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Prefeito do Recife João da Costa Vice-prefeito do Recife Milton Coelho Secretaria Especial de Relações com a Imprensa Ceça Brito Diretoria de Jornalismo Ida Comber

Equipe Técnica Coordenação Zélia Sales Supervisão Albemar Araújo Entrevistas, Pesquisa e Produção de textos Leilane Nascimento e Mário Ribeiro

Secretaria de Comunicação Ruth Vieira

Transcrições, Pesquisa Documental e Iconográfica Marla Derzi e Mayara Ferreira

Diretoria de Propaganda e Criação Kássia Araújo

Revisão de Textos Norma Baracho Araújo

Secretaria de Cultura Renato L

Design Gráfico Hugo Vasconcelos

Coordenador Geral do Carnaval do Recife André Brasileiro

Colaboração Anderson Carlos, Dionísia, Leandro Souza, Perácio Gondim e Vera Regina Marques

Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural Lorena Veloso Gerente de Preservação do Patrimônio Cultural Imaterial Carmem Lélis Gerente do Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural – Casa do Carnaval Alzenide Simões

Fundação de Cultura Cidade do Recife Presidente Luciana Félix Diretoria de Desenvolvimento e Descentralização Cultural Dida Maia Gerente de Artes Cênicas Albemar Araújo Gerente de Formação Cultural Zélia Sales Gerente de Serviços Pedagógicos Mário Ribeiro Gerente de Serviços de Produção Gráfica Lúcia Helena N. Rodrigues

Fotografias Marla Derzi e Paulinho Mafe Agradecimentos Graça Xavier/ Boi da Cara Branca / Boi Faceiro / Caboclinho Sete Flexas / Equipe da Casa do Carnaval / Escola de Samba Gigantes do Samba / Maracatu de Baque Solto Piaba de Ouro / Maracatu Nação Estrela Brilhante / Maracatu Nação Porto Rico / Tribo de índio Tupinambá / Urso Zé da Pinga


Esta cartilha afirma-se como um produto cultural indispensável à compreensão da diversidade cultural que encontramos no Carnaval Multicultural do Recife. Por meio dela, os cidadãos do mundo podem conhecer melhor toda a riqueza e a criatividade das nossas agremiações carnavalescas aqui apresentadas com suas cores, seus ritmos e suas belas performances. Aqui, está expressa, em detalhes, toda a multiculturalidade da maior festa popular do Recife, que reúne milhares de pessoas em torno das nossas raízes, preservadas ao longo da história e que pulsam no coração de cada folião. A Cartilha do Carnaval do Recife apresenta-se como um instrumento valioso na divulgação da nossa cultura mundo afora e também como fonte de pesquisa para as novas gerações. Que todos tirem dela o melhor proveito. João da Costa Prefeito do Recife


Apresentação No rico e complexo universo do Carnaval do Recife, o desfile das agremiações carnavalescas ocupa um lugar de destaque. Um verdadeiro ritual. Expressão maior de um processo vital em fluxo constante, que anualmente se renova, invade as ruas da cidade, enchendo-as de cores, brilhos e ritmos. O planejamento de um desfile começa quando mal termina o carnaval. Ainda com as marcas das cinzas na testa, o carnavalesco estuda e define um novo tema1 a ser levado pelas agremiações à avenida. Dessa forma, na maior parte do tempo, o ano carnavalesco está sempre um ano na frente do calendário corrente, pois nele tudo converge para o seu desfecho festivo. Nesse sentido, carnaval significa não apenas a festa, mas toda a sua preparação, ao longo da qual um novo enredo transformar-se-á gradualmente em alegorias e fantasias. Cada elo desse processo põe em cena não só formas distintas de expressão artística, mas também mecanismos de articulação das mais diversas ordens protagonizados por grupos sociais muito diferenciados entre si. Este trabalho segue os passos desse grandioso ritual. No Recife2, 330 manifestações culturais, distribuídas em 11 modalidades (Clubes de Frevo, Troças, Clubes de Boneco, Blocos Líricos, Maracatu de Baque Solto, Maracatu de Baque Virado, Urso, Boi, Caboclinho, Escola da Samba e Tribo de Índio), ocupam hoje com desfiles o centro de uma festa espetacular, disputando o título de campeãs de cada modalidade, na maior competição festiva da cidade: o Concurso de Agremiações Carnavalescas, Com exceção das tribos de índio, dos caboclinhos, dos bois, dos maracatus de baque virado e baque solto, as outras modalidades de agremiações que desfilam no Carnaval do Recife costumam apresentar-se com base nos temas criados pelos carnavalescos de cada grupo. Assim, as escolas de samba, os clubes de frevo, as troças, os blocos líricos, os clubes de boneco e os ursos levam para as ruas temas relacionados à cultura popular, a personalidades, à história da cidade, do estado, etc. 2 No Recife, além das agremiações que participam do Concurso de Agremiações Carnavalescas, outras manifestações como os afoxés, blocos de samba, alguns blocos líricos, entre outras modalidades, também fazem parte do calendário festivo da cidade. 1


promovido pela Fundação de Cultura, da Prefeitura do Recife3. Aqui, a rede de relações sociais trançadas ao longo do ano atinge nesse momento seu grau máximo de expansão: as agremiações não só reuniram todos os seus elementos como aspiram agora comunicar-se com a cidade inteira. Como toda competição envolve uma relação de confronto, de troca, o concurso atua como uma arena, onde se confrontam grupos culturais diferenciados, exibindo novas tendências e preservando referências; contudo, valorizando as diferenças. Um verdadeiro canal, uma via de acesso que possibilita a esses segmentos extrapolar fronteiras, mobilizar-se como categoria e obter conquistas políticas significativas. A Gerência de Formação Cultural e a Gerência de Artes Cênicas têm um papel importante nesse processo, com a realização de seminários, pesquisas, capacitações, palestras e oficinas, ampliando os espaços de discussão e reflexão em torno da temática, defendidos pela política cultural desta gestão. Um conjunto de ações que, documentadas, se concretiza neste trabalho, no qual apontaremos, através de uma dimensão didática necessária para conquistar a atenção dos mais diferentes públicos, a multiplicidade de aspectos que compõem o desfile das agremiações carnavalescas. Falaremos da festa, do rito, da música e da dança, mas também destacaremos os diversos contextos históricos, as estruturas de apresentação dos grupos, os princípios que os norteiam e os embasam, entre outros aspectos que dominam a configuração desses processos culturais nos últimos anos. Acreditamos que compreendê-los é, ao mesmo tempo, compreender a cidade que os realiza e as tensões que a constituem e nela se desenvolvem. Esse é o propósito deste trabalho. Albemar Araújo (Gerência Operacional de Artes Cênicas) Zélia Sales (Gerência Operacional de Formação Cultural)

A Prefeitura do Recife, por intermédio da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, realiza, além do Concurso de Agremiações Carnavalescas, os Concursos de Porta-Estandarte, Passista e Rei Momo e Rainha do Carnaval, os quais acontecem nas últimas semanas que antecedem o Carnaval. 3


Sumário

As Agremiações Carnavalescas 09

Clubes de Frevo 17 Troças 23 Blocos Líricos 27 Clube de Bonecos 31 Maracatu de Baque Virado 35 Maracatu de Baque Solto 41 Escolas de Samba 49 Urso 57 Boi de Carnaval 63 Caboclinho 69 Tribo de Índio 75 Afoxé 79 O Concurso de Agremiações 83 Bibliografia 85


T.C.C.M TĂ´ Chegando Agora


As Agremiações Carnavalescas [...]Para fazer carnaval é preciso refazê-lo sempre.4

A frase da socióloga Maria Laura Viveiros nos possibilita pensar o desfile de uma agremiação carnavalesca inserido num tempo ritual cíclico, no qual desfilar é brincar de se exibir, é se exibir brincando, é dar tudo de si5. É o tempo da transgressão. É carnaval! Mas também é tempo de tornar explícita a recusa a uma simples inversão ou anulação das desigualdades étnico-sociais do cotidiano. É protestar, é lutar pela conquista de espaços, indo em busca de reconhecimento. Reconhecimento de um trabalho capaz de provocar no expectador sentimentos e atitudes diversas, como o desejo de frevar, de sambar, de cantar; de participar da evolução que uma ala harmoniosa e alegre desperta; de se encantar com a vitalidade das manobras dos passistas; de se emocionar com o batuque do maracatu que pulsa junto com o coração. Enfim, todos os possíveis e imagináveis sentimentos capazes de provocar no público e na torcida que se mistura nas arquibancadas. No desfile de uma agremiação, as ideias se expressam em sons, cores, ritmos, fantasias, alegorias, infinitos tecidos e variados materiais; relações heterogêneas que se sucedem e culminam numa ação maior. Cada desfecho é uma razão de ser: o que importa é levar a agremiação para a rua. Vitória ou derrota, ela celebra a si mesma e revela o desejo e a necessidade de preencher o fluxo do tempo com um sentido coletivo e partilhado. São meses de trabalho constante. Extrema dedicação. O esforço conjunto é a principal característica dos momentos de encontro entre os integrantes, seja oferecendo sua mão-de-obra para bordar, colar, cortar, costurar, desenhar, seja pensando em alternativas que levantem recursos necessários para transformar sonhos em realidades. CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Funarte; UFRJ, 1994. 5 Ibid. p. 192 4




Em geral, os preparativos têm início a partir do segundo semestre com a escolha do tema pelos membros da diretoria. Uma vez estabelecido o tema, o carnavalesco responsável pela agremiação idealiza as fantasias, os adereços e as alegorias, indicando o tipo de material que será necessário para a confecção, o número de desfilantes, assim como a equipe de profissionais que será contratada para toda a produção (costureiras, bordadeiras, artesãos, marceneiros, figurinistas, coreógrafos, maquiadores, entre outros). As despesas com a quantidade de músicos (no caso das agremiações que desfilam com orquestras), a contratação de transporte (para os componentes e alegorias), pessoal de apoio, assim como os destaques de luxo, que desfilam nos principais bailes carnavalescos da cidade, também estão incluídos no planejamento das agremiações. Para a captação de recursos, são inúmeras as formas utilizadas pelas agremiações: rifas, bingos, sorteios, piqueniques, eventos culturais (Paixão de Cristo, São João, apresentações de Pastoril), doações (comerciantes e empresários), subvenção (Prefeitura, Governo do Estado, Patrocinadores), livro de ouro, cachês de apresentação, venda de camisas, CDs e a realização de festas, geralmente bailes dançantes, promovidos pelas agremiações que possuem sede própria. Fazemos festas a semana inteira. Nas segundas-feiras, a Festa da Terceira Idade, das 16 às 22 horas, com apresentação da orquestra do Clube das Pás; abrimos e encerramos as festas sempre tocando frevo, depois é que tocamos outros ritmos como samba, salsa, rumba, etc. Nas quartas-feiras, das 18 às 23 horas, temos a Quarta nas Pás; nas sextas-feiras, a Sexta nas Pás, iniciando às 23 horas; e para encerrar temos o Sábado e o Domingo Alegre, também à noite. Em alguns feriados importantes fazemos manhãs de sol. Vivemos da renda da bilheteria e do bar para comprar os tecidos, pagar as costureiras, as bordadeiras, os funcionários que trabalham na sede, a orquestra, entre outras despesas (Zene dos Anjos Bezerra, vice-presidente do Clube Carnavalesco Misto das Pás). As sedes das agremiações constituem um espaço de grande valia nessa fase preparatória. É lá onde acontecem as sessões de corte e costura, colagem dos adereços, bordados, os ensaios dos cordões, dos passistas, 10


