Page 1

1

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA

O bairro e a escola de samba: sociabilidade e pertencimento em Vila Isabel (RJ)

Mayra Salgado Poubel Rio de Janeiro/2012


2

O bairro e a escola de samba: sociabilidade e pertencimento em Vila Isabel (RJ)

Mayra Salgado Poubel

Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia).

Orientadora: Profa. Dra. MARIA LAURA VIVEIROS DE CASTRO CAVALCANTI

Rio de Janeiro 2012


3

O bairro e a escola de samba: sociabilidade e pertencimento em Vila Isabel (RJ)

Mayra Salgado Poubel

Orientadora: Profa. Dra. Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti

Dissertação de mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia).

Aprovada por:

_________________________________________________ Profa. Dra. Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti

_________________________________________________ Profa. Dra. Karina Kuschnir

_________________________________________________ Prof. Dr. Nilton Silva dos Santos

Rio de Janeiro Outubro/2012


4

A meu querido Feliphe, companheiro amoroso. Aos meus pais, apoio fundamental. Aos moradores e integrantes da escola que viabilizaram esta dissertação


5

Agradecimentos

Finalizar uma etapa tão importante da minha formação, como o mestrado, faz com que me lembre de todo mundo que foi importante e contribuiu de alguma forma para que isso se concretizasse. Agradeço primeiramente aos meus pais, que tornaram tudo isso possível. A minha mãe pelo exemplo de mulher determinada, guerreira e que é capaz de tudo para ajudar e proteger os seus filhos. Além disso, foi ela que me apresentou o mundo maravilhoso que a leitura proporciona e que me aguçou o gosto pelos estudos. Ao meu pai de quem herdei o gosto pelo samba, o jeito mais descontraído e o coração mole. Sem os dois, nada disso faria sentido. Agradeço também a minha irmã, Cyntia, que mesmo com temperamento tão diferente do meu sempre esteve ao meu lado quando precisava. Mesmo sem ser de sangue, a minha irmã de coração Rosangela foi o ombro amigo das horas de desânimo e desespero. Foi o meu alicerce nas horas difíceis, e companheira das horas alegres. Tenho a sorte de ter perto de mim amigos que tornam a vida muito melhor e agradeço a todos eles: Thais, Deise, Ludmila, Paloma, Flavia, Bruno, Luciana, Paola. Muito Obrigada. Tem também aqueles que participaram da trajetória acadêmica e que ajudaram no cotidiano desta etapa com sua presença e contribuições, Mayara, Thais e Fabiana. A Fabiana foi mais do que amiga, foi incentivadora e exemplo para que eu seguisse em frente. Ela me mostrou que é possível ser extramente disciplinada, esforçada e inteligente e também divertida, animada e feliz. Amiga de estudos, amiga de copo. Minha família também tem parcela muito importante nessa conquista. Meus sinceros agradecimentos a todos: tios, primos, avó. Tio Flavio e tia Waldice sempre tão humildes e generosos estiveram sempre dispostos e preocupados em ajudar. Amigos são a família que a gente escolhe. E os meus finais de semana eu tenho passado na casa dos meus afilhados Luisa e Danilo, sempre com a companhia da Vanessa e Rodrigo. Uma nova família que se formou. E parte da família que um dia ainda vou formar está o Feliphe. Títulos e nomeações, como namorado, não são suficientes para descrever a parceria que firmamos. Ele me aceita, me incentiva, me acompanha. Nós aprendemos a lidar com


6

nossas diferenças, aceitá-las e tentar absorver do outro o que ele tem de melhor a oferecer. À minha orientadora Maria Laura Cavalcanti, agradeço a paciência por entender minhas dificuldades e demoras. Quando saía das nossas reuniões ficava sempre maravilhada com a sua inteligência e sensibilidade de perceber tudo aquilo que eu estava querendo dizer, e não dizia, e o que estava me impedindo de caminhar. Sua ajuda foi fundamental. Agradeço a todos os colegas da minha turma de mestrado que ajudaram com críticas e contribuições e também a professora Mirian Goldemberg que me incentivou a continuar com o meu tema de pesquisa. Por fim agradeço a CAPES que financiou esta pesquisa, dando condições e suporte para que ela fosse realizada.


7

Resumo

Esta pesquisa procura analisar a relação entre um bairro e uma escola de samba do bairro de Vila Isabel localizados na cidade do Rio de Janeiro (RJ), vislumbrando as múltiplas relações que se constituem a partir da convivência dos indivíduos no bairro e nas atividades promovidas pela escola de samba. Observação participante e entrevistas formais e informais foram elementos importantes para a análise e construção de resultados que tiveram como abordagem teórica um diálogo com os estudos de antropologia urbana e do carnaval. A etnografia foi o elemento responsável pelo processo de se entender a metrópole a partir da experiência daqueles que nela vivem. O resultado obtido foi o de que os moradores do bairro de Vila Isabel compartilham de alguma forma, dos mesmos atributos e qualidades. O bairro de Vila Isabel não é, assim, uma simples expressão geográfica e sim uma vizinhança: sua história se converte em sentimentos e tradições vividos por seus moradores. Vila Isabel foi se tornando assim, a partir da agência dos seus moradores, uma localidade possuidora de características e história própria que são preservadas e exaltadas por seus moradores enquanto particularidade do bairro. Este forte sentimento de pertencimento é utilizado pela diretoria da escola de samba para mobilizar seus componentes em torno de uma causa comum: as alas da comunidade. A falta de definição e falta de limites bem definidos do que é comunidade de Vila Isabel faz com que todos sejam. Isto é, comunidade acaba sendo uma denominação que engloba a todos que se sentirem participantes. As pessoas de uma mesma localidade têm na escola de samba o estabelecimento de discursos e práticas em comum, e pertencer a uma mesma escola de samba influencia e dá significados compartilhados pelas pessoas envolvidas. O gosto pelo carnaval e pelo samba, o gosto pelos bares e pela feijoada, e os laços de vizinhança instauram redes de relações ancoradas numa presença constante em um determinado espaço. Surgem assim relações de sociabilidade criadas a partir de pertencimentos em comum. Palavras chave: Sociabilidade – Pertencimento – Antropologia urbana – CarnavalBairro


8

Abstract This research analyses the relationship between the Vila Isabel neighborhood and a carnival school, both of them in Rio de Janeiro, and tries to find different consequences resulting from carnival activities. Participant observation and formal or informal interviews are used to look for a dialogue between other research about Urban Anthropology and carnival. The Ethnography was used as an element to understand the metropolis as result from the experience of those whom live there. The conclusion is that Vila Isabel dwellers share the same qualities and characteristics. Vila Isabel is more than just a neighborhood, in the geography sense, and can be considered propinquity: the dwellers share a history and feelings and they make the area a special place. This strong sense of belonging is used by the carnival school directors to mobilize the community around the “community ala”. Vila Isabel does not have a rigid limitation, because is able to accept everyone who feels as a community member. These people see the carnival school as reference to practices and meanings and they are: samba, bars, feijoada and friendships. The result is a sociability made from common belongings. Keys words: Sociability – Belonging – Urban Anthropology – Carnival – Neighborhood


9

Sumário Introdução O Carnaval como um ritual...........................................................10 A cidade como objeto de estudo..................................................13 Estudando o familiar.....................................................................14

Capítulo 1 - O bairro e a escola de samba Da Fazenda dos Macacos a Vila Isabel- breve histórico...............18 Vila Isabel pela ótica dos moradores.............................................32 O esforço de preservação da “tradição cultural do bairro”............40

Capítulo 2 - A construção da comunidade: moradores ou componentes? A Unidos de Vila Isabel na lógica competitiva Nada é de graça, vamos ensaiar.........................................................61 Os momentos do carnaval: a troca em torno da comunidade............65

Capítulo 3 – A Construção da comunidade: relações de sociabilidade É na 28 que a gente brinca................................................................76 O ensaio de rua pela ótica de uma moradora do bairro......................79 O carnaval não acaba na quarta-feira de cinzas..................................92

Conclusão................................................................................................................97 Bibliografia.............................................................................................................101


10

Introdução O Carnaval como um ritual

Em toda sociedade humana, há a demarcação do tempo cotidiano e do tempo do extraordinário. Nesses dias extraordinários, que podem ser festivos, religiosos, funerários, dentre outros, há a realização de ritos específicos. O estudo desses períodos pode fornecer ao antropólogo valiosas ferramentas para a compreensão da sociedade em questão, pois os rituais são um fato social total (MAUSS, 1978) onde vários aspectos da vida social estão interligados. Entra em cena uma forma específica de desordem que traz consigo formas expressivas (canto, dança, música) que suspende o tempo rotineiro, instaurando um tempo excepcional e festivo que depende de mecanismos de ritualização universais e de deslocamentos simbólicos críticos (CAVALCANTI, 2009, p.9). Em oposição aos acontecimentos que são marcados pela imprevisibilidade, os rituais “se constituem no que pode ser chamado de extraordinário construído pela e para a sociedade” (DAMATTA, 1997, p.47). Atribuindo ao processo ritual um caráter abrangente, DaMatta (1997) compreende o carnaval como um ritual que consegue colocar em close up as coisas do mundo social (DAMATTA, 1997). Isto porque, segundo DaMatta, os rituais, assim como qualquer conduta simbólica, destacam e enfatizam certos aspectos da realidade. Os rituais engendrariam uma série de combinações do mundo cotidiano, isto é, não transformariam o mundo social, mas tornariam certos aspectos mais visíveis do que outros. “O mundo ritual é, então, uma esfera de oposições e junções (...). É nesse processo que as “coisas do mundo” adquirem um sentido diferente e podem exprimir mais do que aquilo que exprimem no seu contexto normal”. (DAMATTA, 1997, p.76). O autor afirma que os rituais só podem “dizer coisas” porque as diferenças entre vida ritual e vida diária são de grau e não de qualidade. Isto é, a matéria prima do mundo ritual seria a mesma da vida diária e, por isso, os rituais podem revelar tantas coisas acerca das relações sociais. Quando se entende um, se entende o outro. No caso do carnaval brasileiro, DaMatta conclui que esse ritual é uma perspectiva - dentre outras possíveis- acerca da realidade brasileira. Isto se justifica pela posição escolhida pelo autor que é a de: Tomar o carnaval como um reflexo complexo, um comentário complicado sobre o mundo social brasileiro, e não um reflexo direto de sua estrutura


11

social. Desse modo, reflexo e realidade são como as duas faces de uma mesma moeda, cada um esclarecendo o outro. (DAMATTA, 1997, p.88).

Esta investigação tem como base a abordagem processual dos rituais, pois considera todos os momentos do ciclo ritual como partes constitutivas para referência e análise do momento festivo propriamente dito. É assim, uma perspectiva que valoriza uma visão processual da sociedade, destacando a importância do desenrolar do tempo, tal como proposto pelo trabalho de Turner (1974). No caso específico do carnaval das escolas de samba no Rio de Janeiro, nos interessa especialmente o fato salientado por Cavalcanti (2008) de o ano carnavalesco ter como referência a realização do desfile, o ponto culminante de sua confecção, ligando sempre a realização de um carnaval ao carnaval subsequente. Retomando os estudos de ritual elaborados por Turner (1974), Radcliffe-Brown (1973) e DaMatta (1973), a autora afirma que, no caso do desfile das escolas de samba, ocorre anualmente uma renovação ritualística do ciclo de preparação do carnaval. Como nas escolas de samba tudo converge para o desfecho festivo, na maior parte do tempo o ano carnavalesco está um ano à frente do ano cronológico. Isso instaura uma temporalidade bem particular, que a autora denomina como “ano carnavalesco”. Fala-se em ano carnavalesco e não apenas carnaval, pois, carnaval “significa não apenas a festa, mas toda a sua preparação, ao longo do qual um novo enredo transformar-se-á gradualmente em samba-enredo, em alegorias e em fantasias” (CAVALCANTI, 2008, p.23). Ao compreender o processo ritual do desfile carnavalesco, desde a sua preparação até o ponto culminante que é a sua passagem pela Marquês de Sapucaí, vislumbram-se teias de relações e significados sociais da cidade do Rio de Janeiro de forma geral. O desfile carnavalesco abarca um processo ritual em que todos os momentos de seu ciclo são criadores de laços e de formas particulares de sociabilidade. Criam-se assim, dentro de um único ciclo carnavalesco de uma escola de samba, muitos contextos diferenciados. Embora articulados e sempre convergindo para o destino final do desfile, esses diferentes contextos revelam dimensões socioculturais muito diversas do carnaval e da vida mesmo da cidade. Essa visão possibilita diversos olhares e interpretações, os múltiplos planos, enfim, sugeridos no título do livro organizado por Cavalcanti e Gonçalves (2009) que reuniu um grupo de trabalhos sobre uma variedade de assuntos – a Cidade do Samba (Barbieri); os sambas de exaltação da Portela e sua


12

torcida virtual (Ericeira); a dança nobre do casal de mestre-sala e porta-bandeira (Gonçalves), os passistas da Mangueira (Toji), a arte dos carnavalescos (Santos) 1. Esta é também a perspectiva adotada por este trabalho que investiga as relações criadas, na convivência dos indivíduos e grupos, durante o ciclo de preparação para o ritual carnavalesco a partir de um estudo de caso acerca da relação existente entre o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Vila Isabel e o bairro da zona norte do Rio de Janeiro onde a escola está sediada, o bairro de Vila Isabel. O ponto principal deste trabalho, e o que o diferencia dos estudos já realizados, é a percepção de que existe em Vila Isabel um processo peculiar de vinculação entre bairro e escola de samba. Distintamente do que ocorre em bairros onde a escola de samba local teve um papel ativo na construção da tradição relacionada ao bairro, como é o caso, por exemplo, da Portela (PAVÃO, 2009), já existia em Vila Isabel uma identidade musical referente ao samba, marcado principalmente pela lembrança do compositor Noel Rosa (1910-1937), bem antes da fundação da escola ocorrida apenas em 1946. Assim, em seu o processo de criação de significados e pertencimentos, a escola de samba incorporou, ao surgir, elementos e símbolos já existentes nas narrativas sobre o bairro. Por essa razão, a relação da escola com o bairro em que está sediada adquire uma dimensão privilegiada. Como veremos no caso estudado, os moradores de uma mesma localidade têm na escola de samba uma referencia para a construção de identidades sociais, estabelecendo discursos e práticas em comum. O fato de pertencer a uma escola de samba de determinado bairro cria relações entre as pessoas, atuando na construção de identidades e representações sociais que orientam as práticas dos moradores dessas localidades e, muitas vezes, constroem-se através da escola de samba, relações que distinguem o próprio bairro do contexto mais amplo da cidade. Como veremos grande parte das atividades que animam o ano carnavalesco destina-se, assim, à criação coletiva desses marcos identitários que constroem significados compartilhados pelas pessoas envolvidas. No cotidiano do ano carnavalesco, vivenciado desde dentro de uma escola de samba, criam-se laços que promovem imagens do bairro .

1

Ver Cavalcanti e Gonçalves (2009) onde se encontra artigos de todos os autores citados.


13

A cidade como objeto de estudo Simmel (1979) foi um dos estudiosos pioneiros que elegeram a cidade como foco de análise, e preocuparam-se com a compreensão das relações estabelecidas em um local próximo ao pesquisador: a metrópole. A influência dos estudos simmelianos no Brasil teve como marco fundador os trabalhos de Gilberto Velho (1970). Estes estudos urbanos destacam a complexidade e heterogeneidade das sociedades que têm na grande cidade uma de suas expressões acabadas, pois nela coexistem diferentes estilos de vida e diferentes percepções do mundo. Porém, mesmo em um ambiente com uma série de características heterogêneas, em que um indivíduo pode pertencer a diferentes grupos, redes e círculos sociais, é possível a percepção de certas experiências básicas comuns. Isso significa que, mesmo a cidade sendo marcada pela pluralidade, pode-se produzir neste ambiente interesses em comum compartilhados por indivíduos nitidamente diferenciados (VELHO, 1973, 2003). Nesta pesquisa, estou privilegiando o fato de pessoas de diferentes camadas sociais partilharem entre si um sentimento de união marcado ora pelo pertencimento ao bairro ora pelo pertencimento a uma escola de samba, ou aos dois ao mesmo tempo. Este estudo enquadra-se, assim também, nos estudos da chamada antropologia urbana por produzir reflexões sobre as relações, estilos de vida, visões de mundo e interações sociais que se dão no âmbito da cidade. Aproxima-se dos estudos realizados por Park (1979) que estabelece uma relação entre sociabilidade e cidade moderna a partir da convivência, interação e associação estabelecidas com base nas relações de vizinhança principalmente em bairros residenciais com tradições históricas próprias. Este é o caso do bairro de Vila Isabel, aqui pensado como uma região moral, isto é, uma região em que interesses, gostos e paixões são compartilhados por muitos de seus moradores. Cabe ressaltar também o entendimento da cidade proposto por Magnani (2002). Este autor propôs como método etnográfico, um olhar “de perto e de dentro” ao invés de um “de fora e de longe”, isto é, uma perspectiva capaz de identificar, descrever e refletir padrões comportamentais de “múltiplos, variados e heterogêneos conjunto de atores sociais cuja vida cotidiana transcorre na paisagem da cidade e depende de seus equipamentos” (MAGNANI, 2002, p.17). Trata-se de investigar de um lado, os atores sociais, com seus múltiplos arranjos coletivos, e, de outro, a paisagem em que essa prática se desenvolve, não somente como cenário, mas também como recorte constitutivo da análise. Desse modo, é possível a


14

percepção da existência de grupos, encontros, arranjos e mediações por meio dos quais o indivíduo deixa de ser uma abstração dentro da massificação e do anonimato da grande cidade e passa a ser responsável cotidiano pela dinâmica ativa do espaço e dos equipamentos urbanos ao usá-los em seu trabalho, lazer e cultura.

Estudando o familiar Nesta pesquisa, deparei-me com as peculiaridades antropológicas do estudo de um ambiente familiar. Há um número considerável de reflexões acerca da problemática da construção de conhecimento quando há uma relação de familiaridade com o objeto de estudo (CAVALCANTI, 2003; DAMATTA, (1978); MAGNANI, (2003); VELHO, (1978)). Estes estudos apontam para as dificuldades encontradas na construção de abordagens que privilegiam os universos de origem do próprio pesquisador com seus sistemas e redes de relações em um movimento que requer o esforço de “desnaturalizar noções, impressões, categorias” (VELHO, 2003, p. 15). É necessário estranhar o familiar de modo a que o conhecimento propriamente dito desse universo possa ser alcançado. Barbieri (2010, p.14), em seu estudo sobre a Acadêmicos do Dendê – uma pequena escola de samba do bairro da Ilha do Governador – aponta como “razões de formação e trajetória pessoal exigiram o constante exercício de distanciamento”. Eu também tenho uma relação de proximidade com o meu objeto de pesquisa. O bairro de Vila Isabel é um local com o qual sempre tive familiaridade e muitos laços afetivos. Nele passei grande parte da minha infância e sempre foi um local onde me sentia “em casa”. DaMatta (1974), ao comentar os problemas da construção do conhecimento em antropologia, definiu o familiar como um processo que vai do “estômago para a cabeça”. Esta pesquisa é fruto de um processo que vai do coração para a cabeça, pois a familiaridade, no meu caso, é também uma forte afetividade. Foi necessário um sistemático “desligamento emocional para tornar o familiar exótico”, (DAMATTA, 1974, p.85). Eu conhecia bem as ruas, os bares, as lojas, as escolas de Vila Isabel e, apesar de atualmente não ser mais moradora deste bairro (mas de um pequeno bairro do subúrbio), com a proximidade geográfica e a facilidade de locomoção continuo frequentando com regularidade as ruas do bairro. Da mesma forma, a Unidos de Vila


15

Isabel, faz parte das minhas lembranças. Recordo bem, por exemplo, quando meu pai levava a mim e a minha irmã para ficar na porta da vila em que morávamos para acompanhar o ensaio da Vila Isabel no Boulevard Vinte e Oito de Setembro. Também quando eu ia ao trabalho da minha mãe, na Escola Municipal Equador, ficava fascinada com a visão das fantasias sendo confeccionadas pelas costureiras e com a transformação da quadra de esportes da escola em quadra de ensaios2. Não se trata só lembranças infantis, mas até o meu próprio nome, “Mayra”, foi escolhido por meus pais como uma homenagem à letra de samba-enredo da Vila Isabel do ano de 1987, ano que nasci, que dizia em seus versos: “A Vila Isabel incorporada de Maíra”. Na composição, a Vila Isabel era incorporada por Maíra (personagem indígena extraído do livro homônimo de Darcy Ribeiro publicado pela primeira vez em 1976), mas o que ocorreu, quando busquei a formação do mestrado, foi a Mayra quem incorporou a Vila Isabel, que virou, assim, meu objeto de pesquisa. Embora seja necessário o uso cauteloso de categorias e ideias pré-existentes, evitando a criação de expectativas que direcionem as ações, interações e observações do pesquisador, impedindo-o de construir e conhecer o objeto de estudo, as ideias anteriores, aquelas construídas desde dentro da familiaridade pré-existente com o objeto escolhido para a investigação, podem servir para inferências iniciais. Assim eu procedi, ao utilizar o conhecimento e a informação que já tinha sobre as ligações existentes entre o bairro de Vila Isabel e a Escola de Samba Unidos de Vila Isabel a serem investigadas, em um movimento próximo ao descrito por Velho (2003): o de transformar em objeto de pesquisa parte significativa de minha rede de relações sociais, formada ao longo dos anos de intensa convivência com o bairro. Conhecidos, ex-vizinhos, colegas de turma da época em que estudava em um tradicional colégio católico do bairro3, o Educandário Sagrada Família, e até os alunos que encontrava semanalmente em projeto de qualificação profissional dentro do Morro dos Macacos4

2

Durante a década de 1990 a escola de samba passou por uma grave crise financeira, e sem ter sede onde ensaiar e realizar os preparativos carnavalescos, utilizava as dependências pertencentes a Escola Municipal Equador, localizada no Boulevard Vinte e Oito de Setembro, que era local de trabalho da minha mãe. Algumas salas se transformavam em improvisados ateliês de costura e a quadra utilizada pelos alunos durante as aulas de educação física serviam de local para o ensaio da escola de samba. 3 Estudei no Educandário Sagrada Família entre os anos de 1990 e 1997, saindo do colégio quando estava na antiga quarta-série do ensino fundamento e me mudei do bairro de Vila Isabel 4 O morro dos Macacos compõe junto com Parque Vila Isabel e Pau da Bandeira o denominado “Complexo dos Macacos”, complexo de morros que circundam o bairro de Vila Isabel juntamente com a favela Alto Simão/Pantanal.


16

(entre os meses de novembro de 2011 e fevereiro de 2012), foram utilizados como parte integrante da análise. Eu gostava, e gosto, da escola de samba, tinha, e tenho, uma relação afetiva com o bairro, mas, como pesquisadora, foi preciso criar as condições para as minhas investigações. Esta dissertação resulta desse empreendimento. Conforme apontado por Velho (2001), a complexidade do mundo real com suas várias dimensões, atua na construção de múltiplos pertencimentos em que os indivíduos participam de diferenciados grupos, redes e círculos sociais. Em certa medida “é esse multipertencimento que permite ao antropólogo pesquisar sua própria sociedade e, dentro dela, situações com as quais ele tem algum tipo de envolvimento e das quais participa.” (VELHO, 1978, p.18). Durante a pesquisa, eu era, então, a professora, a conhecida, a colega de ala, mas era também a pesquisadora e antropóloga em formação. Neste quadro, utilizei-me durante de diferentes estratégias para a construção do conhecimento, visto que cada experiência de campo exige do pesquisador a capacidade de construção de estratégias diferenciadas. Embora tenha obtido um número considerável de entrevistas formais (cerca de trinta), posso dizer que predominaram as situações informais. As conversas ocuparam um lugar de destaque nas situações da observação participante que elegeu os eventos do período pré-carnavalesco, tais como os ensaios de rua ocorridos no Boulevard Vinte e Oito de Setembro5, ensaios de quadra e feijoadas mensais, como seu foco. Uma experiência importante foi a minha atuação como professora de um projeto social dentro do Morro dos Macacos. Participei do projeto “Qualificando para a paz” nas favelas do Pavão/Pavãozinho/Cantagalo em Ipanema, Providência no centro da cidade, e Rocinha. Quando soube que iria também para o Morro dos Macacos em Vila Isabel, fiquei empolgada pois, acreditei que ali poderia encontrar valioso material análise para a minha pesquisa. Com o objetivo de oferecer cursos profissionalizantes para jovens de 15 a 24 anos, moradores de áreas ocupadas pela polícia, o contato com os alunos e com os frequentadores do prédio onde ocorriam as aulas possibilitou a acesso a pessoas, opiniões e percepções que suscitaram questões não previstas inicialmente, mas que em muito contribuíram para a compreensão antropológica. Assim, durante a minha pesquisa tive a postura do “deixar-se levar” como dito por Cavalcanti (2003, p.18), e utilizei os 5

O nome Boulevard deve-se à tentativa de fazer em Vila Isabel uma arquitetura semelhante a francesa.


17

relatos e as narrativas dos atores como ponto de partida e pista no processo de construção do conhecimento. A pesquisa foi iniciada setembro do ano de 2010 e se estendeu até abril de 2012. Na indecisão entre apenas acompanhar os desfiles como observadora ou me inscrever em uma das alas da “comunidade”, e participar do desfile como integrante, acabei conciliando as duas posições: no carnaval de 2011 participei como integrante e membro de uma ala da comunidade, e no de 2012 participei como observadora. A realização do trabalho de campo em duas etapas distintas não foi apenas um artifício, mas um elemento primordial na elaboração das questões investigadas. Como integrante da escola, tive acesso a dinâmicas, conflitos e experiências que não são facilmente percebidos por quem está apenas acompanhando os ensaios na condição de expectadora ou observadora. Em contrapartida, no desenvolvimento do ensaio, eu ficava restrita ao espaço da ala da qual fazia parte, circulando pelas outras alas apenas no início e fim dos ensaios. Esta experiência foi fundamental não só para a definição de um ponto de vista para a pesquisa – a visão desde dentro de uma ala da comunidade - como também para despertar questões que, nos preparativos do carnaval de 2012, já na situação de observadora e não mais de integrante, pude observar mais atentamente. No primeiro capítulo, abordarei a questão da identidade musical que foi sendo construída para o bairro de Vila Isabel, tendo como figura central o compositor Noel Rosa. O segundo e o terceiro capítulo são, na verdade, complementares. Neles investigo a construção social da ideia de comunidade no contexto da escola de samba e procuro mostrar como o termo comunidade pode ora servir aos interesses e estratégias desenhados pela diretoria da Vila Isabel e ora pode servir para compreendermos a formação efetiva de laços de sociabilidade entre os componentes da escola e os moradores do bairro.


