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2.1. Processos Cognitivos

2.1.2. A MEMĂ“RIA Prof. Marina Santos 2007

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«- Adeus, disse a raposa. Vou dizer-te o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos. - O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se recordar. - Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante. - Foi o tempo que perdi com a minha rosa...repetiu o principezinho, a fim de se recordar. - Os homens esqueceram esta verdade, mas tu não deves esquecê-la. Ficas para sempre responsável por aquela que cativaste. És responsável pela tua rosa. - Sou responsável pela minha rosa, repetiu o principezinho, a fim de se recordar.» (Antoine de Saint-Exupéry, O principezinho) 2


Definição de memória  Processo

que permite recordar conteúdos aprendidos que são armazenados para serem utilizados em momentos posteriores.

 Processo

dinâmico que consiste na aquisição, retenção e reactualização de conteúdos mnésicos ou de informação.

O conceito de memória permite abarcar um conjunto de actividades que integram tanto processos fisiológicos como psicológicos, os quais não podem podem ser produzidos no presente senão porque certos acontecimentos anteriores (próximos ou longínquos no tempo) modificaram de forma persistente o estado do organismo. 3


A relação entre memória e aprendizagem Aprendizagem e Memória são processos indissociáveis, na medida em que: - uma conduta só se considera aprendida se for retida, isto é, memorizada pelo sujeito; - o próprio conceito de aprendizagem como mudança sistemática e duradoura supõe implicitamente a memória como condição de conservação da resposta aprendida. 

A memória é o suporte essencial de todos os processos de aprendizagem, permitindo ao organismo manter continuamente um sistema de referência da experiência vivida.

No Homem, é o factor básico da capacidade de reconhecer a sua identidade como indivíduo e pessoa. 4


As fases da memorização 1.

AQUISIÇÃO ou CODIFICAÇÃO da informação recebida

Como entra a informação na memória? Através dos órgãos dos sentidos. => processo de codificação: conversão de dados adquiridos em formato psicológico. 2.

RETENÇÃO ou ARMAZENAMENTO

Como é a informação mantida na memória? Através de gravação por repetição simples (MCP) ou por elaboração (MLP). => processo mediante o qual mantemos na memória, durante determinado tempo, a informação que foi adquirida e codificada. 3.

REACTUALIZAÇÃO

Como é possível recuperar informação da memória? De acordo com o modo como a codificámos e armazenámos. => localizar a informação armazenada e fazê-la aceder à consciência. => processo de descodificação. 5


Tipos de memória No final dos anos 60, tornou-se dominante um modelo baseado numa analogia informática e desenvolvido por Atkinson e Shiffrin (“o modelo de memória de Atkinson-Shiffrin” é o mais representativo e aceite na actualidade – ver slide 8) .  memória:

estrutura constituída por 3 sistemas, relativamente independentes, mas em interacção e com características específicas:

1. Memória

sensorial 2. Memória a curto prazo 3. Memória a longo prazo 6


Analogia entre o processo mnésico e o processamento informático da informação:

COMPUTADOR

SER HUMANO

Codificação Armazenamento Reactualização Formação de novas memórias mediante um código.

Manutenção, ao longo do tempo, da informação recebida e codificada.

Recuperação da informação mantida nos armazéns da memória.

Introdução de dados por intermédio do teclado.

Manutenção ao longo do tempo da informação introduzida e codificada.

Recuperação da informação contida no ficheiro e exibição desta no monitor. 7


Memória Sensorial Estímulos sensoriais

input

Memória sensorial

Função: Registo sensorial dos estímulos. Capacidade: enorme capacidade de recepção de estímulos (mas fraquíssima capacidade de processamento).

Duração: retenção de imagens num período muito breve (0,3 seg. para informação visual; 2 seg. para a auditiva).

Divide-se em 2 subtipos:  Memória ecóica: informação auditiva;  Memória icónica: informação visual.  descoberto e estudado por Sperling em 1960

Formação: automaticamente, sem atenção ou interpretação. 

8 É necessária atenção para transferir dados para a MCP.


