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IV Seminario Hispano Brasileiro de Pesquisa em Informação, Documentação e Sociedade

Gestão da informação, comunicação e tecnologia

Coordenação: Profa. Dra. Marta Lígia Pomim Valentim (Unesp) Dra. Cecília Leite de Oliveira (IBICT) Prof. Dr. Antonio Miranda (UnB)


Reitor Ivan Marques de Toledo Camargo Vice – Reitora Sônia Nair Báo Decanato de Pesquisa e Pós-graduação Decano: Prof. Dr. Jaime Martins de Santana Faculdade de Ciência da Informação Diretora: Elmira Luzia Melo Soares Simeão

Rector Carlos Andradas Heranz Faculdad de Ciencias de la Documentación Decano: José Maria de Francisco Olmos Departamento de Biblioteconomia y Docuentación Directora: Dra. Mª Teresa Fernández Bajón

Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Coordenador: Fernando Cesar Lima Leite

Reitor Julio Cezar Durigan Faculdade de Filosofia e Ciências Diretor: Dr. José Carlos Miguel Departamento de Ciência da Informação Chefe: Edberto Ferneda Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Coordenadora: Dra. Maria Cláudia Cabrini Grácio

Faculdade de Ciência da Informação FCI Biblioteca Central, entrada leste Campus Universitário Darcy Ribeiro Brasília - DF - Brasil - CEP: 70.910.900 email: necfci@unb.br, fone: 3107-264

Diretor Cecilia Leite Oliveira Coordenação Geral de Pesquisa e Manutenção de Produtos Consolidados Coordenadora: Lillian Alvares Coordenação de Planejamento, Acompanhamento e Avaliação Coordenador: Ricardo Crisafulli Rodrigues


IV Seminario Hispano Brasileño de investigación em Informação, documentação e sociedade

Gestão da informação, comunicação e tecnologia

Coordenação: Profa. Dra. Marta Lígia Pomim Valentim (Unes p) Dra. Cecília Leite de Oliveira (IBICT) Prof. Dr. Antonio Miranda (UnB)

Brasília Faculdade de Ciência da Informação Universidade de Brasília 2015


Copyright © 2015 Elmira Luzia Melo Soares Simeão

Equipe Editorial

Conselho Editorial e Científico

Faculdade de Ciência da Informação - FCI Diretora

Dra.Cecília Leite de Oliveira (IBICT)

Elmira Luzia Melo Soares Simeão

Profa. Dra. Georgete Medleg Rodrigues (UnB)

Núcleo de Editoração e Comunicação - NEC Coordenadora

Profa. Dra. María Aurora Cuevas Cerveró (UCM)

Claudia Neves Lopes Diagramação Bruna Ribeiro de Freitas Capa

Faculdade de Ciência da Informação FCI Núcleo de Editoração e Comunicação – NEC/ FCI Biblioteca Central, entrada leste Campus Universitário Darcy Ribeiro Brasília - DF - Brasil - CEP: 70.910.900 email: necfci@unb.br, fone: 3107-264

Profa. Dra. Elmira Luzia M. Soares Simeão (UnB)

Profa. Dra. Mª Teresa Fernández Bajón (UCM) Profa. Dra. Marta Lígia Pomim Valentim (Unesp) Profa. Dra. Regina Célia Baptista Belluzzo (Unesp)


SUMÁRIO

1

Rafaela Carolina da Silva, Rosângela Formentini Caldas

11

GESTÃO DE BIBLIOTECAS NO CONTEXTO HÍBRIDO: UM ESTUDO COMPARATIVO ENTRE BIBLIOTECAS HÍBRIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO DE COMUNIDADES 2

Carlos Francisco Bitencourt Jorge, Carlos Eduardo Moreno dos Santos

23

A IMPORTÂNCIA DA COMPETÊNCIA INFORMACIONAL PARA A EDUCAÇÃO CORPORATIVA NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO ORGANIZACIONAL 3

Alessandro Rasteli, Rosângela Formentini Caldas

37

O CONCEITO DE INFORMAÇÃO E AS ATIVIDADES CULTURAIS EM BIBLIOTECAS PÚBLICAS 4

Roseane Andrelo, Tamara de Souza Brandão Guaraldo, Maria Eugênia Porém

51

MEDIAÇÃO E USO CRÍTICO DAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO: O PAPEL DA ESCOLA 5

Íris Marques Tavares Sardelari

69

O PROCESSO DE MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO EM MÍDIAS SOCIAIS PARA UM CONTEXTO ORGANIZACIONAL 6

Cássia Dias Santos, Juliete Susann Ferreira de Souza, Marta Lígia Pomim Valentim

83

ANÁLISE DA INTER-RELAÇÃO DA CULTURA E DA COMPETÊNCIA EM ORGANIZAÇÕES COMPETITIVAS 7

Marinês Santana Justo Smith, Barbara Fadel

99

MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO CONTÁBIL NA CONSTRUÇÃO DE SIGNIFICADOS COM VALOR ESTRATÉGICO: UMA ABORDAGEM SISTÊMICA 8

Brasilina Passarelli E-INFOCOMUNICAÇÃO: IDENTIDADE CONCEITUAL E CRUZAMENTOS DISCIPLINARES

117


9

Ana Paula Alves Teixeira Van Erven Louzada,Cássia Costa Rocha , , Daniel de Deus Daniele da Fonseca Garamvolgyi e Silva Daniele , , Masterson Tavares Pereira Ferreira Heloisa Helena Costa Patricia Carvalho Mendes

129

O PROFISSIONAL BIBLIOTECÁRIO COMO MEDIADOR NO CONTEXTO DAS PRÁTICAS DE ENSINO DA UNIVERSIDADE 10

,

,

Natacha Kajimoto Vinícius Santarém Vinícius Aleixo Gerbasi

139

PARA UMA ECOLOGIA DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO ENQUANTO ELEMENTOS DE ANÁLISE PARA A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA ORGANIZACIONAL: O CASO DA IMIGRAÇÃO JAPONESA DE MARÍLIA 11

Luis Fernando Conduta, João Arlindo dos Santos Neto, Oswaldo Francisco de Almeida Júnior, Barbara Fadel

155

O MEDIADOR DA INFORMAÇÃO CONTÁBIL E A COMPETÊNCIA EM INFORMAÇÃO 12

Juliana Cardoso dos Santos, João Arlindo dos Santos Neto, Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

169

ESTUDO DE GERAÇÕES: O PAPEL DO MEDIADOR DA INFORMAÇÃO NO PROCESSO DE INTELIGÊNCIA COMPETITIVA 13

Maíra Prado da Silva

187

A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO: INSUMO PARA A INOVAÇÃO NAS ORGANIZAÇÕES 14

Cristiane Luiza Salazar Garcia, Elaine Cristina Lopes

203

PESQUISA CIENTÍFICA EM GESTÃO DO CONHECIMENTO: ASPECTOS QUALI-QUANTITATIVOS NAS TESES E DISSERTAÇÕES PRODUZIDAS NO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO DA UNESP 15

Patrícia Zuccari, Regina Célia Baptista Belluzzo, Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

217

COMPETÊNCIA EM INFORMAÇÃO E MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO NO ÂMBITO DO PROCESSO DECISÓRIO NAS ORGANIZAÇÕES 16

Naiene Sanchez Silva A NATUREZA DA GESTÃO NO CENTRO EDUCACIONAL UNIFICADO: A GESTÃO DO CEU VISTA PELA ÓTICA DA CULTURA

235


17

Elismar Vicente dos Reis, Maria Inês Tomaél

251

INFOCOMUNICAÇÃO: DELINEAMENTO E REPRESENTAÇÃO 18

Priscilla Aparecida Santana Bittencourt, João Pedro Albino

269

OS NATIVOS DIGITAIS E O USO DAS TECNOLOGIAS NA EDUCAÇÃO DO SÉCULO XXI 19

,

,

Felipe Augusto Arakaki Rachel Cristina Vesú Alves Plácida Leopoldina , Ventura Amorim da Costa Santos Ana Carolina Simionato

279

APLICAÇÃO DA ISBD CONSOLIDADA NO DUBLIN CORE EM RECURSOS DO DOMÍNIO BIBLIOGRÁFICO 20

Ângela Maria Grossi de Carvalho, Deise Deolindo Silva, Maria José Vicentini Jorente, Thabyta Giraldelli Marsulo

293

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO NA INTERNET: UMA ANÁLISE SOBRE A DOMINAÇÃO GOOGLE E A UTILIZAÇÃO DE FILTROS DE RECUPERAÇÃO DE INFORMAÇÕES 21

Elena de la Cuadra Colmenares, Sara Gallego Trijueque

307

CIBERPOLÍTICA: TWITTER EN LAS ELECCIONES MUNICIPALES Y AUTONÓMICAS DE MADRID 2015 22

Sara Gallego Trijueque, Elena de la Cuadra Colmenares

323

UNA NUEVA RELIGIOSIDAD A TRAVÉS DE LAS REDES SOCIALES DIGITALES 23

Ramon Fernandes Lourenço, Maria Inês Tomaél

339

MÍDIAS LOCATIVAS, WIKICIDADE E CIBERCIDADE: UMA RELAÇÃO ENTRE SOCIEDADE, INFORMAÇÃO E CIDADE 24

Ana Maria Jensen Ferreira da Costa Ferreira, Jean Fernandes Brito, Caio Saraiva Coneglian, Jéssica de Oliveira, Silvana Aparecida Borsetti Gregório Vidotti

357

AS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO E USUÁRIOS IDOSOS: UM ENFOQUE NA UNATI UNESP/MARÍLIA 25

Jean Fernandes Brito, Silvana Aparecida Borsetti Gregório Vidotti ARQUITETURA DA INFORMAÇÃO, USABILIDADE E ACESSIBILIDADE EM BIBLIOTECAS DIGITAIS DE TESES E DISSERTAÇÕES DAS UNIVERSIDADES ESTADUAIS PAULISTAS

371


APRESENTAÇÃO É com muita alegria que publicamos as três edições com os trabalhos apresentados no IV SEMINÁRIO HISPANO-BRASILEIRO DE PESQUISA EM INFORMAÇÃO, DOCUMENTAÇÃO E SOCIEDADE e IV SEMINÁRIO DE COMPETÊNCIA INFORMACIONAL realizado na Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - Unesp – Câmpus de Marília- SP, entre 24 e 26 de junho de 2015. O evento reuniu especialistas em Ciência da Informação, Biblioteconomia, Arquivologia, Museologia, Comunicação e Tecnologia da Informação, e pesquisadores em Competência em Informação do Brasil, Espanha, México e da Austrália. Além da Universidade de Brasilia (UnB), Universidad Complutense de Madrid (UCM) e Unesp, o evento tem apoio permanente do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia - IBICT. O principal objetivo do SEMINÁRIO HISPANO-BRASILEIRO DE PESQUISA EM INFORMAÇÃO, DOCUMENTAÇÃO E SOCIEDADE é promover o intercâmbio acadêmico e científico entre instituições brasileiras e espanholas, além de outras instituições em âmbito internacional, consolidando a cooperação e o vínculo estabelecido pelas universidades brasileiras e seus representantes com instituições de outros países. O Seminário também reforça os conhecimentos dos participantes em relação às novas perspectivas e incentiva o conhecimento de outras realidades acadêmicas e científicas que podem contribuir para a convergência cultural e linguística entre os países integrantes. Trata-se da quarta edição desse evento, que surgiu como fruto de um acordo de cooperação científica entre a Universidade de Brasília e a Universidade Complutense de Madrid e que, a partir dessa edição, amplia a parceria institucional para a Unesp buscando um formato desafiador e cooperativo. Tem como principal característica a criação e sustentabilidade da comunidade educativa das instituições com a compreensão mútua e criando sinergias que podem levar a projetos conjuntos de pesquisa, ensino, inovação, publicações, mobilidade e excelência na prestação de serviços nas áreas de Informação, Documentação e Sociedade. O Vol. I da IV edição do seminário que trata "Competência em Informação: teoría e praxis", é coordenado pelas Professora Dra. Elmira Luzia Melo Soares Simeão (UnB) e Professora Dra. Regina Célia Baptista Belluzzo (Unesp). Apresenta uma significativa produção científica revelando pesquisas e o estado da arte da Information Literacy, em um movimento que tem crescido no contexto da Ciência da Informação da Ibero-américa, merecendo destaque por ter ocupado a agenda de muitos profissionais interessados em temáticas com Estudo de usuários e atividades bibliotecárias vinculadas com capacitação. Pela demanda de trabalhos pôde-se realizar paralelamente o IV SEMINÁRIO DE COMPETÊNCIA INFORMACIONAL.


No segundo volume apresenta-se o debate sobre "Gestão da informação, comunicação e tecnologia", sob a coordenação das professoras Dra. Marta Lígia Pomim Valentim (Unesp) e Dra. Cecília Leite de Oliveira (IBICT); e o Vol. III apresenta os trabalhos sobre "Políticas de Informação, universidade e desenvolvimento" coordenado pelo professor Dr. Antonio Lisboa Carvalho de Miranda, pela professora Dra. María Aurora Cuevas Cerveró (UCM) e professora Dra. María Teresa FernándezBajón (UCM). O evento também conjuga esforços dos Programas de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade de Brasília e Unesp e Departamento de Biblioteconomía y Documentación da UCM buscando promover a aproximação entre pesquisadores da Ibero - américa e de outras latitudes, para a troca de experiências, mediante o debate e posterior publicação de textos relevantes que espelhem as linhas de pensamento e ação, tanto no campo acadêmico quanto profissional e empresarial. Temas relacionados com a comunicação científica, comunicação organizacional e comunitária, arquitetura da informação, gestão do conhecimento, infodiversidade e inclusão digital, epistemologia e metodologias em curso na área da Ciência da Informação, assim como as questões que estão sendo propostas e discutidas em escala internacional sobre a Sociedade da Informação e do Conhecimento. Destacamos que um esforço de tal envergadura só é possível com a participação de uma rede ampla de colaboradores e, nesse sentido, gostaríamos de agradecer o apoio de pesquisadores nas ações programadas de atuação na Comissão Científica (peer review) do evento encarregada da seleção de textos, parte deles também selecionada para publicação na Revista Iberoamericana de Ciência de la Información) – RICI. Também agradecemos a equiepe de apoio das instituições e os alunos da pós-graduação da Unesp que se envolveram fortemente nas ações operaciponais. Para a próxima edição (V SEMINÁRIO HISPANO-BRASILEIRO DE PESQUISA EM INFORMAÇÃO, DOCUMENTAÇÃO E SOCIEDADE), a ser realizada na espanha em 2016, a rede virá ainda mais fortalecida. Todos os parceiros prometem todo o empenho para que o evento se torne uma referência brasileira como edição internacional notável na área. Os autores


1

GESTÃO DE BIBLIOTECAS NO CONTEXTO HÍBRIDO: UM ESTUDO COMPARATIVO ENTRE BIBLIOTECAS HÍBRIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO DE COMUNIDADES

Rafaela Carolina da Silva rafaelacarolinasilva@gmail.com Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Unesp/Marília. Bolsista CAPES. Rosângela Formentini Caldas rcaldas@marilia.unesp.br Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Unesp/ Marília. Tutora do Grupo PET de Biblioteconomia. Coordenadora da Comissão Local do Núcleo de Estudos e Práticas Pedagógicas (CENEPP).

Resumo: Ao se considerar o ambiente de uma biblioteca pública como um organismo vivo, em constante mutação, que muda e se transforma em direção ao desenvolvimento da sociedade, fala-se em espaços híbridos. Nesse contexto, a gestão da informação em bibliotecas híbridas proporciona à sua estrutura organizacional o desenvolvimento de políticas públicas favoráveis ao desenvolvimento de comunidades. Nessa perspectiva, o problema desta pesquisa está vinculado ao potencial que as bibliotecas híbridas oferecem à sociedade. É a partir dessa percepção que se procura estabelecer um elo entre os ambientes híbridos, a gestão informacional e o processo de desenvolvimento das comunidades através das bibliotecas híbridas. O objetivo é verificar de que forma as bibliotecas híbridas, por meio de suas políticas públicas, tecnologias e estruturas organizacionais, podem oferecer estratégias de desenvolvimento das comunidades as quais estão inseridas. Assim, através de uma pesquisa qualitativa, do tipo comparativa e com um estudo de casos múltiplos, será feito um levantamento na literatura da Ciência da Informação acerca dos aspectos existentes entre o conceito da biblioteca e o ambiente estrutural das bibliotecas híbridas. A análise de conteúdo será uma técnica utilizada como ferramenta para estabelecer as categorias de base para a exploração dos dados. Logo, acredita-se que a aplicação da gestão da informação híbrida nas unidades de informação é indispensável para a promoção do acesso e atendimento às necessidades gerais do público alvo. Dessa forma, o conceito de bibliotecas híbridas deve ser visto como uma das atividades potenciais das bibliotecas no desenvolvimento de suas comunidades. Palavras-Chave: Bibliotecas Híbridas; Ambiente Estrutural de Bibliotecas; Gestão da Informação; Desenvolvimento de Comunidades.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

1 INTRODUÇÃO Este trabalho é um recorte da pesquisa de mestrado intitulada “Gestão em bibliotecas públicas no contexto híbrido: um estudo comparativo de bibliotecas híbridas no âmbito nacional e internacional em prol do desenvolvimento de comunidades”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Faculdade de Filosofia e Ciências/ Universidade Estadual Paulista. A pesquisa enquadra-se na linha de pesquisa “Gestão, Mediação e Uso da Informação”, encontra-se em seus processos iniciais de elaboração, e parte da problemática do nível de potencial que as bibliotecas híbridas têm para criar formas de desenvolvimento na gestão das comunidades as quais estão inseridas. Assim, ao contextualizar o tema a ser pesquisado, leva-se em conta a sociedade e sua busca constantemente por novos conhecimentos com vistas à compreensão do mundo. Nesse contexto, ao se considerar o ambiente de uma biblioteca

como

um

organismo

vivo,

que

se

transforma

em

direção

ao

desenvolvimento da sociedade, fala-se em espaços híbridos, onde tecnologias tradicionais e digitais se complementam e favorecem o desenvolvimento de comunidades através do trabalho flexível proporcionado por esses ambientes. Infere-se, portanto, que os produtos e serviços oferecidos aos usuários de uma unidade de informação devem ser integrados, proporcionando a flexibilização necessária para abranger a diversidade de usuários reais e potenciais da unidade no contexto das bibliotecas híbridas. Uma biblioteca muito restrita não irá satisfazer as necessidades futuras dos usuários, necessitando haver uma integração entre mídias (documentos híbridos). Essa integração pode ser vista na Figura 1, que mostra a interação existente entre linguagens e mídias em bibliotecas híbridas.

12


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Figura 1 - Integração de bens e serviços prestados em bibliotecas híbridas.

Fonte: (GARCEZ; RADOS, 2002, p. 50).

Nesse contexto, a busca de informação virtual ou presencial se dá por meio de catálogos eletrônicos, on-line ou convencionais. No caráter on-line, a biblioteca pode emitir boletins de alerta que vão até o usuário por meio de e-mails, redes de comunicação e demais contatos virtuais, avisando-os de novas aquisições, de prazos de entrega, dentre outros. O acesso pode ser presencial ou domiciliar. No entanto, no contexto digital o usuário não precisa sair de sua casa e ir até o local para obter o material; consequentemente, pode acessá-los de sua própria casa, bastando apenas ser cadastrado na instituição. Assim, têm-se a combinação entre linguagens-linguagens, mídias-mídias, linguagens-mídias e mídias-linguagens, o que torna a biblioteca em um ambiente rico em flexibilidade e dinamicidade. Dessa forma, a biblioteca passa a ser híbrida a partir

13


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

do momento em que relaciona diferentes mídias e linguagens, de modo a atender suas demandas sociais. Esse campo encontra-se respaldado pelo conjunto de valores que se destacam em determinada sociedade, em um dado espaço e tempo, para unificar materiais e sistemas de informação em diferentes formatos, bem como suas linguagens, sumarizando a informação encontrada de tal modo que a informação buscada pelo usuário seja encontrada de maneira dinâmica, rápida e fácil. De acordo com Breaks (2002), o termo híbrido tem suas origens na Teoria da Evolução de Darwin e designa-se como um novo modo de descrever tipos de serviços que

buscam

integrar

fontes

tradicionais

e

eletrônicas

de

informação.

Concomitantemente com o pensamento de Breaks (2002), Barreto, Paradella e Assis (2008), dissertam que o ambiente estrutural das bibliotecas híbridas preocupa-se com o grau de imersão dos indivíduos nos processos decorrentes e geradores de informação e conhecimento. Importante destacar que o modelo híbrido, como definido por Hodges e Lunau (1999), conceitua os espaços híbridos como ambientes flexíveis, que acoplam em sua estrutura novos produtos e serviços disponíveis em meios digitais e tradicionais. A complementação dessa definição é feita por Garcez e Rados (2002), no qual A biblioteca híbrida é designada para agregar diferentes tecnologias, diferentes fontes, refletindo o estado que hoje não é completamente digital, nem completamente impresso, utilizando tecnologias disponíveis para unir, em uma só biblioteca, o melhor dos dois mundos. (GARCEZ; RADOS, 2002, p. 47).

Para Russel, Gardener e Miller (1999), os requisitos básicos de uma biblioteca híbrida são:  providência de serviços para descoberta, localização, requisição, envio/entrega e utilização dos recursos;  fornecimento de serviços consistentes tanto para recursos locais ou remotos, independentemente do tipo de seu suporte;  estrutura organizacional flexível, permitindo o desenvolvimento de novos sistemas quando necessário;  sistemas baseados em normas internacionais, o que permite o aumento do volume e o tráfego de recursos. 14


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Os espaços híbridos, então, conectam pessoas, informações e processos, formando uma rede de comunicação e compartilhamento de informações. Nesse cenário, novas habilidades de gerenciamento e liderança são requeridos durante os processos de planejamento institucional, já que

Possuir o melhor dos equipamentos de tecnologia da informação não é suficiente para prestar serviços de qualidade, mas também é essencial que os profissionais de biblioteca tenham em seus requisitos habilidades para lidar com tecnologia da informação de forma a poder controlar os seus próprios sistemas e [...] em sistemas externos e internos” (PRAKASAN; SWARNA; KUMAR, 2000, p. 294, tradução nossa).

Logo, a aplicação das estratégias de gestão da informação em bibliotecas híbridas proporciona à estrutura organizacional das bibliotecas o desenvolvimento de políticas favoráveis ao desenvolvimento de comunidades, na medida em que contribui para o bom funcionamento da instituição, potencializando os serviços institucionais e motivando os funcionários no contato com o público com quem trabalha. Dessa forma, com as tecnologias colaborativas de gerenciamento da informação disponíveis nas bibliotecas híbridas, além da convergência dos meios tradicionais focado no espaço físico, os meios digitais também são mediados pelo ambiente eletrônico ou digital. Uma biblioteca híbrida é uma combinação de produtos eletrônicos e impressos; unidos por um catálogo eletrônico com catalogação consistente e mecanismo de busca. Assim, uma biblioteca híbrida integra tanto funções das bibliotecas tradicionais, como das bibliotecas digitais. Ao contrário de bibliotecas totalmente digitais, uma biblioteca híbrida aumenta as funções de uma biblioteca tradicional, em vez de substituí-las. (PRAKASAN; SWARNA; KUMAR, 2000, p. 293, tradução nossa).

O conceito de gestão da informação está relacionado ao fazer do profissional da informação de modo a conhecer quais os recursos e soluções adotar no processo de desenvolvimento de comunidades e disseminação da informação. Destaca-se que a gestão da informação tem um papel fundamental nas unidades de informação, já que a gestão de tecnologias de inovação é algo que deve ocorrer para que tais instituições passem a ser vistas pela sociedade como fontes disseminadoras da informação. Ao permitir a convergência de linguagens em um ambiente em comum, as bibliotecas híbridas mostram-se como ambientes de mediação, disseminação e criação de informações relevantes para a sociedade. Os serviços que oferecem estão “[...] a 15


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

disposição do usuário tanto de forma presencial (estando fisicamente na biblioteca) como remota, a través de internet o de redes de área local” (PRÓSPER, 2004, p. 126, tradução nossa). Sendo assim, como destaca a Figura 2, uma informação pode estar armazenada em um suporte analógico (impresso) ou digital, ser disseminada em meios físicos ou em redes de comunicação (Internet e ambientes virtuais), com uso presencial (físico) ou digital. Consequentemente, quanto maior a habilidade de flexibilização, maior a satisfação dos usuários em relação aos produtos e serviços oferecidos por uma biblioteca. É nessa inter-ligação entre suportes e linguagens que se dá a convergência, ou seja, o gerenciamento da informação em meios analógicos, onde a mesma encontrase armazenada em suportes que só podem ser acessados presencialmente sob custódia de uma instituição, bem como o gerenciamento da informação em ambientes digitais ou em redes de compartilhamento global, como é o caso da Internet. Essa convergência amplia o número de públicos com que um ambiente informacional trabalha, já que abrange diferentes contextos e locais de tratamento da informação. Figura 1 - Compartilhamento de recursos no processo de prestação de serviços em bibliotecas híbridas.

Fonte: (GARCEZ; RADOS, 2002, p. 46).

16


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Assim, o modo como os processos de gerenciamento da informação são realizados em ambientes híbridos implica a possibilidade ou não do desenvolvimento de comunidades. Problemas na gestão estratégica externa à comunidade são os menos controláveis, os mais incertos e, potencialmente os mais dramáticos em seus efeitos. [...] Eles analisam os elementos do ambiente atual – cultura política, política social (incluindo questões políticas, legislativas e jurídicas), questões tecnológicas, questões comerciais e industriais, fornecedores e redes de cooperação. (HAYES; WALTER, 1993, p. 113, tradução nossa).

No que se refere ao desenvolvimento de comunidades, as unidades de informação, por meio de seus objetivos e metas, “[...] localizam, entendem, disseminam e utilizam os conhecimentos gerados no trabalho para valorizar tanto a instituição como o aprendizado” (CALDAS, 2012, p. 241). É nesse contexto que as habilidades humanas passam a ser desenvolvidas, juntamente as ferramentas de trabalho do bibliotecário que visa a elaboração de processos eficazes na mediação e disseminação da informação. Desta forma, este trabalho se justifica pelo fato de:  Contribuir para a gestão informacional em bibliotecas, na medida em que se entende que as mesmas, por serem unidades que visam interligar a população às informações geradas no dia-a-dia, devem estar em constante atualização para mediar as informações aos seus usuários;  Dar continuidade às pesquisas empreendidas na área do Grupo de Pesquisa “Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional”, na temática do uso das tecnologias convergentes, gestão da informação e desenvolvimento de comunidades, que circundam o papel do profissional da informação como propiciadores do desenvolvimento de comunidades;  Contribuir para a área, de forma a apontar uma perspectiva de interação entre o usuário e a proposta de um espaço informacional colaborativo e dinâmico no que diz respeito ao conceito de ambientes híbridos;  Desenvolver políticas públicas que auxiliem a gestão a focar seu planejamento no desenvolvimento de comunidades. Sendo assim, o objetivo da pesquisa é verificar de que forma as bibliotecas híbridas, por meio de suas políticas, tecnologias e estruturas organizacionais, podem propiciar o desenvolvimento das comunidades às quais estão inseridas. Mais 17


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

especificamente, busca-se analisar, através de índices de desenvolvimento, o impacto dos ambientes híbridos perante a sociedade.

2 METODOLOGIA Trata-se de uma pesquisa qualitativa, baseada em estudos de casos múltiplos, e se enquadra em um método de estudo comparativo. A análise de conteúdo será uma técnica utilizada como ferramenta para estabelecer as categorias de base para a exploração dos dados. A partir de uma revisão bibliográfica, buscar-se-á, com base nos objetivos da pesquisa, categorizar os elementos de maior relevância para a temática, estruturando-os de forma a realizar um mapeamento das características dos espaços informacionais híbridos e, posteriormente, compará-los aos ambientes das unidades de informação, a fim de gerir tais espaços como forma de desenvolvimento de comunidades. Os indicadores de bibliotecas híbridas que serão utilizados tal comparação se baseiam em Hodges e Lunau (1999), por implementarem não somente novos meios de trabalho bibliotecário, mas também serviços informacionais baseados no impresso. São eles:  implementação de diferentes tecnologias e fontes de informação na gestão da informação;  oferecimento de produtos e serviços em meios analógicos e digitais; serviços de referência pessoal e virtual;  providência de serviços para descoberta, localização, requisição, acesso e utilização de recursos;  fornecimento de serviços consistentes para recursos locais ou remotos;  estrutura organizacional flexível;  e sistemas de gerenciamento baseados em normas internacionais. Para tanto será utilizada uma categorização pré-estabelecida, que determine aspectos que envolvam o conceito da biblioteca híbrida como forma de atuação no ambiente estrutural da biblioteca híbrida. As categorias a serem analisadas são:  capacitação dos funcionários com vistas à mudança ao aspecto híbrido (bibliotecários híbridos); 18


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 inclusão digital;  ação conjunta entre a tecnologia, a estrutura física e o caráter humano;  desenvolvimento de comunidades;  e capacitação dos usuários para ambientes híbridos. A partir de tais indicadores e categorias elegidos, em um primeiro momento, serão coletadas informações úteis já existentes na literatura da área, verificando a relevância dessas informações para a pesquisa e, consequentemente, elencando os dados primários a serem analisados. Em um segundo momento, por meio do método comparativo, serão abordadas as características das bibliotecas híbridas, buscando detectar pontos em comum entre as mesmas. A ideia é, além de questionários e análises de documentos, aplicar uma entrevista observatória in loco em tais bibliotecas. Por final, através da técnica de observação participativa sistemática, os dados obtidos da comparação serão elencados em elementos constantes, abstratos e gerais, buscando subsídios à melhoria das bibliotecas brasileiras no desenvolvimento de comunidades. 3 RESULTADOS E DISCUSSÕES Esperam-se como resultados que a aplicação da gestão da informação híbrida nas unidades de informação promova o acesso e o atendimento às necessidades gerais do público alvo da instituição. Logo, acredita-se que a gestão da informação híbrida propicia a interação entre os usuários e a biblioteca, o que corrobora para o desenvolvimento de comunidades. Busca-se, assim, descrever elementos que norteiam o enfoque da compreensão de estruturas híbridas por usuários e bibliotecários, oferecendo referências metodológicas para o desenvolvimento de comunidades. Assim, a inclusão social dos usuários desse contexto ocorrerá por meio de um espaço hibridizado, de forma que o leitor se sinta convidado a ler. Nota-se que a leitura, aqui, está focada não só na leitura de livros em suporte de papel, mas também na leitura de expressões, de subtextos, corporal, ou seja, todo tipo de leitura esperada e desejada pelo usuário, estejam elas armazenadas em suportes informacionais humanos, analógicos, digitais ou tradicionais (linguagem oral, escrita, sonoro, imagética ou audiovisual). Nessa perspectiva, deseja-se que a biblioteca se torne um veículo primordial de estímulo ao desenvolvimento e inclusão de culturas informacionais. 19


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Dessa forma, a gestão da informação trabalhará com conhecimentos coletivos, formados pela inter-relação usuário-biblioteca-tecnologia-bibliotecários-usuáriosbibliotecários, ou seja, na gestão de uma informação que medeie a interação social. Trata-se, portanto, do fazer do profissional da informação de modo que, por meio da partilha de conhecimentos, permita que um usuário se sinta pertencente ao ambiente da biblioteca. Nessa perspectiva, a gestão da informação em ambientes informacionais, feita por bibliotecários e instituições, viabiliza a estrutura, o uso e a estética do ambiente. Um ambiente, assim como uma linguagem, tem o poder de aperfeiçoar a sensibilidade humana, sendo a hibridização estrutural da informação uma forma de aguçamento da percepção humana, o que propicia o desenvolvimento de comunidades em bibliotecas. 4 CONCLUSÃO Por se tratar de um tema pouco explorado na área da Ciência da Informação, a discussão sobre espaços híbridos e a formação de conhecimento em bibliotecas por meio da gestão da informação são elementares para que os profissionais da informação se conscientizem sobre a importância em implementar, em sua prática profissional, o conceito de biblioteca híbrida para o desenvolvimento da comunidade que os cerca. Acredita-se que a aplicação da gestão da informação híbrida nas unidades de informação é indispensável para a promoção do acesso e atendimento às necessidades gerais do público alvo. Do mesmo modo, a gestão da informação, como ferramenta auxiliar na divulgação das informações em bibliotecas, identifica e compara as bibliotecas de referência no ramo dos espaços híbridos tanto em âmbito nacional quanto internacional. O conceito de bibliotecas híbridas, então, deve ser visto como uma das atividades potenciais das bibliotecas no desenvolvimento de suas comunidades, já que o maior desafio que se impõe à formação de espaços híbridos em ambientes informacionais é o consenso de que todas as informações (sejam elas sonoras, imagéticas, textuais, em forma de vídeo ou qualquer outro tipo) podem e devem ser consideradas como um aporte de comunicação aos seus usuários. A biblioteca híbrida deve ser um espaço cultural que propicie a promoção de diálogos, onde 20


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

população e tecnologias se relacionem, de forma que as informações registradas no local passam a ganhar vida na medida em que são utilizadas. Nesse contexto, a gestão da informação permite a visualização, o planejamento e a organização da informação de modo a disseminá-la com maior eficiência e eficácia. Do mesmo modo que os ambientes híbridos contribuem para a convergência de suportes tradicionais e digitais, a gestão da informação planeja políticas e elabora planos, desenvolvendo estratégias de organização da informação. Nesse cenário, torna-se necessário novas habilidades de gerenciamento e liderança para o planejamento das decisões relacionadas à organização e disseminação da informação a serem tomadas no local. Sendo assim, deve-se compreender o novo sujeito social que surge perante os sistemas de informação, que deixa de ser um mero receptor do conteúdo disponibilizado pela biblioteca e passa a reconstruir tais conteúdos de modo a gerar novos conhecimentos.

REFERÊNCIAS BARRETO, A. M.; PARADELLA, M. D.; ASSIS, S. Bibliotecas públicas e telecentros: ambientes democráticos e alternativos para a inclusão social. Ciência da Informação, Brasília , v. 37, n. 1, abr. 2008 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010019652008000100003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 11 jan. 2015. BREAKS, M. Building the hybrid library: a review of UK activities. Learned publishing, Reino Unido, v. 15, n. 2, p. 99-107, 2002. CALDAS, R. F. Análise da integração da tecnologia em instituições de ensino superior através da gestão do conhecimento: projeto Unintera. In: CONGRESSO INTERNACIONAL TIC E EDUCAÇÃO, 2. 2012, Lisboa. Anais... Lisboa: Instituto de Educação da Faculdade de Lisboa, 2013. Disponível em: <http://ticeduca.ie.ul.pt/atas/pdf/74.pdf>. Acesso em: 10 fev. 2015. GARCEZ, E. M. S; RADOS; G. J. V. Biblioteca híbrida: um novo enfoque no suporte à educação a distância. Ciência da Informação, Brasília, v. 31, n. 2, p. 44-51, maio/ago. 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ci/v31n2/12907.pdf>. Acesso em: 17 maio 2015. HAYES, R. M.; WALTER, V. A. Strategic management for public libraries: a handbook. Greenwood Press: Wesport, Connecticut, 1996. HODGES, D.; LUNAU, C. D. The national library of Canada's digital libraries initiatives. Library Hi Tech, Esmerald Group Publishing, v. 17, n. 2, p. 152, 164, jan. 2015. Disponível em: 21


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

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2 A IMPORTÂNCIA DA COMPETÊNCIA INFORMACIONAL PARA A EDUCAÇÃO CORPORATIVA NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO ORGANIZACIONAL

Carlos Francisco Bitencourt Jorge bitencourt@gmail.com Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Câmpus de Marília Carlos Eduardo Moreno dos Santos dudubr_99@hotmail.com Pós-Graduando em Administração e Marketing em nível Lato-Sensu na Faculdade Católica Paulista, Marília/SP

Resumo: A presente pesquisa busca identificar o papel da competência informacional (COINFO) e sua contribuição com a Educação Corporativa (EC) na construção de conhecimento organizacional. Relacionar os temas por meio de pesquisas bibliográficas demonstrando assim a importância quanto a relação entre os temas citados. Com o aumento da competitividade entre as organizações a construção de novos conhecimentos torna-se imprescindível para que as mesmas possam ser capazes de concorrer em seu ambiente. Construir e administrar o conhecimento, recurso este intangível que reside nos colaboradores torna-se um dos desafios das organizações. Nesse sentido, organizações devem buscar meios para que consigam construir novos conhecimentos. Uma das estratégias para a realização da construção do conhecimento é EC, fazendo com que a organização por meio de seus colaboradores 'aprendam a aprender'. A EC visa através de suas estratégias realizarem a construção de conhecimentos direcionados as necessidades organizacionais. Para a construção do conhecimento há um ciclo que perpassa por dados, informação e conhecimento, componentes que se relacionam de maneira rápida e dinâmica e, em muitos casos torna-se complexo compreender os limites entre os mesmos. Torna-se necessário a aplicação de métodos que visam transformar o conhecimento tácito em explicito, tornando assim o conhecimento disponível a todos na organização. Para um melhor aproveitamento das atividades da EC torna-se importante que os sujeitos organizacionais sejam alfabetizados no âmbito informacional. Podemos dizer que o desenvolvimento da COINFO deve ser considerado um pré-requisito na implementação e melhor aproveitamento da EC nas organizações, visando a construção de novos conhecimentos. Palavras-Chave: Educação Corporativa; Competência em Informação; Construção de Conhecimento; Organizações.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

1 INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como objetivo, evidenciar a importância da Competência Informacional (COINFO) como pré-processo na implementação das atividades da Educação Corporativa (EC) com vias na construção de Conhecimento Organizacional. Para tanto, foi realizado uma pesquisa bibliográfica no que tange os temas citados e realizando a relação entre os mesmos. As inconstantes mudanças no ambiente organizacional fazem com que as organizações recebam e emitam um grande número de informações, informações que circulam em seus ambientes e causam mutações em suas estruturas e ações. Tornase então necessário, apoderar-se de estratégias para os novos moldes competitivos que os ambientes que atuam impõem. Nesse sentido, o conhecimento passou a ser recurso estratégico que permite que as organizações obtenham vantagem competitiva por meio de suas aplicações. Como consequência, as organizações adquiriram um dilema, mais do que ter conhecimento, é necessário realizar sua construção em âmbito estratégico, de forma a desenvolver uma cultura voltada para aprendizagem. Cabe as organizações desenvolverem alternativas para a construção do conhecimento, sendo o processo primordial para as organizações que buscam a competitividade nos cenários que estão relacionadas. Em meio a essa nova era do saber, torna-se importante entender e considerar a COINFO como importante componente

que

visa

conceder

suporte

na

construção

do

conhecimento

organizacional visando proporcionar as organizações competências necessárias para trabalhar com o conhecimento e enfrentar novos desafios competitivos do mercado. A relação entre EC e COINFO tem foco voltado ao capital intelectual da organização proporcionando um maior aproveitamento dos conhecimentos de seus colaboradores e, um ambiente direcionado a construção de novos conhecimentos organizacionais. Nesse sentido, a COINFO apoia de forma significativa a EC neste novo desafio, contribuindo para uma cultura organizacional direcionada a um melhor aproveitamento das informações e dos conhecimentos. Por meio deste trabalho busca proporcionar relações e conexões a fim de evidenciar como a COINFO pode atuar como pré-processo na aplicação das atividades da EC. Destacando a COINFO como componente estratégico responsável por desenvolver importantes competências, concedendo assim suporte para que, a EC por meio de suas atividades seja capaz de construir novos conhecimentos. 25


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2 EDUCAÇÃO CORPORATIVA A educação corporativa (EC) atua como ferramenta estratégica para as organizações, principalmente para as organizações que estão em processos de mudanças continuas. Meister (1999, p.35), destaca a Educação Corporativa como, “um guarda-chuva estratégico para desenvolver e educar funcionários, clientes, fornecedores e comunidade, a fim de cumprir as estratégias da organização”. Essas organizações precisam modificar seus modelos de gestão, adquirindo assim novos métodos, ferramentas e estratégias para obter sucesso em mercados com alta competitividade. Os recursos humanos passam a ser considerado o principal componente estratégico para alcançar os seus objetivos, ganhando o status de propulsor no desenvolvimento das atividades. Sendo assim, alcança-se os melhores resultados tanto no ambiente interno, quanto no ambiente externo da organização com a utilização estratégica dos recursos humanos e seus conhecimentos. Nesse sentindo, a Educação Corporativa vem se destacando como uma nova estratégia de gestão organizacional, proporcionando habilidades e competências aos recursos humanos das organizações. O método possui como foco a estrutura estratégica organizacional, devendo assim estar em sintonia com a visão e missão organizacional. Cabe a EC não somente desenvolver e treinar os colaboradores da organização, mas sim todos os seus steakholders e comunidade que possuem relações de maneira direta ou indireta com o contexto do core business da organização. Ao adotar a EC, a organização passa a deter de equipes mais capacitadas, principalmente para os processos de tomadas de decisões, condicionando assim a diminuição dos níveis hierárquicos e consequentemente tornando-se mais enxuta. Com isso, as organizações são capazes de reagir e dar respostas mais rápidas as situações impostas pelo mercado que atuam. As implementações da EC podem variar de acordo com as organizações, algumas desenvolverem in-loco, ou seja, dentro de seu espaço físico, outras utilizam de mecanismos de tecnologia da informação como a intranet ou internet, diminuindo, dessa maneira, os custos com a aplicação da EC. Outra importante variável para a aplicação da EC são os agentes que vão transmitir o conhecimento, os instrutores, que podem ser gerentes, consultores externos ou até mesmo professores universitários. Uma das aplicações na 26


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implementação da EC tem como base a aquisição de tecnologias como e-learning para a realização das atividades da EC: O e-learning, ou seja, ensino a distância via internet, pode ser uma das possibilidades de se atender a essas novas exigências, principalmente diante da necessidade de formação de conhecimentos, habilidades e atitudes que compõem as competências necessárias para organizações e indivíduos que queiram atuar de forma adequada nessa nova realidade (LANGHI, 2010, p.37).

Outra forma para a implementação da EC consiste em desenvolver parceria com as instituições de ensino, como cita Alperstedt (2001, p.6): A AT&T School of Business and Technology, por exemplo, estabeleceu uma parceria com a University of Phoenix, que oferece aos funcionários da AT&T a oportunidade de continuar os seus estudos em um dos seus 51 campi e centros de aprendizagem espalhados nos Estados Unidos, reconhecendo os créditos cursados naquela universidade corporativa. Uma parceria nos mesmos moldes também foi estabelecida entre a AT&T School of Business and Technology e a St. John's University de Nova York.

A escolha dessa modalidade por meio de parcerias consiste na expertise acadêmica das Faculdade e Universidades pois as mesmas possuem técnicas, métodos e estratégias consolidadas para partilhar e construir novos conhecimentos. O mesmo autor sinaliza outra maneira existente para implementação da EC: Algumas empresas já galgaram um degrau mais elevado: outorgam elas mesmas os seus diplomas. A Arthur D. Little, consultoria de origem americana, licenciada para atuar como instituição educacional pelo Estado de Massachusetts, USA, com autorização para conferição de diplomas pelo Board of Regents of Higher Education of the Commonwealth of Massachusetts, oferece um mestrado em administração na Arthur D. Little School of Management, acreditado por um órgão regional de acreditação americano, o New England Association of Schools and Colleges, desde 1973 (ALPERSTEDT, 2001, p.6).

Destaca-se que, a implementação da própria Universidade Corporativa não é usual nas organizações, pois ao adotar a própria Universidade Corporativa a organização pode estar se adentrando a um segmento na qual não possui expertise. Observa-se que, as organizações podem usufruir das Universidades para pôr em prática a EC, seja com parcerias ou com seu próprio portfólio para constituição da mesma. Como consequência, possibilita o desenvolvimento profissional dos sujeitos que se relacionam com a organização. Tal medida deve caminhar mutuamente com as estratégias da organização. Os processos de EC se diferencia do treinamento tradicional em inúmeros aspectos, esses componentes podem ser melhores analisados através do quadro 1 abaixo. 27


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Quadro 1 – Componentes da Educação Corporativa e Treinamento Tradicional. Componentes

Educação Corporativa

Treinamento Tradicional

Visão

Global

Individual

Foco

Proativo

Reativo

Treinamento

Continuo

Descontinuidade

Objetivo

Estratégico

Habilitar pessoas

Responsabilidades

Poder de decisão

Limitação para tomar decisão

Hierarquia

Flexível

Rígida

Publico

Externo e interno

Interno

Pessoas

Diferencial competitivo

Componente não estratégico

Fonte: Adaptado de Meister (1999).

A EC atua de forma continua para com os colaboradores, enquanto o treinamento funcional trabalha apenas no momento da indigência e logo depois de sanado interrompe-se sua aplicação. Por meio da EC proporciona-se habilidades e competências para que os colaboradores sejam capazes de tomarem suas decisões nas diversas situações de seu dia a dia. Um dos principais objetivos da aplicação da EC é a construção do conhecimento organizacional, possibilitando, assim, ajudar os sujeitos organizacionais desenvolverem e reforçar novas habilidades e competências necessárias. É consenso que todos os membros da organização necessitam estar sempre adquirindo novos conhecimentos, competências e habilidades, para que possam solucionar problemas de diferentes dimensões. A resolução de problemas torna-se tarefas de todos, não ficando assim centralizados a um único departamento ou área da organização, aumentando assim a capacidade de resposta organizacional. O conhecimento é levado até o colaborador por meio da EC, não precisando o mesmo se afastar de suas responsabilidades. O método pode oferecer cursos técnicos, línguas, informática, graduações e até mesmo pós-graduação. Nesse sentido, o conhecimento passou a ser o diferencial a se destacar nos ambientes organizacionais. Consequentemente, o recurso humano se torna componente mais importância para o sucesso das organizações. A EC surge como 28


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uma ferramenta estratégica de longo prazo, direcionada para as pessoas, cujo o resultado reflete de maneira direta na organização que adota como estratégia para a construção de novos conhecimentos para a organização. 3 CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO ORGANIZACIONAL Considera-se o conhecimento como de suma importância, tanto na área social como na área dos negócios. A compreensão do tema remete a um processo complexo, pois o conhecimento reside na mente dos sujeitos, tornando-se de difícil mensuração, percepção e, definição. Considerando que, o conhecimento é de difícil definição, pois o mesmo é resultado de misturas de elementos, Davenport e Prusak (2003, p.6) citam o conhecimento como: [...] uma mistura fluida de experiências condensada, valores, informação contextual e insight experimentado, a qual proporciona uma estrutura para avaliação e incorporação de novas experiências e informações. Ele tem origem e é aplicado na mente dos conhecedores. Nas organizações, ele costuma estar embutido não só em documentos ou repositórios, mas também em rotinas, processos, praticas e normas organizacionais.

O conhecimento acontece por meio de constantes relações com as experiências do indivíduo, proporcionando assim novas ideias e intuições em sua mente e, consequentemente novos saberes. No processo de construção do conhecimento o mesmo possui relação com dois outros elementos, os dados e as informações, sendo considerados como insumo para a construção do conhecimento. Partimos da ideia que os dados é matéria prima para a informação. O sujeito recebe o dado e, atribui significado e a transforma em informação e, de acordo com suas percepções e experiências é capaz de transformar a informação em conhecimento. Russo (2010, p.18) destaca a dificuldade de distinguir os elementos: Não é uma tarefa fácil distinguir, na pratica, o que vem a ser dados, informação e conhecimento. Esta distinção fica mais complicada quando tenta identificar os limites de cada um dos conceitos e se percebe que os três são intimamente interligados.

Neste sentido podemos considera que existe um ciclo que passa por dados, informações e conhecimento. A figura 1 demonstra a relação entre esses três elementos.

Figura 1: Relação cíclica entre dados, informação e conhecimento.

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Fonte: Jorge (2013, p.29).

O conhecimento organizacional é construído quando os sujeitos do ambiente organizacional disseminam suas informações, ou seja, explicitam seus conhecimentos por meio de suas experiências e interpretações.Com o compartilhamento dos conhecimentos juntamente com os processamentos cognitivos dos sujeitos ocorre a construção de novos conhecimentos para a organização. Considera-se o conhecimento como ativo intangível no contexto das organizações, ou seja, o sujeito organizacional possui o conhecimento mas o é de difícil mensuração. Um dos principais motivos para tal dificuldade ocorrer é que, o conhecimento esta armazenado na mente dos indivíduos, tornando assim sua mensuração complexa. Sendo a informação insumo para construção de novos conhecimentos organizacionais, as organizações devem ficar atentas as informações que circulam de forma preponderante em seus ambientes. Dessa forma as organizações precisam criar mecanismos que possibilite uma cultura voltada ao conhecimento, desse modo direcionando os colaboradores a

desenvolverem

saberes para

um âmbito

organizacional. Nonaka e Takeuchi (1997) sistematizaram um modelo de construção do conhecimento que compreende o processo em cinco fases: (1) compartilhamento do conhecimento tácito; (2) criação de conceitos; (3) justificação dos conceitos; (4) construção de um arquétipo; e (5) difusão interativa do conhecimento. A figura 2 30


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demonstra a síntese no modelo intitulado como, “Processo de Conversão do Conhecimento”. O processo de criação do conhecimento organizacional começa com o compartilhamento do conhecimento tácito, que corresponde aproximadamente a socialização, pois, inicialmente o conhecimento rico e inexplorado que habita os indivíduos precisar ser amplificado dentro da organização. Na segunda fase, o conhecimento tácito compartilhado, por exemplo, por uma equipe auto-organizada é convertido em conhecimento explícito na forma de um novo conceito, um processo semelhante à externalização. O conceito criado precisa ser justificado na terceira fase, na qual a organização determina se vale realmente a pena perseguir o novo conceito. Na quarta fase, recebido o sinal verde, os conceitos são convertidos em um arquétipo, que pode assumir a forma de um protótipo no caso do desenvolvimento de um produto “concreto” ou em um mecanismo operacional no caso de inovações “abstratas”, por exemplo, um novo valor da empresa, um sistema gerencial inovador ou uma nova estrutura organizacional. A ultima fase amplia o conhecimento criado, por exemplo, em uma divisão a outras pessoas da mesma divisão, a outras divisões ou até a componentes externos constituindo o que chamamos de difusão interativa do conhecimento (cross-levelingofknowledg). Esses componentes externos incluem clientes, empresas afiliadas, universidades e distribuidores. Uma empresa criadora de conhecimento não opera em um sistema fechado, mas em um sistema aberto no qual existe um intercâmbio constante de conhecimento com ambiente externo (NONAKA; TAKEUCHI, 1997, p.96-97).

Dentro do que foi apresentado fica evidente que o conhecimento é construído devido a junção de vários componentes que se relacionam e interagem entre si. E essa junção é sistematizada em processos que visam organizar as variáveis com o intuito da construção do conhecimento organizacional. Destaca-se a necessidade de os sujeitos organizacionais adquirirem percepção e competências quanto a dados e informações, afinal, os componentes citados são base para a construção do conhecimento organizacional.

4 A COMPETÊNCIA INFORMACIONAL COMO PROCESSO INICIAL PARA EDUCAÇÃO

CORPORATIVA

NA

CONSTRUÇÃO

DO

CONHECIMENTO

ORGANIZACIONAL Compreender o significado de Competência Informacional (COINFO) torna-se importante para que se possa entender a sua importância no contexto da Educação Corporativa (EC) visando a Construção do Conhecimento Organizacional. Neste sentindo, Valentim, Jorge e Ceretta Soria (2014, p. 208) apontam que ao pensar em competência informacional deve se pensar no contexto e necessidades da sociedade contemporânea e ressalta que competência informacional esta além do processo de alfabetizar os sujeitos: 31


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Pode-se definir de forma simples que alfabetizar é o ato de ensinar, instruindo o indivíduo a reconhecer e interpretar signos e símbolos. Contudo, esse conceito simples não atende as necessidades da sociedade contemporânea, pois esta exige uma compreensão mais aprofundada do que seja um indivíduo alfabetizado. Desse modo, primeiramente deve-se compreender a alfabetização como um processo contínuo e dinâmico, que envolve não só o reconhecimento, a compreensão, a apropriação de signos e símbolos, mas, além disso, saber aplicá-los na vida cotidiana de forma eficiente.

Ceretta Soria (2010), aponta que, a competência em informação é base para a aprendizagem ao longo da vida. A autora ainda destaca que por meio da COINFO o indivíduo busca, avalia, utiliza e cria informação para alcançar suas metas. Valentim, Jorge e Ceretta-Soria, (2014) dizem que, devemos considerar a COINFO como um instrumento

que

proporciona

aprendizagem

informacional

aos

indivíduos,

independentemente do contexto em que estão inseridos. Os mesmos autores apresentam um quadro que sistematiza competências em informação e relacionam às categorias compreendidas e contextos e apontam que a construção do quadro, [...] apresenta uma sistematização das competências em informação elaboradas pela ALA (1989), por Doyle (1992) e por Lenox e Walker (1992, 1993), relacionadas às categorias compreendidas por Bruce (1997) e pelos contextos mencionados por Bruce, Edwards e Lupton (2006) [...] (VALENTIM, JORGE E CERETTA SORIA, 2014, p.214).

Quadro 2: Competência em Informação relacionada às categorias e contextos. Competência em Informação

Categorias

Contexto

 Capacidade de reconhecer as necessidades informacionais e formular questões.  Capacidade de identificar, acessar, buscar, pesquisar e localizar informação em qualquer mídia.

 Baseada na extensão do conhecimento.

 Contexto de relevância pessoal.  Contexto das competências.  Contexto das competências.  Contexto dos conteúdos.  Contexto das inter-relações.

 Capacidade de organizar, analisar e avaliar informação.

 Baseada em tecnologias informação.  Baseada em fontes informação.  Baseada no processo execução.  Baseada no controle informação.  Baseada na construção conhecimento.  Baseada no processo execução.  Baseada na construção conhecimento.  Baseada na extensão conhecimento  Baseada na sabedoria

de

 Capacidade de usar eficazmente informação para uma aplicação prática e solução de problemas.

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de de

da

 Contexto de relevância pessoal.  Contexto das competências.  Contexto das inter-relações.

de de de do

 Contexto de relevância pessoal.  Contexto das competências.  Contexto das inter-relações.  Contexto de impacto social.


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 Capacidade de apropriar informação para gerar novo conhecimento, aprender a aprender.

 Baseada na construção de  Contexto de relevância conhecimento. pessoal.  Baseada na extensão do  Contexto das competências. conhecimento.  Contexto de aprender a  Baseada na sabedoria. aprender Fonte: Valentim, Jorge e Ceretta Soria (2014, p.214).

Observando as competências propostas apontadas no quadro acima é possível identificar que as mesmas são atividades implícitas do processo de EC, principalmente no que tange a construção do conhecimento organizacional. Sendo assim torna-se importante evidenciar tais atividades dentro do processo de implementação da EC nas organizações para que as organizações tenham maior aproveitamento no processo de construção de conhecimento realizado nas atividades da EC. Considerar a COINFO como um pré-processo para a implementação da EC torna-se uma estratégia interessante para um melhor aproveitamento de suas atividades que visam a construção do conhecimento organizacional. Nesse sentido, é necessária uma análise do perfil dos sujeitos que compõem à organização para que se possa desenvolver estratégias responsáveis por prepara-los para a aplicação das atividades do processo de EC. Figura 2: Ciclo entre Competência Informacional, Educação Corporativa e Construção de Conhecimento Organizacional.

Fonte: Elaborado pelos autores.

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Observa-se que o ciclo proposto possui um link entre os processos e resultados (Figura 2). Uma vez que a COINFO possibilita a melhor implementação da EC, resulta-se na construção de conhecimento organizacional, o resultado, ou seja, o conhecimento construído passa a ser parâmetro para análise das estratégias e métodos aplicados para os processos e atividades de COINFO que visam conceder competência informacional aos sujeitos organizacionais. 5 CONSIDERAÇÕES PARCIAIS A aplicação da Educação Corporativa (EC) pode-se tornar uma importante ferramenta estratégica quando se considera a complexidade quanto a construção de conhecimento nas organizações. Nesse sentido todos que fazem parte dos processos da EC devem já possuir competências básicas para o melhor uso das atividades da EC visando a construção do conhecimento. Entre as competências básicas necessárias para a aplicação da EC destaca-se a Competência Informacional (COINFO). Sendo assim destacamos que, a COINFO deve ser uma pré-competência que deve ser desenvolvida por todos sujeitos que estarão participando do processo e atividades da EC. O grande desafio consiste em desenvolver a competência informacional não somente no ambiente interno da organização, ou seja, em seus colaboradores, mas desenvolver a COINFO em todos que se relacionam com a organização de alguma maneira, como steakholders e a comunidade que possuem relações diretas com a organização.

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Figura 3: Intersecção entre Competência Informacional e Educação Corporativa e a criação de Conhecimento Organizacional.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Os sujeitos ao desenvolverem as capacidades propostas pela Competência Informacional conseguem realizar melhor aproveitamento das atividades propostas pela Educação Corporativa e consequentemente desenvolver de maneira mais sólida novos conhecimentos. Esse conhecimento organizacional criado na intersecção entre COINFO e EC possui uma maior aplicabilidade em relação as necessidades da organização. O resultado do conhecimento criado pode ser visto em algumas ações organizacionais, ações realizadas no ambiente interno e ambiente externo da organização. São exemplos de atividades que possuem como pano de fundo o conhecimento organizacional: Melhoria nos atuais Processos Organizacionais; Melhoria nas Ferramentas Organizacionais; Novos Processos Organizacionais; Novos Projetos Organizacionais; Novas Ferramentas Organizacionais; Ampliação da Autonomia dos Colaboradores em Processos de Tomadas de Decisões e; inúmeras outras atividades que tem como base o conhecimento organizacional. Portanto a COINFO pode atuar como pré-processo na implementação das atividades da EC que visam realizar o “aprender a aprender”, através de cursos, 35


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apresentações de projetos, interações e trocas de experiências, trabalhando assim de forma assertiva na construção de novos conhecimentos organizacionais. A EC permite as quatro formas de converter o conhecimento, e a COINFO pode potencializar tais processos além de reforçar a cultura voltada ao saber e a construção de novos conhecimentos na organização. Recomenda-se a necessidade de se desenvolver outras pesquisas no âmbito da Ciência da Informação, enfocando esse cenário extremamente complexo e aprofundando outros elementos que não foram alvo desta pesquisa.

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3 O CONCEITO DE INFORMAÇÃO E AS ATIVIDADES CULTURAIS EM BIBLIOTECAS PÚBLICAS

Alessandro Rasteli Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação UNESP, Marília. Rosângela Formentini Caldas Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação UNESP, Marília.

Resumo: Cada vez mais a noção de biblioteca pública como lugar estanque é questionada em contraposição a um espaço de socialização, informacional, de lazer, cultural, de divulgação e produção de conhecimentos e saberes diversificados. Buscando dialogar sobre a biblioteca pública e as atividades artísticas, percebe-se que raros são os trabalhos que discorrem sobre a informação artística. Percebe-se também um aumento das dificuldades enfrentadas pelo profissional da informação no que tange à definição do que seja informação não registrada, especialmente a informação artística, devido às subjetividades que envolvem a definição de Arte. O trabalho se caracterizada como do tipo exploratório, de natureza qualitativa, a fim de explorar e conceituar o termo informação através das atividades artísticas em bibliotecas. Através da revisão de literatura objetiva-se relacionar as reflexões obtidas a respeito da informação artística e as atividades culturais. As atividades culturais se sustentam na vocação universal que as bibliotecas públicas possuem nos serviços e na multiplicidade de funções que desempenham como núcleos de cultura e artes. Palavras-Chave: Informação Artística; Cultura e Biblioteca; Cultura – Desenvolvimento Social; Atividades Artísticas – Biblioteca.

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1 INTRODUÇÃO As bibliotecas públicas se originam e se expandem no decorrer da segunda metade do século XIX nos Estados Unidos e Inglaterra. Para Mueller (1984, p. 9) “esperava-se que essas bibliotecas contribuíssem de maneira significativa para a ordem social e o progresso nacional, e, especialmente nos Estados Unidos, para a manutenção da democracia”. No Brasil, a implantação da primeira biblioteca pública acontece em 1811, na Bahia, impulsionada por Pedro Gomes Ferrão de Castelo Branco, senhor de engenho, homem de posses que vislumbrava nos livros e na biblioteca pública instrumentos de instrução popular. Em suas origens, as bibliotecas públicas tiveram como função primordial a educação, já nos países desenvolvidos, a partir do século XX a função educacional expande-se abarcando atividades culturalmente mais amplas, sendo acrescido em suas funções a cultural, lazer e, a partir da década de 1970, a informacional. Entretanto, faz-se necessário observar com Andrade e Magalhães (1979) que a categorização dessas funções serve apenas para efeito didático, já que as funções não são mutuamente exclusivas e nem é possível desvincular uma das demais. Discussões envolvendo biblioteca e cultura começam a tomar corpo nos anos de 1960, quando na França são instaurados as Maison de la culture. Na década seguinte, também na Europa, a ideia de ação cultural chega nos espaços das bibliotecas tomando como referência Francis Jeanson (1973), em seu trabalho L´action culturelle dans la cité. No Brasil, o tema da ação cultural principia no início da década de 1980, quando Flusser (1980) argumenta sobre uma biblioteca verdadeiramente pública ou biblioteca-ação cultural. No decorrer da década de 1980, Teixeira Coelho fala sobre a ação cultural preconizada por Jeanson, publicando várias obras como Usos da cultura: políticas de ação cultural (1986) e O que é ação cultural (1989). Já nos anos de 1990, no âmbito da Ciência da informação (CI), Mostafa (2012, p. 95) empreende que “[...] passou-se a falar em Mediação cultural e a entender o conhecimento também artístico ou cultural e não apenas informacional”. Apesar disso, encontra-se problemas no campo da CI no que se refere a definição do termo informação.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Desde suas origens, a CI tem sido abordada levando em conta a informação registrada, como se pode observar na definição de Le Coadic (1996, p. 5) “a informação é um conhecimento inscrito (gravado) sob a forma escrita (impressa ou numérica), oral ou audiovisual”. Mostafa (2012) também discursa que há uma tendência na CI em pensar a informação e o conhecimento como informação e conhecimentos científicos, portanto, em conhecimentos registrados. Destaca-se ainda que o bibliotecário tenha um apego excessivo pela informação registrada, em especial, a impressa. Talvez a explicação para isso, segundo Bortolin (2010) esteja na tarefa atribuída ao bibliotecário em lidar, anos a fio, apenas com textos escritos. Almeida Júnior (2009) enfatiza que para muitos pesquisadores o objeto da CI ainda é a informação registrada. Percebe-se que ao enfocar apenas nas informações registradas, limita-se o âmbito de investigação da CI, já que as variadas atividades culturais em bibliotecas não estão plasmadas em nenhum suporte físico, como é o caso das atividades artísticas. Apesar da preponderância da cultura escrita, diferentes profissionais bibliotecários têm a cultura oral como base para seu fazer. Diante disso, percebe-se um aumento das dificuldades enfrentadas pelo profissional da informação no que tange à definição do que seja informação não registrada, especialmente a informação artística, devido às subjetividades que envolvem a definição de Arte. Atentando-se para uma inquietação teórica em relação ao que seja a informação artística, acredita-se que sua instância seja de ordem simbólica e do conhecimento. O fato dos bibliotecários restringirem sua ação aos poucos gêneros de documentos faz com que a sociedade atrele a sua imagem apenas às informações registradas, o que também poderia levar a maioria dos profissionais da Biblioteconomia a avaliar que o objeto da CI seja apenas as informações registradas, científicas. As dinâmicas estabelecidas entre os sujeitos e o universo simbólico, que estão na base do ato de conhecer, refletir, interagir e inferir merecem criteriosas investigações, especialmente no contexto nacional, em relação à apropriação dos dispositivos de informação e cultura (biblioteca) nos quais circulam e se articulam saberes.

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Diante desses pressupostos, a proposta está em verificar o conceito de informação artística, principalmente no que se refere às informações intangíveis. As atividades culturais se sustentam na vocação universal que as bibliotecas públicas possuem nos serviços e na multiplicidade de funções que desempenham como núcleos de cultura e artes. O trabalho se caracterizada como do tipo exploratório, de natureza qualitativa, a fim de explorar e conceituar o termo informação através das atividades artísticas em bibliotecas. Através da revisão de literatura objetiva-se relacionar as reflexões obtidas a respeito da informação artística e as atividades culturais.

2 O CONCEITO DE INFORMAÇÃO E A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO Dos tambores tribais, indígenas, rituais de ancestralidades para ressoar mensagens, a vida social, comunicacional, constituída nos primeiros fluxos informacionais. Incidindo pela revolução de Gutemberg, aporta-se no século XVI, observando aspectos como a evolução cientifica, a institucionalização da pesquisa, instante em que a ciência moderna se principia através da comunicação e das informações científicas. Chegando ao século XIX, o século das Ciências, várias disciplinas surgem como a Psicanálise (Freud, 1882); o Espiritismo (Kardec, 1857); Semiótica (Pearce, 1906); Bibliografia e Documentação (Otlet; La Fontaine, 1900), além de descobertas significantes nas áreas de Medicina, Física, Química, Biologia, resultando no aumento das publicações científicas, principalmente na Europa. É nesse período que se pode observar as raízes da CI, quando entre muitos eventos, é criado o IBB (Instituto Internacional de Bibliografia) por Paul Otlet e Henri La Fontaine (1895). Estacionando agora no século XX, quando a guerra estava finda e o processo de reconstrução do mundo seguia seu curso: logo assistiríamos a Guerra Fria, a América Latina transformar-se no “quintal” de Washington, a proliferação cada vez mais presente das tecnologias, o advento da televisão etc. Discorre-se na literatura, como é o caso de Saracevic (1996), que a CI teve sua origem no bojo da revolução científica e técnica que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Em seu desenvolvimento, verifica-se de relevância a criação da Teoria Matemática da Informação (Claude Shannon e Warren Weaver); problemas na

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

transmissão de mensagens através de canais mecânicos de comunicação; necessidade de definir claramente o caráter da informação. Assim, de acordo com Pinheiro (1997) os acontecimentos que gestaram a CI podem ser representados pela confluência dos seguintes fatos e fatores: a “explosão bibliográfica”; a necessidade social, histórica, cultural e política do registro e transmissão

dos

conhecimentos

e

informações,

produto

do

processo

de

desenvolvimento da Ciência e Tecnologia; o surgimento de novas tecnologias a partir do microfilme e, principalmente, do computador. A Ciência da Informação, nasce, portanto, sob a égide da Ciência e da Tecnologia. Mas o que é a Ciência da Informação? Borko (1968) declara que a CI em sua essência é a disciplina que investiga as propriedades e o comportamento informacional, as forças que governam os fluxos de informação, e os significados do processamento da informação, visando à acessibilidade e a usabilidade ótima. A CI está preocupada com o corpo de conhecimentos relacionados à origem, coleção, organização,

armazenamento,

recuperação,

interpretação,

transmissão,

transformação, e utilização da informação. Para Saracevic (1996) a CI é um campo dedicado a questões científicas e á prática profissional, voltadas para os problemas da efetiva comunicação do conhecimento e de registros de conhecimento entre seres humanos, no contexto social, institucional ou individual do uso e das necessidades de informação. No entanto, como observa Pinheiro (1997, p. 65) “nesse período anunciador da nova área, ainda não era mencionada, especificamente, a palavra informação, e sim bibliografia e documentação [...]”. No Brasil, poucos são os documentos encontrados na literatura brasileira que trabalham conceitos de documentação ou discutem as suas relações com Ciência da Informação. Contudo, diante da necessidade de se verificar o conceito de informação, chegamos então ao século XXI. Então, pode-se dizer que o termo informação derivase do latim (informatio), tendo como significado a ação de dar forma a algo material, como também de comunicar conhecimento a uma pessoa. Para Logan (2012) a palavra informação na língua inglesa, de acordo com o Oxford English Dictionary, aparece por escrito pela primeira vez em 1386 por Chaucer. A noção de informação como algo que pode ser armazenado, transferido ou

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comunicado a um objeto inanimado e a noção de informação como uma quantidade definida matematicamente não surgem antes do século XX. Araújo (2010) nos fala que logo no seu início a CI se viu diante da necessidade de construir um conceito científico de informação e, do esforço de superar essa necessidade, surgiu o conceito “físico” de informação. O termo “físico” surge enfatizando a dimensão material da informação (sua existência sensível, inscrita em algum tipo de suporte) e, também, as propriedades objetivas dessa materialidade, passíveis de serem cientificamente determinadas, cuja construção de tal conceito fundamenta-se na Teoria Matemática da Comunicação. A consequência mais imediata da adoção deste modelo pela CI é que a área volta-se prioritariamente para os processos de transporte, de transferência, da informação – a “efetiva comunicação do conhecimento e de seus registros entre os seres humanos” (SARACEVIC, 1996, p. 47). Outra perspectiva de definição de informação começa a ganhar corpo nos finais da década de 1970, bastante influenciada pelo sucesso das teorias cognitivistas nas várias ciências. Inspirados na teoria do conhecimento objetivo de Karl Popper, pesquisadores desenvolvem um conceito “cognitivo” de informação, que ganhou fôlego após um congresso ocorrido em Copenhagen, em 1977. Para se definir informação, portanto, é preciso se considerar o estado de conhecimento (o que se conhece, o que se sabe): a informação não é apenas a sua manifestação física, o registro material do conhecimento – é preciso ver, também, o que está na mente dos usuários. Buckland (1991) tratou do assunto, fazendo a distinção entre informação como coisa (entidade tangível) e como processo de construção de conhecimento (entidade intangível). Capurro (2003) apresenta ainda um terceiro paradigma, que estaria se formando desde o início da década de 1990 (que ganharia na verdade seus primeiros traços na conferência sobre conceitos de informação ocorrida em Tampere, Finlândia, em 1991): trata-se do modelo que vê a informação como um fenômeno social. Tal modelo se constrói a partir da crítica ao modelo cognitivo, que visualiza a informação como produto de um sujeito isolado (que não está inserido num contexto sócio histórico nem em relações interpessoais, ou pelo menos em nada é afetado por elas na sua relação com a informação) e numênico (que apenas se relaciona com o mundo de uma forma cognitiva, inserindo em sua mente definições conceituais sobre 43


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as coisas, como se a mente fosse um grande “quebra-cabeças” e cada informação obtida uma nova peça). O paradigma social, por sua vez, apresenta-se como uma abordagem sócio cognitiva, levando em consideração o conhecimento compartilhado por uma comunidade ou grupo. Enfoca a recuperação dos elementos subjetivos dos usuários para a definição do desenho dos sistemas de recuperação, considerando sua visão de mundo. A partir dessa concepção, a Ciência da Informação volta-se para um enfoque interpretativo, centrado no significado e no contexto social do usuário e, como dito acima, do próprio sistema de recuperação da informação. Em lugar de se vislumbrar formas de pensamento que se opõem (o modelo cognitivo “contra” o físico, o social “contra” o cognitivo), o que a análise da presença dos três nas várias subáreas permite evidenciar é, antes de tudo, sua complementaridade. Um modelo não surge para substituir o outro, mas sim para completa-lo, buscando analisar justamente aquilo que o modelo precedente não dá conta, ou deixa de fora (ARAÚJO, 2010). Considerando os paradigmas apresentados acima, pode-se considerar com Barreto (2005) a informação como uma ferramenta da consciência dos indivíduos, pois é o elemento essencial da transferência de conteúdo. Desse modo, desempenha uma função mediadora na produção do conhecimento, porém, a informação somente exercerá sua função de gerar/complementar conhecimento quando assimilada e compreendida como tal, ou seja, [...] quando usamos o termo informação em Ciência da informação, deveríamos ter sempre em mente que informação é o que é informativo para uma determinada pessoa. O que é informativo depende das necessidades interpretativas e habilidades do indivíduo (embora estas sejam frequentemente compartilhadas com membros de uma mesma comunidade de discurso) (CAPURRO; HJORLAND, 2007, p. 154-155).

A apropriação da informação para geração de conhecimento diferi, portanto, de sujeito para sujeito, considerando que “uma mesma informação pode ter diferentes significados para diferentes pessoas e para a mesma pessoa em diferentes tempos” (BARRETO, 2005, p. 7). Observando que os ambientes das bibliotecas são complexos, revela-se a importância da ação do bibliotecário estabelecendo interação simbólica entre os sujeitos e o mundo cultural que os rodeia. Ao estudar a informação no contexto social-cultural, a Ciência da Informação contribui com pesquisas centradas nas políticas, nas dinâmicas e nas práticas culturais dos dispositivos informacionais públicos, especialmente referentes às 44


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bibliotecas públicas e escolares. Sob esse aspecto, mobilizam-se conceitos como apropriação simbólica, ação cultural, saberes informacionais, informação artística, dentre outros. O panorama da chamada Sociedade da Informação implica na apropriação de novos e complexos saberes, como condição ao enfrentamento das novas relações sujeito – informação, sobretudo promovida pelo advento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). Os altos índices de produção e distribuição de informação, aliados às formas contemporâneas de circulação, nas quais se incluem diferentes tramas socioculturais e fontes informacionais de variadas naturezas, resultam na necessidade de alternativas capazes de posicionar os sujeitos em diálogo efetivo com o universo informacional e cultural. A problemática da comunicação é deslocada para a cultura; para o processo de produção de significados; para o complexo espaço dos equipamentos culturais e informacionais, constituindo-se em experiências dos sujeitos, não como meros decodificadores de conteúdos, mas também produtor de novos significados.

3 INFORMAÇÃO ARTÍSTICA Quando o homem pré-histórico deixou a marca de sua presença no mundo, nas cavernas, através da pintura e no próprio registro ou impressão de sua mão, esses gestos, impregnados de magia, muito antes daquilo que viria a ser denominado Arte, podem ser sintetizados (ou ampliados?) em duas palavras: comunicação (processo) e informação (produto). Ou mais ampla e plenamente criação (PINHEIRO, 1997). A arte é um produto da vida social e tem como processo de criação um ato de comunicação. Coli (2006, p. 109) diz que “a arte tem assim uma função que poderíamos chamar de conhecimento, de “aprendizagem”. De acordo com Canclini (1984), a arte é produção, porque consiste numa apropriação e numa transformação da realidade material e cultural, mediante um trabalho de satisfazer uma necessidade social, de acordo com a ordem vigente em cada sociedade.

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Bukarin1 articula que a arte sistematiza os sentimentos e os traduz em forma artística, através das palavras, sons, gestos, às vezes muito materiais, como ocorre na arquitetura. Para Bukarin (1945, p. 112) a arte é um meio de socializar os sentimentos, “uma sistematização dos sentimentos traduzidos na linguagem das formas. A função diretriz da arte consiste em socializar, transferir, disseminar esses sentimentos na sociedade”. As obras de arte, os produtos artísticos, necessitam de um receptor que os interprete. No momento em que o interprete (usuário, leitor) se deparar com um quadro, peça de teatro, hora do conto, projeção de filme, opera-se nele, segundo Bezerra e Covaleski (2014, p. 230) “um sistema particular de ordenamento das informações e estímulos que ali se encontram para elaborar suas analogias e significações”. A cada contato com o objeto artístico, as perspectivas de análise serão outras, portanto, ocorrerá uma nova fruição estética, com novas interpretações. A capacidade interpretativa de cada espectador em contato com a obra é ímpar, o que faz desse contato uma experiência particular e distinta para cada novo indivíduo e em cada momento diferente. A informação contida na obra de arte unida aos aspectos estéticos entra em contato com o espectador de forma singular. “A diferente referencialidade da expressão não reside, portanto, na expressão em si, mas no receptor” (Eco, 2003, p. 77). O processo de decodificação e compreensão de cada mensagem/obra como um todo é individual. Segundo Mikhail Bakhtin (1992) o ato criativo pressupõe um conhecimento a ser transformado. Quando nos apropriamos da cultura, produzimos conhecimento, dessa transformação, vários são os produtos artísticos que podem ser elaborados em bibliotecas, integrando-os nas esferas das mediações da leitura e escrita, das mediações digitais e das mediações artísticas. Nesse propósito, as manifestações culturais, independentemente de qualquer linguagem, são consideradas expressões formais e simbólicas, cuja dinâmica para a apropriação cultural, numa perspectiva cognitivo-sociológica, envolve componentes sensoriais, emocionais, intelectuais, fisiológicos, neurológicos, assim como culturais, econômicos e políticos. Ao experienciar o contato com a produção artística, abrem-se as perspectivas de análise, ocorrendo, portanto, fruição estética, com interpretações. 1

BUKARIN, N. Materialismo histórico. In: PLEKANOV, J. Sociologia da arte. São Paulo: Ed. Formar, 1945.

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A capacidade interpretativa de cada espectador em contato com a obra é ímpar, o que faz desse contato uma experiência particular e distinta para cada novo indivíduo e em cada momento diferente. A obra de arte, como uma “mensagem fundamentalmente ambígua” implica ao receptor o “revezamento das interpretações, o deslocar-se das perspectivas” (ECO, 2003, p. 23). Em relação aos símbolos, Araripe (2004, p.111) afirma que os homens precisam de signos, de imagens, de gestos, dentre outros aspectos carregados de sentido, através dos quais possam se comunicar e ainda se reconhecerem a si próprios como seres sociais e, por conseguinte, como seres eminentemente simbólicos. Estudar a informação, sob o aspecto artístico torna-se essencial quando se busca entender qual é a contribuição da informação na democratização da arte facilitando o acesso de seu público e para compreender como os sistemas de informação atuam nos novos cenários da arte e da Ciência da Informação. Acredita-se que os sentidos produzidos através de qualquer produção cultural remetem sempre esses sentidos para a esfera da compreensão cada vez mais refinada e profunda da realidade. Neste contemporâneo, os olhares precisam voltar-se ao multiculturalismo, as diferenças de gêneros, aos comportamentos informacionais, as competências necessárias, ao letramento digital. Considerando, contudo, também as possibilidades comunicativas que se encerram nas manifestações culturais, através das formas de comunicação (oral, escrita, gestual, plástica e virtual).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS As bibliotecas são espaços culturais essenciais para a efetividade das pluralidades de expressões artísticas. Constata-se que o trabalho com as artes pode contribuir para o desenvolvimento da consciencia humana, em prol de se atingir a evolução social. As atividades artísticas desenvolvidas pelos equipamentos informacionais podem resultar em processos de inclusão social, cultural, digital e de emancipação de grupos e indivíduos, promovendo a alfabetização e o letramento, como também na apropriação da informação. Mediar artes incentivando-a nos mais diversos suportes e

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formas é projeto a ser consolidado, cuja essência da prática está na construção de um país mais justo, democrático, crítico. Os elos entre linguagens, sociedade, informação e cultura podem ser objetos de

análises,

cujas

perspectivas

instauram-se

nos

processos

cognitivos

e

comunicacionais, resultantes das práticas artísticas nas bibliotecas. Dessa forma, entende-se que os objetivos sociais das bibliotecas podem debruçar-se, sobretudo, no desenvolvimento de políticas de leitura, de políticas artísticas, de políticas de informação, priorizando bibliotecas públicas e escolares junto ao acesso à informação. Esses fatores provocariam a apropriação cultural, permitindo o acesso à leitura, à informação, aos eventos artísticos, que aos seus turnos estão ligadas as formas de mediação, ao acesso democrático, a aproximação entre indivíduos e coletividades a obras de cultura, arte, informação, entretenimento, lazer e consciência crítica. Trata-se também de pensar a biblioteca como um dispositivo produtor de sentidos, compreendendo que o sujeito através da interação social partilha os processos de significação cultural com os outros homens, com os objetos, com os artefatos, com as ferramentas, com as técnicas, com os conteúdos informacionais, determinando ao mesmo tempo instâncias dialógicas na comunicação, na linguagem, na apropriação e formação da cultura. REFERÊNCIAS ALMEIDA JÚNIOR, O. F. Mediação da informação e múltiplas linguagens. Pesq. Bras. Ci. Inf., Brasília, v. 2, n. 1, p. 89-103, jan./dez.2009. ANDRADE, A. M. C.; MAGALHÃES, M. H. A. Objetivos e funções da biblioteca pública. R. Esc. Bibliotecon. UFMG, Belo Horizonte, v.8, n.1, p. 48-59, mar., 1979. ARARIPE, F. M. A. Do patrimônio cultural e seus significados. Revista Transinformação, v.16, n.2, p.111-122, 2004. ARAÚJO, C. A. A. O conceito de informação na Ciência da Informação. Inf. & Soc.:Est., João Pessoa, v.20, n.3, p. 95-105, set./dez. 2010 BAUMGART, F. Breve história da arte. 2. ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1999. BARRETO, A. A. A estrutura do textoe a trensferência Datagramazero, Rio de Janeiro, v. 6, n. 3, jun. 2005.

