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O Diário do Guigas II

MARIA JOÃO LOPO DE CARVALHO

Em Salvaterra, Seguindo a Pena do Gerifalte ilustrações pedro semeano & susana diniz


FICHA TÉCNICA TÍTULO O Diário do Guigas II - Em Salvaterra, Seguindo a Pena do Gerifalte   AUTORA Maria João Lopo de Carvalho   ILUSTRAÇÕES Pedro Semeano & Susana Diniz As ilustrações das páginas 30, 31 e 41 foram inspiradas no Corte do teatro de Salvaterra de Magos, que se encontra na Biblioteca do Museu Nacional de Arte Antiga (D. 1696) e no desenho da Fachada Nascente do Palácio de Salvaterra de Magos de Carlos Mardel (1696-1763), identificado por Aline Gallasch-Hall de Beuvink na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Divisão de Iconografia, cota ARC 35.1.12   EDIÇÃO Câmara Municipal de Salvaterra de Magos   PROJETO Câmara Municipal de Salvaterra de Magos   REVISÃO Modocromia, Lda.   IMPRESSÃO Palmigráfica - Artes Gráficas, Lda.   ISBN: 978-989-8601-94-0 DEPÓSITO LEGAL: 397969/15 TIRAGEM: 2000 exemplares 1.ª Edição: Setembro 2016   Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor.


Depois do sucesso de Diário do Guigas I — Falcões Mágicos em Salvaterra — a história do nosso Concelho inspira um novo volume, escrito pela conceituada autora Maria João Lopo de Carvalho e ilustrado por Pedro Semeano e Susana Diniz. Guigas e Henrique vivem novas peripécias, através dos poderes mágicos da pena de um falcão, permitindo-nos viver momentos emocionantes, como um atribulado encontro com o Infante D. Luís, uma visita à Capela e à Falcoaria Reais ou a estreia do Real Teatro de Salvaterra. Desejo-vos uma ótima leitura, que se divirtam com este encontro entre o passado e o presente e que com este livro fiquem a conhecer um pouco melhor o nosso património, na expetativa que através de vocês, caros leitores, a história e as memórias do nosso concelho se mantenham vivas.

O Presidente da Câmara Municipal Hélder Manuel Esménio


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Diário do Guigas  

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Tenho de confessar, ainda que até com a minha almofada me custe desabafar, Beatriz, a princesa Beatriz, enfeitiçou-me e eu acredito que também lhe tenha causado boa impressão. Os rapazes com estilo percebem logo quando uma miúda lhes acha piada, e foi esse o caso. O problema é o Henrique ter sempre razão; ela morreu há quase 700 anos e é uma pena não a tornar a ver. Tenho de confiar no destino. Por falar em pena… Quem me conhece sabe que não sou pessoa de desistir facilmente. Depois de ter sido levado ao passado, atravessando um túnel que começa na biblioteca municipal, tudo pode acontecer. Tudo menos uma coisa, deixar o gerifalte branco em paz. Tenho a pena comigo escondida por debaixo do colchão da cama. Só preciso de me deixar guiar sem nunca ter medo. É claro que «medo» é uma palavra que desconheço. Nasci sem que esse sentimento tivesse sido instalado no meu cérebro, por isso sou capaz de quase tudo, o que é uma qualidade que as raparigas apreciam. Mal pulei da cama para fora levantei a ponta do colchão e certifiquei-me de que lá estava a «pena mágica» bem quietinha, quase tão adormecida como eu. Acordei-a, peguei nela e vesti-me a correr para não chegar atrasado ao encontro que tinha marcado com o Henrique, em frente à Capela Real. O que eu não esperava era que aquele domingo fosse o princípio da maior aventura que até hoje vivi. Só de me lembrar tremo tanto como a gelatina que a minha avó faz para a sobremesa.


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— Guigassssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss!!! O Henrique bem gritava mas já nada havia a fazer. Duas enormes águias-reais tinham pegado no Guigas, uma em cada braço elevando-o às alturas. Voavam tão rápido como os carrinhos da montanha russa. Claro que o Guigas, com a pressa com que levantou voo, deixou cair a pena mas, ainda assim, conseguiu raciocinar: estando o Henrique lá em baixo certamente a teria apanhado e, cauteloso como era, não a ia perder. O pior, o pior de tudo era a velocidade com que as águias levavam o Guigas pelos ares porém, quando se apercebeu que não estava sozinho, a coisa mudou de figura. Algo de muito estranho se passava em Salvaterra: parecia que todas as aves da falcoaria se tinham transformado em drones ou aves-transportadoras de gente, ou melhor em aviaves, uma mistura de aviões com aves. Cada duas aves transportava alguém pelos ares, até mesmo a D. Alice da biblioteca que, para além de ser mais pesada do que um saco de batatas, ia a espernear tanto que quase desequilibrava os falcões peregrinos que a transportavam. O Guigas viu também a professora de português, o diretor da escola, o Presidente da Câmara, todos eles sobrevoavam a vila conduzidos por açores, gaviões, falcões e águias em círculos e mais círculos que o Guigas até estranhou como não chocavam uns com os outros. Por mais que o Guigas olhasse para os lados e para baixo tentando evitar as vertigens, não conseguia perceber se o Henrique também andava pelos ares ou se tinha ficado em terra, nem a estranha razão para que todas as aves tivessem escapado da falcoaria e andassem ali a transportar os habitantes de Salvaterra pelos céus, sem destino. Foi nessa altura, quando as duas águias fizeram um voo rasante


