sociabilidades urbanas: cronistas e ranchos carnavalescos no rio de janeiro Renata de Sá Gonçalves
A principal atração do carnaval do Rio de Janeiro nos dias de hoje é o desfile das escolas de samba. Essas agremiações surgiram na década de 1920 e se desenvolveram em direção ao monumental espetáculo que tem sido apresentado nos últimos anos. Desde a sua origem, articularam diversos grupos sociais – as “comunidades”, o poder público, os meios de comunicação, o turismo e mesmo o mecenato do jogo do bicho –, ajudando a demarcar as permanentes transformações da cidade (Cavalcanti, 1994). Como eram, no entanto, os carnavais cariocas nas primeiras décadas do século xx, quando elas ainda se formavam e conviveram com os ranchos, a principal forma de organização carnavalesca dessa época? Este artigo propõe uma leitura etnográfica de material histórico sobre os “ranchos carnavalescos”, com foco nos cronistas do jornal diário tido como o mais “popular” da época, o Jornal do Brasil. Os cronistas eram comentadores e intérpretes privilegiados do carnaval carioca, pois foram não apenas críticos, como também participantes extremamente ativos no processo de formação e na consolidação dessa forma carnavalesca, orientados tanto por uma visão de mundo abstrata quanto pela negociação e pela mediação no cotidiano urbano das ruas, dos pontos e dos salões no Rio de Janeiro. Elaboraram, portanto, for
Em geral, estudos sobre a história do carnaval (Araújo, 1991; Eneida, 1958) e da música (Alencar, 1965) mencionam os ranchos apenas numa perspectiva ampliada, que não os inclui como foco de atenção. Sua ênfase recai, com freqüência, na história da evolução linear das diversas formas carnavalescas inseridas num painel carnavalesco mais abrangente. Em vez disso, este artigo retoma algumas questões abordadas em Gonçalves (2007) sobre o processo gradativo de constituição dos ranchos como importantes agremiações carnavalescas das primeiras décadas do século xx.
Chamam a atenção a riqueza e a falta de sistematicidade das fontes bibliográficas sobre os ranchos, seja em livros, seja em jornais e demais periódicos. Na primeira metade do século xx, destacam-se descrições detalhadas e comentários de cronistas carnavalescos. Na segunda, o
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mulações diferenciadas, inéditas e criativas sobre o mundo social observado e sobre a qualificação das formas de expressão carnavalescas urbanas em que os ranchos ganharam destaque, ao longo das primeiras décadas do século xx. Por tal razão, o percurso de estruturação dessa forma específica de carnaval nos leva a identificar os ranchos como uma organização social e simbólica exemplar, já que o processo de sua formalização aponta para a complexidade do processo de formação da cidade, de redes de sociabilidades e de valores e “estilos de vida” urbanos (Velho, 1994), nos quais os cronistas desempenharam importante papel mediador. Suas narrativas são interessantes e produtivas analiticamente não tanto pela descrição de uma dada realidade, e sim pela construção dialógica num jogo que incluía continuamente interesses, embates e negociações. Assim, buscamos, com base em tais narrativas, situar os ranchos carnavalescos no cenário das décadas de 1910, 1920 e 1930, bem como analisá-los em relação à cidade do Rio de Janeiro e às sociabilidades que então se constituíam.
i. os ranchos à luz dos cronistas-repórteres No Rio de Janeiro das primeiras décadas do século xx, os cronistas ganharam papel central na mediação do carnaval, ao estabelecer diálogos entre a polícia, os comerciantes, o poder público e os grupos de ranchos, e produzir significações sobre o conjunto de valores sociais, morais e estéticos vigentes. Com base numa leitura etnográfica “retrospectiva” de construção dos ranchos carnavalescos como objeto de pesquisa, procuramos apreender a dinâmica de seu funcionamento e de sua formação e consolidação como um “sistema” de relações e significações. carnaval ganha importância também para os folcloristas, ávidos em registrar e entender aspectos que pudessem iluminar nossas raízes mais tradicionais e populares. As pesquisas realizadas por esses dois grupos foram pioneiras no que se refere à tematização do carnaval como objeto de estudo. No entanto, ao passo que os folcloristas abordaram-no segundo uma visão das culturas populares mais “comunitária”, os cronistas-repórteres valorizaram uma dimensão mais moderna e conflitual da formação do carnaval na cidade (Gonçalves, 2003 e 2007).
A abordagem etnográfica de material histórico pode indicar aspectos de uma época e de determinados modos de vida, como proposto por Ginzburg e sua “etnografia retrospectiva”. A investigação do autor, que girava, a princípio, em torno das idéias, crenças, vivências e atitudes de “Menocchio”, herege do século xvi, acabou se transformando numa hipótese geral sobre “a cultura camponesa da Europa pré-industrial, numa época marcada pela difusão da imprensa e a Reforma Protestante, bem como a repressão a esta última nos países católicos” (Ginzburg, 1976: 12).
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O Jornal do Brasil era o principal jornal de divulgação das “pequenas sociedades carnavalescas” e não só anunciava os licenciamentos policiais e as suas sedes, como também patrocinava e promovia os seus desfiles. Os relatos jornalísticos se construíam com base na vivência dos cronistas e na “observação participante” de seus repórteres, que privilegiavam a “experiência”, a vivência propiciada pelos encontros, mediações e participações efetivas no processo carnavalesco, dos ensaios, festas e preparativos aos desfiles e a apuração dos votos nos concursos, promovidos muitas vezes pelo próprio jornal.