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da

informação.


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

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4 MEDIAÇÃO E USO CRÍTICO DAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO: O PAPEL DA ESCOLA

Roseane Andrelo roseane.andrelo@faac.unesp.br Docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Tamara de Souza Brandão Guaraldo tamara@faac.unesp.br Docente do Curso de Graduação em Comunicação Social da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Maria Eugênia Porém meporem@faac.unesp.br Docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp)

Resumo: O objetivo deste artigo foi discutir o uso crítico das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) pelos sujeitos no âmbito da inter-relação entre educação e mediação. A partir da pesquisa bibliográfica, nota-se que a discussão sobre a apropriação das TICs pela escola baseia-se em argumentos econômicos e pedagógicos pautados na tecnologia como meio eficaz para ensinar conceitos básicos, criação de programas específicos para necessidades especiais, preparar o educando para o mercado de trabalho e atingir grande número de estudantes. Apreende-se que as TICs são necessárias, mas não suficientes, pois ao exercer o papel mediador entre o público e a realidade concreta, expõem a consequente necessidade de preparar as pessoas para o seu uso crítico e criativo. A mediação e uso crítico acontecem quando a educação promove um amplo debate de todos os atores no processo de apropriação da informação, envolvendo educadores e educandos, meios e usuários, comunidades, movimentos sociais, entre outros, construindo e negociando o significado das informações veiculadas. Palavras-Chave: Mediação; Educação; Informação; Tecnologia.

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1 INTRODUÇÃO O cenário que delineia esta discussão é marcado por dois pressupostos: a centralidade das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) na sociedade seja pelo crescente acesso e pelo papel de mediadora entre o público e a realidade concreta, e a consequente necessidade de preparar as pessoas para o uso crítico e criativo das TICs. A ideia principal é que o acesso às TICs é importante, mas não basta, afinal deve-se privilegiar a formação do cidadão e não do consumidor. Portanto, quando se fala em inclusão tecnológica deve-se pensar, também, na apreensão do discurso da tecnologia e não apenas na aprendizagem de programas para a execução de determinados fins, ou seja, defende-se a mediação entre educação, tecnologia e cidadania, visando à transformação social. E a escola é o local apropriado para isso. Mas, como promover o uso crítico e criativo das tecnologias de informação e comunicação, levando em consideração a capacidade de acesso, uso e gestão dos meios? O objetivo deste artigo é discutir a importância de tratar as TICs no âmbito da inter-relação entre educação e mediação visando o uso crítico.

2 A PRESENÇA DA TECNOLOGIA NA EDUCAÇÃO A discussão sobre a apropriação, pela escola, das TICs tem sido cada vez mais recorrente e envolta de certa polêmica. Utilizando a classificação de Eco (1998) e adaptando-a ao campo educacional, tem-se, de um lado, os integrados, ou seja, aqueles que defendem as tecnologias como a salvação do processo de ensino/aprendizagem, uma vez que pelas características audiovisuais, as máquinas atraem mais o jovem, dando um suposto dinamismo à aula e facilitando a compreensão de informações. Por outro, há os mais apocalípticos, que veem nessa situação a volta de uma visão puramente tecnicista. A proposta do presente trabalho segue uma via alternativa a essas duas tendências. Não se trata de, antecipadamente, condenar ou aderir à apropriação das tecnologias, mas, de reconhecer que elas fazem parte da sociedade e a escola não deve trabalhar de forma isolada do mundo. Porém, não basta incorporar as tecnologias ao processo educativo, mas entender como elas estão situadas nos contextos políticos, econômicos, sociais e culturais. Sendo assim, é essencial 53


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contextualizar as TICs e entender o papel que desempenham na sociedade, da qual faz parte a educação. Há, pelo menos, duas formas de inserir diretamente as TICs no processo educativo: via educação a distância ou pela apropriação na sala de aula, seja como educação às mídias, que pressupõe a leitura crítica dos meios de comunicação, ou como educação pelas mídias, baseada no uso de suporte midiático. Ambas possibilidades foram oficializadas pelo governo brasileiro. As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental sugerem a apropriação de novas linguagens e tecnologias de comunicação. Soma-se a isso o fato de a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) 9.394/96 ter dado autonomia para a elaboração do projeto pedagógico e ter regulamentado o ensino a distância. Além dos documentos oficiais, há questões situacionais que garantem a importância da discussão sobre o uso das TICs na educação. Uma delas é a centralidade que os meios de comunicação ou mídias têm na sociedade e que pode ser percebida pelos aspectos quantitativo e qualitativo. Um exemplo do primeiro é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2009, segundo a qual 87,9% das residências tinham aparelho de rádio; 95,7% de televisão e 34,7% de microcomputador, dos quais 27,4% com acesso à Internet (IBGE, 2009a). Mas o consumo de mídias é apenas um elemento garantidor do lugar que elas ocupam na sociedade. Há que se destacar, também, de um ponto de vista qualitativo, o papel de mediação entre o público e a realidade, seja pelo conteúdo que veicula ou mesmo pela forma como é usada e construída, trocando a linearidade pela fragmentação e, consequentemente, gerando mudanças de sensibilidade. Embora não de modo decisivo, os meios de comunicação contribuem para pautar conversas diárias, para a construção de valores e a formação de opinião. Esse quadro é um indicativo de que a escola não é mais o local exclusivo da aprendizagem. Não se trata de supervalorizar a importância da mídia e tão pouco de subestimar o da escola, mas de entender que os meios de comunicação têm um lugar central no cotidiano e que o professor ou mesmo os livros didáticos deixaram de ser os únicos propiciadores de informações. Há que se considerar o papel da mídia no que diz respeito à educação não-formal.

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Quebrar a barreira entre tecnologias e escola é essencial em um momento em que se discute a necessidade da educação para a comunicação. A escola é o ambiente adequado para a leitura crítica da mídia, uma vez que seria ingenuidade acreditar que as próprias emissoras de rádio ou televisão e os jornais e revistas proporcionariam isso, fato que reforça a necessidade da educação às mídias. No que diz respeito à Internet, a situação não deve ser diferente. A conexão é necessária, mas não suficiente. É preciso preparar as pessoas para usarem os computadores e a rede, sem desvincular a alfabetização tecnológica da formação básica. A educação deve formar o cidadão e não o consumidor. Assim, não se formará “analfabetos funcionais digitais”, ou seja, meros operadores de máquinas (PRETTO, 2001). Antes de uma análise mais aprofundada sobre o impacto das TICs na sociedade e das demandas educacionais recorrentes desse quadro, cabe definir alguns conceitos chaves. Embora bastante difundidos, retratam objetos complexos, o que solicita uma reflexão para que não haja uma adesão baseada no modismo. Por técnica, compreende-se “[...] um conjunto ordenado de procedimentos que, estabelecidos por um protocolo científico, destinam-se primariamente a uma transformação da natureza” (POLISTCHUK; TRINTA, 2003, p.32). Já as tecnologias, “causa e efeito do progresso material alcançado por uma civilização”, fazem parte de um contexto sócio-histórico. “Bem mais do que simplesmente um produto (uma conquista técnica à qual se agrega um benefício afetivo), uma tecnologia provém do conhecimento científico e logo passa a fazer parte da cultura, impregnando o imaginário social (imagens simbólicas em curso na sociedade) pelo qual dada cultura se explicita” (POLISTCHUK; TRINTA, 2003, p.34). A articulação do termo tecnologia ao campo da educação, embora bastante recorrente, não é nova. Mesmo sendo difícil precisar a origem, sabe-se que o conceito foi

utilizado

por

psicólogos

que

atuavam

com

“análise

experimental

do

comportamento”, para trabalhar com instrução programada. Ao transpor o conceito à educação, tem-se necessidade de novas definições. Giz, lousa, projetor de slides são tecnologias? Ou apenas meios de comunicação de massa, como rádio, TV, Internet e imprensa escrita? Para não cair no risco do reducionismo, adota-se, aqui, uma definição mais ampla, que leva em consideração o campo ao qual o conceito tecnologia é ligado, ou seja, o educacional. Não é possível, portanto, reduzir 55


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tecnologia a material, pois é a inserção e uso da mídia em determinado contexto que vai caracterizá-la realmente. Nesse sentido, a definição feita pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) parece adequada, ao estabelecer tecnologia educacional como “[...] um modo sistemático de conceber, aplicar e avaliar o conjunto de processos do ensino-aprendizagem, levando em conta os recursos técnicos e humanos e as interações entre eles, como forma de obter uma educação mais efetiva”. A ideia de novidade, habitualmente traduzida na expressão ‘novas tecnologias na educação’, também merece atenção. Parece lógico que ela seja relacionada aos meios digitais, frequentemente atualizados. Por esse prisma, o rádio, com cerca de noventa anos de história oficial no Brasil, e a televisão, cujo surgimento data da década de 1950, estariam excluídos da noção de novo. Porém, quando se pensa no uso, mesmo se determinada tecnologia não pode ser considerada nova, pelo seu tempo de existência, ela pode permanecer uma inovação para muitas pessoas. Seu uso pode caracterizar-se como inovador no quadro das práticas educativas inovadoras, desde que vise uma melhora durável, e não uma experiência pontual, e que seja uma obra coletiva (LAFONTAINE, 2000). Especialmente a partir da década de 1980, a associação da tecnologia à informação ganha especial destaque. Sendo assim, cabe mais uma definição. “Informação compreende a transformação de dados em uma mensagem organizada para uma finalidade, o que implica na agregação de valor” (BELLUZZO, 2000). Diferese, portanto, de dados que são "meramente descritivos, não fornecem julgamento e nem interpretações dos fatos registrados". Ao trabalhar com o conceito de informação, fala-se em acesso e domínio, mas também em educação à informação; em competências informacionais, embora muitas vezes usada com sentido restrito, como conhecimentos instrumentais, e também em cultura da informação ou informacional, conceito considerado guarda-chuva, englobando várias noções, pois uma cultura da informação necessita de conhecimentos instrumentais, metodológicos, econômicos, jurídicos, éticos (CHEVILLOTTE, 2007). A pesquisa de informação pressupõe o desempenho de uma atividade propícia às aprendizagens relacionadas a diversos domínios de conhecimentos e de competências: em nível social, pode ser um pretexto a um trabalho colaborativo ou 56


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coletivo, seja em co-presença ou à distância; em nível sensório-motor, habilidades manipulatórias podem ser desenvolvidas, pois para pesquisar e tratar informações necessita usar ferramentas com manipulação complexa, como o teclado alfanumérico, sobretudo para os mais jovens; em nível metacognitivo, desenvolve-se os conhecimentos ligados à gestão da atividade, pois o aluno aprende a gerir seu tempo, as ferramentas e o material que dispõe; em nível cognitivo, dois tipos de conhecimentos são adquiridos ou desenvolvidos - no que concernem os saberes e os conceitos, normalmente ligados a um domínio específico e os ligados ao saber fazer, ao procedimento associado à atividade (DINET, 2007). Ter uma cultura informacional significa conhecer as mídias, a informática, a pesquisa documental entre outras competências. Esta perspectiva reforça a ideia defendida de que o acesso ao computador e a outras TICs não garante o domínio das competências informacionais. Para tê-las, é preciso ser capaz de identificar a informação da qual tem necessidade, de localizá-la, acessá-la, avaliá-la e utilizá-la (DINET, 2007). Assim, não se pode separar o acesso do poder usar, mas ter uma visão dos processos associados (INGWERSEN, 1992), pois é necessário transformar informação em conhecimento. “Conhecer é integrar a informação no nosso referencial, no nosso paradigma, apropriando-a, tornando-a significativa para nós. O conhecimento não se passa, o conhecimento se cria, se constrói.” (MERCADO, 2001, p. 55). E, para se ter uma cultura informacional, é preciso compreender o papel que as TICs assumiram na sociedade, o que será brevemente debatido no próximo tópico.

3 UM RÁPIDO OLHAR NO CONTEXTO A importância que as TICs assumiram na sociedade pode ser clareada ao adotarmos o conceito de revolução tecnológica e, para compreendê-la, é preciso fazer um breve resgate histórico. Para Schaff (1995), o mundo vivenciou três revoluções técnico-científicas. A primeira delas aconteceu no final do século XVIII e início do XIX e foi caracterizada pela substituição, na produção, da força física do homem pela energia das máquinas – começou com o uso do vapor e, posteriormente, da eletricidade. Substitui a produção artesanal pela fabril. Com a segunda revolução, na segunda metade no século XIX, as capacidades intelectuais dos homens foram ampliadas e substituídas por autômatos, o que eliminou o trabalho humano na produção e nos serviços. Tem 57


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como marca o surgimento da energia elétrica, do aço, do petróleo e da indústria química, além dos meios de transporte e de comunicação. A revolução microeletrônica e a revolução técnico-industrial a ela associada representam um aspecto da atual revolução técnico-científica. A revolução tecnológica desempenhou um importante papel na década de 1980, momento em que grande parte dos países vivenciou dificuldades econômicas, surgidas em 1973, com a crise do petróleo. A escassez de recursos financeiros levou à crise fiscal que afetou o Estado. Por um lado, os governos não conseguiram financiar seus próprios déficits e, por outro, os contribuintes não queriam pagar mais impostos, uma vez que não viam melhoria dos serviços públicos. A revolução tecnológica originou-se não por um período histórico de reestruturação global: ela teve como ingrediente básico a informação (CASTELLS, 1999). A tecnologia da informação é para esta revolução o que as novas fontes de energia foram para as Revoluções Industriais. Isso não significa caracterizar a atual revolução

como

“essencialmente

dependente

dos

novos

conhecimentos

e

informação”. Até porque, as revoluções tecnológicas anteriores também utilizaram informações, desenvolvendo os conhecimentos já existentes. A caracterização se dá, então, não pela centralidade de conhecimentos e informação, mas pela “[...] aplicação desses conhecimentos dessa informação para a geração de conhecimentos e de dispositivos de processamento/comunicação da informação, em um ciclo de realimentação cumulativo entre a informação e seu uso” (CASTELLS, 1999, p. 51). E que propicie a apropriação dessa informação e seu uso crítico. Sobre os impactos causados pelas descobertas tecnológicas e científicas pela sociedade, no que diz respeito à economia, as consequências da revolução tecnológica são claras e um exemplo é retirado da Pesquisa Anual de Serviços feita pelo IBGE, em 2009, que aponta que os serviços de informação e comunicação, que englobam as atividades de telecomunicações; tecnologia da informação; serviços audiovisuais; edição e edição integrada à impressão e agências de notícias e outros serviços de informação, somaram R$ 214,4 bilhões de receita operacional líquida, o que equivale a 28,8% do total, estando à dianteira, em relação aos demais setores pesquisados (IBGE, 2009b). Mas as consequências da revolução tecnológica não se limitam às grandes empresas ou a quem atua diretamente com informática. Afinal, a revolução 58


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tecnológica é parte inerente da sociedade, na qual vivem desde os analfabetos digitais até os proprietários das grandes corporações citadas anteriormente. Frente a essas situações, cabe questionar como fica o papel do Estado. Até porque, conforme Cebrián (1999), a incorporação dos sistemas digitais à produção, armazenamento e distribuição de dados é fruto, também, de decisões políticas. Exemplos disso estão espalhados pelos vários cantos do mundo. Para citar dois, isso acontece quando o governo brasileiro discute qual tecnologia de TV digital vai usar ou mesmo qual o papel do Estado na regulamentação da comunicação. Seja interrompendo, promovendo ou liderando a inovação tecnológica, o envolvimento do Estado é um fator decisivo no processo geral, uma vez que expressa e organiza as forças sociais dominantes em um espaço e uma época determinados.

4 ENTÃO, COMO FICA A ESCOLA? Em um resumo do que foi exposto até aqui, pode-se afirmar que as TICs são parte importante da economia mundial: ocupam, cada vez mais, espaço no dia-a-dia da sociedade, mesmo que de forma desigual; condicionam as culturas e, no caso dos meios de comunicação de massa, fazem a mediação entre a realidade e o que conhecemos dela. É nesse contexto que as TICs são integradas e utilizadas na educação. De um lado, cabe à escola responder às necessidades sociais e culturais da população, difundindo cultura, ciência e arte. De outro, a reestruturação produtiva do capitalismo global determina mudanças no conceito de qualidade educativa, atingindo a organização e a gestão das escolas. “As reformas educacionais mundiais identificam as escolas como espaços de mudança, tendo como referência a autonomia, gestão descentralizada e avaliação” (LIBÂNEO et al., 2003, p.25). De uma forma geral, o cenário marcado por mudanças no processo de produção, somadas aos avanços científicos e tecnológicos, ao destaque no papel do mercado na regulação da economia e à redução do papel do Estado, tiveram consequências na educação. Uma vez que a informação é ingrediente básico do desenvolvimento econômico, as instituições encarregadas de produzi-las passam a ser alvos de reformas, que têm como pontos centrais o currículo nacional, a profissionalização dos docentes, a gestão educacional e a avaliação institucional. Há que se acrescentar, 59


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ainda, o posicionamento de organismos internacionais, como o próprio Banco Mundial e a UNESCO, que têm colocado esta questão na pauta do dia. Especificamente no Brasil, o governo de Fernando Henrique Cardoso, ao tomar posse em 1995, estabeleceu metas como avaliação nas escolas, elaboração do currículo básico nacional, incentivo à formação de professores, descentralização da administração das verbas federais e incentivo à educação a distância. É nesse contexto que a inserção das TICs no processo educativo é legitimada por documentos oficiais do governo Federal, seja a LDB 9.394/96, o Plano Nacional de Educação ou as Diretrizes Curriculares Nacionais (LIBÂNEO et al., 2003). Com a legitimação via leis e aspectos situacionais, cabe entender como essa inserção tem se dado. A escola não pode fechar as portas para as TICs, mas também não deve resgatar o discurso tecnocrático, comum do período da ditadura militar. Essa é uma das primeiras reflexões que devem ser feitas. As TICs são necessárias, mas não suficientes, pois ao exercer o papel mediador entre o público e a realidade concreta, expõem a consequente necessidade de preparar as pessoas para o seu uso crítico e criativo. A integração das inovações tecnológicas aos processos educacionais vai depender de uma concepção de educação que fundamente as ações e as políticas do setor. Apesar disso, o que se percebe é uma grande valorização dos materiais, difundida em uma perspectiva (neo) tecnicista. Ao discutir a questão, Belloni (2001, p.55) pondera que os processos de socialização dependem das escolhas políticas feitas pela sociedade e a educação é um instrumento político. “A integração das inovações tecnológicas aos processos educacionais vai depender então da concepção de educação das novas gerações que fundamentam as ações e políticas do setor”. Ao entender a educação como um meio de emancipação e não de reprodução ou dominação, deve haver uma integração criativa das TICs. Além do que, é preciso cuidado para não transformar a tecnologia em sujeito, pois o elemento mediador não se dá pela técnica em si mesma, mas pela intersubjetividade entre educadores e educandos, e também pela política; neste processo, a integração das TICs se torna um produto da mediação e não o contrário, pois é a mediação que intervém para que o uso das TICs seja possível. No que se refere a uma análise dos usos das tecnologias, surge o termo mediação técnica, quando o instrumento utilizado estrutura a prática, e a mediação serve para designar as operações e os efeitos da tecnicização do processo de 60


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comunicação. Ao mesmo tempo, aparece a mediação social, que intervém de modo subjetivo nas práticas de comunicação e informação (DAVALLON, 2007, p.8). Portanto, tanto a vertente técnica quanto a de uso social devem ser consideradas quando relacionadas à mediação das TICs no contexto escolar. Porém,

muitas

vezes,

a

introdução

de

tecnologias

nos

países

subdesenvolvidos ou em desenvolvimento vem acompanhada pelo discurso tecnocrático que propaga um modelo de sociedade de consumo e uma concepção de mundo. Esse discurso é comparado a um “manual de instruções” da maquinaria. Dizer isso não significa retomar a ideia de usuário passivo, mas de defender que a escola deve fazer mais do que permitir o acesso às inovações técnicas e ensinar os alunos a utilizá-las (BELLONI, 2001). A decisão sobre como inserir as TICs na educação, até 2011, cabia à Secretaria de Educação a Distância (SEED), ligada ao Ministério da Educação, quando foi extinta e seus programas vinculados a novas administrações. Segundo o MEC, o papel do órgão gestor de EaD é ser “[...] um agente de inovação tecnológica nos processos de ensino e aprendizagem, fomentando a incorporação das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e das técnicas de educação a distância aos métodos didático-pedagógicos” (SEED, 2012). Dos programas educativos existentes, que incluem o uso das TICs, grande parte é destinada aos docentes. Para Toschi (2001), a atual política educacional de formação de professores no Brasil tem semelhança com as propostas sobre o assunto feitas por organismos internacionais, como o Banco Mundial. Há, em ambas, aligeiramento na formação, privilégio da formação continuada, desprezo da formação inicial na universidade e valorização da EaD. Em 1995, textos do Banco Mundial indicavam como saídas para a educação e também como exigência para a concessão de empréstimos a países em desenvolvimento, o uso de “tecnologias mais eficientes” e o fim do “monopólio do professor na transmissão do conhecimento”. Posta esta questão, cabe discutir as vantagens e as dificuldades da inserção das TICs na escola. Os discursos favoráveis baseiam-se em argumentos econômicos e pedagógicos. A tecnologia pode ser eficaz para ensinar conceitos básicos e exercícios repetitivos, além de possibilitar a criação de programas específicos para necessidades didáticas, para pessoas com deficiência por exemplo. Também pode

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ser útil para dar enfoques novos à aprendizagem, com mais interação entre professores e alunos e permitindo a conexão entre escolas (HADDAD, 1998). Ainda no âmbito pedagógico, uma discussão crescente sobre as TICs diz respeito ao preparo, pela escola, para o mercado de trabalho. O atual quadro de dinâmica econômica globalizante, na qual o recurso mais importante é o conhecimento que possui a força laboral, traz exigências crescentes para os sistemas de educação. Os trabalhadores devem adotar estratégias para serem competitivos frente às mudanças dos mercados (KNIGHT, 1998). Assim, o autor sugere intensificar o trabalho de empresas privadas dedicadas ao ensino, bem como a capacitação que oferecem a seus empregados. Até porque, as empresas têm fortes incentivos para transmitir conhecimentos que reportem um rendimento econômico imediato. Embora essa situação – de que as escolas estejam educando para o mercado – pareça distante da realidade, esse discurso tem sido alvo de várias críticas. Há uma tendência de defender que a educação deve estar sintonizada com o mercado e, para um “tarefeiro”, basta treinar habilidades desejáveis em curto prazo. Assim, as TICs devem dar conta “[...] de modo econômico e eficaz, preferencialmente a distância, das estratégias

necessárias

ao

desenvolvimento

destas

mesmas

habilidades.”

(BARRETO, 2001, p. 15). Pretto (2001) critica a ideia de que educar para a inclusão é preparar para o mercado. Ele defende que a educação deve dar conta das desigualdades e não criar mais uma: dos com e sem acesso às TICs. No aspecto econômico, Castro (1998) avalia que o uso de tecnologias permite a redução dos gastos variáveis, embora haja predomínio dos gastos fixos. Ele calcula que, no ensino tradicional, o tempo dos professores é o componente mais importante do custo, chegando a mais da metade do total. Os gastos fixos, normalmente, são pequenos: uso do prédio e equipamentos, além da preparação relativamente “rudimentária” de material didático. Nesse caso, os custos permanecem iguais, seja para cem alunos ou para um milhão. O autor defende que o uso da tecnologia é viável principalmente, para atingir um grande número de estudantes. Independente dos posicionamentos divergentes, há dificuldades práticas na implantação de projetos envolvendo o uso de tecnologias da comunicação e da informação, seja através do ensino a distância ou mesmo da inserção dessas TICs no ambiente escolar. Uma delas é cultural. Afinal, a tecnologia representa uma nova metodologia de ensino que está sendo (ou tentando ser) implantada em um sistema 62


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secular. A outra é a inexistência de uma política educacional mais clara sobre sua implantação. A discussão sobre a inserção das TICs nas escolas pode parecer imprópria em um momento no qual avaliações indicam que a educação enfrenta problemas ainda mais básicos, como em língua portuguesa e em matemática. Porém, de toda forma, sabe-se que as TICs fazem parte da comunidade escolar. Além de serem determinantes na economia, também são na cultura. Alunos e professores levam, para dentro da sala de aula, informações adquiridas nas mais diversas mídias. Conversam sobre elas, vestem-se segundo a moda que difundiram e formam seus valores, não apenas, mas também pelo que assistiram, leram ou ouviram. E as mídias selecionam o que vai ser conhecido pelo público e, também, definem o grau de importância que cada assunto deve ter. O que merece ser veiculado em poucas linhas e o que será o grande destaque da edição. Enquanto mediadores entre a realidade concreta e o que a sociedade conhece dela, os meios de comunicação têm papel central não apenas do ponto de vista do conteúdo que divulgam, como também pela forma fragmentada de levar a informação a seu público, acostumando-o a produtos multimídias e tirando-lhes a paciência para a leitura demorada. No que diz respeito à Internet, “[...] a cada minuto que passa novas pessoas passam a acessar, novos computadores são interconectados, novas informações são injetadas na rede” (LEVY, 1999, p.100) e, mais especificamente, nas mídias sociais, sabe-se que, entre outros aspectos, elas têm como características as possibilidades de interatividade; de multimedialidade, integrando linguagens distintas, e de hipermedialidade, ao interconectar vários textos digitais entre si. O seu uso social tem demonstrado um maior equilíbrio dialógico entre emissores e receptores, numa comunicação de todos para todos (LEVY, 1999), do que as mídias tradicionais, fazendo com que relacionamentos, agora em rede, sejam mediados pela tecnologia. Essa centralidade das TICs mereceria uma atenção maior na escola, que deveria incluir os meios de comunicação em seu conteúdo, deixando de tratá-los apenas como metodologia. A preocupação com a não neutralidade das TICs se encontra nos estudos de mediação da informação, que se ocupam das ações que envolvem a informação, dentre elas a mediação, como uma prática e um processo que engloba ações de interferência em relação à informação, que podem ser desde ações diretas e conscientes, até indiretas e inconscientes, individuais ou coletivas, 63


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singulares ou plurais, que propiciem a apropriação da informação (ALMEIDA JUNIOR, 2009). E a lógica das ações de interferência vale para todos os meios e também para todos os gêneros, seja o informativo – como se deu a seleção de determinado assunto em detrimento de outro? por que uma matéria ganhou mais destaque do que outra? todos os lados envolvidos puderam se expressar?; o entretenimento - por que determinadas músicas são veiculadas várias vezes ao dia? como são escolhidos os filmes em cartaz no cinema?; o publicitário – qual o valor de uso e o valor simbólico de determinado produto? por que a exploração do corpo feminino na venda de determinados produtos?, e midiático - por que determinada notícia, vídeo ou imagem se torna viral nas redes sociais? qual seu conteúdo, que valores veicula? De uma forma ainda mais profunda, é preciso discutir a função dos meios de comunicação, essencialmente o rádio e a TV, considerados serviço público. No que diz respeito aos computadores e à Internet, também vale a mesma visão crítica, destacando o papel que a informática desempenha na sociedade. Assim, a escola estará realizando, de fato, seu papel mediador e de inclusão digital, que não deve limitar-se ao ensino do manuseio da máquina, mas de seu uso crítico. Por essa perspectiva, os professores serão mediadores e farão mais do que utilizar determinada mídia como um mero instrumento, seja o rádio para veicular uma música ou a TV para mostrar uma matéria sobre meio ambiente, como forma de sensibilizar a classe para depois discutir a temática. As tecnologias podem ser um meio para inserir determinado debate, como no exemplo anterior, mas só isso não basta para suprir as demandas educacionais no contexto da revolução tecnológica. A LDB 9.394/96 deu autonomia para as escolas elaborarem seus projetos pedagógicos e as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental incentivam a apropriação de novas linguagens e tecnologias de comunicação. Isso somado ao trabalho de universidades e de organizações não-governamentais na interface entre comunicação e educação tem gerado algumas ações pontuais. Porém, falta em nível macro, uma política educacional que, de fato, leve a discussão sobre qual o papel mediador das TICs para dentro da escola. Afinal, a escola, enquanto unidade básica do sistema escolar é o local de convergência entre as políticas e as diretrizes do sistema e o trabalho direto em sala de aula (LIBÂNEO et al., 2003). Enfim, no ambiente escolar é nítida a urgência de preocupação com o uso das 64


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Tecnologias de Informação e Comunicação como um ponto de partida que contribua para a inclusão digital, não se limitando a uma simples oferta de computador e Internet, mas que seja voltado ao compromisso da transformação social. E dessa maneira poderemos falar de mediação e uso crítico das tecnologias de informação e comunicação na escola, quando a educação promover um amplo debate de todos os atores no processo de apropriação da informação, envolvendo educadores e educandos, meios e usuários, comunidades, movimentos sociais, entre outros, construindo e negociando o significado das informações veiculadas.

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5 O PROCESSO DE MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO EM MÍDIAS SOCIAIS PARA UM CONTEXTO ORGANIZACIONAL

Íris Marques Tavares Sardelari irismtavares@hotmail.com Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista ‘Júlio de Mesquita Filho’ (Unesp).

Resumo: O fenômeno das redes e mídias sociais inaugurou uma nova etapa de evolução da internet. Com a crescente utilização desses novos meios, o usuário passou a participar da produção de conteúdos e da utilização personalizada de informações e dados, constituindo novos laços de identidade. Organizações que lidam com riscos de imagem e com grande diversidade de públicos precisam delinear estratégias de comunicação capazes de fazer a mediação de informações veiculadas nos diversos meios de comunicação disponíveis. Diante disso, este artigo teve como objetivo explorar conceitos sobre mediação da informação em mídias sociais. Palavras-Chave: Mediação da Informação; Redes Sociais; Mídias Sociais; Ciência da Informação; Ciência da Comunicação.

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1 INTRODUÇÃO Na Economia Informacional (MCGEE; PRUSAK, 1994, p.3 apud LOUSADA; VALENTIN, 2012), mais do que a terra ou o capital, a informação é a força motriz na criação de riquezas e prosperidade, evidenciando que a organização que dispõe mais rapidamente de informações poderá ser a que alcançará melhor desempenho e maior competitividade. Atualmente, as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC), segundo Almeida e Crippa (2009, p.11), possibilitam a criação de espaços menos hierárquicos de circulação de informações, podendo fazer de cada usuário um potencial crítico ou mediador da informação. Ocorre, na visão de Almeida Júnior (2009, p.97), uma mutação do perfil do usuário, que passou de um mero receptor a um construtor, um coprodutor da informação. Nesse aspecto, os usuários utilizam as mídias e redes sociais como espaço para compartilhar informações, interesses e conhecimentos comuns. A linguagem utilizada nesses novos meios é mais próxima da realidade de seus usuários, pois não precisam necessariamente de intermediários ou mediadores, permitindo uma comunicação direta entre estes. Devido à crescente utilização das mídias sociais como forma de comunicação e interação, diversas empresas no Brasil, à procura de formas para aprimorar sua estrutura informacional como base para satisfazer as necessidades dos usuários, consideram essas mídias como uma importante ferramenta de estratégia empresarial. Este artigo tem como objetivo estudar os conceitos sobre mediação da informação em mídias sociais para um contexto organizacional.

2 INFORMAÇÃO EM REDE NAS ORGANIZAÇÕES De acordo com levantamento realizado pelo SEBRAE (2013), tomando como base as empresas brasileiras constituídas no ano de 2007 e as informações sobre essas empresas disponibilizadas pela Secretaria da Receita Federal (SRF) até 2010, de cada cem empresas abertas no Brasil, 24 encerraram suas atividades em dois anos de atividade. Na contramão desses dados, mesmo diante de um contexto em que os produtos e serviços estão cada vez mais padronizados e homogêneos e em tempos de competitividade acirrada, há empresas que estão em atividade há mais de um século e continuam prosperando década após década. Segundo Choo (2011, 71


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p.18), “[...] essas organizações sobrevivem não apenas graças a seu tamanho ou sua boa sorte. Muitas delas demonstraram capacidade de se adaptar às constantes mudanças, de inovar continuamente e de tomar decisões que as levam em direção a seus objetivos”. Na Era da Informação (CASTELLS, 2012), as empresas que detêm essa capacidade organizacional são consideradas Organização do Conhecimento, “[...] pois possuem informações e conhecimentos que lhes conferem uma vantagem, permitindo-lhes agir com inteligência, criatividade e, ocasionalmente, com esperteza”. (CHOO, 2011, p.18). Estão preparadas “[...] para sustentar seu crescimento e se desenvolver num ambiente dinâmico”, são capazes de se “[...] preparar para a adaptação com antecedência” e são “[...] capazes de constante aprendizado e inovação”, pois “[...] no coração da organização do conhecimento está a administração dos processos de informação, que constituem a base para criar significado, construir conhecimento e tomar decisões” (CHOO, 2011, p.18). São, segundo Castells (2012, p.221), empresas que mudaram seu modelo organizacional para se adaptar às condições de imprevisibilidade introduzidas pela rápida transformação econômica e tecnológica, sendo a principal alteração caracterizada pela mudança de burocracias verticais para a empresa horizontal. A empresa horizontal “[...] é uma rede dinâmica e estrategicamente planejada de unidades autoprogramadas e autocomandadas com base na descentralização, participação e coordenação” (CASTELLS, 2012, p.223). Nesse tipo de empresa, “[...] as informações circulam pelas redes: redes entre empresas, redes dentro de empresas, redes pessoais e redes de computadores. As novas tecnologias de informação são decisivas para que esse modelo flexível e adaptável realmente funcione” (CASTELLS, 2012, p.222-223). A Internet é um meio de comunicação interativo da Comunicação Mediada pelo Computador (CMC) (CASTELLS, 2012) e antes de apresentar definições sobre as redes e mídias sociais, cabe fazer um breve relato sobre a história e desenvolvimento da Internet, tecnologia que permite a interação entre a empresa e seus clientes em ambiente virtual.

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3 INTERNET A Internet surgiu na Década de 60 a partir de estudos militares de uma das mais inovadoras instituições de pesquisa do mundo: a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (ARPA) do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, cujo objetivo era: [...] criar um sistema de comunicação invulnerável a ataques nucleares. Com base na tecnologia de comunicação da troca de pacotes, o sistema tornava a rede independente de centros de comando e controle, para que a mensagem procurasse suas próprias rotas ao longo da rede, sendo remontada para voltar a ter sentido coerente em qualquer ponto da rede (CASTELLS, 2012, p.82).

Depois de mais de vinte anos de serviços, tendo-se tornado tecnologicamente obsoleta, em 28 de fevereiro de 1990, a ARPANET encerrou suas atividades. E, com as pressões comerciais, o crescimento de redes de empresas privadas e de redes cooperativas sem fins lucrativos, com a privatização na década de 90, em que deixou de contar com autoridades supervisoras, ocorreu a explosão e popularização da Internet, que se transformou em uma rede em que organizações e indivíduos passaram a produzir e a divulgar informações de acordo com seus interesses. (CASTELLS, 2012, p.83-92). Inicialmente, a Internet tinha uma característica limitada e com baixa interatividade (WEB 1.0), mas essencial para transmitir informações, configurando-se como uma forma inovadora de comunicação tecnológica (CASTELLS, 2012, 88). No modelo de WEB 2.0 ocorreu um aumento significativo do grau de interatividade entre os usuários, uma vez que esses passaram a atuar ativamente do processo de produção da informação, isso porque, conforme Briggs (2007, p.28), “[...] os editores da web estão criando plataformas ao invés de conteúdo e os usuários é que estão criando conteúdo”, principalmente nas redes e mídias sociais.

4 REDES E MÍDIAS SOCIAIS No entendimento de Castells (2012, p.566): Rede é um conjunto de nós interconectados. Nó é ponto no qual uma curva se entrecorta. Concretamente, o que um nó é depende do tipo de redes concretas de que falamos. [...] Redes são estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada, integrando novos nós desde que consigam comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmos códigos de comunicação [...].

Assim, “[...] uma estrutura social com base em redes é um sistema aberto altamente dinâmico suscetível de inovação sem ameaças ao seu equilíbrio”, em que 73


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“[...] os conectores são os detentores do poder”. Portanto, “[...] as conexões entre redes tornam-se fontes fundamentais da formação, orientação e desorientação das sociedades” (CASTELLS, 2012, p.566-567). Para Marteleto (2001, p.72), a rede social é um “[...] conjunto de participantes autônomos,

unindo ideias

e

recursos

em

torno

de

valores

e

interesses

compartilhados”. Há quem pense, segundo Cruz (2010, p.255), que sites como Twitter e Facebook são redes sociais. Na verdade, esses sites são espaços virtuais ou mídias sociais para a formação e exibição de redes sociais virtuais. São meios utilizados por grupos de usuários para prover a necessidade humana de interação uns com os outros. Dessa forma, a rede social virtual na Internet é possibilitada, segundo Tomaél et al. (2005, p.95), por um: Software social que, com uma interface amigável, integra recursos além dos da tecnologia da informação. O uso desses recursos gera uma rede em que os membros convidam seus amigos, conhecidos, sócios, clientes, fornecedores e outras pessoas de seus contatos para participar de sua rede, desenvolvendo uma rede de contatos profissional e pessoal, que certamente terá pontos de contatos com outras redes. Enfim, são ambientes que possibilitam a formação de grupos de interesses que interagem por meio de relacionamentos comuns.

A crescente utilização dessas redes e mídias sociais como forma de comunicação e interação levou diversas empresas no Brasil a considerarem-nas como uma importante ferramenta de estratégia empresarial, pois “[...] a nova economia está organizada em torno de redes globais de capital, gerenciamento e informação cujo acesso a know-how tecnológico é importantíssimo para a produtividade e competitividade” (CASTELLS, 2012, p.567). Para Shintaku et al. (2014), “[...] pela grande disponibilidade, diversidade de tipos de alcance, as mídias sociais têm um papel importante para as organizações como meio de divulgação de produtos e serviços”. Um diferencial importante é que a linguagem utilizada nesses novos meios é mais próxima da realidade de seus usuários, pois não precisam necessariamente de intermediários ou mediadores, permitindo uma comunicação direta entre estes. Contudo, para ser eficiente, um diferencial positivo e capaz de proporcionar vantagem competitiva em relação aos seus concorrentes, essas tecnologias da informação e formas de comunicação devem estar estritamente delineadas nas 74


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estratégias da organização, ou seja, conforme Lopes citando Kassel (2013), as empresas devem perceber o rumo das novas tendências de tecnologia para adaptarem suas estratégias de produção e comunicação a ela. Na visão de Miller (2007) e Curtis (2006), o monitoramento das redes e mídias sociais permitem às empresas identificar os assuntos em discussão, podendo, inclusive promover suas marcas, produtos ou serviços, que passarão a ganhar notoriedade na rede. Assim, os usuários desses novos meios passam a ter acesso à informação diretamente do produtor, podendo, inclusive, interagir com este no caso de necessitar esclarecer algum ponto em discussão (KASSEL apud LOPES, 2013). Nesse processo de interação direta entre organização-cliente, entender o processo de mediação da informação pode ser fundamental para o estabelecimento de um fluxo de informação convergente.

5 MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO A mediação da informação pode ser entendida na visão de Almeida Júnior (2015, p.25) como: Toda ação de interferência – realizada em um processo por um profissional da informação e na ambiência de equipamentos informacionais -, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; visando a apropriação de informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais.

Caso a informação selecionada pelo sujeito receptor atenda sua necessidade informacional, pode-se considerar que houve um processo de convergência, isto é, o seu conteúdo foi válido. Conforme Araújo (2001), “[...] tal reconhecimento se dá a partir de uma mediação entre o acervo social do conhecimento desse sujeito, a realidade/situação vivenciada, onde ele pretende utilizar tal informação e a informação recebida”. Por outro lado, quando há conflitos no processo de recepção da informação, esta poderá ser recusada por parte do sujeito receptor, constituindo-se barreiras. Houve, portanto, uma divergência e o: [...] sujeito receptor também consulta seu acervo social do conhecimento e estabelece uma mediação entre este e a situação vivida em que se pretende utilizar a informação em questão. Nesse caso não se dá uma mediação positiva entre os elementos (ARAÚJO, 2001).

As Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC), segundo Almeida e Crippa (2009, p.11), possibilitam a criação de espaços menos hierárquicos de 75


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circulação de informações, podendo fazer de cada usuário um potencial crítico ou mediador da informação. Ocorre, na visão de Almeida Júnior (2009, p. 97), uma mutação do perfil do usuário, que passou de um mero receptor a um construtor, um coprodutor da informação. Segundo Barreto (1997), o usuários das redes sociais tornam-se o próprio mediador na escolha da informação, visando à satisfação de suas necessidades informacionais, como se estivesse dentro do sistema de informação. No ciberespaço, segundo Recuero (2009), as interações se dão totalmente mediadas pelo computador, sendo influenciadas e limitadas pelas possibilidade de comunicação das ferramentas utilizadas pelo autores. Segundo Tomael et al. (2005, p.95): Essas conexões e interações no âmbito das redes sociais ocorrem pelo contato direto (face a face) e pelo contato indireto – utilizando-se um veículo mediador, como a Internet, o telefone, ou outro meio. Enfim, podemos dizer que redes sociais envolvem um conjunto de atores que mantêm ligações entre si.

Por isso, conforme destaca Lopes, Valentim e Almeida Júnior (2011, p.83): [...] é importante destacar que a mediação da informação não deve ser vista apenas como um serviço aos usuários da informação, mas também como um processo que envolve o desempenho do profissional da informação concedendo-lhe um papel estratégico nessa relação com os usuários.

Dessa forma, é possível considerar que os profissionais de uma organização que interagem com os seus clientes visando fornecer-lhes as informações requeridas, atuam como profissionais da informação, “[...] podendo ser considerados agentes mediadores da produção do conhecimento” (LOPES; VALENTIM; ALMEIDA JR., 2011, p.83). Ainda segundo estes autores “[...] o processo de construção de conhecimento desses indivíduos depende fundamentalmente das ações que as empresas, enquanto emissoras, tomam em relação à informação”. Por isso, por exemplo, o cliente poderá decidir por adquirir o produto de determinada organização ou contratação de um serviço com base nas informações fornecidas pelos agentes mediadores.

6 METODOLOGIA Utilizando-se a Tabela Nacional de Áreas de Conhecimento, elaborada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), esta pesquisa pode ser classificada na área de Ciências Sociais Aplicadas, subárea Ciência da Informação. 76


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Utilizou-se a pesquisa bibliográfica para elaborar uma breve revisão da literatura sobre conceitos de redes e mídias sociais, mediação da informação, organização do conhecimento, Internet, dentre outros temas pertinentes ao campo de atuação desta pesquisa. Pretendeu-se fazer uma reflexão sobre a contribuição do processo de mediação da informação nas mídias e redes sociais em contexto organizacional.

7 DISCUSSÕES Como forma de refletir a atuação do profissional da informação no âmbito das mídias sociais, será apresentado primeiramente a contextualização da tendência de virtualização dos relacionamentos entre empresa-cliente, a título de exemplo, ver-se-á o caso das Instituições Financeiras e seus clientes, para depois tentar trazer um exemplo efetivo desta atuação. O crescimento da população brasileira com acesso à Internet foi de aproximadamente 68% de 2008 a 2012, saltando de 55,9 para 94,2 milhões de usuários da Internet. Os canais de Internet Banking registraram crescimento linear, mas vigoroso, o volume de transações em Internet Banking aumentou 23,7% ao ano, representando 39% do total de transações, indicando uma maior inclusão digital da população e, portanto, uma mudança no comportamento dos usuários do setor bancário com um perfil mais ‘virtual’ para a realização de transações financeiras. (FEBRABAN, 2013). A facilidade de uso dos meios digitais, associado ao perfil dos usuários, levou a sociedade a ter um comportamento virtualizado. Em 2012, por exemplo, as transações realizadas pelos meios virtuais (Internet Banking e Mobile Banking) atingiram 42%, ultrapassando as realizadas pelos meios tradicionais (agências, Contact Center e Terminais de Autoatendimento (TAA)), que foi de 41%, o restante, 17%, foi realizado nos terminais de cartões (POS) e correspondentes bancários. Assim, as agências tiveram o menor crescimento do número de transações, com 3% ao ano, perdendo participação de 18% para 11% no volume total de transações desde 2008. (FEBRABAN, 2013). Por outro lado, as transações financeiras mais complexas, como, por exemplo, a abertura de contas e a contratação de créditos ainda necessitaram de uma atuação presencial, pois estão atreladas a questões legais e/ou regulatórias. Entretanto, a 77


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participação de contratações de crédito não-presenciais vem aumentando ao longo dos últimos 5 anos. Em 2008, 15,8% dos créditos contratados foram não-presenciais e 84,2% presenciais, em 2012, 22% foi não-presencial e 78% presencial. (FEBRABAN, 2013). Considerando que a maioria das transações realizadas nas Instituições Financeiras são realizadas por meio de canais virtuais, 42%, essas organizações precisam, além de delinear estratégias para a retenção e fidelização de seus clientes por meio destes canais, preparar os seus profissionais para o atendimento das necessidades de seus clientes por esses canais. Conhecer os mecanismos de relacionamento por mídias sociais poderá ser essencial para o relacionamento com seus clientes, já que atualmente, por exemplo, o Facebook, possui 89 milhões de usuários ativos por mês só no Brasil e o Twitter, 37 milhões, o que corresponde respectivamente a 43% e 18% da população brasileira. O profissional da informação de uma organização, no âmbito da relação empresa-cliente, atuará no sentido de tentar suprir as necessidades informacionais de seus clientes. No que se refere à informação registrada, esse profissional tratará de informações constantes de documentos, relatórios, registros, análises da empresa sobre o assunto, suportes informacionais, sistemas de informação, dentre outros. Já com a informação não registrada, o agente mediador tratará das informações obtidas de contatos telefônicos não gravados, encontros presenciais, entre outros (LOPES, VALENTIM, ALMEIDA JR., 2011, p.83). No caso de uma atuação no atendimento aos usuários das redes e mídias sociais, o agente mediador, no âmbito da mediação implícita, em que as ações são desenvolvidas sem a presença física e imediata do usuários, atua na seleção, armazenamento e processamento da informação, para, na mediação explícita, em que a presença do usuário é inevitável, ainda que não física, virtual, por exemplo, o agente mediador atua na disseminação da informação. (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.92-93). Exemplificando, caso um cliente insatisfeito com um produto ou atendimento por uma Instituição registre uma queixa por meio da página do Facebook daquela Instituição, o agente mediador analisará o conteúdo daquela postagem e encaminhará para o setor competente dar atendimento àquela demanda para 78


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posteriormente fornecer a informação requerida pelo cliente. Ou, caso o cliente, por meio do Twitter requeira informações detalhadas sobre determinado produto, o agente mediador encaminhará a demanda para o setor pertinente, que reunirá as informações necessárias para a satisfação das necessidades informacionais daquele cliente.

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao desenvolver esta pesquisa buscou-se atingir os objetivos de qualquer pesquisador, que, ao refletir sobre o tema proposto, almeja encontrar respostas às interrogações suscitadas. Esta pesquisa, portanto, ao refletir sobre o processo de mediação da informação em mídias sociais teve como objetivo contribuir para o entendimento deste processo, ainda que com reflexões ainda embrionárias, visto que a comunicação mediada pela Internet é um fenômeno social recente demais para que a pesquisa acadêmica tenha tido a oportunidade de chegar a conclusões sólidas sobre o seu significado social. Para as organizações pretendeu-se contribuir para uma reflexão de seus processos de mediação das informações obtidas nas mídias sociais (Facebook e Twitter), podendo agregar à Organização insumos estratégicos que permitam conferirlhe vantagem competitiva em tempos de produtos e serviços padronizados e competitividade acirrada.

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6 ANÁLISE DA INTER-RELAÇÃO DA CULTURA E DA COMPETÊNCIA EM ORGANIZAÇÕES COMPETITIVAS

Cássia Dias Santos cassiadisantos@gmail.com Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp). Juliete Susann Ferreira de Souza jubsusann@gmail.com Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp). Marta Lígia Pomim Valentim valentim@marilia.unesp.br Docente Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Resumo: O contexto organizacional contemporâneo exige dos sujeitos organizacionais comportamentos voltados à criação e ao compartilhamento de informação e conhecimento. Partindo-se da ideia de que a competitividade entre as organizações requer informações advindas tanto do ambiente interno quanto externo, cuja finalidade é acompanhar as mudanças advindas de cenários futuros, bem como responder as novas demandas que surjam, faz-se necessário valorá-las de maneira a transformá-las em insumo para a geração de diferenciais competitivos. Essa dinâmica associada a gestão da informação e do conhecimento, propicia que as organizações se mantenham competitivas no mercado em que atuam. Nesse contexto, a cultura organizacional merece destaque, pois se constitui em um fator determinante para a geração, apropriação, compartilhamento e uso de informação e conhecimento em ambientes organizacionais, ou seja, a cultura organizacional influi decisivamente na percepção dos sujeitos organizacionais, no que tange as ações e comportamentos voltados à informação e ao conhecimento, porquanto os valores, crenças, ritos, mitos, normas e artefatos, disseminam o que se considera relevante no ambiente organizacional. Destaca-se que, como reflexo da cultura organizacional, o comportamento informacional envolve a relação intencional ou não intencional do sujeito organizacional com a informação e o conhecimento que, por sua vez, pode ser implícita ou explícita no ambiente organizacional. Se por um lado, há a necessidade de se trabalhar adequadamente as dimensões relativas ao comportamento informacional, por outro lado é preciso identificar as competências que intensificam a geração, apropriação, compartilhamento e uso da informação, tanto individualmente quanto coletivamente, no cotidiano de uma organização. Evidenciase, assim, que os indivíduos competentes em informação são aqueles que sabem acessar, perceber, recuperar, apropriar e usar a informação de maneira que haja um reflexo no coletivo organizacional. Diante do contextualizado, a pesquisa apresentada objetiva apresentar a análise da inter-relação entre a cultura organizacional e a competência em informação em organizações competitivas. Parte-se do pressuposto de que organizações competitivas dependem da cultura organizacional e da competência em informação, para que os sujeitos organizacionais possam de fato desenvolver seus processos estratégicos. Esta discussão é relevante, uma vez que o impacto do comportamento e da competência em informação é real no que tange a geração de diferenciais competitivos. As ações estratégicas dependem de uma mudança de paradigma em relação a valorização da informação e do conhecimento

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que, por sua vez, são essenciais para as organizações alcançarem eficiência em mercados cada vez mais competitivos. A partir de tais reflexões este trabalho faz um resgate teórico enfocando o contexto da cultura organizacional como fator determinante para o desenvolvimento do comportamento informacional e da competência em informação dos sujeitos organizacionais, estabelecendo a relação e a influência destes no processo de inteligência organizacional. Palavras-Chave: Cultura Organizacional; Gestão da Informação; Gestão do Conhecimento; Comportamento Informacional; Competência em Informação; Inteligência Organizacional.

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1 INTRODUÇÃO Este trabalho apresenta algumas reflexões acerca da pretensa importância de se estabelecer uma análise da inter-relação entre a cultura organizacional e a competência em informação em organizações competitivas. Parte-se do pressuposto de que organizações competitivas dependem da cultura organizacional para que os sujeitos organizacionais possam de fato desenvolver competências específicas relacionadas ao próprio trabalho e, consequentemente, aprender a lidar de uma maneira mais eficiente com a massa informacional que recai no ambiente empresarial a todo instante. Devido as transformações ocorridas na economia e na sociedade, as organizações passaram a perceber a informação e o conhecimento como fontes fundamentais para sustentar sua vantagem competitiva. Contudo, estratégias voltadas aos processos de gestão da informação e do conhecimento têm demandado às organizações certo discernimento quanto aos aspectos relativos à cultura e às competências necessárias para manter a competitividade no mercado em que atuam. Assim, ter a percepção da importância da cultura organizacional no desenvolvimento das competências em informação, é pensar e agir estrategicamente, tomando decisões mais precisas num mercado em constante mudança. Porquanto, entender este cenário, torna-se importante devido às profundas mudanças e instabilidades que permeiam e influenciam os ambientes organizacionais. Diante de tais evidencias, questiona-se: De que maneira a cultura organizacional pode ser utilizada para a geração de vantagem competitiva? Qual a importância das competências em informação no âmbito da cultura organizacional para a obtenção de vantagem competitiva? A justificativa para tal estudo, a priori, refere-se a ênfase dada as competências em informação nos últimos anos e, como ressalta Chiavenato (2010), esta prática ocorre por causa da mudança de paradigma que rege a própria gestão. Um exemplo dessas alterações diz respeito à própria postura em relação a informação no cotidiano desses ambientes, bem como aos novos requisitos de qualificação exigidos no que tange ao acesso e uso eficiente da informação para a construção de conhecimento organizacional. Por meio de tais percepções este trabalho realiza um resgate teórico enfocando o contexto da cultura organizacional como uma maneira de situar o leitor 85


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na discussão ora empreendida. Em seguida, trata da gestão da informação e da gestão do conhecimento, bem como do comportamento e das competências em informação como elementos essenciais para o processo de inteligência organizacional e, por fim, demonstra a importância e a influência que esses elementos possuem para o processo de geração de vantagem competitiva.

2 CULTURA ORGANIZACIONAL Nos estudos organizacionais, a relevância da cultura é amplamente reconhecida, especialmente por estar estreitamente relacionada aos objetivos e as estratégias organizacionais. Diante da crescente percepção a respeito da influência que a cultura possui, seja positivamente ou negativamente, a temática vem se enriquecendo a partir das múltiplas abordagens desenvolvidas e refletidas na literatura sob os mais diversos enfoques aplicados ao contexto das organizações. Em uma primeira perspectiva, a cultura organizacional consiste em um conjunto de pressupostos que orienta as formas convencionadas de se comportar dos indivíduos e justificam a realidade de um determinado ambiente. Schein (2001) compreende que a cultura é produto de valores e crenças socialmente compartilhados por um grupo, geralmente expressos nas estruturas, processos e atividades de uma organização. O mesmo autor destaca que para compreender a cultura é necessário investigá-la desde os aspectos que são facilmente identificáveis até as certezas que estão em um nível mais profundo. Ao se falar em cultura, na verdade, está sendo feita uma referência ao processo de construção da realidade que permite as pessoas ver e compreender eventos, ações, expressões e situações particulares de distintas maneiras. Esses padrões de compreensão também oferecem as bases que tornam o comportamento de alguém sensível e significativo (MORGAN, 2010, p.132).

Uma organização é permeada por um sistema simbólico constituído de valores, crenças, normas, ritos, mitos, entre outros, que são interpretados e incorporados pelos indivíduos a partir da realidade do ambiente e, por conseguinte, influem na relação mantida entre eles, bem como nas questões relativas à organização. Para Dias (2013) a cultura organizacional possui algumas funções básicas, dentre as quais: a) transmitir de um senso de identidade; b) facilitar comprometimento dos indivíduos com a organização; c) fornecer um sistema social estável; d) possuir um conjunto de normas aceito e partilhado por todos. Observa-se que o fator humano 86


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é o cerne para entendimento sobre como a cultura influi na maneira como certos padrões comportamentais estão representados nas organizações. Outro aspecto a ser considerado diz respeito a relação estreita da cultura com as estratégias planejadas de gestão. Isso significa que qualquer planejamento estratégico deve ir ao encontro da cultura, tendo assim uma clara noção dos seus pontos positivos e negativos, de modo que o estabelecimento de estratégias estejam de acordo com a realidade e as necessidades da organização (DIAS, 2013). Pondera-se que a forte influência que a cultura exerce sobre uma organização lhe atribui um papel de destaque, uma vez que a base de qualquer gestão efetiva, requer considerar os valores culturais que perfaz as ações neste tipo de ambiente, seja para lidar com questões mais amplas, seja para lidar com questões específicas, como o trabalho com a informação e o conhecimento.

3 GESTÃO DA INFORMAÇÃO Na sociedade contemporânea o que subsidia a maior parte dos processos gerenciais são as informações advindas tanto do seu próprio ambiente interno, quanto do ambiente externo a ela. É a informação que subsidiará a tomada de decisão em todos os níveis: estratégico, tático e operacional, proporcionando a criação de vantagem competitiva. Nesse sentido, Valentim et al. (2008, p.187) ressaltam que: [...] gerenciar informações requer, primeiramente uma cultura voltada à informação, uma administração participativa e, também, o comprometimento de cada indivíduo no processo. Além disso, o compartilhamento de ações e responsabilidades fará com que esse gerenciamento aconteça de forma eficiente e eficaz.

O ponto de partida para a gestão da informação se inicia com as demandas informacionais, e os processos de atendimento a essas demandas envolvem o estudo dos ambientes e fluxos informacionais, bem como a identificação das características da informação e do conhecimento gerado na organização. O processo de agregação de valor às informações inclui desde a prospecção, filtragem, análise, interpretação, representação, armazenagem, acesso e busca, de acordo com os sistemas, canais e suportes tecnológicos (MARCHIORI, 2002, p.74-75). Dessa maneira, a gestão da informação pode ser entendida como [...] um conjunto de ações que visa desde a identificação das necessidades informacionais, o mapeamento dos fluxos formais [conhecimento explícito] de informações nos diferentes ambientes da organização, até a coleta, filtragem, análise, organização, armazenagem e disseminação, objetivando apoiar o

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

desenvolvimento das atividades cotidianas e a tomada de decisão no ambiente (VALENTIM et al., 2008, p.187).

Percebe-se que o cerne do trabalho da gestão da informação reside em processos que abrangem desde a identificação até potencialização de recursos informacionais que a organização possui, visando contribuir com a adaptação às complexidades e as incertezas do ambiente em que está inserida. As organizações que querem aplicar a gestão da informação precisam perceber a necessidade de investirem em informação e planejarem suas ações organizacionais, de maneira que esse processo possa atribuir relevância às informações e, assim, possam de fato satisfazer as necessidades informacionais de seus sujeitos organizacionais. Além da percepção dos fluxos formais, é também necessário considerar o planejamento de ações voltadas aos fluxos informais, isto é, aplicar a gestão do conhecimento, cujo enfoque centra-se no conhecimento gerado pelos sujeitos organizacionais.

4 GESTÃO DO CONHECIMENTO As

organizações

constroem

conhecimento

por

meio

dos

sujeitos

organizacionais e o utiliza para tornarem-se mais competitivas no mercado em que atuam. Para tanto, o conhecimento deve ser gerenciado eficientemente, objetivando promover a redução de custo, visando melhorar o atendimento aos clientes e, assim, tornando a organização mais inovadora frente a concorrência. A gestão do conhecimento pode ser definida como: [...] um conjunto de processos que governa a aquisição, a criação, o compartilhamento, o armazenamento e a utilização de conhecimento no âmbito das organizações. Uma organização do conhecimento é aquela em que o repertório de saberes individuais e dos socialmente compartilhados pelo grupo é tratado como um ativo valioso, capaz de entender e vencer as contingências ambientais. Nessa organização se observa uma forte ênfase na criação de condições ambientais, sociais e tecnológicos que viabilizem a geração, a disponibilização e a internalização de conhecimentos por parte dos indivíduos, com o propósito de subsidiar a tomada de decisão (ANGELONI, 2008, p.2).

Para que haja uma gestão do conhecimento efetiva e que realmente possa contribuir para a melhoria do desempenho da organização, é fundamental que todos os sujeitos organizacionais estejam comprometidos com seus processos, uma vez que são eles que geram diferenciais competitivos mediante o compartilhamento de informação e conhecimento. Nessa perspectiva, destaca-se a inter-relação entre a 88


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

competência em informação e a geração de conhecimento, no que tange as experiências vivenciadas pelos sujeitos organizacionais no ambiente da organização. As competências envolvem desde a percepção, o acesso, interpretação, apropriação e uso da informação, com o objetivo de se antecipar aos problemas, respondendo de maneira eficiente a um ambiente em constante transformação. Através destas constatações,

surge

a

necessidade

de

se

compreender

e

desenvolver

comportamentos e competências em informação como auxiliadores desse novo cenário caracterizado por constantes mudanças. No entanto, para que isso ocorra de maneira eficiente é fundamental a criação de um ambiente propício, qual seja, uma cultura de aprendizagem; fator que exige uma mudança de visão por parte dos líderes e, também, dos liderados, porquanto devem passar a enxergar a organização de uma maneira diferente, ou seja, como estruturas de conhecimento e não somente de capital (INAZAWA, 2009, p.209 apud SOUZA; DIAS; NASSIF, 2011, p.63). Nessa perspectiva, a gestão do conhecimento passa a ser compreendida como necessário ao ambiente organizacional, a partir do momento em que as pessoas percebem o real valor desse processo para a geração de diferenciais competitivos, tornando-se, assim, uma prática profissional natural entre os sujeitos organizacionais. Assim, torna-se indispensáveis os processos que transformam parte do conhecimento tácito dos sujeitos organizacionais em conhecimento explícito e, portanto, passível de ser acessado pelo coletivo da organização. Preservar o conhecimento e retê-lo para sua posterior utilização, torna-se de extrema importância para as organizações que querem inovar constantemente e se manter no mercado em que atuam.

5 COMPORTAMENTO INFORMACIONAL Conforme mencionado anteriormente, a informação é amplamente reconhecida como insumo essencial para a sobrevivência das organizações, uma vez que esse elemento permeia os seus fazeres. Devido a essa aderencia, os sujeitos organizacionais a partir de diversos estímulos do ambiente incorporam diferentes graus de relação com a informação, isto é, desenvolvem um comportamento informacional determinado de acordo com um contexto particular. Por comportamento informacional Wilson (2000, p.49, tradução nossa) compreende como: 89


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[...] a totalidade do comportamento humano em relação às fontes e canais de informação, incluindo a busca de informação ativa e passiva, além do uso da informação. [...] inclui a comunicação face a face com outras fontes e canais de informação, como também a recepção passiva de informação como, por exemplo, assistir a anúncios de televisão, sem qualquer intenção para agir na informação dada (WILSON, 2000, p.49, tradução nossa)

Tal visão demonstra uma concepção ampla em relação ao comportamento informacional, ao considerar que a relação do indivíduo com a informação pode acontecer por meio das fontes formais e informais, de forma intencional ou involuntátia, ser implícita ou explícita. Beal (2004, p.45) acredita que o comportamento informacional referente ao modo como os indivíduos buscam, usam, alteram, trocam, acumulam e ignoram informação está estritamente relacionado, em termos de qualidade, ao fluxo informacional existente nas organizações. Refletindo no contexto de uso da informação, Choo (2006) compreende que o ambiente de informação e o comportamento informacional são constituídos simutaneamente: se por um lado o ambiente de informação é insumo para o comportamento informacional, por outro este último é produto do primeiro. O supracitado autor, ainda, afirma que o comportamento informacional está relacionado as práticas que envolvem desde uma necessidade até o uso de informação. De acordo com Woida e Valentim (2008, p.95-96): [...] o comportamento informacional é resultado da incorporação e da prática de elementos e processo da cultura informacional existente na organização que valoriza a informação, bem como propicia que esse valor seja transformado em ações de busca, captura, aquisição compartilhamento e uso para a tomada de decisão.

Desse modo, como os indivíduos se relacionam com a informação é constantemente influenciado por uma determinada cultura, pois como explica Davenport e Prusak (1998, p.110) “[...] o padrão de comportamentos e atitudes que expressam a orientação informacional de uma empresa”. Evidencia-se a relevância de se ter uma cultura organizacional voltada ao comportamento positivo dos indivíduos em relação à informação, cujo fator propicia processos efetivos de apropriação, compartilhamento, construção e uso de conhecimento. Ademais, a partir do comportamento informacional também se pode visionar questões relativas as competências em informação adquiridas pelos sujeitos organizacionais, visto que esse entendimento é considerado como fator essencial para aplicabilidade de ações mais efetivas em ambientes competitivos.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

6 COMPETÊNCIA EM INFORMAÇÃO Para os autores Belluzzo e Kerbauy (2004, p.87), competência em informação é o “[...] conjunto de comportamentos, habilidades e ações que envolvem o acesso e uso da informação de forma inteligente, tendo em vista a necessidade da construção do conhecimento e a intervenção na realidade social”. Evidencia-se que esse conceito enfoca a capacidade do sujeito, no que tange a formação do seu intelecto profissional, mostrando por meio disso, a relevância de se compreender mais profundamente o termo apresentado neste trabalho sobre o aspecto organizacional. Nota-se que ocorreu um aumento exponencial de estudos relacionados à competência em informação dentro de contextos organizacionais, fato este que tem exigido diversas adaptações dos distintos níveis hierárquicos e funcionais à incorporação de instrumentos e técnicas voltadas ao comportamento e às competências

necessários

às mudanças

ocorridas no

mercado

competitivo

(BELLUZZO, 2010, p.24). Tal aspecto se iniciou a partir dos anos noventa, com as diversas modificações que ocorreram no mundo do trabalho e das corporações que, por sua vez, proporcionaram o equilibrio entre a gestão das qualificações e o reconhecimento das competências. Desse modo, teve início a procura de métodos para as primeiras pesquisas na área de competência (FARIAS; BELLUZZO, 2012, p.93). Fleury e Fleury (2004, p.30) compreendem competência como um processo de “[...] saber agir responsável e reconhecido, que implica mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, recursos, habilidades, que agreguem valor econômico à organização e valor social ao indivíduo”. Afirma que a pessoa competente é àquela que sabe responder a todas as exigências impostas por uma situação na qual está inserida, em função dos objetivos que foram lhe destinados, ou seja, ser competente, nada mais é do que a capacidade de lidar com as incertezas, potencializando dessa maneira, todo o conhecimento contruído, de modo a tomar decisões mais assertivas. A primeira e mais disseminada definição sobre competência em informação foi cunhada pela American Library Association (ALA), em 1989, segundo a qual: [...] para ser competente em informação, uma pessoa deve ser capaz de reconhecer quando a informação é necessária e ter a habilidade para localizar, avaliar e usar efetivamente a informação [...] Pessoas competentes informacionais são aqueles que aprenderam a aprender (ALA, 1989, p.01, tradução nossa).

Sobre esta mesma perspectiva, Belluzzo (2010, p.38) afirma que: 91


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[...] a competência em informação constitui-se em processo contínuo de interação e internalização de fundamentos conceituais, atitudinais e de habilidades específicas como referenciais à compreensão da informação e de sua abrangência, em busca da fluência e das capacidades necessárias à geração do conhecimento novo e sua aplicabilidade ao cotidiano das pessoas e das comunidades ao longo da vida.

Assim, pode-se afirmar que competência em informação é um processo que necessita que os sujeitos organizacionais, bem como o próprio gestor principal, estejam empenhados para o desenvolvimento de habilidades e aptidões, por meio dos processos de construção de conhecimento individual e coletivo, visando a aprendizagem significativa. Nessa perspectiva, a adoção de um comportamento informacional torna-se essencial e de extrema importância, visando identificar mediante qualquer canal ou meio, as informações relevantes, que possam sanar ou amenizar as necessidades dos sujeitos que compõem o ambiente organizacional. De acordo com a ALA (1989, p.01), os “[...] requisitos básicos para o indivíduo ser competente em informação são: saber buscar, avaliar, filtrar e usar a informação quando necessária”. Desse modo, uma pessoa deve ser capaz, primeiramente, de reconhecer quando uma informação é necessária e deve ter a habilidade de localizar, avaliar, e usar efetivamente a informação. Destaca-se que as pessoas competentes em informação, são as que aprendem a aprender. Elas sabem como aprender, pois sabem como a informação é organizada, como encontrá-la e como usar a informação de modo que outras pessoas aprendam a partir dela (FARIAS; BELLUZZO, 2012, p.100). Nesse sentido, pode-se inferir que a competência em informação perpassa os processos de negócios, processos gerenciais e processos técnicos diversos, bem como diferentes níveis organizacionais, a fim de subsidiar a tomada de decisão, tendo um impacto posterior para a geração de diferenciais competitivos.

7 INTELIGÊNCIA ORGANIZACIONAL Para uma organização obter as informações necessárias, destaca-se a dinâmica do ciclo da inteligência, entendida aqui como um processo de transformação da informação bruta, isto é, informação sem valor agregado, em informação estratégica para a organização, isto é, informação com valor agregado. Para isso, a organização deve estar atenta tanto ao ambiente interno, quanto ao ambiente externo, pois ambos os ambientes influenciam fortemente todas as atividades e tarefas desempenhadas dentro da organização. Dessa forma, conhecer 92


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

de maneira consistente esses dois ambientes faz com que as organizações sejam mais seguras e aptas para tomar decisões em relação às atividades cotidianas, uma vez que a inteligência organizacional procura diminuir as incertezas sobre o ambiente no qual a organização está inserida. Assim, entende-se inteligência organizacional como sendo: [...] o processo de coleta, análise e disseminação éticas de inteligência acurada, relevante, específica, atualizada, visionária e viável com relação às implicações do ambiente dos negócios, dos concorrentes e da organização em si (SCIP apud MILLER, 2002, p. 35).

Acredita-se que a inteligência organizacional é um processo cíclico que procura diminuir as incertezas do ambiente interno, identificando os pontos fortes e fracos da organização, tornando-a mais preparada para a realização dos processos e atividades desempenhados. Assim, os elementos-chave considerados por Kahaner (1997, p.43) como os de maior importância para a obtenção de vantagem competitiva, são: a) Planejamento e direção: este é o passo que a administração se envolve e decide o que vai querer como inteligência para o cumprimento da sua tarefa; b) Coleção: esta fase envolve a coleta de informações na qual a inteligência será produzida. A maioria dos materiais de coleta é de domínio público e podem ser encontrados de forma legal; c) Análise: é considerada a maior dificuldade do ciclo, pois requer habilidade e competências por parte dos analistas para pesar os tipos de informações que tem em mãos; d) Disseminação: esta é a última etapa (e a primeira, também) no ciclo, pois envolve a distribuição do produto de inteligência para aqueles que as solicitou. É o momento em que o analista irá sugerir possíveis linhas de ações baseado em seu trabalho (KAHANER, 1997, p.43-45, tradução nossa).

Dessa maneira, a realização e interação dessas etapas têm por objetivo satisfazer as reais necessidades dos sujeitos organizacionais responsáveis pela tomada de decisão, para que estes possam efetuar suas ações organizacionais de maneira eficiente. O processo de inteligência organizacional pode ser considerado a matéria-prima para a produção eficaz de conhecimento, podendo gerar novos produtos e serviços, uma vez que as informações coletadas, tanto do ambiente interno quanto externo, são dotadas de valor e, portanto, podem ser transformadas em inteligência organizacional. A sobrevivência das organizações depende, em grande parte, de mecanismos que possibilitem a capacidade de previsão de médio e longo prazo, de modo a estar reavaliando os procedimentos formais e informais internos e adequando a estrutura 93


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

organizacional às condições impostas por essas probabilidades (CASTRO; ABREU, 2006, p.17). Ao longo do tempo a assertividade aplicada à tomada de decisão tende a aumentar, por meio do amadurecimento que as organizações vão desenvolvendo perante as diversas situações que elas se deparam em sua própria trajetória e existência. Mas, isso só é possível, quando a organização tem a percepção do quão importante se faz a valorização de uma cultura organizacional que preze por comportamentos voltados para desenvolver as competências em informação necessárias a geração de inteligência organizacional.

8 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Os métodos e procedimentos utilizados referem-se a pesquisa aplicada, por visar a transferência e aplicabilidade prática com vistas a resolução de problemas específicos; e, também, se refere a uma pesquisa bibliográfica, por voltar olhares às fontes impressas e eletrônicas, abarcando livros, artigos nacionais e internacionais e revistas (GIL, 1999). A pesquisa bibliográfica exploratória que, segundo Gil (1999), envolve o levantamento bibliográfico e documental, contendo experiências práticas relacionadas ao problema e análise de exemplos que estimulem uma melhor compreensão do tema abordado. Desse modo, visando os objetivos desta pesquisa, realizou-se uma pesquisa do tipo bibliográfico discorrendo sobre temas acerca da informação e conhecimento em ambientes organizacionais, destacando a cultura organizacional, gestão da informação e do conhecimento, comportamento informacional, competência em informação e inteligência organizacional em contexto empresarial, com o intuito de consolidar conceitos e entender fatores que envolvem as organizações competitivas.

9 RESULTADOS Dentre os resultados deste estudo, evidenciou-se que a cultura organizacional reflete fortemente no comportamento informacional que, por sua vez, requer competências em informação que intensifiquem a geração, a apropriação, o compartilhamento e o uso da informação, tanto individualmente quanto coletivamente, no cotidiano de uma organização. Essa dinâmica está totalmente imbrincada e 94


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associada a gestão da informação e do conhecimento, uma vez que estão respectivamente voltadas ao trabalho com os fluxos formais e informais, ensejando melhor aproveitamento para os processos, atividades e tarefas organizacionais. A cultura organizacional se constitui em um fator determinante para a geração e uso de informação e conhecimento em ambientes organizacionais, visto que influi decisivamente na capacidade de os sujeitos organizacionais em valorar e dinamizar esses elementos. Assim, se faz necessário que os indivíduos estejam comprometidos com a cultura, uma vez que, dessa percepção se estabelece um ambiente favorável a aprendizagem organizacional, propiciando as organizações uma dinâmica que transforma a partir de suas competências, recursos de informação em fontes fundamentais para sustentar sua vantagem competitiva em um mercado altamente globalizado e complexo.

10 CONSIDERAÇÕES Este estudo fundamentou-se em revisão bibliográfica para verificar a interrelação entre a cultura organizacional com a competência em informação. Além disso, também permitiu a transposição e aplicação de princípios envolvendo especialmente o tema ‘competência em informação’ para o acesso e uso de informação e sua contribuição para a construção de conhecimento organizacional em ambientes competitivos. Além disso, evidencia-se que as organizações vivenciam um momento de profundas mudanças, gerado pela valorização da informação e do conhecimento dentro de ambientes organizacionais. Este último, por sua vez, faz com que as informações e os recursos circulem, apoiando, com isso, as diferentes ações realizadas, bem como a própria tomada de decisão para uma maior efetividade no contexto organizacional. Entretanto, não basta apenas ter a percepção da importância desses elementos, se não houver uma gestão efetiva por trás, possibilitando que os fluxos de informação possam ser trabalhados de modo a atender as necessidades informacionais dos tomadores de decisão e subsidiar a construção de conhecimento. Levando em consideração os questionamentos iniciais, constatou-se que a cultura organizacional é fator determinante para a geração de vantagem competitiva, visto que ela propicia as condições necessárias para o gerenciamento da informação e do conhecimento, suprindo assim as falhas de distintos níveis organizacionais ao 95


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permitir ações mais efetivas para as organizações serem mais produtivas e competitivas. Compreende-se, também, que a cultura organizacional dentro das organizações possui uma relação direta com a competência em informação, servindo de norteadora necessária para que os sujeitos organizacionais possam perceber, reconhecer, interpretar, apropriar e usar as fontes de informação mais valorativas para o desenvolvimento de estratégias que satisfaçam e auxiliem a resolução de problemas de diferentes naturezas. Ressalta-se que num ambiente altamente complexo e dinâmico, em que as decisões precisam ser tomadas rapidamente, ter uma cultura organizacional positiva, faz com que as decisões possam ser tomadas mais rapidamente, pois partindo do princípio que as experiências vivenciadas pelos indivíduos estão presentes no ambiente organizacional, de certa maneira as incertezas são atenuadas, evitando o retrabalho na busca por informações e conhecimento que, por sua vez, contribuem para uma eficiente tomada de decisão.

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7 MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO CONTÁBIL NA CONSTRUÇÃO DE SIGNIFICADOS COM VALOR ESTRATÉGICO: UMA ABORDAGEM SISTÊMICA

Marinês Santana Justo Smith marinessmith@facef.br Docente do Centro de Universitário de Franca (Uni-FACEF). Barbara Fadel bafadel@facef.br Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp) Docente do Centro de Universitário de Franca (Uni-FACEF).

Resumo: No ambiente informacional o contador, como responsável pela transformação dos dados administrativos em informações contábeis em suas diferentes formas de apresentação, não pode se ater apenas na geração de um tipo de informação e, ainda, como mediador deve imprimir ao usuário o significado que pretende embutir na emissão destas informações. Este é um processo que denota a produção de conhecimento tanto pelo emissor como pelo receptor da informação. Apresenta-se uma discussão teórica da mediação da informação contábil, ou seja, da ação de interferência do produtor da informação e da construção do significado pelos usuários internos sob uma visão sistêmica, por esta propiciar uma gestão integral no ambiente organizacional. Como elemento que integra à visão sistêmica da empresa, a mediação da informação contábil deve ser vista como parte a ser gerida e que se integra aos resultados empresariais. Esta ação de interferência exercida pelo contador, conforme modelo de gestão proposto, pode resultar em um conjunto de informações contábil-financeira capaz de atender três aspectos da gestão integral: Fiscal, Gerencial e Societária, o que resulta em apropriação de informação por um número muito maior de usuários e ampliação na satisfação de suas necessidades informacionais. Ainda que, evita a fragmentação na significação e no uso da informação e promove aproximação e inter-relacionamento do produtor e receptor da informação contábil. Palavras-Chave: Informação Contábil; Mediação; Abordagem Sistêmica.

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1 INTRODUÇÃO Comumente as discussões, acadêmicas ou não, sobre o ambiente informacional das pequenas e médias empresas (PME) deixam transparecer a importância acentuada da geração de informação de cunho exclusivamente fiscal em detrimento das demais informações com valor estratégico. Sendo que, a informação de cunho estratégico atende as necessidades dos mais diversos usuários internos à empresa. A impossibilidade do uso das informações de cunho meramente fiscal nas atividades de controle e decisão pela falta de elementos para construção de significado pelos demais usuários das informações contábeis têm resultado um distanciamento entre o emissor da informação contábil e o receptor de informações para gestão estratégica. Esta construção de sentido, ou seja, de significado da informação pelo usuário, ocorre pela mediação do emissor da informação. No ambiente informacional o contador, como responsável pela transformação dos dados administrativos em informações contábeis em suas diferentes formas de apresentação, não pode se ater apenas na geração de um tipo de informação e, ainda, como mediador deve imprimir ao usuário o significado que pretende embutir na emissão destas informações. Entretanto, não é uma tarefa fácil visto que é um processo que denota a produção de conhecimento tanto pelo emissor como pelo receptor da informação. Fato que justifica o estudo da informação contábil elaborada pelo contador das PME, e a apropriação de significado como valor estratégico pelos usuários internos para utilização desta na gestão integral do empreendimento. O objetivo deste artigo é apresentar uma discussão teórica da mediação da informação contábil, ou seja, da ação de interferência do produtor da informação e da construção do significado pelos usuários internos sob uma visão sistêmica, por esta propiciar uma gestão integral no ambiente organizacional. Como elemento que integra à visão sistêmica da empresa, a mediação da informação contábil deve ser vista como parte a ser gerida e que se integra aos resultados empresariais, assim, sem esta parte, o todo não terá a mesma direção. Por uma abordagem sistêmica o processo de criação de significado da informação contábil deixa de ser exclusiva para atender as necessidades informacionais do fisco e passa a interagir com os diversos elementos do sistema de gestão. Esta ação de interferência exercida pelo contador pode resultar em um conjunto de informações contábil-financeira capaz de atender 101


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três aspectos da gestão integral: Fiscal, Gerencial e Societária, o que resulta em apropriação de informação por um número muito maior de usuários e ampliação na satisfação de suas necessidades informacionais. O estudo da mediação da informação contábil sob uma abordagem sistêmica requer uma articulação interdisciplinar entre a Ciência da Informação, a Ciência Contábil e a Administração. Na Ciência da Informação buscam-se aportes dos recursos da área da informação para discutir a mediação, trabalhada neste estudo, como ação de interferência pelo profissional que elabora tal informação. Na Ciência Contábil explora-se sua função comunicativa da informação contábil, e com a Administração sua função disciplinar de gestão integral e sistêmica.