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à Capela Real que, o Guigas ouviu o Henrique, a acenar com a pena mágica, gritando para os céus: — Chama por D. Luís, chama por D. Luís! O Guigas não percebeu porque haveria de chamar por D. Luís como se algum «Dom» o pudesse salvar daquele voo picado. Luíses conhecia muitos, não fazia ideia nenhuma de quem seria este, mas lá seguiu o conselho do seu amigo, o melhor aluno da turma, que, como não podia deixar de ser, trazia a Henricopédia sempre ligada. Depois de, obedientemente ter gritado três vezes «D. Luís, D. Luís, D. Luís», as duas águias que o levavam pelo ar forçaram uma aterragem abrupta como um carro que circulando a 200 km à hora decide travar de repente. O Guigas caiu no chão de pedra mas pôs-se logo de pé, apesar de se sentir totalmente zonzo. Sacudiu as roupas e alisou o cabelo que mais parecia ter levado um choque elétrico de tão espetado que estava. Apesar de atordoado percebeu que tinha à sua frente um homem enorme com um ar zangado. Vendo bem, parecia-lhe um homem nobre, um fidalgo a chispar fúria pelos olhos. Do Henrique, nem sombra. Estava portanto sozinho, numa espécie de prisão, com um estranho ser, de um estranho tempo passado e sem vestígios da pena, nem da Salvaterra que tão bem conhecia, nem dos pais, nem da sua casa, nem mesmo do Henrique. — Quem és tu criatura? — Eu, eu, eu… sou o Guigas e… — Isso não é nome de gente — rugiu o fidalgo — és um intruso vou ter de te mandar matar, mas como és moço pequeno e esquisito dou-te duas hipóteses: queres a vida ou a morte?


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O Guigas tremia de tão assarapantado e, pela primeira vez, achou que podia ter sido atingido por algo parecido com o medo. — Es-es-es-colho a vida! — gaguejou. — Isso não é assim tão simples, rapazinho, se escolhes a vida tens de responder a três perguntas. Se errares mando-te cortar uma orelha. — Ao lado do homem estavam dois soldados mal-encarados com as espadas de lâminas afiadas, desembainhadas, apontando para o Guigas. — Primeira pergunta: quem soltou os falcões e as águias da minha falcoaria? O Guigas não sabia o que responder. Era impossível saber quem soltara os falcões naquele tempo remoto. Nem sequer sabia como fora possível, no século XXI, que os falcões fugissem todos da falcoaria e, mais impossível ainda, que conseguissem transportar pessoas pelos ares até ao tempo passado. — Foi o terramoto de 1531! — ocorreu-lhe lembrando-se de repente de ter estudado acerca de um grande terramoto que houve por essa altura em Salvaterra. — Acertaste! Tens uma segunda vida. — Yes! Deixou o Guigas escapar. — Quantas divisões tem este meu palácio real? — estou tramado! — Sei lá — pensou — o palácio já nem existe… O pobre rapaz batia os dentes uns nos outros com tanta força e tanto ruído que tomou aquilo por um sinal. Lembrou-se então que na boca tinha vinte dentes, por isso arriscou: — Vinte divisões.


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— És bruxo, rapaz — admirou-se o fidalgo, soltando uma poderosa gargalhada. — Neste reino quem é bruxo vai preso, torturado, queimado vivo… O Guigas tremia tanto que lhe apetecia rir e chorar ao mesmo tempo. — E a terceira pergunta: Quem sou eu? Se não souberes esta corto-te uma orelha, talvez as duas, e ainda te sujeito a mais três perguntas difíceis. O Guigas estava quase em pânico. Acertara já em duas perguntas e nem assim o fidalgo o deixava em paz? Não fazia a menor ideia, nunca tinha visto aquele homem, não suponha sequer em que época estava. Lembrava-se apenas de ter ouvido o Henrique dizer-lhe para chamar por D. Luís, e disparou: — D. Luís. — Os títulos! — gritou o fidalgo. — D. Luís qualquer coisa, qualquer coisa… já não me lembro. O homem bufava de ansiedade e o Guigas sentia-se perdido. — Já foste! Não é D. Luís coisa nenhuma — pensou vou morrer! — Pois bem, como me pareces moço corajoso vou-te conceder uma mercê. Antes de ficares sem orelha podes pedir a ajuda de alguém que saiba mais do que tu a meu respeito. — Posso pedir ao Henrique? — perguntou o Guigas. — Quero pedir a ajuda do meu amigo Henrique. — Pois que seja, boa sorte! O fidalgo fez estalar os dedos e dois falcões peregrinos entraram pela janela e pousaram o assustado Henrique no chão, ao lado do amigo.


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— Henrique! por favor não faças perguntas! Diz-me depressa o nome todo deste senhor aqui. Será D. Luís? D. Luís e mais quê? O Henrique fez rolar os olhos nas órbitras como se fossem berlindes, e sem uma hesitação recitou: — D. Luís de Portugal quarto filho do Rei D. Manuel I de Portugal e da infanta espanhola D. Maria de Aragão; 5.º Duque de Beja, 5.º Senhor de Moura e Senhor de Salvaterra de Magos; 9.º Condestável de Portugal e Prior da Ordem Militar de S. João de Jerusalém. — Pára! — ordenou D. Luís — quem tem de dizer é este moço de cabelo cor de fogo e não tu, gordinho. E o Guigas, gaguejando, repetiu: — 5.º Duque de Beja, 5.º Senhor de Moura e Senhor de Salvaterra de Magos; 9.º Condestável de Portugal e Prior da Ordem Militar de S. João de Jerusalém. — Muito bem, a tua ajuda salvou-te. E já agora ficam a saber que foi o meu irmão, D. João III que pediu a D. Fradique Manuel que me cedesse o senhorio desta vila. Sou dono disto tudo, por isso, respeitinho! Fui eu que contratei o mestre Miguel de Arruda para fazer as obras neste paço que, de outra forma, ficava em ruínas, fui eu que mandei reconstruir a Capela Real e o convento do Jenicó aqui mesmo ao lado, próximo da falcoaria. Passo grandes temporadas no convento, afastado do luxo do palácio que tanto me enfastia — e, voltando-se para os soldados, acrescentou: — Levem estes donzéis para os melhores aposentos do paço, façam-nos descansar até à hora da ceia.