enfim, toda a produção do brinquedo. Para as agremiações que não possuem um espaço próprio para essas ocasiões, a simples estrutura física das residências onde vivem seus dirigentes, transforma-se em verdadeiros ateliês: fantasias e adereços espalhados pela casa, presos à parede ou pendurados ao teto acompanham a realidade e traduz a condição de classe dessas pessoas. Vivenciar o cotidiano de uma agremiação é dividir os mesmos sentimentos, sejam eles de angústia, aflição, alegria, tristeza. Nas sedes ou nas casas dos representantes, os encontros quase diários fortalecem o vínculo entre os integrantes dos brinquedos. Os ensaios, os encontros para a produção das fantasias e adereços reafirmam esse pertencimento de grupo. Reúnem vizinhos, parentes, amigos, companheiros de trabalhos. A avenida é a apoteose. É o momento da consagração. A hora tão esperada para mostrar as danças, o desenho coreográfico, as fantasias – o resultado de um trabalho. É também o momento de ser tratado como rei, ser aclamado, ter honras, sair do anonimato, realizar desejos e reforçar laços religiosos. Cada grupo possui a sua própria identidade, que se traduz nos estandartes6, cartazes e flabelos7, pavilhões8 e alegorias levados para as ruas. Marcas que os referendam historicamente e os legitimam. Assim, o Clube das Pás, o Vassourinhas, entre outros, continuam trazendo em seus desfiles, cordões com brincantes ostentando os seus respectivos símbolos: as pás, as vassouras, entre tantas outras marcas capazes de identificá-los como pertencentes a um mesmo grupo. O nome de uma agremiação, vinculado à região de origem, com a respectiva comunidade, Espécie de bandeira que vem à frente da maioria das agremiações carnavalescas – clubes, troças, maracatus, caboclinhos, tribos de índios e bois – abrindo seus desfiles e confeccionado com veludo acolchoado; apresentam desenhos, símbolos, pinturas ou bonecos em alto relevo; são bordados com lantejoulas, miçangas, pedrarias, e galões, além de possuírem aplicações de lamê (tecido brilhoso) em estilo barroco e acabamento com franjas e galões dourados. 7 Estrutura confeccionada com papelão ou madeira, contendo o nome, o ano de fundação e ano em que a agremiação está desfilando, além de alguns elementos de ornamentação que fazem alusão ao tema. Os flabelos são típicos dos blocos líricos e os cartazes, dos ursos. 8 Símbolo maior de uma Escola de Samba, confeccionada com as cores, o ano de fundação e o símbolo da escola. 6

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também estabelece noção de identidade, que resulta na valorização e na exaltação do brinquedo com base na origem geográfica. Como exemplos, podemos citar: Batutas de São José, Pierrot de São José, Toureiros de Santo Antônio, Madeira do Rosarinho, Abanadores do Arruda, Banhistas do Pina, Batutas de Água Fria, entre outras. Os hinos e as músicas, por sua vez, pertencentes ao repertório das agremiações têm um forte papel na referência dos grupos. Suas letras falam por si só, retratam a diversidade cultural da localidade, as festas, as rivalidades, as belezas naturais, os artistas, o patrimônio da cidade. Outra especificidade, que marca a identidade e o fortalecimento dos grupos, atuando como um fator de aglutinação é a religião. No Carnaval do Recife, grande parte das agremiações culturais tem uma forte ligação com as práticas religiosas afro-brasileiras, em especial o Candomblé, a Jurema e a Umbanda. Essas religiões se destacam pelo considerável número de adeptos, os quais acreditam estar protegidos, ter paz e sucesso durante as suas andanças ao evocarem as divindades e as entidades, por meio de rituais e cânticos propiciatórios. Não há Maracatu Nação, Maracatu de Baque Solto, Afoxé, Escola de Samba ou qualquer outra modalidade ligada às práticas religiosas afrodescentes – que saiam às ruas sem antes fazer o padê de Exu. É nesse momento que o orixá que domina a dinâmica da vida recebe oferendas como bodes, galos e farofa amarela de dendê. “Exu é o dono da rua. É preciso ter seu consentimento para que tudo transcorra bem”, explica um sacerdote do culto nagô no Recife. Embora a influência das religiões afro-brasileiras seja mais explícita nas apresentações dos grupos que utilizam nos seus repertórios ritmos e letras típicos dos terreiros de Xangô e Jurema, e seus integrantes se apresentem com roupas no estilo africano ou religioso (torços, panoda-costa, fios de conta), outras manifestações como os caboclinhos, o boi de carnaval, as troças, os blocos, os clubes de boneco e os clubes de frevo também possuem uma forte ligação com tais práticas religiosas. 12


No Caboclinho Canindé 9, por exemplo, “muitas frutas, mel e flores são oferecidos dias antes do carnaval para Canindé. Ele é minha vida. Eu não incorporo ele, eu sou apenas a sua zeladora”, comenta Juracy Simões, presidente da agremiação.10 Nas ruas, as cores das agremiações também costumam indicar a relação com a religião. Na Troça Carnavalesca Mista Abanadores do Arruda, o vermelho e o verde revelam a relação do grupo com o orixá Ogum – grande conhecedor da metalurgia, do poder de transformação do ferro em armas e utensílios, necessários para as guerras e a agricultura. A boneca amarela, fixada no alto do seu estandarte, representa um outro símbolo da troça, desta vez fazendo referência a Oxum – divindade relacionada à fertilidade das mulheres, aquela que garante a continuidade das famílias e a subsistência das comunidades. O depoimento a seguir, de Cláudio Brandão, presidente do Clube de Boneco Seu Malaquias, reforça o pensamento anterior e legitima a devoção que alguns brincantes carregam em seus orixás patronos ao preservar as cores da agremiação: “as cores do boneco são vermelha e branca porque meu avô gostava de Xangô. Meu pai também. E meu pai disse [para] sempre manter essa tradição”11. Alguns objetos trazidos pelas agremiações para os desfiles e preservados ao longo dos anos, também se apresentam impregnados de simbolismos. O medalhão, por exemplo, pendurado no peito do Boneco Seu Malaquias e a boneca colada no alto do estandarte da Troça Abanadores do Arruda têm nas suas origens um forte fundamento religioso. Nesse sentido, a presença da cultura afro-brasileira no Carnaval de rua do Recife evidencia-se por meio de inúmeras (re)interpretações, ultrapassando o período de Momo, interferindo no cotidiano dos brincantes, assim como na vida social da cidade. O Caboclinho Canindé foi fundado em 1897 no bairro de Afogados. Desde o início do século XX, possui sede na comunidade da Bomba do Hemetério – região da zona norte do Recife. 10 Relato de Juracy Simões, presidente do Caboclinho Canindé do Recife, dia 20 de março de 2007. Acervo Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural – Casa do Carnaval, Prefeitura do Recife. 11 Entrevista realizada com Cláudio Brandão, atual presidente do Clube de Boneco Seu Malaquias, em Água Fria, Recife, no dia 05/10/2006. Acervo Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural – Casa do Carnaval, Prefeitura do Recife. 9

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Clubes de Frevo


C.C.M Transporte em Folia


Clubes de Frevo Os primeiros Clubes de Frevo do Carnaval do Recife remontam às últimas décadas do século XIX, com as comemorações festivas realizadas pelos grupos de trabalhadores urbanos, geralmente da mesma profissão. Esses grupos são denominados Clubes Pedestres e desfilam, em bandos, pelas ruas e becos das freguesias do Recife, Santo Antônio, São José e Boa Vista, enchendo-os de cores, alegria e musicalidade. Entre esses clubes, destacam-se os Caiadores, Vassourinhas, Borboleta, Canna Verde, Immigrantes Contractados, Clube das Pás de Carvão12, etc., que trazem entre seus associados, trabalhadores assalariados, jornaleiros, biscateiros, empregadas domésticas, travestis, pequenos comerciantes, capoeiras, vendedores ambulantes, prostitutas, capangas, moleques de rua, entre outros grupos sociais não menos marginalizados. Essa forma estratificada de brincar o carnaval, relatada por cronistas e estudiosos do Carnaval recifense, revela como as camadas populares criam e desenvolvem formas particulares de participar dos festejos de Momo na cidade. Não demora e logo substituem os bailes e as músicas dos salões e teatros da cidade, freqüentados pela elite, por animados cortejos públicos embalados por marchas vibrantes, executadas pelas bandas militares, anos mais tarde denominadas frevo. Nos anos 1960, os Clubes Pedestres perdem essa denominação e passam a se chamar Clubes de Frevo. Esse termo foi dado pela antropóloga norteamericana Katarina Real, nos seus estudos sobre as manifestações folclóricas do Carnaval de Pernambuco, para diferenciar dos outros clubes de pedestres (Blocos, Troças, Escolas de Samba). Os Clubes de Frevo, ou simplesmente,“cubre”, segundo a fala do povo, reelaboram a sua estrutura e coreografias, incorporando novos Muitos desses clubes desapareceram do cenário carnavalesco recifense, em razão, principalmente, das dificuldades financeiras para sua manutenção. Entre as agremiações citadas, ainda desfilam no reinado de Momo da Cidade, o Clube das Pás Douradas e o Clube Vassourinhas. A respeito desse assunto, consultar a obra de ARAÚJO, Rita de Cássia. Festas: máscaras do tempo: entrudo, mascarada e frevo no carnaval do Recife. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1996. 12

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personagens e elementos. Das organizações anteriores, conservam o uso de estandartes (uma espécie de bandeira com o nome e com as cores da agremiação, o símbolo, o ano de sua fundação e o ano em que está desfilando) e alguns símbolos, hoje, conhecidos como alegorias de mão; além de algumas figuras como o morcego, a morte e o diabo, heranças das procissões católicas realizadas no período colonial brasileiro; os capoeiras, também conhecidos como os brabos ou os valentões, que vinham à frente dos cortejos, foram substituídos por grupos de passistas que, formados numa ala específica, executam verdadeiros jogos de braços e pernas; já as bandas militares, estas cederam lugar para as orquestras de metais, que animam o cortejo, executando hinos e músicas pertencentes ao repertório de cada agremiação. Assim, em meio a tantas transformações, os clubes geralmente se apresentam com a seguinte formação: • uma faixa com o nome da agremiação, ano de fundação e desfile, seguido do tema a ser apresentado; • a Diretoria, com trajes ou fantasias que façam alguma referência ao tema ou simplesmente com as cores do clube; • as Balizas-puxantes, isto é, uma espécie de comissão-de-frente, formada por moças ou rapazes da comunidade, que se apresentam fantasiados de acordo com o tema ou não; • Damas de frente: mulheres com fantasias confeccionadas com tecidos requintados (sedas, veludos e rendas), em tons fortes, com muito brilho e plumas; • Destaques, pessoas com fantasias de luxo que podem ser tanto da comunidade como contratadas exclusivamente para o desfile; • Cordões: constituem um dos principais itens do desfile de um clube. Geralmente são formados por desfilantes, criteriosamente trajados, dispostos em fileiras, que fazem evoluções, ostentando alegorias como, por exemplo, o símbolo da agremiação, ou que estejam relacionadas ao tema, percorrendo todos os espaços do cortejo. 18


• O Porta-estandarte é um capítulo à parte. Contagiando todos com as suas manobras de um passista equilibrista, esse personagem chama a atenção do público pela desenvoltura com que conduz o símbolo maior da agremiação: seu estandarte. Apresenta-se trajado à Luiz XV, com peruca, casaco, jabot (uma espécie de babador com franjas), meiões e sapato de salto com fivela. Em sua volta, ou reunidos numa outra ala, os passistas, com fantasias que variam de acordo com o tema ou com as cores da bandeira de Pernambuco. Alguns grupos trazem ainda na sua composição carros alegóricos. Geralmente cada clube tem o seu próprio repertório, trazendo para a avenida uma orquestra compostas por saxofones, clarinetes, pistões, trombones, tubas, taróis, surdos e bombardinos. A dança, por sua vez, executada por todos os desfilantes, é o passo do frevo, que contagia a todos num animado sobe e desce. São observadas também algumas evoluções, ou seja, tipo de dança característica daqueles participantes que desfilam com fantasias pesadas, tendo dificuldades para apresentar-se exibindo vigorosos passos de frevo. No Recife, 23 clubes desfilam durante o Carnaval. Entre eles: o Clube das Pás (fundado em 1888); Bola de Ouro (1915); Lenhadores do Recife (1897); Toureiros de Santo Antonio; o Clube Lavadeiras de Areias (fundado como troça, no Recife, em 1940, hoje clube); o C.C.M. Vassourinhas do Recife (fundado em 1889); Girafa em Folia (1960); Pavão Misterioso (1975); Reizado Imperial; Coqueirinho de Beberibe; Prato Misterioso; Tubarões do Pina; Pão Duro; Guaiamum na Vara; Girassol da Boa Vista; Arrasta Tudo; entre tantos outros.

