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A liberdade na cidade: um olhar sobre a simbiose entre o processo de gentrificação e a privatização

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A LIBERDADE NA CIDADE: UM OLHAR SOBRE A SIMBIOSE ENTRE O PROCESSO DE GENTRIFICAÇÃO E A PRIVATIZAÇÃO DO CARNAVAL DO RECIFE

Mellyna Andréa Reis dos Santos Borges1 Resumo: A proposta deste artigo, de caráter ensaísta, é analisar as conexões entre o desenvolvimento do projeto de cidade empresarialista no Recife, capitaneado por representantes do poder público e grandes empresários, e a privatização do Carnaval Multicultural da cidade. Atravessado pela conjuntura política, esse processo tem favorecido para uma articulação e engajamento da sociedade nas questões de planejamento urbano, usos e apropriações dos espaços públicos. O artigo também traz reflexões sobre o processo de desconfiguração do carnaval popular de rua em decorrência de práticas espaciais segragacionistas, que resultam na territorialização dos espaços. Tendo como referência as percepções do campo da cultura e territorialidades, o trabalho utiliza-se de um mapeamento de matérias jornalísticas e textos publicados em redes sociais, entrevista, somados às metodologias de netnografia (Kozinets) e observação participante (Geertz) no período de vivência da festa. O artigo tem como principais referências bibliográficas sobre as disputas na cidade, David Harvey, Marcelo Lopes de Souza e Angelo Serpa, além de Mikhail Bakhtin e Denys Cuche, que dialogam sobre identidades, festas e culturas populares.

Palavras-chave: Carnaval; festas; espaço público; gentrificação; política. As cidades do Recife e Olinda produzem anualmente um carnaval de rua que reúne milhões de foliões, o qual é considerado uma das maiores manifestações culturais populares do mundo. Pode-se dizer que o reconhecimento internacional da grandiosidade dessa festa se deu em 1994, quando o Guiness Book elegeu o Galo da Madrugada como o maior bloco de carnaval de rua do planeta. Contudo, ao longo das décadas, a tradicional festa momesca nas cidades vizinhas foi se transformando a partir da influência dos contextos sociopolíticos, dentre os quais podemos destacar a implantação do Carnaval Multicultural do Recife, em 2001, no início do primeiro mandato do ex-prefeito do Recife, João Paulo Lima e Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). O modelo, definido como “democrático, popular e diversificado, [...] com polos de animação espalhados por toda a cidade, buscando oferecer ao folião espetáculos acessíveis a todos, tanto no âmbito espacial como no social” (GAIÃO et al., 2014), foi mantido ao longo de 12 anos da gestão petista. A chegada de Geraldo Julio 1

Mestranda em Cultura e Territorialidades da Universidade Fluminense (PPCult/UFF-RJ. mellynareis@gmail.com.


(PSB), afilhado político do então governador Eduardo Campos, ao posto de alcaide da capital pernambucana, não acarretou uma mudança imediata na estrutura e formato da festa, que manteve a alcunha de “multicultural”. Mas, a partir do segundo ano de mandato, o Carnaval do Recife iniciou um processo de privatização de espaços públicos semelhante ao que vem sendo imposto à cidade. Esse processo tem provocado uma descaracterização cultural da festa, de modo que ainda não é possível mensurar a totalidade dos impactos, até pelo fato de o Carnaval ser resistente às intempéries políticas. Entretanto, pode-se observar a simetria entre os efeitos da implantação desse modelo comercial em uma festa tradicionalmente popular e o processo de gentrificação que a cidade vem sofrendo nos últimos anos. Um levantamento feito pelo site da empresa Emporis2, que enumera as 100 cidades com mais arranha-céus no mundo, coloca a capital pernambucana em 28º lugar. O ranking considerou o número de habitantes, a quantidade de prédios e a área da cidade. O número de edifícios na cidade aumentou vertiginosamente com o crescimento da construção civil, em virtude dos investimentos concedidos ao setor durante no período de 2004 a 2012. Essas obras não se restringiram à construção de prédios residenciais e empresariais, mas resultaram na revitalização3 do Porto do Recife, cujo projeto denominado “Porto Novo” implicou na transformação dos antigos armazéns em espaços de gastronomia e lazer privados. Neste processo de reconfiguração, a área que deveria ser uma praça com área verde de frente para o mar, virou um estacionamento para os frequentadores do Recife Antigo. Contudo, o espaço vem sendo utilizado pelo Camarote Parador-Itaipava, uma festa privada realizada desde 2015, que ocorre simultaneamente aos shows gratuitos da programação do Carnaval Multicultural no Marco Zero. Este é apenas um dos cerca de vinte espaços “diferenciados” promovidos durante o Carnaval. Essas barreiras de cunho simbólico nos remetem às questões de diferença e alteridades. Nesse contexto, Cuche (2002, p.187) afirma que “a imposição de diferenças significa mais a afirmação da única identidade legítima, a do grupo dominante, do que o reconhecimento das