2 MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO EM CONTEXTO EMPRESARIAL CONTÁBIL Nas organizações a informação contábil pode se distinguir dos outros tipos de informações por ser: desenhada para ser usada em decisões econômicas, mas também de natureza quantitativa e financeira sendo de grande importância nas decisões do que aplicar ou quanto financiar no processo de gestão estratégica (CIA, 1998). E, ao exercer sua função comunicativa, a contabilidade, nas empresas, produz relatórios de controles operacionais e do cotidiano administrativo a usuários internos, assim como os relatórios periódicos que expressam a situação econômica e financeira da empresa a usuários internos e externos. Entretanto, pela ótica da Ciência da Informação, a simples disseminação destes relatórios não finda o processo informacional, e para o alcance do usuário como informação é necessário empreender atenção ao processo de mediação da informação, que compreende a ação de interferência do produtor, a recepção e a criação de significado pelo usuário (ALMEIDA JUNIOR, 2008). Observa-se que, A informação ganha sua existência tão-somente no plano de quem a recebe e não no plano de que a emite. Na origem, tem-se apenas um conjunto de dados, que pretende mais que meras cifras, mas que ainda não são informações. Assim, o dado só se tornará informação na medida em que provoque alguma ação por parte de quem o recebe, vale dizer, quando altera alguma estrutura vigente, o que nem sempre ocorre. Resulta que a informação é da ordem da subjetividade, enquanto o dado é da ordem da objetividade (SENRA, 1994 apud AMORIM, 2007, p.21).

Dessa maneira, Conceituando a informação como subjetiva, intangível e dependente dos referenciais dos usuários, a disseminação deve ser rediscutida e

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transformada, visando acompanhar as alterações da área. Os resultados advindos dessa rediscussão e dessa transformação estão aqui denominados de Mediação da Informação (ALMEIDA JÚNIOR, 2008, p.46).

Esta discussão pode ser aplicada no tocante às informações contábeis, assim como Amorim (2007, p.21) relata “as formas de comunicação empresarial estão relacionadas a “efeitos de sentido do receptor”, enquanto que a informação está relacionada à “estrutura cognitiva”, daí a importância da mediação”. Portanto, a mera disponibilização das informações contábeis pode não estimular o processo de construção de sentido pelo usuário e a informação não passar de dados sem significância. A informação contábil ainda carrega o agravante de ser uma linguagem específica, desta forma é necessário algum tipo de interrelação entre o produtor e o usuário da informação. Valentim (2008, p.20) aponta que “A informação e o conhecimento são insumos do fazer organizacional e são fundamentais para o processo decisório”, entretanto, destaca que ambos são inseparáveis visto que um alimenta o outro em um “processo duo necessário para evolução do sujeito”. Desta forma, a informação existe a partir do conhecimento construído com esta, entende-se que, o que a torna relevante no ambiente organizacional é a mediação humana. A aproximação ao usuário da informação contábil com o intuito de estabelecer uma inter-relação, em busca de mediação, para alcance de melhores resultados de comunicação é percebida no âmbito do mercado de capitais. Amorim (2007) destaca que neste segmento a mediação tem forte embasamento na interatividade com os usuários da informação contábil, no caso os investidores. Lopes e Valentim (2008) discutem o papel do analista como mediador neste mercado de capitais, visto que o investidor, como usuário externo, tomará decisões a partir das informações selecionadas pelo analista, que por sua vez se apóia em métodos para identificar e classificar quais são as informações mais importantes para elaboração de relatórios de avaliação da situação econômico-financeira de determinada empresa. Como mediador neste processo o analista utiliza, entre os diversos suportes de informações, as demonstrações contábeis, que são um conjunto de dados dotados de relevância e determinado propósito, elaboradas no ambiente interno das empresas. Portanto, existe, também, mediação no processo anterior ao do analista e investidor, representada pela ação de interferência dos fornecedores das informações impressas nas demonstrações contábeis. Estes fornecedores considerados profissionais da 103


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informação neste contexto tratam-se dos contadores, os quais são responsáveis pela elaboração destas informações que têm como intuito atender a necessidade informacional dos diversos usuários. O que implica que “a capacidade do mercado em ter ações avaliadas corretamente pelos investidores está imbricada na qualidade da informação disponibilizada” (LOPES; VALENTIM, 2008, p.105). Entretanto,

a

disponibilização

desta

qualidade

para

os

investidores,

considerados usuários externos, demanda análise desde a coleta dos dados, elaboração, classificação e disseminação das informações contábil-financeira para os usuários internos da informação, quanto para condução do negócio. A implicação em análise indica que há mediação no sentido de ação de interferência do profissional em todo processo informacional. Desta forma, disseminar e mediar não são sinônimos. Almeida Júnior (2008, p.47) destaca que Ao contrário da disseminação, a mediação não estaria restrita apenas às atividades relacionadas diretamente ao público atendido, mas em todas as ações do profissional bibliotecário, em todo o fazer desse profissional. A mediação estaria presente, de maneira não explicitada, na seleção, na escolha dos materiais que farão parte do acervo da biblioteca, em todo o trabalho de processamento técnico, nas atividades de desenvolvimento de coleções e, também, no serviço de referência e informação.

Extrapolando esta discussão para o interior do ambiente empresarial das PME, a mediação não estaria restrita apenas ao relacionamento com o fisco e, igualmente, estaria presente em todas os fazeres do contador. O contador, como responsável pela transformação dos dados oriundos das operações administrativas em informações com fins estratégicos, está envolvido em todo o processo informacional, da seleção dos dados e sua primazia da essência econômica da operação e, na sequência pela produção, organização, disseminação e utilização da informação, fato que enfatiza sua responsabilidade na gestão empresarial. Segundo Amorim (2007, p.26) É o criador do produto informacional que determina o objetivo deste, para quem se destina e para quais aplicações. Dito de outro modo, embora direcionado ao usuário, a apresentação do novo produto informacional reflete o que o emissor elege como importante e para qual decisão econômica se adéqua.

É fato, entretanto, que a relevância do papel do contador no ambiente empresarial depende de seu entendimento da necessidade informacional dos tomadores de decisões diante da acirrada concorrência e da demanda informacional do mercado. A ele compete produzir e estimular o uso da informação contábil como estratégia. E ainda, inspirar ao usuário o significado que pretende embutir na emissão 104


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destas informações. Isso não é uma tarefa fácil, visto como um processo que denota a produção de conhecimento tanto pelo emissor como pelo receptor da informação, a criação de significado é dependente dos referenciais do fornecedor assim como do usuário da informação. É neste sentido que estudos da Ciência da Informação podem contribuir, de forma interdisciplinar, com os profissionais das Ciências Contábeis, visto que apesar de a informação ser aceita como sendo o objeto da Ciência da Informação, emerge a necessidade de discussões de novas propostas, as quais retratam que, “O que diferencia a área da Ciência da Informação das outras áreas que lidam, também, com a informação, seria o fato de que o objeto da Ciência da Informação não é a informação em si, mas a mediação dela” (ALMEIDA JÚNIOR, 2008, p.46). Destarte, a importância e a necessidade de estudos da mediação estão em qualquer espaço, no qual se realizem atividades relacionadas à organização e disponibilização de informação, o que destaca a necessidade de atenção ao usuário. A mediação imprime maior responsabilidade e amplo envolvimento com o contexto em que o profissional da informação e usuário estão inseridos e, portanto, muitas vezes, reveste de poder a quem exerce ações de interferência como mediador da informação, o que leva a concluir que Há uma linha tênue entre interferência e manipulação. A consciência de sua existência bem como da realidade da interferência, permite não a eliminação da manipulação, mas a diminuição de seus riscos e de suas consequências (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.94)

É necessário enfatizar ao contador, como mediador, que as suas ações de interferência, para propiciar a apropriação da informação ao usuário não basta o conhecimento técnico e objetivos econômicos. É premente encontrar uma finalidade social superior nas informações produzidas e mediadas para defesa dos princípios e valores éticos da profissão para não utilizar a mediação como forma de manipulação negativa com vistas a atender interesses individualistas em prejuízo aos demais usuários da informação e da sociedade de forma geral. E ainda, as ações de interferência do contador devem estar respaldadas pela visão estratégica e sustentável. É necessária atenção à sua função de mediador em todas as etapas do processo informacional e prover de forma sistêmica informações que geram valor estratégico no processo decisório para uma gestão integral.

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3 A INFORMAÇÃO CONTÁBIL E SEU ESPECTRO INFORMACIONAL NAS PME O perfil das pequenas e médias empresas (PME) no Brasil apresenta traços típicos que as qualificam, por exemplo: como organizações predominantemente familiares (capital social não é pulverizado com recursos de fora do alcance familiar), constituída juridicamente como sociedade limitada, com faturamento e o número de funcionários dentro de uma determinada faixa e, frequentemente, com a gestão exercida pelos proprietários do negócio, muitas vezes, dotados apenas de conhecimento operacional do negócio. Fato que leva a negligência da informação contábil ser apontada em estudos na área da Administração, nos quais empresários de pequenas empresas atribuem à falta de interesse pela gestão da informação contábil por se acharem muito envolvidos à área produtiva da empresa, não sobrando tempo para dedicarem aos relatórios contábeis. O que leva a concluir que, sob a perspectiva de muitos empresários das PME a gestão da informação contábil é tida como não produtiva subestimando, assim, sua contribuição ao desempenho administrativo e seus reflexos na eficiência operacional e financeira (SMITH; CIA, 2001). Entretanto Moraes e Fadel (2008, p.28) destacam que As organizações, cada vez mais, percebem que a informação é um recurso estratégico que tem custo, preço e valor. Sendo assim existe a necessidade dela ser gerenciada da mesma forma que os recursos financeiros, materiais e humanos.

O que pode estar sendo revisto por um número maior de PME, visto que uma pesquisa do SEBRAE (2007) aponta uma melhora significativa na taxa de mortalidade das empresas PME nos quatro primeiros anos de vida, de 59,9% em 2000 para 35,9% em 2003. Esta queda na mortalidade das PME pode ser atribuída pela melhoria do ambiente econômico (redução e controle da inflação, redução da taxa de juros, entre outros fatores), mas também à maior qualidade na gestão empresarial. De um lado têm-se gestores que precisam de informações relevantes, as quais se integrem como um todo na geração de valor para uma gestão integral, a fim de evitar a fragmentação do significado e a exclusividade de uso para determinada área. Como consequência, surge a necessidade de um novo produto informacional para gestão integrada das PME. Entretanto, este novo produto informacional pode depender do que o contador elege como informação relevante. Assim, sua decisão e ação de interferência na produção da informação podem ou não resultar em um 106


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conjunto de informações contábeis com espectro informacional amplo para uma efetiva gestão integrada com informações de cunho: Fiscal, Societária e, Gerencial. - Informação Fiscal: É aquela gerada para atender o fisco, seja na instância municipal, estadual ou federal para apuração de tributos. Infelizmente as normas de legislação fiscal têm exercido efeitos adversos sobre a teoria e os princípios contábeis que regulamentam o registro da operação administrativa para apuração das informações contábeis em sua essência econômica. Isso ocorre em virtude das limitações e critérios estabelecidos para apuração dos tributos. A forma de apuração destes impostos depende do regime de opção para tributação: SIMPLES Nacional, Lucro Presumido e Lucro Real. E, por consequência é o regime escolhido que determina quais as informações contábeis são obrigatórias e como devem ser apuradas. Entende-se que a informação contábil gerada para atender o fisco é deveras importante para cumprir as obrigações legais e tributárias das empresas, no entanto estas informações muitas vezes não traduzem a essência econômica das operações administrativas, devido a critérios fiscais estabelecidos para registro das operações. Este fato leva à necessidade de um conjunto de informações complementares a aquelas fiscais que demonstrem a real situação econômica e financeira da empresa e que seja de acesso também para os investidores e credores. - Informação Societária: Também conhecida como informação financeira, a qual é gerada, principalmente, para atender as necessidades informacionais dos usuários externos à empresa, além do governo, tais como investidores, credores, funcionários e sociedade em geral. Esta tem como cerne o registro da essência econômica das operações administrativas com respaldo nos princípios fundamentais da contabilidade e na legislação das sociedades por ações com o objetivo de informar a situação econômica e financeira da empresa. O que proporciona informações com poder informativo transparente e de comparabilidade no ambiente empresarial. Haja vista que a contabilidade como Ciência Social Aplicada tem sofrido influência dos diversos sistemas em que está inserida. Características, necessidades e cultura dos diversos usuários da informação contábil têm sido apontadas como principais influências na geração destas, o que culminam em causas prováveis das diferenças nas demonstrações contábeis do ambiente empresarial.

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Dentre as especialidades da linguagem, a contabilidade se apresenta como linguagem de negócios, como é conhecida. Todavia, não tem sido homogênea no âmbito nacional e nem internacional. O que é visto com a coexistência de diversos critérios de reconhecimento e mensuração de uma mesma operação na elaboração da informação contábil e financeira. Esse fato limita a evolução dos Princípios da Contabilidade, e, ainda, dificulta a adoção prática dos mesmos, notado que a maioria das empresas adota os critérios estabelecidos pela legislação fiscal, a qual nem sempre se apoia em critérios acordados pelos Princípios de Contabilidade (IUDÍCIBUS; MARTINS; GELBCKE, 2007). A globalização dos mercados de capitais impeliu as empresas à necessidade de transparência e comparabilidade das informações contábeis a nível mundial. Neste sentido, o processo de convergência às normas internacionais de contabilidade (IFRS) é uma realidade no mercado mundial que se expande de forma célere e com reflexo em todo ambiente empresarial. As PME constituídas como Sociedades Limitadas, apuram suas informações contábeis com certa flexibilidade entre a Legislação Fiscal e a Societária, elaborando ou não as demonstrações contábeis, isso decorre das diferentes opções de tributação conforme visto no Quadro 1 e do fato que as Normas Brasileiras de Contabilidade não têm força de lei. As demonstrações contábeis exigidas pela legislação societária, entre os produtos da função comunicativa da contabilidade, têm como finalidades atender uma vasta gama de usuários que não estão em posição de exigir relatórios na medida de suas necessidades particulares de informação, estas são apresentadas no Quadro 1. Quadro 1 – Informações solicitadas pela Legislação Societária. DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS Balanço Patrimonial

Sigla

Finalidade da Informação

BP

Demonstração do Resultado do Exercício

DRE

Posição financeira e patrimonial da empresa em determinada data. Apresenta os Bens, Direitos e Obrigações ou ainda, a Origem e Aplicações de Recursos. Resultado econômico da empresa gerado em determinado período. Apresenta as Receitas, Custos, Despesas e Lucro Líquido. Variações do Patrimônio Líquido em termos gerais.

Demonstrações das Mutações DMPL do Patrimônio Líquido Demonstração dos Fluxos de DFC Movimentação dos recursos financeiros em um Caixa determinado período. Demonstração do Valor DVA Valor da riqueza gerada pela empresa e a forma de sua Adicionado distribuição Fonte adaptada: Elaborada pelas autoras, com base em Iudícibus, Martins, Gelbcke (2009).

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As finalidades das demonstrações descritas no Quadro 1 chamam a atenção para o propósito deste conjunto de informações, que vai além da função de comunicação ao usuário externo. São informações necessárias e básicas, no âmago das organizações, para o processo decisório, em todos os tipos, portes e cotidiano de empresa, principalmente decisões no tocante a três pilares de uma organização, conforme explicado no Quadro 2: Quadro 2 – Informação Societária para o processo decisório. 3 grandes áreas de decisão Operações Investimento

Processo Decisório

Informações básicas

Retorno por produto – Alavancagem operacional Retorno e Risco de Investimento e Alavancagem financeira; Financiamento Como financiar? Capital de Giro e Equilíbrio Financeiro Custo de Capital e Criação de valor Fonte adaptada: Elaborada pelas autoras, com base em Assaf Neto e Lima (2009). O que produzir? Onde Investir?

Portanto, a partir das informações evidenciadas nas demonstrações contábeis, é possível responder a várias questões inseridas no processo decisório, o que as torna informações imprescindíveis no ambiente empresarial das PME e devem ser geridas pelo contador e mediadas aos tomadores de decisão. - Informação Gerencial: É o terceiro tipo de informação contábil, gerada pela contabilidade gerencial para uso interno pelos administradores para fins de gestão e controle de suas operações. Ela se apresenta como dinâmica no tempo, é atual e orientada para o futuro, não é regulada por órgãos externos à empresa e dá ênfase ao desempenho de administradores ou unidades de negócios. São informações geradas para 3 atividades básicas em uma empresa: Planejamento; Direção e motivação; Controle, conforme apresentadas no Quadro 3. Quadro 3 – Informações Gerenciais para gestão estratégica. Atividades Planejamento

Direção, Motivação e Execução Controle

Descrição Envolve a identificação do objetivo primário, uma linha de ação, e a forma de como a ação será executada. Envolve a mobilização de pessoas na execução de planos e gestão de operações da rotina. Implica em monitorar, assegurar que o plano seja de fato executado e seja adaptado adequadamente na medida de alterações das circunstâncias, da não efetivação ou da inviabilidade do plano de ações.

Exemplo de Informações: Orçamentos Operacionais Financeiros, entre outros relatórios. Relatórios diários de vendas, custos etc.

produção

e

e

- Relatórios

de Mensuração de Desempenho - Relatórios comparativos do desempenho efetivo e desempenho orçado. - Balance Scorecard Fonte adaptada: Elaborada pelas autoras com base em Garrison, Noreen e Brewer (2007).

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Os orçamentos (venda, compra, mão-de-obra, custos, despesas, caixa, capital etc.) apesar de serem citados na primeira etapa, são utilizados de forma diferente nas três atividades, visto que é considerado um artefato para o administrador antever as situações ambientais da empresa e antecipar decisões futuras, com o intuito de maximizar os melhores resultados das oportunidades previstas e ou minimizar as consequências dos prováveis eventos desfavoráveis. E ainda, o processo orçamentário oferece uma percepção da empresa como um sistema único, pela noção ampla e geral das interações dos diversos recursos que foram empregados, o que permite conhecer o risco financeiro e a eficiência operacional pelas alterações nos níveis de atividades e das transações da empresa ou ainda pelo volume de recursos investidos. O Balance Scorecard representa um sistema de avaliação de desempenho que conforme Atkinson et al. (2000) enfoca: os objetivos da empresa; coordenação da tomada de decisão individual e a provisão de uma base para o aprendizado organizacional. Seu uso resulta a intrínseca relação da informação contábil e geração de conhecimento para efetiva gestão empresarial.

4 ABORDAGEM SISTÊMICA DA MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO CONTÁBIL Após o entendimento que a informação contábil pode ser classificada em fiscal, societária e gerencial e, que cada uma tem características, finalidades e valores estratégicos dependentes da ação de interferência de seu produtor e da possibilidade de criação de significado pelo usuário, delata-se a possibilidade da produção, mediação e uso das informações contábeis, de forma fragmentada. Ou seja, a empresa pode fazer uso apenas de um dos tipos de informação contábil ou de dois e às vezes dos três tipos de informação na gestão empresarial. No caso das PME o uso exclusivo da informação fiscal é o que predomina, muitas vezes, por ser a única gerada pelo contador ou solicitada pelo administrador e outros usuários da informação contábil das PME. E a consequência deste uso fragmentado da informação contábil é apontada por Marion (2003, p.24) ao destacar que as PME têm problemas que não repousam nas críticas financeiras ou econômicas, mas sim na má gerência, nas decisões tomadas sem respaldo, sem dados confiáveis, por fazerem uso de uma contabilidade irreal, destorcida, em

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consequência de ter sido elaborada única e exclusivamente para atender às exigências fiscais. Para melhorias nos resultados das PME a proposta é a gestão, mediação e uso da informação contábil sob o enfoque sistêmico. Ao considerar a informação contábil como um sistema com desdobramento em três subsistemas de informação: fiscal, societária e gerencial, estes devem se integrar em um sistema maior, o sistema de gestão. Martinelli e Ventura (2006, p.70) destacam que “Um dos objetivos da Abordagem Sistêmica é assegurar que os subsistemas trabalhem juntos e contribuam de uma forma geral, aos objetivos do sistema como um todo”. A abordagem sistêmica implica em uma análise para o todo. Esta afirmação está afiançada, principalmente, no contraste que se faz com a abordagem analítica, que na tentativa de compreensão do todo propõe uma análise de cada parte isolada para depois somá-las. Capra (2000) explica que no contexto sistêmico as propriedades das partes somente podem ser compreendidas da organização do conjunto, consequentemente, o pensamento sistêmico não é concentrado nos componentes básicos, mas nos princípios fundamentais da organização. Destarte pelo pensamento sistêmico “O conceito de “todo” é diferente da soma das partes, porque quando as partes estão agregadas formando o todo, este se torna uma estrutura independente, com papel distinto do papel das partes” (CAVALCANTI; PAULA, 2006, p.7). O conhecimento do enfoque sistêmico permite uma ampla compreensão dos sistemas, com melhor entendimento de como as partes se relacionam. Facilita, assim, a criação de conceitos e soluções para problemas, temas ou informações aparentemente desconexas, ou que precisam de maior reflexão, organização e interrelação. O estado de inter-relação e interdependência é inerente a todos os fenômenos e o universo é formado por um sistema organizado e complexo, atrelados pelas interrelações, ou seja, pela ligação entre o indivíduo e o todo (MORIN, 2005). Transpondo este pensamento para o ambiente empresarial tem-se que a compreensão do sistema de gestão como um todo, pode ajudar na construção de significado da informação contábil pelo usuário, via conexidade das necessidades informacionais; da percepção de padrões de relacionamentos; promoção de 111


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aprendizagem na estruturação e reestruturação das inter-relações das necessidades e das informações contábeis para alcance do objetivo final proposto no planejamento empresarial. O pensamento sistêmico possibilita, assim, ampliação das idéias e teorias de uma área de conhecimento para outras, a partir de uma perspectiva mais ampla e ao mesmo tempo atende a necessidade de simplificação a partir da compreensão e atenuação da complexidade (MARTINELLI; VENTURA (2006, p.70).

A Figura 1 apresenta a proposta do modelo de gestão da informação contábil sob a perspectiva sistêmica para evitar a fragmentação na significação e no uso da informação e promover aproximação e inter-relacionamento do produtor e receptor da informação contábil. Figura 1 – Dinâmica da Informação Contábil sob a ótica da Ciência da Informação

Informação Fiscal

Informação Societária

DADOS

Informação Gerencial

Foco na produção da informação

Foco no usuário – mediação e uso da informação na geração de conhecimento para gestão integral das PMEs.

Fonte: proposta elaborada pelas autoras.

A proposta sintetiza a dinâmica discutida neste estudo: a produção da informação contábil ao seu uso na gestão das PME sob a ótica da Ciência da Informação com uma abordagem sistêmica para ampliar o significado e valor de cada tipo de informação Contábil na gestão empresarial. A aplicação do conceito de mediação no processo informacional contábil pela ótica da Ciência da Informação com abordagem sistêmica pode contribuir para 112


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melhora no processo de apropriação da informação contábil, pelo usuário, como valor estratégico na gestão integral no ambiente empresarial. Como elemento que integra à visão sistêmica da empresa, a mediação da informação contábil deve ser vista como uma parte a ser gerida e que se integra aos resultados empresariais, assim, sem esta parte, o todo será prejudicado e o valor da mediação da informação contábil será minimizado. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Foi discutido que impossibilidade do uso das informações de cunho meramente fiscal nas atividades de controle e decisão pela falta de elementos para construção de significado pelos demais usuários das informações contábeis têm resultado um distanciamento entre o emissor da informação contábil e o receptor de informações para gestão estratégica. É necessário harmonizar as informações contábeis: fiscal, societária e gerencial, sem com tudo homogeneizá-las, pois como foi visto cada grupo de informações contábeis tem suas peculiaridades. Entretanto, um repositório de informações contábeis tem pouco valor para a gestão empresarial caso os usuários não sejam conduzidos ao conteúdo deste e não recebam o contexto no qual possa ser possível a criação de valor de cada informação de forma integrada na gestão empresarial. É fato, entretanto, que a relevância do papel do contador no ambiente empresarial depende de seu entendimento da necessidade informacional dos tomadores de decisões diante da acirrada concorrência e da demanda informacional do mercado. Fato que justifica o estudo da informação contábil elaborada pelo contador das PME, e a apropriação de significado como valor estratégico pelos usuários internos para utilização desta na gestão integral do empreendimento. Para tanto, de um lado mostra-se necessário gestores que precisam de informações relevantes, as quais se integrem como um todo na geração de valor para uma gestão integral, a fim de evitar a fragmentação do significado e a exclusividade de uso para determinada área. Desta forma, no processo de gestão das PME além da produção da informação contábil, preocupação das Ciências Contábeis, é premente atenção à relação intrínseca da informação e conhecimento no processo de criação de significado pelos usuários da informação como destacado pela Ciência da Informação. Entretanto, pela ótica da Ciência da Informação, a simples disseminação destes relatórios não finda o 113


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processo informacional, e para o alcance do usuário como informação é necessário empreender atenção ao processo de mediação da informação, que compreende a ação de interferência do produtor, a recepção e a criação de significado pelo usuário. E, o enfoque da mediação da informação contábil por uma abordagem sistêmica permite uma ampla compreensão de como as informações contábeis se relacionam com o sistema de gestão integral, o que evita a fragmentação na significação e no uso da informação e promove aproximação e inter-relacionamento do produtor e receptor da informação contábil. A aplicação do conceito de mediação no processo informacional contábil pela ótica da Ciência da Informação com abordagem sistêmica pode contribuir para melhora no processo de apropriação da informação contábil, pelo usuário, como valor estratégico na gestão integral no ambiente empresarial. REFERÊNCIAS ALMEIDA JÚNIOR, O. F. de. Mediação da informação: ampliando o conceito de disseminação. In: VALENTIM, M. L. P. (Org.). Gestão da informação e do conhecimento no âmbito da Ciência da Informação. São Paulo: Polis: Cultura Acadêmica, 2008. ________. Mediação da informação e múltiplas linguagens. Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, Brasília, v.2, n.1, p.89-103, jan./dez. 2009. AMORIN, A. D. G. A mediação da informação contábil sob a ótica da ciência da informação. São Paulo: ECA-USP, 2007. Tese (Doutorado). Área de Concentração Cultura e Informação. Escola de Comunicações e Artes (ECA). São Paulo, 2007. ASSAF NETO, A.; LIMA, F. G. Curso de administração financeira. São Paulo: Atlas, 2009. ATKINSON, A. A. et al. Contabilidade gerencial. São Paulo: Atlas, 2000. CAPRA, F. La trama de la vida: una nueva perspectiva de los sistemas vivos. Barcelona: Anagrama, 2000. CIA, J. N. S. Sistema de Gerenciamento de Liquidez sob a ótica da teoria das restrições: uma adaptação da metodologia Fleuriet. São Paulo, 1998. Tese (Doutorado). Escola de Administração de Empresas de São Paulo, Fundação Getúlio Vargas. 1998. CAVALCANTI, M. F.; PAULA, V. A. Teoria Geral de Sistemas I. In: MARTINELLI, D. P.; VENTURA, C. A. A. (Orgs.). Visão sistêmica e administração. São Paulo: Saraiva, 2006. 114


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8 E-INFOCOMUNICAÇÃO: IDENTIDADE CONCEITUAL E CRUZAMENTOS DISCIPLINARES

Brasilina Passarelli linapassarelli2@gmail.com Professora Titular do Departamento de Biblioteconomia e Documentação Escola de Comunicações e Artes (CDB/ECA) Universidade de São Paulo (USP) Coordenadora Científica da Escola do Futuro (USP)

Resumo: Procura-se discutir e definir conceitos estruturantes de um campo do saber em voga contemporaneamente, o qual tenta firmar-se delimitando território e estabelecendo fronteiras com outras áreas disciplinares. Torna-se, portanto, indispensável mapear as coordenadas desse campo e indicar os termos de referência respectivos. A obra E-Infocomunicação: estratégias e aplicações convoca, de forma inequívoca, dois conceitos – informação e comunicação – distintos, mas que se interpenetram, a ponto de poderem ser considerados, como o fez, metaforicamente, Armando Malheiro da Silva em texto sobre o campo das Ciências da Comunicação e Informação, as duas faces de Jano (Silva, 2006). Mas a presença indiscutível do “eletrônico” ou das “plataformas digitais” nos tempos de hoje, indissociável dos dois conceitos basilares, tem de ser entendida mais como um termo agregador e simbolicamente apelativo do que como a tradução de um terceiro conceito matricial deste campo do saber. O verdadeiro significado que pode ser retirado da ambiência digital em que a informação e a comunicação acontecem e fluem é, sobretudo, o de mediação tecnológica. É num ambiente imbuído de e imerso em tecnologia (digital) que se produz, se usa e se armazena/preserva informação e, concomitantemente, ocorre a troca de mensagens entre pessoas ou a interação homem-máquina, que está na base e/ou faz parte integrante do processo comunicacional. A tecnologia medeia este processo e entra em simbiose com ele, constituindo-se não apenas como um canal transmissor de mensagens (informação), mas sim como um lócus, um ambiente, ou, dito de outra forma, como um sistema onde a informação e a comunicação têm o seu lugar privilegiado. Palavras-Chave: Mediação; Comunicação; Informação; Sociedade em Rede; Hiperconectividade.

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1 INTRODUÇÃO Contemporaneamente, as Ciências da Comunicação e da Informação (CCIs) passam por um redesenho de suas praxiologias no qual há de se admitir a existência de um processo de redefinição de papéis, de uma busca contínua por novos conceitos. A partir do texto publicado originalmente na primeira parte da obra “Einfocomunicação: estratégias e aplicações” (PASSARELLI et al., 2014, p.79-121), este paper sintetiza questões centrais do imbricamento transdisciplinar de três campos científicos: sistemas de informação, comunicação e informação e suas consequências imediatas. Esses conceitos axiais servem à reflexão do “lugar” e da complexidade de temas como a interação, a interatividade, as literacias digitais emergentes dos atores em rede e, que mais recentemente passaram a constituir o conceito europeu de MIL – Media and Information Literacy (literacias de mídia e informação). Os caminhos propostos têm como background a educação e suas práticas cotidianas. Por informação, como defende Floridi (2010), Gleick (2012), Triclot (2008) et al, entende-se hoje tudo aquilo que está em toda parte, das mais diversas formas e com vastas possibilidades de significação. Complementar ao olhar dos clássicos do Século XX, nestas primeiras décadas do Século XXI, pesquisar em “informação” é acionar um campo complexo e transdisciplinar, que vai da ciência da computação às humanas e sociais. As rotinas contemporâneas estão permeadas por bits, códigos, interfaces, instruções (...), mensagens e plataformas tornaram-se extensões da realidade, a própria realidade. O Observatório da Cultura Digital, instituído em 2007 e sediado no Núcleo das Novas Tecnologias da Comunicação Aplicadas à Educação – Escola do Futuro – USP, constitui um dos lócus de estudos teóricos e etnográficos do contemporâneo hiperconectado e seus atores em rede. Assim é possível afirmar que o objeto de pesquisa é a própria rede e as formas e sentidos de sociabilidade que dela emergem. Segundo Lemos (2013, p.52), “o conhecimento da realidade está distribuído entre agentes humanos e não humanos, diferente da perspectiva do construtivismo social, para a qual o conhecimento da realidade está no sujeito”. Embora venha sendo revisada, a premissa fundamental da Teoria Ator-Rede está nas redes sociotécnicas, em que para existir, as coisas devem convocar outras. Quer dizer, o ser “é” a partir das implicações que recebe/troca com o social. Ainda segundo Lemos (2013, p.20) “Cada vez mais não-humanos, agora ‘inteligentes, comunicativos, conectados e 119


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sensíveis ao ambiente’ nos fazem fazer coisas, alteram nossa forma de pensar e de agir em todos os domínios da cultura (família, trabalho, escola, lazer…)”. A TAR de Bruno Latour (2008) defende a não centralidade do homem na descrição dos processos comunicativos, dando lugar a uma “ontologia plana”, sem hierarquização dos actantes. “(...) o objetivo é descrever e analisar o social a partir de seus rastros. (...) A ação nunca é propriedade de um actante, mas de uma rede” (LEMOS, 2013, p.23). Baseado no capítulo original do livro por mim organizado em parceria com docentes das Universidades do Porto e de Aveiro este artigo concentra-se no conceito de mediação das tecnologias no contemporâneo conectado que desemboca no conceito de MIL – literacias de mídia e informação referendado em 2014 pela UNESCO em parceria com a Comunidade Europeia e seus impactos na educação do futuro em todos os seus níveis.

2 O CONTEMPORÂNEO CONECTADO A herança racionalista2 de ordenação, nomeação e classificação da natureza centrada no homem para conhecer o objeto faz com que ainda perdure um embate entre dicotomias: o moderno e o contemporâneo; autoria individual e coletivos digitais; Copyright e Copyleft; diluição da privacidade e exposição exacerbada; e, relações verticais de poder e horizontalidade das relações na web. Na ciência da comunicação, essa veia racionalista centrou os estudos das escolas clássicas no emissor. Em contrapartida, os estudos culturais latino-americanos de recepção focaram nas mediações. Nesse sentido, destaca-se Jesús Martin-Barbero3. Desde a fixação da sociedade em rede, a comunicação mediada por tecnologias tem ocupado lugar em centros de pesquisas pelo mundo. Isso porque a cibercultura traz novas lógicas e semânticas. “Cada vez mais experimentamos uma realidade sociotécnica construída em um ambiente híbrido: uma rede física (de cabos) e lógica (de softwares) imbricada numa rede de relacionamentos na qual se

2

Na perspectiva racionalista todo o conhecimento já está dado a priori, desde sempre, nas estruturas da cognição. Os racionalistas acreditam que todo o conhecimento sobre o mundo já existe, antes mesmo de qualquer experiência, nas estruturas cognitivas. Para um racionalista, todo conhecimento é dedutivo, ou seja, ele se dá integralmente nas estruturas de cognição. Ver mais Capra (1982) e Bacon (1979). 3 Dialogar é descobrir na trama de nosso próprio ser a presença dos laços sociais que nos sustentam. É lançar as bases para uma posse coletiva, comunitária do mundo (MARTÍN-BARBERO, 2014, p. 33).

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constroem e se divulgam novas percepções, conhecimentos, atitudes e personas” (PASSARELLI, 2010, p.65). Essas mudanças no comportamento dos usuários têm gerado transformações nos modos de consumo, de produção e de capitalização nos mercados, não há mais um centro organizador nas estruturas emergentes. “Atualmente, os espaços informacionais tornaram-se domínios de conhecimento e de poder na web. Neles, os atores conquistam territórios onde nascem ideias e se compartilham conhecimentos” (PASSARELLI, 2010, p.69). Para contextualizar as afirmações e dar sustentabilidade aos cenários discutidos, torna-se importante analisar alguns indicadores globais e locais de conectividade. A seguir, a penetração da acessibilidade web por regiões do mundo:

Figura 1–Usuários de Internet no mundo, distribuição por regiões

Fonte: Internet World Stats - http://www.internetworldstats.com/. Estimated: June, 30, 2014.

Em separado, atualizando os dados do cenário latino-americano, o Brasil permanece na liderança continental com os seguintes dados:

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Figura 2 - Crescimento do número de usuários no Brasil em milhões (1990-2014) e representação da topologia da Internet no planeta

Fonte: Sínteses de Índices Sociais da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD) e Mahadevan, et al (2007).

Se a análise considerar as nações mundiais, diante do número de usuários conectados, o Brasil assumiu desde 2009 a quarta colocação no ranking mundial de usuários ativos. O último estudo é de 2013 e mostra que o Brasil é antecedido apenas pela China (389 milhões), EUA (245 milhões) e Japão (99 milhões). Especificamente na América Latina, o Brasil é sucedido pela Argentina (32,3 milhões de usuários); pela Colômbia (28,5 milhões); e, pela Venezuela (12,9 milhões).

3 DA INCLUSÃO DIGITAL ÀS LITERACIAS EMERGENTES DOS ATORES EM REDE Os pesquisadores do Observatório da Cultura Digital distinguem duas “ondas” na sociedade em rede: (1ª) utilitarista, de acesso ao computador e condições de manuseio e navegabilidade. Perspectiva reducionista (PASSARELLI & JUNQUEIRA, 2012); (2ª) Usos e apropriações de conteúdos de forma crítica. Tal constatação projeta ao grupo de estudos uma questão inquietante: “Em que medida a inclusão digital e as práticas sociais e educacionais vigentes nas culturas conectadas são instrumentos de inclusão social?” (PASSARELLI, 2010, p.72). Para o empreendimento de pesquisar tais nuances, faz-se necessário lançar mão de novos enfoques metodológicos. Ultrapassados os obstáculos referentes à estrutura física de acesso à internet no país, as preocupações passam a concentrar-se nas competências cognitivas que envolvem leitura e escrita e a contextualização das

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informações acessadas por meio das tecnologias. À medida que as redes sociais crescem em tamanho e relevância, os usuários tornam-se protagonistas e atores, podendo, além de consumir, produzir informação (PASSARELLI, 2010, p.72).

Nesse contexto, diversos pesquisadores têm se dedicado a estudar a perspectiva das literacias, “uma nova abordagem para os estudos da cultura das redes, na qual a linguagem multimídia da tela se torna o meio mais comum de comunicação e entretenimento” (PASSARELLI, 2010, p.73). A literacia caracteriza-se por indicar a habilidade de usar a informação de maneira efetiva e criativa. Em contextos de convergência, esse conceito se expande e inclui as competências do usuário para explorar este potencial multimídia 4. Os letrados da sociedade em rede são aqueles capazes de ler, escrever, interagir, comunicar-se por meio dessa linguagem multimídia, reconhecendo as práticas sociais e gêneros textuais que envolvem cada elemento dessa interface (PASSARELLI, 2010, p.73).

O termo literacia digital foi cunhado por Gilster (1997) para “designar a habilidade de entender e utilizar a informação de múltiplos formatos e proveniente de diversas fontes quando apresentada por meio do computador”. O professor EshetAlkalai criou um modelo de literacia digital que inclui as habilidades emocionais, sociológicas, motoras e cognitivas necessárias para a comunicação em ambientes digitais.

4

Id.Ibidem.

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Figura 3 – Síntese do modelo de literacias digitais de Eshet-Alkalai (2004)

Dentro dos trabalhos do grupo de pesquisa Translit, a professora Divina FrauMeigs traz a noção emergente de “transletramento: “o conjunto das competências de interação colocadas em execução pelos usuários, sobretudo os meios disponíveis de informação e comunicação: oral, textual, icônico, numérico, essencialmente em meios ambientes digitais” (FRAU-MEIGS, 2014, p.66). Como é possível denotar, o domínio das literacias emergentes dá ao cidadão competências e habilidades para a transição dos modelos atuais de ensino à aprendizagem colaborativa. Neste cenário, várias áreas profissionais são forçadas à mudança, dentre elas a do professor que, por exemplo, passa a assumir o papel de mediador, o que demanda formação contínua para o exercício profissional nesta realidade complexa (MORIN, 2007). Tem-se então que historicamente os circuitos interlocutivos das CCIs estabilizaram-se na relação um para todos. A inter-relação destes empreendimentos científicos5, que era para ser central nas pesquisas, ficara de lado em favor de

5

Destaca-se o trabalho do Núcleo de Comunicação e Informação da USP (NTE) que referencialmente há mais de 20 anos dedica-se a este objeto. Para um panorama da aproximação “educação e comunicação” ver Soares (2014).

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práticas mais voltadas aos artefatos maquínicos6, ou primeira onda como denominam os pesquisadores do Observatório da Cultura Digital. Com tal visão, na prática, a técnica assume o controle e persistem os mecanismos do one step flow of communication, contrário à ideia de comunicação todos - todos (GARRISON, 2011). Contrária, em última instância, ao entendimento da interação mediada e da conseguinte compreensão e difusão das literacias digitais. 4 DA LITERACIA DIGITAL AO MIL – MEDIA AND INFORMATION LITERACY A

convergência

de

inquietações,

abordagens

e

pesquisas

sobre

o

contemporâneo hiperconectado atuaram como pano de fundo para a realização do 1 European

Media

and

Information

Literacy

st

Forum

(http://www.europeanmedialiteracyforum.org/2014/03/launch-of-first-european- medialiteracy.html) ocorrido de 27a 28 de maio de 2014 na sede da UNESCO em Paris, organizado pela Comissão Europeia e pela UNESCO e co-organizado pelo Projeto EMEDUS e o Gabinete de Comunicación y Educación da Universidade Aberta de Barcelona. O fórum reuniu representantes de governos, especialistas, autoridades do audiovisual, professores, profissionais da media, representantes da indústria, profissionais da informação, bibliotecários, pesquisadores e ONGs, entre outros, com o objetivo de promover ampla discussão na Europa sobre a importância de uma educação para a media literacy além da sugestão de políticas e iniciativas em parcerias transnacionais sobre o tema. Neste encontro os pesquisadores presentes e as instituições organizadoras reconhecem que as MIL - literacias de mídia e informação são centrais para o desenvolvimento e possuem profundo imbricamento com áreas como pesquisa, avaliação e educação. Os ambientes e mídias online são essenciais no ensino contemporâneo. Em seus preceitos é preciso, primeiramente, reconhecer que a tecnologia digital é transversal a todas as mídias. Em segundo lugar, é essencial a 6

A separação entre o humano e a técnica foi explorada primeiro por Aristóteles. Heidgger tenta fugir dessa ideia com a “quadratura” (céu, terra, divino e mortal). Uma “forma formante” em que o ser não é o centro, assim como a técnica não o é. Latour (2012) Defende uma “rede sociotécnica” em que, na formação dos actantes, transforma e é transformada. É o fim da externalidade pura, da ideia de agir em direção ao externo.

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consciência de que as MIL não são autossustentáveis. E por último, as MIL são complementares. 5

INTERNET

DAS

COISAS

E

BIG

DATA:

NOVOS

CONTORNOS

DO

CONTEPORÂNEO CONECTADO A reboque da conectividade continua da Internet das Coisas, das roupas e utensílios inteligentes e do Big Data faz-se necessária a reconfiguração das relações sociais e suas estruturas de poder, da economia e da educação envoltas nas interfaces de mediação da informação e da comunicação. Assim a cultura do remix institui novas possibilidades de mediação das relações sociais na população hiperconectada, criando também o solo fértil para um novo conjunto de habilidades e/ou competências construídas a reboque do uso de diferentes tecnologias digitais, também chamadas de literacias digitais e/ou MIL, refletindo uma realidade comunicacional que não mais pode ser reduzida à dualidade emissor-receptor as teorias de comunicação do século passado.

O século XXI revoluciona os velhos

modelos de produção instaurando uma nova economia com novos modelos de negócios, baseado na reciprocidade das ações comunicacionais e na comunicação transmidiática onde as mídias tradicionais e as mídias digitais em rede se imbricam e se amalgamam. Como pesquisadora e coordenadora de projetos de pesquisa-ação sobre inclusão digital em ambientes de educação formal e não-formal reconheço duas “ondas” na introdução da Internet no Brasil7. Na primeira “onda” ocorrida a partir dos anos 2000, quando a Internet comercial começa a ser ofertada de forma massiva no contexto brasileiro, as atenções se voltaram, majoritariamente, às políticas de acesso e fornecimento de infraestrutura para a mitigação dos fenômenos da exclusão digital e para a conquista da cidadania através da inclusão digital, visando prioritariamente a população de baixa renda. A segunda “onda”, intensificada a partir de 2006, veio como decorrência do acúmulo de experiências e de informações advindas das iniciativas públicas e privadas setoriais, as quais criaram o solo fértil para a emergência de um novo conjunto de habilidades e novas atitudes e comportamentos entre os atores em rede propiciando novos enfoques e perspectivas de investigação. Como núcleo duro das 7

Mais informações sobre os projetos nos quais participei como coordenadora científica e as respectivas pesquisas publicadas encontram-se nas Referências ao final deste artigo.

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hipóteses de investigação encontram-se a reflexão sobre a realidade da apropriação cotidiana das novas tecnologias e a construção de identidades e narrativas pelos atores em rede, em diferentes realidades sócio-históricas e culturais e que desembocam na adoção do conceito de literacias digitais e/ou MIL – literacias de mídia e informação para qualificar as novas habilidades de comunicação, busca de informações e produção de conhecimento dos atores conectados.

REFERÊNCIAS BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Nacionais Anísio Teixeira. Censo da Educação Profissional 1999. Brasília, 1999. Disponível em <http://portal.inep.gov.br/educacao-profissional>. Acesso em: 05 out. 2014. ESHET-ALKALAI, Y. Digital literacy: A conceptual framework for survival skills in the Digital Era”. In: Jornal of Educational Multimidia and Hypermedia, v.13, n.1, 2004. Disponível em <http://www.editlib.org/p/4793>. Acesso em 18 set. de 2008. FLORIDI, L. Information: A very short introduction. Oxford: Orford University Press, 2010. FRAU-MEIGS, D. Transletramento: operar a transição digital e o domínio das culturas da informação. Comunicação & Educação, v.19, n.2, p.61-73, set. 2014. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/view/83358>. Acesso em: 29 set. 2014. GARRISON, D. R. E-learning in the 21st century: a framework for research and practice. 2.ed. New York: Routledge, 2011. GLEICK, J. Informação: uma história, uma teoria, um dilúvio. [S.I]: Círculo de Leitores, 2012. LATOUR, B. Reagregando o social: introdução à teoria do ator-rede. Salvador: EDUFBA/EDUC, 2012. LEMOS, A. A comunicação das coisas: teoria ator-rede e cibercultura. São Paulo: Annablume, 2013. MARTÍN-BARBERO, J. A comunicação na educação. São Paulo: Contexto, 2014. MORIN, E. Introdução ao Pensamento Complexo. Porto Alegre: Sulina, 2007. PASSARELLI, B.; Silva, A. M. da; Ramos, F. (Orgs.). E-Infocomunicação: estratégias e aplicações. São Paulo: Editora SENAC, 2014. PASSARELLI, B. et. al. Identidade Conceitual e Cruzamentos disciplinares. In: PASSARELLI, B.; SILVA, A. M. da; RAMOS, F. (Orgs.). E-Infocomunicação: estratégias e aplicações. São Paulo: Editora SENAC, 2014. p.79-121. 127


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PASSARELLI, B.; AZEVEDO, J. (Orgs.). Atores em rede: olhares luso-brasileiros. São Paulo: Editora SENAC, 2010. PASSARELLI, B.; JUNQUEIRA, A. H; ANGELUCI, A. C. B. Os nativos digitais no Brasil e seus comportamentos diante das telas. Matrizes, v.8, n.1, p.159-178, 2014. SILVA, A. M. da. Informação e comunicação: as duas faces de Jano. In: Prisma.com: Revista de Ciências e Tecnologias de Informação e Comunicação do Cetac.media, v.2, 2006. Disponível em: <http://repositorioaberto.up.pt/bitstream/10216/26181/2/000106377.pdf>. Acesso em: 26 maio 2015. TRICLOT, M. Le moment cybernétique: la constitution de la notion d’information. Seyssel: Éditions ChampVallon, 2008.

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9 O PROFISSIONAL BIBLIOTECÁRIO COMO MEDIADOR NO CONTEXTO DAS PRÁTICAS DE ENSINO DA UNIVERSIDADE

Ana Paula Alves Teixeira Van Erven Louzada apteixeira@micro.ufrj.br Daniele da Fonseca Garamvolgyi e Silva daniele@ct.ufrj.br Daniele Masterson Tavares Pereira Ferreira daniele.masterson@ccsdecania.ufrj.br Patricia Carvalho Mendes patriciaauday@yahoo.com.br Programa de Pós-Graduação em Biblioteconomia Universidade Federal do Estado Rio de Janeiro (UNIRIO) Cássia Costa Rocha Daniel de Deus cassiacdeus@gmail.com Centro de Ciências da Saúde. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Heloisa Helena Costa h2costa@gmail.com. Instituto de Química. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Resumo: Objetiva apontar as ações inovadoras mais relevantes proporcionadas pela mediação, que integram atividades biblioteconômicas e demandas da comunidade acadêmica para produção técnicocientífica e configura a importância da disseminação em informação na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mostra o processo de organização dos workshops em Fonte de Informação, organizados por um grupo de bibliotecários dos Centros de Saúde e Tecnologia, como insumo às práticas inovativas. Aborda o papel do bibliotecário tanto com as antigas tecnologias, quanto as novas, para o desenvolvimento das diferentes habilidades do profissional num processo dinâmico que configura: a construção e estreitamento das relações do bibliotecário e o usuário nas diferentes atividades de pesquisa. Dessa forma, a realização dos workshops espelha também os objetivos da mediação proporcionada ao refletir sobre as temáticas, revelar os acervos e motivar debates entre pares que auxiliem a construção do conhecimento. Palavras-Chave: Mediação; Competência em Informação; Workshops; Bibliotecas Universitárias.

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1 INTRODUÇÃO A Biblioteca Universitária por meio da análise e disseminação de acervo especializado disponibiliza a comunidade acadêmica, informações, que assimiladas, promovem o enriquecimento do saber, a tomada de decisões e o desenvolvimento de novas ações, transformando informação em conhecimento. Essa instituição vem, contudo, sofrendo constantes transformações que extrapolam limites físicos de espaço, pois profissionais da biblioteconomia vêm ampliando sua atuação, através de propostas dinâmicas educacionais. Inserido na Sociedade da Informação, o bibliotecário é impulsionado a criar estratégias que viabilizem o acesso a informações correntes e as inovações produzidas por elas, o que favorece crescimento e aprimoramento do aprendizado. A Informação, a Comunicação e a Educação tornamse, portanto, processos integrados assegurados pelo fazer humano da mediação. O mediador é capaz de estabelecer um plano direcionado a explorar ferramentas de informação, descobrir recursos tecnológicos e participar das práticas sociais organizados em torno da disseminação da informação, com objetivo de estabelecer estreita relação entre a informação, tecnologia e produtividade de modo a agregar valor aos meios sociais. O papel de filtrar e mediar a informação na Organização, que dá ênfase ao compartilhamento da Academia é validado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As atividades mediadoras se caracterizam, pela riqueza da produção acadêmica, focada em inovação e materializada nas palestras e treinamento de bases de dados, durante a realização de atividades como o caso dos workshops em Fontes de Informação, organizados por um grupo de bibliotecários dos Centros de Saúde e Tecnologia da Universidade. O estudo pretende apontar as ações inovadoras mais relevantes proporcionadas pela mediação onde integração da prática biblioteconômica às demandas da comunidade acadêmica para a produção técnico científica, configura um cenário dinâmico para a biblioteca e fortalece a importância da disseminação em informação na UFRJ.

2 METODOLOGIA Como etapa inicial do trabalho de disseminação da informação e entendendo a importância da mediação dentro da Universidade, um grupo de bibliotecários identificou a necessidade de criar um evento que divulgasse atividades de pesquisa cientifica e inovação na UFRJ, e que ao mesmo tempo fosse atrelado a capacitações em bases de dados. Através de reuniões periódicas, formalizou-se o Workshop em 131


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Fontes de Informação, que buscou descobrir novas ações elaboradas na Universidade, identificar bases especializadas nas áreas de Saúde e Tecnologia, integrar as áreas acadêmicas, mediar, discutir e divulgar inovação no campus da Universidade. Elaborou-se um planejamento no qual se definiu o objetivo do projeto, quais recursos seriam necessários, quais parcerias poderiam ser estabelecidas e quais iriam fariam parte do escopo para a realização deste evento. A precisão no planejamento estratégico, operacional e financeiro possibilitou a recepção dos convidados, a reserva dos espaços, a aquisição de material de apoio e a concepção de um canal de divulgação. Como resultado evidenciou-se a prática de mediação na rotina de uma biblioteca universitária, pois o próprio fazer do workshop foi caracterizado como atividade mediadora fora dos muros da biblioteca. Um ambiente virtual foi criado em parceria com a Superintendência de Tecnologia da Informação e Comunicação da Universidade - TIC - para o registro, promoção e armazenamento das palestras do evento que reforça a disseminação da informação.

3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Ao refletirmos sobre a colaboração das Universidades no desenvolvimento social e tecnológico de um país, percebemos a responsabilidade destas instituições na geração de conhecimento e formação de indivíduos que atuem de forma ética e crítica, tornando-se agentes ativos para progresso da sociedade. Nesse cenário, acreditamos que a biblioteca universitária e o profissional da informação tem um papel importante, e deve assumir a posição de agente mediador procurando não só contribuir e incentivar o acesso autônomo às fontes informacionais, mas também mantendo uma comunicação próxima e direta com os usuários, buscando fomentar a formação de redes sociais onde seja possível fortalecer os laços entre pares, através da ampliação de espaço para discussões e circulação de informações na biblioteca (SANTOS, 2014). Partindo desse pressuposto e seguindo a reflexão de Almeida Júnior (2009), o conceito de mediação não deve ser entendido como a figura de uma ponte, uma vez que essa representação dá a ideia de algo estático, que leva apenas um elemento de um ponto a outro, sem interferências no trajeto. Em sua visão, o autor considera que o fenômeno da mediação é influenciando pelos atores envolvidos nestas ações: profissionais da informação e os usuários. Diante do exposto, percebemos a 132


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mediação da informação como uma troca, uma “via de mão dupla”, onde a construção do conhecimento tem como dinâmica a informação, o usuário e o bibliotecário, cada um contribuindo de forma ativa para o processo de geração e disseminação do saber. Dessa forma, Almeida Júnior acredita que: A interferência não deve ser negada, mas, sim, explicitada, afirmada, tornada consciente para que, criticamente, o profissional possa lidar com ela de maneira a amenizar/minimizar possíveis problemas que dela decorram. Há uma linha tênue entre interferência e manipulação. A consciência de sua existência, bem como da realidade da interferência, permite não a eliminação da manipulação, mas a diminuição de seus riscos e de suas consequências (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.94).

Corroborando com o pensamento de Almeida Júnior (2009), acreditamos que o conceito de mediação está inteiramente ligado a todas as atividades do profissional da informação, podendo ser apresentado de forma implícita ou explícita. A primeira ocorre sem a presença física e direta do usuário. Já a mediação explícita ocorre inevitavelmente com a presença do usuário, mesmo que esta não seja física (meio virtual). Assim, a mediação ocorre no momento em que o bibliotecário instiga o aprendiz a refletir sobre sua própria competência, tornando-o autoconfiante, autônomo e independente para continuar o aprendizado (DUDZIAK, 2003, p.33). Nesse sentido, o bibliotecário deve trabalhar diretamente com o desenvolvimento de competências e habilidades em informação de seus usuários, dando-lhes subsídios para torná-los cidadãos capazes de desenvolver habilidades para reconhecer efetivamente suas necessidades de informação, utilizar de forma eficiente as múltiplas fontes informacionais disponibilizadas, trabalhar eticamente com os dados coletados e gerar conhecimento que possa ser implementado para o bem social. O

comprometimento

dos

bibliotecários

envolvidos

na

elaboração e

implementação de ações voltadas para a promoção da competência em informação é de suma importância, uma vez que é necessário traçar um plano estratégico onde devem

ser definidas as etapas práticas

das atividades voltadas para

o

desenvolvimento da competência em informação. Assim, o plano estratégico deve delinear a missão e os objetivos pretendidos; especificar os recursos (humano, financeiro e tecnológico) que serão necessários para a execução das atividades; definir as práticas que serão desenvolvidas e as parcerias que podem ser estabelecidas; traçar um cronograma e por fim, realizar uma avaliação da eficácia global das ações, verificando se os objetivos e metas estão sendo alcançados. 133


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Entendendo a importância da mediação e do desenvolvimento da competência em informação dos usuários dentro das bibliotecas universitárias, fica evidente a relevância de se instituir ações que possam ir além das atividades cotidianas nas unidades de informação. Dessa forma, torna-se essencial a implementação não só de atividades que divulguem, facilitem e estimulem o uso das fontes informacionais disponíveis, mas também que acompanhem o desenvolvimento dos usuários no processo de construção de saber de forma ética e eficiente. Num olhar reflexivo sobre a perspectiva de acesso ético à informação percebemos também que: [...] o mediador da informação social torna-se capaz de articular, entre os atores sociais, quais informações circulam, valorando umas em detrimento de outras. Deste modo, a mediação esbarra nas relações de poder e controle, uma vez que a informação mediada pode sofrer com o interesse de quem está no centro da mediação (GONÇALVES; MASSENSINI, 2010).

A percepção e prática reflexiva por parte do mediador pode minimizar os efeitos negativos surgidos a partir do monopólio informacional ou da não análise crítica sobre o contexto o qual está inserido. Este pensamento pode ser observado com a afirmação de Almeida Júnior (2009, p.93) “[...] a mediação da informação é um processo histórico-social. O momento em que se concretiza não é um recorte de tempo estático e dissociado de seu entorno. Ao contrário: resulta da relação dos sujeitos com o mundo”. No ambiente acadêmico a motivação do processo de mediação representa também a conexão da comunidade acadêmica e consequentemente a percepção por parte dos envolvidos, de manter uma integração capaz de possibilitar a interação prática para diferentes motivações que caracterizam o fazer de atividades acadêmicas e que desdobram novas atuações técnico-científicas. A atividade técnico-científica envolve diferentes atores e a proximidade entre eles é um desafio pela dimensão física da universidade. Assim, a mediação deve possibilitar de forma dinâmica a integração entre os sujeitos envolvidos, tanto das atividades individuais quanto nas coletivas, mediante um diálogo reflexivo que colabore para o alcance dos objetivos envolvidos nas práticas de pesquisa. Nesse contexto, percebendo a necessidade de expandir as práticas de mediação para o desenvolvimento da competência em informação dentro da Universidade Federal do Rio de Janeiro, bibliotecários desta instituição formaram uma

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rede de colaboração com o intuito de desenvolver um evento para capacitação dos usuários e discussões envolvendo a temática de inovação e fontes de informação.

4 DISCUSSÕES Os workshops são compreendidos como encontros temporários com caráter de treinamento, direcionados a um grupo de pessoas com interesses em comum em determinado projeto ou atividade específica. Seu principal objetivo consiste em aprofundar a discussão sobre determinado tema, fazendo com que o público participe intensamente e apreenda durante as práticas. A parceria estabelecida por bibliotecários responsáveis pelas bibliotecas da Escola de Química (EQ), Instituto de Química (IQ) e Instituto de Macromoléculas (IMA) e com a colaboração do Sistema de Bibliotecas e Informação - SiBI /UFRJ deu início ao Workshop de Fontes de Informação, que tinha como intuito agregar palestras, discussões e capacitações em fontes informacionais disponíveis na Universidade. A comemoração do ano internacional da Química que ocorria em 2011 motivou a organização do evento que contemplava as fontes de informação e discussões neste campo do conhecimento. A primeira edição do Workshop explorou a evolução histórica da química, o estado da arte da área, as fontes de informações, as possibilidades de busca e estratégias de pesquisa nas bases de dados disponibilizadas pela Universidade. Nesse encontro, participaram, não só profissionais da comunidade acadêmica da UFRJ e da Universidade Federal Fluminense (UFF), como também de instituições como Petrobras, Instituto Nacional de Tecnologia (INT), Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) e representantes da base de dados. O sucesso dessa primeira empreitada ocasionou o desejo de continuidade dos trabalhos, que se materializaram por quatros anos consecutivos. O intuito era expandir a abrangência do público alvo não só para profissionais de informação, mas também docentes e discentes de outras áreas do conhecimento. No entanto, para realizar um projeto desta dimensão havia como premissa, a elaboração de um planejamento baseado em um conjunto de ações que visaram a administração de capital humano e financeiro capazes de promover um evento para uma construção coletiva de conhecimento e mediação de diferentes saberes.

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Durante a fase de organização, foram realizadas reuniões para mapear as necessidades do público e averiguar quais temas deveriam ser abordados durante o evento, além de traçar as estratégias de marketing que seriam utilizadas. A partir da concretização do II Workshop, ampliou-se a equipe de bibliotecários da UFRJ que trabalharam em torno de assuntos e fontes de Informação voltadas para as áreas de química, saúde e tecnologia, formando uma rede de colaboração entre as bibliotecas Centrais do Centro de Ciências da Saúde (CCS), do Centro de Tecnologia (CT) e das bibliotecas do Instituto de Macro Moléculas (IMA) e Instituto de Microbiologia (IMPPG). Durante o período que abrange os anos de 2011 a 2014, as temáticas como propriedade intelectual, inovação tecnológica, impacto social e o elo entre academia e a indústria foram as abordagens exploradas nos encontros. Para além de propulsar a criação de um ambiente inovador na sociedade, esses eventos ofereceram a oportunidade da mediação entre os profissionais da informação nas diferentes áreas de atuação e a interação com o público alvo diversificado. Ao fim de cada edição, foi realizada uma avaliação, através de um questionário on-line, enviado a cada participante, com o objetivo de mensurar o desempenho deste evento e visando aprimorar a organização de futuras edições. As respostas obtidas através dos questionários reforçaram a opinião da comissão organizadora de que o evento promove oportunidades de integração de pesquisas na universidade e funciona como recurso de disseminação das contribuições acadêmicas para a sociedade, descaracterizando a força da dispersão de inúmeras pesquisas realizadas dentro da instituição. Ao longo destes quatro anos de trabalho, podemos destacar o sucesso e a visibilidade crescente que o evento ganhou dentro e fora da Universidade, ressaltando a última edição, que teve como diferencial uma maior integração das ações, mediante o compartilhamento entre os palestrantes, das pesquisas em andamento na própria instituição. Assim, o evento propiciou um espaço de diálogo significativo, para troca de experiência entre áreas representativas no processo de inovação. Como um exemplo desta significativa troca de experiências, divulgação de pesquisas realizadas nos laboratórios e propostas de comunicação cientifica no campus da UFRJ, destacamos uma palestra proferida durante o III Workshop: inovação tecnológica e social que integra Pesquisa -- Ensino -- Extensão. O relato de 136


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experiência do projeto “Ciência com Micróbios”, exposto em 2013, é um exemplo de inovação com impacto no aspecto social e que articula de forma direta com uma das bibliotecas universitárias. Alane Beatriz Vemelho, autora do projeto e escritora dos livros infantis da coleção Microfamília, buscou o apoio da biblioteca do Instituto de Microbiologia para difusão da temática sob a ótica infantil. A participação no projeto de extensão iniciou-se com a contação de história dos livros, em escolas da rede pública e no espaço da biblioteca do Instituto, que foi ambientado para receber alunos do ensino fundamental para um circuito de atividades compostas de apresentação do universo microbiano; observação microscópica e atividades lúdico- didáticas. As demais palestras, de igual importância e pertinentes a temática de cada workshop não cabem apresentação, mas foram exploradas e debatidas durante os eventos. Como forma de salva guardar, disponibilizar e divulgar essas informações para a comunidade acadêmica e o público externo, a equipe em parceria com a Superintendência de Tecnologia da Informação e Comunicação -- TIC elaborou o site do workshop (http://www.workshopfi.ufrj.edu.br/). A memória dos workshops está registrada neste sitio, onde pode-se encontrar as informações a respeito do surgimento, evolução, abrangência do evento e o conteúdo das palestras. Ao longo dos quatro anos de trabalho, destaca-se como principal diferencial deste projeto a iniciativa de propiciar um espaço de diálogo significativo, para troca de experiência entre áreas representativas no processo de inovação e construção do conhecimento entre pares.

5 CONCLUSÕES O trabalho permitiu o aprimoramento das atribuições do bibliotecário, ou seja, de suas responsabilidades sociais frente a antigas e novas tecnologias inseridas no mesmo evento. Segundo Neves (apud LOUREIRO, 2005) o desenvolvimento e habilidades vêm do comportamento dos profissionais marcados por iniciativas como: trabalho em equipe, habilidades de comunicação e competência em avaliar a importância e a mediação das informações. Fica evidente a impossibilidade de concentrar em um só perfil profissional todas as variáveis da informação e do conhecimento nas diferentes atividades acadêmicas conduzidas pela universidade. Reforça-se a integração da mediação profissional no contexto das bibliotecas 137


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universitárias, pois cabe a elas, refletir sobre temáticas, revelar acervos e motivar debates entre pares que auxiliem a construção do conhecimento. Os objetivos se direcionam para a disseminação do conhecimento. Fortaleceram-se serviços da Biblioteca Universitária e mostram-se imperativas as atuações bibliotecárias na mediação. Apontou-se para o desafio da prática biblioteconômica referente à postura profissional onde o objeto de trabalho é a informação, valorizou-se o espaço da biblioteca e se estimulou seu uso para promoção e interlocução com a comunidade interna e externa da UFRJ.

REFERÊNCIAS ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação e múltiplas linguagens. Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, Brasília, v.2, n.1, p.89103, 2009. ________. Profissional bibliotecário: um pacto com o excludente. In: BAPTISTA, S. A. G.; MUELLER, S. P. M. (Org.). Profissional da informação: o espaço de trabalho. Brasília: Thesaurus, 2004. p.70-86 DUDZIAK, Elizabeth Adriana. Information literacy: princípios, filosofia e prática. Ciência da Informação, Brasília, v.32, n.1, p.23-35, jan./abr. 2003. Disponível em: <http://revista.ibict.br/ciinf/index.php/ciinf/article/view/123> Acesso em: 13 out. 2013. GONÇALVES, Ghisene Santos Alecrim; MASSENSINI, Rogério Luís. Mediação informacional no contexto da Educação à Distância online, DataGramaZero, v.11, n.4, 2010. Disponível em: <http://dgz.org.br/ago10/Art_04.htm> Acesso em: 20 maio 2015. LOUREIRO, Mônica de F.; JANNUZZI, Paulo de Martino, Profissional da informação: um conceito em construção. Transinformação, Campinas, v.17, n.2, p.123-151, maio/ago. 2005. Disponível em: http://periodicos.puccampinas.edu.br/seer/index.php/transinfo/article/view/696. Acesso em: 10 abr. 2014. SANTOS, Raquel do Rosário; GOMES, Henriette Ferreira; DUARTE, Emeide Nóbrega. O papel da biblioteca universitária como mediadora da informação para construção de conhecimento coletivo. DataGramaZero, Rio de Janeiro, v.15, n.2, abr. 2014. Disponível em: <http://www.dgz.org.br/abr14/Art_04.htm>. Acesso em: 16 jun. 2014.

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10 PARA UMA ECOLOGIA DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO ENQUANTO ELEMENTOS DE ANÁLISE PARA A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA ORGANIZACIONAL: O CASO DA IMIGRAÇÃO JAPONESA DE MARÍLIA

Natacha Kajimoto kajimotofunai@hotmail.com Vinícius Santarém viniciussantarem1@hotmail.com Vinícius Aleixo Gerbasi vinicius.gerbasi@yahoo.com.br Mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp).

Resumo: Diante de uma sociedade interativa e informacional pouco se pensa na questão de como produzimos, disseminamos e acessamos o conhecimento. A globalização produziu um mundo interconectado e inter-relacionado, no qual se trocam informações através de um processo comunicacional contínuo e dinâmico. Nesse contexto a Gestão do Conhecimento (GC) e a Gestão da Informação (GI), seja no âmbito empresarial, seja em organizações e instituições culturais apresentam modelos metodológicos adequados para a recuperação, organização e a disseminação das informações e conhecimentos. Esse trabalho tem como objetivo discutir alguns pontos teóricos e metodológicos no que diz respeito à GC e da GI aplicados aos espaços informacionais. Apresenta, como objeto de estudo empírico, a imigração japonesa, focando, sobretudo sua identidade e seus valores, parte de um universo simbólico e cultural específico. Defende que para que se traga à luz tais ‘conteúdos’, a recuperação da memória através de ‘repositórios do conhecimento’, bem como sua disseminação constitui importante ferramenta, seja para a construção da memória em si, seja para a geração de conhecimentos, seja para sua socialização, objetivo principal da GC e da GI. Palavras-Chave: Gestão do Conhecimento; Gestão da Informação; Memória organizacional; Cultura; Imigração Japonesa.

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1 INTRODUÇÃO A mudança sócioeconômica para a sociedade globalizada, pós-capitalista, onde o conhecimento passa a ser considerado o principal insumo das atividades, traz a administração do conhecimento organizacional como uma das principais ferramentas de gestão e, ao mesmo tempo, o apresenta como um desafio.

O conhecimento é uma fonte inesgotável, pois quanto mais disseminado, utilizado e compartilhado, maior torna-se o seu valor agregado. O único impeditivo ao trabalho com o conhecimento está nas pessoas e na própria cultura organizacional. CAPRA (2002 apud VALENTIM; WOIDA, 2004, p.3) conceitua organização como “(...) uma totalidade integrada através de diferentes níveis de relações, sua natureza é dinâmica e suas estruturas não são rígidas, mas sim flexíveis embora estáveis. Ela resulta das interações e interdependência de suas partes”. Valentim (2006) ressalta a importância de se compreender as organizações como núcleos da sociedade, no sentido que elas congregam pessoas, sustentam a economia, geram empregos, profissionaliza e especializa a atuação dos indivíduos, em suma, influencia a cultura, a educação e a própria sociedade. Este estudo objetiva relatar a importância da memória organizacional das associações japonesas em Marília juntamente com a gestão da informação e do conhecimento, para ampliar e compreender como elas e também as colônias japonesas foram criadas dentro da sociedade brasileira, afim de contribuir para a preservação e a disseminação do conhecimento da trajetória de vida desses imigrantes. Percebe-se que os japoneses tinham como base valores culturais como família e educação entre os mais representativos dessa construção e que apesar das muitas dificuldades encontradas, pode-se dizer que todas foram superadas e o sucesso do esforço dos antepassados reflete até nos dias de hoje, ou seja, os japoneses buscaram fortalecer em suas tradições os principais fatores para que se possibilitasse uma construção de sua identidade e cultura em terras estrangeira.

2 REFERENCIAL TEÓRICO A informação e o conhecimento possuem papel fundamental no âmbito da Ciência da Informação, porquanto são tanto objeto quanto fenômeno. Assim, todos os processos afetos à informação e ao conhecimento interessam para o campo da Ciência da Informação. 141


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Para Silva (2004) a informação é o conjunto de representações mentais codificadas socialmente, contextualizadas e passíveis de serem registradas num qualquer suporte material e, portanto, comunicadas de forma assíncrona e multidirecionada. Silva (2004) destaca que é particularmente importante entender a Gestão do Conhecimento (GC) e, em especial, a Teoria do Conhecimento, porquanto é possível analisar de forma mais aprofundada as discussões referentes às diferenças entre dados, informação e conhecimento. Como sabemos, o conhecimento é fruto somente da mente humana, por isso só seres humanos criam e entendem os acontecimentos para que estes possam se tornar informações. Na sociedade da informação, a comunicação e a informação tendem a permear as atividades e os processos de decisões nas diferentes esferas da sociedade (MIRANDA, 2000, p.80).

Para qualquer tipo ou modelo de sociedade a informação é muito importante, pois é através dela que se consegue compreender o contexto e, a partir disso, tomar uma decisão para uma ação. Na Sociedade da Informação existe um grande estoque informacional sobre variados temas, em diversos formatos e para distintos públicos, fator determinante para se gerar conhecimento. Nesse contexto, a humanidade necessita registrar sua existência e, para tanto, necessita registrar sua história. A história da imigração japonesa para o Brasil também está inserida na Sociedade da Informação, pois apresenta conhecimento para ser compartilhado e disseminado para a toda a sociedade. Este inestimável repertório permite tanto o compartilhamento de conhecimentos, informações e dados, quanto promove o desenvolvimento do capital humano e os princípios da solidariedade entre os povos (MIRANDA, 2000, p.81).

Para que a cultura e identidade dos imigrantes japoneses sejam preservadas, é necessário que a comunicação passe a ser usada pela sociedade e, através disso, possa tornar conhecida as distintas histórias existentes sobre esse processo.

2.1 Identidade e cultura A identidade, se cria, não de apenas um eu verdadeiro e único, mas sim de diálogos sobre os conceitos, definições e práticas que acabam sendo representadas

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por nós mesmos, pela nossa cultura, e pelo nosso desejo de responder aos significados e de assumir a posição constituída por nós e para nós. Silveira (2010, p.68) explica que “A partir da década de 1960, conceitos como memória, discurso identitário e identidade social (seja esta individual ou coletiva) se tornaram

aportes

indispensáveis

para

explicar

as

relações

humanas

na

contemporaneidade”. Sabemos que nós nos identificamos com os nossos pares através de uma cultura e uma identidade. A cultura define a identidade de um povo, e a identidade é o reconhecimento desse povo em relação aos demais, é também através dela que cada um deles se identifica dentro sua própria cultura, e conseguem diferenciar os que pertencem a esta ou àquela cultura, ou seja, a identidade é a fonte de significado e experiência que um povo possui. A identidade também é construída em referência aos outros, para que haja aceitação e credibilidade, e isso só é possível a partir da negociação direta com os outros, ela pode ser compreendida como a essência de um grupo ou de um indivíduo. Em um ponto de vista sociológico, toda a identidade é construída pela história, geografia, biologias, instituições, memórias coletivas e individuais, porém, tudo isso é processado e reorganizado de acordo com o significado em que o indivíduo irá aplicálo. Para Castells (1999), identidades são fontes mais importantes de significado do que papéis, por causa do processo de autoconstrução e individuação que envolve. Em termos mais genéricos, pode-se dizer que identidades organizam significados, enquanto papéis organizam funções. Entende-se por papéis ou um conjunto de normas que a sociedade estabelece para influenciar a auto-representação do indivíduo como um ser social, todos precisamos assumir papéis para vivermos em sociedade. Sendo assim, pode-se dizer que identidade e cultura formam um sistema de retroalimentação indivisível, onde o sujeito individual ou o coletivo, está no meio e é a base para a construção e reconstrução ao mesmo tempo em que o sujeito necessita destes para manter seu carater social e trabalha para a manutenção da sociedade ao qual está inserido. Segundo Morin (1999), as aptidões cognitivas humanas só podem desenvolver-se no seio de uma cultura que produziu, conservou, transmitiu uma linguagem, uma 143


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lógica, um capital de saberes, critérios de verdade. É nesse quadro que o espírito humano elabora e organiza o seu conhecimento utilizando os meios culturais disponíveis. Toda cultura tem seus próprios valores e os indivíduos têm ambições diferentes e seguem seus impulsos para alcançar a sua felicidade. Em todas as culturas encontramos instituições diferentes, onde os indivíduos buscam seus interesses, os costumes diferentes com qual ele se identifiquem.

2.2 Construção das colônias e associações japonesas Em busca de manterem o sentimento de pertencimento a sua sociedade de origem, e tentarem se inserir em uma outra sociedade, os japoneses que imigraram para outros países estabeleceram relações que incluíam os valores culturais para a preservação de padrões específicos da sua cultura, vários grupos foram criados para organizarem estratégias para viabilizarem a adaptação deles às novas circunstâncias, iniciando-se assim as ideias de criação de unidades socioculturais para que se desenvolvesse uma aliança entre eles. Isso aconteceu da mesma forma no Brasi, a partir do início da imigração japonesa. Tal qual um popular dito japonês, que diz bastar reunirem-se três japoneses, que se fundava uma associação, antes da guerra era impossível existir um lugar habitado por japoneses em que não houvesse uma associação japonesa. E em todas elas, por menor que fossem, haveria de existir sempre um presidente, um tesoureiro e um membro encarregado de assuntos educativos, para que se pudesse atender aos seus principais objetivos: a “confraternização de seus membros” e a “educação dos filhos dos mesmos”. A “confraternização” significa reunirem-se para comer e beber, e a “educação” construir uma escola de japonês e contratar um professor (HANDA, 1987, p.761).

A partir de uma crise que se estabeleceu no Brasil em 1922, o governo começou a cancelar os subsídios que incentivavam a imigração japonesa. Por esse motivo, vários trabalhadores que deixaram as fazendas cafeeiras foram procurar trabalho de forma autônoma, acreditando que colônias começariam a serem criadas para que pudessem viver com suas famílias, dentro de sua identidade e cultura. Mas como isso não ocorreu, eles se viram obrigados a improvisar colônias e fundar associações para que dessa maneira, aqueles que não compreendiam a língua portuguesa não ficassem totalmente desamparados.

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Para Morin (1999), a linguagem é tão necessária à constituição, à perpetuação e ao desenvolvimento da cultura quanto à inteligência, ao pensamento e à consciência do homem; tão consubstancial ao humano que se pode dizer que a linguagem faz o homem. Pode-se dizer que o fato de inexistir uma boa comunicação entre os japoneses e os brasileiros fazia com que os padrões de condutas para que pudessem viver aqui sem problemas, ficassem mais difíceis de serem entendidos, criando assim uma necessidade ainda maior de se viver em grupos e criarem associações. Segundo Handa (1987), o trabalho coletivo rende, e, mais tarde, proporciona prazer. As associações criadas pelos japoneses tinham o objetivo de “através da confraternização, dedicar-se ao desenvolvimento e progresso do núcleo”. A educação dos filhos era uma outra preocupação constante dos japoneses que viram mais uma vez a solução na criação de associações, assim, muitos se associaram a elas somente pelo fato de ouvirem que haveria escolas. A “tarefa” que cumpria executar, custasse o que custasse, para o desenvolvimento e o progresso do núcleo vinha a ser a educação (HANDA, 1987, p.282). Entretanto, a construção de colônias trouxe inúmeros transtornos, como a saúde e higiene precária em que viviam esses imigrantes, o que propiciou graves surtos de doenças, que fizeram muitas vítimas fatais. Um levantamento denunciou a grande disseminação de doenças endêmicas como malária, leishmaniose, contaminação por lombriga, tracoma, tifo intestinal, além de outras. Em não poucas locadidades, mais da metade dos colonos submetidos ao exame estava contagiada. Em algumas delas, a proporção chegava a 100% (TOYAMA, 2009, p.160).

Por motivos como a falta de compreensão da língua e pelo alto valor dos exames, raramente os colonos procuravam médicos. Como uma tentativa de mudança desse quadro, o governo japonês passou a doar subsídios para se que se criasse uma associação que tivesse medidas de saneamento básico. Criou-se assim, a Associação Beneficente Santa Cruz, onde os imigrantes japoneses contavam com médicos japoneses para cuidarem dos problemas de saúde, tudo isso custeado por setores públicos e privados no Japão. Os imigrantes podiam viver completamente à vontade na sociedade formada por seus conterrâneos, a ponto de esquecerem que tinham emigrado para um país estrangeiro (HANDA, 1987, p.475). 145


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A construção de colônias e a fundação de associações, contribuíram para amenizar a saudade que os japoneses tinham do seu país, tornando mais fácil a vida aqui. Mas não só, as associações contribuíam também para a geração de conhecimento entre seus integrantes, tanto no nível pessoal, quanto no nível institucional. O fortalecimento do grupo mediante a compreensão do ambiente em que se desenvolviam as relações seria um fator importante para a sobrevivência e desenvolvimento das próprias associações e dos grupos de participantes.