Memória a curto prazo input

MEMÓRIA SENSORIAL

Auto-repetição

ATENÇÃO

MEMÓRIA A CURTO PRAZO

 Função: processamento consciente da informação, que é

retida através da gravação por repetição.  Capacidade: limitada (7 elementos +/- 2)  Duração: breve armazenamento (+/- 30 segundos)  Codificação: acústica e visual. A repetição mental ou verbal da informação permite que se mantenha nesta mais do que os 30 segundos. Memória activa ou de trabalho => função executiva: conserva a informação o tempo necessário para a sua utilização; e possibilita a transferência dos conteúdos mnésicos de e para a MLP. 9


Memória a longo prazo auto-repetição

INFORMAÇÃO SENSORIAL

MEMÓRIA SENSORIAL

ATENÇÃO

MEMÓRIA A CURTO PRAZO

ARMAZENAMENTO

RECUPERAÇÃO

MEMÓRIA A LONGO PRAZO

Função: organiza e armazena informação para posteriores utilizações (é mais uma forma passiva de armazenamento do que uma memória de trabalho). Capacidade: Capacidade virtualmente ilimitada. Duração: pensa-se que é permanente. Codificação: através dos códigos visual e semântico (sobretudo este último, que consiste em redes de associações entre conceitos, permitindo uma reactualização mnésica mais bem sucedida). 10


TIPO:

MS

MCP

MLP

Duração

Menos de 1 segundo

Aprox. 20 segundos

Dias, meses ou anos

Capacidade

Muito limitada

Limitada a c. 7 unidades Alargada

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A Relação entre os 3 tipos de memória auto-repetição

INFORMAÇÃO SENSORIAL

ATENÇÃO

ARMAZENAMENTO

RECUPERAÇÃO

MEMÓRIA A LONGO PRAZO o icaçã codif s de Falha ção upera e re c ou d

AÇÃO RIOR DETE FERÊNCIA R INTE

OCORRE POR ...

AÇÃO RIOR DETE

O ESQUECIMENTO

MEMÓRIA SENSORIAL

MEMÓRIA A CURTO PRAZO

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Comparação entre os três tipos de memória

Adaptado de: Linda DAVIDOFF. Introdução à Psicologia

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A M.L.P. e os tipos de aprendizagem

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Memória e Esquecimento A aprendizagem implica a codificação da informação, a sua conservação na MLP e a sua recuperação (transferir dados da MLP para MCP). Esta recuperação faz-se, às vezes, sem esforço ou dificuldades. Outras vezes, apresenta-se como uma tarefa difícil, exigindo estratégias específicas. Muitas vezes até, a recuperação de dados, ou seja, a recordação de informações, não se pode dar => Esquecimento ou perda de memória.

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Os factores do esquecimento O

esquecimento não é algo negativo, negativo antes é uma condição inerente ao funcionamento da própria memória.  O esquecimento tem uma função selectiva, selectiva permitindo a depuração de materiais que, se não fossem eliminados, inundariam a memória de tal forma que provocariam perturbações graves; liberta-nos do peso de informação sem interesse.  FACTORES DO ESQUECIMENTO: Esquecimento por decadência ou distorção do traço mnésico; Esquecimento como resultado de interferência; Falha na recuperação do traço mnésico; Esquecimento motivado. 

Falhas na codificação, armazenamento ou recuperação 17 dos dados.


1) Decadência e distorção do traço mnésico Se muito do que aprendemos desaparece ao longo do tem-po, relativamente ao que retemos, podem ocorrer modifi-cações que deturpam aquilo que inicialmente foi aprendido. 1.a) DECADÊNCIA* DO TRAÇO MNÉSICO*: - Factor de esquecimento que se caracteriza pelo enfraquecimento dos conteúdos mnésicos, devido à passagem do tempo e ao desuso. *Traço mnésico: o conteúdo mnésico está registado no cérebro sob uma forma fisiológica. *Decadência: com o passar do tempo e a falta de uso activo, o traço enfraquece, vai-se desvanecendo e perde-se.  alteração fisiológica no traço neuronal que gravou a experiência. 18


1.b) DISTORÇÃO DO TRAÇO MNÉSICO: Num estudo, Frederick Bartlett mostrou o desenho de uma coruja estilizada (“desenho original”) a um participante, que foi convidado a ir redesenhando-o de memória. O processo continuou e, como se mostra, as reproduções vão-se alterando até se transformarem gradualmente num gato.  Estudos efectuados com outros materiais concluiram que alguns detalhes tendem a ser esquecidos, enquanto outros são introduzidos. 

«Com o tempo, um princípio de entropia corrói a recordação, que fica como que corroída pela traça, lacunar, desfiada e, em último caso, quando a queremos reconstruir passados tantos anos, só nos restam bocados incertos...» (Edgar Morin) Qual será a razão pela qual «Quem conta um conto acrescenta um ponto»?

