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São Remo

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Maio de 2013 ANO XX nº 2

distribuição gratuita

Notícias do Jardim

MAIORIDADE PENAL

Comunidade Festa é interrompida após ação da polícia militar pág. 6 São Remano Campeonato de poesia valoriza cultura popular urbana Esportes Torcedores buscam alternativas aos ingressos caros pág. 11

pág. 8

VICTORIA SALEMI

Reduzir pode não ser a melhor solução para combater a criminalidade juvenil

pág. 7

São Reminho Viaje ao mundo do circo!


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Notícias do Jardim São Remo Maio de 2013

debate

WILSON PEREIRA BRITO, MORADOR DA SÃO REMO

Igualdade de direitos

O pinião

“As pessoas deveriam ter o direito de se casar com quem quiserem”

Questão de respeito Otávio Nadaleto

São Remo

Isabelle Almeida Thaís Matos O casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado pelo senado francês no dia 12 de abril. Esse é um debate antigo e polêmico tanto na França quanto no Brasil e remeteu novamente às questões dos direitos civis dos homossexuais. No Brasil, a questão tomou fôlego quando o deputado Marco Feliciano, conhecido por declarações consideradas homofóbicas e racistas, assumiu a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. A eleição tem gerado, desde então, inúmeras manifestações a favor e também protestos contrários por parte da população, assim como a própria questão dos direitos dos homossexuais, evidenciando o caráter contraditório e ainda não resolvido da questão. No Jardim São Remo as opiniões também foram divididas. Para alguns o casamento entre homossexuais deve ser aprovado, uma vez que “é uma questão de gosto, as pessoas deveriam ter o direito de se casar com quem quiserem”, como disse o morador Wilson Pereira Brito e que “a religião não deve intervir na política”. Outros afirmaram que “o homem foi feito para a mulher” e que “uma família composta pelo pai e pela mãe é melhor para a criança”, como argumentou a moradora F.M. A questão se torna ainda mais problemática quando é levado em conta o preconceito que os homossexuais sofrem no cotidiano. Apesar de todas as políticas e campanhas contra essa prática, ela ainda é bastante recorrente. “O preconceito é velado, mas existe” afirmou Wilson.

MARIA ALICE GREGORY

O Artigo décimo segundo da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, de 1948, afirma: “Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques”. Ainda de acordo com ela, “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. É a partir desses textos que se afirma que ninguém, em hipótese alguma, tem permissão para discriminar outra pessoa. O caso dos homossexuais não é exceção. Não importa a religião à qual se pertença: enquanto seres humanos, precisamos aprender a aceitar as particularidades dos outros para conviver em sociedade. Todos gostam de ser respeitados, e a lei serve para defender a todos, não só ao grupo predominante. Desde a Proclamação da República, em 1889, o Brasil é um país laico. Essa separação entre fé e política é muito importante para preservar os que têm crenças diferentes. Utilizar Deus como motivo para negar concessões às minorias não é válido. O direito ao casamento civil homoafetivo no Brasil, oficializado no início desse ano, deve ser comemorado por todos, mas ainda existe muito a se conquistar. E, para que isso aconteça, é preciso que todos apoiem. Somos todos iguais, precisamos ter os mesmos direitos.

Moradores debatem casamento homossexual e religião

No entanto, em um ponto todos concordaram: políticos não devem usar de argumentos religiosos para aprovar ou barrar projetos de leis para toda a sociedade. Além disso, o Brasil possui grande multiplicidade de religiões e seria impossível acatar a todas as doutrinas e dogmas religiosos. Para Ibson, “muitos desses deputados usam a religião como trampolim para se eleger” e buscam impor suas crenças à população. Ele acrescenta: “os políticos não são dignos de recriminar ou impor coisa alguma”. Enquanto algumas pessoas ainda não têm opiniões definidas e outras carecem de maior explicação do assunto, o essencial é reconhecer a plena cidadania dos homossexuais, pois um regime verdadeiramente democrático exige direitos iguais a todos.

Notícias do Jardim

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Publicação do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Reitor: João Grandino Rodas. Diretora: Margarida Maria Krohling Kunsch. Chefe de departamento: Mayra Rodrigues Gomes. Professores responsáveis: Dennis de Oliveira e Luciano Guimarães. Edição, planejamento e diagramação: alunos do primeiro ano de jornalismo. Secretário de Redação: Otávio Nadaleto. Secretária Adjunta: Ana Carolina Leonardi. Secretária Gráfica: Sara Baptista. Editora de Imagens: Anaís de Oliveira. Editora de Arte: Victoria Salemi. Editora Online: Fabíola Costa. Editores: Ana Carla Bermúdez, Ana Luísa Abdalla, Dimitrius Pulvirenti, Gabriel Leles, Giovana Bellini, Juliana Meres, Maria Beatriz Melero, Pedro Passos. Suplemento infantil: Ana Helena Rodrigues, Arthur Aleixo, Thaís Freitas. Repórteres: Arthur Pinto da Silva, Breno França, Bruna Larotonda, Carolina Shimoda, Gabriela Romão, Igor Truz, Isabelle Almeida, Júlia Pellizon, Maria Alice Gregory, Maria Pedote, Mauro Barbosa Júnior, Rafael Bahia Felizatte, Thaís Matos, Thiago Neves Dias, Thiago Quadros, Yasmin Riveli. Ilustrações: Maria Alice Gregory, Rafael Marquetto. Correspondência: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443-Bloco A. Cidade Universitária CEP 05508-990. Fone: 3091-1324. E-mail: saoremo@gmail.com Impressão: Gráfica Atlântica. Edição Mensal: 1500 exemplares.