1. O Jornal do Brasil Trata-se do exemplo mais evidente das amplas modificações iniciadas na imprensa carioca na década de 1880. Essas mudanças no jornalismo carioca almejaram “popularidade” e, por essa razão, o Jornal do Brasil se tornaria uma “verdadeira revista ilustrada dos acontecimentos diários” (Barbosa, 1996: 46). Por ser o diário mais popular do Rio de Janeiro desde 1894, publicava crimes policiais, palpites do jogo do bicho, modinhas populares, passatempos variados e informações carnavalescas sobre ensaios, marchas, temas, novidades, enredos e festas populares, como a festa da Penha. Havia inclusive uma tímida coluna destinada às “queixas do povo” (Silva, 1988) e um serviço regular de recebimento de donativos em dinheiro, destinados àqueles que procuravam a redação em busca de auxílio para tratamentos de saúde ou outras carências. Era comum receber também subscrições para ajudar vítimas de intempéries, como a seca cearense de 1901 (: 53). O Jornal do Brasil introduziu inovações importantes, como o amplo uso de ilustrações, que culminou na criação de uma edição ilustrada em 1898, o Jornal do Brasil Ilustrado, e na edição de notícias sobre o cotidiano dos habitantes da
O Jornal do Brasil foi fundado em 9 de abril de 1891 por Rodolfo de Souza Dantas, ministro da Educação do Império. No artigo em que foi apresentado, afirmava-se o dever de fiscalizar os abusos do poder e permanecer acima de convicções ideológicas. Era, no entanto, nitidamente monarquista, tendo, entre seus colaboradores, Joaquim Nabuco, que assumiria a chefia da redação em junho do mesmo ano. Com o agravamento da crise nas relações entre o jornal e o governo republicano, teve sua oficina depredada no dia 16 de dezembro. Em 1892, tornou-se uma sociedade anônima. No ano seguinte, foi novamente vendido e o cargo de redator–chefe, assumido por Rui Barbosa. Em 15 de novembro de 1894, foi vendido à firma Mendes & Cia e, partir de então, passou a se caracterizar por profundas alterações na estrutura empresarial, administrativa, redacional e editorial que o transformaram, definitivamente, no “popularíssimo” (Barbosa, 1996: 7–9).
A construção da idéia de “jornal popular” buscava atingir um público até então não identificado com os leitores tradicionais. Era o jornal dos caixeiros, dos balconistas, dos empregados do comércio, dos militares de baixa patente e dos trabalhadores em geral (Barbosa, 1996: 46).
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cidade do Rio de Janeiro. O texto se tornou mais direto e informativo, e as edições da manhã e da tarde passaram a se esgotar quase todos os dias, apesar de possuírem a maior tiragem até então alcançada por um jornal no país. Nesse contexto, deve-se lembrar que o número de pessoas ágrafas era grande . Entre 1872 e 1906, a população total da cidade quase triplicou, tendo passado de aproximadamente 228 mil para 620 mil habitantes, entre os quais muitos imigrantes e negros egressos da escravidão. Em 1890, contudo, apenas 18,5% da população sabia ler, percentual que, na virada do século, chegaria a 33,1% (: 141). No decorrer desse período, a própria circulação dos jornais populares aumentou ano a ano. Em 1900, os principais diários imprimiam e vendiam de cem a 150 mil cópias por dia. No Jornal do Brasil, vêem-se algumas manifestações do “povo” produzidas num circuito cultural narrado pela oralidade, com que muitos desses letrados compartilhavam, ao mesmo tempo que literatos obtinham um meio de divulgar e publicar seus escritos . Com efeito, os jornais tiveram como redatores e colaboradores cronistas carnavalescos como Vagalume, Orestes Barbosa e Jota Efegê, verdadeiros entusiastas do que seria entendido nesse período e consagrado posteriormente como a “cultura popular” urbana do Rio de Janeiro. Em outros termos, a disseminação dos jornais permitiu que, muitas vezes, literatos, jornalistas e cronistas se pronunciassem de um lugar mais próximo dos “populares”, bem como compartilhassem suas festas e seus hábitos. Ao pôr em prática a moderna reportagem, deslocavam-se do prédio da redação para as ruas em busca de acontecimentos e personagens. Representantes da imprensa em trânsito entre mundos sociais diferentes, travavam contato com valores, percepções e hábitos culturais distintos dos seus (Velloso, 2004). Foi no início do século XX, portanto, que a imprensa passou a ocupar espaço até então inédito na vida urbana do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo que o processo de socialização dos diversos grupos existentes se deslocou da esfera privada para a esfera pública (: 13) e os repórteres passaram a se movimentar e a experimentar pessoalmente várias dimensões do que ocorria na cidade, tendo os ranchos carnavalescos se tornado um dos objetos privilegiados por essa nova imprensa.
A não inclusão de parte considerável da população no sistema da escrita não implica a ausência de sua participação em outras dimensões da vida cultural.
Olavo Bilac, Coelho Neto, Raul Pompéia, Valentim Magalhães, Artur Azevedo e o próprio Machado de Assis, já na década de 1880, tiveram no carnaval um assunto de grande interesse. Como indica Pereira, os literatos do fim do século xix escreviam também para jornais, embora grande parte considerasse uma forma menor de expressão. Ainda que não devam ser entendidos como uma elite isolada do povo, buscavam se distinguir dele no que escreviam e pensavam, em busca de caminhos possíveis para a civilidade (Pereira, 1994).
