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um barulho choroso quando era movimentado, e isso poderia

tom pardacento, mantinham uma textura ainda agradável ao

acordar dona Fabiana. Lugar de menina é dentro de casa,

toque. Odila prestava atenção a esses detalhes.

quando muito no pátio, ela dizia. Odila não tinha permissão para correr com as outras crianças pela rua sem pavimentação e também não podia assistir as peladas no final de semana. Aquilo eram coisas de guri arruaceiro, nunca de gente decente.

Catou todas as flores secas que estavam no passeio

coberto de brita, juntou também as corolas murchas espalhadas no canteiro onde o pé de jasmim fazia as vezes de cabeceira e formou um pequeno monte para depois carregá-las para a horta,

Sem poder explorar as calçadas bem varridas dos vizinhos,

onde virariam adubo - aprendia essas coisas com o irmão mais

Odila se concentrou no jardim em frente à casa. Arrancar os

velho quando ele aparecia para visitar. Demorou um instante

inços e afofar a terra ajudava a preencher o vácuo da tarde sem

gostando do resultado daquela limpeza, olhando para a planta

rádio nem companhia para brincar. Por vários dias o sol não dava

renovada, sem os tons terrosos sujando a folhagem de brilho

trégua, Odila nem lembrava quando tinha sido a última chuva,

indeciso. Depois, se pôs de joelhos à borda do canteiro e

mesmo assim havia muitas ervas daninhas disputando espaço

começou arrancando a grama de folha muito delgada que a mãe

com as plantas e, em alguns canteiros, as flores já começavam a

chamava de capim-pelo-de-porco. Não entendia aquele nome,

perder a briga.

afinal nunca vira nenhum porco com pelos tão longos, e menos

A menina notava que a mãe já não dedicava a mesma

atenção às folhagens, tampouco à horta e resolveu cuidar daqueles retângulos delimitados por tijolos maciços enterrados no solo na diagonal, formando uma borda serrilhada. Queria causar alguma fissura no amargor que marcava as atitudes de dona Fabiana depois da viuvez e acreditando nessa possibilidade, começou pelo canteiro onde estava o jasmim e, antes mesmo de arrancar os capins sob o arbusto viçoso, gastou um tempo retirando as flores secas ainda presas ao pé. Já não tinham o perfume insistente, mas as pétalas ressecadas, de um

ainda verdes. Eram difíceis de arrancar, especialmente com a terra tão seca, então resolveu buscar alguma ferramenta que ajudasse a vencer o solo endurecido. Fazendo o menor ruído que pode, pegou uma faca de mesa, daquelas pesadas, de metal grosso. Havia somente duas daquele tipo na gaveta, as outras eram de qualidade muito inferior e certamente não resistiriam ao esforço. A ponta arredondada e o peso ajudaram a enfrentar a resistência do chão ressecado sem maiores riscos de se machucar, mas não era fácil arrancar o capim pela raiz, como era preciso fazer para que não brotasse com força na próxima chuva. Arrancou alguns com sucesso, mas outros foram apenas cortados rente à terra e uns nem tão rente assim. 4

Contos.com  

Seleção de contos publicados na web. Os textos da autora finalista do Prêmio Sesc 2009 - Maurem Kayna - estão reunidos em quatro blocos: em...

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