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REVISTA Revista Plumas & Paetês Cultural - Ano VI - nº 02 - fevereiro | 2016

Monarco, nosso grande homenageado em 2016

NESTA EDIÇÃO Entrevistaexclusiva comPauloBarros

100 ANOS DO SAMBA A VOLTA DOS ENREDOS CRÍTICOS

CRISEECONÔMICAXCARNAVAL

DO

oonarca

amba


| Abre-Alas |

Revista Plumas & Paetês Cultural 7ª Edição - fevereiro 2016 Tiragem: 20.000 exemplares Circulação Gratuita - Venda proibida www.plumasepaetescultural.com.br /plumasepaetescultural/

O

Século XX é tido como o tempo da criação, pois a humanidade presenciou saltos notáveis em curto espaço de tempo. E entrou para a história, sobretudo como a era da tecnologia e das grandes invenções. E nós, brasileiros, o que deixamos de registro permanente e relevante no século passado? Qual o fei-

to que atravessou nossas fronteiras? Aqui vou me restringir a falar da nossa maior identidade e o que ainda nos traz alegrias e admiração diante do resto do mundo: o Samba. Este gênero musical superou preconceitos com sangue, suor e lágrimas,

COM A PALAVRA, O EDITOR Centenário do samba, derrubada da torre de TV, reflexos da crise econômica na folia, a volta dos enredos críticos... O carnaval de 2016 promete e a Revista do Plumas & Paetês Cultural está aqui para contar todas essas novidades. Seguindo a proposta iniciada nos números anteriores, deixamos nossa publicação mais atual, sem deixar de fazer os paralelos com o passado. Por isso, resolvemos mudar e, ao invés de lançarmos nossa tradicional edição no dia do prêmio, antecipamos sua circulação para abranger todo o período de pré-carnaval. Pop e histórica, de leitura fácil, sem deixar de ser profunda, a Revista Plumas & Paetês Cultural vem tão plural quanto esses novos tempos.

imprimindo a sua marca brasileira, e conquistando as demais nações. Lá, no século passado, já havia também a preocupação com a valorização e o reconhecimento dos que criavam suas obras musicais. E foram os “sambistas da Cidade Nova” os primeiros a se profissionalizarem e a registrarem a autoria de um samba, servindo até como um meio de obter, o, até então raro, prestígio social. Da repressão e dos preconceitos à aceitação em outras classes, o samba evoluiu com os sambistas, gênios imortais, que vasculharam os mais desconhecidos escaninhos da alma brasileira, e assim, apresentaram o Brasil para o mundo, que se curvou diante deste gênero musical. Consagrar aquele que nos uniu, como povo, em lugar de destaque no cenário internacional, faz parte dos nossos objetivos junto ao Plumas & Paetês Cultural.

PRODUÇÃO: Diretor Executivo: José Antônio Rodrigues Diretor de Patrimônio: Gustavo dos Santos Coordenador Administrativo: Anderson Ferreira Jornalista Responsável: Tiago Ribeiro (REG. 35127/RJ) REDAÇÃO: Editor: Tiago Ribeiro Produtor e Projetista Gráfico: Levi Cintra Revisora: Lilia Gutman Textos: Anderson Ferreira, Antonio Pedro Figueira de Mello, Daniel Targueta, Déo Pessoa, Evandro Gomes, Fábio Fabato, Gustavo Melo, Jorge Castanheira, José Antônio Rodrigues Filho, José Maurício Tavares, Leandro Alessandro, Luis Carlos Magalhães, Luiz Carlos Prestes Filho, Luiz Eduardo Fernandes, Madson Oliveira, Nilcemar Nogueira, Rachel Valença e Tiago Ribeiro. Fotografias: Acervo Riotur, Barbara Alejandra , Daniel Targueta, Fernando Maia, Luiz Eduardo Fernandes, Marcelo Faria, Marcos Mello, Rafael Wallace, Ricardo Leoni e Robson Talber. Foto de Capa: Marcos Mello Impressão: Gráfica MEC - Rua Visconde de Santa Isabel, 420 Grajaú - Rio de Janeiro - RJ CNPJ: 42.459.891/0001-99 Agradecimentos: Antônio Pedro V. Mello, Américo da Costa Borges, Déo Pessoa, Jorge Luiz Castanheira, Luiz Gustavo Mostof, Marcelo Veríssimo, Miro Ribeiro, Renato Thor e Thatiana Pagung. Todos os direitos reservados, Proibida a reprodução sem autorização prévia e escrita. O conteúdo dos anúncios é de responsabilidade dos respectivos anunciantes. Todas as informações e opiniões são de responsabilidade dos respectivos autores, não refletindo a opinião do Plumas & Paetês Cultural.

E é, com imensa satisfação, justamente no ano do centenário do samba, que escolhemos para representá-lo o grande compositor e cantor MONARCO. O carioca portelense, reconhecido como pertencente à linhagem do “samba de raiz” e também um dos expoentes da Música Popular Brasileira, será o nosso homenageado da 12ª edição do Prêmio, em 2016. No universo do samba, passado, presente e futuro se unem, e Pelo Telefone ancestral pedimos as bênçãos de Tia Ciata para que os versos do poeta “Respeite quem pôde chegar onde a gente chegou” sejam sempre lembrados, trazendo mais valorização aos artistas deste gênero musical que entra nesse novo século, carente de mais poesia. Uma era em que a vida é tão corrida, onde vivemos os benefícios e os males da modernidade, nada como um bom samba para nos inspirar e contribuir para uma vida mais feliz.

José Antônio Rodrigues Filho Gestor do Prêmio Plumas & Paetês Cultural


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EDIÇÕES ANTERIORES

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TIAGO RIBEIRO O MONARCA DO SAMBA A história do sambista de sangue azul (e branco) da Portela

Revista

Plumas & Paetês Cultural

MADSON OLIVEIRA O MUNDO QUE PAULO CRIOU Em entrevista, Paulo Barros revela seu processo criativo

11 12 14 16 18 20 22 24 26

LUIS CARLOS MAGALHÃES

12

NUMA ESTRADA DESSA VIDA... Monarco, uma página viva de glórias

DANIEL TARGUETA “SE UM DIA MEU CORAÇÃO FOR CONSULTADO” (Ou quando Monarco escolheu o samba-exaltação da Portela)

PLUMAS EM NÚM3R05 Conheça os recordes e o tamanho do sucesso do Plumas e seus premiados

LUIZ EDUARDO FERNANDES

GALERIA 2015

VEJA ALTO, OUÇA COLORIDO A beleza da vida e da arte de Mello Menezes

Confira as imagens dos premiados da 11ª Edição do Prêmio Plumas & Paetês Cultural em homenagem à cantora Elza Soares.

TIAGO RIBEIRO EM GUARDA PELOS MAIS VELHOS Uma crônica sobre a importância da velha guarda das escolas de samba

BASTIDORES Descubra todas as atividades que o Plumas, seus gestores e parceiros realizam ao longo do ano

JOSÉ MAURÍCIO TAVARES A MALANDRAGEM DO BOM MALANDRO O visionário Paulo da Portela e sua contribuição para a mudança visual das escolas de samba

O CURIOSO CARNAVAL DE 2016 As coincidências, novidades e curiosidades da próxima folia

NILCEMAR NOGUEIRA LEANDRO ALESSANDRO A IMPORTÂNCIA E VISIBILIDADE PARA OS DESTAQUES DA CULTURA DO RIO DE JANEIRO Plumas & Paetês Cultural recebe diploma Heloneida Studart, na ALERJ

FÁBIO FABATO DIVÃ AGORA E SEMPRE, AMÉM A Importância dos enredos de cunho crítico

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O SÉCULO DO SAMBA Sobre o samba que mora em mim e a morada que fiz pra ele

ANDERSON FERREIRA A VOZ DO SAMBA SOU EU MESMA, SIM SENHOR A importância de uma sambista no Conselho Nacional de Política Cultural

JOSÉ ANTÔNIO RODRIGUES FILHO

JOÃO GUSTAVO MELO

O ALFAIATE DO REINO Como o acaso levou Ari Mesquita a ser o estilista das Rainhas do Carnaval

RÉQUIEM PARA UMA TORRE A demolição da torre de TV da Sapucaí... Já Vai Tarde? Ou Deixa Saudades?

RACHEL VALENÇA O MAIOR ESPETÁCULO AUDIOVISUAL DO PLANETA A importância das escolas de samba nos 50 anos do Museu da Imagem e do Som

EVANDRO GOMES BOLA E SAMBA NO PÉ As escolas de samba e sua eterna inspiração no futebol

EPITÁFIO DO SAMBA LUIZ CARLOS PRESTES FILHO A REALIDADE DA ILUSÃO Crise econômica versus carnaval

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UM CARNAVAL NAS ESTRELAS Homenagem aos sambistas que nos deixaram em 2015

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28 32 36 38 40 42 44 46 48 50 52 54


| Mensagem |

Prêmio Plumas & Paetês Cultural 2016 Homenagem aos artífices e profissionais do carnaval.

E

nfim, 2016. Ano tão sonhado desde outubro de 2009, quando fomos escolhidos para sediar os Jogos Olímpicos. E começamos a festa na virada, quando celebramos a chegada do ano novo com o tema Cidade Olímpica. Mas 2016 também é o ano

CATEGORIAS

em que se celebra o centenário do samba, e a festa não poderia

Aderecista Artesão Artista Plástico Carnavalesco Carpinteiro Compositor Coreógrafo Costureira Desenhista Destaque de Luxo Escultor Ferreiro Figurinista Gestor de Ateliê Iluminador Inovação Jornalista Maquiador Artístico Pesquisador Pintor Fotógrafo Personalidade do Carnaval Radialista Repórter Gestor de Mídia Melhor Bloco de Carnaval Eu Sou o Samba

ter ritmo diferente em sua trilha sonora. Um início de ano com o pé direito e muita animação, numa antecipação do carnaval nas areias de Copacabana. Este ano também comemoramos os onze anos do Prêmio Plu-

Antônio Pedro Figueira de Mello, Secretário de Turismo da Cidade do Rio de Janeiro

mas & Paetês Cultural, um dos mais respeitados do mundo do samba, contemplando 26 categorias profissionais da economia criativa do carnaval carioca, valorizando o profissionalismo e promovendo, em seu evento anual na Cidade do Samba, uma grande confraternização que tem desdobramentos em possíveis novas parcerias comerciais e institucionais entre os envolvidos. Muito bonito esse momento em que a turma dos bastidores tem seu dia de destaque – afinal, o que seria do maior espetáculo da Terra se não fossem o amor e a dedicação empenhados por quem sua a camisa para transformar o sonho em realidade? Pra concluir, gostaria de elogiar a iniciativa da escolha do sambista Monarco como homenageado desta edição. Grande artista, cantor e compositor, ele é um símbolo da nobreza do samba e um verdadeiro representante da carioquice. Nascido em Cavalcante e criado em Oswaldo Cruz, sua história se confunde com a da Portela, sua escola de coração, cuja quadra ele frequenta desde pequeno e da qual faz parte da ala de compositores desde a década de 1950. O autor de “Coração em Desalinho” conquistou a devoção de todo o mundo do samba e é digno e merecedor de todas as homenagens.

Realização:

Patrocinador Ociais do Prêmio Plumas & Paetês Cultural 2016


| Mensagem |

E

xistem datas que ficam marcadas em nossas vidas. Nascimentos, conquistas... Grandes alegrias, até mesmo tristezas. Outras, são importantes para uma coletividade, para uma cidade, para um país. Servem de marco para a formação de um povo. O ano de 2016 é marcante para a cultura brasileira.

Neste verão nada melhor e mais refrescante do que uma bebida gostosa e gelada.

Neste ano, em que nossa cidade receberá os Jogos Olímpicos, pela primeira vez realizados na América do Sul, completamos 100 anos do lançamento de “Pelo telefone”, primeira composição a ser reconhecida como samba, o gênero musical que primeiro definiu o Brasil no exterior. Jorge Castanheira, Presidente da LIESA

Composto por Ernesto dos Santos, o Donga, e Mauro de Almeida, “Pelo telefone” tem o Rio de Janeiro em seu DNA: surgiu nos terreiros da casa da Tia Ciata, na Praça XI, berço de bambas e fértil terreno para nosso carnaval. Pouco mais de uma década e meia depois do surgimento de “Pelo telefone”, em Cavalcante, no subúrbio do Rio de Janeiro, nasceria Hildemar Diniz. Dito assim... Mas se falarmos em Monarco... Compositor de inúmeros sucessos, integrante da Velha Guarda e presidente de honra da Portela, Monarco é o grande homenageado do Plumas & Paetês Cultural no ano do centenário do samba, demonstrando a total ligação entre a organização do prêmio e os fatos que marcam nossa cultura popular. Apesar de compor para a Portela desde a década de 1950, Monarco jamais venceu um samba de enredo na Escola, mas tem diversas composições que marcaram época na agremiação. Composições que certamente entram, com louvor, para a história do samba, este ritmo que nasceu há um século e que nos emociona e faz vibrar.

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PLUMAS EM

| Mensagem | Prêmio

A

preparação para o Carnaval de 2016 acontece em um ano de dificuldades financeiras para o país. E se o dinheiro está mais escasso também para as escolas de samba, resta superar as adversidades na base do trabalho e da criatividade. A escolha de um enredo interessante possibilita à agremiação a construção de um desfile promissor. Se ela vier, ainda, acompanhada por um bom planejamento na gestão administrativa, é possível reaproveitar e utilizar materiais que dependam menos do dinheiro e mais do talento do carnavalesco.

Deo Pessoa, Presidente da LIERJ

E por trás do sucesso de um grande desfile não está apenas uma pessoa, mas sim vários profissionais, até desconhecidos do grande público, contudo, com uma enorme importância para o resultado final. A alegoria só encanta as arquibancadas porque ferreiros, pintores, arquitetos, escultores e soldadores atuaram com dedicação no barracão. As fantasias só arrancam suspiros dos camarotes e frisas porque desenhistas, figurinistas, costureiras e sapateiros seguiram à risca a reprodução dos protótipos. Não podemos deixar de ressaltar, ainda, que o sonho da Cidade do Samba 2 continua mais vivo do que nunca. Se as escolas da Lierj conseguem realizar espetáculos tão encantadores em condições tão precárias, imaginem só como ficarão as apresentações em espaços organizados, salubres e seguros? Os trabalhadores merecem locais dignos para atuar. Na sexta-feira e no sábado de Carnaval, o público vai poder ver de perto o resultado do ano inteiro de dedicação dos profissionais das 14 agremiações da Série A. E cada um deles, além de estarem cheios de expectativas pelo resultado da apuração, na quarta-feira de Cinzas, também vão se alimentar de esperança para verem seus nomes na lista de premiados do Plumas & Paetês Cultural. Iniciativas como essa ajudam a incentivar os verdadeiros protagonistas da festa e merecem os aplausos do mundo do samba. Desejo a todos que possam vivenciar o melhor Carnaval de todos os tempos!

2016.100anosdoSamba,Plumas&Paetês Culturalchegaráamarcade500troféus distribuídos.Emumanodeváriosnúmeros importantes,conheçaosrecordeseotamanhodo sucessodoPlumaseseuspremiados. Foram473prêmiosdadosa645premiadosem11 edições.540homense104mulheres.

NÚM3R05 TOP 5 DOS PROFISSIONAIS MAIS VITORIOSOS: 1° Lugar: Alex de Souza (8 prêmios) 2° Lugar: Fábio Ricardo (7 prêmios) 3° Lugar: Jack Vasconcelos e Rossy Amoedo (6 prêmios cada) 5° Lugar: Carlos Reis, Priscilla Mota e Rodrigo Negri (5 prêmios cada)

CURIOSIDADES

Ÿ 63 escolas de samba já tiveram profissionais premiados no

Plumas.

Ÿ Em 2015, começamos a premiar os profissionais das escolas de

TOP 10 DAS ESCOLAS COM MAIS PROFISSIONAIS PREMIADOS:

Ÿ Os compositores do Império da Tijuca são os maiores premiados

1° Lugar: Beija-Flor (41 prêmios) 2° Lugar: Unidos de Padre Miguel (26 prêmios) 3° Lugar: Salgueiro e Unidos da Tijuca (23 prêmios) cada 5° Lugar: Grande Rio e Portela (22 prêmios) cada 7° Lugar: Mocidade e Império da Tijuca (20 prêmios) cada 9° Lugar: Estácio de Sá e Rocinha (19 prêmios) cada

samba de Vitória/ES. Antes desses, de fora do Rio de Janeiro, apenas a ARUC (de Brasília) havia sido premiada.

consecutivos do Plumas. Os poetas tijucanos ganham a respectiva categoria há 3 anos.

Ÿ Já Leonardo Leonel e Leandro Santos são os maiores premiados

consecutivos por trabalhos em escolas diferentes. Estes gestores do ateliê Aquarela Carioca ganharam pela confecção das melhores fantasias de casais de mestre-sala e porta-bandeira da Série A há 4 anos. Vale lembrar que eles vencem a categoria desde que ela foi criada, sendo os únicos premiados unânimes do prêmio.