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ii. os dramas As negociações que caracterizam o contexto carnavalesco a ser analisado não estão marcadas por data, local ou evento específicos, bem como não se dão sem conflitos e desacertos. Com efeito, a dinâmica dos ranchos na vida da cidade, em seus múltiplos planos e dimensões (DaMatta, 1979: 67), configura um amplo processo de construção artística e social. Com o intuito de analisar essa multiplicidade e o vasto material sobre o carnaval publicado no Jornal do Brasil ao longo das quatro primeiras décadas do século XX, recorremos à idéia de “dramas sociais” do antropólogo Victor Turner como fio condutor para o desvendamento de um “sistema dos ranchos”, tomando com base três casos descritos nesse periódico durante o período carnavalesco: “o caso dos itinerários” de 1919, o “dia dos ranchos” de 1926 e o “caso do auxílio aos ranchos e blocos” de 1933. Não pretendemos, todavia, identificar as “fases” dos dramas sociais como Turner o faria, e sim buscar o objetivo último de seu método. Tratou-se, portanto, de alcançar, por intermédio da busca dos padrões dos dramas sociais, “pistas valiosas sobre o caráter do sistema social” (Turner, 1964: 17) repleto de ambigüidades. Tratou-se também de apreender a natureza dinâmica e processual da vida social. Para tanto, e levando em conta a complexidade do “sistema social” em jogo, escolhemos “dramas” ocorridos em décadas distintas, mas que convergem no sentido de esclarecer a montagem e o funcionamento da organização carnavalesca urbana. Com isso, pretendemos evitar que os casos fossem arrolados de um modo que desse a impressão de um sistema social consistente, homogêneo e rígido. O sistema dos ranchos é dinâmico, ou seja, é continuamente revisto, testado e situado socialmente. Procuramos, pois, concepções de determinados atores sociais que forneceram os contornos das relações e negociações articuladas em torno dos ranchos carnavalescos. Para nós, essas relações, seus consensos ou conflitos, em si constituintes de tal forma carnavalesca, revelam a formação urbana carioca, ou seja, acreditamos que, com esses dramas, adentramos num universo de valores que, em grande medida, orienta uma determinada formulação da “cultura popular” urbana do Rio de Janeiro. Passemos, então, aos casos.
A formulação de “dramas sociais” de Turner foi introduzida na obra Schism and continuity in African society (1957). Nessa obra, o autor afirma que os dramas sociais são como expressões dos conflitos inerentes às sociedades humanas. Em seguida, ele os caracterizou como “episódios públicos de irrupção de tensões” (Turner, 1974: 33), além de “unidades de processos harmônicos ou desarmônicos, crescentes em situações de conflito” (: 37), sugerindo a existência de padrão e lógica no processo de erupção e desenvolvimento de conflitos sociais.
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1. O “caso dos itinerários” de 1919 O “caso dos itinerários” resultou de uma medida divulgada pelo chefe de polícia em 1919, alterando o itinerário do desfile dos grandes clubes e a escolha da avenida Beira-Mar para prolongar sua passagem, até então restrita à avenida Rio Branco. A escolha dessas duas avenidas é interessante porque se liga a uma idéia mais ampla, presente nos textos dos autores que retrataram o Rio de Janeiro da época. Entre estes, prevaleceu uma oposição bem marcada, em que ambas desenhavam o espaço de circulação das “elites”, ao passo que morros e subúrbios, encarados como um grande conjunto uniforme, eram o espaço dos “populares”. No entanto, ainda que essa oposição seja válida em termos gerais, se atentarmos para os matizes suscitados pelo uso social de tais espaços, veremos que não havia correspondência imediata e exata entre as avenidas e as “elites”, e tampouco um conjunto indiscriminado de morros e subúrbios populares. Em vez disso, o embate envolvido na escolha do “melhor itinerário” para a apresentação dos grandes e pequenos clubes em 1919 demonstra diferenciações no que, em geral, é visto de modo uniforme, uma vez que essas duas avenidas indicavam uma oposição entre a “grande artéria”, a Rio Branco, e a avenida do mar, simbolicamente mais próxima de uma idéia de natureza e, portanto, menos controlável porque mais sujeita a intempéries. Enquanto a “grande artéria” favorecia o fluxo, era mais bem iluminada e representava, por excelência, o espaço social central, a “avenida do mar” sofria influências mais diretas da própria natureza e estava sujeita a intervenções futuras de reformas e aterros. Segundo a argumentação de alguns, a “mudança atmosférica” provocava “enfermidades” nas pessoas e o aumento do percurso fatigava o gado que puxava os carros alegóricos. Não só era preciso parar para “refrescar a ferragem das molas”, como a “ressaca” do mar e as “árvores baixas” da BeiraMar se atritavam com os toldos dos carros. Elementos do mundo natural, previsíveis (a mudança atmosférica e o cansaço do gado) ou não (a ressaca do mar), contrapunham-se ao espaço urbano tido como central e expressavam uma outra visão do universo heterogêneo das relações sociais urbanas de então. Nas praias, já existia um tipo de manifestação carnavalesca característica, os banhos de mar à fantasia. Além destes, havia o carnaval das ruas, o dos bairros e subúrbios, e o dos salões e clubes, que costumavam promover concursos internos de máscaras e de fantasias. Nas ruas, sobretudo no primeiro quartel do século XX, os préstitos marcavam as disputas entre os grandes clubes, que, pouco a pouco, agrupavam-se em tempo (dia especial) e espaço específicos.
Os jornais utilizados para a análise do “caso dos itinerários” correspondem ao período de 30 de janeiro a 2 de março de 1919. Referências mais detalhadas se encontram no final do texto.
