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DO ENREDO AO DESFILE, A CAMPEÃ DO CARNAVAL

Cláudia PALHETA1 claudiap@ufpa.br

Carmem Izabel RODRIGUES2 cir@ufpa.br

Resumo: Este artigo tem como tema os concursos carnavalescos entre as escolas de samba de Belém-PA, e faz uma breve análise de como investimentos financeiros diferenciados e reconhecimento público, influíram nos resultados durante décadas de maior ou menor valorização do concurso, até chegar em 2010, cujo resultado colocou empatadas duas escolas, em condições estruturais completamente diferentes. A escolha aleatória do quesito harmonia como critério de desempate fez com que as qualidades conjunturais e performáticas do desfile superassem as de infra-estrutura apresentando a partir daí uma possibilidade diferenciada de uma escola tornar-se escola campeã do carnaval. Palavras-chave: Carnaval. Escolas de samba. Belém. Abstract: This article focuses on the contests between the carnival samba schools in Belém-PA, and a brief analysis of how different investments and public recognition for decades influenced the outcome of greater or lesser appreciation of the contest, until in 2010, the result put two schools tied in completely different structural conditions. The random choice of the topic harmonia made the cyclical qualities and performing the show overcome the infrastructure thereafter presenting a different possibility of becoming the champion of the school carnival. Keywords: Carnival. Samba-schools. Belem. Os concursos oficiais de escolas de samba de Belém ocorrem desde 1957 (OLIVEIRA, 2006, p. 25), ainda que as primeiras escolas da cidade datem da década de 1930. Fundado em 1934, o Grêmio Recreativo Jurunense Rancho Não Posso me Amofiná é hoje a quarta escola de samba mais antiga do Brasil, ficando atrás apenas da Mangueira, da Portela e da Tijuca. E, assim como a Portela no Rio de Janeiro, o Rancho é o grande campeão de Belém, com dezessete títulos oficiais, contando concursos promovidos pela Prefeitura e pelo Governo do Estado, seguido pelo Quem São Eles com onze e pelo Boêmios da Campina, que não mais desfila, com dez. Esta trajetória de vitórias do Rancho e a estrutura que o fez e o manteve grande e resistente até hoje, faz com que ele seja não apenas respeitado como temido por todos os seus concorrentes. Em Belém, ninguém tem uma infraestrutura como o Rancho. A melhor quadra, com ENSAIO GERAL, Belém, v2, n.4, ago-dez|2010

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agenda de shows com artistas locais e nacionais, funcionários e voluntários dedicados, barracões de alegorias e fantasias que iniciam seus trabalhos pelo menos três meses antes de seus concorrentes; o carnavalesco e a equipe que escolher, posto que o sonho de todos os artistas do carnaval paraense é trabalhar em uma escola com tamanha estrutura em relação às demais. Orgulho, tradição e sinônimo de identidade jurunense. Poucas escolas estão tão agregadas ao seu bairro como estão Rancho e Jurunas, pois [...] entre o bairro de muitas escolas de samba e a escola de samba jurunense por excelência, entre o bairro de muitas festas e a festa jurunense por excelência, há uma relação especular que se alimenta, ininterruptamente, de uma representação ao mesmo tempo topográfica e cartográfica, metafórica e metonímica entre os dois signos (RODRIGUES, 2008, p. 151).

O bairro da Pedreira, conhecido na cidade como “bairro do samba e do amor”, também mantém uma forte relação identitária com a Embaixada de Samba do Império Pedreirense (mais antiga) e com o Acadêmicos da Pedreira (mais recente), mas não se configura da mesma maneira. Em outro bairro, em outra época, na década de 1980, quando o carnaval de Belém registrou o mais luxuoso, criativo e valorizado momento de sua história, houve uma escola que foi fundada para fazer frente ao Rancho. Ela se chamava Arco-Íris e trouxe um dos mais populosos e populares bairros da cidade, o Guamá, para o cenário dos desfiles carnavalescos de Belém, criando, a partir do próprio nome, uma nova identidade sambista na cidade. O Grêmio Recreativo Guamaense Arco-Íris teve uma existência tão breve quanto fulgurante: existiu de 1982 a 1989, participou de seis desfiles e conquistou quatro títulos do carnaval paraense. Como aponta Oliveira, A presença do Arco-Íris injetou uma suntuosidade inédita no carnaval de Belém. A sequência de alas da escola no desfile de 1984, passou entre monumentais alegorias montadas sobre dezenas de tripés. O panorama da Doca virou um cenário mágico [...] O impacto do luxo, do gigantismo, deixou o paraense “papa-chibé” duvidando dos próprios olhos (2006, p. 156).

