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REVISTA Revista Plumas & Paetês Cultural - Ano VI - nº 01 - abril | 2015

Prêmio

NESTA EDIÇÃO Entrevistacom ElzaSoares 10 ANOS DE CIDADE DO SAMBA UM OLHAR SOBRE O MUSEU DO SAMBA


| Abre-Alas |

S

ou Rio, meu Rio, nosso Rio, cidade onde a alegria é a sua maior vocação. Múltipla, irreverente e encantadora, admirada pelo mundo. Seu estado de espírito nos ensina todos os dias a amá-la e respeitá-la, e, assim, a ter esperanças mesmo quando o momento não é o mais propício, pois ser carioca é saber se reinventar, ter a simpatia e o sorriso como a nossa marca.

E foi convivendo com as adversidades que esse povo criativo e bronzeado mostrou seu valor, fez da rua o seu maior palco, realizando a maior festa popular do mundo, unindo a espontaneidade da dança da mulata assanhada, ao canto do malando que fala em nome daquela que, na passarela, é a porta-estandarte. Neste 2015, em que a cidade maravilhosa completa seus 450 anos, e o nosso projeto 10 anos, temos a honra de homenagear a carioca Elza Soares. Nascida de família humilde, encontrou na voz, o seu grande talento, o trunfo para sobreviver e vencer na vida, mostrando ao mundo o potencial e a identidade do artista brasileiro. E, assim, os trabalhadores do universo carnavalesco não poderiam ter melhor referência junto ao prêmio que busca reconhecimento, valorização e oportunidades, temas sempre defendidos por esta nossa estrela, desde a sua iniciação artística. Parafraseando os sucessos da nossa homenageada, o Plumas & Paetês Cultural chega à sua 11ª edição, louvando todo o time de profissionais do principal produto cultural do Brasil, que “Tem que Rebolar” para se superar ano após ano, que enfrenta inúmeros desafios no seu dia a dia, “Mas que Nada” o faz perder a esperança de um futuro melhor. E é por isso que nos orgulhamos em prestigiar e valorizar os trabalhadores que contribuem para esses resultados, pois, como a nossa homenageada canta, “levantam, sacodem a poeira e dão a volta por cima”.

José Antônio Rodrigues Filho Gestor do Prêmio Plumas & Paetês Cultural


| Expediente |

REVISTA Revista Plumas & Paetês Cultural - Ano VI - nº 01 - abril | 2015

Prêmio

Revista Plumas & Paetês Cultural 6ª Edição - abril 2015 Tiragem: 20.000 exemplares Circulação Gratuita - Venda proibida www.plumasepaetescultural.com.br

PRODUÇÃO: Diretor Executivo: José Antônio Rodrigues Diretor de Patrimônio: Gustavo Luiz Coordenador Administrativo: Anderson Ferreira Jornalista Responsável: Tiago Ribeiro (REG. 4412/RJ) REDAÇÃO: Editor: Tiago Ribeiro Produtor e Projetista Gráfico: Levi Cintra Revisora: Lilia Gutman Textos: Antonio Pedro Figueira de Mello, Carolina Grimião, Déo Pessoa, Edimar Silva, Fábio Fabato, Giovane Ramos, Giselle Borges, Gustavo Melo, Henrique Nascimento, Jorge Castanheira, José Antônio Rodrigues, José Maurício Tavares, Leandro Alessandro, Luana Dias, Luiz Antônio Simas, Luiz Carlos Almeida de Araújo, Luiz Carlos Prestes Filho, Madson Oliveira, Marcos Monteiro, Nilcemar Nogueira, Renata Nolasco e Tiago Ribeiro. Fotografias: Acervo Riotur, Antônio Jorge, Bruno Mello, Daniel Targueta, Denis Raphael, Edmar Moreira, Guilherme Joran, Marcelo O’Reilly, Marcos Mello, Maurício Rodrigues, Nelson Mello, Rogério Neves e Val Dyoliveira. Foto de Capa: Marcos Mello Relações Públicas: Glória Salomão Assessor de Imprensa: Jean Cláudio (Primeira Linha) Impressão: GEC Gráfica e Editora Cruzado LTDA. Rua Porema, 181 - Ramos, Rio de Janeiro. CNPJ 31.038.276/0001-92 Agradecimentos: Adriano Cardoso, Américo da Costa Borges, Célia Andrade, Déo Pessoa, Elmo José dos Santos, Geraldo Lima, Janira Belmiro, Jorge Castanheira, Juliano Almeida, Leninha Motta, Luiz Gustavo Mostof, Maickell Abreu, Marcelo Veríssimo, Mariana Sacramento, Miguel Ângelo, Miro Ribeiro, Nayra Cezari, Paulo Coutinho, Paulo Ribeiro, Renato Thor e Thatiana Pagung. Todos os direitos reservados, Proibida a reprodução sem autorização prévia e escrita. O conteúdo dos anúncios é de responsabilidade dos respectivos anunciantes. Todas as informações e opiniões são de responsabilidade dos respectivos autores, não refletindo a opinião do Plumas & Paetês Cultural.

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| Sumário | NESTA EDIÇÃO Entrevistacom ElzaSoares 10 ANOS DE CIDADE DO SAMBA UM OLHAR SOBRE O MUSEU DO SAMBA

Também nesta edição PLUMAS EM NÚM3R05 - página 11 CATEGORIAS PREMIADAS 2015 - página 12 A VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS - página 16

Nossa Capa A divina e gloriosa Elza Soares, fotografada por Marcos Mello, maquiada e produzida por Wesley Pachu. Com edição de José Antônio e Tiago Ribeiro, designer da capa Levi Cintra e tratamento de imagem Marcos Mello.

BASTIDORES - página 18 10 ANOS DA FÁBRICA DE NOTAS 10 - página 20 AO MESTRE COM CARINHO - página22 MUSEU OU ESPELHO - página 24 O ROTEIRISTA DOS DESFILES - página 26 UMA JANELA DO CARNAVAL CARIOCA PARA A EUROPA - página 28 A PRODUÇÃO NA FÁBRICA DE SONHOS - página 30 A GENIALIDADE DA SIMPLICIDADE - página 32 DO PLANETA FOME À VOZ DO MILÊNIO - página 34 NEGRA A CORES - página 38 ELZA SOARES E MESTRE ANDRÉ UNIDOS POR UM “SALVE A MOCIDADE” - página 42 A VOZ DE UMA DEUSA NA BAHIA DE TODOS OS SONHOS - página 44 ELZA SOARES NA ECONOMIA DA MÚSICA - página 46 MULHERES NEGRAS EM CENA - página 48 A FORÇA FEMININA DO SAMBA - página 50 MAMA ÁFRICA OU NEGRITUDE CADÊ VOCÊ - página 52 O LADO NEGRO DO FUTEBOL - página 54 GALERIA 2014 - página 58

Foto: Nelson Mello

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PrêmioPlumas&PaetêsCultural2015

| Mensagem |

Homenagem aos artíces e prossionais do carnaval.

CATEGORIAS

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ada coração carioca, seja ele nascido aqui ou o que tenha escolhido o Rio como seu lugar, bate o ano inteiro na contagem regressiva pela chegada do período mais animado do ano. Em 2015, ao comemorar 450 anos de fundação, a expectativa e a animação foram ainda maiores. Mais de 970 mil turistas viveram a intensa experiência de brincar o carnaval carioca. Blocos, bailes, ruas, praças e coretos foram tomados pelo clima de festa e ocupados pelos foliões em toda a cidade. A Passarela do Samba, palco principal do maior espetáculo da Terra, é a grande responsável por consolidar nosso carnaval como a maior festa popular do planeta. O local se apresenta ainda mais confortável desde sua ampliação, em 2012, e o formato de quatro noites de desfiles é um sucesso consolidado.

Antônio Pedro Figueira de Mello, Secretário de Turismo da Cidade do Rio de Janeiro

O Carnaval faz parte da identidade do Rio de Janeiro e é um motivo de orgulho para o povo carioca. Igualmente importantes são as pessoas que trabalham para que este grande show se transforme em realidade na avenida. Pessoas de formações mais diversas trabalham duro nos pequenos detalhes enquanto esperam o grande momento chegar. Carnavalescos, bailarinos, costureiras, carpinteiros, diretores de ala, encarregados de empurrar os carros alegóricos pela Passarela do Samba contam os minutos para entrar na avenida com o pé direito e o samba da escola na ponta da língua, na certeza que seu empenho é parte da força motriz do carnaval carioca.

Glória a quem trabalha o ano inteiro Em mutirão São escultores, são pintores, bordadeiras São carpinteiros, vidraceiros, costureiras Figurinista, desenhista e artesão Gente empenhada em construir a ilusão * trecho de «Pra tudo se acabar na quarta-feira», de Martinho da Vila

A escolha de Elza Soares como grande homenageada desta edição do Prêmio Plumas & Paetês Cultural é muito simbólica. Dona de uma voz única e inconfundível, Elza é a verdadeira definição do samba. Seja pelo timbre de voz que é puro suingue, seja pela força descomunal com que sempre enfrentou e superou todas as adversidades. Os trabalhadores do universo carnavalesco não poderiam ter melhor referência em um momento de confraternização que o exemplo de uma artista que sempre teve a coragem de ousar e inovar – uma das raras vozes femininas a se juntar aos intérpretes na avenida, mostrando que o lugar da mulher é onde ela quiser.

Aderecista Artesão Artista Plástico Carnavalesco Carpinteiro Colunista |Jornalista Compositor Coreógrafo Costureira Desenhista Destaque de Luxo Masculino Destaque de Luxo Feminino Escultor Ferreiro Figurinista Gestor de Ateliê Iluminador Inovação Locutor Maquiador Artístico Pesquisador Pintor Fotógrafo Personalidade do Carnaval Radialista Gestor de Mídia Melhor Bloco de Carnaval Eu Sou o Samba

No Prêmio Plumas & Paetês Cultural, é a hora de esses profissionais brilharem. Vida longa e sucesso aos criativos artistas do nosso carnaval!

Realização:

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Patrocinadores Ociais do Prêmio Plumas & Paetês 2015 Revista Plumas & Paetês Cultural 2015

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| Mensagem |

O

reconhecimento aos artistas anônimos do Carnaval é tão importante para o desenvolvimento de nossa festa quanto a criatividade exibida todos os anos nas apresentações de nossas Escolas de Samba, no Sambódromo.

Por isso, a entrega do Prêmio Plumas & Paetês Cultural se insere no desenvolvimento e valorização dos desfiles das Escolas de Samba ao aproximar as pessoas, estreitar laços profissionais, homenagear os artistas e, principalmente, ampliar o potencial da imensa cadeia produtiva do Carnaval.

Jorge Castanheira, Presidente da LIESA

O Plumas fortalece o aspecto cultural da nossa festa ao escolher personalidades de nossa alma brasileira como símbolo e imagem de seu troféu e do show de abertura, a cada nova edição. Nada mais adequado do que, neste ano em que a cidade do Rio de Janeiro festeja os 450 anos de sua fundação, o Plumas & Paetês Cultural ter como grande dama da festividade e homenageada a cantora Elza Soares. Aos premiados, antes de mais nada, nossos parabéns e o nosso muito obrigado pelo carinho e dedicação empenhados na elaboração dos desfiles. E que recebam, com essa premiação, bastante inspiração para seguir em frente e superar os novos desafios que estão por vir. Parabéns a todos!

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Revista Plumas & Paetês Cultural 2015

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PLUMAS EM

| Mensagem | Prêmio

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público que acompanha os desfiles na Marquês de Sapucaí ou pela televisão sempre se encanta com apresentações surpreendentes, criativas e de muita riqueza cultural. Para que isso seja possível, no entanto, as escolas de samba passam 365 dias do ano dedicadas para que o sonho vire realidade.

Com a Série A cada vez mais consolidada no calendário da folia carioca, com desfiles na sexta-feira e no sábado de Carnaval, no Sambódromo, a LIERJ também ganhou em 2015 o desafio de organizar as exibições da Estrada Intendente Magalhães, com as séries B, C e D, em parceria com a Riotur. Com isso, foi possível ampliar ainda mais o leque de observações, chegando à conclusão de que a maior festa popular do planeta está repleta de talentosos profissionais nas mais diversas funções e grupos.

Deo Pessoa, Presidente da LIERJ

Para que cada agremiação possa mostrar o enredo escolhido, é necessária uma mobilização de milhares de pessoas, desde o presidente, que monta a equipe, até o componente, que demonstra todo o amor à escola doando o tempo para realizar ensaios de canto todas as semanas. Tudo com o objetivo de apresentar o mais belo desfile na Sapucaí. A construção de um desfile vitorioso começa na escolha do tema, passando pela sinopse, elaborada pelo carnavalesco e pelo pesquisador, e pelo samba-enredo, escolhido a partir da mobilização dos poetas da ala de compositores. Depois, entram em cena as genialidades de desenhistas, figurinistas, pintores, iluminadores, artesãos, ferreiros, escultores, aderecistas, costureiras, coreógrafos e tantas outras pessoas de talento. Sendo assim, com um conjunto forte de profissionais dedicados, é possível garantir um desempenho acima da média. Parabéns aos guerreiros e guerreiras que há tantos anos abrilhantam a cultura popular brasileira! E que venham, nos próximos anos, novos talentos para somar ainda mais conhecimento e ajudar na evolução constante do Carnaval.

2015.450anosdoRio,30anosdeLIESA,10 anosdeCidadedoSamba,10anosdo Plumas&PaetêsCultural.Emumanode váriosnúmerosimportantes,conheçaos recordeseotamanhodosucessodoPlumas eseuspremiados. Foram474prêmiosdadosa645premiados em11edições.540homense104mulheres.

TOP 5 DOS PROFISSIONAIS MAIS VITORIOSOS: 1° Lugar: Alex de Souza com 8 prêmios 2° Lugar: Fábio Ricardo com 7 prêmios 3° Lugar: Jack Vasconcelos e Rossy Amoedo com 6 prêmios cada 5° Lugar: Carlos Reis, Priscilla Mota e Rodrigo Negri com 5 prêmios cada

CURIOSIDADES

- 63 escolas de samba já tiveram profissionais premiados no Plumas. - Em 2015, começamos a premiar os profissionais das escolas de samba de Vitória/ES. Antes desses, de fora do Rio de Janeiro, apenas a ARUC (de Brasília) havia sido premiada. - Os compositores do Império da Tijuca são os maiores premiados consecutivos do Plumas. Os poetas tijucanos ganham a respectiva categoria há 3 anos. - Já Leonardo Leonel e Leandro Santos são os maiores premiados consecutivos por trabalhos em escolas diferentes. Estes gestores do ateliê Aquarela Carioca ganharam pela confecção das melhores fantasias de casais de mestre-sala e porta-bandeira da Série A há 4 anos. Vale lembrar que eles vencem a categoria desde que ela foi criada, sendo os únicos premiados unânimes do prêmio. - Dois dos nossos premiados são os mais polivalentes, tendo ganhado em categorias bem diferentes: Ricardo Denis como Melhor Maquiador Artístico em 2013 e Artesão em Espuma em 2014, ambas pelo Grupo Especial; e Thiago Martins como Melhor Destaque Performático do Grupo Especial em 2012, Aderecista do Especial 2014 e Aderecista do Acesso A 2010. - Três de nossos multipremiados estrearão ou retornarão ao posto de carnavalesco do Grupo Especial, em 2016. São eles: Jack Vasconcelos (com 6 troféus) que foi para a Ilha do Governador.