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Troรงas


Troรงa Abanadores do Arruda


Troças As Troças assemelham-se aos Clubes de Frevo em menor tamanho. Saem pela manhã ou à tarde, apresentando-se nas ruas do centro ou do subúrbio.13 Nas comunidades em que se originam, arrebatam homens, mulheres, crianças e idosos. Pessoas de todas as idades, cores e religiões. O improviso, a descontração e a irreverência são a tônica no desfile dessas agremiações. A palavra “troça” vem do verbo “troçar” que significa “ridicularizar”, “escarnecer”, “zombar de”. Palavras que traduzem o verdadeiro espírito da brincadeira: diversão. O surgimento de uma troça está quase sempre ligado a uma história pitoresca, uma brincadeira nascida de uma reunião entre amigos. Como exemplo citamos a história da Troça Carnavalesca Mista Cachorro do Homem do Miúdo: Na volta de um enterro, alguns associados do Clube Toureiros de Santo Antônio presenciaram uma cena na qual um vendedor de miúdo, embriagado, tentava juntar o cavalete e o seu tabuleiro para ir para casa. Algumas pessoas tentaram ajudar, o que não foi possível, pois o tabuleiro caiu, espalhando os miúdos pelo chão. Vários cachorros acompanhavam o miudeiro sendo observados pelo grupo na expectativa de que os cachorros se atirassem à sua mercadoria, devorando-a. Para surpresa geral, os cães não tocaram no miúdo nem deixaram ninguém se aproximar. Diante da situação inusitada, um dos presentes propôs fazer uma brincadeira: criar uma troça para sair no carnaval: assim nasce o Cachorro do Homem do Miúdo. Na rua, a organização de uma troça no momento de sua apresentação obedece à seguinte seqüência: a diretoria, seguindo-se da Comissão de frente, cordões, damas, passistas, fantasias de destaques, portaestandarte e uma orquestra de metais, que encerra o desfile. Essas orquestras possuem um número variado de músicos, e são responsáveis por executar os hinos e frevos próprios do repertório da agremiação. 13

No concurso de agremiações carnavalescas, o primeiro clube entra na avenida a partir das 19 horas.

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Curiosamente, temos a presença de algumas troças tradicionais que, diferentemente, trazem grandes orquestras, alas rigorosamente organizadas, temas bem desenvolvidos, destaques grandiosos e são tão ou mais luxuosas do que os clubes noturnos, tornando-se o horário do desfile quase um determinante para a sua designação. Nesse sentido, apesar de quase todos os clubes começarem como troças, a exemplo do Lavadeiras de Areias, Elefante de Olinda, entre outros, o apego à sua forma original faz com que algumas troças resistam a passar à categoria de clubes; é o caso, por exemplo, da Troça Carnavalesca Mista Abanadores do Arruda, fundada no Recife, em 1º de outubro de 1934. Hoje, um grande número de troças desfila no nosso carnaval; algumas filiadas à Federação Carnavalesca de Pernambuco; outras independentes, formadas por intelectuais, poetas, médicos, entre outras pessoas com padrão socioeconômico diferente do da grande maioria das agremiações dessa modalidade. Como exemplo, podemos citar a Troça Carnavalesca Independente Nóis Sofre Mais Nóis Goza, fundada no Recife, em 1976. No Concurso de Agremiações Carnavalescas, desfilam 41 troças, divididas em Grupo Especial, Grupo 1, Grupo 2 e de Acesso, além daquelas que desfilam nos pólos descentralizados (locais de apresentação afastados dos pólos de concurso do centro da cidade; geralmente distribuídos pelos subúrbios recifenses: Ibura, Alto José do Pinho, Morro da Conceição, Várzea, Pina, etc.) Entre as troças que participam do concurso, podemos destacar: T.C.M Abanadores do Arruda (1934); T.C.C.M Tô Chegando Agora (1987); T.C A Mãe é Minha (1999); T.C.M Quem Fala de Nós Não Sabe o Que Diz (1986); T.C.M Formiga Sabe Que Roça Come (1957); T.C.M O Bagaço é Meu (1929).

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Blocos LĂ­ricos


B.C.M Pierrot de São José


Blocos Líricos Os blocos eram “a nota de distinção e jovialidade” do carnaval da elite recifense nos anos vinte.14

Originados dos bairros centrais do Recife15 dos anos 1920, os blocos, também chamados Blocos Líricos ou Blocos de Pau e Corda, têm na sua formação primitiva, uma certa similitude com os ranchos carnavalescos do Rio de Janeiro, surgidos no final do século XIX.16 É importante destacar ainda a sua semelhança com os grupos de pastoril (dança de origem européia que faz parte das manifestações culturais do ciclo natalino na nossa região). Explica-se aí a própria formação do Bloco, com o coral feminino à frente acompanhado por uma orquestra de pau e corda, isto é, alguns instrumentos como banjo, violão, cavaquinho, entre outros. Segundo Silva , o aparecimento dos blocos vai tornar possível “às moças e senhoras da chamada pequena burguesia [...] saírem às ruas, mas protegidas por um cordão de isolamento, envolvendo todo o grupo e separando-o da multidão, sob a severa vigilância de pais, maridos, irmãos, genros e amigos”. Nesse percurso, passamos a observar que os blocos nasceram sob o signo da ordem e com o apoio de intelectuais e da polícia, sendo aplaudidos como contraponto ao carnaval dito “perigoso” dos clubes pedestres e maracatus formados pela classe trabalhadora, em geral afrodescendentes, considerados responsáveis pela criminalidade, desordem na folia e não adequados à imagem civilizada que os homens de letras da nascente República tentavam construir para o país. BEZERRA, Amílcar Almeida; SILVA, Lucas Victor. Evoluções: histórias de bloco e de saudade. Recife: Bagaço, 2006. 15 Chamaremos de bairros centrais do Recife, os principais núcleos populacionais da cidade nos anos 1920. São eles: bairro do Recife, São José, Santo Antônio e Boa Vista. Anos mais tarde, em virtude de uma série de transformações que afetam as áreas centrais da cidade, novos blocos começam a surgir em bairros como Tejipió, Campo Grande, Afogados etc. 16 SILVA, Leonardo Antônio Dantas. Carnaval do Recife. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2000. p. 13. 17 Ibid, p. 136. 14

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Assim, os blocos aparecem formados por grupos de “rapazes de responsabilidade e posição na sociedade” e “gentis e distintas damas” que se fantasiavam com trajes bem mais leves que as luxuosas fantasias típicas das antigas sociedades e clubes de alegoria. Diferentemente da maioria das agremiações carnavalescas que tem o estandarte como abre-alas, no Bloco, o desfile é aberto pelo flabelo – alegoria de mão que traz o nome, a data de fundação e o símbolo da agremiação. Na rua, desfilam obedecendo à seguinte estrutura: • o flabelo: uma espécie de alegoria, conduzido com leveza pela pastorinha que abre o desfile; • a diretoria: pessoas fantasiadas, geralmente de acordo com o tema ou com as cores do bloco; • as damas de frente; seguindo-se das fantasias de destaque, os abajours e os cordões; • um coral de vozes feminina, entoando canções com temas que quase sempre evocam antigos carnavais e prestam homenagens a ícones da cultura pernambucana. • a orquestra de pau e corda encerra o desfile Como exemplos dessa categoria, podemos citar Bloco das Flores, 1920; Flor da Lira do Recife, 1920; Madeira do Rosarinho, 1926; Batutas de São José, 1932; Banhistas do Pina, 1932; Pierrot de São José, 1978; Mandarim em Folia; Príncipe dos Príncipes; Lira da Noite; Flor da Lira do Recife; entre outros blocos, ricamente harmônicos, que fazem parte da história do Carnaval recifense, mas que não participam do Concurso de Agremiações Carnavalescas. São eles: Bloco da Saudade, Eu Quero é Mais; Bloco das Ilusões; Nem Sempre Lily Toca Flauta; Cordas e Retalhos; entre tantos outros, que surgem de núcleos familiares, artistas e intelectuais, geralmente da classe média. É importante destacar, ainda, os acertos de marcha18 e o tradicional Encontro de Blocos que acontece, todos os anos, nas segundas-feiras de Carnaval no Recife. Os encontros organizados pelos blocos líricos para ensaiarem suas marchas são comumente conhecidos como acertos de marchas. 18

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Clube de Bonecos


C. de Boneco Tadeu no Frevo


Clube de Bonecos Os Bonecos Gigantes surgem na Europa, provavelmente na Idade Média, sob a influência dos mitos pagãos escondidos pelos temores da Inquisição. Chegam ao Brasil por meio dos portugueses, desfilando inicialmente em procissões e festividades religiosas na figura de bufões ou reproduzindo santos católicos. A tradição de Bonecos Gigantes no Carnaval de Pernambuco destaca-se principalmente na cidade de Olinda. O primeiro da enorme família de gigantes foi o da troça O Cariri, que saiu no carnaval de 1932. A seguir, o Homem da Meia-Noite, depois a Mulher do Dia, o Menino da Tarde, entre outros. No Recife, os Bonecos desfilavam como clubes e troças, estabelecendose em uma categoria específica a partir da década de 1970. Até 1977 era troça, era estandarte. Foi quando o ex-presidente da Federação Carnavalesca, Mario Orlando, falou pro meu pai “Zezinho já tem muita categoria de estandarte, pega o teu clube e forma a categoria de boneco”. [...] O idealizador foi ele, de transformar aqueles clubes que tinham estandarte e bonecos pra formar uma categoria única de boneco. Cláudio Brandão – Clube de Boneco Seu Malaquias Os Clubes de Bonecos saem acompanhados por uma orquestra de metais ao som do frevo-de-rua e, ao contrário das outras agremiações, não trazem bandeira ou estandarte, a principal alegoria é o boneco. Eles desfilam fantasiados, algumas vezes com o nome do clube ou do personagem ao qual representam em uma faixa atravessada no corpo, dançam e reverenciam personalidades curvando-se diante delas e de espaços ou casas ilustres. Há bonecos com até três metros e meio de altura, que pesam em média 35 quilos. O material utilizado na confecção varia bastante, podendo ser de papel machê, fibra ou tecido. Os Bonecos que brincam no subúrbio do Recife e nas ladeiras de Olinda trazem o Boneco acompanhado apenas da orquestra e da multidão, no entanto, os que participam do Concurso de Agremiações Carnavalescas trazem diversos outros elementos como diretoria, passistas, destaques, cordões, alas e outros desfilantes que se apresentam com fantasias dentro ou fora do tema. 31


São nove itens de julgamento: fantasias, alegorias, boneco (dança, coreografia e traje), comissão de frente (fantasias e evolução), cordão, ala de damas (fantasias e evolução), evolução/conjunto/empolgação, passistas (dança, traje e sombrinhas) e orquestra. Alguns desfilam com mais de um boneco, com morcegos, balizas, faixas e carros alegóricos, mas estes elementos não são julgados. A orquestra executa no mínimo quatro frevos-de-rua, podendo ser frevos populares ou do repertório do Clube. O Clube de Boneco Seu Malaquias, por exemplo, possui quatro composições: Malaquias no Frevo, Coração de Maracujá (composição do maestro Nunes), o hino Seu Malaquias (de José Bartolomeu) e o frevo do cinqüentenário, criado por Ramos de Oliveira em 2004. Chegou, chegou Seu Malaquias É 50 anos, é carnaval, é alegria Maracujá foi o fundador Tudo nasceu em Carpina Em alguns Clubes os bonecos são considerados calungas pelos carnavalescos, carregados de um forte fundamento religioso. Nesse sentido, os que carregam os Bonecos passam por diversos cuidados espirituais, iniciando pela abstinência sexual e do uso de cigarro ou bebidas alcoólicas, ao menos 15 dias antes do carnaval. O “miolo” do boneco, assim como ocorre no Boi e no Urso, geralmente é uma pessoa antiga na agremiação que há vários anos cumpre essa função. Entre os clubes de Boneco que desfilam no carnaval do Recife, destacamse: Seu Malaquias (1940); Tadeu no Frevo (1980); O Comelão (1997); O Garoto da Ilha do Maruim (1990); O Sapateiro; Tô Afim; Bochechudos de Areias; O Filho do Bochechudo; O Homem da Madrugada; Linguarudo de Ouro Preto; Pitu no Frevo; General da Banda; O Menino da Gráfica; O Menino do Pátio de São Pedro; O Filho do Homem da Meia Noite, entre outros.