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Disponível em: <http://www.infomoney.com.br/imoveis/noticia/2773555/municipios-brasileirosaparecem-ranking-cidades-com-mais-arranha-ceus-mundo>. Acesso em: 25 maio 2017. 3

Ver Semântica Urbana e Segregação: Disputa simbólica e embates políticos na cidade empresarialista (SOUZA, Marcelo L., 2013).


especificidades culturais”. A proliferação desses espaços segregacionistas no Carnaval do Recife tem provocado, desde meados de 2014, um levante de movimentos sociais, acadêmicos e a sociedade em geral a discutir a privatização da festa.

2. A RE-EXISTÊNCIA DOS MOVIMENTOS POPULARES NO RECIFE

O Recife vive atualmente uma efervescência das discussões sobre planejamento urbano e direito à cidade, insufladas por um movimento popular formado e articulado a partir do Facebook, o grupo Direitos Urbanos, que hoje conta com mais de 30 mil membros. Segundo Kozinets (2014, p. 17), “as conexões e alinhamentos online estão cada vez mais afetando nosso comportamento social como cidadãos, como consumidores, como amigos e família, e como seres sociais”. Este elo formado pelas mídias sociais serviu agregou pessoas que tinham o objetivo de se envolver mais ativamente nas decisões políticas que regulam ou interferem na vida social da cidade do Recife, buscando alternativas de ação voltadas para o interesse público, em meio ao esquecimento ou pela defesa de fins estritamente privados por parte da representação política formal. Essa mobilização se deu mais fortemente em meados de 2012, quando da reivindicação do tombamento do Edifício Caiçara, localizado na Avenida Boa Viagem, Zona Sul do Recife, área nobre da cidade. O grupo também se posicionou contrário a um projeto de lei que visava proibir o consumo de álcool nas ruas e limitar o horário de funcionamento de bares, como medida de combate à violência. No entanto, a mobilização mais emblemática do grupo foi em defesa do Cais José Estelita, uma área histórica da cidade, que tem sido negligenciada pelos governos há décadas. Foi daí que surgiu o Movimento Ocupe Estelita (MOE), o qual conseguiu sensibilizar órgãos públicos, entidades de classe, academia, políticos e milhares de cidadãos a lutarem para que o local não fosse expropriado pelo projeto intitulado Novo Recife, um consórcio que reúne as construtoras Moura Dubeux, Queiroz Galvão, GL Empreendimentos e Ara Empreendimentos, responsáveis pela compra do terreno da Rede Ferroviária Federal SA. (RFFSA), em um leilão atualmente investigado pela Polícia Federal, devido aos indícios de fraude, ocorrido em 2008. Em sua página na internet, o movimento considera “o gabarito violentamente desproporcional à massa edificada do bairro de São José e incompatível com a paisagem de um recife horizontal, que se deu avançando