Ÿ Dois dos nossos premiados são os mais polivalentes, tendo

ganhado em categorias bem diferentes: Ricardo Denis como Melhor Maquiador Artístico em 2013 e Artesão em Espuma em 2014, ambas pelo Grupo Especial; e Thiago Martins como Melhor Destaque Performático do Grupo Especial em 2012, Aderecista do Especial 2014 e Aderecista do Acesso A 2010.

Ÿ Três de nossos multipremiados estrearão ou retornam ao posto de

carnavalesco do Grupo Especial, em 2016. São eles: Jack Vasconcelos (com 6 troféus) que voltou para a Ilha do Governador; Edson Pereira (tricampeão no Plumas) que estreia na Mocidade; e Leandro Vieira (com 3 prêmios nossos) e que assina o desfile da Mangueira. Ficamos muito orgulhosos de acompanhar essa trajetória ascendente.


| Galeria 2015 | Confira as imagens dos premiados da 11ª Edição do Prêmio Plumas & Paetês Cultural em homenagem à cantora Elza Soares. A premiação ocorreu em 11 de abril, na Cidade do Samba e reuniu representantes das agremiações do mundo do Carnaval.


| Bastidores |

POR JOSÉ ANTÔNIO

NOVO APLICATIVO

PLUMAS&PAETÊS CULTURAL

CARNAVAL 2016 DA LIERJ É PREMIADO CD dos Sambas de enredo da Série A - Carnaval 2016 da Lierj é premiado com Disco de Ouro. O presidente Déo Pessoa e o vice-presidente Renato Thor receberam da gravadora Som Livre uma placa comemorativa pelas mais de 40.000 vendas do produto, para homenagear a entidade.

A COROA DO REI Pelo terceiro ano consecutivo o Plumas é responsável pela elaboração da coroa do Rei Momo Carioca, que teve como tema os jogos olímpicos, a criação foi do estilista Anderson Ferreira. 2º SEMINÁRIO DA SEMANA DO DESIGNER DE INTERIORES, NA UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ

JÁ PENSOU EM ESCOLHER OS CAMPEÕES DO CARNAVAL? OLHAR ALEGÓRICO Um dos gestores do Plumas & Paetês Cultural, Maurício Tavares exibe, até 22 de fevereiro, no Centro Cultural Municipal Laurinda Santos Lobo, em Santa Tereza, a exposição Olhar Alegórico, que traz esculturas, quadros e instalações que trazem um novo olhar sobre o universo carnavalesco. O endereço é Rua Monte Alegre, 306. A entrada é gratuita e o horário de funcionamento é de terça à domingo, das 9 às 20h.

O professor Ricardo Lopes com os alunos da turma do curso superior de designer de Interiores, na palestra sobre produção de eventos realizada pelo produtor cultural e gestor do Plumas & Paetês Cultural, José Antonio.

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Através do App Plumas e Paetês Cultural, disponível para Android e Iphone, você ajuda a decidir nossas categorias de voto popular, o grande homenageado para 2017, participa de enquetes, conhece mais sobre o nosso prêmio, concorre a convites para a premiação e a muitos outros brindes. Baixe, vote, participe e seja você também um dos protagonistas dessa grande festa!

Pelo segundo ano consecutivo, o Plumas & Paetês Cultural contou com um stand na feira Carnavália Sambacom Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

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Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

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| Gestão de Carnaval |

POR TIAGO RIBEIRO

E

O CURIOSO CARNAVAL DE 2016

de fevereiro) pelo “O Brasil de La Mancha: Sou

valeiro, Pixote Brasileiro”, 3 meses depois. Mas essa não foi a primeira vez que isso ocorreu. Em 1980, o Salgueiro substituiu, em cima da hora, um enredo sobre Lamartine Babo pelo “O Bailar dos Ventos, Relampejou, Mas Não

enredo “Salve Jorge! O guerreiro na

na Lapinha. Já para 2016, o desfile será

fé”, pelo Grupo Especial. Já a Alegria

“Cacá Diegues - Retratos de um Brasil em

celebrará Ogum, no enredo de mes-

Cena!”. Este famoso cineasta, por sua vez,

mo nome, na Série A.

D

positor imperiano já foi tema do carnaval “Réquiem por um sambista, Si-

las de Oliveira”, em 1974, da Imperatriz Leopoldinense, escola de samba afilhada do Império. Na ocasião, a agremiação de Ramos alcançou a sexta colocação.

D

epois de marcar história na Imperatriz, Rosa Maga-

D

a Renascer vem outra curiosidade: um dos autores do seu samba, Cláudio Russo, também foi vitorioso nas dis-

dos outros compositores é Samir Trindade, que também assina os sambas da Portela e Unidos de Padre Miguel. Arlindo Cruz venceu no Império Serrano e Vila Isabel, já Zé Glória foi campeão na Viradouro, Cubango e Santa Cruz. Vale lembrar que isso só é possível, pois a Série A permite que um mesmo compositor dispute em várias agremiações.

agora abordando um enredo de cunho crítico, marca

da escola, cujo título é “Mais de Mil Palhaços no Salão”. O

compositores: Zé Katimba. Além de

curioso é que ela deve ser a carnavalesca que mais traba-

ter, em 2016, seu décimo samba

lhou em escolas de samba diferentes. Além das já citadas,

cantado na avenida por sua escola

Rosa já assinou carnavais no Salgueiro, Portela, Beija-Flor,

do coração, Zé, que terá 83 anos no

Império Serrano, União da Ilha, Vila Isabel, Estácio de Sá, Mangueira e nas

próximo carnaval, é o único fundador

paulistanas Dragões da Real e Barroca Zona Sul.

de Nova Iguaçu (Grupo B) e Mocidade Unida da Glória (Vitória – ES),

já Edson Pereira está com as duas escolas de Padre Miguel (a Mocidade e a

agremiações em seus desfiles, tais como quando a Viradouro cantou o Salgueiro, a Man-

é coreógrafo das comissões de frente

gueira estreou as homenagens ao Cacique de Ramos e o Salgueiro exaltou a Mangueira.

da Cubango e Estácio de Sá enquanto

Entre

personalidades

como fios condutores de enredo, desfiles totalmente biográficos ou até os que tratam

Rosa só não Vai Quem já Morreu”, quando a agre-

artistas da folia, em 2016, vão fazer dupla ou até tripla função. Cid

tar o Cacique de Ramos. Em diversas ocasiões escolas de samba já celebraram outras

homenagens.

Costa e Gilberto Gil) no enredo “Atrás da Verde e

E

não são só os compositores que trabalham para várias escolas. Vários

União da Ilha) assina sozinho o carnaval da Paraíso do Tuiuti; Márcio Moura

E

J

lando em homenagem a si mesma. No Grupo B, a Unidos da Capela vai cantar seus 50 anos, a Cabuçu suas 7 décadas e a Unidos do Jacarezinho, seu cinquentenário.

das personas de Santo católico e orixás.

No Grupo C, a Mocidade Unida da Cidade de Deus também vai

Metade das escolas, entre Grupo Especial e

contar seu meio século de existência e a Vila Santa Tereza vai exal-

Série A, vai homenagear figuras relevantes.

tar seus 60 anos. Sem contar os enredos da Arranco do Engenho de Dentro e da Acadêmicos do Engenho da Rainha, ambas pelo Grupo B, que vão usar seus últimos setores como auto-homenagem, respectivamente, nos desfiles “Pelo Engenho de Dentro, de Amores, eu Me arranco” e “Salve, Rainha”.

em várias escolas e os que assinam a obra em escolas dife-

é cantor oficial do Império Serrano e autor do

Unidos), enquanto Jack Vasconcellos (que faz dupla com Paulo Menezes na

á na Intendente Magalhães não vai faltar escola desfi-

de samba, há os que ganham

em adversárias diretas. Pixulé, por exemplo,

como tema para 2016, no Grupo B e a Arrastão de Cascadura, no Grupo C, vai can-

2016 parece ser mesmo o ano das

E

quando se fala em compositor

rentes das em que eles trabalham, inclusive

Carvalho, por exemplo, é o carnavalesco da Cubango (Série A), Leão

da Acadêmicos do Tatuapé. Já a Unidos de Bangu terá a Mocidade Independente

ra, em 1994, (ao lado de Caetano Veloso, Gal

Brasil”. A agremiação da Série A surpreendeu todos no dia do sorteio da ordem dos desfiles,

mana dedicado a essas entidades.

onde Silas de Oliveira serve como fio condutor do desfile. O célebre com-

destaque vai para um dos seus

J

com o enredo “Ibejis – Nas Brincade

ras de Criança: os Orixás que Viraram Santos n

malandragem, inspirado no espetáculo homônimo de Chico

a verde e branca de Madureira vem o enredo “Silas Canta Serrinha”,

a Imperatriz Leopoldinense o

uma das homenageadas da mesma Manguei-

giosas é a Renascer de Jacarepagu

já foi enredo da extinta escola de samba

lhães vai para o seu segundo ano na São Clemente,

Bethânia será o tema do enredo. A Cantora foi

O

utra que também exaltará figuras re

mente preterido. O motivo é este ser o dia da s

D

Revista

diferentes: a primeira, São Jorge, no

nageados foram Nelson Sargento e Joaqui-

tão Grupo B.

o carnaval de São Paulo vem o enredo em homenagem à Beija-Flor, no carnaval

& Paetês Cultural 16 Plumas 2016

mesma divindade, mas sobre religiões

um artista. Nos anos anteriores, os home-

apresenta o enredo “A Ópera dos Malandros”, uma ode à

da Imperatriz ainda vivo.

miação alcançou a 11ª colocação.

cutiva, na Série A, cantará a vida e obra de

putas da Tuiuti e Cubango. Nesta última, um

poldinense seria campeã com um enredo sobre Lamartine.

á sob as cores verde e rosa, em 2016, Maria

Estácio de Sá e a Alegria da

Zona Sul coincidiram de exaltar a

preferir se apresentar na sexta-feira, dia norma

Império Serrano, em 1984.

Choveu”. Ironicamente, no ano seguinte, a Imperatriz Leo-

D

tantas homenagens que a

quando foi rebaixada, em 9° lugar, pelo en-

enredo #alendaimaginação (anunciado em 28

Miguel, Padre Miguel. Sou Cervantes, Sou Quixote Ca-

N

Acadêmicos da Barra da Tijuca, em 2004,

desfile sobre o lado pejorativo da malandragem, “Foi Malandro, É”, no

A

biográficos, esta é a Inocentes de

o próximo carnaval serão

alando em Salgueiro, em 2016 a vermelho e branca da Tijuca

Buarque. Vale lembrar que seu carnavalesco, Renato Lage, já assinou um

Mocidade surpreendeu a todos por mudar seu

tornando especialista em enredos

Belford Roxo, que pela terceira vez conse-

AS COINCIDÊNCIAS, NOVIDADES E CURIOSIDADES DA PRÓXIMA FOLIA

F

se tem agremiação que está se

Junior Scapin coreografa o segmento na Mangueira e na Tuiuti, além do Hélio Bejani que coordena os bailarinos no Salgueiro e Caprichosos e Patrick

hino da Alegria da Zona Sul; Wander Pires, quando ainda intérprete da Portela (antes de ir para a Estácio) venceu a disputa na Mocidade; do samba da Unidos da Tijuca vem dois autores da Viradouro: o presidente da escola, Gustavo Clarão, e o intérprete Zé Paulo Sierra.

M

as nenhuma curiosidade sobre samba enredo é maior que a vivida pelo compositor Salviano, que assina o

samba na Estácio de Sá sobre São Jorge e que já venceu a disputa no Império da Praça Seca, quando a escola apresentou o mesmo enredo, em 2013, pelo Grupo B.

E

o mercado do carnaval está mesmo movimentado. Pra se ter uma ideia, só até a data de fechamen-

to desta matéria, metade das escolas de samba do Grupo Especial havia mudado de intérprete para o próximo carnaval.

E

o nosso último tópico fala também sobre as escolas do Grupo Especial. Assim como em 2015, a TV Globo não transmitira ao vivo a primeira escola de cada dia do Grupo Especial,

após os protestos do mundo do samba quando anunciou que também não transmitiria a segunda. O curioso é saber que essa história não

Carvalho assinando as coreografias na

é de hoje, já que, em 1981, a Unidos da Tijuca perdeu 5 pontos em

União da Ilha e Porto da Pedra. Sem

cronometragem, pois recusou-se a começar seu desfile enquanto as

contar alguns casais de mestre-sala e

emissoras de TV não começassem a transmissão.

porta-bandeira e intérpretes oficiais no acesso que formam, respectivamente, o segundo casal e integram os carros de som do Grupo Especial...


| Gestão de Carnaval |

POR LEANDRO ALESSANDRO

A IMPORTÂNCIA E VISIBILIDADE PARA OS DESTAQUES DA CULTURA DO RIO DE JANEIRO Foto: Rafael Wallace/ ALERJ

al, circo, culturas afro-brasileiras, culturas dos povos indígenas, culturas populares, dança, design, moda, museus, música erudita, música popular, patrimônio imaterial, patrimônio material, teatro e literatura, livro e leitura. Ao longo de suas duas edições, o diploma já foi concedido a personalidades como Andrea Beltrão, Mariana Ximenes, Wagner Moura, Marco Nanini, Mateus Solano, Diogo Nogueira, Maria Gadú, Chico Pinheiro e Regina Casé. No âmbito carnavalesco, além do Plumas, já foram laureados Adilson Barbosa Pereira, mais conhecido com Adilson da Vila (criador da Velha Guarda Musical de Vila Isabel) e o bloco carnavalesco Saias na Folia, que já se apresentou no Plumas em 2013.

PLUMAS & PAETÊS CULTURAL RECEBE DIPLOMA HELONEIDA STUDART, NA ALERJ

A

costumados, há mais de dez anos, a premiar os profissionais dos bastidores do carnaval, os gestores do Plumas & Paetês Cultural se viram tão nervosos e felizes quanto os trabalhadores aos quais exaltam. 26 de maio de 2015 ficou marcado como o dia em que o prêmio foi diplomado. Oferecido pela Câmara dos Deputados do Estado do Rio de Janeiro, o Diploma Heloneida Studart de Cultura, foi entregue em sessão

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Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

solene, na própria Assembleia Legislativa (ALERJ), em virtude do destaque da empresa Plumas e Paetês Cultural e Eventos Ltda. na promoção da Cultura do Estado. Junto com outras organizações, pessoas físicas e jurídicas, o Plumas atendeu aos critérios de avaliação da Comissão de Cultura, que avaliou a indicação dos nomes por relevância cultural. Criado em 2009, o título do diploma é em homenagem à ex-deputada, teatróloga, jornalista, feminista, escritora e ex-presidente do Sindicato das Entidades Culturais, Heloneida Studart Soares Orban (1932 – 2007) devido à sua atuação nas políticas culturais e públicas. Esta diplomação é uma forma de reconhecimento e estímulo às práticas culturais nas áreas de arquitetura e urbanismo, arquivos, arte digital, artes visuais, artesanato, audiovisu-

Para os interessados em colocar seu projeto para disputar a edição 2016, basta acompanhar a página da Comissão de Cultura da ALERJ, no Facebook. As Inscrições estão previstas para março e abril e a solenidade de diplomação deve ocorrer em maio. Segundo Zaqueu Teixeira, Deputado e Presidente da Comissão de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, a proposta para a próxima edição é incluir a participação popular na indicação e votação do prêmio, tornando-o mais democrático. Valorizar figuras e organizações, tanto as de renome como outras não tão conhecidas, que fazem a cultura do Estado do Rio, reconhecendo a prata da casa, gerando visibilidade e crescimento no mercado cultural... Nada mais adequado do que um diploma que tem a mesma premissa do Plumas, premiá-lo.

Leandro Alessandro é Bacharelando em Produção Cultural pelo IFRJ, e assistente de direção do Plumas & Paetês Cultural. Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

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| Gestão de Carnaval |

POR FÁBIO FABATO

DIVÃ AGORA E SEMPRE, AMÉM

uma Mocidade arrasadora, mas foi uma ovação. Ficou eternizado. De volta à vaca fria, os brasileiros só novamente iriam às urnas para escolherem (mal) seu mandatário quatro translações à frente, em 1989, o ano de “Ratos e Urubus”, outro enredo pra lá de mordaz, e que exaltava o povo da rua – mendigos, bêbados, meretrizes. A história do Brasil com a lente de aumento deslocada para debaixo dos panos. Os protagonistas desta peça operística foram a Beija-Flor de Nilópolis, Joãosinho Trinta e Laíla, este, aliás, o último dos românticos do comecinho dos anos 60 ainda atuante na festa imodesta que cá homenageamos. Deu num vice-campeonato controverso.

Foto: Ricardo Leoni / O Globo

Em 1990, a Mocidade ganhou pela terceira vez, e na carona de alegorias e céu de luz néon, de uma São Clemente que criticava ferrenhamente o crescimento das escolas de samba. Novos apontamentos ferinos, agora na direção do modelo de gigantismo reinante que limitava o samba no pé. O Império fizera o mesmo em 1982, mas, ao contrário da Amarela-e-Negro da Zona Sul, poupara os donos da festa. Sim, agora o furdunço virara Hollywood, como dizia o belo e mordaz samba-enredo. E se tivesse sido campeão o canto da “contracultura” foliã que ousava bradar - e no seio do amplo domínio dos patronos –, contra o fato de o samba ter sambado no reino dos “cartolas do poder de quem dá mais”? Onde estaríamos, para onde iríamos, quem seríamos nós? Mas ela perdeu e engasgamos com palavras jamais proferidas...