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Maracatu de Baque Virado


M. B. V. Porto Rico


Maracatu de Baque Virado No formato de uma autêntica nação, o maracatu de baque virado apresenta-se como uma manifestação artística de modelo europeu e espírito africano. Um movimento de busca de identidade que encontra na música e na dança os mecanismos e estratégias de resistência diante de uma sociedade preconceituosa e excludente. Fortemente ligados às religiões afro-brasileiras, em especial o Candomblé e a Jurema, os grupos de Maracatu Nação mais “tradicionais” encontram nos símbolos, cânticos, danças, indumentárias e adereços estreitas relações com os orixás e outras entidades. Na rainha, a figura de uma Ialorixá ou Mãe de Santo (como Dona Santa, Maracatu Elefante; Dona Ivanize, Maracatu Encanto da Alegria; Dona Elda, Nação Porto Rico do Oriente; Mãe Nadja, Maracatu Leão da Campina; entre tantas outras mulheres, exemplos de liderança política, religiosa e comunitária). A sede de um maracatu geralmente funciona num terreiro de Candomblé, local onde são realizados os rituais de proteção do brinquedo antes que saia às ruas. Na fala a seguir, de Dona Marivalda (Rainha do Maracatu Estrela Brilhante), podemos identificar como a religiosidade dos brincantes, praticada na sua intimidade, é transportada para o cotidiano da agremiação, principalmente no período de carnaval. “Antes da gente ir pro desfile, os cabeças do maracatu que trabalham ficam no Centro, faz toda aquela louvação, todo aquele ritual. Chama os mestres, os orixás, cada um na sua hora, com suas músicas e toadas. Depois o maracatu toca as loas deles pra gente seguir.[...]aí todo ano a gente dá uma oferendazinha aos caboclos, e depois pra o mestre Cangarussu e depois a gente vai pro peji, que é os orixás. Aí eu dou obrigação pra Ogum, né. Pedir pra ir pra rua, entendeu? Pra ele tomar conta de um lado e as duas calungas pro geral, né? É porque eu levo muita gente, e eu só, Marivalda, tomar conta daquela multidão, pra não ter barulho, confusão. Ninguém incomodar, nem ser incomodada, então quanto mais proteção da natureza a gente tiver melhor, porque orixá é natureza. É um vento, é uma água, entendeu?”

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Na rua, as nações de maracatu19 apresentam-se ao público como uma corte ricamente trajada com sedas, veludos, bordados e pedrarias. À frente do cortejo, vestido como um Regente (casaco, colete, jabot, calça, peruca e sapato com salto quadrado sem fivela), vem o Porta-Estandarte, que em algumas nações recebe o nome de Porta-bandeira, abrindo o cortejo com a bandeira da Nação; em seguida a Dama-do-Paço, pessoa preparada para conduzir a calunga (ícone consagrado, detentor do axé do maracatu). É importante destacar que, para fins do Concurso de Agremiações Carnavalescas, tanto a Dama-do-Paço quanto a calunga devem vir igualmente trajadas. Geralmente os grupos de maracatu trazem duas calungas confeccionadas com madeira e cera. Algumas nações também se apresentam conduzindo uma bruxa de pano, representando uma das entidades do panteão afro-brasileiro. A fala a seguir da Rainha do Maracatu Nação Porto Rico, Dona Elda, traduz a importância desse ícone: “além das calungas, eu levo uma bruxa de pano, Dona Bela, que pertence ao Exu feminino, Pombagira, que vem tomando conta de todo o cortejo pra nada acontecer”. Continuando o préstito, surgem as Damas de Frente, mulheres ricamente trajadas, com chapéus ornados com flores. As Baianas de cordão ou Catirinas integram o chamado Cordão de Chitão, no qual, dispostas em fileiras nas laterais da corte, apresentam-se com roupas confeccionadas com tecidos estampados de forma padronizada. Por outro lado, as Baianas Ricas apresentam-se todas de branco, com alguns detalhes coloridos fazendo alusão às cores de cada orixá. Assim, o rosa representa Iansã ou Oyá; o roxo, Nanã; o amarelo, Oxum etc. Diferem das Damas de Frente, pela “uniformidade” das suas roupas e pelo uso de turbantes. Os demais membros da corte variam em número e personagens, de Nação para Nação. São eles: imperatriz e imperador; duque e duquesa; conde e condessa; marquês e marquesa; cônsul e consulesa; embaixador e embaixatriz; príncipe e princesa. Todos convidados para participar da grande festa proferida pelo casal real de uma determinada Nação. Participam do Concurso de Agremiações Carnavalescas do Recife, 24 Nações de Maracatu de Baque Virado, sendo 7 do Grupo Especial; 5 do Grupo 1, 2 do Grupo 2, 5 aspirantes e 5 do grupo de acesso. 19

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Ladeando a corte, dispostos em fileiras, temos os seguintes personagens: os lampiões, isto é, escravos que conduzem os abajus que iluminam o caminho do préstito; e as figuras dos soldados romanos portando escudos e lanças. Outros personagens como o vassalo, que aparece para abanar o casal real; o balé de escravos com instrumentos de trabalho (faca, foices, pás, etc.) e as damas de honra (geralmente duas crianças que mantêm sempre suspensas as capas do Rei e da Rainha), que também aparecem nos desfiles das Nações. Presença obrigatória nos maracatus, o caboclo “arreia mar” ou caboclo de pena, como também é conhecido, é um personagem representando um índio que traz consigo um arco e uma flecha, o qual se encontra vinculado às práticas religiosas afro-brasileiras, especialmente a Jurema Sagrada. O cortejo encerra-se com a chegada do rei e da rainha, que desfilam ricamente trajados, ostentando uma espada e um cetro e protegidos por um grande guarda-sol colorido (pálio), carregado por um escravo (pajem). Assim como nas outras agremiações, cada maracatu tem uma batida própria. O instrumental do brinquedo, composto de tarol, caixa de guerra, gonguê e alfaias (tambores confeccionados com madeira), também varia em número e tipo. Alguns grupos se apresentam com atabaques e abês. Tal batuque ou baque, como é conhecido, é comandado pelo Mestre de Apito, que conduz na hora certa cada batida e toada. Esta por sua vez, respondida em coro por toda a nação. No Concurso de Agremiações Carnavalescas um grupo de mulheres fica ao microfone para responder às toadas, também conhecidas por loas ou zuelas. Cada maracatu tem um repertório próprio, o que não impede que a Nação fique livre para executar toadas de domínio público.

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Maracatu de Baque solto


M. B. S. Cruzeiro do Forte


Maracatu de Baque Solto Rica expressão da cultura afro-indígena no Carnaval de Pernambuco, o Maracatu de Baque Solto, também conhecido como Maracatu de Trombone ou de Orquestra, é atualmente uma das manifestações que mais despertam interesse sobre a cultura local. Talvez pela sua complexidade, tendo em vista seu caráter aglutinante resultado da mistura étnica e cultural proveniente das áreas canavieiras. Nessa manifestação cultural é evidente a fusão de vários folguedos populares existentes no interior do Estado como: reisado, pastoril, cavalo-marinho, bumbameu-boi, caboclinhos, entre outros. Essa mescla aconteceu também na cidade, quando no início do século XX a crise do açúcar foi espalhando os trabalhadores do campo em direção à capital. Quanto à origem dessa manifestação, não há uma unanimidade entre os estudiosos. As hipóteses correm por caminhos diferentes que nem sempre se complementam. De acordo com Assis (1996), “os maracatus de baque solto surgiram na Mata Norte de Pernambuco, entre fins do século XIX e início do século XX, distinguindose dos maracatus nação por sua origem interiorana, por seu batuque peculiar, pela presença do caboclo de lança, sua principal figura, e pela ausência da Corte Real e de mulheres caracterizando o grupo como uma expressão eminentemente masculina.” Silva (2005), por sua vez, informa que o Maracatu de Baque Solto surgiu dos momentos de descontração em que os homens se reuniam para “demonstrar a destreza nos movimentos, com a lança e com os pés” . E continua dizendo que “No começo era um brinquedo só de homens. Brincadeira de Cambindas, homens que se vestiam de mulher. Dançavam de cócoras. Aos poucos é que se foi formando o Maracatu.” Assim, nas primeiras décadas do século XX, as mudanças ocorridas na política agrícola da cana de açúcar transformaram os engenhos em fogo morto e expulsaram os trabalhadores rurais para a cidade. Os sons produzidos pelos chocalhos dos Caboclos de Lança deixaram as encruzilhadas dos engenhos e passaram a fazer parte do cotidiano dos altos, morros e alagadiços da cidade grande. 41