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Sem mais nada ordenar saiu, batendo ruidosamente com as botas no chão, deixando os dois amigos tão espantados que uma mosca distraída entrou pela boca do Guigas adentro. O desatento Guigas não estava a perceber nada de nada. Afinal por quantas mãos passara Salvaterra? O Henrique, vendo-o tão atrapalhado a contar pelos dedos, veio logo dar uma ajuda: — É canja! Estive com atenção às aulas de História e sei tudo na ponta da língua: D. Manuel, o rei que tanto fez pelos descobrimentos portugueses, deu novo foral a Salvaterra. — Espera, vai mais devagar! Isso foi em que ano? — 1517, então não sabes? O livro com a carta de foral estava na Exposição Salvaterra de Magos: «Memórias de uma Vila Real!» És um cabeça no ar! Fomos à falcoaria ver a exposição com a escola, não te lembras? Este novo foral foi dado a Salvaterra embora o senhorio pertencesse ainda a um neto do Rei D. Duarte chamado D. Nuno Manuel. Dele passou para o filho mais velho, D. Fradique Manuel, e depois para D. Luís. — Espera, que mega confusão! D. Duarte era o pai; D. Manuel, o filho; D. João III, o neto; e D. Luís vem a ser um dos irmãos de D. João III, certo? — Bingo! Acertaste em tudo, estás alto cromo, passaste ao nível de dificuldade seguinte! — elogiou o Henrique puxando o amigo por um braço.


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Diário do Guigas   Feito parvo e de barriga cheia com a super abundância de uma ceia gourmet em que exagerei nos faisões estufados, nas perdizes, no coelho, nos doces de ovos e nas frutas em calda, esqueci-me de perguntar a esse tal D. Luís pela minha princesa Beatriz. Como sempre, o Henrique que trazia a lição bem estudada e a pena mágica bem presa ao cinto, explicou-me tudo: o dono deste Palácio Real, o infante D. Luís, vinha seis gerações depois de D. Beatriz. Perdi as esperanças e fiquei triste, está claro, tantos anos passados e ainda que eu tivesse recuado até muito tempo atrás não havia, por aqui, nenhum sinal da minha linda princesa Beatriz. Depois de todo aquele arriscado voo, nada da menina que me encantara. Que remédio senão deitar-me a descansar aqui, nesta alta cama de dossel, esperando que alguma águia-real nos viesse buscar, voando connosco até ao tempo presente. O Henrique estava verdadeiramente apavorado. Os pais iriam dar por falta dele; a noite já ia alta e não havia meio de aparecerem os gerifaltes para nos levarem de regresso a casa. Eu, na verdade, estava-me marimbando. Era óbvio que não nos era possível mandar mensagens pelo telemóvel, aliás fui logo ver se tinha rede. Como se esperava, os aparelhos estavam «fora de serviço». Não tínhamos alternativa e pior, lá fora chovia a potes, parecia que as nuvens todas do reino tinham desabado sobre o Palácio Real. O que se passou não sei, apenas ouvi uma estranha agitação aos primeiros alvores do dia. Acordei o Henrique mesmo a tempo, pois que um pajem entrou nos nossos aposentos aos gritos. Tínhamos de nos equipar, D. Luís queria que o acompanhássemos à caçada real na coutada de Magos. Vestimo-nos à pressa e, ao olhar pela janela, apercebemo-nos de


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que em redor do palácio e do convento havia um enorme lago, tão grande que só era transponível por barco. O Henrique coçou a cabeça e avisou-me logo que estávamos tramados. As cheias quando vinham, vinham para ficar. E eu bem sabia que era assim: ainda agora, no tempo presente, muitas vezes a vila fica toda alagada com a subida das águas do rio; mas tanta água formando um lago tão gigantesco eu nunca tinha visto. Vesti uma camisa e umas bragas, uma espécie de calças que o pajem nos trouxe, calcei as botas e pus uma gorra. Parecíamos ridículos, mascarados de meninos antigos. O Henrique estava tão cómico com as roupas muito justas que tive um ataque de riso. Mas a vontade de rir passou-me mal me vi em apuros para descobrir a porta de saída do paço. Tudo aquilo era um perfeito labirinto. Só então percebi, olhando para um livro forrado a carneira que se achava num pedestal ao fundo do corredor, que estávamos em 1542. No edifício do palácio havia três pisos que comunicavam com dois outros edifícios laterais. Descemos a escadaria a correr, passámos o claustro, cruzamos um dos vários arcos que davam para a rua, melhor para o lago, onde uma quantidade de marqueses, condes, viscondes, pajens, escudeiros, batedores, moços de cavalaria e de estrebaria estavam já dentro da barca prontos a ser transportados para terra firme. A pessoa mais importante de todas, o monteiro-mor, tinha um ar tão zangado que nos congelou. Todos estavam impacientes à nossa espera, até mesmo os músicos, de clarim em punho. Foi curto o caminho, felizmente, pois os olhares que nos


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lançavam eram tudo menos simpáticos. Transposto o lago, cada um de nós teve direito a um cavalo. D. Luís já tinha ouvido a missa e já se achava montado no seu alazão. Ao seu lado reparámos em três falcoeiros também já montados nos seus cavalos, levando os falcões e os açores em gaiolas. Mas o nosso maior espanto foi o mestre-falcoeiro. Vinha todo ele muito imponente em vermelho e, preso à luva de pele de corça, vinha nem mais nem menos do que o nosso amigo gerifalte branco. A caçada prometia…

— Vamos, despachem-se! — gritou D. Luís sem sequer se aperceber que eu e o Henrique estávamos cheios de fome pois desde que nos levantámos, nada ainda tínhamos trincado. — Pelo menos venham a galope, pode ser? — Sim, senhor! — respondeu o Guigas sem imaginar que o Henrique jamais tivesse montado um cavalo na vida. Obedientes, os cavalos puseram-se a trotar e, do trote, passaram ao galope e assim galopando, cobertos de espuma, foram cruzando a ponte do campo, seguindo pelo interior do bosque até à coutada real. Eram dez cavalos e dezenas de homens a pé que acompanhavam a real comitiva, seguidos por uma matilha de perdigueiros e galgos. À medida que avançavam, o Guigas ia olhando para o pobre Henrique que mais parecia um saco de batatas a escorregar pela sela abaixo. Mordia os lábios e pareceu-lhe que estava a chorar mas como o cavalo do Henrique se atrasou, o Guigas ultrapassou-o e deixou de