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entrevista

“Aqui a política ainda se concentra muito no candidato” ALESSANDRO SOARES DA SILVA, professor da USP

Direito das minorias é difícil no Brasil Alessandro Soares discute sobre o caso de Marco Feliciano e a luta contra o preconceito

A eleição do deputado Marco Feliciano como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias fez com que o debate sobre a intolerância e o preconceito voltasse ao dia a dia da população. Alessandro Soares da Silva, professor da USP e estudioso de manifestações populares, como a parada gay, aceitou o convite do NJSR e concedeu uma entrevista abordando essa polêmica e todas as suas consequências. NJSR – Como o senhor enxerga a situação atual desse debate e como a questão envolvendo o deputado Marco Feliciano contribui para a discussão? Alessandro Soares – No Brasil essa questão da concessão de direitos às minorias é muito complicada. Tomando como exemplo a luta LGBT, vemos no Canadá, Uruguai, Argentina e alguns estados norte americanos certas leis já aprovando o casamento homossexual. Aqui temos por um lado o Feliciano se fortalecendo e, por

outro, a população de uma maneira geral dando voz ao movimento LGBT. Mas não necessariamente isso resultará em voto numa próxima eleição. Aqui a política ainda se concentra muito no candidato e não no partido. O senhor então considera que a atitude dos políticos e dos eleitores compromete a luta das populações minoritárias por seus direitos na sociedade? Olha, não diria que a culpa é inteiramente dos políticos ou dos eleitores, até porque a política no Brasil só é feita desse jeito porque o sistema político adotado aqui nos leva a isso. A isso, você soma a distorção que existe na representação da população de cada estado. Como um terceiro fator, temos a necessidade do governo ter de fazer inúmeras alianças com partidos menores para conseguir governar. Nessa situação do Feliciano, devemos lembrar que ele é do governo Dilma. O PSC é base do governo e só por isso chegou à presidência da CDHM. Apesar da falta de iniciativa de alguns deputados, há casos

ARTTHUr PINTO DA SILVA

Arthur Pinto da Silva

Avanços apesar do sistema político como o de Jean Wyllys e também o exemplo dado pelo STF do direito ao casamento igualitário. Há uma evolução na luta por esses direitos. Na sua opinião, qual é a causa dessa evolução? A gente vê em São Paulo algo em torno de 3 milhões de pessoas na parada gay, o que equivale a uma Belo Horizonte de gente. Isso só demonstra que houve um crescimento do interesse da po-

pulação nesse caso. Eventos como esse desenvolvem uma consciência política e geram uma maior compreensão por parte das pessoas. Entretanto, não se pode falar só em avanços quando temos absurdos inéditos. Na PEC das domésticas, as mulheres do congresso foram pouquíssimo feministas e agora temos Marco Feliciano na presidência de uma comissão montada para defender os direitos humanos e as minorias. O que falta para essas 3 milhões de pessoas chegarem a um consenso e começarem a ter representatividade de fato? Acho que mais uma vez a gente cai na questão de que a culpa é tanto das pessoas, que muitas vezes parecem capazes de se fechar em torno de uma causa única, quanto do sistema político que força os candidatos a lançarem campanhas individualizadas sem necessariamente se fidelizarem aos ideais do partido ao qual pertencem. Veja a íntegra no site www.eca.usp.br/njsaoremo

Cenas da São Remo PEDRO PASSOS

MAURO BARBOSA JÚNIOR

MARIA ALICE GREGORY


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Notícias do Jardim São Remo

Maio de 2013

comunidade

“Meu apelo é quanto à educação e, sobretudo, saúde” Moradora do morro da querosene

Programa de metas A questão Sabesp Subprefeitura exibe novos planos de ação A subprefeitura do Butantã realizou, no dia 20/04, uma audiência pública com o objetivo de apresentar o novo Programa de Metas da região e ouvir sugestões da população. O evento foi sediado na Casa de Cultura e contou com a participação de moradores e representantes de políticos, além de organizações com atuação na área. O plano diretor, a ser cumprido até 2016, foi distribuído no local para os presentes, mas também pode ser acessado através do site da Prefeitura (www. prefeitura.sp.gov.br). Entre os mais de cinquenta pronunciamentos, o mais pontual em relação ao Jardim São Remo foi o de Daniela Mattern, fundadora da ONG Alavanca, que levantou a questão do pouco número de creches na região, cujos projetos de criação existem há mais de dez anos. Ela criticou que a assistência às crianças é, grande parte das vezes, feita por organizações da própria comunidade, que encontram dificuldades legais de operar em solo remano. Comentou também sobre os Ecopontos, um deles a ser implantado dentro da São Remo, além de reivindicar mais ciclovias e a facilitação de conexão entre elas. O tema que contou com mais demandas foi a criação de espaços verdes e áreas de lazer, principalmente para as crianças. A questão da redução da maioridade penal, atualmente bastante quastionada, foi contrariada por parte de uma habitante do Morro da Querosene. “Meu apelo é quan-

to à educação e, sobretudo, saúde, porque suponho que grande parte dos menores infratores são dependentes químicos”. Outras pautas bastante significativas foram abordadas, tais como saúde, transporte urbano, políticas voltadas para idosos, educação integral e o convênio firmado com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. O Programa de Metas da Prefeitura de São Paulo gira em torno de três eixos principais: compromisso com os direitos sociais e civis, desenvolvimento econômico sustentável com redução das desigualdades e, por fim, gestão descentralizada, participativa e transparente. Tais eixos, por sua vez, desdobram-se em cinco articulações territoriais, isto é, planos que priorizam a relação do cidadão com a cidade em que vive: resgate da cidadania nos territórios mais vulneráveis, estruturação do Arco do Futuro (projeto para facilitar a mobilidade), fortalecimento das centralidades locais, requalificação da área central e reordenação da fronteira ambiental. Das cem metas propostas, dezessete são contempladas pelo tema “resgate da cidadania em territórios mais vulneráveis”, o de maior importância para a comunidade sãorremana, merecendo então sua devida atenção por parte dos moradores. Incluindo projetos como expansão da oferta de vagas no ensino infantil, ampliação da rede CEU, implantação de novas modalidades do Bilhete Único e inserção de famílias no Cadastro Único.

MARIA PEDOTE

Rafael Bahia Felizatte

O terreno será tema da próxima Assembleia

Fachada do terreno desativado da Sabesp localizado na SR Maria Pedote A próxima Assembleia da Associação de Moradores, que aconteceria dia 4 de maio, foi transferida para o dia 11, às 15h, no Circo Escola. O tema principal de discussão será a reivindicação de que o antigo terreno da Sabesp, há algum tempo desativado, seja destinado para a construção de uma creche e, se houver espaço disponível, um Ecoponto. No entanto, esse terreno pertence à USP, que pode já ter planos de utilizá-lo para outros projetos. Para que a comunidade consiga se fazer ouvir, o Aproxima-Ação e o Projeto Alavanca estão construindo uma documentação sobre as duas questões mais urgentes do Jardim São Remo: a educação infantil e o lixo. O objetivo é retratar a história da luta que os moradores travam, há muito tempo, pelo direito de um lugar adequado para deixar suas crianças e depositar seu lixo. Essa documentação baseia-se no número de crianças de 0 a 6 anos

e de gestantes na comunidade que precisam ou precisarão de berçário, creche ou EMEIs (Escola Municipal de Educação Infantil). Também serão coletados dados sobre a situação do lixo e a trajetória percorrida para chegar à decisão de que um Ecoponto é uma solução adequada. Por fim, o documento também apresentará um estudo técnico do terreno da Sabesp, que ao que se especula, já tem salas que podem ser adaptadas para a criação de uma creche. O documento, que deve ficar pronto no começo de maio, será encaminhado para a Secretaria da Educação do Estado e do Município. Assim, pretende-se construir legalmente uma via para que a comunidade possa reivindicar suas necessidades. Tanto na questão da educação quanto na do meio ambiente, a falta de mobilização e de participação dos moradores contribui para o fracasso de projetos que visam solucionar esses problemas. Assim, ressalta-se a necessidade de participação de todos nas discussões e decisões.