18

Capítulo 1 - O bairro e a escola de samba A partir de diferentes perspectivas formuladas sobre o bairro de Vila Isabel, em especial aquela da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, examinarei neste capítulo o processo ativo de construção identitária que enfatiza a relação do bairro com uma musicalidade: o samba. Neste processo de construção de uma identidade musical, a figura do compositor Noel Rosa (1910-1937) tem grande importância, sendo sempre exaltado como símbolo do bairro e da Escola de Samba. Apresento inicialmente um breve histórico do bairro de Vila Isabel, assim como do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Unidos de Vila Isabel 6 para que alguns elementos apontados ao longo do trabalho sejam mais bem compreendidos. Este panorama tem, portanto, o intuito de situar o objeto de estudo historicamente. Na segunda seção, pretendo demonstrar como os símbolos tanto do bairro como da Escola de samba – com suas justaposições e apropriações- constituem atualmente um processo ativo de construção identitária. Da Fazenda dos Macacos a Vila Isabel7- breve histórico Vila Isabel é um bairro da zona norte do Rio de Janeiro localizado na área denominada Grande Tijuca. Hoje um bairro urbano, teve sua história iniciada com a antiga Fazenda dos Macacos (nome que deu origem à principal favela da região: o Morro dos Macacos). Inicialmente, era propriedade dos jesuítas e após o confisco da Coroa Portuguesa dos bens da Companhia de Jesus na segunda metade do século XIX, a fazenda ficou abandonada até a proclamação da independência quando virou propriedade do império brasileiro. Posteriormente, a quinta dos macacos foi dada como presente para a segunda esposa de Dom Pedro I, Amélia de Beauharnais. Em 1871, após a promulgação da Lei do Ventre Livre, João Batista Viana Drummond (1825-1897), futuro barão de Drummond, adquiriu a Fazenda dos Macacos e deu início à construção do primeiro bairro planejado do Rio de Janeiro, o bairro de Vila Isabel. Envolvido com o movimento abolicionista, Drummond nomeou o recém6

Por motivo de praticidade ao longo do texto irei me referir à Grêmio Recreativo e Escola de samba Unidos de Vila Isabel apenas como Unidos de Vila Isabel. 7 Sobre a história de Vila Isabel ver Borges e Borges (1987); Aragão (1997); e no site www.vilaisabel.com.br


19

criado bairro como uma homenagem à princesa Isabel, responsável pela Lei Áurea que determinou a libertação dos escravos. Ruas e praças também foram nomeadas em alusão ao movimento abolicionista. , Em 1873, a Companhia Arquitetônica iniciou a urbanização da área tendo como projeto a criação de um bairro com moldes Mapa do traçado das ruas do bairro de Vila Isabel no ano de 1872

arquitetônicos franceses. Com este intuito foi criada uma larga avenida: o Boulevard8 Vinte e oito

de setembro, único logradouro da cidade que leva o termo Boulevard em seu nome. Ali foi instalada a Companhia Ferro Carril de Vila Isabel, que tendo como presidente o barão de Drummond, foi responsável pela instalação da linha de bonde que cortava o bairro. No recém-criado bairro, o Barão de Drummond fundou o primeiro Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, onde começou o jogo do bicho, uma prática comum ainda nos dias de hoje, embora clandestina. Considerado o primeiro Jardim Zoológico da cidade, funcionava, até a proclamação da República, com subvenções do governo. Quando essa subvenção foi interrompida, o Barão de Drummond já sem dinheiro para manter os altos custos, teve que encontrar alguma alternativa. DaMatta e Soárez (1999) apontam que o jogo do bicho foi uma adaptação do Barão de Drummond do jogo das flores inventado por um mexicano e jogado na rua do Ouvidor, criado com o intuito de arrecadar fundos para pagar os custos com a manutenção do zoológico. Se lá o jogo era com flores, no zoológico, que ficava em Vila Isabel, o jogo era com os bichos e viabilizou o financiamento dos altos custos do empreendimento. No ingresso que o visitante comprava para entrar no zoológico, vinha estampada a imagem de um bicho. Se no final do dia o bicho sorteado correspondesse ao bicho de seu ingresso, o visitante ganhava um prêmio. Depois de algum tempo, o animal não era mais escolhido aleatoriamente pelo ingresso adquirido na entrada, e sim escolhido pelo visitante. Por este motivo, em 1895, quando a prática já não era mais restrita aos

8

Boulevard é um termo francês que designa um tipo de via de trânsito, geralmente larga, com muitas pistas divididas nos dois sentidos, geralmente projetado com alguma preocupação paisagística.


20

visitantes do Jardim Zoológico de Vila Isabel, o governo o caracterizou como jogo de azar e proibiu sua prática, O barão tão ligado à história de Vila Isabel criava então não só uma salvação para as rendas de seu zoológico, mas também um jogo que entraria para as tradições da cidade e do país movimentando nas décadas seguintes uma cifra enorme e ilegal de dinheiro. Alguns dos banqueiros das apostas do jogo do bicho, chamados bicheiros, tiveram participação importante no desenvolvimento das escolas de samba na figura do “patrono”. Esses personagens são peças fundamentais para o entendimento das mudanças pelas quais passaram as escolas de samba ao longo do tempo e muitas vezes no próprio surgimento de uma agremiação organizada9. Cabral (2011) recorda que o desfile da escola de samba “Não somos lá essas coisas”, no ano de 1933, foi a primeira manifestação literal da aproximação das escolas de samba com o jogo bicho. Essa escola desfilou com cinco painéis com os bichos do jogo para falar de seu enredo sobre loteria. O sucesso do jogo implantado no zoológico foi muito grande e chegavam pessoas de diferentes partes da cidade atrás da invenção. Os bondes para Vila Isabel viviam lotados - principalmente aos fins de semana – obrigando a Cia de bondes a disponibilizar mais bondes para circular nessa região e também propiciando o crescimento do comércio no caminho que levava até o jardim Zoológico, principalmente no Boulevard Vinte e Oito de Setembro. O Boulevard Vinte e Oito de Setembro estabeleceu-se como a rua mais importante do bairro. Principal via de acesso a estrada Grajaú-Jacarepaguá, lá se concentram as lojas comerciais, bares e restaurantes. Nas décadas de 1920/30 o compositor Noel Rosa era um assíduo Mapa atual do bairro de Vila Isabel com seus pontos de referência: a quadra da escola de samba, o hospital universitário Pedro Ernesto, o Shopping Iguatemi, etc.

frequentador dos bares da região de Vila Isabel e seu nome é até hoje referência quando se fala deste bairro da zona norte do Rio de Janeiro.

9

Sobre o patronato dos bicheiros no carnaval ver Cavalcanti (2009).


21

Noel Rosa10 Noel de Medeiros Rosa nasceu em 11 de dezembro de 1910 em Vila Isabel, e morreu em 4 de maio de 1937, na casa em que morava em Vila Isabel. Ao morrer, aos 26 anos de idade, havia construído uma vasta obra - cerca de 250 composições musicais - sendo suas algumas das mais reconhecidas composições da música popular brasileira. No curto período de sua vida profissional, de 1929 a 1937, deixou registrada uma obra caracterizada pelo talento e pela renovação, ao incorporar no repertório musical das camadas médias, o samba produzido pelos negros, um ritmo musical até então marginalizado, considerado "coisa de malandro e expressão de uma cultura bárbara” (DIDIER E MAXIMO, 1990). Seu começo na música deu-se no Bando dos Tangarás, formado por um grupo da classe média de Vila Isabel (considerados pelos seus contemporâneos bons rapazes, bem comportados, “de família”). O quinteto se formou em 1929 para gravar discos na Odeon. Noel já fazia samba quando entrou para o conjunto, mas a rendição definitiva ao gênero teve início com sua aproximação com Canuto, morador do Morro dos Macacos. A amizade e parceria musical com moradores de morros e favelas foi uma característica da trajetória pessoal e profissional de Noel Rosa. Como é destacado na mais completa biografia sobre o compositor (MAXIMO E DIDIER,1990): Sempre querendo conhecer o que produzem estes sambistas de morro, trocar informações com eles, somar experiências, Noel segue peregrinando. Salgueiro, Mangueira, outro morros. Faz expedições aos subúrbios, ouvidos atentos (MAXIMO E DIDIER, 1990 p.204).

Na visão desses autores, mesmo com todos os preconceitos contra as produções vinda das camadas mais pobres da cidade, as classes médias brancas em determinado momento teriam começado a conviver e absorver o que as classes mais baixas e de cor tinham como seu patrimônio: a chave folclórica das festas e ritmos populares, inclusive o samba. Neste sentido, ao pensarmos nessa atuação do compositor Noel Rosa, cabe lembrar o conceito de mediação com que trabalha também Karina Kuschnir (2001). Certos indivíduos na sociedade urbana contemporânea são tradutores das diferenças culturais pela sua capacidade de transitar em contextos sociais diferenciados. Assim,

10

Sobre Noel Rosa ver: Vianna (2007) , Domenico (2003), Maximo (2004), e especialmente Didier e Máximo(1990)


22

ocorre um intercâmbio de ideias, estilos de vida e práticas sociais entre categorias sociais e níveis culturais distintos. Falando especificamente sobre o chamado “mistério do samba” - o surgimento e ampla aceitação do samba- Vianna (2007) afirma também que este fenômeno só foi possível devido à existência de indivíduos agindo como mediadores culturais e de espaços sociais onde essas mediações são implementadas. No mesmo sentido, Tinhorão (1997) indica que, associando informações mais simples provenientes dos compositores semianalfabetos com quem convivia na boemia, às experiências musicais mais requintadas que compartilhava com outros músicos, Noel teria se adiantado “ao gosto médio de seu tempo". Segundo o autor, este êxito obtido deve-se ao fato de que: Noel Rosa e seu grupo viviam um tempo em que as classes médias e baixas da cidade, embora já suficientemente distanciadas, a ponto de não se confundirem, coexistiam, por dizer assim, em uma mesma área urbana, por efeito da proliferação dos cortiços e das casas de cômodos que apareciam ao lado das casas de boa família (TINHORÃO, 1997, p. 43).

Cabe ressaltar que apenas essa proximidade não seria suficiente para explicar o sucesso que o samba teve entre os grupos. A antropologia urbana já mostrou que diversos fenômenos culturais ou grupos sociais podem conviver lado a lado sem que se estabeleça um contato ou proximidade entre eles. É necessário que haja uma curiosidade que faça com que os membros dos diferentes grupos se interessem uns pelos outros e passam a se frequentar. É dentro de um campo de possibilidades, isto é, uma margem de possibilidades, dentro de um campo sociocultural, de escolhas e opções (VELHO, 2003), que essas trocas podem acontecer. Um viés de interpretação proposto por Borges (1982) relaciona as transformações ocorridas na música popular, principalmente no Rio de Janeiro, com a grande população na cidade. Segundo a autora, a falta de espaço diminuiu o espaço vital de cada habitante e o quintal da casa, que era por excelência o espaço de socialização, vai perdendo espaço, literalmente, para a rua. As casas vão ficando menores e o número de habitantes vai ficando maior, e os moradores passam a ocupar o espaço externo. Essa transferência do centro social da casa para a rua por causa da falta de espaço seria responsável pela importância adquirida pelo bar da esquina, que se torna o lócus da sociabilidade local. Aumenta-se a familiaridade das pessoas e estendem-se os limites do lar para o bar. Na utilização de um espaço comum, a convivência diária cria laços e solidariedade e cumplicidade. Nessas esquinas comunitárias e botequins teriam nascido


23

os sambas. Esse tipo de arranjo social teria construído o ambiente dos compositores da música popular daquela época. Esse meio se fará presente na produção simbólica dos compositores. É em meio a dois copos de bebida com a caixinha de fósforo que acende o cigarro que se está fumando com o companheiro e mesa que vão criando as músicas. Socializa-se então, não apenas o espaço da convivência entre os moradores do mesmo bairro, do mesmo morro, como também os espaço da criação e a produção musical (BORGES, 1982, p.31).

No Rio de Janeiro do começo do século XX, Noel Rosa é uma das figuras centrais dessa transição da música popular, onde a vida urbana é tematizada. Através do seu samba, com a linguagem coloquial típica de alguns segmentos da cidade aliada uma maneira mais intimista de cantar, ele ajudava a tematizar alguns aspectos do que logo seria visto como um estilo de vida carioca. Dentre os assuntos preferidos estava o bairro em que vivia, Vila Isabel. Uma de suas composições mais famosas, “Feitiço da Vila”, é emblemática da relação do compositor com o bairro que, como veremos, se transformará posteriormente em uma relação do bairro com o compositor. Feitiço da Vila (1934) Composição: Noel Rosa e Vadico Quem nasce lá na Vila Nem sequer vacila Ao abraçar o samba Que faz dançar os galhos, Do arvoredo e faz a lua, Nascer mais cedo. Lá, em Vila Isabel, Quem é bacharel Não tem medo de bamba. São Paulo dá café, Minas dá leite, E a Vila Isabel dá samba. A vila tem um feitiço sem farofa Sem vela e sem vintém Que nos faz bem Tendo nome de princesa Transformou o samba Num feitiço descente Que prende a gente O sol da Vila é triste Samba não assiste Porque a gente implora: “Sol, pelo amor de Deus,


24

não vem agora que as morenas vão logo embora. Eu sei tudo o que faço sei por onde passo paixão não me aniquila Mas, tenho que dizer, modéstia à parte, meus senhores, Eu sou da Vila! Não apenas em suas músicas, mas também em suas declarações Noel Rosa ressaltava o bairro e sua importância em sua trajetória: Quando pensou no Boulevard, nas ruas pacatas que guardam os meus melhores segredos, nas esquinas prediletas para as reuniões da turma que aprendeu a fazer samba vendo sambar o arvoredo, o meu coração, incuravelmente sentimental, bate descompassado como um tamborim tocado por estrangeiro. E eu vou alongando o pensamento e vou pensando que a cidade inteira é Vila Isabel p. 38 Diário Carioca, 4 de janeiro de 1936 In: Didier e Maximo, 1990.

Nos dias de hoje, Vila Isabel continua sendo identificada como o ‘bairro de Noel’. Arrisco-me a dizer que no tempo de Noel Rosa falava-se em Noel de Vila Isabel e que, depois dele, fala-se na Vila de Noel. Ao longo do tempo, construiu-se uma grande vinculação afetiva e identitária entre o bairro de Vila Isabel e o compositor. Em homenagem a Noel Rosa foram construídos no bairro três marcos. O primeiro, construído em 1938 – aproximadamente um ano após sua morte – foi inaugurado , em 1946, na a Praça Barão de Drummond. Em 1987, ano do cinquentenário de sua morte, um Homenagem a Noel Rosa na entrada do bairro de Vila Isabel

busto foi erguido entre as pistas do Boulevard Vinte e Oito de Setembro em local próximo aos bares que frequentava. O último, e mais

expressivo, foi construído em 1996 na entrada do bairro. A escultura mostra o poeta em uma das situações mais típica desse imaginário: sentado à mesa do bar, sendo servido por um garçom. A figura do garçom é identificada por diversas pessoas como uma representação do pai de Noel Rosa. Procurei informações que confirmassem ou negassem esta versão,


25

mas não consegui nenhuma versão definitiva. Quando perguntava para as pessoas, as respostas eram vagas: “é o pai dele sim, alguém me disse”; “ah, não sei, mas eu acho que é”; “ih, não sei de onde vem essa história não, mas eu acho que é verdade”. As chamadas calçadas musicais evocam e reafirmam essa pretensa musicalidade do bairro, tendo Noel Rosa como um dos homenageados, mas fazendo referência a uma gama maior de artistas não necessariamente ligados ao bairro de Vila Isabel. Construídas na década de 1970, durante as comemorações do IV Centenário da Cidade do Rio de Janeiro, o arquiteto Orlando Magdalena iniciou a decoração das calçadas do Boulevard Vinte e Oito de Setembro com pedras portuguesas alinhadas de forma a reproduzir partituras de famosas composições da música popular brasileira. Neste momento, o bairro já havia obtido fama de boêmio, graças aos outros grandes compositores que ali moraram também, como Orestes Barbosa, João de Barro, Almirante. Coube ao compositor Almirante, a escolha das músicas que iriam compor as chamadas “calçadas musicais de Vila Isabel”.                    

Cidade Maravilhosa – André Filho Ô Abre Alas – Chiquinha Gonzaga Pelo Telefone - Donga/Mauro de Almeida Mal-me-quer - Cristóvão de Alencar/Armando Reis/Newton Teixeira Feitiço da Vila - Noel Rosa/Vadico Ave Maria - Ertildes Campos/Jonas Neves Aquarela do Brasil - Ary Barroso Jura - Sinhô Carinhoso - Pixinguinha/João de Barro Linda Flor - Henrique Vogeler/Luís Peixoto A Conquista do Ar - Eduardo das Neves Luar do Sertão - Catulo da Paixão Cearense/João Pernambuco Chão de Estrelas - Orestes Barbosa/Sílvio Caldas Linda Morena - Lamartine Babo A Voz do Violão - Francisco Alves/Horácio Campos Na Pavuna - Homero Dornellas/Almirante Primavera do Rio - João de Barro Apanhei-te Cavaquinho - Ernesto Nazareth Florisbela - Nássara/Frazão Renascer das cinzas - Martinho da Vila As calçadas musicais tornaram-se um dos símbolos de Vila Isabel, assim como

as homenagens a Noel Rosa. Além das esculturas já citadas, o túnel que liga o bairro de Vila Isabel a outros bairros da zona norte chama-se túnel Noel Rosa e tem em sua entrada pinturas que fazem referência ao compositor.


26

Todos estes elementos de identificação do bairro com Noel Rosa com a boemia e musicalidade, foram ações oficiais, isto é, ações que partiram do Estado e que tiveram como consequência o fortalecimento da identificação do bairro com estes elementos. Durante as entrevistas e observações que fiz (analisadas na segunda seção deste capítulo), pretendi descobrir como os moradores e frequentadores percebiam estas características do bairro, isto é, a forma pela qual eles identificavam o bairro e o diferenciavam no contexto mais amplo da cidade.

A Unidos de Vila Isabel Na versão oficial apresentada pela Escola de Samba Unidos de Vila Isabel11, e apresentada no site da escola12, Antônio Fernandes da Silveira, seu China, era um assíduo frequentador das rodas de samba do morro em que morava, o morro do Salgueiro. Ao se mudar do Salgueiro para o Morro dos Macacos, localizado em Vila Isabel, ele não teria se desligado do mundo do samba e em 4 de abril de 1946, criou o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. No emblema da escola, há estrelas designando cada campeonato conquistado, uma coroa simbolizando a realeza da princesa Isabel que dá nome ao bairro, e um brasão que seria a representação figurada do bairro com elementos como a clave de sol, o pandeiro e a pena ressaltando a musicalidade e a poesia como aspectos marcantes do bairro. O passado de luta abolicionista do bairro, e seu símbolo maior a Princesa Isabel, também marcou a história da escola de samba. O primeiro título da escola no grupo especial com o enredo “Kizomba, a festa da raça” em 1988, ano do centenário da abolição, bradava a liberdade em seu samba-enredo.13 No samba-enredo de Luis Carlos da Vila, Rodolpho de Souza e Jonas Rodrigues faz-se uma reflexão sobre a participação do negro na sociedade brasileira, que não expressa apenas em um aspecto conciliatório, mas demonstra o conflito e a resistência. Cavalcanti (1999) analisou a inovação neste enredo da Vila Isabel que trazia um conteúdo político para a temática negra, pois “radicalizando a rebeldia, o ideal da integração acontecia em seu interior. Não se tratou

11

Há, porém, outras versões para o surgimento da escola http://www.gresunidosdevilaisabel.com.br/ 13 O segundo campeonato ocorreu em 2006 com enredo sobre os grandes heróis da América Latina. Com patrocínio de uma estatal venezuelana, a Vila Isabel apresentou-se com luxo e riqueza. Bem diferente do primeiro campeonato. 12


27

da integração do “negro” a uma sociedade “branca”. O congraçamento de raças se dava numa festa negra. Não há aqui patronagem, nem favor” (CAVALCANTI, 1999, p.43). Cabral comentou este desfile de 1988 em seu artigo para o jornal “O Dia” publicado na quarta-feira de cinzas (portanto antes da apuração das notas dos jurados). Reproduzo abaixo trechos deste artigo sobre um desfile que ficou marcado na história dos desfiles carnavalescos e marcou a memória sentimental dos integrantes da Unidos de Vila Isabel. Se me pedirem para relacionar os melhores desfiles de escolas de samba que vi em toda a minha vida, terei, certamente, dificuldade para apontar um ou outro. Mas um desfile de 1988 entrará, sem dúvida, nessa lista: o da Unidos de Vila Isabel. Nem sei se a Vila vencerá o desfile deste ano. (...) Mas fosse eu do júri, com poderes absolutos de escolher a vencedora de 1988, não teria a menor dificuldade para apontar a Vila Isabel. E com muitos pontos na frente da segunda. (...) Mas o que ninguém poderá apagar é a emoção que o desfile da Unidos de Vila Isabel me causou. Foi uma apresentação revolucionária. Para um conservador, foi um desfile subversivo. A Vila Conseguiu produzir beleza com um tipo alternativo de fantasia e de alegoria. Sem brilho, sem luxo e sem riqueza. Mas as alegorias e fantasias estavam inegavelmente bonitas. (...) A escola teve garra, talento e alegria. Seus integrantes imaginavam que teriam de tirar leite de pedra, pois a quadra de ensaio lhes fora subtraída e, em consequência não houve receita para montar um carnaval de sonhos. Mas, quando chegaram á avenida e verificaram que, além de gana, havia também beleza, o resto foi fácil. (...) Peço desculpas ao leitor por não fazer uma análise de cada escola, detendo-me sobre as possibilidades de cada uma, É que nunca tive oportunidade como esta para derramar tanta emoção causada por uma escola que nunca venceu o desfile principal. Antes, portanto que a comissão julgadora faça umas das suas, dou logo o meu voto: “ganhou a Vila Isabel”. (CABRAL, 2011, pp. 251, 252,253).

No final da apuração, Cabral estava certo, ganhou a Vila Isabel. Este carnaval foi emblemático, pois a Vila Isabel conseguiu ganhar após passar por uma série de dificuldades, sendo a mais crítica delas a perda do espaço para ensaiar. Esse fato foi aludido no samba-enredo pelo verso “nossa sede é nossa sede”, pois a sede da escola de samba havia sido vendida para a construção de um shopping center. Sem sede, o local de ensaio passou a ser o Boulevard Vinte e Oito de Setembro. Fortalecia-se, assim, a tradição de desfilar pelas ruas do bairro, o que é mantido nos dias atuais e é um dos momentos mais importantes do ciclo carnavalesco da escola de Vila Isabel. A Vila não tinha sede e foi para a rua ensaiar, não tinha dinheiro e contou com a garra e união dos integrantes. Na história contada pelas pessoas que participavam das atividades na quadra na época em que a pesquisa foi realizada, foram os foliões que garantiram a vitória da Vila Isabel. Assim, no imaginário construído pelos componentes


28

da escola, não só a vitória naquele ano de 1988, mas a própria história da escola é marcada pela forte presença dos seus componentes. Em seu “Almanaque do carnaval” Diniz (2008) aponta que, entre as ditas tradicionais escolas do Rio de Janeiro, a Vila Isabel “foi idealizada muito mais por gente que sambava do que por gente que criava samba. A Vila teria sido uma escola formada por foliões” (Diniz, op. cit., p.75), isto porque de sua fundação não teriam participado compositores célebres ou ritmistas virtuosos como aconteceu em outras escolas de samba como Portela e Mangueira. Esta afirmação merece atenção cuidadosa, pois pode explicar o fato de a memória de Noel Rosa ser tão frequentemente evocada pela Unidos de Vila Isabel, embora o compositor não tenha participado da fundação da escola. Não tendo em sua história de fundação grandes nomes que servissem de símbolo, isto é, sem compositores ou personagens de grande expressão ligados ao surgimento da escola, houve um processo de identificação da escola com os símbolos pré-existentes do bairro, e Noel Rosa aparece então como um “patrono” musical da escola. Em valiosa contribuição, Pavão (2009) mostrou como o surgimento dos bairros de Madureira e Oswaldo Cruz sempre integravam as narrativas de fundação da Portela. Em Vila Isabel, o processo ocorreu de forma diferente. A Vila Isabel como bairro já tinha uma história e uma tradição reconhecidas antes da fundação da escola. Em Vila Isabel ocorreu o contrário do que ocorreu em Madureira: a escola local se apropriou de uma tradição já existente e não a fundou. Como argumento aqui, essa incorporação foi feita principalmente através do uso recorrente da figura de Noel Rosa, compositor que é símbolo mais amplo do bairro de Vila Isabel e não da escola de samba em particular. É também interessante comparar o caso da Vila Isabel com aquele ocorrido na Mangueira. Na escola verde e rosa, a figura de Cartola14 (1908-1980) é também recorrente na construção identitária mangueirense, mas há uma diferença essencial. Cartola participou ativamente da fundação da escola e de sua história. Noel Rosa morreu quase 10 anos antes da fundação da Vila Isabel, ou seja: era morador do bairro no qual a escola viria a se situar, e não participante ativo no processo de fundação e história da escola de samba. A Mangueira tinha uma figura ilustre que participou da sua fundação, a Vila Isabel não.

14

Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola, foi um cantor, compositor e violonista brasileiro. Junto com um grupo de amigos sambistas do morro, Cartola criou o Bloco dos Arengueiros, cujo núcleo em 1928 fundou a Estação Primeira de Mangueirat


29

Atualmente, a referência a Noel Rosa na Unidos de Vila Isabel aparece de diversas formas.

Na quadra da escola, no

camarote de frente para o palco, que recebe artistas e figuras importantes do carnaval carioca, há um letreiro luminoso onde se lê Folder da feijoada realizada na Vila Isabel conhecida como “Feijão do Noel”

“cabaré do Noel”; a feijoada realizada mensalmente na quadra da escola de samba chama-se “Feijão do Noel” (ver figura ao lado). Além disso, a bateria da escola é conhecida como “Swingueira de Noel”. Na tabela abaixo relaciono o nome pela qual as baterias são

conhecidas com as suas respectivas Escolas de Samba Escola de samba

Nome da bateria

Mangueira

Bateria Surdo Um

Salgueiro

Furiosa

Mocidade Independente de Padre Miguel

Bateria não existe mais quente

Portela

Tabajara do samba

Império Serrano

Bateria Sinfônica do Samba

Caprichosos de Pilares

Venenosa de Pilares

Estácio de Sá

Bateria medalha de ouro

Vila Isabel

Swingueira de Noel

Unidos da Tijuca

Pura cadência

Viradouro

Bateria Furacão Vermelho e Branco

União da Ilha

Bateria 40 Graus

Imperatriz

Swing da Leopoldina

Porto da Pedra

Bateria Ritmo Feroz

Grande Rio

Invocada

Algumas baterias trazem em seu nome referências a sua característica marcante como “pura cadência”, “ritmo feroz”, “surdo um”. Outras fazem referência ao local onde está sediada a escola como “Venenosa de Pilares” e “Swing da Leopoldina”. Porém, dentre as principais escolas de samba do Rio de Janeiro, a bateria da Vila Isabel é a única que homenageia um personagem da história da escola. Neste caso, um personagem do bairro em que está sediada a escola. É recorrente a lembrança de Noel Rosa e de suas composições também em alguns sambas-enredo da Vila Isabel. O enredo do carnaval de 2011 era “Mitos e Histórias Entrelaçados Pelos Fios de Cabelo”, e tinha em seu refrão alusão a musica Feitiço da Vila de Noel Rosa: “Modéstia à parte, amigo, sou da Vila / Quem é bamba


30

nem sequer vacila / Envolvido entre cabelos, me sinto arrepiar / Feitiço refletindo no olhar” 15 Da mesma forma, o enredo de 2012 “Você Semba Lá.... Que Eu Sambo Cá! O Canto Livre de Angola” tem como último parágrafo a lembrança de duas figuras importantes da escola de samba: “Aqui na Vila Isabel, que é de Noel, e de Martinho, devemos a ele esta história.” Cabe ressaltar que o surgimento de Martinho da Vila no enredo não é gratuita, já que ele foi um dos intermediadores da escola com o país homenageado. Já Noel Rosa aparece novamente mesmo sem ter ligação direta com o tema do enredo.