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NÚM3R05

TOP 10 DAS ESCOLAS COM MAIS PROFISSIONAIS PREMIADOS: 1° Lugar: Beija-Flor com 41 prêmios 2° Lugar: Unidos de Padre Miguel com 26 prêmios 3° Lugar: Salgueiro e Unidos da Tijuca com 23 prêmios cada 5° Lugar: Grande Rio e Portela com 22 prêmios cada 7° Lugar: Mocidade e Império da Tijuca com 20 prêmios cada 9° Lugar: Estácio de Sá e Rocinha com 19 prêmios cada


| Categorias Premiadas 2015 |

GRUPO ESPECIAL (LIESA)

Aderecista:

Aderecista: Thiago Vinicius Medeiros,

Carnavalesco:

Cristiano Bara, Rodrigo Pacheco, Rogério Madruga, Túlio Neves, Márcia Medeiros e GESTOR DE ATELIER Dionísio Babu (Beija-Flor) Artesão: Cleison (Portela) Escultor: Rossy Amoedo (Portela) Artista Plástica: Andreia Vieira (Mocidade) Carnavalesco: Rosa Magalhaes (São Clemente) Carpinteiro: Juraci Alves (Mocidade) Compositor: Noca da Portela, Celso Lopes, Charlles André, Vinicius Ferreira e Xandy Azevedo (Portela) Coreógrafo: Priscila Motta e Rodrigo Negri (Acadêmicos do Grande Rio) FABIOLA ABRAHÃO Costureira: Juciara Basílio da Silva (Unidos da Tijuca) Gestor de Ateliê: Desenhista: Gabriel Haddad e Monclair Edmilson Lima (Fantasia do 1º Casal de Mestre- Sala e Porta-Bandeira da Beija-Flor) Filho (Portela) Iluminador: Mário Sérgio (Mocidade) Destaque de Luxo Masculino: Zezito Ávila (Beija-Flor) Maquiador Artístico: Jorge Abreu (União da Ilha) Destaque de Luxo Feminino: Fabiola Abrahão David (Beija-Flor) Pesquisador: Rosa Magalhaes (São Clemente) Ferreiro: Alan Duque da Silva (Mocidade) Pintor: Kennedy Prata (Beija-Flor)

Figurinista:

Annik Salmon e Mauro Quintaes (Unidos da Tijuca)

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GRUPO SÉRIE A (LIERJ) Ronny Morays (Unidos de Padre Miguel)

JACK VASCONCELOS

Edson Pereira (Unidos de Padre Miguel) Compositor: Márcio André, Bola, Dudu, Marcão Meu Rei, Alexandre Alegria e Gallo (Império da Tijuca)

Coreógrafo:

Junior Scapin (Paraíso do Tuiuti)

Costureira:

Meire Ely (Unidos de Padre Miguel)

Desenhista:

Jack Vasconcelos (Paraíso do Tuiuti)

Destaque de Luxo:

Sandra Farias (Império da Tijuca)

Figurinista:

PRISCILA MOTTA E RODRIGO NEGRI

EDUARDO ALVES

Leandro Vieira (Caprichosos de Pilares) Gestor de Ateliê: Leonardo Leonel e Leandro Santos (Ateliê Aquarela Carioca) pela fantasia do 1º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira do Paraíso do Tuiuti Iluminador: Paulinho da Luz (Paraíso do Tuiuti)

Maquiadora Artística:

PAULINHO DA LUZ

Ivete Dibo (Unidos de Padre Miguel) Pesquisador: Jack Vasconcelos (Paraíso doTuiuti)

Pintor Artístico:

Eduardo Alves (Paraíso do Tuiuti)

Revista Plumas & Paetês Cultural 2015

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PRÊMIOS ESPECIAIS

| Categorias Premiadas 2015 |

Locutor: Eugênio Leal (Rádio Tupi)

ACESSO C

ACESSO D

Carnavalesco:

Carnavalesco:

Carnavalesco: Wellington

Alex de Oliveira (Acadêmicos da Rocinha) Coreografo: André Lucio (Acadêmicos do Sossego) Compositor: Mag do Cavaco, Junior Miranda e Sérgio Pegador (Unidos do Jacarezinho) Pesquisador: Gabriel Haddad e Leonardo Bora (Acadêmicos do Sossego)

Luiz di Paulanis (Lins Impe- Silva (Coroado de Jacarepaguá) rial) Coreografo: Laura Agna- Coreografo: Carla Gonçalves (Coroado de da (Lins Imperial) Jacarepaguá) Compositor: André Junior, Manga, Diego Compositor: Claudinho Nascimento, Serginho Cas- Raiz, China, Niquinho, Pautro e George Wagner (Leão lo Velho e Luiz Sapatinho (Vizinha Faladeira) de Nova Iguaçu)

Pesquisador:

Pesquisador:

Oberdan Rodrigues da Silva Jean Rodrigues (Vizinha Faladeira) (Leão de Nova Iguaçu)

CLEBSON PRATES

AESM-RJ Carnavalesco:

Clebson Prates (Mangueira do Amanhã) Coreógrafo: Carlinhos do Salgueiro (Aprendizes do Salgueiro)

Pesquisador: CARLA GONÇALVES

Folia” (Rádio Manchete AM 760) Colunista e Jornalista: Marcelo Faria (Portal de Notícias Sambrasil) Fotógrafo: Diego Mendes Gestor de Mídia: Sidney Rezende (Site SRZD) Categoria “INOVAÇÃO”: Daniel Targueta pela série de reportagens “Meu Jeitinho” (Bom Dia Rio – TV Globo)

CARLINHOS DO SALGUEIRO

Foto: Rogério Neves

ACESSO B

Radialista: Jorge Luiz “Programa Manchete na

Pesquisador do grupo A (Vitória/ES): Marcos Roza (Independente de Boa Vista)

Carnavalesco do grupo A (Vitória/ES): Cid Carvalho (Mocidade Unida da Gloria)

Carnavalesco do grupo B (Vitória/ES): Paulo Balbino (Pega no Samba)

Pesquisador do grupo B (Vitória/ES):

DIEGO MENDES

Paulo Balbino (Pega no Samba)

Melhor Bloco de Carnaval:

Os Cata Latas do Grajaú (Produtor Ransey Ribeiro) Prêmio “Eu Sou o Samba”: Mestre Manoel Dionísio (Escola de Mestre-Sala e Porta-Bandeira), Selminha Sorriso e Claudinho (Porta-Bandeira e Mestre-Sala da Beija-Flor)

Prêmio “Personalidade do Carnaval Carioca”: Elza Soares

JORGE LUIZ

Arcindo José (Mangueira do Amanhã)

Talentos & Revelação:

Lincon Rodrigues e Taciana Couto (Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira da Pimpolhos da Grande Rio) COMPOSITORES LEÃO DE NOVA IGUAÇU

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ANDRÉ LUCIO

GABRIEL HADDAD E LEONARDO BORA

EUGÊNIO LEAL

CID CARVALHO

Revista Plumas & Paetês Cultural 2015

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| Gestão de Carnaval |

A VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS CONHEÇA OS DOIS VENCEDORES DO PLUMAS DEFINIDOS POR VOTO POPULAR POR TIAGO RIBEIRO

Foto: divulgação do bloco

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Foto: internet

urante oito anos, os premiados do Plumas & Paetês Cultural foram escolhidos exclusivamente por um júri interno. Isso mudou em 2013, quando começamos a utilizar a nossa página do Facebook para definir alguns dos vencedores. Em 2015, foram duas as categorias escolhidas pelos internautas, que mobilizaram torcidas organizadas, familiares dos concorrentes, milhares de sambistas famosos e anônimos. Foram elas: o Projeto Mais Inovador do Carnaval e o Melhor Bloco de Carnaval 2015. Os vencedores foram, respectivamente, a Série “Meu Jeitinho”, de Daniel Targueta, e Bloco Os Cata-Latas do Grajaú, produzido por Ransey Ribeiro. Quando o assunto é o Plumas de Melhor Bloco de Carnaval, a interatividade já está agregada. Esta foi a primeira e é a única categoria fixa do prêmio que sempre foi escolhida por voto popular. Foi esta premiação, inclusive, que inaugurou o conceito no Plumas. Depois de eleger o Mulheres de Chico (2013) e o Mulheres da Vila (2014), este ano os internautas, através de um recorde de interação da nossa página no Facebook (cerca de 30% dos nossos mais de 5000 seguidores votaram), definiram Os Cata-Latas do Grajaú como o vencedor, com 429 votos, ou 31,6%.

Foto: Daniel Targueta

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Fundado em 2011, pelo mobilizador social Hilário Pinheiro, que já realizava atividades junto à comunidade João Paulo Segundo, no Grajaú, O Cata-Latas segue os ideais do seu fundador, sempre trazendo como enredo temas de responsabilidade social, como: a importância da reciclagem, a preservação do meio ambiente, a paz entre as torcidas do futebol e até a conscientização do trânsito. Neste ano, o bloco, que desfila no domingo de carnaval (com concentração na Praça Nobel), apresentou o enredo “Os Cata-Latas Vem Duro Pensando no Sexo Seguro” e arrastou milhares de foliões pelas ruas do bairro. Antenada com os novos tempos, a agremiação conta até com um programa de sócios, para se sustentar. “Estamos muito felizes com o reconhecimento materializado pelo Plumas & Paetês Cultural, aumentando, desde já, nossa responsabilidade em promover um carnaval de rua cada vez mais democrático. Vamos honrá-lo com um grande desfile em 2016” declarou Ransey Ribeiro, o produtor do bloco, que leva o troféu pelo seu trabalho, e que ainda revela que, quando os componentes souberam da vitória no Plumas, ficaram todos emocionados “uma choradeira geral”. Já para o prêmio Plumas & Paetês Cultural de Projeto Mais Inovador do

Carnaval 2015, apontamos três opções: a série de reportagens de Daniel Targueta, para o Bom Dia Rio, chamada “Meu Jeitinho”, que mostrou o processo de criação das escolas da Série A; a websérie apresentada por Rafael Menezes, para o canal do YouTube Mais Carnaval, que visitou os barracões do Grupo Especial; e a coleção de livros “Família do Carnaval”, organizada pelo jornalista Fábio Fabato, que já lançou, pela editora Nova Terra, os títulos “As Primas Sapecas do Samba – Alegria, Crítica e Irreverência na Avenida”, “As Titias da Folia – O Brilho Maduro de Escolas de Samba de Alta Idade” e “As Três Irmãs – Como um Trio de Penetras Arrombou a Festa”, que conta a trajetória, respectivamente, das escolas União da Ilha, Caprichosos, São Clemente, Estácio de Sá, Unidos da Tijuca, Viradouro, Vila Isabel, Mocidade, Beija-Flor e Imperatriz. Com 60% dos 260 votos válidos, a campeã foi a opção número 1, premiando a série “Meu Jeitinho”.

de um estilo documental, os próprios profissionais das escolas (carnavalescos, ferreiros, pintores...) apresentaram a série, descrevendo o dia-a-dia de trabalho. “A ideia foi mostrar a realidade dessas escolas - os barracões precários, o reaproveitamento de materiais, a superação em driblar as adversidades - e não fazia sentido contar essas histórias sem a participação de quem efetivamente faz o carnaval acontecer” – aponta Daniel, que ainda declara: “Foi muito gratificante conhecer mais a fundo o processo de realização de um desfile. A Série A, de fato, é uma grande escola. Pra mim, com certeza foi uma lição. Uma não, várias”. Ao longo dos 15 episódios, um para cada agremiação, é possível acompanhar, inclusive, o trabalho de vários premiados do Plumas & Paetês Cultural, tais como o do pintor Ronaldo Pucchinelli, que possui três troféus nossos em sua estante, o do coreógrafo Márcio Moura, bicampeão do Plumas, e do carnavalesco Jack Vasconcelos, que em 2015 ganhou o nosso sexto prêmio. Sobre a vitória na categoria inovação, Targueta, que também foi comentarista do G1 na transmissão do desfile das campeãs, afirma: “O Plumas & Paetês Cultural é um dos prêmios que mais admiro, porque valoriza os profissionais que, de fato, fazem o espetáculo acontecer. E foi exatamente a proposta do ‘Jeitinho’: mostrar como esses artistas anônimos brilham pra colocar o carnaval na rua”. Para quem não acompanhou e ficou curioso para conferir as reportagens, os vídeos estão disponíveis para quem quiser assistir, na Globo Vídeos.

Estreando na cobertura carnavalesca em 2004, pela Globo.com, Daniel Targueta faz parte do núcleo de jornalismo de carnaval da TV Globo desde 2013. Para 2015, idealizou a série “Meu Jeitinho”, junto ao editor Paulo Sampaio, através de um bate-papo informal, onde o tema era a criatividade dos artistas da Série A para colocar o carnaval na rua. Através

Tiago Ribeiro é jornalista, pesquisaFoto: Daniel Targueta

Foto: Daniel Targueta

dor de carnaval e editor da revista do Prêmio Plumas & Paetês Cultural.

Revista Plumas & Paetês Cultural 2015

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NÚMEROS E ESPETÁCULOS ARTÍSTICOS IDEAIS PARA O SEU PROJETO Pelo segundo ano consecutivo, o Plumas & Paetês Cultural foi o responsável pela confecção das coroas dos Reis Momos, adulto e mirim. Em 2015, seguiram a temática dos 450 anos do Rio.

DIREÇÃO ARTÍSTICA: RUIDGLAN BARROS DIREÇÃO MUSICAL: EDIMAR SILVA Foto: Marcos Mello

| Bastidores |

Equipe da Cia. de Arte Plumas & Paetês Cultural, que se apresentou, pelo segundo ano seguido, no show de abertura do concurso Miss Universo Estado do Rio de Janeiro, na Cidade do Samba.

Assim como o carnaval não ocorre só em fevereiro, o

BASTIDORES DO ENSAIO DA FOTO DE CAPA DA REVISTA DO PLUMAS & PAETÊS CULTURAL 2015, NA CASA DA HOMENAGEADA, ELZA SOARES.

Plumas & Paetês Cultural não faz a festa só uma vez ao ano. A nossa Cia de Arte, que tradicionalmente abre todos os nossos eventos, possui espetáculos e

Viviane Araújo prestigia a equipe do Plumas & Paetês Cultural, no stand do prêmio, na feira Carnavália-Sambacom, realizada em 2014.

números artísticos prontos e sob encomenda, de temáticas livres ou Carnavalescas. Só no último ano, fizemos intervenções artísticas em grandes eventos como o “Miss Estado do Rio de Janeiro” e “Um Rio de Samba”. São cantores, atores, bailarinos, músicos, contra regras, produtores, diretores,

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Gustavo Mostof, diretor de operações Especiais da Riotur e seu assessor, Marcelo Veríssimo, com a Cia. de Arte Plumas & Paetês Cultural, responsável pelo elenco artístico do evento “Um Rio de Samba”, na Praça Tiradentes.

cenógrafos, figurinistas, maquiadores, aderecistas e toda uma gama de profissionais para executar o seu projeto artístico. É a Cia de Arte Plumas & Paetês Cultural levando os profissionais que valorizam a arte carnavalesca para abrilhantar o seu evento.

cia

de

arte PLUMAS&PAETÊSCULTURAL

(21) 2283-0827/ 98255-2920 plumasepaetescultural@gmail.com.br


| Gestão de Carnaval |

10 ANOS DA FÁBRICA DE NOTAS 10 CIDADE DO SAMBA COMEMORA UMA DÉCADA DE CULTURA POR GIOVANE RAMOS, HENRIQUE NASCIMENTO E RENATA NOLASCO

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e em 2014 comemoramos os 30 anos do sambódromo, em 2015 a festa é pelos 10 anos do feito definitivo para a profissionalização do carnaval: a Cidade do Samba. Reivindicação antiga dos sambistas, a fábrica de alegorias e fantasias do Grupo Especial veio para solucionar as condições insalubres vivenciadas pelos artistas da folia, que eram obrigados a construir a festa em locais inusitados como terrenos abandonados, galpões emprestados e até mesmo vãos sob pontes. Uma década para lembrar, comemorar e enxergar novos avanços.