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o ver. Enfim chegados ao destino, o Henrique apeou-se todo a tremer, jurando nunca mais tornar a montar nenhum cavalo do século XVI. Já na coutada real, sãos e salvos, encheram a boca de bagas silvestres e raízes de flores muito azedas que era o que ali havia para matar a fome e puderam então assistir à cena mais estranha que se possa imaginar. As aves de caça eram tão ágeis e rápidas a trazer as presas e a pô-las aos pés de D. Luís que os dois amigos estavam boquiabertos. A um sinal do monteiro-mor o mestre falcoeiro largou o falcão que levantou voo da luva a uma velocidade indizível e depois de se erguer nas alturas desceu a pique sobre a lebre dando-lhe duas bicadas mortais, após as quais os galgos a abocanharam. Em menos de nada, lá caía outra lebre, pombo, pato, faisão, todos condenados ao mesmo destino: as garras afiadas e os bicos mortais das aves caçadoras. O Henrique gostava mais das aves de voo baixo, adorava seguir a trajetória reta dos gaviões e açores entre a luva do açoreiro e o melro ou o coelho que perseguiam. E ainda havia os perdigueiros a ladrarem à desfilada e a lançarem-se, também eles, sobre a presa mal a viam caída por terra. Assistir em campo aberto a este espetáculo ao vivo era mesmo muito divertido e nada tinha a ver com os treinos que o pai do Guigas fazia todos os dias. — Olha ali! Que bem comportado está o nosso gerifalte na luva do mestre! — reparou o Henrique. — Até parece que nos está a reconhecer. Os dois amigos largaram uma sonora gargalhada, imaginando uma ave que, para além de ter superpoderes, era capaz de reconhecer dois rapazinhos perdidos num tempo passado.


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— Já viste como tudo aqui à volta é tão diferente do nosso tempo? Não há edifícios, nem postes de eletricidade, nem tratores, nem carros. Não fossem os cavalos eu ficava aqui a viver — suspirou o Henrique — o pior é a população odiar este privilégio. Só alguns nobres e a família real podem caçar aqui. — A sério? Como sabes tu isso? — Ora, como hei-de eu saber, estudando! Houve bronca das grandes, pois as pessoas aqui de Salvaterra e os vizinhos foram, já há muitos anos, proibidos de caçar nas coutadas reais, e ficaram furibundos. Nem coelhos, nem javalis, nem porcos-monteses, nem raposas, nem lobos; tudo o que por aqui dá pelo nome de «ser vivo» é só para divertimento e manjar dos reis, dos seus familiares e amigos, ou seja tudo para a Nobreza. — Mas isso é injusto! — Super, mega injusto! Para uns tudo, para outros, para os mais pobres, nada. Foram precisos muitos séculos para as coisas mudarem. — Glups… não me contes mais, prefiro não saber — pediu o Guigas tapando os ouvidos com as mãos e pondo-se a olhar para o outro lado. O que viu deixou-o de respiração cortada: O gerifalte fora colocado num banco improvisado não longe dali, o que lhes permitiu olhar para a ave com olhos de ver. E, estranheza total, de cada vez que batia as asas e as abria em toda a sua extensão projetava imagens como num écran de ipad. Eram imagens precisas e nítidas, a cores e em 3D, imagens do século XXI. Nesse momento transmitia um vídeo como se fosse do youtube, mais precisamente um vídeo de uma visita de estudo àquele mesmo local mas, claro, no século XXI. Os dois amigos reconheceram todos os colegas. Andavam por ali com


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a professora de História e até conseguiam ouvir tim-tim por tim-tim as explicações que a professora dava. — Aqui onde estamos foi em tempos a coutada real. D. Luís veio depois a morrer no dia 27 de novembro de 1555 — distraídos como estavam a assistir à projeção do estranho vídeo num estranhíssimo écran, nem se aperceberam que à medida que o vídeo ia correndo, o gerifalte ia ficando cada vez mais depenado. Cada um dos nobres, dos mestres, dos falcoeiros, dos pajens e dos criados que ali estavam ia sendo presenteado com uma pena branca do gerifalte que, suavemente, lhes pousava na palma da mão. — Já viste bem? O que vem a ser isto? — perguntou o Guigas quando, por um sem motivo, desviou os olhos do gerifalte. Uns e outros olhavam para a respetiva pena com uma cara tão espantada que chegava a ser cómico de ver. Aproximando-se, viram o que lhes parecia ser o cúmulo do absurdo: em cada pena estava escrita uma data: «1542, maio, 26, 10 horas 25 minutos e 4 segundos.» Noutra dizia: «1550, 1 de janeiro, 23 horas 27 minutos e 59 segundos» e na pena que aterrou na mão de D. Luís dizia exatamente o ano, o dia e a hora em que D. Luís iria morrer. O Guigas e o Henrique gelaram. — Já viste isto? Que cena macabra! Preso ao seu banco o gerifalte estava quase pele e osso, como se uma súbita rabanada de vento lhe tivesse levado as penas todas, cada uma delas com a sua data diferente. É claro que ninguém percebeu, nem podia perceber o que queriam dizer aqueles números inscritos na respetiva pena. O Henrique, tomado de curiosidade, deu uma rápida olhadela à pena mágica que


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ainda trazia presa ao cinto, conferindo que não havia ali imprimida, qualquer data assustadora, e assim era. A pena estava no seu lugar e totalmente branca. Respirou aliviado. — Explica lá tu este enigma a D. Luís, Henrique, eu não sou capaz, livra! — Chiiiiiii! Eu também não tenho coragem, Guigas, já viste coisa mais horrorosa? Era como se tu e eu recebêssemos uma mensagem no telemóvel, ou na nossa pena mágica, a dizer quantos anos, dias, minutos e segundos de vida nos faltavam… Felizmente não aconteceu; eu cá preferia não saber. Mas D. Luís estava impaciente. — Ei moços, podem dizer-me o que significa esta data? — Bem… a data — mentiu o Guigas — quer dizer que se não voltarmos ao nosso tempo, vossa senhoria vai finar-se nesse dia que aí diz, ou seja, daqui por treze anos. D. Luís explodiu de fúria. — Como sabem vocês isso? — Ora, senhor, nós não somos daqui e é assim que as coisas funcionam, no tempo futuro, de onde nós viemos. — Querem vocês dizer que eu vou finar-me em 1555 e só me restam treze anos para me divertir, para caçar, para namorar, para ter filhos? — Nem mais, senhor, a não ser que… — O quê? Digam depressa, não tenho tempo a perder. — Que arranje forma de nos mandar de regresso ao futuro. — Mas isso é impossível, vocês vieram pelos ares trazidos pelos falcões e foi coisa que aconteceu por magia, nada fiz por isso.