2.3 Gestão do conhecimento, gestão da informação e memória organizacional A gestão do conhecimento pode ser realizada com diferentes intuitos, um deles refere-se à construção de ‘repositórios de conhecimento’. Dessa forma, é possível utilizar vários métodos e técnicas que, uma vez aplicados, podem gerar informações relevantes para uma organização, governo, movimento, país. A gestão do conhecimento enfoca o conhecimento que as pessoas construíram e possuem a partir de experiências vivenciadas, seja em âmbito pessoal, seja em âmbito profissional. O conhecimento é mais do que experiência, é a forma como as organizações são capazes de se organizarem e se manterem verdadeiramente ativas nas funções que exercem. Essas organizações devem se estruturar e trabalhar com o conhecimento para que a cultura e sua identidade não se percam. Temos, portanto, o conhecimento como unidade valiosa para que as organizações assumam um papel de destaque dentro de uma sociedade. O conhecimento é primordial para sua estabilidade. Seria impossível entender a Gestão da Informação dentro das organizações sem uma compreensão de quais são seus principais componentes. O termo gestão é o processo que tem como função gerenciar os demais componentes. Entender a natureza da informação, bem como as suas relações com demais componentes, torna-se imprescindível para que se entenda de forma clara a relação e diferença entre dado, informação e conhecimento. Dado pode ter significados distintos, dependendo do contexto no qual a palavra é utilizada. Para uma organização, dado é o registro estruturado de transações. Genericamente, pode ser definido como um “conjunto de fatos distintos e objetivos, relativos a eventos” (DAVENPORT & PRUSAK, 1998, p.2). É informação bruta, 146


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descrição exata de algo ou de algum evento. Os dados em si não são dotados de relevância, propósito e significado, mas são importantes porque compõem a matériaprima essencial para a criação da informação. Informação é uma mensagem com dados que fazem diferença, podendo ser audível ou visível, e onde existe um emitente e um receptor. É o insumo mais importante da produção humana. “São dados interpretados, dotados de relevância e propósito” (DRUCKER, 1999, p.32). É um fluxo de mensagens, um produto capaz de gerar conhecimento. É um meio ou material necessário para extrair e construir o conhecimento. Afeta o conhecimento acrescentando-lhe algo ou reestruturando-o. Conhecimento deriva da informação assim como esta, dos dados. O conhecimento não é puro nem simples, mas é uma mistura de elementos; é fluido e formalmente estruturado; é intuitivo e, portanto, difícil de ser colocado em palavras ou de ser plenamente entendido em termos lógicos. Ele existe dentro das pessoas e por isso é complexo e imprevisível. Segundo DAVENPORT e PRUSAK (1998, p.6), “o conhecimento pode ser comparado a um sistema vivo, que cresce e se modifica à medida que interage com o meio ambiente”. Os valores e as crenças integram o conhecimento, pois determinam, em grande parte, o que o conhecedor vê, absorve e conclui a partir das suas observações. NONAKA e TAKEUCHI (1997, p.63) observam que “o conhecimento, diferente da informação, refere-se a crenças e compromisso”.

Figura 1: Dados, Informação e Conhecimento.

Fonte: Davenport e Prusak – 1998 – p.18.

Estes mesmos autores classificaram o conhecimento humano em dois tipos: conhecimento tácito e conhecimento explícito. Estes conceitos se aplicam claramente à criação e consolidação das associações de imigrantes japoneses.

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O conhecimento tácito é difícil de ser articulado na linguagem formal, é um tipo de conhecimento mais importante. É o conhecimento pessoal incorporado à experiência individual e envolve fatores intangíveis como, por exemplo, crenças pessoais, perspectivas, sistema de valor, insights, intuições, emoções, habilidades. Só pode ser avaliado por meio da ação. Conhecimento explícito é o que pode ser articulado na linguagem formal, inclusive em afirmações gramaticais, expressões matemáticas, especificações, manuais etc., facilmente transmitido, sistematizado e comunicado. Ele pode ser transmitido formal e facilmente entre os indivíduos. Uma informação é convertida em conhecimento quando um indivíduo consegue relacioná-la a outras informações, avaliando-a e entendendo seu significado em um determinado

contexto.

O

conhecimento

quando

adequadamente

capturado,

organizado e disseminado possibilita a geração de novas ideias e novos conhecimentos, em uma espiral crescente. Esse foi o modo dominante de conhecimento na tradição filosófica ocidental. Os conhecimentos tácito e explícito são unidades estruturais básicas que se complementam e a interação entre eles é a principal dinâmica da criação do conhecimento na organização. Segundo NONAKA & TAKEUCHI (1997, p.79), para se tornar uma “empresa que

gera

conhecimento”

a

organização

deve

completar

uma

“espiral

do

conhecimento”, espiral esta que vai de tácito para tácito, de explícito a explícito, de tácito a explícito, e finalmente, de explícito a tácito. Logo, o conhecimento deve ser articulado e então internalizado para tornar-se parte da base de conhecimento de cada pessoa. A espiral começa novamente depois de ter sido completada, porém em patamares cada vez mais elevados, ampliando assim a aplicação do conhecimento em outras áreas da organização. Conforme mencionado anteriormente, a gestão do conhecimento tem como um de seus objetivos gerar ‘repositórios de conhecimento’, a partir da explicitação do conhecimento individual, de forma a promover o acesso e a disseminação de maneira estruturada a uma determinada comunidade/sociedade. Dessa forma, o conhecimento individual (tácito/imaterial) pode se transformar em informação (explícito/material) e, assim, tornar-se objeto da gestão da informação.

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Informação e seu gerenciamento sempre foram temas recorrentes de pesquisa em diversas áreas do conhecimento. Desde a segunda metade do século XX tem crescido bastante o número de estudos relacionados ao tema, principalmente motivados pela crescente utilização dos computadores eletrônicos e a influência destes no tratamento de informações, buscando entender o relacionamento entre as profundas modificações decorrentes da popularização dos computadores na gestão organizacional e nos papéis desempenhados pelos diversos fatores organizacionais. Gestão do Conhecimento é o processo sistemático de identificação, criação, renovação e aplicação dos conhecimentos que são estratégicos na vida de uma organização. É a administração dos ativos de conhecimento das organizações. Permite à organização saber o que ela sabe preservando e disseminando sua cultura e identidade. Há mais de uma década, DRUCKER (1999) já alertava para o fato de que o trabalho e as relações humanas organizadas se tornavam cada vez mais baseado no conhecimento. “Somente a organização pode oferecer a continuidade básica de que os trabalhadores do conhecimento precisam para serem eficazes. Apenas a organização pode transformar o conhecimento especializado do trabalhador em desempenho”. Porém, avançou-se muito pouco sobre como se deveria gerenciar o conhecimento. Para que a gestão do conhecimento produza efeitos práticos nas organizações, deve estar plenamente ancorada pelas decisões e compromissos da alta administração a respeito das iniciativas necessárias em termos de desenvolvimento estratégico e organizacional, investimento em infraestrutura tecnológica e cultura organizacional, que celebre o trabalho em conjunto e o compartilhamento. A gestão do conhecimento tem um "caráter universal", ou seja, aplica-se a empresas de todos os portes e nacionalidades e a sua efetividade requer a criação de novos modelos organizacionais (estruturas, processos, sistemas gerenciais), novas posições quanto ao papel da capacidade intelectual de cada colaborador e uma efetiva liderança disposta a enfrentar, ativamente, as barreiras existentes ao processo de transformação. Tuomi (1999 apud SILVA, 2004) explica os elementos dados, informação e conhecimento tratando-os de forma hierárquica, em que dados são simples fatos que 149


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podem se transformar em informação, a partir da atribuição de significado por um sujeito cognoscente; ao passo que a informação pode tornar-se conhecimento, se for compreendida e apropriada por um sujeito cognoscente, que ao relacioná-la ao conhecimento prévio, pode tornar-se um ‘novo’ conhecimento. Para Machado Neto (1998 apud VALENTIM, 2002) a gestão do conhecimento refere-se a um [...] conjunto de estratégias para criar, adquirir, compartilhar e utilizar ativos de conhecimento, bem como estabelecer fluxos que garantam a informação necessária no tempo e formato adequados, a fim de auxiliar na geração de ideias, soluções de problemas e tomada de decisões.

Resalta-se que a elaboração de uma memória organizacional está relacionada a ambos os tipos de gestão, quais sejam, a gestão do conhecimento e a gestão da informação, porquanto primeiramente é necessário atuar junto ao sujeito cognoscente para extrair informações relevantes sobre determinado tema/assunto que somente ele possui, após isso ser feito, isto é, obter conhecimento explícito é possível selecionar, tratar, analisar, organizar, processar e disseminar informações a um determinado público. Laudon e Laudon (2004, p.325-326) explicam que memória organizacional “[...] é a aprendizagem armazenada a partir do histórico de uma organização, e que pode ser utilizada para a tomada de decisões ou outras finalidades”. No âmbito da gestão do conhecimento (GC) buscar junto a um sujeito cognoscente o conhecimento sobre um determinado momento histórico exige a aplicação de métodos e técnicas específicas. Nesse sentido, ressalta-se que apenas parte da memória de um sujeito cognoscente pode ser recuperada, devido ao tempo que se passou entre o fato ocorrido e a explicitação do fato, bem como a seletividade da própria memória do sujeito como, por exemplo, fatos traumáticos que, geralmente, são ‘apagados’ da memória daquele que a experimentou. Silva (2004) destaca que é particularmente importante entender a GC e, em especial, a Teoria do Conhecimento, porquanto é possível analisar de forma mais aprofundada as discussões referentes às diferenças entre dados, informação e conhecimento. Adotar-se-á os conceitos de dados, informação e conhecimento de Davenport e Prusak (1998) conforme mostra figura 1. Para qualquer tipo ou modelo de sociedade a informação é muito importante, pois é através dela que se consegue compreender o contexto e, a partir disso, tomar uma decisão para uma ação. Na Sociedade da Informação existe grande estoque 150


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informacional sobre variados temas, em diversos formatos e para distintos públicos, fator determinante para se gerar conhecimento. Nesse contexto, a humanidade necessita registrar sua existência e, para tanto, necessita registrar sua história. Podemos inferir, então, que o papel das colônias e associações de imigrantes japoneses, para além do acolhimento das famílias e do espaço de lazer e colaboração, era também o de preservar e transmitir o conhecimento gerado pelos imigrantes, individual ou coletivamente, de modo a garantir que a cultura e a identidade japonesas pudessem ser mantidas num novo ambiente. A esse papel de preservação, soma-se também o papel de articulador da cultura e do conhecimento produzido, num processo de mudança cultural inevitável, considerando as diferenças existentes entre a sociedade de origem (o Japão) e a sociedade de destino (o Brasil).

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Uma pesquisa bibliográfica aprofundada contribui sobremaneira para o rigor metodológico e com a escolha do método e/ou métodos que serão empregados no decorrer do estudo. Como o objeto empírico da pesquisa é a memória, a cultura e a identidade japonesas, a qual será realizada por meio da História Oral, e o uso da entrevista como instrumento de coleta de dados, entende-se que o estudo teórico aqui apresentado vai além de uma revisão de literatura ou revisão bibliográfica, pois essa abordagem auxilia na identificação conceitual, na compreensão temporal dos fatos, na consciência histórica e indenitária dos sujeitos, que serão evidenciadas no estudo das fontes e documentos ao longo da pesquisa.

4 RESULTADO E DISCUSSÃO Para

Toyama

(2008),

Imigrantes

de

diversas

procedências

e

seus

descendentes construíram neste país suas histórias, que, ao longo dos anos, confluíram como afluentes, formando uma nova etnia e uma nova sociedade. Isso é Brasil. Pode-se deduzir que a história dos japoneses e seus descendentes seja um desses afluentes que ajudaram a formar a multiculturalidade brasileira. As colônias e associações japonesas que foram fundadas no Brasil contribuíram muito para a disseminação da cultura japonesa e para a construção da identidade no Brasil. Elas nasceram com o intuito de dar suporte aos japoneses que 151


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aqui se encontravam, surgiram diversas associações em todas as camadas sociais e elas se tornaram passa-tempo em diversas colônias. O Brasil tem hoje a maior comunidade japonesa no mundo fora do Japão. Portanto, pode-se dizer que a imigração japonesa no Brasil teve um começo difícil mais que deu certo na medida em que obteve sucesso na questão de preservar diferentes identidades culturais num mesmo território, as culturas se fortaleceram na troca e no diálogo. Muitos descendentes se espelham nos exemplos de trabalho, dignidade, perseverança e disciplina de seus antepassados e tem consciência de que precisam preservar essa identidade ao longo da história para geração futuras, sempre respeitando as mais variadas culturas aqui existentes. Assim, como a memória de um sujeito não pode ser recuperada totalmente, os ensinamentos trazidos pelos japoneses e os que estão sendo construídos por eles, podem ser armazenados e recuperados preservando a memória organizacional dessas associações japonesas para que futuramente essas informações possam ser disseminadas para que seus descendentes não percam o conhecimento da importância da imigração japonesa para o Brasil e de suas origens. REFERÊNCIAS CASTELLS, M. O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999, 530p. DAVENPORT, T. Ecologia da Informação. São Paulo: Ed. Futura, 1998. GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: ZAHAR, 1964. HANDA, T. O imigrante japonés: história de sua vida no Brasil. São Paulo: T.A. Queiroz: Centro de Estudos Nipo-Brasileiro, 1987, 828p. LAUDON, K. C.; LAUDON, J. P. Sistemas de informação gerenciais: administrando a empresa digital. 5.ed. São Paulo: Prentice Hall, 2004. 562p. MORIM, E. O método 3. Porto Alegre: Sulina, 1999. 288p. MORIN, E. Método 5: A humanidade da humanidade – A identidade humana. Porto Alegre: Sulina, 2007. NONAKA, I.; TAKEUCHI, H. Criação de conhecimento na empresa: como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. 16. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997. 358p.

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11 O MEDIADOR DA INFORMAÇÃO CONTÁBIL E A COMPETÊNCIA EM INFORMAÇÃO

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Luis Fernando Conduta fernando.condutta@gmail.com Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp) - Professor da ETEC/Marília. João Arlindo dos Santos Neto santosneto@uel.br Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp) Professor do Departamento de Ciência da Informação Universidade Estadual de Londrina (UEL). Oswaldo Francisco de Almeida Júnior ofaj@ofaj.com.br Barbara Fadel bafadel@facef.br Docentes do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp) Resumo: Competência em informação envolve habilidades, conhecimentos, valores, atitudes e comportamentos. O presente trabalho discute os temas competência em informação, informação contábil, mediação e mediador da informação contábil. Relata que algumas competências em informação são fundamentais para os profissionais contábeis atuarem nas organizações. Apresenta uma relação de competências necessárias aos mediadores da informação contábil a partir dos parâmetros estabelecidos por Bernadete Campello, tendo em vista os usuários e as necessidades apontadas na Norma Brasileira de Contabilidade (NBCT 1). Reconhece que aperfeiçoar as competências e as habilidades profissionais relacionadas à informação contábil influencia o modo como os dados e as informações serão mediadas aos usuários. Conclui que entre as competências elencadas, existem outras que precisam ser amplamente debatidas e discutidas na área das Ciências Contábeis, mas que as apresentadas neste trabalho podem influenciar futuras discussões. Palavras-Chave: Mediador da Informação Contábil; Competência em Informação; Informação Contábil.

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1 INTRODUÇÃO Devido aos grandes avanços na economia, tanto em sua escala mundial como nacional, o ambiente organizacional está se tornando cada vez mais competitivo, e para que as organizações consigam se destacar neste ambiente, as mesmas buscam alternativas para coletar o maior número possível de informações de cunho estratégico e que lhe proporcionem uma relevante contribuição ao seu processo decisório. Segundo Drucker (1998) o contexto altamente competitivo faz com que as empresas se voltem cada vez mais para o seu ambiente externo, prestando muita atenção nas ameaças e oportunidades que emergem no mercado. Em um ambiente concorrencial globalizado as organizações bem sucedidas trabalham a informação em potencial e o conhecimento como um capital de valor estratégico/simbólico; afirma-se isto, pois se percebe a informação e o conhecimento como processo e não como “coisa”. É necessário elucidar que ao se discorrer sobre informação neste trabalho, refere-se à informação contábil.

Para isto, recorre-se à área da teoria da

contabilidade, que tem como objetivo fornecer informações aos seus usuários tanto internos como externos, para que eles possam proceder com uma decisão mais assertiva. Sendo assim, ressalta-se que esse estudo possui uma abordagem interdisciplinar entre a Ciência da Informação (CI) e a Ciências Contábeis (CC), agregando maior valor aos estudos na área da CI, devido ao fato de que as questões abordadas proporcionaram um novo arcabouço teórico aos estudos da área, bem como contribuíram para disseminação de uma visão sobre a informação contábil e consequentemente uma discussão para consulta a futuros estudos nessa temática. A contabilidade tem a capacidade de gerar diversos tipos de informações que contribuem para decisões importantes nas organizações, tais informações, delineadas e direcionadas para seus gestores, proprietários ou seus acionistas, traduzem a atual e a futura realidade financeira de uma organização. No atual contexto organizacional, a informação é um recurso imprescindível, podendo representar uma vantagem competitiva para determinada organização (McGEE, PRUSAK, 1994; BEUREN, 2000). As organizações, em especial, contábeis, produzem muitos dados e informações potenciais em seus processos, no entanto eles acabam não sendo utilizados de forma estratégica e assertiva devido a ausência de um mediador, que faça tanto a coleta e organização delas, bem como sua mediação. 157


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O montante de dados e informações está exposto diariamente e isso demanda um gerenciamento dessas informações (BEUREN, 2000), sendo este aspecto parte integrante do processo decisório dos dirigentes e gestores dentro das organizações. Se administrar é decidir, a continuidade de qualquer negócio depende das decisões tomadas pelos gestores dos vários níveis organizacionais (ASSAF NETO; SILVA, 1997) dentro das atividades de planejamento e controle. Foram elencados anteriormente, de maneira breve, os aspectos intrínsecos entre a teoria da contabilidade e a CI e, subsequentemente, descritas algumas de suas relações, sendo assim direciona-se o texto para uma descrição mais analítica da presente proposta, sendo que a mesma está baseada na relação entre competência em informação, mediação da informação, informação contábil e os usuários de tais informações. Diante do exposto, parte-se da seguinte questão-problema: O mediador da informação contábil contribui com os resultados das organizações? A partir dessa questão e das reflexões sobre o tema, entende-se que as competências em informação podem auxiliar na busca de respostas para essa questão. Sendo assim, o trabalho teve como objetivo geral: conhecer e analisar as competências em informação que o mediador da informação contábil possui ou deveria possuir para que o mesmo consiga proporcionar melhores resultados as organizações. As discussões desenvolvidas nesse estudo tiveram como base central as características qualificativas das informações contábeis, essas previstas na Norma Brasileira de Contabilidade (NBCT). Neste trabalho, optou-se por analisar a NBTC 1 Estrutura Conceitual para a Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis, que “[...] estabelece os conceitos que fundamentam a preparação e a apresentação de demonstrações contábeis destinadas a usuários externos.” (BRASIL, 2008). Em relação aos objetivos específicos: identificar quais são as competências em informação mais requeridas dos mediadores da informação contábil; conhecer e analisar o modo como o mediador da informação se relaciona com suas competências e como ele busca as competências exigidas para essa função. Quanto aos procedimentos metodológicos, a presente pesquisa classifica-se como bibliográfica e quanto à abordagem do problema classifica-se como qualitativa. Segundo Gil (2008, p. 44), a pesquisa bibliográfica é “[...] desenvolvida com base em 158


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material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos.” E na pesquisa qualitativa se considera que “[...] há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números.” (SILVA; MENEZES, 2005, p. 20). Neste tipo de abordagem, a interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados são fundamentais.

2 COMPETÊNCIA EM INFORMAÇÃO As constantes mudanças ocorridas na sociedade contemporânea e a explosão dos novos dispositivos tecnológicos de certo modo contribuem para o crescimento de um novo meio cultural, transformação dos meios de produção e também alteração na congruência de novos saberes por parte dos sujeitos presentes nessa sociedade. Desse modo, para considerar os usuários como peça chave nas mudanças ocorridas nessa sociedade, faz-se necessário uma redefinição de parâmetros, sendo assim, os olhares se voltam para as habilidades e competências exigidas desses usuários. A partir da distribuição e ligação de conceitos destacados anteriormente remete-se tais discussões a questão da competência, que se compreende como a habilidade e facilidade que o ser humano (usuário) tem em realizar uma tarefa qualquer com total êxito. É possível também definir competência como sendo uma capacidade para fazer algo ou aptidão para resolver um problema, porém não se pode restringir o conceito de competência como sendo apenas a habilidade e facilidade em fazer algo, pois ele envolve outros fatores. No discurso de Coneglian, Santos e Casarin (2010, p. 257) “[...] pode-se dizer que competência é a capacidade para usar habilidades, conhecimentos, atitudes e experiência adquirida para desempenhar um propósito.” Infere-se que a competência além de estar relacionada com as habilidades, também está com o conhecimento e com as atitudes de um sujeito. Dentre os diferentes termos e interpretações/traduções a respeito da Information Literacy (termo empregado na literatura inglesa, com diversas traduções para o português), optou-se por trabalhar com o termo competência em informação (CoInfo), e para isso sustenta-se no pensamento de Belluzzo (2008, p. 13), ao afirmar que: É uma área onde o processo de ensino e aprendizagem deve centrar-se e constitui um processo contínuo de interação e internalização de fundamentos conceituais, atitudinais e de habilidades específicas como referenciais à compreensão da informação e da sua abrangência, em busca da fluência e

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das capacidades necessárias à geração do conhecimento novo e sua aplicabilidade ao cotidiano das pessoas e das comunidades ao longo da vida.

A American Library Association (1989, tradução nossa) afirma que “Para ser competente em informação, a pessoa deve reconhecer quando precisa de informação e possuir habilidade para localizar, avaliar e usar efetivamente a informação”. Seguindo essa mesma ótica de visualização e conceituação acerca da competência em informação, Lloyd (2003, p. 2, tradução nossa) discorre que: Uma pessoa competente em informação tem uma profunda consciência, conexão e fluência com o ambiente informacional. Pessoas competentes em informação são empenhadas, capacitadas, enriquecidas e incorporadas pela informação social, processual e física que constitui um universo de informações. Competência em informação é um modo de conhecer esse universo.

A definição da ALA e de Lloyd se complementam, acredita-se que a CoInfo envolve realmente os elementos apontados nos discursos e que são de extrema relevância, no entanto, perdura ainda a inquietação sobre a dificuldade de se conseguir elencar todos aqueles elementos em um único sujeito, pois existem limitações divergentes em cada indivíduo. Os pensamentos expostos até aqui vislumbram o indivíduo em sua forma unitária, não remetendo aos aspectos intervenientes proporcionados pelo contexto social, político, cultural, estético, porém ao reconhecer a CoInfo como um elemento importante para o desenvolvimento de uma sociedade Belluzzo (2006, p. 82) relata que a mesma: Está calcada em duas dimensões distintas: a primeira, um domínio de saberes e de habilidades de diversas naturezas, que permite a intervenção prática na realidade, e a segunda, uma visão crítica do alcance das ações e o compromisso com as necessidades mais concretas que emergem e caracterizam o contexto social.

Incluindo neste processo o usuário, destaca-se a CoInfo sob o contexto social devido a necessidade de o sujeito conseguir se apropriar das informações dispostas e que poderão satisfazer suas necessidades informacionais momentaneamente. Para tal são requeridas competências a fim de identificar, selecionar e utilizar informações que lhe serão mais úteis para o desenvolvimento de alguma atividade ou processo. No presente trabalho, enfoca-se o usuário e o mediador da informação contábil. No universo contábil existe uma gama imensa de informações, gerada a partir de várias subáreas da própria contabilidade, desse modo cabe ao profissional que medeia essas informações possuir competência para conseguir fazer com que seus 160


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usuários se apropriem de informações que lhe serão úteis e contribuam de forma assertiva aos seus processos decisórios.

3 MEDIAÇÃO E O MEDIADOR DA INFORMAÇÃO CONTÁBIL Antes de se discutir acerca da mediação e do mediador da informação contábil, é necessário conceituar o que é a informação contábil. Sendo assim, de acordo com Yamamoto e Salotti (2006, p. 5): [...] a informação contábil pode ser considerada como aquela que altera o estado da arte e do conhecimento de seu usuário em relação à empresa e, a partir de interpretações, a utiliza na solução de problemas, sendo a natureza da informação contábil, entre outras, econômico-financeira, física e de produtividade, assim a informação contábil tem como consequência a ratificação ou alteração da opinião de seus usuários a respeito das atividades da empresa.

Infere-se a partir do exposto, que a informação contábil é aquela que modifica o estado cognitivo do usuário, e que sua natureza pode ser econômico-financeira, física e de produtividade. Considerando as afirmações anteriormente expostas, podese afirmar que “[...] a informação contábil-financeira é a ferramenta de comunicação da situação econômico-financeiro da organização.” (CONDUTA; FADEL, 2014, p. 3). Portanto, é a partir da perspectiva acima exposta que poder-se-á discutir sobre a mediação da informação contábil. A mediação da informação é discutida principalmente na CI e em diferentes equipamentos informacionais, sob múltiplos olhares. Para que a mediação ocorra é necessário que haja a interposição de um terceiro, isto é, algo ou alguém que medeie uma relação entre dois ou mais elementos (SANTAELLA; NÖTH, 2004; DAVALLON, 2007; MARTELETO, 2009), este terceiro não precisa necessariamente ser um sujeito, ele pode ser um objeto, um som, uma imagem, uma linguagem etc. (SANTOS NETO, 2014). A presença do terceiro é fundamental, pois sem ele não há mediação. Rodrigues (2000, p. 84), define mediação como, “[...] processos de interlocução ou interação entre os membros de uma comunidade, pelo qual se estabelece, alimentam ou restabelecem laços de sociabilidade, constituindo assim o mundo da vida.” Portanto, a mediação pressupõe a existência de um conflito, seja lá qual for a sua natureza, mas quando se discute a mediação da informação, conclui-se que o conflito neste caso é informacional. A ideia de mediação consiste em “[...] uma intervenção intencional, de um ‘colocar-se entre’ e, por meio justamente desta ação, fazer se relacionarem diferentes 161


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sujeitos, instituições e instâncias.” (ARAÚJO, 2012, não paginado). Nesse caso, infere-se que a mediação é intencional, é pensada, não é neutra e nem passiva, ela se posiciona para que determinadas relações possam ser estabelecidas, sejam essas, relações pessoais ou institucionais (SANTOS NETO, 2014). Ao reconhecer a existência de conflitos informacionais no âmbito contábil, acredita-se que a mediação neste contexto é fundamental, pois ela propiciará o estabelecimento das relações entre os usuários e as informações contábeis. Outro elemento a ser destacado é a questão da intencionalidade que está atrelada a mediação, que não se dá de maneira passiva. No pensamento de Almeida Júnior (2015) a mediação da informação é um processo que se dá nas ambiências dos equipamentos informacionais com o intuito de satisfazer momentaneamente a necessidade informacional de um sujeito e que este se aproprie da informação. Descolando o universo em que a mediação da informação ocorre, isto é, dos equipamentos informacionais para as organizações contábeis, vislumbra-se que a mediação que se dá nesses espaços é a mediação da informação contábil. Conceitua-se ela como a interferência realizada pelo profissional da informação contábil, no âmbito das organizações contábeis, visando o uso da informação contábil, a modificação no estado cognitivo do usuário e a apropriação das informações ali geradas, com o intuito de estas serem insumo para a tomada de decisão. Nestes ambientes, muitas são as informações geradas e a presença de um mediador que colete, analise e as medeie é fundamental. Os relatórios contábeis, por exemplo, são documentos fundamentais para a tomada de decisão numa organização, mas se estes estiverem dispersos e não recuperáveis, podem acarretar prejuízos para empresa. A forma como esses relatórios serão mediados interferem também na interpretação e no uso deles pelos usuários externos da organização. Ressalta-se que o mediador não atuará somente nos momentos de tomada de decisão pela organização ou quando seu trabalho for solicitado, mas prevendo situações e conflitos dentro daquele ambiente, atuando tanto de maneira implícita quanto explícita. Esta distinção entre mediação implícita e explícita, apresentada por Almeida Júnior (2008), pode ser também adaptada às práticas informacionais contábeis. Neste caso, as ações implícitas estariam ligadas ao momento em que o profissional da 162


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informação contábil estiver analisando e descrevendo os documentos e relatórios gerados pela organização, sem o contato com os usuários; e as explícitas, seriam aquelas em que a presença do usuário é fundamental, como a busca por esses relatórios, o acesso e uso das informações ali contidas e a tomada de decisão. Estas ações mediativas, requerem, no entanto, um aperfeiçoamento e capacitação por parte deste mediador da informação contábil. Dentre eles, destaca-se a CoInfo como um elemento essencial para a mediação e, para isto, apresenta-se uma discussão inicial sobre as competências que são necessárias ao mediador da informação contábil.

4 COINFO PARA O MEDIADOR DA INFORMAÇÃO CONTÁBIL Até o presente momento discutiu-se a CoInfo, a informação contábil e o mediador da informação contábil. Acredita-se que essa discussão inicial foi de grande valia para o estabelecimento embrionário das competências em informação necessárias

ao

mediador

da

informação

contábil.

Ressalta-se

que

essas

competências não possuem caráter prescritivo e determinista. Para tal, foi preciso analisar a NBTC 1 - Estrutura Conceitual para a Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis, com o intuito de conhecer os usuários das informações contábeis e suas necessidades informacionais. Inicialmente indica-se os usuários a que esta discussão se refere e suas necessidades de informação, sob a perspectiva da NBCT 1, como segue a exposição a seguir:

Quadro 1 - Usuários e necessidades de informação Usuários

Investidores

Empregados

Credores por Empréstimos

Necessidades de informação Se preocupam com o risco inerente ao investimento e o retorno produzido, necessitam de informações para ajudá-los a decidir se devem comprar, manter ou vender investimentos, que os habilitem a avaliar se a entidade tem capacidade de pagar dividendos. Interessados em informações sobre a estabilidade e a lucratividade de seus empregadores, que lhes permitam avaliar a capacidade que tem a entidade de prover sua remuneração, seus benefícios de aposentadoria e suas oportunidades de emprego. Necessidades para o dia a dia do trabalho. Buscam informações que lhes permitam determinar a capacidade da entidade em pagar seus empréstimos e os correspondentes juros no vencimento. 163


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Fornecedores e outros credores comerciais

Clientes

Governo e suas agências

Público

Interessados em informações que lhes permitam avaliar se as importâncias que lhes são devidas serão pagas nos respectivos vencimentos. Provavelmente estão interessados em uma entidade por um período menor do que os credores por empréstimos, a não ser que dependam da continuidade da entidade como um cliente importante. Interesse em informações sobre a continuidade operacional da entidade, especialmente quando têm um relacionamento a longo prazo com ela, ou dela dependem como fornecedor importante. Interessados na destinação de recursos e, portanto, nas atividades das entidades, em informações a fim de regulamentar as atividades das entidades, estabelecer políticas fiscais e servir de base para determinar a renda nacional e estatísticas semelhantes. As entidades afetam o público de diversas maneiras. Elas podem, por exemplo, fazer contribuição substancial à economia local de vários modos, inclusive empregando pessoas e utilizando fornecedores locais. As demonstrações contábeis podem ajudar o público fornecendo informações sobre a evolução do desempenho da entidade e os desenvolvimentos recentes. Fonte: Adaptado de Brasil (2008).

Vários são os usuários da informação contábil e cada um deles possui uma necessidade. Essa é específica ao seu universo de atuação, e quando se refere aos usuários da informação contábil, reconhece-se que a mediação não será a mesma para todos os indivíduos, isto é, para os clientes será uma e para os fornecedores será outra, e assim por diante. A mediação varia conforme, principalmente, os mediandos envolvidos no processo, mas também de acordo com o contexto e o mediador responsável. Deste modo, percebe-se que há elementos necessários ao mediador da informação contábil para agir no ambiente organizacional e um deles é a CoInfo, com o objetivo de identificar, analisar, compreender e prospectar as informações a quem as deseja e/ou precisa, no caso os usuários indicados no quadro 1. A partir da identificação dos usuários contábeis e das suas necessidades informacionais, foi possível estabelecer de maneira embrionária as competências em informação que se acredita ser necessárias ao mediador da informação contábil. Ressalta-se que esta é uma discussão inicial e que não se pretende prescrever neste trabalho, como já alertado anteriormente as competências de forma impositiva e determinista. Estas são apenas reflexões e proposituras feitas a partir dos parâmetros indicados por Campello (2009) que foram comparadas e adaptadas aos requisitos do profissional da informação contábil, segundo as necessidades evidenciadas a partir da NBCT 1. Deste modo, sugere-se inicialmente as seguintes competências: 164


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- Reconhecer a necessidade de informação do usuário; - Formular perguntas a partir do reconhecimento das necessidades de informação; - Desenvolver e aplicar estratégias de busca e localização de informação; - Identificar uma variedade de fontes potenciais de informação; - Acessar a informação, relacionar-se e apropriar-se dela; - Perceber que a informação apropriada é a base para a tomada de decisões. Essas competências, quando incorporadas e compreendidas pelo mediador da informação contábil, proporcionarão às mesmas atitudes e decisões mais assertivas para o desenvolvimento de seus trabalhos e, consequentemente, sucesso para a organização onde esse mediador desenvolve seus trabalhos.

5 PRIMEIRAS CONSIDERAÇÕES Neste trabalho discutiu-se a relação entre a CoInfo e a mediação e o mediador da informação contábil. Tendo em vista o volume de dados e informações que são produzidos nas organizações, verificou-se a necessidade da presença de um mediador que estabeleça o diálogo e a interlocução entre os usuários e essas informações. Entretanto, reconhece-se que são necessárias algumas habilidades a este mediador, entre elas indica-se a CoInfo. A

CoInfo

envolve

diversos

elementos

como

o

conhecimento,

o

comportamento, a postura, as habilidades, as atitudes e os valores de um sujeito, acredita-se que estes elementos devem ser trabalhados em prol do sucesso da organização. Foram identificados os usuários e as necessidades informacionais contábeis a partir da análise da NBCT 1 e, com base nesta análise, apresenta-se algumas possíveis competências em informação necessárias a atuação do mediador da informação contábil, as mesmas foram elencadas no tópico CoInfo para o mediador da informação contábil. Não se pretende com este trabalho fechar as discussões sobre a CoInfo e o profissional contábil, mas sim, suscitar novos diálogos e reflexões sobre essa temática. Os estudos que relacionam mediação da informação contábil com a CoInfo deverão ter continuidade, para que assim seja possível aprimorar a compreensão acerca da relação entre essas duas temáticas e identificar com maior precisão quais 165


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são as competências informacionais exigidas ao mediador da informação contábil, isso sob a perspectiva dos mesmos, por meio de entrevistas e/ou questionários.

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12 ESTUDO DE GERAÇÕES: O PAPEL DO MEDIADOR DA INFORMAÇÃO NO PROCESSO DE INTELIGÊNCIA COMPETITIVA

Juliana Cardoso dos Santos julimath21@gmail.com João Arlindo dos Santos Neto santosneto@uel.br Doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp) Professores do Departamento de Ciência da Informação Universidade Estadual de Londrina (UEL) Oswaldo Francisco de Almeida Júnior ofaj@ofaj.com.br Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp)

Resumo: Discute os temas estudo de gerações, inteligência competitiva e mediação. Ressalta que a mediação é fundamental para a integração entre diferentes gerações no processo de inteligência competitiva no âmbito organizacional. Teve como objetivo verificar a percepção que os egressos do curso de Biblioteconomia possuem em relação ao estudo de gerações e a inteligência competitiva, a partir da mediação. Apresenta uma revisão bibliográfica, de caráter exploratório e utiliza como instrumento de dados o questionário eletrônico. Analisa os dados com o método da Análise de Conteúdo. Reconhece que mediar as diferentes gerações no ambiente das organizações, contribui para o processo de inteligência competitiva. Conclui que as organizações lidam com diferentes gerações, que necessitam ser mediadas para que processo de inteligência competitiva ocorra de forma positiva para a empresa. Palavras-Chave: Estudo de Gerações; Inteligência Competitiva; Mediação.

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1 INTRODUÇÃO O presente trabalho apresenta uma discussão sobre o Estudo de Gerações e, para isto, se estabelece uma relação entre a mediação e o mediador da informação no processo de inteligência competitiva dentro das organizações. Diante do contexto em que rápidas mudanças vêm integrando indivíduos de diferentes gerações em um mesmo contexto, seja ele social, econômico ou cultural, destaca-se que saber lidar com as diferenças é fundamental. Quando se refere ao estudo de gerações, vários são os indivíduos que compõem este universo, estes são categorizados segundo Robbins (2005), Engelmann (2007), Khoury (2009), Cristiani (2010), Oliveira (2010), Lauer (2011) em cinco gerações: Geração Veteranos; Geração Baby Boomers; Geração X; Geração Y; Geração Z (Zapping) ou Geração Polegar etc. Uma característica que distinguia uma geração de outra, era a evidente distância temporal entre elas, que costumava ser de 20 anos e, hoje, esta caracterização se tornou menos clara, visto que dependendo das condições sociais, econômicas ou culturais em que o indivíduo está integrado não é possível definir claramente sua geração tendo como base apenas a sua faixa etária. Todas as gerações mencionadas estão no mercado hoje e devem trabalhar de forma sinérgica, principalmente quando se aborda o processo de inteligência competitiva (IC) que visa oferecer diferencial estratégico ao ambiente organizacional. Partindo do pressuposto de que a Ciência da Informação (CI) se preocupa, também, com o corpo de conhecimento relacionado à origem, seleção, organização, armazenamento, recuperação, interpretação, gestão, mediação e uso da informação tanto em sistemas naturais quanto artificiais, acredita-se que seja fundamental discutir sobre a mediação com gerações distintas, uma vez que, ao lidar com ela, discute-se também sobre o estudo de gerações e o processo de IC, que apresentam nesta heterogeneidade potencial competitivo. A informação é parte integrante da atividade humana, entende-se a como um processo em construção que colabora com o desenvolvimento do sujeito, visto que só se constrói conhecimento nas relações, pois os serem humanos são inacabados e a informação é subjetiva, sendo ela mediada por relações dialógicas. As gerações são um conjunto de pessoas que compartilham basicamente as mesmas ideias e se comportam de forma parecida, mas e quando se refere a várias 171


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gerações coexistindo em um mesmo ambiente? Como se alicerçar e apoiar no processo de mediação para o compartilhamento intencional da informação? O choque de gerações, desde que bem mediado, pode resultar num valioso reforço social, econômico e político, pois se cada indivíduo e, consequentemente, a geração num todo atuar em conjunto, as transformações sociais e profissionais podem ser enriquecedoras do ponto de vista organizacional. Para isso são apresentados inicialmente, os conceitos das referidas gerações, suas relações, algumas características das gerações presentes hoje no mercado de trabalho com o intuito de identificar as unidades/igualdades e ou dualidades/diferenças entre elas.

2 O ESTUDO DAS GERAÇÕES As gerações compartilham experiências comuns em processos sociais, econômicos ou culturais e, por conta da integração delas no mercado de trabalho, o pensar/agir coletivamente e o compartilhamento de ações e processos são necessários. Portanto, é imprescindível identificar individualidades, diversidades e conexões para que o processo possa ser mediado. A literatura não apresenta um consenso em relação a divisão temporal das gerações, os períodos de cada geração são encontrados com intervalos parecidos e, outras vezes, não. Para este trabalho, utilizou-se a maior incidência identificada na literatura consultada. A Geração Veteranos refere-se aos indivíduos nascidos entre 1922 e 1945. Destaca-se pelos seus valores pessoais e profissionais, e seus membros cresceram influenciados pela Grande Depressão, pela Segunda Guerra Mundial, entre outras instabilidades da época. Esta geração tem como principais valores o trabalho árduo e o conservadorismo, prezando pela estabilidade e sendo leais aos patrões e as organizações (ROBBINS, 2005). Para Reis et al. (2013, p. 4) a geração dos veteranos “[...] pertence a um grupo que diz conservar a tradição e a cautela [...]” e no ambiente de trabalho eles se destacam por ser uma equipe extremamente formal e cumpridora de regras. Como funcionários são pacientes e aguardam a hora certa de serem reconhecidos e recompensados; como patrões possuem um estilo de liderança autoritário. A Geração Baby Boomers compreende os nascidos entre 1941 a 1965 e o nome atribuído a esta geração se dá pelo alto índice de natalidade após a Segunda 172


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Guerra Mundial, ocasionado pela estabilização das famílias (CRISTIANI, 2010). Os membros dessa geração ingressaram como “força” de trabalho nas organizações entre 1965 e 1985 e ela se desenvolveu marcada por movimentos de Direitos Civis, pela irreverência dos Beatles e pela Guerra do Vietnã. No Brasil, foram influenciados pelo movimento Hippie, Ditadura Militar, etc. (ROBBINS, 2005). O conhecimento e a experiência dos membros desta geração não podem ser desperdiçados, e o mercado de trabalho volta-se para a importância de aproveitar esta disposição em sua gestão do conhecimento, transformando o que ainda é tácito em explícito. Essa geração cultiva valores trabalhistas como: o sucesso, a realização, a ambição, se opondo ao autoritarismo e a lealdade. Valorizam o bem estar e a qualidade de vida. A Geração X engloba os indivíduos nascidos entre os anos de 1965 e 1980. Ela cresceu num mundo em processo de transformação, principalmente em relação à força de trabalho feminino. Os sujeitos dessa geração ingressaram no mercado de trabalho entre os anos de 1985 a 2000 e têm preferência pela administração e economia. Ela foi influenciada pela Ditadura Militar, Movimento Diretas Já, pelas instabilidades econômicas, Guerra Fria, movimento Hippie “Paz e Amor”, queda do muro de Berlim e pelo Surgimento da AIDS. Essa geração “[...] tende a ter o foco em resultados, tem uma visão empreendedora e desenvolveu habilidade para aprender novas tecnologias para se manter no mercado” (KHOURY, 2009, p.124). Os membros valorizam títulos acadêmicos e entendem cargos hierárquicos como resultados de muito esforço. São caracterizados pelo imediatismo, porém os sujeitos são otimistas e confiantes demonstrando flexibilidade e criatividade. Preferem a informalidade, são autônomos e mais organizados, não gostam de ser controlados, privilegiando o lazer e os relacionamentos (ROBBINS, 2005). A Geração Y refere-se as pessoas nascidas entre 1978 e 1989, conhecidas também como geração internet e “generation why”8. Sua denominação deriva da palavra Young, por ser formada por jovens. Essa geração cresceu exposta às doenças (AIDS), presenciou o terrorismo como fenômeno mundial, vivenciam a evolução tecnológica e é a geração mais conectada as redes e tecnologias móveis. A pro atividade, a ambição, o otimismo e a valorização do trabalho em equipe são 8

A “geração do por que”, pois são muito questionadores e cresceram usufruindo das facilidades da tecnologia e gostam de receber atenção, creem em mudanças constantes e seu foco está no curto prazo (ENGELMANN, 2007).

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algumas das características desta geração, uma vez que está sempre ávida por desafios e consegue desenvolver multitarefas simultaneamente (KHOURY, 2009). Os sujeitos não são adeptos às regras preestabelecidas e a troca frequente de trabalho é encarada como natural. Não estão habituados a enfrentar ambientes autoritários e a esperar, e ainda necessitam de estímulos para exibirem reação. A geração Y tem como característica marcante a abertura à diversidade, pois aceita muito bem as diferenças étnico-raciais, sexuais, religiosas (ENGELMANN, 2007). A Geração Z9, isto é, os nascidos em meados dos anos 90, chegam ao mercado de trabalho esperando por um mundo semelhante ao seu, conectado, aberto ao diálogo, veloz e global. Com isso, as organizações se deparam com um desafio, o de se adaptar a essa mudança e atualizar seus negócios, criando novas formas de liderança e motivação. Por estar em mudança, desenvolver multitarefas e querer desafios constantes, reter esses talentos é um desafio para as empresas. Dessa forma Lauer (2011) elucida que eles não têm o foco como força, podendo se tornar profissionais dispersos e isso exige uma excelente relação inter e intrapessoal. Estão mais adaptados à relação entre homem/tecnologia, do que homem/homem, são colaborativos, criativos e comunicativos (OLIVEIRA, 2010).

3 O PROCESSO DE INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E AS GERAÇÕES O processo de IC é eficaz na medida em que potencializa a estratégia do negócio da organização, se faz necessário uma vez que é uma ferramenta que auxilia na tomada de decisão e como afirmam Prescott e Miller (2002, p. 29) “[...] a criação e o uso da inteligência é um processo social.”, portanto, humano, em que as informações de domínio público, geradas em fontes confiáveis e abundantes, constituem-se como base da construção estratégica e devem ser obtidas por vias éticas e legais, que alicerçadas em análises críticas proporcionam a previsão de cenários e tendências futuras. O processo de IC é condição fundamental para o sucesso de qualquer organização seja para o desenvolvimento de atividades profissionais, para o planejamento e operacionalização de atividades, para a definição de estratégias tendo em vista o mercado e a competitividade (VALENTIM et al., 2003). 9

A letra que dá nome a esse grupo vem do termo “zapear”, que é o ato de trocar de canal de TV constantemente pelo controle remoto (DICIONÁRIO..., 2015). 174


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A IC trabalha com a informação estratégica para a tomada de decisão, cuja coleta passa por várias fontes de informação envolvendo: dados econômicos, de mercado, cenários, clientes, fornecedores que devem ser transformados em informação com valor agregado, visando subsidiar a tomada de decisão e, ao mesmo tempo, estabelecer as metas estratégicas da empresa (BATTAGLIA, 1999). O processo informacional de IC conduz as organizações à tomada de decisão estratégica ou operacional baseada na antecipação. Os esforços de inteligência visam à descoberta das forças que regem os negócios, redução dos riscos envolvidos no processo decisório, condicionamento dos tomadores de decisões a agirem antecipadamente, além da proteção do conhecimento gerado, também chamado na literatura de contra inteligência (CARDOSO JUNIOR, 2006). Na tentativa de permanecer competitivas, as organizações “[...] se adaptam as transformações em curso, que as colocam diante de um desafio de seguir motivando e envolvendo pessoas a desenvolverem comprometimento onde atuam [...]” (COSTA et al., 2014, p. 2). Essas transformações acabam gerando de alguma forma, uma competitividade no ambiente organizacional e as organizações, sendo mais seletivas, buscam os profissionais mais qualificados. Acredita-se como fatores determinantes para o sucesso das organizações o estudo de gerações e os desafios das empresas, para manter os talentos das gerações Y e melhorar a convivência deles com os sujeitos de outras gerações a partir da mediação. Não se deve aplicar as mesmas regras de gestão para todas as gerações e esperar as mesmas respostas, sabendo que “[...] pessoas de diferentes gerações são selecionadas para compor os organogramas das empresas.” (SANTOS et al., 2011, Não paginado). O ambiente organizacional precisa conhecer as peculiaridades das gerações que possuem objetivos e comportamentos diferentes, a fim de criar competitividade e pontos positivos para a organização. Os processos que constituem as atividades de Inteligência são formados justamente por três dimensões: pessoas, informações e processos. A primeira envolve a seleção das informações, treinamento, alocação e gestão de equipes que atuam no refinamento do conhecimento; já a segunda envolve o que é de interesse da empresa e que será necessário para as pessoas aumentarem suas especialidades de conhecimento, tornando a IC significativa para os negócios da empresa; e, a terceira 175


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refere-se às atividades relacionadas à identificação, seleção, coleta, tratamento, disseminação das informações e sociabilização para a consolidação e ampliação do conhecimento organizacional, tendo como objetivo final a criação de um fluxo de informações de forma a responder as necessidades dos executivos no processo decisório (RODRIGUES; RISCAROLLI; ALMEIDA, 2011). A mediação dos saberes deve estar presente em todo processo de IC, pois cada geração possui formas diferentes de encarar estratégias competitivas e a organização tem que estar apta a potencializar forças e dirimir fraquezas para elevar seu potencial, agindo de forma estratégica para a tomada de decisão. No quadro abaixo são abordadas especificidades de cada geração e suas relações com o ambiente do trabalho, relacionando com suas expectativas em relação a benefícios, remunerações e ao estilo de liderança e gestão que preferem, estabelecidas a partir da revisão bibliográfica. Ressalta-se que a divisão abaixo explicitada, pode ser influenciada pelo caráter social, histórico, político, econômico, etc., isto é, um sujeito pode ter nascido num determinado período e apresentar características que o enquadram numa geração diferente daquela atribuída a sua faixa etária. A classificação do quadro abaixo não é fechada e determinista, apenas representa as divisões localizadas na literatura e elencadas para esta discussão. Quadro 1 - Gerações e suas relações com o ambiente de trabalho RELAÇÕES COM O TRABALHO

Trabalho árduo; Geração Veteranos

1922 - 1945

Conservadorismo; Buscam a Estabilidade; Prezam pela Lealdade. Valorizam o trabalho;

Geração Baby Boomers

1941 – 1965

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Foco em Mudanças e Revisão de Carreira; Criam identidade com a organização; Opõem-se ao autoritarismo e a lealdade.

BENEFÍCIOS; REMUNERAÇÕES E DESENVOLVIMENTO DE CARREIRA Cautelosos, Pacientes e aguardam a hora certa de serem reconhecidos e recompensados e acreditam na lógica pragmática; Foco no fazer; Valorizam recompensas e reconhecimento no trabalho; Buscam o bem estar, saúde e qualidade de vida.

ESTILO DE LIDERANÇA/GESTÃO Extremamente formais; Cumprem regras, Autoritários; Acompanhar todo o processo desde as contratações até as revisões de desempenho.

Gostam de gestão com estilo participativo


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Buscam independência em suas atividades; Geração X

Gostam de desafios; Possuem foco em resultados;

1965 – 1980

Tem uma visão empreendedora; Desenvolveram habilidades para aprender novas tecnologias.

Valorizam títulos acadêmicos e entendem cargos hierárquicos como resultados de muito esforço; São flexíveis, criativos e não gostam do controle;

Preferem o relacionamento informal com o líder; São autônomos e mais organizados.

Possuem um estilo de vida mais equilibrado, privilegiando o lazer, a família e os relacionamentos. Buscam formação constante;

Apreciam a liberdade e a velocidade, Geração Y

1978 - 1989

Gostam de desafios; São proativos, ambiciosos e otimistas; Valorizam o trabalho em equipe.

Anseiam por crescer rapidamente; Gostam de ambientes colaborativos no trabalho;

Esperam que o líder os oriente, que fique sempre por perto.

Valorizam o tempo livre. Foco no curto prazo; Aceitam bem diferença de raças, credos crenças etc. Valorizam recompensas, mas priorizam o bem estar;

Geração Z

Buscam locais conectados, abertos ao diálogo, velozes e com visão global; Abertos a desafios constantes;

1990 - 2010

Desenvolvem multitarefas, porém não são focados.

Gostam de resultados e reconhecimento rápido. Se desmotivam facilmente priorizam meios digitais, anseiam por isso no trabalho como ferramenta de aprendizado;

Esperam que o líder os oriente; Estão mais acostumados com a interação homem/tecnologia do que a interação homem/homem.

Podem ser dispersos e sem foco; Dificuldades com relações interpessoais e criatividade. Fonte: Dados extraídos da pesquisa.

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Infere-se que a inteligência do mundo dos negócios incorpora o monitoramento de fatos que ocorrem no ambiente externo e interno à organização. Portanto, o estudo das gerações existentes e das que virão em breve para integrar no mercado de trabalho, deve ser priorizado visando a competitividade. No processo de IC a ênfase reside na busca de informações que agreguem valor ao processo decisório, com o uso de diversos tipos e fontes de informação. Nesse contexto, as informações (que são subjetivas e podem ou não ser valorizadas pelos sujeitos) estão sempre ligadas aos conceitos de relevância e pertinência, pois o ciclo de inteligência se completa e reinicia quando a informação de alto valor é agregada para a organização tomar decisão, visando criar ou sustentar a vantagem competitiva, destacando-se que a vantagem nunca é estática ou permanente, sendo fundamental a realimentação do ciclo permanentemente. Inclui-se a mediação neste processo, justamente para estabelecer a dialogia entre as diferentes gerações e percepções informacionais estratégicas para o processo de IC.

4 MEDIAÇÃO COM AS GERAÇÕES NO PROCESSO DE IC Considera-se que para a ocorrência da mediação é imprescindível que haja um terceiro, e este, necessariamente não precisa ser um sujeito, mas pode ser um objeto, uma tecnologia etc. No entanto, no processo de inteligência competitiva, julga-se que a presença de um mediador humano é que facilitará o diálogo entre as diferentes gerações. Braga (2012, p. 32) discorre que “[...] em perspectiva genérica, uma mediação corresponde a um processo em que um elemento é intercalado entre sujeitos e/ou ações diversas, organizando as relações entre estes.” Compreende-se que a mediação se refere à interferência de alguém ou de algum elemento, com o intuito de melhorar as relações entre os sujeitos envolvidos. No entanto, essa mediação varia de acordo com a maneira que ela é desenvolvida, dos sujeitos que estão sendo mediados e principalmente do agente mediador. Numa organização, a mediação ocorrerá de diferentes maneiras conforme a necessidade. Além de ser planejada tendo em vista a cultura organizacional dos sujeitos envolvidos no processo de IC, ela também será realizada conforme o objetivo a ser alcançado pela organização.

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Para Araújo (2012, Não paginado) a ideia de mediação consiste em “[...] uma intervenção intencional, de um ‘colocar-se entre’ e, por meio justamente desta ação, fazer se relacionarem diferentes sujeitos, instituições e instâncias.” Infere-se que a mediação é intencional e que ela se posiciona para que determinadas relações possam ser estabelecidas, sejam elas pessoais, institucionais ou organizacionais. A mediação atua como elemento que transforma e/ou modifica uma situação atual, de acordo com Bastos (2012, p. 64) “Onde havia consenso social, as mediações fazem ver contestação. Onde havia identidade, as mediações veem conflito.” Sendo assim, tomando como ambiente de mediação uma organização com gerações acostumadas a lidar com problemas e buscar soluções sempre da mesma forma, a mediação fará com que haja mudanças nesta forma. Como já exposto, julga-se ser fundamental que a mediação no processo de IC seja realizada por um profissional, isto é, um mediador, e neste caso o profissional da informação. A atuação deste profissional tem uma participação fundamental no processo de IC e ele deve: estar apto às mudanças que ocorrem; lidar com uma equipe multidisciplinar; coletar informações em tempo real e de forma antecipada; ser comunicativo e empreendedor; ter visão holística; buscar atualização quanto às tecnologias e também à sua formação; conhecer a organização, a linha que está situada, o mercado e os clientes; entre outros. Acredita-se que a prática da IC ainda que não realizada pela maioria dos profissionais da informação, devido à baixa inserção destes nas organizações, é fundamental para a melhoria delas, além de ganhar mais reconhecimento, valorização e se tornar ponto de referência aos interessados no determinado ramo de mercado em que elas estão inseridas. Não se está afirmando que esses profissionais irão catalogar e classificar todas as informações coletadas e transformar o ambiente existente e moldá-lo como se fosse um equipamento informacional, mas sim, aproximar a área da CI, as práticas de análise e síntese de informação para contribuir com uma área “externa” à sua natureza, ou seja, atender as necessidades de uma comunidade usuária específica, neste caso, as organizações que lidam com o processo de IC.

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5 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Realizou-se uma breve revisão bibliográfica e o trabalho caracteriza-se por ser exploratório. Foram enviados questionários aos alunos do curso de Biblioteconomia da UEL, que cursaram a disciplina de Inteligência Competitiva no ano de 2014. O questionário teve como objetivo coletar dados a respeito da percepção e do entendimento que os alunos possuem em relação ao estudo de gerações e o processo de IC, relacionados com a mediação da informação nas organizações. O questionário eletrônico foi elaborado na plataforma Survey Monkey, com sete questões abertas e enviados por e-mail aos alunos. A análise dos dados deu-se por meio da Análise de Conteúdo que visa obter, a partir do estabelecimento de categorias extraídas do conteúdo das mensagens/respostas obtidas e que permitam a inferência de conhecimentos relativos ao tema questionado (BARDIN, c1977).

6 RESULTADOS E DISCUSSÃO No estudo buscou-se estabelecer relações entre o estudo de gerações e o papel do mediador no processo de IC, portanto vale enfatizar que se percebe a mediação como um processo de interlocução, isto é, um processo em construção que colabora com o desenvolvimento do sujeito. Acredita-se que o conhecimento só se dá nas relações, pois os seres são inacabados e a informação é subjetiva, sendo ela mediada por relações dialógicas. Antes de apresentar as análises, feitas com base na análise de conteúdo, categorizando as respostas pela proximidade dos discursos, enfatiza-se que o objeto do trabalho foi investigar com os sujeitos de pesquisa como a mediação pode contribuir com o processo de IC dentro do ambiente organizacional onde coexistem diversas gerações? Dos dezoito questionários enviados, foi recebido somente cinco repostas. Acredita-se que a justificativa pelo pouco número de respostas foi o fato de que os alunos escolhidos são egressos e, ao sair da universidade, não se interessam, em sua maioria, em participar de pesquisas e atividades acadêmicas. No primeiro questionamento buscou-se identificar o nível de conhecimento dos sujeitos quanto ao processo de IC e foi possível identificar que os respondentes consideram possuir um nível médio/intermediário em relação ao processo de IC. Já no segundo, investigou-se o conhecimento que os sujeitos possuem sobre o estudo de gerações e foi possível identificar que quanto ao entendimento sobre o 180


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referido estudo, dois sujeitos afirmaram que se refere a análise do comportamento de pessoas de diferentes épocas. Um respondente afirmou ser o estudo das características de cada sujeito, determinadas pela época e outro participante respondeu ser o entendimento sobre o funcionalismo das diversas gerações, levando em conta o conhecimento e a capacidade de cada indivíduo. Apenas um sujeito referiu-se ao estudo de gerações como a relação entre os sujeitos em uma organização. Percebeu-se que os sujeitos conhecem o significado da expressão “Estudo de Gerações” uma vez que apresentaram em suas repostas que as gerações compartilham experiências comuns em processos sociais, econômicos ou culturais e em um determinado momento. Ao se questionar a função do mediador numa organização, os respondentes indicaram ser a disseminação da informação e também elucidaram a necessidade de contribuir no desempenho e nos resultados da organização, buscando o melhor para ela. Pode-se relacionar as respostas ao pensamento de Braga (2012) em que a mediação corresponde a um processo entre sujeitos e/ou ações diversas, organizando as relações entre eles. Quanto à importância e relevância do papel do mediador da informação na interação com as gerações, dois sujeitos afirmaram ser importante, outros dois responderam ser de extrema importância essa atuação e um elucidou como sendo a mais importante dentro de uma organização. A partir das respostas, infere-se que todos os respondentes percebem a necessidade de um mediador e o valorizam. Atenta-se que a este mediador é necessária a capacidade em estabelecer o convívio entre as diferentes gerações, pois, inicialmente, esta integração visando a IC, pode gerar estranheza e desconforto entre os sujeitos, até mesmo porque são de diferentes gerações e possuem características e formas de pensar distintas. No quinto questionamento buscou-se identificar o papel do mediador no processo de IC. Os sujeitos afirmaram que é a coleta de dados e informações visando o desenvolvimento da organização; a orientação e o direcionamento para os colaboradores trabalharem com ética; buscar o perfil que a organização procura; e fazer com que a informação flua de forma ágil, coerente e legítima entre os setores e colaboradores. Percebe-se que nesta questão as respostas foram bastante divergentes, porém, complementares. A mediação atua como elemento que transforma e/ou modifica uma situação e tomando como ambiente de mediação uma 181


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organização com colaboradores acostumados a lidar com problemas e buscar soluções sempre da mesma forma, a mediação fará com que haja mudanças nesta forma tradicional. Ao solicitar que listassem as ações de mediação relacionadas ao processo de IC, obteve-se as mais diversas respostas: observar no ambiente externo o que está em crescimento e que possa trazer vantagens para a organização; estabelecer o diálogo, a comunicação e a observação; promover cursos de capacitação e palestras motivacionais aos profissionais; lidar com tecnologia, conhecimento e dados; e realizar a disseminação seletiva da informação. Nesta questão também pode ser observado a diversidade de opiniões em relação as ações mediativas numa organização. O processo informacional de IC conduz às organizações a tomada de decisão estratégica ou operacional baseada na antecipação. No último questionamento foi perguntado, quais seriam as contribuições de uma mediação efetiva para o processo de IC, as respostas foram: trazer informações qualificadas para a organização; diminuir os conflitos existentes; aconselhar na tomada de decisões; e contribuir para a eficiência e eficácia nos processos da organização. Diversas foram as contribuições elencadas e acredita-se que o profissional da informação possui competências e habilidades para lidar com essa diversidade de contribuições. Entre elas, julga-se importante que esteja apto às mudanças que ocorrem; saber lidar com uma equipe multidisciplinar e ter capacidade de integração entre outras. Destaca-se uma tarefa que o profissional da informação poderá cumprir com êxito: a fase de análise de dados, informação e conhecimento, diminuindo conflitos, trazendo informações qualificadas, aconselhando na tomada de decisão visando contribuir para a eficiência e eficácia nos processos organizacionais. A socialização e o compartilhamento do conhecimento são ferramentas-chave para o processo de IC. A utilização de diversas fontes informacionais para identificação e coleta de dados, informação e conhecimento para o processo de IC é imprescindível. Tanto as fontes formais quanto as informais devem ser consultadas, assim como as internas, bem como as externas. Toda estratégia informacional tem relação com uma intenção informacional, pois no contexto empresarial relaciona-se a informação com “poder”. As informações são administradas nas organizações para serem utilizadas ativamente, bem como o conhecimento, ou seja, com vistas à gestão do conhecimento. 182


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7 CONSIDERAÇÕES FINAIS As gerações dos indivíduos que atuam em uma organização afetam o processo de IC, e numa organização, o papel do mediador é justamente conciliar as divergências encontradas entre as gerações. Sabendo que o conhecimento está tácito nos colaboradores cabe ao mediador, um dos profissionais responsáveis pelo processo de IC, extrair essas informações e conhecimentos dos colaboradores e explicitá-los e socializá-los, para torná-los inteligíveis e aplicáveis no processo de IC. Cada indivíduo possui uma experiência, uma bagagem de conhecimento, um modo de pensar e agir sobre algo. Provavelmente, alguns indivíduos de determinadas gerações apresentarão resistência às fontes de informação, quando se fala da sua utilização através das tecnologias existentes atualmente, como as fontes de informação disponíveis na internet. Os gestores mais antigos preferem o contato “físico” com as fontes, já os atuais utilizam sites, blogs, plataformas online etc. E é neste momento que se acredita ser imprescindível a presença do mediador no processo de IC, para conciliar as partes envolvidas e, também, apresentar soluções e caminhos a serem percorridos. A mediação no contexto da IC aparece como papel principal para realização concreta do processo, é neste momento que as informações e conhecimento são explicitados através de produtos e serviços de alto valor agregado, visando o desenvolvimento competitivo e inteligente das pessoas e organização, ou seja, é mostrar o que foi realizado durante todo o período. Nesta etapa, deve-se considerar quem irá utilizar as informações e o conhecimento produzido; o que será comunicado (pois nem tudo é disponibilizado) e qual virá a ser o meio de divulgação para essa comunicação. A mediação além de estabelecer relações de conciliação e de resolução de conflitos, também atua como elemento fundamental para a comunicação, ela requer diálogo e intersubjetividade, supõe que uma determinada situação ou condição passe por uma modificação e transformação.

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13 A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO: INSUMO PARA A INOVAÇÃO NAS ORGANIZAÇÕES

Maíra Prado da Silva mairaprados@gmail.com Egressa do Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp).

Resumo: A informação e o conhecimento são os principais insumos para que as organizações inovem, dessa maneira a gestão do conhecimento situa-se entre os recursos aplicado pelas organizações que proporciona o alcance desses objetivos. Assim a pesquisa teve o propósito de levantar na literatura o contributo da gestão do conhecimento para a inovação e as práticas aplicadas pelas organizações no enfoque da inovação. Para isso, realizou-se um levantamento bibliográfico no portal de periódicos CAPES. Identificou-se recursos facilitadores para auxiliar a gestão do conhecimento, nas quais obtevese as práticas voltadas para os recursos humanos, processos e suporte tecnológico. Conclui-se que existe muitas práticas aplicadas para auxiliar a gestão do conhecimento, no entanto, destaca-se que as organizações devem desenvolver políticas de incentivo que proporcionem condições para a construção do conhecimento. Palavras-Chave: Informação; Conhecimento; Inovação; Gestão do Conhecimento.

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1 INTRODUÇÃO Na atualidade, percebem-se uma corrida acelerada pela busca de novos mercados, tecnologias e nas formas organizacionais além da busca constate de inovação, que se torna intensamente indissociável para que as organizações alcance índices de competitividade. Dessa forma, para que as mesmas acompanhem essas transformações, a necessidade de aquisição de novas capacitações e conhecimento é primordial. Como já afirmava Pierre Lévy (1996), a informação e o conhecimento são as principais fontes de riqueza, são bens econômicos que implica na necessidade de adquiri-los. As organizações não inovam sozinhas, pois elas necessitam de fontes de informação e conhecimento que podem estar localizadas dentro ou fora dela. O processo de inovação é interativo, realizado com as contribuições de vários sujeitos que possuem diferentes tipos de informação e conhecimento. Essa interação pode ocorrer de diversas maneiras, seja em diferentes departamentos de uma mesma organização ou ainda entre diferentes organizações. Considera-se o conjunto de varias fontes de idéias, informações e conhecimento imprescindível para as organizações serem geradoras de inovações e enfrentarem as transformações no ambiente (LEMOS, 1999). Para isso a GC se caracteriza um recurso presente no quadro de ações das organizações que desejam alcançar alto grau de inovatividade (CASSINI; TOMASI, 2010, FERRARESI et al., 2014, BRAGA et al., 2014). Uma vez que as organizações desejam se manter atuantes, essas devem ser aptas a gerar, obter e aplicar informação e conhecimento, que são consideradas também insumo básico para o desenvolvimento organizacional e competitividades. Diante desse contexto, propõem-se abordar o contributo da Gestão do conhecimento (GC) para alcançar a inovação e os elementos que os envolvem, visto que eles são apontados na literatura como base para alcançar índices inovativos nas organizações. Salientam-se também os recursos que viabilizam a criação do conhecimento organizacional. O levantamento bibliográfico foi realizado no portal de periódico da Capes, no qual foram identificados os artigos que abordaram a temática da Gestão do conhecimento e inovação.

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2 INOVAÇÃO Os estudos realizados ao redor da temática inovação sempre levam as idéias propostas por Schumpeter, que desenvolveu uma linha divisória entre invenção e inovação. Assim, com os passar das décadas, muitos estudiosos continuaram desenvolvendo as idéias de Schumpeter, e como conseqüência, disseminaram as definições de inovação, ampliando ou restringindo o conceito originalmente do pesquisador. Na perspectiva de Van de Ven et al. (1989) a inovação é um processo que envolve geração, adoção, implementação e incorporação de novas idéias, práticas ou artefatos dentro da organização.

Outra definição considera a inovação como o

reconhecimento de oportunidades para uma mudança lucrativa e a exploração dessas oportunidades até a sua adoção na prática (BAUMOL apud FRANCIS; BESSANT, 2005). Já Byrd e Brow (2003), que consideram a inovação como a combinação entre a criatividade e a tomada de risco. A inovação assume formas diferentes, e são resumidas em quatro diferentes dimensões de mudança, nomeadas por Bessant e Tidd (2009) como os “4Ps” da inovação. Entre elas estão a Inovação de produto (mudança nas coisas (produto/serviço) que uma empresa oferece), Inovação de processo (mudanças nas formas em que as coisas (produto/serviço) são criadas e ofertadas ou apresentadas ao consumidor; Inovação de posição (mudanças no contexto em que produto/serviço são introduzidos); e Inovação de paradigma (mudança nos modelos mentais básicos que norteiam o que a empresa faz). A partir do ponto de vista da importância, Komninos (2008) classifica a inovação em três tipos principais: inovação incremental que se caracteriza por pequenas melhorias ao longo da curva de aprendizagem e “aprender fazendo” essas melhorias são continua. Inovação radical, novas tecnologias são desenvolvidas e descarta-se outras, essas mudanças são descontinuas e causam a “destruição criativa” no setor industrial; e a proposta geral da inovação, que caracteriza todo o regime tecnológico, tais como o vapor, eletricidade, motor de combustão, computadores e a internet, que afeta uma ampla gama de industrias, produtos e processos. A inovação está vinculada a novos modelos de gestão, serviços e produtos e desenvolvimento de novas plataformas tecnológicas. Assim, para que a organização 190


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se desenvolva e reforce sua posição competitiva, ela precisa incorporar a inovação à sua fisiologia. A inovação deve ser um processo continuado e gerenciado, necessitase de proposta estratégica, sendo que para o alcance de tais fins a criatividade, transpiração, persistência, gestão e risco fazem parte desse processo (SCHERER; CARLOMAGNO, 2009). E para que os resultados sejam alcançados, o núcleo do processo de inovação está centrado na conversão do conhecimento e utilização da informação. Ressalta-se a existência de diversas discussões na literatura a respeito do significado de “dado”, ‘informação’ e ‘conhecimento’. Nesse sentido, discute-se esses conceitos em prol de suas especificidades para gerar inovação nas organizações, fundamentais para a realização desse trabalho.

3 O DADO, A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO Questionar os termos fundamentais levam a comparações entre o que é o homem ou o que é o conhecimento, são elementos primários e por isso fundadores do entendimento mais decisivo quanto ao tipo de ser o que somos. Nunca sobre informação, sobre o homem ou no que refere ao conhecimento, haverá noções ou definições universal e consensualmente aceitas (ILHARCO, 2003). Assim, na busca para elucidar os termos dados e informação, Ilharco (2003, p. 135) explica que: [...]dados podem assim ser indicados como informação descontextualizada, isto é, como informação que não informa, porque apesar de fato de informar, ela no entanto não afeta, altera, modela ou forma o envolvimento e ação efetiva em que o sujeito já está imerso. Ao contrário dos dados, a informação constitui o tipo de diferença cujo significado fundamental assenta na sua natureza formativa. Informação é a diferença formada internamente ao sujeito, conforme a ele mesmo e nos seus próprios termos, afetando o seu comportamento, tal como pode ser testemunhado por um observador ou autoobservador. lnformação é por isso o que é essencialmente formado. É algo que nos foi dado e que de acordo com nós mesmos faz a diferença face à possibilidade de não nos ter sido dado.

O dado pode ser extremamente informativo, fato que depende da percepção do agente cognoscente, pois se um dado fazer sentido para um indivíduo, esse dado não será mais apenas um dado, mas sim uma informação que remeterá a algo, logo, é o indivíduo quem atribui significado para o objeto, conforme apontou Wurman (1995, p. 285) “o que constitui informação para uma pessoa pode passar de dados para outra”, por isso o indivíduo é o ator central dessa dinâmica. 191


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A função da informação é reduzir a incerteza dos indivíduos, restringirem as escolhas, ou controlar alguma coisa (WIENER apud SOFFNER, 2007). Entretanto, a sobrecarga de informação desnecessária contribuiu para o desenvolvimento de uma sociedade desafiadora que exige das organizações e de cada um dos indivíduos um continuo processo de filtragem, pois tornou-se necessário a exclusão de informações irrelevantes. A frente da grande quantidade de informação produzida é cada vez mais necessária fazer escolhas (KESTENBAUM, 2008). Assim, a disponibilidade de um montante de informação nem sempre representa superioridade (DAVENPORT; BECK, 2001, LAZARTE, 2000), isso ocorre pela falta de capitação e processamento de toda a informação e também pelo seu fator de qualidade, que se apresenta de forma mais concisa para alcançar maior número de pessoas. No ponto de vista conceitual do conhecimento, para Soffner, Silva Filho e Benedicto (2008) o ser humano busca o conhecimento para fazer sentido a realidade em que se situa. Assim, o conhecimento ocorre no processo de interação de um sujeito com um objeto. O sujeito não tem apenas mente, esse é composto por órgão dos sentidos e movimento, ele age sobre a realidade, procurando transforma - lá e adaptá-la aos seus intentos. Todos seus dados oriundos do sistema sensorial precisam ser processados e integrados em informações. E as informações precisam ser integradas em um modelo que o sujeito constrói e que pretende representar adequadamente, que é a realidade. “O conhecimento é, portanto, um fenômeno multidimensional, de maneira inseparável, simultaneamente físico, biológica, cerebral, mental, psicológica, cultural, social”. Os seres humanos possuem cérebro, a mente, cognição, o espírito, mas todos esses elementos estão profundamente interligados a um contexto social, cultural, humano e por meio dessas relações é que o conhecemos o conhecimento e que produzimos o conhecimento (MORIN, 1999, p.18). Na tentativa de realizar a distinção entre dado, informação e conhecimento, Ilharco (2003) explica que mediante a adição da noção de significado de um dado (dados+significado) gera-se informação, que posteriormente desenvolvida pela adição da noção de experiência juntamente com significado, obtêm-se assim o conhecimento (informação + experiência). A informação está centralizada na relação entre o dado e conhecimento, por que permite a conexão entre os dados brutos e o conhecimento. 192


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O conhecimento reside na mente das pessoas, e esse conhecimento pessoal precisa ser convertido em conhecimento e informação para que possa ser compartilhado e transformado em inovação e em fonte de vantagem competitiva, assim decorre-se sobre o conhecimento tácito e explicito dentro da organização na busca pela construção do conhecimento.

4 MÉTODO Para alcançar os objetivos propostos na pesquisa foi realizado um levantamento no Pportal de Periódicos da Capes. Foram determinados um grupo de palavras-chaves no assunto - gestão do conhecimento e inovação. Para a análise dos dados determinou-se que os materiais de informação seriam majoritariamente artigos publicados de 2010 a 2015 e na língua portuguesa, assim foi identificado onze artigos. Compreende-se que a informação e o conhecimento são complementares e indissociáveis, no entanto nessa pesquisa foi direcionado a análise nas questões voltadas para o conhecimento, mais precisamente ações que auxiliam a GC.

5 GESTÃO DO CONHECIMENTO: RECURSO PARA A INOVAÇÃO É fato que no século XXI, tanto no ambiente acadêmico quando no empresarial concordam que a presente economia está baseada no conhecimento. Como afirmou Drucker (1999, p. 15) “hoje o recurso realmente controlador, o fator de produção absolutamente decisivo, não é o capital, a terra ou a mão de obra, é o conhecimento”. Assim, se as organizações desejam se manterem ativas, essas devém buscar maneiras

para

construir

o

conhecimento

organizacional

e

posteriormente

compartilhar. A GC “[...] são processos estratégicos contínuos e dinâmicos que visa gerir o capital intangível da empresa e todos os pontos estratégicos a ele relacionados e estimular a conversão do conhecimento” (ROSSATO, 2002, p.7). Assim a GI tem como intento trabalhar com o capital intelectual, procurando formas de gerir o conhecimento tácito. Entretanto, a GC é um dos assuntos mais polêmicos e menos compreendidos na comunidade acadêmica (FLEURY; OLIVEIRA, 2001). A ideia de “gerir” o conhecimento tem sido objeto de críticas, mesmo após mais de duas décadas de desenvolvimento da teoria e da prática da GC. 193


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No que tange a aquisição, aplicação e compartilhamento do conhecimento vêm sendo um tema tratado com abundância ao longo da história.

