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RICARDO DA FONSECA E HILTON ABI-RIHAN É fácil entender porque o Carnaval Carioca é considerado o maior espetáculo popular a céu aberto do planeta. Brilhos, Cores, Ritmos, Emoção e Arte são componentes que podem ser vistos a olho nu e sentidos por todo e qualquer cidadão presente na Sapucaí. Ou mesmo pelos que assistem o Desfile das Escolas de Samba pela televisão. Essa condição de ser um espetáculo de simples compreensão, o torna um evento para todos, já que não é necessário nenhum tipo de conhecimento ou formação cultural preliminar para usufruir dessa festa. Não há nenhum segredo, nada oculto. Nem aos simples, nem aos doutos. Nem aos gringos, nem aos brasileiros.

Mas um aspecto que permanece, inicialmente, oculto e que deve ser sempre revelado, é como se dá a participação do povo, também, nos bastidores - na preparação desse espetáculo único. Uma legião de trabalhadores (povo) não economiza esforços, nem profissionalismo ou paixão, e ano após ano prepara para todos nós (povo) um cardápio mágico e inesquecível de fantasias, alegorias e sambas que derramarão na Marquês de Sapucaí muito brilho e emoção. Nós, da revista Beija-Flor de Nilópolis, mais uma vez nos sentimos orgulhosos de poder desvendar alguns desses segredos e apresentar aos nossos leitores, artistas dos mais variados naipes que formam a alma desse espetáculo popular chamado Carnaval.


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ANIZIO ABRÃO DAVID

Nesse ano, a cidade do Rio de Janeiro completa 450 anos. Assim como qualquer aniversário, a data é um símbolo que esconde algo mais importante e essencial: as histórias que foram construídas nesses anos de existência. Nesse sentido, os 450 anos da cidade do Rio de Janeiro carregam uma força muito grande, porque essa capital sempre protagonizou importantes acontecimentos. Episódios que tornaram essa cidade, para mim, a mais importante capital do Brasil e a fizeram o símbolo maior do turismo, da hospitalidade e da alegria do brasileiro. Nesse repositório de arte, cultura e belezas naturais únicas, temos um povo alegre e de alto astral, que não discrimina por origem, cor, raça, situação financeira ou crença. De braços abertos, recebemos todos que aqui chegam. Todas essas peculiaridades fazem do Rio de Janeiro a cidade que mais recebe turistas estrangeiros em férias no Brasil, e tenho certeza de que o Beija-Flor de Nilópolis e as demais escolas de samba, pelo papel que exercem na realização do Carnaval Carioca, são importantes elementos na construção dessa imagem que a cidade maravilhosa possui.

Por isso, tenho um orgulho bom de saber que a cada Carnaval, a cada Desfile das Escolas de Samba, estamos levando para o mundo e para os que visitam a nossa cidade, uma mensagem de alegria e hospitalidade, mostrando a todos o que há de melhor no nosso povo. Somos um importante cartão-postal do Rio de Janeiro e tenho muita confiança de que o desfile do Beija-Flor de Nilópolis será, mais uma vez, um inesquecível espetáculo de cores, sons e alegria, representando, também, um criativo abre-alas para as diversas festas que serão realizadas durante esse ano em comemoração aos 450 anos dessa cidade acolhedora. Nossos componentes já estão preparados. Foi um ano de muito trabalho e dedicação e, agora, iremos entrar na Marquês de Sapucaí com o orgulho e a garra de quem bate forte no peito e grita “Eu sou Beija-Flor” para fazermos mais um animado desfile, falando da África - esse continente amigo que tanto contribuiu para a formação da identidade do brasileiro. Desejo a todos, um Carnaval de muita alegria e que as boas lembranças permaneçam como meio de tornar cada um mais alegre e feliz. Aos componentes da agremiação, meu carinho e meus votos de um excelente desfile. Fevereiro 2015

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FARID ABRÃO

Está chegando a hora, meus amigos e minhas amigas, de nosso coração bater mais forte quando pisarmos na Avenida Marquês de Sapucaí para mostrar a garra, a força, a abnegação e a cabeça erguida de uma escola amada e respeitada nos quatro cantos do planeta. Essa é a minha mensagem inicial para todos aqueles que amam a Deusa da Passarela e acreditam sempre no brilhante Carnaval da Beija-Flor de Nilópolis. Mas, como Presidente Executivo Administrativo de nossa Agremiação, não posso deixar de destacar que nossa escola vai muito além do Carnaval e do entretenimento, sendo um exemplo a ser seguido pela seriedade e competência também no campo social através de seus diversos cursos e oficinas mudando a realidade de muitas famílias carentes de nossa região.

Nesse ano a Beija-Flor escolheu versar sobre o continente africano, com enfoque para a Guiné Equatorial. Desde o início se pôde perceber a alegria da comunidade na recepção do enredo que se traduziu em belíssimos sambas e com uma final acirrada. Toda a equipe de Carnaval cuidou minuciosamente de cada detalhe do enredo, falando sobre a beleza e as riquezas naturais e culturais daquele país, de forma que o Carnaval a ser apresentado será altamente impactante. Temos que pontuar ainda sobre as conquistas realizadas nesse período de gestão, sendo a maior delas a reforma de toda a quadra, além da obra realizada para a criação de um segundo pavimento de camarotes, ambas conseguidas através do empenho do Vice-Presidente Executivo Ricardo Abrão e toda a equipe. Destaco ainda o amor incondicional pela Beija-Flor de Nilópolis de nosso querido Presidente de Honra Anizio Abrahão David, sempre dedicado e atento às causas da escola e que desenvolve um trabalho inquestionável não só para a escola mas para o Carnaval do Rio de uma maneira geral, o que muito nos orgulha. Quero encerrar deixando nossa mensagem de paz e de união não só nessa grande festa em que todos os povos se reúnem no Rio de Janeiro para celebrar a alegria de viver, como também em todos os dias do ano de 2015. E a Beija-Flor convida a todos para assistir a mágica do Carnaval acontecer na Marquês de Sapucaí, através de muito samba no pé e respeito às raízes africanas que ajudaram a construir esse chão abençoado por Deus e que tanto amamos. Um beijo no coração de todos. Fevereiro 2015

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TEXTO de agradecimento do Excelentissimo Sr. Embaixador da República da Guiné Equatorial no Brasil, Dr. Benigno Pedro Matute Tang.

“Esta maravilhosa homenagem à República da

Guiné

Equatorial

preparada

pela

Beija-Flor de Nilópolis com o apoio do nosso governo, de nossa população e das empresas brasileiras que trabalham hoje no nosso país, simboliza o estreitamento cada vez maior das relações de amizade e cooperação sincera entre estas duas nações irmãs. Esperamos que na estória deste samba, nas representações alegóricas, nas fantasias, na dança e em diversos detalhes deste carnaval da Beija-Flor, o mundo reconheça a proximidade da cultura brasileira com a cultura guineu-equatoriana e que fique marcado para sempre no coração de nossos povos que as nossas histórias andam juntas e que os nossos caminhos muitas vezes são os mesmos.”

Dr. Benigno Pedro Matute Tang

Embaixador da República da Guiné Equatorial no Brasil


UM GRIÔ CONTA A HISTÓRIA

Um Olhar Sobre a África e o Despontar da Guiné Equatorial Caminhemos Sobre a Trilha de Nossa Felicidade Vem na batida do tambor Voltar na memória de um Griô Fala cansada, mãos calejadas Ouça menino Beija-Flor Ceiba, árvore da vida Raízes na verde imensidão Na crença de tribos antigas Força incorporada nesse chão O invasor singrou o mar, Partiu em busca de riquezas E encontrou nesse lugar ‘Novas Índias’, outras realezas Destino trocado, tratado se faz Marejam os olhos dos ancestrais Negro canta, negro clama, liberdade! Sinfonia das marés, saudade... Um africano rei que não perdeu a fé Era meu irmão, filho da Guiné! Formosa divina ilha testemunha dos grilhões Eu vi a escravidão erguer nações Mas a negritude se congraça A chama da igualdade não se apaga Olha a morena na roda e vem sambar Na ginga do Balelé, cores no ar Dessa mistura eu faço carnaval Canta Guiné Equatorial! Criança, levanta a cabeça e vai embora O mar que trouxe a dor riqueza aflora Tem uma família agora Quem beija essa flor não chora Sou negro na raça, no sangue e na cor Um guerreiro Beija-Flor Oh! Minha deusa soberana Resgata sua alma africana Autores: J. Velloso, Samir Trindade, Jr. Beija-Flor, Marquinhos Beija-Flor, Gilberto Oliveira, Elson Ramires, Dílson Marimba e Silvio Romai. Participação Especial: Junior Trindade e Ribeirinho.


REPRODUÇÃO EM DUAS CORES DA OBRA “UNIÃO DO POVO”, DO ARTISTA PLÁSTICO LEANDRO MBOMIO.


Esse é o ano da África na Beija-Flor de Nilópolis. Resgatando a afinidade que tem com o tema, a agremiação decidiu que nesse Carnaval o enredo será mais precisamente, Guiné Equatorial. Apresentando o enredo “Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade”, a escola se prepara para mais um grande desfile, alimentada pela expectativa de que sua apresentação envolva o público presente à Marquês de Sapucaí e sensibilize o olhar atendo dos jurados, para que esses atribuam à escola uma pontuação justa. Além da motivação com um enredo que costuma dar bons resultados para a agremiação (como no título de 2007, com “Áfricas, do berço real à corte brasiliana”) e do desejo de ser ainda melhor que nos últimos anos, Laíla, diretor de harmonia e de Carnaval da agremiação, destaca outros pontos importantes para atender essa expectativa de bons resultados no Carnaval deste ano: “Eu nunca estive tão bem. Estou feliz fazendo esse carnaval. Durante uns seis anos tivemos pequenos conflitos internos, que de uma maneira ou de outra, influenciaram no trabalho desenvolvido pela escola. Mas isso acabou. Há tempos não tínhamos um Carnaval fluindo tão bem. Todos estão dentro de suas respectivas funções e está tudo fluindo bem. Durante todo o ano passado, os trabalhos sempre esti-

veram adiantados para esse desfile. Estamos em busca de forra. O resultado do ano passado não agradou a escola. Sempre que ganhamos um carnaval, surgem vozes críticas insinuando que não merecíamos o título, porque faltou algo no nosso desfile, ou que não fomos tão bons, etc. Mas quando outras escolas ganham faltando muito mais do que algo, ninguém fala nada. É um silêncio vergonhoso. Sabemos que essa nossa aparente audácia em saber o quanto somos grande, desperta a inveja e a antipatia de alguns. Mas não posso fazer nada: nós somos vitoriosos. Não aceitamos derrota. Para mim quem aceita derrota é covarde. Nós somos vitoriosos. A escola está mordida! Os componentes estão puxando lá do fundo de si toda a garra e amor que tem pela Beija-Flor de Nilópolis para ajudar a desenvolver na Sapucaí um dos maiores desfiles da escola”, afirma o comandante. Laíla explica os porquês da escolha desse enredo tão festejado em Nilópolis: “Após o Carnaval de 2014, o qual temos certeza de que a Beija-Flor foi julgada de maneira parcial, decidimos que precisávamos de um Carnaval mais impactante, que trouxesse de volta os grandes desfiles da nossa escola. De acordo com uma pesquisa que a Comissão de Carnaval realizou, chegamos à conclusão de que o tema ‘África’ era o caminho. Mas tínhamos que ver como colocaríamos esse enredo em prática. Especialmente porque muiFevereiro 2015

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tas escolas já falaram sobre esse tema - inclusive nós -, e precisaríamos nos manter mais uma vez na vanguarda, no que se refere ao desenvolvimento de um enredo. Outro item importante que precisaríamos definir estava relacionado aos custos. Quem acompanha a realidade de um espetáculo de Carnaval no Grupo Especial sabe que os recursos que as escolas dispõem são insuficientes, frente às despesas. Colocar uma escola na avenida é um custo muito grande. Por isso, a busca de um patrocinador é fundamental. Em 2013, a Beija-Flor realizou um show na Guiné Equatorial, que foi muito bem recebido pelo público e pelos organizadores, que gostaram muito do que apresentamos. Esse contato com o país foi importante, porque o governo de lá, sabendo que estávamos buscando patrocinadores, manifestou interesse em estar com a Beija-Flor nesse carnaval. Os representantes da Guiné Equatorial nos procuraram e depois de algumas negociações fechamos a parceria, com a proposta de fazermos um Carnaval abordando África e falando sobre o país deles - sua cultura e seus atrativos. Tem estado tudo muito afinado e estamos todos muito otimistas em relação ao que apresentaremos na Avenida”.

O bom clima instaurado na Deusa da Passarela destacado por Laíla, contagia a todos. Victor Santos, membro da comissão de Carnaval da escola, conta que nunca esteve tão feliz na Beija-Flor. Ele, que anos atrás se aventurou no Carnaval de São Paulo (e obteve grandes resultados), lembra que só voltou para Nilópolis porque sentia falta da atmosfera agradável da agremiação: “Eu olhava de São Paulo e, apesar de estar dando certo lá, eu via a Beija-Flor e falava: ‘essa escola é tão grande, tão maravilhosa. Por que eu estou aqui? Por que eu não estou lá, contribuindo com a Beija-Flor e com seu Anizio, que tanto me ajudou? Agora que aprendi tanto, por que não estou apoiando a escola que faz parte de mim e que eu sou parte dela?’ Quando decidi voltar, pedi para seu Anizio, ele aceitou. Ele me disse para falar com o Laíla. O Laíla também gostou da ideia, achou que era uma boa, mas não me botou na Comissão de Carnaval inicialmente. Fiquei um ano como figurinista, depois voltei para a Comissão. Estou muito feliz desde essa volta. As pessoas daqui são maravilhosas” conta.

O diretor de Harmonia e de Carnaval da agremiação nilopolitana, Laíla, e a Comissão de Carnaval, formada por André Cezari, Cláudio Russo, Bianca Behrends, Fran Sérgio, Victor Santos e Ubiratan Silva. 14

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África e Carnaval é um casamento que frequentemente acontece nas escolas de samba. Devido à história do samba não poderia ser diferente. Entretanto, falar desse continente não é tarefa fácil e exige muito da criatividade dos carnavalescos, justamente por ser algo que já foi abordado tantas vezes. Fran Sérgio, membro da Comissão de Carnaval, tem a solução para essa questão: “A África é muito grande. Nós já falamos de África, mas não foi sobre a Guiné Equatorial. Tem muita coisa para ser dita ainda sobre a África. Esse país que vamos falar é um país do litoral, os povos de lá cresceram às margens do mar, dos rios. A capital é uma ilha. É muito verde. Florestas densas. Vamos explorar essa questão da natureza, das cores, do passado da África, mas vamos também falar do progresso pelo qual esse país passa, o desenvolvimento que eles estão vivendo. Tem muitas riquezas naturais, como o petróleo e o diamante. É um povo que tem muito contato com outros povos. É um povo dançante. Estamos trazendo isso para o nosso carnaval. Os ritmos, as cores. E encerraremos o desfile com esse casamento Brasil-Guiné Equatorial.” Esse mosaico mais intenso de cores também exige uma dedicação a mais. André Cezari, membro da Comissão de Carnaval, sabe bem como agir diante de tal desafio: “A criatividade tem que aflorar ainda mais por conta dessa questão das cores. Precisamos de mais criatividade, mais formas, para que as coisas fiquem atreladas e com qualidade: as alas, os carros, as formas. Tudo isso em um formato mais colorido exige mais cuidado na hora de colocarmos em prática e estamos tendo esse cuidado com nosso trabalho, que é sempre feito com muita dedicação. Trabalhar na Beija-Flor é como jogar na Seleção Brasileira, temos que fazer o melhor sempre, temos uma comunidade que faz uma torcida apaixonada”, explica. Bianca Behrends, pesquisadora da Comissão de Carnaval, foi, ao lado de Fran Sérgio, à Guiné Equatorial buscar informações para a construção do enredo. O que mais marcou Bianca foi um ponto que fará esse Carnaval diferente dos outros que já falaram sobre o continente: “A Guiné Equatorial é uma África muito colorida, litorânea, isso foi o mais forte que senti nessa viagem. Os parques, as ilhas, as praias é tudo muito bonito lá. É uma região de tonalidades vivas e um país que busca um desenvolvimento, isso é o mais simbólico que trouxemos de lá”, sublinha a pesquisadora.

Sempre ligado às inovações tecnológicas, Ubiratan Silva, outro integrante da Comissão de Carnaval, revela qual será a grande invenção da escola que pôs na avenida um moderno carro interativo no Carnaval de 2014: “A principio não teremos nada tão tecnológico, como no ano passado, um carro, por exemplo. Até porque não tem nenhuma ligação do enredo com tecnologia. Botar tecnologia de graça não seria válido. Mas estamos usando 3D na concepção dos carros e fantasias. A tecnologia mesmo virá na luz, fumaça, e de outros elementos que estamos desenvolvendo para impactar o público quando passarmos pela avenida.” destaca.

Novo soldado

A já vitoriosa Comissão de Carnaval da Beija-Flor ganhou mais um membro. Cláudio Russo, que fazia parte da ala de compositores da escola, agora dá sua contribuição, ao lado de Bianca, na área de pesquisa. Cláudio, que é formado em história e especializado em África, explica como foi sua entrada na comissão: “Entrei para essa equipe em 2014. Como compositor, disputei sambas enredos durante onze anos, dos quais me saí vencedor em cinco. Desses que ganhei, três foram campeões na avenida - inclusive o de 2007 que falou das muitas Áfricas. Eu escrevia sobre carnaval no website do Sidney Rezende e no ano do enredo do cavalo manga-larga, eu fiz um texto sobre esse carnaval da Beija-Flor. O Laíla gostou do texto, acrescentou na sinopse da escola e tivemos um primeiro contato. Eu cheguei a manifestar algum interesse, sobre escrever mais, além das letras dos sambas. Aí, então, em 2014 ele me chamou para integrar a equipe da Comissão de Carnaval. Não entrei no lugar de ninguém, vim para somar. Não tenho pretensão de ser mais do que eu estou sendo. Estou bem feliz com essa nova função” conta Cláudio, que adotou o “sobrenome” Russo em memória aos tempos de garoto, quando era apelidado assim por ser loiro.

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No Carnaval de 2015, a Beija-Flor decidiu voltar ao continente mãe da humanidade e falar de África. Mais precisamente da Guiné Equatorial com o enredo “Um Griô Conta a História: Um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade”. Um olhar sob um continente africano colorido, pulsante e promissor é a grande aposta da escola de Nilópolis neste carnaval. A África, rica em diversidade como o Brasil, sempre renderá excelentes carnavais e esse elo também é um alvo da Deusa da Passarela para o desfile deste ano. A ideia é promover o encontro das bandeiras de duas nações fraternas, num majestoso festejo popular, onde a língua portuguesa é apenas mais um elemento de afinidade, objetivando consagrar o enlace cultural entre o Brasil e a Guiné Equatorial, brindando os ideais de unidade, liberdade, paz e justiça.


Um griô conta a história:

um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade”

“A Árvore da Vida e a Floresta Equatorial Africana”

DESFILE 2015

SETOR 01

Refúgio Místico

Ala: Comissão de Frente Responsável: Marcelo Misailidis Componentes: 15

Essência Africana

Ala: 1º Casal MS & PB Responsável: Selmynha SorrisoZ & Claudinho Componentes: 2

Ouça Menino Beija-Flor

Ala: Crianças Responsável: Luciana Araújo & Luci Ribeiro Componentes: 80 Descrição: Grupo de crianças Beija-Flor, que formam a plateia atenta à narrativa de um Griô, um ancião, senhor do passado, um da-

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queles sábios que guardam, de pai para filho, a história viva do continente africano e de seu povo. Meninos e meninas, com os olhos fixos no velho homem, não deixam passar um detalhe sequer, e o contador de histórias, em um tom tranquilo, porém com a voz firme, abre o livro da memória, e narra, com riqueza de detalhes, através de eloquente linguagem oral, a rica história do continente africano e sua gente. Tripé - “Um Griô Conta a História”

Ala: Madrinha da Escola Responsável: Cláudia Raia Componentes: 1 Descrição:

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Voltar na Memória de um Griô

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Valéria Brito Componentes: 80 Descrição: O termo griô é uma corruptela da palavra “creole”, ou seja, crioulo, a língua geral dos negros na diáspora africana. A expressão tem origem nos músicos, poetas e comunicadores sociais, mestres e mediadores da transmissão oral; verdadeiras bibliotecas vivas, guardiões e contadores de todas as histórias, saberes e fazeres de um povo. As memórias do griô estão repletas de força e energia nativa, e ainda hoje, esses sábios vivem em muitos lugares da África, salvaguardando a memória das comunidades, das regiões e do país, e transformando a oralidade em patrimônio imaterial e cultural de um povo.

Alegoria 01 – Abre-Alas

Ao avistar o continente africano, o deslumbramento é inevitável. A magnitude, a imponência dos diversos tons daquela imensidão verde, causam um efeito quase hipnótico. Ceiba, a majestosa Árvore da Vida, é presença abundante na Floresta Equatorial (e também o maior símbolo da Guiné Equatorial, a ponto de ser representada em seu escudo nacional). Trata-se de um árvore de grande porte, podendo chegar até 70 m de altura, e cujo o tronco é muito característico, o que possibilita a árvore ser reconhecida facilmente. Sua copa não é excessivamente frondosa, e apresenta folhas jovens, que vão caindo durante a estação seca. A Ceiba tem inúmeras aplicações terapêuticas, e suas folhas e sementes são utilizadas pelos nativos desde tempos imemoriais, daí a afirmativa de que as raízes das árvores se confundem, se misturam, se mesclam com as origens de nossos antepassados, e com todo o legado por eles deixado. A paisagem da Floresta Equatorial “respirando” mais parece uma miragem: toda aquela biodiversidade, a natureza em sua


mais perfeita forma, farta, intocada, enigmática, revelando abundantes cachoeiras em meio à exuberante vegetação... Ao observar todo esse esplendor diante de nossos olhos, é impossível não admirar a potência da selva africana e a importância da Árvore da Vida. Força incorporada nesse chão, a crença de tribos antigas e a tradição dos povos ancestrais mostram-se através dos detalhes, presentes nos marfins, nas esculturas, nas máscaras, nos totens e nas carrancas, cada qual contendo características típicas de tribos e povos primitivos distintos, que habitaram e ainda habitam esse território tão surpreendente quanto misterioso. Chefe de Alegoria: Cristiano Bara Compositores: Samir Trindade, Junior Trindade, Adilson Brandão & Diogo Rosa

Março 2014

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O universo místico por traz de uma tribo imaginária da região da Guiné Equatorial será a proposta temática para a Comissão de Frente deste ano. Essa tribo nativa, mesmo ficcional, baseia-se em fatos antropológicos reais da cultura daquela região, que carrega consigo o misterioso universo de suas crenças, que atribuem às mascaras, a capacidade de encarnar as energias de seus antepassados, imortalizando e revivendo uma força que nunca apaga. Esta obra, que é uma livre criação, baseia-se na original arte africana, de esculpir máscaras que imprimem características e crenças de povos primitivos até o período pós-colonial, onde acreditavam que deuses, antepassados e guerreiros se manifestavam através destas máscaras, as quais guardavam a energia vital e possibilitavam a comunicação com os espíritos de seus ancestrais, que os protegiam como escudos contra o mal e os invasores. Muito à vontade para trabalhar com a temática africana, Marcelo Misailidis declara que esse tema e o Carnaval estão totalmente interligados, e que muitos não percebem isso: “A pergunta é: ‘por que quando fazemos Carnaval nos distanciamos da África?’ O Carnaval é afro em tudo, na música, na dança. Quando se fala em África, se aproxima mais 22

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de festa. O complicado é fazer o contrário, falar, por exemplo, de um país que não tem muita relação com essa festa. Quando se fala em África se tem um encaixe perfeito. E falar de África é como falar de Brasil, não faltam temas. Falar de África é falar de Brasil, pela relação que esses países têm”. À frente de uma comissão que passou por uma recente reformulação, Marcelo, que conta com uma equipe de 15 componentes, garante que está tão focado no trabalho que nenhuma mudança externa pode impedir ainda mais progresso. Ele lembra a boa média de notas que a Beija-Flor obteve no desfile de 2014 e que consolidou o trabalho que realiza. Marcelo conta que isso se deve, também, a força que vem dos bastidores: “O trabalho da Comissão de Frente começa do zero. Eu sempre trabalho com ineditismo. E isso exige que o Laíla e a diretoria da Beija-Flor confiem no meu trabalho e me dêem carta branca, inclusive atendendo as necessidades técnicas e de equipamento para desenvolver o meu trabalho e retirar de todo esse esforço o melhor resultado possível. Por estar tendo todo esse apoio deles é que o trabalho está fluindo bem. E tenho certeza que o público vai reconhecer todo esse esforço lá na Avenida.” www.beija-flor.com.br


emmbaumm

Wl adimir Morell

reça entrei na “Por incrível que pa de Wladimir se Beija-Flor”. Essa fra o demonstra Morellemmbaumm ao urinista tem sentimento que o fig agremiação de estar trabalhando na e meados do desd Nilópolis. Na escola foi o responsável ir ano passado, Wladim ntasias da Deusa por desenhar as fa o carnaval deste da Passarela para pondera e diz ano. No entanto, ele sozinho: “Fico até que não se trabalha essa coisa de me meio relutante com a. Eu faço o que chamarem de figurinist me pede. Me al a Comissão de Carnav e desenhei. Fiz ar pediram para desenh , mas tive ajuda todo o chão da escola es de carro e chef de muita gente, dos

ão de Carnaval, por do pessoal da Comiss comissão estavam exemplo. Os meninos da s e quando eles desenhando os carro lho me auxiliaram acabaram esse traba asias de destaque”. nos desenhos das fant à Beija-Flor se deu A “incrível” chegada e expectativas: “Há através de amizades lor se destaca por muito tempo a Beija-F iação maravilhosa. ter uma equipe de cr do por título. Estar Sempre estão brigan maioria das pessoas aqui é a vontade da rnaval. Eu cheguei que trabalha com ca s trabalhos com o aqui porque eu fiz un Sérgio, ambos da Cristiano Bara e o Fran s projetos paralelos. Beija-Flor, para outro u a mostrar meus O Fran me encorajo íla. Mostrei mas desenhos para o La mostrar mesmo, no achando que ia ficar só fosse gostar e me não esperava que ele isso. E me escolheu chamar. Mas ele fez isso disse que por para essa função. Por trei na Beija-Flor.” incrível que pareça en Fevereiro 2015

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Feliz com o envolvimento de seus filhos no Carnaval e otimista para o Desfile da Beija-Flor, Fabíola David concedeu uma entrevista à revista, na qual brinda os leitores com sua simpatia.

