto Indivíduos-Pessoas e Cidadãos. Por isso, veio logo o recurso ao enquadramento em Partidos políticos (a pecha do Objectualismo): Tudo, e sempre, enquadrado na Cultura do Poder-Dominação d’abord, onde, no hemiciclo parlamentar, havia lugares para o Centro, a Direita e a Esquerda. A doutrina e as intervenções passavam sempre pelo mesmo crivo do Objectivo-Objectualismo. Amartya Sen (Prémio Nobel e um dos maiores pensadores da nossa era), no Livro ‘Escolha Colectiva e Bem-Estar Social’ (Almedina, 2018, p.331) escreveu o seguinte: “Embora a história da democracia seja longa e tenha assumido várias formas, a emergência dos sistemas democráticos modernos relaciona-se estreitamente com as ideias e circunstâncias em torno do Iluminismo europeu. Na base do desenvolvimento de arranjos sociais democráticos estiveram fontes e inspirações de todo o mundo mais antigas, mas a sua delimitação definitiva e apoio enfático foram-lhe dados pela Europa, na segunda metade do século XVIII, com a Revolução Francesa e com a declaração de independência das colónias britânicas na América do Norte. A estratégia básica da escolha social ‒ inspirar-se nas preferências individuais (tendo em consideração as preferências de todos) em relação ao conjunto de estados sociais alternativos para chegar a decisões sociais, que é fundamental para a teoria da escolha social moderna ‒ faz parte desse compromisso democrático partilhado”. Continua o autor na busca da origem deste método da escolha colectiva: “Na teoria da escolha social contemporânea, iniciado por Kenneth Arrow, os valores demo-cráticos são absolutamente centrais e a disciplina tem permanecido fiel a esse pressu-posto básico” (ibidem). Com tal disciplina e rigor, é fácil detectar os ditadores ou os de-tentores de monopólios!... Em democracia, o desafio é simples: diante das situações de franca ditadura, o Autor propõe (ibi, p.332): “Perante uma conclusão autoritária, temos de pensar que proposição pode ser abandonada ou modificada, para tornar o resultado menos autoritário”. Mas o próprio Arrow acabou por reduzir a ‘Teoria da impossibilidade’ (em econ. e na área do Mercado…) à aceitação do paradoxo do voto. Escreve A.S.: “O resultado da impossibilidade de Arrow é muitas vezes visto como uma generalização do velho paradoxo do voto. O próprio Arrow incentiva essa visão, e motiva a apresentação do seu resultado de impossibilidade, referindo-se ao paradoxo do voto (como eu fiz igualmente na Introdução)” (ibi, p.334). Tudo isto acaba por ser arrazoado segundo a principiologia da subordinação clássica da Economia à Política! Assim, a escolha em grupo, ou escolha colectiva, no mundo da Economia política, deveriam ser a Regra, para se conseguir o Bem-Estar Social, generalizado a todos os cidadãos de uma Nação, a viverem em regime democrático e participativo. (Cf. A.S., ibi, pp.43…). De resto, os esboços originais da Teoria da Escolha Social já haviam sido abordados para a Revolução Francesa, por Condorcet e Turgot. Mas a Disciplina da Teoria da Escolha Social só vem a começar, decisiva-mente, com Kenneth Arrow (vd. ibi, p.46, pp.18-19). A Crise da Economia do Bem-Estar aumentou por causa da falta de informação adequada e identitária; e a escassez de informação tornou-se a causa dos problemas de escolha social (idem, ibi, p.5, pp.57-58). “Também merece a pena recordar que a filosofia utilitária e, influenciada por ela, a economia social do bem-estar tiveram enormes 157


restrições de informação. Não era permitido fazer qualquer uso de informações não-utilitárias, uma vez que tudo tinha de ser julgado, em última instância, por somas totais de utilidade em situações consequentes. A essa exclusão informativa foi agora adicionada a exclusão adicional de comparações interpessoais de utilidades, juntamente com a utilidade cardinal, inutilizando a ideia de utilidade de soma total, sem remover a exclusão de informações não utilitárias” (idem, ibidem). Isto complicou e baralhou todo o processo, levando quase a pôr de parte a Questão da Escolha do bem-estar social!... Não se pode ignorar que há, aqui, semelhanças com a problemática do pleno emprego de Keynes. Há limitações, sem dúvida; mas o voto constitui, ainda, um instrumento útil para a economia do bem-estar social. “A importância das eleições e referendos dificilmente pode ser negada nos procedimentos de escolha social. Ainda que o processo de voto seja bastante insatisfatório como forma de fazer apreciações de economia do bem-estar social, há decisões políticas, que uma sociedade tem de tomar, nas quais o processo de voto permanece uma importante via para a escolha social” (idem, ibi, p.75, p.77, p.81). O ideal seria que as Sociedades humanas se organizassem de tal sorte que pudessem devir uma espécie de Casa Comum da Humanidade, em regime de Condomínio alargado, universal. É-nos imperioso, nesse novo horizonte, que sejamos capazes de re-aprender as Coisas da Terra (e suas Causas!...), as físico-bio-naturais, com o intuito positivo e eficaz de reconfigurar o nosso Direito e plasmar as Sociedades humanas em conformidade com ele. Em dadas circunstâncias, tem-se a noção de que a Discussão (dialogada) pública das diferentes alternativas é mais producente e fecunda do que o processo das votações. Sobre este assunto, o Autor escreve (na nota de rodapé, p.338): “Pode haver alguma insatisfação, mesmo em problemas políticos, com a possibilidade de decidir algo baseado numa votação, em vez de ter uma discussão mais aprofundada, negligenciando a necessidade de qualquer esclarecimento e compreensão das questões envolvidas. Vo-tar sob alternativas escassamente descritas ‒ e, por vezes, descritas erroneamente ‒ para uma resolução rápida pode ir contra uma escolha social mais bem informada e mais sensata. Pode haver uma boa razão para a restrição, antes de se solicitar uma votação. Existem muitos comités para a tomada de decisões profissionais, em que o consenso baseado numa discussão é completamente preferido a uma rápida decisão baseada na contagem de votos”. Desta sorte, a problemática da escolha social poderia esquematizar-se do seguinte modo: a) Voto, em última instância, para as questões, que estão fora dos próprios interesses directos dos indivíduos em causa; b) de contrário, a livre discussão pública é preferível, ainda que as questões possam vir a exigir, posteriormente, a votação (cf. idem, ibi, p.340). Como escreveu Buchanan (1954a, ibi, p.120), a Democracia é a ‘governação pelo Debate’, ou seja, os valores individuais podem mudar no próprio processo da tomada de decisão (ibi, p.344). Na esteira de Condorcet (o 1º teórico da escolha social, no séc. XVIII) “precisamos de um raciocínio disciplinado, quando almejamos a ética social e a avaliação de informações sobre justiça social, assim como outros problemas de escolha social” (idem, ibi, p.525). 158


Nos tempos recentes, tem-se encontrado um género de pessoas empenhadas em valorizar um determinado tipo de vida. Essas ideias já foram referenciadas por Aristóteles (‘o Filósofo’ de Estagira), e, até certo ponto, pelo próprio Adam Smith. Essas pessoas, o que buscam é viver vidas válidas e valiosas. Escreve A.S. (ibi, p.422): “Aristóteles viu isto em termos de ‘florescimento humano’. Entre outras coisas, ele indicou, em Nicomachean Ethics, que a riqueza ‘não é, evidentemente, o bem que busca-mos’ ‒ ‘pois é meramente útil e para outro propósito’ ”. A teoria da escolha social, como instância normativa, é importante e decisiva, para defender e aprofundar e alargar a Democracia participativa. (Cf. idem, ibi, p.534). Condorcet e Malthus ainda hoje os vemos em confronto um com o outro: “Enquanto Condorcet, o iniciador da teoria da escolha social, se concentrava na racionalidade e na educação (particularmente das mulheres), Malathus nunca abandonou a insistência de que apenas a compulsão draconeana pode ajudar a conter a onda de crescimento populacional. Esse debate ainda prossegue” (idem, ibi, pp.536-537). Proh dolor!... O postulado resultante de toda esta problemática, o principal, é o de compreender e promover, o mais possível, o Movimento (moderno/iluminista) da Racionalidade Humana (cf. idem, ibi, p.538). Logo a seguir, é o postulado da Governação pelo Debate, como ensinava Stuart Mill (in ‘On Liberty’). (Vid. idem, ibi, p.539; pp.539-543). A seguir, é o postulado da Democracia participativa, exigido pela gramática da autên-tica Democracia (cf. idem, ibi, pp.461…). Depois disso, é preciso abrir o campo às comparações interpessoais: ordinais (nível) e cardinais (perdas e ganhos), em tudo o que concerne a noção de bem-estar social, como procedeu Rawls, em nome do ‘Princípio da Diferença’: os que são os mais desfavorecidos (cf. ibi, p.404). Para julgamentos normativos é necessário, por definição, a base informativa (ibi, p.405…). Sobre a Justiça como Equidade, de John Rawls, A.S. escreveu acertadamente o seguinte (ibi, p.414): “Ao descrever uma estrutura justa que seria alcançada, Rawls invoca dois princípios: O primeiro exige uma liberdade mais extensa para cada pessoa, consistente com a liberdade semelhante para as outras. Isto tem prioridade sobre o segundo princípio, que insiste em, primeiro, assegurar que os cargos e oportunidades são abertos a todos, e segundo (sob o Princípio da Diferença ‒ um componente do segundo princípio), que as desigualdades sejam consideradas injustas, excepto na media em que elas se revelem ser do interesse dos mais desfavorecidos”.

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OS DOIS DESAFIOS: O Desafio Biotecnológico e o Desafio da Tecnologia de Informação: Entrosamento dos dois

‒ Pressupomos e prevenimos que as duas vias poderão vir a ser articuladas. Antes disso, é preciso saber e estabelecer claramente: ‒ A necessária e fecunda articulação do Processo disruptivo e apocalíptico das Alterações Climáticas e o processo veramente socialista de organização das Sociedades Humanas (este questionamento é da ordem da Objectividade universal). ‒ Implicadamente, é preciso alimentar o espírito criticista do Bio-Psico-Sócio-Ânthropos, por forma a ir promovendo a transição civilizatória do ‘Homo Sapiens tout court’ para o ‘Homo Sapiens//Sapiens’, o vero paradigma da Espécie; a transição imperativa da Cultura do Poder-Dominação d’abord (que é, generalizadamente, ainda a nossa) para a nova Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. ‒ As Questões de desafio e conflito entre a I.A. (Inteligência Artificial) e a Inteligência Natural e sua cúpola, a Consciência, já se dão aqui por resolvidas, adequadamente, não só ao longo deste Livro, como ao longo de outras obras do C.E.H.C.. Resultam, em tal horizonte, puras falácias sem sentido. Não esquecer que a Consciência Humana (no ‘Homo Sapiens//Sapiens’) é uma Realidade genuinamente triádica: Sujeito (indiv.)/Objecto/Testemunha. (Tudo se passa, do ponto de vista externo, objectivamente como num Tribunal). 160


Se compararmos o terceiro livro de Yuval Noah Harari: ’21 Lições para o Sé-culo XXI’, com os dois livros anteriores (‘Homo Sapiens’ e ‘Homo Deus’), é forçoso darmonos conta de que o terceiro é muito mais sensato, menos especulativo e incide exponencialmente sobre problemas reais e comuns aos cidadãos. Vamos, por isso, respigar, aqui, alguns temas (mais ou menos consensuais). Desde logo, no intróito da Iª Parte, em torno do Desafio Tecnológico, pode ler-se o guião (p.21): “A Humanidade está a perder a fé na narrativa liberal, que dominou a política global nas últimas décadas, precisamente no momento em que a fusão entre a biotecnologia e a tecnologia da informação nos confronta com os maiores desafios, que a Humanidade algum dia encarou”. Começa ele, no 1º cap. com o tema da Desilusão sobre o Fim da História, que foi adiado (criticando o best-seller de F. Fukuyama: ‘o Fim da História e o Último Homem’, escrito e logo publicado sobre o Colapso do Sovietismo em Agosto de 1991). Perdeu-se a fé na narrativa liberal?! Já desde há muito que se havia perdido a fé na narrativa liberal, se entendermos por essa expressão a ‘democracia liberal’, sob o guarda-sol do Capitalismo, da qual se dizia ser a única via alternativa ao comunismo soviético… Os eruditos criticistas já sabiam, há muito, que essa democracia liberal não passava de um embuste, como o sovietismo não passava de um scarecrow: o que ele era, de facto, era ‘capitalismo monopolista de Estado’ (J.K.G.). Eis por que, o próprio Harari deixa o caminho da História aberto a outros Projectos e Programas… mas que se pretendem autenticamente alternativos; e não mais o mesmo do passado. Ora, esta Problemática passa, precisamente, por um novo e honesto Estudo do que é, autenticamente, o Bio-Psico-Sócio-Ânthropos, completo e integral. Esta via só é reconhecível no horizonte do Diálogo socrático, da Justiça jesuânica e do Hilemorfismo aristotélico. Contra o Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo e, em geral, de todas as religiões institucionalizadas (que ainda subsistem como tais). Que pretendem os israelenses com o seu sonho de regresso ao passado de há 2.500 anos?!... “Os membros do governo de coligação israelita falam abertamente da sua esperança de expandir as fronteiras modernas para que coincidam com as fronteiras da Israel bíblica, de votar a instituir a lei bíblica e, até, de reconstruir o antigo Templo de Javé, em Jerusalém, no lugar da mesquita de Al-Aqsa” (idem, ibi, p.36). “Ao invés disso, ‘os princípios dos mercados abertos e da governação responsabilizada, da democracia, dos direitos humanos e da lei internacional continuam a ser, neste século, a base mais firme para o progresso” (ibidem). Entretanto, pelo que escreve, o Autor já está precavido contra o liberalismo: “Mas o liberalismo não tem respostas claras para os grandes problemas que enfrenta-mos: o colapso ecológico e a disrupção tecnológica. Tradicionalmente, o liberalismo de-pendia do crescimento económico para resolver, como que por magia, os difíceis confli-tos sociais e políticos” (idem, ibi, p.37). Mas o Autor é mais ingénuo, ao escrever: “O liberalismo reconciliou o proletariado e a burguesia, os devotos com os ateus, os nativos com os imigrantes e os europeus com os asiáticos, ao prometer a todos eles uma fatia maior do bolo” (ibidem). O simples crescimento económico nunca resolveu os problemas da pobreza!... Deve atalhar-se… 161


