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o g i m a O Voador um conto de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada com Ilustrações de Pedro Rocha e Mello


FICHA TÉCNICA

TÍTULO

O Amigo Voador AUTORAS

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada ILUSTAÇÕES

Pedro Rocha e Mello DESENHO GRÁFICO

Dinis Lourenço EDIÇÃO

Associação para a Promoção Rural da Charneca Ribatejana PROJETO

Câmara Municipal de Salvaterra de Magos PRODUÇÃO EDITORIAL

MODOCROMIA, LDA IMPRESSÃO

Publito, estúdio de artes gráficas, Lda. ISBN: 978-989-8601-63-6 DEPÓSITO LEGAL: 380820/14 TIRAGEM: 3100 exemplares 1.ª Edição: Setembro, 2014 Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor


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A Falcoaria Real de Salvaterra de Magos inspira as autoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada na criação desta obra literária dirigida ao público infantil. Pelo seu papel de destaque na história da corte portuguesa, a Falcoaria Real de Salvaterra de Magos traduz-se num património e num legado únicos, com mais de 250 anos de história, cuja singularidade é importante valorizar e levar ao conhecimento e ao contacto de todos os públicos. Com o conto “O Amigo Voador”, a Falcoaria Real de Salvaterra de Magos viaja até ao imaginário de crianças e jovens, num convite à sua real descoberta.


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PREFÁCIO

A Câmara Municipal de Salvaterra de Magos congratula-se com a publicação do conto infantil “O Amigo Voador”, das prestigiadas autoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Especialmente dedicada aos mais novos, esta obra pretende dar a conhecer um pouco da história da Falcoaria Real de Salvaterra de Magos, e como a falcoaria é uma prática de caça que se mantém bem viva. Este edifício, construído no século XVIII para servir a corte portuguesa, foi totalmente recuperado e encontra-se ao serviço de todos aqueles que o desejem visitar. Desejo a todos uma boa leitura, fazendo votos que este livro vos desperte o interesse de conhecer a Falcoaria Real de Salvaterra de Magos. O Presidente da Câmara Municipal Hélder Manuel Esménio


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I Capítulo

Na Quinta das Gatinheiras – Como é que te chamas? – Leonor, mas toda a gente me trata por Nônô. – Ah! – E tu? Qual é o teu nome? – António. – Ah! A conversa encalhou, porque não a souberam continuar e como ambos se sentiam com direito a rabugices, afastaram-se em silêncio. Nônô foi direita ao tanque que no verão ela e os primos usavam como piscina. Olhou a água onde boiavam algumas folhas caídas das árvores e apeteceu-lhe tomar um banho. – Está calor, vou nadar – decidiu. Já tinha o fato de banho por baixo da roupa, despiu-se e atirou-se de cabeça, em mergulho de grande estilo muito praticado nas aulas de natação. Com braçadas vigorosas percorreu o tanque em todas as direções, o exercício soube-lhe bem, quando se estendeu no relvado estava um pouco mais bem-disposta. Mas só um pouco. Fechou os olhos por instantes, depois estendeu o braço, tateou o banquinho onde deixara os óculos e logo se sobressaltou:


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– Que é isto? “Isto” era uma pequena rã verde, que desapareceu aos saltos por entre a relva. – Deve ter apanhado um susto pior do que o meu – concluiu melancólica. O dia estava lindo, o sol morno, o jardim apetecível, tudo convidava à brincadeira. No entanto, resistia, amuada. – A minha irmã foi para um acampamento, o resto da família para um casamento e eu é que tenho de ficar aqui a entreter-me com rãs! Sentara-se, de pernas encolhidas, com os braços a envolver os joelhos e olhava em volta, francamente aborrecida. Não lhe parecia justo que a mandassem para a Quinta


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das Gatinheiras passar aqueles dias com um rapaz mais novo que não conhecia e teimava em aceitar que, no fim de contas, talvez tudo corresse bem. Ora o rapaz resolvera andar de baloiço, só que mais parecia um trapezista, pois oscilava de pés bem assentes na tábua pendurada por cordas debaixo das árvores, alcançando velocidade e altura admiráveis. Mesmo sem querer, observou-o e ficou tão impressionada que nem reparou na figura que acabava de sair pela porta da cozinha. Viu-a quando já estava perto e encolheu-se, pensando de si para consigo que a senhora Joaquina, contratada para tomar


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conta deles, parecia uma bruxa. E, de facto, à primeira vista, talvez houvesse alguma semelhança entre aquela senhora idosa, reboluda, de costas ligeiramente abauladas, vestida de preto que, apesar da idade, tinha um cabelo também muito preto a emoldurar a cara redonda onde brilhavam os olhos azuis, claríssimos, quase transparentes. – Trouxe-lhe o pequeno-almoço! Informação inútil, pois como transportava nas mãos um tabuleirinho com pão, manteiga e caneca de leite, bastava deixá-lo em cima da mesa e pronto. Ela é que devia falar e falou, para dizer obrigada. – Também trouxe o seu remédio. – Obrigada. – Até já! A senhora Joaquina esboçou um sorriso paciente e regressou à cozinha. Nônô subiu para o banco, apoiou-se na mesa de pedra e começou a comer devagar, sem apetite. O António continuava a balançar-se por baixo das árvores. De vez em quando soltava assobios que lembravam o chilrear de pássaros. Tentou imitá-lo, não conseguiu, mas distraiu-se, não deu pelo tempo passar, o remédio fez efeito e, conforme era habitual, o seu estado de espírito melhorou bastante. Quando a pequena rã verde tornou a espreitar por entre os tufos de relva, achou-lhe graça. E quando ouviu passos de cavalo a galope, ergueu-se, entusiasmada. Atrás do cavalo vinha um cão amarelo, António