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comunidade

“A responsabilidade de cuidar da criança deve ser de todos” Beatriz Pereira, educadora do centro saúde-escola

Depressão: mal que tem tratamento Confundida com tristeza, a doença demora para ser identificada por quem sofre dela

Os casos de depressão têm aumentado na São Remo. O Centro de Saúde-Escola da Faculdade de Medicina da USP providencia psiquiatras, terapeutas, psicólogos e estudantes de Psicologia da Universidade para auxiliar no tratamento. A depressão, no entanto, é uma doença mais grave do que pode parecer e de difícil identificação por parte do paciente. Ainda há muito o que se esclarecer sobre ela dentro e fora da comunidade. Primeiramente, como identificar quem sofre da doença? A tristeza não é depressão, embora seja um sintoma dela. Todos se sentem tristes frente a situações complicadas: brigas, problemas financeiros etc. Só se nota que a tristeza atingiu um estado de doença quando passa a interferir na vida do paciente, em sua relação com o trabalho e com as demais pessoas. Outros sintomas constantes são a perda de prazer ao realizar tarefas

Arte: ANA LUISA ABDALLA, a partir de desenhos de Van Gogh

Depressão no Brasil

Para cada homem com depressão, há duas mulheres que sofrem com a mesma doença.

rotineiras, perda ou aumento do sono e apetite, sensação de inutilidade consigo próprio e irritação. Na São Remo, os casos mais frequentes são causados pela perda de entes queridos, depressão pós-parto e divórcio. A procura de tratamento é feita majoritariamente por mulheres; com pouca busca de homens, pois eles comumente procuram fugas como o alcoolismo. Quem é vítima de depressão dificilmente é o primeiro a perceber; por isso a suspeita vem de familiares ou pessoas que convivem com ele. Há doze agentes de saúde na comunidade. Cada um é responsável, em média, por cadastrar duzentas famílias, suas casas e a situação de saúde de cada morador. A partir desses formulários, os agentes fazem uma ficha do domicílio e outra individual para serem arquivadas e decidirem os casos a serem aprofundados. Quando a suspeita de um quadro de depressão é confirmada, deve-se chamar um profissional e nunca recorrer à automedicação. O Centro de Saúde-Escola reaplica novos formulários ao paciente para saber se ele já foi internado, se já procurou tratamento, se recebe ajuda de amigos, familiares etc. A seguir, visitas e consultas são agendadas e o caso é encaminhado para a Supervisão de Saúde Mental, sempre com o consentimento da própria pessoa. O tratamento do paciente depressivo é de longo prazo. A melhora é contínua e progressiva, mas o risco de recaída é alto mesmo depois de exames com especialistas, do uso de medicamentos

e da alta médica. Por isso, as visitas às pessoas são constantes e a medicação só pode ser interrompida com indicação. A ideia que se tem da doença hoje, felizmente, está mudando. Enfrentando-a com a seriedade e aceitando a ajuda médica, a população desconstrói seu preconceito com relação a males psicológicos. Dessa maneira, o paciente que sofre de depressão conta com cada vez mais apoio em sua luta.

GIOVANA BELLINI

Rafael Bahia Felizatte Bruna Larotonda

Depressão não é tristeza

Subprojetos na SR Propostas relacionam saúde e cidadania Bruna Larotonda O Centro de Saúde-Escola Samuel Pessoa apresenta projetos sociais que englobam tanto a saúde quanto a educação. Beatriz Pereira, educadora do Centro, explicou quatro dos subprojetos contidos no Projeto São Remo, em vigor desde 2001. Cada um possui objetivos, parcerias e focos de abordagem diferentes. Um desses subprojetos é voltado para os bebês e as gestantes. Em parceria com o Circo Escola, residentes de pediatria e agentes comunitários acompanham as dificuldades dessas mães e recém-nascidos, colocando-se à disposição. Outro chama-se Um cidadão não nasce grandão. É realizado em parceria com algumas EMEIs (Escola Municipal de Ensino Infantil) e com o Projeto Girassol, e visa promover a conscientização das crianças a respeito de ques-

tões relacionadas ao meio ambiente, saúde e cidadania. Há também o subprojeto direcionado aos adolescentes. Ele ocorre em parceria com escolas e se baseia na discussão sobre temas relacionados à saúde na adolescência. O projeto abrange questões como a importância do esporte, a violência nas escolas e a sexualidade na juventude. O objetivo, segundo Beatriz, é dar voz aos alunos. Dedica-se também a um programa de alfabetização de adultos, com base na metodologia do famoso educador Paulo Freire. A educadora reforça a importância de cada um dos subprojetos. Para ela, a maior dificuldade são as parcerias. Não bastando trabalhar uma única dimensão, órgãos públicos e prestadores de serviços comunitários devem unir-se para tratar de temas relacionados à cidadania para alcançar algum resultado mais efetivo.