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2) O Esquecimento por interferência Interferência: fenómeno que ocorre quando certos conteúdos mnésicos perturbam e impedem a reactualização da informação que procuramos. 

Interferência proactiva: algo que aprendemos antes perturba a reactualização de algo que aprendemos depois. passado

presente

=> esquecimento temporário da palavra “cats”

cats

chats 

Interferência retroactiva: algo que aprendemos recentemente perturba a recuperação de algo que aprendemos antes. => esquecimento temporário da palavra “chats”

passado

presente

chats

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cats


3) Falhas na recuperação do traço mnésico Falha na recuperação: fenómeno que se caracteriza pela perda da pista ou da chave de acesso adequada à recuperação da informação armazenada.  os dados não estão perdidos definitivamente, mas inacessíveis (por vezes devido ao modo deficiente como a informação foi codificada). Ex: Como é que se chamava aquele filme em que havia um extraterrestre ...pequenino e simpático...que foi parar a casa de um miúdo...e o FBI queria encontrá-lo...e até há aquela cena das bicicletas a voarem...o do dedinho...!

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4) O ESQUECIMENTO MOTIVADO O esquecimento motivado parece ser uma tendência do Homem, o qual deseja esquecer experiências desagradáveis, bem como recordar as agradáveis.

Esquecemos porque temos razões (geralmente motivações inconscientes) para esquecer algo, por ser desagradável ou perturbador.

1.

O recalcamento/repressão é um mecanismo inconsciente dos indivíduos, que consiste em evitar a recordação de situações penosas de dor, medo, ansiedade ou angústia. => segundo Freud, Freud o esquecimento é selectivo: esquecemos somente aquilo que inconscientemente nos interessa esquecer. => as recordações incomodativas são afastadas da consciência, reprimidas e armazenadas no inconsciente, onde permanecem latentes sem que o sujeito as possa evocar conscientemente.

2.

A supressão consiste num esforço deliberado e consciente para esquecer factos, pessoas e experiências que possam provocar ansiedade, sentimentos de culpa e outras perturbações psicológicas. => « escolhemos não pensar nisso, expulsá-lo da22memória.»


A amnésia Amnésia: perda de memória parcial ou completa, devida a trauma cerebral ou psicológico. Freud fala-nos de um tipo especial de esquecimento: a amnésia infantil => as primeiras recordações da infância não seriam acessíveis à consciência do sujeito dado estarem relacionadas com a sexualidade infantil. Amnésia anterógrada: incapacidade de formar novas memórias => recordar somente o passado. Amnésia retrógrada: incapacidade de relembrar factos e acontecimentos passados (alguns ou todos) => é especialmente afectada a memória episódica de vivências mais recentes. 23


DISTÚRBIOS da memória

FIXAR EVOCAR

FUNÇÕES associadas à memória

EXPRESSAR

INTERPRETAR

AMNÉSIA de fixação AMNÉSIA de evocação APRAXIA

AGNOSIA

lacunar electiva AGRAFIA AFASIA visual auditiva táctil

ESQUECER

HIPERMNÉSIA

DISTINGUIR

PARAMNÉSIA 24


As testemunhas oculares de crimes, tal como todos nós, têm inclinações pessoais que influenciam a percepção dos acontecimentos.

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EXERCÍCIOS 1. Identifique o tipo de interferência: Confundir o nome de um amigo actual com o nome de um amigo anterior.  Experimentar dificuldades em aprender as palavras de uma nova canção que tenha a mesma melodia do “vira”.  Não conseguir lembrar-se de uma velha receita de biscoitos, depois de experimentar uma nova.  Ter dificuldade em guiar um carro com caixa de velocidades manual depois de ter aprendido a guiar num de transmissão automática. Resposta: Interferência proactiva: a), b) e d); Interferência retroactiva: c). 

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EXERCÍCIOS 2. Identifique os tipos de memória:  Retém material durante aproximadamente um minuto.  Armazena padrões sensoriais não analisados no conteúdo  Realiza um processamento profundo.  Armazena material durante horas ou mais tempo.  É considerada o centro da consciência.  Armazena estímulos significativos interpretados.  Regista tudo o que impressiona os sentidos.  O acesso à informação nela contida requer, muitas vezes, uma estratégia de resolução de problemas.  Pode reter material durante minutos, mediante repetição.  Armazena material durante uma fracção de segundo. Resposta: MCP; MS; MLP; MLP; MCP; MCP/MLP; MS, MLP; MCP; MS. 27

Profile for Marina  Santos

A Memória - Psicologia  

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