metro a metro sobre as águas; o excessivo adensamento e suas consequências; o exclusivismo em relação ao setor social a que se destina o programa do empreendimento e o abrupto corte social que ele provoca no bairro, assim como a eleição de uma frente para o projeto na direção do Pina e de Boa Viagem, tratando o bairro como os fundos são alguns elementos concretos que apontamos, dentro da indignação que o Novo Recife nos provoca de uma forma mais ampla, porque agride profundamente nossa ideia de cidade”.4 No dia 17 de julho de 2014, o MOE sofreu uma das maiores repressões de sua trajetória. Enquanto uma imagem circulava na rede social Instagram, onde o então presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e o deputado federal e pré-candidato ao Senado pela mesma sigla, Romário Faria, apareciam assistindo descontraidamente o jogo Brasil x México, realizado na Arena Castelão, pela Copa do Mundo, a Companhia Independente de Policiamento com Cães, o Regimento da Polícia Montada e o Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pernambuco fizeram um bloqueio no Cais José Estelita para cumprir o mandado de reintegração de posse do terreno. A decisão do juiz Márcio Aguiar, do Tribunal de Justiça de Pernambuco, assinalada no dia 29 de maio, foi estrategicamente cumprida em um dia de jogo da seleção no mundial que voltava a ser disputado no Brasil depois de 64 anos, em meio a um clima de euforia que harmonizava o país, após um ano de grandes manifestações de rua como fora em 2013. O despacho era favorável ao grupo de empresas que forma o Consórcio Novo Recife e a ordem foi cumprida mesmo a Prefeitura mantendo o embargo da obra. O Movimento Ocupe Estelita é um dos mais inovadores movimentos sociais que atuam na luta pelo direito à cidade no Brasil, para além da massa crítica, da tarifa zero e do passe livre, envolvendo a classe média, profissionais da cidade, Universidades e a população para pensar alternativas para o projeto de transformar o que resta dos armazéns do Cais José Estelita e do pátio de manobras ferroviárias contíguo em uma dúzia de torres de apartamentos de alto padrão. (...) A reivindicação parece tão justa quanto simples: criar canais de participação popular nas dinâmicas de construção da cidade, usualmente monopolizadas pelas grandes construtoras, por vezes associadas ao poder público através de convenientes derrogações e artimanhas de gabinete. (...) O movimento mostra que a manguetown dos anos 1990, hoje Hellcife, ainda é o epicentro de uma produção cultural múltipla, que irradia expressões significativas não só para a Região Nordeste, mas para o País e o mundo. (…) No panorama das lutas pelo direito à cidade e no imaginário de como pode ser a Nova Babilônia e as nossas metrópoles do futuro, certamente o Ocupe 4

Disponível no site Direitos Urbanos, em <https://direitosurbanos.wordpress.com/ocupeestelita0/>. Acesso em: 4 mar. 2017.


Estelita tem grande impacto. (SOUZA, 2014)

Após a repressão da força policial do Estado, tanto o MOE quanto o Direitos Urbanos ganharam as redes sociais e passaram a ter um novo sentido, na medida em que atores sociais ligados às mais diversas áreas profissionais e acadêmicas dedicaram-se a colaborar na ampliação do debate sobre o planejamento urbano do Recife. “O direito à cidade não é um presente. Ele tem de ser tomado pelo movimento político.” (HARVEY, 2013, p. 34).

3.

CONEXÕES

ENTRE

A

METROPOLIZAÇÃO

SEGREGADA

E

O

CARNAVAL PRIVATIZADO É lindo ver O dia amanhecer, Com violões e pastorinhas mil, Dizendo bem, Que o Recife tem, O carnaval melhor do meu Brasil (Último Regresso – Getúlio Cavalcanti – 1982)

O grupo Direitos Urbanos por vezes se confunde com o Movimento Ocupe Estelita devido à equivalência das pautas e a presença de atores sociais envolvidos nas duas frentes. Entre eles é possível destacar o advogado Pedro Josephi5, que também atua como representante da Frente de Luta pelo Transporte Público de Pernambuco. O advogado, que vem intensificando sua militância desde as manifestações de 2013, moveu ações civis públicas contra a camarotização do Carnaval do Recife, argumentando a falta de amparo legal para cessão dos espaços públicos à iniciativa privada. “Há uma clara confusão entre a gestão pública e os interesses privados. Hoje, no meu entendimento, há um sequestro da coisa pública para interesses privados e isso fica muito evidenciado em quais são os grupos econômicos, os grupos de entretenimento que são beneficiários dessas camarotizações e dessa privatização do espaço público, como acontece, por exemplo, no Parador, no Recife Antigo” (JOSEPHI, 2017, APÊNCIDE A). Essa afirmação corrobora com o artigo “Segregação território e espaço público na cidade contemporânea”, no qual Angelo Serpa explica que: 5

O advogado Pedro Josephi concedeu a entrevista para este artigo por telefone, cuja transcrição encontrase no APÊNDICE A deste artigo.