De fato, o Arco-Íris deixou uma marca muito forte na história do carnaval paraense, sendo ainda lembrado e comentado por muitos dos que fazem carnaval em Belém, especialmente pelos guamaenses que hoje integram e formam as novas escolas do bairro – a Bole-Bole e a Tradição Guamaense. Há entre os guamaenses que trabalharam nos barracões do 48

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Arco-Íris um imenso orgulho de ter feito parte da equipe da escola, uma espécie de atestado de qualidade, como afirma Geraldo Araújo, 54 anos, diretor do barracão de alegorias da Bole-Bole: “Trabalhei no Arco-Íris com o Laíla e o Joãozinho Trinta, da Beija-Flor”. Mas a década de 1980 passou, com sua história gloriosa, e com ela tiveram fim os grandes investimentos financeiros no carnaval, tanto por parte dos patronos como por parte dos governantes. A década de 1990 foi marcada por freqüentes oscilações e inseguranças entre as agremiações carnavalescas. Em 1990 e em 1991 os concursos das escolas principais não aconteceram. Voltaram em 1992, após a saída do prefeito Said Xerfan e a entrada de Augusto Rezende. A expansão imobiliária no bairro do Umarizal, juntamente com as reformas promovidas pela Prefeitura na avenida Doca de Souza Franco, no ano de 1995, transferiram os desfiles de 1995 e 1996 para as avenidas Presidente Vargas e Vinte e Cinco de Setembro, respectivamente, ocasionando a redução do número e tamanho das alegorias, bem como do número de componentes das escolas. Quando a nova Doca ficou pronta, o desfile voltou para o seu palco preferido mas, a essa altura, intensificaram-se os manifestos, por parte dos novos moradores do Umarizal, para que o desfile não mais se realizasse naquele espaço. E as escolas, que já haviam perdido as verbas, o luxo, boa parte dos componentes e do público, que então demonstrava uma clara preferência pelos carnavais das micaretas realizados no interior do Estado, passaram a conviver com uma freqüente ameaça de despejo. Em 1997 o novo prefeito, Edmilson Rodrigues, prometeu a todos os ainda apreciadores do carnaval um novo espaço para o desfile carnavalesco. Em 1999 foi realizado o último desfile na Doca de Souza Franco e o Acadêmicos da Pedreira foi o campeão, com o enredo Magia no Reino do Curupira. O novo milênio trouxe novas esperanças para as escolas de samba e um novo espaço – a Aldeia Cabana – no bairro da Pedreira, foi entregue parcialmente pronto, mas em condições de abrigar a realização do desfile. Sua inauguração registrou o bi-campeonato do Acadêmicos, para delírio dos moradores do bairro. Configurou-se aí uma nova correlação de forças entre as principais escolas de sambas, os bairros onde estão localizadas e o espaço agora oficial dos desfiles carnavalescos. Um novo milênio, um novo espaço, mas a falta de dinheiro continuava sendo o grande problema da maioria das escolas. Houve separações, criações de ligas independentes, protestos, boicotes, divisão do desfile em palcos e dias diferentes, e tantos problemas culminaram, no ano de 2007, com a presença de quatorze escolas no Grupo Especial das Escolas de Samba de Belém. Em meio a tantas divergências, um consenso: realizar um desfile unificador, que deixaria as sete primeiras escolas classificadas no Grupo Especial, ENSAIO GERAL, Belém, v2, n.4, ago-dez|2010