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saltou imediatamente para o chão e foi ao encontro dele a chamar: – Mosquito! Mosquito! O cão saudou-o com latidos alegres e os dois envolveram-se numa brincadeira que não deixava lugar a dúvidas, eram velhos amigos. – Se gosta do animal é parecido comigo – concluiu, tentada a juntar-se ao grupo, mas ainda indecisa. O cavaleiro apeou-se, deu uma palmada nas costas do António e ficaram a conversar um instante. – É o filho da senhora Joaquina, o Manel. Já não me lembrava dele, mas na última vez que cá estive, foi bem simpático. Se eu lhe pedisse que me deixe dar uma volta? Não foi preciso pedir, porque o próprio Manel, assim que lhe pôs a vista em cima, fez grande festa. – Olá Nônô! Então vieste visitar-nos? Fico contente. E até estou a adivinhar que queres dar uma voltinha a cavalo, não? – Se puder ser. – Claro que pode. Mas é melhor ires vestir-te. – Vou já. E não demoro! Correu a mudar de roupa, de volta ao jardim encontrou António escarranchado numa sela pousada no chão, com o Mosquito ao lado, de língua de fora. – Eu também quero andar a cavalo, mas tu pediste primeiro, vai tu primeiro.


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– Obrigada – respondeu com uma vaga sensação de ridículo por ter repetido três vezes a mesma palavra num curtíssimo espaço de tempo – parece que não sei dizer outra coisa, estou a ser parva, vou mudar de atitude. O passeio pelo campo, em volta do jardim foi bem agradável. Quando cedeu lugar ao António mostrou-se sorridente, à vontade, e ele correspondeu. À hora do almoço confraternizaram, descontraídos. E à tarde divertiram-se imenso a andar de baloiço, a subir às árvores, a refrescarem-se no tanque, a correrem atrás do Mosquito. A senhora Joaquina espiava-os pela janela, vendo que estavam bem, não interferia. Recolheram a casa ao anoitecer, mortos de fome. Encontraram tudo preparado numa mesinha quadrada, ao pé da televisão e instalaram-se, satisfeitos. De início iam deitando olhadelas ao ecrã, como o programa não interessou a nenhum, acabaram por trocar confidências. – Os meus pais foram a uma reunião de trabalho em Espanha, eu queria ir, mas não me levaram – explicou o António. – Por isso é que de manhã estava assim meio… – Avariado? – Sim. – Não te rales, que eu também avariei pelo mesmo motivo. Queria que me levassem. – Ao acampamento? Ou ao casamento?


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Na cara da Nônô estampou-se a expressão malandra de quem sabe que perdeu tempo com birras tolas. – O acampamento é para mais velhos do que eu. E os noivos não convidaram crianças porque a festa é longíssimo, as pessoas têm que lá dormir, não havia lugar para mim. E se houvesse, acabava por ser uma maçada. – Então porque é que te zangaste? A resposta limitou-se a um encolher de ombros e mudaram de assunto. Afinal estavam a gostar imenso daquela experiência na quinta que os fazia sentir livres, independentes. Mosquito era uma boa companhia e a senhora Joaquina uma presença agradável. Tinha preparado um jantar ótimo, falava serenamente, o seu olhar bondoso inspirava confiança. – Se fosse bruxa, não fazia mal a ninguém. – Hã? – Nada. Estava a pensar em voz alta. No ecrã da televisão encontrava-se agora uma rapariga a dar informações sobre o tempo e falou em vendaval, mas eles mal a ouviram porque o cansaço lhes amolecera o corpo e o espírito. Vendo-os a bocejar em silêncio, a senhora Joaquina lembrou que eram boas horas de deitar e eles concordaram. Pouco depois dormiam ambos a sono solto. A meio da noite levantou-se vento que depressa passou a ventania, ventaneira, vendaval. Nônô ergueu as pálpebras e ficou à escuta. Depois não resistiu e foi à janela espreitar. As árvores dançavam como loucas e pelo meio dos ramos voavam papéis, flores arrancadas dos


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canteiros, peças de roupa que a senhora Joaquina tinha posto a secar. E eram imensas, de todas as cores, para cá e para lá, como se participassem numa festa à luz da lua. O espetáculo encantou-a. De cabeça apoiada no vidro, acompanhou o rodopio das camisolas e calções sem saber ao certo se tudo aquilo era real ou se não passava de um sonho. Mas quando viu o seu fato de banho azul a desaparecer por entre a folhagem, desatou a rir e pôs-se a dançar em cima do tapete ao ritmo da Natureza. Ainda deitou uma mirada ao António, que continuava a dormir ferrado. Preferiu não o acordar. No quarto ao lado a senhora Joaquina ressonava ao de leve. E ela contente por assistir sozinha àquele estranho festival. Imaginou-se dentro do fato de banho, a ser levada pelos ares e inventou passos de dança que lhe pareceram apropriados às nuvens. O último, elegantíssimo, incluiu uma espécie de cambalhota sobre o colchão, porque já lhe apetecia voltar para a cama.