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— Não sei, senhor — avisou o Henrique — mas algo tem de ser feito até porque os nossos pais estão preocupados… Já devíamos ter voltado a casa. Instalou-se logo ali um pé-de-vento entre todos os fidalgos da caçada real. O que cada um tinha escrito na pena era a data da respetiva morte? Seriam os rapazes feiticeiros? Não seria melhor enforcarem-nos? Mas não foi preciso esperarem muito: o gerifalte branco, totalmente depenado, soltou um estranho e agudo piar e imediatamente dez outros gerifaltes apareceram do nada sobrevoando os céus da coutada real. Três levaram o Henrique pelos ares e outros dois levaram o Guigas. Olhando para terra viram com precisão o «filme» a ser rebobinado e a correr de trás para a frente. As penas saltavam das mãos das pessoas e iam sendo recolocadas no corpo do gerifalte, que, por sua vez, se sacudia, feliz, ao ver que recuperara toda a sua linda plumagem branca. Algures no tempo futuro, terminara a visita de estudo e, mal a professora desligara o ipad, as coisas regressaram à normalidade. Levadas por uma forte aragem, as datas apagaram-se, as penas voaram e tudo voltou a ser como antes. Segundo o Henrique, que mais tarde pesquisara sobre o estranho acontecimento, todos eles se esqueceram do dia e da hora em que cada um iria morrer e puderam levar as suas vidas normalmente como se nada tivesse acontecido. Só o Guigas e o Henrique elevados às alturas, conduzidos pelos gerifaltes, andavam à roda à roda mas, lá em baixo a paisagem era a mesma ou quase… nem um só indício de que tivessem regressado à Salvaterra do século XXI.


Diário do Guigas  

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Aquilo não me parecia possível mas no entanto acontecera comigo e com o Henrique, os gerifaltes pousaram-nos à porta de um gigantesco teatro, ou melhor, à porta da Casa da Ópera de Salvaterra e logo em dia de estreia. Sacudi-me como pude, mas o que se passara no ar eu não me dera conta pois que todo eu estava enfiado nuns calções e numa camisa de golas e pior do que tudo, tinha enfiada na cabeça uma peruca cheia de canudos, tipo marquês de Pombal, e o Henrique estava nos mesmos preparos. Fiquei cheio de medo percebendo que tínhamos avançado mais uns anos e que os gerifaltes pareciam capazes de nos continuar a arrastar pelos céus, aos trambolhões de século para século como se percorressem o planeta com maior velocidade do que as 24 horas do dia. O problema era não sabermos tirar a medida certa ao tempo. A quantos anos equivalia cada viagem? Um século de voo significava 100 anos? 100 horas? Quantas horas das nossas, do século XXI? Como iria eu explicar tudo isto? Que mais mistérios nos esperariam?


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Já pouco ou nada os podia espantar. Mas aquilo? Aquilo fora absolutamente inimaginável. O Henrique ao sacudir-se percebeu que dentro dos seus calções e coladinho à pena mágica estava um telemóvel muito estranho quase sem teclas e com um ecrã que se moldava: esticava, encolhia, alargava, adelgaçava. Parecia feito de plasticina. — Onde estamos? — Não faço a mínima — respondeu o Henrique apalermado — nem sei como isto veio aqui parar. O rapaz olhava muito intrigado para o aparelho, para os calções, para o cabeleira do Guigas. Nada fazia sentido. — Ei vocês aí! Não me estão a ver? — gritava alguém, parecendo que a voz vinha do fundo de um poço. O Guigas e o Henrique olharam à volta mas só havia por ali uma data de adultos a chegarem de carruagem. Todos eles tinham perucas e fatos cintilantes; as senhoras traziam enormes saias rodadas muito enfeitadas, e corpetes tão justos que quase as estrangulavam. Não havia uma única criança, excluindo eles os dois. No entanto aquela voz que ali ouviam, tão próxima, era de uma menina e parecia-lhes familiar. — Estou aqui, parvos! — gritava a voz, num tom já bastante agudo e esganiçado. Foi só nessa altura que os rapazes perceberam que a dita voz vinha do telemóvel. — Beatriz! — exclamaram os dois, em coro, espantadíssimos por a verem aparecer, sorrindo, no visor do aparelho.


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— Princesa Beatriz! Sim, haja respeitinho! Lá por eu ser muito à frente, ainda sou uma Princesa real, ouviram? — Sim, desculpa… mas estás no Skype, porquê e como? E que roupa é essa que parece toda feita de nuvens ou de algodão? — Skype? O que é lá isso? O Guigas sentia-se a levitar, a flutuar. Finalmente reencontrara Beatriz. Estava ali, à sua frente, só temia que pudesse fugir, desparecer, apagar-se como sempre acontecia… e aquilo de não a poder abraçar ainda o irritava mais. O que lhe podia valer uma princesa do século XIV se não a podia abraçar? — Como dizes? Não me podes abraçar? — perguntou a Princesa Beatriz. — Tu lês os meus pensamentos? — Claro que leio, Guigas, eu venho do século XIV! — Dahhhhh! Boa piada! No século XIV não há tecnologia. — Isso é o que tu julgas. Vocês conheceram-me no século XIV a contar do princípio dos tempos, a contar do ano em que Jesus nasceu e eu agora mudei-me para o século XIV a contar do fim, do fim do mundo! Cada vez percebiam menos, mas Beatriz foi rápida a suplicar: — Vá lá, Guigas, abraça-me! Depois eu explico-te! — Abraço-te? Como? — perguntou o Guigas, não acreditando que aquilo fosse mais do que um sonho. — Tocas aqui e abraça-me! Despacha-te! — ralhou — não tenho todo o tempo do mundo. O Henrique estendeu o telemóvel ao Guigas mas a sua expressão mais parecia a de um ponto de interrogação de tão pálido e aflito.


