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BOLETIM PARA PROFESSORES 3ª edição


Essa é a 3ª edição do boletim para professores produzido pelo Museu da Casa Brasileira (MCB), instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. A cada semestre, o MCB publica notícias, artigos, entrevistas e curiosidades sobre suas áreas de atuação: usos e costumes da casa brasileira, arquitetura, design e temas correlatos como urbanismo e paisagismo. Nesta edição falamos sobre a importância da preservação dos rios para o bom desenvolvimento das cidades, destacando as consequências causadas por intervenções como a canalização ou o tamponamento, e apontando possíveis soluções para reverter tais situações, além de apresentar exemplos de cidades que fazem bom uso dos seus rios. Dicas de programação, atividade educativa e cobertura de eventos realizados no MCB complementam esta edição. A intenção do boletim é criar mais um canal de comunicação do MCB com os professores, compartilhando conteúdos apresentados no Museu ou relacionados aos seus temas. Sugestões, críticas ou elogios são bem-vindas e podem ser feitas pelo e-mail comunicacao@mcb.org.br. Boa leitura!


Foto: Mariana Chama


LUIZ DE CAMPOS JR

GEÓGRAFO E IDEALIZADOR DO PROJETO RIOS E RUAS Luiz de Campos Júnior é cocriador da iniciativa Rios e Ruas, do Instituto Harmonia, e possui formação nas áreas das Ciências da Terra, Educação e Comunicação. Trabalha há 20 anos coordenando cursos, oficinas e elaborando materiais paradidáticos e audiovisuais sobre a temática dos “rios invisíveis”.

Divulgação

ENTREVISTA


MCB: O que é e como começou o projeto Rios e Ruas? Luiz de Campos Júnior: Comecei a explorar a questão dos rios ainda durante a faculdade de geografia. Depois de formado, continuei pesquisando e trabalhando com esse assunto no ambiente escolar e acadêmico. Em 2010 conheci meu sócio, José Bueno, um arquiteto que trabalha com projetos de programa de aprendizagem informal, um método de ensino no qual as pessoas aprendem inseridas em seu ambiente de estudo, trocando experiências com outras interessadas no assunto. Um dia, levei o Bueno para uma expedição em busca de nascentes e rios em São Paulo. Foi a partir daí que ele criou um grande interesse pelo tema e resolvemos juntar nossos conhecimentos para formar

o “Rios e Ruas”. Com esse trabalho, buscamos trazer emoção às pessoas para que elas se conscientizem e disseminem o conhecimento adquirido sobre a importância dos rios para as cidades. Qual é a relação entre os rios e as ruas na cidade de São Paulo? Como eles dialogam? Não há um dialogo, mas uma briga entre os rios e as construções da cidade. São Paulo passou por um rápido desenvolvimento e foi crescendo de forma desordenada e não planejada. O homem passou a dominar a natureza, achava-se que a tecnologia e engenharia podiam resolver qualquer problema. Os rios eram vistos como entraves, e passaram a ser tamponados ou

retificados para que não dificultassem o desenvolvimento. Em uma cidade com quase 15 milhões de habitantes, como se tornou São Paulo, é preciso uma grande infraestrutura de tratamento e escoamento, e os rios teriam uma importância muito grande nesse processo se não tivessem sido enterrados ou tamponados. A falta de possibilidade de prever as consequências e impactos dessas atitudes prejudicou, e muito, os rios. Quais são as consequências causadas pelo tamponamento dos rios? Uma das mais visíveis e desastrosas é o aumento das enchentes. Com rios tamponados para dar lugar a construção de vias asfaltadas, como é o caso da avenida 9 de Julho, o grau de


permeabilidade do solo fica quase nulo. Isso faz com que a água corra por cima dessa área e vá direto para um bueiro, passando por um cano até ser despejada em um riacho, que provavelmente também estará tampado. Além disso, todo lixo jogado na rua e a água suja que lava a cidade (a água de chuva dos telhados, o xixi do cachorro etc.) vão direto para os rios, pois não há margens no entorno que sirvam de filtro. Outras consequências estão ligadas diretamente ao nosso bem-estar. A presença da água na natureza ameniza as temperaturas no dias mais quentes e aumenta a umidade do ar nos períodos em que não há chuva. E a qualidade ambiental também está ligada ao nosso psicológico. Hoje em dia, precisamos sair da cidade para escutar o barulho de água que nos ajuda a relaxar. Se estivéssemos em uma cidade amiga dos rios, poderíamos experimentar essa sensação em nosso próprio bairro. Como identificar a presença de rios tamponados? Primeiro, faça um reconhecimento do local, tente visualizá-lo como ele seria sem a interferência do homem. Depois, observe seu relevo e identifique os pontos mais baixos onde o rio poderia correr. Preste atenção nos barulhos da cidade. Em alguns pontos, é possível ouvir um barulho de água correndo, mesmo que bem fraco. Isso pode ser um indício de que ali existe um rio coberto. A temperatura e vegetação do ambiente também é um indicador. Com a presença de rios o ar fica mais úmido,

