TUDO TERMINA EM SAMBA: ESTUDO SOBRE A IDENTIDADE PSICOSSOCIAL DA MULHER A PARTIR DA DANÇA DO SAMBA
Liz Hellen Oliveira Vitor Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais lizhellen@hotmail.com
O trabalho a ser apresentado visa compreender a construção da identidade da mulher que dança samba. Pode-se entender a formação da identidade baseada na idéia de que o samba é um elemento cultural brasileiro que se transforma como a vida através da experimentação (BARCELOS, 2006). Como diz Paulinho da Viola, “o samba transforma como a vida” (BARCELOS, 2006, p. 21). Nesse sentido, este trabalho compreende que a construção identitária do sujeito acontece por um processo contínuo, sempre em transformação, em constante mudança, excluindo a possibilidade de ser um processo estático e inflexível. Para responder “como o dançar samba interfere na construção da identidade psicossocial da mulher?”, articulou-se as teorias sobre identidade e as questões de gênero, relacionando esses elementos com os dados coletados a partir de entrevistas com mulheres que dançam. Também é ressaltada nessa discussão a representação cultural da dança do samba para o sujeito brasileiro, fator que propicia certas implicações nesse indivíduo, que interferem na construção da sua identidade. Sendo o samba e a dança referente a esse ritmo representação de grande importância da cultura brasileira, pois faz parte da realidade desse povo, é justo procurar compreender como essa questão influencia na identidade da mulher que vive nesse meio. Entender quais as implicações que o samba provoca na constituição da mulher é importante, pois permite verificar o quanto o samba é realmente vivenciado como um fenômeno tipicamente nacional que marca a identidade da pessoa. Além disso, é interessante compreender os aspectos de gênero que perpassam essa dança; se o samba é marca da identidade do Brasil, ele também pode ser marca de uma diferenciação da mulher ao ser comparada com o homem.
A metodologia utilizada baseou-se na pesquisa qualitativa. Para tanto, foram elaboradas e realizadas duas entrevistas semi-estruturadas com mulheres sem idade específica que dançam samba. A análise de dados foi feita a partir de leituras realizadas para a construção de categorias que puderam ser articuladas com a teoria estudada. É compreendido a partir das falas de cada entrevistada como se dá a construção da identidade delas, incluindo as questões de gênero e considerando o percurso histórico do samba. Neste trabalho faz-se um percurso histórico sobre o surgimento do samba no Brasil. Esse ritmo musical tem diversas influências, a começar pela cultura africana representada pelos negros que foram escravos no nosso país. Esses descendentes africanos concentravam-se muito na Bahia e depois da abolição da escravatura houve grande migração para o Rio de Janeiro. Existia um ritmo africano nesses dois estados, que foi se misturando a outras influências musicais, como as da Europa, o que dá base para o nascimento do samba. Mas em que região do Brasil nasceu o samba? É no Rio de Janeiro que esse ritmo musical conseguiu visibilidade social, conquistando os meios de comunicação, na época – década de 1930 - as grandes rádios, mas concomitantemente evoluía um samba também na Bahia. O samba constituiu-se como um ritmo único a partir de vários estilos musicais. Essa música tem em sua batida uma alteração rítmica específica que se denomina síncopa, que, segundo Sodré (1979), se caracteriza como um vazio na música, provocando um preenchimento do corpo, que se movimenta ao ouvir o som. Dessa forma, verifica-se a real possibilidade e a importância de se estudar a dança, ou seja, a relação do corpo com a música do samba. Entendendo que as notas de um samba tocam o sujeito, esse ritmo seria como escutar o bater do coração ou sentir a existência do sujeito em toda a sua profundidade e totalidade, tendo além da vida, a dimensão da morte: “Cantar/dançar, entrar no ritmo, é como ouvir os batimentos do próprio coração – é sentir a vida sem deixar de nela reinscrever simbolicamente a morte.” (SODRÉ, 1979, p. 24). E são essas notas que tocam o corpo de mulheres que dançam sobre um ritmo contagiante, um batuque forte que se origina da cultura africana, dos negros e da mistura do ritmo europeu, que junto a tantas outras influências musicais originou o samba. Além desse estudo sobre o percurso histórico do samba, discute-se a constituição da identidade do sujeito. Compreende-se a concepção da formação identitária a partir das