Por outro lado, a pressuposição de que as intuições, desejos e emoções não passam de algoritmos é uma asneira tremenda… (cf. ibi, p.43). “Assim, a ameaça de perda de postos de trabalho não resulta apenas do desenvolvimento das tecnologias da informação. Resulta da confluência das tecnologias da informação com a biotecnologia” (ibidem). Onde o A. escreveu com alguma sensatez foi: “Evitar completamente a perda de empregos é uma estratégia pouco atractiva e, provavelmente, impraticável, porque significa abdicar do potencial imenso da inteligência artificial e da robótica. Todavia, os governos podem decidir abrandar deliberadamente o ritmo da automatização, para mitigar os choques que daí resultarão e conseguir mais tempo para fazer ajustes” (ibi, p.58). ‒ Tempos virão em que as massas populares, em vez de se unirem para combater a exploração, irão unir-se para combater a irrelevância, a que são relegadas!... Mas o Autor continua a pressupor (erradamente) que a Liberdade procede do ‘livre arbítrio’, sistemático na espécie [do ‘Homo Sapiens tout court’.]. (Cf. pp.69 e ss.). Entretanto, ele não cai no erro grosseiro de pressupor que os computadores e a I.A. da Robótica irão, um dia, ganhar consciência!... Diz o A.: “a inteligência e a consciência são coisas muito diferentes. A inteligência é a capacidade de resolver problemas. A consciência é a capacidade de sentir coisas como dor, alegria, amor e raiva” (ibi, pp.9598). ‒ É muito pouco para balizar a noção de Consciência!... Há uma Pergunta crucial, que Y.N.H. inscreveu na contracapa deste seu Livro: ‘Mas será que ainda sabemos quem somos?’ Não sabemos se a Pergunta constitui um desafio ao leitor, ou se Harari tem uma Reposta pertinente e adequada para a Pergunta que fez. A nosso ver ‒ que lemos o livro de fio a pavio, não encontrámos a tal Resposta. Consideramos, porém, este 3º Livro mais sensato que os dois anteriores (já referenciados). No último capítulo, em jeito de, reflexivamente, se por em causa a si mesmo, ele tem a sensatez e a astúcia de invocar a chamada ‘Vipassana’, aquilo a que os ocidentais chamam Meditação, e que os budistas designam por aquele vocábulo. A ele não lhe repugna chamá-la com o sintagma dos ocidentais, para logo o tornar equivalente a: ‘Observar, simplesmente’! (Cf. ibi, pp.353…). Ora, para nós, não se trata só disto: a semântica normal de observar impõe ao Sujeito humano um olhar polarizado no exterior; ‒ ainda que seja um exterior baseado no mantra do filósofo espanhol, Ortega y Gasset: ‘Yo soy yo y mi cirsunstancia’. Por outro lado, os ocidentais têm uma tendência (caracteriológica) invencível para o lado exterior das coisas e das pessoas. E, muito facilmente, descuidam o interior ou menosprezam o que é interno, i.e., a plenitude do Sujeito ou seja, da Identidade própria. É por isso que o seu viver em Sociedade se acha balizado e orientado para os conflitos e as guerras e para um horizonte de supremacia verticalista. As hierarquias não podem faltar no seu mundo. O Autor padece da heresia ocidental, a que o C.E.H.C. chamou o Objectivo-Objectualismo. E desta doença padecem, no Ocidente, a maior parte dos cientistas e dos filósofos!... Harari faz questão de distinguir estas duas realidades: mente e cérebro. Por enquanto, parece ter razão, à luz das ciências contemporâneas. Ele está contra os cientistas 162


que confundem as duas coisas… Diz ele (ibi, p.357): “O cérebro é uma rede material de neurónios, sinapses e bioquímicos. A mente é um fluxo de experiências subjectivas, tais como dor, prazer, ira e amor. Os biólogos partem do princípio de que o cérebro, através de um qualquer processo, cria a mente, e de que as reacções bioquímicas, através de um qualquer processo, criam experiências como dor e amor. No entanto, até agora, não temos absolutamente explicação nenhuma sobre como a mente emerge do cérebro”. ‒ Será só do cérebro que a mente emerge?!... Como somos tão objectivo-objectualistas!!... O que nos leva facilmente, tanto à esquizofrenia como à hipocrisia, ‒ tudo, menos a simples honestidade identitária. Não poderá a mente proceder, no oceano da Linguagem humana, também da língua Ubuntu (sul-africana), cujo significado preciso é: ‘Eu sou porque tu és’! Facilmente nos esquecemos da dimensão social, de toda a Sociedade que nos envolve e de que fazemos parte operativa. A Vipassana foi descoberta na Índia antiga por Buda. Isto mesmo leva H. a pressupor que tanto a Vipassana como a Meditação (a tradução ocidental) são, inexoravelmente termos técnicos, próprios das religiões institucionalizadas!... Para nós e para muitos (inclusive budistas…), o Budismo não é propriamente uma religião. Como, de resto, o Jesuanismo (que nós professamos) e não o consideramos nada parecido com o Cristianismo (fundado pelo fariseu Paulo/Saulo de Tarso). O Autor, entretanto, chega à lucidez de considerar o termo ‘meditação’ em sentido lato: “Hoje, este termo é muitas vezes associado à religião ou ao misticismo, mas, por definição, a meditação consiste em qualquer método, que permita ao próprio obser-var a sua mente” (idem, ibi, p.359). Nesta matéria, o que conta, para H., é sempre a mes-ma percepção objectual: “A prática concreta consiste em observar as sensações corpo-rais e as reacções mentais às sensações de uma forma metódica contínua e objectiva, revelando assim os padrões básicos da mente” (idem, ibi, p.360). Dir-se-á que é uma prática solipsista… Entretanto, no mesmo horizonte, o A. assevera que “a consciência é o maior mistério do universo, e os sentimentos mundanos de calor e comichão são tão mistériosos como sentimentos de arrebatamento e união cósmica” (idem, ibidem). Isto é mesmo brincar cinicamente com tudo, sem qualquer base no senso comum criticista! No intróito à 2ª Parte do Livro, sobre o Desafio Político, o Autor inscreveu este guião com sensatez: “A fusão da biotecnologia com a tecnologia da informação ameaça os valores modernos essenciais da liberdade e da igualdade. Qualquer solução para o desafio tecnológico terá de implicar a cooperação mundial. Mas o nacionalismo, a religião e a cultura dividem a Humanidade em fracções hostis e dificultam muito a cooperação global” (ibi, p.109). O remédio, para tais obstáculos são Sistemas educativos correctos/actualizados, com dimensão global. De resto, deve saber-se que a lei da cooperação impõe-se a todas os níveis, desde o tecnológico ao político e ao cultural (mesmo no sector específico de cada nação). Trata-se de um Desafio de cada comunidade (ibi, pp.111…); trata-se de um Desafio da Civilização hodierna do Mundo, que é uma só (preponderante) (ibi, pp.119…); para o desafio entre as culturas nacionais, umas melhores que as outras…, e a problemática da imigração (ibi, pp.170…). É a problemática dos nacionalismos, que precisam de 163


metamorfosear-se no sentido universal (ibi, pp.137…). E a religião? ‒ Agora é Deus que está ao serviço da Nação!... (ibi, pp.155…). Um dos problemas cruciais, que merecem atenção redobrada: Em busca da mesma Civilização global não implica o abastardamento das autênticas culturas nacionais. Bem pelo contrário! (ibi, pp.135-136). Não esquecer que o recrudescimento dos nacionalismos surge, habitualmente, por causa do trend estrutural do processo de Globalização em esquema hierárquico-capitalista. Seria processo muito diferente se caminhasse pelas calhas da Cooperação e da Horizontalidade. (Ibi, p.137; p.139; pp.148-9; p.152). Os europeus, por seu turno, não podem entrar no desespero: Liberdade e Tolerância, e Humildade suficiente, por causa do seu próprio passado colonial e imperial… Não entrar, pois, em pânico, contra o Terrorismo (ibi, p.189). A 1ª recomendação da O.N.U deveria ser a proposta da Paz, para acolher os forçados à fuga e ao exílio; por causa da guerra (como acontece na Síria, desde 2011). Os Organismos da O.N.U. deveriam assumir, face ao Mundo conturbado e em guerra, o estatuto de orientação crítica e pacificadora, de Coordenação harmoniosa das sociedades políticas e, mesmo, de orientação macro-económico. Seria o começo de uma Governação democrática universal! A falta de humildade e a arrogância e o supor que a própria Nação é o centro do mundo ‒ é a maior estupidez social com danos colectivos!... (Cf. ibi, pp.213-214). ‘Ama o teu próximo como a ti mesmo’, além dos Evangelhos do N.T., já se encontra no Levítico (19,18). Sobre a Ética básica do Republicanismo, à escala da Nação e no plano do Municipalismo. Recebemos do Vice-Presidente do C.E.H.C., João Barcellos, de Cotia/São Paulo (Br.), um e-mail, datado de 16 de Setembro de 2018, em torno do tema: ‘Voto Obrigatório & Emancipação Municipal’. Vamos, aqui, transcrever algumas teses do texto de 2 pp., que, levando embora a marca da sua circunstância própria, tem todo o interesse e pertinência. (Conservamos a redacção brasileira). ‒ “A essência republicana tem um princípio fundamental: a democracia é um ato de consciência sociopolítica embasada na fraternidade e na escolha livre”. ‒ “Eis que as nações que forçam institucionalmente o Voto não acatam a escolha livre dos representantes do Povo. E se este é obrigado, sob penas duras, a votar, é porque o exercício da Democracia é um ato inexistente. Logo, essas nações, como o Brasil, que têm no Voto obrigatório o seu capital político de Poder central(izado), são simplesmente ditaduras políticas. Não se pode fazer perdurar o Voto Obrigatório e ao mesmo tempo apregoar a existência da Democracia. A ruptura com os princípios republicanos é clara: sem escolha livre não existe liberdade”. ‒ Sobre o Municipalismo Republicano. “A ascensão social e econômica de um povoado, inserido em determinado município (que não seja este capital de uma região metropolitana), deve autorizar que tal povoado possa se emancipar, administrativa-mente, para conduzir o seu próprio destino social e político. Quando um povoado al-cança a maturidade econômica e contribui decisivamente para o progresso e a ordem de uma 164


região e, nesta, para a Nação, isso sinaliza a emergência de uma política pública emancipadora”. ‒ “Falta às elites políticas do Brasil, primeiro, uma visão holística, quanto à necessidade da praxe republicana na sua essência democrática, segundo, vergonha na cara quanto à hipocrisia e à corrupção ideológica, que praticam contra as Comunidades e a Nação”.