Em verdade, os usuários privatizam o espaço público através da ereção de barreiras simbólicas, por vezes invisíveis. O espaço público transforma-se, portanto em uma justaposição de espaços privatizados; ele não é partilhado, mas, sobretudo, dividido entre os diferentes grupos. Consequentemente, a acessibilidade não é mais generalizada, mas limitada e controlada simbolicamente. Falta interação entre os territórios, percebidos (e utilizados) como uma maneira de neutralizar o “outro” em um espaço que é acessível a todos. (SERPA, 2014, p. 36)

O professor e também ativista do grupo Direitos Urbanos e do MOE, Leonardo Cisneiros6, relaciona esse simbolismo dos camarotes com o modelo de cidade empresarialista definido pelo geógrafo Marcelo Lopes de Souza (2013). De acordo com Cisneiros (2017), “estando em espaços públicos ou não, os camarotes privados competem com a festa pública e distorcem a democracia carnavalesca. (...) As pessoas acabam ficando com medo de se misturar nas ruas, mas ao mesmo tempo querem estar ali, só que de cima”. As frentes de atuação do grupo Direitos Urbanos não se restringem à capital pernambucana. Um exemplo disso ocorreu em dezembro de 2015, na tentativa da Câmara de Vereadores de Olinda votar, à surdina, a liberação das casas-camarotes dentro do perímetro do Sítio Histórico, mesmo sendo uma área tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que não comporta tais eventos privados sem que haja consideráveis impactos negativos. Pelo Facebook, integrantes do grupo articularam protestos e, mesmo após os legisladores aprovarem a medida, o então prefeito, Renildo Calheiros, recuou e vetou a liberação. Para Josephi (2017, APÊNCIDE A), o processo de camarotização das festas populares tem o propósito de estigmatizar a coisa pública, “a partir do momento que você sucateia os espaços públicos, ou seja, não permite uma estrutura pública de segurança, de saneamento, de limpeza e tudo mais, você força com que a gente tenha cada vez mais espaços privados em áreas públicas”. Apodemos observar ainda que, a política de preços desses espaços privilegiados, variando entre R$ 160 e R$ 9 mil, neste ano, reforça a ideia de exclusividade e restrição dos sujeitos em um território gentrificado. (...) A gente afasta as pessoas. No Carnaval, em específico, a gente dá a ideia de camarotização do Carnaval, isso não é à toa. Isso é um projeto de um grupo que lucra com a indústria do entretenimento, de desvirtuar e causar essa sensação na sociedade de que, pra brincar o Carnaval ou pra fazer 6

Ver Camarotes privados e Carnaval de rua disputam espaço no Marco Zero do Recife. Disponível em: http://carnaval.leiaja.com/noticias/2017/02/17/camarotes-privados-e-carnaval-de-ruadisputam-espaco-no-marco-zero-do-recife>. Acesso em: 20 abr. 2017.


qualquer tipo de situação festiva tem que ser em espaço fechado, privado, espaço de elite, segmentado (JOSEPHI, 2017, APÊNCIDE A).

Não bastasse o modelo comercial da festa, qualquer levantamento mínimo nas notícias divulgadas pelos veículos de comunicação vai revelar, através de inúmeras demonstrações públicas, a parceria entre empresários da construção civil e do entretenimento e membros da gestão socialista na Prefeitura do Recife, reforçando o entendimento sobre a dominação das elites e do capital nos processos sociais da cidade. “É o grupo Festa Cheia, do Augusto Acioli, é o grupo de empresários ligados ao Felipe Carreras, que é secretário estadual de Turismo, e Augusto Carreras que é vereador da cidade do Recife, da base do prefeito Geraldo Júlio” (JOSEPHI, 2017, APÊNCIDE A).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS As questões levantadas neste ensaio são fruto de debates ligados às culturas urbanas, disputas na cidade, manifestações culturais, espaço público e interações sociais, pesquisadas no Mestrado em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (PPCULT/UFF). Todavia, faz-se necessário um aprofundamento empírico para demonstrar o quanto a relação entre o processo de gentrificação do Recife e a apropriação de espaços públicos no carnaval é axiomática. Destarte, é importante notabilizar que o processo de privatização do Carnaval do Recife acaba por aproximar a festa do modelo de Carnaval de Salvador, marcado por elementos simbólicos de segregação – abadás, cordões de isolamento e os grandes camarotes –, acarretando uma descaracterização dos festejos pernambucanos. Este fenômeno é paradoxal à identidade cultural de festa de rua auferida ao carnaval recifense, cabendo, por si só, um detalhamento posterior dos seus efeitos. Ainda que as disputas no espaço público interfiram no modelo de festa, o carnaval preserva em sua própria resistência um caráter transgressor, que perpassa décadas, desde o período da Renascença, como constata Mikhail Bahktin, em sua tese de doutoramento sobre François Rabelais: “O carnaval revela-nos o elemento mais antigo da festa popular, e pode-se afirmar sem risco de erro que é o fragmento mais bem conservado desse mundo tão imenso quanto rico” (BAHKTIN, 1999, p. 189). Esse carnaval insubordinado produz uma inversão em uma sociedade de hierarquias e estruturas de poder muito bem definidas, no qual a rua é o único espaço