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comunidade

“Na favela, as pessoas também têm o direito de se divertirem” Testemunha anônima

Repressão policial em evento da São Remo Polícia Militar interrompe festa destinada a arrecadar fundos para a quadra de futebol da comunidade Yasmin Riveli Thiago Neves Evento realizado na quadra esportiva da São Remo no dia 12 de abril é interrompido após abordagem policial. Segundo uma testemunha que não quis se identificar os policiais apareceram por volta das duas horas da madrugada de sábado dispersando todos os presentes com a utilização de bombas de gás. “Foi desnecessário, eles vieram sem motivo, fizeram

as pessoas deitarem de bruços no chão e acabaram com a festa que tinha autorização para acontecer”, relata a testemunha. Naquele dia, o espaço foi fechado para a realização de apresentações musicais de samba e pagode, mas o ponto alto da noite seria a performance de dois famosos MC’S de funk que não tiveram a chance de subir ao palco. Ainda segundo a testemunha, parte do dinheiro angariado com a venda dos ingressos seria

destinada a manutenção da quadra que, entre outras coisas, necessita de novas traves. A ação policial ocorreu pouco antes do horário reservado para o show dos Mc’s. Ela faz parte de um plano de operação preventiva, que teve seu inicio em março, e atua contra os bailes de funk na cidade de São Paulo. Essa medida é considerada polêmica, pois para muitos esse estilo musical é visto como um gerador de perturbação pública. No entan-

to, para outros, ele é fonte de diversão, além de uma importante forma de expressão cultural que não estaria necessariamente ligada a aspectos negativos e, portanto, não deveria ser censurada. A testemunha da ocorrência na São Remo conta que a interrupção do evento gerou prejuízos aos organizadores, além de provocar grande tumulto entre os presentes. ”Na favela, as pessoas também têm o direito de se divertirem sem serem reprimidas”, ele conclui.

Empreendedorismo é opção para moradores São remanos realizam investimentos em comércios próprios como alternativa econômica

Thiago Neves

Moradores da São Remo apostam na abertura do próprio negócio como oportunidade de crescimento profissional e aumento da fonte de renda familiar. Os motivos para essa escolha incluem as demissões, a necessidade de complementação do orçamento e o sonho de se tornar um trabalhador

independente, livre dos chefes e da rotina nas empresas. Eliane Araújo, 21 anos, é um desses exemplos. Nascida na comunidade, ela e a mãe sempre sonharam em montar um comércio. A oportunidade surgiu há cerca de três meses com a abertura de uma loja de artigos infantis. “Depois do nascimento do meu filho percebi que era difícil encontrar roupas para crianças aqui na re-

Manuel Luís da Silva em seu estoque de arrnajos artificais

gião, então pensei que as outras pessoas deviam passar pela mesma dificuldade”, conta Eliane. Já dona Lúcia, 55 anos, controla há 10 anos uma mercearia e orgulha-se dos seus principais clientes, crianças que se agitam a sua frente para comprar doces. Ela se diz muito orgulhosa por poder trabalhar para si própria e conta que no inicio era desacreditada por todos. “Riam de mim dizendo que isso não ia dar certo, mas eu não desisti e hoje sou muito feliz”. No caso de Manuel Luís da Silva, 40 anos, o inicio da carreira de comerciante aconteceu após sua demissão. Hoje, ele comanda um negócio de arranjos artificiais que tem no dia das mães o seu pico de encomendas, mas ainda possui um segundo emprego como funcionário de uma empresa. Ele também planeja inaugurar um minisupermercado no meio desse ano.

Thiago Neves

Yasmin Riveli Thiago Neves

Mercearia da dona L´úcia A quitanda de dona Francisca existe há 17 anos, “Tudo o que eu tinha era uma caixinha de frutas”, ela comenta. No entanto, o comércio foi crescendo e conquistando clientes. Atualmente, seus maiores obstáculos são o aumento do preço dos alimentos e a concorrência com supermercados grandes como o Roldão e o Extra.


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papo reto

“A única saída é o maior investimento em políticas voltadas para a educação” aKHENATON nOBRE, DELEGADO

Redução da maioridade não é solução Para especialistas, é preciso medidas socioeducativas para reintegrar os jovens infratores

A redução da maioridade penal voltou a ser discutida no Brasil. O governador de São Paulo enviou ao Congresso um projeto de lei que prevê mudanças no Estatuto da Criança e do Adolescente, entre elas o aumento do tempo máximo de reclusão de jovens (de 3 para 8 anos). O ato abre espaço para a discussão sobre penas mais severas para infratores adolescentes, incluindo a redução da idade a partir da qual jovens podem ser penalmente responsabilizados por seus atos. Uma pesquisa mostrou que 93% dos paulistanos são a favor da redução da maioridade penal. Porém, a elevação no número de presos não diminui os indicadores de criminalidade. Em 1990 a população carcerária no Brasil era de 90 mil pessoas, enquanto em 2012 ela superou 549 mil, segundo o Ministério da Justiça. No mesmo período, houve um aumento de 63% nos homicídios no país, de acordo com o Ministério da Saúde. Os dados levam a crer que a existência de menores nas cadeias não resolveria o problema da violência juvenil, tornando a redução da maioridade penal uma medida equivocada. Para Regiliana Vicente Ferreira, faxineira cujo filho cumpriu 10 meses de medida socioeducativa na Fundação Casa, a solução está em dar oportunidades de trabalho e educação para os jovens infratores. “Qual é a prisão que reeduca qualquer infrator hoje em dia? Qual é a cadeia que faz

RAFAEL MARQUETTO

Igor Truz Juliana Meres

isso? Nenhuma”, diz a mãe. Ela acredita que o governador deveria garantir “empregos para esses jovens, porque hoje em dia eles saem de lá e já começam a querer voltar, porque não tem um amparo da sociedade que os rejeita”. Perspectivas para os infratores Regiliana Vicente acredita que a reinserção social do jovem após o cumprimento da pena é essencial para que ele não volte a cometer crimes. No entanto, ela enfrenta vários entraves para conseguir oportunidades para seu filho Gabriel, de 16 anos. O garoto não consegue se inserir no mercado de trabalho, nem ao menos se matricular em uma escola estadual para dar continuidade aos estudos após ter deixado a Fundação Casa. Ele cursou a 7ª série do Ensino Fundamental durante o internato, mas sua matrícula na 8ª foi rejeitada por duas escolas. “Nenhuma escola tá querendo aceitar o meu filho.