Noel nos sambas-enredo

Utilizando o trabalho de Ericeira (2009) como referência, e o alargamento da noção de pensamento social proposto por Cavalcanti (1999) em que o universo da cultura popular é considerado como uma reflexão de temas abrangentes da cultura e da sociedade brasileiras, recorri aos sambas-enredo como forma de acesso privilegiado aos valores sociais centrais dos integrantes da Unidos de Vila Isabel. Os sambas-enredo são referência por serem aqueles conhecidos do grande público e que acabam marcando a história da agremiação, isto é, embora as escolas sejam campeãs de um ano específico, na memorização popular a referência que permanece é sempre o enredo daquele ano que estabelece o universo semântico “possível” para as composições de um ano (CAVALCANTI, 2008). Esse fato indica o aspecto cíclico do ritual carnavalesco e faz do enredo e do samba-enredo em especial uma grande referência do saber popular sobre o cortejo de carnaval. Analisando os sambas-enredo da Unidos de Vila Isabel do ano de 1975 até o ano de 2011, encontrei nove referências a Noel Rosa. Em dois deles, a referência já se explicita no título (1982 e 2010) com “Noel Rosa e Os Poetas da Vila Nas Batalhas do Boulevard” e “Noel a presença do Poeta da Vila” 16. Em alguns, há apenas uma rápida referência e, em outros, uma verdadeira homenagem, como naquele do ano de 1977 “Noel, és amor, és poesia / Tua Vila, carnaval / Cantando nostalgia” e no do ano de

15

G.R.E.S Unidos de Vila Isabel (RJ) - 2011

16

O enredo de 2010 não só fazia alusão como homenageava o centenário do compositor


31

1982 “De azul e branco/ Por este mundo sem fim/Lembrando Noel Rosa/Eu vou cantando assim”. Nos seguintes sambas-enredo verifica-se a referência, explícita ou não, a Noel Rosa27:

Ano

Título

Trecho

1977 Ai Que Saudade Que Eu “Noel.../És amor, és poesia/Tua Vila carnaval/ Cantando nostalgia”. Tenho17 1979 Os Dourados Anos de Carlos “Carnavais e cabarés/Lembro Noel, Chico e Machado18 Lalá/Pierrôs e colombinas/E a platéia a delirar”. 1982 Noel Rosa e Os Poetas da “De azul e branco/Por este mundo sem Vila Nas Batalhas do fim/Lembrando Noel Rosa/Eu vou cantando Boulevard19 assim” 1994 Muito Prazer! Isabel de "Peguei o bonde", "passei" no Boulevard/E a Bragança e Drummond Rosa "Confiança" é doce recordar/ “Os três apitos" da Silva, Mas Pode Me cantados por Noel/Ainda ecoam pela Vila Chamar de Vila20. Isabel. 1996 A Heróica Cavalgada de Um “Bailando na avenida minha Vila Isabel/Faz o Povo21 Grenal mais bonito/Com Lupicínio e Noel” Em Mares “Depois da tempestade/A felicidade, a 2005 Singrando Bravios... Construindo o bonança/" O azul retorna ao seu lugar “/O povo Futuro22 de Noel singra a história em direção/À Arca de Noé que navegou pra salvação”. 2009 Neste Palco da Folia, É “Aos mestres da folia/um baile de gala/Com a Minha Vila Que Anuncia: orquestra lá do bairro de Noel” Theatro Municipal - a Centenária Maravilha23·. 2010 Noel a presença do “Poeta da “Se um dia na orgia me chamassem/Com Vila24 saudades perguntassem/Por onde anda Noel” e Histórias “Modestia à parte, amigo, sou da Vila/Quem é 2011 Mitos Entrelaçados Pelos Fios de bamba nem sequer vacila/Envolvido entre Cabelo25 cabelos/me sinto arrepiar/Feitiço refletindo no olhar”26 17

Compositores: Dida, Gemeu e Rodolpho. Compositores: Rodolpho de Souza, Tião Grande, Luiz Carlos da Vila e Jonas Rodrigues 19 Compositor: J. Albertino 20 Compositores: Evandro, André Diniz e Bombril 21 Compositores: Tião Grande e Cafú Ouro Preto 22 Compositores: André Diniz, Serginho 20, Sidney Sã, Profº Newtão e Miguel Bede 18

24

Compositor: Martinho da Vila Compositores: Andre Diniz, Leonel, Prof. Wladimir, Arthur das Ferragens e Pinguim 26 Neste trecho embora não tenha citação direta a Noel Rosa, há referências de importantes canções do compositor. 27 Todos os sambas estão disponibilizados no anexo desta pesquisa 25


32

Utilizei-me dessas composições para identificar a forma como a identidade musical pautada principalmente na figura de Noel Rosa foi, conforme mostrado anteriormente, incorporada pela Escola de Samba Unidos de Vila Isabel como referência básica na construção da identidade da escola de samba. Ao longo da história da escola de samba outros grandes símbolos foram surgindo, assim como Martinho da Vila28, mas a recorrência a Noel é a mais constante. Conforme aponta Cavalcanti (2008), a vinculação ao local onde está sediada é uma característica presente entre as grandes escolas de samba. Na Unidos de Vila Isabel, entretanto, esse traço ganha feição particular, pois o bairro aparece como lócus fundamental para a Escola de Samba. Um dos seus principais samba-exaltação mostra como, juntando a escola de samba e a tradição musical do bairro, pretende-se transformar tudo em uma só coisa: “Sambar na avenida de azul e branco é o nosso papel Mostrando pro povo que o berço do samba é em Vila Isabel”.29

Vila Isabel pela ótica dos moradores

Robert Park (1979) afirma que a cidade é produto da natureza humana e não apenas uma construção artificial, sendo influenciada diretamente pela agência do homem na sua constituição mesma. Sendo assim, uma parte da cidade poderia assumir características do caráter e dos sentimentos próprios da população que a habita, tornando-se “uma localidade com sentimentos, tradições e uma história sua” (PARK, 1979, p. 34), e transformando, por exemplo, o que era uma proximidade geográfica em uma relação de vizinhança. Na primeira seção deste capítulo, demonstrei como, ao longo do tempo, foi construída para o bairro de Vila Isabel uma forte identificação com a musicalidade e a 28

Martinho José Ferreira pertencia a Escola de Samba Aprendizes da Boca do Mato e prestes a ingressar no Império Serrano, Martinho foi convidado a fazer parte da ala dos compositores da escola azul e branca. Modificando a estruturação dos sambas-enredos ao fazer letras mais leves e melodias mais suaves, Martinho fez sambas memoráveis para agremiação com o qual teve uma forte identificação ficando conhecido como Martinho da Vila 29

O samba exaltação da Vila Isabel, assim como a da maioria das escolas, evoca o caráter simbólico e afetivo da relação entre os componentes e a escola, além de se referir à localidade e as cores da agremiação (Barbieri, 2010)


33

boemia. Nesta seção, já com as informações obtidas durante a minha pesquisa de campo, procuro descobrir, através de conversas e entrevistas com os moradores e frequentadores, qual sua visão do bairro. Procuro observar como a agência daqueles moradores foi essencial na constituição das diferentes interpretações que são feitas sobre o bairro.

Unidades Mínimas ideológicas Utilizando como referência o modelo utilizado por Velho em “A utopia Urbana” (1973), identifiquei as unidades mínimas ideológicas que são “palavras, expressões ou frases” que constituem unidades básicas de análise, relacionando-a com a sua “frase típica”. Adiante, destaco alguns trechos, analisando-os em dois grandes blocos.

Unidade mínima ideológica

Frase típica

Alegria

“As pessoas estão sempre alegres”

Boemia

“Aqui é o berço da boemia”

Noel Rosa

“Falar de Vila Isabel é quase o mesmo que falar de Noel Rosa” “Na vizinhança todo mundo se conhece”

Vizinhança

Bares

“Tem um esforço de conservação das coisas antigas” “É o lugar que mais tem bares.”

“Não é subúrbio”

“Aqui é zona norte, não é subúrbio”

Samba

“Vila Isabel é o berço do samba”

Conservação

A)Alegria, boemia, bares, samba 1)“Eu não sei se você perguntou para a pessoa certa porque eu sou de São Paulo. Só moro aqui porque estudo na UERJ. Mas o que chama a atenção é a alegria das pessoas na rua, os bares sempre cheios.” Samuel, 23 anos 2)“Do que eu gosto em Vila Isabel? Do jeito alegre dos moradores e do orgulho do bairro que vivem. Todo morador de vila Isabel tem orgulho de dizer que mora em vila Isabel. - E o que o diferencia de outros bairros? Perguntei - A vida boêmia, a forte ligação emocional e sentimental com a escola de samba e assim, a grande ligação que tem como símbolo Noel Rosa que apesar de ter morrido tão jovem, qualquer criança de Vila Isabel sabe quem é Noel Rosa” Mariza, 51 anos.


34

3)“Quer coisa mais legal? No início tem aquele Noel pensando nas musiconas lindas e no final uma praça linda, Não preciso dizer mais nada.” Jorge, 60 anos 4)“Ah, a Tijuca é muito boa, sabe? Eu respeito muito o Salgueiro. Mas igual a minha Vila aqui não tem não. Aqui é o berço do samba. Uma vez ouvi na televisão falando que quem nasce na Bahia, não nasce, estreia. Mas Noel Rosa já dizia que aqui em Vila Isabel as pessoas nem sequer vacilam ao abraçar o samba” Eleanor, 54 anos 5)“Quando era criança, meu pai para poder ir para o bar beber dava a desculpa para a minha mãe que iria me levar para passear. Aí, fui crescendo assim, no Bar do Costa, comendo batata-frita, tomando sorvete e ouvindo samba. Isso é Vila Isabel” Luisa, 25 anos 6)“O papai levava eu e minha irmã para ver os jogos do Flamengo no Maracanã. Não esse Flamengo de hoje, mas o Flamengo do Zico. Aí depois a gente vinha pela 28 (rua vinte e oito de setembro) comemorando e parava no bar mais cheio que tivesse para comemorar a vitória. Ele com a sua branquinha (cachaça) e a gente com uma Coca-Cola. Final de campeonato a 28 ficava uma loucura. Era briga de torcida de um lado, samba no bar, os ônibus subindo a Grajau-Jacarepagua cheia de torcedor. E eu ou no meio da confusão ou na janela de casa olhando.” Grazielli, 33 anos

No primeiro trecho, o entrevistado não é um morador antigo do bairro e nem se considera apto para opinar sobre o bairro. Mesmo alegando desconhecimento sobre as características do bairro, aponta para o que considera suas mais perceptíveis características: “A alegria das pessoas na rua, os bares sempre cheios”. Aqui, alegria e bares aparecem como termos com ligação entre si. O mesmo ocorre no segundo trecho que, embora não fale diretamente sobre os bares, fala indiretamente ao citar a vida boêmia. A entrevistada enfatiza também um envolvimento emocional e sentimental dos moradores com o bairro (“tem orgulho de dizer que mora em Vila Isabel”), mas também com seus símbolos considerados característicos do bairro: a Escola de Samba e Noel Rosa. Nas conversas, observa-se que Noel Rosa ora é invocado pela sua presença física, ao citarem os monumentos e marcos físicos presentes no bairro em homenagem ao cantor, ora é lembrado pela sua obra e influência musical. Alguns relatos resgatam a memória, o passado, outras resgatam a materialidade da “presença” de Noel na entrada do bairro. No terceiro trecho, por exemplo, é a “presença de Noel” que está sendo apontada. Um Noel tão presente e físico como a Praça Barão de Drummond no final da Boulevard Vinte e Oito de Setembro. Já no relato 4 o que evoca-se é a obra de Noel Rosa, ao citar um trecho da música “Feitiço da Vila”. Presente também na visão dos moradores é a grande quantidade de bares existentes na região. A entrevistada do quinto trecho interpreta os bares não apenas


35

como um estabelecimento comercial, mas também um local cheio de importantes recordações da infância. Enfatiza, ainda, que isso seria Vila Isabel, isto é, Vila Isabel se caracterizaria pela grande frequência aos bares com os quais se estabelece certa relação de familiaridade. Isto se verifica também na entrevista 6, onde ao lado das lembranças dos jogos no Maracanã (outra unidade mínima ideológica bastante presente nas declarações sobre o bairro) estão as comemorações com o pai no bar ao som do samba. Nestes dois relatos, o bar associa-se não a pessoas estranhas e/ou desconhecidas, mas a pessoas do núcleo familiar próximo. Na maior parte das entrevistas, destacou-se a “presença” constante de Noel Rosa. Seja falando dos bares, seja falando da boemia ou mesmo da estátua na entrada do bairro, os moradores parecem fazer um esforço consciente em resgatar constantemente a memória do famoso morador do bairro. Talvez por essa razão, o título do samba-enredo de 2010, composto por Martinho da Vila, era “A presença do Poeta na Vila”. Seus versos falavam exatamente sobre essa memória que muitas vezes confunde-se com uma presença efetiva, pois, quando perguntado “por onde anda Noel”, a resposta é que “sua presença senti no ar de Vila Isabel”. “Se um dia na orgia me chamassem Com saudades perguntassem Por onde anda Noel Com toda minha fé responderia Vaga na noite e no dia Vive na terra e no céu Seus sambas muito curti Com a cabeça ao léu Sua presença senti No ar de Vila Isabel Com o sedutor não bebi Nem fui com ele a bordel Mas sei que está presente Com a gente neste laurel” As imagens identitárias de Vila Isabel se pautam em elementos como o samba, a boemia, e suas figuras famosas, sendo a mais notável a do compositor Noel Rosa. Ser morador de Vila Isabel corresponde assim a morar “na terra do Noel”, andar nas calçadas musicais existentes na avenida principal e cruzar diariamente com o


36

monumento de Noel Rosa na entrada do bairro30, fazer compras no supermercado que ocupa o espaço da antiga fábrica de tecidos Confiança31 com seus três apitos chamando a mulher amada, cantada por Noel. Referências a uma musicalidade do bairro são também utilizadas para nomear bares, o túnel, lojas comerciais, edifícios. Andando pela rua principal do bairro podemos ver a referência a Noel Rosa tanto em pinturas – como na parede do colégio municipal ou na decoração de uma rua para a última copa do mundo – quanto em estabelecimentos comerciais. Esses monumentos seriam compreendidos não simplesmente como uma homenagem, mas como a materialização mesma da presença do compositor no bairro, como a forma material da identidade musical do bairro. Além disso, em diversas letras de musica é recorrente o tema da musicalidade do bairro. Ao longo dos anos, construiu-se certa identidade musical como pertencente ao bairro de Vila Isabel. Nesse processo, o elemento e elo principal foi a figura do compositor Noel Rosa. Essas reflexões incorporam a visão antropológica de fronteiras identitárias no sentido proposto por DaMatta para quem o homem pode-se distinguir de outros porque uma associação de atributos é capaz de formar a sua história particular, isto é: “A construção de uma identidade social, então, como a construção de uma sociedade, é feita de afirmativas e negativas diante de certas questões”(DAMATTA,1986, ,p.17). Dessa forma, para constituir uma identidade – ou algo único e diferenciado dos demaiscada grupo utiliza-se de referências comuns e diferentes daquelas dos demais grupos. Trata-se, sempre, da questão da identidade. De saber quem somos e como somos; de saber por que somos. Sobretudo quando nos damos conta de que o homem se distingue dos animais por ter a capacidade de se identificar, justificar, singularizar: de saber quem ele é. De fato, a identidade social é algo tão importante que o conhecer-se a si mesmo através dos outros deixou os livros de filosofia para se constituir numa busca antropologicamente orientada (DAMATTA, 1986, p. 15)

30

Em 1964 as calçadas de Vila Isabel ganham notas musicais de mais de 20 músicas conhecidas da MPB. Entre as músicas estão Cidade maravilhosa, Pelo Telefone, Aquarela do Brasil, Carinhoso e Chão de estrelas. Em 1995 uma série de obras modificou a paisagem urbana do bairro em vários pontos, sendo instalada em 22 de março de 1996, a estátua de Noel Rosa no largo do Maracanã. Sendo servido por um garçom com a fisionomia de seu pai, Noel Rosa aparece em uma cena típica: com cigarro na boca e tomando uma cerveja 31 Data de 1885 a fundação da Fábrica de Tecidos Confiança (embora seu funcionamento seja anterior), local que figura nas letras de Noel Rosa e que é um dos símbolos materiais de Vila Isabel. Ocupando grande área da rua Maxwell, sua chaminé e seu apito que chamava os trabalhadores ao serviço são lembrados até hoje pelos moradores mais velhos. Embora tenha durado apenas 85 anos, o seu entorno preserva até hoje a memória do tempo em que a fabrica era o grande pólo de trabalhadores da região. Uma das duas chaminés originais da fábrica permanece até hoje no espaço que hoje pertence a um supermercado. As casas que serviram de moradias para os operários e diretores permanecem como na época de sua construção.


37

b) Relações de vizinhança, conservação, “não é subúrbio” 7)“Morador de Vila Isabel não precisa se locomover para passear ou fazer comprar porque tem tudo, até um shopping. Então, todo mundo se esbarra, todo mundo se conhece. Você cresce vendo sempre as mesmas pessoas. Parece que em todos os lugares tem algum conhecido”. Ricardo, 36 anos. 8)”Aqui em Vila Isabel não tem para onde escapar. Se tiver cansado daqui, vai para a mangueira, vai para o Salgueiro, tudo a pé. Não tem problema nem com a lei seca”. Renato, 19 anos 9) “Aqui é bem mais barato que Copacabana, ou Barra da Tijuca, que é a preferida dos pobres que ganharam dinheiro. Mas por outro lado, aqui também não é subúrbio, né, tipo Madureira. Aqui, Tijuca e Grajaú são a nata da zona norte.” Heitor, 58 anos 10) “Os moradores de Vila Isabel têm prazer em ressaltar o seu bairro, mas sem esnobismo. Já o morador da Tijuca, que é tão zona norte como aqui, acha que estão à beira mar. Passear dia de semana na Tijuca e em Vila Isabel é muito diferente. Aqui tem vários senhores sentadas, gente nos bares. Enquanto na Tijuca tá tudo deserto, tudo no shopping. Ou na Barra.” Paulo Sérgio, 37 anos 11) “Os moradores procuram conservar o bairro de uma maneira tradicional, basta ver a Está tua do Noel anos ali sentadinho sem ninguém tirar nada, enquanto do Carlos Drummond que é na zona sul vivem gastando dinheiro dos nossos impostos para ficar consertando 1os óculos. No lugar chique roubam o óculos, em Vila Isabel ninguém mexe no Noel.” Cintia, 22 anos 12) “O bairro é maravilhoso. Tem a conservação do Rio Antigo, procuram conservar de maneira antiga a Iluminação, as árvores. As calçadas. E tem aquele Noel na entrada dando um ar familiar”. Beth, 59 anos

Na entrevista 6, o bairro é visto como autossuficiente: tem opções de lazer e de comércio (“tem até um shopping”32). Por isso, os moradores não precisariam se locomover para outros bairros devido a grande oferta que possuem próximo de suas residências. Consequentemente, os moradores circulariam nos mesmos ambientes, fazendo com que a rua não fosse mais ambiente de pessoas totalmente novas e/ou desconhecidas. Isso resultaria em um reforço dos laços de vizinhança. No relato anterior, vizinhança significa pessoas que moram em localidades próximas e utilizam os mesmos equipamentos urbanos. Na entrevista 7, a vizinhança é pensada a partir dos contatos estabelecidos com bairros que teriam algo similar ao encontrado na Vila: o samba e carnaval. As referências utilizadas foram Salgueiro e 32

Atual shopping Boulevard Rio Iguatemi, antigo Iguatemi Rio, localiza-se em uma área que alguns consideram Andaraí e outros Vila Isabel. Foi inaugurado em 1996 e Atualmente é um dos maiores shoppings da cidade. A inclusão do termo Boulevard no nome foi uma estratégia para aproximar os moradores da região em que está instalado.


38

Mangueira, dois “morros musicais” que deram origem a tradicionais escolas de samba: a Acadêmicos do Salgueiro e a Estação Primeira de Mangueira. Vizinhança e relação com outros bairros nem sempre são vistos de forma valorizada. O principal eixo de disputa aparece entre Tijuca (bairro da zona norte) e Vila Isabel, mas também há uma referência aos bairros da zona sul (região mais rica da cidade, composta sobretudo por bairros que se localizam na orla atlântica,) sempre com a preocupação de frisar que “Vila Isabel não é subúrbio”. Na entrevista 8, esta disputa ganha contornos mais brandos quando o entrevistado afirma que gosta de Vila Isabel porque é economicamente mais vantajoso do que Copacabana (bairro da zona sul) ou a Barra da Tijuca (bairro da zona oeste visto pelo entrevistado como uma categoria abaixo da zona sul, território dos “novos ricos”), ao mesmo tempo em que é superior aos bairros suburbanos como Madureira33. Aqui a relação Tijuca x Vila Isabel não é conflituosa, pois estes bairros junto com o Grajau (bairro da zona norte) formariam a “nata da zona norte” Para o entrevistado 9, a Tijuca teria sim um status similar ao de Vila Isabel (“tão zona norte como aqui”), porém seus moradores não aceitariam este fato agindo com “esnobismo”. Mesmo quando a comparação é com bairro fronteiriço, a referência de status e qualidade são os lugares “a beira-mar”. Isto explicaria a fala da entrevista 8, ao dizer que quem fica rico vai para a Barra, isto é, não tendo ainda condições de residir na zona sul, mas com um dinheiro que permite a saída da zona norte, a Barra acabaria sendo o caminho para viver “à beira-mar”. Ainda nesta entrevista, a existência de um shopping, valorizada na entrevista 6, foi desqualificada, pois faria com que o shopping fosse o destino de todos acarretando a perda dos laços de vizinhança (“fica tudo vazio”), pois não teria mais “senhores sentados” ou pessoas nos bares. Novamente, a Barra da Tijuca aparece como destino dos tijucanos (moradores da Tijuca). Se o bairro próximo pode ser mais facilmente desqualificado, quando se fala em “um lugar chique”, como na entrevista 11, procura-se elevar o patamar de onde se fala, Vila Isabel, ao patamar do que o senso comum estabelece como sendo melhor. Para isso, a entrevistada usa um símbolo do bairro em contraposição ao símbolo de outro bairro. Assim, contrapondo a estátua de Noel Rosa em Vila Isabel e àquela do poeta 33

Segundo Pallone (2005) subúrbio etimologicamente significa o espaço que cerca uma cidade, mas no Rio de Janeiro esse sentido tem sido deturpado, perdendo o seu caráter geográfico, onde passou a designar a periferia, isto é, um lugar onde o principal transporte urbano é o trem (ou simplesmente aonde passa a linha férrea) e onde moram as camadas mais baixas da cidade.


39

Carlos Drummond de Andrade em Copacabana, a entrevistada argumenta que os moradores da zona norte conseguem preservar melhor os seus grandes símbolos do que os da zona sul. Implicitamente, há a busca de refutar os estigmas que caem sobre a população que mora “do outro lado do túnel”. Desordeiros, baderneiros, farofeiros? Para esta entrevistada o estado de conservação da estátua de Noel serviria como argumento para inverter estas qualificações, pois quem não tem educação e retira os óculos da estátua de Carlos Drummond de Andrade são os moradores da zona sul. Em Vila Isabel, isso não acontece com a estátua de Noel. Na pesquisa realizada por Velho, na década de 1970, uma das unidades mínimas ideológicas era “moderno”. Na entrevista 11, vemos como, ao contrário, é exaltada a conservação da maneira tradicional de viver. Em sua pesquisa, o autor diz que nas narrativas “A modernidade de Copacabana se opõe ao atraso da zona norte, do subúrbio, de outros Estados” (VELHO, 1973, p.69). No nosso caso, e aqui o morador da zona norte, visto como encarnando a tradição, e não a modernidade emerge como um elemento a ser exaltado. É interessante observar como as construções e representações acerca dos diferentes bairros da cidade se alteram temporal e espacialmente. Na década de 1920, 1930, Vila Isabel era considerada moderna, pois tinha como morador Noel Rosa, um dos pioneiros a levar a música das camadas mais baixas para ser tocada e ouvida nas camadas médias. No período em que Velho realizou a pesquisa, Copacabana era o reduto da modernidade. Hoje em dia, Copacabana é um bairro associado à população mais velha e Vila Isabel é valorizada por resgatar e valorizar sua tradição. A conservação e preservação da estátua de Noel também é citada na entrevista 12. Junto com a arborização e a iluminação, o entrevistado destaca a preservação destes símbolos do passado do bairro. É importante destacar que a conservação foi uma unidade mínima ideológica que apresentou significados opostos. Um significado positivo, quando relacionada com a manutenção de um ar familiar, tradicional. Mas também um significado negativo quando relacionada ao estado de conservação das ruas, calçadas, praças e demais equipamentos urbanos. Neste segundo grupo de entrevistas, obtive resultados similares aos encontrados por Velho (1973), pois fica bem claro que “existe uma hierarquia de bairros, subúrbios, etc, em relação a estas características”. Assim, os indivíduos estão “sempre hierarquizando segundo, basicamente, as mesmas categoriais empregadas pelo resto do


40

universo” (VELHO, 1973, p.79). Os indivíduos veem a sociedade tendo como referencial uma hierarquia dos bairros e situam-se dentro desta hierarquização. O morador de Vila Isabel, assim como o morador de Copacabana estudado por Velho nos anos 1970, tem uma imagem dos outros e de si mesmo intermediada por sua posição no mapa da cidade, diferenciando-se dos moradores dos outros bairros: “o mapa da cidade, no caso, passa a ser um mapa social onde as pessoas se definem pelo lugar em que moram.” (VELHO, 1973, p.80). O esforço de preservação da “tradição cultural do bairro”

Os símbolos de pertencimento a Vila Isabel não foram construídos aleatoriamente e sim pela agência dos atores sociais que elaboraram o uso do espaço urbano e os aspectos sentimentais a ele relacionados, transformando o que era apenas uma localidade geográfica em um espaço com tradições próprias. A partir daí, esse local – o bairro de Vila Isabel – passa a ter uma história particular, assim como participa de modo característico da construção de relações de vizinhança. Ao impor o passado de boemia e musicalidade ao presente, construindo com isso certo prestígio dentro de um mapa urbano mais amplo, Vila Isabel pode ser pensada como uma vizinhança que busca preservar de alguma forma a continuidade de um processo histórico. Uma passeata organizada pelos moradores de Vila Isabel em julho de 2011 é um dos elementos que possibilitam pensar a hipótese do bairro de Vila Isabel como portador de uma identidade musical. A passeata foi divulgada pelo bairro e também através de redes sociais. Em uma rede de relacionamentos, o Orkut, a comunidade (grupo virtual de pessoas que se reúnem por possuírem interesses e gostos em comum) da escola de samba Vila Isabel tem aproximadamente 12.000 membros onde são postados diariamente notícias e discussões acerca da escola de samba Vila Isabel e também do bairro. Os integrantes da comunidade foram convocados da seguinte forma: “MANIFESTAÇÃO POPULAR EM VILA ISABEL - É SABADO AGORA!!! Com o fim da Associação Atlética de Vila Isabel e pressão de alguns contra a musica ao vivo no bairro, os moradores de Vila Isabel estão vendo a tradição cultural do bairro acabar. Sendo assim, os moradores do bairro e da Grande Tijuca resolveram levantar a bandeira da cultura na localidade NO PRÓXIMO DIA 09/07, AS 12 HORAS FAREMOS A PASSEATA "RUMO AO CORREDOR


41

CULTURAL DE VILA ISABEL" O ENCONTRO SERÁ NA AV Boulevard Vinte e Oito de Setembro ENTRE A RUA GONZAGA BASTOS E VISCONDE DE ABAETÉ. CONTAMOS COM A PRESENÇA DA IMPRENSA, SIMPATIZANTES, COMERCIANTES, ARTISTAS, E TODOS QUE FAZEM PARTE DE NOSSA CULTURA.TEREMOS O APOIO DE POLICIAIS CIVIS E MILITARES. Acreditamos que com o apelo popular, a prefeitura se sensibilize e apoie nosso projeto de manter as tradições culturais e musicais do bairro de Noel” 34 (caixa alta mantida do original, grifo meu) Esse comunicado destaca como a forma de convencimento e mobilização utilizada pelos organizadores da passeata foi a tentativa de “manter as tradições culturais e musicais do bairro de Noel”, para não acabar com “a tradição cultural do bairro”. Essa maneira de apresentar o bairro de Vila Isabel com características próprias e tradicionais prossegue nos comentários feitos logo após a publicação dessa convocação: Desde que o bairro da Vila Isabel se formou, em sua essência se respira e cultua a boemia. Seus cânticos de sambistas, seresteiros e grandes nomes da MPB estão eternizados nas partituras que bordam suas calçadas musicais. Portanto é louvável a idéia de criação do Corredor Cultural, isso dará continuidade a essa essência e, as gerações futuras não serão privadas do conhecimento da memória cultural deste bairro. Que assim seja, porém com regras e horários estabelecidos para que não seja cerceado o direito d'aqueles contrários aos eventos que aqui venham à serem realizados. 35 Vila Isabel já tem tradição de ser um bairro com uma certa agitação musical pelo menos desde a década de 30... Ou seja, todos os moradores do bairro foram pra lá, ou cresceram no bairro sabendo o que encontrariam.. e agora querem reclamar e acabar com a musica ao vivo.. é brincadeira.. a musica chegou primeiro....não pegou ninguém de surpresa. É o mesmo que o cara que se muda para o lado de um aeroporto reclamar do barulho dos aviões.. ele já sabia o que encontraria.36

O autor do primeiro comentário, embora reconheça que devem existir alguns limites e normas, chama atenção para o fato de que Vila Isabel respira a cultura e a boemia. Já no segundo comentário, o autor é mais radical, ao negar o direito de reclamação dos moradores por supor que eles já saberiam da tradição de “agitação musical”, isto é: na fala do segundo comentário, a ideia é que se alguém foi para Vila Isabel deveria gostar do clima ali existente. Ou caso contrário se mudar.