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II Capítulo

Um segredo bem guardado No dia seguinte o jardim estava na maior confusão, com montes de ramos partidos, cadeiras viradas, flores amachucadas, peças de roupa espalhadas por todo o lado. A senhora Joaquina nem queria acreditar no que via. – Ora esta! Então houve um vendaval e eu não acordei? – Nem eu – disse o António. Tenho o sono pesado, nunca acordo a meio da noite. Só Nônô assistira, fez um relato completo da cena e pediu ajuda para ir procurar o fato de banho azul. – Voou para além, mas no meio desta barafunda não sei onde está. – Não se preocupe, que já o encontramos. Primeiro venham comigo pescar as almofadas que foram parar ao tanque. António pegou numa cana e começou a pescaria. – Não é fácil! Assim encharcadas pesam imenso. – Empurra-as para cá, que eu tiro-as da água à mão. Unindo esforços, recolheram as almofadas, mais uma data de tralha que boiava à tona de água e puseram tudo a secar em cima da relva. Quando se preparavam para ir


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em busca do fato de banho, a senhora Joaquina precipitou-se para um recanto atrás do tanque – O meu brinco! O brinco que eu tinha perdido há dias está ali! Correu a recolhê-lo, toda contente, e ficou a remexer nos montículos de folhas a ver se aparecia mais alguma coisa que o vento tivesse posto a descoberto. Nônô e António ainda deram uma vista de olhos, depois preferiram ir explorar os troncos amontoados ao fundo do jardim. Alguns pareciam verdadeiras cabanas desconjuntadas, que só precisavam de um jeito para ficarem em pé. Tencionavam fazer a experiência, quando viram lá no meio um bichinho pequeno, de olhos redondos, com o corpo coberto de penugem branca que soltava piados aflitivos “Cuic… cuic… cuic…”


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Abria o bico, como se pedisse comida e agitava-se no chão, infelicíssimo. Nônô pegou-lhe imediatamente – Parece um bocadinho de nuvem caída do céu! – Mas é um filhote de falcão caído do ninho – disse-lhe o António. – Como é que sabes? – Sei, porque também vivo numa quinta e o meu pai cria falcões. Nas mãos da Nônô, o pobre filhote continuava a reclamar da queda e da fome “Cuiu… cuic…” António afagou-lhe a penugem com a ponta dos dedos. – Coitado! Coitado! Nônô fixou-se na copa das árvores pensando que se o ninho estivesse a boa altura talvez pudessem ir devolvê-lo, mas não avistou nada que se parecesse com ninhos. Seria possível que a tempestade noturna o tivesse destruído? António também procurava no céu um falcão adulto sobrevoando a zona e também não viu nenhum. O filhote remexia-se nas mãos da Nônô, cheio de fome e com uns olhinhos tão tristes que metiam dó. – E agora? Fazemos o quê? Por um instante hesitaram, ambos atrapalhadíssimos e ambos decididos a não abandonar o falcão bebé. – Achas que se o pusermos aí bem à vista, a mãe vem buscá-lo?


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António passeou a vista pelo espaço aéreo da zona, sem descortinar vestígios da família daquele infeliz. – Para já, não vejo mãe nem pai… – O que é que achas que aconteceu? – Não faço a mínima ideia. De qualquer forma, ainda que estivessem por aí, não sei se vinham buscá-lo. E se o deixarmos aqui no chão pode vir um gato e dar cabo dele. – Que horror! – Pois é. “Cuic… cuic… cuic…” O apelo tornava-se cada vez mais desolador, era urgente dar-lhe de comer. – Sabes de que se alimenta? – Sei. De insetos, lagartixas, gafanhotos. – E onde é que os vamos arranjar? – Não é fácil – disse o António. Mas quem vive numa quinta desde que nasceu, torna-se especialista na caça de animalejos. Espera aí, que eu não demoro. Minutos depois regressava triunfante com uma lagartixa gorda, que o pequeno falcão devorou deliciado. – Que tal Cuico? Estás satisfeito? Ainda lhe deram mais alguns insetos que o António arrebanhara com mão de mestre, faltava decidir onde acomodar o pequenote. – Se o instalássemos naquela casinha que há ao fundo do jardim?


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– Boa! Mas temos de lhe fazer um ninho. – Com folhas? – Sim. Folhas secas, ervas secas, mas dava jeito uma caixa. – Talvez haja uma lá dentro. Vou ver. A voz da senhora Joaquina interrompeu a conversa: – Então? Afinal não me vêm ajudar? – Já vamos, já vamos! Responderam em coro e a ganhar tempo para decidir se deviam mostrar “o achado” à senhora Joaquina. – Que dizes? – Hum… por agora é melhor fazermos o que tínhamos pensado. Depois, logo se vê.


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Precipitaram-se então para dentro da casinha onde encontraram de tudo um pouco: sacos-cama, uma roda de bicicleta, cadernos velhos, lápis de cor, bonecos de barro, quatro chapéus antigos, dois bonés e, que sorte, uma caixa quadrada cheia de brinquedos. Esvaziaram-na num instante, António foi lá fora e voltou com folhas secas que chegavam e sobravam para forrar a caixa de modo a imitar um ninho verdadeiro. Logo que ficou pronto, depositaram o Cuíco na sua nova morada – Que tal, hã? – Sensacional. Feliz da vida, o pequeno falcão relaxou e adormeceu. Eles contemplaram-no carinhosamente antes de saírem e de fecharem a porta. A senhora Joaquina esperava-os um pouco adiante. De cabeça levemente inclinada, fitou-os com uma expressão inquiridora, mas aguardou, na esperança que os dois, ou um deles se explicasse. Como não abriram o jogo, perguntou: – O que é que vocês esconderam na casinha? Nônô baixou os olhos e as bochechas redondas do António coraram. – Fizeram algum disparate? – Não! – Posso estar descansada? – Pode! As respostas prontas e sinceras convenceram-na.