relações sociais que ocorrem no âmbito psíquico e na dimensão social do sujeito. Por meio das idéias de vários autores, entende-se esse processo de forma flexível, em que o sujeito se submete a mudanças e transformações constantemente. Esta reflexão da construção da identidade em metamorfose, como explica Ciampa (2001), parte das interações com outros sujeitos, sejam eles a família, os amigos ou nos meios sociais, com o trabalho, o estudo. Os autores pesquisados concebem a formação da identidade nessa perspectiva, diferenciandose em alguns pontos. Moreno (apud GONÇALVES, 1988) considera a existência de uma essência com a espontaneidade e a criatividade para constituição identitária; já Ciampa (2001) compreende a identidade do ponto vista histórico, que se concebe através das relações sociais. Também é discutida a idéia sobre a identidade nacional a partir dos autores Debrun (s/d) e Hall (1999), que questionam a constituição desse processo. O primeiro autor indaga-se sobre a existência da construção de uma identidade nacional, que exige um consenso entre valores e uma especificidade sobre esse. Então, parece não ser possível existir esse consenso num país com tanta desigualdade. Hall (1999), que fala da identidade nacional a partir de uma junção entre a condição de cada sujeito membro de uma nação e a identificação dele com a sua cultura, questiona a formação da identidade nacional por haver uma unificação fantasiosa das diferenças existentes em cada sujeito. Também são realizadas no trabalho algumas reflexões sobre a identidade de gênero, que está integrada à identidade do sujeito. Faz-se um apanhado de idéias de alguns autores que compreendem as relações de gênero a partir de uma concepção histórica e social, havendo uma reflexão sobre as diferenças entre o feminino e o masculino que vão para além das discussões biológicas. Segundo Scott (1988), gênero é uma categoria para distinguir as características entre os sexos que são construídas socialmente, ou seja, a diferenciação entre o feminino e o masculino sobre uma identificação na perspectiva psicológica, social e cultural, como relata Stengel (2003). A idéia é discutir como as diferenças entre mulheres e homens perpassam pelo samba, compreendendo as relações estabelecidas entre os gêneros a partir dos papéis a serem exercidos por cada um, que são construídos socialmente. Eixo Temático que se insere no XIV Encontro: Gênero, sexualidade, etnia e geração.
INTRODUÇÃO O presente artigo foi construído a partir da revisão do trabalho de monografia 1 realizado para conclusão do curso de psicologia da PUC-Minas no ano de 2007. Esse trabalho visou compreender a construção da identidade psicossocial da mulher que dança samba. Dessa forma, baseando-se na possibilidade de o samba ser um elemento que ajuda o sujeito a construir sua identidade e considerando esse ritmo musical um elemento cultural brasileiro, foi questionado como o dançar samba interfere na construção da identidade psicossocial da mulher. Entende-se que o samba e a dança que o representa são de grande importância na cultura brasileira e por isso é justo procurar compreender como essa questão influencia na identidade da mulher que vive nesse meio. Para tanto, foi realizado um estudo sobre o percurso histórico do surgimento do samba no Brasil. Foi feita uma pesquisa bibliográfica que busca compreender a formação identitária a partir das relações sociais e por meio das idéias de autores que entendem que esse processo ocorre de forma flexível. Realizou-se, ainda, um estudo sobre algumas reflexões de identidade de gênero, a qual fica integrada à identidade do sujeito. Também foi feita análise dos dados coletados a partir de entrevistas consentidas por duas mulheres que dançam samba profissionalmente.
1. E O SAMBA NASCE...
O samba se descreve como uma música que possui um ritmo inconfundível, através do qual exala-se alegria, que contagia sujeitos brasileiros e até mesmo aqueles que não têm essa nacionalidade. Esse ritmo musical é um batuque que provoca o sacolejar do corpo e torna-se referência de um país, o Brasil, perpassando as camadas populares da sociedade e adentrando a elite, contagiando tantos e tantos sujeitos. Assim, desperta-se a curiosidade para compreender o percurso histórico do samba no Brasil de forma que se entenda como esse ritmo surgiu e tornou-se identificação do povo brasileiro.
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Trabalho orientado pela professora Márcia Stengel.