* ● Os Sujeitos humanos detêm, por definição, o primado absoluto sobre os Objectos! ‘Não invocar o Nome de Deus em vão’ (o terceiro dos Dez Mandamentos bíblicos): este preceito pode constituir o centro polarizador da unidade e da Paz, nas Sociedades/Nações/Estados. (Cf. Y.N.H., ibi, pp.231 e ss.). Se são mistérios insondáveis, para alguns, já não o são para nós! Falamos, exactamente, de Deus e da Consciência. No Ev. de João: 1,18, pode ler-se: ‘Deum nemo vidit unquam: unigenitus Filius, qui est in sinu Patris, ipse enarravit’. Quem no-lo deu a conhecer foi o Filho, mediante o seu Evangelho, o Diálogo e a Justiça, e a sua Paixão crucificada (suicídio como virtude). Mas, segundo o Salmo 81,6: ‘Ego dixi: dii estis et filii Altissimi omnes’, Jesus é o 1º Filho de Deus, e os restantes são todos os Humanos! ‒ E, como nunca se pode esquecer que, tudo quanto se diz nos Livros sagrados, é sem-pre um homem que o profere ou escreve, nós entendemos que, para além das proso-popeias bíblicas, a vera e autêntica Trindade habita, justamente, na Consciência triádica de cada Ser Humano: Sujeito/Objecto/Testemunha. O Espírito Paráclito é a Testemunha da Verdade que, na nossa pesquisa, encontrámos! Quem disser que há ‘períodos histó-ricos’ de pós-verdade, não acredita no que diz, não crê em si mesmo!... ‒ Eis por que, o monoteísmo, instaurado pelo Faraó Akhenaton, por volta de 1350 a.E.c., constitui, enquanto concebe Deus como entidade extrínseca e transcendente ao universo, um vício original e um desastre mortífero para a Humanidade, porque a reduz à condição de escrava. Dest’arte, é o próprio Jesuanismo (não dizemos o Cristianismo de Paulo, que o atraiçoou como religião institucionalizada, ao longo de dois milénios) que abriu, serôdiamente (por causa das malfeitorias cristãs…), na Idade Moderna, a vera e autêntica Realidade secular do Mundo, ‒ o que teve, como consequência directa o Processo de Emancipação dos Humanos e da sua realização identitária e dialógica. Ao ponto de podermos asseverar que foi, na Modernidade Ocidental, pelo que toca às suas revoluções e empreendimentos positivos, que floresceu, como Árvore democrática e frondosa, republicana, o vero e autêntico Jesuanismo. O Ideário do secular e do secularismo positivo (ou da Laicidade, que é enten-dida como sinónimo) constitui, assim, a ‘Regra d’ouro’ da Ética e da Moralidade do Homo Sapiens//Sapiens. (Cf. Y.N.H., ibi, p.239; 242, 246, 265). As doutrinas correntes da ‘pósverdade’, são tão espúrias e insensatas, que só podem emergir da sempiterna Cultura do ‘Homo Sapiens tout court’ (que é ainda o do nosso Autor em causa). 165


As doutrinas e teorias da ‘pós-verdade’, o que estão a produzir e a destilar é a confirmação insana e cruel do ‘Homo Sapiens tout court’. É o próprio Y.N.H. que estabelece o seguinte: “O Homo Sapiens é uma espécie de pós-verdade, cujo poder depende da criação de ficções e da crença nelas” (ibi, p.271). Uma contradição in terminis!... Entretanto, é esse mesmo estatuto da Espécie que o leva a ser tão pusilânime e falheiro, nas suas reflexões e decisões. Exemplo (ibi, p.239): “É claro, sem recorrerem a mandamentos divinos absolutos, a ética secular depara-se muitas vezes com dilemas difíceis. O que acontece quando uma acção prejudica uma pessoa mas ajuda outra? Será ético taxar muito os ricos para se poder ajudar o pobres? Começar uma guerra sangrenta para tirar do poder um ditador brutal? Deixar entrar um número ilimitado de refugiados no nosso país? Quando as pessoas seculares se deparam com estes dilemas, não se perguntam: ‘Que ordena Deus?’ Em vez disso, pesam cuidadosamente os sentimentos de todas as partes envolvidas, analisam uma vasta gama de observações e possibilidades, e procuram um caminho intermédio, que provoque o menor dano possível”. Só que o ‘mesótes’ aristotélico não é para funcionar em todos os azimutes!... O modo pusilânime e perplexo como o A. fala da muralha/fosso entre a verdade e o poder só confirma a sua plena integração na Cultura do ‘Homo Sapiens tout court’. Exemplo (ibi, p.280): “A verdade e o poder só conseguem caminhar lado a lado até certo ponto. Mais tarde ou mais cedo, seguem caminhos diferentes. Se queremos poder, a dada altura teremos de difundir ficções. Se queremos conhecer a verdade sobre o mundo, a dada altura teremos de renunciar ao poder. Teremos de reconhecer coisas ‒ as origens do nosso poder, por exemplo ‒ que enfurecerão aliados, afastarão seguidores ou perturbarão a harmonia social. Não há nada de místico nesse fosso entre verdade e poder. Para o testemunhar, basta procurar alguém branco, anglo-saxão e protestante, e confrontá-lo com a questão da raça, ou então um israelita comum e falar-lhe da ocupação, ou tentar conversar com um homem qualquer sobre o patriarcado”. Guerra (sistémica) entre robôs e Seres humanos?... Que ideia estúpida e estapafúrdia!... Se houve ou se há alguma época, na História dos Humanos, em que a Cooperação, a Colaboração (em lugar dos comandos hierárquicos…) entre todos os Seres humanos foi ou é mais necessária e urgente, é justamente a era contemporânea, os tempos que nos são dados para viver. Dir-se-á, até, que o Socialismo nunca foi tão necessário e urgente: mas o vero e autêntico, não o falacioso!... O elevadíssimo equipamento no desenvolvimento tecnológico, a que as elites mais potencializadas têm acesso, não lhes justifica o confronto/conflito, armado ou desarmado, entre elas e os trabalhadores ou cidadãos comuns, a sobreviver com empregos precários ou desamparados como ‘os sem tecto’!... Escreve (algumas vezes…), com acerto, o nosso Autor (ibi, pp.285-6): “Como vimos no capítulo anterior [sobre o tema da ‘Pós-Verdade’], talvez o pior pecado da ficção científica actual, seja ela confundir habitualmente inteligência e consciência. Em função disso, está demasiado preocupada com uma possível guerra entre robôs e seres humanos, quando, na verdade, o que devemos temer é um conflito entre uma pequena elite de super-humanos, equipada com algoritmos, e uma enorme subclasse de Homo Sapiens [tout court] desapoderados. Quando pensamos no futuro da inteligência artificial, Karl Marx ainda é um guia mais fidedigno do que Steven Spielberg”. Significa esta 166


cauda, no parágrafo, o seguinte: os Indivíduos/Pessoas detêm o Primado absoluto sobre o desenvolvimento exponencial das Tecnologias! Daí, a importância da gramática da colaboração ou cooperação. De contrário, ficaremos reféns do Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo, até na própria práxis societária laboral. (Cf. idem, ibi, p. 287).

* ● Carecemos, urgentemente, contra a tradicional Cultura do Poder-Dominação d’abord, de explorar, em Alternativa, a Cultura própria da Espécie Humana completa e integral, a do Bio-Psico-Sócio-Ânthropos, de acordo com o paradigma (esquecido) do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Uma bandeira, que devemos recusar, é a do ‘Homo Sapiens tout court’ e das suas proclamadas capacidades de ficções e romances, como pretende Harari, no seu último livro referido (p.271): “Na realidade, os seres humanos sempre viveram na era da pósverdade. O Homo Sapiens é uma espécie da pós verdade, cujo poder depende da criação de ficções e da crença nelas. Desde a Idade da Pedra que os mitos do autofor-talecimento serviram para unir colectivos humanos. De facto, o Homo Sapiens conquis-tou este planeta sobretudo graças à sua capacidade singular de criar e disseminar fic-ções. Somos os únicos maníferos capazes de cooperar com vários estranhos, porque só nós conseguimos inventar histórias fictícias, espallhá-las e convencer milhões de outros a acreditarem nelas. Desde que todos acreditem nas mesmas ficções, todos obedecem às mesmas ordens e, portanto, conseguem cooperar eficazmente”. Efectivamente, é sempre a partir do ‘Homo Sapiens tout court’ que Y.N.H. constrói o seu padrão humano (vd. pp.269-271), a sua noção de ‘Homo Sapiens’, ancorada na sua capacidade de ficções. Ele não conhece o ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (oriundo do ‘Homem de Cro-Magnon’, que domina, sozinho, todo o Planeta, desde há 32.000 anos). Por isso mesmo, ele induz-nos ao imbróglio, ao engano, é embusteiro e só nos traz emboscadas. V.g., saberá ele distinguir entre ficção (literatura) e ideologia (filoso-fia)?!... Por certo que não… É que a Ideologia, qua tal, é justamente, o que chancela, no topo, a pirâmide societária do Poder-Dominação d’abord (a mesma Cultura, em que a Humanidade ainda sobrevive!...). Harari, in toto, não pode, por conseguinte, ser nosso guia e mestre. Foi, precisamente, o padrão do ‘Homo Sapiens tout court’ da Cultura (capitalista) tradicional, que se encontra na génese do ‘Antropoceno’ (era nova da geologia…); foi ele que esteve nas origens (há 3 séculos) das Alterações Climáticas, que vieram a desembocar na catástrofe final que é a da situação actual da Terra!... A ‘pègada humana’, deixada no Planeta, é um desastre. (Cf. o art. de João Diogo Correia ‘Afogados em plástico’ (in ‘Exp./Rev.’, 29.12.2018, pp.48-55): Escreve ele, aí: “Da passagem dos humanos pela Terra, o rasto de plástico espalhado nos mares é uma das marcas mais visíveis. Ilhas de lixo nos oceanos, animais a comer o que não podem, séries televisivas que nos chocam, e uma enorme atenção mediática colocaram-no como inimigo público número um. Para lá da retórica, há proibições que nos lembram que a 167


corda não estica mais. Estaremos prontos a mudar de vida?” (ibi, p.45): “ ‘Nós nunca sabemos verdadeiramente o destino do que deitamos no caixote’ ‒ alerta Filipa Bessa, investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente’ ”. (idem, ibi, p.52). “O futuro está cheio de dilemas e paradoxos. A utilidade que o plástico tem, na nossa vida, é também o que pode acabar com ela. O Governo Chinês não quer ser ‘a lixeira do mundo’ e fechou a porta a mais plástico. Falta agora que o resto do mundo desligue a torneira” (idem, ibi, pp.54-55). É que (segundo nos ensina Martin Rees, prof. de Cosmologia Astrofísica inglês, no art. ‘Por onde nos leva o futuro’, ibi, pp.57-61), ‘não existe um Plano B, ou melhor, um Planeta B. Temos de viver neste planeta e salvar este planeta’ (p.59). ‘Outras inovações passarão pela produção de carne artificial (a partir de proteínas vegetais) e a conversão dos insectos ‒ um alimento muito nutritivo e rico em proteínas’. (p.61). Diz-nos (no art. de Virgílio de Azevedo (in ‘Exp./1º Cad.’, 22.9.2018, p.23) Will Steffen, líder mundial na investigação das Alterações Climáticas, que ‘Poderemos precisar de séculos para reequilibrar o Sistema Terrestre’. Revela, ainda, o cientista (ibidem): ‘É preciso um Compromisso Político para Mudar a Sociedade nos próximos 20 a 30 anos’. Por outro lado, a O.C.D.E. (cf. ‘Exp./1º cad.’, 29.12.2018, p.22) avisa que o desemprego em massa, resultante da introdução de 1,4 milhões de robôs nas empresas e no processo de produção, também deve contar, no processo de substituição, com o seu duplo efeito: a) evitar que essa massa enorme de operários fique desempregada, ou em ‘trabalho precário’; e b) criar, na adaptação às máquinas, condições de trabalho adequa-das. Estas duas condições pressupõem um postulado: Tem de haver, nesse desfasa-mento, uma necessária e indispensável intervenção dos Estados, até para assegurar o ritmo adequado da entrada no Mercado das novas tecnologias, ‒ o que implica a exi-gência da moderação nos trends capitalistas da produção das multinacionais. Desta sor-te, há que pôr fim ao selvagem neoliberalismo capitalista global. Esta problemática, no seu núcleo duro, é difícil e delicada, porque rejeita, por definição, na sua base, a tradicional ‘Democracia liberal’, tão do agrado dos donos e patrões das fábricas, com o seu vezo no lucro capitalista d’abord. Mas tal moderação tem mesmo de concretizar-se. Quanto mais não seja, através da instauração de um salário mínimo nacional decente, para todos os maiores de 18 anos, em situação de dessemprego forçado. Tal problemática acarreta consigo, como pressuposto, a passagem urgente do ‘Homo Sapiens tout court’ para a esfera específica (científica) do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Já não basta só, no concernente ao Bio-Psico-Sócio-Ânthropos, falar, tão só, do famigerado e falso ‘livre arbítrio’ (de que se tem falado, falaciosamente, em toda a bi-milenar História Cultural/Civilizacional do Ocidente); mas é preciso falar das duas dimensões hilemórficas, conjugadas e bem unidas e formadas: Natureza e Cultura (ambas em evolução… mas duas!... É, pois, imperioso, em termos científicos, deixar de ser unicórnio (ideologicamente), como, v.g., ainda acontece com a obra de Robert M. Sapolsky: ‘Comportamento’ (ed. Temas e Debates, Barbosa, 2018). Ainda não lemos o livro de 860 pp., mas vemos que, na capa, traz, ao fundo uma lanterna que nos ilumina e diz: ‘A biologia hu168