Eles estão negando a vaga que é um direito dele”, disse ela. Apesar de ter concluído três cursos de profissionalização na Fundação, Gabriel não recebeu certificados de nenhum deles, dificultando ainda mais a sua busca por emprego. “Como ele pode colocar no currículo que fez aqueles cursos sendo que ele não tem certificado? Como ele vai provar?”, questiona a mãe do adolescente. Falsas verdades midiáticas Para a grande imprensa, no entanto, esta realidade parece não existir. Todos os dias a população paulistana é bombardeada, seja pelo jornal, rádio ou TV, por notícias que dão conta da participação de jovens em atos criminosos. A impressão é que, do dia para a noite, todos os assaltos e assassinatos na cidade são cometidos por menores infratores. Neste contexto, outros dados são frequentemente esquecidos por grande parte das coberturas

jornalísticas. Estatísticas demonstram que 92% dos assassinatos no Brasil não são solucionados. Enquanto isso, outras pesquisas apontam que quase 80% da população carcerária no estado de São Paulo não completou nem ao menos o ensino fundamental. Ligando os pontos, a conclusão é que a punição é extremamente seletiva, e, em geral, acontece para pessoas com menos escolaridade e oportunidades de vida. “Sou contra a redução da maioridade penal, porque a solução para o envolvimento de menores em ações criminosas não deve ser a punição, e sim a adoção de medidas socioeducativas”, afirma Akhenaton Nobre, delegado polícia do 50º Distrito Policial, no bairro do Itaim Paulista, Zona Leste de São Paulo. O delegado acredita que adotar medidas mais severas de punição não representa um avanço para a segurança pública. Além disso, afirma que os jovens mais pobres são, em geral, os mais punidos: “Em minha região acabo lidando com um grande número de menores infratores. Isto porque atuo em uma região periférica da cidade de São Paulo. Outros colegas que trabalham em regiões nobres não costumam ter contato com crianças envolvidas no crime.” Segundo Nobre, cogitar a redução da maioridade penal é desviar o foco do problema real enfrentado por nossa sociedade: falta de oportunidades, educação e empregos para os mais pobres. “A única saída é o maior investimento em políticas públicas voltadas para a educação”, conclui o delegado.


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são remano

“Que tirem as poesias da gaveta e mostrem às pessoas” ALLAN JONNES, CAMPEÃO DA ZAP!

Virada agita SP ZAP! exalta poesia falada Destaque é o retorno do rap

Poemas impressionam público na edição nacional do Slam

Nos dias 18 e 19 de maio acontecerá a 9ª edição da Virada Cultural na capital paulista. O evento, organizado pela Prefeitura, pretende reunir diversas atrações em palcos distribuídos pelos bairros da cidade. Além dos shows ao ar livre, há previsão de atividades em unidades do Sesc e do CEU, todas elas disponíveis à população de forma gratuita. A abertura ficará a cargo da cantora baiana Daniela Mercury, que será acompanhada pelo grupo de samba-jazz Zimbo Trio. Para a edição de 2013 houve, pela primeira vez, uma consulta via internet com o objetivo de conferir quais atrações o público gostaria que se apresentassem. Dentre os mais votados estavam nomes conhecidos da música brasileira, como Chico Buarque, Maria Gadú, Criolo, Gaby Amarantos. Nem todos confirmaram presença, entretanto. Entre os espetáculos confirmados, destacam-se as performances de Fafá de Belém e Lobão. No palco da Praça da República, dois conjuntos reconhecidos se apresentarão: o Raça Negra, no sábado, e o Fundo de Quintal, no domingo, com a presença de seu ex-integrante Arlindo Cruz. Outra expectativa é o retorno do Racionais MC’s após cinco edições de ausência. O grupo tocará na Praça Júlio Prestes, às 15 horas do domingo, dia 19. Além de música, o evento terá apresentações de stand-up, teatro e cinema. Diferentemente dos anos anteriores, essa edição não ficará restrita à cidade de São Paulo, mas acontecerá também em outras cidades do estado, como Diadema e Indaiatuba, nas quais a Virada movimentará o cenário artístico nos dias 25 e 26 do mesmo mês.

Quer saber mais? A programação completa está disponível em: www.viradacultural.com.br

REPRODUÇÃO

Júlia Pellizon

Estrela D’Alva e o campeão Allan Jonnes Mauro Barbosa Júnior Zona Autônoma da Palavra – ZAP! – é o nome do primeiro campeonato, ou Slam, de declamações performáticas de poemas em território nacional. Os encontros, inaugurados em dezembro de 2008, acontecem toda 2ª quinta-feira do mês na sede do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, coletivo de artistas focados na formulação do “Teatro Hip-Hop”, diálogo entre encenação épica e cultura popular urbana. A idealizadora do Slam é Roberta Estrela D’Alva, formada em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP e uma das fundadoras do Núcleo. A artista chegou à final da Copa do Mundo de Poesia Falada de 2011 em Paris, conquistando o terceiro lugar, e ganhou o Prêmio Shell 2012 na categoria Melhor Atriz. As regras da disputa são declamar por rodada uma poesia de autoria própria. Acessórios extras, como figurino ou fundo musical, são vetados. Os prêmios incluem livros, CDs e DVDs, entre outras recompensas culturais. A última edição nacional da ZAP! fez parte do evento AuTORES EM CENA, realizado no Instituto Itaú Cultural, no dia 14 de abril. No Slam, que contou com uma homenagem especial à Dona Edith, organizadora do Sarau da Cooperifa, nove jovens autores de diferentes

cidades brasileiras protagonizaram uma disputa poética instigante. O poder da palavra foi explorado em poemas reveladores de denúncias sociais, de engajamento político, de críticas às mazelas urbanas. O campeão foi Allan Jonnes, estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe (UFS). O poema vencedor pode ser acessado pelo site www.eca. usp.br/njsaoremo. Leia a entrevista a seguir: NJSR – Como você soube do Slam “ZAP!”? Allan – Em novembro do ano passado, eu participei, a convite do escritor e editor Marcelino Freire, de uma edição do ZAP! na Balada Literária em São Paulo. Acabei ganhando a competição. Em seguida, o Marcelino convidou poetas de diferentes cidades do Brasil para participarem desse Slam nacional. Eu fui representando Aracaju. Você já publicou algum livro com suas poesias? Qual sua opinião sobre o mercado editorial de poemas? Para ser sincero, eu nunca tentei. Tenho uma relação muito mais sonora com os versos, embora também goste muito da palavra escrita também. Acredito que, além do mercado editorial, há outros meios alternativos de veiculação de poesias. Antes de lançar uma publicação, eu penso em alimentar um canal no YouTube com meus poemas em áudio e vídeo. Não dispenso a possibilidade do livro, porém tenho a necessidade de ver tudo saindo do papel por meio da minha própria voz. Como ganhador do Slam nacional, você tem alguma dica para passar aos poetas do Jardim São Remo? Sim, sim! Participar de saraus e Slams, ler muita poesia e dar vazão a toda a produção poética são medidas imprescindíveis a qualquer poeta. Que tirem as poesias da gaveta e mostrem às pessoas. Mais importante que os Slams é dizer o que tem vontade, seja em uma poesia, em um depoimento ou em uma história qualquer. Aliás, as competições são de palavra falada, e não só de poesia. Enfim, a dica é esta: procurar esses espaços, intervir, “inter-agir” e dizer poesia às pessoas.