Incorporados à vida da cidade como operários, vendedores informais ou biscateiros, esses trabalhadores se adaptaram a uma nova realidade social, utilizando para isso as suas próprias referências. Brincar Maracatu de Orquestra foi uma delas. A chegada para a capital influenciou as manifestações e tradições culturais provenientes daquela região, interferindo na estrutura da brincadeira, nas suas representações, nas concepções estéticas, na realidade sociocultural dos brincantes, assim como as práticas religiosas que fundamentam os brinquedos. “... a roupa antigamente era chita. Dessas roupas que cobre boi. Era chita. Hoje em dia, nem boi quer ser coberto de chita. Não. Hoje, um caboclo, quando vem pra brincar de caboclo, ele vem com uma roupa estampada, toda bonita, vai pra qualquer festa. E naquele tempo, não. Era chita, tipo Mateus. E continua dizendo “a gola era um pedacinho deste tamanho aqui que nem um babador de criança”. O contato com a capital, o encontro com o Maracatu de Baque Virado e a espetacularização promovida pela mídia ampliaram a roupa do caboclo, também chamada de Arrumação, em tamanho e esplendor. Essa adaptação ao “novo mundo” também refletiu no processo organizacional. Os grupos de Maracatu de Baque Solto organizaram-se e filiaram-se à Federação Carnavalesca de Pernambuco. Por exigência da Fecape, suas primeiras formas foram desprezadas para que assim se pudessem enquadrar ao tipo mais antigo e conhecido de maracatu: as Nações de Baque Virado. Nesse sentido, a composição original do Maracatu de Baque Solto sofreu modificações como, por exemplo, a entrada do préstito real (rei, rainha, pálio, pajem, dama-do-paço, lampiões, além de uma ala mirim, no sentido de garantir a reprodução do grupo). Dos brinquedos oriundos do interior permaneceram as figuras de Mateus, Catirina ou Catita, a Burrinha, o Babau, entre outros. O cortejo se completa com as baianas, arreiamá, mestre e contramestre. Nesse processo de adaptação à cidade, podemos perceber a transformação do papel da mulher na própria sociedade. Elas ganharam visibilidade e passaram a participar do brinquedo, compondo principalmente o 42


baianal, interferindo assim na estrutura do grupo. “Antes as baianas eram representadas por homens vestidos de mulher.” O instrumental do brinquedo também sofreu modificações. O som, que antes era produzido por uma pequena orquestra, com instrumentos simples de percussão, já não era mais suficiente. O terno, como é chamada a sua orquestra, varia quanto à composição dos instrumentos de acordo com o maracatu. Hoje, depende, principalmente, do poder aquisitivo do grupo, uma vez que todos os músicos são contratados para cada apresentação. Basicamente o terno é composto por bombo, surdo, tarol, porca (cuíca), gonguê, além dos instrumentos de sopro como o clarinete, o trombone e o trompete. O terno do maracatu é comandado pela figura do mestre, que trabalha improvisando versos e loas. Caminha com um apito e uma bengala, símbolos de autoridade, sendo seu uso privilégio dos mestres. Sempre próximo à bandeira, seu apito indica os movimentos e a entrada do terno. Próximas ao mestre, estão as Baianas, que cantam repetindo os últimos versos do seu improviso. As toadas ou loas são improvisadas e podem ser de vários tipos: a marcha de quadra, o samba de seis, o samba de dez e o galope de seis. Ao seu apito, o terno pára, bem como todo o séqüito; os caboclos ajoelham-se. Ao lado do mestre, o auxiliar contramestre, que repete com um coro, os últimos versos cantados por aquele. Assim, um Maracatu de Baque Solto entra na avenida, sob a orientação do apito ou o movimento da bengala do Mestre do maracatu, que orienta a movimentação da tribo. O mestre tem que estar atento aos movimentos das quatro figuras principais que abrem o cortejo: Mateus, Catirina, a Burra e o Caçador. Os movimentos desses personagens, que evoluem por todo o cortejo, indicam que a tribo poderá seguir com segurança. Mateus apresenta-se com roupa estampada, rosto maquiado com carvão, bexiga, vara ornada com fitas, chapéu estilo funil, surrão e um matolão (folhas de bananeira enroladas sobre os chocalhos). Catirina, por sua vez, também conhecida como Catita, apresenta-se com lenço na cabeça, 20

Estas figuras evoluem por todo o cortejo, desde que pelas laterais, jamais pelo interior do maracatu.

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vestido estampado, jereré e uma boneca de plástico. “Ela é a captadora de recurso do maracatu. No sítio é uma tradição. Quando o maracatu vinha para se apresentar e as pessoas da casa iam ver o maracatu, a Catita ia por trás da casa e o que tivesse em cima da mesa (as famílias já deixavam por tradição), ela colocava dentro do jereré para dar comida à Nação lá na frente. Mateus, o caçador e a burra ficam chamando a atenção do povo enquanto Catita tá lá roubando.” 21 Ainda à frente da Nação, a bandeira ou estandarte apresenta o maracatu que se aproxima, e em torno dela toda a tribo se aglomera. Nela estão escritos o nome da agremiação, a data de fundação e o símbolo. Toda a reverência possível lhe é feita. A pessoa que a conduz é chamada de bandeirista, trajado à Luiz XV, com calça de franja, jabot, colete, casaco, peruca e sapato tênis. Integrando o cortejo, temos ainda o vassalo ou menino do guarda-chuva, como é conhecido; os lampiões ou carboreteiros, que iluminam o caminho do préstito; a Dama-do-Paço, que conduz a boneca de pano22, também chamada de Madrinha e o baianal, isto é, o cordão de baianas23... No entanto, o símbolo maior do Maracatu de Orquestra acaba sendo o Caboclo de Lança - figura exótica que abre espaço na multidão. Esse personagem, também conhecido como Caboclo de Guiada ou Lanceiros é carregado de magia e de beleza plástica. Para Silva24 “o caboclo de lança é o grito das tribos que se mesclaram com os africanos nas senzalas ou nos estreitos espaços entre as colunas de cana, misturando no massapé dos engenhos as tradições da Jurema e dos Orixás”.

Entrevista realizada com Manoelzinho Salu, presidente do Maracatu de Baque Solto Piaba de Ouro, no dia 08/10/2007. 22 Na avenida, o Maracatu de Baque Solto apresenta-se com duas bonecas, uma preta e outra branca; uma de pano, outra de plástico. A primeira conduzida pela Dama-do-Paço e item de julgamento no Concurso de Agremiações Carnavalescas; a segunda é carregada pela Catirina, significando seu filho, e não conta ponto para o concurso. 23 As baianas são personagens de grande atuação no maracatu. Apresentam-se ostentando o símbolo da agremiação (geralmente a baiana puxadora de cordão), que pode ser um elefante, um peixe, um leão etc, além de buquês com flores de plástico (conduzidos pelas baianas porta-buquês). Diferentemente dos caboclos, suas manobras são obrigatoriamente feitas pelo interior do cortejo. 24 SILVA, Severino Vicente da. Festa de caboclo. Recife: Associação Reviva, 2005. p. 17. 21

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Por baixo da gola bordada com materiais reluzentes e transformada num singular quadro com desenhos figurativos e abstratos, o caboclo vestese com camisas de mangas compridas, de cores vivas, e a calça de chita ornada com franjas. Carrega nas costas um surrão, estrutura de madeira coberta de lã, na qual são presos os chocalhos, sempre em número ímpar para não dar azar. Calçam meias de cano alto, coloridas, com estampas lisas ou listradas. Usam sapatos tênis. A fantasia completa, ou arrumação como chamam, pesa em torno de vinte a trinta quilos e produz no andar ritmado das largas passadas, um som barulhento e exótico. Completando a indumentária do Caboclo e conferindo-lhe dignidade marcial, ele carrega na mão direita a longa lança de madeira – a “guia” ou “guiada”. Medindo cerca de dois metros de comprimento, as lanças são pontiagudas e enfeitadas com fitas de seda colorida. Leva na cabeça um lenço colorido, sobre o qual coloca um chapéu de palha, que servirá como base para uma enorme cabeleira com tiras de papel colorido. O rosto pintado, geralmente de urucum, os óculos escuros, o cravo branco na boca e a fisionomia carrancuda fazem do Caboclo uma figura jamais vista em outras manifestações culturais do nosso folclore. Nas últimas décadas, esse personagem transformou-se em símbolo da cultura pernambucana, e contribuiu para o espaço de destaque que o Maracatu de Baque Solto tem hoje entre os folguedos que enriquecem a nossa diversidade cultural. Ao comando do Mestre Caboclo (o único caboclo que se apresenta de costas para a avenida), dá-se a evolução da caboclaria. Os movimentos do mestre indicam o que devem fazer os caboclos-guias, aqueles que ficam nas extremidades dos cordões. Sua evolução (as manobras25) é um constante vai-e-vem ao redor do cortejo, como a verificar se todos estão nos seus lugares e protegidos. Formam uma verdadeira cerca humana de proteção. As lanças jogadas para o alto mostram a habilidade e a familiaridade que possuem com a arma. É um movimento ritual para inibir a reação de um possível inimigo. As manobras da caboclaria devem ser feitas por fora ou em corrupio. Jamais devem cortar por dentro para não machucar os outros membros da corte. 25

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No Maracatu de Baque Solto, há um caboclo que não usa lança. Em suas mãos, um machado, e sua cabeça é ornada com um grande cocar de penas. É o caboclo Arreiamá. Todo maracatu tem um ou vários. Também chamado de Tuxaua, usa camisa bordada, um cravo branco na boca, calça na altura dos joelhos, e, na cintura, tem fitas e penas de pássaros, também no chapéu, nos braços e nas pernas. No maracatu a função do caboclo arreiamá é proteger a Corte (o casal real, a damado-paço, o baianal). Uma proteção dos espíritos da floresta, ligada aos segredos da Jurema Sagrada. Hoje, no Recife, participam do Concurso de Agremiações Carnavalescas 88 Maracatus de Baque Solto, sendo 6 do Grupo Especial, 16 do Grupo 1, 32 do Grupo 2, como aspirantes 2 e 32 no Grupo de Acesso.

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Escola de Samba


Gigante do Samba


Escolas de Samba “O desfile de uma escola de samba é uma ópera”. Dilermando Nascimento26

Manifestação cultural popular, musical, coreográfica e poética, o samba acontece em quase todos os Estados brasileiros, com destaque para Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, desde os tempos coloniais. Formas culturais que fazem alusão ao samba podem ser encontradas desde o século XVII em registros históricos, sempre relacionado com o universo afro-descendente. A Umbigada, por exemplo, aparece em poemas de Gregório de Matos (1636-1696). Outras referências históricas ligadas ao samba datam do início do século XIX, e se devem à pena de viajantes estrangeiros que escreveram sobre suas experiências no Brasil. Entretanto, a primeira menção registrada no Brasil da palavra “samba” data de 1838, e se encontra num jornal satírico então editado em Pernambuco, segundo o etnomusicólogo Carlos Sandroni. Nesse panorama do trajeto histórico do samba, podemos encontrar nas Grandes Sociedades nascidas na segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro, o embrião das Escolas de Samba. Estas, por sua vez, já desfilavam com enredos de crítica social e política apresentados ao som de óperas, com luxuosas fantasias e carros alegóricos e eram organizadas pelas camadas sociais mais ricas. Os Ranchos, também do século oitocentista, desfilavam com um enredo, fantasias e carros alegóricos ao som de sua marcha característica e eram organizados pela pequena burguesia urbana. Por outro lado, os Blocos, forma menos estruturada, abrigavam grupos cujas bases situavam-se nas áreas de moradia das camadas mais pobres da população, os morros e subúrbios cariocas. O surgimento das escolas de samba veio desorganizar essas distinções. Dilermando José do Nascimento, ex-presidente da Escola de Samba Gigantes do Samba. Entrevista realizada no dia 18/09/2007. Acervo do Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural – Casa do Carnaval. Prefeitura do Recife. 26

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Nesse sentido, o samba, ao se organizar em escolas – ou seja, quando deixou de ser uma diversão de morro e de favela para percorrer ensurdecedoramente as ruas cariocas, não se deu ao trabalho de criar para si uma forma especial de cortejo. Utilizou-se da estrutura processional do rancho, acrescentando somente o samba para fazer algumas diferenças como: de ritmos, de ginga, de evoluções, entre outras. Em Pernambuco, o samba de escolas adquire características próprias com a incorporação de instrumentos de execução musical e coreografias herdadas do frevo, do maracatu, da capoeira, além de outras expressões. Segundo o pesquisador Roberto Benjamin, “as tradições pernambucanas roem por dentro as escolas, agindo nas suas baterias, e nos passistas, preparando um samba autenticamente pernambucano”. No Recife, as primeiras referências do samba de escolas encontram-se em Casa Amarela, na batucada o Bando da Noite, que passou a ser chamada, batucada de Cuíca de Bambu, e por fim Escola de Samba Quatro de Outubro. Nos anos 1930, a Escola de Samba Limonil, da Vila São Miguel no bairro de Afogados, entra para a história do Carnaval da cidade realizando fascinantes apresentações. Na década de 1940, a chegada do Encouraçado São Paulo que trazia entre seus tripulantes sambistas, contribuiu para o aumento de blocos e escolas de samba que passaram a desfilar na cidade. Tais agremiações encontram-se listadas nos grandes jornais de circulação da época. Hoje, 18 escolas, espalhadas pelos morros e subúrbios recifenses desfilam no Concurso de Agremiações Carnavalescas divididas em três Grupos: Especial (5), Grupo 1 (5), Grupo 2 (7) e 2 no Grupo de Acesso. No concurso, a diversidade e complexidade dos quesitos de julgamento demonstram bem o alto grau de elaboração estética do desfile de uma escola de samba. Entretanto, por trás dessa diversidade é possível encontrar princípios ordenadores capazes de elucidar um sentido a essa forma dramática e ritual. Nesse sentido, o desfile gira em torno de dois eixos: o visual e o samba. 50