A IMPORTÂNCIA DOS ENREDOS DE CUNHO CRÍTICO

A

crítica e a ironia são o sal e a pimenta que sempre perfumaram o carnaval brasileiro. Nas escolas de samba, porém, a coisa demorou bem mais e a patriotada temática dos primeiros anos só foi desembocar em flexibilização a partir dos anos de 1960, quando Fernando Pamplona – mito, gênio, figura totêmica, salve, salve –, e sua turma passaram a exaltar os saberes africanos, jogando marca-texto nas linhas mais óbvias, mas que ficaram esquecidas por um bom caminhão de primaveras: os baticuns são negros da raiz às pontas. No livro “Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos”

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Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

(Mórula Editorial, 2015), Luiz Antonio Simas e este escriba aqui defendemos a tese de que os enredos sempre foram pautados pelos contextos de época. Trocando em miúdos: escola de samba que não é coringa e adaptável àquilo que domina as manchetes dos jornais não é escola de samba. Captaram?

anos 80, e tome de gritos de “Diretas Já!”, críticas ao sistema de bicos calados, pedidos de democracia plena e tudo mais o que deveria nos inspirar da aurora ao arrebol. Logo as escolas captaram o burburinho efervescente das ruas e trataram de reescrever suas posturas temáticas. Danadinhas!

Ora, em 1964, por exemplo, abriu-se a cortina da nefasta Ditadura e, na sequência, um festival de temas que flertavam com os milicos sem pudor algum. Os grêmios, no geral, nunca tiveram vergonha de beijarem a boca de quaisquer formas de poder, e assim sobreviveram, até mesmo nos ditos “Anos de Chumbo”. Certos? Errados? Botemos na conta das estratégias de sobrevivência tal característica particular que os diferenciaram dos falecidos ranchos, cordões e grupamentos irmãos. Mas aí um dia a porteira se arreganhou, bem ali na meiúca dos

Foi então que se destacou o genial Luiz Fernando Reis (para orgulho meu, hoje, um amigo, querido e com quem divido a cabine de comentaristas da Super Rádio Tupi durante os desfiles), na Caprichosos de Pilares em sua versão seminal, pura de tudo, algo que viraria marca tatuada na alma daquela gente de lá. Em 1985, o “Diabo Velho”, apelido de Reis, inventou um enredo com apelo simples e sensorial sobre as muitas saudades, emoldurado por um samba que jamais saiu da memória: “Diretamente... O povo escolhida o presidente”. Perdeu para

Os carnavais não pararam de ir e vir e, com a reconfiguração das relações sociais e a monarquia do politicamente correto untado na vaselina do “babaquismo”, as escolas de novo frearam o viço por enfiar o dedo nas feridas mais importantes, seja delas próprias ou do país. E assim seguimos um destino incerto sobre para onde caminha o quesito enredo – tão fundamental –, e que, no atual contexto, segue os ritos do que chamamos de propaganda de massa, com a padronização globalizada e o esvaziamento cultural. Ora, processar crítica e ludicamente o país não pode deixar de ser pauta de uma festa. Afinal, esta deve ser uma agenda constante do povo, e não apenas de quatro em quatro. População atenta e atuante naturalmente vai gerar escolas de samba inflamadas e porta-estandartes dos seus anseios. Que Luiz Fernando Reis, Joãosinho Trinta, Fernando Pinto, Pamplona e todos os mais estejam sempre no horizonte das intenções. Estes, que são deuses, sempre souberam da Avenida como o maior dos divãs, arquipélago de leis peculiares onde o Brasil se devora, se constrói e se processa. Assim seja. Agora e sempre. Amém.

V vaidarsamba.com.br

com Miro Ribeiro

Pra quem curte o melhor programa de samba do Brasil Sábados das 21h às 23h na Rádio Roquette Pinto - 94,1FM Giovane Ramos, Henrique Nascimento Produção e Renata Nolasco são alunos do curso

Fábio Fabato,

é jornalista, escritor e comentarista de carnaval. Tem cinco livros publicados, quatro deles sobre as escolas de samba do Rio de Janeiro.

de jornalismo da UNISUAM. Em 2015, Rafael Bacelo e Miguel Ângelo cobriram, pela primeira vez, os desfiles

Comentários das escolase de Reportagens samba, como estagiários da Rádio Fonte. Marcelo Pacífico

Revista Tel: (21)Plumas 2233-2090 & Paetês Cultural 21 2016


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POR

JOÃO GUSTAVO MELO verde e rosa, a torre não vai deixar saudades. Mas para outras agremiações, ficará como uma espécie de troféu pela ousadia de desafiar as dimensões do Sambódromo.

A glória é Azul e Branca

Inferno na Torre

RÉQUIEM PARA UMA TORRE A DEMOLIÇÃO DA TORRE DE TV DA SAPUCAÍ... JÁ VAI TARDE? OU DEIXA SAUDADES?

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ma estrutura de 9,75 metros encravada no trecho final do Sambódromo desceu à mansão dos mortos sem choro, nem vela. Não teve direito ao toque de um surdo consternado, muito menos a uma cerimônia de despedida. Foi um adeus silencioso. A data: 24 de julho de 2015. Finalmente o defunto descansou depois de 30 anos servindo de imenso pedestal a fotógrafos e cinegrafistas. De lá, os artistas da imagem registravam o que outros artistas, das plumas e paetês, desenhavam na pista. Vai deixar saudade. Ou não... A torre de concreto estreou gloriosa no carnaval de 1986, completando o conjunto arquitetônico do projeto para o Sambódromo de Oscar Niemeyer. Nos dois anos anteriores teve como antecessora uma passarela móvel tal qual a que teremos a partir de 2016. Mas foi no ano do xinxim com acarajé mangueirense que a nossa protagonista se abriu ao estrelato. Sua presença de fato e de direito, entretanto, só foi notada três anos mais tarde quando desafiou pela primeira vez a imaginação dos criadores do carnaval. E perdeu. Como obstáculo físico ao crescimento longitudinal das alegorias, a torre proporcionou um dos momentos mais sublimes da história da passarela, no concorridíssimo carnaval de 1989. O carnavalesco Max Lopes e seu assistente

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Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

Mauro Quintaes planejaram uma alegoria audaciosa: o carro “Guerra do Paraguai”, uma obra de arte em movimento que trazia um Duque de Caxias triunfante comandando soldados do Exército Brasileiro do alto de um cavalo que ultrapassava o limite de altura imposto pela torre. Ao se aproximar da estrutura, o destaque Zacharias de Oxóssi (que assumiu o lugar de um outro destaque que desistiu da arriscada missão) retirou o chapéu e um mecanismo foi acionado para fazer descer parte do topo da alegoria. Voilá! A manobra levou o público ao delírio e os aplausos contribuíram e muito para as chuvas de 10 por parte dos jurados. Resultado: Imperatriz campeã num dos carnavais mais disputados da história, que teve entre os concorrentes os memoráveis “Ratos e Urubus...” da Beija-Flor e “Festa Profana”, da União da Ilha. No ano seguinte, Max Lopes repetiu a dose com o enredo “Terra Brasilis, o que se Plantou Deu”. O carro do castelo medieval trouxe uma torre telescópica, recurso que mais tarde seria usado por diversas escolas. Novamente sobre a mais alta das alegorias, que ultrapassava 10 metros altura, estava o destaque Zacharias de Oxóssi. Desta vez a manobra demorou mais que o esperado e a Imperatriz empacou na torre de TV. Os momentos de tensão custaram pontos preciosos à escola, que saiu da luta pelo bicampeonato e ficou com a quarta colocação.

Em 1993, foi a vez da Estação Primeira de Mangueira travar pela primeira vez um duelo que se repetiria em outros carnavais. Tudo ia bem para a verde e rosa até o carro que representava a caravela que trouxe as mudas de manga para o Brasil - importante capítulo no enredo “Dessa Fruta eu Como Até o Caroço” - ficou com o mastro preso na torre. Erro de cálculo que gerou uma tremenda aflição para a Angélica, apresentadora que veio na parte mais alta da alegoria. Foram cerca de 10 minutos que pareciam 10 dias para a direção da escola. Formou-se um engarrafamento de carros alegóricos no final da pista, o que comprometeu seriamente a evolução da verde e rosa. Vinte anos mais tarde, a mesma Estação Primeira enfrentou novamente seu algoz. E de novo foi derrotada. Uma linda libélula, concebida pelo carnavalesco Cid Carvalho, comandada no braço e na raça, travou quase debaixo da torre de televisão. A escola já vinha com o tempo de desfile avançado e tinha que correr para não ultrapassar os 82 minutos. Foram momentos de interminável agonia. A Mangueira estourou o tempo e pior: quase provocou um acidente de grandes proporções. Na colisão da alegoria com a torre de televisão, a estrutura chegou a tremer e poderia ter provocado um salto para a morte de diversos profissionais dos mais renomados veículos de comunicação do país e do mundo. Por sorte, ficaram apenas os registros de belas imagens e uma lição para o ano seguinte. Mas acredite! O raio caiu duas vezes no mesmo lugar. Em 2014, o enredo da escola era sobre festas populares no Brasil, de autoria da campeoníssima Rosa Magalhães. O carro em alusão ao Festival de Parintins tinha uma altura maior que a da estrutura para os fotógrafos e... adivinhe? Ficou preso na torre! Traumatizada com o ocorrido no desfile anterior, a direção da escola preferiu comprometer a escultura gigante do índio que compunha a alegoria a perder pontos em cronometragem. Novo defeito mecânico para uma antiga desolação mangueirense. Pelo menos para a

Em 2006, a Vila Isabel trouxe no último carro uma escultura colossal do revolucionário Simon Bolivar. Ao passar pela torre, a representação do líder de uma possível revolução sul-americana abaixou-se, num movimento preciso que levou a galera a gritar “é campeã”. Em 2014 e 2015, foi a vez de a Portela jogar o obstáculo de concreto ao seu favor, através de dois trabalhos executados por Rossy Amoedo, vencedor do Plumas & Paetês Cultural, nas duas ocasiões, como Melhor Escultor do Grupo Especial. Primeiro, erguendo um gigante de 18 metros de altura. No ano seguinte, trazendo a Águia Redentora, uma das imagens mais marcantes dos mais de 30 anos de Sambódromo. O movimento de abaixa-levanta da águia fez os setores finais da Sapucaí explodirem em aplausos. Interessante lembrar que, nesses casos, o carnavalesco era o mesmo: Alexandre Louzada, bicampeão do Plumas como Melhor Carnavalesco do Grupo Especial (2006 e 2007). Entre risos e lágrimas, e discussões sobre o limite da proporcionalidade das alegorias, o fato é que a demolição da torre de TV irá provocar um aumento do gigantismo nos desfiles, com carros cada vez mais altos. Mesmo com a construção de uma passarela para as equipes responsáveis pelas imagens fazerem seus registros, os cerca de 11 metros de altura serão pouco para a imaginação dos carnavalescos. Do alto dessa nova estrutura serão colhidas as imagens de um carnaval histórico, em que a antiga musa libérrima e audaz jaz em pó e lembranças para outro valor mais alto se agigantar. E viva o carnaval e sua eterna arte de destruir o antigo e se construir sobre o novo.

João Gustavo Melo, é jornalista, diretor cultural do G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro e coautor do livro “As Matriarcas do Samba” Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

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Foto: Fernando Maia | Riotur

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BOLA E SAMBA NO PÉ

AS ESCOLAS DE SAMBA E SUA ETERNA INSPIRAÇÃO NO FUTEBOL POR EVANDRO GOMES

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aixão, definitivamente é isto que move as pessoas. Em se tratando de brasileiros, duas paixões fazem o peito da nação bater mais forte. Ambas estão nos pés, mas uma no gramado - o futebol - e, outra na avenida: as escolas samba. O curioso é que muitos não sabem como esses dois símbolos nacionais têm uma relação profunda entre si. É claro que o jogo de bola não chega a ser o pai do carnaval, mas com certeza é um grande incentivador. O primeiro desfile das escolas de samba, por exemplo, em 1932, surgiu por idealização de Mário Filho, escritor que dá nome ao estádio do Maracanã e, fundador do jornal Mundo Sportivo, que carecia de pautas num período do ano sem competições esportivas, e, por isso, resolveu criar e patrocinar a disputa entre as agremiações. Vale lembrar também que algumas escolas surgiram a partir de times de futebol, como a Mocidade Independente de Padre Miguel, a São Clemente e a UniRevista

& Paetês Cultural 24 Plumas 2016

dos de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, e a Vai-Vai, em São Paulo. Embora nunca tenham trazido títulos, o jogo de bola e seus jogadores já foram tema de inúmeros desfiles. O enredo sobre o futebol deu o vice-campeonato à Beija-Flor em 1986; times foram homenageados pela Estácio de Sá (Flamengo, em 1995), pela Rocinha (Fluminense, em 2003) e pela Unidos da Tijuca (Vasco, em 1998); Em 2014, a Imperatriz homenageou o jogador Zico e em 2003, a Tradição cantou a história de Ronaldo Fenômeno. E, se tem uma figura de essencial importância no futebol e no desfile das escolas de samba, é o torcedor. Algumas pessoas escolhem a agremiação do coração por proximidade, como fez o portelense Fábio Loio, que nasceu e ainda mora perto da quadra da azul e branca. Outros escolhem aquela que está em voga em sua época de iniciação no samba. Há também os que sofrem influências familiares, como Violeta Valicelli, morada de Ramos, que escolheu não a vizinha Imperatriz, mas outra verde e branca: a Mocidade Independente. A grande diferença das torcidas do samba e do futebol é que a de carnaval não registra episódios de violência,

sendo até bem comum ver um torcedor de determinada agremiação visitando outra. No quesito figurino, usar a camiseta oficial é requisito básico, a partir daí a ideia é incrementar com muita criatividade. Pode estilizar roupas com as cores de batismo dos grêmios, levar os inseparáveis chapéus de boêmios, adornos no cabelo e até mesmo tatuar sobre o corpo a paixão, como fazem inúmeros torcedores. Existem, também os diferentes níveis de intensidade de torcida: do torcedor não praticante – que só lembra da escola no carnaval - até aquele que se profissionaliza, como a já citada Violeta, que ajudou a fundar, em 2009, a torcida organizada Independentes da Mocidade. Seguindo os passos da portelense Guerreiros da Águia, primeira dessas torcidas, fundada em 2003, atualmente várias escolas possuem até mais de uma organizada.

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E não foram só as torcidas que inspiraram as escolas de samba. Na preparação para a folia em 2016, algumas agremiações, cientes do sucesso dos programas de sócio torcedor dos clubes de futebol, apostaram na mesma ideia como forma de levantar fundos e driblar a recessão econômica que tornou os patrocínios menos expressivos. Em 2015, a Portela foi a primeira a anunciar a iniciativa, firmando parceria com multinacionais e disponibilizando uma carteirinha com programa de fidelidade e diversas recompensas ao acumular pontos. Na sequência, veio a Mocidade Independente, com um programa similar, que oferece descontos na compra de produtos em grandes lojas e que espera alcançar a marca de 5 mil filiados em sua primeira fase. Por último, a Beija-Flor de Nilópolis também divulgou seu projeto para os torcedores que desejam alavancar a escola. Sem falar do Salgueiro, que em 2015 completou 2 anos do seu programa similar. Nada mais adequado do que um esporte que ajudou a criar o desfile das escolas de samba inspira-lo também a se manter.

Evandro Gomes

é jornalista e torcedor tanto da Portela quanto do Império Serrano.

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POR

LUIZ CARLOS PRESTES

A REALIDADE DA ILUSÃO A tecnologia social que está por de trás de sua organização é - também - desprezada. Os órgãos públicos, a Federação das Indústrias e do Comércio estão de acordo em direcionar investimentos vultuosos para os eventos internacionais citados acima. Para o Carnaval autorizam somente os recursos minimamente indispensáveis. Porque tanto investimento em dois eventos que dificilmente ocorrerão outra vez na cidade nos próximos 30 anos? Será que a FIFA e o Comitê Olímpico Internacional merecem mais apoio do que as ligas e associações do nosso Carnaval?