possível para que haja essas rupturas. E, numa sociedade capitalista que (sobre)vive para o consumo (BAUMAN, 2008), não há maior desobediência civil do que vivenciar uma festa popular sem pagar nada por ela.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1999. BAUMAN, Zygmunt. Vida para Consumo. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. __________________. Camarotes privados e Carnaval de rua disputam espaço no Marco Zero do Recife. Disponível em: <http://carnaval.leiaja.com/noticias/2017/02/17/camarotes-privados-e-carnaval-de-ruadisputam-espaco-no-marco-zero-do-recife>. Acesso em: 20 abr. 2017. CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Tradução de Viviane Ribeiro. 2. ed. Bauru: EDUSC, 2002. DIREITOS URBANOS. Recife, 2013. Disponível em: <https://direitosurbanos.wordpress.com/ocupeestelita-0/>. Acesso em: 4 mar. 2017. GAIÃO, Brunno; MELLO, Sérgio C.; LEÃO, André L. A teoria do discurso do Carnaval Multicultural do Recife: uma análise da festa carnavalesca de Recife à luz da teoria de Laclau e Mouffe. In: ENCONTRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS DA ANPAD, VII, 2013. Gramado. Anais. ANPAD. Disponível em: <http://br.123dok.com//document/ozlxgxgz-a-teoria-do-discurso-do-carnavalmulticultural-do-recife-uma-analise-da-festa-carnavalesca-de-recife-a-luz-da-teoria-delaclau-e-mouffe.html>. Acesso em 23 maio de 2017. GALO DA MADRUGADA. O Galo. Recife, 2017. Disponível <http://www.galodamadrugada.org.br/>. Acesso em: 27 maio de 2017.

em:

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. HARVEY, David. A liberdade da cidade. In: MARICATO, Ermínia et Al. (orgs.). Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo, 2013. HARVEY, David. Cidades rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo: Martins Fontes, 2014.


JOSEPHI, Pedro. Entrevista concedida à Mellyna Andréa Reis dos Santos Borges. Recife. 29 mar. de 2017. [A entrevista encontra-se transcrita no Apêndice "A" deste artigo] KOZINETS, Robert V. Netnografia: Realizando Pesquisa Etnográfica Online. Porto Alegre: Penso, 2014. __________________. Municípios brasileiros aparecem em ranking de cidades com mais arranha-céus no mundo. Infomoney. São Paulo, 2013. Disponível em: <http://www.infomoney.com.br/imoveis/noticia/2773555/municipios-brasileirosaparecem-ranking-cidades-com-mais-arranha-ceus-mundo>. Acesso em: 25 maio de 2017. RIBEIRO, Luiz. C. Q. A metrópole em questão: desafios da transição urbana. Observatório das Metrópoles, IPPUR/UFRJ. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2016. ROCHA, Maria Eduarda M. O Ocupe Estelita e a “nova política”. 2014. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/11/10/opinion/1415574846_646558.html>. Acesso em: 10 mar. 2017. PAIVA, Claudio; SERRANO, Paulo H. Movimento Ocupe Estelita: a ecologia da mídia e o imaginário político da cidade. Compós 2015. Disponível em: <http://compos.org.br/biblioteca/compos-2015-34ebc3f6-729d-45a8-b7bf3361bfe4f9a2_2875.pdf>. Acesso em 10 mar. 2017. PORTELA, Laércio. 2017. Camarote privado em espaço público: a privatização do Carnaval do Recife. Disponível em: <http://jornalggn.com.br/blog/marcozero/camarote-privado-em-espaco-publico-a-privatizacao-do-carnaval-do-recife>. Acesso em: 18 abr. 2017. PORTO DO RECIFE S.A. Disponível em: <http://www.portodorecife.pe.gov.br/>. Acesso em: 24 abr. 2017. SERPA, Angelo. Segregação, território e espaço público na cidade contemporânea. IN: VASCONCELOS, P., CORREA, R., PINTAUDI, S. (Orgs). A cidade contemporânea: segregação espacial. São Paulo: Editora Contexto, 2013. SOUZA, Diego Inglez. O que há por trás do Ocupe Estelita?. Revista Select, 2014. Disponível em: <http://www.select.art.br/o-que-ha-por-tras-do-ocupe-estelita/>. Acesso em: 4 mar. 2017. SOUZA, Marcelo L. Disputa simbólica e embates políticos na cidade empresarialista. IN: VASCONCELOS, Pedro de Almeida, CORREA, Roberto Lobato, PINTAUDI, Silvana Maria (Orgs). A cidade contemporânea: segregação espacial. São Paulo: Editora Contexto, 2013.