Foto: Edmar Moreira

Nos dias 17 e 18 de setembro de 2005, as Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro receberam autorização da Prefeitura para ocupar seus novos centros de produção, em um total de 114 mil m², podendo, assim, dar início aos trabalhos para o carnaval de 2006. Em um dia que

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ficará marcado, para sempre, na memória dos sambistas, os presidentes das escolas deram-se as mãos iniciando um cortejo de alegorias que se enfileiraram até os galpões das Docas. Atualmente, a Cidade do Samba é uma das atrações turísticas do Rio de Janeiro, mostrando aos seus visitantes como é o processo de produção dos carros alegóricos e as fantasias para o carnaval. Além disso, o espaço também serve para juntar sambistas e amantes do carnaval com os eventos que são realizados no local, como a premiação do Plumas. Uma das pessoas que vive o dia a dia desta fábrica de sonhos é José Batista Jorge, 63 anos, bicampeão do Plumas & Paetês Cultural de Melhor Carpinteiro do Grupo Especial (2010 e 2014), que dedica há 40 anos seu talento e amor às escolas de samba do Rio de Janeiro, já tendo trabalhado em dezenas de agremiações. Castelinho, como é conhecido, iniciou suas atividades

no carnaval de rua com a montagem dos carros nos galpões da zona portuária, e sobre esse tempo revela: “Nos barracões antigos o problema era a chuva, os carros eram cobertos com plásticos para não estragar o nosso trabalho”. Com a construção da Cidade do Samba, José Batista, que afirma que termina a carpintaria de cada alegoria em cerca de duas semanas, enumera o que melhorou: “Há mais espaço e infraestrutura, tem máquinas para pegar peso, antes, era tudo com dificuldade nos barracões”. O radialista Miro Ribeiro, que apresenta a premiação do Plumas desde 2010, aponta o legado histórico desses dez anos da “fábrica da ilusão”: “As escolas de samba do Grupo Especial, com a construção da Cidade do Samba, ganharam um espaço para construir suas alegorias, guardar material, construir adereços, cantina para almoço dos trabalhadores, sala de reunião e toda infraestrutura de uma

empresa. Ali concentram-se ferreiros, aderecistas, escultores para dar desenvolvimento e forma ao carnaval, além de salas para abrigar presidência, sala de carnavalesco, administração e toda a estrutura necessária para um bom trabalho. Por outro lado, pagam um aluguel caro e ainda distante do local em que realizam o desfile e isso implica em risco à estrutura das alegorias que podem quebrar no percurso. O legado é o de se ter um lugar específico para fazer o carnaval e referência em termos culturais com reflexo para o turismo”. Mas nem só de boas lembranças é feita essa história. Em 7 de fevereiro de 2011, o carnaval viveu uma espécie de “segunda-feira de cinzas”. Por volta das 6h30 da manhã, um incêndio de grandes proporções atingiu quatro barracões, entre eles os da União da Ilha, Portela e Grande Rio, há menos de um mês para os desfiles. Como a festa é feita de materiais, na maioria inflamáveis, o espetáculo ficou comprometido, tanto que foi necessário modificar o regulamento, não rebaixando nenhuma escola. A instrutora de adereços Iris Volúsia, de 59 anos, presenciou de perto aquele drama e conta que todos trabalharam em dobro para colocar o carnaval na avenida, mas o que mais a emocionou foi desfilar na Portela: “Ver a comunidade com tanta garra foi contagiante”. Construída com 14 galpões, um para cada agremiação, a Cidade do Samba passou a ter dois barracões sobressalentes entre 2007 e 2008, quando o Grupo Especial voltou a contar com apenas 12 escolas. Desde então, um desses espaços se tornou o barracão da LIESA e o outro abrigou algumas

escolas do Acesso, como a Inocentes de Belford Roxo, em 2014 e o Império da Tijuca, em 2015. Foi uma forma tanto de amenizar os transtornos que essas escolas passaram com as desapropriações na Zona Portuária, para as obras do Porto Maravilha, como para ajudar a Série A, cujas agremiações ainda sofrem com barracões improvisados. As transformações sofridas nesta região da cidade, somadas às necessidades estruturais que as agremiações do Acesso passam, criaram o sonho da Cidade do Samba 2, anunciada pela prefeitura em 2011, mas que ainda não saiu do papel. Sobre o assunto, a aderecista Iris Volúsia afirma: ”tem que acontecer pra ontem, a melhoria e os benefícios são para todos os funcionários”. O jornalista Alexandre Araújo, apresentador do programa de rádio “Na Rodinha”, reforça este discurso, lembrando que as escolas sofrem com as mudanças de grupos a cada novo rebaixamento ou ascenção: ”Isso não pode ficar restrito ao Grupo Especial. É evidente que se você possui um espaço amplo, com mais segurança, melhor iluminação, sairá muito melhor do que a escola que estava nos antigos barracões. O Acesso merece um espaço que torne os desfiles ainda mais atraentes para o público, para os patrocinadores e para as emissoras de TV. Se mal compararmos com o futebol, é você colocar um time pra treinar no campo do Barcelona, com toda a infraestrutura que há no entorno, e colocar outra equipe pra treinar no campo do São Cristóvão”. Já Miro Ribeiro não demonstra tanta esperança sobre o futuro das obras: “O poder público está mais no discurso

do que na prática. Enquanto não entenderem que o carnaval é um só, seja Grupo Especial, Série A, da Associação ou das crianças, a maior festa popular do mundo a céu aberto ficará sem o devido respeito. A Cidade do Samba 2, 3 ou mais não passa de um grande sonho dentro da visão atual do poder público, responsável pela construção da obra”. Já Iris, aproveita o ensejo para sugerir melhorias para a Cidade do Samba já existente: “A gente larga a família para se dedicar ao carnaval. As pessoas que trabalham nos bastidores poderiam ter uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima daqui. Quando ocorre um acidente, temos que ir até ao Souza Aguiar”. Há também quem sugira que a Cidade do Samba já é pequena para o Grupo Especial, que o ideal seria passar a atual para o Acesso e construir uma maior ainda para a primeira divisão da folia, uma vez que as alegorias cresceram muito desde a sua inauguração. Um problema que pode ter diminuido com a redução do número máximo de alegorias, de 8 para 7, que entrou em vigor no regulamento deste ano. Talvez o que falte para a realização de todas estas melhorias sonhadas pelos sambistas é a conscientização, para o público em geral, de que o carnaval, ao invés do que se imagina, não é despesa, mas gera lucro para os cofres públicos, dezenas de vezes maior do que o valor injetado. Desta maneira, investir em carnaval deixará de ser uma medida impopular. Se esta fábrica dos sonhos, cujo conceito já foi copiado em várias outras cidades, já esta prestes a completar dez anos, sonhar com mais um pouco nem parece ilusão.

Giovane Ramos, Henrique Nascimento e Renata Nolasco são alunos do curso de jornalismo da UNISUAM. Em 2015, cobriram, pela primeira vez, os desfiles das escolas de samba, como estagiários da Rádio Fonte.

Revista Plumas & Paetês Cultural 2015

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AO MESTRE COM

CARINHO

UMA CELEBRAÇÃO AOS 60 ANOS DE CARREIRA DE MANOEL DIONÍSIO E OS 25 DA SUA ESCOLA DE MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA POR CAROLINA GRIMIÃO Foto: Marcelo O’Reilly

M

anoel Dionísio é respeitosamente chamado de Mestre e não à toa. Com mais de sessenta anos dedicados à arte da dança e prestes a completar também o sexagenário da sua vida dedicado ao carnaval, Dionísio é um dos maiores incentivadores dessa festa. Especificamente no seu trabalho de formar os casais de mestre-sala, porta-bandeira e porta-estandarte, de onde saíram – e continuam saindo - os grandes casais que hoje defendem os pavilhões das escolas de samba e também dos blocos do nosso carnaval. Manoel dos Santos Dionísio nasceu em 2 de agosto de 1936, em Além Paraíba, e, aos nove anos de idade, veio para o Rio de Janeiro trazido por sua mãe, Angélica Maria da Conceição, cantadora de Calango. Desde pequeno, sempre teve garra para superar os obstáculos, passando por várias profissões, dentre elas: engraxate, ator (teatro), militar, goleiro e bailarino (última profissão a se despontar). Vale a pena lembrar que graças a sua benevolência à dança, ou mais precisamente ao balé, ele se afastou da carreira militar tão sonhada por sua mãe.

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Bailarino desde 1955, Manoel Dionísio começou no carnaval junto com o Balé Folclórico Mercedes Batista, no Acadêmicos do Salgueiro, em 1959, e participou de muitos desfiles da escola: “Fomos campeões em 1963, com o enredo sobre Chica da Silva. Dançamos o minueto em plena Presidente Vargas. Foi inesquecível! Nós, discípulos de Mercedes Batista (1ª bailarina negra do Teatro Municipal), somos dançarinos afro-brasileiros com base clássica. E chegamos assim no Salgueiro, onde tive a felicidade de fazer alguns amigos e manter o carinho pela escola”, orgulha-se.

Foto: Arquivo Pessoal

| Eu sou o Samba |

Já com o espírito de empreendedorismo, resolveu embrenhar-se por projetos culturais em conjunto com outras figuras da comunidade do Morro Pavão Pavãozinho, onde passou a morar, criando, então, o Bloco “Império do Pavão”, que hoje é conhecido como a escola de samba “Alegria da Zona Sul”. Depois resolveu seguir a carreira de ator onde atuou no teatro na montagem histórica de Orfeu da Conceição, com Haroldo Costa, e, devido a sua escolha, fez pequenas participações, onde permaneceu 14 anos dançando na Europa. Ainda nas bases clássicas da dança, foi aluno de Edmundo Carijó e Raul Soares, mas, a essa altura, já estava envolvido de vez com o carnaval. Em 1965, foi premiado o melhor diretor social da Federação de Blocos pelo Jornal Diário de Notícias. E, em 1988, começou seu trabalho como assistente técnico de carnaval da Riotur e porta-voz desta com a Federação dos Blocos: “Organizávamos o carnaval da Rio Branco à Paquetá e mais os banhos de mar à fantasia”, recorda Dionísio. E lembra também que foi durante o seu trabalho com os blocos que ele percebeu a necessidade de formação de novos casais que defendessem os pavilhões das agremiações: “Percebi que toda porta-estandarte tem condições de ser porta-bandeira, mas o contrário é difícil, por causa da força física que a porta-estandarte tem que ter, devido ao estandarte ser de um lado só”, explica. Diante dessa necessidade de ter novos casais aptos a executarem a dança específica desse segmento nas escolas de samba e nos blocos, o Mestre resolveu criar o “Projeto Associação Cultural Educativa Escola de Mestre-sala, Porta-bandeira e Porta-estandarte Manoel Dionísio”, em 17 de julho de 1990. As aulas aconteciam na sede da Federação dos Blocos, mas, com o tempo, o espaço foi ficando pequeno, dado a demanda de novos alunos e também porque, quando chovia, as aulas tinham de ser suspensas, já que o espaço dos ensaios era descoberto. Sendo assim, levou a ideia da transferência de local para a Riotur, que apoiou e a prefeitura cedeu o espaço no Sambódromo, onde até hoje acontecem as aulas. O Plumas & Paetês Cultural, que este ano oferece o segundo troféu ao mestre (o primeiro, em 2007, como “Personalidade do Carnaval Carioca”. Em 2015, oferece o prêmio “Eu Sou o Samba”) se orgulha muito de também fazer parte dessa história. Desde 2013, através do projeto “A Dança do Samba”, firmamos uma parceria que começou em Brasília, onde o Plumas entra com a produção e gestão do curso e Manoel Dionísio, com seus instrutores, ensina as técnicas do casal de mestre-sala e porta-bandeira, as duas pessoas que mais carregam, diretamente, o peso das notas do carnaval.

Marcella Alves, dando seus primeiros passos na dança No ano de 2015, a escolinha completa 25 anos formando tantos casais que hoje brilham na Avenida e nas ruas da cidade. Entre os discípulos de Dionísio que desfilaram em 2015, sejam alunos ou instrutores que passaram pelo projeto estão: Marcella Alves (Salgueiro), Rute Alves (Unidos da Tijuca), Raphael (Mangueira), Rafaela Theodoro e Phlipe Lemos (Imperatriz Leopoldinense), Verônica e Daniel (Grande Rio), Marcinho (União da Ilha), Fabrício e Denadir (São Clemente), entre muitos outros, da Série A e Intendente Magalhães. Fabrício, que foi instrutor da escola por um bom tempo, falou sobre a importância do projeto: “Num primeiro momento é de manutenção e propagação da cultura do mestre-sala e porta-bandeira, já que escolas desse tipo ainda são poucas. Além disso, a formação e inserção de novos talentos nas escolas do Acesso e, posteriormente, nas do grupo principal”. Já Marcella Alves, que se tornou aluna de Dionísio aos 9 anos, frequentando as aulas por 4 anos, afirma: “a escolinha foi fundamental, não só para entender a essência, a história e a técnica da dança de um casal, como também para me orientar quanto à postura e à conduta de uma porta-bandeira”. Dionísio lembra que as vitórias são muito comemoradas em meio a várias dificuldades: “A escolinha completa 25 anos sem patrocínio, apenas com a ajuda de amigos e parceiros. Somos uma entidade filantrópica sem fins lucrativos”, alerta e completa com esperança: “Eu já dizia em 1990 e repito até hoje: eu vou fazer da dificuldade um trampolim para fazer um grande salto. Agradeço a Deus, à imprensa, às famílias que trouxeram suas crianças e a minha equipe maravilhosa especializada na dança do mestre-sala e da porta-bandeira, para que hoje tivéssemos dez núcleos (nove em outras capitais) da escolinha. Acho que nós estávamos certos”.

Carolina Grimião é jornalista, graduanda em História e foi assessora de imprensa de diversas agremiações e da escola de mestre-sala e porta-bandeira de Manoel Dionísio. Revista Plumas & Paetês Cultural 2015

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| Guia Cultural | Foto: Val Dyoliveira

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s museus são, antes de tudo, um lugar onde se guarda a história, os sonhos, os sentimentos que ganham forma a partir dos objetos que abrigam. Sons e imagens que ligam tempos e culturas. Enfim, um lugar de memória. Iniciado pela elite culta criando espaços para reforçar e transmitir seus valores, a ideia e a prática de museu e de patrimônio estão diretamente ligadas ao século XVIII, à Revolução Francesa e à construção simbólica de Estado nação, quando, a partir de monumentos ou fragmentos destes materiais, se criam marcos históricos que se prestam às narrativas da historiografia oficial.

POR NILCEMAR NOGUEIRA

MUSEU OU ESPELHO AFASTANDO-SE DO CONCEITO ELITISTA, O MUSEU DO SAMBA CARIOCA QUER SABER DE VOCÊ

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O conceito de museu, como uma instituição pública e aberta a visitantes, também é tributário da Revolução Francesa. No Brasil, a criação do primeiro museu teve início no século XIX, mas foi no final do século XX que se teve um “boom” na instalação desses espaços culturais, saltando de dez a doze museus no início do século XX, para mais de 3000 no final deste mesmo século. Porém, nenhum deles contemplava a história da escravidão e da cultura afro-brasileira. O final do século XX é também um momento em que emergem os movimentos sociais e, consequentemente, uma nova agenda: a cobrança pelo direito da memória dos excluídos. No novo milênio, o tema “museu”, passou a buscar uma nova funcionalidade e uso político. Não há dados ainda que possibilitem aferir o que um museu desperta ou não nos indivíduos, qual o processo de transformação que pode provocar na reelaboração dos sujeitos, mas já se pode constatar uma mudança

importante: a narrativa não é mais na terceira pessoa, mas, sim, na primeira, uma vez que surgem os museus comunitários, em que os atores sociais contam sua história, e estes se revelam melhores guardiões de seu patrimônio. Justamente neste contexto foi fundado o Centro Cultural Cartola, em 2001, que tem como meta a preservação do legado de um líder comunitário da Mangueira, Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola. Além disso, apresenta como desafio, desde o seu início, a redução de preconceito, promoção de cidadania, valorização e preservação da história do samba e de seus principais personagens, e ainda reforçar a identidade da comunidade onde está inserido. A principal motivação para sua criação veio da convivência com o constante esquecimento da história das principais referências do samba, e a perda de espaço de seus detentores. A difusão do samba enquanto gênero, e a espetacularização de sua forma de expressão, ao contrário do que se possa pensar, foi tirando a força de seus cultuadores. Esta aparente dominação, por sua vez, estabeleceu perdas fundamentais de uma cultura que atende a muitos interesses econômicos da cidade e dos produtores culturais, pessoas que, por desconhecimento, vão reduzindo valores dessa expressão cultural tão rica. Por isso, é preciso que se entenda o samba para além do lazer e do entretenimento, uma vez que ele se constitui em um modo de vida de muitas pessoas. Aí é onde entra a função do museu. Somos todos herdeiros de bens, transmitidos de forma voluntária e involuntária. Pensar memória e pa-

trimônio é pensar numa relação que une diferentes segmentos, é pensar na referência cultural de um povo. A memória pode servir para denunciar ou reforçar exclusão, como também pode promover inclusão, ou ainda ser usada como forma de poder e resistência. Partindo dessa premissa, o Centro Cultural Cartola implantou, em 2009, um centro de estudo e difusão do samba, e se reconheceu como um Museu de Memória Social. Esta ampliação de abrangência foi pensada como uma forma de garantir direitos básicos, além da preservação da memória do samba enquanto modo de expressão de um povo. De elitistas a comunitários, é preciso que se entenda agora o museu como personalizado, uma vez que, quando acionamos a memória diante de um objeto museal, acionamos sentimentos diferentes, pois, para além do objeto, está a vivência de cada sujeito, de cada ator social. Sem residir no passado, a memória é sempre uma construção do presente, e que se atualiza permanentemente. Mais do que visitantes, queremos que você venha fazer parte dessa nova construção do conteúdo, num espaço que encara a política de patrimônio da nossa sociedade. Venha fazer parte do Museu do Samba Carioca!