Admite-se que o

conhecimento em si não é gerenciável no sentido estrito, assim, sugere-se que a expressão “gestão do conhecimento” seja interpretada como “gestão baseada no conhecimento”, isto é, uma filosofia gerencial focada no conhecimento como recurso estratégico (FERRARESI; SANTOS, 2006). Mesmo que o conhecimento não possa ser gerenciado da mesma forma que um ativo convencional, é possível gerenciar ativos intelectuais, as competências organizacionais e os processos, objetivando o desenvolvimento de conhecimento e aprendizagem (DALKIR, 2011). O modelo de criação de conhecimento organizacional de Nonaka e Takeuchi (1997, p.63) se desenvolve e abrange uma filosofia oriental e ocidental. Os autores adotam os conceitos de Michael Polanyi (1966) para classificar o conhecimento em tácito e em explícito. O conhecimento tácito é peculiar ao ser humano; advém por meio das experiências pessoais, a partir de prática e insights. Já o conhecimento explícito é aquele formal, estruturado e que é externalizado. A exemplificação desse tipo de conhecimento é representada por normas, livros, registros e procedimentos de trabalho, entre outros (NONAKA; TAKEUCHI, 1997). O conhecimento tácito é o responsável pelas inovações organizacionais. Apesar desse conhecimento iniciar-se no desenvolvimento das habilidades e intuições dos indivíduos, o conhecimento pessoal é progressivamente socializado. Dessa maneira as pessoas inseridas dentro da organização interagem em uma comunidade na qual está sendo compartilhada, formando uma rede de conhecimento. O conhecimento tácito constitui a única experiência absorvidas pelos membros da organização, assim ele é valioso quando se transforma em novas capacidades, produtos e serviços, e as inovações materializam quando o conhecimento tácito é trabalhado e toma a forma de objetos ou sistemas (CHOO, 2003). Nonaka e Takeuchi (1997) reforça que o conhecimento é criado pelos indivíduos e a partir deles, acontece a criação de conhecimento na organização, que pode ser gerado de maneira informal ou sistematizada. Em contrapartida, o conhecimento tácito constituído pela natureza subjetiva e intuitiva do conhecimento impede o processamento ou a sua transmissão por método sistemático ou lógico. Por isso deve-se buscar formas para a comunicação e 194


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compartilhamento dentro da organização, já que no processo da conversão do tácito para explicito que o conhecimento organizacional é criado (VASCONSELOS, 2000). Em consonância com a literatura existente, presume-se para os fins desta pesquisa que a gestão eficaz do conhecimento pode ser medida por meio do levantamento da percepção dos gestores, e o mesmo raciocínio se aplica à orientação estratégica, à inovatividade e aos resultados organizacionais. Propõe-se que a GC eficaz existe quando uma organização possui processos mensuráveis que englobe a criação e captura do conhecimento que será aplicado para alcançar os objetivos

organizacionais;

o

compartilhamento,

conversão,

organização

e

disseminação do conhecimento entre as pessoas na organização; e aplicação do conhecimento para criar valor para a organização e usuário. A GC eficaz ocorre quando essas três dimensões de processos são realizadas ciclicamente dentro da organização (DALKIR, 2011). Ao analisar os aspectos da GC praticado pelas organizações e descritos na literatura foi identificado algumas práticas e o gerenciamento do conhecimento como meio de promover mudanças, inovação e agregar valor para a organização. Essas práticas, segundo Cassini e Tomasi (2010) estão direcionadas para os recursos humanos, processos facilitadores da gestão do conhecimento e a base tecnologia e funcional da gestão do conhecimento.

a) Práticas da gestão de recursos humanos Identificou-se que a educação permanente é uma das atividades realizadas, visando o aperfeiçoamento e atualização de conhecimentos, de modo a melhorar a capacitação técnica e cultural do profissional, por meio da formação permanente e da educação continuada, da requalificação profissional e desenvolvimento profissional. Os cursos e treinamentos, entre outros, são planejados por meio do levantamento de necessidades, realizados em conjunto com os técnicos de referência, a equipe técnica, gerências, chefias, coordenadores e responsáveis de serviços das organizações. Diversas práticas educacionais são planejadas e realizadas com o propósito de promover o desenvolvimento do funcionário, auxiliando sua atuação mais efetiva e eficazmente na sua vida institucional, e com qualidade na prestação de serviço ao usuário. Concomitantemente, existe o interesse em compartilhar e disseminar o 195


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conhecimento adquirido por meio destas ações e a inovação. Choo (2003, p. 30) esclarece que “O conhecimento reside na mente dos indivíduos, e esse conhecimento pessoal precisa ser convertido em conhecimento que possa ser compartilhado e transformado em inovação. Quando existe conhecimento suficiente, a organização está preparada para a ação e escolhe seu curso racionalmente, de acordo com seus objetivos”. O conhecimento organizacional emerge a partir “da criação de significado, da construção de conhecimento e da tomada de decisão” (CHOO, 2003, p.370). O conhecimento ocorre quando esses três modos de processamento de informações se vinculam ao processo de construção social de significados, aprendizados e ações. Nessa perspectiva, ao explorar as tensões produzidas por alguma mudança como oportunidade, acarretará no conhecimento organizacional. Nessa perspectiva, as práticas da GC também podem ser visualizadas de maneira mais efetiva por meio da Educação corporativa, assim como o modelo de Universidade Corporativa e ao Fórum presencial. Destaca-se que esta é uma prática estratégica e essencial para as atividades e desenvolvimento organizacional, na qual deverá estar inserida na missão da instituição. O desenvolvimento de fórum também é uma proposta para gerar espaços de discussão e troca de informações, ideias, experiências e novas questões que possam ser apresentadas, sendo todas estas atividades compartilhadas para promover o aperfeiçoamento dos processos e atividades da organização. No que tange as comunidades de prática são grupos informais e interdisciplinares de pessoas unidas em torno de um interesse comum, com o intento de permitir a colaboração de pessoas internas ou externas à organização, e que propiciam o veículo e o contexto para facilitar a transferência de melhores práticas e o acesso a especialistas, bem como a reutilização de modelos, do conhecimento e das lições aprendidas (BATISTA et al., 2005). Brown e Duguid (1991, p.47) complementa que as comunidades de práticas são espaços para apreender a aprendizagem como algo socialmente construído “onde o que é aprendido está profundamente conectado com as condições nas quais é aprendido”. Sendo que as Narrativas, segundo Batista et al. (2005), são técnicas utilizadas em ambientes de GC para descrever assuntos complicados, expor

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situações e/ou comunicar lições aprendidas, ou ainda interpretar mudanças culturais, dando espaço aos relatos retrospectivos de pessoal envolvido nos eventos ocorridos. Em suma, as práticas relacionadas à gestão de recursos humanos desenvolvidas na instituição ou aquelas em desenvolvimento, sinalizam a produção, disseminação, compartilhamento e aplicação do conhecimento em suas atividades, em acordo com o proposto por Choo (2003, p.18). O autor retrata que a organização se compõe quando ocorre a integração da comunidade de conhecimento na busca de significado, a criação do próprio conhecimento e a tomada de decisão. Essa integração oferecendo um ambiente de busca constante e a utilização da informação reflete na mudança organizacional, tendo como principais objetivos a inovação e a (re)aprendizagem, “reabastecendo-se de novos conhecimentos, que vão lhe permitir escolher e implementar uma determinada estratégia ou um determinado curso de ação”. Portanto, essas ações inseridas nesta prática e utilizadas como ferramentas de gestão, evidenciam a importância dada à aprendizagem e seu gerenciamento vinculado às necessidades estratégicas das organizações. Além disso, realiza-se o uso da educação como meio de obter melhores resultados, como qualidade, produtividade e inovação no ambiente organizacional.

b) Práticas para os processos facilitadores da Gestão do Conhecimento
 As práticas que se começam a desenvolver, mas ainda de maneira embrionária são

compostas

pela:

Memória

organizacional/Lições

aprendidas/Banco

de

conhecimentos; Sistema de gestão por competências; Banco de competências individuais; Benchmarking interno e externo e Melhores Práticas. A instituição tem feito grandes investimentos tanto de capital físico (ativos tangíveis), com aquisição de equipamentos, hardware, novos espaços, entre outros, quanto de capital humano (ativos intangíveis), capacitando as pessoas/servidores, na busca de melhores resultados. Tem-se buscado o incentivo para o desenvolvimento de pesquisas e a formação de grupos de pesquisa com interesses direcionados para produção, retenção, disseminação e compartilhamento, assim como para a aplicação do conhecimento gerado. O objetivo é proteger a Memória organizacional, para possibilitar o processo dinâmico e interativo desses dois tipos de conhecimento - a 197


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conversão do conhecimento adquirido, de conhecimento tácito para formal/explícito e assim ser compartilhado e disseminado para dentro e fora da organização. Nessa

perspectiva, Choo

(2003,

p.45) relata

que

a

construção do

conhecimento ocorre ao possibilitar a conversão do conhecimento continuamente e, desta maneira, proporcionar o desenvolvimento de novos produtos e serviços para a organização. A caracterização dessas práticas é a busca pela produção e retenção, além da disseminação, compartilhamento e aplicação do conhecimento gerado dentro e fora da organização. Estes aspectos enfatizam que a capacidade de integração de forma eficiente aos processos de criação de significado, construção do conhecimento, com também de tomada de decisões permite que a organização seja reconhecida como uma ‘organização do conhecimento’ (CHOO, 2003, p. 30).

c) Práticas de base tecnológica e funcional de suporte à Gestão do Conhecimento
 Foi observado nessa práticas as ferramentas de colaboração como portais, intranets e extranets como apoio à GC. Isso leva a acreditar em pouco investimento e/ou utilização da Tecnologia da Informação (TI) relacionada à GC, uma vez existe diversas ferramentas que possibilitariam a implantação das práticas relacionadas a recursos humanos e processos, como, consequentemente, do desenvolvimento das práticas da GC. Entretanto, outras práticas têm sido discutidas para serem utilizadas nas organizações, entre elas estão a criação de banco de dados relacionado à gestão de recursos humanos, facilitando e gerenciando a produção, disseminação e compartilhamento do conhecimento; e desenvolvimento de um programa focando a disseminação e o compartilhamento, relacionado ao gerenciamento das ações de capacitação, entre outras. Embora se realize o uso das TI como suporte à GC é necessário observar que essa prática precisa ser ampliada para a organização para impactar de maneira eficaz e estrategicamente, possibilitando assim a criação e manutenção do conhecimento, e a inovação organizacional. Terra (2001) relata que o uso dessas tecnologias ainda necessita de aprimoramento e investimento para facilitar a comunicação e o compartilhamento do conhecimento explícito e implícito. 198


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Assim, considera-se a geração de conhecimento como fonte essencial de vantagem competitiva, inovação e qualidade nos serviços. Ressalta-se a atenção especial para gestão da organização que deverá ter como propósito a elaboração de uma pauta que abarque a organização enfocada em conhecimento e que se atenta para a criação e compartilhamento de conhecimento. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS É evidente que para a organização se desenvolver e alcançar maiores índices de inovação, o conhecimento organizacional e a informação devem estar a disposição e acessível para que qualquer colaborador, em qualquer etapa de atividade dos processos existentes. A grande motivação para a exaltação da informação e do conhecimento para as organizações também se deve pela aproximação com os fatores de tecnologia, já que as organizações que melhor gerenciam essas questões têm produtos e processos com maior grau excelência, situação da qual fortalece a constante inovação das atividades desenvolvidas. Além do mais, a informação e conhecimento estão diretamente ligadas a quase todos os processos organizacionais, fatores estratégicos para o desenvolvimento organizacional. A informação registrada por meio textual devém ser incentivada, de forma clara e objetiva para que seja utilizada pelos funcionários. Nesse ponto é de extrema importância que ocorra a Gestão da informação, que apesar de não ser explorada nesse trabalho buscará gerir os fluxos formais de informação. Já o conhecimento que ainda está na cabeça das pessoas, apesar de ser um processo mais complexo para a sua captura, deve ser gerido e resgatado, e para tais ações, fazem pleno uso da GC. Assim, a GC permite que os fatores implícitos ou tácitos produzam resultados positivos para a organização. Como não se tem o conhecimento da totalidade do que se conhece, a utilização de técnicas auxilia os indivíduos a expor o que sabem e assim construir o conhecimento organizacional. Nesse sentido, identificou-se recursos facilitadores para ajudar na GC, direcionados para os recursos humanos, processos e suporte tecnológico, mas ressalta-se que esses são algumas iniciativas aplicadas nas organizações, descrita nos relatos de experiência. Assim, dentro das ações utilizadas para subsidiar GC, deve-se dar uma atenção a política de incentivo voltadas para a criação, 199


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disseminação, compartilhamento e aplicação do conhecimento, construindo um ambiente propício para a conversão do conhecimento. Não há duvidas que a informação e o conhecimento são fatores-chave para o sucesso das organizações e principalmente fonte de inovação, ao mesmo tempo em que se torna desafiador a aplicação de um mecanismo que permita gerir tais ambientes.

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14 PESQUISA CIENTÍFICA EM GESTÃO DO CONHECIMENTO: ASPECTOS QUALI-QUANTITATIVOS NAS TESES E DISSERTAÇÕES PRODUZIDAS NO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO DA UNESP

Cristiane Luiza Salazar Garcia cris_luiza_salazar@yahoo.com.br Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Elaine Cristina Lopes lainelopes@hotmail.com Docente do Departamento de Administração Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR)

Resumo: A produção de conhecimento promovida pelas universidades impacta não só as diversas áreas do conhecimento, mas a ciência como um todo. E é principalmente no âmbito da pós-graduação que a atividade de pesquisa e a produção de conhecimento acontece. Assim, a produção de conhecimento realizada nos programas de pós-graduação carece de análise e reflexão. Certos campos de estudo aceleram a produção de conhecimento científico dentro de determinadas áreas do conhecimento. Tal seja o caso do campo de estudo da Gestão do Conhecimento (GC) em relação a área de Ciência da Informação (CI). E assim as pesquisas relacionadas a este tema crescem dentro dos programas de pós-graduação da área de CI. O caráter interdisciplinar da CI vem sendo especialmente destacado nas linhas de pesquisa voltadas a gestão, devido entre outras coisas as suas características múltiplas, o que contempla a Gestão do Conhecimento em diversas possibilidades, dentro dos diferentes tipos de unidades de informação, fomentando a produção cientifica. Partindo dessas concepções, o presente estudo propõe o desenvolvimento de uma análise quali-quantitativa das teses e dissertações elaboradas no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Universidade Estadual Paulista (UNESP). O objetivo foi resgatar aspectos qualitativos e quantitativos relacionados a estes trabalhos, de forma a elucidar características inerentes a produção de conhecimento científico da temática Gestão do Conhecimento dentro da área de Ciência da Informação. Os resultados iniciais demonstram a existência de teses e dissertações dentro da temática GC desde os primórdios do PPGCI da Unesp. Palavras-Chave: Ciência da Informação; Gestão do Conhecimento; Pesquisa científica; Programas de Pós-Graduação.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

204


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1 INTRODUÇÃO As universidades podem ser consideradas o celeiro da produção de conhecimento científico. Diversos fatores, tanto explícitos quanto implícitos, colaboram para o desenho de tal cenário, como os relacionados a detenção de infraestrutura, materiais e pessoal qualificado para a produção de conhecimento científico nestas instituições. A produção de conhecimento pelas universidades é considerada ação necessária não apenas ao desenvolvimento direto das diversas áreas do conhecimento e da própria ciência como um todo, mas também pelo avanço da sociedade em inúmeros aspectos, o que faz destas instituições um bem público (VALENTIM, 2007; SANTOS, 2005). Por meio de suas atividades base, o ensino, a pesquisa e a extensão, a universidade elabora e reelabora conhecimento científico que por sua vez modifica a realidade dos indivíduos que fazem parte desse contexto. Mesmo podendo ser considerado um apontamento questionável, acredita-se que o conhecimento científico no âmbito das universidades é construído de forma mais intensa no nível de pós-graduação, primordialmente, a pós-graduação stricto sensu (DEMO, 2009). O ambiente da pós-graduação incorpora os mecanismos necessários ao desenvolvimento da pesquisa científica, e assim sistematicamente elabora-se e reelabora-se o conhecimento científico. No caso brasileiro, a regulamentação da pós-graduação no país a partir da década de 1960, impactou a produção de conhecimento científico por meio da pesquisa

científica

(MOTOYAMA;

QUEIROZ;

VARGAS,

2004;

POBLACIÓN;

NORONHA, 2002). De um modo geral, a ciência brasileira tem crescido em termos dos esforços da pós-graduação e da produção de conhecimento científico, segundo diversos indicadores de ciência e tecnologia (CAPES, 2010). Mesmo sendo evidente a existência de diferenças entre as diversas áreas do conhecimento, estas têm sido progressivamente contempladas no plano nacional para a pós-graduação (CAPES, 2010), e de forma particular, cada área tem colaborado para a atividade de pesquisa e produção de conhecimento no país. A área de Ciência da Informação tem conquistado importante espaço no âmbito científico, se desenvolvendo de forma progressiva nos últimos anos e, com isso, recebendo expressivo destaque. Atualmente 14 (quatorze) instituições de ensino superior mantêm 9 (nove) cursos de doutorado, 11 (onze) cursos de mestrado 205


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acadêmico e ainda 3 (três) mestrados profissionais (CAPES, 2015). Este grupo representa a frente de pesquisa acadêmico-científica em Ciência da Informação no Brasil. A produção de conhecimento da área de CI perpassa construtos teóricos e práticas de outras áreas do conhecimento, constituindo desta forma suas próprias frentes de pesquisa muitas vezes de caráter interdisciplinar. Nesse sentido, destaca-se a importante contribuição da CI no desenvolvimento de pesquisas no campo da Gestão do Conhecimento (GC). Tal campo de estudo mostra-se em estágio de franco desenvolvimento dentro da CI, seja tanto no que concerne ao aumento de pesquisas, quanto ao desenvolvimento de modelos e instrumentos que permitem que as organizações identifiquem, promovam o compartilhamento e reutilizem o conhecimento, interno ou externo. A GC, enquanto campo de pesquisa dentro da área de Ciência da Informação, ganha destaque na área aparecendo em estudos e pesquisas. Tal fato pode ser notado na produção de artigos científicos sobre a temática dentro dos periódicos científicos da área de CI (BARRADAS; CAMPOS FILHO, 2008). Nos programas de pós-graduação da área de CI, várias são as linhas de pesquisa que tratam sobre o tema, o que resulta em um importante conjunto de teses e dissertações produzidas, publicadas e em fase de produção, integrando a literatura científica sobre Gestão do Conhecimento. Nesse sentido, o caráter interdisciplinar da CI vem sendo especialmente destacado nas linhas de pesquisa voltadas a gestão, sendo que esta também possui características múltiplas, contemplando a Gestão do Conhecimento em todas as suas possibilidades, em diversos tipos de unidades de informação. Desse modo, nota-se que o crescimento de estudos nesse campo não se limita a pesquisas sobre o fenômeno da GC apenas em ambientes informacionais natos da CI, como bibliotecas, arquivos e museus. Observa-se que a CI vem promovendo uma crescente contribuição para o meio organizacional, a medida em que fomenta, mediante sua produção cientifica, não apenas estudos, mas a criação de novas formas de gerir conhecimento. Partindo dessas concepções, o presente estudo propõe o desenvolvimento de uma análise quali-quantitativa das teses e dissertações elaboradas no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista (UNESP). O objeto é demonstrar, por meio desta proposta de diagnóstico combinado, 206


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análises e interpretações que poderão evidenciar a quantidade de teses e dissertações defendidas, bem como elucidar questionamentos quanto a aspectos qualitativos de tal produção, de forma a elucidar características inerentes a produção de conhecimento científico da temática Gestão do Conhecimento dentro da área de Ciência da Informação.

2 MÉTODOS A pesquisa aqui apresentada tem natureza quali-quantitativa, porquanto busca evidenciar características tanto quantitativas como qualitativas do objeto de estudo. Assim, foi desenhado e executado um estudo em três diferentes etapas. A primeira etapa promoveu um levantamento da literatura pertinente ao assunto estudado, de modo a aproximar-se das discussões teóricas e práticas em torno do mesmo. Para tanto foi utilizado a pesquisa bibliográfica. Na sequência foi realizado o levantamento dos dados para análise. Para coleta foi acessado a página na internet do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da UNESP10 e acessada as abas ‘dissertações’ e ‘teses’, onde estão relacionadas as teses e dissertações defendidas pelo programa. Na sequência, foram acessados os títulos, as palavras-chave e os resumos dos trabalhos. Para tanto foram utilizadas três diferentes ferramentas de busca: a) a página do PPGCI da Unesp na internet; b) o repositório institucional da Unesp; c) o currículo dos autores dos trabalhos na Plataforma Lattes. Os dados foram extraídos e tabulados para posterior análise. Na terceira e última etapa do estudo procedeu-se a análise dos dados extraídos. Para tanto foi utilizado o método de 'Analise de conteúdo' proposto por Bardin (1977), com categorias estabelecidas a priori. Considerou-se, também, a utilização, segundo a autora supracitada, da abordagem da técnica ‘Análise Categorial’, a qual é definida como: Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens (BARDIN, 1977, p. 34).

Quanto aos procedimentos para Análise de Conteúdo é necessário que se organize as diferentes fases da análise em torno de 3 (três) etapas, conforme define 10

http://www.marilia.unesp.br/#!/pos-graduacao/mestrado-e-doutorado/ciencia-da-informacao/apresentacao/

207


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Bardin (1977). A primeira, em que se realiza uma pré-análise que consiste na sistematização dos conceitos iniciais, para que posteriormente se realize a exploração do material objetivando o direcionamento do trabalho e, por fim, o tratamento dos resultados, a “inferência e a interpretação”. Após a realização da pré-análise, procedeu-se a classificação e a escolha das categorias que subsidiaram a realização do recorte do material de análise. Desse modo, definiu-se as categorias para análise, quais sejam: a) autor; b) orientador; c) ano de depósito; d) linha de pesquisa. Posteriormente, passou-se para a fase de análise do material, que consiste na administração sistemática verificadas na fase da pré-análise e categorização. Destaca-se que os resultados apresentam nomes sob forma abreviada. Mesmo sendo os dados coletados parte de informações em acesso aberto para livre uso, considerou-se irrelevante para a pesquisa a divulgação dos nomes dos sujeitos, já que neste momento da análise isto não pareceu relevante.

3 RESULTADOS E DISCUSÕES A Universidade Estadual Paulista ‘Júlio de Mesquita Filho’ (UNESP) nasce em 1976 a partir da junção de unidades universitárias isoladas situadas em diferentes pontos do interior do estado de São Paulo, sendo hoje umas das maiores e mais importantes universidades do país, com destacada atuação nas atividades de pesquisa, ensino e extensão em várias áreas do conhecimento (UNESP, 2014a). Entre as diversas áreas do conhecimento com as quais a UNESP está envolvida, destaca-se aqui a área de Ciência da Informação (CI). A CI começa sua história da UNESP em 1977 com a criação do curso de graduação em Biblioteconomia. A trajetória do curso levou a criação do Curso de Especialização ‘Uso estratégico de Tecnologias em Informação’ em 1998, do Mestrado Acadêmico em Ciência da Informação em 2001, do curso de graduação em Arquivologia em 2003 e do Doutorado em Ciência da Informação em 2005 (UNESP, 2007). Ao longo destes quase 38 anos de história a área de Ciência da Informação avançou em número e relevância dentro da UNESP, o que pode ser notado em muitos aspectos desta história. Entre estes aspectos é possível citar a produção científica que expressa o conhecimento científico elaborado pela área dentro da instituição. 208


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Os dados levantados englobavam as dissertações depositadas entre os anos de 2001 e 2014, e as teses depositadas entre os anos de 2007 a 2014. A página do PPGCI também informa as teses e dissertações depositadas em 2015, mas devido ao ano de 2015 ainda não estar concluído, julgou-se prudente deixá-lo de fora das análises, já que os dados sobre este ano não representam a totalidade das informações anuais uma vez que o ano ainda está em curso. Assim, foram levantados todos os trabalhos listados entre os anos de 2001 e 2014, um total de 69 teses e 161 dissertações, somando 230 trabalhos.

Figura 1 – Quantidade de teses e dissertações do PPGCI da UNESP

Fonte: UNESP, 2014b; UNESP, 2014c.

Não foi observado depósito de teses de doutorado até o ano de 2006, sendo a primeira datada em 2007. O doutorado surge em 2005, então é compreensível a não existência de depósitos de teses nos anos seguintes. O prazo máximo para conclusão do doutorado é de 48 meses, ou seja, 4 anos. Dentro dos 230 trabalhos levantados foram analisados os títulos, as palavraschave e resumos buscando evidenciar a relação do trabalho com a temática Gestão do Conhecimento.

209


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3.1 Teses e Dissertações com a Temática Gestão do Conhecimento Na primeira fase do processo de análise dos 230 trabalhos levantados, foi analisado na listagem fornecida pela página do PPGCI da UNESP, os títulos e palavras-chave, em busca de palavras e conjuntos de palavras que relacionassem o trabalho a temática gestão do conhecimento. Foram encontradas 19 dissertações e 4 teses com palavra e/ou conjunto de palavras em seu título ou palavras-chave fornecidas pela página do programa que sugeriam relação com a temática GC. Das 19 dissertações, 8 continham o termo Gestão do Conhecimento em seu título ou em suas palavras-chave, ou ainda em ambos, desse modo estes foram separados para análise. Foram acessados os resumos dos outros 11 trabalhos com objetivo de averiguar a possibilidade de tratarem da temática GC. Nenhum dos 11 trabalhos apresentaram em seu resumo evidencias suficientes para concluir-se que os mesmos tratam da temática GC e, desse modo, foram descartados da análise. Para confirmar a relação com a temática GC foram também analisados os resumos das 12 dissertações levantadas. Apenas uma das dissertações apresentou evidencias em seu resumo de não ter relação com a temática. Assim, foi necessário acessar seu texto completo no repositório institucional da UNESP, o que confirmou que de fato a dissertação não tinha nenhuma relação com a temática GC, e que as palavras-chave inseridas na página do PPGCI não tinham relação com as palavraschave escolhidas no trabalho. Seria necessário conhecer os critérios de seleção de metadados, como as palavras-chave, pelo PPGCI para inserção dos trabalhos em sua página para saber ao certo o que ocorreu neste caso. Entre as 4 teses, 3 delas tinham a temática GC explicita em suas palavraschave e/ou seu título. O quarto trabalho demonstrou evidencias quanto a tratar da temática GC, as quais foram verificadas em seu resumo. O resumo continuou apresentando relação com a temática, mas a falta do termo ‘Gestão do Conhecimento’ levou a conferência do texto completo. No sumário evidenciou-se que um dos capítulos tratava do tema Gestão do Conhecimento, e assim o mesmo foi incluído nas análises. Desse modo, 11 trabalhos, 4 teses e 7 dissertações foram incluídas nas análises. Apenas para referência, os 11 trabalhos representam cerca de 5% do total de teses e dissertações elaborados pelo PPGCI ao longo de sua história. 210


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3.1.1 Autoria A análise de autoria no contexto desse trabalho tem como um dos seus objetivos observar a sequência dada nas pesquisas defendidas no PPGCI. Entre os 11 trabalhos analisados, 10 apresentaram autorias diferentes, sendo LGM, autor de uma dissertação e de uma tese com a temática Gestão do Conhecimento, ambas defendidas no PPGCI. Isto poderia evidenciar um baixo índice de sequência nas pesquisas sobre a temática dentro do PPGCI. Nota-se que há uma tendência de que pesquisadores deem sequência ao tema de estudo, contudo, destaca-se que em alguns casos analisados houve a observação de que o autor, no caso de doutoramento, defendeu sua dissertação de mestrado no PPGCI, contudo, com temática correlata, o que não caracteriza uma quebra de sequência, mas possivelmente uma complementação. Por exemplo, no caso de ECL, a autora defendeu sua dissertação de mestrado com a temática 'Gestão da Informação' e de doutorado com a temática 'Gestão do Conhecimento'.

Figura 2 – Autorias na teses e dissertações do PPGCI da UNESP DISSERTAÇÕES JEN

RCGS

LGM*

CLSG

CRS

SHMHM ES

TESES CRBM

LGM*

ECL

TMCT

Fonte: Dados da Pesquisa

Dos 7 mestres autores das 7 dissertações defendidas com o tema Gestão do Conhecimento, dois são hoje doutores (RCGS e LGM), outros 2 estão em fase de doutoramento, e os outros três não apresentam sequencia nos estudos de doutorado, segundo dados do Currículo Lattes.

3.1.2 Orientação Nos 11 trabalhos analisados foram encontrados 4 diferentes orientadores no geral, 4 diferentes nas dissertações e 2 diferentes nas teses. A repetição de orientadores em diferentes trabalhos, pode evidenciar uma continuidade na pesquisa 211


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do docente, que alia sua própria pesquisa a pesquisa do pós-graduando, criando parcerias de pesquisas, ampliando assim a produção de conhecimento na área de pesquisa. O professor MLPV é quem carrega o maior número de orientações, tendo orientado 6 dos 11 trabalhos, o que representa quase 55% das orientações. Na sequência temos BF e RCBB com duas orientações cada e ainda PLVACS com 1 orientação. Seria importante realizar novas coletas de dados para ampliar a análise com cruzamento de dados de outra natureza, como sobre outras publicações, pesquisas e correlações. Figura 3 – Orientações das teses e dissertações do PPGCI da UNESP

Fonte: Dados da Pesquisa

3.1.3 Ano de depósito Foram encontrados trabalhos depositados entre os anos de 2001 e 2014, fator que nos permite considerar que a temática Gestão do Conhecimento faz parte das pesquisas desenvolvidas pelo PPGCI da Unesp desde o ano de criação de seu mestrado acadêmico, em 2001. Ao longo dos anos a produção de teses e dissertações de manteve continua, anual ou bienalmente, com pausa maior entre os anos de 2004 e 2007, 4 anos, quando não houve nenhuma tese ou dissertação depositada junto ao programa. Nesse caso, faz-se necessário o cruzamento de tais informações considerando-se outras variáveis, para que se possa construir novas interpretações. 212


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Figura 4 – Quantidade de trabalhos por ano

Fonte: Dados da Pesquisa

3.1.4 Linha de pesquisa Dos 11 trabalhos 7 faziam parte da Linha Gestão, Mediação e Uso da Informação, e os outros 4 da Linha Informação e Tecnologia, quando foram desenvolvidos. Até o ano de 2007, o PPGCI da Unesp contava com duas linhas de pesquisa: 1) Informação e Tecnologia; 2) Produção e Organização da Informação. A linha 3 Gestão, Mediação e Uso da Informação surge em 2008, e em sua ementa englobaria

estudos

teóricos,

metodológicos

e

aplicados

sobre

gestão

do

conhecimento (UNESP, 2014d). Mesmo com a linha de pesquisa Gestão, Mediação e Uso da Informação passando a existir no PPGCI somente em 2008, nota-se a existência de trabalhos sobre a temática Gestão do Conhecimento desde o início do programa, com o primeiro trabalho já em 2001. Ao longo dos anos nota-se uma certa manutenção nos depósitos de trabalhos sobre a temática. Pode-se concluir que a linha relacionada a temática Gestão do Conhecimento, surge após uma demanda interna real, como reflexo do trabalho realizado e provavelmente de resultados apresentados, tal seja o caso das teses e dissertações depositadas.

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4 CONCLUSÕES O desenvolvimento de pesquisas cientificas certamente edifica e solidifica toda e qualquer campo de toda e qualquer ciência. Destaca-se que no caso da Gestão do Conhecimento, essa solidificação se dá de forma mais consubstanciada no âmbito da CI, considerando-se seu arcabouço teórico, ainda que seja essa uma ciência relativamente nova. Mais recente ainda é a existência da Linha de Pesquisa 'Gestão, Mediação e Uso da informação' no âmbito do PPGCI da Unesp de Marilia, cujas características fornecem uma gama de subsídios capazes de amparar pesquisadores em seus trabalhos voltados a GC. Ainda que a Linha 'Gestão, Mediação e Uso da informação' seja considerada o ambiente mais propício para a realização de pesquisas em GC, se faz importante destacar que o PPGCI teve alunos de mestrado e doutorado cujos trabalhos tinham como foco a GC antes da criação da linha, ou seja, o Programa possui uma demanda importante no que concerne a essa temática, o que nos faz inferir que a demanda existe em função da necessidade de se pesquisar tal temática e não ocorre somente pela existência de uma linha especifica para desenvolvimento de tais pesquisas. Salienta-se, ainda, a inconsistência dos dados apresentados na página do PPGCI UNESP, como a falta de acesso aos trabalhos mais antigos na íntegra, e aparente falha na inserção de metadados dos trabalhos em seu sistema. Tais inconsistência dificultam a prospecção de dados para pesquisas e estudos que tratam da produção do programa. A falta de acesso ao texto completo de alguns trabalhos, não disponibilizado na página do programa, ou no repositório institucional, ou catálogo online da biblioteca, dificultou a ampliação de algumas análises, já que havia necessidade de acessar outras informações dos trabalhos. Destaca-se, finalmente, o apontamento quanto a necessidade de sequência dessa pesquisa, que se configura como inicial, porém de grande relevância para as pesquisas em GC. Tal relevância se deve ao fato da necessidade de se evidenciar as pesquisas nesse campo, demonstrando tanto a sua importância quanto a sua demanda. Argumenta-se que a CI, especialmente no âmbito da linha de pesquisa 'Gestão, Mediação e Uso da informação', possui arcabouço teórico e corpo técnico capaz de oferecer, tanto para a ciência quanto para o meio organizacional, pesquisas

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que possam contribuir com o desenvolvimento de conhecimento teóricos e práticas de Gestão do Conhecimento.

REFERÊNCIAS BARRADAS, Jaqueline S.; CAMPOS FILHO, Luiz A. N. Gestão do conhecimento: a produção científica em periódicos brasileiros entre 1997 e 2006. Inf. & Soc., v.18, n.1, p.183-194, jan./abr. 2008. CAPES. Plano Nacional de Pós-Graduação: PNPG 2011-2020. Brasília (DF): CAPES, 2010. CAPES. Mestrados/Doutorados reconhecidos: área Ciência da Informação. 2015. Disponível em: <http://conteudoweb.capes.gov.br/conteudoweb/ProjetoRelacaoCursosServlet?acao= pesquisarArea&identificador=31#>. Acesso em: 17 maio 2015. DEMO, Pedro. Pesquisa e construção de conhecimento: metodologia científica no caminho de Habermas. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2009. MOTOYAMA, S.; QUEIROZ, F. A. de; VARGAS, M. 1964-1985: sob o signo do desenvolvimentismo. In: MOTOYAMA, S. (Org.). Prelúdio para uma história: ciência e tecnologia no Brasil. São Paulo: EDUSP, 2004. p.317-386 POBLÁCION, D. A.; NORONHA, D. P. Produção das literaturas “branca” e “cinzenta’ pelos docentes/doutores dos programas de pós-graduação em ciência da informação do Brasil. Ciência da Informação, Brasília, v.31, n.2, p.98-106, maio/ago. 2002. SANTOS, B. de S. Universidade do século XXVI: por uma reforma democrática e emancipadora da Universidade. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2005. UNESP. Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação: histórico. 23 ago. 2007. Disponível em: < http://www.marilia.unesp.br/#!/pos-graduacao/mestrado-edoutorado/ciencia-da-informacao/historico/>. Acesso em: 04 jun. 2015. UNESP. História de criação da Unesp. 214 (a). Disponível em: <http://www.unesp.br/portal#!/apresentacao/historico/>. Acesso em: 06 jun. 2015. UNESP. Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação: dissertações. 20 out. 2014 (b). Disponível em: < http://www.marilia.unesp.br/#!/posgraduacao/mestrado-e-doutorado/ciencia-da-informacao/dissertacoes/>. Acesso em: 04 jun. 2015. UNESP. Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação: teses. 20 out. 2014 (c). Disponível em: < http://www.marilia.unesp.br/#!/pos-graduacao/mestrado-edoutorado/ciencia-da-informacao/teses/>. Acesso em: 04 jun. 2015. UNESP. Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação: linhas de pesquisa. 29 mai. 2014 (d). Disponível em: < http://www.marilia.unesp.br/#!/pos215


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15 COMPETÊNCIA EM INFORMAÇÃO E MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO NO ÂMBITO DO PROCESSO DECISÓRIO NAS ORGANIZAÇÕES

Patrícia Zuccari patzuccari@ite.edu.br Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp) Docente do Centro Universitário de Bauru (CEUB). Regina Célia Baptista Belluzzo rbelluzzo@gmail.com Oswaldo Francisco de Almeida Júnior ofaj@ofaj.com.br Docentes do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp)

RESUMO Apresentam-se resultados de reflexões teóricas derivadas de pesquisa exploratória, qualitativa e de natureza bibliográfica sobre o processo decisório, a competência em informação e a mediação da informação em articulação com as funções do gestor organizacional. A partir do referencial construído, demonstra-se teoricamente a inter-relação entre tais abordagens em quadro conceitual voltado para ambientes organizacionais contemporâneos, com apoio do modelo de processo decisório processual, padrões e indicadores de competência em informação e de princípios da mediação da informação. Palavras-Chave: Competência em Informação. Mediação da Informação. Processo Decisório.

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1 INTRODUÇÃO O gestor organizacional é aquele que possui poder de decisão nas organizações, sejam elas privadas ou públicas. O seu papel é conduzir o rumo que essas organizações devem tomar, para isso ele deve acessar, usar e se apropriar de uma quantidade infindável de informações, para que a decisão tomada tenha consistência, coerência e atinja os objetivos organizacionais. Como a quantidade de informações tem aumentado consideravelmente, tem importância vital que esse gestor tenha competência em informação, uma vez que precisa reconhecer quais informações são necessárias, saber onde buscá-las, selecioná-las, analisá-las criticamente, compará-las e compartilhá-las de diversas maneiras, considerando-se que nas tomadas de decisão existe um alto índice de busca e uso da informação. A competência em informação, portanto, tem importante significado no desenvolvimento do processo decisório porque é um processo cujo objetivo é desenvolver habilidades de acesso e uso da informação de forma inteligente e efetiva para a construção de conhecimento e intervenção na realidade social. Para Belluzzo, Santos e Almeida Júnior (2014) esse processo [...] envolve o desenvolvimento e aprimoramento de atitudes relativas à busca, recuperação, avaliação e disseminação da informação, a mediação da informação é inerente à competência em informação, já que é uma ação de interferência.

Além da importância da competência em informação nesse contexto, a mediação da informação está presente em todo o processo decisório. Isso ocorre à medida que a decisão, e aqueles que sofrem as suas consequências, acabam sofrendo uma ação de interferência do mediador em relação à busca e recuperação da informação e, neste caso, o mediador é o gestor. Em decorrência desse cenário, o trabalho busca estabelecer reflexões teóricas envolvendo o modelo do processo decisório processual e estabelecer inter-relação com a competência em informação e a mediação da informação em ambientes organizacionais.

2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Para a consecução dos objetivos propostos, definiu-se que a pesquisa seria de natureza exploratória, qualitativa e com caráter bibliográfico. A pesquisa bibliográfica considera a bibliografia que já está publicada através publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas, monografias, teses, material cartográfico, etc. 219


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(MARCONI; LAKATOS, 2006). Os levantamentos e análises partiram de dados, conceitos e princípios teóricos retirados principalmente de fontes impressas e eletrônicas sobre as seguintes temáticas: a) Processo decisório; e, b) Competência em informação e Mediação da informação, cuja síntese é apresentada a seguir na forma de sistematização. Ressalta-se que, a partir do referencial sobre os modelos de tomada de decisão apresentados por Choo (2011), optou-se por desenvolver a pesquisa com base no modelo de tomada de decisão processual, por ser o único que exige que o usuário busque e use mais informações em suas diferentes etapas de desenvolvimento.

3 PROCESSO DECISÓRIO A habilidade para tomada de decisões está presente nas quatro funções de todos os gestores organizacionais, que consistem em: planejamento, organização, liderança e controle. A tomada de decisão envolve a solução de um problema, como por exemplo, quando os objetivos organizacionais não estão sendo atingidos e a organização precisa criar estratégias para sobrevivência em mercado competitivo. Considera-se, portanto, que o processo decisório é de vital importância para as organizações, pois os seus responsáveis tomam decisões todos os dias e elas influenciam no desempenho dessas empresas. Para Gomes (2007) o processo decisório é caracterizado por três dimensões: a importância, em relação à satisfação de valores para a organização; a velocidade exigida, dependendo do grau de urgência para resolução do problema levantado; e, o grau de individualidade, ou seja, a importância que o gestor dá àquele problema. Pinel (1996, p. 26) ainda salienta que uma boa decisão depende da habilidade do decisor em “estabelecer uma relação harmônica entre suas ações e a cultura empresarial”, uma vez que as características de personalidade, estilo de liderança e fatores ambientais influenciam na tomada de decisões. Choo (2011) compara quatro modelos do processo decisório: o racional, o processual, o político e o anárquico, descritos na sequência: # Modelo racional - A princípio desenvolvido por Herbert Simon, que utilizou como base para explicar o comportamento humano nas organizações, considerando que estão permeadas por decisões e ações e cada pessoa participa de forma racional e consciente, tomando decisões individuais a respeito de alternativas racionais de 220


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comportamento (CHIAVENATO, 2004). Neste modelo, as organizações utilizam procedimentos operacionais-padrão para tomar decisões com base em três princípios: evitar a incerteza, adotar métodos com o feedback a curto prazo, para desencadear a ação, impondo regras para a tomada de decisão e fazendo com que o gestor se sinta mais seguro; manter as regras, conservar os procedimentos o maior tempo possível; e, criar regras simples, considerando condições, requisitos e problemas específicos. Lousada e Valentim (2011, p. 149) apresentaram questões-chave do modelo racional, tais como: “qual é o problema?; quais são as alternativas?; quais são os custos e vantagens de cada alternativa?; e o que deve ser observado como padrão para tomar decisões em situações similares?”, o que permite inferir a necessidade da avaliação crítica de informações para o alcance de respostas satisfatórias. Ainda, Chiavenato (2004, p. 278) coloca que esse processo decisório envolve sete etapas: “percepção da situação que envolve algum problema, análise e definição do problema, definição dos objetivos, procura de alternativas, seleção da alternativa mais adequada, avaliação e comparação das alternativas e implementação da alternativa escolhida”. Após a última etapa é realizado um feedback, no sentido de checar se o objetivo esperado foi atingido. A racionalidade está em escolher os melhores meios para o alcance de determinados objetivos, no intuito de atingir melhores resultados. Entretanto, as pessoas comportam-se racionalmente apenas em função daqueles aspectos da situação que conseguem perceber e tomar conhecimento, sendo que os demais aspectos que não são percebidos e/ou conhecidos pelas pessoas não interferem em suas decisões, embora existam na realidade. A esse fenômeno dá-se o nome de racionalidade limitada, ou seja, decisões racionais tomadas considerando aspectos que a pessoa consegue perceber e interpretar (CHIAVENATO, 2004). Dessa forma, podem haver informações no ambiente que o indivíduo despreze ao tomar decisões e isso pode influenciar o desempenho da organização. # Modelo processual - onde os padrões de desempenho da organização e as metas estão estabelecidos e o problema já é reconhecido. Entretanto, a tomada de decisão consiste em definir os melhores procedimentos técnicos. É utilizado principalmente na construção do planejamento estratégico, no momento da definição do plano tático e operacional. Foi desenvolvido por Mintzberg, Raisinghani e Théorêt (1976), escolhido após a análise de outros 25 processos decisórios estratégicos. Contempla três fases decisórias principais: identificação, desenvolvimento e seleção. 221


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Choo (2011) detalha cada uma dessas fases, sintetizadas a seguir: a) identificação: reconhece a necessidade de tomada de decisão e desenvolve as questões que estão compreendidas na decisão, contemplando rotinas de reconhecimento e de diagnóstico.

O

reconhecimento

parte

do

pressuposto

que

os

problemas,

oportunidades e crises são reconhecidos e a partir disso inicia-se a atividade decisória, sendo indispensável deter informações sobre a organização como um todo, o ambiente onde ela atua, teorias sobre o assunto, como refletem Mintzberg, Raisinghani e Théorêt (1976, p. 253) sobre essa importância: “a diferença entre a informação sobre uma situação real e um padrão esperado”. É complementado por Choo (2011) como experiências passadas, tendências, padrões utilizados em organizações semelhantes, expectativas pessoais e modelos teóricos. No diagnóstico “a administração tenta compreender os estímulos que desencadeiam a decisão, assim como as relações causais relevantes para a situação decisória” (CHOO, 2011, p. 277). A busca da informação é constante e é vital para que a decisão tomada seja assertiva, uma vez que quanto mais informações relativas à problemática a organização possuir, melhor será a qualidade do diagnóstico; b) desenvolvimento: leva a organização a desenvolver uma ou mais soluções para a problemática que resultou na tomada de decisão. Esta fase contempla rotinas de busca: divisão em busca na memória, ou seja, a informação existente na própria organização; busca passiva, ou seja, esperar por soluções não procuradas (insigths, ideias inesperadas); busca-armadilha, ativar geradores de busca, por exemplo, deixar que fornecedores saibam o que a empresa planeja comprar; e a busca ativa, que consiste em procurar ativamente as informações sobre a problemática, no intuito de proporcionar alternativas para a tomada de decisão. Além disso, requer a rotina de criação de solução customizada, ou seja, única, ou modificar uma alternativa convencional existente, que consiste na escolha entre várias alternativas; c) seleção: análise das alternativas e escolha da mais adequada ao compromisso da sua ação, sendo composta

pelas

rotinas

de

sondagem,

avaliação-escolha

e

autorização,

respectivamente, que elimina o que não é praticável, usa o julgamento, ou seja, o indivíduo escolhe por conta própria, pela sua própria mente; a barganha, onde um grupo de pessoas, com objetivos e interesses distintos, exerce o seu julgamento; e a análise, que consiste em avaliar as alternativas e suas consequências, mediante o confronto de um conjunto de critérios, cuja decisão implica em julgamento ou 222


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barganha. A rotina de autorização define um caminho formal dentro da hierarquia organizacional, para que a decisão tenha apoio interno e externo da organização, com o intuito de garantir a sua implementação. Choo (2011) ainda explica que além dessas três fases, o modelo processual ainda contempla outras três rotinas de apoio à decisão que permeiam todo o processo, são elas: a) controle: consiste no planejamento, ou seja, onde começa e onde termina o espaço da decisão, quem fará parte, quais são os prazos, recursos, etc.; b) comunicação: reúnem e distribuem a informação durante todo o processo decisório, e, c) políticas: importantes nos processos decisórios estratégicos e podem vir na forma de barganha, quando interessados na organização exercem algum controle sobre as decisões; ou persuasão, utilizada para convencer alguém a mudar de opinião. # Modelo político - tem ações e decisões pautadas nos interesses e influências que os seus membros exercem. Segundo Choo (2011, p. 281) podem ser analisadas com base nas respostas a uma sequência de quatro perguntas: “quem são os jogadores?; quais são as posições dos jogadores?; qual a influência de cada jogador?; como a posição, influência e os movimentos de cada jogador combinam para gerar decisões e ações?”. Esses jogadores são os indivíduos que têm interesses relacionados àquele processo decisório, em especial, os gestores. Esse autor ainda explica que num ambiente onde exista divergência de objetivos e contenção de recursos, a tomada de decisão organizacional acaba ocorrendo de forma política. # Modelo anárquico - segundo Choo (2011) assemelha-se a uma lata de lixo, onde vários tipos de problemas e soluções são atirados pelos participantes do processo decisório, à medida que vão sendo gerados, assim como num brainstorming. A decisão ocorre quando problemas, soluções, participantes e oportunidades de escolhas coincidem. Complementando, afirma que no modelo anárquico a tomada de decisão acontece de três formas distintas e não possui uma sequência: por resolução, pensa-se no problema por um tempo determinado antes de tomar a decisão; por inadvertência, quando é escolhida uma alternativa de modo rápido e incidental, para que outras escolhas possam ser realizadas; e/ou ainda por fuga, quando o problema original deixa de existir e a decisão não faz mais sentido. Os quatro modelos de processo decisório apresentados são caracterizados por abordagens diferentes na maneira de obter as informações, como pode ser observado no quadro 1. 223


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Quadro 1: Busca e uso da informação na tomada de decisões USO DA INFORMAÇÃO (controle)

Baixo

Alto Desligada

Baixo

Modo Anárquico Aleatória

Modo Racional

Localizada

BUSCA DA INFOMAÇÃO (extensão)

Problematizada Modo Político

Seletiva Orientada Modo Processual Repetitiva Mútipla

Alto Acoplar a solução ao problema

Selecionar uma solução satisfatória

Justificar o resultado preferido

Desenvolver uma solução pronta ou customizada

Fonte: Choo (2011, p. 293)

A partir do contexto do processo decisório nas organizações e suas diferentes dimensões que foram descritos, considera-se que o gestor precisa desenvolver a competência em informação, considerando que ele é o usuário da informação e o protagonista que atua como mediador nas tomadas de decisão que impactam resultados e metas organizacionais. Daí, a importância de se descrever a interrelação entre a competência em informação e a mediação da informação.

3 COMPETÊNCIA EM INFORMAÇÃO E MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO A informação é parte do processo decisório, por essa razão é fundamental que o gestor saiba qual informação buscar, quais fontes são confiáveis, como manuseá-la, uma vez que a qualidade dessa informação reflete no resultado da decisão tomada e por consequência no desempenho da organização. Nesse contexto está a competência em informação, uma vez que o gestor deve ser uma pessoa competente para lidar com a informação. O termo competência em informação surgiu pela primeira vez na literatura estadunidense em 1974 em um relatório intitulado The information servisse environment relationships and priorities, cuja autoria é de um bibliotecário americano 224


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chamado Paul Zurkowski. O termo ressurgiu em 1976 relacionando uma série de habilidades e conhecimentos que incluíam a localização e uso da informação para resolução de problemas e tomadas de decisão (DUDZIAK, 2001). A American Library Association (ALA, 1989) ressalta que para as pessoas manterem-se em constante aprendizagem elas precisam ser competentes em informação, o que significa saber reconhecer quando uma informação é necessária para a sua vida, para isso ela deve ser capaz de localizar, avaliar e usar efetivamente a informação, ou seja, sabem como devem aprender. No campo organizacional, Belluzzo e Feres (2013) mencionam que a competência em informação pode ser vista como um dos requisitos para o perfil do profissional que trabalhará com informação. Nesse sentido, o gestor, tomador de decisões, deve possuir essa competência, uma vez que trabalha com a informação o tempo todo no processo decisório. Takahashi (2000) contribui dizendo que a competência em informação não modela pessoas, mas ajuda a aprimorar e desenvolver competências e habilidades, ou seja, capacita as pessoas para o processo decisório, auxiliando o indivíduo a escolher todas as informações que o afetam, exigindo dele acesso, conhecimento e capacidade de processar essas informações de maneira perspicaz, sem ser influenciado pelo meio político e/ou econômico. Em 1999, a Society of College National and University Libraries apresentou na Conference of National and University Libraries, em Londres, um estudo sobre o desenvolvimento de “Sete Pilares da Competência em Informação”, que retrata as competências em relação às habilidades na busca, recuperação e uso da informação (PONTES JÚNIOR, 2009). Apesar do modelo voltar-se para alunos de graduação e pós-graduação de bibliotecas universitárias, aplica-se também aos gestores organizacionais em tomadas de decisão. Para Pontes Júnior (2009, p. 74) os Sete Pilares da Competência em Informação têm como apoio o que apresenta no Quadro 2.

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Quadro 2: Sete Pilares da Competência em Informação

Biblioteca básica de habilidades

Habilidades em TI

Sintetizar e Criar

Organizar, comunicar e aplicar

Comparar e analisar

Expert Localizar e acessar

Construir estratégias de busca

Distinguir maneiras de eliminar os “gaps”

Reconhecer a necessidade de informação

COMPETÊNCIA EM INFORMAÇÃO

Proficiente Competente Iniciante Avançado

Iniciante

Fonte: Pontes Júnior (2009, p. 74)

No intuito de avaliar o desempenho e o desenvolvimento dos programas de Ciência em Informação, foram elaborados os chamados “Padrões e Indicadores de Competência em Informação”, sendo que a primeira publicação que diz respeito aos padrões é de 2000, quando a Association of College and Research Library (ACRL) publicou o Information Literacy Standards for Higher Education (Padrões de Competência em Informação para a Educação de Nível Superior), instituindo diretrizes para a Competência em Informação no ensino superior dos EUA. Em 2008 Catts e Lau (2008) lançaram o documento Towards in information literacy indicators que foi publicado pela UNESCO, destacando a importância do uso de indicadores para a avaliação da Competência em Informação. Belluzzo e Kerbauy (2004), com base nos princípios internacionais, trouxeram a relevância do assunto para o âmbito nacional e desenvolveram os “Padrões básicos e/ou indicadores de performance propostos como parâmetros norteadores à utilização em programas de competência em informação e competência midiática, nos diferentes níveis”, e que no ano de 2007, foram revistos e atualizados por Belluzzo (2007). O objetivo é verificar a avaliação da competência em informação, no que tange à admissão, o desenvolvimento e avaliação de princípios e conceitos, dentro de cinco padrões básicos, conforme quadro 3.

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Quadro 3: Padrões básicos ou indicadores de Competência em Informação PADRÕES

INDICADORES 1.1 Define e reconhece a necessidade de informação

1 – A pessoa competente em informação determina a natureza e a extensão da necessidade de informação

1.2 Identifica uma variedade de tipos e formatos de fontes de informação potenciais 1.3 Considera os custos e benefícios da aquisição da informação necessária 2.1 Seleciona os métodos mais apropriados de busca e/ou sistemas de recuperação da informação para acessar a informação necessária.

2 - A pessoa competente em informação acessa a informação necessária com efetividade.

2.2 Constrói e implementa estratégias de busca delineadas com efetividade. 2.3 Busca a informação via eletrônica ou com pessoas utilizando uma variedade de métodos. 2.4 A pessoa competente em informação retrabalha e melhora a estratégia de busca quando necessário 3. 1 Demonstra conhecimento da maior parte das ideias da informação obtida

3 - A pessoa competente em informação avalia criticamente a informação e as suas fontes

4 - A pessoa competente em informação, individualmente ou como membro de um grupo, usa a informação com efetividade para alcançar um objetivo/obter um resultado.

5 - A pessoa competente em informação compreende as questões econômicas, legais e sociais da ambiência do uso da informação e acessa e usa a informação ética e legalmente.

3.2 Articula e aplica critérios de avaliação para a informação e as fontes 3.3 Compara o novo conhecimento com o conhecimento anterior para determinar o valor agregado, contradições ou outra característica da informação 4.1 É capaz de sintetizar a informação para desenvolver ou completar um projeto

4.2 Comunica os resultados do projeto com efetividade

5.1 Demonstra compreensão sobre as questões legais, éticas e socioeconômicas que envolvem a informação, a comunicação e a tecnologia 5.2 Cumpre as leis, regulamentos, políticas institucionais e normas relacionadas ao acesso e uso às fontes de informação 5.3 Indica as fontes de informação nas comunicações do produto ou resultados

Fonte: Belluzzo (2007, p. 95-103)

Para Belluzzo (2014, p. 58) a competência em informação tem um papel estratégico no âmbito organizacional, [...] uma vez que ela não acontece pela própria informação, mas sim pelo seu conteúdo estratégico. Esse conteúdo não se manifesta diretamente porque é apenas o objeto de um processo que necessita da mediação humana, mas porque implica no uso de recursos intelectuais como a memória, a

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imaginação, a percepção e o raciocínio, organizados ao redor de metodologias que têm como objetivo a identificação dos conteúdos estratégicos. Daí é que se deriva a importância de se mapear a CI nas organizações e, a partir desse mapeamento, implantar programas de desenvolvimento nessa área para auxiliar na busca da vantagem competitiva pelas organizações (BELLUZZO, 2014, p. 58).

Lopes e Valentim (2008) defendem que, tanto a relevância quanto a importância de determinada informação, são qualidades dadas pelo usuário da informação, uma vez que é este usuário que busca informar-se a partir de incertezas, curiosidade, lacuna ou necessidade. Por essa razão, as autoras ainda continuam dizendo que esse trabalho informacional é realizado sob a luz da mediação, pois medeiam o contexto da necessidade do usuário com as informações existentes. Ainda, apontam que a informação situando-se no segmento não estruturado, o analista, ou seja, quem trabalhará essa informação antes dela ser comunicada, deverá desenvolver as atividades informacionais com o objetivo de disseminá-las da melhor forma ao seu público alvo, promovendo a mediação antes mesmo que o usuário tenha determinada necessidade informacional. Quanto à mediação da informação, para Almeida Júnior (2015, p. 3) é [...] toda ação de interferência – realizada em um processo, por um profissional da informação e na ambiência de equipamentos informacionais –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural, individual ou coletiva; visando a apropriação de informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais.

O autor ainda complementa sobre a importância da mediação no processo que envolve o acesso e uso da informação: A mediação da informação permite e exige concepção de informação que desloque o usuário da categoria de mero receptor, colocando-o como ator central do processo de apropriação. Dessa forma, defendemos que o usuário é quem determina a existência ou não da informação. A informação existe apenas no intervalo entre o contato da pessoa com o suporte e a apropriação da informação. Como premissa, entendemos a informação a partir da modificação, da mudança, da reorganização, da reestruturação, enfim, da transformação do conhecimento (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p. 97).

Nesse sentido, quando o gestor se apropria da informação e a utiliza no processo decisório, ele está mediando a informação, uma vez que ele foi o ator principal na apropriação daquela informação e durante esse processo houve de certa maneira algum tipo de interferência, desde o momento que ele selecionou aquela informação, uma vez que a seleção decorreu de alguma necessidade específica. Assim, para Fachin (2013, p. 27): 228


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A mediação entre o usuário e a informação, tem a finalidade de auxiliar na recuperação e de minimizar o tempo para a obtenção da informação, visa também maximizar o potencial da recuperação da informação relevante para o efetivo uso pelo usuário.

Ainda neste raciocínio Belluzzo e Feres (2003) afirmam que o processo de mediação está relacionado com a solução de problemas, uma vez que a informação é insumo estratégico para a competitividade. Por sua vez, para Brasileiro e Freire (2013, p.4) é possível considerar, ainda, que [...] “não existe conhecimento sem o agir da comunicação, da mesma forma que não existe mediação da informação sem a presença de um conteúdo informacional que contenha informação em potencial”. Além disso, a partir das

ações de mediação da informação, as organizações conseguem explicitar suas práticas e interesses para as demais pessoas inseridas em seu ambiente, em um processo caracterizado pela transformação de níveis de conhecimento, isto é, sob a mudança do conhecimento individual para o conhecimento em grupo. Essa mediação não se constitui meramente do ato de informar ou mesmo de prestar informações, mas sim da função de estabelecer uma comunicação efetiva entre a organização e seus usuários de informação, por meio de um processo de intercâmbio de informações, o qual se caracteriza pelo entendimento dos interesses e necessidades de informação dos usuários por parte da organização e, de forma recíproca, pela transmissão de suas atitudes, práticas e opiniões para os mesmos usuários de acordo com o referido entendimento inicialmente adquirido (BRASILEIRO; FREIRE, 2013).

De acordo com os referenciais teóricos apresentados, busca-se estabelecer e apresentar reflexões teóricas que envolvem, em particular, o modelo de tomada de decisão processual, buscando estabelecer um elo entre a competência em informação e a mediação da informação, enquanto uma contribuição à melhor compreensão e da inter-relação dessas temáticas em ambientes organizacionais. Lousada (2015, p. 13) entende o usuário na mediação da informação como participante do processo, não como mero receptor, ou seja, sem interferir, passivo, ele é um sujeito ativo no processo “é ele o norte, o fim, para o qual todas as ações estão voltadas”. Nesse sentido, quando o gestor analisa criticamente uma informação e, em seguida, ele a dissemina, seja no processo decisório ou não, ele interfere nesse processo, sendo o mediador. Entretanto, como ele precisa reconhecer quais informações são necessárias, saber onde buscá-las, selecioná-las, analisá-las criticamente, compará-las e compartilhá-las de diversas maneiras, isso requer habilidades e capacidades de competência em informação. A partir desse contexto, 229


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apresentam-se no quadro 4, as fases do modelo de tomada de decisão processual (MINTZBERG; RAISINGHANI; THÉORÊT, 1976) e a sua inter-relação com os elementos de mediação e indicadores e padrões de competência em informação (BELLUZZO, 2007) como resultado das reflexões desenvolvidas. Quadro 4: Inter-relação entre o Modelo de Tomada de Decisão Processual e os elementos de mediação e Padrões e Indicadores de competência em informação Fases do Modelo de Tomada de Decisão Processual (MINTZBERG; RAISINGHANI; THÉORÊT, 1976)

Identificação

Elementos de mediação que constituem o Modelo Tomada de Decisão Processual

Reconhecimento de problemas, oportunidades e crises

Entrevistas com funcionários, clientes, fornecedores

Desenvolvimento

Uso da base de dados

Observação da concorrência e elaboração de relatórios

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Inter-relação com os Padrões e Indicadores de Competência em Informação ( BELLUZZO, 2007)

(Padrão 1) 1.1 Define e reconhece a necessidade de informação: reconhece os problemas, oportunidades e crises antes de iniciar o processo decisório.(Padrão 1) 1.2 Identifica uma variedade de tipos de formatos de fontes de informação potenciais: como experiências passadas, tendências, padrões utilizados em organizações semelhantes, expectativas pessoais, software de gestão e modelos teóricos.(Padrão 1) 1.3 Considera os custos e benefícios da aquisição da informação necessária: ou seja, quanto essa informação custará e qual benefício ela trará, por exemplo, o quanto a aquisição de um software auxiliará nas tomadas de decisões na organização.(Padrão 2) 2.3 Busca a informação via eletrônica ou com pessoas utilizando uma variedade de métodos: a informação advinda de softwares, e-mails, consultas na Internet ou ainda através de livros, conversas com funcionários, fornecedores, clientes, concorrentes, entre outros, para identificação da melhor informação para tomada de decisão. (Padrão 2) 2.1 Seleciona os métodos mais apropriados de busca e/ou sistemas de recuperação da informação para acessar a informação necessária: a busca por informação pode ocorrer na própria organização (internamente), através de métodos como entrevistas com funcionários, extração de dados do sistema, entre outros; ainda fora da organização (externamente), através de entrevistas com clientes, fornecedores, observação da concorrência, base de dados, etc.(Padrão 2) 2.2 Constrói e implementa estratégias de busca delineadas com efetividade: através da identificação da problemática, é possível desenvolver um planejamento para buscar as informações necessárias.(Padrão 2) 2.4 A pessoa competente em informação retrabalha e melhora a estratégia de busca quando necessário: a partir do momento que os resultados da busca não são o suficiente, o profissional da informação faz um novo planejamento para buscar as informações que de fato ajudarão no processo decisório.(Padrão 3) 3.1 Demonstra conhecimento da maior parte das ideias da informação obtida: a partir das informações mais relevantes e mais aderentes à problemática, cria soluções para a tomada de decisão.


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Seleção

Comparação de alternativas para solucionar o problema levantado

(Padrão 3) 3.2 Articula e aplica critérios de avaliação para a informação e as fontes: mediante as soluções criadas adota a rotina de sondagem, onde através de critérios pré-definidos, elimina o que não é praticável pela organização.(Padrão3) 3.3 Compara o novo conhecimento com o conhecimento anterior para determinar o valor agregado, contradições ou outra característica da informação: analisa se a alternativa apresentada soluciona a problemática proposta anteriormente.

Rotinas de controle

Planejamento

(Padrão 4) 4.1 É capaz de sintetizar a informação para desenvolver ou completar um projeto: significa organizar as informações, sintetizá-las e desenvolver um planejamento.

Rotinas de comunicação

Leitura

(Padrão 4) 4.2 Comunica os resultados do projeto com efetividade: durante todo o processo, comunica, de maneira adequada, os resultados parciais e finais do processo decisório.

Normas internas

Rotinas políticas

Pareceres jurídicos

(Padrão 5) 5.1 Demonstra compreensão sobre as questões legais, éticas e socioeconômicas que envolvem a informação, comunicação e a tecnologia: envolve questões relacionadas ao pagamento de serviços de informação, como exemplo uso de licença de softwares. (Padrão 5) 5.2 Cumpre as leis, regulamentos, políticas institucionais e normas relacionadas ao acesso e uso às fontes de informação: conhece a estrutura organizacional e além de conhecer também cumpre suas normas e regulamentos internos, leis relativas ao acesso e uso às fontes de informação durante todo o processo decisório.(Padrão 5) 5.3 Indica as fontes de informação nas comunicações do produto ou resultados: inclui dar créditos às informações recebidas e/ou geradas por algo/alguém.

Fonte: Elaboração dos Autores (2015)

A mediação e a competência em informação permeiam todo o processo decisório. Desde o desenvolvimento de habilidades e capacidades como aquela que ajuda o gestor a escolher as informações necessárias, fazendo com que ele acesse, busque, processe e analise essas informações de forma crítica e as incorpore na tomada de decisão.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Considerando-se o referencial apresentado e a inter-relação demonstrada teoricamente mediante descrições conceituais, pode-se dizer que as organizações contemporâneas são espaços onde a mediação da informação e a competência em informação estão presentes durante todo o processo decisório processual, uma vez que direcionam o gestor organizacional a se preocupar de maneira crítica à forma como ele seleciona, busca, usa, se apropria e aplica a informação em suas decisões. 231


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Desse modo, entende-se que o gestor organizacional participa ativamente dos processos que envolvem a informação, uma vez que com base nas informações que recebe e da forma como se apropria dela, ele interfere na organização, podendo transformar a sua realidade. Nota-se, ainda, que as abordagens estudadas se fundamentam em torno das etapas que condicionam o processo de mediação da informação, quer sejam sob o viés do ciclo que envolve toda a gestão da informação nas instituições ou especificamente no que se refere à produção da informação de ótima qualidade, que vem a se configurar como uma etapa inicial desse processo de mediação, fazendo com que tanto na mediação como na competência em informação, o gestor passe a ser um agente de mudança.

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16 A NATUREZA DA GESTÃO NO CENTRO EDUCACIONAL UNIFICADO: A GESTÃO DO CEU VISTA PELA ÓTICA DA CULTURA

Naiene Sanchez Silva ssnaiene@gmail.com Universidade de São Paulo (USP).

Resumo: Os Centros Educacionais Unificados (CEUs) estão localizados em distintos pontos do município de São Paulo e estão comprometidos com a execução de políticas públicas voltadas à demanda educacional, cultural e esportiva. O projeto do CEU prevê uma gestão compartilhada a ser realizada por diversas instâncias. A proposta de uma gestão conduzida a partir da interação entre distintas partes permite refletir sobre possibilidades de hibridação, trocas, compartilhamentos e conflitos entre as mesmas. Este artigo pretende observar como se consubstancia a gestão do CEU pelo viés da esfera da cultura. Palavras-Chave: CEU; Gestão; CEU Quinta do Sol; Gestão Cultural; Hibridação.

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1 A GESTÃO NOS CEUs Os Centros Educacionais Unificados (CEUs) não estão inscritos somente em regiões geograficamente mais afastadas do centro da metrópole, mas também se encontram instalados nos bolsões de pobreza localizados próximos à região central do município de São Paulo. O Decreto Municipal N. 42.832, de 06 de fevereiro de 2003, determina as diretrizes dos CEUs e esclarece que o equipamento municipal em questão deve atender a uma região geograficamente menos favorecida, isto é, locais cuja tendência é a escassez de ofertas no âmbito cultural, educacional e esportivo. Moacir Gadotti (2004, p. 4) comenta que a escolha do lugar onde os Centros Educacionais Unificados são instalados é o que determina a prioridade do projeto. Assim, “[...] a localização dos CEUs objetiva atender à finalidade central do projeto: transformar o acentuado quadro de exclusão social, cultural, tecnológica e educacional

vivido,

principalmente,

nas

regiões

periféricas

da

cidade”.

Arquitetonicamente diferentes entre si, esses equipamentos, ainda sim, possuem inúmeras similaridades. No tocante a questões estruturais, os quarenta e cinco CEUs espalhados pela metrópole paulista contam com, unidades escolares, quadras poliesportivas, teatro, espaço onde se concentram os funcionários que cuidam da gestão do complexo, piscinas, um telecentro e uma biblioteca. O CEU é obra da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME) e se caracteriza, dentre outras coisas, por ser um complexo onde diversos setores convivem concomitantemente. Todos os CEUs possuem uma gestão, da qual parte a oficialização das tomadas de decisões do equipamento. A gestão de um CEU é desenvolvida a partir de acordos firmados com instituições privadas, por intermédio da participação de órgãos públicos e, sobretudo, da sociedade civil. Além disso, ao observarmos a maneira como o CEU se organiza internamente, notamos que sua gestão conta com uma equipe composta por setores que recebem o nome de núcleos, tais como: ação cultural, esporte e educação. A Secretaria Municipal de Educação (SME) concebeu o projeto do CEU sendo a principal responsável por sua administração. Dentre os inúmeros departamentos que compõem a Secretaria Municipal de Educação, há um setor específico responsável diretamente pelos Centros Educacionais Unificados, que se chama Assessoria Especial Sala CEU. A Sala CEU, por sua vez, viabiliza a comunicação

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entre os CEUs e o gabinete do Secretário Municipal de Educação. Também são responsáveis pelos CEUs as Diretorias Regionais de Educação e as Subprefeituras. 2 MAS, AFINAL, É POSSÍVEL DEFINIR A NATUREZA DA GESTÃO DOS CEUs? Paulo Freire, em sua passagem pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, concebeu os princípios norteadores que, anos depois, orientaram Maria Aparecida Perez à frente da Secretaria Municipal de Educação no governo de Marta Suplicy a implantar os CEUs. A importância do pensamento de Paulo Freire para o projeto é evidenciada no livro Educação, CEU e Cidade. A concepção pedagógica da atual gestão leva muito em conta as ideias e propostas da escola aberta e democrática que o educador Paulo Freire procurou pôr em prática em 1989, quando foi secretário de educação no município de São Paulo. Segundo o seu ideário, um governo democrático que quisesse incentivar a participação popular e promover a cidadania deveria investir na educação de qualidade e desenvolver espaços para a formação integral de cidadãos e cidadãs, espaços de convivência comunitária, combinando várias estratégias para desenvolvimento da consciência crítica em todas as idades (DÓRIA, 2007, p.111).

A partir desta perspectiva, segundo Gadotti (2000, p.19), “[...] chamar os CEUs de ‘escolões’, como a imprensa de São Paulo costuma fazer, além de não ser apropriado, distorce propositalmente o que são os Centros Educacionais Unificados”. A opção por resumir o CEU a essa nomenclatura contradiz as diretrizes e os princípios do dispositivo em questão. Igualmente, “[...] apesar dos CEUs terem equipamentos para a prática do esporte e constituírem-se em centros culturais, esportivos e recreativos abertos à comunidade, eles não são clubes de recreação” (GADOTTI, 2000, p. 3). Para a Secretaria Municipal de Educação, “[...] o Centro Educacional Unificado (CEU) é um complexo educacional, esportivo e cultural caracterizado como espaço público múltiplo”11. Assim, quando consideramos o CEU um “escolão”, estamos impondo uma maneira para os cidadãos utilizá-los, distorcendo, assim, o projeto que originou este dispositivo; o mesmo acontece quando o consideramos um clube. O CEU se caracteriza, sobretudo, por uma proposta intersetorial, em que todos os setores juntos devem conduzir a gestão do equipamento. Sobre o setor denominado “Gestão”, comum em todos os Centros Educacionais Unificados, lê-se: “este setor caracteriza-se como o ponto nevrálgico do dispositivo, isso porque é 11

A descrição de cada CEU pode ser consulta no endereço eletrônico: <http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br/ceus/Anonimo/apresentacao.aspx?MenuID=11>. Acesso em: 28 jun. 2013.

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responsável por acompanhar os processos dos diferentes núcleos e órgãos que participam da gestão do CEU” (Portaria N. 4672, 2006). Há no CEU, inclusive, um órgão denominado Conselho Gestor que se configura como um colegiado formado por distintos representantes, tais como: funcionários

públicos

municipais,

membros

de

organizações

representativas

pertencentes à comunidade, além dos frequentadores do dispositivo. Este colegiado institui-se como uma instância consultiva e deliberativa, responsável por promover, organizar e fomentar a assessoria social sobre as políticas publicas executadas pelo CEU. O conselho gestor tem por finalidade reunir membros da região onde o dispositivo está localizado para que possam interferir e acompanhar o que acontece dentro dos CEUs. Logo, o Conselho Gestor pode possibilitar meios de a gestão do CEU seguir as seguintes diretrizes: a) tomada de decisões de forma coletiva; b) participação da população, por meio das organizações da sociedade civil representativas da comunidade local; c) eleição direta de representantes nas instâncias devidas; d) democratização e circulação de informações; e) acompanhamento e avaliação processual permanente da unidade educacional unificada (Portaria N. 4672, 2006).

A maneira como os CEUs funcionam é, dentre outras coisas, o resultado de um conjunto de normas propostas por diversos atores sociais, e essa afirmação exclui a ideia de que as decisões políticas devem ser tomadas exclusivamente pelos representantes institucionais do dispositivo. De acordo com os princípios que norteiam o CEU, o bom funcionamento de suas unidades dependerá da participação comunitária em sua gestão, bem como da apropriação desses equipamentos pelos cidadãos que moram na região em que cada centro foi instalado. Por isso seus conselhos gestores preveem maior participação de membros da comunidade do que de representantes das próprias unidades escolares (DÓRIA, 2007, p.152).

Não há cartilha para a realização da gestão de um CEU; existem decretos que orientam o funcionamento do dispositivo. Entretanto, que tipo de gestão é essa da qual estamos falando? A gestão do CEU consegue consubstanciar um projeto intersetorial de gestão compartilhada como previsto por lei? Como o gestor deve lidar com essa condição? Sobre a complexidade desse tema, Dória (2007, p.150) evidencia como a gestão compartilhada é algo complexo no campo prático: Gerir um equipamento complexo e multifuncional como é o CEU não é coisa fácil. Além dos cuidados com a manutenção, das especificidades do trabalho pedagógico em cada uma das unidades, significa, também, coordenar os trabalhos de mais de 400 funcionários distribuídos entre as três unidades de CEI, EMEI, EMEF, além do tele centro, da biblioteca e dos outros equipamentos culturais e esportivos; coordenar o processo de relacionamento

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entre esses espaços tendo em vista que cada equipamento tem suas necessidades, especificidades e um plano de trabalho desenvolvido de forma a atender a comunidade. É gerenciar, também, o relacionamento das secretarias envolvidas – Educação, Cultura, Esporte e Governo Eletrônico, Subprefeituras – com a unidade e seus equipamentos. É uma gestão diferenciada, porque se propõe a realizar um trabalho baseado na cooperação e co-responsabilidade entre todos os envolvidos, dentro e fora do CEU.

Não menos importante é lembrar também que o CEU é um projeto cuja gestão envolve inúmeras instâncias e, sobretudo, é composto por distintos setores (administrativo, educacional, cultural e esportivo) que devem relacionar-se entre si. O CEU não é um espaço onde identidades são fixadas ou onde as verdades são inquestionáveis. É fundamental que sejam formuladas políticas públicas a partir da ideia de que o CEU se caracteriza como um projeto intersetorial. O projeto dos CEUs foi concebido, desde sua origem, como uma proposta intersetorial, somando a atuação de diversas áreas, como: meio ambiente, educação, emprego e renda, participação popular, desenvolvimento local, saúde, cultura, esporte e lazer. Os CEUs inspiram-se na concepção de equipamento urbano agregador da comunidade, com uma visão de educação que transcende a sala de aula e o espaço escolar (GADOTTI, 2009, p.29).

O CEU deve configurar-se como local disponível para a reflexão sobre as necessidades e os desejos dos cidadãos. Desse modo, pretende-se que esses equipamentos sejam legitimados pela capacidade de garantir um espaço em que todas as atividades oferecidas incentivem o pensamento crítico não somente dos alunos e dos professores, mas de todos aqueles que o frequentam. O CEU deve investir no exercício da cidadania e privilegiar políticas em que caibam todos, ele é “[...] um espaço de formação permanente e de humanização das relações sociais” (DÓRIA, 2007, p. 11). Um cidadão consciente de sua realidade tem condições para transformar, sugerir e compartilhar ideias para a região da qual faz parte. O decreto-lei que regulamenta o CEU defende a possibilidade de se executar uma política conjunta. Para exemplificar melhor essa ideia, abaixo seguem três artigos que legitimam que essa condição deve ser garantida pelo dispositivo. Art. 79 - Assegura-se aos alunos e usuários do CEU ampla liberdade de expressão e organização, para as quais a comunidade do CEU deve concorrer ativamente, respeitadas as decisões dos órgãos colegiados e a legislação vigente. Art. 80 - Os alunos das Unidades Educacionais do CEU, os alunos das Unidades Educacionais do entorno e os usuários da comunidade em geral poderão participar da elaboração, acompanhamento e avaliação do Projeto Educacional Anual do CEU, de forma representativa, nos Conselhos estabelecidos. Art. 81 - É direito do usuário o acesso aos critérios de inscrição nas atividades educacionais, culturais, esportivas e de lazer do CEU e eventuais listas de espera, por meio de informações e comunicações dos núcleos específicos (Portaria N. 4672, 2006).

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Sob essa perspectiva e baseando-nos na ideia de Paulo Freire sobre a importância da consciência crítica do sujeito, entendemos que estamos observando um dispositivo que deve, permanentemente, questionar sua própria “identidade” e, assim, reconhecer a realidade que o cerca. Acreditamos que os funcionários do CEU e seus frequentadores devem, constantemente, revisitar os processos que conduzem à produção de conhecimento dentro do dispositivo.

Dessa maneira, sujeito e

dispositivo criam uma relação dialógica, a qual privilegia o desvendamento da realidade em que estão inscritos. Ora o CEU é um dispositivo de caráter esportivo, ora ele está mais comprometido com a proposição de ações culturais ou educacionais. O CEU encontra-se em permanente transformação; trata-se de um espaço vivo cuja organicidade está na possibilidade de considerar conflitos e mudanças, da mesma maneira que ele não pode instituir uma identidade para a região que o cerca, não pode ser categoricamente definido, mas deve possuir uma identidade instável que, permanentemente, se vai reconfigurando a partir da reflexão e da participação social. Para Paulo Freire (1997), o constante movimento do homem empenhado em desvendar a realidade da qual faz parte permite que este esteja a todo o momento transformando a realidade já desvendada, dessa maneira, não há meios de o homem se desumanizar. O sujeito como protagonista é objetivo para o qual a gestão do CEU deve estar em consonância e empenhada em incentivar. Como diz o quarto item do 6º artigo do Decreto de Lei n° 45.559, de 2004, o CEU tem como objetivo promover o protagonismo infanto-juvenil. Logo, investir na criança e no adolescente como protagonistas dentro do CEU pode significar o primeiro passo para que o cidadão seja o protagonista de sua realidade social. Todavia, para que o protagonismo seja alcançado, é necessário que o projeto idealizado para esses dispositivos efetivamente se consubstancie ao ser colocado em prática. O CEU foi concebido como espaço não apenas de reflexão, estudos e construção conjunta de conhecimento, governo e comunidade, mas também para receber e considerar a cultura da comunidade e irradiar outras formas de manifestações culturais; um espaço que permitiu e continua permitindo a construção individual e coletiva da ação pedagógica, mas que ao mesmo tempo, constrói um espaço de participação e organização de diferentes segmentos e movimentos sociais. Constituíram-se em espaços de afirmação de direitos e de promoção de cidadania (DÓRIA, 2007, p. 231).

Um governo democrático deve investir em programas de formação e políticas que viabilizem maneiras para que os cidadãos possam, de forma consciente, 241


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participar e exercitar sua criticidade no trânsito entre as esferas sociais. Em outras palavras, os próprios indivíduos poderiam fazer a intersecção entre as partes que compõem a sociedade; acreditamos na possibilidade de um sujeito mediador: aquele que opina, participa e transita pelas esferas sociais. Essa mesma lógica, em um cenário ideal, deve ser aplicada dentro do CEU, ou seja, a gestão deve incentivar o fato de os funcionários de diferentes setores participarem e transitarem dentro dos distintos núcleos que compõem o dispositivo.

3 A GESTÃO CULTURAL NOS CEUs Definir o que entendemos por gestão cultural no CEU se faz necessário uma vez que pretendemos observar a gestão do CEU a partir do viés cultural. O Núcleo de Ação Cultural (NAC) e respectivamente sua proposta de gestão cultural é uma das inúmeras instancias responsáveis pela gestão do CEU em sua totalidade. Passível de reformulações constantes de seu significado, para Rubens Bayardo (2008, p. 57): “[...] quando falamos da gestão cultural, estamos pensando na gestão de um vasto campo de instituições (e programas de projetos de indústrias, de empreendimentos de bens de serviços e de direitos culturais)”. Eduard Miralles (2010, comunicação oral)12, por sua vez, comenta que as cidades são laboratórios de soluções para os conflitos que acontecem nos grandes centros urbanos, sendo necessário trabalhar localmente e pensar globalmente. Sob essa perspectiva, quando nos referimos à gestão cultural de proximidade, estamos tratando de um modelo que se aplica ao CEU13. Tivemos, ao final do regime militar, em âmbito federal, a separação, em 1985, entre cultura e educação através da criação do Ministério da Cultura. A esfera da cultura, por sua vez, ganhou lugar de reflexão e ação exclusivo, fato que gerou o aumento de leis que regulamentam o setor. A definição de gestão cultural, no Brasil, estabeleceu-se na década de 1980, a partir de políticas de incentivo fiscal à cultura.

12

Curso de gestão cultural oferecido pelo convênio Cátedra UNESCO de Políticas Culturales Y Cooperación, da Universitat de Girona e Observatório Itaú Cultural no ano de 2010. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=5TIPGCMGZmI >. Acesso em: 15 de janeiro de 2014. 13 Valendo-nos da fala dos pensadores que dissertam sobre o conceito de gestão cultural de proximidade verificamos a pertinência de estudarmos a gestão cultural do CEU para compreender a condução do dispositivo em sua totalidade.

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A política cultural é um elemento da gestão cultural. Sobre esse conceito, Jorge Fernandez de León (2009, comunicação oral)14 explica, a partir de sua experiência como vice-conselheiro de Cultura da Região de Astúrias, que a política cultural pode, muitas vezes, ser definida como política de consenso, ocupando-se da recuperação do espaço público e valorizando a possibilidade de convivência em nome da paz e do bem-estar das pessoas. Interpretada pelo viés do consenso, o campo das políticas culturais tornou-se um lugar de visibilidade propiciando a pequenos partidos políticos e sindicatos utilizarem-se dele para imporem suas próprias ideologias, assim como o Estado também o faz. Configura-se, então, uma maneira de utilizar a política cultural como um instrumento para galgar os objetivos de determinados grupos. Lemos em Teixeira Coelho (1997, p. 14) que a política cultural não deve ter como objetivo selar acordos para que os conflitos sejam solucionados. Construir problemas deve ser anterior a possibilidade de apresentar soluções: “[...] a construção do problema é o passo necessário para resolvê-lo, e esse passo cabe à política cultural. Nada além disso”. Este raciocínio leva o teórico a concluir que “[...] a política cultural assume sua expressão máxima na figura da ação cultural, entendida como a criação das condições para que os indivíduos e grupos criem seus próprios fins”. Um modelo cultural que verse sobre preceitos ideológicos não é compatível com uma gestão cultural cujo eixo seja a ação cultural; esta última, como expressão máxima da política cultural, só pode admitir em seu seio políticas avessas a conteúdos ideológicos. Daí então, a gestão cultural, pelo viés da proposição de políticas culturais, em especial, sob a perspectiva da ação cultural, pode combater propostas que versam sobre os hiatos que ocultam os malefícios decorrentes de processos segregadores. Um discurso ideológico corrompe qualquer proposta baseada em processos de interculturalidade, compreendida aqui como processo cultural em que as partes envolvidas se reconhecem em relações de trocas e conflitos. O CEU é um dispositivo cuja proposta está ancorada na ideia de uma gestão conduzida de maneira compartilhada. Essa proposta pressupõe um panorama que pode seguir tanto pelos trilhos da interculturalidade como pelo caminho da multiculturalidade, conceito aqui entendido como o reconhecimento da diversidade de 14

Curso de gestão cultural oferecido pelo convênio Cátedra UNESCO de Políticas Culturales Y Cooperación, da Universitat de Girona e Observatório Itaú Cultural no ano de 2009. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=VBcD13Io0ME >. Acesso em: 15 de janeiro de 2014.

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culturas. Todavia, no caso do CEU, a multiculturalidade não basta, já que o CEU deve realizar uma gestão conjunta na qual as instâncias que participam desse projeto se reconheçam e, sobretudo, interajam a partir de processos interculturais.