34

Trecho retirado do site de relacionamentos Orkut.com no dia 18/07/11 as 16:00 horas Idem 36 Idem 35


42

A visão de Vila Isabel como “berço” da boemia é partilhada por um grande número de moradores. Mas o próprio fato de haver reclamações de alguns moradores requer uma relativização dessa premissa. O que se pretende aqui não é afirmar que todos os moradores de Vila Isabel compartilham da visão de uma identidade musical para Vila Isabel pautada na figura de Noel Rosa, mas como este traço diferencia o bairro no contexto mais amplo da cidade. Conclusão “Noel Rosa resumiu Vila Isabel: São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba”. Mas o que o senhor acha que isso significa? “Eu preciso dizer o que significa? Respondendo a sua pergunta (sobre qual a característica mais marcante do bairro) esta música diz o que qualquer morador de Vila Isabel acha: aqui é o lugar do samba, aqui é o lugar da alegria. Nem precisa perguntar a mais ninguém não, ninguém acha diferente. Só se não é um verdadeiro morador de Vila Isabel”. Judas, 59 anos

Nas conversas e entrevistas formais e informais realizadas, conclui que, muitas vezes, a história de Noel Rosa, o bairro e a escola de samba conformam uma narrativa única sobre a origem do bairro. Como se o bairro, a escola de samba e Noel Rosa constituíssem um mito de origem para o bairro. A ‘presença’ de Noel Rosa é muito forte e a escola de samba, incorporou símbolos e elementos já pertencentes ao bairro, construindo no imaginário social uma visão em que ambos se confundirão. Uma das hipóteses propostas é a de que a escola de samba Unidos de Vila Isabel é um elemento fundamental para a permanência do status e do prestígio de Vila Isabel como bairro musical. A escola se apropria, ao mesmo tempo em que reforça, a simbologia referente ao bairro. Escola de samba e bairro. São realidades diferentes, mas que em diversos momentos se intercruzam na experiência e nas narrativas dos moradores e também dos adeptos do samba por construírem uma identidade compartilhada e aceita por grande parte dos moradores. Pode-se argumentar que outros nomes de grandes cantores e compositores também ficaram ligados a seus bairros de origem ou moradia. Luis Carlos Magalhães pesquisador de carnaval, em artigo publicado no dia 27/2/2007, na página do site “O dia na folia” responde a essa questão já no título de seu texto: “Ninguém é mais Vila Isabel do que Noel Rosa, ou é o contrário”. Segundo ele, ninguém marcou tanto a cara de um bairro como Noel Rosa marcou o bairro de Vila Isabel. Nem mesmo Vinicius de Moraes


43

ou Tom Jobim com Ipanema, que já era um bairro reconhecidamente glamoroso quando os dois compositores moraram lá e potencializaram essa fama. Já a Vila Isabel de Noel Rosa seria, antes do compositor, ainda um bairro isolado na zona norte. Um bairro que foi projetado pelo barão de Drummond, a partir da Fazenda (ou quinta) dos macacos, e que por ter sofrido poucas mudanças em suas características fundamentais – incluindo a maneira de viver dos seus moradores que frequentam os diversos bares do bairro manteve o culto à personalidade do poeta e a preservação quase intacta do mito. Relembrando uma afirmação de Sergio Cabral que apontava Vila Isabel como o mais carioca dos bairros, Magalhães considera que: A dimensão carioca do bairro pode até ter sido dada por seu Boulevard, por seu Jardim Zoológico, por seus bondes, até pelo jogo do bicho. Mas considero que sua dimensão nacional foi dada por Noel, por sua maneira de cantar e contar as coisas do bairro em melodias inconfundíveis, ora suas ora junto com seus parceiros, que fascinavam um Brasil ainda predominantemente rural.

Os bondes, o Boulevard, o jardim Zoológico, o jogo do bicho. Referências de um bairro famoso por causa de Noel. Ou seria o contrário? O músico e pesquisador Nei Lopes, em conferência realizada na Casa de Rui Barbosa , no dia 29 de novembro de 2010, como parte das comemorações do centenário de Noel Rosa, chamou atenção para o que ele considera como especificidade de Vila Isabel em relação aos demais bairros urbanos: o culto à figura de Noel Rosa como símbolo do bairro e portador de sua memória coletiva. Segundo ele, no bairro de Vila Isabel a funerária se chamaria “Ultimo Desejo”, o cursinho pré-vestibular “o x do problema”, a tinturaria “Com que roupa eu vou”, e o papai Noel não seria vermelho e sim rosa. Essa brincadeira em que nomes de canções famosas de Noel Rosa são utilizados recorrentemente no bairro de Vila Isabel, explicita a visão do pesquisador sobre a relação intrínseca entre o culto à memória de Noel Rosa e o cotidiano do bairro.


44

Capítulo 2 componentes?

A

construção

da

comunidade:

moradores

ou

Anderson (2008), dialogando com Gellner e Hobsbawn, debate o nacionalismo e a formação do sentimento de nação, entendido como uma chave de interpretação para os processos contemporâneos de construções identitárias. Segundo Anderson, nação é uma comunidade imaginada, isto é, cada indivíduo tem em mente uma imagem da comunidade da qual participa, ao compartilhar signos e símbolos comuns, responsáveis pelo reconhecimento do pertencimento a um espaço imaginado como comum. Assim, as comunidades nacionais são vistas como frutos de um processo sócio-político e cultural gerador de um vínculo imaginário entre os indivíduos. Atualmente, o contexto do carnaval das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro exige das escolas um compromisso e uma técnica cada vez maiores para que seja possível uma alta colocação na competição carnavalesca.

Neste

capítulo

pretendo demonstrar uma das estratégias utilizadas pela diretoria da Unidos de Vila Isabel para permanecer nesse primeiro grupo da hierarquia carnavalesca: a adoção da “comunidade”. O termo comunidade carrega múltiplos significados, e há aqui a tentativa de desvendar essas diversas significações para os integrantes da Vila Isabel, bem como as formas como essa comunidade foi “imaginada” e como ela é tornada eficaz sendo capaz de agregar os indivíduos em torno de uma causa comum. Na primeira seção, discutirei a situação atual do desfile carnavalesco especial e também a nova gestão da Unidos de Vila Isabel, em especial sua “adoção” da ala da comunidade. Demonstro assim, a elaboração de múltiplas estratégias para a produção ritual desse sentimento de pertencimento a uma comunidade imaginada. Na segunda seção, discutiremos as exigências feitas a esta comunidade em diversos momentos do período carnavalesco: os ensaios de rua, os ensaios técnicos, o desfile oficial e o desfile das campeãs.

A Unidos de Vila Isabel na lógica carnavalesca competitiva

A situação atual das Escolas de Samba


45

Para compreender as escolas de samba é necessário perceber o desfile anual como o momento mais importante e a razão de ser de todo o processo carnavalesco. No desfile carnavalesco “as escolas rivalizam entre si diante de um objetivo valorizado por todas e, ao mesmo tempo, controlam a rivalidade por meio do estabelecimento de regras comuns” (CAVALCANTI, 2008, p.31). Esta rivalidade ocorre no interior de um tempo festivo específico, sendo ela mesma uma festa. Assim, “A competição configura o desfile como um rito específico dentro da festa carnavalesca” (CAVALCANTI, 2008, p.34). A organização atual das escolas de samba difere em muito daquela dos anos iniciais situados entre as décadas de 1930-1950, período de seu surgimento e expansão. Geralmente, o período indicado pela bibliografia (CABRAL, 2011; CAVALCANTI, 2006) como sendo de grande mudança nas escolas de samba é nas décadas de 1960 e 1970, quando teria ocorrido uma adesão da camada média ao universo das escolas de samba. Um pouco mais tarde, com a criação da Passarela do samba, em 1984, e com a criação da Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA) iníciou-se uma nova etapa na história dos desfiles baseada no reconhecimento oficial da importância do desfile carnavalesco na vida da cidade (CAVALCANTI, 2008, p.14). A passarela do samba foi logo gerenciada pela Liga e significou o reconhecimento e a ampliação do extraordinário potencial turístico dos desfiles carnavalescos instaurando “a era de um carnaval que, ao menos no nível do discurso, se deseja profissional, um carnaval-negócio rentável e para tanto bem gerenciado” (CAVALCANTI, 2009, p.99). Essa expansão prosseguiu, com a construção da Cidade do Samba, que começou a ser ocupada pelas escolas de samba a partir de 2005, e representou para os envolvidos na preparação dos desfiles um avanço significativo que permite, através dos investimentos na estrutura de preparação, o aprimoramento do espetáculo. Esse novo espaço acentuou a expansão comercial do carnaval carioca proporcionado pelo alto grau de profissionalização e técnica para as grandes escolas de samba (BARBIERI, 2009). Nesse cenário, a mídia teve um papel fundamental. Assistir aos desfiles em casa ou ser visto dentro daquele espetáculo, ampliou o alcance do desfile carnavalesco. As próprias escolas de samba procuram hoje formas de atrair a mídia, ao convidar celebridades para desfilarem, dando mais prestígio à escola pela qual desfilam e também, como acreditam alguns, influenciando indiretamente no julgamento dos


46

jurados (LEOPOLDI, 2010, p.13). Para que esse grandioso espetáculo seja viável são elevados os gastos para a confecção do desfile e alto o seu grau de formalização. Nos discursos oficiais dos dirigentes das escolas de samba, a maior formalização dos desfiles e todas as transformações ocorridas se expressam na preocupação cada vez maior com a adequação das grandes escolas aos novos moldes exigidos para a permanência de uma escola no grupo das grandes. A dimensão da competitividade é um ponto fundamental e mesmo a razão principal de ser das escolas de samba. Isso tudo é ainda hoje alvo de críticas e há quem veja estas transformações como um “empobrecimento” do carnaval: esquecendo-se das características tidas como “genuínas”, as escolas teriam caminhado de acordo com a “corrente”, com o que é exigido atualmente. Esta é a posição do sambista Nei Lopes37 que, em entrevista concedida em 2009 à revista “Samba em revista”, afirmava: As escolas de samba caminharam para o grande espetáculo, esquecendo da música, e até a empobrecendo (...) É difícil ir contra a corrente, Principalmente quando não se tem recursos próprio, independente. Tem muito velha-guarda, baiana etc. que acha que está tudo muito bom, que o ambiente ficou mais bonito com o protagonismo das “celebridades”. A autoestima do nosso povo, na geral, é baixa, né?

Acho mais prudente pensar que essa concepção romântica de uma origem pura e genuína mostra-se insustentável para se falar da história das escolas de sambas, principalmente pelo fato de não haver um formato de escola de samba pura e inteiramente definida que pudesse a partir de então ser modificada por elementos exógenos. Assim como Cavalcanti (2008, p. 40), creio que parte de “sua vitalidade como fenômeno cultural reside na vasta rede de reciprocidade que elas souberam articular, em sua extraordinária capacidade de absorver elementos e inovação.” Dito de outra forma, é mais prudente pensar as escolas de samba como parte de um mundo em plena transformação: elas mudaram porque a cidade e as relações sociais também mudaram. O carnaval cria esse ambiente favorável e adequado para a propagação de boas novidades, mesmo as mais radicais, mesmo as que colocam em xeque as regras festivas anteriores. É como se a festa fosse uma sucessão ininterrupta de intensas revoluções artísticas, que caem imediatamente no gosto popular de forma consagradora. Invenção permanente é a história do carnaval (DINIZ, 2008:9)

37

Nei Lopes, é compositor, cantor e escritor brasileiro. Ligado ao universo das escolas de samba e a temática negra, estes dois assuntos são constantemente tema de seus escritos.


47

Este cenário atual de alta competitividade e exigência técnica configuram o contexto em que a Unidos de Vila Isabel se encontrava quando da realização desta pesquisa, e por isso estes aspectos são de fundamental importância para a compreensão da perspectiva aqui adotada.

Vila Isabel e sua nova gestão

O mandato de Wilson Vieira Alves, o Moisés, na Unidos de Vila Isabel teve início em 2006. Ele permaneceu no cargo até abril de 2010, quando foi preso por envolvimento com a contravenção38. Nas eleições para a direção da escola, realizadas em 2011, seu filho Wilsinho, com chapa única, foi eleito presidente da escola e se mantinha ainda em 2012 (momento de finalização desta pesquisa) no cargo. Na revista anual distribuída pela escola no sambódromo e nos ensaios da escola, Wilsinho afirmava que sua gestão tinha a “marca do empreendedorismo” (p.23) e enfatizava o investimento na maior profissionalização, o foco nos resultados obtidos e na adesão das pessoas. De acordo com a publicação, essa mudança na maneira de conceber uma escola de samba teria possibilitado a subida da escola de Vila Isabel ao patamar das grandes escolas, aquelas que entram na Sapucaí para disputar resultados. Isso após alguns anos de resultados fracos e da saída da escola do grupo especial no ano de 2000 e sua queda para o segundo grupo no ranking da competição carnavalesca, situação que perdurou até o ano de 2005. O enredo “Kizomba, a festa das raças” fez da escola do bairro de Vila Isabel a campeã do carnaval de 1988. Utilizando em suas fantasias e alegorias materiais simples como a palha e o bambu para contar a história da festa da congregação entre as raças 100 anos após a assinatura da Lei Áurea, o que se destacou na avenida não foi o luxo ou alto grau de profissionalização da escola. Ao contrário, a vitória deste carnaval aparece, na memória afetiva das pessoas que frequentavam a escola durante a realização da pesquisa, como uma vitória da união, da garra e da emoção dos desfilantes que contagiou a Sapucaí. Foi na Kizomba que vi a força do povo negro e a força do povo de Noel. Foi o último desfile da minha mãe que já tinha mais de 90 anos e passou na avenida cantando o tempo todo. No final todo mundo chorava, se abraçava. A 38

Foi preso acusado de liderar a máfia ligada a exploração de caça-níqueis durante a Operação Alvará. Disponível em http://oglobo.globo.com/rio/operacao-alvara-justica-condena-24-acusados-de-integraremmafia-dos-caca-niqueis-2696738


48

gente saiu dali com a certeza de que iríamos ser campeões. Ninguém duvidava. Agora, a Vila era escola grande39

Com o sucesso do desfile, no ano seguinte, a Vila integrou o grupo das grandes escolas ganhadores do carnaval carioca. Mas, durante os anos seguintes, o bom resultado não se repetiu. No quadro abaixo, iniciado no ano em que a escola foi campeã pela primeira vez, nota-se a sequência de resultados ruins que culminou no ano 2000 com a sua saída do grupo especial. Nesse ano, ao ficar na 13º colocação a escola desceu para o grupo de acesso. O Grupo Especial é a grande escala de referência para o prestígio de uma escola de samba e sair desse grupo significa uma perda importante de atenção da mídia, da população, do montante dos recursos públicos destinados para o desfile, e também de mobilização dos seus componentes. Mesmo que esse perigo esteja sempre presente, falar em “descer” é tabu significativo na fala daqueles envolvidos com o carnaval de uma escola de samba (BARBIERI, 2010). Em 2005, a escola voltou para o grupo especial e consagrou-se em 2006 campeã desse grupo de campeãs do carnaval carioca (obtido anteriormente em 1988), 18 anos após a conquista do primeiro título.

Ano

Posição

1988

Ano

Posição Ano

Posição Ano

Posição

Ano

Posição

Campeã 1993

1998

12º

2003

3º40

2008

1989

1994

1999

11º

2004

Campeã41 2009

1990

12º

1995

2000

13º

2005

10º

2010

1991

11º

1996

2001

4º42

2006

Campeã

2011

1992

12º

1997

2002

2º43

2007

2012

Na visão dos dirigentes, exposta na revista da escola, a competitividade que a escola teria ganhado após a mudança na gestão se comprovaria com o fato de que, nos últimos cinco anos da sua administração, em quatro anos a escola desfilou no Sábado das Campeãs44. Essa publicação tinha sido lançada em 2010, antes dos resultados do

39

Depoimento dado no momento anterior ao ensaio de rua e não foi possível o registro do nome e idade. No segundo grupo na escala hierárquica de classificação, sendo o primeiro grupo, o grupo especial 41 Idem 42 Idem 43 Idem 44 O sábado das campeãs acontece no sábado seguinte à semana de carnaval. Nesse dia desfilam as seis escolas com as melhores posições do grupo especial junto com a campeã do segundo grupo. Os preços 40


49

carnaval de 2011 e 2012 em que a Vila Isabel ocupou o 4º lugar e 3ªlugar respectivamente. Ou seja, em sete anos da atual administração, a Vila Isabel desfilou no Sábado das Campeãs por seis anos. Outro fator relevante para a administração da escola, com lugar de destaque no site da escola, era o ranking da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA). Nessa escala, que abarca as colocações entre os anos de 2006 e 2010, a GRES Unidos de Vila Isabel é indicada como a terceira escola com melhores rendimentos nesse período.

ORDEM Col. 1º

ESCOLA

2006

2007

2008

2009

2010

Pt. Col. Pt. Col. Pt. Col. Pt. Col. Pt. Col. Pt. G.R.E.S. BeijaFlor de 5º 8 1º 20 1º 20 2º 15 3º 12 Nilópolis G.R.E.S. Acadêmicos do 2º 15 2º 15 3º 12 5º 8 2º 15 Grande Rio G.R.E.S. Unidos de Vila 1º 20 6º 6 9º 2 4º 10 4º 10 Isabel

TOTAL

75

65

48

Retirado do site: http://liesa.globo.com/45

O samba-enredo campeão do carnaval de 1988 da Vila Isabel cantava que “nossa sede é nossa sede”, destacando a falta de estrutura e investimento que a escola, sem sede para seus ensaios de quadra, vivia naquele momento. Em 2010, a quadra da Vila Isabel era a maior entre todas das escolas de samba do Rio de Janeiro, com capacidade para 11.000 pessoas em 4.000 metros quadrados de área construída e um palco com 300 metros quadrados46. Há também os luxuosos camarotes, frequentados por pessoas vistas como ricas, famosas e por diretores da escola47. A nova quadra da escola ocupou o espaço onde funcionava um posto do Detran desativado, e localiza-se na principal rua do bairro: o Boulevard Vinte e Oito de Setembro, e representa um marco físico da nova fase da Unidos de Vila Isabel.

são mais acessíveis a população e as escolas voltam para a Avenida para poderem comemorar a boa classificação obtida. 45 Optei por manter o padrão de tabela apresentado no site oficial da LIESA 46 Atualmente diversas escolas de samba investiram na reestruturação e modernização de suas quadras, por isso, é difícil apontar qual a melhor quadra hoje em sai. 47 Dados retirados do site Samba Rio Carnaval. Vila Isabel. Página visitada em 15/11/2010.


50

A adoção da comunidade

Creio que uma das mais importantes mudanças empreendidas pela atual diretoria foi na maneira da distribuição de suas fantasias. Na década de 1990, as fantasias seriam comercializadas pelos presidentes de ala, conforme demonstra Cabral (2011): A atuação dos presidentes das alas das escolas de samba travestidos de comerciante era cada vez mais escancarado. Alguns como Evanice Lopes da Silva, da Ala Custou Mais Saiu da Unidos de Vila Isabel, já usavam a propaganda pela rádio para atrair novos componentes, segundo disse Evanice ao Jornal do Brasil a propaganda faz efeito, observando que nenhum dos compradores morava em Vila Isabel (CABRAL, 2011, p.257).

Neste trecho, Cabral denuncia a atuação dos presidentes de ala expondo, inclusive, o nome de uma destas pessoas. Ele claramente critica este tipo de comercialização das fantasias, chamando atenção para o fato de que os principais compradores destas fantasias não eram os moradores do bairro de onde a escola estava sediada. É uma crítica com um toque de saudosismo ao qualificar negativamente este tipo de prática. Se a venda de fantasias era prática comum nos anos 90, no ano de 2006, sob a atual gestão, a escola passou a confeccionar todas as fantasias “doando-as” para a comunidade. A palavra foi colocada entre aspas para relativizar a ideia de doação. Não se pode perder de vista que, para que seja possível uma fantasia sem custos para os desfilantes, é necessário patrocínios geralmente ligados ao enredo temático como no enredo “Soy loco por ti, America”, que produziu seu desfile com investimento da Pdvsa, petrolífera da Venezuela comandada pelo presidente Hugo Chávez. Também não se pode perder de vista o “mecenato” dos bicheiros dentro da escola de samba48. Essa questão é principalmente cara dentro da Vila Isabel, pois o antigo presidente da escola e pai do atual presidente encontra-se preso por associação ao jogo do bicho. Nas palavras de Wilsinho Alves, superintendente da escola até 2011, durante a gestão do seu pai, e presidente da escola na época da pesquisa, “fortaleceu ainda mais a escola e a participação comunitária (...) Valorizou-se, assim, o componente, seu amor pela escola e sua garra nos desfiles”. Esta fala está presente em uma das revistas promocionais e informativas distribuídas anualmente durante o desfile na Sapucaí pelas escolas de samba e setores especializados. Lembrando que estas revistas são produções 48

Ver: Cavalcanti, 2009 e Leopoldi,2010


51

comerciais destinadas a determinados fins, elas foram úteis para o conhecimento do discurso oficial proposto pela escola de samba.

Em outro número desta mesma

publicação, chama-se atenção novamente para a importância que esse ato teve: No início, quando decidimos que só desfilaria quem ensaia, fomos criticados, pois parecia que queríamos fechar a escola. Nossa comunidade nunca foi fraca, mas a Vila ficou alguns anos no Grupo de Acesso e precisava se fortalecer para competir no Grupo Especial. Como conseguimos atingir nossos objetivos e agora a escola sempre desfila buscando o título, acredito que já estamos pronto para dar um passo para comercializar ao menos 10% das alas, algo bem gradativo. Nada agressivo ao trabalho que fazemos com a comunidade. Fonte: Site SRZD – Carnavalesco

Mas qual seria a comunidade da Unidos de Vila Isabel?

A proposta de a Vila Isabel desfilar sem alas comerciais, isto é, só com as chamadas “alas da comunidade”, operou como fator central na articulação de sociabilidades e laços de pertencimento nas estratégias de gestão da escola para ganhar projeção e competitividade, pois, quesitos importantes no julgamento do desfile dependem das pessoas que ali estão desfilando. Entre estes quesitos49 estão harmonia, evolução e conjunto. No quesito harmonia é avaliado o entrosamento entre a) o canto e melodia dos componentes em consonância com o intérprete e b) a melodia e o ritmo do samba. No quesito evolução, é avaliada a progressão da escola, levando-se em consideração a coesão, empolgação, vibração e dança das alas. Já no quesito conjunto, os participantes são avaliados a partir de sua energia comunicativa. (CAVALCANTI, 2008). Com isso se evidencia o papel decisivo dos componentes em um desfile. .

49

Os quesitos de julgamento no momento da realização da pesquisa eram: bateria, enredo, samba-enredo, harmonia, evolução, conjunto, alegorias e adereços, comissão de frente, mestre sala e porta-bandeira e fantasias.


52

A visão de um diretor de carnaval Na revista do ano de 2008 da Vila Isabel em reportagem sobre o diretor de carnaval, é explorada a relação entre alta competitividade e necessidade da cooperação dos integrantes. Abaixo transcrevo um trecho da reportagem:

Com a profissionalização cada vez maior do carnaval, onde poucos décimos podem dar ou tirar o campeonato a uma Escola, Ricardo (Ricardo Fernandes, 40 anos, então diretor de carnaval da Vila Isabel) diz que hoje até mesmo quem não é da Escola entende que deve haver comprometimento para não prejudicar o desfile: “Antes, algumas pessoas que desfilavam não entendiam que o carnaval era também uma competição e não só uma diversão. Pensavam que era tudo na base do deixa a vida me levar, mas não é assim, A visão de organização militar me ajudou muito no mundo do samba. Está longe de me atrapalhar”. (...) Para Ricardo, o ponto forte da Vila é a tradição de bons sambistas e de gente que veste a camisa da escola: “A comunidade chega junto, porque se trata de uma verdadeira escola de chão”, como se diz no mundo do samba. Ele atribui o sucesso da Vila ao investimento maciço no povo da Escola, do bairro, que desfila gratuitamente. “Isto é uma aposta muito forte. E ainda contamos com um conjunto técnico e artístico muito bem definido e de alto nível” (Revista da Vila, ano 1 nº 1, janeiro 2008, p.15).

Uma “comunidade” bem treinada, coesa e participante pode ser fundamental para a conquista de um título. Mas que pessoas são essas, o que se quer dizer quando falamos em comunidade de escola se samba? Nesta temática, a pesquisa de Pavão (2009) é uma contribuição imprescindível. O autor aponta para as dificuldades de se estabelecer um conceito para a comunidade, pois segundo ele: O conceito de comunidade está longe de ser um privilégio dos cientistas sociais. Inúmeras áreas de conhecimento elaboram suas definições, seguindo seus próprios interesses, tornando um entendimento comum sobre o termo cada vez mais confuso. O senso comum reflete esta confusão de conceitos, adquirindo constantemente significados que correspondem às demandas da atualidade. (PAVÃO, 2009:187)

Se comunidade é termo difícil de delimitar mesmo no âmbito das ciências sociais, não é tarefa mais fácil distinguir uma comunidade de escola de samba. Embora se trate de conceito amplamente conhecido e debatido, sua aparente simplicidade guarda diferenças importantes de significado. O conceito de comunidade, portanto, suscita para todos um entendimento. O sentido é aparentemente compreendido, embora, muitas vezes, nem sempre tenha a mesma definição. A diferença está camuflada diante do aparente consenso. O mesmo se aplica ás “comunidades de escola de samba”. Ela aparece, na maioria das vezes, congelada no tempo, imune às transformações


53

da manifestação cultural, do carnaval e da sociedade que está ao seu redor. É reproduzida por intelectuais, pelo senso comum e pelos diversos órgãos de imprensa em suas coberturas. É também, como vimos, utilizadas pelos próprios sambistas, constituindo o que os antropólogos costumam chamar de categoria nativa. (PAVÃO, 2009, p.187)

Na Vila Isabel, a doação das fantasias para a “comunidade” permite refletir sobre o quão controversa é noção de ‘comunidade de Vila Isabel’. Comunidade é um termo utilizado atualmente em grande escala na mídia e no senso comum como substituto do termo favela, carregado de estigmas negativos. No contexto amplo das escolas de samba que integram o primeiro grupo do carnaval, a Beija-flor de Nilópolis e mais recentemente a Vila Isabel se intitulam – e são reconhecidas no meio carnavalesco - como “escola da comunidade”. Mas o que seria especificamente a comunidade no caso da Vila Isabel? Serviriam esses termos para indicar que a maior parte dos integrantes da escola são moradores das “comunidades” próximas, como o Morro dos Macacos? Ou o termo teria outros significados?