ACESSE: MUSEUDOSAMBA.ORG.BR

Nilcemar Nogueira é doutora em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestra em Bens Culturais e Projetos Sociais, formada pela Fundação Getúlio Vargas e fundadora do Centro Cultural Cartola que abriga o Museu do Samba Carioca.


| Biografia |

O ROTEIRISTA

DOS DESFILES

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o começo era apenas mais um folião quando por seus pais foi levado à quadra do Império Serrano. Começou a riscar o chão aos 6 anos dando a entender de que seria sim, mais um passista. Mas a vida quis que tomasse um novo rumo, ao tornar-se adulto resolveu estudar História. Já com olhos no futuro, viu que podia unir o útil ao agradável, a paixão que deixara para trás devido à decisão de tornar-se professor.

MARCOS ROZA, O PESQUISADOR DE ENREDOS DO CARNAVAL POR GISELLE BORGES

Foi se envolvendo cada dia mais. No começo, foi um pouco desacreditado, muitas portas fechadas à sua cara, mas hoje olha pra trás e vê que tudo valeu a pena. Ao ser convidado para trabalhar pela Unidos de Vila Isabel, em 1996, decorando carro alegórico, Marcos conheceu o carnavalesco Jorge Freitas. Nessa convivência, percebeu que não havia um profissional de formação trabalhando na pesquisa de enredo. Foi aí que ele, já bacharel no curso de História pela PUC-Rio, iniciou a carreira que hoje completa 18 anos, tornando-se especialista como pesquisador/historiador de enredo. Mas este caminho não foi fácil. Trabalhou com outros carnavalescos, mas só conseguiu chegar ao Grupo Especial quando Max Lopes o convidou a integrar a sua equipe de pesquisa, na Mangueira, no ano de 2002 e a escola sagrou-se campeã. Daí em diante, tudo mudou. E o visionário presidente da Liga Independente das Escolas de Samba, naquela época, Ailton Guimarães Jorge, o chamou para conversar dando credibilidade ao seu trabalho. Alguns anos depois, ao consolidar-se, virou um ícone, sendo procurado por todas as entidades que fazem o Carnaval, “Hoje, a imprensa transmite, comenta os livretos do Roteiro dos Desfiles, parece que acertamos na mosca. Mas a parceria maior veio do fiel compromisso às escolas de samba, às Ligas Independentes e à Riotur, onde podemos agregar e ampliar culturalmente este canal de comunicação entre os foliões, as instituições e os espetáculos das escolas”, comentou Roza. O Roteiro dos Desfiles, que já está em seu sexto ano – e que em 2015 contou com a parceria do Plumas & Paetês Cultural, na construção de textos – surgiu, como ideia, no final da década de 90, onde os olhos já eram voltados para a internet. Ainda meio que embrionário e, apesar dos sonoros “nãos” ouvidos, Marcos não se intimidou e foi em frente em busca do seu sonho de fazer um libreto para a ópera do carnaval. O RD, como é conhecido, conta com centenas de milhares de exemplares distribuídos nos dias de desfile, textos em dois idiomas, já foi premiado pelo Plumas na “Categoria Inovação”, em 2014. Mais que isso, tornou-se um projeto de utilidade pública, não só do Carnaval do Rio, mas de todos os foliões que vêm para assistir e encantar-se com o nosso espetáculo. Definitivamente, Marcos Roza faz história.

Giselle Borges é jornalista, gestora de carnaval, profes-

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sora de redação e pós graduada em comunicação de marketing e mídias sociais

Foto: Guilherme Joran

Revista Plumas & Paetês Cultural 2015

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| Biografia | douro e Unidos da Tijuca. Entre 2001 e 2003, assumiu o posto de Madrinha de Bateria da Acadêmicos da Rocinha, e, em 2004, ano em que a escola homenageou Joãosinho Trinta, veio como destaque de chão.

UMA JANELA DO CARNAVAL CARIOCA PARA A EUROPA Foto: Denis Raphael

POR LUANA DIAS

CONHEÇA A HISTÓRIA DA SAMBISTA ANDIARA MACEDO

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ma paixão fulminante que começou na infância: assim pode ser definida a relação de admiração, carinho e respeito entre Andiara Macedo e o Carnaval. Com apenas 6 anos de idade, a menina observava a avó Rosa bordar à mão as faixas de princesas e rainha de Carnaval. Os retalhos e as sobras do material eram aproveitados pela pequena assistente, que confeccionava suas próprias “faixinhas”, usadas pelas bonecas com que brincava. Mal sabia que, alguns anos mais tarde, já morando na “Cidade Maravilhosa”, ela se tornaria uma frequentadora do Sambódromo e “embaixadora” da beleza e da criatividade do carnaval carioca para o mundo.

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Andiara e seu grande amigo Edmilson Lima, um dos ganhadores do prêmio Plumas & Paetês 2015

Bailarina, formada em Comunicação Social, Andiara Macedo sempre se dedicou aos estudos, mas foi nos palcos onde mais aprendeu. Entre os espetáculos que participou, destacam-se a montagem do musical “Gota D’Água”, estrelado por Bibi Ferreira em 1981, e “Bodas de Sangue”, onde dividia a cena com Dulcina de Moraes. Mas foi um teste realizado em 1984 que mudaria toda sua vida: o carnavalesco Joãosinho Trinta estava buscando artistas para integrarem o show “Um Coração chamado Brasil”, e a desenvoltura e talento de Andiara, que já participava de shows com Haroldo Costa, chamaram a atenção. E foi assim que, durante quase 17 anos, ela se apresentou em turnês em países como a Inglaterra, Jordânia, Estados Unidos, Itália, França, Dinamarca e Congo, ao lado de mais de 80 artistas brasileiros. Paralelamente aos palcos, ela também foi convidada a desfilar como destaque nas escolas de samba Beija-Flor de Nilópolis, Imperatriz Leopoldinense, Unidos do Vira-

Andiara também participou dos célebres desfiles de trajes de luxo nos salões do Hotel Glória. Desde 1991, sua vida está dividida entre o Brasil e a França, país onde fundou a produtora “Oba Brasil”, onde assina a direção geral de shows e eventos artisticos. Bailarinos, dançarinos, acrobatas, capoeiristas e passistas integram o elenco 100% brasileiro. Já em 2004, juntou-se ao fotógrafo e webmaster Denis Marques, no projeto “Carnaval de Rio.FR”, um site todo em francês, que traz a cobertura das escolas de samba cariocas, através de vídeos, fotos e textos exclusivos, que revelam os detalhes e bastidores da grande festa. A partir de 2011, Andiara encarou um novo desafio ao dar início a um projeto de valorização dos estilistas e designers que criam os belos e luxuosos trajes exibidos na avenida por destaques, rainhas, musas e madrinhas. Edmilson Lima, Guilherme Alves, Saulo Henriques, Henrique Filho, Michel Marssola, Ari Mesquita, Fernando Magalhães, Leozinho & Pedrão, Bruna Bee, Sandro Carvalho, Fabio Nascimento, Guerreiro e Cavalero, Marcio Carvalho, Barcelay, Claudia Parizzi, Rogério Santini, Val de Sá, Luciano Costa, Fabio Rosas, Daniel Zarmano, são apenas alguns nomes da extensa lista de artistas “observados” por Andiara ao longo de sua incansável pesquisa. Sua ideia inicial: um filme documentário sobre os estilistas. Trazer para o grande público o nome desses artesãos, seguida da vontade de lançar um evento anual na França, no formato “prêmio”, com diversas parcerias, dentre elas a do Plumas & Paetês Cultural.

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“O carnaval é um evento breve, e a gente precisa pensar em como manter sob os holofotes a beleza do trabalho desenvolvido pelos estilistas e designers. Estes artistas são os nossos representantes da alta costura, são verdadeiros ‘Jean Paul Gaultier’ da Sapucaí. Precisamos apresentá-los ao mundo!” decreta. Com tanta experiência, dedicação e amor ao Carnaval na bagagem, alguém duvida que mais este sonho de Andiara se tornará realidade?

Luana Dias é jornalista e editora do Jornal Casa da Gente Niterói | Rio de Janeiro.

Revista Plumas & Paetês Cultural 2015

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Foto: Maurício Rodrigues

| Gestão de Carnaval |

A PRODUÇÃO NA FÁBRICA DE SONHOS O PRODUTOR CULTURAL COMO ENGRENAGEM NA INDÚSTRIA DO CARNAVAL POR LEANDRO ALESSANDRO

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carnaval do Rio de Janeiro repercute e é reconhecido nacional e internacionalmente por apresentar inúmeros aspectos que vão além do audiovisual e das características de festa. Aspectos esses que envolvem trabalhadores (especialistas ou não) que durante o ano inteiro se empenham assiduamente para os desfiles das escolas de samba. Agremiações que viraram empresas, um desfile que se tornou chamariz de investimento. Qual seria, agora, o próximo passo para esta profissionalização? Sejam nos grupos D, C, B, A e Especial - já que todas essas divisões são submetidas ao mesmo tipo de

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processo avaliativo - há diversos departamentos, tais como gestão administrativa; artístico (criação); cultural; social; produção (execução); direções de alas, harmonia e de carnaval. Em toda essa cadeia de produtividade no “universo do carnaval”, encontramos profissionais de diversas formações e até mesmo aqueles que não são portadores de diplomas, mas que, na prática, trazem experiências e conhecimentos essenciais para a concepção e a realização final que é o próprio desfile. Não seria a hora de proporcionarmos a união entre a academia e os autodidatas, ou informais, como quisermos chamar? Este casamento proporcionaria ainda mais excelentes parcerias e resultados favoráveis. Inúmeros destes profissionais, mesmo sem formação, já atuam direta ou indiretamente como produtores culturais, sendo críticos, formadores de opinião, pesquisadores de enredo, captadores de recursos, criadores e analistas de protótipos das fantasias e alegorias. Se voltarmos o olhar para o mercado globalizado, o produtor cultural pode ser o profissional que, nos próximos anos, aliará sua base

teórica e prática a fim de fomentar e inovar a indústria carnavalesca diante de um cenário cada vez mais exigente, no ramo do entretenimento. A função do produtor cultural é reconhecida, mas a profissão ainda não, o que de fato não impede que gradativamente esses profissionais, sejam mais bem aproveitados na indústria do carnaval. Vale salientar que, por ser dinâmica, a produção cultural não se restringe a determinados campos de atuação. Ela se adequa ao carnaval em todos os aspectos, desde gestão, concepção, patrimônio, e participação de todas as etapas de produção. Assim como essa classe tem se destacado como membros do júri dos desfiles das Escolas de samba e criando projetos vitoriosos como o do Plumas & Paetês Cultural, muitas outras iniciativas podem (e devem ser encorajadas para) fazer o carnaval mais produtivo.

Leandro Alessandro é produtor cultural, cursa produção cultural no IFRJ e é assistente de direção do Plumas & Paetês Cultural


| Dispersão |

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A GENIALIDADE DA SIMPLICIDADE Foto: Antônio Jorge

UMA RESENHA SOBRE OS Como evoluir artisticamente? De que forma podemos conduzir o SAMBAS DE novo a ponto de sobrepô-lo ao veENREDO E AS lho? Que fórmula melódica e/ou alcançaria o objetivo de faBATERIAS DE 2015 poética zer com que um samba de enredo POR EDIMAR SILVA

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urante os desfiles das escolas de samba, da série A e do Grupo Especial do carnaval deste ano, assistimos à virtuosidade em profusão, que nos dias de hoje está em voga, inclusive, por uma necessidade evolutiva, inextinguível e inestimável aos homens. Como cantou a Vila Isabel no carnaval de 1993: “a função do homem é evoluir”. No mesmo samba, o povo de Noel também nos embalou a outra reflexão: “a beleza é a missão de todo artista”.

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possua estrofes geniais e simples o bastante para conquistar a Sapucaí, a ponto de arrancar da garganta do grande público, suas notas musicais cantadas “à primeira vista”? Sim! “Como é bom te ter, a Formiga é você” - Parte do sambaço do Império da Tijuca que fez o povo das arquibancadas, sem saber por que, soltar a voz. Sim! “Sou carioca, sou de Madureira” - Que melodia gostosa é essa da Portela. Que calangueado malandro é esse que não sai do pensamento - exclamou Tia Romana, que apesar de Imperiana, cantava alegremente enquanto contemplava o desfile da Águia Altaneira.

É possível uma bateria impressionar o público e julgadores com algo ainda não realizado? Quantos movimentos sincronizados são necessários para surpreender a plateia? Como idealizar paradinhas descomplicadas e inusitadas ao mesmo tempo? É possível? Sim! “A Tropa Inteira, Faz a Referência a Este Bamba”. A tropa é a bateria super sincronizada da Inocentes de Belford Roxo. “Este bamba” é Nelson Sargento. Das mãos de Mestre Washington Paz, saía o vírus da alegria que contagiava cada um de seus ritmistas na homenagem, em forma de bossa, ao baluarte mangueirense. Ecoou a marcação única e inconfundível da verde e rosa na segunda do samba. Simples mudança de batida, genial aliança com o enredo. Sim! E sob a batuta de mestre Wallan pudemos ouvir “No Ar a Mais Bela Sinfonia”

da Unidos de Vila Isabel ao Maestro Isaac Karabtchevsky. Um momento singelo de alusão ao conhecidíssimo ritmo invariável do Bolero de Ravel obra musical de movimento único, escrita por Maurice Ravel para orquestra. Misto de surpresa e obviedade muito rara de se aplicar. Sambas-enredos sedutores frente a tantas obrigações, fascinantes no desafio de embalar e delirantes diante da caneta e do papel. Baterias fantásticas no que já existe, arrebatadoras em corações totalmente apaixonados, extraordinárias com as mesmas ferramentas das coirmãs, magníficas com seus autodidatismos e, por fim, primorosas em total e pleno campo demarcado. Que a simples forma de fazer o novo seja uma grande “paradona” para pensar sambisticamente. Edimar Silva é compositor, arranjador e produtor musical. Formado em licenciatura plena em música no CBM. Já atuou como intérprete oficial em diversas agremiações. Atualmente é diretor musical do Plumas & Paetês Cultural.

vaidarsamba.com.br

Pra quem curte o melhor programa de samba do Brasil Programação:

Segunda à sexta das 22h às 0h na Rádio Manchete - 760AM Sábados das 21h às 23h na Rádio Roquette Pinto - 94,1FM

Produção

Rafael Bacelo e Miguel Ângelo

Comentários e Reportagens Marcelo Pacífico

Revista Plumas & Paetês Cultural 2015

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| Capa |

DO PLANETA FOME

À VOZ DO MILÊNIO A INCRÍVEL TRAJETÓRIA DE ELZA SOARES

POR TIAGO RIBEIRO Foto: Marcos Mello

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ma vida que mais parece enredo de escola de samba – e que até já se tornou um, como veremos em matéria a seguir – mas que merece mais. A história de uma estrela, nascida em Padre Miguel - e que não é a Mocidade -, negra, pobre e mulher, que venceu a fome, o preconceito, a ditadura e que foi reconhecida pela BBC de Londres como a “Voz do Milênio”. Com muita justiça, na escolha da personalidade homenageada do Plumas & Paetês Cultural 2015 deu a Elza!