RBF — Na entrevista que nos concedeu para a edição 2014 da revista, você declarou que não tinha noção de como era importante desfilar no Abre-Alas e que diversas razões a levaram a voltar aos desfiles de carnaval. Como se sentiu na avenida? Alguma emoção especial pelo regresso? Algum preparativo especial, seja em termos de indumentária seja em termos de preparo físico ou emocional? Fabíola David - Foi muito gostoso retornar à avenida, sentir toda aquela energia maravilhosa... Energia contagiante que me faz um bem incrível, renova as minhas energias e me faz ter cada vez mais certeza da importância dessa festa para mim e para o público. Uma festa essencial, também, para a cultura brasileira. Em relação ao meu preparo para o desfile, procuro estar sempre em forma, cuidando com muita atenção da minha saúde física, mental e espiritual - e isso durante todo o ano. RBF — Alguma emoção diferente, pelo fato de sua filha Micaela ter desfilado como destaque do Abre-Alas pela primeira vez e ao seu lado? Como se sentiu vendo seus filhos participando com dedicação ao desfile da Beija-Flor? E o Anizio? Como ele se sentiu, considerando que ele dedicou boa parte dos seus esforços para ajudar a fazer o Carnaval carioca a ser o que é hoje? Fabíola David - Ter minha princesa junto a mim no abre-alas foi fantástico. Foi um desfile emocionante. Tanto o Gabriel quanto a Micaela são apaixonados pela Beija-Flor e pelo Carnaval carioca como um todo. Eles vibram e participam intensamente. E isso me deixa muito feliz. E ao Anizio também. Ele fica em êxtase com essa dedicação e esse amor que eles têm com a nossa amada Beija-Flor. 24

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RBF — Teve um significado maior, emprestar a sua graça e simpatia a um desfile que homenageou um querido amigo seu e do Anizio? Houve alguma situação agradável ou gratificante que gostaria de dividir com nossos leitores? Fabíola David - Homenagear esse grande mestre da TV brasileira foi muito importante e significativo para nós, não só pelo que ele representa para a televisão brasileira, mas principalmente pelo grande amigo que ele é para nós. Amigo de todas as horas e um apaixonado pelo carnaval. Um momento marcante do desfile foi vê-lo de Charlie Chaplin ao lado da nossa Rainha Raíssa, à frente da nossa maravilhosa bateria. Dedicação e amor total a essa grande festa. RBF — O que espera para o desfile da Beija-Flor desse ano? Fabíola David - Pelo que tenho acompanhado nos ensaios, no barracão e na quadra, tenho certeza de que faremos mais um belíssimo desfile, cheio de brilho, cor, garra e emoção. Essa é a “cara” da Beija-Flor. E todos os anos a diretoria, a Comissão de Carnaval e todos os componentes trabalham duro para chegar na Avenida e mostrarem para o público do que é feita a Beija-Flor de Nilópolis: garra, amor, emoção e muito samba na voz e no pé. Por isso, acredito muito que conquistaremos o campeonato de 2015. RBF — Gostaria de deixar alguma mensagem para os leitores da revista? Fabíola David - Que nossa garra jamais esmoreça, que nosso amor jamais se arrefeça, que nossa luz jamais se apague para que todas as vezes que pisarmos naquela avenida possamos emanar toda a nossa alegria, toda a nossa força e toda a nossa competência! Avante Família Beija-Flor!!! www.beija-flor.com.br


O Abre-Alas da Beija-Flor de Nil贸polis: Fab铆ola David, Micaela David, Marina David e Sophia Raia Celulari.


“África – O Berço Negro do Mundo – Tradições e Realeza, a Cultura de um Povo” SETOR 02

Guerreiros Africanos

Ala: Comunidade Responsável: Edson Reis Componentes: 100 Descrição: A África primitiva, berço da humanidade, guardava um número sem fim de tribos e etnias, onde a guerra era quase que habitual. Guerreiros africanos defendiam seus domínios, suas terras e sua gente, utilizando lanças e escudos, e dominando a arte de se camuflar em meio ao verde da Floresta Equatorial.

Ancestrais

Ala: Comunidade Responsável: Cláudio Armani Componentes: 80 Descrição: Os nossos antepassados africanos, aqueles

que pertenceram à gerações anteriores e, ao longo da vida, acumularam conhecimento, saberes e experiência de vida. É essa vivência dos mais antigos que os tornou exímios conselheiros, servindo de referência para seus descendentes e fazendo com que se trate, com o devido reconhecimento e profundo respeito, todo esse valioso e sábio legado deixado pelos ancestrais.

O Mistério das Máscaras

Ala: Comunidade Responsável: Cláudio Armani Componentes: 80 Descrição: A máscara é um acessório utilizado para cobrir o rosto ou parte dele, podendo ser utilizada com propósitos lúdicos, religiosos ou artísticos. Pode esconder a identidade de uma pessoa, ser usada enquanto adereço de decoração, disfarce, símbolo de identificação, representação de espíritos da natureza, deuses, animais, antepassados e seres sobrenaturais. Cercada de mistério, é um objeto que desperta a curiosidade das pessoas, sendo que muitas tribos africanas fazem uso de máscaras em rituais diversos e em cerimônias de passagem entre a vida e a morte.

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Ritos Tradicionais

Ala: Comunidade Responsável: Humberto Martins & Georgina Martins Componentes: 80 Descrição: Por rito entende-se a ordem prescrita das cerimônias que se praticam numa religião, seita ou culto. Nas religiões ou ritos tradicionais africanos, bastante comuns entre as tribos antigas e seus descendentes, não há registros, textos escritos ou livros sagrados, os preceitos se baseiam estritamente na tradição oral, onde os ensinamentos e os hábitos de fé são passados de geração para geração, resguardando a maneira de vivenciar a religiosidade, o que se dá através de histórias, provérbios, danças, músicas e festas. Muitos africanos acreditam em espíritos da natureza (daí a religião tradicional africana ser muitas vezes chamada também de religião animista), e procuram viver em profunda harmonia com todo o universo, consoante as leis morais, considerando-se que, para eles, moral e religião são praticamente a mesma coisa.

Marfins

Ala: Comunidade Responsável: Luciana Castro & Luiz PS Componentes: 80 Descrição: O marfim é uma substância dura, resistente e branca, que forma as presas dos elefantes (e de outros animais); em especial, quando é removido cruelmente do animal e trabalhado em obras de arte. Em função de seu alto valor comercial, as obras, colares, enfeites, artesanatos e outros objetos de marfim são muito apreciados, e deveras característicos da África. Todavia, a caça de elefantes na África dobrou na última década, e o comércio ilegal de marfim triplicou no mesmo período, o que representa uma grave ameaça para esses mamíferos. Por isso mesmo, atualmente, por se tratar de uma espécie protegida, a comercialização de marfins está totalmente proibida.


Alma Africana

Ala: Baianas Responsável: Luisinho Cabulosos Componentes: 80 Descrição: Dotada de beleza exuberante e de uma riqueza cultural admirável, a África foi um foco de humanização de grande importância para o estudo da origem e da evolução do Homem, daí ser considerada o berço real da humanidade. A suntuosidade da Mãe África revela-se na supremacia de seu povo guerreiro, bem como na força incorporada nesse chão.

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Revista Beija-Flor de Nilópolis

GEDALVA MOURA SILVINO a baiana de primeira idade

“É maravilhoso! Você passa na avenida e não sente o peso da fantasia nem da idade!”, diz Gedalva com viva paixão. Quatro saias, arames e tubos de PVC para sustentar o volume de tecido e manter a armação rodada da saia da baiana — a mais tradicional ala de uma escola de samba — acaba sempre sendo um fardo para carregar durante 80 minutos de desfile nos 700 metros da Passarela do Samba. “A fantasia das baianas até são mais leves agora. E isso ajuda”, comenta. O desfile é longo, mas ela encara o desafio com muita disposição, alegria estampada no rosto, sorriso entremeando os compassos e versos do samba-enredo, que ela sabe cantar, como diziam os mais antigos, “de cor e salteado”. Gedalva Moura Silvina é a mais avançada em idade, quem sabe também em animação, das componentes da Ala das Baianas da Beija-Flor, tem 83 anos, sendo os últimos 13 dedicados aos ensaios e à costura — em seu ateliê doméstico ela confecciona fantasias para a ala da bateria da escola. Gedalva conta que seu ingresso na Beija-Flor deve-se a um convite para sair na Ala Damas. Já para a ala das Baianas, o ingresso obedeceu à regras da escola. Fez inscrição e foi convocada no ano seguinte. “Foi uma alegria só! Desde quando a escola começou a desfilar aqui em Nilópolis, há mais de 50 anos, eu assistia e alimentava o sonho de um dia participar dela”. Gedalva afirma que sempre gostou de Carnaval, mas o trabalho e a família eram prioridade e lhe ocupavam em tempo integral. Só agora aposentada, como técnica de enfermagem, mesmo fazendo suas costuras e cuidando da mãe, que completou 100 anos em outubro, ela consegue dedicar-se aos ensaios e até participar de eventos para os quais as baianas são escaladas. “Atualmente eu me divirto e vivo mais a vida”, acrescenta.

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Feiticeiros

Ala: Comunidade Responsável: Marco Gomes Componentes: 80 Descrição: Os feiticeiros africanos sempre tiveram uma íntima relação com os elementos naturais, a magia e a cura, ocupando posições de destaque em suas tribos, geralmente ligadas à evocação da ancestralidade, à experiência de conhecimentos místicos, feitiçarias e ao domínio de tradições e encantamentos; por esses motivos, muitos feiticeiros foram e ainda hoje são bastante temidos e respeitados.

Na Crença de Tribos Antigas

Ala: Comunidade Responsável: Rosângela Simões Componentes: 80 Descrição: Com a tez escura como o ébano, nativos e guerreiros de tribos primitivas, guardiões dos costumes e dos ritos tradicionais, preservam as informações, as práticas, as histórias e os costumes de seu povo, que são registrados através da oralidade, na memória e nos corações dos homens

Negra Raça

Ala: Comunidade Responsável: Cláudio Armani Componentes: 80 Descrição: Negra da cor da noite, primitiva matriz da espécie humana, a mais espoliada das raças. Expropriada de seus valores, de sua gente, e que jamais se esqueceu de sua cultura. Ah! Raça negra... Do expressivo sorriso no rosto, do pano da costa, do ritmo nas mãos, da ginga nos pés; berço dos nossos ancestrais, mão-de-obra formadora do mundo moderno.

Majestade Negra

Ala: Destaque de Chão Presidente: Elaine Lima Componentes: 1 Descrição: A Majestade Negra e sua nobreza conduzem o fio da História africana, que não está registrada só nos livros, mas está viva principalmente na memória das comunidades e de seu povo; salientando a importância de se reverenciar os costumes, a força e a imponência tão intrínsecos ao continente, e que ver-

dadeiramente fundamentam toda a herança cultural deixada pelos negros ancestrais.

Cortejo Real

Ala: Comunidade Presidente: Elaine Lima Componentes: 12 Descrição: Cortejo real da Majestade Negra, nobreza que conduz o fio da História africana, que não está registrada só nos livros, mas está viva principalmente na memória das comunidades e de seu povo; salientando a importância de se reverenciar os costumes, a força e a imponência tão intrínsecos ao continente, e que verdadeiramente fundamentam toda a herança cultural deixada pelos negros ancestrais.

Alegoria 02

Mãe África, o berço da humanidade. Terra natal de um povo guerreiro, detentor de uma história fascinante, e guardião fiel de suas origens, suas crenças e identidade cultural. Seus filhos – adultos e crianças de pele negra como o ébano – zelam e salvaguardam os mais diversos símbolos característicos das tradições africanas, tais como totens, máscaras, carrancas, esculturas, búzios, presas e peças de marfim... Além de técnicas específicas, como a taipa, técnica construtiva que em uma de suas principais variações, utiliza o bambu e o barro como matéria-prima, por exemplo, além de muitas outras, que usam como base argila, cascalho e palha. A Majestade Negra e sua nobreza conduzem o fio da História africana, que não está registrada só nos livros, mas está viva principalmente na memória das comunidades e de seu povo; salientando a importância de se reverenciar os costumes, a força e a imponência tão intrínsecos ao continente, e que verdadeiramente fundamentam toda a herança cultural deixada pelos negros ancestrais. Somente (re)conhecendo a África, é possível então celebrá-la, exaltando a identidade, a raça, o sangue e a cor de uma negritude que se congraça. Chefe de Alegoria: Thiago Compositores: Adilson Dr., Paulinho Beija-Flor, Jair Sapateiro & Silvio Romai Fevereiro 2015

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“Rota para as Índias – O Caminho das Especiarias e a Descoberta de um Novo Território” SETOR 03

Pimenta-do-Reino Ala: Dos Cem Presidente: Terezinha Simões Componentes: 40

Ala: Amar é Viver Presidente: Terezinha Alves Componentes: 40 Descrição: A pimenta-do-reino é uma planta trepadeira originária da Índia, e é a mais importante especiaria comercializada mundialmente, usada em larga escala como condimento, e também nas indústrias de carnes e conservas.

Canela

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Vitor Zanella & Guisela Duarte Componentes: 80 Descrição: Originária da Ásia, a canela é uma das especiarias mais antigas do mundo, possuindo qualidades terapêuticas e nutricionais. O conhecido condimento, obtido da parte interna da casca do tronco da caneleira, alcançou valores inimagináveis no período das grandes navegações, sendo considerado um item a ser presenteado à monarcas e outros dignitários.


Outras Realezas

Ala: 2º Casal de MS & PB Presidente: David Sabiá & Fernanda Love Componentes: 2 Descrição: As preciosas especiarias deviam ser tesouros guardados por reis e realezas, temperos especiais, coloridos de beleza no imaginário europeu. Mas na rota das Índias, outros elementos surgiram, e a nobreza africana trouxe aos olhos do invasor, um novo continente. A representação de um cortejo africano, na dança e no ritmo, nas cores e nos tecidos tribais, revela ao mundo a magia e riqueza da Costa da Guiné. Ala: 3º Casal de MS & PB Presidente: Yurii Hallss & Emanuelle Martins Componentes: 2 Descrição: As preciosas especiarias deviam ser tesouros guardados por reis e realezas, temperos especiais, coloridos de beleza no

imaginário europeu. Mas na rota das Índias, outros elementos surgiram, e a nobreza africana trouxe aos olhos do invasor, um novo continente. A representação de um cortejo africano, na dança e no ritmo, nas cores e nos tecidos tribais, revela ao mundo a magia e riqueza da Costa da Guiné. Ala: 4º Casal de MS & PB Presidente: Hugo César & Naninha Fidellys Componentes: 2 Descrição: As preciosas especiarias deviam ser tesouros guardados por reis e realezas, temperos especiais, coloridos de beleza no imaginário europeu. Mas na rota das Índias, outros elementos surgiram, e a nobreza africana trouxe aos olhos do invasor, um novo continente. A representação de um cortejo africano, na dança e no ritmo, nas cores e nos tecidos tribais, revela ao mundo a magia e riqueza da Costa da Guiné.


Cravo-da-Índia

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Alessandra Oliveira Componentes: 80 Descrição: O cravo-da-índia ou cravinho (da Índia) é uma especiaria muito valorizada, a ponto de, antigamente, um quilo de cravo ser equivalente à sete gramas de ouro. Desde a Antiguidade, a flor do craveiro é usada na culinária como tempero, e também na fabricação de medicamentos, razão pela qual o cravo é uma das mercadorias, dentre as especiarias da Índia, que motivaram inúmeras viagens de navegadores europeus para o continente asiático.

Ervas

Ala: Dá Mais Vida Presidente: Ana Mascarenhas Componentes: 40 Ala: Borboletas Presidente: Néa Noccioli Componentes: 40 Descrição: Ervas ou plantas herbáceas é o nome genérico de todas as plantas, anuais ou vivazes, que possuem caule tenro e não lenhoso, e que secam depois da frutificação. Geralmente cultivadas em hortas, as ervas aromáticas, além de largamente utilizadas na culinária, como tempero e na conservação de alimentos, são especiarias utilizadas na farmácia, na preparação de óleos, unguentos, cosméticos, incensos e medicamentos.

Companhia Holandesa das Índias Ocidentais

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Wanderson Bilchez & Marcelo Oliveira Componentes: 80 Descrição: A empresa holandesa criada para estabelecer o comércio das especiarias chega no território onde hoje é a Guiné Equatorial e, não obstante, a possessão portuguesa estabelece na ilha de Bioko um entreposto, centralizando ali, temporariamente, o tráfico de escravos do Golfo de Guiné. A Companhia, que em seu auge possuiu milhares de funcionários, buscou em aventureiros 34

Revista Beija-Flor de Nilópolis

sedentos por riquezas, soldados para a sua defesa estratégica.

Novas Índias

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Claudio Armani Componentes: 70 Descrição: No meio do caminho para as Índias, havia um continente... A imaginação dos navegantes, no meio do oceano, criou inúmeras expectativas de encontrar especiarias e riquezas. Mas a tão sonhada joia da Coroa, era na verdade, as “novas Índias, outras realezas”... Esta mistura, do imaginário e com o mundo real, é traduzida no encontro do brilho peculiar do Oriente com os elementos da natureza africana.

Alegoria 03

Desde a Idade Media, as chamadas especiarias eram demasiadamente valorizadas. Produtos de origem vegetal, cujo aroma e sabor são bem acentuados, além de utilizados como temperos e conservantes na culinária, e também como aromatizantes, eram usados ainda na preparação de óleos, unguentos, cosméticos, incensos, soluções medicinais e até mesmo perfumes e afrodisíacos. Foi à caminho das Índias, que os europeus singraram o mar em busca dessas valiosas especiarias, e descobriram um novo território, ao se deparar com o continente africano. Por serem difíceis de se obter, as especiarias eram extremamente caras, e usadas até mesmo como moeda, sendo consideradas riquezas da época. Compradas e utilizadas secas, possuem grande durabilidade, e são bastante resistentes ao mofo e às pragas, permitindo longos períodos de estocagem, o que tornou possível e próspero o seu comércio; suportando por meses, e até mesmo por anos, as travessias feitas por mar ou por terra, sem perder suas propriedades fundamentais e suas qualidades aromáticas e medicinais. Para atender a tamanha demanda, a Companhia Holandesa das Índias permitiu que se ampliasse o comércio entre o Ocidente e o Oriente, através de diversas rotas. O elefante, animal caraterístico tanto da Índia quanto da África (ressaltando que tratam-se www.beija-flor.com.br


de espécies diferentes), com suas magníficas presas de marfim, e o colorido vivo e cítrico usado na máscara, na ornamentação e nos minaretes, simbolizam parte do que há em comum entre ambas as culturas. Chefe de Alegoria: Rodrigo Compositores: J. Velloso, Dilson Marimba, Ribeirinho & Jota Erre BF

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“As Investidas Europeias em Terras da Guiné” SETOR 04

Domínio Françês

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Claudio Armani Componentes: 80 Descrição: A expansão marítima francesa teve início tardio, se comparado aos países ibéricos; por isso, navegando em mares do Senhor da Guiné, primeiro Senhor de Corisco, logo estabeleceu profundas relações comerciais com Portugal. Das ilhas da Guiné Equatorial, negros traficados, algo como dezenas de milhares, foram levados ao domínio francês.

Coroa Inglesa

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Claudio Armani Componentes: 80 Descrição: Muito antes de a Inglaterra ser uma potência dos oceanos, seus navios já frequentavam o Golfo da Guiné. Relações surgiram a partir dos primeiros contatos, principalmente com os portugueses, que converteram as ilhas de Bioko (Formosa), Ano Bom e Corisco em postos avançados do tráfico negreiro de toda região. Através da empresa da escravidão, a Coroa Inglesa encontrou traços e tons de terra tipicamente africanos.

Cobiça Européia

Ala: Musa das Passistas Presidente: Charlene Costa Componentes: 1

Encontro de Culturas Espanha e Àfrica

Ala: Passistas Diretor de Desfile: Aline Solva, Valéria Maria & Rosana Cristina

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Revista Beija-Flor de Nilópolis

Componentes: 100 Descrição: Espanha e África, a união dos traços clássicos europeus com a beleza das nuances e matizes particularmente africanas, foi provocada pelo encontro dessas culturas tão distintas, de forças tão singulares: uma buscava os tons da liberdade, enquanto outra conquistava através da opressão.

Canta Guiné Equatorial Ala: Intérprete Presidente: Neguinho da Beija-Flor Componentes: 1

Formosa

Ala: Rainha de Bateria Presidente: Raíssa Oliveira Componentes: 1

Colonizador Espanhol

Ala: Bateria Presidente: Mestres Rodney Ferreira & Plínio de Moraes Componentes: 280 Descrição: A rivalidade entre Espanha e Portugal chega a um bom termo e é amenizada quando as partes resolvem se entender através do Tratado de Santo Ildefonso. Destino trocado, tratado se faz, e aquelas terras da Costa Guiné, com suas ilhas promissoras, passaram ao domínio espanhol. Rufam os tambores do invasor, e surge um novo colonizador, relação que permanece até a independência da Guiné Equatorial.

A Supremacia Portuguesa

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: André Messias, Vanda Mercedes & Jonathan Maciel Componentes: 80 Descrição: Ao explorar o Golfo da Guiné, Portugal, na busca pelo caminho das Índias, coloca a Formosa Bioko nos mapas europeus. D. João II de Portugal, proclamado Senhor da Guiné, junto com os portugueses, inicia a colonização das ilhas de Bioko, Annobom e Corisco, convertendo-as posteriormente em importantes postos destinados ao tráfico de escravos.

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trumentos de astronomia aplicada em navegação, como a esfera armilar, que consta de um modelo reduzido do cosmos, foram de grande preciosismo na época. Diferentes povos demonstraram interesse em explorar, colonizar e extrair as riquezas das terras africanas recém-descobertas, localizadas na Costa da Guiné, destacando-se prin-

Holanda A Bandeira da Ambição

Ala: Vamos Nessa Presidente: Antônio Rodrigues Componentes: 40 Ala: 1001 Noites Presidente: Luiz Figueira Componentes: 40 Descrição: Os holandeses construíram uma relação íntima com o mar e, por muito tempo, conseguiram romper o bloqueio de Portugal e Espanha. Nas águas do Golfo da Guiné, a bandeira infame da Casa de Orange navegou e negociou, trazendo dor ao povo negro e marejando os olhos dos ancestrais.