Comunidade x favela

Quando eu perguntava qual a significado da palavra comunidade, as respostas sempre faziam referência aos morros e favelas, isto é, às habitações populares. Algumas respostas eram diretas “Comunidade é um nome bonito para favela” Ronaldo, 36 anos, outras mais reticentes “Ah.... comunidade é usado pelos moradores né.... acho que para dizer que todo mundo se conhece, mas eu não acho que é verdade” Geni, 29 anos. Mas quando eu perguntava sobre comunidade de Vila Isabel não era feita uma relação direta com os moradores de favela. Quando eu perguntava se então a comunidade de Vila Isabel era composta por moradores do Morro dos Macacos, a maioria dizia que não. Uma das exceções foi a entrevista de uma professora de geografia que, ao ser perguntada sobre o significado do termo comunidade em Vila Isabel, disse que: Pois é, essa nomenclatura (comunidade) passou a ser utilizada, equivocadamente, para se referir aos moradores dos morros, das favelas, não só pela Vila Isabel, mas pela sociedade em geral. A expressão “escola da comunidade” faz referência a integrante dos morros, das favelas, à população mais carente. Na verdade, a comunidade de Vila Isabel, ou de qualquer outro lugar, deveria ser usada para identificar o conjunto de pessoas que vivem em Vila Isabel, independente se no morro, ou no asfalto, como costumam dizer. O interessante é que as próprias pessoas que vivem nas favelas fazem essa divisão: comunidade eles, moradores os que não residem no morro. Tem aquela frase famosa, sempre dita em situações de conflitos: Tranquilidade, morador! Junia, 57 anos


54

Nessa fala, comunidade refere-se aos moradores de favela, mas há a percepção de que comunidade poderia designar um conjunto de pessoas, habitantes do bairro, independentemente de seu local específico de moradia. Quando indaguei se o “Complexo dos Macacos” era a origem da maioria dos componentes da escola, a entrevistada respondeu: “Acredito que ainda sim, embora, de alguns anos para cá, o número de pessoas não residentes no chamado Complexo dos Macacos venha aumentando consideravelmente”. Se pensarmos em comunidade como sinônimo de favela, o melhor lugar para entender em que consistiria a comunidade de Vila Isabel seria o Morro dos Macacos. Sendo assim, durante o tempo em que dava aulas neste local, conversei com alunos e moradores procurando descobrir qual seria, para eles, a importância da ligação da escola de samba como o seu cotidiano. Na primeira aula que lecionei (em novembro de 2011) no prédio localizado na ladeira de acesso a uma das entradas do Morro dos Macacos, a apostila oferecida pelo projeto continha trechos de um texto de Nelson Mandela que falava sobre a importância da história do local em que se nasceu, de seu povo e de sua comunidade. Instigando os alunos a se pronunciarem sobre o que eles sabiam acerca do local onde moravam, a primeira resposta que obtive foi: “Só sei que Noel Rosa era músico e fundou a Vila, por esse motivo daí que o bairro tem este nome” (Mayara, 16 anos). Quando questionei o restante da turma se a afirmação era correta, alguns corrigiram dizendo que o bairro já existia antes, que era a “Fazenda dos Macacos”, e que a escola de samba veio depois. A relação entre Noel Rosa e a escola de samba não foi em momento algum questionada, isto é, para aquele grupo de jovens moradores do bairro, havia uma ligação explícita entre o surgimento da escola de samba e Noel Rosa. Repeti a pergunta na turma da tarde e obtive respostas semelhantes. Continuei a falar sobre a história do bairro, e expliquei que o nome da maioria das nomenclaturas utilizadas no bairro era referente a causas abolicionistas. Novamente, a maioria dos jovens demonstrou total desconhecimento do assunto. O único que sabia alguma coisa sobre isso era um aluno que fazia parte da bateria da Unidos de Vila Isabel. Este é o ponto que me interessa. Durante uma dinâmica que visava falar das primeiras impressões que passamos para os outros, os alunos tinham que pensar em algum artista com o qual seus colegas


55

tinham características em comum. Quando ninguém se manifestava, eu interagia brincando e sugerindo algum nome. Era maneira de quebrar o gelo inicial e que foi bastante importante para mim (e para a pesquisa). Ao dizer que uma das meninas parecia com a Quitéria Chagas surpreendi-me ao saber que ninguém, excetuando novamente o menino que fazia parte da bateria, sabia quem ela era. A atriz/modelo/exrainha de bateria Quitéria Chagas é musa da escola de samba Vila Isabel e está presente em grande parte dos ensaios da escola, inclusive os de rua. Na ausência da rainha de bateria oficial da escola, a apresentadora Sabrina Sato que mora em São Paulo, Quitéria ocupa o posto à frente da bateria e é destaque no jornalismo carnavalesco exatamente por essa presença constante. Este desconhecimento por parte daqueles jovens revelou uma pista confirmada posteriormente: a pequena, quase nula, participação daqueles jovens moradores das favelas de Vila Isabel nos eventos da escola de samba. Na etnografia realizada nas favelas de Vila Isabel por Piccolo (2006), o baile funk emergiu como a principal forma de lazer entre os jovens, e a escola de samba foi citada apenas em uma situação em que o baile funk seria realizado nas dependências da escola de samba. Da mesma forma, os jovens que observei só manifestaram interesse em ir à quadra da escola de samba quando havia na programação atrações como o grupo de pagode Pique Novo ou a cantora Preta Gil. Isto é, a quadra da Unidos de Vila Isabel era vista como opção desejável se houvesse nela atrações não necessariamente ligadas ao mundo do samba. Numa manhã, enquanto esperava no hall de entrada do prédio os alunos chegarem, as mulheres que chegavam para a aula matinal de ginástica naquele mesmo prédio comentavam sobre um grande baile de forró que ocorrera no final de semana. Nenhuma tinha ido ao ensaio da escola de samba. Era véspera de carnaval e a quadra tinha ficado lotada no final de semana, e ninguém nem comentou sobre o ensaio na quadra nem sobre aquele realizado no Boulevard Vinte e Oito de Setembro no domingo. Aproximei-me e perguntei se elas não frequentavam a escola de samba, e a mais falante me respondeu: Eu adoro carnaval, gosto mesmo de samba. Mas eu vim lá de cima do país, sabe, gosto mesmo de dançar juntinho. Forrozar. Tem mais a minha cara, tem mais a cara daqui deste lugar, a quadra é cheia de bacana e, o pessoal do asfalto, sabe como que é né.... Cada um na sua. Sabrina

Não, eu não sabia como era. Fiquei procurando respostas para o afastamento daqueles grupos de jovens e senhoras com a escola de samba. A minha pesquisa sempre


56

apontava para importância da musicalidade e da escola de samba como pilar de sustentação da identidade musical e naquela situação eu me deparava com indícios contrários. Ao afirmar que na bibliografia oficial do bairro50 nota-se certa invisibilidade em relação aos morros ali presentes, a tese de Picolo (op.cit) foi fundamental para elucidar esta questão. Em grande parte dos estudos sobre favelas, a dicotomia favela-asfalto está presente e revela a estigmatização da favela, vista como um problema para o restante da cidade e responsável pela violência urbana no Rio de Janeiro, uma cidade em que indivíduos de diferentes faixas de renda habitam regiões muito próximas uma das outras. A favela é vista como território máximo da precariedade física e social, que se opõe ao restante da cidade, a sua ordem e a sua população51. Enquanto o “asfalto” seria o lugar da formalidade, ordem e moralidade, a favela seria um local marcado pela informalidade, desordem, carência, pobreza, e principalmente da violência. Os moradores das favelas são vistos assim, como parte responsável por um dos maiores problemas da sociedade como um todo. Na década de 1990, essa ideia foi reforçada. Diante do crescimento da violência, criou-se a imagem de uma “cidade partida” alusiva a um conflito entre as classes medias e altas e a população moradora das favelas que reforçaria os nexos simbólicos que territorializavam a pobreza e a marginalidade nas favelas cariocas. Essa imagem, embora já existisse anteriormente, foi reforçada com o livro do jornalista Zuenir Ventura (1994). A grande estigmatização da favela e de seus moradores pode justificar a invisibilidade do Morro dos Macacos nas narrativas sobre o bairro de Vila Isabel, pois: Nesse caso é a história e a própria identidade do bairro que corre o ‘risco de se contaminar’ com o estigma que recai sobre a favela e sobre cada indivíduo ali inserido. (...) Dessa maneira, não incluir nas obras bibliográficas sobre Vila Isabel os morros e a população que os habita revela o que se quer preservar (PICOLO, 2006,p.109)

Quando se pensa em história oficial do bairro, estamos falando de uma história tornada hegemônica a partir de uma visão de mundo fixada por obras bibliográficas escritas por indivíduos que de alguma forma possuem meios para isso. Assim, os fatos são construídos de acordo com a inserção destes indivíduos em um determinado período histórico e grupo social. O que nos interessa do ponto de vista antropológico não é 50

Ver Borges e Borges (1987), Blanc(1996) e Aragão(1997)

51

Ver dentro outros: Zaluar (1994), Leite (2000) e Valladares(2000)


57

distinguir a memória oficial e não oficial, diferenciando-as em falsa ou verdadeira, e sim ter conhecimento das diversas representações dos acontecimentos (PICOLO, 2006). Nas representações oficiais do bairro, há um “esquecimento” (intencional ou não) da presença do Morro dos Macacos, e de seus moradores, no bairro de Vila Isabel e em seus locais de lazer – como a escola de samba. Nas narrativas dos moradores, esta relação é, em alguns momentos, relembrada. Seu Vítor, 77 anos relembra um período em que, segundo seu relato, os moradores do morro participavam muito mais das atividades da escola de samba e do bairro de modo geral. Segundo ele: A parte que eu mais gostava eram os ensaios. Ficar nos bares da Boulevard Vinte e Oito de Setembro. Eu sempre fiquei aqui, quietinho, como estou agora, só observando. Nunca fui de me meter não. Mas muita gente lá de cima participou da construção da escola. Hoje até falam que é a escola do morro dos macacos, mas o que eu mais vejo é artista de televisão. Ou falam do Noel, mas você sabe, né, ele já tinha ido para o andar de cima quando Seu China fundou a escola. Você sabe quem é seu China? Foi seu China e o pessoal do macaco. Mas vê se hoje alguém lembra disso, não. E eu fico aqui, olhando, olhando, olhando.

No processo de construção das identidades sociais, a seleção das memórias nos diz sobre a forma como as representações dos moradores sobre seu cotidiano no bairro é construída e conservada. Assim, é possível apreender a “importância relativa de certas memórias partilhadas socialmente na construção de formas de identidade cultural de tais coletivos e, correlativamente, na construção das relações sociais que lhe estão ligadas” (COSTA, 1998, p. 41). Assim como no depoimento de seu Vitor, acima relatado, um samba-exaltação da escola, muito cantado como “esquenta” nos ensaios de rua, sugere uma divisão entre morro e asfalto, quando nos versos finais canta que “É o morro no asfalto duas vezes / uma para ser campeão e a outra para comemorar”.52 Nesta canção, a escola de samba aparece como instância mediadora entre os dois pólos, sugerindo a cidade partida que se encontraria no momento em que os moradores do morro fossem para o asfalto por causa da escola de samba. Não é possível, portanto, dizer que a comunidade da Unidos de Vila Isabel se constitui apenas dos moradores do Morro dos Macacos, mas também não se pode descartar a participação destes moradores na história da escola de samba. Se, por um lado, a minha experiência apontou para uma participação fraca daqueles moradores no cotidiano da escola, por outro lado é muitas vezes evocada a participação de moradores 52

Nome dos compositores não encontrado.


58

daquela localidade na história da formação da escola, sendo o mais importante, “Seu China” (ver cap.1).

A comunidade de Vila Isabel a partir das alas da comunidade

A diretoria da Unidos de Vila Isabel propõe a distribuição de fantasias para as “alas da comunidade”. Comunidade é conceito chave para entender a proposta de construção identitária dessa diretoria da escola. Acredito que um olhar atento sobre a dinâmica dos critérios de inclusão e exclusão que determinam a possibilidade de alguém entrar nesta categoria de “comunidade” pode ser reveladora sobre a forma como se constitui concretamente, no contexto do desfile carnavalesco, a comunidade de Vila Isabel. Pavão (2009), ao pensar as comunidades das escolas de samba, sugere que, sendo a fantasia um bem valorizado no mundo do samba, o momento ritual de formação das chamadas “alas da comunidade” no período do ciclo carnavalesco é um momento de tensão onde as divergências de concepção sobre o que é comunidade se acirram em polêmicas e disputas pelo direito de desfilar gratuitamente. Na Portela, analisada por Pavão, o momento de delimitação de quem tem direito ou não ao número limitado de fantasias gera tensão na disputa de quem é comunidade (e quem tem o direito de assim se intitular). Na Vila Isabel, como não há venda comercial de fantasias, o número de integrantes contemplados com a gratuidade não gera necessidade de demarcação de limites claros entre qual o conceito vigente de comunidade.53 Além disso, o comprovante de residência atestando a moradia no bairro de origem da escola não é uma exigência para inscrição nas alas na Vila Isabel. Isso resulta em um conceito mais frouxo de comunidade, em que – utilizando os conceitos fornecidos por Pavão - comunidade tradicional (aqueles que têm proximidade geográfica ou histórica com a escola) e comunidade eletiva (aqueles que têm participação efetiva na vida social da agremiação) convivem amistosamente e isso se reflete nas relações de sociabilidade criadas principalmente no período dos ensaios. Ao longo do ano, as escolas seguem um calendário de atividade em sua quadra e a presença e participação nas atividades da escola são valorizadas, pois “comunidade é quem está na quadra” (PAVÃO, 2009, p.190). Dessa forma, não só apenas durante os 53

Parece-me que a oferta de fantasias é bem satisfatória à demanda, pois fui me inscrever em uma das alas há apenas um mês do carnaval - quando os ensaios já ocorriam há mais de dois meses - e ainda tinha vagas para integrantes.


59

ensaios, mas também nas atividades realizadas durante o ano, “os indivíduos estabelecem laços duradouros, assumindo compromissos que desafiam a lógica de que os vínculos atuais seriam frágeis e temporários” (PAVÃO, 2009, p.186). Nessas festividades se fortalece o conceito de comunidade eletiva proposta por Pavão (op.cit.), pois “os laços frouxos e temporários cedem lugar a compromissos que vão bem além da quadra da agremiação, pois os laços de amizade geram vínculos que se estendem para as relações pessoais” (p.190). Assim, em Vila Isabel, essa “comunidade eletiva” tem um peso muito importante, pois o mais importante não é o local de moradia, mas a presença e participação nos eventos da escola. Isso se deve, em grande parte, à obrigatoriedade da ida aos ensaios da escola como condição para a inscrição em uma das alas da comunidade. Conversei com alguns integrantes moradores de bairros mais distantes de Vila Isabel como Copacabana e Jacarepaguá que me diziam: Nunca morei em Vila Isabel, mas há uns dez anos eu desfilo na ala da comunidade de Vila Isabel. Nunca me impediram de desfilar aqui porque eu moro na Taquara (Jacarepaguá) e escola de samba é isso: paixão e não moradia. Não tenho a menor vontade de desfilar e uma das escolas de Jacarepaguá. E não é porque elas são “rebaixadas” não. É porque o meu amor é a Vila Lilian, 46 anos.

Uma ex-integrante da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro e atual diretora de ala da Vila Isabel apontou como fator decisivo de sua ida para a escola azul e branca, o espírito acolhedor da Vila Isabel. Conversei também com um integrante da harmonia que também vinha do Salgueiro. Ele foi categórico ao afirmar que estava ali por uma questão profissional “para ganhar dinheiro mesmo” já que tinha se desentendido com membros do Salgueiro e, na Vila Isabel havia sido foi muito bem recebido. Ainda completou dizendo; “Se o Martinho da Vila é do Grajau, porque eu que sou da Tijuca não posso ser da Vila também?”. Minha companheira de ala, dona Aparecida parece concluir sobre o assunto, ela: Imagina se a Vila Isabel limitasse que só desfilava aqui quem morasse no bairro. Eu sempre morei, ia continuar desfilando. Mas e você, que não falta a nenhum ensaio, gosta da escola, está escrevendo até monografia sobre isso, não poderia? Isso não está certo. Se gosta da escola e não vai fazer arruaça, é bem vindo. Aparecida, 62 anos

No conjunto das entrevistas observa-se, então, que, o termo comunidade em Vila Isabel, evoca um sentimento de pertencimento genérico à escola.


60

Depois da pesquisa, pessoas do meu círculo de amizade, profissional e acadêmico ao saberem da minha relação com o bairro e com a escola de samba, costumam se referir a mim como “A Mayra da Vila Isabel”. O que está em jogo não é o fato de eu morar ou não em Vila Isabel, – pois, de fato, não moro em Vila Isabel há mais de 15 anos - o que se busca ressaltar é a minha ligação com a escola de samba, seja por relações afetivas, seja por interesses acadêmicos. Um sentimento de pertencimento é utilizado para me vincular à Vila Isabel. Isso caracteriza a denominação de comunidade. Não basta, e não é necessário, residir em Vila Isabel, deve existir um conjunto de referências comuns que faça com que as pessoas se identifiquem e compartilhem ideias sobre o bairro e sobre a relação da escola com o bairro que produzam este sentimento de pertencimento. O conceito de comunidade abrange pessoas de moradia diversas, o que confirma que: O termo comunidade tão usado pelos membros das grandes escolas, repórteres e comentaristas de televisão, refere-se menos à mitificação de uma suposta origem do que ao necessário enraizamento de todas as escolas grandes ou pequenas, no bairro em que se situam. Não se trata mais apenas das ruas do bairro periférico e dos bairros periféricos relacionando-se e competindo entre si. Elas relacionam, como veremos, os diferentes bairros da cidade e as diversas camadas da sociedade (CAVALCANTI, 2008,p.41)

A Vila Isabel aparece, então, como uma escola de samba que, embora tenha grande participação dos moradores do bairro de Vila Isabel, não limita a participação em suas alas da comunidade aos moradores do bairro. Todas as pessoas com que conversei e entrevistei apontaram este clima “acolhedor” da escola como um ponto forte. A Vila agrega assim à categoria de comunidade pessoas que se identificam com a escola ou que querem simplesmente experimentar a sensação de desfilar no carnaval, como é o caso da estudante Holly de 19 anos, moradora do Grajau “Eu sempre quis desfilar em escola de samba. Enquanto não consigo ser rainha de bateria, a oportunidade de desfilar de graça aqui na Vila é bem legal”.


61

Nada é de graça, vamos ensaiar – uma etnografia das alas da comunidade.

Inscrição na ala da comunidade. Para entender como de fato funciona uma “ala da comunidade”, o primeiro passo que dei durante a pesquisa foi ir à quadra da escola levando os documentos necessários para a inscrição. Ao fazer a inscrição na secretaria da escola, recebi um papel que servia


62

como uma espécie de termo de compromisso entre a escola e o integrante. Após entregar os documentos necessários: foto 3x4, cópia de identidade, CPF e comprovante de residência, é cobrada uma taxa de R$ 10,00 para a confecção da carteirinha de identificação de desfilante na ala da comunidade. Isso garante a entrada gratuita nos ensaios e eventos realizados pela escola. O regulamento também tem a função de informar que os ensaios de rua ocorrem às sextas- feiras a partir das 20 horas (o que nunca de fato ocorre, e os ensaios sempre começam por voltas das 22 horas), e que três faltas, seguidas ou não, a esses ensaios, implica no desligamento do integrante. No início ou no final dos ensaios, os coordenadores de ala, de posse da lista nominal dos integrantes da ala, anotam as presenças. Há uma preocupação constante dos componentes assíduos com a questão da presença. Porém, nos dois ensaios técnicos apareceram diversas pessoas que não haviam comparecido a nenhum ensaio, e que não foram nos ensaios de rua posteriores. No dia do desfile oficial, o número de integrantes também aumentou significativamente. A conclusão a que se chega é que a presença é certamente um elemento obrigatório e importante para os componentes que desfilam em uma das alas da comunidade; há, porém, outras formas de ingresso nessas alas, como a destinação de algumas fantasias para os patrocinadores do enredo, além de mecanismos para burlar essa presença, como pedir a outras pessoas da ala marcarem a presença para o faltante, ou justificar uma falta para o coordenador de ala. Além disso, não há uma regularidade na forma como essa presença é anotada. Algumas vezes, isso ocorre no início do ensaio, outras vezes no final, ou então no início e no final. Há, ainda, por vezes dias em que a presença sequer é anotada. No termo de compromisso, é expressa também a necessidade de devolução da fantasia para que seja possível desfilar novamente no ano seguinte. Embora esta seja uma regra frisada no papel e também pela atendente da secretaria no ato da inscrição, quando fui devolver minha fantasia após o carnaval de 2012, o controle sobre as devoluções me pareceu bastante frágil. Desci do táxi com a volumosa fantasia em frente à quadra da escola, e o atendente, sentado em um banco em uma pequena porta da escola, veio me ajudar perguntando se era para devolver. Na quadra toda escura, tinha um cercadinho com as fantasias devolvidas, todas bagunçadas, misturadas. Não houve fiscalização para verificar se todos os elementos da fantasia estavam dentro do saco que eu tinha levado, apenas assinei meu nome em um caderno.


63

Chamou-me atenção também o fato de que, ao final do desfile oficial, muitas crianças ficavam pedindo pedaços das fantasias e houve vários casos de furtos de fantasias por estas crianças. Se, por um lado, algumas pessoas foram impedidas de desfilar no desfile das campeãs por estarem sem um pedaço de fantasia – furtado ao fim do desfile oficial –, por outro lado, havia na dispersão um grande caminhão da escola recolhendo as fantasias que eram entregues sem controle algum. Isso , além das pessoas que efetivamente se livravam da fantasia, doando-as aos pedintes. A devolução da fantasia não pareceu assim uma pré-condição importante para a inscrição nas alas da comunidade. Há ainda no documento entregue pela escola outras informações que merecem atenção. Uma delas é o estabelecimento de uma idade máxima para desfilar e a preocupação da escola em explicitar que não se trata de uma medida preconceituosa e sim de uma condição necessária após a observação de que as pessoas com mais idade não aguentavam fisicamente o ritmo dos ensaios e inventavam artifícios para fugir do ensaio.54 Essa proibição é vista como uma: Postura preconceituosa e discriminatória dos dirigentes da escola que não consideram os verdadeiros “apaixonados” pelas tradições, menosprezando aqueles que deram o “sangue” pela escola. Não falo por mim, pois acho que a fase de querer desfilar já passou - atualmente, torço muito em casa ou nas arquibancadas da Sapucaí -, mas pelos autênticos sambistas e amantes da Vila!’ Junia, 57 anos

No ato da inscrição, pode-se informar a presença de algum parente ou amigo em uma ala determinada para ser encaixado nessa ala, porém de forma geral descobre-se a que ala se pertence no dia do primeiro ensaio, através de uma lista exposta na entrada da quadra da agremiação. Nesta lista, os nomes já estão agrupados de acordo com o número e nome das alas. Assim, no meu primeiro ensaio, descobri que fazia parte da ala dezessete, a ala das bruxas - que mais tarde descobriria ser uma ala composta só por mulheres que representariam a bruxa de Cinderela – e me encaminhei para o espaço que o cavalete com numeração apontava. Isso porque, nos ensaios de rua, assim que o tráfego do Boulevard Vinte e Oito de Setembro é fechado, o carro de som se posiciona na esquina do Boulevard com a Rua Visconde de Abaeté – em frente ao tradicional bar Petisco da Vila – e cavaletes com os números da ala indicam a localização das alas. As 54

Esta “proibição” não impede, de fato, que pessoas além da idade estipulada desfilem. Além das alas que tradicionalmente são formadas por pessoas de idade mais avançada, como a ala das baianas e a velha guarda, a ala em que desfilei tinha uma grande quantidade de mulheres com idade acima da estipulada no regularmento.


64

pessoas vão chegando e esperam no espaço destinado a sua ala. Nesse período anterior ao ensaio, os recados são dados pelos coordenadores de ala, e os integrantes vão estabelecendo relações de amizade e também de hostilidade entre si. Se, no momento da inscrição, fui informada que os ensaios ocorreriam nas quartas e sextas-feiras, com a proximidade do carnaval os ensaios ocorridos aos sábados também passaram a ser obrigatórios. Conhecidos como “ensaios-show” e dirigidos a um público bastante heterogêneo, os ensaios de sábado - ora funcionando como substituto dos ensaios de domingo, ora funcionando como um terceiro dia de ensaio na semana, articulavam um novo arranjo de integração e sociabilidade entre os componentes. Não mais presos em suas alas, os componentes tinham a possibilidade de conhecer os demais integrantes da escola, assim como de estabelecer outro tipo de relacionamento com os “conhecidos”: aqueles com quem já se tem algum tipo de conhecimento, pelo fato, por exemplo, de pertencerem a mesma ala, mas com quem não se tem laços de intimidade. Sempre ia sozinha aos ensaios de rua, pois gostava de circular entre as pessoas no início e no fim dos ensaios, e porque durante o ensaio tinha que ficar no espaço da minha ala. No primeiro ensaio de sábado a que fui, procurei por uma companhia, pois diferentemente dos ensaios de rua que tinham um local específico para onde eu deveria ir, na quadra as pessoas estariam espalhadas e eu ficaria sozinha. Sem arranjar companhia e sem alternativa, fui para o ensaio sozinha. Assim que entrei na quadra, um grupo de mulheres da minha ala veio em minha direção dizendo que eu tinha demorado e que quase todo mundo da ala já tinha chegado. O grupo ficou junto comprando bebidas e comidas e dançando juntas não só samba, ou especificamente o samba-enredo daquele ano como estávamos acostumadas, mas também todas as outras músicas que tocavam. Eu era uma das mais novas da ala e as mulheres mais velhas ficavam me imitando dançar os passinhos e danças “modernas”, isto é: músicas baianas e funks coreografados. Assim ficamos até o momento em que nos dirigimos ao local onde era registrada a presença do dia. Como a presença só era recolhida na maioria das vezes após as duas horas da manhã, depois de anotada a presença o grupo se dispersava e ia embora. Na hora da saída, sempre arrumava uma carona. Seja de carro até um lugar melhor para eu pegar ônibus, seja na minha caminhada até a frente da UERJ no início do Boulevard Vinte e Oito de Setembro, local onde eu pegava ônibus. Esse quadro de convivência e integração permaneceu nos demais ensaios. Isso que fez com que minha percepção sobre a obrigatoriedade dos ensaios de sábado


65

correspondesse à justificativa dada pelo diretor da ala da qual participava. Ele dizia que durante os ensaios de rua as pessoas ficavam muito presas na divisão das alas sem conseguir uma convivência com os demais integrantes. Já na quadra a circulação de pessoas seria maior, e os participantes teriam ali um espaço de sociabilidade ampliado. Segundo ele, a escola de samba não devia ser importante apenas no carnaval, mas um meio das pessoas do bairro se conhecerem e estabelecerem relações. Os momentos do carnaval: a troca em torno da comunidade Ensaios de rua Nos ensaios de rua, em alguns momentos a palavra “escola” de samba fazia todo o sentido por remeter a um lugar com regras e ordens a serem cumpridas e onde a disciplina era um elemento fundamental. Os coordenadores de ala me lembravam dos inspetores da escola: sempre atentos a algum erro disciplinar seja ele estar fora da linha reta da fila, erro na hora de passar ao lado do carro de som, desatenção às ordens e também aspectos mais subjetivos como o entusiasmo e alegria. O coordenador da minha ala embora cobrasse o canto forte e a atenção na formação da linha da ala, era muito querido pelas integrantes e não utilizava seu “poder” de forma autoritária ou abusiva. Mas houve situações relatadas por componentes de outras alas, em que o coordenador foi tão deselegante na hora de se dirigir aos componentes, que alguns desistiram de participar do desfile. Eu comecei a ensaiar agora, sabe, eu não tenho obrigação de saber a letra todinha. Depois eu aprendo. Mas eles não acham assim, não. Ficam gritando, mandando cantar direito. Teve uma colega da minha aula que não aguentou e se mandou. Ela tá certa. Já recebemos ordens no trabalho, aqui também? Monique, 28 anos

Os coordenadores cobravam e os diretores de harmonia botavam medo. Sabe quando eu canto mais? Quando eu vejo os homens de cinza. (camisa dos diretores de harmonia) Na camisa deles está escrito cada um no seu quadrado, mas bem que eles prestam atenção no quadrado da gente. Olham tudo que você está fazendo. Me dá um medo de errar. Jucélia, 38 anos

No final do ensaio, quando as alas chegam ao portão da escola, se forma um pelotão de coordenadores e diretores olhando atentamente para cada um dos integrantes tentando identificar erros no canto, assim como ausência de canto.


66

Uma vez quando já estava lá no final, naquela fila que eles fazem, eu sem querer cantei ‘carrega os filhos de Isabel’ e um daqueles homens começou a gritar: ‘é carrega os fios de Isabel’. Você não ia ficar toda cheia de vergonha?Katia, 34 anos

Outra hora de tensão era a passagem da ala pelo caminhão de som na hora em que a bateria da vila entrava em uma das ruas transversais, simulando o recuo que é feito na Sapucaí. As pessoas que ocupavam uma faixa inteira da Boulevard Vinte e Oito de Setembro tinham que se espremer para ocupar meia faixa – já que dividiam o espaço com o caminhão do som-, o que causava tumulto e cobrança. Cobrança dos coordenadores e dos próprios integrantes que queriam fazer a performance correta. Em uma escola, quando a turma faz muito bagunça, o professor faz uma reunião com a turma, certo? Na escola de samba também. Se em um ensaio as coisas não saíssem como previstas, seja porque as pessoas estavam sem empolgação, seja porque a fila não se alinhou corretamente, ou então porque um componente não tinha respeitado a as ordens, havia no final uma reunião comandada pelos coordenadores de ala onde as falhas eram apontadas e as más atitudes reprimidas. Há uma relação dúbia entre os coordenadores da ala e seus “comandados” que oscila entre cobrança/tensão e camaradagem/amizade. Criam-se posições de prestígio a partir do estabelecimento de algumas relações como aquela entre o coordenador da ala e o monitor da ala, aquela pessoa responsável por passar informes e ajudar em pequenas tarefas como a verificação da presença e a entrega das carteirinhas. Cria-se uma espécie de hierarquia ali, onde estes monitores ou pessoas próximas aos coordenadores se sentem no direito e na obrigação de comandar o restante da ala durante os ensaios, sendo inclusive ríspidos e grosseiros com os colegas de ala. Além das reuniões e dos “inspetores”, existe na Vila Isabel mais um elemento de supervisão e aplicação da disciplina: o Bocão. Dirigente da Vila, compositor do grupo que coleciona vitórias nas disputas de samba-enredo da Vila Isabel55 e figura fácil nos bares do bairro, Bocão é presença certa nos ensaios da Vila Isabel. Corpulento e de voz grossa, é conhecido pelos componentes da escola por passear sempre entre as alas cantando, vibrando e esperando – e cobrando de forma energética- que todos façam o mesmo. A ala em que ensaiava era a primeira atrás do carro de som e era um dos locais onde o Bocão ficava mais tempo fazendo a sua “fiscalização”: ele gesticulava, 55

Dentre eles André Diniz, um dos maiores campeões de samba-enredo em toda a história da Vila Isabel.