mana no nosso melhor e pior’. Lemos, atentamente, a recensão do livro por Luís M. Faria (in ‘Exp./Rev.’, 19.1.2019, pp.74-75). Da leitura atenta da recensão, pode concluir-se: a) a esfera do biológico constitui a fonte exponencial de toda a vida humana; b) a Cultura (Civilização) não conta, decisivamente, para nada. Nem a sua evolução nas duas faces teilhardianas: hominização e humanização. O próprio ‘livre arbítrio’, de que se tem falado ao longo de dois milénios, é uma pura ilusão, perante o aparelho biológico/genético (determinista). Contra tudo o que têm ensinado filósofos e moralistas, mesmo enquadrados na Cultura da Potestas-Dominação d’abord. Luís M. Faria titula o art.: ‘Biologia é tudo’; e em sub-título escreve: ‘Uma obra de divulgação científica que põe questões importantes sobre o livre arbítrio’. Diz mais (ibi, p.74): “ ‘Comportamento’ vem ocupar um lugar nessa intersecção de ciência e filosofia. O autor, R.S., é um cientista importante e divulgador de ciência, com uma combinação de especialidades no mínimo original. Além de neurobiólogo, dedica-se ao estudo de babuínos no Quénia. Em particular, interessam-lhe os efeitos de stresse nos babuínos, o que parece ser um tema com grande potencial de extrapolação para os humanos […]. “Os paralelos vão mais longe. ‘A agressividade deslocada, induzida pelo stresse (ou pela frustração) é generalizada em várias espécies’ escreve S. . ‘Entre os babuínos, quase metade das agressões é desse tipo: um macho de alto nível hierárquico perde uma briga e persegue um macho subadulto, que prontamente morde uma fêmea, que então investe contra um filhote (…). Quanto mais um babuíno tende a descontar a sua agressividade depois de perder uma briga, menores são os seus níveis de glicocorticoides’ ”. Depois, o A. estende este tipo de comportamento aos humanos. Está quase tudo dito. “A tendência humana para agredir os outros como reacção à frustração é facilitada pela enorme quantidade de objectos de desejo e de ódio que a nossa sociedade gera. O papel das ideias na criação de miséria humana é explorado em vários capítulos, incluindo um titulado ‘Nós Contra Eles’ ” (ibi, p.75). “ ‘Comportamento’ tem como objectivo pôr em relevo as causas directas e remotas de uma acção humana, desde aquilo que se passa há um segundo no cérebro ‒ e há segundos ou minutos no ambiente à nossa volta ‒ até evoluções que aconteceram ao longo dos séculos, quando a sociedade em que vivemos foi adquirindo as características distintivas. Ou há milénios, quando se produziram mudanças irreversíveis na paisagem da Terra. Ou antes do nascimento. Cada uma destas coisas teve efeitos sobre o cérebro. É lá que todos os elementos e momentos da história confluem, e é ele o verdadeiro centro do livro. As revelações são tais que nos levam a questionar que margem de escolha pessoal resta numa acção humana ‒ uma dúvida com implicações, por exemplo, na justiça criminal. Se concluirmos que o livre arbítrio de facto não existe, como justificar uma pena de prisão. Ignorar o papel da biologia num crime pode ser arbitrário, mas ain-da o é mais afirmar que ela elimina a culpa ‒ a razão do castigo enquanto tal, para além do seu efeito dissuasor” (ibidem). A este híper-materialismo biológico dá-se, historicamente, o nome acertado de materialismo (selvagem). Ora, nem o ‘Materialismo histórico’ de Karl Marx e F. Engels avançou até este patamar insólito. De resto, o Marxismo autêntico, no que tange o eixo eidético do Psico-Sócio-Ânthropos não excedem o hilemorfismo de Aristóteles, e 169


concentrou a sua investigação em dois centros polarizadores: a) a noção da Práxis societária (que, por definição, já reúne matéria e forma, natureza e cultura); b) e a diferenciação realista (não ilusória) das classes sociais. Sit modus in rebus!... Quanto às religiões (institucionalizadas), Marx apostrofava e sentenciava que elas eram o ópio do povo. Na Obra ‘A Minha Vida e as Minhas Experiências com a Verdade’, Mohandas/ /Mahatma K. Gandhi (editada por ‘Expresso’, em 5 vols., a partir de 19.1.2019) é uma Mente lúcida e prototípica, enquanto pesquisador da Verdade, a partir das suas raízes infantis no Hinduísmo e sobre as restantes grandes religiões, incluindo o Cristianismo, que ele censurou severamente. Ele é, sem dúvida, um dos padrões máximos e fecundos da Humanização. Ele é um padrão do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ por excelência. “Esta não é uma autobiografia no sentido convencional do termo, mas mais uma exploração da alma de um homem, um retrato de Gandhi como ele se via a si mesmo”: Sujeito//Objecto (no contraste). (Cf. 1º vol., p.13). A sua demanda é moral e espiritual e pode muito bem resumir-se na resistência passiva face às injustiças do mundo (ibidem). Ele ‘é o limite máximo da humildade e o exemplo e o doutrinador da Ahimsa (= não-violência). É ele mesmo que na Introdução a esta sua Obra, tem o desassombro de evocar a quadra do sábio Surdas (ibi, p.22). ‘Existirá um ser tão pérfido e desprezível quanto eu? De tão descrente de tudo, abandonei o meu Criador’. Na sua pesquisa de carácter religioso e, acima de tudo, humana, deparou-se, um dia, com os textos do Manusmriti (ou ‘Leis de Manu’ ‒ código religiosoo e moral do bramanismo. Eis o conjunto dos versos, que impressionaram Gandhi (ibi, p.60): “Quando te derem um copo de água, oferece um prato de comida; Quando te derem um bom-dia sincero, curva-te com respeito e zelo; Quando te derem uma simples moeda, devolve com ouro; Se conquistares a tua vida, não será uma vida contida. Os actos e palavras dos sábios só serão coerentes quando reconhecerem o trabalho dos que os servem. A verdadeira nobreza de um ser humano está na alegria de retribuir com o bem o mal que lhe causam”. “Uma coisa, entretanto, enraizou-se profundamente em mim: a convicção de que a moralidade é a base de tudo na vida, e que a verdade lhe dá substância. A procura da verdade passou a ser, então, o meu único objectivo, e começou a crescer dentro de mim com tamanha intensidade que sentia os meus horizontes a expandir-se. Havia uma estância em guzerate, que aprendi na escola e que arrebatou o meu coração. A mensagem 170


deste poema ‒ o bem em retribuição do mal ‒ tornou-se o princípio que rege a minha vida. É apaixonante e tem múltiplas possibildiades de leitura. Seguem-se os versos que considero maravilhosos:” (ibi, pp.59-60). A estância de 8 versos está em cima! Depois de ficar muito mal impressionado com os missionários católicos, junto dos templos hindus, com ar imperial e ambição para conquistar fiéis, ele confessa: “a minha mente inquieta tentara relacionar os ensinamentos da Gita com o livro The Light of Asia e com o Sermão da Montanha. Essa renúncia era a forma mais nobre da religião e fascinava-me” (ibi, p.96). A estância, agora, é extraída do Bhagavad-Gita e tem por título ‘The Song Celestial’. Reza assim (ibi, p.94): “Do apego aos sentidos, nasce a atracção, da atracção , brota o desejo; o desejo gera uma paixão avassaladora e a paixão conduz à imprudência. Neste momento, a memória, totalmente traída, abandona o seu propósito mais nobre, para então corroer a mente. E assim, o propósito, a mente e a pessoa se deterioram”. Que descrição mais lúcida e acertada do normal funcionamento do Aparelho psico-sócio-antropológico!... Segundo a gramática do ‘Homo Sapiens//Sapiens’.

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SÓIS DA COMUNA de Paris N.B.: “ ‘La Commune de Paris’ foi o governo revolucionário (18 de Março a 27 de Maio de 1871, instalado em Paris, depois do levantamento do cerco da cidade pelos Prussianos, e invertido no seguimento de um novo cerco da capital pelo exército regular do governo de Thiers, fixado provisoriamente em Versailles” (Nouveau Petit LA ROUSSE, 1972). O mais significativo foi os soldados da constituída Guarda Nacional recusarem atirar sobre os soldados do exército regular! N.B.: O texto infra é de Christophe Voilliot (Mestre de conferências em ciência política na Univ. de Paris-Ocid.-Nanterre: o texto foi estabelecido com segurança a partir de documentação autêntica e coeva). (Cf. in ‘Manière de Voir’, octobre/novembre, 2018, p.41). “Quando, em março de 1871, ‘os proletários do capital, no meio das desistên-cias e das traições das classes governantes, compreenderam que era chegada a hora, para eles, no sentido de salvar a situação, tomando em mãos a direcção dos negócios públicos’, eles vão assumir decisões notáveis: ‒ Eleições, que implicam o carácter revogável dos mandatos, e incluem os estrangeiros neste processo, porquanto, ‘considerando que a bandeira da Comuna é a da 171


república universal; considerando que toda a cidade tem o direito de dar o título de cidadão aos estrangeiros que a servem, (…) a comissão é da opinião que os estrangeiros podem ser admitidos. ‒ A distinção de sexo é posta em causa pela União das mulheres para a defesa de Paris, pois ela é ‘criada e mantida pela necessidade do antagonismo sobre o qual repousam os privilégios das classes governamentais. Ateliers cooperativos femininos são montados, a união livre legalizada e os filhos nascidos fora do matrimónio são reconhecidos ao mesmo título que os outros. A prostituição é interdita, uma vez que representa ‘a exploração comercial de criaturas humanas por outras criaturas humanas’. ‒ A separação da Igreja e do Estado é actuada, e sob reserva de inventário, os bens das congregações religiosas são nacionalizados. ‒ O princípio da instrução laica, gratuita e obrigatória é afirmada. É a ‘instrução integral’, de que fala Édouard Vaillent, delegado para o Ensino, a ‘base da igualdade social’. Uma parte integrante da acção das municipalidades deve ser consagrada à educação das filhas e ao ensino profissional. ‒ Por iniciativa do pintor Gustave Courbet é criada uma Federação dos artistas de Paris, a qual tem por missão ‘a conservação dos tesouros do passado, o pôr em obra e o esclarecimento de todos os elementos do presente, a regenereação do futuro pelo ensino. ‒ A interdição do trabalho de noite para os trabalhadores padeiros, supressão das restrições sobre os salários (decreto de 27 de abril de 1871) e da burocracia da residência, verdadeiros instrumentos de controlo social sob o Segundo Império. A fórmula da associação dos trabalhadores é considerada como o princípio de base da organização da produção. Para que o salário assegure ‘a existência e a dignidade’ do trabalhador, os cadernos de encargos das empresas no mercado com a cidade devem indicar ‘os preços mínimos do trabalho por jorna ou à peça, fixados por uma comissão, em que os sindicatos estarão representados. ‘O cadáver está por terra mas a ideia está de pé firme’, escreverá Victor Hugo”.

* ‘Casa Comum da Humanidade’ ● Esta é uma ideia feliz, acertada e fecunda. A metáfora para designar o conjunto, a totalidade dos Estados/Nações viventes à superfície do Planeta Azul, com sentimentos pacíficos e de fraternidade e ajuda, recusando a guerra como solução falsa e efémera dos problemas!... O texto da Notícia reza assim (in ‘Expresso’/1º Cad., 22.9.2018, p.23): Foi na Universidade do Porto que a Ideia arrancou. “A Casa Comum da Humanidade (CCH) vai ser legalmente constituída na reitoria da Universidade do Porto (UP) a 24 de Setembro. A associação internacional, liderada por Portugal, quer garantir a preservação das condições de habitabilidade da Terra, através de um novo modelo de governação glo-bal dos recursos naturais, que funcione junto da ONU, onde é usado um sistema ino-vador 172


de contabilidade ambiental e económica, que compensa quem valoriza a Natureza e penaliza quem a destrói. A CCH quer ainda lançar a candidatura do Sistema Terres-tre a Património Comum da Humanidade. O modelo de governação seria baseado no conceito de Condomínio (Condomínio da Terra) e apoiado por uma nova fórmula científica de avaliação e contabilização dos impactos positivos e negativos no Sistema Terrestre. Estes conceitos foram desenvolvidos por Paulo Magalhães, da Faculdade de Direito da UP, e Orfeu Bertolami, da Faculdade de Ciências. Os fundadores da CCH são, além da UP, as Câmaras do Porto e de Gaia, as principais universidades públicas portuguesas, e os cientistas Will Steffen (Universidade Nacional da Austrália e Centro de Resiliência de Estocolmo), Nathalie Meury (Agência Espacial Europeia) e Alessandro Galli, director da Global Footprint Network, organização que criou o conceito de Pègada Ecológica. V.A.”. Na mesma p. do semanário, é o próprio químico norte-americano (professor na Austrália), que deu uma entrevista notável, pertinente e esclarecedora, subordinada ao título: ‘Poderemos precisar de séculos para reequilibrar o Sistema Terrestre’!... (O cientista em causa é Líder mundial na investigação das Alterações Climáticas). Gostámos muito do texto da Proposta supra sobre a CCH, principalmente porque o seu ideário estrutural entrosa e articula ‒ como cumpre ‒ as duas partes: A) a resolução sistémica da Problemática sobre as Alterações Climáticas; B) a boa e justa organização e funcionamento dos Estados/Nações. Estas duas problemáticas são gémeas, tal como o C.E.H.C. e nós próprios as entendemos, ao longo deste Livro, e de toda a nossa já vasta Obra. É, igualmente, óbvio que este actual Capitalismo (selvagem) global e absolutamente liberalizado tem de ser regulado, moderado, domesticado (como recomenda no semanário cit., o Prof. Paul De Grauwe, na sua rubrica habitual (ibi, p.47), em torno do título ‘Sobre a Inevitabilidade das Crises Financeiras’). Os bancos têm de ser controlados politicamente e fiscalizados no concernente ao ‘capital de risco’; e têm de ser obrigados a ter muito mais capital do que têm hoje. O que poderia, entretanto, funcionar, como solução provisória e de transição, seria um ‘socialismo’ keynesiano, que, partindo do Mercado livre e de uma boa governação estatal, saiba atribuir o primado, no funcionamento da Economia, à lei do pleno emprego. A moderação e a regulação deste Neocapitalismo global têm de ser operadas mediante a sua redução às escalas dos pequenos e médios Bancos, para que, no caso das crises graves, não se tenha de recorrer ao mantra do costume: ‘Too Big to Fail!...’. Em última instância, sabe-se que são sempre os contribuintes a serem chamados a pagar os desfalques bancários!... Ocorre uma problemática análoga com as multi-transnacionais e seu funcionamento (perdulário e esbanjador, por definição). Deveria haver um código rigoroso para os dois casos: quer em termos de fisco, quer em termos de escala. Para além dos postulados e das recomendações das Academias universitárias, no concernente, contemporaneamente, àquelas duas problemáticas gémeas (a das Alterações Climáticas e a da boa e justa Governação), deveriam constituir-se, em cada Estado/ /Nação, duas Comissões de especialistas independentes, capazes de assessorarem, em permanência, os decisores governamentais (nos dois planos: político e económico) a to173