Alegoria 04

No auge das grandes navegações, sereias e outros mistérios do mar povoavam o imaginário dos marinheiros e navegantes, e ins-

cipalmente as investidas europeias, onde marcaram presença portugueses, holandeses, espanhóis e ingleses. D. João II, rei de Po r t u gal, proclama-se Senhor da Guiné, e o primeiro Senhor de Corisco, título real com o qual passou a ser, de fato, o senhorio dessa região. Ao apontar para o continente africano e explorar o Golfo da Guiné – berço da herança cultural deixada pelos medievais reinos tribais africanos – Portugal colocou a então chamada Formosa nos mapas europeus, e iniciou a colonização das ilhas de Bioko, Annobón e Corisco; posteriormente convertidas em postos destinados ao tráfico de escravos. A Coroa de Portugal e uma cruz de malta vista de cima, ressaltam a importância das investidas lusitanas em terras da Guiné, enquanto a arquitetura europeia, misturada à um trono e detalhes tipicamente africanos, como esculturas, marfins e ornatos de palha e bambu, retratam, simultaneamente, as particularidades e a mistura das culturas africana e europeia. Chefe de Alegoria: Roger Madruga Compositores: Marcão Mangaratiba, Gilberto Oliveira, Glyvaldo & Marquinho Beija-Flor Fevereiro 2015

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“A Escravidão Ergueu Nações” SETOR 05

Tradição Benga

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Cátia Sant´Ana & Sérgio Maciel Componentes: 80 Descrição: Os Benga formam o principal grupo étnico da família dos Ndowé. Originários da ilha de Corisco e seus arredores, mantiveram por muito tempo um estreito contato com os colonizadores e comerciantes, provocando uma grande mestiçagem, e adquirindo privilégios e regalias na sociedade local.

Povo Bubi

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Ivone Pinheiro & Leandro Figueiredo Componentes: 80 Descrição: O povo Bubi é a população originária da ilha de Bioko. Falam três dialetos diferentes da mesma língua, o bubi,e conservam muitas de suas práticas religiosas tradicionais, algumas realizadas em lugares sagrados, tais como cavernas e lagunas, que são considerados moradas de seres superiores.

A Sociedade dos Annobones

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Simone Sant´Ana Componentes: 80 Descrição: A sociedade annobonesa, por sua peculiar formação e secular isolamento, possui alguns costumes sensivelmente diferentes aos dos outros grupos guineanos, como por exemplo, se organizar por grupos de idade. São estes grupos que organizam um dos bailes mais divertidos da tradição guineana, el daj. Os Annobones formam uma comunidade pequena, em que todos os membros se conhecem pelos sobrenomes de origem espanhola, e conservam elementos culturais próprios de grande valor ilustrado nos cultos ancestrais, como também em sua variante do catolicismo.

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Revista Beija-Flor de Nilópolis

Etnia Fang

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Osvaldo Luiz Componentes: 80 Descrição: Os Fang constituem um dos povos mais numerosos da África Central, e é a população majoritária da Guiné Equatorial, procedente do interior da região continental. No século XIX, tinham merecida reputação de grandes guerreiros. Usavam numerosos colares, braceletes e tornozeleiras, e ainda se adornavam com um cordel que unia os lóbulos de suas orelhas através do septo nasal. Os Fang possuem rica tradição literária, e conservam numerosas crenças tradicionais relacionadas à magia.

Cultura Kombe

Ala: Damas Francinete Souza, Shirleise Colins, Elizabeth Barcelos e Ricardo Carvalho Componentes: 80 Descrição: Originários da região costeira situada ao norte de todo território, os Kombe formam mais um grupo de raiz Ndowé. Até hoje conservam suas vilas tradicionais, e fazem das danças típicas, elementos para a iniciação infantil e a preservação da ancestralidade.

O Clã Bisio

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Cosme Araújo Componentes: 80 Descrição: Os Bisio falam a língua kwasio, e sua dança mais típica, mais característica, é a nzanga, que se pode bailar nas celebrações familiares. Muitos clãs Bisio estão emparentados com clãs Fang e Ndowé, e encontram-se situados nos bairros de Lea e Bomudi de Bata.

Filhos da Guiné

Ala: Destaques Chão Presidente: Cássio Dias & Jaqueline Faria Componentes: 2

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Alegoria 05

É impossível falar de África e não mencionar o tráfico negreiro. Milhões de escravos, de todas as idades, foram embarcados na costa africana com destino ao Novo Mundo. Da África, com os olhos marejados, vieram quase metade de nossos antepassados. Misturados, reis e rainhas, súditos e nobreza fizeram a travessia do então chamado Mar Tenebroso. Na sinfonia das marés, as condições mais adversas e todo o tipo de maldade: amargurados, frustrados, humilhados, desacreditados e clamando por liberdade, os negros viviam sem esperança por dias melhores, e acorrentados à grilhões e às saudosas lembranças da terra natal. Em meio à barris, bebidas, sacos de mantimento, cordas, caçambas e diversos materiais, e tratados igualmente como mercadorias, os escravos terminaram por se dispersar do convés do navio para o mundo, e assim, a escravidão ergueu nações.

Os braços fortes e as mãos escravas dessa gente de pele enegrecida, foram a mão-de-obra essencial para a construção de grandes obras e importantes civilizações. Mas povo africano não perdeu a fé: os corpos dos negros foram escravizados, mas suas mentes e seus espíritos se mantiveram livres, da mesma forma que seus preceitos religiosos foram resguardados na sua mais pura essência. Devotos das denominadas religiões tradicionais e dos ritos de magia, preservaram suas crenças, seus cultos e seus rituais, mantendo vivo o respeito aos ancestrais e a força da fé que alimenta a alma africana. Chefe de Alegoria: Túlio Compositores: Pelé, Alencar, Carlinho Mala & Jorginho Moreira

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“Guiné Equatorial – A Ascensão de uma Nação” SETOR 06

Solo Fértil

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Rosimary Maia & Cláudia Lúcia Componentes: 80 Descrição: Na iminência de completar meio século, a Guiné Equatorial é uma região de solo fértil. A terra, generosa, produz gêneros agrícolas diversos: cana-de-açúcar, café, cacau, banana, abacaxi, abóbora, milho, mandioca e algodão, são apenas alguns dos produtos que engrandecem a agricultura e brotam desse chão.

Cacau - O Alimento dos Deuses Ala: Signus Presidente: Débora Rosa Componentes: 40

Ala: Jovem Flu Presidente: Sérgio Aiub Componentes: 40 Descrição: O cacau, principal matéria-prima do chocolate, é uma amêndoa do fruto do cacaueiro. A palavra deriva do termo Kakaw, e significa “o alimento dos deuses”. Os primeiros dados sobre as plantações de cacau na Guiné Equatorial datam de 1850, quando foram introduzidas sementes na Ilha de São Tomé, e posteriormente o cultivo se estendeu também à zona continental do país, fazendo com que a Guiné Equatorial seja, atualmente, uma grande produtora do apreciado fruto.

Um Mar de Fartura

Ala: Jovens Diretor de Desfile: Patrícia Lima & Patrícia Bento Componentes: 80 Descrição: A pesca é a extração de organismos aquáticos, praticada com diferentes finalidades, dentre elas a alimentação, recreação e ornamentação. Faz parte das culturas 40

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humanas, não só como fonte de alimento de extraordinário valor nutritivo, mas também como modo de vida, fornecendo identidade a inúmeras comunidades. Na Guiné Equatorial, a pesca ou extração de peixes e frutos do mar contribui de sobremaneira para a agricultura e economia do país.

O Prisma dos Diamantes

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Carlos Dantas & Norma Pereira Componentes: 80 Descrição: Abundantes no solo fértil da Guiné Equatorial, os diamantes são pedras preciosas formadas de carbono puro, cujo o brilho é derivado de seu elevadíssimo índice de refracção; sendo que a incidência de raios ultravioletas produz luminescência com cores variadas, originando nuances nas colorações azul, rosa, amarela e/ou verde. Cristal comercializado como gema preciosa, possui alto valor agregado, sendo os diamentes coloridos naturalmente os mais raros.

Petróleo - A Riqueza que do Mar Aflora

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Jorge André Componentes: 80 Descrição: O petróleo, chamado “ouro negro”, que movimenta a economia mundial, traz à Guiné Equatorial a riqueza necessária para se erguer enquanto potência do continente africano. O mar que trouxe a dor riqueza aflora, e cabe ressaltar que nesse país, a exploração do petróleo ocorre de modo a respeitar o meio ambiente.

Herança Cultural

Ala: Amigos do Rei Presidente: Presidência Componentes: 100 Descrição: Quem conhece sua gente e sua história, começa a perceber como é rica a cultura de seu povo. “Levanta a cabeça e vai embora”, e que com este ensinamento, homens e mulheres sintam-se orgulhosos do legado, do brilho, dos traços e das cores da África. www.beija-flor.com.br


Riqueza Natural

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Léo Mídia Componentes: 80 Descrição: A beleza natural e cheia de encantos da Guiné Equatorial é um verdadeiro caso à parte: há, nos diversos tons de verde da floresta, matizes de beleza sem fim, onde a harmonia entre o brilho e as cores da natureza, fazem do local um paraíso abençoado, em total sintonia com o despertar desta jovem nação.

Alegoria 06

A República da Guiné Equatorial é um pequeno país em extensão, situado na África Central, compreendendo uma região insular (Malabo) e uma região continental (Bata), as quais encontram-se divididas em sete províncias (Annobón, Bioko Norte, Bioko Sur, Centro Sur, Kié-Ntem, Litoral e Welw-Nzas). Como informações básicas a respeito da Guiné Equatorial, é pertinente mencionar que sua capital é Malabo, o regime político é uma república presidencialista, a moeda oficial é o Franco Cfa., e o espanhol, o francês e o português são

os idiomas oficias do país, que conquistou sua independência no dia 12 de outubro de 1968. Na iminência de completar meio século, a Guiné Equatorial é uma região de solo fértil. A terra, generosa, produz gêneros agrícolas diversos: cana-de-açúcar, café, cacau, banana, abacaxi, abóbora, milho, mandioca e algodão, são apenas alguns dos produtos que engrandecem a agricultura e brotam desse chão! Artesanatos e esculturas feitas em madeira de ébano são deveras características do local, e atividades como a pesca, a extração de madeira e de minérios abundantes – como pedras preciosas e diamantes, além da riqueza que aflora com a imprescindível descoberta do petróleo, e o conseguinte fomento do chamado “ouro negro”, mudaram o curso do país, salientando que toda a extração ocorre sempre com demonstrações de zelo e respeito ao meio ambiente. Chefe de Alegoria: Márcia Compositores: Picolé, Walney Rocha, Wanderley Novidade & Ramires

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“O Enlace Cultural Entre o Brasil e a Guiné Equatorial” SETOR 07

Unidade

Ala: Cabulosos Presidente: Luizinho Cabuloso Componentes: 40 Ala: É Nessa Que Eu Vou Presidente: Hélio Malveira Componentes: 40 Descrição: Unidade é uniformidade, conformidade, identidade, concórdia de vontades, união. O desejo de construir uma nação, promovendo a unidade nacional e agrupando a população numa mesma diretriz, é um dos lemas da Guiné Equatorial, considerado tão relevante, está explícito na bandeira do país.

Língua Portuguesa - Um Elo com o Brasil Ala: Tom & Jerry Presidente: Rogério Coutinho Componentes: 40

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Marcos Ferreira e Iara Mariano Componentes: 80 Descrição: A paz, mundialmente representada pelo pombo e pela cor branca, é um estado de calma ou tranquilidade; é a ausência de perturbação, de agitação; a quietação dos ânimos, onde prevalece a paciência, a boa harmonia, o sossego e a tranquilidade. Também significa a ausência de violência, guerras e dissensões e, nesse sentdido, a paz dentro da Guiné Equatorial e entre nações fraternas é um objetivo de vida, um lema assumido majoritariamente por sua gente pacífica e amiga, e igualmente estampado na bandeira nacional.

Ala: Tudo Por Amor Presidente: Élcio Chaves Componentes: 40 Descrição: A Língua Portuguesa, também chamada de “língua de Camões”, é uma das línguas oficiais de diversas organizações, inclusive da União Africana. Com aproximadamente 280 milhões de falantes, o português é a 5ª língua mais falada no mundo, a 3ª mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul da Terra. Durante a Era dos Descobrimentos, marinheiros portugueses levaram o seu idioma para lugares distantes. A exploração foi seguida por tentativas de colonizar novas terras para o Império Português e, como resultado, o português dispersou-se pelo mundo. Brasil e Portugal são os dois únicos países cuja língua primária é o português. Entretanto, o idioma é também largamente utilizado como língua franca nas antigas colônias portuguesas de vários países, sendo reconhecida hoje como uma das línguas oficiais da Guiné Equatorial, elemento que nos aproxima ainda mais do país e de nossos irmãos nascidos lá.

Justiça

Na Batida do Tambor

Paz

Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Carlos Rodrigues & Diego Pereira Componentes: 80 Descrição: A justiça é uma das quatro virtudes cardinais (junto com a prudência, a fortaleza e 42

a temperança) e, segundo a doutrina da Igreja Católica, consiste “na constante e firme vontade de dar aos outros o que lhes é devido”. Conceito abstrato, se refere a um estado ideal de interação social, onde há um equilíbrio razoável e imparcial entre os interesses, riquezas e oportunidades entre as partes envolvidas. Essa busca pela igualdade entre os cidadãos e pelo respeito aos direitos de terceiros é latente na Guiné Equatorial, e este lema nacional mostra-se registrado na bandeira do país.

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Ala: Comunidade Diretor de Desfile: Mariza dos Santos Componentes: 80 Descrição: África berço dos ritmos que fazem o mundo se mexer e balançar. Guiné Equatorial, lar e morada de tantas tribos, senhora www.beija-flor.com.br


da ginga e da malemolência, empresta o som dos seus tambores e a magia de seu povo aos guerreiros Beija-Flor, num voo que convida a morena a entrar na roda e vir sambar.

Senhora Sabedoria

Ala: Velha Guarda Diretor de Desfile: Débora Rosa Componentes: 72 Descrição: A Velha-Guarda é o grupo dos componentes mais antigos de uma Escola de Samba, conhecido por cantar e dançar o samba, demonstrando seu amor, respeito e devoção ao pavilhão da Agremiação e ao carnaval. Memória viva do maior espetáculo à céu aberto da Terra, a Velha Guarda é a guardiã da história, do saber, da tradição, do gingado e da musicalidade de diversos carnavais, encerrando o desfile com chave de ouro na festa do povo e para o povo.

Alegoria 07

Sem a África, o Brasil não existiria. E quanto não existe de herança africana no Brasil? Quantos antepassados, nossos irmãos, filhos da região que hoje é o território Guiné Equatorial, não desembarcaram por aqui? De braços dados, lado a lado, a união de duas nações fraternas, e a promoção do encontro de suas bandeiras num majestoso festejo popular: o verde, amarelo, azul e branco, cores do Brasil, e o verde, branco, vermelho e azul, vibrantes na bandeira da Guiné Equatorial. Em comum, a força e a garra da raça negra,

a musicalidade, o ritmo, o colorido e o gosto por celebrações, além da própria língua portuguesa, que hoje é, reconhecidamente, mais um elemento de afinidade, entre tantos outros, que aproximam ainda mais os dois países. Duas réplicas consideradas essenciais nesse contexto mostram-se devidamente retratadas: um importante monumento erguido na Praça da Independência, em Malabo, capital do país, em homenagem à Ceiba, maior símbolo da Guiné Equatorial; e uma escultura feita por um artista local, chamado Leandro Mbonio Nsué, uma obra em Fang, “Elat-meyong”, que significa “união de tribos”, dada pelo Presidente da República Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, à Luiz Inácio Lula da Silva, então Presidente do Brasil, como demonstração da relação de admiração, afeto e cordialidade estabelecida entre ambas as nações. Clamando por liberdade, e tendo como inspiração os ideais de fraternidade, unidade, paz e justiça, lemas da Guiné Equatorial, vamos caminhar sobre a trilha de nossa felicidade, conforme está escrito no hino do país fraterno, e resgatar a nossa alma africana, ao cantar, na Marquês de Sapucaí, o despontar da Guiné Equatorial, consagrando o enlace cultural com o Brasil e fazendo, dessa mistura, um grande carnaval! Canta Guiné Equatorial! Chefe de Alegoria: Dionísio Compositores: Sidney de Pilares, Carlinho Amanhã & Pereirão

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MADALENA SILVA REIS O tempo não se move à compaixão. Chegar à terceira idade, fazendo o que se sabe, quer e pode, é ‘dar uma banana’ para a implacabilidade do tempo. E chegar à Velha Guarda da Beija-Flor foi para dona Madalena a consagração de uma existência de lutas e incertezas. Certeza ela tinha apenas uma desde a juventude: a realização do “desejo de desfilar nessa linda escola”. Era a BeijaFlor, claro! Antes, fez estágio em outras escolas até que um Beija-Flor lhe ensinou o caminho da quadra de Nilópolis. É recebida por Laila e Márcio – Gente finíssima! – nas alas da comunidade. Dona Madalena sempre cumprindo o ritual: frequência nos ensaios e samba no pé e no gogó. Há dois anos, dona Madalena ingressou na Galeria Velha Guarda. Agora está ótimo, festeja. Até chegar aí, Madalena Silva Reis teve que sair da terra natal, Miracema, no noroeste do estado, vir para o Rio e aqui começar uma vida nova aos 20 anos. Enquanto trabalhava, estudava Enfermagem, profissão que exerceu na Cruz Vermelha, no Hospital do Fundão e da Aeronáutica. Era vida árdua. E a jovem Madalena tinha suas atenções concentradas na profissão, depois no marido, Melésio José dos Reis, e logo, no filho, Almir. Etapa vencida, mas as preocupações sempre estarão presentes na existência de quem tem família. Depois das dificuldades e do trabalho sempre vem a pausa, o lazer e a aposentadoria. Agora esta ótimo! É hora de curtir o Cordão da Bola Preta e as obrigações como componente da Galeria da Velha Guarda da Beija-Flor de Nilópolis.

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GUINÉ EQUATORIAL

texto produzido pela Embaixada da Guiné Equatorial no brasil A República da Guiné Equatorial está localizada no Golfo da Guiné e está organizado em duas divisões regionais: Região Continental e na Região Insular. A Região Continental delimitada a norte pelos Camarões, a leste e sul pelo Gabão e a oeste pelo Golfo da Guiné. Também pertencem a esta área Corisco Island. A capital continental é a cidade de Bata. A Região Insular inclui a ilha de Bioko, onde a capital da ilha e capital oficial do país é Malabo. A ILHA BIOKO Conhecida como a “formosa” Bioco, esta ilha acolhe em suas terras à cadeia vulcânica que nasce no Monte Camerúm e chega até Annobon. Seu solo é escarpado e cheio de caldeiras, lagos e vulcões inativos. A vegetação do território é tão extensa que chega até a beira do mar, constituindo um dos mais formosos lugares do Golfo de Guiné. O visitante encontrará maravilhosas praias de areia branca a seis quilômetros da cidade de Malabo. É possível, também, realizar excursões desde a costa à selva interior, acampar em locais apropriados com prévio registro junto à polícia. A segunda cidade na ilha de Luba, à uma hora de Malabo, indo de táxi, não conta com especiais atrativos, mas tem alguns desertos singulares e praias virgens nos arredores. Uma vista impressionante se observa desde o Moca.

africano de imitação neo gótica na Praça da Independência, o Centro Cultural Hispânico Guineano, onde se realizam as principais atividades artísticas do país, o Centro Cultural Francês que também é uma casa dedicada a atividades culturais. Na periferia da cidade é que se desenvolve a vida noturna com inúmeros bares abertos, clubes noturnos e, durante o dia, mercados multicoloridos. A peculiaridade de ter de um lado (norte) o oceano e do outro (sul) as montanhas chama a atenção pela beleza natural.

MALABO Uma cidade pequena, com clara influência europeia, especialmente hispânica, é a cidade mais visitada e sedutora para o turista. Está lotada de formosos edifícios coloniais da época inglesa, quando se chamava Port Clarence e dos tempos de domínio espanhol, quando era Santa Isabel. Possui a única igreja de todo o continente

AS SELVAS DA REGIÃO OCIDENTAL Rio Muni é a região continental de Guiné Equatorial que se estende até as fronteiras com Camarões e Gabão. É uma terra de belíssimas praias e selvas exuberantes. No interior encontra-se uma das zonas florestais mais inexploradas do continente africano, de vital importância para a investigação zoológica e botânica.

ILHAS ELOBEY As duas ilhas, Grande e Chico Elobey, são destinos encantadores. A grande Elobey possui alguns moradores muito acolhedores. Já Chico Elobey é deserta e mantém as ruínas da antiga capital que são interessantíssimas de se ver.