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Já nos bairros e subúrbios, as competições eram, formal e informalmente, entre blocos, cordões e foliões, com ou sem batalhas de confete. Os três grandes clubes ou sociedades existentes – Fenianos, Democráticos e Tenentes do Diabo – foram os primeiros a desfilar nas ruas centrais da cidade e a ter um dia reservado para seus préstitos, a terça-feira gorda (Ferreira, 2005). Os pequenos clubes só teriam espaço na área central da cidade para seus cortejos e dia específico, a segunda-feira de carnaval, em meados da década de 1920. Antes disso, o espaço da avenida Rio Branco, chamada de avenida Central até 1912, foi marcado sobretudo pela “luta dos três grandes clubes” ou por seu “grande confronto a um só tempo”, que só parecia possível na “grande artéria”, a única capaz de dar conta do intenso fluxo de carros e pessoas, cuja maioria, no entanto, era composta de “populares” vindos dos subúrbios. No caso em análise, esses três clubes, apesar de rivais, articularam-se solidariamente diante da iminência do novo itinerário. A “imposição da polícia” para modificá-lo em 1919 emergiu como um problema e desencadeou uma crise, pois a posição dos clubes e do povo, diretamente interessados na decisão, não havia sido requisitada. Ademais, os interessados pela questão não viram essa “crise carnavalesca” do mesmo modo, tendo os custos relatados sido tanto financeiros quanto sociais. Dos argumentos contrários à decisão da polícia listados na reunião convocada pelos grandes clubes, destacam-se o “aumento de despesas de fogos e cavalhada” e os prejuízos que a maioria da população vinda dos subúrbios, “possivelmente 70% do público”, sofreria com a mudança. Na leitura das reportagens da época, percebe-se a preocupação com o fluxo do público, que teria não só dificuldade em acompanhar a passagem das grandes sociedades, como também problemas para “regressar ao lar”, em virtude do maior “atropelo” das comemorações. Com efeito, ao mesmo tempo que os grandes clubes visavam a um determinado uso do espaço por grupos sociais específicos, já que este era simbolicamente apropriado por seus membros, em sua maioria moradores dos bairros mais abastados na época, aqueles que vinham dos subúrbios tinham participação decisiva nas comemorações. Na verdade, havia dois movimentos simbolicamente muito importantes: um, mais geral, dos moradores dos “subúrbios” rumo ao “centro” e outro referido à circulação no núcleo da cidade, ou seja, no pólo de exibição dos abastados, entre a avenida Rio Branco e as ruas centrais mais próximas, que destoavam da avenida Beira-Mar e dos valores que a cercavam. Nos dias de carnaval, o esforço se voltava para a circulação e para a celebração de um encontro desses fluxos no “ponto central”, a avenida Rio Branco, de onde o povo podia apreciar o desfile com facilidade, razão pela qual havia a
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interrupção provisória do movimento cotidiano de carruagens, à qual se sobrepunha a grande circulação de pessoas vindas dos subúrbios. A princípio, foram a polícia, o povo e os grandes clubes ou sociedades que participaram das discussões sobre o itinerário do desfile, mas a “crise” gerada pela mudança exigida pela polícia acabou consolidando uma idéia defendida pelo Jornal do Brasil havia muitos anos: a criação de uma federação das sociedades carnavalescas. Dito de outro modo, o descontentamento gerado pela notícia da extensão do percurso até a avenida Beira-Mar, que acarretaria uma série de “custos” extraordinários, fez com que essas grandes sociedades se solidarizassem e entrassem em acordo, após “calma discussão”, acerca das razões pelas quais não estavam dispostas a atender às exigências da polícia. No entender dessas grandes agremiações, decorreriam dos prejuízos da mudança pretendida transtornos ainda maiores na sistematização dos desfiles, uma vez que se afetava o espaço simbolicamente reservado para a convergência de pessoas e grupos diversos, e que também servia de referência para os “pequenos clubes”, desenhados, em seguida, como pequenas “sociedades” e, posteriormente, como “ranchos”. O caso do itinerário dos clubes se resolveria com a aprovação do itinerário de um dos três grandes clubes, os Democráticos, que passaria a servir de “modelo” para os demais, mas os desdobramentos da tentativa de mudar o itinerário de seus desfiles acabariam se generalizando e levariam à criação de associações representativas tanto dos grandes quanto dos pequenos clubes. Em outras palavras, pode-se dizer que a crise decorrente da mudança de itinerário, embora significada diversamente, estabeleceu profundas inter-relações entre as várias organizações carnavalescas. A fundação da Federação dos Grandes Clubes e, em seguida, a da Liga dos Pequenos Clubes Carnavalescos nasceram conectadas ao mesmo processo urbano, por meio do qual os integrantes das pequenas associações, cujas sedes estavam espalhadas tanto pela zona sul quanto pela zona norte, tiveram dificultado seu acesso às comemorações, mas passaram a ter, cada vez mais, a posição social de participantes ativos de uma forma carnavalesca própria.
2. O “dia dos ranchos” de 1926 10 Os quesitos São os seguintes os quesitos a que deverá responder a Comissão Julgadora: 1o – Qual o rancho campeão do carnaval de 1926? (riqueza e esplendor) 2o – Qual o rancho vice-campeão do carnaval de 1926? (riqueza e esplendor) 3o – Qual o melhor enredo? 10
Os jornais analisados neste drama sobre o “dia dos ranchos” correspondem ao período de 3 a 9 de fevereiro de 1926 .
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4o – Qual a melhor harmonia? 5o – Qual o melhor em originalidade? 6o – Qual o melhor em arte? 7o – Qual o melhor em estandarte? 8o – Qual o melhor em evoluções? Nota – segundo ficou deliberado, unanimemente, na assembléia realizada na redação do Jornal do Brasil, os ranchos que forem premiados com os títulos de campeão e vice-campeão de 1926, que são os prêmios máximos, não poderão concorrer aos demais. As inscrições das pequenas sociedades no certame do “dia dos ranchos” só poderão ser feitas até o dia 6 de fevereiro, impreterivelmente (Jornal do Brasil, 1926a: 12).