Pode-se compreender que o samba é fruto de uma mistura de classes sociais, mas também de raças, ritmos e de uma longa história que tem grande participação dos negros que residiam no Brasil e que até 1888 eram escravos. O estado da Bahia abrigava muitos desses negros e grande parte desses sujeitos acabou migrando para o Rio de Janeiro, na época a capital federal do Brasil. Esses sujeitos estavam à procura de trabalho, em busca de sustento para sobrevivência. Nessa migração levavam junto a tradição e os costumes desse povo africano ou seus descendentes, que misturados a outras raças gerou brasileiros. Ao chegarem ao Rio de Janeiro, esses sujeitos ocuparam a princípio o centro da cidade, que foi acoplando todos aqueles que chegavam, ganhando o aspecto de um cortiço. Sob o comando político de Pereira Passos, o Rio de Janeiro entrou em profunda reforma estrutural, o que desencadeou a necessidade de expulsar as famílias daqueles negros, pobres e baianos do centro da cidade, que se transformaria em uma Europa tropical. A renovação do Rio de Janeiro tinha fortes influências de uma cultura européia, tendo assim a intenção de se tornar um símbolo de civilização, onde se instalou a central do trabalho e da comunicação. Os sujeitos que foram despejados se deslocaram para a periferia da cidade e acabaram compondo o local, que ganhou o nome de Cidade Nova, mais conhecido como “Pequena África”, lugar que teve as características desse povo e assim se firmava. Essa Pequena África circundava um dos ângulos da Praça Onze, que segundo Sandroni (2007), foi o berço do carnaval popular do Rio de Janeiro. Essa praça proporcionava a vinda e o encontro de classes diferenciadas, os ricos do centro da cidade e os pobres dos bairros periféricos. Diante dessa história, cabe pensar: o samba origina-se de que lugar, de que tradição? Autores como Cavalcanti (apud PAVÃO, 2004) e Vianna (2002) defendem a idéia da origem do samba a partir daquilo que foi proposto por Gilberto Freyre (apud PAVÃO, 2004), a miscigenação. Nesse sentido, o samba seria uma mistura de raças e classes, sustentando a lógica de que esse ritmo constituiu-se através da interação de diferentes camadas sociais e indivíduos, sem desconsiderar a importância que a cultura africana proporcionou. Mas os compositores Candeia e Nei Lopes (apud PAVÃO, 2004), por exemplo, discordam dessa posição, o que causa controvérsias. Esses valorizam a crença de que o surgimento do samba provém primordialmente das origens negras, o que valoriza a autenticidade da manifestação cultural desse povo. Assim, reconhecem-se as controvérsias existentes quanto à origem do samba, mas de qualquer forma, não se pode
negar a verdadeira interlocução que existiu entre classes de níveis socioeconômicos diferenciados, o que aconteceu por meio do samba. Para além da mistura de classes ou raças, pode-se afirmar que houve também uma mistura e incorporação de vários ritmos que se relacionaram e influenciaram na construção do samba. É inegável que o jongo, o caxambu, a capoeira, o candomblé - que fazem parte da cultura negra e africana - tenham influenciado na expressão do samba, mas junto com as tendências de ritmo européias - como a valsa, a polca, o tango, o mambo, o bolero construíram esse ritmo original. Seja qual for a forma que o samba se apresente, ele se constituiu como um ritmo caracteristicamente brasileiro. Não há como negar a importância desse ritmo musical na constituição da identidade do sujeito brasileiro, de uma mulher brasileira que dança samba. E por isso, é também importante compreender como o corpo se estabelece por meio desse ritmo, que, segundo Sodré (1979), se faz como melodia, ritmo, dança e letra.
2. A SÍNCOPA
As composições de um samba fazem um discurso que tem como conteúdo a expressão do caráter vivencial da sociedade, ou seja, o samba seria um meio de expressão dos acontecimentos sociais. Dessa maneira, pode-se pensar na forma como são transmitidos esses significados sociais que o samba representa, que seriam sob o ritmo e sob a dança, através da qual se compreende a relação com o corpo (SODRÉ, 1979). O ritmo, que possui uma variação que se repete a intervalos regulares e que no samba (ou em outra forma musical) tem uma marcação de tempo que cria um som próprio (XIMENES, 2000), possui um poder de transmitir ao outro que escuta a mesma experiência daquele que vivencia esse som. O som seria o resultado do tempo ordenado pelo ritmo, sendo que o seu processo de constituição se faz também através de um corpo presente em busca do contato com outro corpo, o que origina um movimento resultante de uma estrutura dinâmica (SODRÉ, 1979). O ritmo da música e a dança se fazem sobre uma interdependência em que um afeta o outro, ou seja, a música pode ser formada a partir da dança ou vice-versa.