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e as sete últimas no Grupo de Acesso. O desfile aconteceu em dois dias, na sexta-feira desfilaram Mocidade Unida do Benguí, Academia de Samba Jurunense, Xodó da Nega, Acadêmicos da Pedreira, Deixa Falar, Quem São Eles e Tradição Guamaense. No sábado, Coração Jurunense, Escola de Samba da Matinha, Mocidade Olariense, Bole-Bole, Império Pedreirense, A Grande Família e Rancho Não Posso me Amofiná. Com quatorze agremiações em um único desfile, era quase certo que a lista das sete primeiras fosse formada pelas escolas mais antigas e tradicionais. Só que o carnaval tinha passado por muitas mudanças e uma nova era já havia começado. No Rio de Janeiro o carnavalesco da Unidos da Tijuca mostrou, em 2004, que a criatividade, a ousadia, o uso de materiais até então inusitados ao carnaval, poderiam fazer frente às idéias tradicionais em que o luxo era o centro das atenções. A lista das sete classificadas foi formada por 1234567-

Rancho Não Posso Me Amofiná Bole-Bole Quem São Eles Império Pedreirense Tradição Guamaense Deixa Falar A Grande Família

A Mocidade Olariense e o Acadêmicos da Pedreira, já campeões em outros desfiles, ficaram de fora, enquanto escolas muito mais novas como a Tradição Guamaense e a Deixa Falar permaneceram no Grupo Especial e permanecem até este ano de 2010. Mas a maior de todas as surpresas do carnaval de 2007 foi proporcionada pela escola de samba Bole-Bole. Lutando para se segurar no Grupo Especial, a escola do Guamá levou para a avenida diversas inovações e novas possibilidades. Fantasias de chitão com cetim; chinelinhos de fio de algodão no lugar das tradicionais sapatilhas; destaques de chão que teatralizavam trechos de músicas do homenageado no enredo: Mestre Lucindo, uma estrela no céu de Marapanim. Um desfile emocionante, que sacudiu todo o público e arrancou sorrisos e aplausos, inclusive de diretores de outras agremiações que assistiam ao desfile nas laterais da pista. O samba-enredo, composto pelo presidente da escola, Herivelto Martins (Vetinho), e a bateria da escola, fizeram um espetáculo à parte. Enquanto muitas baterias em Belém seguiam a moda ditada por mestre Ciça do Rio de Janeiro e sua paradinha funk, Vetinho e o mestre de bateria Feijão colocaram o enredo na batida da bateria, fazendo um samba carimbolado. 50

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Ao vivo, a bateria contou com percursionistas de carimbó e seus tambores de couro, apresentando uma fantástica performance, onde os ritmistas, ao mesmo tempo em que tocavam, cantavam e dançavam, movimentavam-se em um determinado momento do desfile, abrindo a ala da bateria ao meio para a entrada de um tripé que trazia os carimboleiros. A bateria parava de tocar e, no mesmo ritmo, ouviam-se somente os tambores de couro. Foi um delírio geral, uma reação a algo nunca antes visto/ouvido no carnaval paraense. E ao mesmo tempo, algo que não necessitava de grandes recursos e nem de muito luxo. No carnaval de 2007, muito mais do que permanecer no grupo especial, a Bole-Bole, com 341,70 pontos, ficou nove décimos abaixo do Rancho, que veio com o enredo Manbazan Mangai, da Índia ao Pará, chegou pra ficar, narrando a trajetória da manga em nosso Estado, e conseguiu 342,60 pontos. Tão próximas na classificação final, as duas escolas com diferentes – mas igualmente competitivas – apresentações carnavalescas, demonstraram possibilidades e vias de expressão diversas, capazes de impressionar e agradar ao público e aos jurados, indicando que, ao lado das forças e expressões tradicionais, estavam-se configurando novas forças que, presentes no Grupo Especial das escolas de samba de Belém, poderiam vencer o carnaval, mesmo não possuindo a mesma estrutura das grandes escolas. Isso voltou a acontecer no carnaval de 2010, quando as escolas campeã e vice-campeã do carnaval de 2007 competiram novamente, em condições estruturais novamente desiguais, com diferentes performances que igualmente impressionaram o público e os jurados, obtiveram o mesmo resultado na soma dos pontos, mas cujo desempate produziu um resultado diferente, a favor da escola do Guamá.

O carro alegórico teatro à luz da lua trazendo Os palhaços Trovadores. 13.02.2010. Foto: George Maués.