67

cumprimentava pessoas, fazia expressões de satisfação ou desaprovação. Era a pessoa de referência nos ensaios, tanto por sua presença constante, tanto por sua conhecida cobrança. No ensaio de rua seguinte ao primeiro ensaio técnico realizado na Sapucaí para o carnaval de 2012, Bocão foi até o carro de som e, comentando sobre as críticas positivas que ouvira, disse que, se estavam todos surpresos, ele não estava, porque o trabalho que todos fazem no Boulevard Vinte e Oito de Setembro era para isso mesmo. Em sua fala ficava evidenciada a importância destes ensaios na preparação do desfile carnavalesco.

Minha participação na ala da comunidade- um depoimento Minha inserção na escola como pesquisadora e foliã revelou-me de início uma estrutura muito mais rígida e hierarquizante do que esperava encontrar. Todas as entrevistas reafirmavam minha percepção e, devido às especificidades da situação em que me inseri no desfile – como membro de uma ala “de comunidade” - esta percepção ganhou dimensão ainda maior. Nos ensaios de rua, minha ala vinha imediatamente atrás do carro de som e, por isso, era alvo de muita atenção por parte dos dirigentes da escola. Além disso, nos ensaios do Boulevard, ela era a primeira ala que tinha a difícil missão de passar ao lado do carro de som para ensaiar o recuo da bateria. O recuo da bateria é um momento crítico na evolução de um desfile, pois, nesse momento, a bateria sai do cortejo linear e se posiciona num espaço lateral desde onde anima a passagem de toda a escola. É um momento sempre cercado de muitas apreensões, pois essa complicada manobra deve ser executada pela bateria sem nenhum prejuízo ao ritmo de sua percussão. Com essa retirada da bateria do fluxo do cortejo, abre-se sempre um espaço vazio que deve ser imediatamente preenchido pela ala subseqüente. Essa ala está assim naturalmente sujeita a uma extrema pressão, pois de sua agilidade depende a fluência na evolução da escola. Além disso, fui uma das “selecionadas” para fazer parte da primeira fila da ala e a cobrança de desempenho era ainda mais intensificada. A primeira e a última fileira de cada ala são sempre fixas, e o coordenador da ala no momento que entrega a camisa para ser usada no ensaio técnico pergunta o nome dos integrantes que “se destacaram” – seja por sua animação, seja por saberem o samba, ou por outros critérios mais subjetivos – e essa formação se mantém em todos os ensaios, inclusive no desfile oficial. A


68

primeira fileira tem sempre maior obrigação de estar alinhada, cantando e, além disso, era a ala que cobria o espaço deixado pelo recuo na bateria. Qualquer erro nesse momento forma um vazio na evolução que acarreta a perda de pontos por parte da escola. Eu fazia parte da ala número 17, composta exclusivamente por mulheres fantasiadas de bruxa. Em um enredo sobre os mitos e histórias sobre o cabelo, a bruxa do conto de fadas de Rapunzel tinha espaço garantido. Antes de um dos ensaios de rua, surgiu a ideia de nos reunirmos para comprar um chapéu de bruxa para utilizar no dia do desfile técnico, assim como outras alas haviam feito.56 Duas integrantes iniciaram uma discussão dizendo que não queriam gastar dinheiro com essa “besteira” e isso originou fofocas e comentários maldosos durante vários ensaios e se cogitou mesmo de não incluí-las no churrasco organizado pelos componentes da ala. De um ponto de vista técnico, os ensaios de rua são vistos como oportunidades para a correção de erros que podem originar perda de pontos decisivos na disputa. Meu primeiro desfile na avenida foi, assim, marcado pela tensão de fazer todos os passos corretos, sem errar nem prejudicar a escola. No desfile oficial essa cobrança, técnica e disciplina atingem o seu ponto máximo. O trabalho de um ano inteiro vai ser avaliado durante os oitenta minutos em que a escola passa pela Sapucaí. Ouvi muitas vezes a afirmação de que, em um carnaval cada vez mais competitivo, o título se definia não pela escola que acertava mais e sim pela que errava menos.

Assim

que

o

integrante chega à concentração (muitas horas antes do momento que de fato vai entrar na Sapucaí), ganha um manual do desfilante (ver anexo). Neste manual o componente tem discriminada a lista de obrigações a serem seguidas. Embora, o desfile oficial seja marcado pela tensão e expectativa também há espaço para a confraternização entre os integrantes. No dia do desfile eu gosto de chegar bem cedo para ficar vendo a fantasia das outras alas e conversar com as colegas de alas para saber como estão. Aí sempre tem uma que ajuda a pintar, a ajeitar a fantasia, o cabelo. É como a noiva quando fica o dia inteiro se arrumando para o casamento. Aqui ninguém vai casar, mas também precisa se preparar. E a gente passa tanto tempo com as colegas de ala que é quase um namoro. (Marizete, 44 anos)

56

Existia uma ala também composta só por mulheres que usavam coroas representando princesas, tema da ala.


69

Ensaios técnicos

Realizados na Sapucaí nos meses que antecedem o carnaval, os ensaios técnicos nos últimos anos entraram para a agenda carnavalesca do Rio de Janeiro. Cada escola tem direito a dois ensaios técnicos antes do carnaval. Assim como no desfile oficial, as escolas são divididas em dois lados: o lado dos prédios dos Correios e o lado oposto, onde fica o conjunto de edifícios conhecido como ”balança”. Com entrada gratuita, um grande público vai assistir aos ensaios das escolas de samba. Com essa grande visibilidade, as escolas têm dado uma atenção cada vez maior a esse evento. As escolas confeccionam camisas especialmente para este evento e as distribuem entre os seus participantes. Nas camisas distribuídas pela Vila Isabel, havia o número da ala de cada um, para facilitar a organização. Há uma grande expectativa em relação a essas camisas. Nos ensaios de rua anteriores ao primeiro ensaio técnico, as componentes da minha ala perguntavam insistentemente quando a camisa iria ficar pronta, como seria seu desenho. Havia ansiedade para obter essas camisas. Havia uma mulher que em todo o ensaio, assim que chegava, me perguntava se já tinham dito alguma coisa sobre as camisas. Quando perguntei por que era tão importante ter a camisa, ela disse que: “Ah, se você ganha à camisa, é porque está inscrita certinho na escola, aí vai ganhar mesmo a fantasia né. E quando você anda na rua todo mundo sabe que tá vindo desfilar” (Joana, 33 anos). Mas a principal dimensão a ser observada é que os ensaios técnicos servem como “teste” para o desfile oficial e, por isso, a cobrança feita aos participantes para que tenham a letra na “ponta da língua” é tão grande. Afinal, no desfile oficial, o canto é um dos fatores centrais do julgamento do quesito harmonia, e no ensaio técnico o público presente avalia a performance de cada escola a partir da força do canto, do ritmo e da evolução dos componentes. Sendo assim, há um esforço coletivo para que a escola se apresente bem nos ensaios técnicos para impressionar o público presente. Já não mais como integrante de uma ala de comunidade e sim como expectadora, observei, nos dois ensaios técnicos realizados nos preparativos para o carnaval de 2012, que as alas estavam mais soltas e as filas já não estavam todas certinhas e organizadas. A primeira fila de cada ala mantinha a organização, porém nas demais fileiras havia uma brincadeira e descontração maior, com as pessoas acenando para o público e empolgando as arquibancadas. Era ainda possível perceber os


70

coordenadores de ala nas laterais dando os direcionamentos para a organização das fileiras, mas o que não ficou claro foi se o estilo de organização mudou de fato, ou se foi um erro dos componentes o fato de não se perfilarem corretamente. Comparado ao desfile oficial, o ensaio técnico foi para mim, como desfilante, um momento muito mais descontraído e espontâneo, embora a cobrança não desaparecesse ali. Sobre o primeiro ensaio, saiu noticiado que: A direção da Vila Isabel levou o ensaio com muita seriedade. A organização imperou e ainda assim foi possível ver descontração nas alas. A presença de coreografias e passos marcados não atrapalhou, embora, tenham sido apresentadas em excesso.

O samba-enredo de 2011 tinha algumas passagens em que, durantes os ensaios realizados no Boulevard Vinte e Oito de Setembro, os componentes faziam coreografias que foram incorporadas pelos coordenadores de ala e reproduzidas em todos os ensaios. Era uma forma divertida de contar o enredo e era também uma hora em que os componentes brincavam entre si com suas invenções e adaptações de passinhos. Os coordenadores de ala, enquanto acompanhavam os ensaios, incentivavam e muitas vezes cobravam a reprodução das coreografias que animavam o público. Os comentários sobre o primeiro ensaio técnico realizado na Sapucaí para o carnaval de 2011 ressaltavam a repetição destas coreografias, porém exaltavam a descontração das alas. Embora as coreografias tenham servido como elemento de motivação e animação durante os ensaios, no dia do desfile oficial minutos antes de entrarmos na Sapucaí, o coordenador de ala reuniu o grupo e proibiu que se fizesse qualquer tipo de dança ou coreografia, pois isso poderia configurar, na visão dos jurados, uma ala coreografada. Não eram permitidas nem as coreografias que ensaiamos repetidamente nem a que todas queriam fazer quase que instintivamente: um movimento similar ao rodar das baianas A fantasia tinha uma estrutura com um bambolê, que formava uma saia armada semelhante àquela usada na fantasia das baianas. Quando começaram a aquecer a bateria e a cantar o samba-exaltação, quase todas as integrantes da ala começaram a fazer um rodopio que foi veementemente criticado pelo coordenador da ala. Cavalcanti (2011) ao falar sobre a ala das baianas e o movimento próprio realizado pelas mulheres que compõe tal ala, o “rodar a baiana”, chama atenção para o fato do giro do corpo ser “a imagem encarnada da tradição e aciona todo um universo de valores associado ao feminino”. (CAVALCANTI, 2011, p.19). Assim, na minha ala composta só por


71

mulheres, estar com um traje típico da ala das baianas (ala que goza de autoridade e deferência), pode ter despertado a vontade de, fazendo movimentos semelhantes, adquirir prestígio semelhante. Do primeiro para o segundo ensaio técnico, houve uma mudança na percepção do ensaio, apontando que “a comunidade da Vila Isabel (...) cantou e evolui com alegria, à vontade. Nas alas, os componentes evoluíam sem estar enfileirados, o que gerou a sensação de maior leveza e integração entre os integrantes.”

57

Se no primeiro

ensaio o destaque foi para as coreografias, no segundo, foi para a evolução solta e alegre. Como componente da escola, não observei qualquer tipo de mudança no comportamento da escola, nem na condução do ensaio, nem no comportamento das pessoas na ala. A principal diferença ocorria por conta dos diferentes momentos do ciclo carnavalesco: os ensaios de rua, os ensaios técnicos e o desfile oficial. Os ensaios técnicos realizados na Marquês de Sapucaí nas semanas anteriores ao carnaval funcionam geralmente como um termômetro do que uma escola pretende fazer na avenida. Harmonia, bateria, mestre sala e porta bandeiras: todos os setores da escola utilizam este momento para testar o que está ou não certo e o que precisa ser melhorado. Mas, na Vila Isabel, parece ser nos ensaios de rua, no trabalho feito ao longo das semanas na principal rua do bairro, que o componente aprende a letra do samba, conhece os demais integrantes da sua ala e, principalmente, ao explorar o bairro em que mora ou que, pelo menos, tem que ir duas vezes por semana para ensaiar, estabelece relações. É lá que o carnaval assume sua face popular. O público não é de artistas ou de pessoas que compraram ingressos de valor por vezes bastante elevado para o Sambódromo e sim de moradores, parentes e amigos que foram acompanhar os ensaios. Exige-se técnica e disciplina, mas também se trata de um terreno fértil para o famoso “jeitinho”. Jeitinho para convencer o coordenador da ala a dar presença para uma amiga que não pode ir, jeitinho para sair no meio do ensaio para ir ao banheiro ou comprar mais uma cerveja “para molhar a garganta”. Enfim, é no ensaio de rua que se quebra a dureza da formalidade exigida no desfile oficial e em escala reduzida no ensaio técnico.

57

Retirado do site www.sidneyrezende.com/noticia/121993 no dia 13/01/2012 às 00h15min


72

Desfile das campeãs

O desfile das campeãs, no sábado seguinte ao carnaval, é um momento diferenciado. Não se precisa ensaiar para dar certo e nem fazer tudo perfeitamente, pois falhas e acertos já foram observados e julgados. A falta de obrigação e compromisso com a perfeição faz com que coisas impensadas no dia do desfile sejam possíveis, é um dia extraordinário dentro do clico de dias extraordinários que é o carnaval. Se antes do desfile oficial os funcionários dos carros estão tensos e preocupados com os últimos detalhes e acabamentos, no desfile das campeãs o clima de comemoração faz com que seja possível tirar diversas fotos (ver anexo) reunindo componentes, direção, coordenadores e os responsáveis pela manutenção e evolução dos carros alegóricos. Coisa complicada no dia do desfile, até porque a presença de máquinas fotográficas não é bem vinda, pois podem dispersar os componentes que disputam fotos ao lado de artistas e amigos atrapalhando a evolução da escola. Não só os dirigentes da escola, mas os próprios componentes aparentam estar mais tranquilos, com uma sensação de missão cumprida. Ao chegar ao local onde minha ala estava concentrada, a primeira frase que ouvi foi “missão dada, é missão cumprida”. Obviamente há uma pequena discussão sobre o resultado final do campeonato58, considerado injusto pela maioria, mas o consenso é que a Vila Isabel fez sua parte, e cada um se sente um pouco responsável pelo êxito da escola.

Conclusão Os constantes ensaios com a participação e cobrança dos diretores de ala e harmonia funcionam como um dispositivo para que as falhas na avenida sejam minimizadas. Em troca da fantasia “de graça” o integrante da escola tem uma série de obrigações. Seria uma espécie de dádiva como pensada por Mauss no sentido de que a troca material (a fantasia) abrange também valores morais, subjetivos e associativos como a garra do participante, a demonstração de emoção e alegria. O desfilante tem em contrapartida à doação das fantasias algumas obrigações sendo o comparecimento ao desfile a mais explícita. Nessa troca, há algo que não é material: a animação e o comprometimento são vistos como “obrigação moral”. A 58

Campeonato vencido no ano de 2011 pela Beija-flor de Nilópolis


73

relação envolve assim também a criação e expressão de um sentimento de paixão pela escola e a vontade que a escola seja campeã. Nessa troca em que o componente ganha a fantasia e, com ela, a possibilidade de desfilar, se requer algo para além de sua simples presença: a animação, a garra e o comprometimento, conforme explícito no último parágrafo do manual do desfilante: Vamos para a Sapucaí para sermos campeões e você componente é a peça fundamental do desfile. Vamos aprender o samba e cantá-lo com vibração e empolgação na Avenida. Vamos dançar, pular, brincar e sermos campeões, principalmente respeitar seus companheiros de ala. Nós dependemos de vocês para sermos campeões. O nosso compromisso é competência e qualidade e o compromisso de vocês é esbanjar alegria, vibração e transmitir energias para contagiar o seu companheiro de ala e o público da Marquês de Sapucaí.

Neste trecho está expressa a relação entre Escola de Samba e componente. Alguns quesitos como harmonia, evolução e conjunto dependem diretamente dos componentes da escola. Sendo assim, esta troca em que a escola de samba “distribui” fantasias para a “comunidade” pode ser extremamente vantajosa, pois articula uma série de atribuições e uma obrigação que têm como objetivo final um entrosamento perfeito entre os participantes garantindo maior competitividade para a escola de samba em seu desfile festivo. Conforme nos indica Simmel, o conflito é uma forma de sociabilidade, isto é, a ocorrência de conflitos entre os grupos tem como consequência a execução de medidas avançadas de integração, o que permite pensar que, a partir do conflito, a sociedade pode vir a ser modelada. Em uma situação de conflito, os grupos vão desenvolvendo relações que não são apenas de oposição. Mas pode agir como um tipo diferente de integração social, pois se tenta alcançar algum tipo de unidade a partir do antagonismo. Sendo assim, a grande competitividade entre as escolas de samba, cria antagonismos e oposições que, para serem superados, dependem da união dos membros de determinado grupo contra o outro. Neste sentido, há uma estratégia de construção, por parte da diretoria da escola de samba, de uma união dos componentes em torno de um sentido de “comunidade” que signifique ganhos objetivos para a escola de samba. Ao agregar pessoas que desenvolvem interesses em comum e motivados, a escola garante também o seu bom desempenho na competição festiva do carnaval. O conceito de comunidade é aqui forjado visando à obtenção de ganhos para a escola. Isto não significa que não exista uma comunidade em Vila Isabel, pelo contrário. O sentido da


74

ideia de comunidade em Vila Isabel tem relação direta com esta criação da comunidade pela escola de samba, pois remete àquelas pessoas que participam ativamente das atividades da escola de samba e do bairro (seja pela obrigação da presença ou não). O que cria uma comunidade, ou relação comunitária, nesse outro sentido é a forma como os indivíduos interagem entre si a partir de um sentido subjetivo de pertencimento, que é o tema do próximo capítulo.


75

Anexo

Diretores, coordenadores, equipe técnica e membros da ala em momento de descontração

Antes do desfile das campeãs os integrantes de diferentes alas interagem entre si

Enquanto fazia os últimos reparos no carro alegórico, o funcionário da Vila Isabel posou para foto

Momento de espera da hora de entrar na avenida

Coordenador da ala ajuda a componente a dar os últimos ajustes na fantasia

Encarregado de empurrar o carro alegórico, pegou um adereço da fantasia e quis posar para a foto


76

Capítulo 3 – A Construção da comunidade: relações de sociabilidade

Wirth (1987), ao definir o que o é o urbanismo, enfatizou a importância de descobrir as variações das cidades para além de suas características comuns. Neste capítulo, contemplando o bairro e a escola de samba abordo a construção dos laços de sociabilidade na convivência no bairro e na escola de samba.

É na 28 que a gente brinca No capítulo anterior demonstrei como os ensaios de rua servem para minimizar eventuais falhas no desfile, apontando para a crescente cobrança originada na alta competitividade da disputa carnavalesca. Porém, os ensaios de rua permitem vislumbrar também surgimento de novos momentos onde a espontaneidade e a alegria são permitidas e desejáveis. Na passarela da Marquês de Sapucaí tudo é monitorado e não pode haver falhas. No Boulevard Vinte e Oito de Setembro permite-se o erro. Na minha experiência como componente da escola na Sapucaí, o momento foi, sobretudo, de apreensão e nervosismo; no Boulevard Vinte e Oito de Setembro, pude, ao contrário, experimentar empolgação e alegria. Vocês precisam perder o medo da Sapucaí. Se vocês fizessem aqui o que fazem na vinte e oito, o título seria nosso. Quando olharem para a arquibancada, imaginem que quem está lá é sua tia Maricota, sua mãe ou seu vizinho, porque lá na vinte e oito é uma alegria só. Aqui parece que vocês ficam travadas.

A fala acima é do coordenador da ala em que desfilei no ano de 2011, ao final do primeiro ensaio técnico realizado no mês de janeiro, na Sapucaí. Nela, se destacam duas coisas. A primeira é a diferença de comportamento entre os ensaios ocorridos no Boulevard Vinte e Oito de Setembro e do ensaio técnico na Sapucaí. O ensaio de rua aparece como lócus privilegiado para análise. No carnaval, as escolas desfilam em uma rua no centro da cidade. Nos ensaios de rua da Vila Isabel, a principal rua e também com maior prestigio, é o local escolhido para ser ocupado pelos componentes, afinal “desfilar no Carnaval sempre foi apresentar-se num local prestigiado, tornar-se dessa forma visível, e admirado, se possível por toda a cidade” (CAVALCANTI, 2006, p.44). Há uma reinvenção do espaço citadino já que, de impessoal passa a ser um espaço que dá vazão à individualidade e às relações pessoais. (DAMATTA, 1997).


77

O outro aspecto marcante na fala é a referência à presença da “tia Maricota, sua mãe ou seu vizinho”, isto é, como que o ensaio de rua tem um aspecto familiar e bairrista, pois além de se estar na principal rua do bairro, têm-se como participantes e espectadores pessoas muitas vezes já conhecidas no cotidiano diário do bairro, fora do ambiente da escola de samba. A resposta dada por uma moradora sobre a diferença entre o ensaio de rua e de quadra expressa bem esta condição: Os ensaios de rua, por serem abertos a todos, promovem maior integração entre as pessoas: sambistas e plateia, vamos dizer assim. O contato e contágio são maiores. Na quadra, embora bastante animado, por ser um ambiente fechado e com ingressos cobrados, a maioria das pessoas fica impedida de participar. Além do mais, a presença de estranhos como celebridades, supervalorizada pelos dirigentes, descaracteriza um pouco a genuinidade, as raízes da escola. Mas isso acontece em todas as escolas de samba. Junia, 57 anos

Estes ensaios são vistos por muitos participantes, como uma experiência até mais prazerosa do que a do dia do desfile. Embora o ensaio tenha como objetivo final o desfile nos dias da folia do momo, é durante os ensaios realizados no Boulevard Vinte e Oito de Setembro que redes de sociabilidade são formadas e fortalecidas, conforme aponta Neusa, 38 anos: O melhor do carnaval não é o carnaval, é a preparação do carnaval. É muito emocionante ver as ruas cheias de pessoas que vem para acompanhar os ensaios. Pode passar muito tempo, mas eu sempre vou me emocionar em estar aqui em frente de casa cantando com os meus amigos os sambas da escola do meu bairro de coração.

Esta visão apareceu em diversas conversas que tive durante a pesquisa. Os argumentos eram variados: “o dia do desfile é muito cansativo”, “Aqui eu posso trazer a minha cervejinha”, “sem ter fantasia pesada, a gente aproveita muito mais”, “os coordenadores aqui não parecem que vão ter um piripaque”, “rapidinho estou em casa”, “consigo ouvir melhor o barulho da bateria”. Embora o desfecho do ritual carnavalesco seja o desfile na Marquês de Sapucaí e que todo o ciclo caminhe para este momento de ápice, o momento de preparação tem uma importância muito grande. É o momento e o espaço de aparecimento e fortalecimento de laços. Antes, durante e depois dos ensaios, os componentes estabelecem relações de diversos tipos. E o que aparece na fala da maioria dos interlocutores como o ponto positivo dos ensaios de rua é exatamente o clima festivo que toma conta do bairro. Eu passo o ano inteiro esperando o carnaval. Domingo meu filho sempre vem com a família almoçar comigo. Em época de ensaio, eles só vão embora


78

quando o ensaio acaba. Melhor do que qualquer casa de show, tem samba e artista aqui na porta de casa.59

O ensaio de rua da Vila Isabel movimenta não apenas os integrantes da escola de samba, mas o bairro de uma forma mais ampla. Além das pessoas do bairro, que ficam nas suas janelas, na porta de suas casas ou na rua acompanhando a escola, há um grande número de pessoas de outros bairros que se deslocam até lá nos dias de ensaio. Muitos vão ver o ensaio da escola, ou então aproveitar o movimento do bairro que lota os diversos bares da região. Moradora do bairro há cinco anos, a estudante Ingridy Salvador de 21 anos, é natural de Miracema (TO) e, ao se mudar para o Rio de Janeiro, não conhecia a tradição do bairro e nem o universo das escolas de samba. Mesmo assim, ela se diz uma frequentadora assídua dos ensaios de rua. Segundo ela: Eu não gosto do samba, eu não gosto de carnaval. Sou do interior do Tocantins, lá a gente só ouve sertanejo. Eu vou para os ensaios pelos meus amigos que me chamam. As pessoas me chamam para andar pela vinte e oito. Tem uma coisa que eu gosto muito do ensaio da vila, sempre páro para olhar o mestre-sala e porta-bandeira. Os dois arrebentam demais, e eu nem gosto de carnaval. A gente fica na vinte e oito conversando. Quando a escola passa pela gente, nós realmente paramos para assistir, comentar, rir. É mais uma opção de lazer, sabe. A gente não está fazendo nada em casa e então vem para 28. Sempre tem bastante gente, a vinte e oito tá sempre cheia durante o carnaval. Muita gente do meu condomínio vai e eu acabo aprofundando relações que muitas vezes no condomínio eu não tinha.

Conforme se observa no relato acima, os ensaios de rua movimentam a rotina dos moradores do bairro de Vila Isabel, de forma geral, mesmo daqueles que não têm ligação direta com o carnaval. As relações de vizinhança baseadas na proximidade física de moradia são fortalecidas pelas opções de lazer oferecidas nos equipamentos urbanos do bairro. É interessante observar como, apesar de declarar não gostar de samba, nem de carnaval, o momento da passagem da escola é observado e prestigiado. Este tipo de relato se repete em outras situações: pessoas que declaram não gostar ou “não ligar” para samba, mas que frequentam os ensaios mais como uma opção de entretenimento do que de adesão à escola de samba.

59

Não consegui descobrir o nome da entrevistada


79

O ensaio de rua pela ótica de uma moradora do bairro:

Apresento abaixo o trecho de uma entrevista realizada com uma moradora do bairro para, a partir dela, explorar mais a fundo a forma pela qual os ensaios de rua movimentam o bairro e instauram laços. Os ensaios de rua são frequentados por moradores de todas as classes sociais do bairro. As pessoas costumam chegar mais cedo na Vinte e Oito de Setembro, se encontram nos diversos bares e restaurantes ou na rua mesmo, pois existem vários vendedores ambulantes para tomar uma cervejinha gelada e bater papo com os amigos. Muitos fazem novas amizades e, quem sabe, iniciam relacionamentos. Como acontecem em dias úteis, muita gente vem direto do trabalho. Os ensaios são animadíssimos e, como, há uma perfeita interação do público com os integrantes da escola. É como se todo o bairro estivesse desfilando levando-se em conta o elevado número de pessoas que saem de suas casas nesses dias, na realidade, parece que cada morador ali presente se sente parte integrante da escola. Os corações batem ao som dos tambores, tamborins, cuícas e cantos. O samba é cantado com orgulho, com garra, por todos. Aliás, uma das características dos moradores de Vila Isabel, principalmente os que nasceram ou moram há muitos anos aqui, é o orgulho por viver na Vila. Junia, 57 anos

A) “Os ensaios de rua são frequentados por moradores de todas as classes sociais do bairro” O ensaio de rua por ocorrer em um espaço público, no Boulevard Vinte e Oito de Setembro, possibilita, de fato, que qualquer pessoa, independente de sua renda e local de moradia, participe igualmente daquele momento, diferentemente do que ocorre nos ensaios de quadra ou no desfile da Marquês de Sapucaí. Pois, como a mesma entrevistada disse em outro trecho já mostrado anteriormente neste capítulo: “Na quadra, embora bastante animado, por ser um ambiente fechado e com ingressos cobrados, a maioria das pessoas fica impedida de participar”. Seria ingênuo, porém, pensar que o uso que se faz do bairro, nesse contexto festivo, é igual por todos os frequentadores. A primeira diferença básica é do local desde onde se assiste aos ensaios. Muitos moradores do Boulevard Vinte e Oito de Setembro têm a opção de acompanhar os ensaios de dentro da sua própria casa. A maioria aponta a comodidade como o principal fator para isso: “eu gosto de ver o ensaio, mas muitas vezes eu tenho preguiça de trocar de roupa e descer, aí fico na janela da minha casa” ou “odeio confusão, empurra-empurra. Prefiro sentar na minha cadeira na varanda e ficar com um olho no ensaio outro na televisão”.