marem as melhores decisões: A) Uma comissão para as Ciências da Terra e dos territórios nacionais: Botânica e Zoologia; B) Uma Comissão para as questões humanas e sociais: Educação/Instrução, Cultura, Assistência Social, Direito, Alimentação e Habitação, Psicologia, Sociologia, Emprego, Saúde e ‘salário mínimo nacional’ garantido para maiores de 18 anos e em quantidade decente.

EPÍTOME Segundo a GRAMÁTICA DO C.E.H.C. E DO BIO-PSICO-SÓCIO-ÂNTHROPOS, completo e integral

N.B.: Não vamos falar dos ministérios da boa e justa Governação de qualquer Governo em particular. Em vez dos ovos ou pássaros no ninho, o que nos interessa, aqui, sobera-namente, é o próprio NINHO.

ARQUITECTURA 1. O que o C.E.H.C. propõe, (como 1ª fonte, em função do Novo Edifício) é a transição Alternativa da tradicional Cultura do Poder-Dominação d’abord (em que as Sociedades (ditas) humanas ainda sobrevivem) para a Nobel Cultura da Liberdade Responsável (substantiva) Primacial e Primordial. A primeira e tradicional é procedente e foi instaurada a partir do ‘Homo Sapiens tout court’, que, por seu turno, remonta à sub-espécie padronizada no ‘Homem de Neanderthal (o fóssil foi descoberto no Vale da Prússia e, depois no sudoeste da Áustria, mas o H. de N. sabe-se que habitou na Europa ocidental e central), o qual se extinguiu compleltamente ca. de 30.000 anos na-tes da Era comum. Foi ‘convivendo’, materialmente, com o vero paradigma da Espécie humana, ‘o Homo Sapiens//Sapiens’, ca. de 40.000 anos (de 70.000 a 30.000 a.E.c.), mas logo desapareceu completamente com a emergência do segundo, que tinha, em confronto com 174


o 1º, mais uma média de 600c3 de massa encefálica, além das outras di-ferenças anatómicas. Assim, o vero paradigma ancestral da Espécie humana é o ‘Homo Sapiens//Sapiens’, que é oriundo do ‘Homem de Cro-Magnon’ (descoberta arqueológica no Sudoeste de França). Temos andado, todos, muito bem enganados, com a História da Humanidade e das civilizações: sobretudo, no que tange a divisão, no Neolítico, entre a Era do Matriarcado ou Gilania (de 7.500 anos a 3.500 anos) e a Era do Patriarcado e da criação/ /invenção dos deuses uranianos (Aquenaton: o Faraó do Egipto, que instaurou o Sol-Aton ‒ como Deus, é o 1º conhecido), o qual começa em 3.500 a.E.c. até ao presente. A partir desta altura, a sub-espécie anterior desapareceu. Na era do Matriarcado ou Gila-nia (como lhe chamou Riane Eisler, no seu Livro O Cálice e a Espada), não havia guer-ras nem os recursos à pressão e às violências: eram as mulheres que mandavam no clã ou na tribo ou na família. Na era do Patriarcado, logo surgiram as hierarquias, as guerras e as violências de toda a sorte, algumas delas em nome das próprias divindades e reli-giões, criados pelos machos. Não esquecer, aqui, como conclusão, que tudo quanto se diz de Deus é sempre um Homem que o diz, muito embora se diga que se trata de uma ‘Revelação’ (o que supõe que a Notícia passou de um Agente/Actante exterior a um humano).

2. Sujeito//Objecto: Consciência ‘Ergo sum qui sum’, Exodus, 3,14). ‘Je suis celui qui suis’ (Ex., 3,14). Este foi o modo como Iahwéh se definiu a Moisés, diante da sarça ardente (a 1ª fórmula latina é da Vulgata; a 2ª fórmula, em francês, é da Bíblia de Jerusalém. Logo a seguir, Moisés passa a Revelação à multidão dos hebreus, e fala já de outro modo, no texto latino, por-que o recado que I. está a passar põe-no a dizer: ‘Qui Est’, na 3ª pessoa gramatical. A B. de J. prefere manter, inalterada, o que nós chamaríamos uma tautologia!... O texto he-braico, em si mesmo, permite as duas possibilidades. O existir é comum a Iahwéh e a Moisés: fá-los seres singulares, indivíduos-Pessoas. Em suma, Sujeitos actantes no círculo da Língua/Linguagem. Dir-se-á que é uma comunicação linguística entre duas pessoas, antes de utilizarem os seus nomes na conversação. A filosofia do Sujeito e do Objecto (é quase sempre assim que o nosso Pensamento funciona…) é paradoxal: Quando nos dirigimos ao outro ou o chamamos pelo seu nome, estamos, automaticamente, a convertê-lo em objecto, e vice-versa. Ora o Ob-jecto detém outra categoria filosófica: não é sujeito, é coisa ou causa… As atribuições das respectivas funções ou predicados são feitas aos Sujeitos, não aos objectos. É preci-so estarmos muito atentos a estas pregas da Linguagem, não só para discernir e contra-por (uma à outra) a Interioridade do Sujeito e a Exterioridade do Objecto, como, igualmente, para discernir a emergência da Consciência. 175


Somente por esta via analítica nós conseguimos chegar a e a estabelecer, claramente, essa inultrapassável Tríade, que é o Pensamento/Consciência dos Seres Humanos da Espécie Sapiens//Sapiens. Os Humanos são, essencialmente, Seres que sabem que sabem (reduplicadamente). E, quando abordamos a Consciência humana, é imperativo argumentar que ela é constituída por uma Tríade, identificada com os três elementos indispensáveis: A) Sujeito (responsável); B) Objecto (conhecido); e C) a Testemunha, que me segreda se estou a dizer a verdade ou a mentira: eis por que a Consciência humana é a fonte de toda a Moralidade de que as pessoas são capazes. Mais: a Consciência existe e subsiste numa Tríade, justamente porque os Humanos/Sujeitos não pensam sem ter um Objecto na mente, e é a consciência a Testemunha qualificada para constatar a ligação/articulação de S. e O.. ‒ Segundo Aurélio Agostinho e os Evan-gelhos, essa Testemunha é (pode ser…) o Espírito Paráclito. De resto, a noção hebraica de uma Divindade extrínseca e transcendente ao universo tem a sua origem na noção tradicional de ‘creatio ex nihilo’, (ex nihilo sui et subjecti…). Ora tal noção não existe no mundo helénico e, em geral, nas religiões institucionalizadas. O que significa que os Indivíduos nunca estão sozinhos. E, em Sociedade, os Ind.-Pes./Cidadãos devem ser ac-tivos e intervenientes, e nunca criados ou escravos de ninguém. É por tudo isso que Ed-gar Morin escreveu, por ex., o Livro ‘Ciência com Consciência’ (ed. Eur./América, Sin-tra, 1982). Já estamos a reconhecer que, nesta Arquitectura do Bio-Psico-Sócio-Ânthropos, as Sociedades humanas são organizadas a partir da base da pirâmide, e não do seu vértice. Esta é a gramática e o primeiro princípio da Boa e Justa Democracia. Advirta-se, entretanto, que a Consciência, qua tal, tem as suas exigências: ela não pode existir in actu signato, como os objectos; mas tão-só in actu exercito, no seio do Sujeito vivente. Ora, no plano da pura Consciência, há uma Interioridade própria, que pode abranger dois ou mais sujeitos (→). Há silêncios eloquentes!...

3. As Religiões Institucionalizadas e o fatídico Dualismo metafísico-ontológico Na História moderna do Ocidente, este execrável Problema mal resolvido começou na Teoria hobbesiana de Organização dos Poderes nas Sociedades Políticas. (A obra que melhor trata esta matéria ‒ que nós já resolvemos noutros livros ‒ é a de Mark Lilla: ‘A Grande Separação: Religião, Política e o Ocidente Moderno’ (Gradiva, 2010). Posto de parte o universo das religiões, a organização do resto das Sociedades segue o Esquema habitual da Potestas-Dominação d’abord. A boa e justa denúncia de Lilla vai no sentido deste postulado. Ora, o que resultou de toda esta Geringonza, magicada por Thomas Hobbes, no seu ‘Leviathan’?!... Que as religiões podem continuar a funcionar para a vida privada dos cidadãos… Mas quantas guerras, cruzadas e inquisições foram levadas a cabo em nome das religiões e, muito especialmente, em nome do Catolicismo?!... Karl Marx deixou-nos o legado axiomático: ‘A Religião é o ópio do povo’!... A frase, para o nosso senso crítico, 176


está incompleta: é preciso exprimir a ideia certa noutra fórmula: ‘As reli-giões institucionalizadas são o ópio do povo!... A Religião tout court é um sector da Filosofia, como diria Sócrates. Desta sorte, quem recuperou e instaurou o Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo, foi, na História moderna do Ocidente, Thomas Hobbes. E o curioso e paradoxal é que nem os cientistas sociais e políticos mais progressistas e críticos deram por este Factum dramático até ao livro de Mark Lilla.

4. Hilemorfismo aristotélico Cada ser vivo (senciente, irracional ou racional) é composto de Matéria e Forma, corpo e espírito. Este é o mantra filosófico do Filósofo de Estagira, na Grécia, considerado ‘o Filósofo’, por antonomásia. Foi o preceptor de Alexandre-o-Grande. Na História bimilenar do Ocidente, houve dois momentos especiais, em que as doutrinas e teorias de ‘O Filósofo’ foram de algum modo recuperadas, mas, em definitivo, sem êxito. A 1ª aconteceu nos sécs. XII/XIII, muito especialmente com Tomás de Aquino (1225-1274). Foi ele o maior utilizador das doutrinas de Aristóteles, na Idade Média, a partir das traduções dos textos de A., para Latin, levadas a cabo pelos árabes, nomeadamente Avicena e Averróis. O 2º momento aconteceu nos sécs. XVI/XVII, com a chamada 2ª Escolástica (ibérica), através de Suarez, Victoria, Luís Vives, Pedro da Fonseca, etc.. No atinente à utilização dos textos de Aristóteles, já no séc. XX, o filósofo francês Jacques Maritain (1882-1972) tornou-se mesmo o campeão da reabilitação da Obra de Aristóteles, na sua mais conhecida obra ‘Humanismo Integral’, chegando a cunhar a expressão (que circulou pelas Academias e Universidades) ‘Hilemorfismo aristotélico-tomista’. Entretanto, tal Hilemorfismo, no que toca a T. de A., foi só a meio gás, ou seja, nas áreas da Antropologia (composição dos seres humanos de alma e corpo pró-prios). A Arquitectura Teológica católica manteve-a por inteiro na órbita tradicional platónicopaulina. Quanto à utilização da Obra de Aristóteles, na 2ª Escolástica, mesmo tendo em conta que esses filósofos/teólogos assumiram, à partida, o plano de restaurar a Obra de ‘O Filósofo’, à parte Suarez e Pedro da Fonseca, pode concluir-se que foi um empreendimento malogrado. Convém não esquecer que a Atmosfera filosófico-teológica, ao longo destes dois milénios de cristianismo/catolicismo, foi sistemicamente dominada pelo Dualismo metafísico-ontológico de Platão e de Paulo (que foi o Chefe de Orquestra do N.T.).