CRISE ECONÔMICA VERSUS CARNAVAL

Em 2016, a Mocidade Indenpendente vai desfilar com a ala Inflação bombástica (foto de divulgação)

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ão se fala em outra coisa do que a crise econômica brasileira. Esta difícil realidade nacional, que teve seu início em 2014, está refletida no desemprego e na diminuição dos investimentos em setores como a indústria de automóveis e naval, eletro-eletrônica e metalurgia, petróleo e gás. A Balança de Pagamentos, que tem nos produtos primários sua força (agroindústria de alimentos e mineração), apresenta uma curva negativa, contrastando com uma curva em ascensão de impostos (o setor elétrico por exemplo). Toda esta situação crítica, especialmente frente ao desprezo histórico ao qual o carnaval foi relegado pelo poder público e pelas empresas privadas, confirma que chegou a hora de repensar o antigo modelo da nossa festa. O corte da subvenção oferecida pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, em 2015, é uma prova cabal. Recursos financeiros anunciados e devidamente divulgados nos meios de comunicação, não poderiam ter sido contingenciados. Esta situação terminou levando muitas agremiações à quebra da saúde financeira e criou dívidas impagáveis a curto prazo. Por outro lado, vivemos um período de grandes investimentos, impulsionados pela Copa do Mundo e Olimpíadas. Mas, as obras em curso, que visam facilitar a mobilidade urbana na Cidade Maravilhosa, é um outro lado da mesma moeda. Pois, pouco foi feito para qualificar

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as avenidas Rio Branco, Cinelândia, Lapa, Aterro do Flamengo e a Estrada Intendente Magalhães, para citar alguns locais, como pontos estratégicos do Carnaval. Ao contrário da Cidade Olímpica da Barra da Tijuca, que ainda não tem um futuro uso definido, as ruas do Rio de Janeiro são locais confirmados para a concentração e dispersão de escolas de samba e de desfiles de blocos e bandas carnavalescas. Portanto, estas deveriam ter calçadas e iluminação, banheiros e praças, bancos e muros que considerassem o carnaval que passa e sempre passará por estes locais. Nem mesmo o Rio de Janeiro, que promove todos os anos, os desfiles de 90 escolas de samba dos grupos “Especial”, “A”, “B”, “C”, “D” e “E”, levando para o Sambódromo e para a Estrada Intendente Magalhães, em Madureira, mais de 110 mil artistas, devidamente fantasiados, entende a grandiosidade desta obra do povo. Quando comparamos os investimentos realizados no carnaval do Brasil e do Rio de Janeiro nos últimos anos, com o que já foi investido em parcerias Públicas-Privadas (PP) na Copa do Mundo de Futebol (R$27 bilhões) e nos Jogos Olímpicos (R$33 bilhões), confirmamos esta situação negativa. Enquanto estes dois eventos esportivos internacionais, movimentaram até o momento somente R$5 bilhões, a nossa festa-símbolo, com um aporte financeiro bem menor (R$100 milhões), movimenta na cidade R$2 bilhões todos os anos.

Os governantes e os empresários veem o Carnaval como fruto do “atraso” ao qual estamos submetidos. O maior evento popular do mundo é apresentado como coisa menor. Quem sabe, isso vem por conta do envolvimento de homens como Natal da Portela, Castor de Andrade, Anísio Abraão David, Luizinho Drummond, Aílton Guimarães e Carlinhos Maracanã, para citar alguns nomes, que investiram seus recursos financeiros no evento, e que, independente de suas atuações profissionais, transformaram o carnaval num espetáculo sem paralelos. Tem uma frase do escritor Graciliano Ramos que diz: “Se a única coisa de que o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano”. Ela demonstra a capacidade que o povo tem em promover sua festa - independente de qualquer momento político ou econômico. Porém, se queremos um carnaval mais lucrativo e melhor, é necessário usar esta crise, que é uma das mais graves que atravessamos nas últimas décadas, para repensar o modelo de desenvolvimento da economia do carnaval brasileiro. Articular com seus principais patrocinadores e realizadores uma nova forma de gestão deste evento, que partiu de uma pequenina Praça Onze para o Sambódromo, que teve em sua base de produção barracões improvisados e hoje tem a Cidade do Samba. Uma festa que precisa continuar evoluindo. Por isso, o primeiro passo tem que ser com os pés no chão, já que é necessário entender a nossa realidade para continuar construindo a ilusão.

Luiz Carlos Prestes Filho é autor do Estudo da Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

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Fotos: Marcos Mello

| Capa |

U

m sambista nobre. Essa é a palavra-chave para se referir ao ilustre Monarco da Portela. Incansável lutador dos interesses dos súditos portelenses, usa um chapéu no lugar de coroa e é filho legítimo da linhagem de grandes compositores da azul e branca. E foi através de um bate papo, temperado com os quitutes de dona Olinda - sua esposa -, que, entre uma cantoria e outra, fomos conhecer um pouco mais da trajetória do grande homenageado da 12ª edição do nosso prêmio, em 2016, escolhido pelo público através do aplicativo do Plumas, com 66% do votos.

POR TIAGO RIBEIRO

Batizado como Hildemar Diniz, nasceu em 17 de agosto de 1933, no bairro carioca de Cavalcanti. Caçula de sete irmãos, Monarco é filho do poeta José Felipe Diniz, de quem acredita ter o legado: “isso ele guardou pra mim, as letras dos poemas. Então dessa parte de rimas, eu sei que eu sou o herdeiro. São três filhos homens. Para o Nilton ele deixou as ferramentas, porque ele era marceneiro; pra mim foi a veia poética; e pro mais velho o gosto pela política”. Do bairro de origem não se lembra de muita coisa: “Saí de lá com 2 anos de idade. Não conheço, nem sei onde eu nasci. Só sei a rua porque minha mãe falava: Laurindo Filho. Mas a casa, o lugar não. Só fui voltar a Cavalcanti depois de burro velho, quando eu fui trabalhar na feira, vender peixe. Aí eu ia lá e falava: eu nasci aqui.” Lembra, orgulhoso. Seus tempos de criança foram todos em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, de onde guarda boas lembranças: “aquela infância bonita né? Sem maldade de nada, correndo atrás de pipa, caçando passarinho no meio do mato”. Foi lá também onde ganhou seu nome artístico, por volta dos 6 anos de idade, quando um amigo chamado Noca (não confundir com o compositor portelense), estava lendo o gibi da Marvel Monako – Príncipe da Mágica, e falou em voz alta o nome do personagem-título. “Não sei porque cargas d’água eu ri. Aí ele

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OMONARCA DO

SAMBA

A HISTÓRIA DO SAMBISTA DE SANGUE AZUL (E BRANCO) DA PORTELA me olhou e disse ‘tá rindo do quê? Monako é você’. Os coleguinhas que ouviram ficaram gritando ‘Monako! Monako!’... aí pegou. Meus irmãos também passaram a me chamar assim, até abreviavam para Naco. Só mamãe e minhas irmãs que sempre me chamavam de Hildemar. Aí quando fui morar em Oswaldo Cruz entrou um R que não sei da onde, o K mudou pra C e virou Monarco”. Por conta dessa história, obviamente muitas vezes contada em suas entrevistas, o sambista ganhou de um fã, numa edição da feijoada da Portela, um quadro com a capa do gibi, que Monarco guarda em casa e que fez questão de levantar-se para mostrar, orgulhoso. Antes, porém, de ir morar em terras portelenses, o ainda Monako compôs seu primeiro samba, O Crioulinho Sabu, aos 8 anos. “Eu andava junto com o Luiz e um negrinho que o nome era Sabu. Ninguém sabe de onde ele veio. Ele era largado no mundo, pedia esmola no trem e desembarcava em Nova Iguaçu. Mamãe não gostava que eu andasse com ele, dizia: ‘esse menino não tem família, é um largado’, aí eu: mamãe ele é um pobre coitado, arruma um pratinho de comida pra ele.” Dessas amizades surgiram os versos “a liga da defesa nacional vai contratar o crioulinho Sabu, para cantar lá no Rio Grande do

Sul. Também vai contratar Monako e Luiz, a garotada vai pedir bis”. O mais curioso é que o precoce compositor não fazia ideia do que se tratava a Liga da Defesa Nacional, ou de onde ficava o Rio Grande do Sul: “Eu escutei alguém falar isso e coloquei. O Rio Grande do Sul eu peguei pra rimar.” Mesmo construída de maneira ingênua, a música deu o que falar: “Aquilo correu Nova Iguaçu toda. Falavam ‘Ih! Monako fez um samba. Canta aí’”; ganhou uma segunda parte mais de 30 anos depois: “Poxa, isso é a história da minha vida, merece uma segunda”; e é uma das faixas do mais recente CD do portelense, Passado de Glória – Monarco 80 anos. Vale dizer que a música em questão foi gravada de maneira surpresa, quando seu filho e arranjador musical, Mauro Diniz, soltou no estúdio a introdução puxada pelos netos do nosso homenageado: “Quase me matou do coração”.

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Amante da folia desde garoto, frequentava o bloco de sujo Primavera, em Nova Iguaçu. Na família, apenas os irmãos também eram sambistas: “Eles me levavam junto. Eu era o primeiro a chegar e o último a sair. Era metido a malandrinho”. E foi pelo rádio, ainda na Baixada Fluminense, que ouviu falar, pela primeira vez, naquela que seria sua escola de samba: “Noel Rosa tinha um samba (Palpite Infeliz) que dizia ‘Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz’; tinha um outro que falava no Paulo da Portela (marchinha de carnaval Ninguém Ensaiou) ‘Os professores do morro já foram se apresentar, foi o Paulo da Portela, foi Nonô e Mano Edgar’, cantado por Aracy de Almeida. E foram esses célebres sambistas que Monarco passou a admirar quando foi morar em Oswaldo Cruz, aos 12 anos. “Eu morava na rua Taubaté, era pertinho. Mas eu ia e tinha medo de entrar. Ficava no muro olhando aqueles caras que depois viraram parceiros meus”. E o amor pela Portela, que a sua mãe chamava de “perdição”, fez com que ele desfilasse pela primeira vez, em 1947, no enredo em homenagem ao Santos Dumont: “foi puxando corda porque não tinha grana. Ficava triste por olhar as fantasias dos outros, mas não podia pagar”. Já em 51, juntou dinheiro com seu trabalho no Sesi e fez sua fantasia para sair na ala Amigo Urso, usando terno

de cambraia e chapéu, ao lado de Candeia, que havia acabado de entrar na escola. Com essa convivência mais próxima dos portelenses, foi crescendo cada vez mais a vontade de compor pra escola: “Eu via aqueles bambas passarem, via Manacéia, aquela turma toda. Pensava: ‘esse cara tem cada samba bonito... e se um dia eu fizesse um samba pra Portela?’ Aí comecei a rabiscar algumas coisas, fiz uns bois com abóbora, até compor o Retumbante Vitória”. Ao mostrar para um amigo, foi encorajado a cantar o inédito samba no botequim que era parada obrigatória da malandragem portelense. Quando Natal, o então presidente, chegou, entrou devagarzinho, ficou ouvindo e sentenciou: “porque não canta mais tarde lá no ensaio?”. Monarco aceitou de pronto: “você tá mandando seu Natal...”, mas, ressabiado perguntou: “disseram que era primeiro pra fazer uns prospectos...” e Natal respondeu: “que prospectos o quê? Eu mandei, vai cantar sem papel sem nada mesmo”. E lá foi Monarco, naquele domingo, apresentar o samba para as pastoras: “Eram elas que decidiam. Quando não gostavam, nem cantavam. Foi o melhor samba que teve ali aquele ano”. O sucesso fez com que a canção fosse usada como esquenta do desfile, no ano seguinte, em 1952, o que ele avalia como a melhor recordação desses tantos anos de avenida. E Natal estava tão satisfeito com a poesia de Monarco, que anunciou: “tem que aproveitar esses garotos”. E foi assim que o sambista foi “promovido”, passou a fazer parte daquele time, antes mesmo de existir o conceito de ala de compositores. No ano seguinte, a pedido de Alcides, faria sua primeira parceria com um compositor portelense, colocando a segunda parte no samba Amor de Malandro. Em 1954 foi chamado para diretor de harmonia e, ainda na mesma década, em um ano que não mais se lembra, saiu na bateria, tocando tamborim. Mas enquanto Candeia, no seu

terceiro ano na escola já vencia a disputa de samba enredo, Monarco não teria a mesma sorte: “com samba-enredo na Portela, eu nunca fui feliz. O meu forte era samba de quadra, que naquela época chamava samba de terreiro”. Nosso homenageado quase viu seu sonho se tornar realidade, quando, certa vez, chegou com seu samba na final, em uma das duas oportunidades em que entrou pra disputa, mas vivia desistindo de tentar: “quando eu ia fazer, falavam: o enredo é esse, tem até um samba bonito do Candeia... Aí eu falava: ‘Ah! Então eu nem vou me meter”. No início da década de 1960, se afastou da sua escola, ao lado de outros ilustres como Candeia e Paulinho da Viola, por desavenças internas. Mas não deixou de compor. Enquanto isso levava a vida como faxineiro e guardador de carros, trabalhando para empresas como ABI e Jornal do Brasil: “Escovei mesa de bilhar pra Villa-Lobos”, descreve, orgulhoso. Foi nesse período que Monarco conseguiu em outras escolas o que nunca conseguira na Portela: venceu as disputas de samba da Unidos de Padre Miguel em 1966 e na Unidos do Jacarezinho entre 1967 a 69 e 1982 (além de ser o autor dos enredos desta escola de 1981, 82 e 86, respectivamente em homenagem à Paulo da Portela, Geraldo Pereira e Candeia). Fez esses sambas no tempo em que morou nos bairros de Padre Miguel e Jacarezinho. Hoje, diferente do que o senso comum imagina, não mora em Madureira, mas no Riachuelo, há 15 anos. Outra detalhe que fazem confusão é sobre a amizade de Monarco com Paulo da Portela, que na verdade não ocorreu: “Eu não convivi com o Paulo, eu vi ele à distância. Por infelicidade, quando eu cheguei na Portela, ele já tinha se afastado. Eu cheguei em 46, ele se afastou em 40, 41... Com Cartola conversei muito, Carlos Cachaça eu ficava horas e horas conversando, mas o Paulo não. Botei duas segundas em sambas dele, parceria póstuma digamos assim. Ele é meu ídolo, número 1”. Outro sambista muito elogiado pelo nosso mestre é Silas de Oliveira: “o maior compositor de todos. Não só de samba-enredo, mais de terreiro também”. Diferente desses dois ídolos, que também se afastaram de suas agremiações, Monarco não demorou a voltar. Em 1970, quando foi gravado o primeiro disco da velha guarda da Portela e, lançado o segmento para fazer show, ele já estava de volta, porque, mesmo descontente com algumas pessoas na escola, “A Portela não tem nada

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com isso”. E foi de lá da quadra da escola que germinou o seu primeiro sucesso. Martinho da Vila, antes de ser conhecido, foi na Portela e ouviu o samba Tudo Menos Amor, de Monarco em parceria com Waldir Rosa, feito em 1962. Quando o sambista de Vila Isabel lançou, na década seguinte, um novo disco, lembrou daquele samba e gravou. Isso fez com que a vida de Monarco, no Jornal do Brasil, não fosse mais a mesma. No trabalho, ele tentava esconder a vida de sambista, com medo de ser mandado embora, “o samba ainda era meio que mal visto”, mas foi inevitavelmente reconhecido. Nesse período fez amizade com Juarez Barroso, jornalista do Caderno B, que lhe deu muita força: “isso que você faz é bonito. Teu baú é recheado”. E o tempo mostrou que todas as profecias do amigo deram certo “Pensei: bem que o Juarez falou’. E a vida logo começou a mudar. O sucesso da música foi tanto que, só com direito autoral, ganhou cerca de três vezes o salário de guardador de carros. “Cheguei em casa cheio de embrulho. Martinho falava: ‘Vai comprar um Mustang’. Eu senti uma coisa do tipo: ‘Monarco, você vai sair dessa vida’”. Antes, o próprio Martinho da Vila já havia gravado outro samba do portelense, O Lenço, mas sem sucesso, mas dessa vez foi diferente. “A partir daí todo mundo passou a me procurar: Clara Nunes, Roberto Ribeiro...” E a lista nunca parou de aumentar. João Nogueira, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Leci Brandão, Zeca Pagodinho, Maria Rita, Péricles, Marisa Monte... Assim como os profissionais do carnaval que premiamos, a arte de Monarco passou a alcançar uma imensidão de plateias, onde muitos nem sabem que ele é o autor. Em 1975, gravaria seu primeiro disco solo e, já no ano seguinte, passou a viver exclusivamente de música: “só saí do jornal quando vi que estava dando uma clareada. Já fazia show...”. Nesses 40 anos de carreira profissional, propriamente dita, gravou 6 discos (sendo três para o mercado japonês) e se apresentou em grandes palcos como o Canecão, Oi Casa Grande e Réveillon de Copacabana, sem citar países como Japão, Itália, França e Estados