É nessa interdependência entre a música e a dança que se estabelece a relação do corpo com o determinado ritmo, que vem acompanhar os toques e batuques de um samba. Pode-se compreender a relação direta do corpo que dança com a música do samba através do que se chama síncopa, em que o samba encontra sua especificidade e que se refere a “uma alteração rítmica que consiste no prolongamento do som de um tempo fraco num tempo forte” (SODRÉ, 1979, p.24). O que acontece é um vazio na música dentro do seu ritmo, que incita aquele que ouve a preencher esse tempo com a marcação do corpo, podendo-se dançar. Essa apresentação permite a compreensão de que o samba tem a capacidade de expressar os acontecimentos sociais e através da dança permite um envolvimento do corpo de um indivíduo com a música. Pode-se, nesse momento, apreender diretamente como a dança do samba influencia na construção da identidade das mulheres que dançam esse ritmo.
3. AS MULHERES QUE DANÇAM SAMBA: OS DADOS COLETADOS E A COMPREENSÃO DA FORMAÇÃO DA IDENTIDADE
Os dados foram coletados através de duas entrevistas semi-estruturadas realizadas com mulheres que dançam samba profissionalmente. Não foram especificados critérios de idade, de escolaridade, nem de classe social para escolha dessas mulheres. A seguir, são apresentadas as entrevistadas. A primeira entrevistada recebe o nome de Júlia 2, descreve-se como uma pessoa “super extrovertida, comunicativa, fácil de lidar”. Júlia é uma mulher negra, casada, tem duas filhas e trabalha simultaneamente com samba fazendo shows à noite e como funcionária de uma empresa durante o dia. A segunda entrevistada pode ser identificada pelo nome de Roberta e tem como características pessoais um jeito muito extrovertido, muito “brincalhona”, leva tudo de forma muito tranqüila. Também é uma mulher negra, casada, trabalha com dança e cursa educação física. Ela diz “Eu vivo porque eu vivo da dança”, trabalha com produção de eventos de dança, é professora dessa área e também faz shows. 2
Para preservar a identificação das mulheres entrevistadas foram utilizados nomes fictícios.
Os dados fornecidos por essas duas entrevistadas buscaram compreender a relação que elas têm com a dança do samba, entendendo como o samba faz parte da história de vida de cada uma delas e o que isso implica na formação da identidade e da identidade de gênero dessas mulheres. Para tanto foram divididas categorias de análise para compreensão desses dados. Nesse artigo serão expostas duas categorias revisadas no trabalho da monografia e que se refletem como as principais: “a relação dançar samba e a formação da identidade” e “diferenças: homem que dança, mulher que dança”. Foram apreendidas algumas idéias teóricas de autores que vêm explicitar, sob uma visão psicossocial, a construção da identidade do sujeito, além do esclarecimento sobre a formação da identidade de gênero. Essas idéias também serviram de base para análise dos dados. Assim, é possível iniciar a apresentação do que foi estudado. Inicia-se com a primeira categoria já relatada, que se refere à “a relação dançar samba e a formação da identidade”. Aqui se descreve como as duas entrevistadas compreendem que através do dançar samba é possível o outro apreender a identidade de cada uma delas. O olhar desse outro sobre elas é um fator importante para a constituição da identidade. Assim como Ciampa (2001) reflete, pode-se entender aqui que, a partir dos papéis sociais que podem ser estabelecidos pela dança, essas mulheres interagem com esse outro que as olham e através desse relacionamento social tem-se um processo de construção da identidade. Esse autor explica que o processo de formação da identidade não