APÊNDICE A – Entrevista com o advogado Pedro Josephi (Março, 2017)

1) Quão grave você considera essa ocupação irrestrita dos espaços públicos por empresas privadas no Carnaval, juridicamente falando?

R. Há uma clara confusão entre a gestão pública e os interesses privados. Hoje, no meu entendimento, há um sequestro da coisa pública para interesses privados e isso fica muito evidenciado em quais são os grupos econômicos, os grupos de entretenimento que são beneficiários dessas camarotizações e dessa privatização do espaço público, como acontece, por exemplo, no Parador, no Recife Antigo. É o grupo Festa Cheia, do Augusto Acioli, é o grupo de empresários ligados ao Felipe Carreras, que é secretário estadual de Turismo, e Augusto Carreras que é vereador da cidade do Recife, da base do prefeito Geraldo Júlio. Então a gente observa, por exemplo, que aquele espaço foi privatizado, aquele espaço deveria ser utilizado para área de convivência, um espaço de convenções, para algo que pudesse ter uma serventia a toda sociedade. Mas ele, no nosso entendimento, isso ainda vai ser julgado pela justiça, foi feita uma desvirtuação, um desvio de finalidade para aquele espaço e hoje ele serve habitualmente como espaço de entretenimento. E aí você observa quais são as empresas que hoje lucram com aquele espaço. São as empresas ligadas ao secretário...

2) Você acha que pode haver relações conflituosas entre os gestores públicos e a iniciativa privada?

R. Tenho observado que todas as festas de entretenimento naquele espaço são feitas por apenas um grupo de entretenimento, o que fica muito evidente pra gente de que há um benefício de um grupo específico. Então, a confusão entre interesses privados e a gestão pública ela é evidente. E não só nessa área de entretenimento. A gente observa em outras áreas também, como a da saúde, a Fundação Imip, que tem o seu ex-presidente da Fundação Alice Figueira como secretário da Casa Civil [Antônio Carlos Figueira], é que tem a gestão da maioria das UPAs, através das OSSs e Oscips. Então, nesse modelo de gestão do PSB, do governo do Estado e da Prefeitura do Recife tem essa confusão.


3) Você acha que o processo de privatização dos espaços públicos do Carnaval têm alguma relação ou semelhança com o processo de gentrificação que a cidade vem sofrendo?

R. Em relação ao processo de gentrificação isso é evidente. A partir do momento que você sucateia os espaços públicos, ou seja, não permite uma estrutura pública de segurança, de saneamento, de limpeza e tudo mais, você força com que a gente tenha cada vez mais espaços privados em áreas públicas. A gente afasta as pessoas. No Carnaval, em específico, a gente dá a ideia de camarotização do Carnaval. Isso não é à toa. Isso é um projeto de um grupo que lucra com a indústria do entretenimento, de desvirtuar e causar essa sensação na sociedade de que, pra brincar o Carnaval ou pra fazer qualquer tipo de situação festiva tem que ser em espaço fechado, privado, espaço de elite, segmentado. No meu entendimento, além dessas irregularidades jurídicas, tanto no Galo da Madrugada, que subloca para algumas empresas privadas espaços públicos, como embaixo do viaduto da Avenida Sul, na Praça Sérgio Loreto, isso sem controle social, sem controle da prefeitura, sem contrapartida do Galo da Madrugada, que é uma entidade privada, que é uma empresa privada que lucra com isso, tanto nesses espaços, que dificultam o escoamento de pessoas, quanto no espaço do Parador. Na minha ótica, os processos são semelhantes e eles não estão deslocados do que tem acontecido na cidade do Recife e na maioria das capitais, esse processo de segregação e disputa do espaço público pelos interesses corporativistas privados. E o pior: sem a democratização das decisões. A sociedade não tem acesso a decidir o que ela quer, para aquele espaço, a destinação do espaço, que forma se daria essa utilização. É nesse sentido que nós manejamos as ações judiciais. Não tivemos sucesso na liminar, mas o mérito vai ser discutido ao longo do processo.


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