Unidos. Teve músicas como temas de novela e ganhou vários prêmios, tais como melhor cantor, melhor canção, 1° lugar no Concurso de Samba de Quadra, em 2010, e em 2015 foi indicado como intérprete e venceu a categoria de Melhor Álbum de Samba do Prêmio da Música Brasileira, com seu atual CD. Além disso, recebeu a medalha Pedro Ernesto, em 2005, e possui o título de cidadão iguaçuano. Estudou apenas até o terceiro ano primário, já que teve de começar a trabalhar quando seus pais se separaram. Está em seu terceiro casamento e ainda tem a companhia de dois de seus três filhos: os compositores Mauro e Marcos Diniz. É também avô da atriz e cantora Juliana Diniz, mas garante que seus herdeiros enveredaram pela carreira espontaneamente. Toca um pouco de cavaquinho, tamborim e surdo e acha que compor é mais emocionante que cantar. Por muito tempo não teve o hábito de anotar a letra de seus sambas enquanto compunha: “ficava cantando várias vezes para decorar”. Não faz a menor ideia da quantidade de sambas de sua autoria e avisa que possui uns 50 ainda inéditos: “tem uma porção aí que fico guardando. Às vezes até esqueço”. Ao compor, prefere se deixar levar pela inspiração “eu nunca penso, ‘vou fazer um samba falando nisso ou naquilo’. Nasce na minha cabeça. Não gosto de fazer nada encomendado”. Famoso por seu porte de gentleman e sua fala mansa, afirma que a única coisa que o tira do sério é “quando fazem sacanagem” com a sua escola. Torcedor do América “até morrer”, tem como hobby assistir futebol , ver novela com a esposa e bater papo com os amigos no boteco, mas só fica no refrigerante, já que parou com o álcool há 30 anos. Católico, “mas não fanático. Peço que Deus me dê força pra continuar aquilo que estou fazendo, não almejo muita coisa não”. Tem como seu maior sucesso a música Coração em Desalinho, cuja melodia surgiu quando ia fazer um samba para a Unidos do Jacarezinho em enredo homenageando Paulo

da Portela, mas que acabou desistindo. “Parece que foi Deus, porque eu tenho certeza que Deus me ajuda muito. Deve ter colocado na minha cabeça: rapaz, sai fora, larga isso pra lá. Se eu botasse o samba, não ia acontecer o Coração em Desalinho”. E afirma que para disputa de samba enredo “pendurou as chuteiras”. Pela Portela, além das maneiras aqui já citadas, desfilou em comissão de frente na década de 80 (vencedora do Estandarte de Ouro) e em carro alegórico, posição em que também viveu seu pior desfile, em 2005, quando a última alegoria da escola quebrou e fecharam o portão deixando os componentes da velha guarda, lá presentes, para trás. “Pulei do carro e saí correndo quando eu vi aquele clarão. Cheguei lá, passei e fecharam o portão. Todo mundo olhando pra minha cara, aquela tristeza, os repórteres querendo falar comigo, a voz não saía. Só pensava em: minha escola vai descer...”, mas não desceu. Prefere sempre assistir a apuração de casa e diz que só se mete na política da escola quando vê “covardia”. Aponta que, hoje, não falta nada para que a Portela quebre o jejum de 32 anos sem títulos. Depois de ser enredo da Unidos do Jacarezinho em 2005 e um dos homenageados da União do Parque Curicica em 2015, se prepara para, em 2016, ver sua vida e obra desfilarem na Império do Cabuçu e na escola-mirim Filhos da Águia (que exaltará também Clara Nunes). Por toda essa nobre trajetória, é também o grande homenageado do Plumas & Paetês Cultural 2016. Um monarca que não nasceu em berço de ouro, cujo nome artístico é inspirado em um príncipe de gibi, atual presidente de honra da Portela e que merece toda nossa reverência.

Tiago Ribeiro é jornalista, pesquisador de carnaval e editor da revista do prêmio Plumas & Paetês Cultural Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

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| Gestão de Carnaval |

POR

MADSON OLIVEIRA

O MUNDO QUE PAULO CRIOU

m 2004, uma nova era nos desfiles de carnaval estava sendo escrita, sem que tivéssemos ainda consciência desse fato: o desfile da Unidos da Tijuca causou, ao mesmo tempo, estranhamento e curiosidade, por conta da apresentação de uma alegoria sem esculturas, toda ocupada e coreografada por integrantes pintados de azul, representando o desenho da estrutura do DNA. Não só por esta alegoria, mas por vários aspectos daquele desfile, o carnaval sofreria uma forte transformação dali pra frente. O responsável por essa mudança foi o jovem Paulo Barros.

ria mostra que foi justamente na azul e branca de Oswaldo Cruz e Madureira onde se inovou ao criar a primeira alegoria (em 1935) e onde a Ala dos Impossíveis (em 1958) lançou o passo coreografado - duas marcas do trabalho deste profissional. Inspirados em toda esta trajetória, entrevistamos e buscamos, nas páginas a seguir, entender o modus operandi deste profissional bicampeão do Plumas & Paetês Cultural como Melhor Carnavalesco do Grupo Especial (2005 e 2010).

Mais de dez anos depois, após passar pela Viradouro, Vila Isabel, voltar para Unidos da Tijuca e passar pela Mocidade (além de fazer, em certos anos, dupla jornada, trabalhando também no Grupo de Acesso, onde foi revelado), hoje ele se prepara para estrear na Portela, no desfile de 2016. Esta que, para muitos, pode parecer uma “escola tradicional ou clássica demais” para o seu estilo vanguardista. Por outro lado, a histó-

PAULO BARROS – Olha, eu acho que a roupa da comissão de frente passou a ser uma peça cênica sim. Mas de 2010 para cá, eu começo a perceber que as minhas comissões de frente não são simplesmente um figurino. Porque elas têm toda uma pesquisa de material, de funcionamento, de peças articuladas, de artifícios que a gente tem que usar na roupa, por conta dos efeitos de que aquele figurino específico necessita. O desenho é

Revista

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Paulo Barros - Elas já são em 360 graus. Não é como um cenário que está estático. E você sabe que é muito difícil a gente conseguir, às vezes, a coisa da maneira que a gente acha que deva ser, a gente tem limitadores. O pessoal do carro não é bailarino, não é profissional, mas a gente também não tem a possibilidade de ter profissionais para fazer isso. São pessoas que se cadastram, que se inscrevem como voluntários e você tem que administrar as limitações deles... PLUMAS – Essa mudança na forma de encarar uma comissão de frente aumentou a responsabilidade do figurino, né? Já que, a roupa, não só comunica, como ela mesma é a responsável pela boa aceitação do público e dos jurados...

EM ENTREVISTA, PAULO BARROS REVELA SEU PROCESSO CRIATIVO

E

PLUMAS – Assim como nas próprias alegorias, né?

PLUMAS – Você vê alguma semelhança entre as apresentações das comissões de frente com as representações (teatro, circo, televisão)?

simplesmente uma referência artística de como ele vai ficar. Agora, o que está por trás dele, o que está dentro dele... Para mim, mudou o conceito e a roupa virou um projeto de engenharia. Eu nunca trabalhei em teatro, nem televisão, nem em circo, nem em nenhuma dessas linguagens. Para você apresentar uma roupa dessas [no carnaval] é muito mais difícil, porque você tem uma visão 360 graus, o público está olhando de todos os lados, então acho que esse é o grande desafio. O mágico faz a mágica dele em cima do palco, onde ele tem praticamente 100% das pessoas [olhando] num ângulo, [mas] olham para onde ele quer, que é o palco. Acho que esse é o grande diferencial. E a gente, quando cria isso, tem que se preocupar com todos, né? Eu não posso fazer uma comissão que seja vista e entendida simplesmente pelos jurados. Eu tenho o público em volta, eu tenho que me preocupar com isso. Então, eu acho que a Sapucaí cria esses fatores de dificuldade que você tem que solucionar...

PAULO BARROS – Acho que aumenta a responsabilidade de tudo, não só do figurino. Esse figurino tem que ser muito bem cuidado, bem desenvolvido e bem reproduzido. Você sabe que no carnaval é muito perigoso, tudo que se manda fazer, não se faz... A gente tem que tá atento, para como e se aquilo foi feito. Nos últimos anos, a comissão de frente tem me dado um trabalho desgraçado! Pra você ter uma ideia, a roupa de 2010 – a do famoso truque de troca de roupa, do enredo É Segredo - tem um manual de instrução, de confecção que tem que ser seguido à risca. Aquilo deu um trabalho danado e a gente não sabia como ia fazer. Aquilo foi sendo executado e descoberto, a solução foi dada dentro da evolução do que a gente imaginava que poderia ser aquela roupa. Aquela roupa, aquele

truque, a gente vê pela televisão, no youtube, mas “como aquilo funciona” que foi o grande desafio e o desafio maior foi produzir a roupa. Nós executamos aquele projeto de acordo como nós achávamos que seria viável para produzi-lo, na experimentação pura, pura, pura... Acho que foram toneladas de panos e de tecidos e de caimentos. Eu não sei se o mágico que faz aquela mágica faz daquele jeito, se ele usa o mesmo artifício. A solução dada foi nossa. Aquilo não foi entregue pra nós de bandeja. A costureira quase enlouqueceu, porque ela não conseguia entender o que a gente pedia. A gente tinha que ficar de olho nela 24 horas, para ela não fazer coisa errada. PLUMAS – Porque fugia do tradicional... ela nunca tinha feito... PAULO BARROS – Exatamente. Ela não entendia como era que podia ter seis roupas numa só, não entrava na cabeça dela. Pra ela aquilo era um detalhe que servia pra nada. PLUMAS – Aproveitando o ensejo, gostaria que você falasse um pouco sobre a relação de trabalho com a sua equipe... PAULO BARROS – Quando eu comecei minha carreira, no grupo de acesso, desenhava meus próprios figurinos, fazia meus projetos... só que o carnaval cresceu muito e, hoje, a gente não tem tempo de fazer isso tudo, né? Quando eu falo a gente, falo em nome dos carnavalescos em geral. A gente cria essa equipe pra suprir essas necessidades e para poder nos ajudar com relação à execução do carnaval. Brinco até com eles no sentido de que eles têm que entender

o meu olhar. Eu lembro que a Annik (Salmon, atual membro da comissão de carnaval da Unidos da Tijuca e premiada com o Plumas de melhor Figurinista 2015), quando começou a trabalhar comigo e eu começava a discutir algumas coisas com ela e passar informações de alegorias e de fantasias, ela olhava para mim e falava: “como assim?”. Depois, ela já entrou no meu universo. Então, o entendimento deles comigo ficou mais íntimo. Mas, para mim, a posição deles é a de extensão, como o ferreiro, como toda a equipe, é a extensão do que eu penso. Eu tenho que botar o meu DNA no braço deles, pra que eu consiga passar a informação, pra que eles executem da maneira que foi pedido. PLUMAS – Às vezes, a gente vê nos créditos o termo “figurinista” mas este não é só quem desenha, ou só quem fica responsável pela roupa, eles são mais do que isso, não? PAULO BARROS – Na verdade, o saber desenhar pode ser um fator de facilidade ou de dificuldade. Às vezes, você desenha coisas que não consegue tirar do papel. O papel aceita qualquer coisa. Então, a gente discute muito isso com relação aos figurinos. Tem que ir pro papel aquilo que é viável, ver se o que foi desenhado é possível. Muitas vezes, se desenha e você olha e diz: “isso não tem como ser feito”. Então, a gente já entra nesse processo de não se desgastar, não colocando no papel coisas que não podem ser executadas. Mas aí precisa do conhecimento de como fazer o carnaval. Se eu pego uma pessoa que desenha muito bem, que tem desenhos belos, pra mim, não quer


dizer nada! Entendeu? O desenho é o primeiro passo para você materializar aquilo que você está pensando... PLUMAS – Tira da cabeça e põe no papel, como uma fase intermediária entre a [criação na] cabeça e a realização? PAULO BARROS – Esse é sempre o meu toque para eles. Quando sai da cabeça tem que ir pro papel já definido e com as respostas com 100% de certeza de execução. PLUMAS – Então vocês não desenham as suas comissões de frente? PAULO BARROS – Na verdade a gente não desenha nada. A gente discute qual é o projeto, as ideias, e depois que ele já está todo solucionado - o figurino, a alegoria ou comissão de frente, qualquer coisa - a gente passa a ideia para o papel. Tudo que sai da nossa sala, já sai com solução. PLUMAS – Como você faz o seu projeto após a definição do enredo? PAULO BARROS – Escolhido o tema, eu reúno tudo que é relação de imagem que aquele tema me proporciona. Então, eu faço um garimpo de imagens. Essas imagens são subdivididas em grupos - Porque uma tem referência com outra - isto é, cada setor de uma escola tem um núcleo. São vários núcleos dentro de um enredo. Essas imagens são divididas nesses núcleos, e ai nós já temos os setores. Daí vou separando dentro desses gru-

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Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

pos o que é bom para ser alegoria... Depois que essa história foi contada em imagens é que nós vamos fazer o descritivo. PLUMAS – Por quê? PAULO BARROS – Senão, aprisiona. Eu aprendi a fazer carnaval dessa maneira: “Ah! Vamos escolher um tema. Então já se passa pro papel, já se conta uma linda história que no papel é lindo, mas, quando vai transformar isso em imagens, às vezes as imagens ficam presas, encarceradas naquilo que está escrito”. Isso sempre me incomodou. PLUMAS – Porque isso é um grande embate, né? O que o jurado encontra na avenida, muitas vezes não reflete exatamente o que está escrito... PAULO BARROS – A gente tem o desafio de ter um texto, de produzir um carnaval. Ele te limita tanto que eu prefiro ter as imagens antes. Criar a minha história depois, e achar uma maneira de contar essa história e que o jurado veja coerência nisso. PLUMAS – Na dedicatória que você fez no meu exemplar do seu livro (Sem Segredo) você escreveu: “As transformações do Carnaval serão a base para manter o maior espetáculo da Terra, através da eternidade”. A surpresa e a consequente interação com o público são os pontos de partida para suas concepções criativas? PAULO BARROS – Olha, isso vem tra-

duzir a minha vontade e a expectativa de causar alguma coisa que seja diferenciada. Por exemplo, quando eu decidi fazer uma pista de esqui na Viradouro, em 2007, pensei: “Como é que eu vou fazer aquela gente esquiar”? Então, assim como eu fui atrás do mágico pra me ajudar e ele entregou as chuteiras [que mantinham os bailarinos da comissão de frente de 2013 suspensos no ar], eu tive que correr atrás do profissional de esqui. O cara me explicou quais eram as condições, a altura, o ângulo da pista, que tipo de gelo, a temperatura (que era específica)... Então, você vai atrás, né? Dessas informações técnicas que você não domina pra você levar pra avenida algo que seja novo. PLUMAS– Nessa tentativa de surpreender o público... PAULO BARROS – Sempre. Eu almejo uma coisa que seja bela e boa de ser vista, independente se eu vou usar a mágica ou não. Pra mim, o importante é causar o impacto visual de quem tá assistindo, é você botar a mão na cabeça e dizer: “o que é isso”? PLUMAS – Como ele fez isso... PAULO BARROS – Não é nem como ele fez isso. É você se surpreender com o que você tá vendo. Isso pra mim, não tem preço! Eu assisti a carnaval desde muito novo e chegava na quarta ou quinta escola e eu já tava dormindo. Aquilo passava e eu... Meu Deus! Eu fujo da normalidade. O que é a normalidade pra mim? É o cara ir pra Marquês de Sapucaí ficar olhando o desfile e beber uma cerveja e ver um espetáculo que tá passando e que é bonito... e que acabou. Ele viu a escola, acabou, vai no banheiro, volta e encontra outra. Eu quero que a cerveja fique quente no copo, pra ele nem beber.

Madson Oliveira é Bacharel em Design de Moda (UFC); Mestre e Doutor em Design (PUC-Rio); com Pós-Doc em Artes Visuais (EBA/UFRJ). Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

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| Gestão de Carnaval |

POR LUIS CARLOS MAGALHÃES

MONARCO, UMA PÁGINA VIVA DE GLÓRIAS

E

mbora autores de um único samba juntos, a trajetória musical de Candeia vale como referência para que se compreenda toda a vitalidade e importância de Monarco para a Portela. Cruzados os caminhos, filhos do mesmo tempo, brilharam na Portela e fizeram a Portela brilhar.

pastoras de tal forma, com tanto vigor, que seria cantado no “esquenta” do ano seguinte na Candelária. Aos 19 anos. (Nota da editoria: O ano é impreciso, já que Monarco afirma que o fato ocorreu em 1952). O sucesso da Portela era impressionante. Foram 17 anos seguidos de glórias, com a escola imbatível em qualquer ranking. Nesse período vencera 9 vezes, sagrando-se tetra campeã de 1957 a 1960. Nos anos em que não vencera estaria no sábado das campeãs em todos os anos, sem já existisse esse desfile. A Portela explodia na Portelinha em noites fantásticas, até não caber mais gente ali dentro.