seria um fenômeno da ordem do particular, pois essa construção ocorre dentro de um contexto social e não em uma perspectiva individual. Ciampa (2001) descreve a identidade como algo que é construído, diferente de ser dado, como se estivesse dentro de cada indivíduo e emergisse no mundo quando fosse evocada. Forma-se a identidade ao longo do processo de identificação do indivíduo sobre cada grupo social com o qual se relaciona. Por isso, a identidade “é um processo e não o produto, é a representação/ação e não a essência, a natureza ou a substância” (MAYORGA, 2006, p.9). A representação é um fato social, pois o papel que o sujeito representa tem um significado compartilhado coletivamente. O relacionamento com o outro que as vêem dançar permite a essas mulheres constatarem que na dança elas conseguem passar “exatamente quem elas são”, pois recebem o retorno das pessoas que assistem aos seus shows. A respeito disso, Júlia diz que
“na hora que desce [do palco] eles falam, nó! Cê dança bem e tudo, aí cê começa a conversar com a pessoa, ela vira e fala: nó! Mas você é exatamente aquilo que você fez ali... Então eu consigo mostrar sim quem é a Júlia.” Roberta também recebe o feedback daqueles que a vêem dançar. Ela relata: “Então, eu, eu, consigo passar e elas me dão esse retorno, sente aquela energia”. Através da dança as pessoas conhecem Júlia e Roberta, não só compreendem quem elas são, mas também há um reconhecimento dessas mulheres sobre o potencial de cada uma e a importância delas no meio do samba. Quanto a isso Roberta fala claramente que é reconhecida pela dança, que “então qualquer lugar que cê fala aqui em Belo Horizonte, até fora na Bahia onde que eu tenho muito contato também, todo mundo conhece”. Outro fator importante relatado é como elas não conseguem se conceber sem a dança. Roberta não consegue se imaginar sem essa atividade “da hora que eu acordo, a hora que eu vou levantar, tá ligado, tudo tá ligado. Tudo, tudo... então eu trabalho dedicado à dança... “ Júlia também compreende que não consegue mais conceber-se separada da dança, “mas assim, eu não consigo mais separar, sabe? Saber assim, oh! Minha vida sem o samba não existe.” Essa última entrevistada se descreve como a mulher do samba, a vida dela é essa: a vida de samba. Essas mulheres identificam-se através da correspondência com o samba, com a dança. Pode-se relacionar esse fator com o que Bugental (1975) reflete quanto à atribuição a um objeto, no caso ao samba, para construção da identidade. Esse autor remete a dois movimentos para refletir sobre a formação da identidade; são eles: Euprocesso e Eu-atributo. O primeiro deles diz realmente do sujeito, sobre aquilo que o identifica dentro da compreensão dele na sua relação com o mundo e verifica aquilo que lhe faz sentido na interação social. Já o Eu-atributo refere-se ao aspecto objetivo do sujeito, que diz respeito àquilo que observamos, o que traz um caráter de vulnerabilidade na medida em que a pessoa vive sob as circunstâncias. O samba serve como um aspecto objetivo ou observável para que essas mulheres possam formar suas identidades, mas a questão é: sem o samba elas não conseguem ser quem são? E se algum dia não puderem mais dançar, elas perderão sua identidade? Júlia também relata outro ponto importante sobre o seu processo identitário, em que revela dois papéis principais que a constituem: a Júlia mãe e a Júlia sambista. Assim, ela diz:
Digamos assim, faz meio a meio, eu tenho a Júlia dona de casa, que cuida bem da filha, leva as filhas pra escola e tudo, toma conta da casa; eu tenho a Júlia do samba que vai pras reuniões, que vai onde o samba tá, que vê alguma coisa nova do samba e fala: nossa!