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são remano

“Eu não dava fôlego para os adversários” MARIANO, TREINADOR DA ESCOLINHA

São Remo vira tema de documentário Empolgação e empenho de moradores da comunidade motivaram realização da filmagem Júlia Pellizon O distrito do Rio Pequeno, que, dentre outros, inclui o bairro do Jardim São Remo, está sendo retratado em um documentário financiado pela Prefeitura de São Paulo. O projeto chamado “História dos Bairros de São Paulo” está em sua 7ª edição. Realizado pela Secretaria Municipal de Cultura, tem como foco o mapeamento da memória histórica dos vários bairros da cidade, a partir de roteiros que ressaltam as características únicas desses lugares.

Na edição atual, um dos roteiros escolhidos foi o de Olívia Marques, que elegeu o Rio Pequeno pela grande diversidade de moradores na região. O nome provisório do documentário é “Tranquilidade e Movimento”, devido à presença de bairros calmos, com ares de interior, e agitados, sobretudo nas periferias. Contudo, em processo final das filmagens, o título ainda pode sofrer alteração. A criação artística e cultural do Rio Pequeno é abordado como tema central, e o destaque fica para a comunidade de São Remo.

Os eventos que sempre acontecem no bairro atraíram positivamente a atenção da equipe do filme: “ficamos impressionados com a quantidade de iniciativas voltadas à cultura e com o comprometimento das pessoas para conseguir que tudo saia direitinho”, conta Olívia Marques. O Sarau da Remo, o Circo Escola, a Bibliokombi da Dona Eva, a festa do Fim dos Muros e o grupo de rap Ideologia Fatal foram os principais projetos que interessaram a direção do documentário. A integração com outras partes

do distrito do Rio Pequeno também é um dos enfoques, que inclui até relatos do famoso cartunista Laerte, morador do distrito. A estreia do documentário em DVD está prevista para o fim de maio. A divulgação do material será de responsabilidade da Prefeitura, que enviará cópias para as bibliotecas públicas, escolas e centros culturais da capital paulista. Além disso, o grupo de trabalho pretende levar, pessoalmente, o filme concluído para a população dos bairros que contribuíram para a realização do projeto.

PERFIL

Vitorioso, Mariano trabalha na formação de atletas Após títulos como jogador, funcionário do HU dedica-se à escolinha de futebol na SR Os jogos de futebol são comuns na São Remo. A cultura esportiva mostra-se presente principalmente com times locais que ganharam fama e expressão, como o Catumbi FC, Vila Nova e Pão de Queijo. Nos bastidores, como treinador dos futuros jogadores da comunidade, está o professor José Mariano de Santana, mais conhecido como “Mariano”, administrador da escolinha de futebol local. Nascido há 40 anos no Pernambuco. Trabalhou durante muito tempo na roça, até que conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar uma passagem de ônibus para São Paulo, mudando-se para a casa de seu irmão. A convivência na comunidade

o levou para o mundo do esporte. De início, jogou nas categorias de base do clube Grêmio Esportivo Mauaense na posição de zagueiro. De acordo com o próprio Mariano, ele era reconhecido pelo seu estilo forte: “Eu não dava fôlego para os adversários”, resumiu. Fez história nos times da comunidade. Os número comprovam: são oito títulos no total, sendo cinco vezes campeão pelo Vila Nova, um pelo Pão de Queijo, um pelo extinto time Cruz Vermelha e outro pelo time São Remo. A escolinha de futebol surgiu a partir da vontade de oferecer uma atividade educativa e divertida que ajudasse a tirar as crianças das ruas. “A ideia foi do meu filho, que também é jogador de futebol”, relembra Mariano.

JÚLIA PELLIZON

Gabriel Lellis

Após títulos como jogador, Mariano decidiu treinar crianças na SR Suas melhores lembranças, entretanto, estão no campinho de terra do bairro. Define-se como um apaixonado pelo Jardim São Remo, assim como pela escolinha que administra, que já conta com

mais de 80 crianças, além dasparcerias firmadas com instituições como o Hospital Universitário da USP, um projeto bem-sucedio que é mais uma das façanhas na vida de José Mariano de Santana.


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Notícias do Jardim São Remo Maio de 2013

mulheres

“São raros os casos de mães que não estão nem aí para o que o filho anda fazendo” ALEXANDRE AUGUSTO, FUNCIONÁRIO DO CIRCO ESCOLA

O dia a dia das crianças preocupa mães As mulheres, mesmo com pouco tempo vago, continuam aflitas com o cotidiano de seus filhos

PEDRO PASSOS

Escola, creche, tempo na rua, companhias, saúde, proteção e diversão. Para muitas, o cargo de “mãe” na comunidade é uma tarefa árdua e complicada. Além de educar os filhos, ainda há a preocupação em certificar-se de que eles não estejam tendo más influências e que seus estudos e tempo livre estejam se dando de maneira eficaz e saudável. Mas há quem diga que hoje em dia o quadro é diferente. Antes, encontrar uma creche decente ou saber onde o filho está enquanto trabalha era um desafio. Hoje, a variedade de opções de instituições de ensino e de atividades extracurriculares para mantê-los ocupados e seguros cresceu bastante. Mas será que já é o suficiente para que a mãe são remana possa respirar tranquilamente e ficar aliviada?

Mayara faz planos para o filho

A maior divergência de opiniões nessa questão encontra-se entre as mães mais velhas e as mais novas. Quem já conhece a comunidade há mais de 10 anos e tem filhos já adultos costuma ter uma opinião muito diferente de quem chega nos últimos tempos com filhos pequenos. Para conhecer e entender um pouco mais dos problemas que a mãe são remana enfrenta, o Notícias do Jardim São Remo conversou com algumas mães de diferentes gerações, coletando depoimentos bem diversos. O que pensam as mães O maior problema colocado em pauta pelas mães foi o tempo que as crianças ficam na rua. Isso decorre do medo que seus filhos se relacionem com más influências ou frequentem lugares inadequados. “A minha maior preocupação com a minha filhinha mais para frente é a convivência mesmo” comenta Liliane dos Santos, mãe que vive na São Remo há mais de 10 anos. “O importante é ocupar a criança com alguma coisa, colocar em algum curso ou atividade, para que ela não fique por aí se metendo com quem não deve”. Mas em relação a este problema não faltam soluções: cresce na São Remo o número de projetos sociais para que as crianças se ocupem durante o tempo em que seus pais não estão presentes. Alexandre Augusto, funcionário do Circo Escola, conta que além da grande procura das mães em matricular seus filhos nas atividades, há também uma preocupação com seu desempenho e frequência nos exercícios propostos.