Monarco e Candeia são da mesma geração, com diferença exata de três anos. Candeia já andava por Oswaldo Cruz desde os seus seis anos, filho que era do Candeia velho. Monarco só foi parar por lá bem mais tarde. Na juventude de Monarco, Oswaldo Cruz e a Portela eram uma referência, distante dela que estava. Foi o período em que Monarco atribuiu a si próprio Para Candeia a Portela foi por toda vida seu quintal, sua o papel de menestrel da escola, cantando e contando casa. suas glórias e a glória de seus baluartes. Quanta gente Paulo da Portela foi a marca comum na vida de am- ouvia ali, pela primeira vez, através de sua voz inconbos. Com seus amigos Candeia construiu uma corren- fundível, referências a Paulo, a Claudionor e até a Paute de sambas inovadores levados à escola, marcando linho da Viola, recém chegado à escola no meado dos seu tempo: uma nova geração de vitoriosos sambistas sessenta. O mesmo Paulinho que lhe daria a emoção liderada por ele e formada por Altair, Bubu, Casquinha, inesquecível de ouvir no rádio um samba seu. Era “LenPicolino, Waldir 59, entre outros. Candeia seguiria com ço”, parceria com Chico Santana. Logo depois era Martisua turma jovem, enquanto Monarco cada vez mais se nho da Vila gravando “Tudo Menos Amor”, parceria com identificava musicalmente com a turma antiga de com- Walter Rosa. positores. Não saia de perto de Alcides, Chico Santana, Alegria que vinha, alegria que ia. A Portela iniciava Manacéia e Ventura, fato que justifica a escassez de parali seu período de crises internas e ausência de títulos. cerias. A carreira de Monarco, no entanto, era alavancada por Em 1953, um dos carnavais mais importantes da um acontecimento musical que marcaria sua trajetória história, Candeia com seu samba, quase-menino, aos definitivamente. Produzido por Paulinho da Viola e João 17 anos, conduz a escola a um título retumbante em Araújo em 1970, o disco “Portela-Passado de Glória” parceria com Altair Prego. Durante aquela década, sua inaugurava a era vitoriosa da Velha Guarda da escola nova geração pontearia soberana nas composições de que acabaria por conquistar todo o país revelando tesousambas de enredo. Nem Candeia e nem a Portela se- ros da obra musical de seus compositores, desde o temriam os mesmos. Com Monarco era diferente. Jamais po da fundação. Com o tempo, ao assumir a liderança levaria sua escola a um desfile com um samba-enredo. natural do grupo, outros discos se sucederam tanto em sua carreira solo quanto da Velha Guarda, até que um No mesmo ano em que Candeia estreara nos desnovo momento mais uma vez marcaria sua vida. files, Monarco deixava igualmente sua marca. Não no desfile, mas no terreiro sagrado da escola. Seu samba A histórica parceria com Alcino Correa, o Ratinho, “Retumbante Vitória” arrebataria o coro decisivo das nominaria mais uma entre as duplas mais exitosas da Revista

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Líder da Velha Guarda, Monarco, porta voz de tantas tradições portelenses, é, hoje, mais que naqueles anos passados, o guardião e contador de histórias de uma Portela que ousa buscar a competitividade que lhe torne possível a conquista do tão esperado título. Como se alguma coisa lhe faltasse, Monarco hoje desfruta da posição de referência absoluta junto a jovens sambistas de inúmeros estados do país que cantam por aí aqueles mesmos sambas, daqueles mesmos sambistas mais antigos com quem Monarco preferira ficar, preferindo-os aos sambistas de sua geração. Jovens seguidores que cantam por toda parte, orgulhosos, os sambas portelenses em rodas acústicas, sem quaisquer influências “deformantes”, como se o mestre estivesse ali ouvindo tudo. Na volta que o mundo deu, Monarco, de tanto cantar e contar histórias de sua escola e de seus baluartes, é, hoje, na opinião de José Ramos Tinhorão, o mais importante sambista brasileiro. Por sua importância crescente, dentro e fora dos limites de sua escola, foi levado à condição de presidente de honra, fato que o coloca entre os mais reconhecidos e destacados personagens da Portela, já com lugar confortavelmente garantido naquelas tantas páginas belas do tão reverenciado “livro de nossas histórias” por ele mesmo celebrizado.

Luis Carlos Magalhães é colunista do site Carnavalesco e Diretor Cultural da Portela

Fotos: Marcos Mello

NUMA ESTRADA, DESSA VIDA

música brasileira. A cada disco da carreira fulgurante de Zeca Pagodinho um novo sucesso da dupla encantava sambistas e consumidores em todo o país, abrindo para Monarco o mercado de shows em sua carreira solo.


| Homenagem |

POR DANIEL TARGUETA

“SE UM DIA MEU CORAÇÃO FOR CONSULTADO”

César Pinheiro e Mauro Duarte. Não pode servir para ser nosso hino principal. Para ser samba-exaltação da Portela, tem de ser nascido em solo portelense”. Em breves palavras, uma verdadeira aula do que simboliza um samba-exaltação. Só mesmo um mestre como Monarco, no alto de sua história e importância para o carnaval, pode se dar ao luxo de ir contra o senso comum e dar o voto decisivo na escolha do samba que representa toda a imensidão do que é ser Portela. “É uma das escolas de samba que tem o maior número de sambas-exaltação, eu mesmo já fiz muita coisa. O amor que o compositor tem pela escola faz com que a gente tenha essa imensidão de sambas bonitos”, orgulhou-se.

Foto: Arquivo Pessoal

Pondo fim ao dilema, foi definido como obra para representar a exaltação da Portela outro bom e velho conhecido do público. Monarco elegeu “Foi um rio que passou em minha vida”, um clássico de Paulinho da Viola. E como bom samba que se preze, a inspiração de Paulinho parece ter vindo de um sonho. É o que contou Monarco: “Paulinho estava tirando um cochilo num dia de carnaval quando gritaram ‘É a Portela’. Isso o acordou na hora. Era amanhecer do dia e, por isso, um de seus versos canta ‘O samba trazendo alvorada’”.

(OU QUANDO MONARCO ESCOLHEU O SAMBA-EXALTAÇÃO DA PORTELA)

Q

uarta-feira, janeiro de 2014. Naquele dia de verão, horas antes do habitual ensaio de comunidade na quadra da Portela, lá nas bandas de Oswaldo Cruz e Madureira, a equipe do Bom Dia Rio, da TV Globo, se preparava para gravar o quadro “Grito de Guerra”, série de episódios que contou a história dos sambas-exaltação de cada agremiação do Grupo Especial. Monarco e a velha-guarda da escola já estavam a postos na quadra, mas para um desafio: qual hino, entre tantos já cantados por aquelas bandas, serviria para representar o hino do portelense? Diferentemente do que ocorrera em outras escolas, esse impasse persistiu até o momento em que chegamos. Ficou, então a cargo de Monarco e seu colegiado de bambas, um verdadeiro conclave do samba, a árdua missão de definir aquela que seria a obra-hino

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da Portela diante vasto acervo musical da azul-e-branca. Já no início da nossa conversa, Monarco cita um clássico da escola: “Se for falar de Portela, hoje não vou terminar” - numa autorreferência a uma de suas muitas contribuições ao cancioneiro portelense. Mas se engana quem pensa que esta foi a canção escolhida. Qual seria então o samba-exaltação da Portela, aquele que honraria as glórias da maior campeã da história do carnaval do Rio? Muitos (inclusive eu) apostavam em “Portela na Avenida”, um dos maiores sucessos da escola, imortalizado na voz de Clara Nunes. Mas foi exatamente dessa aposta que veio uma das maiores lições adquiridas nesses anos de cobertura carnavalesca. “’Portela na Avenida’ é lindo, mas não serve para ser nosso samba-exaltação”, sacramentou o mestre. Silêncio entre os integrantes da velha-guarda. Com a fala serena, Monarco explicou: “Nada contra, mas samba-exaltação tem de ser criado dentro do seio da escola, e ‘Portela na Avenida’ veio de fora para dentro. Foi uma encomenda de Clara, que sempre sonhou em cantar uma exaltação à Portela e pediu ao Paulo

O tal rio que até hoje passa por nossas vidas quando o assunto é Portela ajudou seu autor nos bastidores da discórdia lá em Madureira. “Paulinho havia feito um samba pra Mangueira [“Sei lá Mangueira”, em parceria com Hermínio Belo de Carvalho] e o pessoal estava ‘P’ da vida com ele. Mas depois do samba, Paulinho limpou a barra com seu Natal da Portela e com toda a família portelense. O samba é muito poético. Paulinho foi muito feliz, fez um gol de placa”, elogiou o mestre. A escolha do samba-exaltação não poderia ter sido mais feliz. “Foi um rio que passou em minha vida” é um clássico que figura nas coletâneas dos maiores sambas de todos os tempos. E hoje com as bênçãos e o reconhecimento de quem traz no DNA a essência do que é ser portelense. Salve Monarco, salve Paulinho da Viola, salve a Portela!

Daniel Targueta

é jornalista, cobre carnaval desde 2004 e faz parte do núcleo de jornalismo da TV Globo. Em 2015 foi o vencedor do Plumas & Paetês Cultural de Projeto Mais Inovador do Carnaval, com a série “Meu Jeitinho” do Bom Dia Rio. Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

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| Homenagem |

POR LUIZ EDUARDO FERNANDES

VEJA ALTO, OUÇO COLORIDO! Artista na profissão e na vida, Mello enxerga o mundo de maneira tão poética quanto seus quadros. Sua pintura transcende a modismos: “fazer arte visual é atingir, através da expressão plástica, o emocional das pessoas”, descreve. Afirma que, para o trabalho, escolhe como primeira regra a estética tangenciada pela beleza da vida e da plasticidade. O sentimento de prazer foi o que o levou a trabalhar com a arte. Um cara simples, criativo e talentoso.

A BELEZA DA VIDA E DA ARTE DE MELLO MENEZES

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e existe uma pessoa que pode representar o elo de ligação do trabalho do Monarco com a premiação do Plumas & Paetês Cultural 2016, é Mello Menezes (foto). Sua arte para a capa do último CD do sambista portelense “Passado de Glória – Monarco 80 anos” também ilustra o troféu da 12ª edição do Plumas. Pra conhecer mais o universo artístico desse pintor carioca, que já foi até enredo de carnaval, visitamos seu ateliê, no alto de Santa Tereza. Criado nos subúrbios do Rio e batizado como José Carlos Mello, adorava desenhar desde pequeno, mas só começou sua carreira quando abandonou o trabalho no Ministério da Guerra, onde serviu como Sargento Desenhista, para se aventurar em uma agência de publicidade. Decisão sábia de um artista gráfico que, hoje, é reconhecido por

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seus trabalhos nacionais e internacionais. Aos 77 anos, coleciona ilustrações e storyboards para grandes empresas, cenografias para shows, ilustrações para livros, revistas e jornais, além de ter seus trabalhos exibidos em diversas exposições. Na música, o CD do Monarco, feito em técnica mista de acrílico e guache, não foi o primeiro. Já criou a capa para disco do Tom Jobim, Elis Regina, João Bosco, Clementina de Jesus, Carlos Cachaça, Pixinguinha, Aldir Blanc, Ivan Lins, Moacir Luz e muitos outros. No âmbito audiovisual, é o autor do cartaz de filmes como “Morte e Vida Severina” e da abertura de novelas como “Mandacaru” e das novas versões de “Saramandaia” e “Gabriela”. Declarado amante do carnaval, já realizou diversos trabalhos com essa inspiração, tendo, inclusive, uma das seções de seu site, destinada ao segmento. Não à toa, foi tema do enredo do bloco “Não Muda Nem Sai de Cima”, em 2005. Com o título de “Mello Menezes, o Pintor do Sol e das Estrelas”, arrastou mais de mil foliões pelo bairro da Muda, na região da Tijuca.

Além do seu trabalho plástico, é também poeta, como demonstra a sua resposta à indagação: o que significa carnaval? “Olhar o nublado verde véu das odaliscas nos carnavais da infância era cair no abismo, abismo do seu olhar, lança perfume que transpassava o coração do menino sem fantasia. Então fugiu. O olhar caiu imerso nos lagos de águas cristalinas das ruas de terra do subúrbio, onde vulcões submersos lançavam lavas de areia dos canos furados. A água vazava pros meios fios formando rios, onde confetes coloridos começavam a disputa pela dianteira: nas curvas, quedas e corredeiras, alternando posições nos túneis de serpentina, transbordando barreiras até, subitamente, desta vez sem poder fugir, o olhar cair no abismo dos bueiros”. Conhecer seu ateliê, mergulhar nas cores das suas tintas, ouvir as suas poéticas palavras e seu jeito de ser é a certeza de estar diante de um artista no sentido mais puro da palavra. Que mesmo célebre por seu sucesso, gentilmente cedeu sua arte para ilustrar o nosso troféu. Seria impossível ter outra imagem para o nosso prêmio senão um trabalho de um mestre para outro mestre.

Acesse: mellomenezes.com.br Luiz Eduardo Fernandes é bacharelando de Cenografia na Escola de Belas Artes (UFRJ)

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POR TIAGO RIBEIRO

Foto: internet

EM GUARDA PELOS MAIS VELHOS

UMA CRÔNICA SOBRE A IMPORTÂNCIA DA VELHA GUARDA DAS ESCOLAS DE SAMBA

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á mais ou menos um par de anos atrás, quando eu ainda morava em Madureira, peguei um ônibus da linha 875 (Cascadura x Campo Grande) com destino à Zona Oeste. Passei pela roleta, sentei e vi do outro lado da condução o saudoso Ivo Lavadeira, criador do time de futebol que deu origem à Mocidade Independente de Padre Miguel. Lembro que eu não parava de pensar em como ele não sabia que havia mudado tanto a minha vida, mesmo sem me conhecer. Se não fosse ele, que decidiu usar a sua bola de futebol para criar um time em que pudesse jogar – já que não era lá muito bom de bola – não existiria o Independente Futebol Clube, que, por sua vez, não teria gerado as batucadas pós-jogo, que deram origem à Mocidade do Independente e que hoje é a maior escola de samba da região. Se não fosse ele, que infelizmente faleceu ano passa-

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do, eu não seria torcedor da Mocidade e, possivelmente, não gostaria de carnaval e muito menos trabalharia com isso. Aquele não foi o único momento em que percebi a importância dos sambistas mais experientes. Lembro-me de quando desfilei pela primeira vez com a escola, nervoso e ansioso, avistei toda a velha guarda independente, na curva que antecedia o Setor Um, toda aglomerada, esperando a sua vez de entrar. Mais que isso, estavam ali, vendo passar a escola que ajudaram a criar e desenvolver e desejando boas energias a todos os desfilantes. Lembro como me emocionei e me senti mais capaz de enfrentar a avenida. Talvez a maioria das pessoas não tiveram a sorte de presenciar momentos tão sublimes como estes e outros que vivenciei ao lado das velhas guardas. Muitos não sabem que o segmento tem esse nome inspirado na Guarda-Velha (conjunto musical criado por Donga e Pixinguinha que teve o intuito de reviver a tradição musical do extinto Café Concerto da Guarda Velha, localizado na rua de mesmo nome, atual 13 de maio). Deve até existir um ou outro que

NÚMEROS E ESPETÁCULOS ARTÍSTICOS IDEAIS PARA O SEU PROJETO DIREÇÃO ARTÍSTICA: RUIDGLAN BARROS

DIREÇÃO MUSICAL: EDIMAR SILVA

desconhece que a Portela foi a primeira a montar seu grupo velha guarda show, ideia que se espalhou pelas coirmãs, rendendo apresentações no Brasil e no mundo. Muita gente pode nem conhecer a importância desses senhores e senhoras de cabeça branca para a história do samba, ou que há 3 anos existe o bloco de carnaval da velha guarda da Mocidade. É grande o número de sambistas que nem sabe da existência da Associação das Velhas Guardas das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, fundada em 1983, ou do calendário de festas exclusivas do segmento, que reúnem representantes de várias agremiações e que movimentam as quadras de suas escolas. O que não pode é esperar que eles tenham uma velocidade de desfile que eles não conseguem mais. O que é inadmissível é ridicularizar a velha guarda para protestar contra o resultado de um carnaval, ou por qualquer outro motivo. Temos que valorizar o privilégio de ainda termos entre nós Djalma Sabiá, único ainda capaz de nos contar os detalhes de quando fundou o Salgueiro; Zé Catimba, que além de insólito fundador vivo da Imperatriz Leopoldinense, nos brinda até hoje com belíssimos sambas de enredo, disputando de igual pra igual com outros compositores; além de tantos outros que, além de nos emocionar com suas passagens na avenida, são também guardiões das histórias das escolas, muitas ainda não contadas. Que cada vez conheçamos mais estas figuras, seja para dar o devido valor a quem merece, ou para, assim como eu fiz aquela vez dentro do ônibus, agradecer pela existência deles.

Foto: Marcos Mello

| Gestão de Carnaval |

Assim como o carnaval não ocorre só em fevereiro, o Plumas & Paetês Cultural não faz a festa só uma vez ao ano. A nossa Cia de Arte, que tradicionalmente abre todos os nossos eventos, possui espetáculos e números artísticos prontos e sob encomenda, de temáticas livres ou Carnavalescas. Só no último ano, fizemos intervenções artísticas em grandes eventos como o “Miss Estado do Rio de Janeiro” e “Um Rio de Samba”. São cantores, atores,

Tiago Ribeiro

é jornalista, pesquisador de carnaval e editor da revista do prêmio Plumas & Paetês Cultural

bailarinos, músicos, contra regras, produtores, diretores, cenógrafos, figurinistas, maquiadores, aderecistas e toda

cia

de

arte PLUMAS&PAETÊSCULTURAL

uma gama de profissionais para executar o seu projeto artístico. É a Cia de Arte Plumas & Paetês Cultural levando os profissionais que valorizam a arte carnavalesca para abrilhantar o seu evento.