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A história de nossa estrela começa nas terras que dão nome à escola de samba do coração, mas prosseguiu no bairro de Água Santa, para onde se mudou ainda muito pequena. Na pedreira em que foi morar, com seus pais e 5 irmãos, seu pai trabalhava como mineiro. Foi através dele, inclusive, que Elza despertou o interesse pela música, já que o senhor Avelino Gomes tocava violão enquanto ela cantava em casa. “Isso até o dia em que falei para ele que seria cantora. Ele disse: não! Você vai ser professora” – lembra. Outra recordação relacionada a este período foi uma briga entre uma das 25 famílias para quem a mãe da Elza, dona Rosário, lavava

roupa. A discussão envolveu a mãe, Idê, e a filha Iêda, que chateava a progenitora por chegar em casa muito tarde. No calor da emoção, a mãe chamou a filha de prostituta, que por sua vez respondeu: “Sou, mas sou bonita, rica”. Aquilo era tudo que Elza queria ouvir: “Eu achei essa palavra (prostituta) belíssima. Pensei: é isso mesmo que eu quero ser. Pra mim, ser prostituta significava ser bonita, ter comida, carro”. Não precisa nem descrever a confusão que foi quando seu Avelino perguntou a Elza o que ela seria quando crescesse e ela respondeu “prostituta”. Autodidata, a nossa homenageada, sem nunca nem ter ouvido rádio, desenvolveu a técnica que a tornou famosa, o “scat”, ouvindo o som do louva-deus: “botava o bichinho no ouvido para ouvir aquele sonzinho”, conta. E lá ia Elza com a lata d’água na cabeça, simulando a sonoplastia do gemido do metal, aperfeiçoando o tesouro que tinha na voz. O louva-deus foi também o responsável pelo seu casamento, em mais uma de suas histórias maravilhosas. Certo dia, aos 12 anos de idade, Elza ia levar café para o seu pai, na pedreira, quando avistou na mata o inseto que tanto gostava. Abaixou-se para pegar e, ao ver o estranho movimento no matagal, um dos mineiros se aproximou para ver o que acontecia. Quando se esbarraram, caiu o café e a confusão se iniciara. Seu pai, assistindo a cena, decretou: “Vai casar com a minha filha, porque algo aconteceu no mato”. Com o casamento, Elza Gomes da Conceição tornou-se Elza Soares, sobrenome do marido, Alaúrdes. Com ele, aos 13 anos, teve o primeiro filho, João Carlos Soares. Carlinhos, como o chamava, a fez cantar em público pela primeira vez, já que Elza passava necessidade e seu filho, fome. Desesperada, se inscreveu no pro-

grama de calouros de Ary Barroso, na Rádio Tupi, e lá ouviu: “quero todo mundo bonito aqui domingo. Pensei: bonita como?” Magérrima, sem roupas de qualidade, foi à luta. “Foi um dia de festa, eu nunca tinha visto aquilo. Eu sentada num banquinho esperando. Cada um que levava uma gongada eu morria de rir, mas eu esqueci que também fazia parte daquilo”. Ao ouvir seu nome, levantou-se e o auditório veio abaixo, caindo na gargalhada com a aparência dela, vestida com a roupa da mãe, cheia de alfinetes, pois pesava trinta e poucos quilos. Também assustado, Ary Barroso pergunta: De que planeta você veio? Magoada, respondeu: “do mesmo que o seu, o planeta Fome. Naquele momento, todo mundo que estava rindo colocou a bundinha na cadeira e resolveu me ouvir cantar”. “Lama” foi a música, 5 foi a nota recebida (a maior). Em êxtase, Ary a abraçou e sentenciou: “Senhoras e senhores, acaba de nascer uma estrela”. “Depois do Ary, eu já achava que era famosa”, mas a realidade era bem diferente. Aos 15 anos perdia seu segundo filho, morto também de fome. Pouco depois, já era viúva: “os caras que trabalhavam na pedreira engoliam muito pó de pedra, então morriam do pulmão”. Enfrentava resistência em casa e na vizinhança: “batiam janela, batiam porta quando eu passava. Ninguém enxergava com bons olhos minha profissão. Porque era um trabalho na noite. Imagina uma mulher saindo à tarde e voltando no dia seguinte...”. Vivendo a misé-

ria no dia a dia, cantava na noite em luxuosas casas de espetáculo, como o Texas Bar, no Leme. Mas nunca se sentiu diminuída, ou incomodada: “É como eu digo, a gente tem que encarar” - dispara. Em 1960, grava sua primeira música, “Se Acaso Você Chegasse”. Em 1962, já era madrinha da seleção brasileira de futebol, na Copa do Mundo do Chile - “paguei o maior mico. Não entendia como ser madrinha sem padre, sem igreja, sem água benta. Na verdade fui como musa, mas como não usavam este termo, me nomearam madrinha”. Foi lá que conheceu Louis Armstrong, de quem apresenta técnica vocal semelhante, num encontro que rendeu outra de suas histórias engraçadas, quando se ofendeu ao ser chamada, em inglês, de filha: “my daughter”, entendendo: “me adora!”.

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Foto: Marcos Mello

Foi no Chile, também, que se aproximou de Garrincha, mas frisa que o envolvimento só começou depois. Ela, que o chamava de neném e recebeu o apelido de crioula, brincava: “Não tem problema, madrinha com afilhado?”. Na verdade, o problema estava no fato do jogador ser casado e ter deixado a esposa por ela. Elza enfrentou a fúria da sociedade: foi xingada, sua casa era constantemente alvejada por ovos e tomates. Somando esta situação à repressão da ditadura, o casal deixou o país e foi morar na Itália. Foram casados por mais de uma década. Com ele teve um filho, apelidado de Garrinchinha, que faleceu aos 9 anos, em um acidente de carro. Desolada, deu uma pausa na carreira, só retornando em 1984, com o apoio de Caetano Veloso. Antes disso, se aproximou do carnaval. À convite de Júlio Machado, o Xangô do Salgueiro, se tornou a primeira mulher a puxar um samba, sozinha, na avenida. Foi em 1969, com “Bahia de Todos os Deuses”, que deu o título ao Salgueiro. Ela, que nun-

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ca tinha sequer desfilado antes, só na hora percebera o desafio em que havia se metido: “Eu não sabia que era aquele tempo todo, que o desfile não era cronometrado. Cavaco arrebentando corda e eu ali. Uma loucura”. Tempos depois, puxou também samba pela Cubango. Mas foi em 1973 que estreou na escola de samba do coração, atendendo ao convite da destaque da agremiação, Dona Ivanoy. Lá cantou até 1976, dividindo o posto com Ney Vianna em três oportunidades. Em 1974, gravou o que se tornou o hino da escola: “Salve a Mocidade”. Em 2010, tornouse madrinha de bateria da verde e branco. Hoje, gosta de assistir aos desfiles: “Sou uma carioca, uma brasileira. Carnaval faz parte da minha cultura. Fico nervosa na apuração, rezando sempre pra Mocidade ficar lá em cima”. Eleita “Voz do Milênio” pela BBC de Londres, em 2000, Indicada ao Grammy em 2002, Elza nunca deixou o sucesso subir à cabeça “fome e fama são palavras separadas só por uma letra”. Seus depoimentos são marcados sempre por citações às pessoas que a ajudaram em sua carreira. Além disso, sua trajetória musical é marcada por lançar novos talentos, como quando foi a primeira artista a gravar uma música de Jorge Aragão. Caráter de uma personalidade mais do que adequada para ser homenageada por um prêmio de carnaval, que prima por exaltar os artistas escondidos nos bastidores da festa.

Dona de uma extensa trajetória de vida, musical e de superação, Elza mantém o mistério sobre o assunto idade, não revelando nem a data de nascimento: “dizem que é 23 de junho. Não tenho o dia certo em que nasci”. Quando perguntada se nem comemora os novos anos de vida, responde: “Se quando pobre não podia comemorar, porque agora vou festejar? Agradeço a Deus todo dia de vida”. E não cansa de viver mais a cada dia. Depois de aprender bateria, agora estuda sax alto; gosta de compor; e nas horas vagas, adora cozinhar “qualquer prato que você pensar eu faço”. Ela, que afirma que se não fosse cantora “seria cantora”, que garante só se arrepender do que não fez, mostra - ao ser questionada sobre o que ainda falta fazer -, uma forma de enxergar a vida que a torna mais admirável: “Tudo! Porque estou vida!”.

Tiago Ribeiro é jornalista, pesquisa-

dor de carnaval e editor da revista do Prêmio Plumas & Paetês Cultural.

Foto: Marcos Mello

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NEGRA A CORES ELZA SOARES: CANTADA E CONTADA EM CROQUIS CARNAVALESCOS POR MADSON OLIVEIRA

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iversas são as maneiras de exaltar personalidades. Mas, como fazer uma homenagem a uma estrela? Escolher seu nome para o tema de uma importante premiação do carnaval carioca é uma possibilidade, como no caso do Prêmio Plumas & Paetês Cultural 2015. Outra maneira é a que queremos revelar aqui: como a vida de Elza Soares se transformou em tema de desfile de uma escola de samba, no ano de 2012. Com o enredo intitulado “Cabuçu dá a Elza na Avenida!”, os carnavalescos Marcyo de Oliveira e Marco Aramha desdobraram os fatos reais da vida de Elza, transformando emoções e fatos reais em alegorias, adereços e figurinos carnavalescos. Segundo relato da dupla, Elza fez questão de colaborar e acompanhar o desenvolvimento do enredo, uma vez que ela mesma poderia esclarecer alguma passagem obscura, realçando aqui e ali o colorido do carnaval, com o brilho próprio de uma estrela. A agremiação, que, na ocasião, desfilou pelo grupo de acesso C, na Estrada Intendente Magalhães, tem como símbolo, além dos leões, uma estrela - nada mais apropriado para a oca-

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sião. Além disso, o enredo se adequou à identidade da escola, que é famosa por celebrar personalidades importantes da nossa história. Vários foram os enredos criados pela Unidos de Cabuçu rendendo homenagens, como: “Roberto Carlos na Cidade da Fantasia” (1987), “O Mundo Mágico dos Trapalhões” (1988), “Milton Nascimento, Sou do Mundo, Sou de Minas Gerais” (1989), “Aconteceu, Virou Manchete” (1991, sobre Adolpho Bloch), “Xuxa, a Realidade Vira Sonho no Xou da Cabuçu” (1992), “De Quadrinho em Quadrinho, lá vai meu Recado... Maurício de Sousa” (1993), e o que deu à escola o título de primeira campeã do sambódromo: “Beth Carvalho, a Enamorada do Samba” (1984). A ideia de homenagear a cantora Elza Soares já havia sido pensada alguns anos antes, em outra agremiação pela qual a dupla de carnavalescos passou. Mas, por questões burocráticas, o projeto foi engavetado. Com a chegada dos carnavalescos à Unidos do Cabuçu, o projeto encontrou apoio da diretoria da escola de samba, que queria também celebrar uma personalidade artística, como já fizera em outros carnavais. O convite da escola, que já fez parte da elite da folia por vários anos, foi prontamente aceito pela cantora, que participou do desenvolvimento do enredo, contando passagens importantes de sua vida, em encontros marcados pela emoção. Elza recebeu os carnavalescos em sua própria residência, mas também chegou a assistir a apresentação das fantasias/protótipos, meses antes do desfile, na quadra da agremiação, localizada no bairro carioca do Lins de Vasconcelos (o nome da agremiação vem da rua onde foi fundada e não do bairro Cabuçu, de Nova Iguaçu). Após pesquisas e a escrita do roteiro do desfile, Marcyo e Marco passaram para a criação do projeto plástico-visual, iniciando pelos desenhos dos figurinos. A paleta de cores desse desfile levou em consideração dois fatores: o

azul/branco (cores da escola) e o horário do desfile, ocorrido ao nascer do dia. Por isso, os carnavalescos privilegiaram variantes coloridas com tons claros e alegres. As formas dos figurinos exploraram fatos da vida de Elza, misturados às letras de suas principais músicas. Exemplos estes que vamos abordar aqui, apoiados nos croquis das referentes alas, disponibilizadas pelos carnavalescos. A Figura 01 refere-se ao figurino da quarta ala, intitulado “O primeiro grande sucesso ‘Se acaso você chegasse’”. O figurino é composto por adereço de cabeça, pala (blusa), calça comprida e sapatos. Entre as várias cores, destaca-se o verde claro na base da pala e calça. No adereço de cabeça, podemos compreender a intenção da dupla de carnavalescos, a partir da letra da música-referência: “chateau, amor, dia-e-noite, barraco, bosque em flor” com uma pequena construção no alto da cabeça simula o barraco citado na música; assim como os corações vermelhos referem-se ao amor; as representações da lua e do sol, dizem respeito à noite e ao dia, respectivamente; as árvores e pequenas flores localizadas nos ombros são citadas como o “bosque em flor”. Além disso, a pala redonda e simétrica reproduz partituras brancas com linhas pretas estilizadas contendo notas musicais pretas intercaladas por corações vermelhos, acenando ao amor de Elza pela música. As calças compridas verdes possuíam bocas largas com simulação de partituras estilizadas, fazendo uma ligação estética com a blusa desse figurino. A Figura 02, “A nossa mulata assanhada da lata d’água”, referia-se à sexta ala desfilada naquele enredo. Nesse figurino, os carnavalescos condensaram os elementos descritos nas seguintes músicas: “Mulata Assanhada” e “Lata d’água na cabeça”. No croqui, vemos uma “mulata” de cabelos crespos desenhada com um vestido curto, uma lata na cabeça e sandálias amarradas às pernas. De cima para baixo, o chapéu representa uma lata d’água,

FIGURA 01 adereçada com plumas brancas e pendões acinzentados, onde se prendem representações de notas musicais pretas. Por baixo dessa lata, perucas de cabelos pretos e enrolados são enfeitadas lateralmente por argolas (brincos) cor de rosa. A figura usa um vestido curto, rosa, justo e com alças finas. Preso à bainha do vestido foi colocado um babado bastante franzido em tons de verde-amarelo, volumoso, da mesma forma e cores que estão no boá, também franzido, colocado nos ombros da figura. No corpo do vestido foram aplicadas diagonalmente duas faixas amarelas imitando partituras, com notas musicais pretas. Nos pés, sandálias de plataforma cor de rosa com longas tiras cruzadas até a altura dos joelhos. A Figura 03 refere-se à sétima ala desfilada em 2012, “Amor ao Rio de Janeiro cantado na sua voz”. O adereço de cabeça representa os raios solares formados por plumas cor de laranja, além de penas artificiais feitas em acetato ouro, entremeadas por imitação de chamas vermelhas, que simulam os raios do sol, tão característicos dos fins de tarde. A roupa propriamente dita é um conjunto de pala e calça comprida. A grande pala era composta de camadas em tamanhos diferentes, intercalando meio-círculos: algumas vezes, brancos estampados imitando partituras com notas musi-

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FIGURA 02 cais douradas; outras vezes, com estampas onduladas em preto e branco plagiando o calçadão do bairro carioca de Copacabana. Os meio-círculos da pala eram contornados de debruns dourados. Nas mãos, um adereço em forma de violão reforça a ideia sobre as músicas, com temática carioca, cantadas por Elza Soares, ao longo de sua trajetória profissional. Nos pés, sapatos fechados e brancos. A Figura 04, “A igualdade racial de Carne Negra”, corresponde à décima quarta ala a desfilar. Esse figurino é praticamente todo em preto e branco. O adereço de cabeça parece uma cartola formada de placas de tamanhos diferentes, intercalando o preto e o branco, encimado por penas artificiais feitas de acetato prata e plumas pretas. A parte de cima do figurino lembra uma grande pala redonda, composta por nesgas de tamanhos diferentes (assim como no chapéu), em preto e branco. Nas tiras pretas havia aplicações (ou estampas) de notas musicais brancas. Enquanto nas nesgas brancas foram escritas palavras com letras maiúsculas, referindo-se à igualdade racial, como: “luta, paz, negro,

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FIGURA 03

FIGURA 04

respeito, igual, liberdade, livre, irmão, raça, cor”. Há a impressão de ombreiras na parte de cima da pala, para dar sustentação às tiras que contornavam a cabeça. À distância, a forma geral desse figurino dava a impressão de um grande círculo formado de raios em preto e branco, causando impacto visual, tendo um círculo com rosto negro aplicado no meio da figura, na altura do peito, tornando-se o ponto focal. O figurino era complementado por calça comprida preta e sapatos fechados pretos.