4 CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONCEITO DE ESPETÁCULO Em sua obra A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord (1997) formula uma teoria que busca estudar uma sociedade sustentada por mecanismos que privilegiam a fragmentação das estruturas sociais e, aparentemente, encobre essa condição através de um discurso hegemônico. Segundo Francisco Teixeira e Celso Frederico (2010, p. 247), ao refletirem sobre a obra de Debord, assumem que “[...] a crítica da mercadoria fica em segundo plano, pois o que interessa a ele é a denúncia dos obscuros mecanismos de controle social”. E, para entendermos o pensador francês, precisaremos nos reportar à teoria de Karl Marx e a seus conceitos de alienação e fetichismo, pois são os conceitos que darão base à teoria de Debord. Guy Debord (1997) explica que o espetáculo se resume nele próprio. O modelo de organização desse tipo de sociedade está destinado a fortalecer e considerar, exclusivamente, o discurso do espetáculo, desconsiderando qualquer outro. O indivíduo da sociedade do espetáculo “[...] interage dentro dessa subcomunicação gerada por essa cultura no espetáculo e torna-se o homem desprezível, o espectador” (DEBORD, 1997, p. 195). Em A civilização do espetáculo – uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, Vargas Llosa (2013) comenta que a teoria de Debord tem como tema central o triunfo do capitalismo sobre a classe proletária. As mercadorias são os “donos da vida” e submetem os homens à ditadura do espetáculo o qual está fundido à lógica capitalista. A ditadura do espetáculo privilegia a passividade do homem e o torna espectador, há um esvaziamento da vida real, e a vivência é substituída pela representação. Sobre a condição do homem espectador, Debord (1997, p. 24) faz a seguinte exposição: “[...] quanto mais ele contempla, menos vive, quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo”. Desse modo, para Debord (1997, p. 24) “[...] o espetáculo na sociedade corresponde a uma fabricação concreta da alienação”. Além disso, ele “[...] se apresenta como uma enorme positividade, indiscutível e inacessível” (DEBORD, 1997, p. 16). Isso porque o espetáculo exige do espectador a 244


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“[...] aceitação passiva que, de fato, ele já obteve por seu modo de aparecer sem réplica, por seu monopólio da aparência” (DEBORD, 1997, p. 17). Conceitos como alienação, simulacro, segregação e fetichismo não foram sublimados pela sociedade atual. Logo, Debord é um autor que pode nos auxiliar a identificar na rotina de gestão do CEU diversos elementos mencionados em sua obra. Por gestão compartilhada, portanto, devemos compreender o que está previsto no projeto dos CEUs. Contudo, é necessário investir em ferramentas que ampliem nossa visão quando nos debruçamos sobre como acontece na prática a gestão compartilhada em cada um desses equipamentos. Observando o contexto global, Massimo Canevacci (2008), por sua vez, comenta que, graças à inevitabilidade dos fluxos comunicacionais, em especial os gerados pelas redes digitais, a cidade se caracteriza como detentora de uma identidade flexível, e isso reconfigura as relações sociais entre as pessoas. Para ele, “[...] mobilidade, fluidez e hibridização, é parte da experiência cultural, corporal, e também urbanística, da metrópole contemporânea” (CANEVACCI, 2008, p. 15). O filósofo explica que os interstícios, entendidos como algo móvel, de qualidades mutantes e insólitas, são responsáveis por formalizar um “[...] panorama que cruza, incorpora o que antes era separado” (CANEVACCI, 2008, p. 20). Apoiado na ideia de Marshall McLuhan de “aldeia global"15, Milton J. Bennett (2011) explica que as sociedades se tornam mais multiculturais graças a inevitabilidade de fluxos e redes que podem ser estabelecidos entre as pessoas. O pensador comenta que, à medida que as sociedades se tornam mais multiculturais, a comunicação deve acompanhar esse movimento e desenvolver-se junto com ele. Contudo, Néstor Gacía Canclini, em sua obra Diferentes, Desiguais e Desconectados, o pensador dedica-se a observar como a sociedade contemporânea se configura. Lê-se: Sob concepções multiculturais, admite-se a diversidade de culturas, sublinhando sua diferença e propondo políticas relativas de respeito, que frequentemente reforçam a segregação. Em contrapartida, a interculturalidade remete à confrontação e ao entrelaçamento, àquilo que sucede quando os grupos entram em relação e trocas. Ambos os termos implicam dois modos de produção do social: multiculturalidade supõe aceitação do heterogêneo; interculturalidade implica que os diferentes são o que são, em relações de negociação, conflito e empréstimos recíprocos (CANCLINI, 2009, p.17). 15

Este conceito é indissociável da ideia de globalização e diz respeito a uma nova configuração de mundo baseada na comunicação decorrente do desenvolvimento da comunicação tecnológica. Este contexto permite que as distâncias geográficas sejam suprimidas e é o despertar de um novo tempo e uma nova espacialidade. A título de curiosidade, Guy Debord, sociólogo muito presente em nosso terceiro capítulo irá opor-se ferozmente às ideias de McLuhan.

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Em um mundo hipermóvel, a fidelidade torna-se sinônimo de rigidez: não aderir à moda é sinônimo de compromisso com ideias permanentes e optar por não estar conectado é tido como uma opção insensata: “[...] começa ser cada vez mais insatisfatório viver num mundo de simulacros, artifícios e mercadorias inconstantes” (CANCLINI, 2009, p. 96). Segundo Lúcia Maciel Barbosa de Oliveira (2014), “[...] a diversidade que nos constitui não se converte em desenvolvimento coletivo, ao contrário, converte-se em desigualdade e segregação”. Sob essa perspectiva, quando optamos por uma gestão baseada nos preceitos da multiculturalidade, prevalece a aceitação entre as esferas, ou seja, uma gestão que vem na esteira da multiculturalidade pode configurar-se como uma proposta em que as esferas não se relacionam entre si. Por outro lado, podemos pensar em uma gestão a partir da ideia de interculturalidade, a qual privilegia o cruzamento e as relações de trocas, negociações e conflitos que podem emergir quando as instâncias que fazem parte da gestão compartilhada interagem entre si. Tomamos o conceito de hibridação desenvolvido por Canclini (2013), para compreender a relevância de uma gestão compartilhada, sua organicidade e permeabilidade no dia a dia das esferas – educação, cultura, esporte, sociedade civil – que devem permanecer interligadas (segundo o projeto do CEU). Canclini (2013, p. XIX) parte de uma primeira definição sobre o conceito de hibridação o qual irá aprofundar durante o decorrer de sua obra “Culturas Hibridas”: entende “[...] por hibridação processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas que existam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas”. Tanto quando nos debruçamos sobre o projeto do CEU, como quando nos reportarmos às experiências práticas desses dispositivos, notamos que esta proposta tem correspondência com uma gestão cuja ideia está ancorada no conceito de hibridação, uma vez que: A hibridação, como processo de intersecção e transições, é o que torna possível que a multiculturalidade evite o que tem de segregação e se converta em interculturalidade. As políticas de hibridação serviriam para trabalhar democraticamente com as divergências [...] (CANCLINI, 2013, p. XXVII).

No caso do CEU, como lidar com uma gestão que compreende em sua proposta processos de hibridação? Canclini (2013, p. 371), ao comentar sobre a possibilidade de os dispositivos versarem sobre discursos hegemônicos, formula a seguinte pergunta: “[...] a abertura e a hibridação suprime as diferenças entre os

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estratos culturais, produzindo um pluralismo generalizado, ou geram novas segmentações?”

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Consideramos que o CEU adota um modelo de gestão híbrida. Justificamos essa premissa, primeiramente, pela inevitabilidade de o dispositivo pertencer a uma sociedade que se caracteriza pela possibilidade de fluxos e cruzamentos permanentes. Defendemos também a natureza do dispositivo como híbrida pela perspectiva de gestão descrita em seu projeto, sendo que essa última pretende que o compartilhamento entre as esferas que gerem o equipamento ultrapasse as relações de reconhecimento entre uma instancia e outra. A condução do dispositivo deve compreender processos de interculturalidade porque prevê uma gestão a ser realizada pelo cruzamento de distintos órgãos municipais e atores sociais. Acreditamos que abordar a gestão pelo viés da cultura nos auxilia a entender como se configura uma gestão cuja proposta se sustenta nos processos de hibridação. A hibridação, se entendida por fusões que compreendem conflitos gerados no bojo da interculturalidade, não pode sustentar-se por processos de multiculturalidade em que as culturas são apenas reconhecidas.

Igualmente, olhar para os processos que

sucedem dentro do CEU pode fazer-nos compreender melhor os fluxos e processos globais. Através de políticas públicas destinadas a trocas entre as regiões e os sujeitos, verificamos que este dispositivo contempla espaços de intercâmbio entre os indivíduos e, consequentemente, acaba abrindo frente para que identidades emirjam, sejam reconhecidas e recriadas. As ações decorrentes do setor de cultura podem influenciar substancialmente a maneira como se configura o local onde o dispositivo está inscrito. O mesmo vale para todas as demais ações colocadas em prática pelos diversos núcleos que compõem a gestão do CEU. Contudo, a intensidade e inevitabilidade dos fluxos e das conexões que caracterizam a sociedade contemporânea não estão isentos da possibilidade de influência de discursos ideologizados que flertam com ideias segregadoras. Devemos confiar na construção das políticas públicas para os CEUs de maneira coletiva. Outrossim, é fundamental criar espaços destinados a reunir as equipes dos distintos dispositivos. Essa ideia deve ser ampliada para o corpo de 247


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funcionários que compõe cada CEU e aquecer a participação da população dentro dele. Do mesmo modo, confiamos na figura do protagonista cultural, aqui entendido como cidadão que participa de questões pertinentes à área da cultura. Esta ideia deve ser ampliada ao cidadão protagonista da região à qual pertença, aqui entendido como o cidadão que reconhece e transforma a realidade em que está inserido. O CEU não pode compactuar com a ideia de cidadão contemplador, como acontece no sujeito que vive sob o domínio do espetáculo. Confiamos, respectivamente, na figura de um protagonista mediador, capaz de transitar e criar conexões entre os distintos setores que compõem o CEU e, numa perspectiva mais ampliada, como aquele que interage nas e entre as distintas esferas da sociedade.

REFERÊNCIAS BAYARDO, Rubens. A gestão cultural e a questão da formação. Revista Observatório Itaú Cultural/OIC. São Paulo, n. 6, p. 57-65, jul./set. 2008. CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas. 4. ed. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013. ______. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. 3. ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 2009. CANEVACCI, Massimo. Entrevista com o pensador Massimo Canevacci. [abr. 2008]. Entrevistadora: Júlia Aguiar. Overmundo, Porto Alegre, 11 abr. 2008. Disponível em: <http://www.overmundo.com.br/overblog/entrevista-com-pensador-massimocanevacci>. Acesso em: 22 jun. 2014. DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. DÓRIA, O. Roberto. Educação, CEU e cidade: breve história da educação pública brasileira nos 450 anos da cidade de São Paulo. São Paulo: Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo, 2007. Disponível em: <http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/2595924/educaco-cu-e-cidade-brevehistria-daeducao-brasileira-nos-450-anos-da-cidade-de-so-paulo%3E>. Acesso em: 21 dez. 2013. GADOTTI, Moacir. Educação com qualidade social: projeto, implantação e desafios dos Centros Educacionais Unificados (CEUs). São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2000. GADOTTI, Moacir; PEREZ, Maria Aparecida. Prefácio: o projeto educacional dos CEUs. In: PADILHA, Paulo Roberto; SILVA, Roberto da. Educação com qualidade social: a experiência dos CEUs de São Paulo. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2004. 248


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SÃO PAULO (Cidade). Decreto n° 42.832 de 6 de fevereiro de 2003. Cria os Centros Educacionais Unificados que especifica. Disponível em: <http://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0CBw QFjAA&url=http%3A%2F%2Fwww.prefeitura.sp.gov.br%2Fcidade%2Fsecretarias%2F upload%2Feducacao%2Fcme%2FDECRETO_42832_03.doc&ei=Iri9U7LOG7HKsQT5 7oLIAg&usg=AFQjCNFI6fKEkjX3Ik1XYZDjzbPnyW4lbw&sig2=0dUQYVDjbhkkHmNi0 EyLUA> Acesso em: 12 fev. 2013. ______. Decreto n° 45.559, de 30 de novembro de 2004. Aprova o Regimento Padrão dos Centros Educacionais Unificados. Diário Oficial do Município de São Paulo, São Paulo, ano 49, n. 224, p. 01, 2004. ______. Portaria n° 4672 de 5 de dezembro de 2006. Aprova o Regimento Padrão dos Centros Educacionais Unificados – CEUs. Disponível em:<http://www3.prefeitura.sp.gov.br/cadlem/secretarias/negocios_juridicos/cadlem/int egra.a sp?alt=06122006P%20046722006SME> Acesso em: 12 fev. 2013. TEIXEIRA, Francisco; FREDERICO, Celso. Marx, Weber e o marxismo weberiano. São Paulo: Cortez, 2010. TEIXEIRA COELHO. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo, SP: Iluminuras, 1997. VARGAS LLOSA, Mario. A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

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17 INFOCOMUNICAÇÃO: DELINEAMENTO E REPRESENTAÇÃO

Elismar Vicente dos Reis elismarreis@bol.com.br Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual de Londrina (UEL). Maria Inês Tomaél mitomael@uel.br Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Resumo: O estreito vínculo entre atores sociais e dispositivos propicia a evolução da indústria informacional por encontrar na comunicação um forte aliado. Os ambientes de interações virtuais possibilitam um modo de comunicação específico, facilitado por plataformas baseadas em sistemas digitais de partilha de informação. Devido à falta na literatura de concepções claras e uma caracterização consistente para a expressão infocomunicação, o objetivo do trabalho foi identificar na literatura distintas abordagens conceituais sobre o termo infocomunicação e refletir sobre os elementos para sua representação. O encaminhamento metodológico se deu pela pesquisa bibliográfica nas bases de dados do Portal de Periódicos da Capes e nas publicações da área de Ciência da Informação, além de livros, teses e dissertações. Não encontramos uma abordagem conceitual cabal para infocomunicação, assim, de acordo com a literatura analisada, esboçamos alguns conceitos para o termo “infocomunicação” que podem representá-lo. Comunicação por si só não basta assim como a informação. Não há sentido em dispositivos tecnológicos sem a ação humana. A tecnologia não é protagonista dos processos de comunicação e a exclusão do ser humano nessa relação mudaria a principal função dos dispositivos, que é de servir como facilitador de interações. Concluímos que infocomunicação não dissocia interação social das ferramentas e considera todo processo de ação informacional, facilitado por dispositivos que não perduram em função simplesmente do instrumento mas das transcrições sociais ali presentes. Não é apenas a estrutura que provê o fluxo de informações e seus dispositivos de partilha, mas a junção destes complementados pela ação humana. Palavras-Chave: Infocomunicação; Dispositivos; Plataformas infocomunicacionais.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

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1 INTRODUÇÃO Ao longo da história a humanidade se deparou com diversas transformações, sejam elas econômicas, culturais, políticas ou tecnológicas. Tais transformações afetam o modo como as pessoas se comportam e em decorrência de diferentes fatores as preocupações e anseios também se alteram, assim, a sociedade recebeu e continua

a

receber

interferência

dos

novos

dispositivos

de

comunicação,

considerados neste estudo “dispositivos infocomunicacionais”. Decorrente do entrelaçamento dos agentes e dos dispositivos, a indústria informacional evolui por encontrar na comunicação um forte aliado, pois, o relacionamento dessas áreas está diretamente ligado às interações humanas e sua coletividade. A tecnologia, por meio dos ambientes virtuais, possibilita um modo de interação peculiar, com comunicação disponível em dispositivos pautados no contexto tecnológico e acesso informacional, são dispositivos múltiplos, “infocomunicacionais”. Isso pode levar ao pensamento de que comunicação por si só não basta, tal qual a informação. Não há sentido em dispositivos tecnológicos sem as interações sociais, independente da ferramenta utilizada, todos podem ser produtores e consumidores de informação. Aparentemente a literatura não apresenta concepções claras e uma caracterização para a expressão “infocomunicação”. Dessa forma, o objetivo do estudo foi identificar na literatura distintas abordagens conceituais sobre o tema e refletir sobre os elementos para sua representação. O método empregado para averiguar o objetivo foi a pesquisa bibliográfica.

1.1 Informação Hibridizada O ambiente virtual é uma inovação que alterou o modo como as pessoas se comunicam, encurtou distâncias, alavancou a quantidade de relacionamentos, criou novos meios de armazenamento e distribuição da informação fazendo emergir novos cenários para interações humanas, se firmando por alicerçar plataformas de relacionamento interpessoal e possibilitar relações online. Marcondes (2010, p. 12-13) apresenta informação como um processo de interpretação de fenômenos quando inseridos em uma relação sígnica com um intérprete, conforme assevera “informação, [...] não é uma coisa, é um processo, o processo de interpretar fenômenos potencialmente informativos por um usuário”. A 253


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informação pode assegurar a autenticidade de fatos e confirmar tendências além de possibilitar o acúmulo do conhecimento. Segundo Tomaél (2005, p. 27) “informação é um processo de formação de sentidos dos fatos – resultante do saber, dos acontecimentos, das especulações, das ações e dos projetos –, cujo conteúdo permutamos com o ambiente em que estamos inseridos”. [...] a ‘informação’ pode ser: registrada, duplicada, transmitida, armazenada, organizada, processada, recuperada. Sim, mas somente quando extraída da mente e codificada, pela linguagem natural (falada ou escrita), seguindo normas e padrões (gramática, sintaxe) próprios de cada língua, ou de outras linguagens criadas pelo homem (linguagens de programação, que também têm suas gramáticas e sintaxes). Há, de fato, um processo de transformação do conhecimento (dentro da mente) em ‘informação’ fora da mente. Então, ‘informação’ seria o conhecimento ‘externalizado’, mediante algum tipo de codificação (ROBREDO, 2007, p.60).

Percebe-se que informação em algum momento já foi compreendida como conhecimento e agora está registrado em um documento, informação não se toca, não é algo audível ou visível, isso é o documento, o qual contém o registro do conhecimento representado por códigos que podem ser interpretados conforme entendimento do usuário. Informação deriva de vários fatores, inclusive do usuário que dela faz uso, de suas necessidades e do meio que o cerca. Choo (2003) explica que a informação quase sempre tem uma manifestação física, um documento ou registro em algum lugar, mas o contexto e significado são diferentes cada vez que o usuário a procura. Recuperação da informação é uma expressão técnica da Ciência da Informação (CI), que está atrelada a um sistema. Embora no presente trabalho não seja objeto de discussão, aborda-se brevemente a temática por entender que o atual estágio tecnológico das plataformas infocomunicacionais apresenta relação com o assunto. Nos Anos 50 a recuperação da informação passou a ser trabalhado por uma série de cientistas, engenheiros e empreendedores com vistas a encontrar as melhores explicações técnicas e conceituais para sua definição. Diante da explosão informacional daquela época e da demarcação de que “recuperar informação” perpassa por aspectos intelectuais de caracterização da informação e das particularidades para a sua busca, acreditamos que exista uma ligação entre a informação produzida, armazenada e os meios para consegui-la (SARACEVIC, 1996). Contudo, a solução ao termo mencionado suscita também problemas os quais se apresentam em: como descrever intelectualmente a informação? Como especificar intelectualmente a busca? Que sistemas, técnicas ou 254


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máquinas devem ser empregados? Questões que até hoje são fundamentais para o estudo da informação. Essas questões fizeram emergir vários conceitos e teorias empíricas bem como um grande número de práticas. Para Saracevic (1996, p.44-45), [...] o trabalho determinado pela necessidade de recuperar informações suscitou questões e promoveu pesquisas exploratórias de fenômenos, processos e variáveis, bem como das causas, efeitos, comportamentos e manifestações relacionados. Historicamente, este fato conduziu a estudos teóricos e experimentais sobre a natureza da informação, a estrutura do conhecimento e seus registros (incluindo bibliometria), o uso e os usuários, levando a estudos do comportamento humano frente à informação; a interação homem-computador, com ênfase no lado humano da equação; relevância, utilidade, obsolescência e outros atributos do uso da informação juntamente com medidas e métodos de avaliação dos sistemas de recuperação da informação; economia, impacto e valor da informação, dentre outros. Bastante significativa, também, foi a emergência do pragmatismo na aplicação empresarial da recuperação da informação: a indústria informacional ou, para ser mais preciso, o setor que lida com a criação e distribuição de bases de dados e de serviços online decorrentes, bem como o acesso à informação e sua disseminação. Essa indústria da informação tem suas raízes diretamente relacionadas com os trabalhos de recuperação da informação dos anos 50 e 60, que culminaram com a emergência de serviços online nos 70 e com a viabilização internacional da indústria da informação nos anos 80.

Percebe-se assim alguns fatores que gradativamente podem ter auxiliado o processo de digitalização e hibridização da informação, desde o estudo do comportamento humano, a interação homem-dispositivo até os serviços online de partilha de informação. Talvez tenha se encontrado aqui a célula embrionária de diversas aplicações presentes na atualidade, uma gama de produtos, sistemas, redes de comunicação, serviços e ambientes digitais agora voltados ao compartilhamento de informação.

1.2 Processo de Comunicação A CI, como campo de estudo multidisciplinar pode ultrapassar a questão apenas da informação e recuperação e olhar também para a comunicação, saindo do pragmatismo das bases de informação de armazenamentos locais alcançando a informação “produzida” e “compartilhada”, independente do suporte. A informação encontra na comunicação um forte aliado para seu compartilhamento, o que contribui sobremaneira para a evolução da indústria informacional. Saracevic (1996, p. 52) argumenta que “se existe alguma palavra que tenha mais conotações, maior uso em muitos e diferenciados contextos e maiores motivos para confusão do que informação, essa palavra é comunicação”. Primeiro porque 255


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ainda não há consenso entre o processo de comunicação visto como objeto de investigação e comunicação como campo de estudo “isto é, a comunicação (campo) estuda a comunicação (processo)”. No processo de comunicação o usuário é visto como peça central, deixando de ser apenas um consumidor e se tornando um criador e distribuidor da informação, pautado pela demanda por novas competências “porque essa expansão da capacidade de expressão é apenas o primeiro tempo da comunicação. Expressar-se não é suficiente para garantir a comunicação porque falta o interlocutor, alguém que ouça e esteja interessado em comunicar-se” (BORGES et al., 2012, p. 15). É nesse sentido que se entende que o processo de comunicação não é apenas o

simples ato

de envio

de mensagem, o

conteúdo:

comunicar constitui

fundamentalmente um ato social (PERAYA, 1999). Todo ato de comunicação é parte da interação social, que por sua vez ocorre em um sistema mais amplo das relações sociais. “Comunicar não é apenas produzir e distribuir informação, é também ser sensível às condições nas quais o receptor a recebe, aceita, recusa, remodela, em função das suas escolhas filosóficas, políticas, culturais” (WOLTON, 2006, p. 175). Comunicação depende do receptor, por isso ela envolve riscos e só acontece quando o emissor consegue distinguir que informação não é o mesmo que comunicação.

1.2.1O Binômio Informação e Comunicação O campo comunicação converge com a CI justamente por tratarem de assuntos que apresentam estreita relação. Os estudos acadêmicos ligados a comunicação dão prioridade aos vínculos da comunicação humana de forma a verificar como é feita a interação entre indivíduos, coletividade e sociedade no ato de compartilhar e usar a informação. Pesquisadores que trabalharam tanto em CI como em comunicação entendem que o foco unilateral em informação ou em comunicação, por si mesmo é muito estreito, enfraquecendo a pesquisa em ambos. [...] o desenvolvimento da relação entre CI e comunicação apresenta várias dimensões: um interesse compartilhado na comunicação humana, juntamente com a crescente compreensão de que a informação como fenômeno e a comunicação como processo devem ser estudadas em conjunto; uma confluência de certas correntes de pesquisa; algumas permutas entre professores; e o potencial de cooperação na área da prática profissional e dos interesses comerciais/empíricos (SARACEVIC, 1996, p.53-54).

Nesse sentido, percebe-se uma linha muito tênue entre os dois campos de estudo. Junte-se a isso a tecnologia, que por meio dos ambientes virtuais, propicia um 256


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modo de comunicação singular, na qual a informação está disponível em dispositivos distintos como smartphones, tablets ou qualquer outro “meio digital” de comunicação. Esses dispositivos, pautados no contexto tecnológico atual e na abundância informacional proporcionam um novo olhar sobre as interações humanas, podemos dizer que são plataformas múltiplas, não só de acesso à informação nem somente de comunicação. Assim, referencia-se comunicação como processo, de forma a entendêla como o ato de se comunicar, interagir, trocar informação por meio de dispositivos que permitam seu compartilhamento. Os

processos

de

comunicação

parecem

então

potencializados

pela

computação, que com aparatos específicos conseguiram promover métodos comunicacionais

e

prover

a

partilha

informacional.

Os

dispositivos

infocomunicacionais surgem em meio a tecnologia digital por proporcionar a convergência entre computação, dispositivos móveis, comunicação e informação em ambientes digitais. Para exemplificar a questão sobre tecnologia, comunicação e informação Recuero (2009) faz um recorte sobre acontecimentos do ano de 2008 que se valeram dessas três condições para que pudessem alcançar o maior número de pessoas. Um fenômeno interessante ocorrido nos Estados Unidos trata do uso de vídeos, blogs e sites de redes sociais para difundir a campanha rumo à presidência daquele país, notadamente entre Barack Obama e John McCain, o que possibilitou a interação entre os usuários através do Twitter, por exemplo, possibilitando verificar o que eles comentavam sobre a campanha, como o sucesso emplacado pelo vídeo “Yes we can”16. Sobre o mesmo aspecto, em novembro de 2008, o estado de Santa Catarina foi assolado por uma de suas maiores catástrofes, a sequência de chuvas torrenciais fez com que os rios transbordassem, inundando e isolando muitas cidades, tornando pessoas, casas e estradas inacessíveis e incomunicáveis. Nesse período, vários blogs, mensageiros instantâneos e outras formas de comunicação e informação existentes na internet foram usados para mostrar ao país inteiro os fatos. Tais ferramentas fizeram com que pessoas fossem mobilizadas, informações fossem

16

Videoclipe inspirado pelo presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, para a popularização do slogan "yes, we can" durante a campanha presidencial dos Estados Unidos de 2008. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=S86szPyCCF8>.

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concentradas, campanhas de ajuda nascessem e esses movimentos puderam auxiliar o estado naquele momento. O que esses fenômenos explicam? Eles mostram que o advento da comunicação digital está alterando a maneira como as organizações se formam e o modo que a conversação e mobilização social acontecem. O novo modelo de comunicação, não só permitiu a interlocução entre os membros, mas também aumentou a capacidade de conexão entre os elos, fazendo com que os relacionamentos fossem criados e expressos nesses espaços. Os meios de comunicação ajudaram a propagação da informação, tanto da campanha do presidente quanto da catástrofe no Brasil. Entretanto, o que se pode coletar de importante nos exemplos é que dispositivos conectados são apenas um mecanismo, pois a principal conexão está na interação humana (RECUERO, 2009). Dessa forma, dispositivos ou plataformas infocomunicacionais não são apenas a estutura física de comunicação, compreendem a imensidão de informações que armazenam, os indivíduos participantes desse encadeamento e a possiblidade de partilha da informação para o o interesse e bem coletivo.

2 METODOLOGIA O método empregado para averiguar o objetivo foi a pesquisa bibliográfica. Em buscas realizadas no Portal de Periódicos da Capes os termos “infocomunicação” e em

inglês

“infocomunication”

não

retornaram

resultado

algum.

O

termo

“infocomunicacional” retornou seis itens os quais tratam de assuntos diversos como: A implantação da assinatura digital no Tribunal Regional Federal da Quarta Região: perspectiva infocomunicacional; Informação orgânica digital espontânea: estudo exploratório para a sua identificação e pesquisas posteriores; O acesso à informação no paradigma pós-custodial: da aplicação da intencionalidade para a findability; La brecha digital: representaciones sociales de docentes en una escuela marginal; Diario Clarin y sus fuentes de informacion. Un estudio de caso; Procesos mediaticos del deporte: del futbol en los medios a un futbol mediatizado. Já a busca para o termo “infocomunicacionais” também retornou seis itens, entretanto

nenhum

tratava

da

definição

do

termo,

como

apresentado:

Competências infocomunicacionais em ambientes digitais; Sonoridades, música e 258


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mobilidade: um estudo sobre as novas práticas tecnológicas baseadas na espacialização e nos dispositivos móveis (este item aparece duas vezes); Lucian@: cartografia afetiva e artística em contexto ciber-urbano; Procesos mediaticos del deporte: del futbol en los medios a un futbol mediatizado (resultado já encontrado na busca por “infocomunicação”); Cultura da mobilidade. A procura pelo termo em inglês “info-communication”, possibilitou encontrar 42 artigos, contudo, nenhum deles tratava da definição do termo, apenas faziam uso do mesmo em algum momento. Diante de falta de bibliografia que delimitasse conceitualmente o termo procurou-se então averiguar a literatura e a partir da análise dos estudos realizados, apresentamos uma abordagem conceitual para "infocomunicação".

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES 3.1 Informação, Comunicação e Tecnologia A convergência dos serviços de telecomunicação, dados, texto, voz, áudio e vídeo fez emergir o que conhecemos como serviço multimídia. A confluência dos serviços da área de informática como as redes locais para as “e-redes” também desencadeou o uso da expressão “redes de banda larga”. Há alguns anos as diversas áreas eram vistas de forma separada, inclusive com os próprios órgãos reguladores bem definidos e regulamentados isoladamente. Por exemplo, dados e voz eram geridos pela área de telefonia, programas de áudio e vídeo eram coordenados pelo setor de radiodifusão e televisão, ou seja, cada um possuía a tecnologia específica para sua área (SALLAI, 2012). As redes, hoje baseadas no Protocolo de Controle de Transmissão/Protocolo de Internet (TCP/IP), são capazez de transmitir voz, dados, textos, áudio, vídeo etc., há portanto, uma nova possibilidade de serviços integrados. O termo infocomunicação surgiu pela primeira vez no início dos anos 80 em conferências científicas e, posteriormente, de forma gradativa, foi adotado na década de 90 pelos executivos das indústrias de telecomunicações. Nesse tempo, a União Internacional de Telecomunicações (ITU)17 adota a utilização do termo de forma usual fazendo com que, tanto fabricantes quanto provedores de serviços passem também a utilizar o termo para expressar a sua participação no processo de convergência dos 17

Órgão internacional destinado a padronizar e regular os serviços de rádio e telecomunicações.

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setores de comunicação e informação para o meio digital. Nessa época, a comunicação eletrônica foi definida como a infraestrutura digital que possibilitaria os serviços de conteúdos e aplicações digitais, assim, esse processo de junção foi sendo naturalmente ampliado para todos os tipos de mídia tecnológica (SALLAI, 2012), porém, ainda não preconizava o papel do ser humano. Conforme Voribiyenko e Nikityuk (2012) as tecnologias infocomunicacionais inicialmente são vistas como objetos físicos, os mecanismos que proporcionam a tranformação, armazenamento e representação da informação, bem como os meios de transferência que fornecem níveis de qualidade e garantia de serviço. Os autores ainda definem as redes infocomunicacionais como os recursos informacionais geograficamente distribuídos, os recursos computacionais, os data centers com seus servidores e os dispositivos dos usuários para a interação, o que é disponibilizado pelos serviços de telecomunicação e as plataformas de serviços múltiplos atuais. Baseada na tecnologia TCP/IP, as soluções em ambas as indústrias, de informática e de telecomunicações, geraram uma estrutura integrada para o processamento, armazenamento, acesso e distribuição da informação. Para Sallai (2012) os meios de comunicação, de produção de conteúdo e gerenciamento eletrônico também foram envolvidos no processo de convergência das mídias, utilizando as oportunidades trazidas pelo setor de telecomunicações que passaram a utilizar o TCP/IP, o que é demonstrado pela imensa expansão da internet. Infocommunications (Infocom) é a expansão natural das telecomunicações com o processamento de informações e funções de manipulação de conteúdo, incluindo todos os tipos de comunicações eletrônicas (telefonia fixa, móvel, transmissão de dados, transmissão de mídia, radiodifusão etc.) sobre uma base de tecnologia digital, principalmente através da internet (SALLAI, 2012). Talvez Borko (1968) quando naquela época apresentou sua definição sobre a CI não soubesse que o seu pensamento estaria tão atual como em 2015. Ao se expressar sobre o estudo das propriedades e do comportamento informacional, além dos meios pelos quais a informação trafega para o seu uso, o estudioso talvez não imaginasse a evolução tecnológica vivida recentemente. Entretanto, já previa a investigação sobre a origem, organização, armazenamento, transformação e transmissão em meios naturais e artificiais como o computador.

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3.1.1 De Dispositivos para Plataformas Múltiplas Inicialmente, o termo dispositivo é utilizado para servir como algo com “função específica”, na maioria das vezes como forma de resolver problemas imediatos. Num segundo momento, dispositivo é definido por sua intencionalidade conforme sua invenção e operacionalidade, assim, não basta interpretá-lo apenas como ferramenta, mas sim como instrumentos que possibilitam ações, mutáveis conforme o contexto empregado, explicam Marteleto e Couzinet (2013). Dessa forma, a concepção do termo pode ser analisada no sentido de compreender as estruturas que proporcionam comunicação e abundância informacional, além de verificar o seu papel diante da diversidade de meios de partilha de informação. Para Jeanneret (2005) dispositivo no campo da informação, comunicação e mídia faz alusão aos componentes estruturais que possibilitam o processo comunicacional. Referimo-nos aos dispositivos de mídias, dispositivos televisivos, dispositivos editoriais, dispositivos móveis e entendemos que cada dispositivo tem sua particularidade, pois a comunicação necessita de organização estrutural para cada caso. Dispositivo também foi definido por Peraya (1999) como uma instância, um lugar social para a interação e cooperação com as suas intenções, seu funcionamento material e simbólico, os “modos próprios” de relacionamento. Dispositivos são determinados pelas intenções, baseiam-se na estrutura de organização dos recursos materiais, tecnológicos, simbólicos e relacionais, modelados a partir de características próprias, comportamentos e condutas sociais (afetivas e relacionais), cognitivas e comunicacionais dos sujeitos. O entendimento deve ser também conduzido isolando cada agente como forma de compreender o seu real papel em relação ao todo, mesmo interdependentes, cada um executa uma função específica dentro do processo, mas juntos propiciam sentido ao dispositivo em seu contexto. Marteleto e Couzinet, (2013, p. 8) explicitam dispositivo “como agenciamento de elementos funcionando conjuntamente, exprime a sensibilidade ao elo e a necessidade de um projeto cujo resultado, perenidade e força só podem existir no coletivo”. Pode-se perceber que o termo dispositivo denota várias definições em diferentes cenários, entretanto, acreditamos que a ilustração feita por Marteleto e Couzinet (2013, p. 3) sobre o tema sintetiza nosso pensamento, pois definem que “um 261


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dispositivo é essencialmente um agenciamento de elementos, o qual apresenta, também, a particularidade de estar fundamentado em uma intenção de articular meios em função de uma finalidade”. Dispositivos então não são apenas ferramentas, máquinas ou objetos materiais, é um conjunto de ações, o “saber fazer” dos seres humanos em sintonia com os dispositivos (MARTELETO; COUZINET, 2013; PERAYA, 1999). Não se dissocia os dispositivos técnicos do homem, pois, a concepção e evolução das máquinas acontecem juntamente com a sociedade que vai mudando e se moldando de forma diferente conforme a pluralidade das situações. Jeanneret (2005) esclarece que em discussões sobre “sociedade da informação” a concepção de dispositivo apresenta a noção de que a comunicação não é um instrumento neutro, pois, dispositivos não são vistos apenas como suporte ou canal, novas percepções surgem afetadas pelas mudanças impostas pelas novas mídias. Essa abordagem dinamiza o sentido de dispositivo e amplia o significado de comunicação, vistos não apenas em relação ao conteúdo ou ao recurso técnico como “ferramenta”, mas pelas possibilidades de interações entre os atores, participantes ativos desse enlace. A apropriação dos usuários sobre a tecnologia a redefinem a todo o momento, amplificando o seu poder, mas que depende do fator humano para que o seu papel tecnológico tenha sentido. Castells (2005, p. 69) explana que “as novas tecnologias da informação não são simplesmente ferramentas a serem aplicadas, mas processos a serem desenvolvidos. Usuários e criadores podem tornar-se a mesma coisa”. A percepção de dispositivo aqui apresentada tem um viés mais cultural, indissociável da ação humana, em que a variedade de cenários que se apresentam e as possibilidades de fusão das ferramentas disponíveis proporcionam a observação dos dispositivos sob a perspectiva da comunicação e de sua função como meio informacional. Desse modo, parece salutar a afirmação de que “se um dispositivo tem a intenção de fazer saber, como uma mídia, por exemplo, essa intenção é indissociável do conteúdo. Esse último, em cujo âmbito a informação encontra-se latente, constitui também uma razão de ser do dispositivo” (MARTELETO; COUZINET, 2013, p.8). Os debates sobre a chamada "sociedade da informação" faz referência ao peso dos dispositivos de comunicação e de como eles podem de um lado apresentar262


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

se como restritivos, pelas desigualdades econômicas e exclusão social e por outro lado um valioso recurso político e cultural para os indivíduos. O assunto deve ser visto sob o prisma de que os dispositivos de comunicação emergentes (computadores, redes, telecomunicação) não são pura e simplesmente canais de informação como tem sido comparado ao livro, TV ou telefone, na tentativa de entender apenas o seu funcionamento. A questão não é muito simples porque o conceito de dispositivo é claramente heurístico, uma vez que nos leva a olhar de perto como realizar as mudanças em termos de contextos, procedimentos, materiais, ordens, pois, como visto, pode ser entendido com vários significados. Por exemplo, em engenharia, o dispositivo, muitas vezes se apresenta como o componente de um sistema, estritamente associada a uma função, enquanto que na análise social de práticas de comunicação, essa dimensão técnica tem um sentido maior, um conjunto em ordem de sinais, relações e de poder. Desse modo, o dispositivo, visto como um conjunto de condições para perpetuar a comunicação, deixa de ser encarado como utensílio e assume o seu significado pelas interpretações e apropriações dos atores sociais (JEANNERET, 2005). Usando um termo diferente, porém análogo ao que se apresenta sobre plataformas, Lévy (1999) definiu o meio de comunicação oriundo da interconexão de computadores em escala global como ciberespaço ou simplesmente rede. Para ele, o termo definido não se apresenta apenas como a ligação dos cabos, o acesso aos backbones das grandes empresas ou os enlaces das pequenas redes, não é apenas a estrutura física de comunicação. Ciberespaço deve ser visto como o mundo de informações que essa estrutura pode abrigar bem como os usuários que interagem se alimentando e provendo o sistema com informação. A definição do autor francês no ano de 1999 parecia um prelúdio sobre a evolução das plataformas e espaços de comunicação vindouros, baseados na tecnologia TCP/IP e dispositivos móveis. Essa nova configuração de “local” de interação informacional pode fazer aflorar uma cultura específica nesse ambiente, que se apresentam como os métodos, as práticas, modos de pensar, de agir, atitudes e valores que foram evoluindo ao longo do tempo concomitante ao desenvolvimento da tecnologia (LÉVY, 1999).

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

O teórico brasileiro Sodré (2002) expressa que o termo comunicação tem sido modificado pela crescente independência e importância com quais tem sido apontadas as tecnologias de informação e comunicação sob a égide da rapidez das transmissões e pelas possibilidades de conexões independentes dos espaços. São novos processos comunicativos que surgem em consonância ao avanço tecnológico. O autor faz ressalvas significativas sobre a questão pura e simples da comunicação com uso de plataforma tecnológica como se não houvesse o produtor e receptor para o ato de se comunicar. Pactua-se dessa visão quando o autor argumenta que a tecnologia por si só não é protagonista dos processos de comunicacionais, pois, a exclusão aparente do ser humano dessa relação mudaria o sentido da principal aplicação dos dispositivos, o de servir como um instrumento facilitador de ligação entre os elos que desejam se comunicar. Considera-se então que a comunicação e informação são complementares não fazendo

sentido

quando

seus

aportes

são

separados.

As

plataformas

infocomunicacionais apresentam função significativa se comunicação e partilha informacional permitirem a interação entre os seres humanos. O que mudou é que agora todos podemos ser comunicadores e também consumidores da informação ao mesmo tempo.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Conforme o objetivo proposto, esboçamos alguns conceitos para o termo “infocomunicação” que podem representá-lo de acordo com a literatura analisada, visto que não encontramos uma abordagem conceitual cabal. Após o estudo de elementos que compõem o processo de comunicação e partilha informacional, foi possível traçar um paralelo entre esses elementos e apresentar uma abstração para representação de “infocomunicação”. Com o advento da tecnologia digital aparentemente muitos setores estão se padronizando como forma de convergir para que possam utilizar um meio comum de comunicação. A junção dos serviços de comunicação eletrônica possibilita que qualquer tipo de conteúdo possa ser digitalizado e qualquer informação possa ser transmitida pelas redes de telecomunicação digital. A confluência de campos como comunicação, tecnologia da informação e ciência da informação é que nos leva ao

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

pensamento de representar o agrupamento dos elementos dessas áreas como “infocomunicação”. A expansão do setor de telecomunicação também ajuda a sinalizar a conceituação do termo, pois os serviços de comunicação a distância, em conjunto com o processamento de informação e o gerenciamento da tecnologia digital assinalam para o que se pretende abordar como “infocomunicação”. A estreita relação entre os setores parece balizar a expressão, que vai muito além apenas das mídias sociais, é a união dos dispositivos e a ação humana sobre eles, como o celular, o email, o WhatsApp, a web em geral, tudo que permite interação social nos ambientes digitais. Inicialmente, os dispositivos de comunicação eram vistos apenas como ferramenta para complementar a troca de informação. Entretanto, entendemos que a referência deve ser feita a todo sistema, independente do tipo de plataforma ou dispositivo usado, quer sejam baseados em computador ou em dispositivos móveis, desde que ocorra interação humana no ambiente virtual será considerada plataforma infocomunicacional. Nesse sentido, quando nos referimos aos termos plataformas ou dispositivos infocomunicacionais, não estaremos nos reportando a uma ferramenta simplesmente, estaremos fazendo alusão ao conjunto das reflexões aqui postas, desde o comportamento

humano,

passando

pelos

processos

de

comunicação,

a

telecomunicação e sua estrutura física baseadas nos protocolos TCP/IP. É esse agrupamento de fatores aliado aos atos de compartilhar informação e relações coletivas que formam os dispositivos infocomunicacionais, sem dissociar a ação humana de ferramentas técnicas, apresentando-se como plataformas múltiplas, híbridas, com função comunicacional e informacional mas que tem sentido apenas quando os atores, pelas práticas, aperfeiçoam o uso e se satisfazem com as interações sociais em cincunstâncias variadas. Evidencia-se dessa forma que a ferramenta utilizada é um componente do processo informacional a qual nasce não apenas do instrumento, mas das transcrições sociais presentes nela, independente do suporte que se usa, essa convergência entre as “mídias”, interações coletivas e apropriações sociais cria o que definimos como plataformas infocomunicacionais.

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Mais que apenas uma visão sobre “informação, comunicação, ser humano e tecnologia”, o vínculo entre as áreas se apresenta como um instrumento cultural que aflora face as mutações históricas vividas pela sociedade, acelerada pela rapidez do desenvolvimento de novas plataformas e amparadas principalmente pelo valor atual da informação. É esta convergência e ligação das expressões que suscitam o pensamento de que, ao invés de tratarmos dos elementos distintamente com suas significações peculiares, por atuarem entrelaçãdos, podemos expressá-los em conjunto simplesmente como “infocomunicação”. Infocomunicação então é representada como um conjunto de instalações para a transformação, acumulação, armazenamento e compartilhamento de informações, implementada por toda a estrutura das redes de telecomunicações digitais, utilizando dispositivos que não se desvencilham do ser humano e suas interações sociais, o qual pode se apropriar, prover e compartilhar conteúdo. Acreditamos que este seja um conceito contemporâneo, inerente ao momento de utilização dos diversos dispositivos de comunicação pela sociedade. REFERÊNCIAS BORGES, J. et al. Competências infocomunicacionais: um conceito em desenvolvimento. Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, v.5, n.1, 2012. Disponível em: <http://inseer.ibict.br/ancib/index.php/tpbci/article/ view/67/109>. Acesso em: 20 mar. 2014. BORKO, H. Information science: what is it?. American Documentation, v.19, n.1, p.3-5, jan. 1968. Disponível em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/asi.5090190103/pdf>. Acesso em: 10 fev. 2014. CASTELLS, M. A sociedade em rede. 8 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2005. v.1 CHOO, C. W. A organização do conhecimento. São Paulo: Editora SENAC, 2003. JEANNERET, Y. Dispositif. In: LA SOCIETÉ de i´nformation: glossaire critique. Paris: La Documentation Française, 2005. p.50-51 LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. (Coleção Trans) MARCONDES, C. H. Linguagem e documento: fundamentos evolutivos e culturais da ciência da informação. Perspectivas em Ciência da Informação, Belo Horizonte, v.15, n.2, p.2-21, maio./ago. 2010. Disponível em: <http://portaldeperiodicos.eci.ufmg.br/index.php/pci/article/view/1019/729>. Acesso em: 05 nov. 2013. 266


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MARTELETO, R.; COUZINET, V. Mediações e dispositivos de informação e comunicação na apropriação de conhecimentos: elementos conceituais e empíricos a partir de olhares intercruzados. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v.7, n.2, 2013. PERAYA, D. Mediação e midiatização: o campus virtual. Hermès, n.25, p.153-166, 1999. Disponível em: <documents.irevues.inist.fr/handle/2042/14983>. Acesso em: 26 mar. 2015. RECUERO, R. Redes sociais na Internet. Porto Alegre: Sulina, 2009. 191p. (Coleção Cibercultura) ROBREDO, J. Filosofia da ciência da informação ou ciência da informação e filosofia. In: TOUTAIN, L. M. B. B. (Org.). Para entender a ciência da informação. Salvador: EDUFBA, 2007. 242p. SALLAI, G. Defining infocommunications and related terms. Acta Polytechnica Hungarica, Budapeste, v.9, n.6, 2012. Disponível em: <http://www.uniobuda.hu/journal/Sallai_38.pdf>. Acesso em: 10 fev. 2015. SARACEVIC, T. Ciência da informação: origem, evolução e relações. Perspectivas em Ciência da Informação, Belo Horizonte, v.1, n.1, p.41-62, 1996. SODRÉ, M. Antropológica do espelho. Petrópolis: Vozes, 2002. TOMAÉL, M. I. Rede de conhecimento: o compartilhamento da informação e do conhecimento em consórcio de exportação do setor moveleiro. 2005. 292f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. 2005. VORIBIYENKO, P.; NIKITYUK, L. Terms and definitions in the area of infocommunication. TCSET, Lviv-Slavske (Ucrânia), p.275, 2012. Disponível em: <http://ena.lp.edu.ua:8080/bitstream/ntb/14374/1/187Terms%20and%20Definitions%2 0in%20the%20Area%20of%20Infocommunication.pdf>. Acesso em: 15 dez. 2014. WOLTON, D. É preciso salvar a comunicação. São Paulo: Paulus, 2006.

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18 OS NATIVOS DIGITAIS E O USO DAS TECNOLOGIAS NA EDUCAÇÃO DO SÉCULO XXI

Priscilla Aparecida Santana Bittencourt priscillasant@gmail.com Mestranda da Pós-Graduação em TV Digital da FAAC Unesp/Bauru. João Pedro Albino jpalbino@fc.unesp.br Docente do Departamento de Ciências da Computação Unesp/Bauru

Resumo: A presente investigação elaborou um breve panorama dos temas relacionados aos nativos digitais e a educação no século XXI. O uso das tecnologias na educação é um desafio com muitas questões em aberto, tais como: por que e como utilizar mídias digitais na educação e quais mídias utilizar. A facilidade de acesso das tecnologias digitais pelos jovens obriga o processo de ensinoaprendizagem se adaptar, para preparar e desenvolver cidadãos críticos e ativos. Com o intuito de levantar dados e refletir sobre as tecnologias digitais e a sua utilização no processo educativo dos nativos digitais, foi realizada, inicialmente, uma pesquisa bibliográfica sobre a origem dos nativos digitais e a sua correlação com as tecnologias da informação e comunicação. Posteriormente serão elaboradas pesquisas quantitativa e qualitativa para serem aplicadas na comunidade acadêmica (alunos e professores) em duas escolas de nível médio, uma pública e outra privada. Os resultados serão analisados e comparados com o objetivo de validar a pergunta de pesquisa e contribuir para discutir os desafios e possibilidades do uso das tecnologias na educação. Até o momento pode inferir que é preciso aprofundar o estudo sobre o conceito de mídias digitais e seu uso no processo educativo. Palavras-Chave: Nativos Digitais; Tecnologias; Educação; Ensino-Aprendizagem.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

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1 INTRODUÇÃO Vive-se a emergência de uma sociedade conectada. O dia-a-dia da sociedade, organizações e governos, depende cada vez mais das tecnologias de informação e comunicação (TIC) e sobretudo da internet. A velocidade da circulação das informações estão cada dia mais rápidas, gerando instabilidades constantes conforme afirma Martino (2014): A circulação de informações encontra nas redes o melhor tipo de arquitetura. A velocidade da circulação de informações significa também que novidades estão presentes o tempo todo, gerando como padrão uma instabilidade constante. Qualquer informação pode ser alterada, completada ou cancelada por uma nova, muitas vezes se deixar indícios dos caminhos seguidos (MARTINO, 2014).

Um dos desafios que a sociedade e as instituições de ensino encontram neste momento é a falta de conhecimento e treinamento em mídias digitais de toda comunidade acadêmica. Esse pode ser um dos fatores que têm contribuído para a não utilização adequada das novas tecnologias disponíveis nas atividades de ensino e aprendizagem. Segundo Castells (2006, p.17): [...] o nosso mundo está em processo de transformação estrutural desde a década de 1980 do Século XX. Tal transformação é um processo multidimensional, mas está associado à emergência de um novo paradigma tecnológico, baseado nas tecnologias de comunicação e informação, que teve início nos anos 1960 e que se difundiram de forma desigual por todo o mundo.

O avanço das tecnologias de informação e comunicação pode ser o motivo que favoreceu para que as instituições de ensino e, em particular as formas de ensinoaprendizagem, não acompanhassem a evolução e disponibilidade tecnológica. Considerando-se a necessidade da comunidade acadêmica de se equiparar à tecnologia, a importância da disseminação do conhecimento e a inovação tecnológica em constante mudança, adotou-se como questão de pesquisa a seguinte pergunta: Como o uso das mídias digitais (computadores, tablets, Internet, etc.) pode colaborar para melhorar o ensino-aprendizagem nas instituições de ensino? Perrenoud (1999) destaca que, a melhoria do processo de aprendizagem e familiarização dos alunos com as novas tecnologias exigem a necessidade de se desenvolver competências. Estabelecendo que uma destas competências é o uso da tecnologia na educação, Perrenoud (1999) sugere que em situações-problema, os professores 271


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utilizem de preferência softwares didáticos ou aplicativos que auxiliem diariamente as mais diversas tarefas intelectuais. Conforme Bariani (2011) existe uma grande discrepância entre o papel interativo do indivíduo desempenhado fora das salas de aula em meio aos ambientes virtuais (os adolescentes “nativos digitais”) e entre o posicionamento usualmente passivo ao qual o estudante é condicionado (na sala de aula). Este trabalho se propõe a se concentrar nos benefícios que algumas destas novas mídias, em especial a hipermídia, pode trazer às instituições de ensino ao criar um vínculo entre o meio acadêmico e o ambiente cotidiano multimídia em que o aluno já se encontra inserido. A Educomunicação, a qual segundo Soares (2006), propõe novos tipos de aprendizagem, utilizando recursos tecnológicos e novas relações na comunicação, e a hipermídia (a reunião de várias mídias num suporte computacional, suportado por sistemas eletrônicos de comunicação), de acordo com Parente (1999) questionam o sistema metodológico que privilegiou os caminhos lógicos e científicos atuais que ficaram alheios às transformações dos novos meios comunicacionais. No contexto apresentado neste trabalho, a TIC substitui o quadro negro, enquanto ferramenta. Já a Educomunicação coloca a sua ênfase no processo, ou seja, apesar de o conteúdo e o efeito fazerem parte de toda ação pedagógica, o processo educomunicativo não estabelece um “teto de desenvolvimento do conhecimento”, o qual permite uma série de abordagens. Neste estudo foi realizada uma pesquisa bibliográfica para refletir sobre a educação no século XXI e o perfil dos nativos digitais. Em seguida serão elaboradas pesquisas quantitativa e qualitativa para serem aplicadas na comunidade acadêmica (alunos e professores) em duas escolas de nível médio com curso técnico de informática, uma pública e outra privada. Os resultados serão analisados e comparados com o objetivo de validar a pergunta de pesquisa.

2 A EDUCAÇÃO NO SÉCULO XXI Conforme afirma PRENSKY (2010) “Our students have changed radically. Today’s students are no longer the people our educational system was designed to

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teach”18, estamos vivenciando uma nova realidade, a era da informação e da tecnologia, a qual os alunos, professores e a sociedade geral, mudaram seus pensamentos e a sua forma de agir. Assim como tudo mudou ao longo dos anos, a educação também mudou nos últimos anos. Delors (2001, p. 54) acredita que, “A educação pode ser um fator de coesão, se procurar ter em conta a diversidade dos indivíduos e dos grupos humanos, evitando tornar-se um fator de exclusão social, pois o respeito pela diversidade e pela especificidade dos indivíduos constitui, de fato, um princípio fundamental”. Uma pesquisa realizada pelo cetic.br (2013) com o objetivo de investigar as oportunidades e riscos associados ao uso da internet por crianças e adolescentes brasileiros, com idade entre 9 a 17 anos, e com 2.261 entrevistados, mostra que em 2013, o local de acesso à internet foi de 37% nas escolas. Castells (2005, p. 11) relata sobre a os usos de softwares “open source” afirmando que, (...) se não houver um acesso universal da população ao amplo mundo dos computadores em rede com tecnologias não teremos domínio e conteúdos, não teremos garantias nem da democratização digital nem da generalização da economia e dos benefícios sociais pelos avanços tecnológicos.

De acordo com Lutz (2014), as novas tecnologias, em especial na área da informática, estão cada vez mais presentes no cotidiano dos alunos, sendo que aqueles que não se adaptarem a essa realidade, correm o risco de serem considerados analfabetos tecnológicos. Portanto, para evitar tal situação, as escolas, com a responsabilidade de preparar e desenvolver o aluno para atuar como cidadão crítico e ativo na sociedade, começam a observar a necessidade de seguir o ritmo do desenvolvimento tecnológico. Conforme Martino (2014) a tecnologia “mais do que um suporte para mensagens, é um elemento decisivo na formação da mente, dos modos de sentir, perceber e compreender a realidade”. 3 TECNOLOGIAS DIGITAIS NA EDUCAÇÃO A utilização cada vez maior, das mídias digitais no ambiente acadêmico e corporativo como estratégia, com um público cada vez mais envolvido com a tecnologia, trazem para as instituições várias opções de recursos didáticos para lhes

18

Tradução da autora: “Nossos estudantes mudaram radicalmente. Os estudantes da atualidade não são mais as pessoas a quem o sistema educacional foi projetado”

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dar a oportunidade de responder às diferenças individuais e às múltiplas facetas da aprendizagem. Há algum tempo as mídias digitais estão disponíveis para a utilização em vários locais, como: empresas, supermercados, em casa, em terminais de agência bancária, para compra de ingressos de shows, teatros e cinema e tantos outros. Provavelmente um dos locais em que menos se utiliza as mídias digitais seriam as escolas, principalmente pelos docentes no ensino-aprendizagem e no processo educacional. Entretanto, de acordo com Daniel (2003, p. 54), “em todas as partes do mundo a tecnologia em evolução é a principal força que está transformando a sociedade”. Acredita-se que o uso das mídias digitais tem sido um grande desafio para muitos no ensino-aprendizagem, talvez porque ainda haja algumas questões e indagações que não foram respondidas como: Por que se deve usar as mídias digitais na educação? Como usá-la? Quais mídias utilizar? (DANIEL, 2003, p. 54). Entretanto, a tecnologia não é dotada de perfeições quanto à suas vantagens e objetivos, e muitos autores começam a questionar se realmente a facilidade encontrada nos avanços tecnológicos na educação provocam grandes desvantagens, pontos negativos e manipulação nos relacionamentos interpessoais, comunicação e práticas de ensino dentro e fora da escola. Por isso, Saviani (2007, p. 48) afirma que “considerando-se que a educação visa à promoção do homem, são as necessidades humanas que irão determinar os objetivos educacionais”. Sabe-se

que

a

educação

é

a

base

fundamental

do

processo

de

desenvolvimento do ser humano, e isto já vem sendo discutindo ao longo dos anos, seja por educadores, acadêmicos, entre outros. Neste contexto a educação enfrenta desafios, seja de reflexão no ensinoaprendizagem e na capacitação dos educadores, que são as pessoas que se esforçam para se adaptar ao uso das novas tecnologias, definidos como imigrantes digitais em Prensky (2001), e estão acostumados com outra didática e outras formas de ensino-aprendizagem. Segundo Castells (1999, p.21) “uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação está remodelando a base material da sociedade em ritmo acelerado”. Para Freitas e Almeida (2012, p. 32): Dentro de uma nova pedagogia que acolha metodologias de ensino com o uso das TIC’s, além da facilidade e da qualidade de informações que se tornam disponíveis e das inúmeras possibilidades de um processo de

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aprendizagem interativo/construtivo, espera-se contribuir para a autonomia intelectual do aluno. Ao adaptar-se ao uso das tecnologias, ela poderá buscar respostas às suas próprias inquietações, e essa busca – incluindo-se aí a seleção e análise das informações, é uma das maiores contribuições que a aprendizagem pela tecnologia pode dar ao aluno.

Freitas e Almeida (2012, p. 32) também afirmam que Uma nova prática pedagógica deverá mostrar que a utilização das TIC’s na escola precisa ser feita de maneira interativa e não apenas expositiva, ou seja, o aluno deve atuar sobre as tecnologias, interagindo, pesquisando, interpretando, refletindo, construindo e agregando conhecimentos. Ela inicia, mas vai muito além do uso das mídias para a simples exposição de conteúdo, como substitutos de cartazes ou da própria lousa.

E também afirma Castells (2005, p. 19) que É por isso que difundir a Internet ou colocar mais computadores nas escolas, por si só, não constituem necessariamente grandes mudanças sociais. Isso depende de onde, por quem e para que são usadas as tecnologias de comunicação e informação. O que nós sabemos é que esse paradigma tecnológico tem capacidades de performance superiores em relação aos anteriores sistemas tecnológicos. Mas para saber utilizá-lo no melhor do seu potencial, e de acordo com os projetos e as decisões de cada sociedade, precisamos de conhecer a dinâmica, os constrangimentos e as possibilidades desta nova estrutura social que lhe está associada: a sociedade em rede.

3.1 Mídias Digitais E o que são mídias digitais? Martino (2014, p. 10), afirma que, “há uma quantidade considerável de respostas disponíveis, nem sempre dialogando entre si”. Na Tabela 1, pode-se perceber alguns eixos temáticos das mídias digitais na comunicação. Tabela 1 – Eixos temáticos das mídias digitais na comunicação. Visão de mídia e/ou internet

Contexto

Tecnologias principais

Alguns Autores

Mediador das relações pessoais

Estados Unidos; Europa, América Latina, 1990s.

Computador, Smartphones; Tablets; Inteligência Artificial

Turkle; Baym; Papacharisi; Wellman

Redes Sociais

Estados Unidos, 1960; Estados Unidos, Europa, América Latina, 2000

Redes de computadores; Smartphones; Tablets

Barnes; Baran; Granovetter; Benkler; Castells

Espaço de tensão política, hegemonia e resistência

Europa, 1990; América Latina, 2000.

Redes de computadores; Smartphones; Tablets

Castells; Nayar; Dalhgren; Wolton; Keen; Canclini; Sarlo

Fonte: MARTINO (2014, p. 16). Adaptado pela autora, 2015.

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De acordo com Martino (2014, p. 17), a tabela 1, “dá uma ideia de pluralidade de temas, perspectivas e abordagens possíveis para se pensar as mídias digitais. Cada autor, em geral, se dedica a estudar um aspecto do problema, e constrói suas teorias e conceitos”. Neste trabalho utilizou-se para mídias digitais como principais tecnologias, os computadores, tablets, smartphones e internet.

3.2 Os Nativos Digitais No cenário atual que vivemos, há espaço para as tecnologias digitais que existem e as que ainda estão em desenvolvimento. Nos deparamos a todo momento com as tecnologias em toda a parte. Adolescentes com dispositivos móveis, smartphohes e tablets, digitando velozmente textos de mensagens. Um garoto de apenas 7 anos consegue facilmente acessar jogos, ensinar outras pessoas a utilizarem tal ambiente virtual, e também manipular tais dispositivos de forma mais rápida do que podemos inferir. Segundo Palfrey e Gasser (2011, p.11), “Todos [estes garotos e garotas] são nativos digitais. Todos nasceram depois de 1980, quando as tecnologias digitais, chegaram. Todos [eles] têm acesso as tecnologias digitais e todos têm habilidades para usar essas tecnologias”. Já para Prensky (2001) o termo nativo digital foi sugerido para designar os nascidos a partir de 1990 e que apresentam características como familiaridade com o computador, com os recursos da internet e a capacidade de receber em informações rapidamente, processar em vários assuntos simultaneamente e desempenhar em múltiplas tarefas. Como nem todos têm fácil acesso ao computador e aos recursos da internet, pode-se falar em usuários nativos digitais sem associá-los diretamente a uma faixa etária específica. Lemos (2009, p. 40) afirma também que, “os sujeitos que nasceram imersos no mundo digital interagem simultaneamente com as diferentes mídias, isto é, ouvem música, jogam videogames, veem DVD, conversam com os amigos nos softwares de comunicação instantânea ou em telefones, fazem as atividades escolares, tudo isso ao mesmo tempo”.

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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo acerca da utilização da tecnologia na educação encontra-se em fase de desenvolvimento, em etapas iniciais de coleta de dados, análise e interpretação dos dados. De acordo com Lutz (2014), as novas tecnologias, em especial na área da informática, estão cada vez mais presentes no cotidiano dos alunos, sendo que aqueles que não se adaptarem a essa realidade, correm o risco de serem considerados analfabetos tecnológicos. Para evitar tal situação, as escolas, com a responsabilidade de preparar e desenvolver este aluno para atuar como cidadão crítico e ativo na sociedade, começam a observar a necessidade de seguir o ritmo do desenvolvimento tecnológico. Durante a construção desta proposta de pesquisa, foi possível estudar conceitos das mídias digitais (computadores, tablets, internet, etc.), e refletir em como elas podem colaborar para melhorar o ensino-aprendizagem nas instituições de ensino apoiando o processo didático e pedagógico. O resultado desta revisão bibliográfica indicou, até o momento, que é preciso estudar o conceito de mídias digitais e fluxo de informações na educação, afim de nortear profissionais e estudantes desta área. Se faz necessário um olhar acadêmico para que assim se consiga oferecer novas formas de motivação para o aprendizado e novas maneiras de inclusão social, por meio do uso criativo das mídias e tecnologias disponíveis. E a partir dos conceitos apresentados neste estudo, percebe-se que apesar dos desafios que existe na educação brasileira, existem também grandes possibilidades para alavancar a educação no século XXI a partir do uso criativo das tecnologias digitais disponíveis, como apoio no ensino-aprendizagem. REFERÊNCIAS BARIANI, B. B. Hipermídia e Educomunicação: o papel das novas mídias digitais no ensino. Revista Sessões do Imaginário, v.26, n.25, jan. 2011. CASTELLS, M.; CARDOSO, G. DEBATE: A sociedade em rede: do conhecimento à ação política. Belém: Centro Cultura de Belém, 2005. Disponível em: http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/a_sociedade_em_rede__do_conhecimento_a_acao_politica.pdf. Acesso em: 15/07/2014. COMITÊ Gestor da Internet no Brasil. Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nas escolas brasileiras: TIC educação. 2013. 277


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Disponível em: < http://cetic.br/media/docs/publicacoes/2/tic-educacao-2013.pdf>. Acesso em: 10 nov. 2014. DANIEL, J. Educação e tecnologia num mundo globalizado. Brasília: UNESCO, 2003. DELORS, J.; Educação: um tesouro a descobrir. 6 ed. São Paulo: Cortez; Brasília: MEC/UNESCO, 2001. FREITAS, M. C. D.; ALMEIDA, M. G. Docentes e discentes na sociedade da informação (A escola no Século XXI; v.2). Rio de Janeiro: Brasport, 2012. LEMOS, S. Nativos digitais x aprendizagens: um desafio para a escola. R. Educ. Prof., Rio de Janeiro, v.35, n.3. set./dez. 2009. Disponível em: http://www.senac.br/BTS/353/artigo-04.pdf. Acesso em: 06 jul. 2014. LUTZ, M. R. Utilização de mídias digitais como metodologia de ensinoaprendizagem de matemática. Farroupilha: Instituto Federal de Farroupilha/Campus Alegrete, 2014. MARTINO, L. M. S. Teoria das mídias digitais: linguagens, ambientes, redes. Petrópolis (RJ): Vozes, 2014. PARENTE, A. O virtual e o hipertextual. Rio de Janeiro: Pazulin, 1999. PALFREY, J. GASSER, U. Nascidos na era digital: entendendo a primeira geração de nativos digitais. Porto Alegre: Artmed, 2011. PERRENOUD, P. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artmed, 1999. PRENSKY, Marc. Digital natives, digital immigrants. Bradford: MCB University Press, 2001. Disponível em: <http://www.marcprensky.com/writing/Prensky%20%20Digital%20Natives,%20Digital%20Immigrants%20-%20Part1.pdf>. Acesso em: 25 fev. 2015. SAVIANI, D. História das ideias pedagógicas no Brasil. Campinas (SP): Autores Associados, 2007. SOARES, D.; Educomunicação: o que é isto? 2006. Disponível em: <http://www.portalgens.com.br/baixararquivos/textos/educomunicacao_o_que_e_isto. pdf>. Acesso em: 15 out. 2014.

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19 APLICAÇÃO DA ISBD CONSOLIDADA NO DUBLIN CORE EM RECURSOS DO DOMÍNIO BIBLIOGRÁFICO Felipe Augusto Arakaki fe.arakaki@marilia.unesp.br Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho” (Unesp) Rachel Cristina Vesú Alves rachel@marilia.unesp.br Docente do Departamento de Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho” (Unesp) Plácida Leopoldina Ventura Amorim da Costa Santos placida@marilia.unesp.br Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho” (Unesp) Ana Carolina Simionato acsimionato@ufscar.br Docente da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Departamento de Ciência da Informação

Resumo: A padronização da descrição de recursos é necessária principalmente para troca de informações no ambiente da Web. Entretanto, muitos repositórios e bibliotecas digitais não adotam um código de catalogação para descrição de seus recursos, dificultando a interoperabilidade e a consistência dos dados. Dessa forma, o objetivo é estudar a aplicação da edição consolidada da International Standard Bibliographic Description para o preenchimento dos valores dos metadados do padrão Dublin Core. Trata-se de uma pesquisa exploratória de caráter qualitativo de cunho teórico aplicado. A abordagem utilizada é o perspectivismo, pois busca elementos para adequação de uma certa situação, evento ou circunstância. Os resultados do trabalho é a apresentação do mapeamento das regras propostos pela Biblioteconomia no padrão Dublin Core e ainda a aplicação do estudo em recursos do tipo livro. Os campos do Dublin Core demonstraram compatíveis com as normas apresentadas, proporcionando maior padronização dos registros e evitou a ambiguidade nos campos do Dublin Core. Conclui que o estudo apresentou uma possibilidade de padronização dos metadados em ambientes digitais contribuindo para interoperabilidade entre instituições com o aproveitamento do registro bibliográfico. Palavras-Chave: Interoperabilidade; Catalogação Automatizada; Dublin Core; ISBD Consolidada; Domínio Bibliográfico.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

280


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

1 INTRODUÇÃO Uma das preocupações constantes da Biblioteconomia e Ciência da Informação é a padronização na descrição de recursos, para que possa garantir a integridade dos dados e, principalmente, a consistência dos catálogos. Com o crescimento dinâmico das produções científicas e culturais em suportes digitais e tradicionais faz-se necessária uma padronização adequada para manter a consistência na representação em ambientes digitais que gerenciam acervos para posterior acesso e localização dos recursos informacionais. Nesse contexto, a International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA) é o principal órgão internacional das bibliotecas e serviços de informação. Entre outras finalidades, a IFLA estabelece e sugere normas e padrões para serviços e descrição de recursos e bibliotecas. Dessa forma, a IFLA procura propor publicações e iniciativas internacionais para padronizar produtos e serviços na área da biblioteconomia, como o código de catalogação International Standard Bibliographic Description (ISBD). O intuito da ISBD é proporcionar “[...] regras coerentes para descrição de todos os tipos de recursos publicados, em uma uniformidade na medida do possível, assim como especificações concretas para determinar tipos de recursos, assim como almeja sua descrição”. (INTERNATIONAL..., 2011, p.xi, tradução nossa). Após várias publicações da ISBD para diversos tipos de recursos, somente em 2011 foi publicada a versão denominada ISBD Consolidada. Ela traz regras gerais aplicáveis na manifestação de um recurso, ou seja, as regras são pautadas na materialização de uma obra. A busca pela descrição a partir da manifestação surge pela proposta do Functional Requirements for Bibliographic Records (FRBR) e na Declaração de Princípios Internacionais de Catalogação, que consistem em basear a descrição

bibliográfica

em

um

item

como

representante

da

manifestação

(INTERNATIONAL..., 2011, tradução nossa). A estrutura do FRBR comporta no banco de dados do catálogo a descrição de qualquer tipo de recurso. Entretanto, para uma representação adequada é necessário o uso de padrões, regras e diretrizes para a descrição dos recursos como, por exemplo, os padrões de metadados e as regras estabelecidas na ISBD Consolidada. No domínio bibliográfico existem vários padrões de metadados como, por exemplo, o

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Machine Readable Cataloging (MARC)21, Metadata Object Description Schema (MODS), o Dublin Core entre outros. O padrão de metadados Dublin Core surgiu no ano de 1995, durante o evento da “DC-1: OCLC/NCSA Metadata Workshop” com o intuito de localizar recursos no ambiente Web. Atualmente é composto por quinze metadados, sendo todos opcionais e repetíveis e vem sendo muito utilizado em repositórios e bibliotecas digitais. Desse modo, observa-se que a aplicação da ISBD no padrão de metadados Dublin Core constitui-se como um tema pouco abordado na área de representação e de importância para o conhecimento pelos profissionais da informação. O tema já foi semelhantemente contextualizado pela aplicação de códigos de catalogação no padrão de metadados Dublin Core, destacando os autores: Arakaki, Alves e Santos (2015) que abordaram aplicação do AACR2r no Dublin Core focado nos capítulos 2 e 9 do AACR2r; Gonçalves, Leão e Vianna (2013) que fizeram uma adequação dos campos do Dublin Core ao AACR2r e o Committee on Cataloging (200-) que discutiram a aplicação do capítulo 9 do AACR2r, referente a materiais eletrônicos, no Dublin Core. Trabalhos dessa natureza, que buscam utilizar regras para descrição de recursos informacionais, corroboram para maior consistência dos dados em um sistema de informação e ainda, proporciona a interoperabilidade de conteúdo ou semântico. Basicamente, há três tipos de interoperabilidade: técnica, de conteúdo e organizacional. A interoperabilidade técnica está relacionada aos protocolos, sistemas de

segurança

entre

outros,

que

garantem

a

troca

das

mensagens.

A

interoperabilidade de conteúdo está relacionada a interpretação das informações dos metadados, ou seja, a semântica dos metadados. E a interoperabilidade organizacional está relacionada as regras de acesso, preservação, etc. (ARMS et al., 2002, tradução nossa). Dessa forma, o objetivo do trabalho é apresentar a aplicação da ISBD Consolidada para descrição de recursos no padrão Dublin Core, como possibilidade de uso em ambientes digitais para padronizar os metadados interoperados e garantir a interoperabilidade semântica de registros.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: DUBLIN CORE E A ISBD CONSOLIDADA Os sistemas de informação necessitam de garantias favoráveis ao seu funcionamento para oferecer a localização, o acesso e possibilitar o uso dos recursos informacionais de modo eficiente. Para que isso ocorra é necessário o uso padronizado de metadados, ou seja, o uso de um padrão de metadados e o preenchimento adequado se seus valores. Definido por Alves e Santos (2014), os metadados são atributos referenciais que representam uma entidade, e o conjunto pré-determinado e padronizado de metadados, compõem o padrão de metadados. Nesse sentido, os metadados estão presentes nos códigos de catalogação e nos padrões de metadados, sendo esses contemplados por orientações que integram formas estruturais e de conteúdo. As orientações de descrição se fundamentam em padrões de conteúdo e estrutura, no caso, esse trabalho baseia-se principalmente nos padrões de conteúdo, que são orientações para o formato e sintaxe dos valores de dados que são utilizados para preencher elementos de metadados. Entre os diversos padrões de estrutura de dados, o Dublin Core surgiu da necessidade de descrição de recursos que eram disponibilizados na Web. Foi desenvolvimento principalmente nos eventos realizados com intuito de discutir soluções para os problemas que vinham surgindo. Entre as principais contribuições dos eventos destacou-se o estabelecimento de uma instituição que administraria o padrão, denominada de Dublin Core Metadata Iniciative (DCMI). Outra contribuição dos eventos, foi o estabelecimento dos quinze metadados para descrição de recursos, no ano de 1996. Os metadados definidos foram: título, criador, assunto, descrição, publicador, colaborador, data, tipo, formato, identificador, fonte, idioma, relacionamento, cobertura e direitos. Após diversas discussões da implementação de qualificadores no Dublin Core, foi definido no ano de 2000. Assim, o Dublin Core Qualificado possui os qualificadores de refinamento, sete elementos descritivos adicionais e propostas de esquemas de codificação como melhores práticas. Muitas das questões referentes ao uso de qualificadores foram abordadas por Baker, no ano de 2000 com a publicação do artigo ‘A grammar of Dublin Core’. Entretanto, alguns problemas persistiram, como a falta de padronização dos sistemas de informação que estavam causando inconsistências na interoperabilidade. Para amenizar esse problema, foi proposto em 2003 um modelo para auxiliar na 283


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

construção dos sistemas de informação, batizado de Dublin Core Abstract Model (DCAM). Com a popularização do Dublin Core e a possibilidade de ampliar seus 15 elementos, para atender contextos específicos e abarcar as necessidades das instituições, foi proposto em 2007, uma estrutura com os componentes necessários para construção dos denominados Dublin Core Application Profiles (DCAP), em português Perfil de Aplicação. O Perfil de Aplicação permite abarcar as características específicas de uma área ou instituição, entretanto, para construção consistente de representações é preciso a utilização não só de um padrão de metadados, mas também de outros padrões ou esquemas que representa de modo padronizado os valores dos metadados. Para o preenchimento dos metadados utilizados pelo Dublin Core é necessário utilizar diretrizes para descrição dos valores. Entre essas diretrizes estão os padrões de conteúdo, qual a ISBD se insere. Diferentemente do Dublin Core, que fornece a estrutura necessária para ambientes digitais, a ISBD é classificada como padrão de conteúdo de dados, pois padroniza a representação dos valores a serem descritos pela estrutura do padrão de metadados. A ISBD foi criada em 1969, com o Comitê de Catalogação da IFLA que discutiu na Reunião Internacional de Especialistas em Catalogação a criação de uma norma para regularizar tanto a forma quanto o conteúdo das descrições bibliográficas em fichas catalográficas. Essa discussão resultou na concepção da ISBD. (INTERNATIONAL..., 2011, tradução nossa). As primeiras ISBDs surgiram na década de 70. Em 1971, foi publicada a primeira ISBD referente a publicações monográficas, denominada International Standard Bibliographic Description for Monographic Publications (ISBD(M)). Em 1974, essa publicação foi revisada, o que resultou na ‘Primeira edição normalizada’, no mesmo ano em que a International Standard Bibliographic Description for Serials (ISBD(S)) foi publicada. Em 1977, a General International Standard Bibliographic Description

(ISBD(G)),

International

Standard

Bibliographic

Description

for

Cartographic Materials (ISBD(CM)) para materiais cartográficos, a International Standard Bibliographic Description for Non-Book Materials (ISBD(NBM)) para materiais não livros e a revisão da ISBD(S) foram publicadas. Em 1978, foi publicada a primeira edição normalizada e revisada da ISBD(M) para se adaptar a ISBD(G) (INTERNATIONAL..., 2011, tradução nossa). 284


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Na década de 1980, o foco se deu na revisão das ISBDs publicadas na década de 70. Em 1980, a International Standard Bibliographic Description for Older Monographic Publications (Antiquarian) (ISBD(A)) para publicações monográficas antigas e a International Standard Bibliographic Description for Printed Music (ISBD(PM)) para música impressa foram publicadas. Em 1981, começaram estudos para revisões das ISBDs. Em 1987, foram reeditadas a ISBD(M), a ISBD(CM) e a ISBD(NBM). Em 1988, foi a vez da ISBD(S) ser revisada (INTERNATIONAL..., 2011, tradução nossa). Em 1990, foi publicada a International Standard Bibliographic Description for Computer Files (ISBD(CF)) para arquivos de computador. A ISBD(A) e ISBD(PM) foram revisadas em 1991 e a ISBD(G) foi revista em 1992. No ano de 1997, a ISBD(CF) se converteu para International Standard Bibliographic Description for Electronic Resources (ISBD(ER)) para recursos eletrônicos (INTERNATIONAL..., 2011, tradução nossa). Em 2002, a ISBD(S) foi revista e se transformou em International Standard Bibliographic Description for Serials and Other Continuing Resources (ISBD(CR)) para publicações seriadas e outros recursos contínuos. No mesmo ano, foi publicada a ISBD(M) revisada. Em 2004, foi publicada a ISBD(G) revisada. Estavam previstas as revisões das ISBD(CM) e ISBD(ER), entretanto, não se concretizaram em razão do início dos trabalhos para a unificação da ISBD, que fosse base para todas as outras ISBDs. Em 2007, foi publicada a edição preliminar da ISBD Consolidada (INTERNATIONAL..., 2011, tradução nossa). E em 2011 foi publicada a última versão que passou a ser denominada de ISBD Consolidada, que traz regras gerais aplicáveis na manifestação de um recurso. Essa nova reformulação utiliza a terminologia do FRBR e busca a descoberta de manifestações por meio da descrição do item como exemplificação da manifestação. (INTERNATIONAL..., 2011, tradução nossa). O FRBR apresenta requisitos mínimos para registros bibliográficos e [...] foi publicado em 1998, pela IFLA e ilustra um novo modelo de referência do Universo bibliográfico. O FRBR é resultante de um estudo, recomendado pela IFLA, empreendido no período de 1992 a 1997 por um grupo de especialistas e consultores de várias nacionalidades. (SIMIONATO, 2012, p.107).

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Nesse sentido, a proposta do FRBR é pensar a catalogação de um recurso informacional a partir de sua concepção intelectual (Obra e Expressão) para sua corporificação (Manifestação e Item), conforme o Grupo 1. O FRBR possui ainda mais dois grupos, um que aborda a questão de autoridade pessoa, entidade coletiva e família e outro grupo que aborda a questão temática de um recurso. A ISBD consolidada está estruturada em nove áreas, cada qual possuindo regras específicas, sendo as seguintes: 0 Área da forma do conteúdo e do tipo de suporte; 1 Área de título e menção de responsabilidade; 2 Área de edição; 3 Área específica do material ou tipo de recurso; 4 Área de publicação, produção, distribuição etc.; 5 Área de descrição física; 6 Área de série e recurso monográfico multiparte; 7 Área de notas; 8 Área de identificador de recurso e condições de disponibilidade.