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– Bom, nesse caso ajudem-me a endireitar o estendal que o vento derrubou. E depois é preciso recolher as peças de roupa que ainda faltam. – Com certeza! – É para já! Mais uma vez uniram esforços, os paus, arames e cordas regressaram ao devido lugar, a roupa húmida voltou a ficar pendurada e segura por molas de plástico, a que já estava seca foi depositada num cesto. – Pronto! Obrigada! Podem ir brincar, que eu vou fazer o almoço. Mal ela virou costas, correram para a casinha do jardim. Cuíco continuava a dormir muito descansado, sentaram-se ao pé, instalados sobre mantas de lã esburacadas. – Olha lá, os filhotes não precisam de beber água? – Não. Os pais só levam bicharocos para lhes dar de comer. E é muito engraçado, sabes… Palavra puxa palavra, António foi explicando tudo o que sabia sobre pássaros em geral e sobre falcões em particular. Nônô escutava-o interessadíssima, fazia perguntas, queria pormenores. E ele pronto a partilhar a sua sabedoria, mas sem inventar nem mentir. Se por acaso não tinha resposta, dizia francamente. – Isso não sei. Foi o que aconteceu quando falaram na hipótese de levar a “caixa ninho” para casa e mostrar o Cuíco à senhora Joaquina.


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– É melhor não – disse o António. Porque já ouvi o meu pai dizer que se alguém encontra um falcão no campo tem de o entregar… – A quem? – Não tenho a certeza. Mas parece-me que é à Guarda, à GNR. – Para quê? – Não me lembro. Calou-se e olhou de novo o pequeno filhote adormecido. Não lhe apetecia nada separar-se dele, a Nônô percebeu perfeitamente o que sentia e deixou escapar um suspiro. – É amoroso! Durante alguns minutos mantiveram-se quietos e em silêncio mas de repente a cara de António abriu-se num sorriso de orelha a orelha. – Cá por mim, acho que devemos esperar que o meu pai volte de Espanha. Enquanto não volta, guardamos segredo, o Cuíco fica aqui e nós tratamos dele. Que me dizes? – Que sim! Radiantes com a solução, lançaram mais uma olhadela sobre o ninho e foram almoçar, fechando a porta da casinha com muito cuidado. O dia, como seria de prever, foi animadíssimo. Nadaram, andaram de baloiço, andaram de cavalo, jogaram à bola, escapulindo-se a toda a hora para a casinha do jardim. Cuíco parecia apreciar o ninho improvisado, recebia com gosto os “petiscos” que lhe levavam e eles, delirantes,


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cada vez gostavam mais do falcãozinho adotado. A certa altura António decidiu até entretê-lo com os assobios que tinham encantado a Nônô por se parecerem com o canto de vários tipos de pássaros. Não ficaram a saber se Cuíco aprovara ou não o concerto, mas os olhinhos redondos e espertos pareciam transmitir alegria. – É lindo, não é? – Fabuloso. Acho que nunca vi nenhum tão bonito. A senhora Joaquina continuava um pouco desconfiada e a meio da tarde voltou a perguntar-lhes o que escondiam na casinha. – Nada, nada… – Quer dizer, nada de mal. Ela escutava-os em pé, de costas ligeiramente abauladas e com a cabeça ligeiramente inclinada, à maneira das pessoas mais velhas que fazem perguntas e querem mesmo saber as respostas. Mas não havia nada de inquietante na sua atitude e o olhar azul quase transparente derramava ternura. – Não me querem dizer o que esconderam? – Queremos – decidiu a Nônô. – Só que por enquanto é segredo! – Está bem, está bem. O diálogo deixou duas palavras a flutuar: esconder, segredo. Palavras que se entrelaçaram, dando origem a outras, semelhantes ou próximas, todas igualmente saborosas e prontas a encaixar em frases sugestivas: esconderi-


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jo, encoberto, secretamente… temos um segredo escondido, temos um tesouro escondido… Tanto a Nônô como o António sabiam muito bem que a senhora Joaquina não representava uma ameaça para o Cuíco, mas quem tem um tesouro escondido gosta de o manter assim algum tempo e foi por isso que não a deixaram entrar na casinha do jardim. Durante o dia não houve problema de maior. O mesmo não se pode dizer da noite, pois quando todos dormiam, a Nônô ouviu miar e sobressaltou-se – Um gato! Anda um gato lá fora! Num relance, viu a janela da casinha aberta de par em par e um gato enorme, enormíssimo, um gatarrão de pelo preto e olhos faiscantes que se aproximava sorrateiro. E o pobre Cuíco em pânico, a gritar com voz de gente: – Socorro! Socorro! Tinha crescido bastante e estava em pé, no ninho, a tentar mover as asas que ainda não lhe permitiam voar. E chamava por eles: – Nônô! António! Venham-me salvar do gato! Acordou sobressaltada, coberta de suores frios e sentou-se na cama. O coração martelava-lhe o peito como se quisesse saltar-lhe pela boca fora. – Foi um sonho, um pesadelo! Ainda mal refeita do susto, ficou gelada de pavor porque agora, bem desperta ouvia mesmo um gato lá fora a miar. Então saltou para o chão e foi abanar o amigo.


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– António! António! Ele não reagiu logo. De cabeça pousada numa fronha branca, parecia ter cabelo ainda mais escuro e bochechas ainda mais coradas. Respirava tranquilamente, sem dar acordo de si. – António! Tantos abanões lhe deu, que ele acabou por abrir os olhos. – Que foi? – Anda um gato lá fora! E tenho a impressão de que a janela da casinha ficou aberta! Não foi preciso mais nada para ele pular da cama. Saíram os dois pela porta da cozinha descalços e, rápidos que nem flechas, atravessaram o jardim apavorados, com medo de chegarem tarde demais.