Como se depreende da nota acima, após ter sido instituído o “dia dos ranchos”, o Jornal do Brasil passou a organizar uma competição sistemática entre eles por prêmios “artísticos e custosos”. O julgamento promovido por uma “comissão” adquiriu contornos muito definidos, explicitando-se publicamente os membros da comissão e os “quesitos” apreciados. Sete pessoas eram designadas pelo jornal para o julgamento de quesitos condizentes com suas atividades: “um literato, um cenógrafo, um escultor, um musicista, um bordador, um pintor e um perito em indumentária”. Os ranchos desfilavam e paravam em frente ao coreto da comissão julgadora. Tinham das 18h até a primeira hora da madrugada do dia seguinte para passar em frente a ele, onde “executavam uma marcha e faziam evoluções”, permanecendo adiante da comissão o tempo que esta julgasse necessário. A observação, a apreciação e o julgamento da comissão eram feitos de dentro do coreto, à exceção do membro responsável pela indumentária, que ia até a rua para avaliá-la de perto. Também se permitia ao técnico de cada rancho subir no coreto para “dar explicações do enredo e dos detalhes de cada personagem”. Havia vários tipos de “olhar” para que a avaliação dos ranchos se completasse: a observação feita dos coretos, aquela mais próxima e detalhada da indumentária, e a construção oral do técnico do rancho, que “explicava” o enredo e os detalhes das personagens. Além disso, era necessário que os enredos fossem enviados ao Jornal do Brasil para publicação antes dos desfiles. Paralelamente à avaliação da comissão julgadora, realizavam-se vários outros concursos e premiações. Não só lojistas e comerciantes ofereciam prêmios para o “melhor grupo de pastoras” ou o “melhor estandarte”, como o público indicava suas escolhas, formando “partido com suas preferências por esta ou aquela sociedade”. A vitória, portanto, estendia-se aos olhos do público, que desfrutava, no “dia consagrado aos ranchos”, da oportunidade de ver, a um só tempo, personagens,
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vidas, dimensões e mitos de outros tempos. Nas encenações dos enredos dos ranchos, destacavam-se excessos apartados da vida cotidiana, como, “num estonteamento de luz, num farfalhar de sedas, sob o fulgor de pedrarias e o reluzir do ouro, os segredos da mitologia antiga” e o “luxo da antiga Roma”. Certos fatos também eram representados, com o intuito de “relembrar” o que ainda não se vivera. Nos termos da época: “os fatos históricos serão recordados” e “coisas rebuscadas imaginariamente, transportando-nos ao paraíso das fadas, formarão conjuntos belos e majestáticos”, fazendo reviver os heróis que se imortalizaram por seus feitos gloriosos. Para vivenciar esse único dia de “vitória”, em que se podia ser e viver tão intensamente, era necessário que os cronistas e as sociedades trabalhassem arduamente. A participação das sociedades, por exemplo, estava condicionada a uma inscrição solicitada ao Jornal do Brasil, sendo o “valor” de tais sociedades consolidado por intermédio de sua “arte e luxo”, que predominavam “na sua mais elevada expressão”. Além disso, “com magníficos enredos, orquestra afinadíssima, indumentária caprichosa e de alto valor, os ranchos formavam conjuntos preciosos e dignos de incondicionais louvores e da atenção dos poderes competentes do país”. O “valor” se construía tendo em vista também o reconhecimento “merecido” do governo e do comércio local, seus principais financiadores. Uma das funções exercidas pelo Jornal do Brasil era, portanto, construir e louvar as qualidades dos ranchos, “elemento maior” do “extraordinário brilho do carnaval”. Sendo estes muito bem qualificados nos relatos dos cronistas, era freqüente a utilização de superlativos, embora o periódico também chamasse para si a responsabilidade de mediar e articular as relações entre os representantes das sociedades e os agentes sociais aptos a investir nos ranchos. Mesmo o acesso das sociedades ao centro da cidade durante o carnaval se submetia a essa mediação, conforme o estabelecimento de regras que procuravam facilitálo. Por exemplo, a Inspetoria de Veículos, “atendendo à solicitação de diversas agremiações e de completo acordo com o Jornal do Brasil, resolveu permitir” e concordou com os trajetos propostos para que as sociedades alcançassem o coreto em que estivesse a comissão julgadora. No trajeto sugerido, nota-se uma diferenciação entre aqueles que vinham da “zona sul” e os que vinham da “zona norte e subúrbios”, pois aos primeiros recomendava-se entrar pela “rua 13 de maio” e aos segundos, descer pela “rua Uruguaiana”. Ambos, no entanto, deveriam “ganhar” ou “alcançar” a avenida Rio Branco, mostrando que a divisão do espaço urbano – “zona sul”, de um lado, e “zona norte e subúrbios”, do outro – convergia para o local definido como espaço privilegiado de trocas culturais.
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Ao priorizar a “lisura” e a “correção”, os cronistas se caracterizavam por construir uma imagem de “rigidez” em nome do bem coletivo, ainda que apresentassem alguma flexibilidade própria aos articuladores, “preferindo envergar, mas não quebrar”. Assim como a conduta dos cronistas estava permanentemente em jogo, o caráter do jornal se mantinha em questão. A moralidade expressa por sua conduta se caracterizava pelo engajamento e pela participação ativa, sem visar a lucros financeiros, estendendo-se ao próprio Jornal do Brasil, cuja compensação ultrapassava as grandes tiragens, chegando ao estímulo proporcionado às pequenas sociedades, à espera de que estas também apoiassem “todos os foliões desta grande cidade”. No terceiro “caso”, veremos que o auxílio financeiro aos ranchos permanece incerto e em discussão na década de 1930, quando essas agremiações já haviam adquirido grande notoriedade nos carnavais do Rio de Janeiro.
3. O “caso do auxílio aos ranchos e blocos” de 193311 O processo de decisão dos “assuntos” referentes aos “interesses” das sociedades carnavalescas se manteve explicitamente promovido e mediado pelo Jornal do Brasil, até surgir, em fevereiro de 1933, um novo “caso”, anunciado publicamente pela edição do dia 4 de fevereiro, um sábado: a reunião para qual os representantes dos ranchos haviam sido convocados, a fim de, na terça-feira seguinte, determinar medidas “assentadas pela maioria dos delegados presentes”. “Antes de qualquer deliberação”, as chamadas “pequenas sociedades” deveriam discutir os assuntos relacionados ao carnaval daquele ano, o que demonstra que a idéia de participação era muito apreciada. Além de convocar os representantes de cada sociedade, a nota prima pela clareza com que expõe o processo de decisão, a ser acordado pela maioria, e por defender a “pontualidade” como um pré-requisito para o bom andamento da reunião. “Sem esmorecimentos”, o Jornal do Brasil toma para si o papel de cuidar dos interesses das “pequenas sociedades”, termo cunhado pelo próprio jornal em alusão às “grandes sociedades”, muito bem consideradas desde o século xix. Nessa mesma nota, aparece o termo “rancho”, o que reitera o caráter positivo da associação entre “pequena sociedade” e “rancho”, porquanto inscrevia o termo no rol das “sociedades”, afastando-o de manifestações carnavalescas mais informais e menos apreciadas, como os cordões, os cucumbis, os blocos e mesmo algumas associações relacionadas a confusões e brigas.