A partir das características apresentadas do Dublin Core e da ISBD Consolidada, destaca-se a importância do trabalho para as discussões sobre interoperabilidade semântica. A interoperabilidade refere-se a comunicação e troca de informações entre os sistemas heterogêneos. Para que a interoperabilidade ocorra é necessário que o estabelecimento dos metadados seja realizado de modo adequado e consistente considerando não só a infraestrutura tecnológica, mas também os padrões de conteúdo necessários, em determinados casos, para a representação padronizada dos valores. Nesse trabalho, a interoperabilidade semântica está relacionada no uso do Dublin Core no domínio bibliográfico e da necessidade em utilizar regras já estabelecidas para esse domínio, a exemplo das regras da ISBD. A integridade dos dados a partir de regras, auxilia e aumenta a precisão e consistência dos registros para a localização e acesso do recurso informacional. E ainda, proporciona instituições a trabalharem em conjunto, pois, terão maior controle dos dados interoperados. 286


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

3 METODOLOGIA Trata-se de uma pesquisa exploratória de caráter qualitativo de cunho teórico aplicado, que aborda a aplicação da ISBD Consolidada no padrão de metadados Dublin Core. A abordagem a ser utilizada é a perspectivista proposta por Donald Peterson (1996), que busca de elementos para a adequação de certa perspectiva, uma situação, evento ou circunstância, pois, a adoção de uma perspectiva é sempre relativa, mas não se estabelece de modo anárquico. Dessa forma, foram estudados e mapeados o escopo dos metadados do Dublin Core com as regras da ISBD Consolida. O mapeamento é base para próxima etapa de aplicação, da ISBD no Dublin Core. Apresentado assim, exemplos de como ficariam a catalogação de livros utilizando a ISBD no padrão Dublin Core. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO Para melhor exemplificação dos dados, foi escolhido um livro aleatório “‘A song of ice and fire: a game of thrones’ de George Raymond Richard Martin no idioma inglês. Dessa forma, o quadro 1 traz a catalogação do livro utilizando a ISBD Consolidada. Quadro 1 - Catalogação do livro ‘A song of ice and fire: a game of thrones’ com a ISBD Consolidada Texto (visual) : sem mediação A song of ice and fire : a game of thrones / George R. R. Martin ; Larry Rostant (ilustração). — New York : Bantam Book , 2012. — 385 p. : contém mapa ; 17 cm. — (A song of ice fire, ISBN: 978-0-345-54056-0 ; v. 1). — Inclui bibliografia. — A clash of kings ; v. 2. — A storm of swords ; v. 3. — A fest for crows ; v. 4. — A dance with dragons ; v. 5. — ISBN: 978-0-553-57340-4 Fonte: Elaboração dos autores.

Por conseguinte, é necessário transpor as regras propostas pela ISBD Consolidada, nesse sentido, é apresentado no quadro 2 o mapeamento das regras da ISBD Consolidada no padrão Dublin Core com o foco aos recursos textuais. Para realização do mapeamento foram utilizadas as regras que poderiam ser aplicáveis a esses tipos de materiais. 287


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Quadro 2 - Mapeamento do Dublin Core com a ISBD Consolidada Dublin Core Simples Título

ISBD Consolidada / Regra Título propriamente dito

1.1

Título equivalente

1.2

Informação complementar ao título

1.3

Criador

Declaração de responsabilidade

1.4

Contribuidor

Declaração de responsabilidade

1.4

Declaração de responsabilidade da edição

2.3

Declaração adicional a sequência de responsabilidade da edição

2.5

Nome do editor, produtor e distribuidor

4.2

Data

Data de publicação, produção ou distribuição

4.3

Cobertura

Lugar da publicação, produção ou distribuição

4.1

Nota (s)

7.4

Outros detalhes físicos;

5.2

Materiais adicionais

5.4

Disponibilidade em outros formatos físicos

7.5.2

Forma de conteúdo

0.1

Edição

2.1

Edição adicional

2.4

Título de uma série ou partes de um recurso monográfico.

6.1

Título paralelo de uma série ou parte de recurso monográfico.

6.2

Informação complementar ao título de uma série ou parte de um recurso monográfico.

6.3

Número internacional normalizado de uma série ou parte de um recurso monográfico.

6.5

Numeração em uma série ou parte de um recurso monográfico.

6.6

Título principal em recursos contínuos

8.2

Identificador do recurso

8.1

Tipo do item

0.2

Extensão do item

5.1

Outros detalhes físicos

5.2

Dimensões

5.3

Assunto

-

-

Idiomas

-

-

Fonte

-

-

Direitos

-

-

Publicador

Descrição

Tipo Relacionamento

Identificador Formato

Fonte: Elaboração dos autores.

288


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Em alguns casos do mapeamento, um mesmo metadado do Dublin Core, abrange diversas regras da ISBD, como foram os casos do título, contribuidor, cobertura, descrição, relacionamento e formato. Nesses casos, o uso da pontuação pode auxiliar a distinguir a informação que está sendo inserida. Em alguns casos como relacionamento, formato, contribuidor a possibilidade de duplicar o campo, parece melhor alternativa para descrição, pois individualiza a descrição. Em outros casos como título, recomenda-se inserir todas as informações no mesmo metadados, pois eles fazem parte do título, a não ser o título equivalente, que é recomendado duplicar o campo. Entretanto, alguns campos do Dublin Core não tiveram regras definidas pela ISBD, como os casos de diretos, idioma, fonte e assunto. Nesse sentido, para o campo

de

assunto

deve-se

recorrer

a

outros

esquemas

de

codificação,

especificamente, padrões de valores de dados como tesauros, vocabulários controlados, sistemas de classificação, por exemplo. No caso de idioma, direitos e fonte, pode-se recorrer as diretrizes de boas práticas do Dublin Core. A seguir, o quadro 3 representa a descrição do livro ‘A song of ice and fire: a game of thrones’ com as regras da ISBD Consolidada inseridas no padrão Dublin Core. Quadro 3 - ‘A song of ice and fire: a game of thrones’ no Dublin Core com ISBD Consolidada Título

A song of ice and fire : a game of thrones

Criador

George R. R. Martin

Contribuidor

Larry Rostant (ilustração)

Publicador

Bantam Book

Data

2012

Cobertura

New York Contém mapa

Descrição Inclui bibliografia Tipo

Texto

Relacionamento

A song of ice fire, ISBN: 978-0-345-54056-0

289


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A clash of kings ; v. 2 A storm of swords ; v. 3 A fest for crows ; v. 4 A dance with dragons ; v. 5 Identificador

ISBN: 978-0-553-57340-4 385 p.

Formato 17 cm Assunto

Literatura

Idiomas

Inglês

Fonte

-

Direitos

Random House Fonte: Elaboração dos autores.

O quadro 3 apresenta a aplicação de uma catalogação utilizando as regras da ISBD Consolidada no Dublin Core. Verifica-se que toda descrição apresentada no quadro 1 encaixou em algum elemento do Dublin Core. No caso do elemento contribuidor, optou-se por colocar a função do ilustrador entre parênteses para evitar problemas na recuperação da informação, mas que ao mesmo tempo, quando recuperado pudesse distinguir sua função em um recurso específico. Em alguns metadados como relacionamento, descrição, formato optou-se por duplicar os campos para facilitar a recuperação da informação, pois assim, cada um dos elementos ficariam separados e facilitando a recuperação do recurso. Outros casos como título e nos campos do relacionamento descritos, optou-se em manter a pontuação da ISBD, pois nesses casos, há necessidade de separar essas informações e não sendo necessário duplicar o campo do Dublin Core. Os elementos que a ISBD não aborda, como assunto, idiomas e direitos foram preenchidos. O elemento fonte não se aplica ao recurso descrito. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo apresentou uma possibilidade de padronização dos metadados em ambientes digitais. A padronização da descrição reflete principalmente no processo 290


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de interoperabilidade semântica entre instituições que poderá melhor aproveitar o registro feito por outra instituição. O resultado do trabalho foi a apresentação do mapeamento das regras da ISBD Consolidada no padrão Dublin Core e ainda foi realizado a aplicação do estudo em recursos do tipo livro. Dessa forma, foi comprovado e reiterado o problema da pesquisa, que os campos do Dublin Core demonstraram compatíveis com a ISBD Consolidada e que a aplicação das regras apresentou maior padronização dos registros e evitou a ambiguidade que normalmente ocorre na descrição pelos campos do Dublin Core. Conclui-se que o Dublin Core pode ser utilizado no domínio bibliográfico e que é possível utilizá-lo com as regras de catalogação como a ISBD Consolidada. Essa combinação, entre regras de catalogação no Dublin Core proporcionam maior interoperabilidade semântica dos registros. Além disso, ressalta-se que o uso de instrumentos internacionalmente reconhecidos, reduz o trabalho do catalogador em adaptar um registro descrito em outra instituição para suas necessidades. Como pesquisas futuras, sugere o estudo da aplicação do RDA, que são diretrizes de descrição e é sucessor do AACR2r. Em seu escopo de aplicação, destina a descrição de recursos digitais e poderá melhor atender as especificidades dos recursos digitais, pois a ISBD Consolidada trabalha apenas com as manifestações já o RDA propõe-se em trabalhar com as outras entidades propostas pelo FRBR, possibilitando maior relacionamento entre recursos. REFERÊNCIAS ALVES, R. C. V.; SANTOS, P. L. V. A. da C. Metadados no domínio bibliográfico. Niterói: Intertexto, 2013. ARAKAKI, F. A.; ALVES, R. C. V.; SANTOS, P. L. V. A. da C. O ESTUDO DA APLICAÇÃO DO AACR2r NO DUBLIN CORE: A DESCRIÇÃO DE RECURSOS BIBLIOGRÁFICOS NA WEB. In: SEMINÁRIO DE ARQUIVOLOGIA E BILIOTECONOMIA, 4., UNESP, Marília. Anais... 2015. Disponível em: <http://www.marilia.unesp.br/Home/Eventos/2015/seminariodearquivologiaebiblioteco nomia/arakaki.pdf>. Acesso em: 13 maio 2015. ARMS, W. et al. A spectrum of interoperability: the site for science prototype for the NSDL. D-Lib Magazine, v. 8, n. 1, jan. 2002. Disponível em: <http://www.dlib.org/dlib/january02/arms/01arms.html>. Acesso em: 6 jun. 2015.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

BAKER, T. A grammar of Dublin Core. D-Lib Magazine, v. 6, n. 10, out. 2000. Disponível em: <http://www.dlib.org/dlib/october00/baker/10baker.html>. Acesso em: 24 jun. 2014. COMMITTEE ON CATALOGING: description and acess. Dublin Core Metadata and the Cataloging Rules. [200-]. Disponível em: <http://www.libraries.psu.edu/tas/jca/dublin/dcreport.html>. Acesso em: 27 fev. 2015. GONÇALVES, P. de C.; LEÃO, C. M.; VIANNA, M. M. Adequação do Dublin Core ao AACR2: o caso da Biblioteca Digital da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 25., Florianópolis. Anais CBBD… Florianópolis, SC. p. 1050-1060. Disponível em: <http://portal.febab.org.br/anais/article/view/1323>. Acesso em: 25 fev. 2015. INTERNATIONAL STANDARD BIBLIOGRAPHIC DESCRIPTION. Descripción Bibliográfica Internacional Normalizada: Edición consolidada. Den Haag: IFLA, 2011. Disponível em: <http://www.ifla.org/files/assets/hq/publications/series/44es.pdf>. Acesso em: 13 maio 2015. MARTIN, G. R. R. A song of ice and fire. New York: Bantam Book, 2012. PETERSON. D. (Org.). Forms of representation: an interdisciplinary theme for cognitive science. Wiltshire: Cromwell Press, 1996. 208 p. SIMIONATO, A. C. Representação, acesso, uso e reuso da imagem digital. 141f. 2012. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) –Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Filosofia e Ciências, Marília/SP, 2012. Disponível em: <http://hdl.handle.net/11449/93646>. Acesso em: 6 jun. 2015.

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20 MEMÓRIA E ESQUECIMENTO NA INTERNET: UMA ANÁLISE SOBRE A DOMINAÇÃO GOOGLE E A UTILIZAÇÃO DE FILTROS DE RECUPERAÇÃO DE INFORMAÇÕES

Ângela Maria Grossi de Carvalho angela@carvalho.jor.br Maria José Vicentini Jorente Docentes do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp) Deise Deolindo Silva deisedeolindo@hotmail.com Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp) Thabyta Giraldelli Marsulo thabytagm@hotmail.com Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual Paulista (Unesp)

Resumo: As possibilidades abertas pela Internet com seus mecanismos de publicação direta na rede tornam o acesso a um documento digital uma mera questão de conhecer sua URL. No entanto, esta facilidade de acesso tem como contrapartida a grande dificuldade de encontrar informação relevante. Este trabalho tem por objetivo geral estudar os efeitos que os instrumentos das Tecnologias da Informação e Comunicação sobre os seres humanos, enfatizando aspectos relativos à memória na web. Através desta identificação de instrumentos usados para filtrar a recuperação da informação por grandes empresas como a Google e o Facebook, visamos destacar a necessidade do conhecimento tecnológico dos profissionais da informação para conscientizar os usuários da manipulação invisível destas redes e através da promoção dessa mediação fortalecer seu valor na sociedade da informação. Palavras-Chave: Memória; Tecnologias de Informação e Comunicação; Era Google; Filtros de Recuperação; Bolhas de Personalização.

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1 INTRODUÇÃO Por muito tempo existiu a necessidade de preservar a memória, geralmente o esquecimento era a atitude imperativa e a lembrança, o desafio. Tentava-se armazenar as informações por meio de pessoas, cânticos, livros, bibliotecas, instituições escolares. Nesse sentido pode-se dizer, conforme Pimenta (2013), que os lugares de memória são construídos por meio de grupos sociais que atuam sobre um determinado espaço e matéria e tem por objetivo preservar, comemorar e informar as gerações futuras. Com a chegada à Era Digital as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) tornaram-se, como definiu McLhuan (2011), “extensões de nós mesmos” e os humanos passaram a se assemelhar ao mito grego Narciso, o qual ficou fascinado com o reflexo de sua imagem. Hoje as novas mídias vêm despertando fascínio aos homens e os tornam muitas vezes “amputados” por depender progressivamente dessas tecnologias. Diante dessa analogia é pertinente refletir sobre como a memória fica condicionada às mídias. O mundo está envolto a uma imensidão de dados, a apuração desses torna-se cada vez mais complicada e exige ferramentas especializadas para lidar com a abundância dessas informações. Pimenta (2013) explica que as práticas e formas de memória no ambiente digital constituem parte da ação política e cultural da sociedade contemporânea, marcada pelo excesso de informação, que afeta desde a privacidade no plano individual como no coletivo. A presença na escala global de dados na Internet fará parte da memória local, regional e, consequentemente, da global. Atualmente, observa-se um crescimento significativo no número de blogs, perfis em redes sociais, sítios eletrônicos e, na mesma proporção, surgem novos depoimentos, entrevistas, compartilhamentos, vídeos, documentos gerando novas informações que serão armazenadas em novos lugares de memória. Conforme Harvey (1996 apud Pimenta (2013)) os lugares de memória e de informação são parte de uma construção social onde a informação é fundamental para a construção de conhecimentos e de participação no cenário político.

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Portanto, o ato de informar e lembrar são considerados políticos e, com essa característica, a Internet tornou-se uma ferramenta capaz de provocar mobilizações sociais (PIMENTA, 2013, p.157).

2 METODOLOGIA Este trabalho tem por objetivo geral estudar os efeitos que os instrumentos das Tecnologias da Informação e Comunicação sobre os seres humanos, enfatizando aspectos relativos à memória na web. Através desta identificação de instrumentos usados para filtrar a recuperação da informação por grandes empresas como a google e o Facebook, visamos destacar a necessidade do conhecimento tecnológico dos profissionais da informação para conscientizar os usuários da manipulação invisível destas redes e através da promoção dessa mediação fortalecer seu valor na sociedade da informação. A pesquisa caracterizou-se como de tipo exploratória, descritiva bibliográfica e analítica no âmbito da recuperação da informação e preservação de memória, sendo aplicada por meio de uma abordagem qualitativa visando à identificação, registro e análise das características dos fenômenos de personalização ocorridos na web.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES Ao analisar história verifica-se que sempre houve a necessidade de se guardar informações. Desde a antiguidade o homem tenta armazenar seus dados de alguma forma, como por exemplo, em figuras rupestres em cavernas ou escritas em paredes de pedras encravadas nas pirâmides egípcias, sempre com o objetivo de perpetuar acontecimentos ou a cultura vivida (LIMA JR., 2011). Observa-se, então que o armazenamento dos dados é intrínseco ao homem e a sua recuperação está relacionada à memória. Por isso, pode-se dizer, conforme Holanda e Silva (2012), que a informação e a memória são marcadas por fenômenos socioculturais. O autor supracitado destaca, também, que existe uma relação estrita entre a informação e o processo de aquisição do conhecimento, pois existe a necessidade de entendê-la e contextualizá-la de acordo com seu espaço, tempo e forma. A atual conjuntura mundial associada ao crescimento tecnológicos fez com que a humanidade convivesse cada vez mais rodeada por dados. Pois, a inserção da Internet e das tecnologias digitais no cotidiano do cidadão fez com que se

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alavancasse, a níveis inéditos na história, a mobilidade e a abrangência comunicacional e informacional do indivíduo. De acordo com Monteiro et al. (2009) as TIC têm uma relação estreita com o conceito memória porque a preservação é a garantia de guarda e de sua recuperação. Nota-se com o avanço tecnológico que os modos e os lugares da memória passaram por profundas transformações, principalmente, quando se trata de aquisição da informação e do conhecimento. Novos modelos informativos foram originados com o advento da Internet, ferramentas foram criadas com o intuito de mantê-la preservada. Esses acontecimentos foram previstos por Bush (1945), ao idealizar o Memex. O autor anteviu que uma das habilidades do equipamento estava relacionada à recuperação da informação, ou seja, os arquivos poderiam ser recuperados no momento desejado. Previu, também que a Ciência providenciaria uma comunicação mais rápida entre os indivíduos, proporcionaria o registro de ideias, a manipulação do que foi registrado e a análise de como o conhecimento evoluiu. As TIC trouxeram consigo um instrumental capaz de armazenar e organizar as informações em dimensões até então não vistas pela humanidade. É pertinente ressaltar que esses artefatos computacionais tentam superar as limitações físicas humanas (por exemplo, o esquecimento) e, tais como a escrita são consideradas memórias externas, como externou McLhuan (2011) quando disse “as mídias são extensões de nós mesmos”. Além destes aspectos é importante destacar que o homem contemporâneo ao alcançar o mundo por meio do computador conectado à Internet não percebe que sofre um processo de censura. As informações que deveriam ter ênfase são cobertas por outras e, em um ritmo tão acelerado que a memória humana é incapaz de filtrar o que é real ou fictício, o que é útil ou inútil, gerando um significativo impacto sobre a memória coletiva (HOLANDA; SILVA, 2012). O volume vertiginoso que as informações atingiram associado à diminuição do custo de armazenamento e ao aperfeiçoamento do processo de digitalização, pode-se dizer que o esquecimento tem se tornado um processo mais custoso, de acordo com Mayer-Schönberger (2009, p.68). O autor destaca que por milênios a lembrança foi difícil e cara. Os humanos tiveram que escolher o que lembrar, pois o padrão era esquecer. Na atualidade, com a predominância do digital esse padrão ficou invertido. Diante do impacto causado pelas TIC sobre o processo de memória e esquecimento humano. Tem-se a necessidade de abordar tópicos referentes às ferramentas computacionais utilizadas, por sites e redes sociais, para ampliar a “memória externa” humana e estreitar os lapsos de esquecimento. 297


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A evolução tecnológica fez com que surgissem diversas ferramentas capazes de armazenar informações, de estabelecer relações entre o conhecimento construído ou em construção. Verifica-se, nessa trajetória, uma tendência das mídias adotarem sistemas que garantam a preservação da memória. Podem-se destacar como ferramentas auxiliares da memória as buscas por termos, a biometria, o reconhecimento facial, as localizações geográficas através do GPS, dentre outros instrumentos contemporâneos utilizados na Internet. Castells (2001) vê a sociedade como uma rede arquitetada pela mídia, a formação de redes sociais é um processo antigo que acompanhou a história do homem e “está associado aos movimentos sociais que usam as conexões interpessoais para atingirem objetivos econômicos, sociais, políticos” (LISBÔA; BOTTENTUIT JUNIOR; COUTINHO, 2009, p.6). “Uma rede social é definida como um conjunto de dois elementos: atores (pessoas, instituições ou grupos) e suas conexões” (WASSERMAN; FAUST, 199419; DEGENNE; FORSÉ, 199920 apud RECUERO, 2005, p.1). Em meio digital, os atores são definidos como os “nós” da rede e as interações e laços como “conexões”. Segue abaixo uma imagem que mostra como isto é estruturado nos mais variados formatos de redes sociais em meio digital: Figura 1: Representação estrutural das redes sociais.

Fonte Adaptada: Baran(1964).

O desenvolvimento de redes sociais é natural ao ser humano. A vida em sociedade pressupõe os contatos sociais, porém é obvio que o relacionamento das pessoas nesse contexto é influenciado de acordo com a cultura dos integrantes dessas redes sociais. 19

WASSERMAN, S.; FAUST, K. Social Network Analysis. Methods and Applications. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1994. 20 DEGENNE, A.; FORSÉ, M. Introducing Social Networks, Sage Publications, London, 1999.

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A rede social funciona basicamente das conexões relacionais entre os seus atores constituintes, onde circula todo o fluxo informacional por eles gerados. Essas conexões começam a se formar através das interações sociais entre as pessoas, que é o estabelecimento de relações mútuas entre os indivíduos através de uma ação recíproca onde ocorrem interinfluências. Não é necessário o contato físico para que esse processo ocorra, portanto ele pode se dar de forma indireta através de outros meios, como por exemplo nos meios de comunicação. Sites como o Google e as redes sociais como Facebook, utilizam-se dessas ferramentas com o intuito de garantir o acesso às informações e, consequentemente, à memória. Empresa Google começa em 1996 com o sistema BackRub, criado dentro da Universidade de Stanford por dois estudantes de doutorado de ciência da computação. Sua programação foi desenvolvida para rastrear os links na internet. O sistema passou a se chamar GOOGLE em 1997 e podia ser acessado dentro dos domínios da intranet da universidade (google.stanford.edu), entretanto a facilidade logo se popularizou e passou a congestionar a banda de internet da universidade, para a solução destas barreiras os estudantes contaram com investimentos que resultaram na Google Inc. em 1998. No final do primeiro ano de oficialização da empresa, o sistema de busca já respondia a 10.000 requisições ao dia o sistema ganhava a cada dia novos adeptos em toda a rede ao quebrar alguns paradigmas até então adotados pelos sistemas de buscas, como o pioneiro Altavista. Ao invés de apresentar páginas de maneira aleatória, o serviço introduziu o conceito de relevância nas pesquisas dos usuários, com a ajuda de algoritmos matemáticos e programas de computador que varriam a rede em busca de conteúdo, assim as respostas eram apresentadas pela ordem de importância dentro da internet. Em 2000 o GOOGLE começou a vender anúncios associados a palavraschave de busca. Com o intuito de manter um projeto organizado da página e aumentar a velocidade, as propagandas eram exclusivamente baseadas em textos. O programa de geração própria de anúncios, batizado deAdWords, prometia a ativação online com cartão de crédito, segmentação de palavraschave e feedback de desempenho. No dia 9 de maio deste mesmo ano foram lançadas as primeiras 10 versões de idiomas do Google: francês, alemão, italiano, sueco, finlandês, espanhol, português, holandês, norueguês e dinamarquês. Pouco meses depois, no dia 12 de setembro o GOOGLE começou a oferecer pesquisas em chinês, japonês e coreano, o que elevou para 15 o número total de idiomas disponíveis. Foi também neste ano que o GOOGLE passou a ser o novo motor de busca do Yahoo!, substituindo o tradicional Inktomi, tornando-se assim o sistema de busca mais popular

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segundo pesquisa da StatMarket ao anunciar o primeiro índice com 1 bilhão de URLs (VAIDHYANATHAN, 2011, p.59).

Em 2001 o site já estava disponível em 26 idiomas. E neste primeiro ano a empresa se internacionalizou, ao abrir primeiro escritório na cidade japonesa de Tóquio. Com a expansão e as barreiras territoriais vencidas, o google passou a formar parcerias que possibilitaram que o sistema se tornassem o principal serviço de pesquisa para milhões de latino-americanos e asiáticos. A política da empresa se revoluciona em 2002, quando engenheiros e funcionários foram incentivados a dedicar 20% do seu tempo trabalhando em algo que não fosse seu projeto principal de recuperação de informações, assim surgem serviços como o Google Notícias, Orkut e o Gmail. Em 2004 o índice de pesquisa atingiu uma nova marca: 6 bilhões de itens, o que incluía 4.28 bilhões de páginas da web e 880 milhões de imagens. No final de 2005 a empresa informou oficialmente a abertura dos primeiros escritórios em São Paulo e na Cidade do México. No ano seguinte um fato marcou a história da empresa: no dia 27 de janeiro o Google.cn, a versão de domínio local do GOOGLE, foi ao ar na China. Ainda neste ano o GOOGLE introduziu várias novidades como o bate papo no Gmail, usando as ferramentas de mensagem instantânea do Google Talk; a introdução das versões locais do GOOGLE MAPS na França, Alemanha, Itália e Espanha; o Gmail em idiomas árabe e hebraico, o que elevou a 40 o número de interfaces; a pesquisa de livros, que começou a oferecer downloads gratuitos de PDF de livros de domínio público; e a pesquisa de patentes nos Estados Unidos, indexando mais de sete milhões de patentes desde 1790 (PARIZER ,2011).

Em 2008, surgem avanços com no campo da recuperação , é integrado um sistema de indexação de links que visava continuar assegurando a disponibilização dos produtos nos 40 idiomas lidos para os 98% dos usuários de internet. Em 2011, ao pagar US$ 12.5 bilhões pela Motorola Mobility, o GOOGLE fez a maior aquisição de sua história e acirrou a disputa com a Apple ao se tornar capaz de controlar todos os aspectos de seus celulares, desde o equipamento em si até o sistema operacional. Apesar do sistema de busca ser o potencializador de negócios, o GOOGLE pode ser visto realmente como uma empresa de mídia, que busca disponibilizar conteúdos, hoje em dia, o GOOGLE está presente em todas as nossas ações na internet. Não só utilizamos o site de buscas, mas, também o YouTube, Blogger, Google Reader, Google Maps e Earth, além de Gmail e Gtalk, entre (muitos) outros serviços. Por tudo isso, Google.com tornou-se o endereço mais conhecido e acessado do 300


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mundo virtual, onde milhares e milhares de pessoas encontram respostas para dúvidas e problemas dia após dia. É fonte de informação, pesquisa, notícias, curiosidades, etc. O GOOGLE é atualmente a maior, mais ousada e, talvez, a mais conhecida empresa de internet do planeta. Conforme o histórico apresentado pela empresa no site www.google.com, a empresa tem diversos meios que auxiliam a memória de seus usuários, no Quadro 1 são apresentadas algumas dessas ferramentas: Quadro 1 – Serviços prestados pela Empresa Google. DESCRIÇÃO

FUNCIONALIDADE

Google Search

Mecanismo de busca

Google Adwords

Mostra os anúncios da sua empresa para potenciais clientes.

Google Adsense

Mostra anúncios relevantes para os visitantes do site e até mesmo personaliza a aparência dos anúncios para combinar com seu website.

Google Alerts

Retorna resultados de uma pesquisa à caixa de emails do usuário, sempre que for encontrada nova citação de um termo pré-determinado.

Google Analytics

Serve como um auxilio aos webmasters na tentativa de otimizar seus sites para campanhas de marketing.

Google Blogger

Ferramenta destinada à criação de Blogs.

Google Calendar

Serviço de agenda e calendário on-line

CatalogSearch/

Identifica os itens de seu interesse e quais realmente compra.

Product Search Google Checkout

Serviço de processamento de compras.

Google Chrome

Navegador de Internet.

Google Desktop

Permite realizar uma busca nos arquivos de seu computador.

Google Docs

Identifica o tema de sua pesquisa.

Google Earth

Função é apresentar um modelo tridimensional do globo terrestre

Google Finance

Apresenta informações sobre empresas incluindo as últimas decisões e também sobre as ações que você é proprietário.

Google Gmail

Serviço de e-mail.

Google Image Search

Busca por imagens

Google Maps

Localizador geográfico

Google Toolbar

Identifica os sites que visita

Google Translate

Tradutor de texto.

YouTube

Transmissão de vídeos.

Fonte: criado pelas autoras. 301


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Entretanto a empresa não possui apenas investimentos em internet, a empresa californiana investe em energia eólica, pesquisas genéticas, biotecnologia e até em criações de abelhas. Percebe-se que o Google realmente identifica os hábitos, desejos e dúvidas dos usuários. Verifica-se que a empresa é onisciente. A mudança no modo como as pessoas se relacionam com a informação e seu impacto na sociedade se baseia na essência da Internet: sua dinâmica e sua capacidade de extinção das fronteiras para possibilitar o acesso global a diversos tipos de informação e onde encontrar a informação relevante é fundamental para que a mesma possa ser utilizada. A grande quantidade de informação disponível na Web contribuiu para que as pessoas passassem a ter uma diversidade de opções. Esta diversidade torna a pesquisa e até mesmo a escolha uma tarefa difícil e desafiadora. Por isto, para diminuir as dúvidas em relação a tantas alternativas, boa parte dos usuários apoia-se em recomendações, que podem ser dadas por meio de: cartas de recomendação, opiniões de críticos de filmes e livros, opiniões de pessoas famosas em blogs conceituados sobre determinados produtos, entre outros (BORGES; OLIVEIRA, 2010, p.1).

Muitas vezes o usuário possui pouca ou quase nenhuma experiência para realizar escolhas entre as várias alternativas que lhe são apresentadas o que aumenta muito a probabilidade desse usuário desistir de sua busca informacional. Neste contexto grandes empresas na web, como Google, Facebook, Apple, Microsoft, Amazon, personalizam ou customizam o conteúdo da Internet por meio de algoritmos que tornaram os ambientes um espelho de nossos gostos e perfis, disponibilizados por nós mesmos Segundo Parizer (2011) “Na mídia convencional, se você era mais liberal, escolhia o noticiário da CNN. Se era mais conservador, colocava na Fox News. Mas a decisão era sua. Com a informação filtrada, você se torna inconsciente do processo. A escolha é feita em seu nome”. A forma como cada um usa a internet dá origem a bolhas personalizadas de conteúdo, uma espécie de universo online criado sob medida pelos sites para você, de acordo com critérios como seu histórico de busca, sua localização geográfica, o browser usado, a língua falada, os erros de gramática, o tempo para digitar, seus hábitos de compras, suas datas dos tuítes. Nesse sentido, a meta do Google é antecipar as perguntas - até mesmo para antes delas serem feitas. Esse terreno já começa a ser explorado pelo serviço Google Now, que indica espontaneamente quanto tempo se leva para chegar ao trabalho e se há algum acidente naquela rota. Pelos planos da Netflix, não será preciso fazer escolhas; na hora do clique, o aplicativo saberá qual o conteúdo mais adequado para exibir naquele momento (GANDOUR, 2014).

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O que antes era considerado um avanço a alguns anos como por exemplo o processo de Disseminação Seletiva de Informações (DSI), na língua inglesa “selective dissemination of information (SDI)”, concebido por Hans Peter Luhn, da IBM Corporation, em 1958, com a finalidade de aperfeiçoar serviços de alerta oferecidos por bibliotecas, centros de documentação e sistemas especializados de informações documentais, está se tornando uma armadilha para os usuários. Assim ao considerarmos a informação como objeto de trabalho do profissional da informação, é importantes, diante deste fenômeno que nos posicionemos diante do crescimento da bolha informacional, estudos que abranjam tanto os ambientes informacionais com os quais os usuários interagem como a forma com a qual é realizada a descrição dessas informações compartilhadas precisam emergir , já que em plena era onde o BIG DATA pode nos proporcionar as maravilhas e oportunidades de viver num Mundo líquido, plano e colaborativo, a ideia de filtros e bolhas e criam uma ditadura, que prejudica a preservação da memória.

4 CONCLUSÕES A evolução das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), ao longo das últimas décadas, proporcionou o acesso a uma grande quantidade e variedade de informações, por indivíduos de diversos âmbitos da sociedade. Dessa forma, vimos o surgimento de uma Sociedade da Informação, a qual exige, cada vez mais, velocidade na aquisição de serviços de comunicação e de informações para o funcionamento ágil e eficiente de ações no mercado de trabalho e das relações pessoais. Devido à evolução das TIC e à crescente utilização da Internet, o número de ambientes informacionais digitais aumentou consideravelmente e gerou um imenso volume de informações disponíveis no meio eletrônico. Desde meados do século passado a Ciência da Informação vem aprimorando seus fundamentos teóricos metodológicos de forma a compreender melhor os padrões de comportamento de busca de informação dos seres humanos para elaborar o design de sistemas de informação de modo a fazer com que tais sistemas atendam melhor seus usuários. Atualmente com o monopólio de empresas como a Google a existência da memória digital se mantém no tênue limite entre a preservação e uma forma de 303


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controle tecnológico imperceptível, que nos envolve uma rede monitorada constantemente. A organização de serviços de informação para fazer frente a requisitos específicos é, na verdade, o ponto crucial do manejo da informação, e é da responsabilidade básica dos especialistas da informação constantemente inovar produtos e serviços para prover o conhecimento de direito a todo cidadão. Sendo assim, ao pensar no histórico da Ciência da Informação, vemos que esta sempre teve como prioridade a preservação da memória, para posterior recuperação e uso com o advento das tecnologias e da Internet a possibilidade da preservação, como conhecíamos, já não é possível. O Ciberespaço, com seus devires e possibilidades, veio instaurar novas que o profissional da informação deve interagir com máquinas sofisticadas e inteligentes, se porta como um agente no processo de tomada de decisão, nesta sociedade onde a utilização eficaz da informação e do conhecimento tornando-se fundamental, a sua competência tecnológica.

REFERÊNCIAS BUSH, V. As we may think. Atlantic Monthly, v.176, n.1, p.101-108, 1945. Disponível em: <http://totalrecallbook.com/storage/As%20We%20May%20Think%20Vannevar%20Bu sh%20450910.pdf>. Acesso em: 3 jun. 2014. CASTELLS, M. La galaxia Internet. Barcelona: Cultura Libre, 2001. HOLANDA, A. B. e SILVA, F. M. Memória e esquecimento para além dos suportes materiais de registro da informação: a cibercultura no ciberespaço. DataGramaZero, Rio de Janeiro, v.13, n.5, out. 2012. MAYER-SCHÖNBERGER, V. The demise of forgetting – and its drivers. In: Delete: the virtue of forgetting in the digital age. Princeton: Princeton University Press, 2009. p.50-91 MCLUHAN, M. Understanding media: the extensions of man. Berkeley, CA: Gingko Press, 2011. p.62-70; p.84-90 MONTEIRO, S. D.; CAPELLI, A. E. PICKER, M. E. V. A Ciência da Informação, memória e esquecimento. Disponível em: http://www.datagramazero.org.br/dez08/Art_02.htm. Acesso em: 20 nov. 2014. PIMENTA, R. M. Big data e controle da Informação na era Digital: tecnogênese de uma memória a serviço do mercado e do estado. Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, v.6, n.2, jul./dez. 2013.

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________. O futuro do passado: desafios entre a informação e a memória na sociedade digital. In: ALBAGLI, Sarita. (Org.). Fronteiras da Ciência da Informação. Brasília: IBICT, 2013. PARISER, E. The filter bubble: What the Internet is hiding from you. New York: Penguin Press, 2011. SIVA, V. The googlization of everything (and why we should worry). Berkeley (CA): University of California Press, 2011. 280p.

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21 CIBERPOLÍTICA: TWITTER EN LAS ELECCIONES MUNICIPALES Y AUTONÓMICAS DE MADRID 2015

Elena de la Cuadra Colmenares ecuadra@ucm.es Departamento de Biblioteconomía y Documentación Universidad Complutense de Madrid (UCM) Sara Gallego Trijueque sara.gallego@urjc.es Departamento de Ciencias de la Comunicación, Socilogía y Lengua Española Universidad Rey Juan Carlos

Resumen: En este estudio se describen las estrategias y usos on-line de la política del siglo XXI, con especial atención al uso de Twitter en las elecciones de Madrid de 2015. El estudio quiere analizar las tendencias y la influencia de las redes sociales en los mensajes (tanto de políticos como de ciudadanos) vertidos en las jornadas electorales. Estas líneas comenzarán con una breve introducción histórica de los usos de las redes sociales en política internacional, para centrarse después en el caso de España y en las herramientas que internet ofrece a la comunicación política. A continuación analizaremos cómo los partidos políticos aprovechan las redes sociales, para tener presencia y visibilidad en el entorno digital, para sus campañas políticas, para la segmentación de la ciudadanía, o como plataforma ideal para crear contenido político. En un segundo momento, analizaremos las corrientes de opinión a través de los hashtags más empleados en la jornada electoral que tuvo lugar en España el día 24 de mayo, fecha en que se elegían los gobernantes locales. Como conclusión veremos la importancia de un determinado hashtag o etiqueta en un momento oportuno, y cómo los medios de comunicación han encontrado en Twitter una importante parcela de poder. Palabras-Clave: Ciberpolítica; Redes Sociales; Twitter; Elecciones; Ciberelecciones.

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1 METODOLOGÍA El objetivo principal de este estudio es analizar las corrientes de opinión de líderes políticos y usuarios de las redes sociales digitales en una jornada electoral. Para ello hemos comenzado con una breve introducción del contexto histórico de las herramientas que los políticos han utilizado desde la implantación masiva de las redes en el primer mundo, para luego acercarnos al objetivo principal: las palabras clave más empleadas en el caso de las elecciones en Madrid en mayo de 2014. Tras el repaso histórico de los hitos históricos más destacables, centramos el estudio en analizar qué herramientas ofrece internet a los líderes políticos, para centrarnos a continuación en Twitter, concretamente en el uso que de esta red social digital hacen los partidos y los políticos en España. La metodología empleada se ha centrado en recoger los datos de estadísticas de los hashtags más empleados en la noche electoral y siguientes, mediante herramientas

gratuitas

disponibles

en

internet,

como

la

web

http://analytics.followthehashtag.com/. A esos datos se suma la recolecta manual de los hashtags más empleados, partiendo de las propias herramientas proporcionadas por Twitter: las cuentas de los partidos políticos y de los candidatos arrojan tuiteos21 en los que se pueden ver qué palabras clave eran las más repetidas en la noche electoral. También en la propia versión web de Twitter se puede acceder a la herramienta “Búsqueda avanzada”, que permite marcar varias posibilidades para encontrar los tuits y los hashtag buscados.

2 ANTECEDENTES La revolución que Internet provocó en las comunicaciones ha afectado a todos los sectores. En los primeros años de desarrollo de Internet (en lo que podríamos llamar la web 1.0) la información partía de unos pocos y llegaba a muchos. No era sencillo publicar en internet: era preciso tener conocimientos avanzados de informática, o al menos de lenguaje HTML22, y un experto que supiera gestionar servidores y conexiones.

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En este estudio emplearemos la forma españolizada “tuit” o “tuiteo”, siguiendo las recomendaciones de Fundéu en http://www.fundeu.es/recomendacion/tuitero-tuitear-tuiteo-y-retuiteo-terminos-en-espanol-712/ 22 Lenguaje codificado necesario para redactar una página web, que responde a las siglas de HyperText Transfer Protocol (Protocolo de Transferencia de Hipertexto). Hoy día cualquier procesador convierte un texto normal a este lenguaje, pero en los primeros años de la red era preciso tener conocimientos avanzados para ello.

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Estados Unidos En estos primeros años encontramos a uno de los primeros políticos que supo adaptar sus mensajes a Internet. Tal y como nos explica Dader (2009) “el 13 de enero de 1994 el vicepresidente de Estados Unidos, Al Gore, mantuvo una charla en la Red con los ciudadanos, convirtiéndose así en el primer político de un gobierno (…) que celebraba esta modalidad virtual de contacto”. A ese despertar de la ciberpolítica en los años 90 siguieron otros hechos memorables en política, con otros políticos que entendieron la importancia de dirigirse a los ciudadanos con las tecnologías que ya empezaban a invadir los hogares. Dos presidentes marcan los hitos en la política en línea estadounidense. Bill Clinton, como nos recuerda Levy (2004) empleó el correo electrónico para anunciar la creación de una ventanilla única para los ciudadanos. George W. Bush se apoyó en Internet, afirman Gómez, Ortiz y Concepción (2011) para potenciar su campaña difundiendo boletines de prensa y discursos políticos; a través de medios electrónicos, apoyaba su recaudación económica y respaldaba el trabajo de campo de su campaña. Sin embargo, la utilización de las redes sociales en la esfera política, especialmente en las estrategias de comunicación, tiene su origen, como explican Túñez y Sixto (2011) en la campaña de Barack Obama en el 2008, que cambió la forma de ser, estar y obrar en política: “A partir de 2008 (…) cada vez fueron más los políticos que se animaron a buscar un hueco en las redes sociales, en lo que algunos autores han definido como una hibridación del marketing político y el marketing social” El hito en la ciberpolítica lo marca Barack Obama en 2008. Su equipo construyó su perfil a través de diferentes redes sociales como Facebook (www.facebook.com/barackobama), Twitter (twitter.com/BARACKOBAMA), MySpace (www.myspace.com/barackobama), blog (BaracakObama.com), y, atendiendo al estudio de González (2010): “(…) los canales de vídeo como YouTube y el propio Barack TV, dentro del portal BarackObama.com, el sitio WAP Obama Mobile, en la Wikipedia (…). Sobre la incursión del equipo de Obama en la estrategia SMS, y en particular sobre la apuesta que hicieron por el iPhone, Varela destacaba: Barack, el presidente multimedia, ya está en el iPhone con toda la red social de MyBarackObama.com”.

El entonces candidato entiende las nuevas reglas de las redes: ya no es un mensaje unidireccional, sino que ahora el político debe estar abierto a las sugerencias, debe atender a

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los mensajes de cualquier ciudadano, y debe adaptar las estrategias comunicativas a este medio vertiginoso y multitudinario. Otros políticos han seguido sus pasos. Veremos ejemplos de políticos con cuentas autorizadas, y cómo emplean redes como por ejemplo Twitter.

Otros países Después de Obama existen muchos ejemplos de campañas políticas que emplean la red y las redes sociales. En un estudio realizado por Terra (2010) sobre las campañas electorales con mayor éxito, se muestra la evolución del uso a partir de Obama por otros políticos de las redes sociales comenzando por Hugo Chávez con el usuario en Twitter @chavezcandanga, seguido por el colombiano Juan Manuel Santos que incluso incita y demanda a los ciudadanos a asociarse a él a través de la utilización de Facebook, Twitter y Hi5. El presidente de Chile Sebastián Piñera en la realización de su campaña tuvo de referente a Obama.También hay que incluir en el uso de redes sociales para sus campañas electorales a la presidenta de Argentina, Cristina Fernández Kirchner, a Laura Chinchilla en Costa Rica y a la presidenta de Brasil, Dilma Rousseff. También en la campaña electoral francesa de abril del 2012 se emplearon las redes sociales para divulgar y amplificar los mensajes electorales. Los aspirantes (sobre todo los candidatos más fuertes: François Hollande y Nicolas Sarkozy), se han beneficiado de la libertad que da la red para realizar su campaña electoral sin tregua, y persuadir a los votantes a través de las redes sociales. Asegura Villaécija (2012) que: Según un estudio de CSA, el 40% de los franceses se ha informado a través de la Red. En este universo cibernético, las redes sociales han liderado las búsquedas. Con 23 millones de cuentas de Facebook y tres millones de Twitter, los candidatos se han valido también de esta herramienta para difundir su credo. Todos los candidatos cuentan con su perfil en Facebook o Twitter, escaparate para exponer programas, atacar al enemigo, detallar la agenda de campaña o simplemente, para meterse en el bolsillo a los adeptos más jóvenes.

España En España el año en que se empezaron a usar profusamente las redes para las campañas electorales fue el 2008, con motivo de las elecciones generales del 9 de marzo. De alguna manera, estas elecciones supusieron un giro en lo que se refiere a la política 2.0, aunque no de manera esencial. Actualmente tanto los políticos como 311


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sus partidos han cambiado de actitud frente a la manera de hacer política teniendo en consideración las redes sociales como un instrumento más, con una creciente importancia estratégica, necesaria y beneficiosa en el cálculo presupuestario (en especial para partidos como UPyD con mayores limitaciones de acceso a los medios de comunicación tradicionales). David Varona, redactor jefe de Participación en RTVE, en un artículo que escribió justo antes de las elecciones del 20 de noviembre de 2011, analiza muy brevemente algunas de las tácticas que los partidos usaron para su campaña electoral 2.0. Rubalcaba, del Partido Socialista Obrero Español (PSOE)

contrató a los

asesores que Obama utilizó en su campaña en el tema de redes sociales y presentó su cuenta en Twitter, @conrubalcaba que tuvo gran impacto, pero Rubalcaba y su equipo no contaba con el impacto Rajoy, que también decidió abrir su propia cuenta en Twitter, @marianorajoy y en tan solo cuatro días ya tenía más seguidores que su oponente23. Para ello los encargados de gestionar el Twitter de Rajoy, en los primeros días, colgaron una foto de Santiago Segura, Julio José Iglesias y Rajoy, ello dio mucho que hablar en la red. El Partido de Rubalcaba tampoco se queda atrás en todo tipo de estrategias para atraer a más ciudadanos regalando puntos (para conseguir tazas, camisetas, etc.) a las personas que más muevan, es decir, difundan sus contenidos en las redes. Este tipo de tácticas realizadas por el Partido Socialista se practican diferentes ámbitos. Por su parte el Partido Popular (PP) realizó «el secuestro de tuits» (en una convención que celebraron en Málaga), que básicamente consiste en que los militantes y partidarios ponen transitoriamente sus Twitter a disposición del PP, que los controla de forma robotizada. Al final, cada post se difunde de forma masiva y el impacto parece un bombardeo por saturación. Unión, Progreso y Democracia (UPyD) es uno de los partidos que consiguió congregar a un número elevado de sus simpatizantes y partidistas en las redes sociales, solo hay que entrar en su Twitter y observar lo dinámicos que son y fueron sus seguidores y cómo supieron y saben moverse en y a través de las redes sociales para que se les atienda. En Izquierda Unida (IU), hicieron un gran esfuerzo para tener impacto a través de las redes. Un ejemplo de ello fue el viral que se hizo con el título «No habrá paz 23

En Twitter existe siempre la sombra de la duda sobre si los usuarios son auténtico o no. Para este estudio consideraremos a todos los usuarios como reales, por la imposibilidad de saber si son ficticios o no.

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para los malvados», un vídeo que se divulgó mucho en Internet. En definitiva, se ha avanzado bastante respecto a años atrás en lo que a política 2.0 se refiere. Los políticos están utilizando más estas herramientas, son más hábiles y su actitud ha cambiado, es más amplia y abierta. En cuanto a las cifras de usuarios de Twitter en España en 2014, nos remitimos a un estudio de Online Business School (2015) que afirma que el 73% de la población española accede a las redes sociales (17 millones de un total de 23 millones de habitantes).

3 HERRAMIENTAS DE LA WEB 2.0 PARA LA CIBERPOLÍTICA Este estudio se centra en las redes sociales aplicadas a la ciberpolítica, pero no podemos olvidar otras herramientas de la web 2.0 que han revolucionado para siempre el modo de hacer campaña política: las páginas web oficiales de políticos y partidos, los blogs o los códigos QR ofrecen nuevas posibilidades para la difusión de la información. Rog Fages (2008) define la política 2.0 desde dos puntos de vista: (…) el de los políticos por un lado y, por la otra, el de los mismos ciudadanos. En clave de políticos, y de sus partidos, la Política 2.0 es el uso de las herramientas 2.0 para potenciar su capacidad de abrirse, de hablar con la ciudadanía y de escucharla compartir sus opiniones. En clave de ciudadanos, la Política 2.0 es su capacidad de organizarse en redes a través de las herramientas 2.0 para crear grupos de interés que acaben influenciando a los políticos y poderes públicos en sus decisiones. Por lo tanto, la Política 2.0 tiene un efecto de más implicación política entre la ciudadanía.

Revisada esta definición podemos decir en clave de políticos que para hacer política 2.0 es necesario aplicar y usar una serie de herramientas basadas en la filosofía y la Web 2.0. Las herramientas más utilizadas para realizar política 2.0 son, entre otros: 

páginas web oficiales

blogs

redes sociales digitales

servicio de mensajería instantánea o SMS

información cifrada en códigos QR

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Ilustración 1

Código QR de la Web del Congreso

En España, un ejemplo del uso de los códigos QR en la elaboración de una campaña electoral (sin utilizar el formato papel) se la debemos a un político granadino Rodríguez Salas, quien elaboró un documento virtual abierto tras recibir muchísimas propuestas por parte de los vecinos de Jun. Cada idea contemplada en el programa electoral tiene un código QR que la identifica y las “geoposiciona”, de modo que cualquier vecino de este pueblo puede acceder desde su dispositivo móvil (con aplicaciones de lector QR para iPhone y Android) a la información descrita, con la ventaja de que, a su vez, puede generar más códigos QR o reenviar la información obtenida a todos sus contactos24.

4 TWITTER Y CIBERPOLÍTICA Para llegar a ser un candidato 2.0, el político tiene que cambiar su actitud y poseer unas cualidades específicas para realizar una política 2.0 adecuada a los tiempos en los que vivimos. Debe tener muy claro el uso que le aportan las redes sociales (atender, percibir, escuchar y conversar) y no olvidarse de ello cuando haya pasado la época electoral. La llegada de las redes sociales digitales provoca un cambio significativo en la comunicación entre el político y sus simpatizantes, hasta entonces mayoritariamente unidireccional. Las redes sociales digitales permiten una comunicación mucho más

24

Disponible en: < http://joseantoniojun.com/>. [Consulta: 11/06/2015].

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ágil, más rápida y más sencilla, sin que sea apenas necesario tener conocimientos de informática ni grandes equipos. Si nos centramos en el uso de Twitter por los políticos y los partidos, observaremos cómo esta red social digital (RSD) se ha convertido en una herramienta fundamental. Aunque los participantes en esta RDS no son representativos de la sociedad en general (quedan excluidos grandes grupos sociales, por ejemplo los mayores), sí es una muestra representativa y con una gran capacidad de influencia sobre sus seguidores. Usuarios que eran personajes anónimos hasta la llegada de Twitter, hoy son TuitStars o influencers, y pueden, gracias a la gran cantidad de seguidores, promocionar o llevar al fracaso un determinado hashtag que un político quiera convertir en Trending Topic. 5 24 DE MAYO DE 2015 – ELECCIONES EN MADRID El 24 de mayo de 2015 se celebraron elecciones en muchas de las Comunidades Autónomas25 (aquí encontramos un mapa de las comunidades autónomas: http://www.rutasporespana.es/rutasEspanya/img/mapaCA.jpg)

y en los

ayuntamientos españoles. Las redes sociales eran ya una herramienta muy empleada por los españoles, especialmente por los jóvenes26. Los partidos políticos participaron activamente con sus cuentas oficiales y con hashtags creados expresamente para estas elecciones: algunos temas circulaban los días previos, otros se vieron en la misma jornada de las elecciones, y otros siguieron el devenir de los pactos políticos que se sucedieron hasta casi un mes después de las elecciones. En esta tabla vemos los candidatos de los principales partidos, con su cuenta oficial en Twitter.

PARTIDO Partido Popular Partido Socialista Obrero Español Podemos

Tabla 1 COMUNIDAD Cristina Cifuentes @ccifuentes Ángel Gabilondo @equipoGabilondo José Manuel López Rodrigo @JoseManuel_Lop

AYUNTAMIENTO Esperanza Aguirre @EsperanzAguirre Miguel Ángel Carmona ----------Manuela Carmena @ManuelaCarmena

25

España se divide en 17 Comunidades Autónomas. Cada una de ellas puede, a su vez, dividirse en provincias. Madrid es una “Comunidad Autónoma Uniprovincial”, es decir, solo consta de una provincia. Las comunidades autónomas pueden tener hasta 10 provincias. 26 Informe del INE (Instituto Nacional de Estadística) con los datos del uso de Internet en España – 2014.

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@PodemosCMadrid Luis García Montero @LuisGanaMadrid @lgm_com Ramón Marcos @ramonmarcos Ignacio Aguado @ignacioaguado

Izquierda Unida

Unión, Progreso y Democracia Ciudadanos

Raquel López @RaquelLopezCom @RaquelLopezIU David Ortega @davidortegaUPyD Begoña Villacís @begonavillacis

En la siguiente tabla vemos las diferentes cuentas de los candidatos, con sus fechas de creación y su número de seguidores27. Vemos, además, que algunos candidatos han incluido en el resumen de sus perfiles su propio hashtag. En ocasiones ese breve resumen incluye la cuenta oficial de Twitter de su propio partido, en otras ocasiones, como vemos, incluyen el lema de su campaña, o al menos el slogan para Twitter convertido en un hashtag, de modo que todos sus seguidores puedan lanzar sus tuits con un mismo mensaje uniforme, y que, de esta manera, quede agrupado un solo hashtag acumulando impactos que de otra manera quedarían diluidos en la inmensidad de Twitter.

Tabla 2 CANDIDATO

CUENTA/HASHTAG

FECHA

SEGUIDORES

Cristina Cifuentes

@ccifuentes

12/2008

85.030

Esperanza Aguirre

@EsperanzAguirre

12/2008

335.373

-------

17.398

@JoseManuel_Lop

-------

13.236

@PodemosCMadrid

-------

13.324

@ManuelaCarmena

-------

158.058

-------

2.463

06/2009

25.292

Ángel Gabilondo J. M. López Rodrigo Manuela Carmena

@equipoGabilondo #solucionesjustas

@LuisGanaMadrid Luis García Montero

#ElCorazónDeLaIzquierda @lgm_com

Raquel López

@RaquelLopezCom

-------

312

@RaquelLopezIU

10/2011

4.132

Ramón Marcos

@ramonmarcos

05/2009

7.099

David Ortega

@davidortegaUPyD

09/2010

7.617

Ignacio Aguado

@ignacioaguado

05/2010

10.298

-------

18.896

Begoña Villacís

27

@begonavillacis #enamoradadeMadrid

Datos actualizados a fecha 11/06/2015

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Las elecciones autonómicas y locales del día 24 de mayo de 2015 tuvieron gran importancia en España. Lo que marcó su carácter histórico no fue el hecho de que pudieran facilitar un cambio de gobierno radical, puesto que no era el momento (las elecciones generales serían un año más tarde), pero sí fue el momento de que pudieran acceder a gobiernos regionales y locales determinados partidos que nunca antes habían existido, o que nunca antes habían conseguido representación. Tras muchos años de bipartidismo, en que parecíamos abocados a tener que elegir entre dos partidos políticos (el Partido Popular, de derechas y el Partido Socialista Obrero Español, de izquierdas –aunque ambos hayan añadido a sus tendencias “centroderecha” y “centro-izquierda” para ampliar su rango de votantes–), entraron en 2015 nuevas formaciones políticas: Podemos (de izquierdas) y “Ciudadanos” (de centroderecha). Estos dos nuevos partidos han irrumpido con fuerza en el panorama político español, y el análisis de las causas de esta irrupción se escapan de este estudio. Sí queremos, sin embargo, dejar constancia de la importancia de las redes sociales para estas fuentes emergentes. La noche electoral en Twitter está marcada por un hashtag claro: #Elecciones24M. Hay otros muchos que se mezclan con este, como podemos ver en el siguiente cuadro:

Tabla 3 Nº

Hashtag

Mensajes

1

#Elecciones24M

2

#Eleccion2015

3861

3

#elecciones24M

2982

4

#24M

1799

5

#Elecciones2015

1096

6

#Locales2015

965

7

#Madrid

528

8

#PP

518

9

#JornadaDeReflexion

464

10

#VotaFA

404

32206

Fuente: http://analytics.followthehashtag.com

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Con estos y otros datos proporcionados por FollowTheHashtag podemos realizar un análisis de las corrientes de opinión que circularon en Twitter la noche electoral. Solo con un primer vistazo a la lista de los 10 primeros hashtags podemos ver que los cuatro primeros son prácticamente el mismo, con unas leves diferencias: el uso de mayúsculas y el uso del singular o el plural. Esta leve diferencia de escritura podría solventarse simplemente sumando los tuits, pero encontramos un problema nuevo: el hashtag #Eleccion2015 (en ocasiones escrito con tilde) coincide con las elecciones en México, cuando estamos hablando de diferentes comicios. Cada candidato empleaba, además, los hashtags que consideraba más adecuados para transmitir su mensaje. Podríamos considerar a esta técnica como la evolución natural de los eslóganes de cada campaña: lo que antes era una frase corta, pegadiza, y una promesa para los electores, ahora es un hashtag con las mismas premisas, pero... todavía más corta. Si un tuit no puede exceder de 240 caracteres, un hashtag no puede ser excesivamente largo, pues no dejaría espacio para la opinión del tuitero. Los hashtags que los candidatos incluían en sus tuits eran los siguientes: 

PSOE: #PSOE24M, #Vuelvelaizquierda, #PedroSanchez, #ÁngelGabilondo

PP: #PP, #EsperanzaAguirre, #Rajoy

UPyD: #YoVotoUPyD, #HechosYNoPalabras, #LIBRES, #OrgulloUPyD

CIUDADANOS: #EspañaNaranja, #Cs, #ElCambioCs

PODEMOS:

#Podemos24M,

#Manuela24M,

#ManuelaCarmena,

#AhoraMadrid, #Podemos, #VotaPodemos24M 

IU: este partido no empleó ningúna etiqueta propia.

De todos estos, el de más éxito fue el del partido Podemos, #podemos, con 251 tuits y el puesto 17, seguido de #AhoraMadrid, del mismo partido, con 247 mensajes en el puesto 18. Le sigue el del Partido Socialista, #PSOE, con 236 mensajes, puesto 19, para volver a encontrar a Podemos en el puesto 22, con #Podemos24M. De este análisis se desprende que el partido con más mensajes en la red debidamente etiquetados es Podemos, aun con los hashtags divididos, acumula el mayor número de mensajes. Centrándonos

en

la

etiqueta

con

más

mensajes

de

esa

noche,

#Elecciones24M, vemos, siguiendo los datos proporcionados por Follow The Hashtag, 318


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que a las 22:00 horas del día 24, se llegó a un pico máximo de 1.230 mensajes originales. Ilustración 2

Los emisores de esos mensajes originales se ven en el siguiente gráfico:

Ilustración 3

Como vemos en el gráfico de la izquierda, el usuario más prolífico, la Agencia EFE, ha lanzado un total de 73 mensajes. Es curioso observar, en cambio, en el gráfico de la derecha, cómo la gran mayoría (un 80’2%) de los usuarios que han emitido su tuit con el hashtag #Elecciones24M solo han publicado un mensaje. Vemos en esta tabla la explicación del gráfico: 319


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Tabla 4 Nº TUITS

COLOR

USUARIOS

PORCENTAJE

1

Azul

19.587

80’2

2

Turquesa

2.908

11’9

3

Verde

926

3’8

4

Verde

376

1’5

5

Verde

207

0’8

6

Verde

129

0’5

7

Amarillo

66

0’3

8

Amarillo

52

0’2

+9

Rojo

149

0’6

Con estos datos vemos que la inmensa mayoría solo ha publicado una vez. Y el descenso de usuarios que publican más de una vez es notable: sólo el 11’9% ha lanzado dos mensajes, y sigue descendiendo si atendemos a los tuiteros que han mandado más de 3. Veamos ahora la influencia de esos tuits en este gráfico:

Ilustración 4

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El grado de influencia de un determinado usuario o perfil de Twitter se puede medir de diferentes maneras: atendiendo al número de veces que su mensaje es repetido sin cambios (“retuiteado”), o al número de veces que alguien ha contestado a este tuit (“reply”), o, lo que nos parece más acertado en general y más adecuado para este estudio, por el número de seguidores que tiene (“followers”). Y, con ese criterio, vemos que el diario El Mundo (@elmundoes) es quien más seguidores tiene, y, atendiendo a este rasgo, es el número 1 en influencia. Si vemos el ranking completo, veremos que la lista continúa con más medios de comunicación: TeleSur (@teleSURtv), el diario gratuito 20 minutos (@20m), la Agencia EFE (@EFEnoticias) o la agencia Europa Press (@europapress) entre otros.

6 CONCLUSIONES Los hashtags son importantes si un tuitero pretende que su opinión se encuentre, se valore y se contabilice en Twitter. Participar en un tema sin el hashtag adecuado hace que la opinión vertida en ese tuit se diluya en la inmensidad de la red. Los medios de comunicación son una fuente de información válida para los usuarios de Twitter en jornadas electorales, más que los partidos políticos. Es vital para el éxito de un mensaje que el emisor tenga un gran número de seguidores. Usando el hashtag adecuado, los seguidores continuarán repitiendo el mensaje, con lo que se da una máxima difusión con un mínimo esfuerzo. La gran mayoría de tuiteros solo publican un mensaje. Hay 17 millones de usuarios en España, pero solo 1.230 mensajes originales con la etiqueta #Elecciones24M. Otros mensajes con una etiqueta diferente no se han contabilizado para este estudio ni, lo que es peor para quien lanzó el mensaje, en los estudios de influencia de los propios partidos políticos. Es vital para el éxito de un determinado hashtag que no exista otro previo idéntico, o que no coincida con un tema similar. Los creativos deben explorar la red antes de lanzar un hashtag si pretenden tener éxito28. Para que un hashtag tenga éxito es importante que los usuarios participen utilizando el mismo tipo de grafía; lo que en principio puede parecer algo secundario, terminará siendo definitivo para el recuento de tuits. Si tiene diferentes escrituras, aunque digan lo mismo, no quedarán contabilizados adecuadamente. Las redes sociales, en especial Twitter, consiguen mucho impacto social con poco esfuerzo. Encumbran gobiernos y destruyen reputaciones con solo 240 caracteres, y lo consiguen cuando la etiqueta adecuada parte del usuario concreto. Los usuarios más modestos podemos participar, y asegurarnos de que nuestra opinión es tenida en cuenta si seguimos las etiquetas oportunas. 28

Los días previos a este congreso la cantante Paulina Rubio ha sido objeto de mofas de los tuiteros, al pensar que el hashtag #PAU2015 se refería a ella, cuando en realidad hablaba de las Pruebas de acceso a la Universidad.

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REFERENCIA DADER, J, L. (2009): “Ciberpolítica en los websites de Partidos Políticos”, en Revista de Sociología y Política, No. 34, p.22. GÓMEZ, R, M. y ORTIZ, M., CONCEPCIÓN, L, E. (2011): Tecnologías de la comunicación y política 2.0.Espacios Públicos, vol. 14, núm. 30, México: Universidad Autónoma del Estado de México, p. 72-84. GONZÁLEZ, J, L: (2010): “La base electoral de Obama, redes sociales virtuales y reales: los casos de generation engage y moms for Obama”. Revista de la Facultad de Ciencias Sociales y Jurídicas de Elche, Volumen I, nº6, p. 139 LEVY, P. (2004): Ciberdemocracia. Ensayo sobre filosofía política. Barcelona: UOC, p.82. ONLINE BUSINESs SCHOOL (2015), “España aumenta el número de usuarios activos en redes sociales en 2014 y llega a los 17 millones” en Actualidad OBS. [en línea] disponible en http://www.obs-edu.com/noticias/estudio-obs/espana-aumenta-elnumero-de-usuarios-activos-en-redes-sociales-en-2014-y-llega-los-17-millones/ [Consulta: 12/06/2015]. ROG FAGES, R:(2008): Actitud 2.0: la política más allá de los blogs. Barcelona: IDP: Revista de Internet, derecho y política .Revista d'Internet, dret i política, Nº. 7, UOC, 2008, p.21. TERRA (2010): Las campañas electorales más exitosas en las redes sociales. [En línea] 22/09/2010 Disponible en: http://noticias.terra.com/fotos/campanas_politicas_exitosas_en_redes_sociales/29159 8. Fecha [Consulta: 12/06/2015]. TÚÑEZ, M. y SIXTO, J. (2011): "Redes sociales, política y Compromiso 2.0: La comunicación de los diputados españoles en Facebook", en Revista Latina de Comunicación Social, 66. La Laguna (Tenerife): Universidad de La Laguna, páginas 210 a 246. [On line] http://www.revistalatinacs.org/11/art/930_Santiago/09_Tunez.html [Consultado el 06/12/2015] DOI: 10.4185/RLCS-66-2011-930-210-246 Varona, David (2011), “Una campaña electoral en las redes sociales, 'spanish style'”, en El enjambre [Blog en línea] 03/11/2011. [Consultado el 12/06/2015] Villaécija, Raquel (2012). “La campaña francesa en la red” en El Mundo del Siglo XXI. 18/04/2012, Mundo, Elecciones francesas. Disponible en: [http://www.elmundo.es/elmundo/2012/04/16/internacional/1334572237.html] [Consulta: 12/06/2012].

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22 UNA NUEVA RELIGIOSIDAD A TRAVÉS DE LAS REDES SOCIALES DIGITALES

Sara Gallego Trijueque sara.gallego@urjc.es Departamento de Ciencias de la Comunicación, Sociología y Lengua Española Universidad Rey Juan Carlos Elena de la Cuadra Colmenares ecuadra@ucm.es Departamento de Biblioteconomía y Documentación Universidad Complutense de Madrid (UCM)

Resumen: El objetivo de esta investigación es describir las tácticas y los usos de las TIC, en especial de las redes sociales digitales, en relación con los principales órganos y líderes de las diferentes religiones y específicamente la católica. En este estudio se pretende describir cómo los usuarios, mediante las redes sociales, experimentan una nueva religiosidad y cómo las diferentes instituciones religiosas usan las tecnologías como un instrumento más para predicar, comunicar y captar fieles en especial las redes sociales. Se centrará, como ejemplos más representativos, en los líderes de la Iglesia católica: Benedicto XVI y Francisco I. Ello se realizara a través del análisis de la influencia y cambios en la sociedad como consecuencia del impacto directo de las redes sociales en relación a la religiosidad a través de la observación, seguimiento y análisis de varias redes sociales Twitter y Facebook. En segundo lugar, se realizara un estudio empírico que nos dará una visión del fenómeno experimentado y probado, dentro de un contexto real. A través de nuestra investigación esperamos llegar a las siguientes conclusiones: los líderes religiosos son conscientes de que las TIC actualmente son útiles para revivir creencias entumecidas y no titubean a la hora de hacer uso de ellas. Los principales órganos de las diferentes religiones se valen de las TIC porque, entre otras cosas, aumentan y desarrollan el mensaje religioso, reducen el precio de las labores de evangelización y facilitan la propagación de información religiosa en general y les permite incrementar su visibilidad. Palabras-Clave: Redes Sociales Digitales; Nueva Evangelización; Visibilidad; Globalización de la Misión.

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1 INTRODUCCIÓN Efectivamente no podemos negar cómo a través de Internet, y especialmente de las redes sociales, digitales muchos usuarios están experimentando una nueva religiosidad gracias a las posibilidades de interacción que han generado nuevas maneras y entornos de conversación interreligiosa, es decir, se han concebido nuevas formas de percibir, participar, vivenciar y sentir la religiosidad en un entorno virtual. Las catedrales, iglesias, sinagogas, mezquitas , ya no son los típicos lugares donde los creyentes se congregan, encuentran y comparten sus ideas y prácticas religiosas, ahora el nuevo foro virtual de carácter religioso se ha instalado en Internet y en las redes sociales que poseen la capacidad de agrupar, convocar, agregar, vincular y socializar a un número muy elevado de usuarios en la Web, facilitando la divulgación de diversas creencias e inquietudes religiosas, generando a su vez experiencias, conversaciones y actividades en la esfera virtual que fluyen desde la más honesta y virtuosa ortodoxia hasta las ciencias ocultas (esotéricas) que en muchos casos son muy herméticas. Sierra viene a ratificar esta idea cuando se refiere a “los internautas […] están agrupándose, a modo de ciberfieles o fieles en-redados, en torno a distintas redes religiosas digitales. Para los más fanáticos se trata de un intento por evangelizar la Red, algunos desde posturas fundamentalistas o sincretistas; para otros moderados se trata del desafío de evangelizar en -y a través de- la red, aprovechando su valioso potencial; para otros se trata, simplemente, de encontrar alguien en línea con quien reconocerse para compartir su experiencia religiosa, sus vivencias y testimonio de fe” (Sierra, 2012)

2 RELIGIONES 2.0. A través de la redes sociales podemos encontrar todo tipo de religiones: cristiana, hinduista, islámica, budista., todas ellas poseen un sitio virtual, no sólo para el reclamo y difusión, sino como una nueva forma de plantearse los modos de creencia, de hecho los guías religiosos de los cinco cultos más importantes del mundo utilizan las redes sociales más populares (Facebook y Twitter). En primer lugar nos encontraríamos con Dalai Lama líder budista tibetano que se unió a Facebook el 3 de marzo de 2010, en 2012 tenía 3.594.965 fans, actualmente en junio de 2015 tiene 11.524.704 el incremento es increíblemente alto (Lama, 2012, 2015), respecto a los seguidores en Twitter en 2012 tenía 4.326.215 y actualmente tiene 11.198.405 (Lama, 325


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2012, 2015), el Dalai Lama abrió su cuenta en Twitter (@DalaiLama) el 22 de febrero de 2010 y desde su nacimiento en esta red, cada una de sus divulgaciones consigue velozmente más de mil réplicas en apenas dos horas. En segundo lugar nos encontramos con el Papa Benedicto XVI, se unió a Facebook el 20 de junio de 2011 y a finales del 2012 contaba con 14.499 fans en algo menos de un año (Network, 2012) y 90.262 seguidores en Twitter (@news_va_en) (Vatican-mews, 2011) El 28 de junio de 2011 el Papa divulgó su primer post (mensaje) en Twitter desde un iPad para informar el lanzamiento del nuevo sitio Web del Vaticano. Ocupando el tercer lugar nos encontramos a Thich Nhat Hanh autoridad máxima del budismo zen, con 430.111 fans en Facebook 2012 y con 1. 320.539 en 2015 (Nhat Hanh, 2012, 2015) y con 70.792 en 2012 seguidores en Twitter (@thichnhathanh) incrementándose su número en el 2015 a 300.234 (Nhat Hanh, 2012, 2015) como se puede observar también en este caso el aumento de seguidores y fans es extraordinario. El siguiente en la lista es el gurú del hinduismo Baba Rampuri, con 1.223 suscriptores en 2012 y a junio de 2015: 5117 en Facebook (Rampuri, 2012,2015) y 10.562 seguidores en 2012 y actualmente 50.524 en Twitter (@BabaRampuri) (Rampuri, 2012,2015). En último lugar Rowan Douglas Williams líder de la Iglesia Anglicana que en 2012 tenía 4.823 seguidores y en junio de 2015 en Twitter (@lambethpalace) (Palace, 2012,2015) con 5.049 fans en 2012 y con 5.680 en 2015 en Facebook (Rowan, 2012,2015) es muy activo tanto en Twitter como en YouTube informa a sus devotos de todos sus eventos, publicaciones, actuaciones, etc. Llama la atención que fue uno de los primeros líderes religiosos que se unió a Facebook en marzo del 2008. Facebook es una red en donde los mensajes religiosos tienen gran difusión, prueba de ello lo encontramos en el sitio web www. allfacebook. com página que entre una de sus actividades calcula el impacto de los mensajes que las páginas publican en sus muros, es decir, las páginas más populares (donde mayor número de interacciones se dan por parte de los usuarios y más fans obtienen). A continuación se expone en la figura.

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Figura 1. Las páginas más populares de Facebook (Facebook’s Most Engaging Pages. 2012).

Fuente: elaboración propia en base a allfacebook.

Como podemos observar en la figura se muestra que las páginas de carácter (contenido) religioso son seguidas por multitud de fans. En primer lugar nos encontramos Jesus Daily página que muestra 6, 060,123 de interacciones o lo que es lo mismo, es la página más interactiva en Facebook en el 2012, el número de fans eran 12.981.968 y a día de hoy son 26.367.633 (Daily,Jesus 2012, 2015) y sigue creciendo desde el 2009 año en el que nació. En esta página se pueden hacer peticiones de oraciones, participar y compartir versículos de la Biblia, proponer todo tipo de sugerencias. En segundo lugar la tabla muestra Dios es Bueno página cristiana y en castellano, en esta página se realizan prácticamente las mismas actividades que en Jesus Daily, pero sí es cierto que existe una mayor participación por parte de los usuarios respecto a las publicaciones en el muro. En tercer lugar nos encontramos con The Bible, seguida por otras páginas cristianas Joyce Meyer Ministries, Jesus Christ. También en la tabla se pueden observar páginas de carácter musulmán siendo la más notoria IloveAllaah.com. 327


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Como se aprecia las posibilidades que ofrecen las redes sociales para la divulgación e interacción entre usuarios de todo tipo de ideas religiosas son enormes, de hecho según el The New York Times expuso que “más de 43 millones de personas son fans de al menos una página categorizada como religiosa en Facebook” (20 minutos, 2012). Pero no solo se utilizan las redes de carácter religioso para la divulgación, llamamiento de fieles, interacciones , entre los usuarios, también este tipo de redes son utilizadas para la promoción vocacional, existen muchos ejemplos uno de ellos los encontramos en Italia y es el caso de Sor Elvira María de Witt, ex cantante, pianista y organista, se convierte en la «monja digital» buscando jóvenes con vocación religiosa en Internet (Maria de Witt, 2012) esta religiosa de la orden de las Carmelitas lleva diez años utilizando Internet, tiene un blog, un perfil en Facebook y ha creado un sitio de su comunidad (http://www.roepingen.nl) a través del cual responde a todos los mensajes que recibe. Sor Elvira tiene muy claro que los jóvenes ya no están en las iglesias y que hay que buscarlos en Internet dada la falta de vocaciones que actualmente experimenta la Iglesia Católica. También imparte cursos sobre los riesgos y ventajas del uso de Internet. Otro ejemplo es la campaña que realizó en marzo de 2012 la Conferencia Episcopal Española, cuya última estrategia de comunicación ha sido la difusión de un vídeo para promover vocaciones a través del canal Youtobe, con presencia en Facebook y Twitter (con su propio hashtag: #unavidapasionante), con el fin de reclutar vocaciones sacerdotales a través de la concienciación, destinada a toda la sociedad, y específicamente a las colectividades cristianas. En el vídeo aparecen frases como “no te prometo un gran sueldo pero sí un trabajo fijo”, “no te prometo la comprensión de los que te rodean, te prometo que sabrán que has hecho lo correcto” y “no te prometo una decisión fácil, te prometo que nunca te arrepentirás” (Conferencia Episcopal, 2012) también en el vídeo se expone que si bien no se pueden garantizar extraordinarias suntuosidades, la vida del sacerdocio sí asevera “la riqueza eterna”, y esta vida asegura trasladar esperanza a quien lo precise. Uno de los últimos casos o ejemplos que han aparecido en los medios de comunicación fue la campaña de promoción vocacional por medio de las redes sociales “Legion Vocation 2012” (Mújica, 2012). La estrategia de la campaña realizada por los Legionarios de Cristo con el objetivo de captar nuevas vocaciones (y darse a conocer, es decir quiénes son y cómo viven los Legionarios) se ha basado en una serie de fotografías que contienen las direcciones a las principales redes sociales 328


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donde

institucionalmente

están

(http://www.facebook.com/legionariosdecristo),

presentes: YouTube

Facebook y

Twitter

(http://twitter.com/LegiondeCristo) con el hashtag #vocation y/o #vocacion, de tal modo que generan un vínculo para dar un seguimiento a las juventudes que casualmente muestren interés. Algunas de las imágenes van ligadas a una serie de preguntas que originen el interés por averiguar y conocer más sobre los legionarios, otras fotografías van acompañadas de mensajes que informan sobre algunas características de la Legión con el fin de avivar el interés hacia su manera de vivir. Con el fin de ofrecer un seguimiento en redes sociales respecto al tema vocacional en la Legión de Cristo, en México se generó una página en Facebook (denominada: yo quiero ser legionario de Cristo) con contenido específico sobre el tema (http://www.facebook.com/YoQuieroSerLegionario) (Facebook, 2012). La iglesia Católica, como una institución más dentro de nuestra sociedad, históricamente ha utilizado los medios de comunicación social (radio, televisión, prensa y otros como el cine, la música y miles de editoriales) para llevar el mensaje divino a los confines del mundo. La manera de comunicarnos e interaccionar ha evolucionado al mismo tiempo que lo han hecho las tecnologías y, la Iglesia a lo largo de los años ha sabido cómo adaptarse de manera muy sutil y adecuada a ello, usando estas tecnologías como un instrumento más para predicar el mensaje de Cristo. En el Concilio Vaticano II en 1963 se corrobora al exponer que “Todos los hijos de la Iglesia, de común acuerdo, tienen que procurar que los medios de comunicación social, sin ninguna demora y con el máximo empeño, se utilicen eficazmente en las múltiples obras del apostolado” (Santa Sede, 2012) como podemos observar se demanda a los fieles que se formen y aprendan a utilizar las tecnologías como herramientas para la evangelización. La Iglesia siempre ha vivido muy contemporánea a sus tiempos en lo que a medios de comunicación se refiere y, a todas las tecnologías que se han desarrollado en torno a ellos. Desde el escrito conciliar «Inter Mirifica» que se ha expuesto anteriormente, continuando con las jornadas de comunicación social que comenzaron con Pablo VI en 1967, hasta la Carta Apostólica de Juan Pablo II donde analiza “el rápido desarrollo de los medios de comunicación”, del 24 de enero de 2005. Internet en particular también ha merecido la atención del magisterio. Fruto de esa consideración son los documentos del Pontificio Consejo para las Comunicaciones Sociales “Ética en Internet” y “La Iglesia e Internet”, ambos 329


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del 28 de febrero de 2002” (Mújica, 2012) La perseverancia de la Iglesia en su apostolado ha dado lugar al desarrollo de trabajos específicos que se han materializado en proyectos institucionales en: Facebook, Twitter, YouTube, Blogger. Desde los comienzos de Internet empezaron a originarse portales católicos como “el institucional del Vaticano (1995) o el de Catholic.net (1995). Poco después aparecieron agencias católicas líderes como ZENIT (1997). Más recientemente han ido surgiendo portales de red social auspiciados

por la Iglesia católica:

www.Pope2You.net, www.youtube.com/vatican, www. Xt3.com e www.intermiriica.net, inclusive un blog oficial de la Santa Sede y un perfil en Twitter” (Mújica, 2012) y otras como: Gospel, Xianz, 4marks.com, todas ellas tienen un rasgo en común que es unir a cristianos de todo el mundo a través de la participación y el dialogo, compartiendo e intercambiando contenidos, lecturas, vídeos, noticias, fotos, música, blogs, grupos, eventos, etc., de carácter religioso. Otras religiones, como la musulmana, también hacen uso de las redes como por ejemplo, Muslimbook que surge en 2010 y Salam World

(Facebook, 2012) (evitando ciertos contenidos prohibidos para los

musulmanes relacionados con la pornografía, el alcohol, etc.) nacida en 2012 como redes sociales alternativas a Facebook. Aunque es curioso que la red Salam World tenga un perfil abierto en Facebook. A continuación se muestra una imagen de la red social Salam World, donde se puede observar la exposición de sus criterios y fines: Salamworld es una red social global basada en la idea islámica de colaboración, que permite expresar su individualidad a través de las diferentes comunidades, y es una oportunidad para todos los usuarios a reclamar sobre su integridad social y sus intereses. También exponen que es una oportunidad para que los musulmanes tengan su propio espacio en Internet y en las redes sociales, un sistema de comunicación único, que permite el intercambio de conocimientos, habilidades, información útil, el empleo y las oportunidades de negocio para los musulmanes. Otro mensaje de los que expone también llama la atención cuando exponen como uno de sus objetivos preservar las tradiciones de la familia en busca de contenido inofensivo y seguro para sus hijos. Esta red presta las mismas funcionalidades que otras de carácter religioso.