o clima mais agradável e a vegetação mais verde e forte. Algumas vegetações, inclusive, denunciam completamente a presença de rios. É o caso das taiobas, que não sobrevivem se ficarem de 3 a 4 dias sem água. Sua presença mostra que aquele terreno está encharcado o tempo todo. Isso é um bom indicador da presença de um olho d’água, mina ou nascente no terreno. Como a pouca presença dos rios na cidade influencia na concepção do indivíduo sobre eles? Atualmente, os rios não estão presentes no cotidiano da maioria das pessoas. Muita gente pensa que São Paulo sempre foi assim, um mar de concreto. Por estarem poluídos, as pessoas acham que são os rios os responsáveis pelo mau cheiro e doenças, e que

não há mais solução para limpá-los, criando um preconceito. No entanto, o rio não fede. O cheiro que sentimos quando margeamos o rio Pinheiros ou o Tietê, por exemplo, vem daquilo que jogamos nele. De uma forma errada, os rios são apresentados como um esgoto a céu aberto. Para consertar isso, precisamos separar em nossa cabeça o que é rio e o que é esgoto, porque eles não são a mesma coisa. Até a década de 1930, era possível tomar banho no rio Pinheiros. Isso mostra como seu processo de depreciação foi muito rápido. A tecnologia que transformou o rio Pinheiros no que ele é hoje pode ser utilizada para limpá-lo, uma vez que a população veja isso como uma prioridade. Se deixarmos de sujar os rios diariamente, como acontece, em um período de 5 anos eles já estariam em uma condição muito melhor.


Ainda há solução para recuperá-los? Qual seria? Sim. O uso da tecnologia pode ser um grande aliado na recuperação dos rios. Ma,s antes disso, é preciso deixar de sujá-los e saber para onde vai a água usada por nós, para termos a consciência de que uma bituca de cigarro jogada no chão pode prejudicar, e muito, na limpeza dos rios. A seca do último ano modificou a percepção da sociedade sobre os rios? Totalmente. O baixo nível de água atingido pelas represas em São Paulo gerou uma crise no abastecimento e despertou a consciência e o interesse

das pessoas sobre a proveniência da água, como acontecia a captação, abastecimento, tratamento etc. O assunto se popularizou e começou a ser discutido em rodas de conversa, na mesa do bar, no jantar em família. Isso foi um ponto muito positivo dos tempos de seca em que passamos. O que falta agora é uma maior conscientização sobre para onde vai esta água depois de usada, quando desce o ralo, pois isso atinge diretamente os rios. Que atitudes precisamos tomar desde já para não piorar as situações dos rios na cidade? O mais importante é deixar de sujálos e passar a valorizar a água limpa e

corrente que corre nos rios. Precisamos nos conscientizar sobre a necessidade de dois tipos de encanamento nas construções: uma para a água residual, aquela do banho e da torneira, e outro para a água de esgoto, como a que sai do vaso sanitário. Precisamos pressionar nossos representantes a apoiarem leis que incluam esse tipo de serviço nas construções. Com isso, o esgoto deixará de ser despejado diretamente nos rios e contribuirá muito para sua despoluição. Foi isso o quer aconteceu com o rio Tâmisa, em Londres. Após um episódio conhecido como “o grande fedor” (no verão de 1858, o parlamento britânico chegou a suspender suas sessões devido ao mau cheiro causado pela poluição do rio), as autoridades resolveram corrigir


as consequências dos maus tratos do principal rio da cidade, sobretudo os causados a revolução industrial. E foi separando e tratando o esgoto que o rio Tâmisa, que já chegou a um nível de poluição maior que o Tietê, foi recuperado, despoluído e passou a ser sinônimo de orgulho e belas paisagens na cidade. Há alguma cidade brasileira com um bom exemplo do uso do rio em benefício da própria cidade e da população? Sim. Sorocaba é uma cidade com vários