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III Capítulo

O melhor é ir à Falcoaria! Felizmente tudo não passou de um susto. Porque de facto andava um gato no jardim. Não era enorme, nem preto, era pequeno e cinzento. Rondava a janela da casinha, que afinal se encontrava protegida por uma rede espessa destinada a impedir a entrada de mosquitos e melgas, mas suficientemente forte para resistir às unhas dos gatos. Que alívio! Ainda assim foram ver o Cuíco, que abriu os olhinhos redondos. Nônô riu-se por tê-lo imaginado em sonhos a gritar por socorro. – Que patetice! No entanto, o sonho tinha a sua razão de ser. – Foi por ouvir o gato a miar. Assustei-me. – Se dormíssemos aqui? – Propôs o António. – Talvez. Ainda ajeitaram as mantas velhas e umas almofadas rotas, tentaram instalar-se, acabaram por desistir e ambos concluíram ser preferível levar o ninho para o quarto. Só assim dormiriam descansados. De manhã, a senhora Joaquina estranhou que nunca mais se levantassem, foi espreitar ao quarto e deu com eles ferrados no sono, com uma caixa entre as duas camas, habitada pelo pequeno falcão que chamava à sua maneira:


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“Cuic… cuic…” – Ah! Então era isto que escondiam na casinha! Como também ela crescera no campo e gostava muito de animais, enterneceu-se. Nônô acordara entretanto e olhou-a, apreensiva. Estaria zangada? Não estava. – Seus malandros, porque é que não me disseram? António entreabriu as pálpebras, esfregou os olhos com os punhos e explicou: – Tivemos medo que não nos deixasse ficar com ele. – Porquê? – Porque parece que é proibido. – Ai sim? – Ouvi o meu pai falar no assunto, mas não sei ao certo o que disse. Resolvemos esperar que chegue de Espanha. – Fazem bem. O problema é tratar do bichinho como deve ser. É um filhote de falcão, não é? – É. – Então, para evitar erros, não seria bom irem à falcoaria de Salvaterra e pedir informações? – Há uma falcoaria em Salvaterra? Perguntou a Nônô já de perna alçada para fora dos lençois. – Há, e das boas. Lá sabem tudo sobre falcões e outras aves de rapina. – Ótimo! Leva-nos lá? – Peço ao meu filho Manel que os leve. Agora arranjem-se e venham comer, que ele não tarda aí.


Capítulo III – O melhor é ir à Falcoaria!

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Em menos de nada estavam prontos, foi com impaciência que esperaram boleia, de caminho cochicharam para combinar como proceder. – Nem uma palavra sobre o Cuíco, hã? – Claro. Temos de fazer as perguntas de maneira vaga, porque se percebem que temos um filhote, podem mandar-nos entregá-lo à GNR. – E se calhar a GNR ainda nos obriga a pagar uma multa. – Vamos ser cautelosos. A Falcoaria ficava num extremo da vila. Nônô imaginara um edifício estrambólico, com torres redondas habitadas por falcões e homens mal-encarados à porta. Afinal pararam diante de um edifício que parecia uma casa, uma casa bonita, pintada de branco, com grandes janelas e letras sobre a fachada que anunciavam: “Falcoaria Real de Salvaterra de Magos”. Manel deixou-os ali


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– Façam a visita, que eu depois passo a buscá-los. Até logo. A porta dava acesso a uma sala simples, com cartazes sobre falcões e um balcãozinho de madeira. Atrás do balcão estava uma rapariga nova, simpática, que conhecia muito bem o António. – Então por cá? – É verdade, Isabel. Trouxe uma amiga que quer ver a Falcoaria. – Ótimo. Querem começar pelo filme? – Não, queremos começar pelo terraço. Ela abriu uma outra porta e eles passaram a um terraço interior, amplo, quadrado, que tinha uma espécie de


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canteiro, onde em vez de crescerem flores, se equilibravam falcões e outras aves de rapina, cada uma no seu poleiro. E os poleiros eram taças viradas ao contrário, cheias de relva artificial, colocadas sobre espigões de ferro espetados no chão. Ao lado dos poleiros, a que a Isabel chamava “bancos”, havia pratos de plástico vermelho iguais aos que habitualmente se usam para por debaixo dos vasos de plantas, todos rasos de água. Uma das aves tinha um carapuço de cabedal enfiado na cabeça, de formato fora do vulgar, que lembrava tempos antigos, talvez também por ter um penacho no topo. Essa mantinha-se calma. As outras, quase todas, soltavam pios e assobios, decerto a chamar a atenção dos tratadores. António ia à Falcoaria muitas vezes com o pai, mas a Nônô estava ali pela primei-


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ra vez, para ela era tudo novidade. Encantada, cirandou em torno do canteiro a admirar aquelas aves de porte altivo, bico curvo, olhar intenso, patas com garras afiadas e os mais variados tipos de plumagem. De repente estacou, como se tivesse sido hipnotizada por uma delas. E logo um dos homens que se ocupava da falcoaria informou: – Essa é uma águia. – Ah! – Harris, natural da América. – Ah! Nônô escutava-o com a atenção dividida, porque a águia esticara o pescoço e assumira uma posição parecida com a da senhora Joaquina quando lhes fazia perguntas. Só faltava mesmo ter olhos azuis. – Harris – murmurou. – Harris… – Gostas de águias? – perguntou o falcoeiro. – Imenso! – respondeu de imediato e com sinceridade, embora fosse a primeira vez na vida que se encontrava com uma águia frente a frente. Quanto ao falcoeiro, ficou muito bem impressionado com aquela menina que tanto se interessava pelas aves e da melhor vontade deu todas as informações que ela pediu. António ouvia-o num silêncio embasbacado, como se nunca tivesse pisado aquele espaço que estava farto de conhecer, mas o falcoeiro até gostou porque é sempre mais agradável sentir que vale a pena explicar o que se sabe a quem quer realmente aprender. A conversa pro-