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Os jornais analisados no “caso do auxílio aos ranchos e blocos” correspondem ao período de 4 a 9 de fevereiro de 1933.
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Uma segunda nota, publicada ainda na edição de sábado, reafirma e justifica informações apontadas anteriormente. Ela começa com “uma necessária explicação” e se refere a “ orientações”. De acordo com o seu texto, uma reunião marcada na sede do rancho Recreio das Flores teria sido adiada em razão de compromisso do cronista e delegado dos ranchos Romeu Arede com a apuração da Rainha do Carnaval. A carta de Arede informando o adiamento não chegou a tempo e os representantes dos ranchos ficaram esperando-o em vão. Em seguida, enfatiza-se que a atitude do delegado dos ranchos e blocos, um “mal-entendido”, não deveria ser considerada pelos representantes dos ranchos uma “desatenção”, já que a carta que anunciava o adiamento da reunião tinha sido enviada. A nota prossegue citando algumas outras falhas e suas justificativas, entre as quais o fato de os delegados Ernesto Ribeiro e Romeu Arede, em reunião com o chefe da Municipalidade, terem tentado em vão obter aumento do auxílio aos ranchos e blocos, que continuava a ser a “mesma importância distribuída no ano anterior”. Apesar de indicar a iniciativa frustrada dos delegados, o texto assume caráter conciliador, pois também mostra tentativas de acertar de diversos atores. A esse respeito, é bem evidente o papel de mediação desempenhado pelo Jornal do Brasil, que chama a atenção do leitor para as qualidades daqueles que, mesmo sem alcançar bons resultados, tinham agido em favor dos ranchos, “esfalfandose em discursos” e “provando que o auxílio atual era insignificante”. Em outras palavras, o atraso e o não-comparecimento de uma pessoa, ainda que destacados como fatos negativos, são suavizados por sua contextualização numa perspectiva mais ampla. A “culpa” pelo ocorrido se concentrou não em agentes individuais e sequer no “chefe da Municipalidade”, mas sim na própria instituição, ou seja, na “Municipalidade”, que não tinha “o numerário necessário para atender a essas despesas”. Revela-se uma dinâmica social em que estavam articulados o chefe do turismo, o chefe da Municipalidade, o delegado dos ranchos e blocos, o interventor, o representante da Federação, os cronistas do Jornal do Brasil e os representantes dos ranchos. Assim, a lista de oito ranchos apresentada pela Federação foi levada em conta pela Municipalidade para o recebimento de auxílio, sob a condição de que se realizasse um “carnaval externo” e “isolado”. O carnaval externo, como se sabe, correspondia à ocupação das ruas pelos cortejos, em oposição a festividades realizadas no interior de clubes, agremiações e sedes. Apresentarse “isoladamente” quer dizer que cada um dos ranchos deveria ter autonomia e exclusividade em suas atividades carnavalescas, sem se aliar aos demais para a realização coletiva de uma única apresentação. Com isso, a “Municipalidade” pretendia evitar que grupos pouco ativos e que não realizavam atividades carnavalescas externas usufruíssem da verba pública, a ser empregada em desfiles
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vistos pelo público, isto é, almejava-se que ao dinheiro investido nos ranchos equivalesse a mobilização do número de grupos nas ruas. De todo modo, a intenção de que os ranchos e os blocos aumentassem sua receita não terminaria aí, tendo sido sugerido que apresentassem talões de ingressos e estatísticas dos festivais e festas realizados, a fim de demonstrar que os gastos feitos eram inferiores à receita. Ainda que não fosse condição para obter o auxílio, essa atitude servia como base da argumentação a respeito do montante das despesas junto à Municipalidade. Por fim, o presidente do Recreio das Flores, que teria sido prejudicado com a reunião a que Romeu Arede não pôde comparecer, afirma que o delegado continuava a merecer confiança: “Se o auxílio é curto, ele não tem culpa. Mas estou certo que ainda se removerão os empecilhos”. Romeu Arede, então, reúne-se com Pedro Ernesto, interventor no Distrito Federal, Lourival Fontes, chefe da Municipalidade, e representantes do Conselho Consultivo de Turismo. Segundo a descrição publicada, Lourival Fontes começou a reunião, fazendo “sucinta” e “clara” apresentação do que estava “sendo feito” e do que estava “para fazer” em relação ao turismo e ao carnaval. Em resposta, Romeu Arede recordou ao interventor a festa dos ranchos organizada por ele, cuja responsabilidade pelo fracasso foi atribuída ao “mau tempo” e à “imprestabilidade do local”. Tendo recebido auxílio para realizar a festa na Feira das Amostras, o evento demandara gastos públicos, mas não correspondera às expectativas da Municipalidade. Nas palavras de Romeu Arede, todavia, a frustração pelo evento parecia ter afetado menos os “ranchos e blocos”, e mais “aqueles que só procuram oportunidades para fazer intriguinhas”. Nesses termos, o que parecia estar em jogo era afirmar a dedicação, o esforço e a honestidade do delegado dos ranchos para obter auxílios para os mesmos. Naquele momento, já se configurava a relação entre “turismo” e “carnaval”, havendo a expectativa de que este fosse “espetacular” e causasse “deslumbramento”. Assim, a cada ano, os ranchos maiores e com mais recursos financeiros investiam em fantasias mais luxuosas e em mais adereços, dando cada vez mais atenção à confecção de seus carnavais e se vendo diante de maiores exigências em relação ao desfile. Como vimos, contudo, os ranchos não tinham facilidade em receber auxílios. Os comerciantes, que assinavam o “livro de ouro”, dando dinheiro ou apoiando com algum tipo de material, comida ou bebida, não supriam os recursos necessários. Assim, restava aos ranchos obter recursos próprios por meio da realização de festas, ensaios, churrascos ou encontros. Por outro lado, havia sempre a tentativa de obter subvenções oficiais. Com isso, tornava-se cada vez mais freqüente que determinados ranchos federados, com um pouco mais de recursos financeiros e representantes que os defendessem oficialmente, fossem