5. As duas Grandes Heresias Modernas 177


Trata-se ‒ como é óbvio ‒ de Heresias filosóficas. E a ‘cabeça quadrada’, que mais as promoveu foi René Descartes (1595-1650), um dos dois patriarcas fundadores da Modernidade ocidental (o outro: Francis Bacon (1561-1626)). (Curiosamente, já no fim de vida, R. Descartes escreveu uns textos de Psicologia, que ficaram inéditos, os quais se aproximou da Obra psicológica posterior de William James (o psicólogo da ‘corrente de consciência.). René Descartes ficou conhecido, tradicionalmente, como o pai do Dualismo metafísico-ontológico, nos inícios da Modernidade; o pai do Mecanicismo cartesiano (que tanta importância teve na qualidade das ciências modernas e sua emergência); o pai do ‘Cogito, ergo sum!... Este parergo foi por ele formulado de modo apodíctico. Quanto a nós, entendemos que ele deverá ser formulado em tom interrogativo, se quisermos seguir o caminho de Gandhi, da Satyagraha (expressão cunhada pelo Mestre e seus colaboradores, a partir do sânscrito agraha (firmeza, constância) e satya (verdade)): ser constante na busca da Verdade. O que parece não ter sido a via de Descartes… ‘Cogito, ergo sum’!... Um robôt hodierno até pode deixar a impressão objectiva de que pensa! No entanto, ele não pensa motu proprio, não usufrui da condição de Sujeito pensante-falante. O verbo latino ‘sum, es, esse, fui’ denota existir, é da existência que se trata. Ora o existir é predicado, que pertence ao Sujeito e à sua Consciência, não aos objectos do pensamento. A sua argumentação, que parecia irresistível, caiu no vazio!... Isto de pretender provar a existência dos Sujeitos pelos simples actos do pensamento (verba mentis… nem sequer verba oris!...) é um grande sarilho!... Assim, R. Descartes foi um péssimo patriarca da filosofia e da ciência, na Cultura do Ocidente Moderno. E, se em vez de R.D., a Modernidade Ocidental tivesse adoptado mais o outro patriarca, Francis Bacon, com perspectivas positivas e humanistas?! Seria muito melhor e outro Caminho seria feito! Se a 1ª Grande Heresia Moderna foi a insistência, mediante o Dualismo cartesiano, no Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Saulo/Paulo, a 2ª Grande Heresia Moderna foi a metodologia cientificista do Objectivo-Objectualismo, praticado, por sistema, em todas as ciências emergentes. O exemplo, porventura mais notório, foi, no último quartel do séc. XIX, terem instalado os laboratórios da nova Psicologia experimental, nos velhos laboratórios da Fisiologia. Os Sujeitos humanos, actores e autores da investigação científica, eles próprios ficaram eclipsados, perante as ‘Divindades objectivo-objectuais’. Mas há uma 3ª Grande Heresia, que está a fazer caminho no império chinês, entrelaçada no feixe das Novas Tecnologias de Informação/Comunicação: Cuidado com a intrusão na Psique Humana… ‒ Dizemos nós, ocidentais. Na China, há já 60 mil escolas, onde estão, experimentalmente, instalados aparelhos robóticos, nas salas de aula, para avaliarem a emoção e a atenção psíquicas dos Alunos. É uma espécie de ‘Comunismo de algoritmo’ ‒ como escreve, no seu art., o jornalista Luís Pedro Nunes (in ‘Exp. Rev.’, 26.1.2019, p.103). Escreve o jornalista (ibidem): “Não consigo perceber como é que uma câmara a detectar a todo o momento as emoções dos alunos dentro de uma sala de aula possa ser 178


considerado uma boa ideia. O repórter veterano do mítico programa de investigação ‘60 Minutos’, da CBS (SIC) Notícias) pareceu convencido. Falamos de um sistema de inteligência artificial (IA), que consegue detectar quem na sala está a tomar atenção, dessatento, feliz, infeliz, bem como quem esteve a ouvir, ler, escrever, etc.. Tudo analisado segundo através de um algoritmo de reconhecimento facial ‒ ou algoritmo de reconhecimento de emoções. No final, o prof. consegue ter um relatório (digital, todo moderno, com gráficos) de modo a saber com que alunos deve actuar no sentido de os ajudar a melhorar o aproveitamento. E os pais gostam, pois acreditam que os filhos ganham com este sistema. Mas estamos a falar da China”. ‒ Ora este é um tipo de escola que está, decididamente, a controlar os alunos, impedindo-os de crescer em personalidade, carácter e autonomia!... Um perito de educação chinesa, da Univ. de Harvard conclui: “As escolas estão a transformar-se em laboratório para experimentações em massa de controlo e correcção de comportamento humano e selecção do partido” (ibidem). Este é, sem dúvida, um no-vo tipo de Ditadura em formação.

FUNCIONAMENTO 6. IDEOLOGIA A palavra Ideologia procede de Ideia (eϊdas), no grego). Distinguimo-la de vocábulos como conceito e noção, porque estas se prendem mais com o aparelho cognoscitivo intelectual, enquanto a primeira tem o seu ninho na esfera das sensações/percepções e no mundo da Imaginação. A semântica da palavdra ideologia está, igualmente entrosada com as prácticas quotidianas e o funcionamento das Instituições sociais; em suma, anda articulada com a Praxis estrutural de uma Sociedade, polimorfizada com os grupos sociais e os Partidos Políticos. O conhecido imperativo (filosófico/científico) de Immanuel Kant (1724-1804): ‘Sapere aude’! = Ousa saber tem o condão de exprimir: a) a natural Evolução intelectual/cultural da Humanidade, ao lado da psico-biológica; b) bem como a necessidade e a urgência (enquanto fruto do Iluminismo oitocentista) de preparar e consumar o salto ou a superação do ‘Homo Sapiens tout court’ para o ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Os Ilumi-nistas do séc. XVIII assumiram, corajosamente, a missão de emancipar a Razão huma-na. O ‘Sapere aude’ kantiano podia traduzir-se, mais rigorosamente por esta fórmula: ‘Ousa servir-te do teu próprio entendimento’: não sejas servo ou escravo de ninguém. O ‘Sapere aude’ foi justamente formulado em nome da Emancipação/Libertação huma-na: passar do padrão da sub-espécie para o paradigno da Espécie Humana integral! O mantra de Lamarck, o segundo patriarca da Evolução, que precedeu o patriarca C. Darwin, era cheio de significado e consequências culturais e fisiológicas, no sentido de promover a chamada Evolução cultural dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos: ‘A função cria o órgão’!... 179


Para balizar e identificar a noção de Ideologias, temos de situar-nos no universo Cultural entre as ciências (propriamente ditas) e a filosofia (levada a sério e honestamente). É que elas emergem (materialmente) de duas fontes principais: A) a ‘Filosofia’ e B) as ‘Religiões institucionalizadas’. Mas o motor, que as põe em movimento e acção, em nome da Praxis societária, é o Poder/Dominação d’abord, em suma, toda a hierarquia societária dos Poderes Estabelecidos, nas Sociedades de formato verticalista. Por isso, diremos que elas emergem, formalmente, a partir do topo dos Poderes Estabelecidos, segundo o adágio paulino (ad Rom. 13,1), que te sentencia que ‘Todo o Poder vem de Deus’; ou ‘Todo o Poder procede de Deus através do Povo’, tal como foi corrigido por Francisco Suarez, no séc. XVI/XVII. Desta sorte, o habitat próprio das Ideologias é a sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. Assim, foi, ainda, dentro desse Quadro Cultural, que, no Processo histórico da Rev. Francesa de 1789, foram distribuídos e alinhados no Parlamento, os deputados, eleitos pelo Povo, à Assembleia Nacional da França revolucionária: à Direita, os partidos Conservadores; ao Centro, os centristas; à Esquerda, os partidos do povo, alinhados com os revolucionários. O postulado do que acaba de ser dito é o seguinte: Em bom rigor, não há lugar para as Ideologias, na Cultura/Civilização Alternativa, que se formula ‘da Liberdade Responsável primacial e primordial’: aí, os Indivíduos-Pessoas/Cidadãos exercem a sua condição de Cidadania por inteiro: Tudo decorre dos saberes autênticos, das Ciências e da boa e honesta Filosofia. A autoridade/poder é exercida por iguais e livres e responsáveis em esquema estrutural de Coordenação. Se ainda se pode falar de Ideologia, será tão-só no plano adjectivo (não objectivo e substantivo), no horizonte das subjectividades de cada cidadão, ‒ o que está referenciado ao temperamento e carácter, às experiências próprias e às histórias de vida.

7. DEMOCRACIA AUTÊNTICA CONTRA DEMOCRACIA LIBERAL Não nos iludamos mais. Não nos deixemos enganar; nem enganemos os outros, que são, em linugagem evangélica, nosso próximo (chegados ou distantes, à escala planetária). Há, de facto, uma verdadeira Aliança entre a Democracia autêntica e as Ciências (praticadas honestamente). Entre a Democracia liberal e as diversas formas de Capitalismo, a Aliança é falsa e as próprias práticas científicas são abastardadas. Esta Aliança é sempre falaciosa e falsa, excludente, por definição. Estamos no reino do TER, e não do SER: Os que têm dinheiro ou propriedades, de qualquer tipo, sentem-se livres, para ganhar, acumular e vencer: ao mesmo tempo que exploram e oprimem os que não têm, pão, habitação, saúde, emprego. E a Igualdade Social (e a Fraternidade) só acontece na República do SER HUMANO, que a Consciência crítica e a Linguagem (materna ou outra!) unificam numa só Espécie Viva. Eis um bom conjunto de razões e argumentos para estabelecer e concluir que só a Democracia autêntica é o único Regime político digno da Espécie humana ‘Sapiens//Sapiens’. 180


Quando esquecemos as regras do Mesótès aristotélico (= a meia medida; no latim, ‘in médio virtus’), assomam logo ao nosso Ego imaginário essas Figuras/padrão de Prometeu, Fausto, Frankenstein… Mas, mesmo para cumprir um projecto de dominar o mundo e transformá-lo (como indicia o Génesis!...), essas Figuras-padrão não servem: é preciso colaborar com os outros, constituir grupos, cooperar. A Razão é a única gramática do espírito; e a bondade é o único objectivo da Vontade humana livre e responsável. Não há neutralidades… há o bem e o mal. Se, por vezes, escolhemos o mal, é porque nos sentimos dotados apenas de ‘livre arbítrio’, esse famigerado pêndulo de Foucault, próprio do ‘Homo Sapiens tout court’, em que tem sobrevivido a Sub-espécie humana até ao presente. Carecemos, pois, de uma Cultura/Civilização Alternativa. Estão em causa, presentemente, as duas conhecidas problemáticas, que só poderão ser resolvidas uma a cavalo da outra: as Alterações Climáticas, que estão a danificar o Planeta Azul (a nossa Casa Comum) e a má e corrupta Organização e Funcionamento das Sociedades, dos Estados/Nações. É necessário e urgente, desde logo, compatibilizar a boa Ciência com o seu uso económico-política, para que seja a própria Ciência a proceder à joeira do mal feito!... (Cf. Ignacio Ramonet, in ‘Manière de Voir’, oct./nov. 2018, pp. 4749, sob o título: ‘Accompagnes l’audace de la pensée’). « Com Francis Bacon, Blaise Pascal e René Descartes abre-se a idade d’ouro do pensamento racional, desembaraçado da ganga dos preconceitos, prescriptos pela religião e as tradições. ‘Para atingir a verdade ‒ escreve Descartes ‒ é preciso, uma vez na vida, desfazer-se de todas as opiniões, que recebemos, e reconstruir de novo, e desde os fundamentos, todos os sistemas dos seus conhecimentos’. Nessa base, que faz da razão o único guia do espírito, edificar-se-á a filosofia das Luzes da reflexão dos enciclopedistas. Estes irão até ao ponto de sonhar com um ‘governo científico dos homens’, fundado no progresso das ciências da natureza. O que reclamarão, igualmente, no séc. XIX, os socialistas utópicos como Charles Fourier, e sobretudo o positivista Auguste Comte, que promovia ‘a aliança natural entre ciência e democracia’ (idem, ibi, pp.47-48). É, desde logo, neste enquadramento, que se deve pôr toda a hodierna problemática das Alterações Climáticas. É preciso e urgente reabrir a via escancarada pelas Ciências, contra os interesses egoístas dos detentores do Capital!... “Poder-se-á tolerar que, em nome de uma certa concepção do progresso das ciências, a nossa liberdade e a sorte do planeta sejam postas em perigo?” (idem, ibi, p.48). Estamos a ceder às tenta-ções do ‘mau da fita’: o ‘cientismo’!... “A questão daquela aliança põe-se, de novo, hoje, com toda a intensidade. Em primeiro lugar, porque o cientismo ‒ essa confiança cega e total nas possibilidades infinitas da ciência ‒ conduziu, no decurso do séc. XX, a erros grosseiros, excessos e aberrações criminais. A bomba da Hiroshima (cem mil mortos, a 6 de Agosto de 1945) fez-nos compreender imediatamente que a superpotência do homem demiurgo podia atingir dimensões propriamente monstruosas. Desde então, data um novo olhar sobre a ciência. De protectora e emancipadora, ela vai-se tornando, pouco a pouco, ameaçadora” (idem, ibidem). Desta guisa, é a própria gramática da utilização da Ciência que está em causa. O saber das ciências é, normalmente, exercido sobre objectos e coisas. E, via de regra, por distracção ou ingenuidade, são os próprios Sujeitos humanos, que beneficiam ou não da 181