MARIA ALICE GREGORY

Maria Alice Gregory

Atividades extracurriculares ajudam a ocupar o tempo das crianças “Aqui no Circo temos um controle de frequência bem atencioso. Se percebemos que uma criança tem faltado bastante ou não tem se comportado muito bem, logo entramos em contato com os pais ou fazemos uma visita à família e, no geral, a gente até percebe que eles se preocupam bastante, são bem raros os casos de mães que não estão nem aí para o que o filho anda fazendo”, explicou. Opinião das mais experientes Para Mayara Santos, criada na São Remo e hoje com filho pequeno, as coisas melhoraram de tempos pra cá. “Eu lembro quando eu era pequena, não tinha asfalto, não tinha pracinha e o campo era todo cheio de mato. Era tudo muito feio, mas melhorou muito, agora da pra andar de bicicleta com mais tranquilidade”. Quanto ao que deseja para o futuro do seu filho já diz logo: “Quero que ele estude no SESI pra depois entrar na USP e sair daqui”. Por outro lado, a experiência com certos problemas da comu-

nidade dá às mães mais experientes um criticismo maior em relação às oportunidades que a geração de hoje tem. Há mães que procuram matricular seus filhos em escolas cujo período calhe com seu tempo de trabalho, para que possam ficar em sua companhia a maior parte do dia. Projetos como o Alavanca disponibilizam uma série de vagas para cursos diversos, mas que continuam disponíveis por falta de interesse. Entretanto, apesar dessa grande disponibilidade, para algumas mães, não há curso que dure o suficiente; além disso, em muitos casos, os próprios filhos se desinteressam pelas atividades e acabam deixando-as de lado. “O principal [problema] é não ter um lugar para deixar seus filhos na maior parte do tempo, deixando eles expostos mais na rua. Se você manda eles para escola várias vezes eles não vão, aí acabam ficando pela rua. Não tem um projeto que segure muito eles” comenta Risomar Francisca, ex-moradora da São Remo.


“É um absurdo para um trabalhador simples que tem tantas contas para pagar” GEORGE SANTANA, torcedor CORINTIANO DA SÃO REMO

Maio de 2013 Notícias do Jardim São Remo 11

esportes

Preços afastam torcedores dos estádios Altos valores cobrados esvaziam as arquibancadas e fazem público procurar alternativas Carolina Shimoda O aumento do preço dos ingressos ao longo dos anos é um dos principais fatores que mantêm o torcedor longe dos estádios, atrás apenas da violência. De acordo com estudo divulgado pela Pluri Consultoria, os ingressos mais baratos para uma partida de futebol no Brasil aumentaram 300% em dez anos. Apesar dos valores altos que são cobrados por partida, o público não desfruta de uma infraestrutura que faça jus ao preço.

ANDRÉ SPIGARIOL

Reivindicações e alternativas Em janeiro, antes do início do Campeonato Paulista, a torcida corintiana protestou em frente à sede da Federação Paulista de Futebol contra o preço estipulado para os jogos do time. Em resposta, a diretoria resolveu aumentar o desconto dos participantes do programa de sócios do clube. Os são remanos George Santana e Nilton ressaltaram que antigamente os moradores da comunidade iam mais aos estádios, mas hoje em dia não é sempre que dá. Ambos chegaram a pagar R$50 no ingresso mais barato para ver uma partida do Campeonato Paulista. “É um absurdo para um trabalhador simples que tem tantas outras contas para pagar”, lamenta George Santana. Diante disso, os torcedores buscam cada vez mais alternativas para continuar acompanhando o time do coração sem fazer o bolso doer. Além dos programas de sócio torcedor, existe o bom e velho

barzinho nas tardes de futebol. Aos domingos, os bares por todas as cidades costumam ficar lotados, com muita gente querendo ver os jogos. Segundo Raimundo, dono de um bar da São Remo, pouquíssimos bares ficam vazios em dias de jogo na comunidade, já que o futebol é a principal forma de lazer para quem mora lá. Reduções já estão a caminho Apesar do quadro negativo, a população pode começar a ver a

situação se revertendo. A aprovação da lei que determina 40% de cotas para meias-entradas em eventos culturais, esportivos e artísticos deve reduzir o preço dos ingressos entre 20% e 35%. As fraudes que ocorrem na compra de meias-entradas são apontadas como motivadoras dos preços altos. Agora, com maior fiscalização, espera-se uma série de benefícios tanto para quem compra a meia-entrada quanto para os pagantes de inteiras.

Problema afeta outros países O problema dos preços, entretanto, não é exclusividade das terras brasileiras. Na Inglaterra, por exemplo, alguns torcedores do Manchester City protestaram contra o alto valor cobrado na partida contra o Arsenal, no dia 13 de janeiro de 2013 pelo Campeonato Inglês. Ao final do jogo, os jogadores agradeceram a presença da torcida, tendo noção da dificuldade que algumas pessoas tiveram para estarem lá.


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Notícias do Jardim São Remo Maio de 2013

esportes

São Remo participa dos Jogos da Cidade e garante permanência na Copa Kaiser

De olho na 2ª fase! Lutou, mas não deu Empate com Saloá SC elimina QK Vila Nova FC

Gabriela Romão

Thiago Quadros

Jogo pegado define resultado O Clube Favela reagiu com um gol de Diego, camisa 2. O time da São Remo tentou manter o ritmo e fez o terceiro gol aos 27 minutos, mas estava impedido. A partida começou a ficar presa no meio campo, com muitas faltas. Na segunda etapa, o jogo continuou truncado. Eficiente, o Catumbi segurou o resultado e agora enfrentará o Savime, da Vila Jaragu´á, no dia 5 de maio.