80

Na ocupação espacial do Boulevard no momento anterior e posterior ao ensaio, há nitidamente uma diferenciação que passa pela camada social e também faixa etária. É bom ressaltar que a própria opção de assistir de casa ao ensaio já traz estas duas distinções. É uma escolha majoritariamente de pessoas com mais de 30 anos e, como a compra de um imóvel no Boulevard só é acessível às camadas médias da população, assistir da sua janela ao ensaio significa pertencer a essa camada (falo de forma genérica, não sendo obviamente uma regra absoluta). Ao longo do Boulevard existem diversos bares com características diferentes e público-alvo diferente. Por ser o local onde é marcado o ponto de início do ensaio o bar Petisco da Vila, assim como todos os bares localizados no quarteirão entre as ruas vinte e oito de setembro, Visconde de Abaeté e Torres Homem, definem uma área privilegiada na dinâmica daquela festividade. Tais bares têm serviços e preços mais altos que os demais. Para quem não pode pagar o preço, a opção são os diversos ambulantes que oferecem uma gama de produtos a preços mais acessíveis: bebidas, drinks, cachorro quente, sanduiches, churrasquinhos, doces, pipoca, churros, tapioca, sopas e caldos, batata frita, pizza. A utilização dos serviços dos ambulantes está na maioria das vezes vinculada à camada social e à faixa etária dos indivíduos. A preferencia por este tipo de serviço é justificada por “ser muito mais barata”, “não tem que pagar 10% (taxa de serviço)”, ou simplesmente “porque não precisa ficar sentadão no bar. Dá para ficar andando pela rua”. Essa diferença de ocupação dos bares é visível não apenas para quem frequentou sistematicamente o bairro durante os ensaios, como pesquisadora, mas é também uma dinâmica perceptível aos próprios frequentadores: “É muito engraçado. Dá para conhecer a pessoa pelo bar que ela frequenta. Você sabe se é morador de Vila Isabel, se tem dinheiro ou não, até o time que torce.” Alexandre, 42 anos. Há, portanto, um uso diferenciado dos bares, que influencia, até certo ponto, o modo de acompanhar o ensaio. Aqueles que estão confortavelmente instalados em bares, de onde é possível ouvir a bateria e acompanhar o movimento da escola, muitas vezes optam por não seguir o ensaio pela rua. Há também quem, esperando o momento de ensaiar como componente da escola, ocupa os bares de maneira transitória. Como há aqueles que, mesmo não sendo componentes da escola, resolvem em algum momento sair do bar e ir efetivamente acompanhar o ensaio. Percebi muitas vezes que, quando se


81

iniciavam os ensaios, os homens permaneciam sentados à mesa dos bares enquanto as mulheres levantavam e iam logo ver de perto a movimentação da escola. O único grupo de que me aproximei disse-me: Mulher que gosta dessa coisa de ficar em pé vendo as coisas. Eu gosto de ver como está o samba, se a escola está cantando. Mas prefiro ficar aqui comendo uma batatinha e bebendo uma Brahma gelada do que ficar ali em pé igual um dois de paus. Jorge, 50 anos

Há também aqueles que escolhem os vendedores ambulantes que, espalhados pelo Boulevard, acompanham a evolução da escola. Não se pode negar, entretanto, que os ensaios de rua são um evento a que as diferentes camadas sociais têm acesso, mesmo que os hábitos e lugares ocupados sejam distintos. Mas isso nem sempre é visto de forma positiva, gerando reações opostas: É uma festa democrática, vem quem quer. Romero, 21 anos Nos ensaios desce o morro todo. Porque o legal é você encontrar as pessoas do bairro, seus vizinhos. Mas eles chegam aqui querendo misturar tudo. Se deixar vai ter até funk e não samba. Tem evento da escola que eu nem vou mais. Muito misturado. (Lidiane, 34 anos)

Na fala de Lidiane, aparece um aspecto trabalhado no capítulo anterior, que alude à ‘invisibilidade’ do Morro dos Macacos. Quando se fala que “desce o morro todo” e que “o legal é encontrar pessoas do bairro, seus vizinhos”, claramente não se considera o morador do Morro dos Macacos como um morador do bairro de Vila Isabel e sim de outro lugar carregado de estigmas: o Morro dos Macacos. O carnaval, assim como outros eventos festivos, são situações sociais que criam a possibilidade de que camadas sociais e grupos diferentes ocupem o mesmo espaço e isto não gera necessariamente entrosamento. Na situação estudada, o ensaio de rua faz com que moradores de diferentes lugares se encontrem em um local delimitado. Isso pode promover tanto a quebra de barreiras entre estes grupos distintos, como o seu reforço, já que: Vila Isabel é formada por indivíduos bastante diferenciados e com experiências diversas e que, em certa medida, interagem, tanto no cotidiano como em momentos festivos, recreativos (penso, por exemplo, nas Escolas de Samba, bares, festas, funk) e rituais, como aqueles relacionados à religiosidade (igrejas católicas, evangélicas, terreiros de umbanda, casas espíritas), à política e às celebrações. (PICCOLO, 2006, p.105) B) “As

pessoas costumam chegar mais cedo no Boulevard Vinte e Oito de Setembro, se

encontram nos diversos bares e restaurantes ou na rua mesmo, pois existem vários vendedores ambulantes para tomar uma cervejinha gelada e bater papo com os amigos. Muitos fazem novas amizades e, quem sabe, iniciam relacionamentos. ”.


82

Ao narrar sua experiência de presenciar um aglomerado de pessoas em torno de um homem que supostamente havia incorporado um ‘preto-velho’ e nesta condição ‘dava consultas’ no meio da rua aos transeuntes, Velho (2003) chama atenção para a possibilidade de que, em um ambiente da vida metropolitana, é possível que haja um interesse comum capaz de unir “indivíduos e categorias sociais nitidamente diferenciadas” (VELHO, 2003:14). Do mesmo modo, pessoas de procedências, orientações, projetos de vida, camadas sociais e motivações diferentes se reúnem por compartilharem em dado momento, de um interesse similar: os ensaios pré-carnavalescos. Nesse compartilhar de interesses, laços são tecidos e reforçados: Depois que meu marido morreu, eu ficava muito sozinha em casa. Aí no grupo de ginástica aqui da praça tinha varias colegas da ala das baianas e que se reúnem antes dos ensaios aqui no churrasquinho da praça. Aí eu venho, como meu churrasco, brinco a beça durante os ensaios com minhas colegas e distraio a cabeça Dinora, 65 anos.

No caso de Dinora, a principal motivação para a sua participação na escola de samba foram os laços de amizades e a companhia que não teria em casa pela ausência de seu marido. Wirth destaca que na cidade, muitas vezes, “em virtude da ineficácia dos laços reais de parentesco, criamos grupos fictícios de parentesco” (WIRTH, 1987, p.113). Outra interpretação possível é a proposta por DaMatta que, ao estabelecer a dicotomia entre casa e rua60 para pensar o carnaval, afirma que, no carnaval, parece existir a invenção de um espaço onde rua e casa se encontram. Ao lado dos aspectos públicos e formais - como o desfile - ocorreria um conjunto de ações sociais que normalmente se realizam no âmbito da casa. Dessa forma, por mais que ser integrante de uma escola de samba seja do domínio da rua, existe no compartilhar de experiências e afetividades, a criação de laços que normalmente são do âmbito da casa. Grande parte das pessoas chega antes do horário marcado para encontrar-se com seus colegas de ala, comer um churrasquinho em um dos diversos ambulantes que dividem espaço com os componentes da escola ou tomar uma cerveja em um dos bares da região. Os ensaios acabam por volta de meia noite e, mesmo assim, os bares 60

Sobre a dicotomia casa x rua, ver “Carnavais, malandros e heróis”, Roberto DaMatta,1997


83

continuam lotados de pessoas que estavam ensaiando ou assistindo ao ensaio. Os ensaios ocorridos no Boulevard parecem, então, constituir um espaço privilegiado de associações, laços de pertencimento e criação de sociabilidades. Antes e depois dos ensaios, as pessoas conhecem os outros integrantes da ala, compartilham experiências e criam laços que se estendem para além dos limites da escola de samba, como os churrascos/festas que cada ala geralmente organiza. Os ensaios de rua já fazem parte do calendário festivo do bairro e movimentam o comércio e a rotina das pessoas de modo geral. Uma moradora do bairro comparou a autorização da Vila Isabel para fechar a principal rua do bairro para realização dos ensaios com outras escolas que não haviam conseguido tal autorização. Para ela, em Vila Isabel, o ensaio não era apenas um evento carnavalesco, mas sim um evento tradicional do bairro que os moradores não deixariam que acabasse61. No desfile oficial, há controle e técnica, no ensaio da rua reina a descontração e a espontaneidade: um aceno para um vizinho, uma foto para a família, e outras coisas não permitidas no Sambódromo acontecem. Busca-se não apenas a fantasia, ou a oportunidade de desfilar, mas como ouvi de diversas entrevistadas, aquele ritual de sair de casa e encontrar as novas colegas de ala para jogar conversa fora, antes e depois dos ensaios. Essa experiência faz do período anterior ao carnaval um período em que a vida social fica mais intensa, pois pelo menos duas vezes por semana um grupo se reúne para cantar, dançar e se divertir. Na minha ala, houve o caso de duas senhoras de mais idade que compareceram a todos os ensaios e não foram no desfile oficial porque, segundo elas ,as fantasias eram pesadas demais e o carnaval já tinha se estendido de dezembro a fevereiro com os ensaios. Uma delas disse que nem foi buscar a fantasia, enquanto a outra deu a fantasia para a filha mais velha. Notei que situações em que pessoas ensaiam e não vão buscar a fantasia não são casos isolados, pois nos dias da entrega das minhas fantasias, sempre havia algumas pessoas esperando a oportunidade de substituir algum faltante e assim obter uma fantasia. Acredito que a demora e as informações desencontradas sobre como entregar a fantasia podem ter aumentado o número de pessoas que não foram buscar suas fantasias.

61

Mas essa relação entre moradores e escola de samba não é sempre amigável. Durante os ensaios do carnaval de 2011 alguns moradores se manifestaram incomodados com o horário que os ensaios terminavam e o barulho que causavam. Recentemente, a quadra da Vila Isabel estava passando por reformas na sua acústica já que a quadra se localiza em um espaço residencial e o barulho era alvo de reclamação dos moradores vizinhos a quadra.


84

A entrega das fantasias tinha sido inicialmente marcada para a semana anterior ao carnaval. Porém, apenas algumas alas tiveram as fantasias entregues no prazo combinado. Quando eu ligava para a secretaria da escola para ter informações sobre o dia da entrega da minha fantasia o telefone estava sempre ocupado e, quando atendiam ao telefone, diziam não saber ainda quando todas as alas receberiam as fantasias. Quando foi determinado o dia da entrega das fantasias das alas restantes, na tarde do sábado de carnaval, havia muita gente na porta da escola reclamando da falta de organização e da demora na entrega. Após muita espera, em pleno sábado de carnaval, fui informada de que minha ala só receberia a fantasia no dia seguinte: domingo de carnaval, dia em que a escola desfilaria. Isso ocasionou uma grande revolta e comentários irritados: Eles acham que estão fazendo favor em entregar a fantasia? Estou perdendo o meu carnaval aqui esperando a boa vontade deles Isso é um absurdo. Falta de organização. Queria ver se todo mundo resolve boicotar o desfile. A gente perde, mas eles também perdem. Não vai ter gente suficiente e não vão saber fazer nada certo.

É interessante observar que normalmente, o discurso dos desfilantes é o de se sentir parte integrante da escola. A Unidos de Vila Isabel não seria, nesse discurso, propriedade de dirigentes ou de pessoas específicas, mas de todo mundo que participa. Porém, em situações de adversidade, a escola de samba deixa de ser uma abstração composta por todas as pessoas que compartilham do sentimento de pertencimento àquela escola e passa a ser identificada como uma instituição comandada por dirigentes que têm atitudes que contrariam as pessoas que dela participam. Tendo a como referência o trabalho de Magnani (2003), as noções por ele apresentadas de pedaço e mancha são enriquecedoras para pensar a dinâmica da ocupação dos equipamentos do bairro. Tais noções são importantes se tivermos em vista que “não é o conteúdo da cultura popular, do entretenimento ou do lazer o que importa, mas os lugares onde são desfrutados, as relações que instauram os contatos que propiciam” (MAGNANI, 2003, p.3). Podemos pensar Vila Isabel enquanto uma mancha de lazer por ser uma área contígua do espaço urbano dotada de equipamentos que, seja por complementação ou competição, viabilizam por sua especificidade uma prática dominante constituindo-se assim, como ponto de referência para a prática daquela atividade.


85

De forma simplificada, há em Vila Isabel uma variedade de bares que fazem com que o bairro seja um ponto de referência para uma grande quantidade de frequentadores que estão em busca daqueles equipamentos urbanos que são encontrados no bairro. A diversificação dos bares faz com públicos diferentes frequentem estes locais, fazendo deles o seu pedaço, um território que pela presença regular de seus membros uma rede de relações é estabelecida, assim como um código de reconhecimento e comunicação entre eles. Enquanto na mancha o importante é o serviço oferecido, no pedaço o comportamento simbólico de participar de um grupo com o qual se tem algo em comum é o mais importante. Uma forma particular de se apropriar do espaço urbano e das relações de sociabilidade é ali instaurada. Esse “espaço” encontra-se entre a dimensão da rua e a dimensão da casa, pois é compartilhado espaço com desconhecidos e

Petisco da Vila - história

não tão desconhecidos assim: os chegados.

Tudo começou há 40 anos. De um simples Boteco surgiu Petisco, hoje casa de história e tradição. Localizado na Vinte e Oito de Setembro, esquina com a Visconde de Abaeté, o Petisco da Vila é um dos mais tradicionais bares do Berço do Samba.

O pedaço evidencia outro plano, o dos “chegados” que, entre a casa e a rua instaura um espaço de sociabilidade de outra ordem, Assim se desvelou um campo de interação em que as pessoas se encontram, criam novos laços, tratam das diferenças, alimentam, em suma, redes de sociabilidade (MAGNANI, 2003, p.86).

A

distinção

entre

grupos

de

frequentadores é feita em referência aos espaços por eles ocupados. Pode-se notar isso nas falas abaixo: Quando eu era mais novo ia muito ao bar do Costa, e naqueles bares lá de trás. Mas, a idade foi pesando e já não gosto mais de ter que esperar a boa vontade dos garçons, ir a banheiro sujo e comer batata toda gordurosa. Hoje prefiro um

Qualquer que seja a idade do Petisco, o fato é que ele está sempre cheio, embora a boemia, tema de Noel possua praticamente um bar em cada esquina. Não é difícil encontrar uma razão para o sucesso, ele está no bom atendimento e na qualidade do serviço oferecido. Sendo frequentado por músicos, jogadores de futebol, cantores da boemia e outros artistas. O êxito se deve ao local do estabelecimento que é o melhor possível, além de bate-papo, sua fama em cima do chopinho sempre gelado e da frequência de pessoas famosas e também com especialidades em frutos do mar. Sendo 84 tipos de tira-gostos os únicos responsáveis pelo sucesso da casa.·. O ambiente leve, descontraído onde as pessoas podem se divertir, desfrutar de um conforto sem nenhum constrangimento. O Petisco é uma casa muito animada, na qual se come muito. O seu grande segredo é estar situado em Vila Isabel, terra de Noel onde impera o samba, o amor e a simpatia, sendo uma casa bem animada. Fonte: http://www.petiscodavila.com.br


86

ambiente mais calmo, com serviço melhor. Por isso, prefiro o Petisco. Qual a diferença? Bom, quem mora no bairro vai naqueles bares mais tradicionais onde já tem um grupo de amigos. Os mais jovens procuram a sua turma, nos bares mais baratos, que tem mesa na rua. Os que não moram no bairro, vão aos mais caros.

Na fala de alguns usuários, quem frequenta o Petisco da Vila tem códigos de comportamento, e até origem, diferente daqueles que frequentam, por exemplo, o Bar do Costa. O Petisco da Vila é considerado pelos frequentadores, um lugar mais sofisticado e que oferece mais opções de conforto. Bar tradicional de Vila Isabel localizado na esquina da Rua Visconde de Abaeté com o Boulevard Vinte e Oito de Setembro, fica próximo ao lugar conhecido como “quadrilátero do álcool” que é o cruzamento da Rua Torres Homem com Visconde de Abaeté, um cruzamento paralelo a vinte e oito de setembro com bares nos quatro lados. Frequentadora dos bares, a empresária Paola Roque de 32 anos define o que considera ser a diferença entre os dois bares: O Costa para mim é um bar mais tradicional, boteco mesmo, aonde vão muitas pessoas do entorno. Como se fosse um boteco pé de cana, que se tornou tradicional. Mas não se tem impressão de que os homens vão ficar te olhando. Se eu estou a fim de beber eu sei que lá vou encontrar alguém conhecido. Se for algo mais informal eu vou para o Costa. Mas se você tem um encontro mais formal, vai para o petisco. Petisco é mais para casal, vem gente de fora, se tornou um ponto de referência até para quem é de fora.

C) Como acontecem em dias úteis, muita gente vem direto do trabalho.

Os ensaios de rua ocorrem às quartas-feiras e aos domingos; A concentração é marcada para 19 horas, mas quase sempre o ensaio só tem início antes das 22 horas. Na quarta-feira, um dia útil, o tráfego de carro no Boulevard Vinte e Oito de Setembro a mais intenso, já que é via de acesso para a estrada Grajau-Jacarepaguá que liga a zona norte a zona oeste. Por este motivo, há uma demora maior no fechamento da pista. Começando mais tarde, ele termina mais tarde, quase sempre após a meia noite. O horário de término dos ensaios é motivo de reclamação tanto dos componentes da escola (que reclamam que tem que trabalhar no dia seguinte, dizendo coisas como “eles acham que eu não faço nada da vida”) tanto dos moradores que reclamam do barulho em um horário tão tardio. Há uma preocupação explícita da diretoria da escola de samba em manter um bom relacionamento com os moradores. É uma espécie de política da boa vizinhança que visa coibir transtornos maiores, como ações judiciais, contra a escola. Antes de iniciar os ensaios, o carro de som agradece a “colaboração e


87

paciência dos moradores que entendem a importância dos ensaios para a escola e para o bairro”. Após esse agradecimento com mea culpa, alguns moradores acenam de suas janelas em sinal de aprovação e consentimento, enquanto outros preferem fechá-las após o anúncio da “barulhada”. Há uma sutil diferenciação no perfil dos presentes quando comparamos os dois dias em que ocorrem. Na quarta-feira, os trajes mais formais demonstram que as pessoas acabaram de sair do trabalho. Há também a presença de estudantes da UERJ, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que fica nas proximidades. “É um happy hour perto de graça e mais barato” Carlos, 29 anos, advogado. “Eu estudo a noite, aí ao invés de ficar no Loreninha (bar em frente a UERJ, muito frequentado por estudantes dessa instituição) a gente vem curtir um sambinha” Anderson, 24 anos, estudante de biologia da UERJ. “Chego do trabalho cansado, venho dormindo no ônibus, mas aqui dou uma animada” Sergio, 49 anos.

Entre os frequentadores dos bares, há também aqueles que não tinham como objetivo principal acompanhar os ensaios e sim assistir aos jogos de futebol, que ocorrem às quartas-feiras: Eu venho sempre assistir aos jogos do Vasco aqui. O dono é um portuguesinho e quando o Vasco ganha, às vezes rola até um rodada por conta da casa. Junta tudo. Eu sempre vejo os jogos aqui com a rapaziada. Época de ensaio fica tudo mais cheio. Mas não é ruim, não. ·.

Outro fator relevante é que os ensaios são as férias escolares durante o período que vai de outubro a fevereiro ou março. Com isso mais pessoas lotam as ruas. (dependendo da data carnavalesca que é uma data móvel) e neste período ocorrem as férias escolares. Este é mais um dos motivos para a grande quantidade de pessoas que lotam as ruas nos ensaios: Meus amigos todos moram aqui em Vila Isabel. Aí, quando não estamos fazendo nada eu e meu namorado ficamos por aqui, comemos alguma coisa, encontramos os amigos. Nem é preciso combinar, é só sair de casa que já sabe que todo mundo vai estar aqui. Como é perto de casa, minha deixa a gente vir sozinha, porque tem um monte de gente conhecida Isabela, 17 anos.

Conforme se aproxima o carnaval, mais cheia a rua fica e maior é o movimento. Nas palavras de uma foliã “o espírito carnavalesco vai tomando conta e todo mundo já acha que é carnaval”. Esta adesão maciça da população nos eventos que antecedem o carnaval não é um fenômeno exclusivo das escolas de samba (que cobram nas semanas anteriores ao carnaval um ingresso muito mais caro em seus ensaios de quadra) e sim


88

um movimento que se expandiu devido à extensa agenda de blocos que têm atividade intensa desde o início do mês de janeiro. Por fim, há de se destacar nessa diferenciação entre domingo e quarta-feira, que, no domingo, há mais famílias e pessoas na porta de suas casas. A quarta-feira é vista como um dia de trabalho e não de “na quarta eu chego tão cansada que eu só quero dormir, já no domingo eu vou à forra”. Meu filho sempre vem almoçar domingo aqui em casa. Eu adoro porque os meus netos vem também. Em época de ensaio, ele leva a esposa em casa e continuar aqui para encontrar os amigos de infância. Jucelia 64 anos

D ) “Os ensaios são animadíssimos e, como, há uma perfeita interação do público com os integrantes da escola. É como se todo o bairro estivesse desfilando levando-se em conta o elevado número de pessoas que saem de suas casas nesses dias, na realidade, parece que cada morador ali presente se sente parte integrante da escola.” ·.

Este trecho sintetiza um ponto crucial para a compreensão da dinâmica e dimensão dos ensaios de rua da Unidos de Vila Isabel realizados na principal rua do bairro de Vila Isabel. Este evento faz parte do ciclo de preparação carnavalesca, mas tem diferenças importantes em relação ao ápice da esfera competitiva carnavalesca. Utilizando como referência o trabalho de Cavalcanti (2002) em que a antropóloga tece comparações entre o carnaval carioca e o Bumbá de Parintins – um sendo interpretado a partir do outro – é possível fazer algumas considerações acerca da diferença entre o desfile ocorrido na Marquês de Sapucaí e os ensaios de rua. A primeira diferença é a marcação das fronteiras entre participantes e espectadores. No carnaval carioca, o espectador é aquele a quem o enredo é contado através das fantasias e alegorias e seu principal papel é ver e admirar. Já em Parintins, um dos pontos altos do espetáculo é a participação das Galeras (torcidas dos dois bois competidores: Caprichoso e Garantido). Esta participação constitui um quesito de julgamento, e é esperado das Galeras que cantem, dancem, saúdem os bois e produzam efeitos especiais. No Bumbá, portanto, as fronteiras entre espectadores e brincantes são mais diluídas do que no carnaval. Embora o ensaio de rua seja uma situação social bem distinta daquela do carnaval oficial na Marquês de Sapucaí, nele se mantem essa distinção: uns desfilam enquanto outros assistem. Porém essa distinção é logo neutralizada ou dissolvida, pois a inexistência de cordões separando os integrantes da


89

escola da multidão presente faz com que todos tenham oportunidade de interagir e participar de forma semelhante: é o espectador-participante do cortejo carnavalesco. Nos ensaios de rua, a diferença entre quem desfila e quem observa, tão acentuada durante o desfile da Sapucaí, é minimizada, e isto motiva um grande número de pessoas a acompanhar os ensaios. Além da ausência de distância física, há uma importante inversão em relação ao desfile oficial.

Enquanto na Sapucaí, os espectadores

acompanham a escola de samba evoluir a sua frente desde um ponto fixo, nos ensaios de rua os espectadores podem evoluir junto com a escola de samba. Com isso “o contato e contágio são maiores”. Não se assiste passivamente à passagem das alas. O espectador pode optar por ir acompanhando a ala onde seu parente está ensaiando ou, como a maioria prefere, acompanhar a bateria. Em torno da bateria, considerada o ‘coração da escola’, concentra-se o maior número de pessoas. Na parte da calçada próxima à bateria, as pessoas se espremem e é difícil abrir caminho entre a multidão que se aglomera. Se os integrantes da bateria andam devagar, as pessoas em volta andam devagar. O importante é estar perto daquele ponto de destaque da escola de samba. Parece muito com o que ocorria quando, na extinta geral do Maracanã, os torcedores corriam em volta do campo para acompanhar os melhores lances. No ensaio, assim como no campo de futebol, os espectadores querem acompanhar de perto aquilo que consideram mais importante. Aliás, do mesmo jeito que temos aqui no Brasil o costume de enfeitar as ruas de verde e amarelo em época de copa do mundo, há, em vários pontos do Boulevard Vinte e Oito de Setembro durante o período pré-carnavalesco, janelas e varandas enfeitadas com as cores azul e branca com a bandeirinha da escola. Estes símbolos anunciam a chegada de uma época festiva. Outra diferença importante é que, se no desfile carnavalesco há a prevalência do tempo sobre o espaço, um “fluxo continuo e irreversível, passagem linear que não deve ser interrompida” (CAVALCANTI, 2002, p.53), no desfile de rua há a prevalência do espaço sobre o tempo. Enquanto na Sapucaí a passagem do tempo é rigorosamente cronometrada, no ensaio de rua o tempo não é rigidamente controlado. O espaço a ser ocupado é a dimensão mais importante: se ganha a rua. A ausência de cronometragem aliada à maior integração entre espectador e brincante resultam muitos ‘acidentes de percurso’: espectadores ficam na frente do carro de som impedindo sua evolução ou no


90

meio das alas provocando um ‘inchaço’ no tamanho da escola, atrasando o final do ensaio. Ao final da última ala de integrantes da escola vai se formando uma ‘nova ala’ com as pessoas que estavam acompanhando o ensaio, brincando e cantando como se fossem efetivamente componentes da escola. Aqui, o espectador-participante mostra a sua face mais concreta. Isto é possível porque o importante ali não é o tempo de duração do ensaio, mas a forma pelo qual este espaço é ocupado. Por fim, no desfile carnavalesco, a posição privilegiada é um ponto alto nas arquibancadas ou camarotes, de onde se vê a formação completa da escola de samba com suas alegorias e fantasias “contando” o enredo. No ensaio de rua, todavia, a melhor posição é a de bem perto. Quem assiste dos prédios, tem uma visão do alto, mas como nos ensaios não há nem fantasia, nem carros alegóricos, o que se vê é uma massa indiscriminada de pessoas se agitando ao som da bateria. Já para quem está embaixo, a dinâmica mais interessante do desfile da rua – e que pode explicar o grande número de pessoas que vão acompanhar – é sentido: ali de perto você não é espectador. Você se sente integrante da escola. Você é o espectador-participante. E) “Os corações batem ao som dos tambores, tamborins, cuícas e cantos. O samba é cantado com orgulho, com garra, por todos. Aliás, uma das características dos moradores de Vila Isabel, principalmente os que nasceram ou moram há muitos anos aqui, é o orgulho por viver na Vila”.

A realização dos ensaios de rua por uma escola de samba não é exclusividade da Unidos da Vila Isabel Porém, para essa escola, esses ensaios tem uma dimensão especial. Isso é fruto do período de desestruturação da escola quando não havia, então, local para ensaiar e, por isso, a rua tornou-se o principal local de reunião e ensaio. Ao perguntar sobre esse início dos ensaios de rua, ouvi respostas bem parecidas: Não sei exatamente o porquê, mas, se não me engano, os ensaios de rua foram autorizados na época em que a escola estava sem quadra, a posse de uma quadra gerou uma situação conflituosa entre a prefeitura e a escola na época. Depois não teve como a prefeitura proibir, uma vez que os ensaios tornaram-se uma tradição. Se há outras questões políticas ou de outras origens, sinceramente, não sei dizer. Junia, 57 anos O ensaio na rua foi quando não tinham lugar para ensaiar. Foi aí que a escola cresceu e se tornou o que é hoje


91

Para mim é como se desde sempre tivesse ensaio na rua. Nem lembro quando começou porque parece que é uma coisa desde sempre, sabe, como um feriado, ou essas datas que tem todo o ano e ninguém questiona porque ela existe.