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— Abraça-me, de que é que estás à espera? Ou será que tens medo de mim? O Guigas com os dedos a tremer não teve outra alternativa se não tocar no visor e, ao fazê-lo, imediatamente sentiu que dois braços se moldavam aos seus e que, sem saber como, entrara no abraço da «sua» Princesa Beatriz. E foi um abraço tão forte que lhe cortou a respiração. Era verdade, Beatriz tinha-o abraçado, tinha lido os seus pensamentos e, fosse como fosse, a sensação do abraço tinha acontecido de verdade. — Agora explica-me — pediu o Guigas com a voz a tremer — o que é isso do século XIV a contar do fim? Tarde de mais. Logo depois do abraço apareceu uma mensagem no visor «chamada 15D – OFFLINE por interferência do gerifalte branco.» — Lê isto — pediu o Guigas, passando o telemóvel ao Henrique — está tudo louco! — Loucos, loucos são vocês, donzéis! A ópera está a começar, é hoje a estreia, não vêm? Finalmente chegou o tão esperado dia 21 de janeiro de 1753; façam o favor de entrar! O vosso lugar é cerca do camarote real, onde já está o almoxarife — indicou um dos pajens empurrando-os para o interior do edifício. — O que é isso de Almoxarife? — perguntou o Guigas — onde é que estamos? — Não sei nada. Só sei que o Almoxarife é quem manda! O que prova que a nossa santa terrinha é muito importante. É o Almoxarife


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que tem a seu cargo a cobrança de impostos e de rendas das terras, assim tipo ministro das finanças de Salvaterra, estás a topar? Ainda hoje existe a casa do Almoxarife, já lá fomos, não te lembras? — Ahhhhhh agora já percebi! Sempre pensei que Almoxarife vinha de xerife, de polícia! — És mesmo a anedota em pessoa, Guigas! — disse o Henrique soltando uma gargalhada. Pelo que ali viam estavam no tempo de El-Rei D. José e do marquês de Pombal: no século XVIII, no século das luzes, pelo menos foi isso que o Henrique segredou ao Guigas. — É muito fixe este século das luzes ou do iluminismo. De França vieram novos pensamentos, acenderam-se luzes na cabeça dos intelectuais, luzes arejadas e luxo! É caso para se dizer: viva o luxo! — Iluminismo? Nunca tal ouvi! — Se prestasses atenção, sabias! Foi assim um movimento cultural contra a Igreja e contra o Estado. Queriam mudar a sociedade através do conhecimento dos antigos e da natureza. A ideia deles era que a natureza fosse útil ao homem. Lembro-me por exemplo de Newton, dos enciclopedistas… — Tu é que és uma enciclopédia iluminada, Henrique! «The show must go on!» Acendam-se as luzes, suba o pano! — gozou o Guigas, divertido, piscando o olho ao Henrique. — Que mais nos estará para acontecer neste luxuoso século das luzes???


Diário do Guigas  

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E era realmente muito estranho! Íamos assistir à estreia de uma sumptuosa ópera chamada Didone Abandonata. Pelo que li no programa parecia-me uma seca: um drama de quatro horas escrito por Metastásio em 1724, representado por cantores e atores italianos para assinalar a estreia deste Real Teatro de Salvaterra de Magos, também chamado Casa da Ópera. Olhei para todos os lados, quase a sufocar, em virtude da peruca com rabo-de-cavalo e laçarote de seda preta que me comprimia as têmporas, da casaca bordada, do colete todo abotoado de cima abaixo, dos calções de veludo, das meias brancas, do lenço de voltas à roda do pescoço. E pior, mal me conseguia equilibrar nos sapatos de fivela. Se a palavra ridículo tinha um sinónimo, esse sinónimo era «Guigas». O teatro estava cheio, a abarrotar. Pelo menos 500 pessoas encontravam-se ali dentro, espalhadas pelas três filas de camarotes de primeira. Ao fundo do anfiteatro havia ainda uma galeria com mais camarotes. Este gigantesco anfiteatro em tons cinza, rosa e amarelo estava coberto por um reposteiro de franjas, apoiado em pilares, como se fosse uma tenda. Parece que foi D. José I que, não se satisfazendo com as grandes obras de remodelação no paço real e do novo picadeiro, decidiu mandar construir este superluxuoso teatro. Para além da caça havia assim uma nova distração para a Corte quando aqui viesse passar os meses de janeiro e fevereiro. Mas naquela altura eu já nada tinha por certo, estava totalmente baralhado, quase em curto-circuito. O que percebi é que a vila de Salvaterra chegara a D. José I por herança, voltara a mudar de dono: depois do infante D. Luís morrer herdou-a o filho, D. António prior do Crato,


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e depois D. Sebastião, o sobrinho neto que despareceu na batalha de Alcácer Quibir e que dizem que ainda há-de voltar, montado num cavalo branco, num dia de nevoeiro. Depois pertenceu aos três reis de Espanha e voltou em 1640 às mãos portuguesas dos Bragança. O que tive por certo foi termos aterrado em dia de inauguração da Casa da Ópera, em 1753, no tempo em que Salvaterra era a capital cultural do reino, no tempo em que Carlos Mardel viera da Hungria e Giovanni Bibiena de Itália, reconstruir, ampliar, modificar tudo e até mesmo fazer de raiz a nossa Falcoaria Real. O melhor seria preparar-me para o pior. Quando nos sentámos ainda o reposteiro em veludo vermelho estava corrido, e logo a henricopédia veio explicar-me que também fora o dito italiano, com nome de jogador de futebol, Giovanni Bibiena, que fizera tudo aquilo: o edifício, os cenários, os desenhos. Estávamos nós em animada conversa, quando vimos o Rei chegar ao camarote mais importante, mesmo à frente do palco, sinal de que o espetáculo mais secante de que tenho memória, ia começar. Alguém com cara de Rei sentara-se num cadeirão pomposo e, ao seu lado, disse-me o Henrique pois que eu nada sabia, nem sei, acerca da família real, estava o infante D. Pedro seu irmão e futuro genro e à sua esquerda a filha, D. Maria, Princesa do Brasil, e outras três princesas suas irmãs, para além das várias damas da Corte. O Henrique veio-me logo explicar que a princesa do Brasil havia de reinar como D. Maria I, sucedendo ao pai e tinha um nome curioso: Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança. «O quê?» pasmei eu «nem sequer consigo decorar.» O Henrique torcia-se de gozo, enquanto repetia aquela lengalenga ao meu ouvido: «Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança», toda