(21) 2283-0827/ 98939-2920 Revista

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Plumas & Paetês Cultural plumasepaetescultural@gmail.com.br 2016


| Gestão de Carnaval |

POR JOSÉ MAURÍCIO TAVARES

A MALANDRAGEM DO BOM MALANDRO VISUAL DAS ESCOLAS DE SAMBA

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Foto: internet

partir da década de 1930, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, é percebida uma mudança no universo do carnaval e no processo de formação das escolas de samba. A Ditadura do Estado Novo (1937 – 1945) piscou um sinal de alerta para os malandros e os que cultuavam a malandragem. Era necessário apagar de vez a imagem negativa deixada pelo entrudo e pela violenta disputa que ocorria quando os blocos se encontravam durante o carnaval, o que acabava virando caso de polícia. Além disso, a nova Constituição, imposta ao país em 1937, equiparava a ociosidade a crime, estabelecendo o trabalho como um dever social. Uma vez que a atividade dos sambistas dependia de aceitação para ser consumida e transformada em meio de vida, profissionalmente falando, os ditos malandros precisaram trabalhar a própria imagem. Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela, foi um dos pioneiros a fazer uso estratégico da “boa aparência”, alinhada à elegância, para associar, à imagem do sambista, o respeito, a educação e a sua valorização como artista. O fundador da escola de Oswaldo Cruz e Madureira percebeu que, em função da conjuntura da época e do “ideal patriótico” do governo, tornou-se necessário adequar ao sambista o padrão visual exigido pelas classes dominantes. Marcas de uma sociedade onde os negros, libertos da escravidão há menos de 50 anos, ainda eram muito mal vistos. Negro, assim como a maioria de seus companheiros, Paulo tinha ciência do grande desafio.

Para tanto, mandou confeccionar ternos brancos iguais, sapato tipo carrapeta, gravata e chapéus de palha, na esperança de que seus amigos também aderissem à ideia, ajudando a mudar a imagem do sambista-marginal. Desta maneira, começou a difundir o seu lema: “Sambista, para fazer parte do nosso grupo, tem que usar gravata e sapato. Todo mundo de pés e pescoços ocupados!”. A época em que viveu Paulo da Portela (1901 – 1949) foi influenciada, em termos de moda masculina, pela figura do Duque de Windsor, Edward VIII, considerado um líder internacional na década de 1930. O estilo caiu-lhe muito bem, já que Paulo tinha a fama de ser muito refinado e possuir bons modos ao se expressar. Destaca-se também no período, a grande influência artística de Hollywood. As roupas glamorosas, criadas para estrelas do cinema como Jean Harlow, Joan Crawford, Fred Astaire, Cary Grant, Gary Cooper e Marlene Dietrich surgiam no carnaval com outra leitura, adaptadas para uso como fantasias em blocos carnavalescos, bailes e nos desfiles das Escolas de Samba, o que nos remete ao pensamento do antropólogo, Roberto DaMatta, que disse em seu famoso livro Carnavais, Malandros e Heróis, que a fantasia de carnaval revela muito mais do que oculta, já que uma fantasia, representando um desejo escondido, faz uma síntese entre o fantasiado, os papéis que representa e os que gostaria de desempenhar. A mudança proposta para o visual dos componentes da Portela acabou se estendendo para o segmento de maior tradição das Escolas se Samba, a Comissão de Frente. Introduzida pela Portela na primeira década dos desfiles, elegantemente uniformizada, com terno branco e chapéu, possuía a função similar à de um mestre de cerimônias, saudando o público e pedindo passagem, criando uma imagem positiva e de organização, alinhada ao bom gosto e à tradição. Este ar refinado na abertura do cortejo, somado à inclusão das primeiras alegorias e destaques de luxo, marcou profundamente, já na década de trinta, a estética visual das escolas de samba, o que colaborou para despertar o interesse das altas classes. As escolas de samba, como organismos vivos, são híbridas, e sua estética e modo de pensar refletem o momento político cultural em que estão inseridas. Nesse sentido, a contribuição da geração de Paulo da Portela ao universo do carnaval, fez surgir novas propostas que incluíram as escolas no fazer do carnaval como cultura popular, construindo relações e dialogando com políticas culturais e sociais, elites e governo ao longo da década de 1930. Isso gerou inovações, e uma abertura para que os componentes destas agremiações recebessem convites para apresentações fora das quadras.

PAULO DA PORTELA, HEITOR DOS PRAZERES, GILBERTO ALVES, BIDE E MARÇAL

Em 1931, a Portela foi a primeira escola de samba a receber visitantes ilustres, em evento organizado pelo extinto Jornal do Brasil; em 1933 foi também a primeira a visitar os salões da alta-sociedade, numa noite de gala promovida pelo Clube Alemão Pró-Arte. Na oportunidade, o embaixador germânico, maravilhado, publicamente exaltou a agremiação. Surgiu assim a primeira tentativa de uma escola de samba se integrar no seio da sociedade; em 1934 a azul e branca teve a primazia de excursionar pelo interior do Rio de Janeiro; no ano seguinte, seus integrantes foram protagonistas do filme “Favela dos meus Amores”, de Humberto Mauro. O governo e as entidades culturais da cidade enviavam à quadra da Portela comitivas de estrangeiros para conhecer a cultura do samba do Brasil. Conta-se até que o personagem Zé Carioca, papagaio elegantemente vestido, teria sido criado após visita de Walt Disney à escola. O mundo que Paulo da Portela criou, possibilitou uma revolução no visual das escolas de samba que aos poucos foram se afastando das matrizes culturais que as originaram, sendo também uma inspiração para a nova geração de carnavalescos que surgiu pós anos 1960, como Pamplona, Arlindo, Fernando, Lícia, Maria, Rosa, João e tantos outros que fazem do carnaval das escolas de samba o maior espetáculo da Terra. E por mais que se pretenda pôr todo mundo a entoar, em uníssono, uma mesma canção, sempre haverá desafinados, justamente os que não se afinam pelo diapasão da ordem instituída e que, à sua maneira, destoam do coro dos contentes para a evolução do próprio carnaval.

José Maurício Tavares é historiador com especialização em arte, cultura, figurino e carnaval.

Foto: internet

O VISIONÁRIO PAULO DA PORTELA E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A MUDANÇA


| Gestão de Carnaval |

POR

NILCEMAR NOGUEIRA

O SÉCULO DO SAMBA SOBRE O SAMBA QUE MORA EM MIM E A MORADA QUE FIZ PRA ELE

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inônimo de brasilidade, no país e no exterior, a dimensão alcançada pelo samba no imaginário mundial é algo incontestável. De herança da população afrodescendente até se tornar esta manifestação cultural compartilhada por todo o Brasil e espalhada pelo mundo, encontrou nas escolas de samba o veículo ideal para se propagar e tornar-se tradição. O ritmo, que ganhou status de patrimônio da humanidade (pela Unesco, em 2005) e patrimônio cultural imaterial do Brasil (pelo IPHAN, em 2007), está prestes a completar, em 2016, seu centenário. O vocábulo “samba” é oriundo da língua Banto, do Congo e de Angola, povo africano que o trouxe para o Brasil. Praticado em rodas, era acompanhado pela dança e pelos ritmos criados pelas palmas das mãos. Depois que, pela primeira vez, apareceu grafado pelo padre Lopes Gama, em 1838, o referido termo seguiu duas vias diversas: no discurso das classes cultas significou sempre a dança, a festa; já entre os músicos, a partir do início do século passado, especializou o emprego na designação não do

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Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

ritmo de qualquer dança, mas apenas nos do tango e do maxixe. O sucesso de Pelo Telefone, registrado em 1916, praticamente substituiu os outros dois vocábulos, tango e maxixe, pela novidade samba, e marca o seu nascimento. Mas o que vem ou veio a ser, efetivamente, o samba carioca, de que Ismael Silva foi um dos fundadores e mais legítimo representante? Como ele se diferencia dos outros sambas – maranhenses, pernambucanos, africanos e, principalmente, baianos – e dos demais ritmos do início do século, como o tango brasileiro, o maxixe, o chorinho e a polca abrasileirada, todos tratados como o mesmo gênero pelas classes letradas? Atualmente, a matéria tem estado em pauta nas principais disciplinas que abordam a questão do patrimônio nacional. Sua origem etimológica remonta, segundo versões, ao batuque dos negros africanos, provindo de Semba (que era a umbigada - união do baixo ventre). Esse batuque era a dança preferida dos negros, que, reunidos em círculo, dançadores executavam passos no centro, dando uma “umbigada” na pessoa que escolhiam, quando queriam dançar juntos ou ser substituído. Dentre as danças “sagradas” e “profanas” dos negros, predominantes na Bahia, desde a época colonial, destacava-se a dança do samba. Com o início das migrações para o Rio de Janeiro, levas de baianos, em meados do século XIX, instalaram-se, em sua maioria, na zona do porto. O samba baiano, por meio de um processo de trocas e adaptações, absorveu e foi influenciado pe-

los lundus e modinhas que vicejavam em terras cariocas. Eram destaque as “tias” baianas, que promoviam encontros de todo o tipo, concentradoras de gente, com sessões de candomblé e de samba. São encontradas em várias referências históricas (orais) as “tias” Dada, Bebiana, Josefa Rica, Mônica, Persiliana (mãe de João da Baiana), Veridiana, Amélia (mãe de Donga), Isabel, Gracinda e Ciata. Esta última, de nome de batismo Hilária, reunia em sua casa batuqueiros, músicos, malandros e amigos, onde, depois do candomblé, havia sessões de samba. Recheado pelo lundu, adoçado pelo maxixe e samba baiano, e sob a influência dos bantos vindos do Vale do Paraíba, nasceu o samba carioca, paulatinamente adotado pelos cordões de baianas e agremiações que surgiam nos morros cariocas e em seus subúrbios. Uma reforma urbanística na cidade do Rio de Janeiro, instituída pelo prefeito Pereira Passos, entre 1903-1906, conhecida popularmente como “Bota-Abaixo”, forçou a migração do segmento pobre da população para longe do centro da cidade. O projeto urbanístico destruiu velhas construções, cabendo às favelas e ao subúrbio operarem, a par da carência material, como voz da resistência e das forças de transformação. Foi justamente nesses redutos que surgiu uma forte organização social, onde se desenvolveu um dos maiores núcleos social e comunitário: a escola de samba. Inicialmente organizadas de forma simples e com raiz nos ranchos e blocos, conquistou, primeiramente, poucos, mas representativos integrantes, uma vez que, em sua maioria, eram compositores, por excelência. Neste processo, os estilos musicais associados ao samba se diversificaram enormemente e tornaram-se um fenômeno comercial dentro e fora do país. Este processo de consolidação e comercialização, entretanto trouxe consigo diversos desafios. As tradições que fizeram do samba uma manifestação de tamanha força continuam vivas na sua essência, mas encontram-se hoje, como é comum a muitos bens culturais imateriais, ameaçadas frente a enorme pressão que advém dos processos comerciais relacionados ao seu legado e a ele mesmo. Dentre estas tradições, a natureza das estruturas sociais e culturas africanas perpetuadas no Brasil pós-abolição no seio das comunidades negras, o lugar da família, da mulher negra, do sincretismo religioso afro-brasileiro, são todos fatores que devem ser celebrados e imortalizados através da história destes

cem primeiros anos formativos do samba para benefício de todos os brasileiros. Desta forma, contar a história do samba é antes de tudo honrar a cultura negra como cultura matricial brasileira, valorizar o importante papel da mulher negra, dar voz àqueles cujas histórias sociais tem sido sistematicamente negligenciadas na historiografia oficial do país e voltar nossos olhos para os morros e periferias urbanas, associados a violência e crime, para reconhecê-los como capital cultural relevante para todos os brasileiros assegurando-lhes direitos básicos fundamentais. Como neta de um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira (Cartola) e como testemunha da sua trajetória, percebo que as Escolas de Samba, que eram, por excelência, o lugar da socialização dos sambistas, têm, com seu crescimento e sua administração política, afastado seus criadores, desprezado a própria memória e sua comunidade fundadora, perdendo força no seu campo de atuação. Então, como não lutar pelo samba se, desde o meu nascimento, recebi essa herança do meu avô, reconhecido, nacional e internacionalmente, como um dos mais expressivos sambistas do Brasil? E foi justamente como testemunha da tensão estabelecida dentro do território criado por sambistas tradicionais e por que não dizer legitimados por toda uma história de dedicação, que fundei, juntamente com alguns parceiros, em 2001, o Centro Cultural Cartola – hoje Museu do Samba – uma instituição que não visa ao assistencialismo, mas, sobretudo, à promoção das pessoas que a ele recorrem.

os brasileiros. Do vasto acervo da instituição vale destacar mais de 90 depoimentos realizados com sambistas considerados referência do samba como forma de expressão, além de partituras, fotografias, livros, registros audiovisual, cartazes, gravações, manuscritos, objetos tridimensionais. Visando destacar todo este material, realizamos regularmente exposições, seminários e encontros para debater e propor políticas e ações coordenadas para a valorização e promoção da memória do samba, e desenvolvimento humano por meio de oficinas de capacitação. Vale ressaltar que muito do material contido no Museu do Samba foi doado pelos próprios sambistas e hoje está aberto à consulta e que não há um item que possa ser considerado o mais valioso, uma vez que todos, em conjunto, traduzem as trajetórias de vida e suas contribuições ao samba. O Museu do Samba passa a se compreender, a partir de 2016, como um agente educador e articulador de um número cada vez maior de pessoas e grupos sociais interessados no tema. A memória é o lugar de nutrição da identidade, o que mantém vivo os costumes, as tradições e os hábitos. Entre os desafios, falta ainda vencer a invisibilidade imposta por alguns poderes instituídos, que insistem em não considerar a possibilidade de o próprio detentor gerir seu processo e ser porta-voz de sua história.

A história da Instituição é marcada por grandes conquistas. A maior delas, sem dúvida foi a liderança no processo de registro do samba como patrimônio cultural imaterial. Além disso, como fundadora do Museu do Samba, testemunhei o desmembramento do samba, como expressão musical, em várias formas e como as Escolas de Samba caminharam para o grande espetáculo, esquecendo da música, e até a empobrecendo. Cumpridor de sua função sociocultural e educativa, e sua responsabilidade perante às comunidades que desenvolvem o samba como fenômeno cultural dos mais importantes para a identidade brasileira, o Museu do Samba já vinha se envolvendo com a difusão e a valorização das histórias das pessoas, lugares e objetos que contam o processo de transformação deste ritmo em uma linguagem comum a todos

Nilcemar Nogueira

é Doutora em Psicologia Social e Diretora Executiva do Museu do Samba Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

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| Gestão de Carnaval |

POR ANDERSON FERREIRA

A VOZ DO SAMBA, SOU EU MESMA SIM SENHOR A IMPORTÂNCIA DE UMA SAMBISTA NO CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CULTURAL novembro passado, conselheira titular nacional para o biênio 2016/2017.

Foto: Arquivo Pessoal

Batizada como Ivanir Pereira Guimarães, Pituka nasceu na Ilha da Marambaia, no litoral do Rio de Janeiro. Descendente de angolanos e índios tupinambás, ouvia amigos e familiares falarem as línguas Kimbundu e Guarani. Cresceu numa comunidade que representa a gênese brasileira: quilombola, indígena e branca. Iniciada, desde os 7 anos, na arte de contar histórias, tomou para si a responsabilidade de dar continuidade a esse aprendizado e ser um símbolo de resistência dessa história. Graduada em biblioteconomia, Pituka é conselheira do Conselho do Samba do Rio de Janeiro, Diretora Cultural da Mocidade Independente de Padre Miguel e arte-educadora no grupo de educação da Associação das Escolas de Samba Mirins do Rio de Janeiro (AESM-Rio).

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s sambistas sabem o que precisa evoluir no carnaval: melhores condições de trabalho, Cidade do Samba para as escolas do Acesso, repasse de verbas em tempo hábil para a realização dos desfiles... Mas talvez o problema seja que só nós, os sambistas, saibamos disso. Talvez o carnaval não dê voto, ou talvez falte um olhar realista dos políticos sobre as escolas de samba, que, diferente do que se prega por aí, não é uma festa cara e que dura uma semana, mas um evento lucrativo para o país e que movimenta a cultura e a economia o ano todo. Pelo visto, faltam sambistas com habilidade de gestão onde se tomam as decisões políticas. Por isso, a nossa euforia com a eleição de uma sambista, Pituka Nirobe, para o Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC/MINC). Revista

& Paetês Cultural 48 Plumas 2016

Órgão integrante do Ministério da Cultura, o CNPC propõe a formulação de políticas públicas promovendo a articulação e o debate dos diferentes níveis do governo e sociedade civil organizada, para o desenvolvimento e fomento das atividades culturais no território nacional. Composto por representantes do Poder Público Federal, Estadual e Municipal, e da sociedade civil, num total de 58 pessoas, o plenário congrega representantes de setores como: Arquitetura e Urbanismo, Arquivos, Artes Digitais, Artes Visuais, Artesanato, Circo, Culturas Afro-Brasileiras, Culturas dos Povos Indígenas, Culturas Populares, Dança, Design, Literatura, Livro e Leitura, Moda, Música, Patrimônio Imaterial, Patrimônio Material e Teatro. E foi como conselheira no setor Afro-brasileiro do Rio de Janeiro que despontou Pituka Nirobe, eleita, em

Vale ressaltar que, independente da nobre eleita, nosso intuito aqui é reforçar a importância do feito e levar a público a seriedade deste conselho. A história não nos deixa mentir. Foi a partir do momento em que o Governo oficializou o carnaval, que o samba teve os caminhos abertos para fugir da marginalidade. Através do Sambódromo, o carnaval ganhou o seu status de importância. Com a construção da Cidade do Samba, as agremiações puderam se profissionalizar, e isso só aconteceu por vontade política. Boa sorte, Pituka, estaremos aqui para cobrar e torcer pela valorização da cultura carnavalesca.