A categoria samba refere-se a formas de expressão como o canto, a música, a dança, o ritmo de uma bateria que contagia. Um sambaenredo deve idealmente ser cantado por todos, desfilantes e platéia, a evolução dançante das alas, que responde ao ritmo e à música, é também acompanhada pelo movimento dançante que confere por vezes à platéia o aspecto de um baile de carnaval. Ao mesmo tempo, a visualidade das grandiosas alegorias27, das fantasias, das coreografias da comissão de frente, do balé do casal de mestre-sala e porta-bandeira são um convite a uma outra forma de participação: a admiração e o extasiamento. A idéia de visual refere-se a esse outro aspecto estruturante do desfile, que por essa razão, é a um só tempo festa e espetáculo. Assim, uma escola entra na avenida, quando sua Comissão de Frente, pedindo passagem, saúda o público e abre caminho para a Diretoria e os demais componentes passarem. O enredo, por sua vez, proposto pelo carnavalesco da escola transforma-se numa linguagem plástica e visual traduzido nas fantasias, adereços e alegorias. As fantasias relacionam toda a escola, situam a posição de cada integrante no conjunto do desfile, articulam as alas, envolvendo a todos. Assim, podemos dividir as fantasias de uma escola de samba em grupos: aquelas que vão para as alas; as dos destaques; as destinadas ao(s) casal(is) de mestre-sala e porta-bandeira; a bateria; a comissão de frente e as baianas. As baianas constituem uma ala de evolução. Ocupam, todavia, um lugar especial no conjunto das alas, e no desfile fazem evoluções, em que giram de tempos em tempos em torno do próprio corpo, rodando sua ampla saia na avenida. É uma ala composta obrigatoriamente de senhoras, extremamente respeitadas na comunidade, as quais são atribuídas certas autoridades. É importante destacar que a maioria das escolas faz anualmente uma festa das baianas, na qual elas oferecem um grande banquete aberto ao público e ligado ás práticas religiosas afro-brasileiras. Na escola Gigante do Samba, no mês de outubro, seus As alegorias são formas espaciais estruturadas,organizadas e ordenadas para serem vistas, causarem impactos e idealizadas com base nos tópicos que orientam a narrativa. 27

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diretores, as integrantes da ala das baianas e demais interessados, realizam a cerimônia da Noite das Baianas, em que elas fazem todo um “ritual afro, e leva-se para o rio um alguidar com todas as frutas. Todas as baianas participam, uma leva acarajé, outra pipoca, é lindo!”. A presença da dupla Mestre-Sala e Porta-Bandeira no desfile é tida como um dos elementos mais representativos de uma escola. O mestre-sala deve cortejar sua dama, apresentar um bailado harmonioso com o samba e um entrosamento perfeito, além de proteger o maior símbolo da agremiação: o Pavilhão. Tais personagens remontam aos ranchos cariocas, mais precisamente ao casal de baliza e porta-estandarte. O baliza tinha por função defender a sua companheira e o estandarte por ela carregado, que corria o risco de ser arrebatado por grupos rivais. Os destaques de uma escola de samba, por sua vez, são assumidos por pessoas cuja vaidade e desejo de exibição se traduzem na afirmação de prestígio social. A incorporação dos destaques como elementos do desfile data da década de 1950. A primazia do visual trouxe-os para cima dos carros. Alguns destaques representam aspectos ou personagens do enredo, os grandes cenários alegóricos do desfile. Suas fantasias distinguem-se das demais pelo volume, sempre ampliado pelos grandes esplendores que a ladeiam, e pelo efeito visual de luxo obtido com os materiais usados em sua confecção. A bateria é um capítulo à parte. Sustenta com sua marcação a cadência, o canto e a evolução, além de permitir aos passistas demonstrarem toda graça e sensualidade, traduzindo no pé, a íntima relação com o samba. Surdos, agogôs, repiques, pandeiros, caixas, apitos, tamborins, cuícas, reco-recos, ganzás e chocalhos compõem a bateria de uma escola. É importante destacar o papel do mestre de bateria e seus ritmistas. Essa relação é fundamental para a existência de uma harmonia. “O mestre de bateria precisa estar em sintonia com seus ritmistas. Essa aceitação decorre de duas idéias aparentemente opostas: a de que cada bateria tem a sua identidade própria e a de que um mestre de bateria pode dar personalidade a uma bateria”. 52


Com extraordinária beleza, as escolas de samba contam histórias e sonhos, ficção e realidade, isto é, um espetáculo que sintetiza em seu conjunto, a seqüência integral e a fluência de apresentação, a unidade e o equilíbrio artístico das diversas formas expressivas do desfile (musical, dramática, visual) e a energia de comunicação de todos os participantes. Hoje, no Recife, participam do concurso de agremiações carnavalescas,as seguintes escolas de samba: Galeria do Ritmo (1961); Gigantes do Samba (1942); Limonil (1935)Imperadores da Vila São Miguel (2002); Deixa Falar; Unidos de São Carlos; Unidos da Mangueira; Criança e Adolescente; Rebeldes do Samba; Samarina; Imperiais do Ritmo; Águia Dourada; Queridos da Mangueira; Raios de Luar; Preto Velho; Sambistas do Cordeiro; Estudantes de São José, entre outras.

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Urso


Urso Branco do Zé


Urso A presença do Urso no Carnaval pernambucano é herança européia. A longa convivência com o animal, desde tempos primitivos, o incorpora às tradições culturais desses povos. Ao extrapolar o universo concreto e utilitário (como alimento, uso da pele, etc.), o Urso ganha imensa representatividade no imaginário popular. Inúmeros registros na literatura, nas canções, na mitologia, nas representações teatrais e até nos rituais religiosos o traduzem. No Brasil, a ocorrência do Urso tem início no século XIX com os imigrantes italianos. Entre eles, a comunidade cigana ligada à arte circense que, entre outros espetáculos, apresenta ursos “amestrados”. Esse número populariza a imagem do urso e o insere definitivamente na cultura nordestina. De acordo com Benjamin (2003), a apresentação do Urso no Carnaval do Recife é registrada pela primeira vez numa crônica publicada em 1948. Inicialmente, a brincadeira caracterizava-se apenas pela presença de um homem fantasiado de urso, pelo Italiano ou Domador e pelo Caçador, acompanhados de alguns músicos. Até hoje, quando se pensa em La Ursa, denominação popular da brincadeira, é comum imaginar crianças a brincar nas ruas durante o carnaval, batendo latas, puxando alguém fantasiado de Urso e gritando “A La Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro”. Entretanto, os Ursos que participam do Concurso de Agremiações Carnavalescas promovido pela Prefeitura do Recife apresentam diversos outros elementos como porta-cartaz (uma espécie de estandarte com o nome da agremiação, o símbolo, o ano de fundação e o de confecção); tema (livre e opcional, não entra em critério de julgamento); faixa ou abre-alas (com o nome do Urso, ano de desfile e tema); alas e cordões (geralmente com fantasias ou adereços de mão relacionados ao tema), e uma orquestra composta por no mínimo 7 músicos. As músicas são cantadas por um coral, normalmente em ritmo de marchinhas, xotes, baiões, polcas e xaxados, com letras que podem falar 57


da própria brincadeira, do tema que o Urso traz para a avenida, ou ainda canções de duplo sentido, associando o Urso à figura de um amante. Esse Urso é meu / Ninguém vai tomar / Pra você que não conhece / É o Urso Cangaçá / O Cangaçá está na rua / Veio pra folia... / Veio demonstrar sua amizade / Tudo isso em homenagem aos 500 anos do Brasil / Esse Urso é meu... (Cristina Andrade – Urso Cangaçá) Olhei pela janela, o meu marido acabou de chegar / Fiquei desesperada que meu Urso estava lá... / Abri a porta e segurei o meu marido / Corre-corre meu ursinho / Caia no frevo eu chego já... (Edileuza Silva – Urso Zé da Pinga) Algumas vezes também ocorrem letras críticas, que satirizam personalidades, situações ligadas ao cotidiano e à política do país. Os principais instrumentos da orquestra são: sanfona, triângulo, pandeiro, reco-reco, violão, tarol e surdo, podendo incluir cavaquinho, banjo e ganzá, sendo proibido o uso de instrumentos de sopro. Os Ursos desfilam durante o dia28 e contam com a participação de pessoas de todas as idades, atraindo um grande número de crianças. Levam para a rua uma média de 40 desfilantes, havendo grupos que se apresentam com mais de 100 brincantes. A história e a função de cada personagem (ou figura) muitas vezes mudam de grupo para grupo. O Urso dança preso ao Caçador por uma corda ou corrente e, em alguns momentos do desfile, foge e simula ataques ao público. Pode ser preto, branco, marrom ou mesclado e, normalmente, veste um macacão confeccionado de pelúcia ou de estopa com tiras de tecidos presas de forma a parecer com o pêlo do animal. O Caçador traz uma espingarda e exibe o Urso capturado. O Italiano representa um “gringo”, com uma maleta de dinheiro, como vendedor do Urso ou tentando comprá-lo. E os outros figurantes, de alas ou de cordões, desfilam com fantasias diversas que podem relacionar-se ou não com o tema. Os ursos que desfilam no Concurso de Agremiações Carnavalescas, apresentam-se à tarde, embora nas comunidades de origem desfilem durante o dia. 28

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No concurso, há seis itens de julgamento: fantasias, adereços, coreografia/ evolução/conjunto/empolgação, Urso (vestuário e dança), figuras principais (Caçador com espingarda e Italiano com maleta), e orquestra. É proibido trazer orquestras de frevo ou baterias de escola de samba, fantasias e adereços de outras agremiações, além de destaques de luxo e propagandas políticas. Geralmente as denominações dos Ursos estão ligadas a situações pitorescas da sua criação e locais de origem: Branco do Zé, Preto do Azulão, Pintado do Pina, Milindrozo de Joana Bezerra, Mimoso de Afogados, Preto da Pitangueira, Branco da Mustardinha, Manhoso da UR-10, entre outros. Diversas agremiações vinculam a imagem do Urso à figura do amante, o que também reflete no nome da agremiação: Urso do Painho, Urso da Tua Mãe, Urso do Vizinho e Teu Urso. Nesse sentido, alguns trazem uma mulher representando a esposa que trai o marido e também há grupos que trazem a fêmea do animal. Alguns grupos estão ligados às práticas religiosas afro-brasileiras, em especial o Candomblé e a Jurema, como o Urso Zé da Pinga (do Pina) e o Urso Velho de Angola (de São José). O Urso partiu de uma brincadeira do nosso Centro. Nossa entidade, Mestre José da Pinga, é muito brincalhão, sempre conversa com a gente, brinca... aí a gente ‘Seu José, já que aqui tem o Maracatu Porto Rico, a gente pode fazer um Urso?’ Ôxe, ele autorizou na hora. (Edileuza Lira da Silva - Urso Zé da Pinga)