BATA É uma cidade cheia de charme e movimento, com feiras, mercados e diversos bares, restaurantes e hotéis. Junto à Praça do Relógio, no centro da cidade, o mercado central se estende até o bairro de Comandachina, um dos mais concorridos da cidade. O principal interesse são praias próximas, consideradas as mais bonitas do mundo. É uma costa que oferece grandes extensões de praia virgem adornadas de belos palmeirais. Desde Bata pode-se realizar excursões à selva. www.beija-flor.com.br


O PARQUE NATURAL DE MONTE ALEN Situado na parte norte da cadeia montanhosa de Niefang. O conjunto da paisagem está conformado por uma série de serras que se elevam até as rochas cristalinas ao leste da bacia do Rio Uolo. Nessa zona encontram-se grandes concentrações de flora e fauna selvagem. Um formoso espetáculo natural. A ZONA DOS MONTES MITRA É um área limitada pelo Rio Cogue e o Rio Mitong. Em seus arredores pode-se observar os montes de Atom, Mabumu-Won, Mintong, Mitong, Mitono, Mitra e Mianye. Dentro da zona existem ainda grandes concentrações de fauna e está comprovada a existência do gorila da costa e o chimpanzé, assim como, diversas espécies de primatas, mamíferos, aves e répteis. A ZONA DO RIO NTEM Esta região inclui o estuário do Rio Ntem (o campo) e seu leito, desde a desembocadura no mar pelo oeste, até a confluência como o Rio Mbuva pelo leste. As zonas de mangues e pastos costeiros são ricas em fauna marinha, selva e pântanos. Aqui quase não existem assentamentos humanos. NSOC-AURENAM É a parte oriental do sistema central que nasce em Gabão. Ali se elevam os pontos mais altos dos montes Nsoc, Serra Mbula, monte Yagam e monte Nsama, que rodeiam a população de Nsoc. Sua grande riqueza biológica representa um grande potencial científico. O maciço florestal de Nsoc joga importante papel no controle dos afluentes dos rios e é um regulador do clima da região. COMO CHEGAR A Guiné Equatorial possui três grandes aeroportos: um na ilha de Bioko (Malabo) e dois no continente (Bata e Mongomeyen). Seis

empresas aéreas operam nacional e internacionalmente, e em conexão direta com diversos aeroportos internacionais, o turista tem diversas opções de vôo para o país. ONDE FICAR Sofitel Malabo Sipopo Le Golf Sofitel Malabo President Palace Hotel Hilton Bisila Hotel Mango Suites Hotel Mongomo Hotel Ibis Malabo Hotel Ibis Bata Hotel Bahia Fevereiro 2015

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JOSÉ MARIA BEIJA-FLOR

Por conta da pouca atenção das Instituições - e Na obra são reproduzidos sambas da agremiade muita gente boa - com documentos e gra- ção nilopolitana compostos por ícones da escovações históricas, um importante acervo rela- la, como Osório Lima, Cabana, Wilson Bombeiro cionado ao mundo do samba vem se perdendo e Walter de Oliveira. São alguns sambas exalgradualmente. Sou jornalista e sambista e faço tação, outros sambas enredos, e todos com as essa afirmação porque é a realidade que vejo nos letras impressas na contra-capa. encontros que participo do mundo do samba, do O mais interessante é que o LP que encontrei em qual faço parte. Essa falta de atenção, aliada à La Paz é a versão internacional do mesmo LP lannecessidade de resgatarmos, preservarmos e di- çado aqui no Brasil, apenas com a diferença que vulgarmos o samba e a sua história é que me o internacional teve um acabamento melhor, em incentivou à dedicar parte do meu tempo indo formato de álbum. Explico porque: Quando a Beiem busca de relíquias do samba e do carnaval. ja-Flor ganhou repercussão internacional, a direÉ atrás desses verdadeiros tesouros que eu sigo. toria da escola decidiu que deveria ser produzido Recentemente, estive em La Paz, Bolívia, e durante uma garimpada por discos e documentos raros, me deparei com um vinil histórico cujo título é “História do Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor”. O LP (Long Play) foi lançado pela extinta gravadora Chantecler em junho de 1976, três meses depois de a agremiação de Nilópolis ganhar seu primeiro Carnaval concorrendo no que hoje é chamado de Grupo Especial. Esse disco é de suma importância para a história do samba e do Carnaval e, mais ainda, para a Beija-Flor de Nilópolis pois ele é mais um pedaço de um grande mosaiRegistro da viagem que fiz à La Paz, onde adquiri essa obra de raro co que compõe o nosso samba e o valor para todos nós, amantes do samba e do carnaval. nosso Carnaval. 48

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um LP bilingue, para atender futuras demandas internacionais da escola. Foi isso que Anizio me disse, quando o encontrei e comentei que tinha adquirido esse LP em uma de minhas viagens. Anizio acrescentou, ainda, que ele e Nelsinho, seu irmão, decidiram pelo formato em álbum porque queriam que na parte interna do álbum fossem colocadas informações que o ouvinte estrangeiro provavelmente não conhecia, como a história resumida da escola (escrita pelo pesquisador de samba Sérgio Cabral) e outras informações relacionadas à Beija-Flor de Nilópolis, como a relação de Alas que mais se destacaram, a relação dos presidentes, dos títulos conquistados, as colocações nos desfiles de 1954 até 1976 (com os respectivos enredos e seus autores) e a relação da diretoria campeã em 1976. Não tenho dúvida nenhuma de que essas informações são valiosíssimas, porque são um registro oficial dos fatos da época. Termino essa conversa extraindo parte do texto do pesquisador Sérgio Cabral que consta no LP e que diz assim: “A soma do talento dos sambistas de Nilópolis com a criatividade de Joãozinho Trinta e a disposição dos irmãos Nelson e Aniz

Abrão David deu em mais uma grande escola de samba para o nosso carnaval.” Alguém tem dúvida disso?

aNÚNCIO PIRAQUÊ

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MIRO LOPES

O conceito de todos participarem da criação e produção de um trabalho, mantendo-se no anonimato, cada vez mais longe do seu “um quarto de hora de celebridade”, como queria Lima Barreto para sua vocação de pássaro cantor, e um só receber loas e assinar a autoria do farto material produzido em alegorias, fantasias, enfim em tudo que uma escola apresenta como visual no desfile, foi por terra, mar e ar quando Luís Fernando ‘Laíla’ Ribeiro do Carmo, diretor de Carnaval, criou uma comissão de carnavalescos - atualmente formada por Fran Sérgio, Ubiratan (Bira), Victor, André, Bianca e Cláudio Russo – para produzir o que a escola, daquela data em diante, apresentaria na Passarela do Samba Professor Darcy Ribeiro. Isso foi em 1998. Somaram-se campeonatos. A regra é não mexer em time que está ganhando. Entretanto, pode-se mexer na forma desse time voltar à cena. Principalmente para manter o pique. Uma novidade acontece este ano. Laíla resolveu agregar valor ao talento anônimo dos artistas plásticos, artesãos, figurinistas, aderecistas, cenógrafos e iluminadores, que têm mais do que a competência de executar um projeto de cria50

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ção idealizado pela comissão. Profissionais que, além de executar ideias, podem acrescentar algo de novo a elas, sem demérito do autor. Eles fazem a diferença na reprodução dos protótipos e na finalização das alegorias e dos figurinos. E esse potencial, Laíla coloca na construção do Carnaval 2015. Consiste especificamente na efetiva participação desses artífices dos detalhes também na criação das alegorias e fantasias. Parece que Laíla atirou a flecha da paixão pela arte e pelo Carnaval no coração de cada um: Cristiano Bara, Thiago Medeiros, Rodrigo Pacheco, Roger Madruga, Túlio Pontes, Márcia Medeiros e Dionísio Mora. Motivados pela oportunidade que lhes aguçou a criatividade e, inspirados pelo enredo, elaborado pela Comissão de Carnaval, eles foram à luta. A cada um desses construtores coube a criação e produção dos adereços, a decoração e a finalização dos carros. Mais ainda, cada um deles criou fantasias para várias alas e foi responsável pela confecção delas. Os protótipos, devidamente supervisionados e aprovados pela comissão de Carnaval, foram o sinal aberto essa nova fase: todos por todos. www.beija-flor.com.br


Ateliê de alegorias e fantasias Os barracões instalados na Cidade do Samba foram denominados Fábricas da Carnaval. Abrigam todo o complexo que uma fábrica exige: da administração às seções de produção. No quarto andar do barracão da Beija-Flor funcionam as seções de escultura, espuma, empastelamento, isopor, costura e, ocupando metade da área, o ateliê, subdividido em sete, cada um correspondendo um a carro que contará a história de “Um Griô Conta a História: Um Olhar Sobre a África e o Despontar da Guiné Equatorial”.

controle da feitura das fantasias das alas para as quais cada chefe de seção criou o figurino. Na distribuição de trabalho, Bara ficou com a incumbência de preparar o carro Abre -Alas e reproduzir às fantasias dos componentes desse primeiro carro, das alas Crianças, Agricultura (setor 1), Guerreiros Africanos , Ritos, Damas e Ancestrais (setor 2), além dos figurinos que levam sua ‘grife’: Baianas (setor 2), Damas, as dos três casais de mestre-sala, porta -bandeira e de alguns destaques. Para elaboração das fantasias, além da pesquisa in loco, Bara recorreu aos livros, mais especificamente sobre pinturas (rosto e corpo) e máscaras africanas. “Para criar e fazer adereços e fantasias é exigido do artesão muita habilidade, inspiração e paixão pelo Carnaval. São centenas de peças cheias de minúcias e detalhes significativos. A fantasia das baianas tem 180.000 triângulos pequeníssimos para serem aplicados, um a um, num tecido “adesivado”, com padrões coloridos “bem no estilo do que vi o povo guineense usar”, informa Bara.

CRISTIANO BARA

Primeira alegoria Abre-alas A Árvore da Vida e a Floresta Equatorial Africana Cristiano Claúdio Gonçalves, artisticamente Cristiano Bara, é assistente do carnavalesco Fran Sérgio e responsável pelo ateliê e suas seções (cada uma correspondente a um setor do enredo) e, consequentemente, supervisor da decoração e acabamento das alegorias confiadas a cada uma delas. E dentro do novo conceito, Bara também responde pelo Fevereiro 2015

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Há quatro anos na Beija-Flor, Bara trabalha no ramo há mais de 20. Na União da Ilha foi assistente do carnavalesco Milton Cunha, e titular do cargo na Inocentes de Belford Roxo. Paralelamente manteve um ateliê de fantasias para o Carnaval em Zurique/Suíça. “Fiquei dez anos produzindo guarda-roupa para espetáculos de samba. Eu ficava indo e voltando; dois, três meses lá e cá. O maior período que fiquei morando lá foi um ano”, conta. Seu ateliê no Rio, fora do período atende a demanda de eventos, especialmente shows e teatro. São áreas que ensejam a criatividade e consequentemente o bom-gosto. “Fazer coisas bonitas transforma as pessoas e as tornam melhores. Eu gosto de fazer isso. Essa é na essência o meu trabalho”, conclui. Equipe: Carlos Alberto Duarte, Antônio Silva, Cleiton Melo, Wesley Rosa, Douglas da Silva, Patrick Gomes, Lucas Neves, Pablo Diego dos Santos, Wesley de Oliveira, Guilherme Ferreira, Daniel Monteiro, Ângelo Ferreira, Leandro Ferreira, Danilo Matos, Marlon Souza, Carlos Alberto Cordeiro, Victor Martins, Diego Leite, Leonardo de Oliveira, Marcos Vinicius Açucena, Dirnei Goia, Jefferson Santana, Cleyton Fraga, Daian Almeida e Melissa Guedes.

THIAGO MEDEIROS

Segunda alegoria África - o berço negro do mundo - tradições e realeza, a cultura de um povo Thiago Vinicius de Medeiros é o chefe do setor 2, a quem cabe a responsabilidade pela criação dos detalhes especiais que darão ao seu carro aquele algo mais em beleza, através da centenas de enfeites, e em acabamento com a decoração da alegoria. E, ainda, como os seus outros colegas artesãos, Thiago subscreve a concepção das fantasias do seu setor que vestem as alas Tribos, Feiticeiros, Ritos, Ancestrais, Máscara e Marfins, 52

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que nos reportam à ancestralidade africana, tão pujante e ainda remanescente em alguns países, e muito especialmente na Guiné Equatorial. Somente os figurinos de Marfins estão sendo reproduzidos pela equipe de Thiago. A familiaridade de Thiago com a arte carnavalesca é materna: aderecista da São Clemente, sua mãe, Márcia, o levou para conhecer o ofício, durante as férias escolares; nas férias seguintes, então na Vila Isabel, cada vez mais deslumbrado por esse mundo encantado, Thiago aproveitou a oportunidade para se tornar prático do ofício, que desempenha, hoje, com a competência de um profissional. Credita essa aptidão ao encontro da prática com uma vocação então adormecida. Em 2008, Rodrigo Pacheco o trouxe para a Beija-Flor. Estreando em função que lhe permite mostrar o que prática e vocação podem produwww.beija-flor.com.br


zir, Thiago se diz gratificado pelo diretor Laíla ter ROGER MADRUGA aberto uma porta por onde a criatividade de to- Quarta alegoria dos possa fluir e ser apreciada”. As Investidas Europeias em Terras da Guiné Equipe: Allan Pytter, Eduardo (Tereza), Marcos Paulo, Ra- No mundo do samba só o conhecem como Roger; fael e Gabriel Carlos na pia batismal, ele se chama Rogério Madruga Mangueira, a quem coube tratar dos bons feitos, em adornos e fantasias, do quarto carro. Reprodução de peças e decoração da alegoria e criaRODRIGO PACHECO ção das fantasias para as alas França, C Espanha, Terceira alegoria Bateria , Passistas e Abertura mais fantasias dos Rota para as Índias - O Caminho das Especiarias e A componentes da abertura do carro abre-alas, dos Descoberta de um Novo Território Rodrigo Pacheco é responsável pelo terceiro car- quais sua equipe composta por vinte artesãos só ro. Os adereços de decoração e as fantasias dos não irá confeccionar as fantasias de, Portugal, componentes do carro e das alas Cia. das Índias, Holanda, Inglaterra entregue aos responsáveis Cravo da Índia, Páprica e Índia (ala formada por pelas alas por quem elas serão representadas. belas mulheres à frente do Abre-Alas) foram “África é um tema que passou na avenida ‘n’ concebidas por ele. Deu autenticidade às peças vezes. Sendo que cada vez que a Beija-Flor faz através de uma diligente pesquisa e um traba- um tema afro, ela coloca a alma dela dentro do desfile. E Você tenta sempre buscar o lado de lho feito com esmero por sua equipe. Rodrigo é marinheiro de longas viagens pelo uma África que ainda não se tenha mostrado. mundo do Carnaval, no qual ingressou aos 17 Desta fez vamos mostrar uma África ‘pra cima’, anos. Aficionado pelos desfiles, Rodrigo ima- que está se renovando. Vi um país que está resginava seus próprios enredos e como eles de- surgindo em cores, em sorrisos, depois de um veriam ser exibidos ao público. Um deles foi o longo tempo de guerra civil; isto está trazendo passaporte para disputar vaga numa escola de para o desfile como uma renovação. A fé que o samba real. Expôs suas ideias para o carnava- povo guinéo-equatoriano está tendo no futuro” lesco Alexandre Louzada, que aprovou sua cria- explica Roger. tividade e convidou para trabalhar com ele. Lar- “Este ano, o diretor de Carnaval nos propôs criar gou o emprego no Hospital da UFRJ (Fundão) e fantasias sem figurinos. Então nós criamos albuscou aperfeiçoar-se na arte da decoração de guma coisa que nos remetesse ao continente carros, criação e reprodução de enfeites e fanta- africano. Eu caminhei pelo lado do primitivismo; sias, em sua passagem por outras agremiações. fui em busca do mais puro que eu conseguia Veio para a Beija-Flor, atendendo a convocação imaginar de África”, destade Louzada para preparar o desfile de “Áfricas, ca Roger. do berço real à corte brasiliana”, bicampeão em 2007. “Um Carnaval inesquecível pra mim. Foi marcante porque minha estreia foi coroada com a vitória da escola. Foi duplamente emocionante” festeja Rodrigo. E repete: “a Beija-Flor é a mais estruturada e mais organizada de todas as escolas”. Equipe: Suzana Cristina, Caique Flausino, Felipe, Jhonatenan Gabriel, Maicon Santos e Simone Costa.

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Rádio Técnico e Radiologia. “Gosto muito da área da saúde e também porque é bom ter um diploma”, afirma. Equipe: Evelin, Vitor Henrique, Erick David, Giovane Vilanova, Lucas Souza, Thayná Neves, Vinicius Ribeiro.

MÁRCIA DE MEDEIROS

Equipe: Vennicius Sllovick, Zezé Albuk, Doria Marcia, Thaiana Silva, Rafael Ribeiro, Julianiy Rodrigues, Luisa Helena, Diego Josivaldo, Carolina Carol, Jorge Jr., Gilcimar DT, Pablo PB, Michele Azevedo, Aldvia Adiola, Alex Nega, Claudia Binha, Léo Midia, Rodrigo Azevedo, Cida Baiana e Mário Brachnonis.

TÚLIO PONTES

Quinta alegoria A Escravidão ergueu Nações Na equipe de Túlio Neves Pontes sete artesãos se revezam nas tarefas de produzir os adereços – para decorar o carro Navio Negreiro – e os enfeites que irão dar às fantasias o garbo que os figurinos que uma escola soberana pede. Túlio trabalha com o carnavalesco Fran Sérgio há sete anos fazendo fantasias para componentes de carros. Oficialmente veio para o barracão em 2011, quando “fui premiado com o cargo de coordenador de carro”, regojiza-se. Pontes ressalta a gratidão que tem pela escola “que me acolheu de braços abertos”. Especialmente este ano, também agradece a oportunidade que Laíla “nos deu de expor nosso lado artístico, apresentando nossas ideias. As coisas estão sendo diferentes. É um novo desafio. A Beija-Flor é uma escola grandiosa e, cada ano, os desafios aumentam mais e mais. Isso é muito legal.” Túlio é o autor das fantasias de Anabones zebrada, Benga, Fang, Bubi, Raça Negra e Exportação de escravo. Professor do ensino básico, profissão que exerceu por pouco tempo, atualmente, Túlio cursa 54

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Sexta alegoria Guiné Equatorial - A Ascensão de uma Nação Márcia Regina de Medeiros, carinhosamente tratada como “Mãe” pela equipe, é a encarregada da decoração do sexto carro e das fantasias dos seus componentes e as da Ala Diamantes. Marcia também fez os protótipos da ala Riquezas naturais, Pesca, Petróleo e Amigos do Rei. Márcia vai dar o toque final à alegoria, com pequenas peças, feitas com esmero e perfeição, para ornamentar o carro. Condição nada exagerada para quem “gosta de luxo” e trabalhou como designer de joias. E tem Joãozinho Trinta como seu inspirador. Este ano, juntou a oportunidade de criar adereços e figurinos com o prazer de fazer o que ela mais gosta. Uma novidade para Marcia é trabalhar num carro que têm uma predominância rústicas, mas em Carnaval, “tudo acaba evoluindo para uma coisa mais luxuosa” afirma. Outro desafio para Márcia é que antes os aderecista tinham que seguir o traço da alegoria e fantasias segundo desenho da comissão. Este ano, cada carro e fantasias seguirão o feitio sugerido (e aprovado) por cada encarregado. E isto mais do que uma novidade, é um novo desafio. Equipe:Junior Fernandes, Marco Aurélio, SanThiago, Ângelo Máximo e Luis Cláudio

DIONÍSIO MORA

Sétima alegoria O Enlace Cultural Entre o Brasil e a Guiné Equatorial Responsável pelo carro que encerrará a passagem da “Rainha da Passarela” pelo Sambódromo em 2015, Dionísio Arsênio Mora entrou para o universo da samba e do Carnaval por força das circunstâncias: ex-capoeirista, uma lesão tirou o “jogador” da roda. Foi também a capoeira que o inseriu no universo dos figurinos. Designado www.beija-flor.com.br


para tomar conta do guarda-roupa dos espetáculos dos quais participou excursionando pela Europa na década de 1990, Mora tinha que garantir mais do que o bom estado de cada figurino e isso lhe permitiu se descobrir na nova arte. Em “Um Griô conta a história:...”, Dionísio colaborou com sugestões preciosas para os figurinos das fantasias para as alas Unidade, Paz, Justiça, Língua Portuguesa e Ritmo. Orgulha-se de elas terem sido acatadas pela comissão de Carnaval. Dessas as fantasias, Paz e Ritmo foram reproduzidas por sua equipe. Paranaense de Foz de Iguaçu, casado com Michelle e pai de Mateus e Kauã, Dionísio chegou ao barracão com a cara e a coragem. Pediu um emprego e ganhou uma profissão. Começou trabalhando com metais, sob a orientação de Carlos “Shangai” Fernandes, no Carnaval bi-campeão de 2004: “Manôa, Manaus – Amazônia Terra Santa...”. Ano a ano foi ampliando e complementando seu aprendizado com outras tarefas, indispensáveis à atual função. Mora diz que estar na Beija-Flor “é uma realização completa. Une trabalho e prazer”. Equipe: Gustavo Abreu, Alexandre Medeiros, Thiago Suzy, Felipe Barcelos, Thays Hoffman, Alcir Gonçalves, Priscila Inácio e Juliana Oliveira.

Outros ateliês

Cristiano Bara com sua equipe também reproduziram os figurinos das alas Ritos e Ancestrais (setor 2) e da ala Pesca (fantasias criadas por Márcia, para o setor 6). Beth Franques do ateliê de Nilópolis fez as fantasias Feiticeiros e Máscaras (do setor 2); o ateliê de Leline (Lili) Pessoa confeccionou as fantasias da ala Griô (também setor 2). O carnavalesco FranSérgio fez as fantasias Páprica e Cravo das Índias (alas do setor 3); Simone Santana fez as vestes da ala Benga (criada pelo Túlio), Cláudia Binha as da ala Portugal (criadas por Roger) e Vânia Moreno reproduziu os protótipos de Túlio (Bubi, Fang e Exportação de escravos), de Roger (Inglaterra) e os de Márcia (Petróleo, Riquezas naturais e Amigos do Rei). Dirney Góia (Gaúcho) reproduziu o protótipo Justiça, desenhado por Dionísio, e João Calheiros, o modelo Raças Negra, concebido por Túlio. No total são 34 protótipos transformados em 3.702 fantasias - não incluindo os de destaques de carro, que são feitas por seus próprios figurinistas e as do primeiro casal de portabandeira e mestre-sala, Selminha Sorriso e Claudinho.

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RICARDO DA FONSECA

Desde a oficialização dos ensaios técnicos, em 2004, a Beija-Flor já conquistou quatro carnavais, sendo a escola com o maior número de títulos desse período.

Uma frase atribuída a Charlie Chaplin diz que a vida não permite ensaios. Em contrapartida, o Carnaval precisa de testes antes do desfile. Essa necessidade pôde ser melhor atendida quando as escolas de samba do Rio de Janeiro passaram a utilizar o sambódromo para os aclamados ensaios técnicos, no início dos anos 2000. Embora seja uma ideia da qual as escolas de samba não abrem mão, o ensaio técnico é algo relativamente novo. Esses “treinos no campo de jogo” começaram oficialmente em 2004 e tiveram seu embrião três anos antes. Desde então se tornaram essenciais para todo o processo que envolve o carnaval. “Elmo José dos Santos, que presidia a Mangueira em 2001, queria testar a escola na avenida antes do desfile daquele carnaval. Então houve pela primeira vez o ensaio técnico e foi acontecendo até 2004, quando virou algo oficial. Nesses anos iniciais ainda não era um acontecimento que fazia parte do calendário oficial, ainda não seguia todas as regras do desfile, era algo um pouco esporádico também, nem todas as escolas participavam” conta Fernando Araújo, assessor cultural da Liesa, entidade responsável pela organização do Desfile de Carnaval das Escolas de Samba do Grupo Especial. 56

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De acordo com Fernando, os ensaios técnicos são fundamentais para que o Carnaval seja cada vez mais o maior show da terra: “O Carnaval vem ganhando ao longo dos tempos proporções enormes, sendo o único espetáculo popular no mundo que não era ensaiado em seu palco principal. Com a criação dos décimos na pontuação, por exemplo, a disputa ficou ainda mais acirrada, fazendo com que qualquer detalhe decidisse o resultado final. Por isso, sob o ponto de vista das agremiações, realizar ensaios na Marquês de Sapucaí se fazia necessário para refinar o que fosse preciso para o desfile oficial sair sem nenhum erro” disse. Para as escolas, desfilar no palco antes do show é mesmo um grande negócio. É consenso entre as agremiações que usar o sambódromo para essa espécie de verificação final, podendo usufruir das luzes do local e da presença do público, é fundamental para alcançar bons resultados na avenida. Segundo o diretor de Carnaval da Beija-Flor de Nilópolis, “Desde que se tornaram uma opção oficial da Liesa e da Riotur para as escolas de samba, os ensaios técnicos colaboraram muito para que a Beija-Flor alcançasse rendimentos cada vez melhores: nesses anos, vencemos com www.beija-flor.com.br


muita qualidade quatro carnavais (2004, 2005, 2007 e 2008), e somos a escola de samba com o maior número de títulos de campeã desse período”, declara Laíla. Anízio Abrão David, presidente de honra da Beija-Flor, faz coro com Laíla, e vai mais além: “Os ensaios técnicos acabaram atendendo duas finalidades distintas: deram às escolas de samba e seus componentes, inclusive carnavalescos, diretores de harmonia e bateria, melhores condições de se prepararem para o Desfile de Carnaval, já que no ensaio técnico podem observar melhor - e no local da disputa do título a evolução da escola e, assim, corrigir e realizar ajustes que entendam necessários, inclusive na cronometragem de passagem pela avenida. Outro resultado positivo dos ensaios técnicos foi que eles deram ao público e ao turista presente na cidade uma nova opção de entretenimento dentro do universo do carnaval. E a prova de que a ideia foi muito bem aceita pelo público é que ele tem marcado presença em todos os ensaios técnicos de todas as agremiações” afirma. Bom para as escolas, bom para o público. Agora, turistas que chegam ao Rio de Janeiro no fim do ano já festejam os quatro dias de folia algumas semanas antes. Além disso, por serem gratuitos, os ensaios técnicos colocam nas arquibancadas pessoas que não têm condições de pagar para ver as agremiações durante o desfile oficial. A funcionária pública Camila Machado, de 36 anos, acompanha os ensaios técnicos des-

de 2005: “Os ensaios são uma festa. Tenho a impressão que as pessoas se divertem mais acompanhando os ensaios que nos desfiles oficiais. Não sei se é por causa do público ou se por causa do clima menos tenso que as escolas apresentam nos ensaios. Nesses testes, as escolas estão mais ‘livres’, por isso acho que flui melhor” destaca. Para o Carnaval deste ano, os ensaios técnicos começaram no dia 20 de dezembro de 2014 e terminaram no dia 1º de fevereiro, quando todas as escolas tiveram a oportunidade de levar ao público, na Sapucaí, um pouco do espetáculo de cores e movimentos que as credenciarão para a disputa do título de campeã de 2015. A Beija-Flor de Nilópolis realizou seu ensaio no dia 25 de Janeiro, em pleno Domingo, sob os olhares atentos e afetuosos de um público que sabe que a agremiação nilopolitana vai entrar com garra e beleza nessa disputa. Mais uma vez, os ensaios técnicos foram um sucesso para as escolas de samba e para o público. No Carnaval do Rio de Janeiro até o esboço é arte final. Fevereiro 2015

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VICENTE DATTOLI Rio, 450 anos. Estamos, em 2015, festejando os 450 anos de fundação do Rio de Janeiro. Impossível imaginar a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro sem Carnaval, não é mesmo? Mais difícil ainda é imaginá-la sem os desfiles de Escolas de Samba, sem o Sambódromo, sem a alegria e criatividade de nossos foliões e artistas. São coisas que estão intimamente ligadas. Rio de Janeiro, sol, praia, alegria, futebol, Carnaval e, claro, desfiles das Escolas de Samba. Neste último item, vamos ser sinceros, alguém consegue pensar em uma noite de apresentações sem Mangueira, Portela ou Salgueiro? E sem a Beija-Flor – de Nilópolis? Não dá, não é mesmo? E não pensem que este pensamento é recente, não. Em 1965, quando o Rio de Janeiro festejou seus 400 anos, a Beija-Flor, de Nilópolis, já desfilava na Cidade Maravilhosa. Como havia a exigência de que para participar dos desfiles na cidade a sede da agremiação deveria ser aqui... A Beija-Flor, de Nilópolis, tinha oficialmente sua sede administrativa no Rio de Janeiro. Legalmente não havia, então, qualquer tipo de impedimento. E lá vinha o pássaro azul-e-branco da Baixada Fluminense brilhar nas passarelas cariocas. Em 1965 a Beija-Flor, de Nilópolis, apresentou-

-se no desfile da Praça XI com o enredo “Lei do Ventre Livre”, de Cabana. Ficou em terceiro lugar no então III Grupo, atrás de Unidos de São Carlos (a atual Estácio de Sá) e Unidos do Jardim (que já enrolou bandeira). A partir daí a Escola foi subindo, crescendo, consolidando sua marca até se tornar a maior campeã do Sambódromo – desde sua inauguração, em 1984, a Beija-Flor, de Nilópolis, conquistou nada menos do que sete títulos (1998, com “Pará – O mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-anu”; 2003, com “O povo conta a sua história: Saco vazio não para em pé – A mão que faz a guerra, faz a paz”; 2004, com “Manôa, Manaus, Amazônia, Terra Santa... Que alimenta o corpo, equilibra a alma e transmite a paz”; 2005, com “O vento corta as terras dos Pampas. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Guarani. Sete povos na fé e na dor... Sete missões de amor”; 2007, com “Áfricas: do Berço Real à Corte Brasiliana”; 2008, com “Macapaba: Equinócio Solar, Viagens Fantásticas no Meio do Mundo”; e 2011, com “A Simplicidade de um Rei”), sem contar os anteriores à criação da Passarela do Samba. Será que dá mesmo para pensar no Carnaval do Rio de Janeiro sem a presença da Beija-Flor, de Nilópolis?