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aqueles subsidiados. Por sua vez, os ranchos e blocos menores sem representatividade permaneciam exercendo suas atividades de maneira mais informal e com menos luxo, razão pela qual, muitas vezes, desapareciam ou se transformavam em blocos ou escolas de samba, que já tinham começado a surgir no cenário carnavalesco da cidade. A cada ano, portanto, crescia a tensão, até certo ponto vital, entre aspectos internos e externos do desfile, já que as exigências internas de organização dos ranchos, a confecção cuidadosa, elaborada e luxuosa de seus carnavais, com a presença de orquestras em ensaios e desfiles, eram cada vez mais custosos, ao mesmo tempo que os financiamentos, auxílios e apoios exigiam permanentes articulações entre os representantes dos ranchos, o poder público e os comerciantes. Nesse contexto, o papel de mediação desempenhado por cronistas, como Romeu Arede, não se desenvolvia sem problemas ou conflitos, sendo difícil definir até onde estavam cumprindo sua função ou extrapolando-a. Em nota no Jornal do Brasil de 7 de fevereiro de 1933, explicita-se que o “companheiro” Romeu Arede era um dos principais mediadores no auxílio aos ranchos e que não o fazia por “obrigatoriedade”, e sim porque era “idealista em matéria de carnaval”. Por isso, suas “funções de cronista” não o intimavam a interceder em favor dos ranchos, o que seria uma obrigação de todos os cariocas. Em outras palavras, a confiabilidade delegada a Romeu Arede pelos representantes dos ranchos era posta à prova a todo momento, tendo o capitão Rocha Soutello chegado a propor uma “moção de confiança” aprovada pelos demais. Após serem ratificadas a condição e a função de delegado dos ranchos a Romeu Arede, discutiram-se vários outros assuntos na reunião. Novamente, a questão do auxílio da municipalidade remeteu ao seu emprego mais adequado e o modo como deveriam ser as apresentações se mostrou um dos pontos centrais para a definição de quais sociedades podiam “pleitear subvenções”. Continuava a ser relevante que as sociedades fizessem “carnaval externo” e apresentassem cortejos individualizados, ainda que o dr. Pedro Ernesto tenha consentido que duas grandes sociedades, Democráticos e Tenentes, realizassem um “préstito único”, desde que, a fim de permitir o julgamento oficial de cada uma delas, tivessem “dois artistas e duas fases”. Nota-se, pois, que a ênfase em “préstitos isolados” ou particularizados tinha caráter competitivo e incentivava o concurso entre os grupos. A diferença, a diversidade e a heterogeneidade dos grupos, de um lado, e sua individuação, do outro, eram parâmetros apreciados e elevados. Com efeito, a competição entre os grupos não só permitia os julgamentos, como também concorria para a hierarquização das sociedades, estimulando a apresentação de cortejos com enredos, músicas e fantasias que pudessem ser avaliados comparativamente.
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Logo após esse episódio, sugere-se fundar a Associação dos Ranchos, cuja representação oficial até então era feita pela Liga Metropolitana dos Ranchos.
iii. o sistema dos ranchos e as sociabilidades urbanas Esses três relatos mostram como o processo de configuração do carnaval carioca nas primeiras décadas do século xx se fez de modo muito peculiar e sempre problemático. Além disso, a convivência entre diversas sociedades e grupos carnavalescos atravessou décadas e não pode ser caracterizada por uma substituição evolutiva linear, uma vez que entre eles sempre houve inter-relação permeada por negociações e conflitos. Como vimos, as grandes sociedades articularam um sistema mais exclusivo, cujos sócios eram pessoas mais abastadas e moradores dos bairros nobres. Nascidas na segunda metade do século xix, ainda no Brasil Império, expressavam uma forma de “harmonizar as desigualdades” (DaMatta, 1979) similar ao das “krewes”, na qual se percebem, num sistema hierárquico forte e onipresente, profundas desigualdades e extrema segregação social. Maior flexibilidade e entrecruzamento das relações sociais se expressam já na década de 1910, em decorrência do aumento do número de “pequenas sociedades”. Apesar de terem convivido com as grandes sociedades carnavalescas durante toda a sua existência, os ranchos sempre se diferenciaram nitidamente delas. Por exemplo, tinham como regra não desfilar com carros alegóricos, permanecendo no chão, à altura de quem os assistia. Ademais, tratava-se de clubes de caráter mais inclusivo, pois congregavam os segmentos sociais menos favorecidos, as camadas médias e baixas, e também artistas e figuras célebres. O processo de confecção e preparação de seus ensaios e desfiles enfatizava as sociabilidades urbanas num mesmo processo artístico e festivo, em que se reuniam intelectuais, artistas, figurinistas e músicos dos mais diversos níveis sociais. Eram grupos nascidos em diferentes localidades do Rio de Janeiro, nos mais diversos bairros e subúrbios. De fato, os “dramas” acima relatados mostram que foram sobretudo as pequenas sociedades que despertaram o interesse e articularam as redes de sociabilidades alimentadas pelos cronistas. Os relatos publicados no Jornal do Brasil permitem inferir um conjunto classificatório em que se destacavam as particularidades dos vários grupos, bem como a competição e a concorrência entre eles. Os enredos, exclusivos a cada ano, exigiam criatividade e inovação para que as coreografias, as fantasias e as alegorias fossem produzidas não só relacionando diversas formas artísticas, como também estabelecendo uma linguagem