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Boi de Carnaval


Boi Manhoso


Boi de Carnaval As manifestações que têm o boi como figura central remontam à antiguidade, às festas de glorificação e exaltação do animal, com origens marcadas por uma forte presença religiosa. No Brasil, sua presença no cotidiano está ligada à pecuária e à força motriz desempenhada pelo boi nas várias regiões, no Nordeste, especificamente, nos engenhos de açúcar. Assim, entre o real e o imaginário popular, surgem tais representações, fruto da aglutinação ibérica, africana e indígena. De norte a sul do país, o boi está presente na memória do povo, manifestando-se de diversas formas: no Amazonas e no Maranhão é Boi-Bumbá; Boi-de-Reis na Paraíba; Boi Surubi no Ceará; Boi Calemba ou Calumba no Rio Grande do Norte; Rancho de Boi na Bahia; Bumbade-Reis no Espírito Santo; Boi Pintadinho no Rio de Janeiro; Boi-deMamão em Santa Catarina e Boizinho no Rio Grande do Sul. A brincadeira aparece no Carnaval do Recife como uma forma derivada do Bumba-meu-boi, auto de Natal que representa a morte e ressurreição do boi. O Boi Misterioso de Afogados, liderado pelo Capitão Antônio Pereira, responsável pela formação de diversos mestres de Bumba-meu-boi, saiu durante o carnaval pela primeira vez em 1940. Os Bois, assim como os Ursos, apresentavam-se como troças ou clubes, e somente a partir do carnaval de 1965 se estabeleceu como uma categoria específica. Os Bois de Carnaval são caracterizados pela simplicidade, improviso e irreverência, e levam para a rua uma grande variedade de personagens, classificadas como figuras humanas, animais e fantásticas (ou místicas). Algumas são indispensáveis como o Capitão, Mateus e Bastião, Catirina, Pastorinha, Doutor, Padre, Arlequim, Valentão, o próprio Boi, a Ema, a Burrinha, o Caboclinho, o Babau, o Jaraguá, o Diabo, o Morto-carregandoo-vivo, a Caipora ou Pigmeu, o Mané Pequenino e o Diabo. Abrindo o desfile, os Bois normalmente trazem estandartes ou faixas com uma mensagem ou com um tema, mas não são itens obrigatórios. A ordem de apresentação dos personagens varia de grupo para grupo, 63


alguns apresentam alas e cordões (de pastorinhas, de baianas, de caboclos, etc.), mas também há agremiações em que os personagens desfilam livremente. Diferentemente do Bumba-meu-boi, o Boi de Carnaval traz para a avenida apenas um cortejo dos personagens. Alguns encenam a morte e ressurreição do boi, com a interação dos demais personagens. No concurso, julgam-se: fantasias, adereços/alegorias, Boi (dança e vestuário), coreografia/evolução/conjunto/empolgação, figuras principais (ao menos 10 figuras), e orquestra (afinação, execução e traje). A orquestra é formada por 2 bombos, ganzá, gonguê, reco-reco (ou bage de taboca) sendo opcional o uso do tarol, da rabeca e do pífano. Quem “tira” (canta) as loas é o tirador ou cantadeira, e as músicas podem ser compostas para o desfile ou improvisadas. As loas improvisadas normalmente expressam os sentimentos no momento do desfile, prestando homenagens, agradecendo às pessoas presentes e demonstrando a satisfação de desfilar. E as músicas compostas podem falar da chegada, da despedida, dos personagens ou da própria agremiação: Nasceu em Guararapes pra alegrar toda criança / Nasceu o Boi, o Boi da Cara Branca / Lá vem ele desfilando na avenida / Com ele, jovens, mulheres e crianças / A gente pula, pula, pula e nunca cansa / Porque tem ele, o Boi da Cara Branca. (Dona Olindina – Boi da Cara Branca) O figurino dos Bois de Carnaval utiliza diversas estampas de chitão, distribuídas em quase todos os personagens. O Boi tem a cabeça confeccionada de fibra ou empalhada, geralmente com o corpo de pelúcia ou tecido preto (enfeitado com espelhos, pedrarias, fitas, etc.) e saiote de chitão na parte inferior. O Capitão (dono da fazenda e da festa) desfila montado num cavalo; Mateus e Bastião trazem bexigas de boi na mão ou presas a uma vara (cuja função é “bater” no boi ou “abrir caminho”); e a Catirina normalmente é um homem travestido. De maneira geral, as fantasias são simples, porém bastante originais, criadas de acordo com a história de cada figura.

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Assim como ocorre nos Ursos, as denominações dos Bois normalmente estão relacionadas ao temperamento ou característica física do animal: Boi Mimoso, Boi Teimozo, Boi Faceiro, Boi Encantado, Boi da Cara Preta, Boi da Cara Branca. Existem também denominações curiosas, como o Boi de Mainha, Boi de Tanga, Boi Estrela, Boi Sorriso, Boi Tá Tá Tá, Boi Malabá, Boi Tira Teima, entre outros.

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Caboclinhos


Caboclinho Tupi


Caboclinho Manifestação popular, originária da mescla indígena, os caboclinhos, também chamados de cabocolinhos, expressam por meio da dança, música, dramatização, indumentária e religião um forte sentimento nativista. Há diversas manifestações, espalhadas por todo o Brasil, que se assemelham aos nossos caboclinhos ao referendar nossa herança indígena. Podemos citar os Caboclos da Bahia, os Caiapós de São Paulo, os Tapuios de Goiânia e as Tribos de Índio da Paraíba, presentes também no Carnaval de Pernambuco. De acordo com as pesquisas de Katarina Real (1990) os caboclinhos mais antigos são o Carijós e o Canindé, fundados em 1889 e 1897, respectivamente. Durante o carnaval de 1965, o qual acompanhou, existiam apenas 11 grupos. Atualmente quase 40 grupos participam do Concurso de Agremiações Carnavalescas e da Programação Oficial do Carnaval do Recife. Grande parte desses grupos provém da Zona da Mata e Litoral do Estado. São homens, mulheres e crianças que apresentam vigorosas coreografias em ritmo marcado pelo estalido seco das preacas (espécie de arco e flecha de madeira). Quando brincavam nas comunidades de origem, era comum a execução de um auto dramático, contando cenas históricas do país em que os índios estavam envolvidos, desde as lutas com o colonizador até as situações de catequese. A religião está presente na manifestação por meio dos cultos indígenas, a pajelança, religião dos antepassados. É na Jurema ou Catimbó, como é popularmente conhecida, onde atua a maioria dos mestres e caboclos. Alguns grupos diferem desta linha, cultuando religiões afro-brasileiras, ligadas a terreiros de Xangô e Umbanda. Eu comecei a brincar no caboclinho, eu fazia parte de um terreiro de Umbanda em Maceió, e naquela brincadeira de chamar caboclo aí eu recebi Sete Flexas. Fiquei gostando, vim embora pra Pernambuco. Não consegui levantar o Clube, voltei pra 69


Maceió e de lá eu consegui colocar Sete Flexas na passarela em 1969. Em 70 vim embora e em 71 registrei Sete Flexas que participa até hoje. (Mestre Alfaiate – fundador do Caboclinho Sete Flexas) A apresentação normalmente inicia com o porta-estandarte (podendo haver mais de um), seguido de dois cordões de caboclos e caboclas, comandado pelos Puxantes. No centro apresentam-se o cacique (responsável pelas coreografias) e a cacica (ou mãe da tribo). O desfile também conta com a presença do Pajé (ou curandeiro, orientador espiritual do grupo); Perós (crianças da tribo) e dos caboclos do baque (o instrumental). As danças ou evoluções variam de um grupo para outro. Geralmente se apresentam em duas fileiras (cordões), podendo também trazer alas, com coreografias que representam diversas situações criadas e recriadas pelos mestres e brincantes. De maneira geral, evoluem com agilidade, agachamse, levantam-se e rodopiam nas pontas dos pés e calcanhares, apresentando três momentos específicos: Guerra, Baião e Perré, determinados pela mudança do ritmo. Alguns grupos também apresentam o Toré ou Macumba, o Traidor (destaque das preacas marcando o ritmo), a Emboscada (disputa de dois grupos) e Aldeia (dança em círculo). As indumentárias, compostas de adereços de cabeça, atacas (de pé e mão), saiotes e tangas, são confeccionadas com penas (de Ema e de outras aves), lantejoulas, contas, búzios, espelhos, vidrilhos, cordas e sementes. Os adereços de cabeça são bastante diversificados, normalmente trazem cocares, capacetes, cabeleiras, diademas, girassóis e leques, decorados essencialmente com penas e lantejoulas. Apresentam-se descalços, com adereços (machados, preacas, lanças e cabaças) e colares (de contas, sementes ou dentes de animais). No concurso, julgam-se as fantasias, os adereços, a coreografia (guerra, baião e perré, podendo apresentar o toré), o porta-estandarte (dança, evolução e traje de caboclo), o cacique e cacica (traje, evolução e apresentação), o conjunto/empolgação, e o terno (ou baque). Os instrumentos usados são os caracaxás (espécie de chocalhos), o surdo e a inúbia (flauta ou gaita), podendo acrescentar atabaque e caixa. As músicas normalmente são 70


instrumentais, havendo grupos que recitam versos ou loas: Abrandai, abrandai / Meu tenente e capitão Preste atenção o meu falar / Tava em cima daquela serra Quando ouvi a gaita tocá / Ouvi o som do Taró O grito de Tupiriçá / Vejo meus caboclinhos Armados para brigar / Vejo a bandeira de guerra Inçada no pavilhão / Vejo o cordão do tenente Brigar contra o do capitão / Quero saber qual é a tribo Que é contra essa Nação. (Trecho de uma loa cantada pela rainha do Caboclinho Tabajaras em 1961 – retirada do livro Folclore do Carnaval do Recife de Katarina Real) Os nomes dos grupos de Caboclinho muitas vezes trazem o nome de alguma entidade, povo ou tribo indígena, a exemplo do Caboclinho Oxóssi Pena Branca, da Tribo Tapuias Camarás, Tribo Tupi, Tribo Caboclinho Tupinambá, Tribo de Caboclinhos Truká, Caboclinho Índio Tupi Guarani, Caboclinho Carijós, Caboclos Cahetés de Goiana, entre vários outros.