(*) Na realidade, o primeiro registro de um desfile da Beija-Flor, de Nilópolis, no Carnaval carioca é bem mais antigo do que sua participação nas apresentações do IV Centenário. A azul-e-branco da Baixada Fluminense estreou no Rio de Janeiro em 1954, quando desfilou e venceu o então Campeonato da AESB e CBES, na Praça XI, com o enredo “O caçador de esmeraldas”, também de Cabana, superando a então vice-campeã Caprichosos de Pilares – o Grupo Especial da época disputava o chamado Supercampeonato, na Presidente Vargas, e o título ficou com a Estação Primeira de Mangueira. Outra curiosidade: aquele desfile começou dia 28 de fevereiro, ou seja, a Beija-Flor, de Nilópolis, estreou no Carnaval carioca justamente no dia do aniversário da cidade, 1º de março. Dá para pensar no Carnaval do Rio de Janeiro sem a Beija-Flor, de Nilópolis? 58

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FELIPE LUCENA

Há quem defenda que o momento mais emocionante de um desfile de uma escola de samba é o “esquenta”. Opiniões e exageros à parte é nessa hora que normalmente os sambas exaltação das agremiações são entoados e de fato é ali que a comunidade mostra sua força antes de pisar definitivamente na avenida. Quando, no final dos anos 1920, as escolas de samba se organizaram como agremiações, o sentimento de rivalidade e paixão que já existia nas disputas anteriores de blocos, ranchos e cordões se avolumou. Com isso, letras que exaltavam o amor às escolas de samba passaram a fazer um sentido maior para as pessoas que estavam envolvidas nesses ambientes. Essa ideia se esticou pelas décadas e se mantém firme até hoje em dia. É comum notar nas quadras e barracões, torcedores das agremiações do Carnaval cantando seus hinos (os sambas de exaltação) como se estivessem em um estádio de futebol assistindo a uma final diante do maior rival. 60

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A nomenclatura “samba exaltação” surgiu em 1939. No entanto, a ideia de sambas que faziam menções honrosas a algo já existia desde o início da década de 1930, quando Getúlio Vargas se tornou presidente da República. Nesse período, os compositores passaram a escrever letras que exaltavam o Brasil e o governo. Também em 1939, Vargas criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Até então, o samba era voltado à malandragem. A partir daí, o governo investiu no uso da música como veículo de sua ideologia, principalmente de entusiasmo ao trabalho, chegando a distribuir verba para as escolas de samba para que abordassem temas de cunho patriótico em seus desfiles. Um dos maiores representantes desse gênero foi o compositor Ary Barroso, que fez, em 1939, “Aquarela do Brasil”, considerado o primeiro samba exaltação da história. Ary chegou a ser acusado de ter aceitado uma encomenda de Getúlio Vargas, devido a grande coincidência do conteúdo da música com o contexto vivido www.beija-flor.com.br


no momento. Barroso, que em meados dos anos 1940 chegou a ser eleito vereador do Rio de Janeiro pela UDN (União Democrática Nacional), que na época era oposição ao PTB de Vargas, se defendia dessa argumentação alegando que foi pura coincidência, que não escreveu nada a mando de ninguém. De todos os sambas e marchinhas ufanistas, uma canção se destacou. A escola de samba Deixa Falar, conhecida como a primeira do Brasil, desfilou em 1932 - ano que marcou o início do Carnaval com disputa de título entre as agremiações - com o enredo “A Primavera e a Revolução de Outubro”, uma clara homenagem a chegada de Vargas ao poder dois anos antes. Do samba que exaltava o país para o samba que exalta as escolas foi um caminho reto. O historiador Claudio Russo, um dos pesquisadores da Comissão de Carnaval da Beija-Flor, diz como se deu esse processo: “Precisar exatamente a época e qual escola de samba começou é uma tarefa um tanto quanto difícil, mas podemos dizer que por muito tempo o samba exaltação foi uma prática extremamente utilizada pelos compositores das escolas. Temos para posteridade grandes sambas como as composições de Candeia, Chico Santana e Paulinho da Viola, na Portela; Silas de Oliveira e Mano Décio, na Império Serrano, que nos deixaram tantas obras magnificas. Na Academia do Salgueiro, Geraldo Babão e Djalma cantarolavam seus sambas com a beleza de um Sabiá - desculpe o trocadilho. Na

Estação Primeira, Cartola afirmava: ‘Muito velho, pobre velho vem subindo a ladeira com bengala na mão é o velho, velho Estácio Vem visitar a Mangueira’... Isto nas quatro grandes escolas do passado. Se for me estender um pouco mais, em verde e branco ecoa a Rainha de Ramos, a Mocidade! Mas tenho certeza que a Beija-Flor está muito bem representada com ‘A Deusa da Passarela’, do Neguinho”. Claudio ainda pontua que é preciso que haja uma mobilização para que diversos subgêneros do samba não se tornem apenas uma saudosa lembrança. “Acredito que a escola de samba deve ter muito mais que apenas o concurso de samba-enredo. Poderíamos semear este solo tão fértil de valores e talentos com festivais de sambas de quadra, de terreiro e principalmente sambas de exaltação nas tardes de sábado ou domingo, para que assim possamos fortificar e preservar as raízes do samba, o amor ao pavilhão e a história para as novas gerações”, disse o historiador. Monarco, um dos maiores nomes da história do samba e do carnaval, afirma com veemência a importância que o samba exaltação tem para uma escola: “É mais importante que o sambaenredo. É um samba que sai do coração. O samba

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enredo é encomendando, vem de fora. O samba exaltação vem de dentro. Óbvio que os dois são importantes, o de enredo e o de exaltação. Mas o de exaltação tem esse algo a mais, essa coisa de reforçar o amor à escola de samba. O samba exaltação é uma coisa que não deve morrer” conta ele, que está na ala dos compositores da Portela desde 1950. Outro baluarte do carnaval, Nelson Sargento, depois de frisar que os sambas exaltação são extremamente necessários para a manutenção da alma da festa, apontou seus prediletos: “Gosto dos que o Silas de Oliveira fez para a Império. Os do Salgueiro são ótimos. A BeijaFlor tem uns muito bonitos também”. O samba exaltação é o refrão que levanta o bloco. Anizio Abrão David, presidente de honra da Beija-Flor, uma agremiação oriunda de uma comunidade que praticamente respira carnaval, sabe bem do peso dessas composições: “A gente nota que quando esses sambas são tocados,

vez, ele, que faleceu anos atrás, declarou que lamentava o fato de os sambas exaltação não terem mais tanta força quanto já tiveram em outros carnavais e apontou suas letras favoritas desse estilo: “A Deusa da Passarela”, de Neguinho da Beija-Flor e “Eu sou de Nilópolis”, escrita por Osório Lima, um aclamado compositor. Quando se fala em samba exaltação e em BeijaFlor, inevitavelmente se pensa em Neguinho e “A Deusa da Passarela”. O interprete e compositor da Azul e Branco de Nilópolis lembra como foi fazer essa canção: “Eu estava esperando uma ligação na casa da dona Iolanda, onde o Joãozinho Trinta também morava. Era um domingo, em 1979. Aí o Joãozinho me perguntou o que eu achava de ele fazer um concurso para que criassem sambas que exaltassem a Beija-Flor. Eu elogiei a ideia. Logo em seguida, ele saiu, foi na rua resolver algum assunto rápido. E isso ficou na minha cabeça. Na mesma hora escrevi a letra de ‘A Deusa da

A Deusa da Passarela r Compositor: Neguinho Da Beija-flo É ela, Maravilhosa e soberana, De fato nilopolitana. Enamorada deste meu país É ela, A deusa da passarela Razão do meu cantar feliz. É ela, Um festival de prata em plena pista, É o sorriso alegre do sambista, Ao ecoar do som de um tambor...ôô Beija-flor minha escola, Minha vida, meu amor

as pessoas se sentem ainda mais próximas da escola. É algo que emociona todo mundo. É o coração da festa”. Bira Puxador, um dos mais antigos intérpretes da Beija-Flor, era conhecido por saber cantar todos os sambas da escola de Nilópolis. Certa 62

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Passarela’. Quando ele voltou, mostrei para ele. Ele ficou emocionado demais e muito surpreso por eu ter feito a letra tão depressa. Então, ele me disse que não precisava mais de concurso nenhum, que o que ele queria era exatamente o que eu havia acabado de escrever”. www.beija-flor.com.br


O assessor jurídico da Liesa, Ubiratan Guedes, também é um entusiasta dessa modalidade de samba. Ele reforça a atmosfera que cerca essas composições: “O samba exaltação é aquilo que para a escola é o equivalente ao hino do time de futebol. É um hino que funciona como um chamado geral, que desperta a emoção da comunidade, que busca no interior de cada componente a força para se fazer um grande carnaval, ultrapassando, muitas vezes, limitações da agremiação. O “esquenta”, que realmente esquenta a emoção das pessoas, é fundamental. Se eu pudesse escolher entre um samba de anos anteriores ou um samba de exaltação, eu sempre escolheria o samba exaltação, de esquenta, porque esse mexe com a sensibilidade mesmo. Todo mundo canta, todo mundo participa e a comunidade se inspira, fica mais energizada para desfilar” enfatiza o advogado.

Eu sou de Nilópolis Compositor: Osório de Lima Vem um e diz Que é da Mangueira Outro diz, que é do Estácio de Sá Finalmente todos querem Exaltar o seu lugar Eu sou de Nilópolis Terra que tem gente bamba E tem macumba e tem samba Nilópolis terra de magia Quem é de Nilópolis é a mesma coisa que ser da Bahia Em Nilópolis tem Sol Jogo bom, que é futebol Terra de gente de raça Temos parque e cinemas Lindas louras e morenas Desfilando em nossas praças E além de tudo isso Tem nego bom no feitiço E no samba professor É de lá a escola de samba Beija-Flor

a fazer um curso, marido me incentivou computador”. fiz e passei a ilustrar no gráfico em uma r O trabalho de designe suas peculiaridades. escola de samba tem como as coisas Adriane Lins explica enredo já está o funcionam: “Quando para adriane lins en go imag s e vídeos pe eu , to on pr a ias interrupções, iação, com referênc cr na ar Se for contar sem ud aj ne Lins já tem banners. Criação, designer gráfico Adria lor. Ela entrou áficas. Faço logos, gr z a moça ija-F de imagem mesmo” di ea ár a mais de 15 anos de Be ss ne do an ida: “Quando se 99, trabalh e emenda logo em segu logomarca e na escola no ano 19 tigo barracão. qu a an e o enredo, eu faço na administração do cid de is. po de os an de referências dez o a parte da pesquisa eç Saiu em 2002. Voltou m co ra pa as lhos, eu di dicou os m no início dos traba Be s. ca Nesse período fora, de áfi gr ro at ento das qu inhas funções. acompanhar o crescim o conseguiu já começo a praticar m m de carnavais, nã ge filhas. No entanto, Já com uma certa baga i seu predileto: escola da e ng lo fo te al en qu m ta va ficar definiti a designer apon sa, ca de a av nh ção, o ano que se ra de st ilu a rte de pa sa es do coração. El “N a us De os para a anhão, em 2012”. fazendo alguns projet a como se deu ais gostei foi o Mar m as cont a escola de Nilópolis, da to o m co da Passarela. Adriane sim As ea administrativa para esse carnaval essa mudança, da ár desenhava em expectativas de Adriane sitivas possíveis. já e po para a criação: “Eu são as mais coloridas eu m , la co es da ra fo papel, nesse tempo Fevereiro 2015

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ADRIANA BUARQUE

“Imaginar um Brasil sem Carnaval seria como imaginar uma noite sem lua ou um arroz sem feijão”. Roberto da Matta

Não adianta. Goste ou não, queira ou não, todo ano o Brasil para no carnaval, às vezes até um pouco antes do dia marcado pelo calendário e na quarta-feira de cinzas o retorno à rotina é sempre difícil e moroso. Há um reinventar da ordem, dos dias, da própria rotina e do fazer. Os estudiosos do carnaval, desta celebração caracterizada pelas cores, pela alegria, pela descontração, mas também pelos excessos, e pela libertinagem, avaliam que em outros países esta festa tem um caráter local, já no Brasil é uma festa de caráter nacional. É sim, Brasil e Carnaval são intrínsecos e inerentes. Como diz o antropólogo Roberto da Matta, respeitado estudioso sobre o samba e Carnaval, “Há planos para acabar com tudo no Brasil, menos para proibir o carnaval”. O Carnaval em sua continuidade representa um caráter permanentemente nacional. Alguém é capaz de imaginar o Brasil sem carnaval? 64

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Muitos estudiosos remetem as origens do Carnaval aos cultos pagãos gregos, percebidos nas figuras mascaradas no rito ao Deus do vinho, Dionísio, com fantasias e alegorias representadas nos próprios vasos decorativos. Daí a origem da palavra carnaval: carne levare, que quer dizer “abandonar a carne”, nos remetendo ao significado da orgia como um rito, ou seja, o Carnaval tem sempre um caráter ritualístico. O fato é que os estudiosos das festas e dos rituais avaliam o abandono provisório das rotinas em dois tipos: celebrações da ordem, as chamadas solenidades, e celebrações da desordem, tais como os bailes, festas e folias. As primeiras marcam o sério e o sagrado, onde o riso é proibido, como as procissões ligadas à Igreja ou as paradas militares, ligadas ao governo, e as segundas, sendo o Carnaval um representante, declaradamente populares, deflagram a inclusão dos mais pobres e o uso de máscaras e fantasias. www.beija-flor.com.br


Nas primeiras foi observado o uso do uniforme, além da fala e reza como meio de comunicação, já as celebrações da desordem, salientou-se como modo de comunicação a dança e canto. Portanto, as celebrações da ordem reforçam a autoridade e a diferença entre as pessoas. Já as da desordem, com seu caráter carnavalesco no amplo sentido da palavra, trazem à tona a união entre os diferentes, com uma marca inclusiva entre as pessoas e tendo como elo a presença crucial da música com o corpo bailando e o riso, permitido e vangloriado, sendo capaz de dissolver quaisquer barreiras. Por falar no quesito corpo, repara-se que nas solenidades as mãos e o hemisfério superior do corpo são evidenciados, já nas folias o hemisfério inferior do corpo, a linha abaixo da cintura que mantém destaque. Um ponto antropológico e psicológico importante é que todo movimento de ordem é seguido por uma desordem e toda desordem por uma ordem e, por isso, muitos casamentos e formaturas, após o rito das formalidades, terminam em grandes bebedeiras e festanças, o carne levare, o “abandonar a carne”, assim como nosso Carnaval é limitado na quarta feira de cinzas, marcando o início da Quaresma, o tempo do suplício de Cristo. Como somos seres sociais necessitamos tanto da ordem estabelecida, da rotina do trabalho, assim como a suspensão desta no descontrole da festa, que na verdade baseia-se o próprio sentido da festa.

Entretanto Da Matta observa em seu artigo “O que diz o carnaval?” que na própria festa, no seu brincar, há outro sentido do fazer e este fazer nos traz um aprofundamento da vida social. No nosso Carnaval um homem se metamorfoseia em mulher, outro em palhaço e outros passam horas tocando um instrumento na bateria de uma escola. No celebrar do Carnaval cria-se outra possibilidade de fazer e de ação. Com as fantasias e a música, marcadamente na presença de um samba, histórias possíveis e impossíveis são contadas e recontadas. Da Matta passou muito tempo pensando sobre como nosso Carnaval reflete o Brasil e desenvolveu seu pensamento justamente nesta possibilidade de se passar pelo o que não se é, na criação de uma mentira em celebração e riso, aonde o corpo do cidadão pobre também vem à cena, em sua beleza singular e harmonia. O Carnaval passa a celebrar em estado puro nossa própria brasilidade e toda nossa sensualidade com excessos e sem consequências diretas permitindo até inversões hierárquicas, marcando com força o lugar especial do Carnaval brasileiro. Contam uma história de um australiano que em seu primeiro Carnaval no Brasil escreveu a um amigo em Sidney: “Caro John, largue sua mulher e compre uma passagem para o Rio sem volta.” E mesmo que se fale e acuse o Carnaval de já ter sido dominado pela mídia, há sempre algo a ser criado, visto, por exemplo, a volta dos blocos e Carnaval de rua com toda a força.


Por isso, o antropólogo cita o nosso Carnaval como possibilidade de desconstrução do social, além do que, a ‘obrigação’ do divertir-se é algo sedutor e fantástico para todos. Para quem quer se aprofundar no assunto deixo aqui a indicação de dois livros deste mesmo autor: “Universo do carnaval: imagens e reflexões”, pela editora Pinakotheke e “Carnavais, malandros e heróis”, pela editora Rocco, nos quais o antropólogo desenvolve com maestria e profundidade o nosso samba e Carnaval como expoentes máximos de nossa brasilidade. No primeiro livro, Da Matta, através de fotos e imagens, decorre sobre a nossa sociedade produtora do carnaval, assim como o significado do Carnaval como cultura popular dentro da mesma sociedade. Já no segundo, há uma análise mais profunda na qual o escritor faz uma interpretação do Brasil, complexa e diversificada, assim como são os seus rituais. Ele ainda escreve sobre as relações de poder inseridas neste contexto, a distinção entre o espaço privado e público, a casa e a rua, além de mostrar o Carnaval como dono da capacidade de deslocar eixos hierárquicos e organizacionais de nossa sociedade. O escritor aponta um retrato de ‘o que é o Brasil’ e ‘como é o Brasil’, através da estrutura de nosso carnaval. Para quem se sente mais íntimo das artes audiovisuais deixo aqui uma pequena lista de filmes que possuem a temática do Carnaval ou acontecem neste cenário. O primeiro da lista é “Alô, Alô, Carnaval”, uma comédia musical brasileira, dirigida por Adhemar Gonzaga e lançada no Brasil em 1936. Dos filmes de Carmen Miranda foi o único que sobreviveu ao tempo. O filme exibe a montagem de uma revista teatral intitulada ‘Banana da Terra’ e se dispõe a mostrar para o público os grandes cantores da fase de ouro da rádio brasileira. A seguir indicamos ‘Orfeu do carnaval’, uma coprodução Brasil, Itália e França, história inspirada na mitologia grega, no amor de Orfeu e Eurídice e baseada na peça teatral ‘Orfeu da Conceição’ de Vinícius de Moraes. O filme estreou em 1960 e levou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 1999 Cacá Diegues fez uma releitura com o seu ‘Orfeu’, o drama de amor passado nos quatro dias de carnaval. A música foi composta por Caetano Veloso. Entra em nossa lista também “Isto é Noel”, de Rogério Sganzerla, de 1990, um documentário sobre Noel Rosa, em que se desenrola à nos66

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sa frente, além do cancioneiro interpretado por João Gilberto e Gal Costa, filmagens de carnaval, gravações de rádio e a vida dramática da personagem. Outro rico documentário é “O samba”, produção suíça e alemã, do diretor Georges Gachot que mostra através da figura central, o cantor Martinho da Vila, que o samba não é só um estilo musical, mas também uma linguagem e estilo de vida. O filme estreou no ano de 2014. Fecho nossa pequena lista com “Trinta”, a biografia do carnavalesco Joãozinho Trinta, desde os anos 60 até os tempos mais atuais. A produção do filme data de 2012 e tem como intérprete de Joãozinho o ator Matheus Nachtergaele. Assim como o samba, o Carnaval funciona bem nas telas, pois já traz em si este caráter ‘teatral’ no sentido de reinventar uma realidade, como já vimos anteriormente. Através da quebra da rotina, da máscara e da alegoria, podemos por uns dias ser outro, outra pessoa num outro mundo, sem consequências diretas, onde a liberdade do riso e do prazer se faz imperar. Como diz a música: “Não me leve a mal / Hoje é carnaval.” E mesmo que ainda seja uma festa inserida em nossa economia e mercado, seus mais profundos gestos revelam a possibilidade de desmontar um sistema social e escolher outra personalidade para si, lendo o mundo através de outro ponto de vista, na qual certamente a resposta aos prazeres imediatos e a glorificação da vida, corpo e sensualidade são prementes. É isto: Carnaval é vida! E lembro-me novamente da conhecida marchinha: “Quanto riso, oh, quanta alegria! / Mais de mil palhaços no salão”. Aproveite a possibilidade de ser feliz aqui e agora, sem vergonha. E termino com as palavras de Gonzaguinha em seu notório samba: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz Cantar, A beleza de ser um eterno aprendiz Eu sei Que a vida devia ser bem melhor e será Mas isso não importa que eu repita: É bonita, é bonita e é bonita!” Celebre a vida, minha gente, afinal é carnaval. www.beija-flor.com.br


Imaginação

o capital que move as escolas de samba José Bonifácio de Oliveira Sobrinho - Boni

A sobrevida do desfile das escolas de samba é produto da teimosia dos dirigentes e da imaginação dos carnavalescos e diretores de Carnaval. Os governantes e os promotores públicos, sempre diligentes, não entenderam ainda alguns princípios básicos da maior festa popular do Brasil. O primeiro deles é que Carnaval é cultura, e não turismo ou diversão. E cultura na mais profunda acepção do termo. Os enredos são objeto de pesquisa e estudos profundos. Os projetos envolvem centenas de pessoas na sua criação. Artistas e artesãos criam e produzem carros, esculturas, figurinos e adereços, tudo com o mais fino acabamento. As escolas de samba expõem, anualmente, obras de arte inéditas para a maior plateia do mundo, numa galeria de arte a céu aberto. Não se tem notícia de divulgação cultural tão intensa e tão imediata e de contato tão próximo entre a criação e os espectadores. O segundo ponto é que governantes e promotores desconhecem o quanto custa e quanto dá trabalho produzir arte. O terceiro é que estamos falando de arte genuinamente brasileira. Não é raro depararmos com financiamentos oficiais e contratações milionárias de artistas estrangeiros cujo valor artístico não chega aos pés do nosso Carnaval. A situação de dificuldade em que vivem as escolas remete seus diretores à busca pelos ENREDOS PATROCINADOS. Diretores de Carnaval e carnavalescos se viram para transformar um comercial em história “palatável” e disfarçar o anúncio em enredo. Eu tenho certeza de que isso vai arruinar o Carnaval e há muito venho batendo nessa tecla. Conheço o Carnaval antes e depois da LIESA. Se não fossem os patronos e a perfeita organização da LIESA, os desfiles já teriam acabado há muito tempo ou teriam virado blocos de sujo. Pois que os governantes e o Ministério Público parem de colocar dúvidas sobre o destino das verbas michas e pobres destinadas às escolas de samba. São insignificantes diante dos custos reais. E além do mais a grana chega tarde. As verbas só chegam no último momento, quando o dinheiro para produzir o espetáculo já foi gasto, tomado emprestado, usando créditos ou tirado do caixa das escolas que têm de onde tirar. Os patronos coçam o bolso e põem a grana deles para arder. Enquanto isso, o Carnaval rende milhões para os cofres públicos. As autoridades que descubram métodos de controle – os mais rígidos possíveis – e não se limitem a dar subvenção ou ajuda às escolas de samba. Que contratem a preço justo os serviços delas. Paguem o que vale esse “show” maravilhoso, sem igual no mundo. Contratem as escolas de samba através da LIESA para que se possa produzir e entregar de verdade o MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA. A LIESA entregará um produto da mais alta qualidade. Coisa profissional. Eu sou fiador. Fevereiro 2015

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Aqui não tem moleza não! Nos ensaios da 5ª feira, a comunidade se prepara para levar para a Marquês de Sapucaí um desfile à altura da agremiação nilopolitana. É Sorriso, Suor e Alegria, dando o ritmo de um Carnaval campeão!