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longou-se, mas a “pergunta-chave”, que lhes queimava a língua, foi ficando para o fim. Nônô achou curiosíssimo que no tempo dos reis os falcões fossem seus companheiros de caça. – Por isso é que lá fora está escrito na parede Falcoaria Real? – Sim. Esta é a única que existe atualmente no país. Já esteve em ruínas mas foi recuperada. – Ainda bem! – Pois é. – Já percebi que o senhor gosta de trabalhar com falcões. – Adoro porque são aves inteligentes, que veem muito bem ao longe e voam a grande velocidade. Quando são treinados, criam uma relação de proximidade com os falcoeiros. Os cães de caça colaboram na caça em terra, não é? Pois os falcões colaboram no ar. E não é só esse serviço que prestam. Nos nossos dias, por exemplo, são guardiões de vários aeroportos e o de Lisboa é um deles. Essa informação deixou a Nônô em transe. – Porquê? – Porque os pombos e alguns outros pássaros são um perigo. Se se enfiarem na turbina de um avião podem provocar acidentes. Ora, quando há falcões por perto, os outros pássaros fogem, com medo de serem caçados. Em Lisboa há vários falcões de serviço, ao cuidado dos falcoeiros que os treinaram.


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– Eu viajo muito de avião porque vivo nos Açores – disse a Nônô, emocionada. – Ai sim? E qual é a tua ilha? – S.Miguel. – Bem bonita, conheço muito bem. Aliás, conheço quase todas. Estás cá de férias? – Sim. A família da minha mãe é de cá, a do meu pai é açoriana. Nas férias circulamos bastante. – Então mais um motivo para gostares de nós. Falcoeiros e falcões estamos sempre ao serviço, no aeroporto, para vos proteger. Virando-se para o António, perguntou: – A ti já devo ter contado que no estádio do Real Madrid também há falcoeiros e falcões para evitar que os pombos sujem as bancadas, não? – Já, já, só que não me lembrava. Antes do Manel passar a buscá-los, viram um filme de dez minutos sobre a criação de falcões em cativeiro que os deixou esclarecidos sobre a maneira como deviam tratar do Cuíco. Ficaram a saber que as aves de rapina não nadam, só tomam banho em águas rasas, por isso é que tinham aqueles pratos de plástico mal cheios junto aos poleiros. Mas o melhor de tudo foi mesmo verem os falcoeiros a treiná-las em campo aberto. Usavam uma grossa luva de cabedal para os transportar por causa das garras. Depois soltavam-nos e era um deslumbramento assistir ao voo planado, elegante, daquelas aves que se deliciavam a sobrevoar os campos em liberdade, mas obedeciam ao


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chamamento do treinador logo que eles sopravam no apito ou agitavam uma peça cheia de areia. Quando voltavam a pousar na luva de cabedal era com a alegria serena de quem reencontra um amigo. Sem confessar, Nônô fez planos secretos para um dia mais tarde se tornar falcoeira. Não sabia se a profissão já envolvia elementos do sexo feminino, mas se não envolvesse, passaria a envolver. Aproximava-se a hora de regressarem à quinta, acotovelou o António e desviaram-se para combinar quem fazia a pergunta que ali os levara: – Falas tu ou falo eu? – Tu. Porque eu, em princípio, já devia saber a resposta. – Está bem. Deram uma última volta para verem as instalações em redor do pátio interior. Uma era o salão que serve


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de abrigo às aves. Outra um pequeno museu dedicado à história da Falcoaria. Nônô gabou tudo e no fim, fingindo-se meio distraída, perguntou: – Se alguém encontrar um filhote de falcão caído do ninho pode ficar com ele ou deve vir entregá-lo aqui? – Nem uma coisa nem outra – disse o falcoeiro. – Aqui só treinamos aves que foram criadas em cativeiro desde que nasceram. As aves de rapina são espécies protegidas, é proibido retirá-las do meio natural a que pertencem. Se nasceram livres, livres têm de continuar. Um impulso incontrolável obrigou o António a interrompê-lo: – Então quem encontra um filhote no chão, se os pais não andarem por perto, deixa-o para ali sozinho até morrer? – Não, que ideia! O que tem a fazer é chamar a GNR, que o manda para um centro de recuperação de animais. E ali, logo que esteja apto a voar sozinho, soltam-no para que viva a sua vida onde quiser. – Era o que eu pensava – sussurrou. O falcoeiro ouviu e ficou desconfiado. – Olha lá, António, encontraste algum filhote de falcão caído do ninho? Por sorte naquele preciso momento soou a buzina do Manel, e eles aproveitaram para sair porta fora, gritando ambos em coro: – Adeus! Obrigada pela visita!


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IV Capítulo

Até à vista, “Cuíco”!