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Como isso aconteceu e por quê? Que fatores estruturais ou conjunturais, materiais ou humanos, interferiram na cena carnavalesca, fazendo com que um evento preparado e ensaiado fosse encenado e performado, de modo a produzir tal resultado? O concurso das escolas de samba é avaliado por uma comissão julgadora que decide quem será a escola campeã. Esta decisão é organizada através da divisão dos jurados por quesitos. Cada grupo, formado por três jurados, avalia um dos onze quesitos. As notas vão do mínimo 5 (cinco) ao máximo 10 (dez) podendo ser quebradas em 0,5 (meio) ponto. O regulamento manda ainda que todas as notas abaixo de 10 (dez) devem trazer anexo um texto de justificativa, e que o sorteio dos quesitos para possíveis desempates seja realizado antes do início da apuração. Os quesitos avaliados são: porta-estandarte, mestre-sala e portabandeira, comissão de frente, bateria, alegoria, fantasia, enredo, samba-enredo, harmonia, evolução e conjunto. Para entender a atuação individual e coletiva desses quesitos no desfile da escola de samba, e sua performatividade e conseqüente capacidade de produzir um resultado altamente eficaz, como vencer a competição, estamos propondo uma análise que permita agrupar esses quesitos em três categorias: Quesitos de Barracão: enredo, alegoria e fantasia. Quesitos de Ensaio: samba-enredo e bateria; porta-estandarte, mestre-sala e porta-bandeira e comissão de frente Quesitos de Pista: harmonia, evolução e conjunto. A classificação em quesitos de barracão e quesitos de pista é comumente referida no carnaval carioca, como observamos no Seminário sobre o Carnaval de Nova Iguaçu, em novembro de 2006. A classificação aqui proposta incorpora essa divisão e acrescenta uma categoria intermediária – quesitos de ensaio – que permite pensar as mediações que articulam todo o processo de produção do carnaval, desde a concepção do enredo até o momento do desfile carnavalesco. Classificamos os Quesitos de Barracão como elementos criados, idealizados e realizados com o trabalho planejado, de forma antecipada, pela diretoria da escola, pelo carnavalesco e por toda a equipe de barracão. Outros elementos como empenho, dedicação aos ensaios e talento individual, balizam os quesitos samba-enredo e bateria; porta-estandarte, mestre-sala e porta-bandeira, e comissão de frente, como Quesitos de Ensaio. Finalmente, os quesitos harmonia, evolução e conjunto, são Quesitos de Pista, pois dependem do que acontecerá no momento do desfile, e o que acontece no momento do desfile independe da vontade da 52

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diretoria, da estrutura da escola ou do trabalho do carnavalesco. A bateria e o samba-enredo estão entre as primeiras providências na preparação da escola, mas só têm revelada a sua qualidade cênica e seu efeito performático durante o desfile: Um bom samba-enredo, dizem os entendidos, é aquele que, quanto mais cantado, mais vontade se tem de cantá-lo. Essa qualidade imprevisível, só revelada na passarela, chama-se de “rendimento” do samba. O samba que “rende” favorece a dança e a adequação de seu ritmo ao canto, propiciando uma evolução “leve” e “solta” da escola (CAVALCANTI, 2002, p. 52).