FELIPE FERREIRA

Todos já ouvimos falar que as escolas de samba são a maior expressão da cultura popular do mundo e - é claro - nós, que de alguma forma nos envolvemos com elas, nos enchemos de orgulho com esta afirmação. Mas o conceito de “cultura popular” pode ser bastante diferente de uma pessoa para a outra. A maioria considera que cultura popular é sinônimo de “cultura folclórica”, ou seja, algo que é produzido pelo povo. A grande dificuldade reside em se saber exatamente o que entendemos como povo. Para muito, esta é uma forma de se referir à parte mais desassistida da população, geralmente com pouca ou nenhuma instrução, que não frequentou faculdades e nem outros espaços de educação formal. Um jeito bastante preconceituoso e elitista de se ver o outro, como se povo fosse sinônimo de ignorante ou pobre. É claro que esta visão não mais se sustenta no mundo contemporâneo, no qual estas categorizações estão cada vez mais misturadas. A cultura popular, longe de estar restrita a algum grupo específico, é algo que se difunde por toda a sociedade. Alguma coisa é popular quando é produzida ou consumida pela população de um determinado lugar, ou seja, por boa parte de suas diferentes camadas sociais. 70

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Explico tudo isso para destacar que o caráter popular das escolas de samba está na variedade de seus componentes, de seus diretores e de seus criadores, gente vinda dos mais diversos lugares, com as mais diferentes formações, reunindo saberes vindos não só de experiências pessoais e tradições, mas também aqueles adquiridos nas universidades e academias. É esta mistura que faz com que as escolas de samba sejam verdadeira e orgulhosamente populares. Uma consequência importante disso é a que as escolas podem deixar de ser vistas como elementos que estão a reboque da cultura para se afirmarem como verdadeiras pontas de lança da contemporaneidade. O melhor exemplo é a inserção dos desfiles dentro do panorama artístico. Longe de “copiarem” o que se faz na Arte da atualidade, as escolas se apresentam como verdadeiros “caldeirões” de experimentação, antecipando tendências e apontando caminhos para os artistas institucionalizados valorizados pelo mercado. A utilização e a experimentação de novos materiais, a incorporação de técnicas, a reinvenção de performances, a constante atualização das danças e ritmos, tudo isto faz parte do processo de criação de uma escola de samba. Seu desfile pode, desse modo, ser comparado a uma verdawww.beija-flor.com.br


deira exposição coletiva de Arte na qual cada elemento é uma obra. Escultores, pintores de arte, marceneiros, ferreiros, iluminadores, aderecistas, chapeleiros, coreógrafos, passistas e casais de mestre-sala e porta-bandeira são os artistas que “expõem” seus “trabalhos” ou realizam suas performances no grande “salão” que é o Sambódromo. Aos carnavalescos – que definem o tema e a maneira como ele se organiza no espaço expositivo (a passarela) – caberia o papel de grandes organizadores da exposição, ou seja, de curadores, papel que modernamente se aproxima cada vez mais daquele do artista.

Cabe a nós, espectadores e admiradores desta arte popular no seu sentido mais amplo, compreendermos seu caráter eminentemente brasileiro e carioca. Uma arte nossa, com a ginga e a cor do samba. ____________ Felipe Ferreira é jornalista, coordenador do Centro de Referência do Carnaval (Rio de Janeiro), professor do Instituto de Artes e do Programa de Pós-graduação em Artes da Uerj e autor de diversos livros sobre carnaval, entre eles “Escritos carnavalescos”, “Inventando carnavais” e “O livro de ouro do Carnaval brasileiro”.

“O Desfile da Beija-Flor de Nilópolis é sempre um acontecimento especial. É nessa hora que a nação nilopolitana mostra ao mundo o que tem a oferecer em força, criatividade e paixão sentimentos que movem o mundo e que forjam vencedores. Tenho muito orgulho de pertencer à família Beija-Flor, e tenho buscado nas minhas ações profissionais e do cotidiano, ser digno dessa tribo vencedora. Boa sorte, nação nilopolitana!” Ricardo Abrão Fevereiro 2015

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FELIPE LUCENA

Rio de Janeiro e Carnaval se confundem e se completam. A relação da Cidade Maravilhosa com esta festa popular vai muito além do que se imagina. Os dias de folia não estão só atrelados ao turismo, mas também a economia, ao urbanismo, a estrutura social, e até a história da cidade que já foi capital do Brasil. Nesses 450 anos do Rio, o parabéns deveria ser cantado em ritmo de samba-enredo. Ou em marchinha. O Carnaval é uma data que norteia o presente e o futuro dos cariocas. É comum se pensar viagens e outros planos para depois da festa popular. “Quando o Carnaval acabar começo a dieta e arrumo uma namorada”. No entanto, pouco se fala sobre a constante presença dessa festa em fatos históricos que marcaram a Cidade Maravilhosa. No ano de 1840, a alta sociedade carioca começou a realizar bailes de Carnaval no Rio de Janeiro. Inspirados nas festas que aconteciam na Europa, os encontros eram regados a muita bebida, comida e ritmos tipicamente europeus, como a valsa e a quadrilha. Enquanto isso, nas ruas da cidade, milhares de foliões brincavam o entrudo - festa portuguesa em que pessoas fantasiadas dançam e 72

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jogam limões de cheiro, farinha ou água uns nos outros. Nesse período, a família real vivia no Rio de Janeiro, e a desigualdade social, a escravidão e outras mazelas ainda eram extremamente presentes na cidade. O Carnaval começava a reverter essa opressora realidade, pois muitos nobres iam para a rua festejar com o povo. Os primeiros registros de blocos carnavalescos licenciados pela polícia no Rio de Janeiro datam o ano de 1889. Isso se deu um ano após a abolição da escravatura. Muitos historiadores apontam os blocos de rua como um sinal de liberdade. Nesse caso, tudo foi bastante simbólico, porque os negros recém-libertos foram às ruas para festejar com as pessoas que compunham esses eventos pela cidade do Rio de Janeiro. “É necessário lembrar que o carnaval, para uma parte dos cariocas, sempre teve a dimensão de ser um tempo de subversão da cidadania roubada. Inventamos na rua a cidade negada nos gabinetes poderosos, sobretudo no contexto de transição entre o trabalho escravo e o trabalho livre, nos últimos anos da monarquia e nos primeiros da república, quando a festa ganhou www.beija-flor.com.br


contornos populares mais contundentes e uma parte significativa dela passou a ser um canal de expressão de descendentes de escravos. A partir daí a festa confunde-se com a própria história da cidade, como é até os dias atuais” pontua o historiador Luiz Antonio Simas. No final dos anos 1920 e no começo da década de 1930, as escolas de samba começaram a se organizar como agremiações, deixando para trás o passado, quando se pareciam mais com os blocos de Carnaval de hoje em dia. Esse período coincidiu com a chegada de Getúlio Vargas ao poder. Getúlio, já estabelecido no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, – antiga sede do governo federal – buscou na Itália de Benito Mussolini a inspiração para a nossa festa. Nessa época, a folia italiana era mais organizada, com pessoas marchando em linha reta, instrumentos que faziam parte da cultura nacional, músicas que edificavam o país e notas de zero a dez no final das apresentações. Vargas, que buscava uma imagem mais próxima da cultura popular, abraçou a ideia do italiano e tudo isso ganhou uma pitada de Brasil. Em 1935, o governo brasileiro passou ajudar financeiramente para que as escolas tivessem mais recursos na hora de desfilar. Dois anos depois, foi instituído que os sambas-enredos deveriam homenagear a história do país. Com algumas mudanças, muitos dos elementos incorporados ao Carnaval na Era Vargas estão presentes atualmente: “O Estado varguista buscava disciplinar as manifestações das camadas populares, com o objetivo de controlá-las. Os negros, por sua vez, buscavam trilhar caminhos de aceitação social. As escolas de samba surgiram como resultados dessa realidade, em que o interesse regulador do Estado vai ao encontro do desejo de aceitação das camadas populares. Dessa tensão e dessas intenções as escolas de samba se cristalizam como agremiações típicas do Car-

naval carioca” informa, Luiz Antonio, que atualmente é consultor da área de Carnaval do Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro. Além da história da cidade, o Carnaval está embrenhado na vida das pessoas que residem no Rio de Janeiro. No ponto de vista antropológico é possível dizer que o Carnaval ajuda a formar a personalidade coletiva do povo carioca. Há quem defenda que quem nasce no Rio de Janeiro nasce livre de preconceitos e dono de um espírito solidário, com facilidade para se relacionar com pessoas das mais variadas condições econômicas, raças, crenças ou cultura. O antropólogo Roberto da Matta, reforça esse ponto e frisa que o assunto renderia um livro: “O Carnaval é uma festa nacional que contribui muito para a formação do carioca, do brasileiro. É uma festa importantíssima para o processo de crescimento desse povo. O povo brasileiro e o Carnaval seguem crescendo juntos”

Um dos pontos dessa roupagem que a festa popular proporciona ao povo carioca é a questão dos conflitos socioeconômicos. Durante os dias de folia, enquanto os blocos e escolas de samba passam, as pessoas de todas as classes sociais se misturam. “O Carnaval é a festa das classes economicamente menos favorecidas, para usar esse termo que não é bom. Ele tem uma moldura francesa, vinda dos bailes de máscaras, mas no Brasil é uma festa popular. Do povo mesmo. Um senhor, nos anos 1970, acho que na Mangueira, quando eu estava colhendo um material de Fevereiro 2015

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pesquisa sobre o carnaval, me disse: ‘O Carnaval é uma festa que ajuda a nos tirar da tristeza. Que nos dá alegria depois de um ano de sofrimento’. O Carnaval é uma transformação. Uma inversão. As celebridades, que as pessoas assistem o ano todo, ficam nos camarotes assistindo essas pessoas desfilarem. O Carnaval é de todo mundo, todos participam. Por isso essa paixão” comenta Roberto, que emenda em seguida: “O Carnaval continua sendo um enigma: um grupo de pessoas que sofre ano inteiro, por uma série de motivos, realizar uma festa tão grandiosa é algo fantástico. Supõem que o povo brasileiro é desorganizado, mas durante o Carnaval conseguimos fazer uma festa extremamente organizada, capaz de encantar o mundo tudo. Encantar, inclusive, pessoas de países que funcionam melhor que o nosso.”

integrado à economia capitalista global. Refletindo esta nova realidade, o Carnaval carioca irá buscar, nos modelos parisienses, uma expressão que reflita os ideais burgueses de refinamento e integração com o mundo. Mas as novas ruas e praças do Rio de Janeiro, feitas para o flanar burguês, irão acolher, e mesmo impulsionar, um novo carnaval, de cunho popular, que se impõe. Os bailes, as mascaradas e os desfiles de alegorias da burguesia irão, no período carnavalesco, dividir as ruas do centro carioca com os cordões, os blocos, os cucumbis e os ranchos de acento eminentemente popular. Esta verdadeira batalha pelo domínio das ruas da região central do Rio de Janeiro e as mútuas influências sofridas por estes diferentes “carnavais” irão propiciar o surgimento de uma forma nova e singular de Carnaval que, em alguns anos, definiu interna-

Mexe na história, mexe na vida dos cariocas e mexe na paisagem da Cidade Maravilhosa. O Carnaval não para. De acordo com o estudo “Rio de Janeiro, 1850-1930: A Cidade e seu Carnaval”, do pesquisador Luiz Felipe Ferreira, o Rio sofreu profundas alterações físicas catapultadas pelo carnaval. E vice e versa: “As modificações sofridas pelo Carnaval carioca durante a segunda metade do século XIX e início do século XX estão estreitamente relacionadas com as transformações urbanas pelas quais passou o centro da cidade no período. De 1850 a 1930, o Rio de Janeiro deixa de ser uma acanhada cidade de feições coloniais para refletir, em seu espaço urbano, sua condição de capital de um país

cionalmente não somente a cidade do Rio de Janeiro, mas também todo o país.” Provavelmente, se essa relação entre as ruas do Rio de Janeiro e o Carnaval não fosse tão intensa, hoje em dia, ao andar pelo Centro da cidade, caminharíamos por um lugar com uma paisagem urbana bem diferente da atual. Economicamente o Carnaval do Rio de Janeiro é um sucesso. Dentro e fora da Sapucaí. Segundo dados do estudo “A Economia Criativa do Carnaval”, de Luiz Carlos Prestes Filho, no ano de 2000, a festa gerou receita de R$ 416,1 milhões, atraindo uma média de 310 mil turistas. No ano de 2006, com a mesma média de 310 mil turistas, o Carnaval movimentou R$ 665 mi-

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lhões. Em 2012, o Carnaval atraiu para o Rio de Janeiro 850 mil turistas, gerando o movimento de R$ 1.100 bilhão. Os números só aumentam. No Sambódromo, a arrecadação de bilheteria regularmente atinge R$ 63 milhões em apenas dois dias, com a venda de 70 mil ingressos para o desfile das escolas de samba do grupo especial. Nesta última década os dias de folia geraram todos os anos 264,5 mil postos de trabalho, para a execução de 470,3 mil tarefas. No ano de 2014, a Associação Brasileira dos Shoppings previu a contratação de 260 mil trabalhadores temporários para o Natal. O Carnaval gera mais empregos que o Natal. Considerando que o desemprego é um temor para qualquer sistema econômico, o Carnaval ganha ainda mais importância no real cenário carioca. Um desses empregos que ganham destaque durante o Carnaval é o de bordadeira. Uma profissão que em uma parte do ano passa despercebida ganha holofotes quando a festa popular se aproxima. As bordadeiras de Barra Mansa, sul do estado do Rio de Janeiro, sabem bem disso. O

grupo de mais ou menos 40 pessoas recebe um número acima da média de trabalho encomendado pelas escolas de samba do Rio. Esses pedidos começam a chegar a partir de agosto, ou seja, mais de seis meses antes da folia começar. Em média, essas pessoas ganham cerca de um salário mínimo por mês para bordar fantasias e bandeiras das escolas - a única renda certa no ano, já que como bordadores e bordadeiras dependem das cada vez mais escassas encomendas. Eduardo Marques, de 23 anos, que é bordador de Carnaval há dez anos, tem nesse trabalho uma possibilidade de ganhar “um extra”. Dinheiro que usa para pagar o curso de direito que está fazendo. “Nós recebemos pela nossa mão de obra. Eu tenho emprego fixo, mas que me ajuda bastante com meus estudos. Para muitas pessoas que fazem esse trabalho, muitas vezes, é o único dinheiro que recebem. Muita gente precisa mesmo disso, porque não é mais tão comum contratarem bordadeira ou bordador. O trabalho para o Carnaval aumenta sempre. A cada ano tem mais

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coisa para fazer. Esse ano estamos fazendo bordados em geral para diversas escolas de samba do Rio de Janeiro. Já fizemos para a Beija-Flor, também” diz Eduardo que aprendeu a bordar com a irmã mais velha e a tia, quando ele ainda era um adolescente. Cristiano Bara, chefe de alegoria e chefe de ateliê da Beija-Flor, coordena diretamente 29 funcionários. Ele destaca que além de contar com os serviços de profissionais externos - como no caso das bordadeiras de Barra Mansa -, a escola de Nilópolis também aumenta o contingente de trabalhadores para a área de costura no auge do processo de criação no barracão. Processo que é fundamental para a vida de muita gente: “Têm pessoas que trabalham comigo há 12 anos. A maioria delas só trabalha no carnaval. Eu mesmo só trabalho no carnaval. Muitas famílias são sustentadas só com o que se ganha nos meses de trabalho em que se dá o carnaval” disse Cristiano. Uma grande escola de carnaval, no auge dos trabalhos, emprega cerca de 300 pessoas. A economia gira quando uma escola de samba compra materiais para construir um carro alegórico. Um turista que deixa sua cidade, ou país, e se hospeda em um hotel para acompanhar os desfiles ou participar dos blocos, também participa do processo desse giro econômico. Quando um vendedor ambulante reforça seu estoque para suportar a elevação na demanda, quando grandes empresas montam camarotes na avenida para receber seus convidados e quando outros setores da sociedade se envolvem nos quatro dias de folia nota-se a cadeia produtiva do carnaval, que alavanca esse verdadeiro fenômeno econômico. Carlos Lessa, ex-presidente do BNDS (Banco Nacional do Desenvolvimento Social) ressalta a força econômica do carnaval, mas faz uma ressalva quanto à elitização da festa: “Há anúncios na Alemanha para vender lugar nas alas do Carnaval carioca. Isso modificou a festa, pois aumentou as cores e diminui o balanço. Muita gente que pode pagar não sabe dançar. Para suprir isso, as fantasias estão cada vez mais enfeitadas e coloridas. O povão, de modo geral, está ficando de fora das grandes escolas de samba. Com isso, eles vão migrando para escolas menores ou para 76

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os blocos de rua. Os desfiles das grandes escolas geram mais dinheiro que os blocos. Mas os blocos colocaram de volta o povo na festa. No ponto de vista econômico, os blocos de rua não são tão fortes. Nem tão organizados. A Beija-Flor faz com que Nilópolis, um município carente, que vive a atmosfera de uma grande escola, mas isso não é mais tão comum nas grandes agremiações. No entanto, no sentindo econômico, as escolas grandes ainda são importantes para o povo, principalmente devido à geração de empregos”, diz o economista, que fundou o bloco carnavalesco “Minerva Assanhada”. Apesar de haver alguma discordância, para muitos analistas o carnaval é a data comemorativa mais lucrativa do Brasil, superando - além do Natal - a Páscoa, o Dia das Mães, dos Pais, das Crianças e o Réveillon. Como era de se esperar, no período de folia, a demanda por serviços de turismo cresce vertiginosamente. De acordo com o Ministério do Turismo, o Carnaval 2013 gerou 6,2 milhões de viagens dentro do país, alcançando uma movimentação financeira de R$ 5,7 bilhões, algo em torno de 2,5% a 3% do faturamento previsto para o setor naquele ano. Só o Rio de Janeiro recebeu 900 mil turistas, brasileiros ou estrangeiros. Um levantamento feito pela Riotur em parceria com a secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado aponta que em 2014, o Carnaval movimentou cerca de R$ 2,270 bilhões, dos quais aproximadamente R$ 1,790 bilhão foram provenientes do turismo. O restante foi oriundo dos investimentos das escolas de samba, eventos paralelos, decoração e organização de blocos de rua. Em 2014 foram 920 mil turistas no Rio de Janeiro. A expectativa para 2015 é de que todos esses números subam ainda mais. Embora o sucesso turístico do Carnaval seja evidente, o Ministério do Turismo tem planos ainda mais ambiciosos. Em 2013 foi realizada em Brasília uma reunião para discutir formas de fazer com que o Carnaval se torne um produto turístico capaz de encantar turistas e gerar emprego e renda durante todo o ano para as comunidades envolvidas com a festa. Nesse ano em que a cidade do Rio de Janeiro comemora 450 verões, a festa mais popular do planeta não pode ficar fora dessa folia. O desejo é sempre que a Cidade Maravilhosa siga evoluindo e que o Carnaval acompanhe esse bloco. Afinal, sempre há o que melhorar e essa dupla antiga de farra sabe bem como se adaptar e superar as adversidades do caminho. www.beija-flor.com.br


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RICARDO DA FONSECA

Nunca é demais falar de boas iniciativas que visam o crescimento das pessoas. Se nunca é demais falar, pôr em prática esse tipo de ação é ainda mais importante. E é isso que a Beija-Flor faz em Nilópolis. Com todo o apoio e interesse de seu patrono, Anizio Abrão David, a Deusa da Passarela executa todos os dias ações sociais que modificam para melhor a vida de muitas pessoas deste município da Baixada Fluminense.

CRECHE JULIA ABRÃO

Cerca de 170 crianças de seis meses a seis anos estão matriculadas (gratuitamente) atualmente na Creche Julia Abrão David. São 20 funcionários – entre professoras, babás, porteiros e cozinheiras – que conhecem todas as crianças pelo nome. O serviço prestado por essa creche age diretamente para o crescimento da cidade de Nilópolis,

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pois, uma vez que os pais sabem que os filhos estão sendo bem tratados, trabalham com mais tranquilidade e produzem mais e melhor em seus respectivos empregos. Somente famílias com renda abaixo de três salários mínimos podem matricular crianças na instituição. Carinho é o que não falta na Creche Julia Abrão David, que foi fundada em 1980, como Creche Beija-Flor, mas que mudou de nome para homenagear a mãe do patrono da escola de samba de Nilópolis. As crianças, que ficam o dia inteiro no local, têm alimentação, banho, hora de estudar, de brincar e até para descansar. “Quando a criança chega aqui pela manhã, nós damos um banho, independentemente de ter tomado banho em casa. Colocamos um uniforme nela e ela vai para as atividades do dia-dia. Aí, elas aprendem e interagem com as outras crianças” conta Maria de Lourdes, diretora da creche e do Educandário Abrão David. Caminhar pelas dependências da creche é esbar-

rar em alegria. Os pequenos estão sempre sorrindo, dispostos a dar carinho e afeto, como se estivessem retribuindo tudo o que recebem ao longo do ano, todos os dias. E haja pique para acompanhar o ritmo da criançada. Pique que as pessoas que trabalham na creche, têm de sobra. A chefe da cozinha, Maria Lucia Ferreira, e sua assistente, Adriana da Costa, trabalham com um sorriso no rosto enquanto prearam o almoço das crianças da creche e do Educandário. Elas cozinham para as 170 crianças da creche e para as 740 do Educandário sem perder a simpatia e o bom humor: “Somos nós duas para esse

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monte de criança, mas não tem problema, nem dificuldade. Fazemos com amor sempre” sorri Maria Lucia enquanto mexe uma panela enorme de feijão. “Eu gosto daqui. A gente brinca, estuda, descansa e se diverte” diz o pequeno Gabriel, de cinco anos, deitado depois do almoço.

EDUCANDÁRIO ABRÃO DAVID

Fundando em 1987 com o intuito de dar continuidade ao trabalho da Creche, o Educandário Abrão David vem cumprindo esse papel com êxito. Atualmente são 740 alunos que têm entre sete e dezesseis anos e estudam até o nono ano do ensino fundamental, sem pagar mensalidade

e recebendo um ensino de muita qualidade. Maria de Lourdes aponta muitos diferencias do educandário em relação ao ensino dado nos colégios públicos de Nilópolis, mas um é mais simbólico: “Aqui no educandário não tem aprovação automática. O aluno só passa se souber a matéria” afirma Maria. 80

Para o aluno aprender é preciso ter bons professores e isso há no Educandário. Esse é o caso de Rosemary Vianna, que é muito querida pelos alunos, o que não é uma exclusividade dela: “Gosto da professora Rose e de todas as outras. Estudar aqui é muito legal” conta Bruna. O ensino do Educandário é de fato muito bom. A instituição atrai pais de alunos de outros municípios da Baixada Fluminense. Por questão de espaço não é possível matricular todos, porém, Maria de Lourdes revela que às vezes abre umas exceções: “Muitas vezes vem o pai, a mãe, a criança e todos pedem, até choram, para estudar aqui. Aí, mesmo com as turmas formadas, eu, quando posso, ajudo. Não resisto e ajudo” pontua.