É interessante notar como o trabalho de criação artística pode materializar sentimentos, emoções, fatos reais e momentos profissionais de maneira a fazer com que o público presente aos desfiles carnavalescos possa reconhecer a intenção dos artistas. E quando isso acontece, ganham os artistas, ganha a homenageada e ganha mais ainda a arte em si... Nesse caso, o carnaval das escolas de samba demonstra anualmente uma lição a ser compartilhada: a pesquisa minuciosa; o comprometimento dos artistas-criadores e a recepção do público podem, em parte, explicar o sucesso do “maior espetáculo da Terra”.

Nos quatro figurinos apresentados, notamos características de fáceis leitura e assimilação do público e jurado. Nas Figuras 01, 03 e 04 percebemos o uso da pala como recurso adequado à forma unissex. Somente a Figura 02 parece ser exclusivamente feminina. Com relação às cores, as Figuras 01 e 02 são multicoloridas, usando o preto somente nas notas musicais. No entanto, nas Figuras 03 e 04 predominaram o preto e o branco: seja aludindo às notas musicais (Figura 03) ou metaforicamente referindo-se às tonalidades de peles dos seres humanos, negra e branca (Figura 04).

Madson Oliveira, é Bacharel em Design de Moda (UFC); Mestre e Doutor em Design (PUC-Rio); Professor e Coordenador do Curso de Artes Cênicas: Indumentária/Cenografia, na Escola de Belas Artes / Universidade Federal do Rio de Janeiro – EBA/UFRJ

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| Homenagem |

Fábio Fabato

ELZA SOARES E MESTRE ANDRÉ: UNIDOS POR UM “SALVE A MOCIDADE” DOIS, DOS PRINCIPAIS GÊNIOS, QUE, JUNTOS, DERAM VIDA A UMA ESTRELA DA FOLIA

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ascida em um sítio na Estrada da Água Branca, a cantora Elza Soares é filha legítima de Padre Miguel. Viveu intensamente amores e palcos, alvoroçou a sociedade conservadora, perdeu filho. Da infância e início de juventude vem a imagem de pobreza, lata d’água na cabeça, pipa, bola de gude. E gravidez. Foi por Realengo, pedaço coladinho em Padre Miguel, que uma das vozes mais conhecidas da música brasileira começou a despontar. Ela fugia de casa para cantar em um bar na Estrada da Mallet. Viúva aos 21 anos e já mãe de quatro filhos, despontou para o sucesso no programa de calouros de Ary Barroso, na década de 50. “Eu vim do planeta fome”, disse, em resposta à debochada pergunta do apresentador, intrigado com seu visual montado com peças emprestadas que não combinavam entre si. Em seguida, encantou a plateia com seu vozeirão rouco indecifrável e inconfundível. No carnaval, estreou em 1969, puxando o samba do Salgueiro. Mas a incomodou bastante o fato de estar longe da escola que representava o bairro de origem, a verdadeira paixão. Por um convite da destaque Ivanoy, voltou para os braços de sua gente. Estreou na Verde-e-branco em 1973, no enredo “Rio Zé Pereira”. Cantou até 1977, dividindo o posto com Ney Vianna em cinco oportunidades. Em 1974, gravou Salve a Mocidade, de Luiz Reis, considerada uma das maiores odes já feitas à Mocidade Independente de Padre Miguel. Virou marca da escola. E que se abraçou perfeitamente com a maior das marcas daquele grêmio de samba que

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começou como time de futebol, mas, na carona do talento de um gênio, virou a maior escola de percussão da folia: a bateria de mestre André. Nascido José Pereira da Silva em 7 de fevereiro de 1932, ganhou o apelido de André nas peladas de Padre Miguel. Sem saber os nomes de alguns companheiros de bola, chamava-os de “Seu moço” ou “Seu André”. O “feitiço” se voltou contra ele, que ganhou notoriedade na carona do codinome. Motorista de ambulância da Rede Ferroviária Federal, sua primeira função na escola foi dançando de mestre-sala (baliza, para sermos mais corretos), mas logo depois acabou indo para a bateria, onde se consagrou como mestre. Dono de ouvidos afiados, conseguia perceber deslizes dos batuqueiros, enquanto tocavam seus tambores, a uma grande distância. Virou uma espécie de maestro do povo, já que comandava os ritmistas com uma batuta. Sua maior invenção foi a “paradinha”, em 1959, o calar completo dos instrumentos, com a retomada de toda aquela autêntica orquestra de percussão no tempo certo. Em meados da década de 70, Elza e André receberam de presente a música “Salve a Mocidade”, de autoria de Luiz Reis, que se tornou um clássico da MPB na interpretação da cantora. Os versos “O Mestre André diz todo dia / Ninguém segura a nossa bateria / Padre Miguel é a capital / Da escola de samba que bate melhor no carnaval” fizeram tanto sucesso que a Rede Globo decidiu incluir a canção na trilha sonora da novela “O rebu”, de Bráulio Pedroso. Estava formado um enlace artístico que sacudiu as estruturas do carnaval,

impulsionando a Mocidade para o seletíssimo time das escolas mais amadas pelo público. André morreu cedo, em 1980, vítima de um infarto fulminante. Virou estrela e mito, consagrado como o maior dos mestres de bateria. Elza foi eleita a cantora do milênio e, até hoje, mantém acesa a chama do casório de seu talento com aquele “festival do couro” que sempre fez a alegria da cidade. Em 2003, viu-se concreto manifestar deste sentimento forte, e a partir de um quiproquó daqueles! Os jurados Téo Lima e Ivan Paulo conferiram notas abaixo de 9 (nove) para a bateria da Mocidade – 8,2 (oitenta e dois) e 8,9 (oitenta e nove), respectivamente –, levando a agremiação, que até então estava em terceiro lugar, para a quinta posição. Em uma das justificativas, foi dito que o segmento desfilou como se embalasse um rancho. No sábado das campeãs, os ritmistas protestaram bastante, mas a maior bronca contra os julgadores partiu justamente de Elza Soares, destaque em uma das alegorias: “Como puderam dar estas notas para a bateria que foi criada pelo grande mestre André? Que Padre Miguel olhe por eles!”, esbravejou. Não se sabe se por falta de olhadela do padre, mas, no ano seguinte, um julgador não recebeu convite para integrar o corpo de jurados, e o outro... Bem, este teve as suas notas anuladas. E nem se pode dizer que foi praga de Elza. Ou será que foi?

Fábio Fabato,

é jornalista e escritor, comentarista de carnaval. Autor de diversos livros sobre as escolas de samba. Colunista do site Galeria do Samba.

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| Homenagem |

Gustavo Melo

IMBRAMAQ

A VOZ DE UMA

DEUSA NA BAHIA DE TODOS OS

SONHOS EM UMA MANHÃ DE CARNAVAL INSPIRADA, ELZA SOARES ENTRA PARA A HISTÓRIA COMO UMA DAS HEROÍNAS DE UM TÍTULO INESQUECÍVEL

U

ma voz rascante guiou os cerca de quatro mil componentes dos Acadêmicos do Salgueiro naquela manhã ensolarada de segunda-feira de carnaval. E não era um canto comum: era a voz de uma das mais talentosas cantoras do Brasil, a grande estrela Elza Soares. Dona de um jeito bem particular de interpretar canções, Elza domesticou os próprios improvisos em nome de um cantar em uníssono dos sambistas salgueirenses. Acostumada aos grandes palcos, a cantora sabia que no maior deles, a avenida dos desfiles, a música só é possível quando entoada em coro. Elza é um daqueles talentos forjados na adversidade. É a flor de mandacaru que insistiu em florescer entre espinhos. Menina pobre, nascida em Padre Miguel, enfrentou a morte do primeiro marido, vítima de tuberculose. Aprendeu a conviver com a dor pela perda de um dos filhos em um acidente de carro, além de tantas adversidades que fariam qualquer ser humano desistir da felicidade. Como disse o escritor José Louzeiro, Elza decidiu “cantar para não enlouquecer”. Mas naquela manhã de 17 de fevereiro de 1969, a cantora que viu a fome e a morte de perto enfrentou um sol de rachar em pleno meio dia. O palco era a avenida Presidente Vargas. Da Candelária, o Salgueiro despontava com uma Iemanjá prateada, a inesquecível alegoria feita de espelhos

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e vime criada pelo genial carnavalesco Arlindo Rodrigues. O samba de Bala e Manuel Rosa tinha como voz guia uma cantora plenamente identificada com os anseios de sua gente.

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Ela queria ser feliz e fazer aquela nação vestida de branca com detalhes vermelhos – bem ao estilo que Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues gostavam – explodir com uma exibição compacta, uma bateria pulsante e componentes numa batalha heroica contra o sol inclemente. Fez os corações dos sambistas palpitarem de felicidade, brindando o público que já havia assistido a outras sete escolas, mas nenhuma, até aquele momento, com o brilho de campeã. O Salgueiro era voz que o povo queria ouvir.

Todos os deuses da Bahia se curvaram à deusa Elza Soares. E assim, ela se tornou uma das personagens mais importantes de um título inesquecível. A leveza da escola alvirrubra que flanou no asfalto em chamas de uma Avenida incandescente foi a bênção dos céus que se abriram para seus santos virem ao mundo celebrar a arte do seu povo. Uma massa de gente que cantava o mais brilhante hino à terra da felicidade.

 

Gustavo Melo é salgueirense, jornalista e membro da diretoria cultural do Acadêmicos do Salgueiro.

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| Homenagem |

ELZA SOARES NA ECONOMIA DA MÚSICA NOSSA HOMENAGEADA COMO PREMISSA PARA ENTENDER A CADEIA PRODUTIVA MUSICAL POR LUIZ CARLOS PRESTES FILHO

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omprar CD, ir ao show, ouvir a música preferida na TV, internet ou rádio. Estas são somente algumas atividades inseridas na longa trajetória que a economia da música percorre para fazer uma canção chegar aos fãs. Assim como o desfile das escolas de samba faz parte de uma imensa cadeia produtiva, onde muitos foliões desconhecem a grandiosidade de todo o processo, o setor econômico musical também passa por várias etapas, envolvendo diversos profissionais. Vamos conhecer todo esse corpo, visualizar detalhes desde o cóccix ao pescoço, nos guiando pela carreira da nossa homenageada, Elza Soares. A cadeia produtiva da economia da música é visualizada através de um conjunto de atividades, nas mais diferentes etapas, que transforma matérias-primas básicas para a realização de serviços e produtos que são distribuídos e comercializados, formando uma corrente com interesse financeiro. Uma estrutura de inter-relações entre vários atores de um sistema industrial existente, onde é possível observar o fluxo

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de bens e serviços de todos os setores envolvidos, desde as fontes de matérias primas até o consumidor final. Onde estaria a cantora e compositora Elza Soares na cadeia produtiva da economia da música brasileira? Com certeza em vários elos desta. Suas composições, por exemplo, estão no elo de “pré-produção”, matérias primas indispensáveis. Milhares de obras musicais originais, compostas todos os anos, garantem a fortaleza que é o mercado interno da Música Popular Brasileira (MPB). Mesmo o market share (participação no mercado) setorial pertencendo às gravadoras multinacionais, o conteúdo que mais gera dividendos é o nacional que, também, oferece um valor econômico relacionado à identidade e às raízes do nosso povo. Elza Soares com sua carreira contribui consideravelmente para que a MPB seja um produto de mercado. A criação de canções e músicas permitiu a ela destacar-se no segundo elo, o de “produção”. Quando analisamos informações sobre propriedade intelectu-

al, em geral, e os direitos autorais musicais, em particular, confirmamos esse fato, já que muitas de suas obras foram sincronizadas em audiovisuais e gravadas em LPs e CDs. Esse conteúdo demanda monitoramento pela sua sociedade autoral e pela sua editora musical, empresas sócias do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD). Este último, a entidade que monitora toda execução pública de conteúdos musicais no Brasil. Desta maneira, a arrecadação da execução publica de música gravada rende a Elza Soares retorno financeiro, mas as informações têm que ser registradas, organizadas e captadas com profissionalismo, para que as rádios e redes de televisão, casas de espetáculos e de festas, restaurantes com música ao vivo e quadras de escolas de samba, clubes sociais e shoppings centers, entre outros locais, paguem pelo uso das obras. Para que a voz e criações de Elza Soares consigam ter execução pública é claro que ela teve que entrar em centenas de estúdios e gravar centenas de faixas nos seus 119 LPs e CDs. Desde o samba até o jazz, da música romântica até a eletrônica, ela realizou produtos que passam pelo elo de “distribuição”, no atacado e no varejo mesmo na era digital. Trata-se do momento em que seu nome e criações sonoras são difundidas (com o suporte do marketing e da publicidade) para que o consumidor tenha conhecimento do conteúdo, formato e valor dos produtos. No elo seguinte, o de “comercialização”, através das rádios AM e FM, TVs abertas e fechadas, shows e matérias em mídias impressas,

Elza Soares pode ser “comprada”, ao vivo ou gravada. Considerando que ela é uma grande estrela, que percorreu desde os shows de calouros até a abertura de Mega Eventos Esportivos, como os Jogos Panamericanos, em 2007, e a Copa do Mundo da Fifa, em 1962, estamos falando de um produto de alto valor agregado. Especialmente, para o último elo da cadeia produtiva que é o de “consumo”. Faz toda a diferença comprar músicas de uma artista coroada pelo Grammy Awards e pela BBC de Londres. A homenagem à Elza Soares realizada pelo Plumas & Paetês Cultural, por exemplo, se insere nesse último elo da cadeia produtiva da economia da música. Vem para valorizar mais ainda a sua trajetória que tem origem em Padre Miguel, na antiga favela Moça Bonita, hoje conhecida como Vila Vintém. Aproxima a cantora dos operários do carnaval – serralheiros, eletricistas, carpinteiros, bordadeiras, costureiras, entre tantos outros que foram fundamentais para a formação de sua própria identidade. Como foi possível o surgimento de sua obra no cenário cultural do Brasil? Esse mistério, um dia alguém responderá. Os impedimentos sociais que teve na infância e na adolescência, através da fome e da miséria, das tragédias pessoais, sentidas na morte de filhos e nos desencontros afetivos, poderiam ter acabado com esta mulher. Mas ela como vencedora se apresenta na História da cultura brasileira. Este seu valor é importante ser apurado para ser incor-

porado ao desenho da economia da música. A cantora e compositora Elza Soares está na cadeia produtiva da economia da música brasileira junto com os anônimos criadores de carros alegóricos e fantasias, instrumentos musicais e efeitos especiais, coreografias e enredos.