A Júlia mulher do samba mostra-se exatamente como ela se percebe ser ao dançar, mas será que a Júlia mãe também consegue isso? Moreno (apud GONÇALVES, 1988) diz dos papéis formados pelo sujeito ao longo de suas experiências a partir da matriz de identidade, que formam a identidade do indivíduo. A matriz de identidade seria “o lugar onde a pessoa se insere desde o nascimento, relacionando-se com objetos e pessoas dentro de um determinado clima” (GONÇALVES, 1988, p.60). Esse conceito inclui tanto questões sociais como também as questões psicológicas. Dessa forma, a criança receberá fatores materiais, sociais e também psicológicos, irá apreendê-los na medida em que estabelecerá as diferenças e semelhanças em comparação com ela mesma, constituindo-se como um ser único. O conceito de papéis entra em todas as dimensões da vida e pressupõe uma interrelação e ação do sujeito. A questão colocada em relação aos papéis que Júlia assume remete justamente ao conceito de papéis explicitado por Moreno (apud GONÇALVES, 1988). Pode-se dizer aqui sobre os papéis sociais em que o sujeito atua segundo a função da realidade e isso entra na dimensão social da sua vida. Quando Júlia samba e atua também como mãe, ela faz um show e cuida das filhas – essa mulher representa esses dois papéis que estão relacionados com a dimensão social da sua vida. O sujeito exerce papéis que atuam juntos ao longo da sua existência, o que constrói a sua identidade. Assim, essas duas Júlias, sambista e mãe, atuam em si mesmas. Nesse momento, faz-se possível já apresentar a segunda categoria analisada, a qual diz respeito à “diferenças: homem que dança, mulher que dança”. Nesse espaço foi possível verificar as diferenças de gênero existentes na dança do samba sob o olhar das mulheres entrevistadas. Compreende-se gênero sob uma perspectiva histórica com base nas relações sociais e que, portanto, não está baseada na diferenciação através do determinismo biológico. Gênero se faz como uma categoria social que fala sobre as relações entre homens e mulheres por meio dos papéis que cada um exerce e, que são construídos socialmente (SCOTT, 1989). Dessa forma, determinam-se papéis que homens e mulheres assumem no
meio social em que estão inseridos. Um desses significados refere-se à possibilidade de considerar homossexual o homem que dança, a única diferença de gênero apontada por Roberta, o “preconceito quanto ao homem dançar”. O masculino assume um papel feminino ao dançar samba, possibilitando a compreensão de uma posição de poder que a mulher assume sobre o homem nessa dança, pois essa atividade reflete um papel feminino e um lugar da mulher. Além disso, pode-se compreender as relações de gênero através do processo de diferenciação, que segundo Woodward (2000), também pode ser um meio de formação da identidade e, que essas mulheres podem estabelecer em comparação com um grupo ou um outro sujeito; nesse caso, os homens. A partir da identificação com um grupo social e a representação que o sujeito adquire por via do relacionamento com esse meio, pode-se de forma relacional construir a identidade através das diferenças compreendidas naquele lugar – o sujeito entende quem ele é na medida em que compreende em comparação com um outro o que ele não é. Por meio do relacionamento estabelecido com o masculino na atividade da dança, as mulheres percebem quem elas são a partir das diferenças que estabelecem nessa interação. Júlia consegue perceber algumas diferenças, uma dessas refere-se ao próprio figurino de homens e mulheres para dançar samba, em que mulheres precisam estar seminuas para sambar e os homens vestem-se de “roupa normal”. A partir disso, Júlia estabelece outra diferença em que ela considera um fator de dificuldade para o homem, pois se ele dança com a “roupa normal”, precisa fazer um esforço para chamar a atenção do público. Já a mulher que está semi nua consegue isso assim que entra no palco para fazer o show. E Júlia ainda diz sobre a facilidade que existe para a mulher no lugar da dança, “porque a gente, a gente já tem a sensualidade normal, a mulher em si ela tem a sensualidade normal e o homem tem que fazer sensual.” Pode-se dizer que a mulher tem espontaneamente uma sensualidade e de forma criativa a revela na dança do samba, “pois já tem facilidade em si e... fica mais aguçada quando tá dançando”. É possível pensar que essa sensualidade feminina é uma construção social que ganha valor e que para o homem não tem o mesmo significado. Por isso, a sensualidade masculina pode não se dar de forma espontânea como acontece com as mulheres. A partir de então, essa mulher vai adquirindo um papel na dança do samba e estabelecendo diferenças de gênero, em que por meio da sensualidade que tem
consegue uma posição de poder e um lugar do feminino: o samba. Mas deve-se problematizar se essa tomada de poder da mulher através da dança do samba é marcada pela exposição do seu corpo (usado como objeto de exposição ou sexual) quando ela ocupa um lugar valorizado; até onde efetivamente há uma conquista de poder? Até que ponto pode-se compreender que há efetivamente um poder da mulher na dança do samba ou não será novamente uma reafirmação da relação de gênero que nesse assunto se envolve?
CONCLUSÃO
Essas duas mulheres que foram entrevistadas mostram um meio através do qual é possível construir a identidade do sujeito. Elas apreenderam do samba a possibilidade de trabalho, de realização, de compreensão de si próprias e a revelação disso. Na relação com um outro que olha, que prestigia, que elogia, que critica, que incentiva e que aplaude, essas mulheres têm a possibilidade de formação de suas identidades e construção de papéis sociais.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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