DaMatta (1986) afirma que o que nos distingue uns dos outros e constrói uma identidade social característica são as afirmativas e negativas diante de atributos a partir das quais construo a minha história. Um dos atributos ligados ao bairro de Vila Isabel e reforçado pela escola de samba é a musicalidade do bairro e sua ligação com o samba e com a vida boemia. Assim, assumir estes aspectos, e não outros possíveis, constrói-se uma identificação que se diferencia dos aspectos assumidos por outras regiões carnavalescas.

O ensaio de rua da Vila Isabel é um evento visto pelos moradores

como um exemplo característico não só do bairro, mas como também do morador do bairro. Ser um ‘verdadeiro morador’ de Vila Isabel é se identificar com o samba, com a escola de samba e com tudo o que isto implica, inclusive o ensaio de rua. Tanto para os frequentadores, quanto para os demais moradores que não se envolvem com o samba, principalmente os que moram nas redondezas da quadra, a escola de samba influencia no cotidiano dos moradores. Na época dos ensaios de rua e na quadra, parece que a população de Vila Isabel passa a viver em função de tais eventos.

O ensaio da rua movimenta a rotina do bairro e das pessoas ali presentes. Por exemplo, no prédio em frente à concentração, havia bandeirinhas da Vila Isabel em diversas janelas. Do local do início do ensaio até a frente da sede da escola no final do Boulevard Vinte e Oito de Setembro, identifiquei mais de dez janelas/varandas com algum símbolo que remetesse a escola de samba. Quando começava o ensaio, e a bateria esquentava, era possível ver nos prédios uma grande movimentação. Muita gente acompanhava os ensaios pelas janelas da casa, como se estivesse em um dos badalados camarotes do Sambódromo. Alguns apenas observavam, outros acenavam e cantavam junto. Nas varandas era frequente observar grupos colocando bancos e cadeiras de praia para observar o ensaio que ocorria logo abaixo. ·. Não se pode, porém, cair na ingenuidade de acreditar que todos os moradores do bairro compartilham essa aceitação explícita. Em uma padaria, muitos frequentadores reclamavam que o bairro ficava intransitável durante os ensaios, que não se tinha como escapar “daquela algazarra toda”, argumento contrariado por uma senhora muito bem vestida, que aparentava ter aproximadamente 70 anos e disse gostar dos ensaios. Em sua avaliação:


92

Eu gosto dos ensaios porque o bairro fica movimentado. Meu marido não gosta porque o trânsito fica ruim e é muito barulho. Mas eu adoro. Sempre combino com minhas amigas e netas de comer uma pizza e ficar ali por perto. A gente tem que viver a vida, sabe, não pode ficar só em casa vendo a novela.

Na situação em que o relato foi feito, ele tomou a dimensão de crítica aos costumes de quem reclamava dos ensaios, pois a maioria dos presentes era de pessoas com idade avançada e que falavam que o barulho da bateria não permitia nem “ver a minha novela”. Enquanto a senhora apoiava os ensaios, os que reclamavam na fila do caixa pararam de falar entre si e, quando chegou a minha vez de pagar, e a fila já tinha se dispersado, a caixa falou para mim “velho é assim mesmo, reclama de tudo. Queria eu poder tá lá sambando ao invés de trabalhar até mais tarde aqui neste caixa”. Talvez pelo fato de a pesquisa ter sido realizada principalmente durante os momentos dos ensaios, quase não tive opiniões contrárias ao ensaio. Quem estava ali participando dizia que quem não gostava “era um chato”, “eram velhos”, “está no lugar errado”, “tinha que se mudar”, “não sabe o que é bom”, “está perdendo a vida”. Uma entrevistada falou que, partindo do conhecido ditado de que “se não se pode ir contra, alie-se” começou a frequentar os ensaios: Eu moro nesse prédio (em frente à quadra) e nos dias de ensaio eu não conseguia dormir por causa do barulho, e por isso odiava a época de carnaval, até assinei um abaixo-assinado contra a escola. Só que minha filha começou a pedir para ir na rua, por que os amiguinhos do colégio iriam estar lá. Para não deixar ela sozinha, vinha com ela. Hoje em dia, eu adoro. Descemos antes do ensaio com um isopor de cerveja, tem domingo que até churrasqueira eu trago e ficamos aqui. Diversão bbb boa, bonita e barata. ·.

No caso acima, a moradora que não gostava do ensaio, acabou se acostumando e mais que isso, aderindo. Um exemplo de como os ensaios de rua alteram a rotina dos moradores/frequentadores de Vila Isabel vem de um centro espírita localizado na sobreloja de um sobrado. Antes de o ensaio iniciar, era possível a existência de atividades no local. Era possível ouvir o Som de atabaques, dos cânticos religiosos entoados e viam-se os participantes usando com trajes típicos. Quando eu passava novamente em frente a este local, já no meio do ensaio, as pessoas já estavam despidas dos trajes característicos e se espremiam nas janelas com bebidas e comidas para acompanhar o ensaio.


93

O carnaval não acaba na quarta-feira de cinzas Nesta pesquisa o ensaio de rua da Unidos de Vila Isabel teve importância central, pois foi a partir dele que consegui vislumbrar mais claramente as redes tecidas a partir do encontro de diferentes indivíduos no espaço citadino. Porém, algumas outras situações também são responsáveis por estreitarem relações criadas a partir da convivência dos indivíduos em uma escola de samba, ou então em um mesmo espaço da cidade: o bairro de Vila Isabel. Sendo assim, após o enfoque nos ensaios précarnavalescos e como eles alteram o cotidiano do bairro, mostrarei brevemente outra situação muito presente no cotidiano das escolas de samba: as feijoadas. Feijoadas62

As relações criadas principalmente durante os ensaios carnavalescos - quando a convivência é mais intensa – se mantém a partir da feijoada onde se pode reencontrar os colegas de ala, coordenadores e diretores. As feijoadas ocorrem no primeiro sábado de cada mês e atraem um grande número de pessoas. Diversas mesas são espalhadas pela quadra e em cada lado da quadra há um Buffet onde é servida a feijoada. A feijoada começa às 13 horas e o longo do dia várias atrações musicais de samba e pagode animam os presentes. A entrada e a feijoada custam R$15,00 e é opcional a compra de um kit de R$ 25,00 que além da entrada e da feijoada vem com uma blusa da feijoada e que muda mensalmente. Observei que uma grande parte dos presentes faz questão de vestir a camisa do “Feijão de Noel” ou então a blusa de ensaio utilizada no carnaval. Isso aparece como forma de demonstrar o pertencimento a “comunidade” da Vila Isabel, isto é: aquelas pessoas que estão presentes nos eventos da quadra ao longo do ano e não apenas no período carnaval. Chegar aqui na hora e comprar a camisa da feijoada é fácil. Mas eu gosto de colocar uma mais antiga. Não fica parecendo que acabei de comprar uma e coloquei por cima. Sou da casa

Normalmente, a feijoada é servida, até depois das 17 horas. Por isso, ao longo da tarde há um público diferenciado que frequenta a feijoada. Algumas pessoas chegam mais cedo e vão embora mais cedo, pois, estavam interessados na feijoada em si: 62

Sobre feijoada de escola de samba, a tese de doutoramento de Ronald Clay dos Santos Ericeira, intitulada “A reconstrução do passado da Portela na rede mundial de computadores e nas rodas de samba” é referência importante.


94

Final de semana eu e minha esposa sempre almoçamos fora. Aí quando tem feijoada, a gente vem porque é um programa diferente e sai barato. A feijoada daqui é uma delícia. Vale a pena! Tem gente que fica o dia inteiro aqui, mas depois de comer uma feijoada eu só quero dormir. A comida é gostosa. Eu marco com a minha família para a gente vir almoçar aqui.

Nestes relatos, a razão principal para a ida a quadra é a feijoada que é servida. Mais do que reencontrar amigos, ou a vontade de participar do cotidiano da escola, utiliza-se o serviço oferecido pela escola. Há os que chegam cedo interessados no almoço, mas há também os que chegam por volta das 19 horas, mais interessados no movimento e agitação da quadra. É por volta deste horário que começa a apresentação da bateria da escola de samba. São em sua maioria jovens que muitas vezes estão mais interessados no ensaio que ocorre a noite (nas feijoadas ocorridas durante o período de preparação do carnaval). Além destes dois grupos, há o grupo mais numeroso que são as pessoas interessadas em participar ativamente do cotidiano da escola. Pessoas que por desfilarem na escola criam laços e encontra na feijoada um local para reforçá-los durante o ano. Assim, as pessoas não se encontram apenas durante os ensaios précarnavalescos, mas também nestes eventos realizados pela escola. A divisão de alas durante o carnaval aparece como um importante elemento agregador, pois na feijoada as pessoas que ensaiaram juntas em uma ala no último carnaval tendem a estabelecer contatos mais próximos. As pessoas se identificam e são identificadas de acordo com a ala que pertenciam, sem contar as alas mais tradicionais como a velha guarda e baianas que têm uma identidade própria. Durante a feijoada de julho (2011) as baianas aproveitaram este espaço de reencontro para promover o “arraiá das baianas” em que embora estivesse ocorrendo a feijoada, elas levaram comidas típicas e usaram trajes típicos. Uma verdadeira festa entre pessoas que tem como elemento mediador e criador das relações a escola de samba. Também é muito comum que os membros da escola comemorem seus aniversários junto com seus familiares e amigos feitos dentro do ambiente da Vila Isabel. No calendário festivo da escola de samba, as feijoadas aparecem como um evento importante para o fortalecimento de laços constituídos ao longo dos ensaios précarnavalescos. Os encontros que eram semanais passam a ser mensais. “Chego a ficar com saudade das minhas amigas” (Penha, 29 anos). Antes o propósito era o ensaio para


95

o desfile. Na feijoada, o propósito é se divertir e interagir com os outros torcedores da sua escola. Para isso, diversas atrações se apresentam ao longo do dia, inclusive um grupo de pagode formado pelo intérprete oficial da Vila Isabel, o Tinga, além de atrações especiais e participação, da bateria da Unidos de Vila Isabel. É realizado também um sorteio de brindes ao longo de todo o dia. A participação no ensaio de rua reforça o sentimento de pertencimento ao bairro que tem como uma das características a musicalidade, o samba, e em especial Noel Rosa. No primeiro ensaio de rua que frequentei ainda como observadora, em outubro de 2010, percebi um grande numero de pessoas com a camisa do carnaval de 2010 que falava sobre o centenário de nascimento de Noel Rosa e trazia uma foto do cantor estampado. Ao questionar as pessoas sobre o porquê desse uso extensivo, obtive três respostas interessantes, que ilustram não só a importância dada à memória do cantor/compositor, como também a função agregadora de sua figura. Nota-se também a busca por uma afirmação enquanto participante do carnaval e da escola de samba e como o Boulevard Vinte e Oito de Setembro é percebido como um importante “espaço” do bairro. Ah... Eu uso essa blusa para mostrar que eu sou do carnaval. Sabe, não sou marinheira de primeira viagem não... ”Já estou na Vila há anos” Dona Neuza ”Pra mim”. Essa blusa não é do ano passado não, é todos os anos, porque Noel não é do ano de 2010 nem 2011 é de todos os anos que a Vila tiver na avenida. Carmem Você põe essa blusa, vem andando pela 28 (Boulevard Vinte e Oito de Setembro, principal rua do bairro e onde se localiza a quadra da escola) e todo mundo já sabe que hoje é dia da nossa escola. Aí, quem tiver esquecido se lembra e participa também Dona Maria.

As falas acima resumem, de certa forma, os aspectos mais marcantes da interação entre o bairro de Vila Isabel e a escola Unidos de Vila Isabel. Esta relação é pautada principalmente pelo sentimento de pertencimento. Pertencimento ao bairro. Pertencimento à escola. Ou pertencimento a ambos. E neste sentimento de pertencimento há a centralidade da figura do compositor Noel Rosa. Os ensaios de rua realizados no Boulevard Vinte e Oito de Setembro criam e reforçam laços de sociabilidade entre as pessoas do bairro e entre os componentes da escola de samba. O conceito de comunidade discutido no segundo capítulo adquire sentido não mais no contexto de uma estratégia de diferenciação da escola de samba num contexto eminentemente competitivo, mas o sentido de produção de uma relação em que os indivíduos compartilham experiências de uso do bairro em comum e se


96

sentem participantes de um todo articulado em torno de características e de um modo de vida comuns . As relações são criadas não por intervenção ou estratégia da diretoria da escola e sim pelo fato dos indivíduos utilizarem de forma compartilhada um mesmo espaço da paisagem urbana. Antes e depois dos ensaios, as pessoas conhecem os outros integrantes da ala, compartilham experiências e criam laços sociais que se estendem para além dos limites da escola de samba, como os churrascos/festas que cada ala organiza durante a preparação do carnaval.


97

Conclusão Na pesquisa, procurei, seguindo a pista de Magnani (2002), adotar uma perspectiva de perto e dentro em que a inteligibilidade da metrópole se dá a partir da experiência daqueles que nela vivem. A partir dessa experiência, busquei apreender alguns padrões de comportamento em um conjunto heterogêneo de agentes sociais no cotidiano da cidade. Esses agentes sociais foram protagonistas na análise, assim como a paisagem em que transitavam. Por este motivo, o uso que faziam dos equipamentos da cidade na esfera do lazer não eram erráticos, apresentavam certos padrões, e fundavam encontros e trocas nas mais diferentes esferas conformando uma identidade ao bairro de Vila Isabel. Neste local era possível vislumbrar a existência de arranjos, redes e grupos por meio dos quais as pessoas participavam ativamente do cotidiano da cidade. Afinal “são os moradores que dão vida a metrópole em suas múltiplas redes, formas de sociabilidade e estilos de vida” (MAGNANI, 2003, p.2). Creio assim ser possível pensar o bairro de Vila Isabel como uma região moral no sentido proposto por Park (1979), pois nele os moradores compartilham de um gosto, interesse ou paixão. Em Vila Isabel, nas entrevistas que fiz em diversos locais e momentos, pude observar o uso, a repetição e reafirmação dos símbolos pertencentes ao bairro como uma característica compartilhada com os moradores do bairro. Retomo assim alguns trechos que julgo elucidativos para o argumento aqui apresentado: “Do que eu gosto em Vila Isabel”? Do jeito alegre dos moradores e do orgulho do bairro que vivem. Todo morador de vila Isabel tem orgulho de dizer que mora em vila Isabel. - E o que o diferencia de outros bairros? Perguntei - “A vida boêmia, a forte ligação emocional e sentimental com a escola de samba e assim, a grande ligação que tem como símbolo Noel Rosa que apesar de ter morrido tão jovem, qualquer criança de Vila Isabel sabe quem é Noel Rosa” Mariza, 51 anos. Ah, a Tijuca é muito boa, sabe? Eu respeito muito o Salgueiro. Mas igual a minha Vila aqui não tem não. Aqui é o berço do samba. Uma vez ouvi na televisão falando que quem nasce na Bahia, não nasce, estreia. Mas Noel Rosa já dizia que aqui em Vila Isabel as pessoas nem sequer vacilam ao abraçar o samba Eleanor, 54 anos. Noel Rosa resumiu Vila Isabel: São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba. Mas o que o senhor acha que isso significa? “Eu preciso dizer o que significa? Respondendo a sua pergunta (sobre qual a característica mais marcante do bairro) esta música diz o que qualquer morador de Vila Isabel acha: aqui é o lugar do samba, aqui é o lugar da alegria. Nem precisa


98

perguntar a mais ninguém não, ninguém acha diferente. Só se não é um verdadeiro morador de Vila Isabel” Judas, 59 anos.

O bairro de Vila Isabel e o morador do bairro de Vila Isabel emergem claramente nestes trechos como compartilhando de alguma forma dos mesmos atributos e qualidades. Isto porque “cada parte da cidade tomado em separado inevitavelmente se cobre com os sentimentos peculiares a sua população” (PARK, 1969:34). O bairro de Vila Isabel não é, assim, uma simples expressão geográfica e sim uma vizinhança: sua história se converte em sentimentos e tradições vividos por seus moradores. É possível, a partir destes trechos, verificar também como essa percepção do que o bairro de Vila Isabel mantém continuidade com processos históricos, de onde emergem os sinais diacríticos do bairro que são vivenciados pelos moradores como elementos formadores do temperamento daquele local. Compartilham-se símbolos e referências e o bairro torna-se “o tipo de ambiente no qual [cada um] se expande e se sente a vontade” (PARK, 1969, p.68), como por exemplo, nos relatos abaixo:

Eu moro neste prédio aqui em cima do bar. Como já moro aqui há muito tempo, sou o síndico. Os moradores já até sabem: meu escritório é na mesa do bar. Já teve até reunião de condomínio aqui João, 49 anos. Eu sempre brinco que a diferença entre lar e bar é de apenas uma letrinha. É quase igual Rivaldo, 58 anos.

Nos dois trechos, nota-se que a fronteira entre o que é casa e o que é rua parece dissolvida pela total liberdade e familiaridade com as quais os indivíduos se encontram. Cabe ressaltar que uma região moral pode ser um ponto de encontro de pessoas com interesses em comum e não, necessariamente, o lugar de domicílio. Vila Isabel foi se tornando assim, a partir da agência dos seus moradores, uma localidade possuidora de características e história própria que são preservadas e exaltadas por seus moradores enquanto particularidade do bairro. As narrativas dos moradores do bairro têm a memória como elemento fundamental, e entendemos a memória como: Relacional e seletiva, pois recordar é ressignificar, é reinterpretar no hoje os acontecimentos do passado; a ressignificação vai depender do desenrolar que os fatos tiveram, bem como de outros que aconteceram posteriormente. A pessoa (ou o grupo), ao relatar um acontecimento no hoje, recorda não somente aquele evento isoladamente, mas sim o faz relacionando com sua própria trajetória (Halbwachs, 1990). In PICOLO, 2006, p. 87


99

Cada

grupo

seleciona

para

si

elementos

que

possam

definir

suas

particularidades. Dentro de um número limitado de possibilidades, elege-se aqueles elementos que possam significar uma valorização, uma atribuição positiva. Assim, Vila Isabel é lembrada como o lugar da boemia, da musicalidade e do samba. ·. Assumir para o bairro estas características significa não só uma valorização do lugar onde se vive, mas também resulta em ganhos objetivos para alguns segmentos. Um exemplo é o comércio (principalmente os bares) do bairro que tem como estratégia de marketing a valorização da “vocação” boêmia do bairro. Além, da escola de samba que utiliza esta tradição do bairro a seu favor. Conforme demonstrei de diferentes formas, há um processo de construção identitária que elegeu sinais diacríticos do bairro. E neste processo, a figura do compositor Noel Rosa tem uma importância muito grande. Nas conversas que tive ao longo da realização da pesquisa, a primeira referência que faziam quando eu falava em Vila Isabel, era Noel Rosa. Quando pegava um taxi em direção a Vila Isabel, ouvia sempre “Vai para a terra de Noel?”. Quando comentava que o tema da pesquisa era Vila Isabel, sempre perguntavam “Vai falar de Noel Rosa?”. Por esse motivo, a pesquisa acabou tomando rumos diferentes daqueles planejados anteriormente. A ideia inicial era falar sobre as relações de sociabilidade criadas a partir da convivência dos componentes nos ensaios de rua. Porém com o início do trabalho de campo identifiquei que a dimensão do sentimento de pertencimento era muito presente e era, de certa forma, o elemento instaurador de muitas relações ali estabelecidas. Algumas vezes era sentimento de pertencimento à escola de samba, outras vezes de pertencimento ao bairro e muitas vezes, de ambos. A diretoria da escola de samba utilizou este forte sentimento de pertencimento a seu favor. Intitula-se “escola da comunidade”, mas afinal quem é a comunidade? Esta indefinição e falta de limites bem definidos do que é comunidade de Vila Isabel faz com que todos sejam. Isto é, comunidade acaba sendo uma denominação que engloba a todos que se sentirem participantes, atinge um número de pessoas muito grande. Atinge aquelas que brincam o carnaval e desfilam na escola. Atinge os moradores do bairro que, mesmo não participando diretamente do carnaval, têm uma atitude complacente e de apoio à escola que realiza seus ensaios na principal rua do bairro tumultuando o trânsito do bairro e alterando a rotina diária daquela localidade.


100

A vida na cidade que seria marcada pela coexistência da diferença e do individualismo torna-se então, uma experiência em que os indivíduos (apesar da pluralidade) se reconhecem como tendo interesses iguais, pertencentes a um grupo com traços característicos que os diferenciam dos demais e os congregam entre si. O gosto pelo carnaval e pelo samba, o gosto pelos bares e pela feijoada, e os laços de vizinhança instauram redes de relações ancoradas numa presença constante em um determinado espaço. Surgem assim relações de sociabilidade criadas a partir de pertencimentos em comum. Pertencimento ao bairro de Vila Isabel. Pertencimento à escola de samba Unidos de Vila Isabel.


101

Referências bibliográficas

ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 2008. ARAGÃO, Nilde Hersen. Vila Isabel: terra de poetas e compositores. Rio de Janeiro: Conquista, 1997. BARBIERI, Ricardo José de Oliveira “Conflito e Sociabilidade em uma pequena escola de samba: O Acadêmicos do Dendê da Ilha do Governador” Dissertação (Mestrado em sociologia e antropologia) - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. BLANC, Aldir. Vila Isabel: inventário da infância. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: RioArte, RioArte, 1996. BORGES, Beatriz, Samba-Canção fratura & paixão. Rio de Janeiro: Editora Codecri: 1982 BORGES, Delane e BORGES Marilane da Silva. A Vila de Isabel e Drummond a Noel. Rio de Janeiro: s/ed., 1987. BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: Marieta de Moraes Ferreira e Janaína Amado (orgs.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1996. CABRAL, Sérgio. As escolas de Samba do Rio de Janeiro. São Paulo: lazuli Editora: Companhia Editora nacional, 2011. CAVALCANTI, Maria Laura. O Ritual e o tempo: ensaios sobre o carnaval. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. ________________Os sentidos no espetáculo. Revista de Antropologia, São Paulo, V. 45 nº 1. 2002 _________________Conhecer desconhecendo: a etnografia do espiritismo e do Carnaval carioca in: Pesquisas urbanas. Desafios do trabalho antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. ________________Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Editora UFRJ, 2006 ________________As alegorias no carnaval carioca: visualidade espetacular e narrativa ritual. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, p. 17-27, 2006. ________________Carnaval em Múltiplos Planos. Org.: Maria Laura Cavalcanti e Renata Gonçalves. Ed. Aeroplano, 2009 ________________Em torno do carnaval e da cultura popular. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.7, n.2, p. 7-25, nov. 2010. ________________ Baianas e Velha Guarda. Corpo e envelhecimento no carnaval carioca. In: Corpo, envelhecimento e felicidade. Org. Mirian Goldenberg p. 245-274. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.


102

DAMATTA, Roberto – O Carnaval como rito de passagem. In: Ensaios de Antropologia Estrutural. Petrópolis: Vozes, 1974. _________________O ofício de Etnólogo, ou como ter “Anthropological Blues” in: Aventura sociológica, Nunes (org.). Rio de Janeiro: Zahar ed. 1978 _________________ O que faz do brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986. _________________Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro – 6ºed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. DAMATTA, Roberto e SOÁREZ, Elena. Águias, burros e borboletas. Rocco, 1999 DIDIER, Carlos e MÁXIMO. Noel Rosa: uma biografia. Brasília: UnB: Linha Gráfica Editora, 1990. DINIZ, André. Almanaque do carnaval: a história do carnaval, o que ouvir, o que ler, onde curtir – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008 FERREIRA, Felipe. O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. _______________Inventando Carnavais. Rio de Janeiro: UFRJ, 2006. Foote-Whythe, William. (2005). Sociedade de esquina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores FRÚGOLI JUNIOR, Heitor. Sociabilidade urbana – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. – Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2010. GOMES, Ângela de Castro. - Essa gente do Rio... os intelectuais cariocas e o modernismo. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.6, n.11, 1993, p.4. Disponível em: <http://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/114.pdf Hobsbawn, Eric. Nações e nacionalismos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. KUSCHNIR, Karina, & VELHO, Gilberto. Mediação, Cultura e Política. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001. __________Pesquisas urbanas. Desafios do trabalho antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003. LEITE, Márcia Pereira. “Entre o individualismo e a solidariedade: dilemas da política e da solidariedade no Rio de Janeiro” Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.15, n.44. , 2000. LEOPOLDI, José Savio. Escola de Samba, ritual e sociedade, 2010. MAGNANI, José Guilherme Cantor. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana, Revista brasileira de ciências sociais, volume 17, nº49, 2002 _______________A antropologia urbana e os desafios da metrópole. Tempo soc. [online], vol.15, n.1, pp. 81-95. 2003 ______________ Festa no pedaço: cultura popular e lazer na cidade – 3º edição – São Paulo: Hucitec/ UNESP, 2003. MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Lisboa: Edições 70, 1978.


103

MAXIMO, João. Revista Nossa História, ano 2/ n°14, pág. 32-39: Editora Vera Cruz, Rio de Janeiro, 2004. PALLONE, Simone. Diferenciando subúrbio de periferia Cienc. Cult. vol.57 no.2 São Paulo Apr. /June 2005 PAVÃO, Fábio. As escolas de samba e suas comunidades. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.6, p.183-196, 2009. PARK, Robert E. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano, in VELHO, O.G. (org.), O fenômeno urbano, Rio de Janeiro, Zahar. 1979, PICCOLO, Fernanda Delvalhas, 2006a, sociabilidade e Conflito no Morro e na Rua: Etnografia de um Centro Comunitário no Bairro de Vila Isabel. Rio de Janeiro, Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, tese de doutorado em antropologia social. SANDRONI, Carlos – Feitiço decente: transformações do samba no Rio de Janeiro, 1917-1933/ Carlos Sandroni – Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed.: Ed. UFRJ, 2001. SANTOS, Nilton - A arte do efêmero: carnavalescos e mediação cultural no Rio de Janeiro Editora Apicuri Rio de Janeiro: 2009. SIMMEL, Georg. Questões fundamentais da sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. TINHORÃO, José Ramos. Música popular: um tema em debate. 3° edição revista e ampliada. São Paulo: Ed.34,1997

TURNER, Victor. O Processo Ritual. Petrópolis: Vozes, 1974. VALLADARES, Lícia. A gênese da favela carioca. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.15, n.44, ano 2000. VELLOSO, Monica Pimenta. Modernismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora fundação Getúlio Vargas, 1996. ______________ A “cidade-voyeur”: o Rio de Janeiro visto pelos paulistas; Revista Rio de Janeiro, n.8, p.83-100, set./dez.2002. VELHO, Gilberto. A utopia urbana. Um estudo de antropologia social. Zahar Editores, Rio de janeiro, 1973. ________________Observando o familiar. In: Aventura sociológica, Nunes (org.). Rio de Janeiro: Zahar ed. 1978 ______________Estilo de vida urbano e modernidade. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vl 8, nº16, 1995.


104

______________ Projeto e Metamorfose: Antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. VIANNA, Hermano. O Mistério do Samba. 2°ed. Rio de janeiro: Jorge Zahar: Editora UFRJ, 2007. ZALUAR, Alba. Crime, justiça e moral: a versão das classes populares, in Condomínio do diabo. Rio de Janeiro: Revan, 1994. ________________ A invenção da favela: do mito de origem à favela.com Rio de Janeiro: FGV, 2005. WIRTH, Louis. O urbanismo como modo de vida in VELHO, O.G. (org.), O fenômeno urbano, Rio de Janeiro, Zahar. 1987,

Outros materiais utilizados: REVISTA DA VILA ISABEL. G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel. Ano 1 nº1, Janeiro 2008 REVISTA SAMBA EM REVISTA, Ano 2009

Sites visitados: www.gresunidosdevilaisabel.com.br/ www.obatuque.com www.galeriadosmaba.com.br www.sambariocarnaval.com www.academiadosamba.com.br www.carnavalesco.com.br www.odianafolia.com.br www.tudodesamba.com.br www.vilaisabel.com.br

Profile for Portal Academia do Samba

O bairro e a escola de samba : sociabilidade e pertencimento em Vila Isabel (RJ)  

Título(s): O bairro e a escola de samba : sociabilidade e pertencimento em Vila Isabel (RJ) Autor: Mayra Salgado Poubel Titulação: Disserta...

O bairro e a escola de samba : sociabilidade e pertencimento em Vila Isabel (RJ)  

Título(s): O bairro e a escola de samba : sociabilidade e pertencimento em Vila Isabel (RJ) Autor: Mayra Salgado Poubel Titulação: Disserta...

Advertisement