O Vila Nova empatou com o Saloá SC em 3x3, jogando pela Copa Kaiser, no último domingo, dia 28 de abril. Com esse resultado, o QK Vila Nova FC terminou a 1ª Etapa do campeonato com apenas dois pontos, e não conseguiu se classificar para a 2ª Etapa. No último jogo da primeira fase, realizado no CDM Jardim Regina, o time são remano abriu THIAGO QUADROS

O Catumbi fez sua última partida pela 1ª etapa da Copa Kaiser no domingo, 21 de abril, em Vila Clarice. Com um começo arrasador, o time são remano garantiu os três pontos na vitória por 2x1 e fechou a classificação com 100% de aproveitamento. Apesar da derrota, o Clube Favela, com apenas dois pontos, também conseguiu uma vaga na próxima fase, junto ao Família 100 Valor, que venceu o seu jogo e alcançou o segundo lugar no grupo 1 da Zona Oeste. A partida começou bem para os são remanos, que foram ao ataque e abriram o placar logo aos dez do primeiro tempo, com Renato, camisa 17. Bem nos desarmes e no contra-ataque, o Catumbi ampliou o placar aos 18 minutos: depois de o camisa 9, Iran, carimbar o travessão do goleiro adversário, Edvaldo, camisa 7, empurrou para as redes.

BRENO FRANÇA

Catumbi FC vence mais uma e segue invicto

Vila Nova lamenta eliminação

o placar aos dois minutos, com gol de Wellington. Negueba ampliou aos cinco minutos. Já em recuperação do Saloá, Everton, camisa 9 marcou duas vezes. Um lance de “agressão e revide” resultou em dois cartões vermelhos, um para cada equipe, levando a muitas reclamações por parte de ambos os times. O primeiro tempo ainda rendeu outro gol de Everton, virando o jogo para a equipe de Pirituba. As equipes voltaram para o segundo tempo com o mesmo clima tenso do primeiro. Com fome de vitória, o Vila Nova reagiu com várias chances de ataque. Uma falta dura na metade do período fez com que um jogador do Saloá tivesse que receber atendimento médico dentro de campo. As três substituições feitas pelos mandantes não adiantaram e o Saloá cedeu à pressão do time alvi-celeste, que empatou aos 20 minutos, com gol de Pereira, mas não evitou a desclassificação.

São Remo participa dos Jogos da Cidade Breno França Com o início das atividades do XI Jogos da Cidade de São Paulo, os moradores do Jardim São Remo poderão assistir a partidas na própria comunidade e nas proximidades da subprefeitura do Butantã. Nos dias 20 e 21 de abril, seis jogos foram realizados no Campo da São Remo e aqueles que estiveram presentes puderam ver 32 gols serem anotados. As partidas

foram válidas pela fase pré-regional, agora, a partir do dia 18 de maio, a fase regional começa e outros jogos devem ser realizados. Mas os Jogos da Cidade não contam apenas com o futebol de campo, não é a toa que a competição chega a sua 11ª edição e é considerada o maior evento de esporte amador do Brasil e um dos maiores do mundo. Realizado pela Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação, os Jogos contam com

campeonatos de Basquete, Voleibol, Handebol e Futsal, além do Futebol, tanto para homens quanto para mulheres, e festivais de Bocha, Gateball, Xadrez, Capoeira, Vôlei de Areia, Tênis de Campo (infantil e adulto) e Streetball. Com o objetivo de proporcionar lazer e entretenimento da maneira mais democrática possível aos mais de 11 milhões de paulistanos, a secretaria contabilizou a participação de quase 40

mil atletas no ano passado, espalhados por 11 subprefeituras da cidade e esse ano não promete ficar atrás. Segundo um dos organizadores do evento, o banco de dados consiste em mais de 600 mil cadastros e mais de 500 mil jogos realizados ao longo de sete anos lidando com uma média de 300 jogos por final de semana. Para obter mais informações acesse o site www.jogosdacidade.prefeitura.sp.gov.br.


São Reminho Parte integrante do Notícias do Jardim São Remo - MAIO DE 2013

...o

Reeeeespeitável Públicooo....

Circo chegou ao São Reminhooo!

As artes circences já são praticadas há pelo menos 4 mil anos, mas o circo como o conhecemos hoje só começou a se formar durante o Império Romano.


C R U Z A D I N H A

Recorte e monte os quadros para descobrir a figura

Circo no Brasil

No Brasil os circos foram formados pelos ciganos vindos da Europa, onde eram perseguidos. Suas especialidades incluíam domar ursos, o ilusionismo e apresentações com cavalos. Eles viajavam de cidade em cidade, adaptando os espetáculos ao gosto da população local.

Procure as palavras e os nomes das figuras

*ARTISTA

*ARQUIBANCADA

*ESPETÁCULO

*ALEGRIA

*EQUILIBRISTA

*PIPOCA

*PLATEIA *PICADEIRO *BILHETERIA


Agenda FESTIVAL INTERNACIONAL DE CIRCO

Compare as duas imagens e descubra os sete erros.

SESC Pinheiros

Rua Paes Leme, 195, Pinheiros

Espetáculos gratuitos: VAIQUEEUVOU

IRMÃOS SABATINOS (SP) 04 e 05/05 – 16h

AUTOMATARIUM

CIA. LAITRUM (ESPANHA) 05/05 – 17h

DEISESPERA

GRUPO ARES (SP) 10/05 – 19h 11 e 12/05 – 16h

LAMBE-LAMBE

25 e 30/05; 01, 08 e 16/06 16h

MATINÊ MANACÁ

26/05; 02, 09 e 15/06 16h

VOCÊ SABIA?

Desde 2005 é proibida por lei a apresentação de animais em espetáculos circenses no estado de São Paulo. Os defensores da lei afirmam que os animais sofriam maus tratos (tais como dentes mal serrados, jaulas minúsculas, etc) e eram frequentemente abandonados, já que o tratamento de grandes animais, como tigres, elefantes e leões, custa muito caro. Além disso, há ainda inúmeros casos de acidentes, principalmente volvendo animais selvagens, nos quais pessoas são gravemente feridas.


O dia das mães está chegando! Você já pensou no que sua mãe quer ganhar de dia das mães? Para muitas, só a presença do filho já é um lindo presente. Um filho que a ame, que se importe com ela, que se esforce na escola e que a ajude nas tarefas de casa pode ser tudo o que ela quer. Mas não precisa ser exatamente o dia das mães para fazer um agrado. Todo dia pode ser dia das mães! E é tão bom um abraço de mãe. Não se esqueça de dar um abraço na sua assim que chegar em casa! pag. 2 - cruzadinha

Respostas:

pag 2 - caça-palavras

Agenda cultura (em box)

pag. 3 - 7 erros

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