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Tribo de Ă?ndio


Tribo de รndio Tupynambรก


Tribo de Índio Oriundas do Estado da Paraíba, as Tribos de Índios foram incorporadas ao Carnaval do Recife, sendo muitas vezes confundidas com os caboclinhos. Apresentam danças bastante complexas, acompanhando o ritmo marcado pela musicalidade indígena, com temáticas ligadas à luta, guerra, morte e ressurreição. As primeiras Tribos de Índios que se apresentaram no Carnaval do Recife foram a Tupi-Guarani (fundada em 1951), a Tupi-Papo-Amarelo (1962) e a Paranaguazes (1953), as duas primeiras fundadas no Estado da Paraíba e a terceira criada em Pernambuco sob influência paraibana. A Tribo de Índio Tupi-Guarani era liderada por Perré, descendente de índio proveniente da Paraíba que influenciou o surgimento de diversos outros grupos no nosso estado, deixando como legado, inclusive, um tipo de dança executada pelos Caboclinhos e pelas Tribos de Índios com seu nome. Eu comecei em 1988 na Tribo de Índio Tupi-Guarani, fundada por José Severino da Silva, o famoso Perré, que hoje a gente tem uma dança, descendente de índio mesmo, que motivou as Tribos de Índio. (Cidiclei Simões – Tribo de Índio Tupinambá) Assim como nos caboclinhos, a apresentação conta com a presença de personagens e de cordões de índios e índias. O porta-estandarte normalmente abre o desfile, seguido do cacique e da cacica (alguns grupos também trazem rei e rainha), puxante, espião e feiticeiro, finalizando com os cordões. Os cordões apresentam-se em duas fileiras: as índias de um lado portando machadinhas, e os índios de outro com lanças na mão direita e escudos na mão esquerda. Além destes, as agremiações trazem o conjunto de músicos e algumas delas apresentam alas de crianças. Os participantes normalmente pintam o corpo de vermelho e usam camisas de cetim ou veludo com desenhos de escudos e machados no centro. A indumentária, incluindo os leques e cocares, é confeccionada com penas de peru, de pato, além de boá. As penas, o figurino, os adornos e o estandarte são ricamente decorados com franjas, lantejoulas e pedrarias. 75


No concurso, são nove os itens de julgamento: fantasias, coreografia/ evolução/conjunto/empolgação, alegorias/adereços (machado, seta, escudo, lança ou cabaça), cacique/cacica, baque (afinação e execução), porta-estandarte (dança/ evolução), devendo trazer no mínimo um feiticeiro, um puxante e um espião, que, assim como o cacique e a cacica, são julgados individualmente pela coreografia e pelo traje. O feiticeiro desfila com roupa de palha, sendo responsável pelos efeitos realizados com fogo e fumaça durante o desfile. O espião é como um guerreiro, um líder que passa por todas as alas e personagens da agremiação. E o puxante é responsável por liderar as danças da Tribo. Alguns grupos trazem mais de um desses personagens. O baque geralmente é composto de dois bombos (ou surdos), um ganzá e uma gaita. Executam músicas singulares, que influenciam diretamente na coreografia/evolução, momentos em que alguns grupos apresentam o perré, a macumba, a matança (parte encenada em que os índios lutam para se estabelecer como pajé), e outras evoluções. As loas muitas vezes falam das guerras, de lideranças que já se foram, do próprio grupo e da religião. Assim como ocorre nos caboclinhos, grande parte dos mestres das Tribos de Índios são seguidores da Jurema ou do Candomblé, dando um toque de religiosidade à manifestação.

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Afoxé


Afoxé Oxum Pandá


Afoxé A palavra afoxé remonta ao final do século XIX e constitui um termo polissêmico, que designa vários folguedos ligados às práticas culturais negras no Brasil, a exemplo de outras tantas usadas nesse período, como batuques, sambas e maracatus. Segundo alguns estudiosos, a palavra é de origem sudanesa áfohsheih e aparece em virtude da influência do povo sudanês sobre os bantus, utilizada para nomear nações e grupos administrados por governador negro. Talvez venha daí a sua relação com os maracatus de baque virado, uma vez que estudos apontam o afoxé como uma manifestação cultural nascida no interior dos primeiros cortejos de maracatu. Mas o que é um afoxé? Como são organizados os personagens em um desfile? O afoxé é hoje, expressão artístico-religiosa com uma forte definição estética ligada às nações africanas, imbuído de um caráter religioso e de manutenção de valores. Sua organização (presidente e diretores) geralmente é composta por um Babalorixá ou Ialorixá, e por algumas pessoas com cargos significativos dentro da hierarquia dos terreiros, o que não impede agregar pessoas que não façam parte da religião dos orixás. Suas sedes, na maioria das vezes, funcionam no interior dos terreiros de Candomblé. A ligação dos grupos com a religião também se traduz nas cores que levam às ruas; assim, o vermelho e branco, em respeito a Xangô (para o afoxé Alafin Oyó, por exemplo); amarelo, reverencia Oxum; verde e vermelho, Ogum; aqueles que têm como patrono Iemanjá trazem o azul e o branco; em se tratando de Iansã, é o rosa sua cor principal. Em Pernambuco, o primeiro afoxé foi o Ilé de África, nascido no Recife em fins dos anos 1970, como uma proposta de resistência social, política e cultural. Mas é em meados dos anos 1980, que vários militantes do Movimento Negro Unificado vão às ruas com o Afoxé Alafin Oyó. Contudo, se nos anos 1980 não existia mais do que uma dezena de 79


grupos, hoje existem mais de trinta se apresentando nos altos, nas praças, em eventos como a Terça Negra , assim como nas programações carnavalescas do Recife e de Olinda, e em outros eventos que acontecem no Estado e fora do Brasil. Como exemplo, podemos citar o Afoxé Ilê de Egbá, que já realizou turnês pela Europa. Os integrantes dos Afoxés constroem discursos, reinterpretam a história e constituem uma associação (a União dos Afoxés de Pernambuco – Uape) que lhes permite gozar de boa visibilidade e aceitação no Estado. Na rua, a organização de um afoxé é caracterizada pela figura do bandeirista, que abre o cortejo e apresenta a bandeira da nação; uma criança conduz o babalotin (símbolo sagrado do afoxé, também podendo ser carregado por uma mulher grávida); o corpo de bailarinos, ricamente ornamentados com panos-da-costa, fios de conta e torso nas cores do orixá patrono, é seguido da diretoria e da sua percussão. Composta por agbê’s (cabaça envolvida por uma rede confeccionada com fios de conta), atabaques (run, rumpis e lê), base fundamental que se soma ao comando do agogô quando se inicia o toque ijexá. Alguns grupos trazem pessoas representando os orixás. As músicas cantadas pelos grupos mesclam palavras em iorubá e português, e retratam aspectos religiosos e/ou reforçam a origem étnica das diferentes nações. “...oyó capital Ioruba te cantona cadencia o Ijexá... mais pela força de Xangô que em grande império Alafin se transformou...” (Nilson e Claudete) É um evento organizado pelo Movimento Negro Unificado em parceria com o Núcleo da Cultura AfroBrasileira da Prefeitura do Recife, que acontece no Pátio de São Pedro / bairro de São José – Recife, com apresentações de afoxés, maracatus de baque virado, grupos de hip-hop, coco, entre outras manifestações ligadas à cultura afrodescendente. 30 O Encontro de Afoxés do Recife faz parte da programação oficial do Carnaval da Cidade desde 2002. O evento acontece no domingo de Carnaval, reunindo dezenas de grupos que se apresentam no Pátio do Terço, palco do Pólo Afro. É importante destacar que os afoxés se concentram no Pátio de São Pedro e seguem em cortejo até o Terço. 29

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O Concurso


Urso Cangaรงa de รgua Fria


O Concurso de Agremiações Carnavalescas A origem do Concurso de Agremiações Carnavalescas está vinculada ao tradicional desfile das manifestações culturais, que se apresentam pelas ruas do Recife desde a segunda metade do século XIX. Esses desfiles são promovidos, inicialmente, pelas redações dos principais jornais que circulam na cidade com o apoio de empresas particulares do Estado, do comércio local e dos moradores das ruas do centro, que organizam concursos com premiações diversas para os grupos mais animados e que melhor se apresentarem fantasiados. Entre as primeiras agremiações que encontramos nas ruas da cidade até as três primeiras décadas do século XX são: os Clubes de Frevo, as Troças, os Maracatus de Baque Virado, os Caboclinhos e os Blocos de Pau e Corda. A participação da Prefeitura na organização desses desfiles se intensifica a partir do período da Era Vargas (1930-1945), mais especificamente na gestão do Prefeito Novais Filho, nomeado pelo interventor de Pernambuco, Agamenon Magalhães. Nesse período, os desfiles acontecem pelas principais artérias do centro histórico. Os bairros de São José, Santo Antônio e Boa Vista transformam suas ruas, praças e pátios em verdadeiros territórios da folia. Assim, até o final dos anos 1990, a geografia das festividades carnavalescas compreende as seguintes localidades: pátio de Santa Cruz, praças da Independência (Pracinha do Diario) e Maciel Pinheiro; ruas da Imperatriz e Nova; Avenida Conde da Boa Vista, Guararapes e Dantas Barreto. Segundo a carnavalesca e funcionária publica Graça Xavier, “ainda nos anos 1980, o desfile acontecia na Pracinha do Diario e a apuração acontecia no Pátio de São Pedro. As agremiações que ficavam nos três primeiros lugares ganhavam a premiação em troféu”31. A partir de 2002, a Fundação de Cultura, após reuniões com a Federação Carnavalesca de Pernambuco, sistematiza e organiza o Concurso de Agremiações Carnavalescas, estabelecendo uma premiação em dinheiro para as duas primeiras colocadas de cada modalidade, de acordo com a 31 Graça Xavier – carnavalesca e funcionária pública da Fundação de Cultura Cidade do Recife. Entrevista realizada em 30 de novembro de 2007.

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categoria (Especial, Grupo 1 e Grupo 2). Esta ação tem o objetivo de estimular a produção artística de tais agremiações, promover visibilidade ao trabalho desses grupos, elevar a auto-estima dos participantes, formar profissionais, gerar emprego e renda, além de mobilizar os setores do turismo, da mídia e do comércio. Atualmente, participam 330 agremiações, divididas em 11 modalidades (Maracatu Nação, Maracatu de Baque Solto, Escolas de Samba, Caboclinho, Tribos de Índios, Boi de Carnaval, Ursos, Clube de Bonecos, Blocos de Pau e Corda, Clube de Frevo e Troças), filiadas ou não à Federação Carnavalesca de Pernambuco, desde que se enquadrem nos critérios estabelecidos pelo regulamento. O concurso acontece durante os três dias de Carnaval (domingo, segunda e terça-feira) no centro da cidade, sendo o Grupo Especial na Avenida Nossa Senhora do Carmo – Bairro de Santo Antônio; os Grupos 1 e 2, distribuídos nos pólos da Av. Guararapes – Bairro de Santo Antônio e no Pátio de Santa Cruz, na Boa Vista. O grupo de Acesso e as agremiações aspirantes desfilam na Avenida do Forte, no Bairro dos Torrões. A ordem de apresentação de cada agremiação resulta de um sorteio previamente elaborado pela comissão organizadora (coordenadores, supervisores e técnicos da Fundação de Cultura), juntamente com os carnavalescos de todas as modalidades e os representantes das entidades representativas como FECAPE (Federação Carnavalesca de Pernambuco), FESAPE (Federação das Escolas de Samba de Pernambuco), AESPE (Associação das Escolas de Samba de Pernambuco), FECBOIS (Federação Carnavalesca de Bois e Similares), AMBS (Associação dos Maracatus de Baque Solto), Associação dos Maracatus Nação de Pernambuco (AMANPE) e a Associação Carnavalesca de Caboclinhos e Índios de Pernambuco. Segundo o regulamento do concurso, as agremiações são avaliadas por uma comissão julgadora, previamente selecionada, a qual adota como parâmetro de pontuação os critérios de julgamento construídos pela equipe do Núcleo de Formação e Concursos / FCCR com participação da comunidade produtora, ou seja, representantes de cada agremiação carnavalesca inscrita para o concurso. 84


As agremiações faltosas e as que não adquirirem a pontuação necessária para a classificação, no ano seguinte desfilarão nos pólos descentralizados da cidade, dependendo da categoria, conforme consta no regulamento. Sendo assim, a última colocada ou a agremiação do Grupo Especial que faltar passará para o Grupo 1; a do Grupo 1, que não obtiver a pontuação necessária para classificação, passará para o Grupo 2; e a do Grupo 2, para o pólo do Grupo de Acesso. Esse tipo de concurso é realizado apenas no Recife, e tem um forte significado para o Carnaval da cidade e para as pessoas que dele participam. É um espetáculo que consegue reunir um público médio de 15 mil pessoas e mobilizar cerca de 30 mil brincantes que se revezam durante o período dos desfiles.

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Livro: Cartilha do Carnaval 2010  

Livro: Cartilha do Carnaval 2010 Coordenação: Zélia Sales Publicada por: Fundação de Cultura Cidade do Recife

Livro: Cartilha do Carnaval 2010  

Livro: Cartilha do Carnaval 2010 Coordenação: Zélia Sales Publicada por: Fundação de Cultura Cidade do Recife

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