rios abertos. O principal, rio Sorocaba, margeia uma importante avenida. Além dele, há outros rios menores que estão igualmente bem tratados e em boas condições. Isso se deve à menor quantidade de lançamento de esgoto nos rios e um trabalho de coleta bem feito. Por outro lado, há cidades com rios abertos que estão sendo canalizados, como é o caso de Cuiabá. Isso ocorre devido a uma inércia cultural que faz com que as pessoas não acreditem no potencial dos rios. E ai está mais um fator importante para São Paulo tratar bem seus rios, pois a maior capital do Brasil serve de exemplo para as outras

cidades do país. Acredito que, a partir do momento em que começarmos a recuperar e valorizar nossos rios, esse trabalho será referência no país e exemplo para outras cidades. Como é possível contatá-los para expedições e trabalhos de conscientização? Hoje nosso principal canal de comunicação e divulgação de nossas atividades é a página no facebook, chamada Rios e Ruas. Quem quiser também pode falar conosco enviando um e-mail para rioseruas@gmail.com


SAIBA MAIS

O GRANDE FEDOR

Foto: http://revoando.com/2015/01/22/memorias-do-velho-mundo-o-rio-tamisa/

O episódio aconteceu no verão de 1858, quando o mau cheiro excessivo causado pela poluição do rio Tâmisa se tornou insuportável em Londres. O parlamento teve que suspender suas reuniões e a família real deixou a cidade durante o caos. Após o acontecimento, os governantes tentaram resolver o problema criando galerias que descarregassem os dejetos londrinos alguns quilômetros abaixo do rio. A tentativa não obteve sucesso e foram projetadas estações de tratamento para as águas do rio, que hoje é utilizado para navegação e conta com mais de 120 espécies de peixes.


EXEMPLOS DE RIOS URBANOS DESPOLUÍDOS

O Sena, em Paris, foi degradado pela poluição industrial e esgoto doméstico. Desde a década de 1920, é alvo de preocupações ambientais, e apenas em 1960 os franceses passaram a investir em sua revitalização, construindo estações de tratamento de esgoto e criando leis que multam fábricas que despejam substâncias nas águas. Além disso, há um incentivo para que agricultores ribeirinhos não o poluam. Atualmente, o rio não está completamente despoluído.

Cheonggyecheon (Seul, Coreia do Sul)

reprodução: urbanriv.org

Tejo (Lisboa, Portugal)

crédito: wikimedia.org

reprodução: Brasil 247

Sena (Paris, França)

O Tejo é o maior rio da Europa ocidental e passou a ser despoluído com a criação da Reserva Natural do Estuário do Tejo, em 2000. A revitalização, que se encerrou em 2012, incluiu obras de saneamento e renovação da rede de distribuição de águas e esgotos, visto que os dejetos eram depositados diretamente nas águas do rio. Foram beneficiados com o projeto 3,6 milhões de habitantes.

Os 5,8 km do rio que corta a metrópole de Seul foram totalmente revitalizados em apenas quatro anos. Seu renascimento começou em julho de 2003, quando o governo da cidade implodiu um viaduto sobre o rio e começou, em paralelo, um grande projeto de nova política de transporte público. Construiu diversos parques lineares, ampliando a quantidade de áreas verdes nas ruas. Hoje ele conta com cascatas, fontes, peixes e é ponto de encontro de crianças e jovens.


SALA DE AULA


CASINHA A intenção é refletir sobre o conceito de morar. Os locais, os espaços, o acolhimento e o sentido que a casa proporciona para cada um.

A Atividade Após uma conversa preliminar sobre as diferentes formas de moradia, exemplificada por meio de imagens de casas em árvores, em rochas ou até mesmo embaixo da terra, os alunos serão convidados a montar suas próprias casinhas. A ideia é usar, para essas pequenas construções, materiais não

estruturados tais como: palha, papelão, pedra, tecido, madeira, folha, sucata, lata, garrafa etc. Uma vez distribuídos pelo espaço da oficina, os materiais podem ser amarrados, colados e empilhados pelos participantes. É importante deixar que o desafio estimule a criatividade, a prática e a reflexão sobre as diferentes formas do morar. No final, sentados ao redor das casinhas os participantes podem apreciar as construções e compartilhar impressões.


ACONTECEU NO MCB


Loja Amma Store

Mostra Cartaz

Mercado Manual

Inaugurada em fevereiro, a nova loja do MCB, Amma Store, é especializada em design contemporâneo brasileiro e oferece criações exclusivas e séries limitadas feitas em parceria com jovens designers e artistas já estabelecidos, além de objetos nacionais e importados criteriosamente escolhidos.