Quando o pai do António regressou de Espanha já a família toda da Nônô se encontrava reunida na Quinta das Gatinheiras e o Cuíco tinha-se tornado a mascote de uma data de gente. Ele, como falcoeiro, sentia-se na obrigação de os convencer a entregá-lo à GNR como manda a lei, o problema é que bastava falar nisso para ouvir um coro de lamentações. – Não! – Por favor! – Deixe-nos ficar com ele! – Nós tratamos do Cuíco muito bem. – E se é para o soltar, nós soltamos quando chegar a altura… – Pois é, meus queridos. Mas ele só vai estar apto a voar daqui a algum tempo e como agora vamos todos para fora, não pode ficar na quinta sozinho sem ninguém que o alimente. – Não seja por isso – disse a senhora Joaquina. – Se quiserem, eu tomo conta dele. E quando passarem pela quinta a despedir-se, juntamo-nos para o soltar.


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Nônô e António desataram aos pulos e abraçaram-na, deixando o pai do António perturbadíssimo, sem saber o que fazer. – Faça de conta que não sabe de nada, pai! Faça de conta que a gente não lhe falou no Cuíco. Esqueça! Para mais depressa o convencer, atirou-se-lhe ao pescoço. – É uma vez na vida, e não vem mal ao mundo por causa disto! – Bom… talvez… Enquanto os dois falavam, Nônô beijou a face envelhecida da Joaquina e soprou-lhe baixinho – A senhora parece uma águia de olhos azuis. – Mas que elogio, minha querida! Nunca ninguém disse uma coisa tão bonita a meu respeito! O pai do António desenvencilhara-se do filho, convencido de que tinha um bom argumento para não lhes fazer a vontade. – Se eu realmente esquecesse o caso, quem é que apanhava bicharocos para alimentar o falcão? – Eu, claro – declarou orgulhosamente a Joaquina, – sou a mais nova de 7 irmãos e a única rapariga. Aprendi com eles desde criança a caçar lagartixas e gafanhotos. Às vezes até fazíamos concursos e sabe quem ganhava quase sempre? Eu! Por isso, se quiserem confiar-me o Cuíco, podem ir para a praia descansados. Na volta hão-


Capítulo IV – Até à vista, “Cuíco”!

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de encontrá-lo de perfeita saúde e fazemos uma linda cerimónia para o deixar partir em liberdade. Projeto aprovado, projeto concretizado. Depois das férias, quando regressaram às Gatinheiras com a pele queimada do sol e a cabeça recheada de recordações felizes, encontraram o Cuíco bem maior, com as penas pintalgadas em tons de castanho e branco, olhos brilhantes e asas prontas a voar para longe. As duas famílias reuniram-se no jardim ao fim da tarde, e que tarde linda, com o sol derramando ouro sobre os campos. Nônô e António abriram a porta da casinha que servira de morada ao amigo caído do céu e foram eles a soltá-lo, contentes e comovidos.


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O Amigo Voador

Cuíco agitou as asas e partiu, feliz da vida, mas voltou atrás e sobrevou a quinta, num planar elegantíssimo e lento como se quisesse despedir-se, ou talvez dizer-lhes que tencionava fazer ninho numa árvore próxima das Gatinheiras. – Adeus, Cuíco! – Vem visitar-nos de vez em quando! Tanto a Nônô como o António tinham uma lágrima ao canto do olho e o mesmo acontecia à senhora Joaquina, mas chegara a hora dos brindes. Ergueram-se os copos de sumo e repetiram-se os acenos: – Adeus, Cuíco! – Gostamos muito de ti! – És o nosso amigo voador!


Curiosidades

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Vale a pena saber CURIOSIDADES

OS FALCÕES, GRANDES CAÇADORES E COMPANHEIROS DE CAÇA

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s falcões são animais inteligentes, de visão apuradíssima e capazes de voar a grande velocidade. Caçam para se alimentarem com uma eficácia que despertou atenção desde há milénios. Ninguém sabe ao certo quando e onde os falcões foram treinados pela primeira vez para se tornarem parceiros de caça dos homens, mas há imagens que permitem concluir que no ano 1400 a.C. a parceria homem-falcão já existia.

Falcoeiro e falcão esculpido num baixo-relevo de Korsabad na Mesopotâmia


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Vale a pena visitar

NO TEMPO DOS CASTELOS

Caça com falcões no tempo dos castelos

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o tempo dos castelos ou Idade Média as águias, os falcões, os açores tornaram-se um símbolo de poder, de força, de coragem. Figuravam nos brasões dos nobres e marcavam presença nos desfiles de vitória, na coroação dos reis e noutras cerimónias importantes.

As cortes europeias tinham falcoeiros ao seu serviço e como o cargo exigia que fossem homens saudáveis, ro­bustos, com capa-

cidade para se entenderem com os falcões de modo a poderem cativá-los e treiná-los para as caçadas, toda a gente os admirava e respeitava. Os falcoeiros tinham grande prestígio, ser falcoeiro-Mor era uma honra. A arte da falcoaria, antiga e exigente, mereceu a atenção da UNESCO e no ano 2010 foi classificada como Património Imaterial da Humanidade.


Curiosidades

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OS SERVIÇOS QUE A FALCOARIA PRESTA NA ATUALIDADE

Proteção dos aviões No aeroporto de Lisboa, como em muitos aeroportos do mundo, há falcões e falcoeiros de serviço para afastar pombos e outras aves que podem provocar acidentes se se introduzirem nas turbinas dos aviões. Proteção de edifícios Os pombos contribuem para a degradação dos edifícios, porque os seus dejetos além de sujarem as fachadas são corrosivos. Em Nova Iorque há edifícios históricos que resolveram o problema contratando falcoeiros e seus falcões. O mesmo fizeram os res-

ponsáveis pelo estádio do Real Madrid. Proteção de estufas As estufas onde se cultivam plantas atraem pássaros que além de provocarem sujidade difundem bactérias indesejáveis. A existência de falcões nas imediações afasta os outros pássaros. Proteção dos campos de arroz Quando as gaivotas decidem banhar-se nos campos de arroz turvam a água e o arroz não cresce. Por isso, na época própria, soltam-se falcões na zona para as afugentar.