Luiz Carlos Prestes Filho é especialista em economia do carnaval

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| Homenagem |

MULHERES

José Maurício Tavares

NEGRAS

EM CENA CONHEÇA ALGUMAS DAS QUE SE DESTACARAM NA HISTÓRIA DO BRASIL

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cantora Elza Soares, homenageada da 11ª edição do prêmio Plumas & Paetês Cultural de 2015, é um grande exemplo de sucesso dentro do universo feminino negro. Sua vida e sua pessoa artística contribuíram, de alguma forma, para o nosso entendimento do papel e situação da mulher negra na cultura, na política e na sociedade em nosso país. Mas a história das mulheres negras é considerada algo novo para muitos, e, em decorrência deste cenário, constatase um desconhecimento geral sobre elas. Quem já ouviu falar de Narcisa Ribeiro, cativa de um sacristão de Vila Rica, Minas Gerais, que foi submetida a uma devassa pública, em 1748, pela audácia de andar “bem tratada”, com saias de camelão e chinelos como se fosse senhora? “Pura vaidade” muitos disseram na época, mas a atitude de Narcisa abriu espaço para a discussão sobre a mulher ne-

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gra na sociedade brasileira, que em sua grande maioria tinha as cozinhas e roçados como destino final para suas vidas. Ainda no período aurífero, a figura mítica de Mariana Baptista de Paracatu, é considerada desbravadora quanto às relações de interesses entre nobres e a coroa portuguesa. Ao oferecer à rainha Dona Maria I, um cacho de bananas fundido em ouro em troca de um título de nobreza, o espanto foi geral. Mas Mariana apenas estava seguindo o modus operandi dos nobres para atingir seus objetivos. Marcadamente empreendedoras, inteligentes e talentosas, as mulheres negras de nossa história foram deixando seus nomes também por meio de práticas culinárias passadas por seus antepassados, agregando, assim, valor a sua figura nas ruas de uma país em formação. A própria cidade de Araçuaí, às margens do rio Jequitinhonha/MG, foi fundada pela comerciante Luciana Teixeira, no século XIX. Benta Maria da Conceição

Torres é pouco conhecida, mas seu doce - Nhá Benta-, feito com ovos e açúcar, imortalizou seu nome como parte da culinária típica brasileira. Poética é a história da quitandeira Paula, que veio da Bahia para o Rio de Janeiro em 1895, conquistando a simpatia dos soldados com seu tabuleiro de guloseimas tipicamente africano. Em datas cívicas, Paula desfilava ao lado da tropa com saia branca engomada, dólmã vermelho e cesta de vime equilibrada à cabeça. Chamada de “Fuzileira Honorária”, Paula abriu caminho para que as mulheres, anos mais tarde, passassem a integrar a Marinha. Outra que ficou famosa a partir da sua culinária foi tia Maria, corajosa e determinada acompanhou os integrantes da Coluna Prestes entre os anos de 1925 e 1927, alimentando-os durante as lutas travadas contra o sistema político da República Velha e as elites agrárias no Brasil. Mas essas mulheres também foram pioneiras na cena acadêmica da medicina brasilei-

ra, onde os nomes de Olga da Conceição, formada pela faculdade de Medicina da Bahia, em 1931, e Lucinda Romano, graduada no ano seguinte na Escola de Medicina da Universidade de São Paulo, são exemplos de talento e persistência para vencer na vida por meio dos estudos, numa época em que só os filhos dos mais abastados podiam frequentar as universidades.

ca feminina. Batizou dois movimentos que foram incluídos em categorias de grande dificuldade no livro de regras da Federação Internacional de Ginástica, os saltos duplo twist carpado e duplo twist estendido. Daiane dos Santos recebeu a insígnia da Ordem do Rio Branco e sua notoriedade estimulou a prática e a atenção dos vários segmentos sociais para a ginástica olímpica no Brasil.

Filhas de seu tempo, mulheres negras convictas de que o trabalho doméstico não podia se tornar a profissão legitimadora de suas vidas, como assim fez a professora Eunice de Paula Cunha, denunciando por meio de artigo jornalístico o racismo contra as jovens negras na década de 1930 no Brasil. E elas também corriam rumo ao lugar mais alto do pódio no mundo dos esportes, mas os espaços reservados ao feminino, definidos pelos organizadores das olímpiadas, estavam em apenas premiar os vencedores com a coroa de louros, como bem disse o Barão de Coubertin, em 1935, fundador dos atuais jogos olímpicos. Para as afrodescendentes esse percurso tem início em 1948, nos jogos de Londres, com a velocista Melania Luz, primeira atleta negra do Brasil a participar de uma Olímpiada. Recordista sul-americana dos 100 e 200 metros, foi também a primeira mulher a pertencer ao quadro de atletismo do São Paulo Futebol Clube. Wanda dos Santos, considerada uma das maiores atletas brasileiras de todos os tempos, foi a única mulher a representar o Brasil nas Olimpíadas de 1960, em Roma.

São muitas as cantoras, bailarinas, poetas, compositoras, atrizes, cineastas, modelos e musicistas que compõem a cena artística do Brasil. Entre 1779 a 1790, um dos mais antigos elencos profissionais brasileiros foi criado no Rio de Janeiro. Entre os artistas estava Joaquina Maria da Conceição Lapa, mais conhecida como Lapinha, uma cantora contralto carioca que, após ser aclamada no Brasil, consagrou-se em importantes palcos da corte portuguesa. As fontes indicam que vem de São Luís do Maranhão a primeira romancista brasileira, a professora Maria Firmina dos Reis, que publicou o romance abolicionista “Úrsula”, em 1859. A cantora e atriz Plácida dos Santos é tida como a pioneira na introdução de lundus, modinhas e maxixes nos palcos franceses, onde durante 11 anos encantou as mais exigentes plateias. Em 1921, Zaíra de Oliveira, com formação clássica, conquistou o primeiro lugar em um concurso do Instituto Nacional de Música, a mais importante instituição musical brasileira daquele período. Entretanto, por ser negra, foi impedida de receber a premiação.

O pioneirismo dessas mulheres atletas engrandeceu a participação do Brasil nos Jogos Olímpicos, estimulou as mais jovens e abriu caminho para a presença cada vez maior das esportistas negras nas principais competições internacionais. Exemplo da nova geração, a atleta gaúcha, Daiane dos Santos, escreveu seu nome em diferentes capítulos da história esportiva. Foi a primeira negra no mundo a alcançar medalhas na ginástica artísti-

Na cena da dança temos a bailarina e professora Mercedes Batista, fundadora do Balé Negro, considerada a primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Mercedes Batista focou seus estudos nos movimentos ritualísticos do candomblé e das danças folclóricas. Suas criações coreográficas permanecem até hoje identificadas como referência gestual para o entendimento da dança afro. Atrizes como Ruth de

Souza e Léa Garcia, participaram ativamente do Teatro Experimental do Negro na década de 1940, afirmando significativamente o talento do negro para as artes cênicas e cinematográficas no Brasil. Em um universo dominado pelos homens, a figura feminina nas rodas de samba não era bem vista pela sociedade, mas Dona Ivone Lara, com muito talento e determinação, escreveu seu nome na história da musica popular brasileira. Dona Ivone Lara, sambista do morro da Serrinha no Rio de Janeiro, foi a primeira mulher a compor um samba de enredo, “Nasci pra sofrer”, em 1947. A presença de Dona Ivone Lara no mundo do samba validava a figura e o talento feminino para a música popular brasileira, incentivando outras a também mostrar seu talento: como Jovelina Pérola Negra, Alcione e algumas das eternas Rainhas do Rádio, fazendo do Brasil, hoje, a grande nação das cantoras. Seriam necessários anos, provavelmente décadas, de investigações e pesquisas para revelar satisfatoriamente nomes, vidas e a trajetória das incontáveis atrizes, cantoras, musicistas, compositoras, bailarinas, dançarinas, escritoras, poetisas, artistas plásticas, escultoras, fotógrafas e cineastas afrodescendentes que participaram e participam da contínua construção dos amplos e diversificados palcos culturais brasileiros. Como se sabe, tanto na memória quanto na arte, não existe ponto final.

José Maurício Tavares é historiador (com especialização em Arte e Cultura, Figurino e Carnaval), julgador dos desfiles da Série A e do Plumas & Paetês Cultural.

Revista Plumas & Paetês Cultural 2015

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Luiz Antônio Simas

| Homenagem |

FORÇA FEMININA DO

SAMBA

UM ESTUDO SOBRE AS MATRIARCAS DO BATUQUE

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participação feminina no ambiente das escolas de samba sempre foi determinante e se impôs como uma espécie de reflexo da própria condição e da experiência histórica das mulheres, sobretudo afrodescendentes, na sociedade brasileira. Aparentemente, o protagonismo nas escolas de samba foi e é exercido pelos homens. Quem, todavia, mergulhar no mundo do samba indo além da superfície, verá que, como diziam os antigos, debaixo desse angu tem caroço. As escolas de samba, em sua origem, se destacaram pelo caráter comunitário; definidor, inventor e renovador de identidades de grupos vistos historicamente como subalternos por parcelas significativas das elites brasileiras. O crítico musical Roberto M. Moura matou a charada em seu livro No princípio era a roda, ao dizer que “Quando alguém se aproxima do samba, através da roda ou das escolas, dificilmente percebe seu caráter doméstico. Num e noutro caso, verá uma predominância do elemento masculino, que toca e canta. Mas se esse envolvimento evoluir, se a pessoa aprofundar essa aproximação, por certo descobrirá as raízes caseiras que estão por trás daqueles sons. Para ficar nos exemplos mais decalcados, só após provar “o famoso feijão da Vicentina”, é que o sujeito pode afirmar que conhece a Portela.

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Ou, só depois de ter andado nas festas de Dona Zica e Dona Neuma, é que terá cacife para falar da Mangueira. É como se o samba tivesse duas faces: a masculina, para público externo, e a feminina, para os que são de casa”. Indo além da citação, há que se considerar que desde o início as mulheres foram relevantes também do ponto de vista da música e da coreografia. Foram elas, nos tempos primordiais em que o perfil comunitário prevalecia e a visão empresarial nem sonhava se impor no ambiente das escolas, que sustentaram, sobretudo como pastoras ou baianas, alguns elementos fundamentais para o desempenho de uma agremiação; como o canto coral, a evolução e a harmonia.

Em virtude dessa relevância, durante muito tempo dançar nos terreiros (quadras) das escolas de samba era privilégio e incumbência das pastoras, como numa reprodução profana das rodas de candomblés antigas, onde cabia as yaôs – iniciadas no culto aos orixás – a função de formar a roda cerimonial propiciadora do contato com os deuses. Nesse enlace entre o sagrado e o profano talvez esteja a solução do X do problema. Entender a força e a importância das mulheres na estrutura das escolas de samba passa pela constatação de que há entre as agremiações, em suas origens remotas, e as casas de candomblé, uma série de semelhanças que devem ser destacadas. São duas instituições que funcionaram como instâncias de integração comunitária, fundamentadas na noção de pertencimento ao grupo e fincadas em uma série de rituais; todos eles alicerçados nos prin-

ASTRAL MUSIC, A SUA GRAVADORA

cípios da tradição, da hierarquia e da etiqueta. Neste contexto, o matriarcado se impunha como uma referência moral de condução do grupo e um elemento aglutinador da comunidade, tanto nos terreiros de samba como nos terreiros de santo. As grandes matriarcas do samba – da lendária Tia Ciata à imponência imperial de Dona Ivone Lara – sempre se impuseram neste tênue limite entre o sagrado e o profano que bem define os modos de vida dos afrodescendentes no Brasil. E são tantas as mulheres que merecem destaque, que fica até difícil resumi-las a poucos nomes. Como não citar Dagmar da Portela, a primeira mulher a furar o cerco masculino e tocar na bateria de sua escola; Amélia Pires, já na década de 1930 atuando como compositora na Unidos da Tijuca; Carmelita Brasil, fundadora, presidente e compositora da Unidos da Ponte e primeira mulher a assinar um samba-enredo que cruzou uma avenida de desfile, em 1958; Carmem Silvana, a pioneira imperiana que puxou na avenida o mítico samba-enredo “Aquarela Brasileira”, do mestre Silas de Oliveira; e muitas outras. Mães do samba, yabás, forças matriarcais de sustentação do grupo, referências comunitárias, herdeiras da sabedoria e do axé, as mulheres não formam apenas um capítulo à parte no universo das escolas de samba. Elas são alicerces e fundamentos dessa maneira brasileira de inventar, na fresta e na festa, a vida.

Luiz Antônio Simas, é mestre em História Social pela UFRJ e autor de diversos livros sobre o carnaval carioca

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Revista Plumas & Paetês Cultural 2015 51 www.astralmusic.com.br


| Homenagem |

Luiz Carlos Almeida de Araújo

Q “MAMA ÁFRICA” OU “NEGRITUDE CADÊ VOCÊ?” A NEGRA ARTE BRASILEIRA

uando o então Ministro da Fazenda do primeiro governo republicano brasileiro, o “Águia de Haia” Ruy Barbosa, determinou a queima de toda documentação referente à escravidão no Brasil, controvérsias à parte, mal sabia ele que tal gesto não conseguiria eliminar totalmente a dita “mancha negra” nesse capítulo da nossa História. Ao contrário, em meio a lutas constantes para reafirmar sua identidade dentro do contexto nacional, a negritude brasileira espalhou-se ainda mais, ampliando seus espaços e talentos e, embora tenha enfrentado vergonhosa discriminação, que, infelizmente, ainda persiste, ela tem lutado permanentemente para ter direitos iguais, a nível social, político e cultural. Nesse último item, porém, parece que as conquistas lhe têm sido mais favoráveis, tornando-se essa condição quase que um marco, algo tido como genuinamente “made in Brazil”. Na Música, na Dança, no Teatro e em diversas formas de expressão artística, “ser negro” tem-se tornado uma garantia de sucesso, projeção, lucro e até mesmo de um certo “oportunismo”, ainda que os verdadeiros protagonistas dessas ações não possam usufruir mais diretamente dos que lhes é de direito, para o bem ou para o mal. Assim sendo, num artigo (com cara mais de crônica) como esse, que pretenda retratar a importância do negro no Brasil, parece evidente que não poderíamos fugir do clichê que associa esse elemento à nossa cultura, principalmente quando tratamos de aspectos musicais, ainda que nomes venham a ser (não propositalmente) omitidos. A negritude é uma realidade viva, responsável em muito pelo que somos, enquanto país mundialmente reconhecido. Já no Brasil Colônia, despontavam nomes como os da cantora lírica e atriz dramática Lapinha (Joaquina Maria da Conceição da Lapa) – que até virou peça de teatro e enredo de escola de samba, recentemente

–, cujas qualidades como intérprete acabaram por repercutir também em Portugal, vindo muito posteriormente a ecoar na brilhante carreira internacional que faria o soprano Maria D’Apparecida. Nos primórdios do século XX, Plácida dos Santos e Geraldo Magalhães (com suas parceiras de dupla) encantavam a Europa cantando e atuando. E quanto a Cândido (Índio) das Neves? E o trompete virtuosístico de Bonfiglio de Oliveira? Todos negros, sim senhor.

Bola Sete e Baden Powell – este com seus afrosambas – com seus violões que encantaram os gringos? Berimbau me confirmou: a Capoeira também foi invenção de negro. No cativeiro era sinônimo de resistência, mas fingiu ser dança e acabou por finalmente ser reconhecida como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO. E, por falar na nossa vastíssima percussão, convém lembrar a maestria de Djalma Correa, Naná Vasconcelos e Robertinho Silva.

Como não citar Henrique Alves de Mesquita, primeiro músico a ser agraciado por D. Pedro II com bolsa/prêmio de viagem ao exterior, além de Anacleto de Medeiros, líder nato, fundador da Banda do Corpo de Bombeiros, pioneiro das primeiras gravações fonográficas no Brasil, ambos também Maestros e compositores? E tantos outros que os sucederam à frente de orquestras, regendo ou fazendo arranjos, como Moacyr Santos, Carioca, Cipó e Erlon Chaves? E (José) Paulo (da) Silva, no campo dos estudos musicais sérios, vindo da Escola XV de Novembro, que superou sua condição humilde e virou professor de renome no então Instituto Nacional de Música?