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expressiva e peculiar, imbricada com o teatro, a dança e a música. A música, “ritmo, harmonia e melodia”, e outros elementos ordenados e especialmente elaborados, como a coreografia, o cortejo linear, a confecção de estandartes, a composição de músicas exclusivas para cada ano – dos quais surgiram inclusive um gênero específico, a marcha-rancho –, e a estruturação dos ensaios e bailes num processo ritual que culminava com os préstitos nas ruas acabaram formando um “sistema dos ranchos”. Esse sistema, por sua vez, demandava formas competitivas de relação e critérios mais objetivos que os qualificassem. Enquanto as grandes sociedades se restringiram a três grandes clubes, não havendo competições regulares entre elas, os concursos dos ranchos se dividiram em aspectos artísticos formalizados e distribuídos em diversos quesitos. Além dos aspectos mais positivos e rapidamente identificáveis nesse processo de “sociação”, percebe-se também seu caráter agonístico e ambíguo, já que os ranchos, ao se relacionarem entre si e com outros grupos carnavalescos, apontam tanto para convergências quanto para divergências entre os interesses de grupos e segmentos sociais na cidade do Rio de Janeiro. Foram os cronistas os mediadores de tais interesses, dentro de um circuito cultural em que se inseriam as atividades do comércio, os licenciamentos da polícia e as negociações com representantes da imprensa e do governo. Eles participaram de maneira ativa de uma nova ordem e do prenúncio de novo modo de vida urbano, tendo convivido em ruas e avenidas iluminadas, que anunciavam, em sua materialidade, a formação de uma cidade “moderna”. Por outro ângulo, a ampla articulação entre diferentes atores sociais – a imprensa, a polícia, o comércio – permitiu que os ranchos se relacionassem com esse “mundo oficial”, do mesmo modo que o compartilhamento de valores, como o do indivíduo, o das particularidades dos grupos, o da competição e o de contínuas negociações e conflitos na dinâmica urbana, favorecessem o diálogo entre planos culturais distintos. Em outros termos, destacou-se12, regida pelo princípio igualitário e suas premissas de gradação/ordenação (DaMatta, 1979),
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Essa competitividade, aliás, seria criticada por folcloristas que vislumbravam o fim dos ranchos pelo excesso de concursos que sempre demandavam grandes esforços financeiros e uma série de restrições formais, como a definição de determinados trajetos e o tempo de desfile. Como já mencionado, em meados do século xx, surgiria outra interpretação dos ranchos formulada mais detidamente pelos folcloristas. Essa perspectiva, que enfatizava a integração, a autenticidade e continuidades, expressava a vontade de preservar a unidade relacional promovida pelas culturas tradicionais, a participação mais inclusiva e o grande número de participantes, que, ao interagir, integram-se à cidade.
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a competição entre grupos que se integravam a um modelo de cidade menos elitista e, portanto, mais diverso e fragmentado. Tal sistema carnavalesco, englobante de um conjunto de valores modernos capaz de promover uma “harmonização de desigualdades”, marcou de maneira exemplar a capilaridade e a expansão das novas relações sociais urbanas do Rio de Janeiro do século xx, apontando diferenças essenciais em relação àquelas predominantes do século xix. Dito de outro modo, no contexto urbano do século xx, a formulação da “cultura popular” se fez positivamente em relação ao “modo de vida urbano”. As noções de urbanidade e civilidade caminharam lado a lado com as noções de criatividade e originalidade, bem como desenharam um processo cultural que permitiu a um suposto grupo, classe ou nível social participar de uma “estrutura social” (Redfield, 1967) ou de uma “totalidade” (Bakhtin, 1965) que se percebia heterogênea, diversa e moderna. As escolas de samba foram criadas dentro dessa nova sociabilidade mais inclusiva e expansiva e se inspiraram em elementos das grandes sociedades e dos ranchos. Como afirmou o carnavalesco Joãosinho Trinta em entrevista ao Jornal do Brasil: “Não nego que tenha revivido as grandes sociedades e o visual dos ranchos nos desfiles das escolas de samba” (citado por Medeiros, 1989: 1). Nesses termos, os carnavais dos ranchos se aproximam da extrema articulação social atualmente vislumbrada nos desfiles das escolas de samba. Seu “caráter agonístico” e o seu viés regulador foram os operadores de novas formas de sociabilidade urbana, tendo o concurso como confronto institucionalizado sido o dispositivo que possibilitou a integração entre atores sociais diversos e serviu como “modelo” para os desfiles de hoje. Como os ranchos, as escolas ainda são, a seu modo e com os seus problemas, articulações importante do sistema social urbano carioca. A retomada de blocos de ruas e a revitalização de uma forma de carnaval “do passado”, como o rancho Flor do Sereno que desfilou no ano de 2001 em Copacabana, revelam que nem as escolas de hoje, nem os ranchos no passado dão conta de toda a complexidade social. Escolas, blocos e ranchos indicam que persistem conflitos culturais na cidade e que as demandas sociais são múltiplas. Em ambos, avistamos não uma cidade pronta e acabada, e sim conjuntos de relações sociais em permanente construção e diversos níveis de troca social. No “sistema dos ranchos” e no “sistema dos desfiles das escolas de samba”, percebemos tanto a dinâmica entre essas diferentes formas de sociabilidade quanto a articulação de expressões culturais “letradas”, “musicalizadas”, “populares”, “tradicionais” e “modernas”.
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