Em celebração aos 30 anos do Prêmio Design, o MCB realizou em maio uma exposição inédita com todos os cartazes enviados no Concurso do Cartaz de 2016. Os visitantes elegeram seu cartaz favorito por votação popular e o escolhido será exposto ao lado dos selecionados pela comissão julgadora na mostra 30º Prêmio Design MCB (a partir de novembro no Museu). Veja o resultado no site www.mcb.org.br

Com o objetivo de valorizar e divulgar o trabalho da comunidade de novos artesãos e incentivar o empreendedorismo e a criatividade, o MCB realiza o Mercado Manual em parceria com a Floristas Produções. Em setembro acontece a 3ª edição do evento.


Divulgação

MCB INDICA

Coletivo Ocupe&Abrace O grupo nasceu da vontade de revitalizar a praça Homero Silva, rebatizada de Praça da Nascente, o maior espaço público verde da Pompeia que abriga muitas nascentes do riacho Água Preta. A cada estação do ano, o coletivo organiza um festival com música, arte, oficinas, encontros

e trocas de conhecimento. A oitava edição do Festival foi dia 26 de junho. O objetivo do grupo é fazer as pessoas se reconectarem com a natureza e as águas, criando um ambiente fértil para interações, onde todos se apropriem do espaço e criem relações afetivas com o local, recriando o sentido de comunidade ao redor da praça.

Local: Praça da Nascente (Praça Homero Silva) Av. Pompéia, 2180 Valor: grátis Mais informações em http://bit.ly/1ZRuEce


Divulgação

Muro expositivo Esporte Clube Pinheiros: “1929 – A enchente que marcou a história de São Paulo” Na quarta edição da exposição nos muros do Esporte Clube Pinheiros (de frente para a avenida Brigadeiro Faria Lima), os painéis trazem imagens e informações sobre a grande enchente ocorrida na região em

1929. A inundação atingiu as várzeas dos rios Pinheiros, Tietê e Tamanduateí, arrancando postes, trilhos de bonde e destruindo casas, pontes e plantações. O acontecimento foi reflexo dos canais construídos para os rios e pela apropriação de suas várzeas para originar áreas habitadas. As imagens fazem parte do acervo fotográfico do Centro PróMemória do Clube.

Local: Esporte Clube Pinheiros Av. Faria Lima, nº 2528 Valor: grátis Mais informações em http://bit.ly/1NSB9DF


Foto: Alisson Ricardo


PROGRAMAÇÃO MCB Antes que acabe Visitação: até 31/7 A exposição revela construções de casas e sobrados, antes típicas na paisagem paulistana e hoje substituídas por altos edifícios. A mostra reúne desenhos do artista plástico e antropólogo João Galera e inicia a série “Desenhando a cidade”, realizada pelo MCB com a proposta de apresentar registros diversos da cidade de São Paulo a partir de uma variedade de trabalhos feitos por artistas, arquitetos e designers, que observam e analisam a cidade e a representam com desenhos, ilustrações e outras composições.

Rio Enquadrado Visitação: até 31/7 A mostra traz 80 trabalhos inéditos de Leonardo Finotti, que se tornou um dos principais fotógrafos brasileiros de arquitetura. As imagens são da cidade do Rio de Janeiro e estão expostas em P&B, permitindo novas descobertas fora do padrão colorido e revelando diferentes aspectos da cidade que se destacam com esse novo olhar.

30º Prêmio Design MCB Inscrições: até 10/8 pelo site mcb.org.br Valor da taxa de inscrição: R$ 80,00 A edição de 30 anos do Prêmio Design MCB recebe criações produzidas ou em protótipos ou nas categorias design de produtos (modalidades construção, transporte, eletroeletrônicos, iluminação, mobiliário, têxteis e utensílios) e trabalho escritos. Os trabalhos premiados e selecionados serão exibidos na exposição do 30º Prêmio Design MCB, em cartaz a partir de 24 de novembro.

Música no MCB Todos os domingos, 11h, grátis O projeto Música no MCB, contínuo desde 1999, já pôde ser visto por mais de 230 mil pessoas, que tiveram acesso gratuito a shows de diversos gêneros musicais. As apresentações acontecem em palco montado no terraço do Museu da Casa Brasileira entre os meses de março e dezembro. Veja a programação no site www.mcb.org.br

Conversas no quintal com Educativo MCB Todos os domingos, 14h, grátis O Educativo MCB convida o público para rodas de conversa no jardim a partir de temas sugeridos pela equipe.


Museu da Casa Brasileira av. brigadeiro faria lima, 2705 - SĂŁo Paulo (11) 3032 3727 | www.mcb.org.br

Boletim professores 3º semestre  
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