Ciência. Cai-se, espontaneamente (= sem criticismo) na heresia moderna a que o C.E.H.C. chamou ‘Objectivo-Objectualismo’!... Como acusa, muito bem, Edgar Morin: Faz-se ciência sem consciência!... Escreve, a propósito deste problema, I. Ramonet (ibidem): “Começa, então, a porse, um pouco por todo o mundo, uma questão política maior, a propósito do contro-lo democrático da ciência e seus efeitos. Questão que Dominique Lecourt formula nes-tes termos: “Que mecanismo de decisão se deve pôr em prática, que permita ao conjunto dos cidadãos fazer valer o seu ponto de vista, não sobre a própria investigação em si mesmo, mas sobre as questões postas pelas aplicações da investigação?” (O livro citado de D.L. é de uma importância extrema; título: ‘Contre la peur. De la science à l’éthi-que: une aventure infinie’, Hachette, Paris, 1990). É, sem dúvida, a filosofia Razão Prática kantiana, que aqui emerge, em toda a sua plenitude, e forçando os cidadãos a veros imperativos categóricos de ordem moral. É, igualmente, a questão de um Huma-nismo integral e criticista, que está em causa. Com efeito, muitos dos erros grosseiros, procedentes do ‘cientismo’ irresponsável, têm a ver com a mercadorização do corpo humano… A emergência das novas tecnologias (robóticas ou não), não só deveriam ter em conta os sectores produtivos mais carenciados delas, como deveriam preparar os desempregados a lidar com os no-vos aparelhos. É justamente esta tese que insinua e exprime Joseph E. Stiglitz na sua proposta, no art. ‘Dos ‘Coletes Amarelhos’ ao ‘New Deal Verde’ (in ‘Expresso’, 2ª cad., 26.1.2019, p.39): “Teria feito mais sentido começar com a criação de novos empregos, antes de os antigos serem destruídos, antes de taxarem, de novo, os condutores”. “Catástrofes como as de Bhopal, Tchernobyl ou Guadalajara levaram a comunidade a tomar consciência de que os riscos eram bem concretos e mortais, logo que, em nome de uma concepção absurda do progresso científico, o gigantismo industrial, a cegueira do Estado e a corrida ao lucro se conjugam, no esquecimento e no desprezo do homem” (idem, ibidem). A concluir, escreve o nosso Autor (ibi, p.49): “Nestes nossos tempos de neo-obscurantismo e de perigoso retorno do irracional, importa reafirmar a confiança na ciência e no progresso, reclamando o controlo democrático das suas possibilidades de se pôr ao serviço dos humanos”. Vítimas de um cientismo letal e luciferino são os grupos da geoengenharia capitalista, que pretendem resolver a problemática das Alterações Climáticas, com mais catástrofes acumuladas. No seu artigo titulado ‘Geoengenharia e capitalismo de catástrofe’, Viriato Soromenho Marques (in ‘JL’, 16-29.1.2019, p.33) escreve com boa consciência crítica e ciência honesta, criticando toda essa gente: “Com o desplante típico de quem vive impregnado pelo princípio de dominação, as elites do dinheiro e da tecnociência não importam de abrir uma nova época: a do capitalismo de catástrofe”. De facto, “as soluções tecnológicas propostas para mitigar uma desregulação dos ciclos biofísicos vitais do planeta, em vez de apostarem numa tecnologia que permita a redução das causas (emissões de gases com efeito de estufa), pretendem adicionar, através da geoengenharia, mais tecnologia intrusiva e de consequências imprevisíveis. Os mesmos promotores de uma engenharia extrativista e poluidora, que causou a doença, 182


querem agora curá-la através de uma grotesca e rudimentar manipulação da atmosfera e da hidrosfera. Com efeito, as duas principais propostas de geoengenharia, na sua grosseira expressão, seriam risíveis se a situação do planeta não fosse angustiante. Na atmosfera, pretende-se bombardear a estratosfera com aerossóis de dióxido de enxofre, ou de carbonato de cálcio, para diminuir a radiação térmica que atinge a Terra. Na hidrosfera, visa-se aumentar a alcalinidade dos oceanos, dispensando milhões de toneladas de partículas minerais para incrementar a capacidade dos mares absorverem, ainda mais, dióxido de carbono” (idem, ibidem). Um mundo assim está em grau de apocalipse acabado!!!...

EPÍLOGO

N.B.: No C.E.H.C. nunca esquecer, que, nas Culturas e Civilizações Humanas, a base é o Bio-Psico-Sócio-Ânthropos completo e integral, ao qual se atribui, na sua Espécie evolutiva própria, o carácter de Sujeito Livre e Responsável: enquanto ser inteligente, e ao entroncar no ‘Homem de Cro-Magnon’, ele tem, em média, mais 600 cm cúbicos de massa encefálica, em confronto com o padrão da subespécie anterior, que é o ‘Ho-mem de Neanderthal’. Eis por que o ‘Homem de Cro-Magnon (com uma média de 1500 cm cúbicos de massa encefálica, é o único paradigma da Espécie Humana, desde há ca. de 32.000 anos. Todos os actuais Humanos viventes descendem deste paradigma, dotado de uma Consciência ternária: Sujeito cognoscente//Objecto conhecido//Testemu-nha (Divindade). A subespécie construiu a Cultura/Civilização do ‘Homo Sapiens tout court’! A Espécie humana, qua tal, edifica a Cultura/Civilização do ‘Homo Sapiens// //Sapiens’! O que nós, hoje, designamos por Cultura Alternativa é a Cultura autêntica e plenamente HUMANA, que torna falaz e falsa a Linguagem corrente, de sabor religi-oso, da ‘Outra Vida’ (post mortem)!... N.B.: Direito//Economia//Política: Como é sabido, o primado deve ser o da Política sobre a Economia: Mas, em Política, o único Regime político, digno dos Humanos, é o Regime vera e autenticamente Democrático. Este deve ser instruído e enformado pelo Bom Direito; não pode agir ou actuar em ditadura, sob pena de destruir a Democracia, ‒ como acontece com a chamada ‘democracia liberal, sob o patrocínio do Sistema capitalista!... 183


O Sistema jurídico ocidental/europeu (enformado pelo Direito Natural, pelo Direito Romano e pelo senso comum criticista), é, significativamente, diferente do Direito anglo-americano, onde funcionam as balizas da ‘common law’ e da ‘plea bargaining’ (justiça negociada). Aqui, acaba por prevalecer o positivismo do Direito, em detrimento do Direito Natural. Assevera, muito bem, o jurista insigne J.N.Cunha Rodrigues (in ‘JL’, 13-26.2. 2019, p.27): “Quando se fala em verdade material e histórica e verdade formal ou processual-jurídica, assume-se, ipso facto, uma degradação ontológica da verdade conhecida como tal” (J.N.C.R. + M.R.). Quando o processo é resolvido entre as duas partes, com dispensa de julgamen-to, “o standard de prova deixa de ser beyond a reasonable doubt para se reduzir a pro-bable cause. É, por isso, comum dizer-se que este tipo de processo tem uma relação problemática com a verdade. Com efeito, nos EUA, o processo penal dá uma grande prioridade à pacificação social. A celeridade e a eficácia são instrumentos essenciais para a restauração do valor coercivo das normas e a promoção de sentimentos de segurança” (Idem, ibidem). N.B.: Nunca esquecer que as hodiernas Alterações Climáticas (procedentes da era geológica que dá pelo nome ‘civilizatório’ de Antropoceno) são fenómenos reais e iniludíveis:… E, se não queremos o ‘Apocalipse’/Catástrofe final da Terra, já nos próximos 50 anos, é imperativo categórico que nos empenhemos, todos, na Limpeza, nos desperdí-cios e na despoluição do Planeta Azul, que é a Casa Comum da Humanidade. Carecemos, por conseguinte, de Sociedades Humanas, que se constituam em veras e autênticas Sociedades Humanas, Alternativas às Sociedades contraditórias, hipócritas, mentirosas e corruptas, em que, ainda, vamos tristemente sobrevivendo, proh dolor!... ● N.B.: ‘Interminabilis vitae, tota simul ac perpetua possessio’: A posse perpétua, e totalmente simultânea, de uma vida interminável. Esta é a noção/definição de Tomás de Aquino (séc. XIII) da categoria de Eternidade. Como facilmente se pode dar conta, a noção procurou eximir-se às pressupostas noções de Tempo. Não obstante, o que pretende significar e a sua própria semântica integral, não conseguiram fugir à noção (implicada) de Tempo. Ora, a partir de 1915, Albert Einstein descobriu a teoria da Relatividade Restrita, e, logo a seguir, a teoria da Relatividade Geral. As duas teorias articuladas acabaram por eliminar as duas autonomias, existentes anteriormente: a do Espaço e a do Tempo. O cientista genial criou a categoria unificada de espaço-tempo ou tempo-es-paço. Com este passo (científico) histórico, a teoria/doutrina da Eternidade dissolveu-se, como, de resto, a de Infinito (que só na Matemática e na Imaginação humana pode ainda ter lugar.

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● N.B.: Se há um ‘salário mínimo nacional’, também deveria, simetricamente, haver um ‘salário máximo nacional’ (que poderia, no caso português, ser o de 10.000€ ou, no máximo, 0,5€ do PIB, por cada indivíduo-pessoa/cidadão). ‘Procurarás a justiça; nada além da Justiça’ (Deut. 16,20). Por altura do septenário da oração para unidade dos cristãos, “o Papa Francisco iniciou a semana com uma celebração ecuménica na Basílica de São Paulo extramuros, onde fez não só um diagnóstico da ordem social presente (‘quando a sociedade deixa de ter como fundamento o princípio da solidariedade, e do bem comum, assistimos ao escândelo de pessoas que vivem em extrema pobreza, ao lado de…símbolos de incrível riqueza’), mas também do acomodamento, que não deixa de ameaçar os próprios cristãos (‘também entre nós, cristãos, há o risco de prevalecer essa lógica… e de nos esquecermos dos vulneráveis e dos necessitados’). No fundo, o perigo para os crentes seria o de buscar apenas o culto, desligando-o da inescusável tarefa de construção da justiça, que lhe está associada”. (J. Tolentino Mendonça, in ‘Exp./Rev.’, 26.1.2019, p.92). ● N.B.: Poema de João Barcellos (no frontispício do opúsculo, titulado ‘Da Inquisição & da Hipocrisia: Sobre a Questão Fradesco-Inquisitorial’): (exergo inicial): ‘Eu sou um tempo Eu sou um espaço Altar e Fé em mim mesmo! Deus e Diabo são espelho De bestas sem diálogo Eu sou o novo Tempo: Um Deus que o é sem Espaço E riquezas qual flôr-sem-tempos J.C. Macedo (Vale de Judeus, 1 de Dez. 1984)

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● N.B.: Em Música e Canto vivo, em contraste anímico com o ‘mundo que temos’: Sob o estro e o horizonte positivos e belos, e em homenagem ao novo Bio-Psico-Sócio-Ânthropos, integral e completo, seria uma Graça admirável e agradável, ouvir: ‒ A Nona Sinfonia de L. von Beethoven; ‒ A obra ‘West Side Story’, na sua versão crítica, de Leonard B. Bernstein; ‒ Toda a produção (canora e orquestral) do Grupo ‘Operália’ do Maestro e Cantor genial Placido Domingo. * 185


● N.B.: Convite: Operários, Trabalhadores, Cidadãos e Cidadãs de todo o Mundo, Uni-vos! ‒ Para destruir todas as espécies de Capitalismo selvagem e mortífero… e adoptar a DEMOCRACIA autêntica, v.g., sob a forma do keynesianismo (com o imperativo do seu pleno emprego); ou sob a forma e a gramática do Socialismo Cooperativista à António Sérgio. Lembrem-se que a Democracia liberal, tão incensada pelos capitalistas e proclamada pelos manuais das escolas, não passa de uma farsa, e os outros Socialismos (conhecidos e experimentados) não passsaram de ‘capitalismo monopolista de Estado’ J.K. Galbraith dixit).