Na percepção dos participantes do carnaval, existem enredos fáceis e difíceis, elaborados a partir de certos temas que se repetem recorrentemente: a cultura popular é um tema recorrente, como objeto ou pano de fundo de muitos enredos carnavalescos. O enredo Palhaços Trovadores. A poesia do riso na passarela do samba (Bole-Bole 2010) é um exemplo desse contexto. É uma prática constante, já mesmo uma característica desta escola, prestar homenagens a nomes ligados à cultura popular do Estado, como foi o caso das homenagens ao Arraial do Pavulagem (2002), ao Mestre Lucindo (2007) e ao Bar do Gilson (2008). O Grupo de teatro Palhaços Trovadores tem uma história reconhecida na cidade e no carnaval das escolas de samba, já tendo desfilado em diversas agremiações e, em outras duas ocasiões, na própria Bole-Bole. Palhaços Trovadores era um enredo sem necessidade de muitas explicações, capaz inclusive de ser explicado por si mesmo. O anúncio do enredo foi recebido com muito carinho na comunidade guamaense, que, desde o início, percebeu a possibilidade de realizar um desfile alegre, colorido e leve, como foi o de 2007. Portanto, o enredo de 2010 estava entre o que chamamos de enredo fácil, compreensível ao primeiro contato. A partir dessa percepção inicial, os carnavalescos realizaram pesquisas que incluíram o acompanhamento de apresentações do grupo durante todo o ano de 2009; redigiram textos, definiram a planta baixa e desenharam as alegorias e fantasias do enredo em pauta. Paralelo ao trabalho dos carnavalescos seguia o trabalho dos compositores do samba-enredo. A Bole-Bole apresenta a particular característica de ter um diretor-presidente compositor. Vetinho, reconhecido e premiado compositor do Estado, fez a primeira versão do samba em março de 2009, e a primeira gravação em outubro do mesmo ano. Esse tempo entre a criação e a gravação possibilitou diversas melhorias feitas pelo próprio criador que, enquanto artista, sempre acreditava que o samba podia ficar melhor. Esse processo não é tão comum à maioria das escolas, que costumam realizar Festivais de Samba onde os compositores trabalham os sambas concorrentes por um período aproximado de um mês e, depois que o ENSAIO GERAL, Belém, v2, n.4, ago-dez|2010

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samba vence a disputa, este muito raramente é re-avaliado pelo autor. As interferências que podem vir a ser feitas são geralmente propostas por diretores ou cantores da escola. Com o enredo decidido, o samba gravado, os desenhos elaborados, aproxima-se o fim do ano e a data do desfile. Diante da urgência em executar fantasias e alegorias, começa o momento mais tenso de uma escola sem muita estrutura financeira. A conseqüência é uma série freqüente de re-elaborações e adaptações de idéias ao que o tempo e os materiais possíveis permitirão produzir para o desfile. O resultado plástico dos Quesitos de Barracão fica bastante evidente quando, na tarde do desfile, as alegorias estão enfileiradas na área de concentração. Não significa dizer que as alegorias estão bem ou mal acabadas (no carnaval de 2010 todas as escolas concluíram com competência as suas alegorias), mas significa que os recursos plásticos e os detalhes de acabamentos são claramente diferentes entre as escolas que tiveram mais ou menos recursos financeiros, bem como mais ou menos tempo de barracão. Aliás, é uma característica dos quesitos de barracão serem criados e elaborados, mas não poderem ser ensaiados, ainda que estejam prontos, posto que alegorias e fantasias só revelam-se em sua totalidade no desfile. O trabalho da diretoria, do carnavalesco e da equipe de barracão, influi diretamente nos Quesitos de Barracão, enquanto os Quesitos de Ensaio dependem da dedicação constante dos músicos, cantores e ritmistas que compõem a bateria da escola, bem como do trabalho criativo da comissão de frente, do casal de mestre-sala e portabandeira, e do porta-estandarte. Portanto, o que é possível ensaiar antecipadamente é o portaestandarte, que apresenta o enredo do ano; o casal principal de mestre-sala e porta-bandeira, que conduzem o pavilhão da escola; a comissão de frente, que abre o desfile; o samba-enredo e a bateria. Estes quesitos ensaiam em alguns momentos individualmente ou juntos entre si, em outros contam com a participação de um pequeno número de componentes, mas em nenhum momento anterior ao do desfile encontram-se fantasiados e integrados a todos os demais quesitos e alas que formam a escola. Este encontro geral e único é o momento do desfile carnavalesco, e para este momento só há estréia, não há ensaio. É neste momento único e irrepetível, vivido, encenado, performado pelo conjunto dos sujeitos na avenida, que se revelam os Quesitos de Pista. A percepção do enredo por parte dos componentes, um samba fácil de cantar que, em primeira pessoa do plural, fez com que todos se sentissem fazendo parte do grupo homenageado (“Sorria Belém, está tudo bem. Nós somos os Palhaços Trovadores”) estabeleceu que, naquele carnaval, todos eram palhaços, na mais clara e fácil compreensão do 54