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Figura 2. Portada de la red social salamworld

Fuente: http://salamworld.com/aboutus.php.

3. BENEDICTO XVI Y EL CIBERESPACIO Retomando el uso que realiza la Iglesia Católica de las redes sociales, se encuentra la figura del Papa Benedicto XVI como defensor fiel de las mismas, del mundo digital y las nuevas tecnologías. Desde mayo del 2009, en las Jornadas Mundiales de las Comunicaciones Sociales: Nuevas tecnologías, nuevas relaciones. Promover una cultura de respeto, de diálogo y amistad. El Santo Padre realiza una primera estimación respecto a las redes sociales digitales y las nuevas tecnologías, retomando el tema en el 2010, 2011 y 2012. En el 2009 expone que “estas tecnologías son un verdadero don para la humanidad y por ello debemos hacer que sus ventajas se pongan al servicio de todos los seres humanos y de todas las comunidades, sobre todo de los más necesitados y vulnerables […] En este contexto es alentador ver surgir nuevas redes digitales que tratan de promover la solidaridad humana, la paz y la justicia, los derechos humanos, el respeto por la vida y el bien de la creación. Estas redes pueden facilitar formas de cooperación entre pueblos de diversos contextos geográficos y culturales, permitiéndoles profundizar en la humanidad común y en el sentido de corresponsabilidad para el bien de todos» (Vaticano, 2009). En el mensaje de Benedicto se aprecia la gran importancia que para él tienen las nuevas tecnologías y las redes sociales digitales que, adecuadamente utilizadas, conllevan ventajas y beneficios para todos. En mayo del 2010 en la Jornada Mundial de las Comunicaciones Sociales: El sacerdote y la pastoral en el mundo digital: los 331


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nuevos medios al servicio de la palabra, trato el mismo tema desde otra perspectiva, la del sacerdote como usuario y comunicador en el mundo digital, Benedicto en su mensaje detallo la labor real y virtual, y el uso de las nuevas formas de comunicación de carácter digital por parte de los eclesiásticos en especial (sacerdotes), especificando que su principal tarea es divulgar la palabra de Dios y para ello pueden y deben utilizar todos los medios digitales que estén a su alcance. El uso de estos medios, por parte del sacerdote a través de sus mensajes, debe de ser claro, transparente, con calidad y empatía respecto a las personas con las que conecta, y no caer en consideraciones erróneas sobre el uso de Internet como un lugar en el que hay que estar presentes por la mera obligación. Y así expuso el Santo Padre: »La tarea primaria del sacerdote es la de anunciar a Cristo, la Palabra de Dios hecha carne[…]Deben anunciar el Evangelio valiéndose no sólo de los medios tradicionales, sino también de los que aporta la nueva generación de medios audiovisuales (foto, vídeo, animaciones, blogs, sitios web). […]El desarrollo de las nuevas tecnologías y, en su dimensión más amplia, todo el mundo digital, representan un gran recurso para la humanidad en su conjunto y para cada persona en la singularidad de su ser, y un estímulo para el debate y el diálogo» (Vaticano, 2010) En junio del 2011 en la XLV Jornada Mundial de las Comunicaciones Sociales, cuyo título del mensaje es: Verdad, anuncio y autenticidad de vida en la era digital, vuelve a retomar el tema y añade:» Transmitir información en el mundo digital significa cada vez más introducirla en una red social, en la que el conocimiento se comparte en el ámbito de intercambios personales. Esta dinámica ha contribuido a una renovada valoración del acto de comunicar, considerado sobre todo como diálogo, intercambio, solidaridad y creación de relaciones positivas […] dar testimonio coherente en el propio perfil digital y en el modo de comunicar preferencias, opciones y juicios que sean profundamente concordes con el Evangelio”(Vaticano, 2011) En su mensaje, Benedicto es consciente y profundiza en la información, el conocimiento y en las interacciones que se establecen a través de las redes sociales gracias a la participación, conversación y solidaridad que se genera en este entorno digital, y añade que todo lo que se comunique desde los perfiles creados en estas redes por parte de los eclesiásticos debe de ser auténtico y coherente con los principios evangélicos. En 2012 el Papa volvió a retomar por cuarto año consecutivo en su mensaje las redes sociales

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digitales, el título de la Jornada Mundial de las Comunicaciones: Silencio y Palabra: camino de evangelización. El Papa expone que la comunicación actual a través de las redes sociales (de carácter religioso) se instala a través de preguntas que buscan respuestas. Para responder adecuadamente a estas preguntas, es necesario conversar e intercambiar de manera profunda, pero también es necesario brindar un espacio a la reflexión y al silencio ya que ello en muchas ocasiones puede ser más locuaz que una respuesta acelerada, de esta forma a quien se interroga le permite ingresar en lo más oculto de sí mismo y poder encontrar su respuesta. En Mayo del 2013 se celebró la 47 Jornada Mundial de las Comunicaciones Sociales cuyo tema central fue: "Redes Sociales: portales de verdad y de fe; nuevos espacios para la evangelización" (Lancho, 2013). En la misma línea que las anteriores Jornadas Benedicto expuso la importancia de las redes sociales en la sociedad y el correcto y adecuado uso de ellas. En resumen Benedicto XVI durante el tiempo que duro su Papado expuso a través de sus mensajes que las redes sociales (y otras herramientas blogs, sitios web) son una nueva plataforma que sostiene e integra un nuevo medio de comunicación al que es necesario adaptarse, ya que los tiempos han cambiado y por lo tanto también la sociedad y los ciudadanos (alejados de los sermones y de las iglesias) que la integran , de ahí que se usen como una nueva vía para llegar, interactuar, conversar, compartir con ellos (sobre todo llegar a los jóvenes que ahora se encuentran en las redes), además de aprovechar su rapidez, y la inexistencia de fronteras espaciotemporales para llevar la palabra de Dios a los confines del mundo. Otro de los mensajes que aporta Benedicto es la obligación, por parte de los eclesiásticos, de transmitir una buena imagen del evangelio y la Iglesia. Así se estrenó Benedicto XVI, en la microblogging: “Queridos amigos, me uno a vosotros con alegría por medio de Twitter. Gracias por vuestra respuesta generosa. Os bendigo a todos de corazón” (Boo, 2012), es el texto de su primer tuit desde su cuenta @pontifex_es, que forma parte de un total de ocho cuentas (@pontifex_en, @pontifex_es en español, @pontifex_it en italiano, @pontifex_fr en francés, @pontifex_pt en portugués, @pontifex_ar en árabe, @pontifex_de en alemán y @pontifex_pl en polaco) en los principales idiomas del mundo.

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La cuenta de Benedicto en el 2012 tenía más de 256.209 seguidores a día en su versión española. La mayor parte, eran de su cuenta en inglés, más de 618.000. Aunque el equipo de comunicación del Vaticano escribía los tuits, el Pontífice redactó él mismo los primeros y apretó el botón de enviar. Figura 3. Benedicto y Twitter

Fuente: https://jp.twitter.com/benedictoxvi.

4. DE BENEDICTO XVI A FRANCISCO I Al ser los usuarios de las redes sociales los editores de sí mismos también son los que marcan las tendencias de opinión en la esfera religiosa. Cuando fue nombrado papa Benedicto XVI en 2005, las redes sociales estaban configurándose, en ese momento la red social más usada era MySpace con dos años de existencia y el inglés como idioma. Facebook fue creada unos meses antes de la elección de Benedicto XVI pero su expansión era muy limitada a ciertos campus universitarios de los Estados Unidos, no tenía prácticamente ningún impacto en la sociedad como después lo tuvo. YouTube se creó en 2005 y Twitter inicio su carrera en 2006.Gracias a las redes se tiene otra imagen y percepción del papado, ello ha afectado concretamente al Papa Francisco I de hecho el Papa emitió un “tuit” que decía: “El Papa ha de servir a todos, especialmente a los más pobres, los más débiles, los más pequeños”. Este “tuit” del Papa Francisco del 19 de marzo de 2013 comportó 30.608 “retuits”, una explosión social que solo fue superada por el mensaje inicial de su cuenta en Twitter (@Pontifex). En este sentido, su cuenta ya reúne a más de 12 millones de seguidores, no siendo la que más tiene en el mundo, pero sí la que registra un crecimiento mayor en sus trece meses de existencia, según el estudio 334


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encargado a 3dPlace por Aleteia, una red de medios católicos (Gubern, 2014). El objetivo del estudio 3dPlace por Aleteia fue exponer cómo la fama del Papa Francisco ha tenido un enérgico impacto en el mundo digital, convirtiéndolo en 2013 en el personaje más popular y en el comunicador más eficaz. Desde un punto de vista de eficacia de la comunicación el Papa bien puede denominarse lo que en el jerga de los comunicadores se denomina “gurú”. El Presidente de los Estados Unidos @BarackObama sigue siendo el líder mundial más seguido, con cerca de 60 millones de seguidores, pero el Papa Francisco (@Pontifex) está ocupando terreno velozmente, con cerca de 20 millones de seguidores en sus nueve cuentas de diferentes idiomas y es el más influyente, es decir, tiene mayor alcance un tuit del pontífice es divulgado casi 10 veces más que uno del presidente norteamericano. Ello queda reflejado en las siguientes figuras del último estudio realizado por Twiplomacy 2015 (estudio sobre el uso de Twitterpor parte de los líderes mundiales), en este estudio se destaca que "El número de seguidores del líder de un país se convierte, en ocasiones, en una cuestión de orgullo nacional", (Twiplomacy, 2015) señala el estudio.

Figura 4.Líderes más seguidos

Fuente: http://twiplomacy.com/blog/twiplomacy-study-2015/.

Figura 5. Líderes mundiales más influyentes.

Fuente: http://twiplomacy.com/blog/twiplomacy-study-2015/.

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Respecto a Facebook y el Papa Francisco I no existe una presencia institucional (hasta marzo del 2014) las páginas no oficiales del Papa “muestran a usuarios más fieles respecto a otras páginas de líderes mundiales (el engagement de páginas no oficiales del Papa es de 26% mientras que el engagement de la fans page oficial de Barack Obama, por ejemplo, es de apenas 2%)” (Mújica, 2014). Según el informe oficial de Facebook de 2013 (Facebook, 2013) las principales temáticas de los usuarios han sido religiosas, más especificamente catolicas. En primer lugar aparece el Papa Francisco I en general y en segundo lugar como tematica mas comentada en facebook a lo largo del 2013 es la elección del Papa Francisco. El estudio de Facebook se concentra en los países donde esa red es mayoritariamente utilizada. Asumiendo esto, el tema Papa Francisco aparece siempre en los diez primeros lugares en países como Argentina, Brasil, Canadá, Francia, Singapur, México, Polonia, Italia y Estados Unidos. En Polonia, además, el tema «Benedicto XVI» también entró en el top ten. Para la elaboración del estudio Facebook tuvo en cuenta las citas ejecutadas en los perfiles personales, páginas públicas y de eventos, así como los hashtags. En la siguiente Iconografía se muestra los temas más populares. Figura 6. Temas más populares en Facebook 2013.

Fuente: http://www.facebookstories.com/2013/es-la

5. CONCLUSIONES Los seres humanos experimentan una nueva religiosidad gracias a las redes sociales que nos han brindado diferentes posibilidades de interacción que han generado nuevas maneras y entornos de conversación interreligiosa, es decir, se han concebido nuevas formas de percibir, participar, experimentar y sentir la religiosidad en un entorno virtual. 336


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Las redes sociales incrementan y desarrollan el mensaje religioso, minimizan el precio de las labores de evangelización, ayudan a generar cooperación entre los devotos y facilitan la propagación de información religiosa en general religiosa y les permite incrementar su visibilidad Las diferentes instituciones religiosas, en especial la católica, usan las tecnologías como un instrumento más para predicar, comunicar y captar fieles en especial a través de las redes sociales. Los grandiosos medios de comunicación de masas y también los más humildes han perecido ante el efectivo reconocimiento del público en torno a la Iglesia Católica y al Papa Francisco I. Proporcionada la extensa repercusión y la atención movida y continua por el Santo Padre no podía haber un contraste entre opinión pública y opinión publicada en detrimento de la credibilidad de los medios de comunicación. Tal es la preponderancia del Papa que se corre el peligro de perder la objetividad real del contenido del mensaje

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23 MÍDIAS LOCATIVAS, WIKICIDADE E CIBERCIDADE: UMA RELAÇÃO ENTRE SOCIEDADE, INFORMAÇÃO E CIDADE

Ramon Fernandes Lourenço uel.ramon@gmail.com Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual de Londrina (UEL) Maria Inês Tomaél mitomael@uel.br Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Universidade Estadual de Londrina (UEL)

Resumo: A presente pesquisa teórica pretende analisar o papel da informação na nova cidade, um espaço marcado por rápidas transformações resultantes da relação entre os indivíduos, as novas tecnologias e a informação. Para tanto foi realizada uma pesquisa bibliográfica para definir os três conceitos fundamentais deste estudo, mídias locativas, wikicidade e cibercidade, suas diferenças e similaridades, e identificar suas relações com a informação, o ciberespaço e a cidade contemporânea. Como resultado verificou-se que as mídias locativas e as wikicidades são exemplos de soluções que possibilitam novos comportamentos entre a sociedade e a cidade que, por sua vez, fazem emergir a cibercidade enquanto fenômeno resultante das relações transformadoras entre sociedade, informação e novas tecnologias e a cidade. Palavras-Chave: Mídias Locativas; Wikicidade; Cibercidade; Informação; Ciberespaço.

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1 INTRODUÇÃO Analisar as cidades pelo viés da Ciência da Informação é entendê-la inicialmente como um espaço de fluxos de informação e conhecimentos, mas sem deixar de visualizar a dinâmica de pessoas, de veículos e de infraestrutura nesta complexa relação. É notório que o avanço das tecnologias de informação e comunicação alteram sobremaneira a relação do homem com o ambiente, sendo a cidade um dos espaços mais sensíveis às transformações sociais, culturais, econômicas e tecnológicas advindas do acelerado desenvolvimento das últimas décadas. Ao reconhecer a cidade enquanto espaço em transformação permanente, em decorrência da interdependência entre seus elementos fixos e os fluxos (SANTOS, 2006, p.38), pode-se entendê-la como um grande laboratório de novas práticas e novas relações, sejam elas em quaisquer dimensões humanas. Porém, para este trabalho sobressaem-se as novas relações entre homem, informação e espaço que, mediadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação, criam novas práticas com grande potencial de transformação do espaço urbano. Como resultado direto desta enxurrada informacional e da evolução das tecnologias de informação está o surgimento do ciberespaço, tal qual define Lévy (1996), sendo ele um espaço “desterritorializado” e capaz de influenciar alterações concretas em diferentes momentos e locais determinados. Esta concepção de Lévy aponta para a emergência da cibercultura como resultado da evolução deste espaço virtual e da sua influência no cotidiano das pessoas. Uma vez que elementos da sociedade e da economia vão se desprendendo de uma temporalidade e localidade definidas, fruto da virtualização, a cibercultura ganha contornos cada vez mais explícitos

como

resultado

das

mudanças

no

comportamento

do

indivíduo

contemporâneo. Por sua vez, este ciberespaço possibilitou o surgimento de novas tecnologias que amplificam o potencial de transformação em territórios e, dentre as ferramentas, uma em particular tem fundamental importância para este trabalho, as Mídias Locativas. Para Santaella (2008a) estas ferramentas tem a capacidade de serem sensíveis ao contexto em que estão inseridas, ou seja, localizam, classificam, transferem, usam e descartam informações relacionadas a localização geográfica do usuário, auxiliando-o na construção de uma informação contextualizada. Esta 343


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tecnologia, tal qual informa Santaella (2008a, p. 95), faz “emergir novas espacialidades de acesso, presença e interação” resultando em novas formas de relação entre pessoas, informação e a cidade. É com base nestas novas possibilidades, resultantes do avanço das mídias locativas e do ciberespaço, que se fundamenta o debate acerca das mídias locativas, da wikicidade e da Cibercidade enquanto espaços onde a relação entre a informação e o território se estreitam. Como resultado desta discussão ressalta-se a necessidade de trilhar caminhos de análise sobre a relação entre pessoas, informações e lugares que não vislumbrem as plataformas tecnológicas como únicos responsáveis pela construção de uma nova relação com a cidade. Mas sim, reconhecendo que tais soluções tecnológicas contribuem para o estabelecimento de novas relações com o espaço urbano, porém, elas em si não são suficientes para caracterizá-lo, sendo necessário analisar o complexo contexto social, cultural, ambiental, econômico e de infraestrutura para renomear uma cidade. Neste sentido, o objetivo deste estudo foi analisar o papel da informação, mediada pelas novas tecnologias, na transformação da cidade no século XXI, procurando entendê-lo a partir dos conceitos de mídias locativas, wikicidade e cibercidade enquanto espaços de ressignificação que se formam, cujo propósito é repensar e transformar o espaço urbano e suas relações.

2 METODOLOGIA Para o estudo dos conceitos de mídias locativas, Wikicidade e cibercidade em sua relação com a informação, o ciberespaço e a cidade foi realizada uma pesquisa teórica utilizando o método pesquisa bibliográfica, o levantamento da literatura foi realizado em fontes nacionais e internacionais. As buscas pelos conceitos centrais retornaram resultados em português e inglês, ainda em pequeno número de publicações, mas que foram suficientes para realizar o processo reflexivo destes conceitos. O resultado deste levantamento resultou na criação de um quadro comparativo com os três conceitos centrais, compilando suas principais características para possibilitar a reflexão sobre as diferenças e similaridades, e também sobre as diferentes abordagens entre informação, ciberespaço e cidade.

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3 ENXURRADA INFORMACIONAL E O CIBERESPAÇO Os avanços tecnológicos dos últimos anos têm alterado significativamente a relação entre a sociedade, a informação e o espaço na atualidade. Analisar como se deu este avanço focado nas tecnologias e nas mudanças dos fluxos de produção, compartilhamento e uso da informação é fundamental para entender a nova configuração deste mundo hiperconectado, onde o conhecimento e a informação assumem papel fundamental nesta transformação. Para retomar o processo de desenvolvimento destas tecnologias de informação é importante analisá-lo levando em consideração a emergência da teoria da informação, justamente pela intrincada relação entre o desenvolvimento tecnológico e a evolução do conceito de informação. Informação é um conceito polissêmico, utilizado de diversas maneiras em muitos campos científicos, sendo esta característica uma herança do início de sua construção. Entender as origens desta interdisciplinaridade é importante para se ter uma leitura contextual ampla sobre a importância deste campo de estudo, o que pode ser verificado por suas principais correntes teóricas: a teoria matemática de Shannon e Weaver, a teoria sistêmica e seus princípios biológicos da cibernética de Wiener, a teoria crítica da informação e sua fundamentação na filosofia e da história, as teorias da representação e da classificação da biblioteconomia, os estudos de comunicação científica e os estudos de usuários, com contribuições da comunicação, psicologia, antropologia e outras áreas do conhecimento (ARAÚJO, 2009). Ao recapitular tais correntes é possível traçar suas relações com os avanços das tecnologias de informação e comunicação de cada época e sua influência nas transformações sociais que se seguiram, sendo estes pontos cruciais para a definição do conceito de informação. A teoria matemática de Shannon e Weaver, por exemplo, teve grande importância para o avanço da eficácia da transmissão de informação de um ponto a outro, como no telefone (SILVA e FREIRE, 2012, p. 20). Já com relação a tecnologias mais avançadas, como a computação, cujos conceitos de entrada e saída, fundamentais para estes sistemas de informação, tiveram origem na cibernética de Wiener (ARAÚJO, 2009, p. 195). Tais avanços tecnológicos não seguiram dissociados das transformações sociais que transcorreram nos anos seguintes, uma vez que abriram novas possibilidades nas relações do indivíduo em grupo, relativizando cada vez mais o 345


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

tempo e o espaço enquanto limitadores do compartilhamento da informação e do conhecimento. Estas transformações influenciaram também o conceito de informação, evoluindo de uma concepção fechado de pacote de dados, para a necessidade de entendê-la em seus processos mais subjetivos. Esta abordagem contextual surge em resposta à complexa dinâmica atual de abundância informacional, com fácil acesso à fontes de informação e alto potencial de compartilhamento. Esta verdadeira enxurrada informacional revela os diversos filtros pelos quais a informação passa até fazer sentido ao usuário, reforçando a necessidade de que a Ciência da Informação traga uma reflexão sobre a subjetividade da informação, assim como aborda Capurro (2007, p. 194): A medida que os sistemas de informação tornam-se mais globais e interconectados, a informação implícita é, muitas vezes, perdida. Esta situação desafia a Ciência da Informação a ser mais receptiva aos impactos sociais e culturais dos processos interpretativos e, também, às diferenças qualitativas entre diferentes contextos e mídias.

Para tanto, é necessário que o conceito de informação seja entendido para além da noção matemática, que o vincula à ação linear de “comunicar algo a alguém”, assumindo uma dimensão relacional, atenta aos contextos sociais e culturais, tal qual destaca o autor, situando a informação como uma força constitutiva da sociedade. Assim, fica clara a importância que a informação tem no desenvolvimento das cidades, ainda mais agora em que o mundo virtual e real já não tem mais suas fronteiras definidas. Como resultado direto do avanço tecnológico e da evolução do entendimento da

informação

está

o

surgimento

do

ciberespaço.

Este

novo

espaço,

desterritorializado e desprendido da noção clássica do tempo, é que possibilita que a informação circule em fluxos globais, aumentando a importância do conhecimento no desenvolvimento atual. Lévy explora características da digitalização para ressaltar sua relação com o ciberespaço, dizendo: “Insisto na codificação digital, pois ela condiciona o caráter plástico, fluido, calculável com precisão e tratável em tempo real, hipertextual, interativo e, resumindo, virtual da informação, que é, a marca distintiva do ciberespaço” (LÉVY, 1999, p.92). Desta forma Lévy destaca que o ciberespaço, este novo espaço de comunicações, de troca de informações e conhecimento possibilitado pela conexão mundial de computadores tem na digitalização suas principais características, justamente por ela possibilitar que a informação possa ser transformada, analisada e 346


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

consultada em suas mais diversas formas. Porém, o autor destaca que não se deve confundir o ciberespaço com a infraestrutura técnica das redes de computadores, mas é, na verdade, uma forma específica de usá-la, que visa, como reforça o autor, “por meio de qualquer tipo de ligações físicas, um tipo particular de relação entre as pessoas” (LÉVY, 1999, p. 124). A relação do ciberespaço com a cidade contemporânea fica clara ao visualizar sua influência no cotidiano do indivíduo comum, sobre os novos padrões de relacionamento com outras pessoas, instituições e com o próprio espaço físico, ou seja, a emergência de uma nova cultura influenciada pelo digital, a cibercultura. Uma vez que elementos da sociedade e da economia vão se desprendendo de uma temporalidade e localidade definidas, fruto da digitalização, a cibercultura ganha contornos cada vez mais explícitos como resultado das mudanças no comportamento do indivíduo contemporâneo, o que, por sua vez, faz com que este indivíduo influencie alterações concretas no mundo físico em razão de interações iniciadas no ciberespaço. Desta forma, é necessário entender as cidades enquanto espaços formados por fluxos de pessoas e informações e pelas suas estruturas fixas que sustentam as vias por quais tais fluxos trafegam, para então, definir como serão estas novas cidades e sua relação com os conceitos de Mídias Locativas, Wikicidade e Cibercidade.

4 A CIDADE E SEUS FLUXOS E FIXOS Para falar sobre a cidade neste contexto de interconexões tecnológicas é importante refletir acerca de seu surgimento e entender seu processo de contínua transformação, marcado por fluxos de pessoas e informações. Mas para isso retomase o entendimento do que seja propriamente o espaço, quais suas principais características e sua importância para este trabalho. A relação do homem com o espaço é foco de análise de diversos pesquisadores na geografia, sendo Milton Santos um dos mais conhecidos por sua inovadora abordagem sobre a constituição do espaço em sua dimensão material e social. Assim, ao descrever o espaço geográfico o autor destaca a indissociável relação entre dois sistemas, o de objetos e o de ações, ou os fixos e os fluxos. Ao pensar nas características principais de um espaço, logo o que se vem em 347


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mente são, provavelmente, sua composição territorial natural e as resultantes das obras do homem. Estas características são constituintes do sistema de objetos, tal qual afirma Santos (2006): No começo da história do homem, a configuração territorial é simplesmente o conjunto dos complexos naturais. À medida que a história vai fazendo-se, a configuração territorial é dada pelas obras dos homens: estradas, plantações, casas, depósitos, portos, fábricas, cidades etc.; verdadeiras próteses. Cria-se uma configuração territorial que é cada vez mais o resultado de uma produção histórica e tende a uma negação da natureza natural, substituindo-a por uma natureza inteiramente humanizada (SANTOS, 2006, p.39).

Verifica-se que o espaço se transforma a medida que a sociedade e as tecnologias evoluem, saindo do estado de natureza selvagem para um estado marcado por avanços técnicos, mecanizados e cibernéticos. Neste sentido, o que se vê é uma artificialização da natureza, uma vez que as próprias coisas da natureza, quando utilizadas pelo homem, passam também a responder à objetivos e resultados artificiais. Um ponto importante com relação aos objetos que formam o espaço é sua configuração enquanto sistema, sendo os sistemas de autoestradas, de tratamento de água, da rede elétrica, e até os bairros importantes na definição do espaço. O sistema de objetos que tem fundamental importância para a Ciência da Informação, e para este trabalho, é aquele composto pelas novas tecnologias de informação que são objetos interligados compostos por cabos, fibras óticas, ondas de rádio e wifi, computadores pessoais, grandes provedores comerciais que compõem um grande sistema de compartilhamento, processamento e armazenamento de informações. A partir do reconhecimento do complexo sistema de objetos é necessário analisar também o sistema de ações, uma vez que o espaço é definido pela a dinâmica estabelecida entre estes dois sistemas. Verifica-se que a ação humana é um comportamento orientado por um objetivo, determinado por uma situação e tem grande potencial de transformação no espaço. Santos (2006, p. 49) contribui com este entendimento ao dizer que a ação é “um deslocamento visível do ser no espaço, criando uma alteração, uma modificação do meio. Um dos resultados da ação é, pois, alterar, modificar a situação em que se insere”. Assim, é possível visualizar que o complexo sistema de ações do homem assume contornos diversificados, sendo as dinâmicas econômicas, sociais, culturais e informacionais fruto direto desta intrincada relação entre a humanidade e o espaço. Ao entender o espaço enquanto resultado da inter-relação entre os sistemas de 348


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objetos e de ações, fica evidente a importância que a informação assume neste processo, sendo ela também é fruto da ação humana. Desta forma o espaço, agora inserido no contexto da globalização, é concebido como meio-técnico científico informacional resultante permanente transformação entre os elementos fixos e fluxos, tal como afirma Santos: Os elementos fixos, fixados em cada lugar, permitem ações que modificam o próprio lugar, fluxos novos ou renovados que recriam as condições ambientais e as condições sociais, e redefinem cada lugar. Os fluxos são um resultado direto ou indireto das ações e atravessam ou se instalam nos fixos, modificando a sua significação e o seu valor, ao mesmo tempo em que, também, se modificam (SANTOS, 2006, p.38).

Como espaço demarcado por fluxos a cidade se constrói enquanto palco de transformações contínuas, onde as interações entre o indivíduo, a informação e o espaço tem papel central. Pensar a cidade na contemporaneidade é avançar do entendimento exclusivo de suas características físicas, reconhecendo o papel das práticas sociais enquanto constituintes deste espaço, entendendo-a através de suas dimensões espaciais, sociais e informacionais. Neste sentido, Carlos (2007, p.20) dá destaque à historicidade deste espaço, definindo-a “como construção humana, produto histórico-social, contexto no qual a cidade aparece como trabalho materializado, acumulado ao longo de uma série de gerações”. Ao reconhecer que as transformações socioeconômico-culturais resultam em evoluções na própria cidade é necessário também analisar como o avanço tecnológico dos últimos anos tem influenciado diretamente neste espaço, com o surgimento de novas formas de mobilidade urbana, até novos usos de antigos espaços. Estes avanços, relacionados diretamente à emergência do ciberespaço e das novas tecnologias, mudam profundamente os padrões culturais, invadindo a vida cotidiana que, de acordo com Carlos (2007, p. 87), recriam “novos valores, novos signos, novos comportamentos, enquanto destroem símbolos, transformam os modos de uso do espaço, mudam as relações entre os cidadãos e destes com a cidade”. Portanto, é preciso aprofundar as pesquisas que enfoquem a relação entre o indivíduo, a informação e o espaço para identificar como estas novas práticas estão produzindo transformações na cidade, enquanto espaço de fluxos de informação e conhecimentos.

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5 MÍDIA LOCATIVA, WIKICIDADE E CIBERCIDADE Para aprofundar o entendimento deste fenômeno que envolve a cidade, o indivíduo e a informação é necessário analisar o papel de três conceitos fundamentais para esta relação: as mídias locativas, a wikicidade e a cibercidade. Tais conceitos tem vínculo direto com o entendimento construído até então sobre o ciberespaço e a cibercultura, a cidade enquanto espaço de fluxos e fixos e mais ainda sobre a informação enquanto força constitutiva da sociedade, uma vez que buscam explicar, analisar

ou

potencializar

novos

comportamentos

mediados

por

tecnologias

informacionais. Então, tendo como elemento essencial a relação entre as novas tecnologias e o espaço, as mídias locativas surgem como resultado direto das tecnologias móveis, sendo caracterizadas como plataformas tecnológicas que fazem uso dos sistemas de informação geográfica (GIS) para construir novas possibilidades de interação entre bancos de dados digitais, lugares e contextos específicos. Para elucidar esta relação Santaella (2008a, p.132) explica que tais mídias são sensíveis ao contexto, referindose “a um campo em que a localização de pessoas e objetos pode ser usada pelas máquinas para derivar informação contextual com a qual dão assistência aos usuários”. Isso quer dizer que tais tecnologias são sensíveis à determinada localização e a presença de outras pessoas e dispositivos, sendo capaz de localizar, classificar, coletar, arquivar, descartar e usar informação. Assim, percebe-se que tais mídias tem o potencial de ressignificar a compreensão e o uso dos lugares por meio de ferramentas que vinculam localização e a mobilidade. Esta ressignificação dos lugares é entendida por Santaella (2008b, p.97) como a criação de uma nova espacialidade de acesso, presença e interação, “possibilitando, sobretudo, práticas coletivas que reconstituem os modos como nossos encontros com lugares específicos, suas bordas e nossas respostas a eles estão fundadas social e culturalmente”. Desta forma o uso das mídias locativas possibilita esta nova espacialidade por meio da dinâmica que integra componentes simbólicos, como a experiência do cidadão comum em seu bairro, e técnicos, a utilização da ferramenta com seu potencial de associação em rede e co-criação para a transformação dos lugares. Com relação direta ao conceito de mídia locativa, a wikicidade é um termo novo

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utilizado pelo projeto PortoAlegre.cc29 para nomear a plataforma colaborativa online e sua relação com o espaço urbano. Para construir o entendimento acerca deste conceito, propõe-se a análise a partir do significado do termo wiki que, tal como explicam Ramalho e Tsunoda (2007, p.1), é um termo havaiano que significa rápido, utilizado atualmente para designar a produção colaborativa de documentos e conteúdos digitais, tendo como grande referencial o projeto Wikipédia30. Shirky (2012) avança na análise do termo, afirmando: [...] um wiki é um híbrido de ferramenta e comunidade. A Wikipédia, como todos os wikis, cresce se um número suficiente de pessoas se importarem com ela; do contrário, morre. [...] Os wikis oferecem aos grupos meios para trabalharem juntos e defenderem o futuro deste trabalho, mas isso só é possível quando a maioria dos participantes está comprometida com esses resultados (SHIRKY, 2012, p.117-118).

Desta forma, é possível entender que uma iniciativa que tenha como pontos centrais a formação de comunidades, a construção colaborativa e a ampliação da participação tem ligação direta também com o conceito de Wikicidade, porém aplicada ao desenvolvimento de uma nova relação com o território. De acordo com os organizadores do projeto PortoAlegre.cc, uma Wikicidade é “a criação de ambientes digitais, onde é possível ativar a espiral de informação e o engajamento natural em uma comunidade. [...] Wikicidade conecta software e cidadãos” (LUZ; LUZ, 2014, p.22, tradução nossa). Seguindo com este mesmo posicionamento há o projeto Wikicity, em desenvolvimento pelo Massachusetts Institute of Technology –MIT, cujo objetivo é criar uma plataforma em que seja possível agregar os dados e informações produzidos na cidade das mais variadas fontes, tais como operadoras de telefonia, transporte público, empresas, autoridades locais e o cidadão comum. Ao agregar estas informações o projeto propõe, de acordo com Calabrese et al. ([201-], p. 1, tradução nossa), tornar-se “um instrumento para os habitantes da cidade basearem suas ações e decisões de uma forma mais bem informada, levando a um aumento da eficiência e sustentabilidade no uso do ambiente da cidade”, cujo foco é mapear em tempo real a dinâmica da cidade. Ao analisar os projetos PortoAlegre.cc e Wikicity é possível perceber uma linha de entendimento comum para o termo Wikicidade, referindo-se, tal qual afirmam Bianchini e Grimberg (2012, p.116), “a uma plataforma digital que permite a 29 30

www.portoalegre.cc www.wikipedia.org

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discussão da história, realidade e futuro de territórios específicos com a colaboração dos habitantes”. A essência de ambas definições está na descrição da mediação de uma plataforma digital na relação entre a comunidade e seu território, com vistas a fomentar o fluxo informacional em uma rede de cidadãos conectados. Para entender a relação entre as novas tecnologias de informação e comunicação e a cidade é necessário também analisar a construção do conceito de Cibercidade, para posteriormente compará-lo aos outros conceitos vinculados. O conceito de Cibercidade tem origem na reflexão acerca do próprio desenvolvimento das cidades contemporâneas, onde a crescente sobreposição das dimensões local/global e digital/real é resultado direto dos avanços tecnológicos. São smartphones com acesso à internet e geolocalização, redes de fibra óptica se espalhando, governo eletrônico, ciberdemocracia, ciberativismo e serviços online dos mais diversos. Analisar a cidade neste contexto de redes, técnicas e sociais, foi o desafio assumido por Lemos ao definir o conceito de cibercidade (2004, p. 20): Cibercidade nada mais é do que um conceito que visa colocar o acento sobre as formas de impacto das novas redes telemáticas no espaço urbano. Redes de cabos, fibras, antenas de celulares, espectro de ondas de rádio permitindo uma conexão wi-fi [...], entre outras, estão modificando a nossa vivência no espaço urbano através do teletrabalho, da escola on-line, das comunidades virtuais, dos fóruns temáticos planetários. O que está em jogo é a redefinição dos espaços públicos e do espaço privado.

Partindo do impacto das redes telemáticas nas cidades é possível verificar o complexo fenômeno com que lida a cibercidade, não ficando focada em uma única solução tecnológica. Lemos (2004, p.21) chama a atenção para concepções radicais sobre estas mudanças, defendendo que não há um rompimento ou divisão entre uma velha e uma nova cidade, mas sim o reconhecimento das transformações nas dinâmicas urbanas a partir da emergência das novas tecnologias de comunicação em rede. Para elucidar o entendimento deste conceito o autor propõe a criação de um modelo cujo objetivo é desenvolver o capital da inteligência coletiva, destacando aspectos sociais, intelectuais, culturais e técnicos importantes para a emergência desta cibercidade. O capital social refere-se às redes sociais formadas nesta cidade, o capital intelectual remete ao potencial de criação de obras originais, propriedade intelectual, e também à qualidade da educação. Já o capital cultural é a rede de significados que une a população, suas histórias, símbolos e narrativas e, por fim, o capital técnico é o somatório da infraestrutura desta cidade (LEMOS, 2004, p.23). 352


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Desta forma fica claro que a cibercidade é a complexa soma dos aspectos técnicos, sociais, culturais, econômicos e ambientais resultantes do impacto das novas

tecnologias

de

informação

e

comunicação

em

um

território.

Este

posicionamento marca claramente as diferenças entre o conceito de cibercidade e os de wikicidade e mídia locativa, mas ressaltando sua relação comum entre o novo papel do indivíduo, da informação e da cidade.

6 POSSÍVEIS CONSIDERAÇÕES Após a construção teórica que ressalta a relação entre os três conceitos e o ciberespaço, o novo papel da informação e a configuração do território enquanto resultado de elementos fluxos e fixos, apresenta-se o quadro 1 com a síntese dos conceitos analisados: Quadro 1 - Quadro comparativo entre os três conceitos analisados Mídias Locativas

Wikicidade

Cibercidade

O que é? Um conceito que explica uma categoria de ferramentas tecnológicas.

Um termo que explica a construção de uma solução tecnológica que busca convergir o fluxo informacional em uma cidade, com o objetivo de criar novos serviços e comportamentos entre indivíduos, empresas e poder público.

Um conceito que explica o fenômeno das relações entre território, novas tecnologias e ciberespaço.

Definição Plataformas tecnológicas que fazem uso dos sistemas de informação geográfica (GIS) para construir novas possibilidades de interação entre bancos de dados digitais, lugares e contextos específicos.

Plataforma digital que media a relação da comunidade e seu território, com vistas a fomentar o fluxo informacional em uma rede de cidadãos conectados para viabilizar novos comportamentos, tais como o engajamento na transformação da cidade.

Soma dos aspectos técnicos, sociais, culturais, econômicos e ambientais e sua relação com o impacto das novas tecnologias de informação e comunicação nas novas práticas sociais na cidade.

Caracterís Define ampla gama de aparatos tecnológicos e ticas principais comportamentos resultantes do uso, categorizados por Lemos (2009) como Anotações urbanas eletrônicas; mapeamento – etiquetas geográficas; redes sociais móveis; jogos computacionais de rua; mobilizações inteligentes.

Trata-se de uma plataforma tecnológica que se concentra na convergência do fluxo informacional da cidade, propiciando novas relações entre a população e a cidade. Há uma diferença entre os dois projetos apresentados, o PortoAlegre.cc pretende criar uma única plataforma digital, um mapa colaborativo online, que facilite a interação entre pessoas e a cidade, enquanto o Wikicity pretende desenvolver diversas interfaces.

O conceito trata da rede de relações entre as novas tecnologias, as novas práticas sociais e as transformações resultantes na cidade, por meio da análise das mais diversas plataformas, sua infraestrutura e seus variados usos e comportamentos gerados.

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Relação com o Ciberespa ço

A relação com o ciberespaço é crucial para a existência destas ferramentas, uma vez que explora as conexões entre o ambiente digital e a localização real.

Ambas plataformas têm no ciberespaço o seu fundamento, pois é nele que se encontra o fluxo informacional que é trabalhado pela ferramenta, guardando muitas similaridades com a relação entre as mídias locativas e o ciberespaço.

O ciberespaço tem papel fundamental na concepção da cibercidade, pois é um dos elementos integrantes deste conceito, juntamente com o território físico, e sua infraestrutura, e as pessoas e seus comportamentos.

Relação com o território: fluxos e fixos

O território aparece enquanto componente essencial para esta ferramenta por meio da relação entre os fixos, locais específicos como estabelecimentos comerciais, por exemplo, e os fluxos, pessoas que frequentam tais espaços e produzem informações acerca deles.

A relação com o território é a mesma para os dois projetos apresentados, uma vez que ambos têm nos fluxos os elementos essenciais para sua realização. Vale ressaltar que para o PortoAlegre.cc a relação com o território é mais explicita, uma vez que o projeto é materializado em um mapa digital cujo foco é promover ações na cidade, porém o Wikicity, enquanto plataforma de uso e compartilhamento de informação em diferentes interfaces guarda maior relação com os fluxos que os fixos.

Verifica-se que a concepção do território enquanto resultado da relação entre os elementos fluxos e fixos está totalmente alinhada com a proposta do conceito de cibercidade, sendo ele também o somatório das relações entre este território, as novas tecnologias, o ciberespaço e as pessoas.

Papel da Informação enquanto Informação enquanto insumo para o informaçã insumo para o uso da uso da ferramenta, pacote de dados o ferramenta, pacote de fixo. dados fixo.

Informação em movimento, fluxo informacional, informação relacionada aos contextos sociais e culturais.

Fonte – Elaboração própria.

Por meio da análise do quadro 1 é possível verificar as diferenças e similaridades de cada conceito, identificando em que ponto eles se relacionam. Assim, verifica-se grande aproximação entre as mídias locativas e a Wikicidade, entendendo-as como plataformas digitais com relação direta com o território, onde a informação ocupa um papel semelhante em ambos conceitos. O Wikicidade PortoAlegre.cc é mais claramente relacionado a mídia locativa, podendo ser enquadrado na categoria de Mapeamento Colaborativo, de Lemos (2009, p. 94). Já o Wikicity é a conformação de uma série de ferramentas, mas que em essência carrega em si todas as funções de uma mídia locativa. O que se destaca é o papel da informação nestes dois conceitos, onde ela é tida como insumo, conteúdo, que é produzida coletivamente e armazenada nestas ferramentas, podendo ser utilizada pelos usuários. Esta abordagem da informação tem agregado o risco da saturação pois, caso a apropriação desta ferramenta seja nula ou pequena, sem fluxo de compartilhamento, somente de armazenamento de novos dados, esta abordagem

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poderá incorrer ao problema destacado por Gleick, ao se referir à biblioteca enquanto repositório do conhecimento: Essa biblioteca (que os outros chamam de universo) abriga toda a informação. Mas nenhum conhecimento pode ser descoberto nela, precisamente porque todo o conhecimento está nela, arquivado nas prateleiras lado a lado com toda a falsidade. [...] Não pode haver caso mais perfeito de saturação de informação (GLEICK, 2013, p.382).

Nos conceitos de mídias locativas e Wikicidade o que se vê é a preocupação com a apropriação dos usuários destas ferramentas, pois são estes usos que dão vida e estabelecem o fluxo informacional tão caro para os resultados de transformação na cidade. Porém, verifica-se a necessidade de se analisar a forma como tais ferramentas estão sendo apropriadas pelos usuários, para confirmar ou refutar se tanto as mídias locativas, quanto a Wikicidade estão cumprindo com os objetivos propostos. Ainda em decorrência da comparação entre os três conceitos vale ressaltar a possível confusão gerada de uma leitura superficial entre a Wikicidade e a Cibercidade. As diferenças entre tais conceitos são mais ressaltadas a partir do momento em que se entende que a Wikicidade é uma plataforma tecnológica com princípios bem definidos, já a cibercidade é um fenômeno resultante das relações entre sociedade, informação e as novas tecnologias e a cidade. Para estudar a cibercidade é preciso ter em vista o contexto social, cultural, econômico, ambiental e de infraestrutura disponível no território, pois é nesta complexa relação que nascem as novas práticas sociais que resultam em transformações no território. Portanto, ao tratar da cibercidade verifica-se que a informação assume um papel diferenciado dos outros conceitos e termos estudados, sendo aqui vista enquanto fluxo, resultante das relações sociais, das novas tecnologias e do ciberespaço. Tal ponto de vista guarda vínculo direto com a abordagem de Capurro (2007) ao entender que a informação tem uma dimensão relacional, atenta aos contextos sociais e culturais e tais contextos são marcados por fluxos, por trocas, por uma relação dialógica. Assim, fica clara a importância que o processo de compartilhamento de informação tem no desenvolvimento da cibercidade, ainda mais agora facilitados pelas tecnologias digitais, onde o mundo virtual e real já não tem mais suas fronteiras definidas. É com base nestas novas possibilidades, resultantes do avanço das tecnologias e do ciberespaço, que se fundamenta o debate acerca das mídias 355


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locativas, Wikicidade e da Cibercidade enquanto espaços onde a relação entre a informação e o território se estreitam. Como resultado desta discussão ressalta-se a necessidade de trilhar caminhos de análise sobre a relação entre pessoas, informações e lugares que não vislumbrem as plataformas tecnológicas como únicos responsáveis pela construção de uma nova relação com a cidade. Mas sim, reconhecendo que tais soluções tecnológicas contribuem para a transformação do espaço urbano, porém, elas em si não são suficientes para caracterizá-lo, sendo necessário analisar o complexo contexto social, cultural, ambiental, econômico e de infraestrutura para nomear uma cibercidade.

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24 AS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO E USUÁRIOS IDOSOS: UM ENFOQUE NA UNATI UNESP/MARÍLIA

Ana Maria Jensen Ferreira da Costa Ferreira anajfcferreira@hotmail.com Jean Fernandes Brito jeanbritto@marilia.unesp.br Caio Saraiva Coneglian caio.coneglian@gmail.com Jéssica de Oliveira osz.jessica@gmail.com Silvana Aparecida Borsetti Gregório Vidotti vidotti@marilia.unesp.br Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação Grupo de Pesquisa Novas Tecnologias em Informação (GPnti). Universidade Estadual Paulista (Unesp)

Resumo: As Tecnologias de Informação e Comunicação estão em constante evolução e presentes no cotidiano das pessoas auxiliando na realização de diferentes atividades. Com o envelhecimento Humano podem surgir algumas limitações como motoras, cognitivas ou dificuldade de acompanhar as mudanças tecnológicas. Nesse sentido, o curso de informática direcionado para os alunos da Universidade Aberta à Terceira Idade, Unesp - Marília, proporciona a inclusão digital desse público bem como procura promover a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação. Paralelamente, contribui como ambiente para outras pesquisas relacionadas com o tema Arquitetura da Informação Digital em Web Sites. A metodologia utilizada nesta pesquisa foi qualitativa, exploratória e analítica, que se desenvolveu a partir de pesquisa bibliográfica sob os temas Tecnologias de Informação e Comunicação, Envelhecimento Humano, Interação Humano Computador, Arquitetura da Informação. A Pesquisa-ação contribuiu para definir elementos que foram tabulados por meio de questionário. Sendo assim, foi possível observar a evolução da forma de utilização e acesso à internet por meio dos dispositivos e o processo de aprendizagem e desenvolvimento de competências informacionais digitais. Observou-se um crescimento na utilização dos dispositivos móveis e recursos tecnológicos favorecendo a comunicação e integração dos idosos no convívio social e familiar. Palavras-Chave: Tecnologias de Informação e Comunicação; Usuários Idosos; Inclusão Digital; Universidade Aberta a Terceira; Dispositivos Móveis.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

1 INTRODUÇÃO Por meio das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) os indivíduos podem

ter

acesso

a

produtos

e

serviços

remotamente,

acompanhar

os

acontecimentos e mudanças sociais locais, regionais e globais com maior rapidez. Nesse sentido, a inclusão digital dos usuários idosos ganha relevância pois, nascidos antes da era digital esses indivíduos sentem necessidade de comunicar-se com amigos e familiares, utilizar serviços e acessar informações na Web. Considerando que os indivíduos da Terceira Idade, são pessoas que pelo estatuto do idoso estão acima dos 60 anos de idade e que adquiriram direitos perante a lei como aposentadoria, atendimento preferencial em locais públicos, descontos especiais na aquisição de produtos e serviços, dentre outros, a Universidade Aberta à Terceira Idade. A Universidade Estadual Paulista (UNESP), através do Projeto Sênior UNESP Aberta à Terceira Idade, vinculado à Pró-reitora de Extensão Universitária (PROEX), criou a Universidade Aberta à Terceira Idade (UNATI) com o objetivo de proporcionar condições para a integração social de idosos, com mais de 55 anos, no ambiente universitário por meio de atividades e programas de extensão universitária. O núcleo Local UNATI de Marília, iniciou suas atividades em 1995. Neste contexto, Vechiato (2010) destaca que os idosos de hoje têm acompanhado paralelamente o surgimento e a evolução das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), da Web e está envelhecendo junto com o crescimento destas ferramentas. Assim, muitos destes idosos não tiveram a oportunidade de contato efetivo com estas tecnologias e a inclusão digital destes idosos pode possibilitar novas alternativas na realização das atividades cotidianas frente às TIC. A identificação de características específicas, habilidades e competências para o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação, em especial da Web, são elementos de investigação desta pesquisa que é parte do projeto Arquitetura da Informação e Usabilidade digital: um estudo da contribuição teórica e metodológica no contexto Ciência da Informação, financiado pelo CNPq. Assim, o objetivo deste trabalho é identificar quais mudanças tem ocorrido no perfil do grupo de alunos da UNATI que participam das aulas de informática e que tipo de dispositivos estão sendo utilizados para acessar a internet.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

2 METODOLOGIA

Com característica exploratória, descritiva e analítica abordando temas como: Arquitetura da Informação Digital, Interação Humano Computador, Inclusão digital, Terceira Idade, Envelhecimento Humano, este projeto proporciona compartilhar resultados com outras pesquisas desenvolvidas no âmbito da “Arquitetura da Informação digital”. No contexto do curso de informática, utiliza-se o método de Pesquisa- Ação. Desse modo, consideramos que a Pesquisa-Ação contribui sobremaneira para a organização desse trabalho, pois se trata de [...] um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo (THIOLLENT, 2004, p.14).

A pesquisa-ação diz respeito à maneira como é conduzida a pesquisa, permitindo o trabalho conjunto de pesquisadores e participantes desde a identificação dos problemas até sua resolução. Para o planejamento e condução do trabalho, utilizamos o roteiro de organização da pesquisa-ação apresentada e discutida por Thiollent (2004). Devido à flexibilidade da pesquisa-ação, esse roteiro é considerado como um ponto de partida, que auxilia na identificação dos elementos essenciais da pesquisa. Sendo assim, alunos e professores constroem o conteúdo e conhecimento em parceria. São selecionados temas atuais, elaborado um cronograma e as apresentações em Power Point ficam disponíveis on-line, no blog Internautis (https://internautis.wordpress.com/). O Blog Internautis foi desenvolvido no ano de 2009 pelos pesquisadores do Grupo de Pesquisa Novas Tecnologias em Informação (GPnti), fruto de pesquisas sob o tema Arquitetura da Informação dos Web Site. O blog proporciona aos alunos acessar o conteúdo das atividades desenvolvidas em sala de aula e exercitar os conhecimentos adquiridos remotamente. Por meio de atividades mediadas pelos professores durante as aulas observase as necessidades do usuário idoso em relação a utilização dos recursos da Web. Assim, são elaborados questionários periodicamente para identificar a experiência do usuário e avaliar as atividades. Percebe-se que o aluno em pouco tempo pode ganhar autonomia e desenvolver habilidades para o uso dos ambientes

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da Web, uso de aplicativos, comunicação através de redes sociais e e-mail bem como na utilização de câmera fotográfica digital e dispositivos móveis. No final do ano de 2014 sugeriu-se uma atividade e em seguida aplicou-se um questionário, verificou-se que dos 19 entrevistados 80% tiverem pouca dificuldade para a realização das atividades sugeridas e os outros 20% tiveram dificuldade mediana, como sugestões ficou evidente que os alunos estavam satisfeitos com a dinâmica apresentada em sala de aula e que gostariam de continuar atualizando seus conhecimentos. Neste ano de 2015 desenvolveu-se esta pesquisa com a participação de 20 alunos da UNATI. As informações geradas pelo questionário foram referentes à: idade, grau de escolaridade, renda financeira, meio de acesso a internet e assuntos de interesse. A seguir serão apresentadas a análise e a discussão dos dados.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES As UNATIs constituem-se como um projeto de educação continuada que tem por objetivo a reintegração social dos idosos, valendo-se do ambiente universitário para tal (VECHIATO, 2010). As aulas de Informática por sua vez são ministradas por alunos de graduação e pós-graduação integrantes do Grupo de Pesquisa Novas Tecnologias de Informação. Nesse contexto, é possível compreender como acontece a interação dos usuários idosos e TIC, a inclusão digital desse público, sendo possível orientá-los sobre o acesso e uso das informações relevantes disponibilizadas em ambientes informacionais da Web. Garcia (2001) acredita que, no contexto atual, compete não só aos profissionais da saúde, mas também aos profissionais ligados às tecnologias, mais especificamente àqueles que estão envolvidos com a Internet, contribuir para que o idoso se sinta mais ativo na sociedade em que está inserido. Neste sentido, através do ensino-aprendizagem os professores/pesquisadores podem proporcionar novas possibilidades de ensino e por meio de observação, contribuirem para o aprimoramento de ambientes informacionais digitais tornando-os mais acessíveis e compreensíveis ao público idoso. A crescente e rápida evolução de dispositivos e tecnologias podem ser encaradas como um dos grandes fatores que dificultam o processo de aprendizagem dos mesmos para a terceira idade. 363


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

A interface de tais dispositivos infere consideravelmente em tal processo de aprendizagem. Conforme declarado por Dunlop e Brewster (2002) tais dispositivos possuem grandes implicações de design para os usuários, compartilhando problemas ao tentar prover acesso a serviços e recursos computacionais por meio de pequenas interfaces. Relacionando ao contexto, visto que as experiências prévias dos usuários influenciam na utilização de novas interfaces, percebe-se, que os diversos sistemas operacionais (SO) e diferentes interfaces dos aplicativos constituem grandes desafios. Além disso, atualmente grandes empresas desenvolvedoras de dispositivos e sistemas operacionais tem aderido os princípios do design minimalista, o que tem prejudicado a experiência de utilização de usuários da terceira idade. Um

dos

princípios

para

desenvolvimento

de

interfaces

consiste

no

reconhecimento ao invés da recordação, no qual aconselha-se diminuir a carga de memória do usuário ressaltando objetos, ações e opções. Amenizando assim, a necessidade de o usuário recordar informações na troca de tarefas no SO em utilização. As introduções de uso devem estar visíveis e serem recuperadas de modo fácil. Geralmente, aplicativos e SO introduzem um pequeno tutorial apenas na primeira utilização, porém o fato de não ser realizado com frequência, ao menos nas primeiras semanas de utilização não são de grande ajuda aos usuários da terceira idade. Dunlop e Brewster (2002) ressaltam desafios para desenvolvimento de interfaces móveis, como o fato não existir treinamento prévio para utilização destas tecnologias, e recursos de usabilidade e acessibilidade como, por exemplo, o tamanho da tela dos dispositivos que pode dificultar a interação dos usuários. Um exemplo de obstáculo para usuários da UNATI é apresentado a seguir com as diferenças no design do iOS, Windows Phone e Android para o acesso do WhatsApp (Figura 1):

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Figura 1: Design do WhatsApp em diferentes SOs

Fonte: Elaborado pelos autores

A diferença de design do aplicativo WhatsApp conduziu a consistentes dificuldades em sua utilização, os componentes de representação para chegar às configurações do aplicativo diferem nos SOs de acordo com a sequência da figura acima. Nota-se que no iOS os ajustes estão mais visíveis, enquanto o Windows Phone e o Android não estão aparentes. Vale destacar que independente do modelo do dispositivo o sistema iOS não apresenta diferenças de design enquanto no sistema Android a interface varia de acordo com o fabricante do dispositivo. Acredita-se que os critérios de desenvolvimento de interfaces tanto para SOs móveis, quanto Websites impactam profundamente no aprendizado de usuários da terceira idade, visto que possuem pouca experiência prévia de tais. As aulas de informática contribuem para que os usuários se familiarizem com novas tecnologias e proporcionam a capacitação e novas experiências na utilização dos dispositivos. Assim, com o intuito de conhecer o perfil dos alunos de 2015 aplicou-se um questionário para obter informações sobre: idade, grau de escolaridade, renda financeira, meio de acesso a internet e assuntos de interesse. A seguir, com o intuito de conhecer a idade e escolaridade dos alunos apresenta-se o Gráfico 1:

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Gráfico 1: Idade X Escolaridade

Fonte: Elaborado pelos autores

Na visualização do Gráfico 1 percebeu-se que 25% dos alunos não chegaram aos 60 anos, e destes, a maioria tem o 2º grau completo de escolaridade; entre 60 e 70 anos são 50% e a maioria tem ensino superior completo, sendo que 10% tem o 2º grau completo; acima dos 70 anos são 25% e 5% tem ensino superior. Analisando somente escolaridade o grupo de alunos é composto de 45% com ensino superior, 40% segundo grau completo e 15% primeiro grau completa. Assim a procura pelo curso de informática se dá em sua maioria por pessoas com ensino superior completo e idade entre 60 e 69 anos. A escolaridade aparentemente influência nas formas de acesso à internet, a seguir no Gráfico 2 é possível verificar tal hipótese:

Gráfico 2: Escolaridade x Formas de Acesso à Internet

Fonte: Elaborado pelos autores

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O acesso à internet por meio dos dispositivos móveis ficou evidente que é utilizado exclusivamente pelos alunos com segundo grau e curso superior completo. Por observação percebeu-se que alunos com pouca escolaridade tem dispositivos móveis com acesso à internet, porém, não tem autonomia para utilizar. Para o acesso à internet via computador, desktop ou notebook, a idade não influencia. No Gráfico 3 é possível analisar a relação entre idade e Formas de Acesso à Internet.

Gráfico 3: Idade X Formas de Acesso à Internet

Fonte: Elaborada pelos autores

Todas as faixas etárias apresentam indivíduos que utilizam o computador para acesso à internet sendo que a grande maioria do público com mais que 70 anos utilizam apenas o computador, entre 60 e 69 anos a maioria utiliza computador e celular como também é expressiva a utilização de tablet. É curioso que 4 pessoas não acessam a internet por nenhum dispositivo, mas, isso se justifica por não terem contato prévio com tecnologias digitais. A única faixa etária que apresentou usuário que utiliza todos os dispositivos foi abaixo de 60 anos, porém, apenas uma pessoa. A renda financeira pode influenciar nas formas de acesso à internet pois por observação percebeu-se que algumas pessoas não possuem computador em casa porém, estão planejando adquirir. Para Renda financeira analisou-se o valor mensal de renda individual equivalente a 1 salário mínimo, até 3 salários mínimos e mais que 3 salários mínimos. No gráfico 4 a seguir é possível verificar o relacionamento entre Renda financeira e Formas de acesso à internet.

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Gráfico 4: Renda X Formas de Acesso à Internet

Fonte: Elaborado pelos autores.

Foi comprovado pelo questionário que 5 dos alunos tem renda de até 1 salário mínimo e 2 destes não acessam internet; 7 alunos recebem até 3 salários mínimos, 3 deles utilizam computador e celular para acesso à internet e 1 aluno acessa por todos os dispositivos tanto computador, celular e tablet; 8 recebem acima de 3 salários sendo que 3 destes acessam à internet apenas pelo computador, 2 pelo computador e pelo celular e 2 pelo computador e tablet. Assim, percebe-se que a renda financeira não interfere no acesso e uso da Internet. Por se tratar de alunos da terceira idade, foi relevante conhecer a situação profissional em que se situam. A seguir apresenta-se o Gráfico 5:

Gráfico 5: Situação Profissional

Fonte: Elaborado pelos autores

Os alunos aposentados da UNATI representam 50% e a outra metade se dividi entre 20% que não trabalham fora, porém trabalham em casa e 30% estão ativos no 368


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mercado de trabalho como: balconista, secretária, telefonista, comerciante, tecnóloga de alimentos e professora. Nesse contexto, baseado nos princípios da pesquisa-ação foi questionado sobre os temas de interesse que devem ser apresentados durante as atividades didáticas a seguir o Gráfico 6 com os temas eleitos:

Gráfico 6: Assuntos de interesse

Fonte: Elaborado pelos autores

De acordo com o gráfico apresentado vale ressaltar que cada respondente do questionário poderia indicar mais que um assunto de interesse para ser explorado nas aulas. Percebeu-se que o interesse maior desse público corresponde a Comunicação e Relacionamento e Entretenimento; em segundo lugar destaca-se Saúde e Viagens; a seguir Política e Finanças sendo que assuntos que não foram sugeridos e caracterizados como outros também são de interesse. Vale ressaltar que deste universo analisado quatro pessoas, que corresponde 20% nunca tiveram contato com computador. Quanto ao gênero, 3 pessoas são do sexo masculino e 17 pessoas são do sexo feminino. Os do sexo masculino são alunos discretos e que perguntam pouco. Percebe-se que esses alunos não gostam de expor suas limitações enquanto os do sexo feminino não tem receio de perguntar. No ano de 2015 as aulas e atividades foram programadas e direcionadas para a utilização tanto do computador como dos dispositivos móveis pois, é evidente a necessidade e o interesse em aprender sobre os recursos do celular. Assim, o WhatsApp foi bastante explorado e devido ao interesse dos alunos em temas como:

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comunicação e relacionamento criou-se um grupo nesse aplicativo para proporcionar a interação e dinamização das informações entre alunos e professores. 4 CONCLUSÕES É importante ressaltar a contribuição da pesquisa e das aulas para os idosos participantes do curso de Informática da UNATI da UNESP de Marilia estejam inseridos no processo de inclusão digital, visto que, ao ter contato com as Tecnologias de Informação e Comunicação eles podem desenvolver novas habilidades e executar tarefas em seu cotidiano. A metodologia utilizada nos cursos de informática para idosos deve ser diferenciada de um curso para as outras faixas etárias, pois para os alunos mais jovens o interesse está nas ferramentas exigidas pelo mercado de trabalho e para os idosos o interesse está mais voltado para o entretenimento. Os interesses dos alunos da Unati estão voltados para a aquisição de novos conhecimentos e nas possibilidades de colaboração. Durante as aulas, os professores fazem a exposição do conteúdo, por meio de slides que estão disponíveis no blog Internautis – o blog do curso de informática da UNATI –, após a apresentação da parte teórica, são sugeridas atividades direcionadas e supervisionadas pelos professores para que os alunos exercitem os conhecimentos adquiridos. A fim de avaliar e conhecer as necessidades de aprendizado dos alunos bem como as suas dificuldades em relação à utilização das TIC são elaborados questionários periodicamente. Sendo assim, esta ferramenta auxilia na avaliação das atividades, pontuando as dificuldades e facilidades para o desempenho das tarefas enumeradas; inclui-se algumas perguntas abertas para obter sugestões sobre temas de interesse a serem abordados no próximo semestre. Os dados do questionário tabulados auxiliaram a definir o novo perfil do grupo de alunos das aulas de Informática 2015, bem como a forma de acesso à internet e a utilização de dispositivos móveis. Percebeu-se assim um aumento do uso de celulares para o acesso à internet, pois as perguntas e interesses dos alunos incidem sobre questões relacionadas a mobilidade. O curso de informática objetiva incluir os alunos no mundo digital por meio do uso das tecnologias e do acesso a informações que possam atender suas 370


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

necessidades; e assim, orientá-los sobre o uso responsável das informações disponibilizadas em ambientes informacionais na Web. Percebe-se

que

envelhecimento

da

população

é

crescente

e

o

desenvolvimento de ambientes informacionais digitais deve atender às necessidades dos idosos. Portanto, os resultados do questionário, a procura pela inscrição e a inclusão de novos alunos no curso indicam a satisfação dos participantes nesse processo de ensino-aprendizagem com o uso das TIC. Esta pesquisa forneceu subsídios para a discussão das necessidades de indivíduos idosos, com o auxílio da comunidade de alunos da UNESP – UNATI – Campus de Marília e recebendo apoio CAPES e CNPq.

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Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

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25 ARQUITETURA DA INFORMAÇÃO, USABILIDADE E ACESSIBILIDADE EM BIBLIOTECAS DIGITAIS DE TESES E DISSERTAÇÕES DAS UNIVERSIDADES ESTADUAIS PAULISTAS

Jean Fernandes Brito jeanbritto@marilia.unesp.br 1

Silvana Aparecida Borsetti Gregório Vidotti vidotti@marilia.unesp.br Departamento de Ciência da Informação Grupo de Pesquisa Novas Tecnologias em Informação (GPNTI). Universidade Estadual Paulista (Unesp)

Resumo: As atuais Tecnologias de Informação e Comunicação propiciam o desenvolvimento de ambientes informacionais digitais que contemplam a produção científica da sociedade e o acesso aberto e livre a essa produção. Neste sentido, destacam-se as bibliotecas digitais de teses e dissertações de Instituições de Ensino Superior que disponibilizam esse tipo de produção cientifica em formato de texto completo. Considerando que esses ambientes necessitam ser estruturados de modo a permitir que a sociedade possa ter acesso aos documentos de forma efetiva e eficiente são necessários estudos que apresentam elementos para o desenvolvimento e adequação desses ambientes. Esses estudos podem ser realizados a partir da Arquitetura da Informação e das diretrizes de Usabilidade e Acessibilidade Digital. Objetivamos identificar e apresentar os elementos da Arquitetura da informação, da usabilidade e da acessibilidade que propiciem a interação efetiva e eficiente dos usuários nas bibliotecas digitais de teses e dissertações das universidades estaduais paulistas (Unesp, USP e Unicamp). A pesquisa caracterizou-se como de tipo exploratória, descritiva, bibliográfica e analítica. Para a pesquisa utilizamos fontes bibliográficas primárias e secundárias e selecionamos textos nas temáticas: Arquitetura da informação, usabilidade, acessibilidade digital, bibliotecas digitais, bibliotecas digitais de teses e dissertações e web colaborativa. Para a análise foram selecionadas as bibliotecas digitais de teses e dissertações da Unesp, USP e Unicamp. A análise realizada revelou que há uma aplicabilidade mínima desses elementos e isto demonstra a relevância da aplicação e discussão da Arquitetura da Informação em ambientes de bibliotecas digitais de teses e dissertações. Palavras-Chave: Arquitetura da Informação; Usabilidade; Acessibilidade; Bibliotecas Digitais de Teses e Dissertações; Informação e Tecnologia.

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1 INTRODUÇÃO As atuais

Tecnologias

de

Informação

e

Comunicação

propiciam

o

desenvolvimento de ambientes informacionais digitais que contemplam a produção científica da sociedade e o acesso aberto e livre a essa produção. Neste sentido, destacam-se as Bibliotecas Digitais de Teses e Dissertações, (BDTD) disponibilizando esse tipo de produção cientifica em formato de texto completo. Desse modo, com a expansão e a crescente utilização da web, possibilitou um crescimento considerável no número de ambientes informacionais digitais e tem continuamente gerado um imenso volume de informações disponíveis em rede. Neste sentido, o acesso a determinado documento, é simplesmente uma consulta em um simples buscador, porém, encontrar informações relevantes pode-se tornar um desafio nessa grande teia informacional (MARCONDES; SAYÃO, 2002) Para Sant’Ana e Santos (2004, p. 53), esse aumento exponencial de recursos de armazenamento e disseminação da informação pode ser comparado com a figura de um segundo dilúvio, “uma cheia de informações, informações estas que formam um novo ambiente dinâmico e interativo, em que cada reserva de memória, cada grupo, cada indivíduo, cada objeto pode tornar-se emissor e aumentar o fluxo informacional”.

No contexto dos ambientes informacionais digitais, como bibliotecas digitais, repositórios digitais, web sites, blogs, etc., outro fator influencia no processo de transferência da informação: a adequação destes ambientes digitais ao usuário, quanto à usabilidade, acessibilidade, Arquitetura da Informação (AI), Design centrado no usuário, Experiência do usuário, entre outros estudos. É necessário que os ambientes informacionais digitais estejam adequados às necessidades e às competências e comportamentos informacionais do usuário, para que este venha a construir conhecimento a partir das informações encontradas na Internet. Nesse sentido, são necessários estudos que possibilitam a otimização da organização das informações nos ambientes de BDTD, ambientes que disponibilizam produção cientifica, (teses e dissertações), a partir de elementos da Arquitetura da Informação, usabilidade e acessibilidade para contribuir no desenvolvimento destes ambientes. Vechiato (2010) destaca que os estudos relacionados à AI permitem compreender a estruturação e a organização da informação disponibilizada em ambientes informacionais digitais, bem como sua facilidade de acesso e uso, ou seja, sua acessibilidade e usabilidade, respectivamente. 375


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

Batley (2007) comenta também que a AI não se relaciona apenas com a criação de estruturas, mas também com a funcionalidade contida nelas. Para a autora, a arquitetura fornece a estrutura e a informação determina a funcionalidade. Assim, a AI como uma disciplina teórica e prática da Ciência da Informação (CI), objetiva a estruturação e o desenvolvimento de conteúdos em ambientes informacionais digitais para que o usuário possa recuperar informações de modo mais sucinto e padronizado. Nesse contexto, o bibliotecário tem um papel fundamental na estruturação desses ambientes. Deste modo, nas áreas de biblioteconomia e CI, podem-se encontrar bibliotecários, especialistas em recuperação da informação ou analista de busca, engenheiros de usabilidade, coordenador de arquitetura da informação e usabilidade, design de tesauros, gerenciador de vocabulário controlado e especialista de indexação (CAMARGO; VIDOTTI, 2011, p. 29). O bibliotecário, então, deve ser consciente de seu direito e responsabilidade de auxiliar as pessoas em suas necessidades informacionais, como provedor e mediador de informação [...]. (SEMEGHINI, 2008, p. 44). A relação entre as áreas, Arquitetura da Informação, Usabilidade e Acessibilidade devem ser trabalhados em conjunto no desenvolvimento de um website de forma que uma área vá abrindo caminho para a outra, concomitantemente dentro do conjunto dos ambientes informacionais digitais. Sendo assim, problema desta pesquisa é de como deve como deve ser feita a disponibilização destas informações no ambiente web, para que se facilite a recuperação, o acesso e o uso da informação, tendo em vista que a Arquitetura da Informação tem como ponto de convergência Usuário, Conteúdo e Contexto? O objetivo deste trabalho constituiu em estudar, identificar e apresentar os elementos da Arquitetura da informação, da usabilidade e da acessibilidade que propiciem a interação efetiva do acesso à produção cientifica nas Bibliotecas digitais de teses e dissertações das universidades estaduais paulistas (Unesp, Usp e Unicamp).

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2 METODOLOGIA A pesquisa caracterizou-se como de tipo exploratória, descritiva bibliográfica e analítica, possuindo uma abordagem qualitativa. A pesquisa descritiva bibliográfica iniciou-se por meio de levantamento bibliográfico em bases de dados nacionais e internacionais e com base nas teses e dissertações desenvolvidas junto ao GP-NTI, sendo selecionados, analisados e documentadas os textos pertinentes à pesquisa dos temas: Arquitetura da Informação, Tecnologias de Informação e Comunicação no contexto da Web colaborativa, Bibliotecas Digitais, Bibliotecas Digitais de Teses e Dissertações com o objetivo de desenvolver um embasamento teórico e um conhecimento prévio para a posterior elaboração do referencial teórico. A pesquisa analítica foi realizada com base na avaliação heurística, um método que não conta com a participação de usuários. Nesse tipo de avaliação, os avaliadores utilizam heurísticas, diretrizes e/ou recomendações de usabilidade para descobrir possíveis problemas, avaliando em ambientes informacionais digitais do tipo BDTD, nos quais foi observada a disposição das informações no ambiente, no que tange à organização, à navegação, à rotulagem, à busca, à representação e à usabilidade. As análises foram realizadas em BDTD das universidades estaduais paulistas (Universidade Estadual Paulista-Unesp, Universidade de São Paulo - USP e Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP). Ainda, a análise contempla também os elementos de AI, os quais visam o conhecimento prévio da estrutura e da organização da informação, que serão descritos a seguir: 

Os elementos de organização da informação presentes nos Sistemas de Organização apresentados por Morville e Rosenfeld (2006);

Os elementos de representação da informação presentes nos Sistemas de Rotulagem, bem como aqueles relacionados aos Tesauros, Vocabulários Controlados e Metadados, também apresentados por Morville e Rosenfeld (2006);

Os elementos de navegação presentes nos Sistemas de Navegação apresentados por Morville e Rosenfeld (2006);

Morville e Rosenfeld (2006) também apresentam os elementos para os Sistemas de Busca para compor a anatomia da AI. No entanto, para a avaliação dos elementos de busca e recuperação da informação, optamos 377


Gestão da Informação, Comunicação e Tecnologia

pela utilização da tipologia dos mecanismos de busca proposta por Monteiro (2009) referente às seguintes categorias: forma geral de organização ou indexação

(indexing);

apresentação

dos

resultados

(searching);

e

paradigma semiótico (indexing/searching); 

Os princípios de usabilidade apresentados por Vechiato (2010);

Os elementos de acessibilidade baseados nas Web Content Accessibility Guidelines (WCAG 1.0), recomendações de acessibilidade para o conteúdo Web desenvolvidas pelo World Wide Web Consortium (W3C). Essa avaliação foi realizada a partir do validador de acessibilidade brasileiro DaSilva (Disponível em: http://www.dasilva.org.br).

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES A Arquitetura da Informação possibilita traçar os caminhos mais rápidos para o acesso a uma informação específica Lara Filho (2003, p. 14) alerta que a arquitetura da informação não é uma técnica, não fornece receitas. Antes, ela é um conjunto de procedimentos metodológicos e sua aplicação não visa criar uma camisa de força no conjunto da informação de um site. [...] Cabe à arquitetura da informação balizar, sinalizar, indicar, sugerir, abrir possibilidades. Segundo Morville e Rosenfeld (2006), a AI constituem-se por cinco grandes sistemas interdependentes, sendo eles: sistema de organização (organization system), sistema de rotulagem (labeling system), sistema de navegação (navigation system), sistema de busca (search system) e os tesauros, vocabulários controlados e metadados (thesauri, controlled vocabularies, and metadata). Para os autores, esses sistemas constituem a anatomia da Arquitetura da Informação. Os estudos em Arquitetura da Informação aplicada aos ambientes de bibliotecas digitais são importantes, de modo a permitir uma melhor visualização e disponibilização das informações, com ênfase as teses e dissertações. A seguir serão apresentadas as análises e os resultados de cada biblioteca digital investigada:

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Figura 01 - Tela inicial da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da Unesp

Fonte: Disponível em: http://www.athena.biblioteca.unesp.br/F?func=findb&request=unesp&find_code=wnv&local_base=T2. Acesso em 12 jan. 2015

A partir da análise, verificou-se a existência dos seguintes elementos: esquema exato alfabético e cronológico, esquemas ambíguos por tópicos e direcionados a um público específico, e esquema estrutural de classificação social, pertencente ao sistema de organização; elementos de navegação global e contextual, do sistema de navegação; navegação por links contextuais e cabeçalhos na parte textual do sistema de rotulagem; busca por item conhecido, dentro do sistema de busca. Verificou-se na análise uma estrutura simples. Uma pequena descrição e um breve contato via e-mail. A partir da validação do DaSilva (Acesso em: 15 jan. 2015) para as recomendações de acessibilidade referentes às WCAG 1.0, percebe-se que os problemas se concentram na Prioridade 1 (recomendações que devem ser satisfeitas), pois houve um maior número de ocorrências (05 ocorrências. Informações e Relações: As informações, a estrutura e as relações transmitidas através de apresentação podem ser determinadas de forma programática ou estão disponíveis no texto.

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Figura 02 - Tela inicial da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP

Fonte: Disponível em: < http://www.teses.usp.br>. Acesso em 12 jan.2015

A partir da análise, verificou-se a existência dos seguintes elementos: esquemas exatos alfabético, cronológico e geográfico, esquemas ambíguos por tópicos e direcionados a uns públicos específicos, pertencentes ao sistema de organização; elementos de navegação global e contextual, do sistema de navegação; navegação por links contextuais, cabeçalhos, rótulos na navegação, termos de indexação na parte textual do sistema de rotulagem; e busca por item conhecido, dentro do sistema de busca. Verificou-se um sistema de organização deficitária por não classificar/organizar as informações de forma cronológica, o que dificulta o acesso teses e dissertações especifica. No que diz respeito à usabilidade, atendeu minimamente as necessidades. Verificou-se na análise uma estrutura simples.Possui um “Fale Conosco”, um menu de “Ajuda” e o Favoritos, que o usuário pode inserir. A partir da validação do DaSilva (Acesso em: 15 jan. 2015) para as recomendações de acessibilidade referentes às WCAG 1.0, percebe-se que os problemas se concentram na Prioridade 1 (recomendações que devem ser satisfeitas), pois houve um maior número de ocorrências

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(07

ocorrências).

Todas

as

ocorrências

estão

relacionadasas


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informações, a estrutura e as relações transmitidas através de apresentação podem ser determinadas de forma programática ou estão disponíveis no texto. Figura 03 - Tela inicial da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da Unicamp

Fonte: Disponível em: <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/list.php?tid=7>. 12 jan.2015

Acesso em

Verficou-se a existência dos seguintes elementos: esquema exato alfabético e cronológico, esquemas ambíguos por tópicos e direcionados a uns públicos específicos, pertencentes ao sistema de organização; elementos de navegação global e contextual, do sistema de navegação; navegação por links contextuais e cabeçalhos na parte textual do sistema de rotulagem; busca por item conhecido, dentro do sistema de busca. Um sistema de busca eficiente. Diversos elementos de usabilidade que estão dentro da proposta e possui elementos de acessibilidade, como aumento de fonte, e contrastes. A partir da validação do DaSilva (Acesso em: 15 jan. 2015) para as recomendações de acessibilidade referentes às WCAG 1.0, percebe-se que os problemas se concentram na Prioridade 1 (recomendações que devem ser satisfeitas), pois houve um maior número de ocorrências (63 ocorrências). Todas as ocorrências estão relacionadas ao fato de não haver um equivalente textual para as imagens, o que compromete o acesso à informação pelos deficientes visuais. O contraste é mínimo neste ambiente.

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Percebemos que, de um modo geral, as três bibliotecas digitais apresentaram elementos de organização, representação, navegação, representação e busca de informação de modo a atender minimamente às necessidades dos usuários potenciais. No entanto, há poucos recursos de colaboração que possibilitem a interação entre os usuários e biblioteca. As três bibliotecas ainda não possibilitam a classificação social (folksonomia). No que diz respeito à usabilidade, percebemos que os ambientes possuem os elementos básicos que permitem o uso adequado desses web sites. Porém, esses ambientes não apresentam os elementos essenciais de acessibilidade, tais como contraste de cor, ampliação do tamanho da fonte, equivalentes textuais para figuras, que possibilitariam a ampliação do acesso à informação por pessoas com deficiência. Conclui-se também que os maiores problemas encontrados se referem à ausência de elementos de acessibilidade, os quais possibilitariam ampliar o acesso à informação por pessoas com deficiência.

4 CONCLUSÕES O desenvolvimento das TIC influenciou para que novas modalidades de serviços de bibliotecas surgissem, além de fomentar a discussão sobre a finalidade da biblioteca digital: como uma mera provedora de informações ou se a biblioteca digital deveria cumprir metas relacionadas com a seleção e classificação de conteúdos documentais, de modo a facilitar o rápido acesso e a disponibilidade, além de estabelecer os meios para identificar a relevância de um documento. A utilização de ambientes informacionais digitais para a disponibilização da produção cientifica por unidades e centro de pesquisa por bibliotecas torna-se relevante tendo em vista seu caráter informativo e a maior aproximação da instituição com seus usuários, a partir deste ambiente colaborativo. Neste contexto digital, a atuação do bibliotecário se torna um processo extremamente importante, pois, além de selecionar conteúdo relevante para seus usuários, o bibliotecário também atua como arquiteto da informação no desenvolvimento de estruturas informacionais digitais, que permitam um acesso rápido, fácil e intuitivo à informação desejada. Considera-se, assim, que o profissional da informação deve se inserir nesse contexto digital e que sua atuação neste ramo exigirá conhecimentos acerca das TIC, dos ambientes colaborativos da Web 2.0, estudos na área de Arquitetura da Informação, 382


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de Design de interação, de Design centrado no usuário, de User Experience, de Usabilidade, entre outras áreas. Por meio da investigação realizada, destacamos o maior problema presente nas bibliotecas digitais investigadas é a falta de usabilidade e acessibilidade, o que possibilitaria a inclusão de usuários com deficiências por meio de recursos como ampliadores do tamanho de fonte, contraste, leitores de tela disponíveis no próprio site e apresentação de equivalentes textuais para imagens. A partir da análise realizada dos elementos da AI, usabilidade e acessibilidade nas bibliotecas digitais de teses e dissertações das universidades estaduais paulistas, concluiu- se que há uma aplicabilidade mínima desses elementos.Isto demonstra a importância de se estudar a Arquitetura da Informação no âmbito das bibliotecas digitais. REFERÊNCIAS

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