a nossa terra tem uma mesma assinatura «dinastia de Bragança». Mas havia ali naquela sequência qualquer coisa que me parecia familiar… Estranhamente eram os nomes de todas as oito meninas da nossa turma: «Maria, Francisca, Isabel, Josefa, Antónia, Gertrudes, Rita e Joana só não eram de Bragança, mas de Salvaterra de Magos!» Tentando esquecer esta estranha coincidência, pus-me a contar os músicos que afinavam os instrumentos no fosso da orquestra. Tinham todos eles vindo de bergantim, puxado, rio acima por setenta e oito remadores, sempre atrás do rei até ao cais da Vala Real, onde fundeavam os barcos. Eram trinta instrumentos entre violinos, harpas, flautas, oboés. Soube depois que os músicos eram os mesmos que tocavam na Ópera do Tejo, em Lisboa. Se a Corte se deslocava para Salvaterra, os músicos seguiam a Corte. Às dez horas da noite, em ponto, começaram então as cantorias em italiano. A mim aqueles cantores esganiçados mais me pareciam uns melros ou uns rouxinóis, desafinados, que isto de sopranos e tenores é coisa que só o Henrique entende. 39


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— Foge! Foge o mais depressa que puderes! Um estrondo medonho crescia cada vez mais, parecia vindo do fundo da terra. — Onde estamos, Henrique? Tens ideia? — Não sei, como querias que soubesse? Algo me diz que isto é um terramoto. — Mas então em que tempo estamos? — A tempo de fugir a sete pés, Guigas! Olhando em redor perceberam que estavam na falcoaria, num outro tempo igualmente passado, um tempo qualquer em que todos os falcões tinham desaparecido dali. — Estamos na falcoaria! — gritou o Guigas — Estamos salvos! — Eu não gritaria por vitória! De certeza que esta falcoaria não é a nossa. O ruído era pavoroso e sacudia tudo de um lado para o outro. Foram três longos minutos em que o edifício da falcoaria tremia tanto como os esqueletos dos dois amigos. Ao longe ouvia-se um outro estrondo seco e abafado. Eram as casas a desmoronarem-se. A vila parecia cair como um baralho de cartas: caíam telhados, ruíam paredes, abriam-se buracos no chão. — Espera… — pediu o Henrique — estás a ver ali no pátio um senhor agachado a proteger a cabeça com os braços? Deve ser o falcoeiro. Vou lá perguntar-lhe em que ano estamos. Mal o ruído abrandou, sentindo ainda o chão a mover-se e a terra a fugir debaixo dos pés, o Henrique deu uma corrida até ao


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pátio central onde os bancos dos falcões se encontravam todos vazios. Abeirando-se do pobre e assutado falcoeiro perguntou: — Por favor, mestre, nós estamos perdidos, que dia é hoje? O falcoeiro olhou para ele com uma expressão tão espantada que o Henrique percebeu imediatamente que aquela fora a pergunta mais estúpida que alguma vez fizera. — De onde vieram vossemecês, moços? — Nós… nós somos daqui, de Salvaterra, mas o medo fez-nos perder a memória, esquecemo-nos do dia em que estamos. — Respondeu o Guigas. — Ora… dia 1 de novembro, é dia de missa, dia de Todos os Santos — explicou o falcoeiro — por isso é que aqui ando sozinho. Mas ao Guigas, o dia pouco lhe interessava, queria era saber o ano. — 1 de novembro de que ano, mestre falcoeiro? — Mas de que ano haveria de ser? 1 de novembro de 1755, que moços tão patetas. O Henrique e o Guigas entraram em pânico. 1 de novembro de 1755 era o dia do terramoto que praticamente apagara Lisboa do mapa. — Socooooorrrooooooooooooooooooooooo! — gritou o Guigas sem se conseguir controlar. O Henrique bem tentou acalmá-lo: — Não é caso para ficares assim, Guigas, o terramoto sentiu-se com muita força em Lisboa, mas aqui não chegou com a mesma


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intensidade; nós estamos vivinhos da silva, safámo-nos, como podes ver! Salvaterra já tremeu em 1531; há-de voltar a tremer e vai ser bem pior, só espero estar muito longe daqui quando isso acontecer! — Bem longe daqui devem estar as aves todas. Não vejo nenhum falcão, nem águia, nem gerifalte, nem açor. Onde é que eu já vi isto? Queres ver que a história se repete como uma lengalenga? Para onde terão bazado? Se isto é a mesma falcoaria que conhecemos, onde estão as aves? — perguntou o Guigas Era deveras assustador: tremores de terra que iam e vinham; aves que iam e vinham; reis que iam e vinham… Porém os factos falavam por si: as aves tinham desaparecido e pelo menos desta vez havia uma explicação: com a força brutal do terramoto não houve banco que resistisse. Sem bancos nem correntes, sentindo-se livres, as aves levantaram voo e fugiram. — Os falcões fugiram! — constatou o Henrique. — Céus! — É isso mesmo estão nos céus, Guigas! Abalaram! E isso quer dizer que não há aqui nenhuma ave para nos levar ao século XXI. Ambos sabiam que assim de cócoras, ao pé do falcoeiro, não encontrariam nenhum gerifalte que os levasse dali para o futuro. — Vamo-nos daqui — disse o Guigas, puxando o Henrique por um braço. Mas o que viram na rua, tal como já imaginavam, não os deixou sossegados: o Palácio Real abria frechas a toda a altura do edifício, e estava praticamente irreconhecível, desfeito num monte de pedras,