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DIALOGANDO COM MAHATMA GANDHI ‘ORATIO’ ● Perguntaram a Mohandas K. Gandhi: ‒ ‘Quais os factores, que destroem os Seres Humanos?’ Ele respondeu, como segue: ‘A Política sem princípios; O Prazer sem compromisso; A Riqueza sem trabalho; A Sabedoria sem carácter; Os Negócios sem Moral; A Ciência sem Humanidade; A Oração sem Caridade’. ---------- * ---------● ‘O que o Espelho da minha Experiência me ensinou: ‘A vida ensinou-me que as pessoas são amigáveis, se eu sou amigável; que as pessoas são tristes, se eu estou triste; que todos me querem, se eu os quero; que todos são ruins, se eu os odeio; 186


que há rostos sorridentes, se eu lhes sorrio; que há faces amargas, se eu lhes sou amargo; que o mundo está feliz, se eu estou feliz; que as pessoas ficam com raiva, quando eu estou com raiva; que as pessoas são gratas, se eu sou grato. A vida é como um espelho: se você sorri para o espelho, ele sorri de volta. A atitude que eu tomo perante a vida é a mesma que a vida vai tomar perante mim. Quem quer ser amado, AME!’ (Colhido na Web, 10.2.2019). (Man. e Lil Reis)

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N.B. : O C.E.H.C. já não é cristão/paulino nem adere a nenhuma Religião Institucionalizada. As religiões institucionalizadas constituem o ópio dos Povos. O Ersatz dissimulador da sua má e injusta e ruinosa política. ‒ Somos ‒ isso sim ‒ Socráticos e Jesuânicos. O Socratismo fundou esse Primeiro Instrumento antropológico, que é o Diálogo inter pares e, na sua base, como descobrir e identificar o vero Conceito. O Jesuanismo, que não é uma Religião, é o maior e mais iluminado e surpreendente Projecto/Gramática político, para as Sociedades humanas; e a boa e justa Organização da Humanidade, da Espécie psico-sócio-biológica ‘Sapiens//Sapiens’! Jeoshua praticou e ensinou-nos a vera Bondade e a vera e autêntica Justiça. Em suma, a Liberdade Responsável primacial e primordial, própria e distintiva de cada Indivíduo-Pessoa/Cidadão desta estirpe.

Manuel Reis: Fundador do C.E.H.C. e Autor do Livro. Lillian Reis: Secretária. Guimarães (Portugal), 4 de Março de 2019.

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ÍNDICE

● ‒ Em jeito de Exergo-Bússola: ……………………………………………. p. 2 ● ‒ PÓRTICO ……………………………………………………………… p. 4 ‒ Em torno do último Livro do Filósofo luso JOSÉ GIL: ‘CAOS E RITMO’ (já cit.) ……………………………. p. 7 ‒ O Cosmos tem o seu Ritmo (e orgânica!); no Caos não há nada ………..... p. 8 ‒ O Livro de J.G. não nos diz nada sobre as três Grandes Heresias modernas ocidentais: ‒ o Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo; ‒ o Objectivo-Objectualismo; ‒ e a ausência total de afirmação da Tese antropológica do Primado (absoluto) dos Sujeitos sobre os Objectos ………………………………………………p. 10 ‒ As Tecnologias não são criticadas segundo a gramática do Psico-Sócio-Ânthropos, completo e acabado ……………………………… .p. 13 ‒ Nas origens do Populismo o Processo de Globalização ………………… .p. 20 ‒ Ainda sobre o Livro citado do filósofo JOSÉ GIL, como pano de fundo ………………………………………………………………….. ..p. 32 ‒ Sobre a utopia/distópica da EUROPA=U.E. ……………………………. p. 35 ● ‒ GRAMÁTICA PROPEDÊUTICA EXIGIDA PELO PSICO-SÓCIO-ÂNTHROPOS SEGUNDO O PARADIGMA DO ‘HOMO SAPIENS//SAPIENS’ ……………… p. 39 ‒ INTRODUÇÃO PARA ENQUADRAMENTO …………………………..p. 40 ‒Textos em exergo para enquadramento …………………………………. p. 40 ‒ Guiões ………………………………………………………………………p. 41

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‒ Que é a IDEOLOGIA? …………………………………………………... p. 42 ‒ A Ciência e a Democracia ………………………………………………… p. 43 ‒ Que é isso do ‘mundo da pós-verdade’?! …………………………………. p. 45 ‒ A vera Autonomia da Ciência ……………………………………………. p. 45 ‒ Uma experiência revolucionária no Crescente Fertil …………………… p. 46 ‒ O processus do Industrialismo Contraprodutivo ……………………….. p. 49 ‒ O movimento transhumanista …………………………………………… p. 50 ● ‒ PROBLEMÁTICA CONCERNENTE À MUNDIVIDÊNCIA HUMANA DO FUTURO EVOLUTIVO …….. p. 53 ● ‒ Sócrates e Jesus: as duas Mensagens gémeas sempre ignoradas ou postergadas …………………………………………………………. p. 54 ‒ Do Direito e da Ética ………………………………………………………. p. 55 ‒ A Ética e o Direito são distorcidos no Sistema capitalista ………………. p. 57 ‒ Nas democracias liberais, não se podem compatibilizar a Liberdade e a Igualdade ……………………………………………….. p. 58 ● ‒ EM DEMANDA DE UMA BOA E JUSTA GOVERNAÇÃO ……………………………………………………………….. p. 61 ● ‒ CONTEXTO PARADIGMÁTICO PARA REFLECTIR E MEDITAR! (Preâmbulo) ………………………………………….. p. 62 ● ‒ REGIME DEMOCRÁTICO: A OUTRA METADE QUE FALTA! ……………………………………………………….. p. 67 ‒ Das duas espécies de Democracia: a) a autêntica (participativa e directa); b) e a liberalista/eleitoralista ………………………………… p. 68 ● ‒ DAS DIFICULDADES EM PERSONALIZAR OS INDIVÍDUOS HUMANOS ……………………………………… p. 69 ‒ Os impedimentos resultantes do (histórico) Processo Civilizatório ……… p. 69 ‒ DO SISTEMA EDUCATIVO NACIONAL LUSO ……………………… p. 75 ‒ A contradição moderna entre a Razão Crítica e a Razão Instrumental ……………………………………………………………………. p. 77 ‒ Linguagem e Cultura: atributos dos Sujeitos ……………………………... p. 79 ‒ A Subjectividade dos Sujeitos contra a sua alienação nos Objectos …….. p. 82 ‒ É a Família e a Escola que garantem a humanização e o processo de civilização humana ……………………………………………………….. p. 84 ‒ A adesão de Portugal à U.E., em 1986, trouxe-lhe os vícios do Neoliberalismo global ……………………………………………………………. p. 85 ● ‒ NA ERA DIGITAL (Cibernética) …………………………………….. p. 87 ‒ O zunami tecnológico da Informação desorientou as populações e contribuiu para alimentar, na base, a hidra do populismo …………… p. 87 ‒ Sobre a nova ‘revolução’ na chamada ‘Inteligência Artificial’ ………….. p. 89 ‒ Preparem-se para entrar no paradigma da Espécie Humana, que é o ‘Homem de Cro-Magnon’ e, então, acederemos à gramática do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ ………………………………………………… p. 91 ‒ Harari (e muitos outros cientistas) nunca conheceram o ‘Homo Sapiens// //Sapiens’ …………………………………………………………………. p. 92 ● ‒ DA GUERRA E DA PAZ (Sobreviver sob o Regime da ‘Paz De Armistício’?!... ………………………………………………………... p. 95 ‒ A sempiterna vigência da Cultura do Poder-Dominação d’abord?! ………. p. 95 ‒ A dualística Organização dos Estados modernos ……………………………. p. 97 ● ‒ Conclusões/Postulados para a nossa nova/Alternativa: PRAXIS SOCIETÁRIA …………………………………………………. p. 98 ‒ Em demanda de uma Paz substantiva ……………………………………… p. 99 ‒ Onde está a estratégia do Desarmamento?! ………………………………….... p.101 ‒ PU|TAO|YA: Portugal visto da China ……………………………………….p.102

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● ‒ Em demanda do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ ………………………………..,,, p.103 DUODECÁLOGO …………………………………………………….p.104 ● ‒ Em nome e no horizonte da Igualdade Social Humana e da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial …………………… p.104 ● ‒ BALIZAS GERAIS DA BOA E JUSTA GOVERNAÇÃO ‒ Na Galáxia da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial: sob a bitola do Psico-Sócio-Ânthropos integral …………………... p.109 ‒ A Democracia autêntica é absolutamente incompatível com o Sistema capitalista ………………………………………………………. p.110 ‒ A Psico-Sócio-História mal encaminhada ……………………………….... p.112 ‒ Da Descolonização que nunca aconteceu ………………………………….. p.113 ‒ O Pensamento liberal, com dificuldades em penetrar nas populações …. .p.114 ‒ Esperemos que as preocupações ecológicas abram tempos novos ……… p.115 ‒ Os erros do Neoliberalismo como via para uma Globalização monolítica! ……………………………………………………………… p.116 ‒ Que é uma guerra justa? …………………………………………………… p.117 ‒ Sobre o género literário ‘ENSAIO’ ………………………………………... p.118 ‒ Sobre o Sono ………………………………………………………………… p.119 ‒ SOCIALISMO COOPERATIVISTA ……………………………..p.120 ‒ O Socialismo de Tito, na Jugoslávia ………………………………………… p.121 ‒ Os riscos da Tecnocracia e a I.A. …………………………………………… p.122 ● ‒ A MATRIZ DO PSICO-SÓCIO-ÂNTHROPOS ……………... p.125 ‒ Os Direitos Humanos são indivisíveis …………………………………….. p.126 ‒ Cibernética//Robótica e as Questões da I.A. ………………………………p.127 ‒ Ciência com Consciência é o próprio do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ ……... p.128 ‒ ‘Homo Sapiens tout court’ e ‘Homo Sapiens//Sapiens’ …………………….. p.128 ‒ Da Boa Educação, na esteira de Paulo Freire ……………………………. p.129 ‒ Da Evolução para o ‘Homo Sapiens//Sapiens’ ……………………………. p.131 ‒ A Situação dos Humanos na Terra corre perigo… O ‘Antropoceno’ ……p.132 ● ‒ ESTAMOS NA PRÉ-HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO/ /CULTURA DO ‘HOMO SAPIENS//SAPIENS’ ………….. p.135 ‒ O que nos falta é alargar e aprofundar, criticamente, a Democracia ………... p.135 ‒ Contra os populismos e as democracias liberais …………………………… p.137 ‒ A U.E. mal concebida e estruturada …………………………………………. p.137 ‒ Do Diálogo socrático dapertutto …………………………………………….. p.138 ‒ Pedagogia e Educação, acima de tudo ……………………………………… p.139 ‒ Que é a IDEOLOGIA?! ……………………………………………………... p.139 ‒ Multiculturalismo e multiculturalidade ……………………………….......... p.140 ‒ A mundialização hodierna está carregada das Ideologias da Potestas-Dominação d’abord …………………………………………………….. p.141 ● ‒ Sobre as Origens ou fontes originais das Ideologias ………………………. p.143 ‒ Yuval Harari reprova, in extremis, a ‘democracia liberal’ …………………... p.145 ‒ O próprio e específico da Consciência Humana ……………………………... p.146 ● ‒ A Mundialização e o Bio-Psico-Sócio-Ânthropos ………………………….. p.149 ‒ O Bio-Psico-Sócio-Ânthropos como eixo central do Cosmos ……………… p.152 ● ‒ DA VERA E AUTÊNTICA DEMOCRACIA …………………… p.154 ‒ Os Sistemas Educativos precisam de uma grande Transformação ………. p.156 ● ‒ EM BUSCA DA ‘CASA COMUM DA HUMANIDADE’ …… p.159 Cultura/Ciência Ecológica em união articulada: com o Regime Democrático universalizado ……………………………………………... p.159 ● ‒ A Gramática da ‘Reductio’ de todas as Instituições e Empresas ao Cincho/Âncora dos Indivíduos-Pessoas-Cidadãos ……………………... p.160 ‒Acordo Ecológico de Paris/2015 ……………………………………………... p.162

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‒ A Teoria da Escolha Colectiva ……………………………………………… p.163 ● ‒ OS DOIS DESAFIOS: O Desafio Biotecnológico e o Desafio da Tecnologia da Informação: Entrosamento dos dois …………………… p.167 ‒ Inteligência e Consciência são realidades distintas ………………………….. p.169 ‒ Sobre a Ética básica do Republicanismo ……………………………………... p.171 ‒ Os Sujeitos detêm o primado absoluto sobre os objectos …………………. p.172 ‒ Carecemos de uma Cultura H. Alternativa: a do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ . p.174 ‒ Evocando Mohandas Gandhi ……………………………………………….. p.176 ● ‒ SÓIS DA COMUNA de Paris …………………………………………. p.178 ● ‒ ‘Casa comum da Humanidade’ …………………………………………….. p.179 EPÍTOME segundo a GRAMÁTICA DO C.E.H.C. E DO BIO-PSICO-SÓCIO-ÂNTHROPOS COMPLETO E INTEGRAL …………………………………….. p.181 * ARQUITECTURA …………………………………………………... p.181 ‒ Sujeito//Objecto: Consciência ………………………………………………. p.182 ‒ As Religiões Institucionalizadas e o fatídico Dualismo metafísico-ontológico …………………………………………………….. p.183 ‒ Hilemorfismo aristotélico ……………………………………………………. p.184 ‒ As duas Grandes Heresias Modernas ………………………………………. p.185 FUNCIONAMENTO ………………………………………………... p.186 ‒ Ideologia ……………………………………………………………………… p.186 ‒ Democracia Autêntica contra Democracia Liberal ……………………….. p.187 ● ‒ EPÍLOGO ………………………………………………………………….. p.191 ● ‒ DIALOGANDO COM MAHATMA GANDHI …………………... p.194 ÍNDICE ………………………………………………………………….. p.197

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Justa e Boa Governanção  

EM TORNO DA GRAMÁTICA PSICO-SÓCIO-ANTROPOLÓGICA

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