O Educandário é referência de ensino. Como a Revista da Beija-Flor mostrou na edição de 2014, muitos alunos formados na instituição hoje são pessoas bem sucedidas no mercado de trabalho. Contadores, engenheiros químicos, professores e outras profissionais de áreas de extrema importância para a sociedade, fizeram o ensino fundamental no Educandário Abrão David e agradecem por isso.

CAC

Para completar o trabalho feito na creche e no educandário, o Centro de Atendimento Comunitário Nelson Abrão David, conhecido como CAC, foi fundado por Anizio Abrão David e seu Irmão Nelson em 1991. O CAC oferece diversos cursos profissionalizantes para jovens e adultos de Nilópolis e adjacências. Em parceria com o Sesi, cursos de informática, guia turístico, matemática, técnicas de redação entre outros foram realizados pelo CAC em Nilópolis, colocando jovens mais preparados no mercado de trabalho.

passistas, mestre-sala e porta-bandeira mirins. Crianças e jovens de Nilópolis são os principais beneficiados por esse trabalho.

JIU-JITSU

Alunos matriculados: 100. As aulas acontecem desde: 2000. Resumo: coordenado pelo professor Elan Santiago o projeto que tem como principal meta ajudar as crianças de Nilópolis e adjacências a praticar esportes já obteve expressivos resultados. Em 2009, a equipe de jiu-jitsu da Beija-Flor disputou os campeonatos brasileiro e o estadual, além da competição organizada pelo atleta Raphael Abi-Rihan. No brasileiro, a equipe da Beija-Flor foi representada por 24 atletas, que conquistaram sete medalhas de ouro, doze de prata e uma de bronze, conquistando o 3º lugar por equipe. No campeonato estadual, 26 atletas nossos participaram levando para casa nove medalhas de ouro, três de prata e três de bronze, conquistando o 3º lugar por equipe. Na

PROJETO SONHO DE UM BEIJA-FLOR

Outra atividade realizada pela Beija-Flor de Nilópolis é o projeto Sonho de um Beija-Flor. A iniciativa consiste em aulas de diversas modalidades esportivas como: Jiu-Jitsu, futebol, natação e dança. Além dos ensinamentos de samba passados para a bateria,

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competição organizada pelo Raphael, filho do nosso amigo Hilton Abi-Rihan, conquistamos doze medalhas de ouro, oito de prata e cinco de bronze, com a participação de 38 atletas. Novidades: a farmácia de manipulação Analítica doou quimonos para as crianças que participam do projeto. Recentemente, o lutador Toquinho visitou os treinos e fez a alegria da criançada.

BALÉ

Alunos matriculados: 100 As aulas acontecem desde: 2001 Resumo: Ghislaine Cavalcanti, coreógrafa profissional, coordena o “Aprendendo com o balé”, que inclui as aulas de balé clássico, jazz e sapateado. Alunos, que têm entre 5 e 17 anos, aprendem um pouco mais sobre a história da dança e com a prática adquirem disciplina e concentração. Novidades: como de costume, os alunos do projeto são frequentemente convidados para participar de importantes festivais de dança, como o tradicional evento que acontece todos os anos em Joinville, Santa Catarina.

GINÁSTICA

Alunos matriculados: 280 As aulas acontecem desde: 2003 Resumo: o programa Vivabem é um projeto que orienta atividades físicas, recreativas e culturais para adultos e idosos, possui nove anos de existência em Nilópolis, sendo criado e orientado pela professora de educação física Mari Tania Bedin. Contando sempre com o apoio da família Abrão David, o projeto passou desde janeiro de 2013, a realizar suas atividades físicas na quadra da Beija-Flor de Nilópolis. Novidades: além das atividades físicas e recreativas, os eventos culturais também fazem parte do programa Vivabem, como comemoração dos aniversariantes do mês, passeios, bingo em homenagem as mães, festas juninas internas e externas, baile dos anos 60,70,80 e confraternizações em geral.

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Projeto Zico 10 Polo Beija Flor de Nilópolis

Alunos matriculados: 100. As aulas acontecem desde: março de 2014. Resumo: em parceria com o projeto Zico 10, a Beija-Flor de Nilópolis promove desde o início de 2014 atividades esportivas para crianças e adultos com deficiências intelectuais. De todos os núcleos do Zico 10, esse é o único voltado para pessoas com deficiências. Nas dependên-


cias da Deusa da Passarela, eles podem treinar futsal e natação, além de competirem em outras modalidades esportivas. Júnior Barata e Thatiane Barboza coordenam os trabalhos. Novidades: durante o funcionamento do projeto, duas competições já foram disputadas: a primeira do Joabeni, organizada pela APAE de Nova Iguaçu, no qual seis medalhas de ouro e quatro de prata foram conquistadas. Além da OLIMPEDE, uma competição realizada na cidade de Volta Redonda. Nessa disputa, os atletas viajam e ficam hospedados na cidade por três dias. Para essa competição, uma delegação de 25 alunos foi levada, com a supervisão de seis professores. Quatro medalhas de ouro, quatro de prata e quatro de bronze foram conquistadas, nas modalidades de arremesso de peso, corrida de 100 metros, caminhada de 25 metros, lançamento de pelota e salto em distância.

CRECHE JÚLIA ABRÃO DAVID Rua Mário Valadares, 20 Bairro de Novo Horizonte, Nilópolis Turmas: Berçário - dos seis meses aos três anos de idade Jardim I - três e quatro anos de idade Jardim II - quatro a seis anos de idade

EDUCANDÁRIO ABRÃO DAVID Equipe: Nutricionistas e Professoras Cozinheiras e Auxiliares de cozinha Faxineiras e lavadeiras Atendentes e auxiliar de serviços gerais Motorista e vigias

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“O projeto Zico 10 é voltado à dar oportunidades às crianças que, por conta de limitações financeiras, não têm chance de praticar esportes. A intenção principal não é formar jogadores de futebol e sim, cidadãos. Quem forma jogadores são os clubes. Obvio que podem surgir talentos nesses projetos, o Brasil é um celeiro de craques. Mas o nosso foco principal é o social, a cidadania. Isso é o que mais nos interessa nessas iniciativas. Sobre o projeto Zico 10 na Beija-Flor que é voltado para pessoas com deficiências intelectuais, nós temos uma equipe que analisa as localidades para entrarmos com os projetos. Não adianta realizarmos uma iniciativa dessas em um local sem estrutura e sem profissionais qualificados para essa função. Precisamos de uma infraestrutura organizada, e foi o que encontramos aqui. A Beija-Flor junto com a equipe que montamos está realizando esse trabalho maravilhoso que ajuda muita gente e vem obtendo grandes resultados. O sentimento que fica é sempre o de satisfação e felicidade por ver que as iniciativas geram bons frutos.”

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“Mas renova-se a esperança, nova aurora a cada dia. E há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto”. Milton Nascimento

Os versos de Milton de Nascimento, da canção Coração de Estudante, poderiam ser ritmados com muito sentido pela atual bateria da Beija-Flor. Isso porque cerca de 70% dos membros da “Trovão Azul” são crianças, adolescentes e jovens de Nilópolis. Garotada oriunda do projeto social Sonho de um Beija-Flor. Mestre Rodney, que ao lado de Mestre Plínio coordena as atividades da bateria da agremiação, explica como se deu essa renovação: “Começamos em 2010. Plínio e eu assumimos os trabalhos e o Laíla, que idealizou essa nova filosofia de investir na prata da casa, nos pediu para que iniciássemos esse processo de incluir a garotada da comunidade. Muita gente falava que em Nilópolis não havia ritmistas. Estamos provando que temos — muito bons. Através do projeto Sonho de um Beija-Flor, colocamos a bateria mirim para funcionar melhor e os garotos já passaram a tocar nos carnavais seguintes a implantação dessa nova política. Foi uma mudança em curto prazo que deu e vem dando muito certo”. Se no futebol reclama-se da falta de amor à camisa, no Carnaval o sentimento é outro. “A molecada que chegou para a bateria toca com muita vontade. Faz com prazer. Isso só pode gerar bons resultados. Eles dão tudo pela escola” fala com entusiasmo Mestre Rodney. No carnaval, cada bateria de escola de samba tem um apelido e muitas delas características próprias. A da Azul e Branco de Nilópolis, co88

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nhecida como Trovão Azul, carrega uma chuva de adjetivos pontuados por Rodney: “Com todo respeito às outras escolas, mas a bateria da Beija-Flor causa um impacto diferente. Essa qualidade cresceu muito com essas novas medidas implantadas, como a chegada dos garotos novos. Todo mundo conhece a bateria da Beija-Flor quando ela entra na avenida. Temos uma afinação especial, um equilíbrio, uma organização. É a cara da escola”. Laíla, diretor de harmonia e de Carnaval da agremiação, frequentemente elogia a Trovão Azul: “Eu tenho uma bateria formada há menos de cinco anos e só com molecada da comunidade. Os moleques são fantásticos. Tocam demais. Saíram no enredo do Roberto, foram campeões, e em 2013, com o Mangalarga Marchador, sustentaram o vice-campeonato. Tocam com amor. Parecem que vão comer o instrumento” disse com entusiasmo.

Projeto sonho de um Beija-Flor

É cuidando do broto que a agremiação de Nilópolis colhe flores e frutos. Essa preocupação com o futuro da escola, do Carnaval e da comunidade, é que motiva a Beija-Flor a realizar esse trabalho de base com as crianças e jovens da região. O projeto Sonho de um Beija-Flor conta com atividades de bateria, passista, mestre-sala e porta-bandeira mirins, tem a parwww.beija-flor.com.br


ticipação de cerca de 220 jovens e crianças, com resultados muito positivos. Selminha Sorriso, que coordena com Claudinho o projeto para desenvolvimento de passistas, mestre-sala e porta-bandeira, aponta que além do aprendizado para o mundo do samba, os jovens e crianças da Beija-Flor saem do projeto mais bem preparados para encarar o cada vez mais competitivo “mundo real”. “Eles aprendem a interagir, a dividir, aprendem a viver em comunidade, ou seja, em sociedade. Aprendem a ter disciplina, respeitar hierarquia, respeitar as pessoas, qualquer pessoa”. Claudinho vai mais longe e diz que as iniciativas do projeto fazem com que as crianças apontem seus olhares para um futuro melhor. Segundo o Mestre-Sala: “Temos um futuro longo de comunidade, graças a esse tipo de iniciativa. O trabalho já nos rendeu e continuará rendendo

grandes frutos. Não somente para a agremiação, mas para as crianças, porque adquirem uma capacitação que será útil a elas também no futuro” frisou. O Carnaval não para na avenida ou nos blocos de rua. Ele se faz presente nas rodas de samba e nos encontros informais entre amigos ao longo dos 365 dias do ano, atuando como um instrumento que leva alegria e diversão ao povo de todas as camadas sociais e econômicas. Pensar, então, em oferecer ao povo - dessa e das próximas gerações - um espetáculo artístico tão rico e animado, significa investir no despertar e aprimoramento de habilidades muitas vezes adormecidas em jovens e crianças das comunidades que têm o samba correndo em suas veias. Como diz o cancioneiro, “E há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto”. Fevereiro 2015

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Luiz Antônio Gouveia

O tema da Economia Criativa vem chamando a atenção de empreendedores, governos e pesquisadores em todo o mundo devido aos altos índices de crescimento que os setores criativos têm apresentado nos últimos vinte anos quando comparados aos índices de crescimento de outros setores econômicos. Além disso, tem-se observado que a renda média gerada pelos negócios da Economia Criativa se eleva acima da renda média de outros segmentos econômicos, e os governos de diversos países têm estimulado atividades econômicas criativas com objetivo de promover a inclusão social e econômica em cidades e regiões mais pobres. Mas o que vem a ser de fato esta tal de “Economia Criativa”? Existem diferentes entendimentos a respeito do tema. Em sentido amplo, a economia criativa é, predominantemente, a economia do intangível, do simbólico. Ela se alimenta do talento e da criatividade do ser humano para produzir bens e serviços de alto valor agregado. Do ponto de vista de políticas públicas, no Brasil a Economia Criativa compreende os setores cujas atividades produtivas têm como processo principal um ato criativo gerador de um produto – bem ou serviço – cuja dimensão simbólica é determinante do seu 90

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valor, resultando em produção de riqueza cultural, econômica e social para o país. Assim, a Economia Criativa trata da produção e do consumo de bens e serviços das mais variadas expressões artísticas – música, teatro, cinema, dança, artes plásticas, literatura etc. – e de atividades de conteúdo cultural como o design, os jogos eletrônicos, a moda, a arquitetura e as festas populares. E em se tratando de diversidade cultural nosso país é de uma riqueza sem igual. Do artesanato marajoara às danças folclóricas do sul, a multiplicidade de cores, texturas, sons e sabores faz da cultura brasileira uma experiência exuberante em todos os sentidos. No entanto, uma manifestação cultural em especial liga o brasileiro de norte a sul: o carnaval. Para além de patrimônio da cultura nacional, o Carnaval pode ser compreendido também como uma atividade criativa que movimenta grandes volumes de recursos financeiros, gera ocupação e renda e promove a exportação da nossa música, da nossa dança, do nosso cinema e até de produtos de outros setores, como vestuário, calçados e acessórios. Dentre todos os carnavais de norte a sul do Brasil, o do Rio de Janeiro é o mais expressivo, seja do www.beija-flor.com.br


ponto de vista de popularidade, audiência (local e internacional) ou econômico. De fato, os números decorrentes da economia do Carnaval carioca são impressionantes. De acordo com estimativas da Riotur e da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado do Rio de Janeiro, em 2014 o Carnaval carioca movimentou cerca de US$ 950 milhões (o equivalente a R$ 2,47 bilhões pelo câmbio atual). Deste montante, US$ 750 milhões foram gerados pelas atividades turísticas, e o restante referiu-se aos investimentos em escolas de samba, eventos paralelos, decoração e organização de blocos de rua. Os festejos mominos de 2014 atraíram quase 1 milhão de turistas à capital fluminense e geraram 250 mil novos postos de trabalho. O núcleo desta economia reúne as atividades econômicas relacionadas aos desfiles das escolas de samba do grupo especial e dos grupos A, B, C, D e E. As escolas de samba do grupo especial, por exemplo, têm orçamentos que variam de US$ 3,5 milhões a US$ 7 milhões. Entretanto, a cadeia produtiva do Carnaval inclui diversas outras atividades econômicas, desde a produção e comercialização de matérias-primas para fantasias, adereços e carros alegóricos até a prestação de serviços de iluminação, sonorização, segurança, limpeza, alimentação e transporte durante os desfiles. Acrescente-se, também, os negócios de produção e difusão fonográfica (gravação e radiodifusão de CDs de sambas-enredos) e de transmissão televisiva dos desfiles de carnaval. Observam-se, no entanto, algumas fragilidades na cadeia produtiva do carnaval. As ocupações geradas, por exemplo são, em grande parte, informais e de curto prazo – em torno de 4 meses. Mesmo nas atividades que se beneficiam de forma indireta do carnaval, relacionadas ao turismo e ao entretenimento, as ocupações informais representam mais de 40% do total, com exceção do segmento de transportes. Por outro lado, o acesso a recursos financeiros para investimento e capital de giro é restrito e de alto custo. E a gestão e a força de trabalho dos empreendimentos carnavalescos ainda carecem de melhor qualificação. Para além destas limitações, o grande desafio que se impõe ao fortalecimento da cadeia produtiva do Carnaval no Rio de Janeiro é o de diminuir o efeito sazonalidade e gerar negócios rentáveis ao longo do ano. E o primeiro passo em direção a isto

é tornar o espetáculo do Carnaval uma indústria criativa de fato. Uma estratégia possível seria estabelecer uma parceria muito estreita entre os agentes econômicos diretamente relacionados à atividade carnavalesca – as escolas de samba – e grandes operadoras internacionais de turismo com o objetivo de gerar um fluxo contínuo de turistas estrangeiros dispostos a viver a “experiência do carnaval” – em qualquer época do ano e ainda que em escala reduzida – na cidade ícone dessa manifestação cultural. Obviamente, tornar o espetáculo do Carnaval uma indústria criativa de fato requer um conjunto de iniciativas fundamentais de responsabilidade tanto do Estado quanto da iniciativa privada, tais como: melhorar o nível de profissionalização da gestão e dos trabalhadores das atividades econômicas que compõem o núcleo da cadeia produtiva; atrair investimentos públicos e privados em infraestrutura necessária às atividades carnavalescas; promover a inovação tecnológica e, ao mesmo tempo, garantir a preservação das raízes culturais do carnaval; viabilizar o acesso dos empreendimentos carnavalescos a linhas de crédito subsidiadas; dentre outras medidas. Enfim, é sabido que o Carnaval e as atividades culturais relacionadas ao samba geram efeitos multiplicadores muito mais amplos do que aqueles diretamente relacionados à produção e organização do evento anual. Portanto, considerar o espetáculo carnavalesco como uma indústria criativa de padrão mundial pode ser a estratégia de mais curto prazo para realizar todo o potencial econômico que esta manifestação cultural possui. ___________ Luiz Antônio Gouveia é economista e mestre em Administração. É, ainda, analista de planejamento do IBGE. Entre 2011 e 2014, ocupou o cargo de Diretor na Secretaria da Economia Criativa do Ministério da Cultura. Atualmente, ocupa o cargo de Assessor de Gestão Estratégica na Secretaria Executiva do Ministério da Cultura. Fevereiro 2015

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PAULO SENISE

“Faça seriamente as coisas frívolas, alegremente as coisas sérias”. Montesquieu filósofo francês do século XVII.

Parodiando o ditado popular (farinha do mesmo saco) poderíamos perguntar: o Carnaval e o Turismo são confete do mesmo saco? Resposta: sim. Porque ambos são atividades socioeconômicas das quais participam o estado e a iniciativa privada, voltadas para o lazer em movimento e para a vertigem de interromper o dia-a-dia e “olhar pelo buraco da fechadura” um outro mundo. Um e outro, a seu modo, contribuem para o crescimento da sociedade porque ensinam, divertem, repartem emprego e renda, tanto individualmente quanto para as empresas de pequeno e grande porte que os apoiam, bem como para toda a cadeia produtiva da mídia. No Carnaval, sobretudo o do Rio, este outro mundo começa a ser produzido um ano antes, pelo menos, com a escolha do samba-enredo, a pedra de sustentação da parada de rua, hoje exibida no asfalto da Sapucaí. Seguem-se as escolhas das alegorias, da bateria, da Comissão de Frente, das fantasias, Porta-Bandeira, Mestre-Sala e passistas; uma mistura de componentes, custos e timing, cuja boa administração vai determinar o sucesso e a premiação na quarta e quinta-feira seguintes ao desfile. 92

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No entanto, como diria Caetano Veloso, “ou não”. Porque contrariamente ao turismo, o desfile é altamente competitivo, e seu sucesso não depende unicamente de se seguir uma receita pronta. Há fatores que fogem do controle administrativo e o imprevisível pode ser determinante. Desde os seus barracões até a divulgação antecipada do seu hino, tudo é julgado e comparado com as outras agremiações. No Turismo nem tanto; a competição não é um duelo: é uma escala de qualidade e bons serviços. A palavra turismo deriva de “fazer um tour” e o registro de sua primeira iniciativa coordenada remonta à Inglaterra do século XIX. Surgiu como parceria entre uma política de estado - com o objetivo de proporcionar aos jovens aristocratas a vivência de outros lugares e países que eles só conheciam pelos livros - e a talvez pioneira agência de turismo inglesa, a Vagons-lit Cook que, obviamente, oferecia transporte por trem, fundada por Thomas Cook & Sons. Hoje, o turismo movimenta milhares de pessoas se deslocando individualmente, em pequenos grupos, ou em caravanas gigantes como acontece nos cruzeiros marítimos, em congressos e sewww.beija-flor.com.br


minários de empresas, em busca de sol ou neve, luz ou sombra, diversão ou quietude. O turismo tem no carnaval seu grande aliado como gerador de demanda com importante impacto econômico no setor. Ao revelar para o mundo episódios da rica história do Brasil, esse majestoso espetáculo, considerado o maior show a céu aberto, desperta curiosidade e fascínio nas pessoas de toda parte que nos visitam e querem ver de perto o que é tão bem narrado pelas agremiações. E nesses dias brilham igualmente a capital e o interior do Estado do Rio de Janeiro. A Beija-Flor, jóia de Nilópolis, na Baixada Fluminense, é o exemplo perfeito. Destaca-se, ainda, a importância dos meios de comunicação tanto para o carnaval quanto para o turismo. Já no início do século XIX os principais jornais do país, notadamente o Jornal do Brasil abriam espaço para a verdadeira batalha travada entre o antigo Entrudo e o desfile das Sociedades Carnavalescas. O JB, por exemplo, dedicava a partir de novembro uma seção para descrever as músicas que iriam estourar nas rádios, com comentaristas cada vez mais especializados. As revistas de maior tiragem, como O Cruzeiro e, depois, a Manchete, davam primeira página e numeroso “miolo” a cores. Na primeira década do século XX, surgiram os desfiles de fantasia dentro dos salões dos melhores hotéis e clubes, com concursos com presença expressiva da imprensa e a eleição da Rainha do Carnaval de cada ano. Depois, já na década de 1950, a explosão da popularidade do Carnaval “vazou“ para novos espaços de apresentações carnavalescas. Quadras de ensaio, blocos de rua e finalmente chegando à avenida! E a partir da década de 1970, a televisão globalizou o tema Carnaval: entrevistas, descrições das fantasias e temas-enredo e, por fim, o espetáculo de cor, ritmo, energia e plástica dos corpos. Os últimos tempos, já com a presença da internet e das mídias sociais são conhecidos e não carecem de comentários – “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Por tudo isso, é muito bem-vinda a revista “Beija-Flor de Nilópolis - Uma Escola de Vida” - que este ano completa 14 edições de vitorioso e ininterrupto sucesso como intérprete de um projeto interativo de comunicação, em prol do carnaval e do turismo, que nasce antes e se estende bem além do Carnaval.

E conforme afirmam os seus editores Ricardo Da Fonseca e Hilton Abi-Rihan, “todo esse apoio nos envaidece e enche de orgulho, porque evidencia que a proposta de focar na valorização do samba carioca e da agremiação nilopolitana e no espetáculo de cores e sons realizado na cidade do Rio de Janeiro, como mais uma demonstração de excelência e VOCAÇÃO TURÍSTICA da região, estão dando resultados”. E concluem: “essa é a política que nos norteia fazer uma publicação não descartável.” Em tempos de constantes mudanças não é pouco sobreviver 14 anos. E, provavelmente, uma das receitas dessa longevidade é o equilíbrio editorial, calibrando o conteúdo jornalístico, a riqueza das imagens e os depoimentos pertinentes.

E atrás de tudo isso está sempre a Agremiação, que além de sua função precípua de provedora de uma Escola de Samba, desenvolve um interessante lado social através dos serviços de Creche, do Educandário e do CAC, um exemplo para as demais agremiações. Que a marca da Beija-Flor tão presente na Revista brilhe como sempre iluminando a avenida.