Negros também são teus passos, Lundu, Maxixe, Samba – eu sou Zé Kéti – e quase tudo que a “Mama África” aqui nos deixou, conforme cantou o maranhense Chico César. Negra também é a moamba, a mandinga, muita reza forte, culinária, folclore e até a bunda, herança terminológica advinda de estratégica parte corporal (e, depois, “preferência nacional”) dos quibundos. “Lá vem a força, lá vem a magia…” do irmão negro – e não “de cor” –, o showman Wilson Simonal e sua “pilantragem”, fazendo crer a Sarah Vaughan que seu Inglês embromation era “perfect”. Paulo Moura representava a encarnação da malandragem sonora carioca, a gafieira por excelência, quando atacava seu saxofone soprano ou a sua clarineta, embora conceituado músico da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. E o que dizer do trombonista Raul de Souza, de carreira internacional?

Como ignorar Clementina de Jesus, a “Quelé”, tardiamente revelada ao público, e sua voz que refletia o banzo? E os benditos e ladainhas de Carmen Costa? E a voz macia de Alaíde Costa, o domínio de “crooner” de Áurea Martins? E do espanto que Louis “Satchmo” Armstrong teve ao ouvir aquele efeito de rouquidão, o rough característico de Elza Soares, ao ponto de chamá-la “my daughter” ela, a mesma Elzinha que defendeu também sambas de enredo? E é Grande Otelo fazendo parceria e escrevendo “Praça XI” e cantando “Boneca de pixe”. E é o batuta Pixinguinha na flauta e no saxofone tenor, tocando “Carinhoso” e outro choros, compondo as introduções dos Hinos dos clubes de futebol. E é Donga (Ernesto dos Santos) com seu “Pelo telephone”. E o que dizer de

Como esquecer dos vocais de “Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano”, “Os Tincoãs” e sua afrobrasilidade,“Trio Esperança”,“Trio Ternura”, “Os Golden Boys” e “As Sublimes”? E, mesmo mais “Tio Sam”, como ignorar a “Banda Black Rio”, o Gerson King Combo, a Sandra (de) Sá? E a “soul” do síndico Tim Maia, sob os auspícios do Jorge Ben(jor)? E o “Farofa Carioca” e seu bendito fruto, Seu Jorge? Ataulfo Alves (pai e filho), Heitor dos Prazeres, Monsueto, Blecaute, Noite Ilustrada, Francisco Egydio, Aparecida, Jovelina Pérola Negra, Luís Melodia, Emílio Santiago, Tobias, a cantatriz Zezé Mot-

ta, a “Marron” Alcione, Leci Brandão, Sonia Santos, Negra Li, Paula Lima, Rosa Marya (Colin), Tânia Maria, Djavan, as baianices de Gilberto Gil, Simone Moreno, Margareth Menezes e Virgínia Rodrigues (com aquele seu possante timbre de contralto) – todos negros, sem exceção. Negro foi Ismael Silva, que fundamentou as Escolas de Samba que nos deram, entre outros: Paulo (Benjamin de Oliveira) e Paulinho da Viola, ambos portelenses; Cartola, Xangô e Jamelão – eterno “crooner”, jamais “puxador de samba”! – na Mangueira; Aniceto, Silas de Oliveira, Mano Décio e Dona Ivone Lara, do Império Serrano. E um certo “Escurinho” chamado Geraldo Pereira, hein? Também podíamos falar de Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Dudu Nobre e também das amplas pesquisas sobre o assunto feitas pelo multifacetado Nei Lopes. E o Martinho da Vila, festejando a sua kizomba, buscando a lusofonia na diáspora? Geralmente pobres, quase sempre favelados, vindos das classes menos favorecidas, chamados de “feios”, narizes achatados, cabelos de carapinha (“ruins”?), soltos na vida, mal vistos, mal vestidos e mal falados, esses negros venceram barreiras à primeira vista intransponíveis, mostrando sua “RAÇA”, como cantou Milton Nascimento, outro astro que se impôs. Deixa que digam, que pensem, que falem,…deixa isso prá lá, né, Jair Rodrigues? A negritude está aí – ainda bem! – e não há nada mais a se fazer…Elis Regina estava mesmo certa: Black is beautiful!

Luiz Carlos Almeida de Araújo,

é Músico, Musicólogo (membro da Associação Nacional de Estudiosos e Pesquisadores da MPB), Jornalista, Poeta e Artista Plástico, além de Doutorando em Musicologia (áreas: MPB e Danças de Salão) pela Universidade Nova de Lisboa.

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| Homenagem |

Marcos Monteiro

O LADO NEGRO DO

FUTEBOL

A HISTÓRIA DO NEGRO E DO RACISMO NO ESPORTE PREFERIDO DO BRASILEIRO

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m 2015, o caso de racismo sofrido pelo jogador Daniel Alves, quando uma banana foi arremessada em sua direção ao bater um escanteio, inspirou o enredo da Imperatriz Leopoldinense, que exaltou a raça negra. Se parece loucura ainda presenciarmos episódios lamentáveis como este, o que imaginar das situações vividas pelos primeiros negros do futebol brasileiro? Nas próximas linhas serão relatados fatos que demonstram o racismo no futebol e que também, por outro lado, contribuíram para a busca de uma igualdade de condições para que todos o praticassem, independentemente de sua raça. O futebol chegou ao Brasil no final do século XIX, menos de dez anos após a abolição da escravatura. Neste princípio, era uma prática amadora disputada nos horários de lazer em clubes onde somente a elite da sociedade podia entrar. Com todos estes aspectos, fica fácil perceber como foi difícil a entrada dos mais pobres e principalmente dos negros nesta realidade. Mas não demorou para que essa história mudasse. O clube paulista Ponte Preta, após uma descoberta recente feita pelo historiador José Moraes dos Santos Neto, alega ser o primeiro time de futebol a abrir suas portas aos negros. A equipe de Campinas, desde sua fundação, possuía um negro em seu elenco. Trata-se de Miguel (Migué) do Carmo que atuou pela equipe entre 1900 e 1904, quando foi transferido para Jundiaí, pelo seu empregador, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, onde exercia o cargo de fiscal de linha. Por ter sido o primeiro time a aceitar negros, os adversários chamavam os jogadores da Ponte Preta de “macacos”. Com o tempo, a torcida incorporou o apelido, mas no feminino, em virtude do nome “Associação Atlética Ponte Preta” e hoje o mascote da equipe é o uma macaca. Até esta descoberta, tal primazia era do carioca Bangu que foi fundado em 1904, por ingleses que trabalhavam na Companhia Progresso Industrial do Brasil, a Fábrica de Tecidos Bangu. Por ser um clube localizado dentro de uma fábrica, com seus operários como jogadores, já no ano seguinte havia um negro no elenco: Francisco Carregal. Tal fato foi reconhecido publicamente no ano de 2001 pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, rendendo ao clube a Medalha Tiradentes pelo pioneirismo do clube ‘’na luta para superar preconceitos discriminatórios’’. Em 1907, o clube desligou-se da Liga Metropolitana, por ser proibido de continuar com Francisco Carregal em seu quadro de atletas. A medida foi publicada pelo jornal “Gazeta de Notícias” como uma insatisfação pela atitude tomada pela Liga em proibir o registro de “homens de cor”. Dizia o comunicado: “Comunico-vos que a diretoria da Liga, em sessão de hoje, resolveu por unanimidade de

votos que não sejam registrados como amador nesta liga as pessoas de cor”. Após este fato, somente em 1909, o clube voltaria a disputar o campeonato carioca. Em 1914, um fato mudaria para sempre a história do Fluminense. Neste ano, aconteceu uma dissidência no América e alguns jogadores foram para o clube das Laranjeiras. No dia 13 de maio (dia da abolição da escravatura) os dois clubes se enfrentaram no estádio tricolor e o clima entre as torcidas não era muito amistoso. Entre os jogadores que se transferiram estava o negro Carlos Alberto, que jogaria então pela primeira vez contra seu antigo clube. Antes da partida, o citado jogador passou pó-de-arroz no rosto (segundo alguns, com o intuito de parecer mais claro). Quando a torcida do América percebeu tal fato, começou a gritar: Pó-de-Arroz, pó-de-arroz... o que passou a fazer sempre que os dois clubes se enfrentavam, no que foi depois copiada por outras torcidas. Com o passar do tempo, o apelido foi assimilado pela própria torcida do Fluminense. Curiosamente, o mesmo estádio das Laranjeiras, viu, em 1919, Friedenreich, filho de um alemão com uma negra (que segundo arquivos da época alisava os cabelos antes de entrar em campo para parecer menos negro e chamar menos atenção) ser o herói do Sul-Americano de 1919, que é considerado o primeiro grande título da seleção brasileira. Ele foi um dos maiores atletas da era amadora do futebol, tendo feito mais de mil gols, sendo, hoje, nome de uma escola municipal localizada no estádio do Maracanã. Outro clube carioca que fez muito na luta contra o racismo foi o Vasco da Gama, que em 1904 já havia eleito o primeiro presidente negro de um clube esportivo carioca: Cândido José de Araújo. Mas o que fez o clube entrar de vez na história foi, no ano de 1923, quando conquistou pela primeira vez o campeonato carioca de futebol com um time formado basicamente por negros, operários e semi-analfabetos. Aumenta-se a grandiosidade do feito ao se registrar que nenhum time com, pelo menos, um negro havia sido campeão da competição que era disputada desde 1906. Como reação a este acontecimento, os clubes representantes da elite resolveram criar uma nova liga para o esporte, a AMEA (Associação Metropolitana de Esporte Amador), que em seu estatuto emanava toda a sua discriminação social quando falava sobre a inscrição de jogadores: “Não poderão ser inscritos: os que tirem os seus meios de subsistência de qualquer profissão braçal; os que não saibam ler ou escrever correntemente; os que habitualmente não tenham profissão ou empregos certos”.


Apesar de não citar diretamente as questões raciais, deixava-se claro a barreira social aos mais pobres e principalmente aos negros, que majoritariamente ocupavam as profissões braçais. Ao Vasco da Gama, então, foi exigido que afastasse 12 jogadores para que pudesse continuar disputando a competição. Em 7 de Abril de 1924, o clube enviou um ofício ao Presidente da AMEA com a finalidade de comunicar a saída do clube da Associação. Um trecho do ofício dizia o seguinte: “Quanto à condição de eliminarmos doze dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Clube de Regatas Vasco da Gama, não a dever aceitar”. Como resposta, dez dias depois, a AMEA dizia: “alimentávamos a esperança de que para o futuro, o clube fizesse todos os esforços para constituir equipes genuinamente portuguesas, para uma demonstração esportiva das verdadeiras qualidades dessa nobre raça secular”. No ano seguinte, houve acordo entre a AMEA e o clube, e foi permitido que os atletas continuassem representando o Vasco, naquilo que é considerado um grande feito em busca da igualdade no futebol brasileiro. Nos anos seguintes, mais uma vez um negro conseguiu destaque nos gramados. Trata-se de Leônidas da Silva, conhecido como o diamante

negro que foi o inventor da jogada conhecida como “bicicleta”, artilheiro da Copa de 1938 e maior ídolo do futebol nacional nos anos 30 e 40. Em sua homenagem, a Lacta passou a chamar o seu chocolate crocante com o nome de Diamante Negro, o que permanece até os dias de hoje. Por mais que a participação dos negros aumentasse, o caminho em torno da verdadeira igualdade ainda seria longo. Em seu livro “O negro no futebol brasileiro”, Mário Filho relata que, após a final da primeira Copa no Brasil, a culpa pela derrota caiu sobre três jogadores negros: Barbosa, Bigode e Juvenal. Em suas palavras: “o negro, a partir da Copa de 50, teria vivido todos os problemas de perseguição, injustiça e preconceito, que só seriam superados definitivamente com a vitória na Copa de 58, onde Garrincha e Pelé saíram heróis nacionais”. Ainda sobre 50, o antropólogo Roberto da Matta, em seu livro “Universo do Futebol”, afirmou que vários jornalistas da época justificaram a derrota através de questões raciais. Diziam eles: a culpa era da nossa constituição racial e ao peso que carregamos como uma sociedade formada por vários grupos inferiores como índios e negros. Porém, a conquista do primeiro título mundial em 1958 poderia não

ter ocorrido ou então não ter sido comandada por negros. Mário Filho (que hoje dá o nome ao estádio do Maracanã) relata que a maior preocupação antes da Copa era embranquecer o escrete. Didi era o único negro em campo na primeira partida e seu reserva Moacir, também era negro. Segundo alguns (em algo que nunca foi provado) existia um relatório de médicos e psicólogos onde era indicado que se evitasse que os negros jogassem pois eram considerados instáveis principalmente em momentos decisivos e de pressão. Porém, o treinador Vicente Feola, com a sequência dos jogos e principalmente após um empate em 0x0 com a Inglaterra e a pressão dos demais jogadores por alterações, resolveu modificar a equipe e foi a partir daí colocando outros negros no time, como: Garrincha, Vavá, Djalma Santos, Zózimo e Pelé que começaram a competição no banco de reservas. A partir desta conquista, os negros passaram a ser mais respeitados dentro de campo e a questão racial parou de ser um aspecto a ser analisado com relação ao desempenho dos atletas. Nos tempos de hoje, é inegável que temos grandes avanços quando comparamos a questão racial com o século passado, porém os recentes casos de racismo em estádios no Brasil e no exterior, assim como a baixíssima presença de negros nas arquibancadas dos estádios da Copa do Mundo 2014 demonstram que ainda estamos distante de uma verdadeira igualdade onde a cor da pele não seja base para comparações ou ofensas. Como diz o samba da Imperatriz, é preciso dar “Uma Banana para o Preconceito”.

Marcos Monteiro é mestre em educação em Ciências e Saúde – UFRJ, possui Licenciatura em Educação Física – UFRJ e professor integrante do núcleo de Estudos Afro-Brasileiros do Colégio Pedro II.

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| Ficha Técnica e Produção |

11ª Edição do Prêmio Plumas & Paetês Cultural PRODUÇÃO PREMIAÇÃO Produzido por Plumas & Paetês Cultural

ESPETÁCULO: “ELZA” (Homenagem a Elza Soares)

Direção geral de produção: José Antônio R. Filho Assistente de direção: Anderson Ferreira e Leandro Alessandro Assistência de produção: Beth Santos, Carlos Fraga, Elisa Santos, Fábio Canejo, Filipe Araújo, Glória Salomão, Gustavo Luiz, Izaquis de Paula, Janine Vieira, Jorge Luiz, José Maurício Tavares, Levi Cintra, Luiz Eduardo Fernandes, Maria Cristina Chaves e Rogério Damata Jornalista responsável: Tiago Ribeiro Cenografia: Levi Cintra Execução cenografia: ACENOGRAFIA Projeto e Operação de Luz: Jacques Stelzer Coordenação de palco: André Rambo Apresentadores: Miro Ribeiro e Thatyana Pagung Mestre de Cerimônia: Wilson Neto Assistentes de Palco: Carlos Eduardo, Clara Paixão e Raquel Dantas

Produção Executiva: José Antônio R. Filho Direção:Ruidglan Barros e Gilmar Oliveira Coreografias: Ruidglan Barros e com contribuição de Aline Lima (“Sindicato da Gafieira” e “Espumas ao vento”) Direção Musical, Arranjos e Regência: Edimar Silva Cenógrafo e Figurinista : Gilmar Oliveira, com a colaboração de Rogério Madruga Luz: Jacques Stelzer Direção Musical, Arranjos e Regência: Edimar Silva Maquiagem: Rosangela Pereira e equipe Elenco: (ordem alfabética) Alan Faria, Aline Lima, Amanda Jungbluth, Carlos Alves, Douglas Lima, Fabio Sant’Anna, Glauber Hilario, Hugo Lopes, Lucas Melo, Michelle Sandes, Raian Fonseca, Rodrigo Baiano, Roger Hilario, Rogerio Madruga e Suelen Gonçalves. Agradecimentos Especiais à bateria da Mocidade (pela apresentação) e Portela (pelos apoio nos figurinos)

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... Muito emocionante ser reverenciada com Prêmio

um troféu desses. É muito importante para mim e para todos nós que gostamos do

Prêmio

Brasil, que somos brasileiros, nós negros,

nós brancos, nós mulatos. Vocês quem me deram esse prêmio. Muito obrigada.

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Revista Plumas e Paetês 2015  

Revista do Prêmio Plumas e Paetês Cultural Edição 2015

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