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assim como acontecera à Igreja Matriz. Porém a destruição não se ficava por aí: a Capela Real ruíra, o picadeiro teve igual sorte, a Ópera onde dez minutos antes, ou seja, dois anos antes tinham assistido à inauguração, felizmente, mantivera-se de pé. E, na linda Salvaterra do século das luzes, só algumas construções restavam e ainda assim todas rachadas… — Tens ao menos contigo essa geringonça estranha onde a princesa Beatriz apareceu? — perguntou o Guigas. — Parece que sim — gaguejou o Henrique tirando o aparelho do bolso dos calções já totalmente brancos de pó, tão brancos como a pena mágica que continuava imaculada. Do outro lado estava Beatriz a gesticular, furiosa, saltando do visor. — Parvalhões! Ouçam-me de uma vez por todas! Até que enfim que ligaram o som, estava a ver que não! Sim, é o terramoto de 1755; sim, os falcões piraram-se todos; e vocês o que estão a fazer tão pasmados? Querem voltar ao futuro, ou não? Os dois rapazes não conseguiram nada mais do que uns vagos acenos com a cabeça. — Estão a ver esse poço aí à vossa frente? Vem aí uma onda enorme e com ela o gerifalte. — Um tsunami num poço? Que coisa mais estranha! — refilou o Henrique que já nem na própria sombra confiava. Beatriz falara verdade. Antes de terem tempo para respirar, um tsunami, quase real, provocara uma onda gigantesca que os molhou dos pés à cabeça. Arrastado pela onda de lama vinha o gerifalte.


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O pobrezinho parecia tão ensopado e amedrontado como eles. Mas mesmo assim trazia uma mensagem que piscava a vermelho no interior de uma das asas: «EMA» — EMA? — Perguntou o Henrique, aparvalhado. — Quem será a Ema? Eu cá não conheço nenhuma Ema — queixou-se o Guigas. Mas não tinham visto tudo. A mensagem continuava, bem disfarçada na plumagem da asa direita: «para viagem segura ao século XXI descobrir o enigma: Tecto Capela Real. Medalhão. Imagens.» — Agora que já cuscaram nas asas do gerifalte, é canja, só têm de… «Sem bateria» leu o Henrique, olhando para o aparelho. — Fogo! Só faltava mais isto! — rosnou o Guigas atirando aquela espécie de telemóvel feito de plasticina para dentro do poço. — Tu já não nos serves de nada, Beatriz, já foste! — Nós é que já fomos, Guigas… e corremos o risco de ficarmos aqui para sempre. Só nos resta uma salvação: Capela Real.


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Diário do Guigas   Na escola tive de contar tudo tal como acontecera, mas ninguém quis acreditar em mim. Na verdade depois de termos acabado com a bateria da geringonça só nos restava uma alternativa: ir à Capela Real e descobrir o enigma. Corremos o mais depressa que fomos capazes e, mal entrámos na Capela, pusemo-nos logo os dois de cabeça para cima a estudar o teto e os quatro medalhões. Ficámos ali pasmados tantas horas que até já tínhamos cãibras no pescoço. Eu por mim desistia, mas o Henrique não gosta de perder nem a feijões e tinha razão, pois sem a solução não conseguiríamos voltar ao século XXI.

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Diário do Guigas   Não havia meio de descobrirmos o enigma até que eu acabei por desabafar: «Estamos mesmo aflitos». Mas ao dizer esta simples frase o Henrique pôs-se aos pulos como se tivesse ganho o Euromilhões: «Estamos Mesmo Aflitos, Estamos Mesmo Aflitos EMA!!! EMA!!! Descobri!!! É isso! Salvaste-nos, Guigas, salvaste-nos!» gritava o meu amigo apontando para um dos medalhões. Devem ter julgado que inventei a história toda mas o problema está aí: não inventei nada, imaginação zero, foi tudo verdade. Depois de descobrirmos o enigma, um bando de gerifaltes brancos desceu a pique sobre nós, como se viessem do interior do teto da Capela Real. Imediatamente dois gerifaltes possantes pegaram em mim elevando-me às alturas para me pousarem em cima de um pinheiro, enquanto outros três gerifaltes super-poderosos fizeram o mesmo com o Henrique, deixando-o cair em cima de um cedro. Para voltarmos ao futuro, só tivemos de descer da árvore, o que eu fiz sem qualquer esforço e que o Henrique fez com um esforço brutal. Depois de pisarmos terra firme, percebemos já não havia qualquer vestígio do terramoto. Vimos edifícios inteiros, carros, motos, bicicletas, o poço… e pessoas iguais a nós. Na viagem perdemos as roupas cómicas do século das luzes, estávamos só de bóxeres e isso sim, foi preocupante, estava frio e fomos altamente gozados. Repeti esta história dezenas de vezes; o Henrique também e, mesmo assim, mesmo sendo o Henrique aquela «autoridade» em que todos confiam, ninguém acreditou em nós: «Então como é que explicam que os falcões estejam todos de volta à falcoaria?»


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E logo outro rapaz acrescentou: «se o gerifalte fosse mágico já alguém tinha tentado experimentar-lhe os poderes, não acham?!» Os nossos colegas não paravam de fazer perguntas e mais perguntas e até fomos obrigados pela setôra de português a passar tudo a escrito para o jornal da escola. O pior foi o título. Nós escolhemos: «Um Dia Verdadeiro no Século das Luzes» a professora corrigiu: «Um Dia Imaginado no Século das Luzes.» Não adiantava refilar, ninguém acreditava em nós. Ninguém a não ser uma menina chamada Beatriz que nem sequer era da nossa turma. Piscou-me o olho e disse: «Odiei que me tivesses atirado para a poça de lama, mas gostei muitooooooooooooooo daquele teu abraço, quando é que repetimos?»

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Agendem já a vossa visita à Capela e Falcoaria Reais de Salvaterra de Magos e fiquem a conhecer alguns pormenores destes testemunhos arquitetónicos, que foram cenário de inspiração para as aventuras de Guigas e Henrique.


Câmara Municipal de Salvaterra de Magos Setembro de 2016

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O Diário do Guigas II  

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