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Vale a pena visitar


Curiosidades

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Vale a pena visitar

A FALCOARIA REAL DE SALVATERRA DE MAGOS

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Falcoaria Real de Salvaterra  de Magos funcionou durante muitos anos num edifício simples e bonito situado num dos extremos da vila. No século XX entrou em declínio, passou por várias fases e pela mão de particulares, mas atualmente pertence à Câmara Municipal e está totalmente recuperada.


Curiosidades

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VALE A PENA VISITAR

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Falcoaria Real de Salvaterra de Magos é a única que existe no país. Quem a visita pode ver: ●● Um filme sobre a vida dos falcões. ●● Vários tipos de falcões e de outras aves de rapina que ali vivem bem cuidadas e bem treinadas pelos falcoeiros. ●● O pátio onde os falcões passam o dia nos seus poleiros. ●● Objetos indispensáveis ao trabalho dos falcoeiros. ●● Uma exposição permanente que permite conhecer a história da falcoaria ao longo dos séculos.

A Luva para pegar nos falcões para não sofrer o efeito das garras

O Caparão para cobrir a cabeça das aves a fim de se manterem tranquilas


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Vale a pena visitar

Vários tipos de falcões

SALVATERRA DE MAGOS – CAPITAL NACIONAL DA FALCOARIA

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Concelho de Salvaterra de Magos para além do edifício Setecentista da Falcoaria Real, foi cenário de grandes caçadas com falcões, comparado outrora por alguns autores como “um paraíso cinegético”, legitimas condições para que a

Câmara Municipal apresentasse junto do Instituto Nacional da Propriedade Industrial a pretensão de registar “Salvaterra de Magos – Capital Nacional da Falcoaria”. Processo aprovado com o registo de MARCA NACIONAL n. 524799 a 28 de Abril de 2014.


Curiosidades

SALVATERRA DE MAGOS UMA VILA COM HISTÓRIA

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alvaterra de Magos é uma simpática vila ribatejana que fica a 50 km de Lisboa, numa zona de grandes planícies onde o rio Tejo se espraia sereno, manso, polvilhado de pequenas ilhas cobertas de plantas selvagens.

A beleza da terra, a fertilidade dos campos e abundância de água doce oferecem condições de vida tão agradáveis que atraíram populações desde a antiguidade. Quando Portugal se tornou um país independente já ali existiam há muito comunidades de agricultores e pescadores. No ano de 1295, o rei D. Dinis concedeu carta de foral a Salvaterra. Sabe-se que desde o séc. XIII a vila passou a ser visitada regularmente pela corte, por embaixadores de países estrangeiros, por senhores da nobreza e clero. Em 1517 D. Manuel I concedeu aos habitantes uma nova carta de foral. Nessa época já se erguera em Salvaterra um Palácio Real tão belo que mais tarde até os reis espanhóis da Dinastia Filipina lhe fizeram elogios e atribuíram verbas para a conservação e ampliação do edifício. A caça, passatempo preferido de reis e nobres, foi um dos polos de atração para a corte. O facto de se instalarem sempre durante longas temporadas, transformava Salvaterra numa espécie de segunda capital do reino, pois ali se tomavam decisões e assinavam documentos importantes. Os reis que mais frequentaram o Paço de Salvaterra foram D. João V e D. José I.

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Vale a pena visitar

Há relatos da época de caça que descrevem festas, bailes, piqueniques, touradas e caçadas animadíssimas. No ano de 1753, quando reinava D. José I, foi inaugurado na vila um teatro de ópera com capacidade para 500 pessoas. Nesse palco atuaram muitos artistas portugueses e estrangeiros. Infelizmente o terramoto que em 1755 destruiu quase completamente a cidade de Lisboa também provocou danos em Salvaterra. Mas o Marquês de Pombal quis que os arquitetos encarregados da reconstrução de Lisboa se ocupassem da recuperação do palácio e do teatro de Salvaterra. Estes mesmos arquitetos pouco antes do terramoto tinham sido responsáveis pela construção da Falcoaria Real. Atualmente, do Palácio Real de Salvaterra restam apenas a Capela que pode ser visitada e 3 chaminés colossais, preparadas para se poderem assar bois ou javalis inteiros, que não se encontram abertas ao público. Do teatro de ópera não há vestígios. Só a Falcoaria Real continua no mesmo edifício e com as mesmas funções.


Horário de Funcionamento da Falcoaria De terça a sexta - das 9h às 12h30m e das 14h às 18h Sábados, Domingos e feriados: No inverno: das 9h às 12h e das 14h às 17h No verão: das 10h às 12h e das 15h às 18h Os visitantes podem assistir ao espetáculo fascinante dos falcoeiros em plena atividade, quando soltam os falcões para que voem livremente e depois os chamam para que voltem a pousar-lhes na mão enluvada.

Para qualquer contacto com a Falcoaria Real de Salvaterra de Magos Falcoaria Real de Salvaterra de Magos Avenida Dr. José Luís Brito Seabra, nº17 2120-051 Salvaterra de Magos falcoaria@cm-salvaterrademagos.pt tel. 263 509 522 fax. 263 509 501 N= 39º 1’ 40’’ W= 8º 47’ 54’’


O amigo Voador um conto de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada com Ilustrações de Pedro Rocha e Mello

Profile for Município Salvaterra de Magos

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