___________ Paulo Senise é graduado em Hotelaria e Turismo pela Faculdade de Turismo Centro Unificado Profissional no Rio de Janeiro com especialização em Gestão de Investimento e Financiamento em Hotelaria pela Universidade de Cornell – Distrito de Ithaca, Nova Iorque, EUA. Fevereiro 2015

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MIRO LOPES

ALUISiO MACHADO

VILMA NASCIMENTO

“Chega como eu cheguei, pisa como eu pisei, no chão que me consagrou”, com essa reverência estampada na camiseta, o compositor e sambista Aluísio Machado recebe amigos, fãs e público, em seu Império Serrano, onde aos 14 anos, chegou, pisou, desfilou, começou como compositor e se consagrou. Com 75 anos, Aluísio não para. Constantemente na ponte-aérea, é presença especial no Sambokas Bar, Traço de União e outros redutos paulistas do gênero. Ano passado, a ViraLata produziu o documentário “O famoso Aluísio Machado”. É o Cidadão Samba 2015, promoção do jornal Extra (RJ), eleito por dezenas de milhares de internautas. Dia três de abril, quando aniversaria, o sambista lançará um novo CD e uma biografia: “Aluisio Machado, sambista fato, rebelde por direito” escrita por Luís Carlos Leitão. Integrante da ala dos compositores do Império Serrano, Aluísio se transformou num dos baluartes do samba e do carnaval. Audacioso, criativo e inspirado na onomatopeia da batida do samba-enredo, Aluisio Machado compôs, com Beto Sem Braço, o samba para o enredo Candelária, Praça XV e Marquês de ‘Sapecaí’, que deu o primeiro lugar do Grupo 1A ao Império Serrano em 1982. Não era um samba fácil e, mesmo assim, fez sucesso e ganhou o “Estandarte de Ouro”. Além desse, outros estandartes dourados foram brilhar na sua galeria.

Ao longo de 15 anos, Vilma Nascimento deu autenticidade à lenda de ser o que todos até hoje afirmam: a melhor porta-bandeira de todos os tempos. Outras existiram? Outras virão? Provavelmente. Mas “Cisne da passarela” só há uma. Vilma é única. Foram 12 títulos defendendo o pavilhão da Águia no Carnaval carioca, após o que, entregou a bandeira para Irene e passou a destaque da Portela. Detentora de cinco Estandartes de Ouro, um como personalidade (1990) e o último em 82 quando a União na Ilha homenageou a Águia, Vilma voltou a mostrar sua arte, no asfalto, com o eterno parceiro Benício, num bailado encantador e de estilo inigualável. Lenda que se preza, vai mais fundo no tempo: com apenas 16 anos, Vilma já pontificava na noite carioca, no palco da boate Nitgh and Day, colorindo o espetáculo “Esta vida é um Carnaval” de Carlos Machado, apresentando a bandeira da Portela. O presidente Natal foi tirar satisfação, se encantou com o que viu e perguntou: “Quer ser porta-bandeira da Portela?” A jovem declinou do convite porque defendia o pavilhão da Unidos de Vaz Lobo. Se lenda precisa de um final feliz, o destino providenciou: paquerada por um estudante de Engenharia, que pegou literalmente andando o bonde em que linda morena retornava para casa, logo, Vilma e Natal se viram novamente frente a frente, quando Mazinho (Osmar José Nascimento), filho mais velho do patrono da Águia de Madureira, apresentou a namorada ao pai. Este não perdeu tempo: “Agora,

rebelde por direito

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O cisne da passarela

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você já pode ser a porta-bandeira da Portela”. Em 1956, Vilma Nascimento começa a riscar no asfalto um período de glórias na escola. E como cisne, a porta-bandeira fez da Portela o lago azul que passou na sua vida e se deixou levar pela magia do seu bailado. O que faz a verdadeira lenda, senão superar a imaginação?

ATAULPHO ALVES JR Samba com “Mais amor”

Se há uma afirmação sacramentada pela hereditariedade e pelo comprovado talento a que Ataulpho Alves Jr. faz jus esta é “O herdeiro sou eu”. Fato era, virou música e sucesso. A distinção de herdeiro de Ataulfo Alves, com quem trabalhou nos anos 60, ele recebeu como uma graça do saudoso pai, em vida, quando lhe entregou o tradicional lenço branco – marca registrada – com um pedido: Toma o lenço meu filho e vai defender o que é nosso, de geração a geração. Com esse aval e mais 50 anos de carreira e sucessos dedicados à MPB, Ataulpho Alves Jr. se apresenta regularmente na gafieira Terra da Garoa, em São Paulo, com o show renovado pelas composições do novo CD “Mais Amor”, que acaba de sair do forno. No seu canto sem fronteiras, Ataulfo Jr. faz uma retrospectiva de seus sucessos, e também lembra os

mestres Cartola, Monsueto, Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, Noel Rosa, Ismael Silva, Zé Ketty, Billy Blanco e obviamente Ataulfo Alves. No seu incansável compromisso assumido com pai, conta nas escolas a história dos nossos grandes compositores da MPB e ilustra com músicas dos homenageados. É também para o público escolar o projeto “Chorando e Valseando na Escolas”, contando a história chorões, com valsas e chorinhos apresentadas pelo quinteto Ataulpho. Em abril, o sambista leva seu samba a Manaus, onde faz show de 16 a 25; e a partir de dois de maio faz o circuito mineiro: Miraí, terra do Ataulfo pai, Cataguases, Leopoldina e Tebas.

TIBÉRIO GASPAR arte e requinte

Tibério Gaspar, poeta, compositor, radialista, diretor e produtor musical, compôs cerca de 300 músicas. A primeira foi “Caminhada”, em parceria com Antonio Adolfo em 1967. Em novembro passado, lançou seu novo CD no Programa do Jô. Ao mesmo tempo Tibério Gaspar se apresenta regularmente por todo o Brasil com seu trabalho na música. Além da fértil e talentosa parceria com Adolfo, que resultou em inquestionáveis sucessos como “Sá Marina”, “Juliana”, “Teletema”, “Companheiro” e outras. Tibério tem entre os principais parceiros, os músicos Durval Ferreira, Nonato Buzar, Erlon Chaves e muitos outros. No Brasil, suas canções ganharam voz e gravações de Wilson Simonal, Elis Regina, Tim Maia, Erasmo Carlos e tantos outros nomes. No exterior, foram gravadas por ninguém menos do que Stevie Wonder. Fevereiro 2015

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Em 2005 representou o Brasil no Festival Internacional de Viña del Mar com sua música “Matilde” interpretada por Cristina Conrado. Depois Tibério Gaspar escreveu onze músicas em parceria com Antônio Adolfo compondo o CD Destiny lançado pela gravadora inglesa Far Out por toda Europa e Japão. Entre 2007 e 2008 apresentou o programa “No ar com Tibério Gaspar”, na rádio Roquete Pinto. Foi também Gestor Cultural da Ilha de Paquetá pelo período de dois anos. De 2011 a 2013 trabalhou na Representação Regional do Ministério da Cultura RJ/ES. Neste ano, foi eleito membro da Academia de Artes, Ciências e Letras da Ilha de Paquetá para ocupar a cadeira do poeta Orestes Barbosa.

Quilombo, do Instituto de Pesquisa de Cultura Negra e do Centro Cultural Pequena África. “Hilton Abi-Rihan me levou para o rádio. Credenciou a mim, Jorge Coutinho e Manuel Alves para cobrir o Carnaval para Continental. Depois, fui para a Roquete Pinto, onde conheci Nelsinho então presidente da Beija-Flor. Ele e Anizio queriam uma Beija-Flor cada vez mais forte. Quando Anízio assumiu disse: ‘Vou fazer da Beija-Flor uma grande escola’. E fez. Logo depois, o mesmo Abi-Rihan me levou para a Nacional-Rio, onde estou há 35 anos, agora com o Papo do Confete” disse Rubem Confete com bastante gratidão. Rubem integrou as alas de Compositores da Império da Tijuca e Imperatriz Leopoldinense. Foi autor do enredo “Uma certa negra fulô” para a Camisa Verde e Branco, vencedora da Carnaval paulista de 1973. A deficiência visual o tirou da passarela e Rubem desfilou pela última vez, como “Dom Obá II, o Rei dos Esfarrapados, o Príncipe do Povo”, em 2000, pela Mangueira. É casado com a jornalista Zélia Confete.

JORGINHO DO IMPÉRIO

Alegre, sorrindo e cantando Jorginho do Império dispensaria apresentação, não

RUBEM CONFETE Dom Obá II, o Príncipe do Povo

Quem é Confete? É contrassenso alguém do mundo “sambístico”, carnavalesco e jornalístico carioca não saber quem é Rubem Confete. Sabei-lo, pois, Rubem Confete é a enciclopédia do samba e do carnaval. Jornalista, radialista, compositor, africanista, mestresala e técnico em fotogravura, Confete completa 50 anos em todas as artes que exerceu. Ele rememora: “Comecei no Unidos da Dona Clara, que tinha a Vilma Nascimento. Eu estava com 16 anos e já compunha meus sambas. Depois no Paz e Amor, aprendi com seu Gaudino esse lance de mestre-sala. Ia aos bailes e gafieiras fazer exibições. Xangô e Sinhozinho viram e me levaram para a Mangueira. O samba tinha muita força, mas era discriminado. Isso me levou para o jornalismo porque, mal comparando, eu sofria a mesma angústia que o Paulo Portela. Fui escrever na Tribuna de Imprensa, depois no Lampião - do novelista Aguinaldo Silva”. A mesma angústia que o fez um dos fundadores e também mestre-sala do Grêmio Recreativo de Artes Negras e Escola de Samba 96

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fosse no mínimo desrespeito à história do samba, excluir sua filiação paterna: Mano Décio da Viola. Para o filho é orgulho que se manifesta em cada show e disco que faz. O pai, consagrado autor de sambas que são verdadeiras maravilhas, tem presença obrigatória no repertório de Jorginho. Há três anos, o sambista vem se apresentando no Cariocando - novo templo carioca da MPB. Agora, Jorginho está ultimando o lançamento do novo CD/Dvd “Alegre, sorrindo e cantando” – título de um samba inédito de tio Hélio e Monarco. Ambos produzidos por Mauro Diniz e gravados no Parque Madureira. Alegre, sorrindo e cantando vem coroar uma carreira com mais de vinte LPs, além de dezenas de CDs, e centenas de shows em todo o Brasil e outros países, como Hong Kong, Argentina, França e Japão. Emocionado com a inclusão do seu nome, como Expressão do Samba, Jorginho do Império enfatiza sua admiração pela Beija-Flor de Nilópolis e, em especial, seu respeito ao Anizio. E acrescenta: “Papai tinha uma verdadeira adoração pelo Anizio. Eu vibro com carisma e a humildade dele. Na hora que Anizio aparece na Marquês de Sapucaí, o povo o aplaude entusiasmadamente. E ele merece!”. www.beija-flor.com.br


MARCOS SACRAMENTO

swing DA NOVA GERAÇÃO

O niteroiense Marcos Sacramento estreou como cantor da banda Cão Sem Dono, nos anos 1980. Como integrante desse grupo de pop/rock, ele já mostrava ser um artista plural. O primeiro álbum dessa banda trazia uma releitura de “Sinal Fechado”, canção de Paulinho da Viola. Nesses mais de 30 anos de estrada, o desprendimento com rótulos e padrões se tornou uma constante na carreira de Marcos. O cantor e compositor revelou que precisou trilhar outros caminhos para perceber que o queria mesmo era fazer música: “Sempre gostei de música, desde criança, sempre gostei de cantar. Quando menino, meu pai comprou uma televisão e me lembro de uma programação muito musical na TV brasileira em meados dos anos 1960. Eu ficava vidrado olhando aqueles artistas todos tocando e cantando na tela. Gostava de música como ouvinte. Aí, no fim da adolescência veio a decisão de ser músico. Nessa época, conheci umas pessoas de Niterói que faziam teatro e entrei nesse grupo. Nós fazíamos teatro amador no diretório da UFF. Eu fui me enquadrando no grupo cada vez mais como cantor. As pessoas desse grupo se interessavam pelos estudos do teatro e eu gostava mesmo era de cantar. A partir daí começou a despertar em mim um desejo real de viver daquilo. Viver de cantar. Então fui cantar em um coral no Rio de Janeiro, na Associação de Canto e Coral. Fiquei dois ou três anos cantando por lá. Na sequência, comecei a fazer pequenos trabalhos, cantar em festivais de menor porte e não parei mais”.

Marcos Sacramento tem dez discos solos, o último foi lançado em 2012, com participação do violonista Zé Paulo Becker. Além desses trabalhos, ele já marcou presença em discos de diversos artistas dos mais variados gêneros musicais. Definir Marcos Sacramento simplesmente por um estilo é deixar de ver vários lados do artista. Sacramento é hoje um intérprete capaz de encaixar em um mesmo roteiro gênios históricos como Noel Rosa e Cartola com contemporâneos como Luis Capucho e Luiz Acofra. Fevereiro 2015

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A Ortobom é uma importante incentivadora do Carnaval Carioca e da cultura nacional. Empresa 100% brasileira, tivemos a satisfação de conhecer melhor o seu funcionamento, que reforça a certeza de que com dedicação e perseverança podemos promover grandes realizações.

RBF — Após se consolidar no ramo metalúrgico, a empresa, a partir da compra de blocos de espuma, entrou no segmento de confecção de colchões, que harmoniosamente se casavam com as camas que fabricavam. Como se deu essa mudança? Como o mercado consumidor respondeu a esse novo posicionamento? Reinam Ribeiro — Na verdade tudo ocorreu com muita naturalidade, os produtos principais eram os de metalurgia, os colchões eram produzidos e vendidos como produto complementar das camas. Com o passar do tempo os lojistas que eram nossos clientes, passaram a demandar mais pelos colchões. Com o tempo, o colchão foi ganhando espaço e os produtos de metalurgia perdendo. Neste período, o consumidor não nos identificava como uma marca forte, não éramos percebidos como empresa de colchão ou de metalurgia, simplesmente colocávamos nossos itens nos pontos de venda e os consumidores os adquiriam. RBF — Quando a Ortobom deixou de ser uma indústria de transformação (compra de espumas) para ser uma indústria de base (produzir suas próprias espumas)? O que motivou essa mudança? 98

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Reinam Ribeiro — Em 1976 passamos a produzir nossa própria espuma, em 2000 passamos a produzir nossos próprios molejos, em 2005 passamos a produzir nosso próprio tecido, em 2006 nossas fibras acrílicas, em 2013 passamos a produzir nossas próprias embalagens. O que motivou todas essas mudanças foi ter um padrão de qualidade - produzindo os próprios insumos você não fica sujeito a mudanças de filosofia de fornecedores. É possível garantir uma melhor qualidade porque você tem total domínio sobre toda cadeia de produção. RBF — A Ortobom é líder em colchões e um dos motivos dessa liderança é a definição de um posicionamento de vanguarda, em termos de Brasil. Fale um pouco sobre esse posicionamento. Onde ele tem levado a Ortobom? Vocês tiveram como referência posicionamentos de empresas do mesmo segmento no exterior? Reinam Ribeiro — Acreditamos que esta percepção de vanguarda é produto do planejamento e da pesquisa, que foram desenvolvidas e implantadas nestes últimos 45 anos. A definição de um posicionamento de marketing para dar “norte” foi fundamental. A Ortobom é uma empresa que www.beija-flor.com.br


se reinventa todos os anos, não é estática, estamos sempre pesquisando e seguindo as tendências de mercado. Esta velocidade de adaptação, nos permite atender as demandas do mercado, o que faz de nós uma empresa competitiva e conectada com nossos clientes. RBFN — Detalhe as estratégias e ações relacionadas à sustentabilidade e à responsabilidade social executadas pela Ortobom? Qual o resultado para o usuário final? Reinam Ribeiro — Ser sustentável e ter responsabilidade social é uma filosofia empresarial. Não se é sustentável ou se tem responsabilidade social para se vender mais, ou produzir melhor. Buscamos ser desta forma porque acreditamos que todos devem estar engajados neste propósito, pois ele é o futuro, e estar distante dele é sucumbir, é falecer. Simplesmente buscamos ser assim. O resultado para o consumidor é se identificar ou não, é admirar ou não, é aprovar ou não, é dizer para si mesmo: eu quero um produto desta empresa, ou não? RBFN — A Ortobom tem como prioridade a utilização de matéria-prima de primeira qualidade e alta tecnologia. É possível dar exemplos dessas escolhas? Qual o resultado para o usuário final? Reinam Ribeiro — Também estamos falando de filosofia empresarial, a partir do momento em que a Direção da empresa se propõe a produzir somente com matéria prima de primeira qualidade, utilizando maquinário de última geração e alta tecnológica. Além disso, possuímos pessoal altamente qualificado, o re-

sultado desta equação será sempre os melhores produtos. São os melhores produtos do mercado que nos consagram como a melhor e maior empresa no segmento, ou seja, causa e efeito. O resultado é o reconhecimento. RBFN — Qual o peso do conhecimento médico na criação dos produtos Ortobom? Muitos estudos são feitos para que um colchão da Ortobom seja criado? Qual o resultado para o usuário final? Reinam Ribeiro — Este trabalho é constante e possuímos parcerias com médicos ortopedistas e especialistas do sono. Eles nos auxiliam com suas experiências e conhecimento, e nós, desenvolvemos produtos e soluções que possam vir a melhorar a vida dos brasileiros. O retorno que recebemos das pessoas é a credibilidade, a segurança, a satisfação e o reconhecimento, uma vez que o produto responde a altura ou supera as expectativas. RBFN — Quais os planos futuros da Ortobom? Reinam Ribeiro — Se manter alerta, rápida e atual. Qualificar cada dia mais nosso material humano e saber que se manter evoluindo é a única garantia de futuro. RBFN — Gostaria de deixar uma mensagem aos leitores da revista Beija-Flor de NiIópolis. Reinam Ribeiro — Se você já é nosso cliente: agradecer sua confiança e dizer que trabalhamos incansavelmente para você ter o melhor descanso. E para você que ainda não é nosso cliente, gostaria de convidá-lo a vir conhecer nossos produtos e a empresa, tenho certeza que você não irá se arrepender.

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HILTON ABI-RIHAN

A Liesa é responsável por organizar o evento que é o principal cartão-postal da cidade do Rio de Janeiro. Para realizar um espetáculo desse porte e com um nível de eficiência como o que tem alcançado, a equipe da Liesa não abre mão do profissionalismo nas suas ações - incondicionalmente. Assim, com seriedade e respeito ao público, nós, brasileiros, continuamos a ter o maior espetáculo popular a céu aberto do mundo.

RBF - O Carnaval é uma festa nacional de repercussão mundial e, por isso, exige um enorme grau de observação por parte dos seus organizadores, especialmente no sentido de identificar os procedimentos que precisam ser substituídos ou ajustados. É por isso, que todos os anos, o público espera mudanças para o Carnaval que chega. Quais novidades podemos esperar para 2015? Jorge Castanheira - Nós fizemos uma reavaliação geral do carnaval. Tanto do Grupo Especial, como da LIERJ. Fizemos uma reunião com as agremiações e ouvimos reclamações, sugestões e fizemos uma análise, um estudo em relação a manual de desfile, em relação ao corpo de jurados, o tamanho das escolas, o número de alegorias e chegamos a conclusão de que precisávamos alterar o horário dos desfiles. Esse ano vamos iniciar o desfile às 21h30, e não às 21h. Outra mudança é que o limite máximo de alegorias será sete e três de tripés por escola. Apenas uma alegoria poderá ter acoplagem. O tempo de desfile continua 82 minutos, mas com essas mudanças, haverá uma clara melhoria no desenvolvimento das escolas na Avenida, especialmente pelo tamanho da escola. Queremos que a cadência do samba seja mais tranquila e não tão acelerada. Para que as coisas tenham uma dinâmica mais agradável e com uma fluidez de desfile mais regular para as pessoas brincarem mais na avenida. Não tenho dúvidas de que as escolas passarão de forma mais solta, e irão interagir com o pú100

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blico com maior qualidade. Com isso o desfile e o público ganham muito.

RBF - Os organizadores do Desfile das Escolas de Samba decidiram, também, retirar o quesito “Conjunto” do julgamento nesse carnaval. O que motivou essa mudança? Jorge Castanheira - As escolas fizeram uma avaliação dos quesitos e concluíram que o quesito “conjunto” fala um pouco de cada um dos demais quesitos, então foi decido que esse ano não haverá esse julgamento. Os outros nove quesitos serão julgados separadamente. A queda do quesito “conjunto” já havia acontecido, se não me engano, em 1997. Depois, as escolas pediram para que ele voltasse, em 2000. Se esse ano a fórmula der certo, a gente mantém assim. Se não, junto com as escolas e o plenário, decidiremos outra coisa. Nosso objetivo é tornar o Desfile das Escolas de Samba melhor a cada ano. RBF - Ainda sobre essas modificações que a Liesa vem realizando em favor do espetáculo, esse ano teremos novos jurados analisando os quesitos das escolas. Fale um pouco mais sobre essa mudança. Jorge Castanheira - A mudança se dá por uma necessidade de renovação. É preciso novos olhares, a festa muda muito, quem analisa tem que ter uma outra visão também. Depois de uma avaliação geral do Desfile de 2014 vimos que www.beija-flor.com.br


era a hora dessa mudança, com a chegada de novos olhares. Sempre no intuito de aprimorar. Dos 40 julgadores, quatro saíram naturalmente por conta da exclusão do quesito “conjunto”. Outros saíram por motivo de saúde. A mudança foi em torno de 21 jurados. Tem um câmbio entre os jurados do Grupo de Acesso e do Grupo Especial também. Ninguém iria se dedicar tanto a um evento se não fosse sério. É uma competição democrática. Feita com muito suor e amor. O trabalho dos jurados é sério. Estamos cientes de que reclamações sempre irão acontecer, o que trabalhamos é para que a festa seja sempre a melhor possível. Até porque a cada ano que passa a disputa fica ainda mais acirrada pela qualidade das escolas. O que a Liga puder fazer para que o Carnaval continue sendo o maior show da terra, nós faremos. E faremos isso em parceria com as escolas e o poder público.

RBF - Qual o critério para a escolha dos jurados? Jorge Castanheira - O Carnaval é uma ópera popular. Tem os cantores que são os puxadores, tem a bateria que é a orquestra etc. A diferença é que é a céu aberto. E dinâmica. A gente tenta buscar pessoas ligadas às áreas que os julgadores irão julgar. Um músico ou maestro para julgar a bateria, um arquiteto para julgar alegoria, pessoas especializadas para julgar fantasia e por aí vai. A ideia é essa e é o que a Liesa busca e estará fazendo nesse carnaval.

RBF - Muito já foi feito em favor do espetáculo do Carnaval. Ainda há muito a ser feito? Jorge Castanheira - O sambódromo tem 30 anos. Recentemente, ele sofreu adaptações. Porém, o monta e desmonta não nos permite corrigir certas coisas. Por exemplo, queremos cadeiras numeradas nas arquibancadas. Mas é difícil controlar isso em um local tão grande, com degraus tão largos e extensos. Temos algumas limitações técnicas e outras de ordem financeira. No entanto, fazemos certas coisas. Por exemplo, ar-condicionado tem em praticamente todos os camarotes. Aos poucos estamos fazendo, não tanto quanto nós queremos, mas estamos fazendo alterações que beneficiam todos que vão assistir os desfiles na avenida. RBF - Gostaria de deixar algum recado para o leitor e o amante de carnaval? Jorge Castanheira - Eu falo do ponto de vista de quem participa do Carnaval diretamente. O Carnaval ganhou muito. Esse entrosamento com o setor público tem dado bons resultados. Trabalhar com o carnaval, com a festa, exige muita seriedade. É uma força de trabalho coletiva de um público que dispõe a receber os artistas do Carnaval que fazem uma obra magistral. O legado que a Liesa tenta passar é o de planejamento e respeito por todos. Fevereiro 2015

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Revisão de Texto Leonardo Legey Fotografia André Telles, Felipe Lucena, Fernanda Aguiar, Henrique Matos, Humberto Souza, Leonardo Legey, Marcello de Faria e Ricardo Da Fonseca. Esclarecimento A escolha e seleção das fotografias que ilustram a edição 2015 da revista Beija-Flor de Nilópolis uma escola de vida, seguem critérios estritamente artísticos e jornalísticos (transmissão de uma determinada mensagem), ainda que de modo subjetivo, e não indicam, direta ou indiretamente, preferências específicas do GRES Beija-Flor de Nilópolis (ou de sua diretoria) e/ou da WideBrasil Comunicação Integrada por pessoas ou alas. A revista Beija-Flor de Nilópolis - uma escola de vida, ISSN 1678-3611, é uma publicação oficial do Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis e produzida pela WideBrasil Comunicação Integrada Ltda. As opiniões emitidas nas entrevistas concedidas e os textos assinados são de responsabilidade de seus autores, não refletindo, necessariamente, a posição dos editores nem da agremiação. É permitida a reprodução parcial ou total das matérias, desde que citada a fonte. Fevereiro de 2015 - Tiragem: 60 mil exemplares

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