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personagem: palhaços vêm ao carnaval para brincar, sorrir, pular, cantar, se divertir e divertir a todos. Esse envolvimento com o enredo e com o samba-enredo propiciou o que Santa Brígida, ao propor a apresentação de matrizes coreográficas do carnaval, classificou como dança livre ou espontânea: É a movimentação livre e espontânea que qualquer corpo pode executar embalado pelo ritmo da bateria, numa movimentação sempre em evolução no espaço e caminhando à frente [...] É a dança da alegria livre e descompromissada, na qual cada integrante expressa sua alegria de maneira livre, sem a responsabilidade com uma coreografia de métrica mais elaborada (SANTA BRÍGIDA, 2006, p. 157).

A coreografia livre, embalada pelo ritmo da bateria, aliada ao canto freqüente do samba-enredo, gera o corpo espetacular e apresenta os quesitos que só podem ser percebidos no momento do desfile: harmonia, evolução e conjunto. Carnavalescos, diretores e mestres de bateria criam, preparam e ensaiam o que pode ser ensaiado, mas quando toca a sirene e todos entram na avenida, o que passa a existir, como totalidade visual e cênica, é a escola de samba. Formada por aproximadamente 1300 pessoas, cujo comportamento está diretamente ligado à compreensão do que foi proposto pela criação. Essa participação individual de cada componente dá a dimensão do que é a escola de samba na avenida: um corpo com vida própria, onde cada célula deseja estar ali, se percebe naquela constituição e tem consciência de seu papel na cena. O corpo redimensionado na cena torna-se um corpo extraordinário, um corpo cênico, um corpo ritual. Com maior ou menor evidência do ponto de vista plástico, ele será sempre um corpo coletivo. Recriado, pois, na medida e que os corpos individuais se integram e se transformam num outro, um corpo com outra forma e outra dinâmica de funcionamento que obedece a outras necessidades e desejos. (LATIF, 2008).

O espetáculo das escolas de samba se diferencia de qualquer outro por não ter um único ensaio em que todos os elementos estejam colocados tal e qual estarão na avenida. Esse momento só ocorre uma única vez durante o desfile. Os Quesitos de Pista não podem ser preparados como os Quesitos de Barracão, e nem ensaiados como os Quesitos de Ensaio. Precisam do desfile e do movimento integrado de seus corpos formadores, da visualidade plástica causada por essa integração e sonorização gerada pelo encontro do samba, da bateria e dos componentes. No carnaval de 2010, em que Rancho e Bole-Bole chegaram à contagem ENSAIO GERAL, Belém, v2, n.4, ago-dez|2010

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final com 339,50 pontos cada um, o quesito sorteado para o desempate foi um quesito de pista – harmonia – no qual a Bole-Bole tinha 0,5 pontos à frente do Rancho, e a campeã foi definida pelo momento espetacular que acontece quando uma escola de samba toma conta da avenida. REFERÊNCIAS CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Os sentidos no espetáculo. In: Revista de Antropologia, vol. 45, nº 1, São Paulo, USP, 2002 (p. 3778). LATIF, Larissa Plácido Saré. Poética da cena e técnicas corporais: a transfiguração do corpo em símbolo. Anais do V Congresso ABRACE, Belo Horizonte, UFMG, 2008. OLIVEIRA, Alfredo. Carnaval Paraense. Belém: SECULT, 2006. RODRIGUES, Carmem Izabel. Vem do bairro do Jurunas: sociabilidade e construção de identidades em espaço urbano. Belém: Editora do NAEA, 2008. SANTA BRÍGIDA, Miguel. O maior espetáculo da terra. O desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro como cena contemporânea na Sapucaí. Tese de Doutorado, PPGAC/UFBA, 2006.

__________ Notas 1

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Especialista em Estudos Culturais Amazônicos (UFPA), professora da Escola de Teatro e Dança da UFPA. Doutora em Antropologia, professora da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da UFPA.

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Do enredo ao desfile, a campeã do carnaval  

Título(s): Do enredo ao desfile, a campeã do carnaval Autor: Cláudia Palheta e Carmem Izabel Rodrigues Titulação: Artigo Publicado origina...

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