Anderson Ferreira estilista

é administrador e


| Gestão de Carnaval |

Anderson Foto: Marcos Mello

F E R R E I R A

O ALFAIATE DO REINO COMO O ACASO LEVOU ARI MESQUITA A SER O ESTILISTA DAS RAINHAS DO CARNAVAL POR JOSÉ ANTÔNIO RODRIGUES FILHO

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a história de Maria Clara Machado, O Alfaiate do Rei, dois falsos alfaiates entregam uma roupa invisível, que só os inteligentes poderiam ver, e que, na verdade, deixavam o Rei nu. Já em nossa história, é justamente o contrário. Um artista que ainda não se considerava dono de tal título, e que, cobrindo a nudez das rainhas do carnaval (sem tirar-lhes a sensualidade) produziu roupas cuja beleza qualquer um poderia ver. Nas próximas linhas, conheceremos a sua trajetória, repleta de finais felizes. Ari Mesquita começou fazendo fantasias um pouco antes de 1993, auxiliando duas amigas de infância, Ludmilla Aquino (hoje destaque de luxo da Mangueira) e Rose Miranda, que desfilavam juntas com ele na Portela. Foi tudo por acaso. A pedido delas, faria a cabeça de suas fantasias de destaque de chão, pois o restante estava a cargo de outra pessoa. Há poucos dias para o desfile, descobriram que o profissional incumbido não conseguiu concluir a encomenda por

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Revista Plumas & Paetês Cultural 2016

problemas pessoais. Para por fim ao desespero instaurado, o novato, porém destemido Ari, assumiu o desafio, se comprometendo a terminar as roupas. O resultado disso, além da gratidão das amigas, foi a publicação das fotos de ambas em uma página inteira na revista Manchete. Ou seja, um artista de mão cheia e pé quente. No ano seguinte, passou a reproduzir alguns figurinos, e aí não parou mais. Durante um tempo, se dividiu entre o trabalho carnavalesco e o emprego fixo em departamento pessoal – onde adquiriu experiência em administração, contabilidade, organização e disciplina. O que o ajudaria muito na confecção de fantasias. Sempre fazia de tudo para tirar férias no pré-carnaval, para cuidar das fantasias que pegava para fazer, e assim a coisa foi indo e prosperando. Há aproximadamente 12 anos, com a crescente procura por seus figurinos, foi preciso sair do escritório, e montar um ateliê. E foi assim que Ari se tornou um dos principais empreendedores deste segmento diferenciado, especializando-

-se em fantasias de destaque, passistas, musas, rainhas de bateria e mestre-sala e porta-bandeira. O carnaval carioca é em fevereiro, mas seu trabalho é uma dedicação o ano todo, já que também atende clientes da Europa, EUA, China, do carnaval de Tel Aviv, em Israel. Incansável, vive viajando pelo mundo para buscar inspiração nos grandes estilistas que expõem nesses países. Como em 2015, quando, ao conhecer a exposição no Grand Palais em Paris, de Jean Paul Gaultier, criou uma nova proposta para as ombreiras da fantasia daquela que se tornaria bicampeã do concurso Rainha do Carnaval (2015/2016): Clara Paixão. O figurino, que pode ser visto na foto que ilustra essa matéria. O ápice de suas criações aconteceu em 2013, na confecção de fantasia da também vitoriosa como rainha do carnaval e atual rainha da bateria da Mangueira, Evelyn Bastos. Desde então, o estilista passou a ser um dos mais requisitados para confecção de fantasias para as rainhas de bateria, musas e candidatas ao título de Rainha do Carnaval Carioca. Atualmente, além de tricampeão no concurso Rainha do Carnaval carioca, Ari também é bicampeão em Niterói (Mariane Marinho, eleita em 2015, e Maryanne Hipólito, em 2016). Pelo visto, também o alfaiate do reino nunca perde a majestade.

José Antônio Rodrigues Filho

é idealizador e gestor do Prêmio Plumas & Paetês Cultural

andersonnfer@gmail.com //atelierandersonferreira

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| Gestão de Carnaval |

POR RAQUEL VALENÇA

O MAIOR ESPETÁCULO AUDIOVISUAL DO PLANETA A IMPORTÂNCIA DAS ESCOLAS DE SAMBA NOS 50 ANOS DO MUSEU Foto: internet

DA IMAGEM E DO SOM

U

ma instituição capaz de preservar e divulgar a criatividade do povo do Rio de Janeiro, especialmente registrada em som e imagem, sem deixar a memória se perder. Dona de um acervo em que se destacam o samba e o carnaval, inovou ao registrar em disco LP os sambas de enredo das principais escolas de samba do Rio de Janeiro – num tempo em que as gravadoras não se interessavam por essas agremiações – e conta com depoimentos históricos de importantes sambistas, muitos que já não mais estão entre nós. Este é o MIS, Museu da Imagem e do Som, que acaba de completar seu cinquentenário. Coincidentemente, este meio século marca um momento muito especial, em que se inaugura também, numa nova sede, em Copacabana, uma maneira totalmente nova de apresentar seu precioso acervo e de receber e tratar o público. Fundado em 3 de setembro de 1965, no âmbito das comemorações do 4º Centenário da cidade do Rio de Janeiro, o MIS se prepara para deixar o prédio onde foi inaugurado, na Praça XV, construído originalmente para a Exposição do Centenário da Independência do Brasil, em 1922. Desde sua fundação, o acervo não parou de crescer. O Museu tem hoje 30 coleções e uma quantidade expressiva de documentos: discos, fitas, fotografias, partituras, cartas e objetos relacionados à memória de nossa cultura. No entanto, a coleção mais procurada pelos pesquisadores e pelo público em geral é a de Depoimentos para a Posteridade, um acervo produzido pelo próprio Museu, a partir de 1966. Trata-se de um programa de história oral, com coleta de depoimentos de vultos marcantes de nossa cultura. Quando falamos de cultura produzida no Rio de Janeiro, o samba, naturalmente, não pode ser posto de lado. Ele ocupa um importante papel na identidade de nosso povo. Não por acaso, o primeiro depoimento gravado pelo MIS foi o de um sambista,

João da Baiana. Ao dele se seguiram os de Donga, Heitor dos Prazeres, Ismael Silva e tantos outros bambas. Graças a esse precioso material, é possível reconstituir uma trajetória da qual resta poucos traços. Mais adiante, vieram depoimentos de Bicho Novo, Natal da Portela, Cartola, Carlos Cachaça, Aniceto do Império, Nelson Andrade, Paulo Brazão, enfim, da geração que consolidou o samba como expressão de nossa cultura. Trata-se, portanto, de uma fonte de pesquisa indispensável para quem se debruça sobre a história das escolas de samba. Mas é também uma audição deliciosa, com toda a graça e a verve dessas pessoas iluminadas a quem tanto devemos. É importante ainda lembrar que a maior contribuição do MIS para a memória do samba foi, sem dúvida, a iniciativa de registrar em disco LP os sambas de enredo das principais escolas de samba do Rio de Janeiro. Como não foi lançado comercialmente, As dez grandes escolas de samba cantam para a posteridade seus sambas-enredo de 1968 – Grupo 1 (MIS 003) é hoje uma raridade. Este disco foi um marco importante porque é a partir daí que a indústria fonográfica começa a apostar suas fichas no desfile das escolas de samba. Foi o pioneirismo dessa ação que despertou o interesse das gravadoras comerciais para este produto, a ponto de, no ano de 1970, termos vários discos de sambas de enredo de diferentes selos. O principal deles, da gravadora Caravelle, resulta de um contrato com a Associação das Escolas de Samba do Estado da Guanabara (AESEG) e tem caráter oficial. Quando uma instituição pública se coloca a serviço da cultura popular, conferindo a ela o destaque que merece, os resultados não se fazem esperar. Por isso, em sua nova etapa de vida, o MIS terá espaço privilegiado para o samba e o carnaval, mostrando ao mundo e a nós mesmos toda a riqueza e a qualidade da produção de nossa gente.

Raquel Valença é jornalista, pesquisadora de carnaval. colunista no site SRZD-CarRevista naval. Ocupa, a vice-presidência do Museu Plumas & Paetês Cultural da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. 2016

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| Epitáfio do Samba |

UM CARNAVAL NAS ESTRELAS

IMOS O GARANT PREÇO MELHOR OS E COBRIM ER QUALQU A T OFER .

HOMENAGEM AOS SAMBISTAS QUE NOS DEIXARAM EM 2015 TIA DODÔ Maria das Dores Alves nos deixou em 06 de janeiro de 2015, com quadro de desnutrição e desidratação, três dias após completar 95 anos. Natural de Barra Mansa, a Tia Dodô, primeira porta-bandeira dos desfiles oficiais da Portela, iniciou sua trajetória na agremiação aos 14 anos, contribuindo para o primeiro título da azul e branca, e foi a responsável pelo pavilhão da escola de 1935 até a década de 1950. Moradora do Morro da Providência, nunca deixou de estar com sua escola na avenida. Ocupou o posto de rainha de bateria, em 2004, e há anos era a responsável pela organização da Ala das Damas. Por toda essa importante trajetória, recebeu do Plumas & Paetês Cultural, em 2010, o prêmio “Eu Sou o Samba”. Tia Dodô era católica fervorosa, tanto que era a responsável por cuidar das cerimônias religiosas da agremiação. Não à toa, foi inaugurada, em sua homenagem, na quadra da Portela, em abril passado, na ocasião dos 92 anos da escola, a Capela Nossa Senhora da Conceição e São Sebastião, padroeiros da agremiação. O local pode acomodar até 70 pessoas e fica aberto diariamente em horário comercial.

LUIZITO José Luís Couto Pereira da Silva, o cantor Luizito, faleceu na madrugada do último dia 06 de setembro, aos 61 anos, em decorrência de um infarto, enquanto dormia, após mais um sábado de ensaios na Estação Primeira de Mangueira. Diabético, o intérprete oficial da verde rosa, sucessor de Jamelão, já havia passada mal por problemas do coração, durante um ensaio técnico em janeiro de 2007, e quase ficou de fora do seu desfile de estréia no cargo. Com trajetória iniciada em rodas de samba, estreou na Caprichosos de Pilares em 1983. Em 1994 já assumia o microfone principal, após a saída de Carlinhos de Pilares. Ficou até 1997, quando defendeu um samba nas disputas da Mangueira, o que o levou a ser contratado para o carro de som verde e rosa em 1998, estreando no desfile campeão. Para 2016, a escola fez uma homenagem na gravação do CD, reproduzindo na faixa o seu eterno grito de guerra: “Chegou a garra! Chegou a emoção! Chegou a escola de samba mais querida do planeta! Chegou a estação primeira de Mangueira, vamos simbora meu povo!”

visse na Passarela do Samba, porque ele não tinha acesso ao Theatro Municipal. Então gostaria de agradecer a esse público desfilando numa escola de samba”. A única escolhida foi a Mocidade, onde desfilou quase 30 anos, estando presente no abre-alas tanto no primeiro título da escola, em 1979, quanto no último, em 1996. Em 1995 foi enredo da Foliões de Botafogo, pelo Grupo B, e em 2013 foi homenageada na festa de destaques da sua Mocidade, por todos os anos de dedicação à agremiação.

para disputar com a sua escola. Logo depois retornou e, desde 2013 fazia parte da Velha Guarda Show, convidado por Monarco, para, segundo ele, reparar uma injustiça histórica da escola. Conhecido pela elegância com que se vestia, adquiriu o nome artístico no número da casa onde morava, para diferenciar de outros dois sambistas portelenses de mesmo nome. Mesmo sofrendo com a catarata em ambos os olhos, nunca deixou de frequentar a quadra e, inclusive, disputou samba em uma das parcerias da Portela em 2016.

BALA João Nicolau Carneiro Firmo, o compositor Bala, é o maior campeão de sambas-enredo da história do Salgueiro. O poeta, falecido no último dia 18 de outubro, teve 11 composições embalando os desfiles da Academia do Samba. Dentre eles, dois dos grandes clássicos do gênero e que deram vitória a vermelho e branca do Andaraí: Bahia de Todos os Deuses, de 1969, e Peguei um Ita no Norte, de 1993.

LEONEL A véspera de natal de 2015 marcou o falecimento do compositor 13 vezes campeão na Vila Isabel, Leonel. Izainaldo Vieira Leonel, de 54 anos, foi assassinado na porta de sua residência, em Vila Isabel. Um dos autores do samba da azul e branca de 2016, o poeta também assina os sambas de 2003, 2004 e 2006 do Salgueiro. Além disso, integrava a comissão de carnaval da Vila para 2016, atuando tanto no barracão quanto no carro de som da escola.

VICENTE RODRIGUES Prestes a completar 61 anos, faleceu no dia 15 de dezembro, vítima de um infarto e um AVC, o fotógrafo Vicente Rodrigues. Conhecido como “o mago das lentes”, sofreu um acidente numa plataforma de trem no Rio de Janeiro, em 2000, que o deixou sem as duas pernas. Com a dificuldade de conseguir emprego, teve as portas abertas na Grande Rio, onde atuava desde 2002, participando da cobertura de grandes eventos, incluindo os desfiles da Marquês de Sapucaí. Em sua homenagem, a agremiação interrompeu o ensaio de comunidade ocorrido no dia de seu falecimento para fazer um minuto de silêncio, dedicando a ele o treino daquela terça-feira.

QUADRADINHA

Tudo que você precisa para bijuterias e fantasias.

Uma das ritmistas mais antigas do Salgueiro, a Quadradinha, perdeu a sua luta contra o cancer em setembro passado. Batizada como Luciane Galvão, a sambista fazia parte da ala de tamborins da bateria Furiosa há 28 anos. Para homenagea-la, seus companheiros de ala desfilaram no ensaio técnico, em janeiro, com os instrumentos personalizados com sua foto e dizeres de carinho. Além disso, mestre Marcão não substituiu a ritmista e vai desfilar no dia oficial com um componente a menos.

DÁDI KIKO ALVES O produtor de carnaval e colunista do jornal Meia Hora, Kiko Alves, faleceu em 25 de abril de 2015, aos 49 anos, vítima de pneumonia. Nascido no Ceará e batizado como Francisco José Alves, começou no carnaval aos 15 anos, desfilando pela Mocidade Independente, sua escola do coração. Famoso também por ser descobridor de musas, conduziu para a avenida beldades como Viviane Araújo, Nani Venâncio, Renata Frisson e a mestre de cerimônias do Plumas & Paetês Cultural, Thatiana Pagung.

MARLENE PAIVA WADIR 59

Considerada a primeira dama do carnaval brasileiro, Marlene Paiva faleceu em 25 de janeiro de 2015, aos 80 anos. A eterna destaque da Mocidade Independente teve sua época de ouro nas décadas de 60 e 70, nos bailes de gala do Theatro Municipal, onde suas fantasias de luxo eram sempre premiadas. Até 1973, já havia ganhado mais de dez títulos e um hours concours. Os prêmios costumava reverter para instituições de caridade.

O mais antigo membro da velha guarda da Portela, compositor vitorioso em 5 disputas de samba, Wadir 59 faleceu em 25 de novembro último, de insuficiência respiratória. Membro da azul e branca de Madureira desde os anos 1940, ingressou na ala de compositores na década seguinte. Também foi diretor de harmonia da agremiação, considerado um dos melhores da história do carnaval.

Logo após o fim dos concursos do Municipal, deu uma entrevista dizendo que “queria que o povo me

Nos anos 80, se afastou da escola e foi para a Unidos da Tijuca, mas nunca aceitou escrever samba

Presidente da União do Parque Curicica, Wagner Raphael de Souza, foi assassinado, em 06 de junho, aos 51 anos. Um dos fundadores da agremiação, Dádi, como era conhecido, exercia a função de diretor social, assumiu a presidência da escola em março passado e faria o seu primeiro carnaval em 2016.

EDMILTON DI BEM Mais uma voz se calou em 2015. O intérprete Edmilton Di Bem faleceu em 14 de maio, vítima de enfisema pulmonar. O cantor, que estreou em 1994, na Tradição, passou pela Estácio, Alegria da Zona Sul e Unidos de Lucas, escola que defendeu ano passado.

ALBANO PAIVA PINTO Após passar mal na quadra da escola, durante um ensaio em agosto do ano passado, faleceu, aos 50 anos, Albano Paiva Pinto, que há 10 anos era passista da Unidos da Tijuca. Ele também já havia atuado na mesma função no Império da Tijuca.

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