ISSN 2177-661X
Prof.Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib
2011
SAMBA E MARGINALIDADE NO BRASIL E SUAS SEMELHANÇAS COM O FADO DE LISBOA1 Prof.Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib Universidade Federal da Bahia - Brasil
RESUMO As sonoridades luso-afro-brasileiras sempre foram um aspecto importante nos processos de formação de identidades dos povos oriundos dessa tradição civilizatória. Os cruzamentos e hibridismos resultantes desse diálogo intercultural, acabou originando uma série de gêneros musicais que possuem imbricamentos do ponto de vista histórico-cultural, mesmo que hoje em dia, as semelhanças do ponto de vista da sua atual conformação estética não sejam assim tão evidentes. Esse artigo trata de dois desses gêneros musicais considerados símbolos das culturas brasileira e portuguesa, respectivamente o samba e o fado, sobretudo em relação ao universo da marginalidade a que ambos faziam parte em fins do século XIX e início do século XX. Palavras-chave: samba, marginalidade, fado, identidade
ABSTRACT The sounds of Portugal, Africa and Brazil always been an important aspect in
the
processes of identity formation of people from that tradition of civilization. Crossovers and
hybrids
resulting
from
the
intercultural
dialogue
eventually leading
to a number of musical genres that have overlapping of historical and cultural perspective, even today, the similarities in
terms of its current estheticis
not so evident.
This
article
addresses these two genres considered symbols of Brazilian and Portuguese cultures respectively, samba and fado, from aspects that approach, especially from the worlds of marginality to wich both belonges in the late nineteenth and early twentieth century
Página
140
Keywords: samba, marginality, fado, identity
1
Esse texto é resultado de investigação realizada durante estágio pós-doutoral no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, sob a supervisão do Prf.Dr. José Machado Pais
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poder, que resultam quase sempre em
INTRODUÇÃO
ferimentos à navalha ou à faca, em alguns Apesar de aparentemente - do ponto de vista estético e sonoro - o samba
casos mortais e também em perseguições por parte da polícia.
e o fado serem gêneros musicais muito
Mas apesar de terem sido gerados
distantes, os aspectos históricos e culturais
em meio a esse ambiente hostil e marginal,
de formação de ambos têm muitos pontos
o samba e o fado foram pouco a pouco
em comum. Ambos são oriundos de
ganhando status e reconhecimento social,
tradições e sonoridades africanas, que
se caracterizando como símbolos de uma
mescladas
de
cultura e de um povo. São analisados aqui,
tradições existentes no Brasil e em
alguns desses processos que caracterizam
Portugal,
as
acabam
cultural
tomando
uma
semelhanças
desses
dois
gêneros
conformação própria que acaba com o
musicais – e dos sujeitos com eles
tempo, adquirindo outras características e
envolvidos – no contexto de modernização
se
das sociedades portuguesa e brasileira em
firmando
como
gêneros
musicais
bastante distintos entre si.
fins do século XIX e início do século XX.
Mas ambos os gêneros possuem
Esse artigo é fruto de estudos de
semelhanças que são evidentes, sobretudo
Pós-Doutoramento em Ciências Sociais
no que diz respeito ao universo cultural de
realizados pelo autor na Universidade de
onde são provenientes: o universo da
Lisboa, onde analisou mais de perto as
marginalidade, da prostituição, da valentia
características do fado enquanto gênero
e da vadiagem em fins do século XIX e
musical que se transformou em símbolo
início do XX. Os sujeitos sociais que
daquele país. Durante aproximadamente
representam esses dois estilos são também
um ano, vivenciou uma imersão no
muito próximos entre si: o malandro que
ambiente lisboeta das “tascas” (pequenos
muitas vezes era também um exímio
bares em Portugal) e casas noturnas onde
sambista (ou vice-versa), e o faia ou
reina o fado, localizadas nos bairros
fadista que também se caracterizava por
tradicionais de Alfama, Bairro Alto,
estar ligado aos espaços onde reina o fado.
Mouraria,
Ambos circulam num ambiente urbano
entrevistando e convivendo com fadistas e
onde a luta pela sobrevivência é condição
boêmios,
básica, envolvendo-se constantemente em
bibliográfica
brigas, em disputas por territórios e por
historiadores e pesquisadores do tema.
Madragoa
além
de e
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e
Alcântara,
realizar
pesquisa
entrevistas
com
141
repertório
Página
ao
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Um outro aspecto a ser destacado é
localizado
a minha profunda ligação do autor com o
Atlântico.
samba,
gênero
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musical
do
qual
em
ambos
os
lados
do
se
aproximou desde a infância até os dias
SAMBA, MALANDRAGEM E
atuais, pois além de pesquisador do tema, é
APRENDIZAGEM SOCIAL
músico profissional, atuando na área do samba como compositor e intérprete,
O samba é uma manifestação afro-
sendo assíduo frequentador de rodas de
brasileira
samba por esse país afora, o que lhe
considerado inclusive por muitos, como
proporcionou uma experiência muito rica
símbolo
nesse universo, a partir do contato e da
constituindo-se
convivência com “bambas”(designação de
tradições e também como uma das mais
sambista
significativas manifestações das formas
respeito
e
reconhecimento junto a seus pares) da mais
da
cultura
como
um
brasileira, campo
de
populares de aprendizagem social.
alta estirpe, que muito têm a ensinar sobre a cultura e a história do samba.
maior
importantes,
Um
número
considerável
de
autores estudou e têm estudado o samba e
Na produção teórica sobre o samba,
seu significado para a cultura brasileira. Os
o autor tem publicado artigos e orientado
trabalhos de Roberto Moura (1983),
teses e dissertações que versam sobre o
Hermano Vianna (1995), Muniz Sodré
tema, através de abordagens que passam
(1998), Carlos Sandroni (2001), José
pela
Ramos
etnomusicologia,
etnocenologia,
estudos culturais, história e educação O esforço desse artigo é no sentido
Tinhorão
(1997),
Nei
Lopes
(2002), Roberto M. Moura (2004), são alguns
dos
que
trazem
importantes
de se valer desse campo teórico-conceitual
contribuições ao estudo das transformações
e dessa vivência empírica - que diz
que o samba foi sofrendo ao longo de sua
respeito aos universos culturais tanto do
história.
fado quanto do samba - a partir de uma
Gênero de música urbana, o samba
construção que toma como referência uma
surge e fixa-se, conforme Tinhorão (1997),
abordagem multirreferencial que possa
num espaço de 60 anos que vai de 1870
levantar aspectos capazes de contribuir
(quando a decadência do café no Vale do
com as reflexões e os estudos produzidos
Paraíba começa a liberar mão-de-obra
sobre
escrava destinada a engrossar as camadas
esse
campo
de
conhecimento,
populares do Rio de Janeiro) até 1930 Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
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adiquirem
mais
Página
que
das
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(quando uma classe média urbana gerada
expressão dos ranchos, blocos e cordões,
pelo processo de industrialização anuncia a
grupamentos que começavam a aparecer
sua presença com o Estado Novo). Diz o
quando o carnaval ganhou um sentido de
autor:
diversão coletiva em razão do processo de urbanização crescente na cidade do Rio de O que havia até então era a música
Janeiro. Fazia-se necessário um ritmo
operística da elite, que eventualmente
próprio, segundo Tinhorão, mais adequado
cultivava a valsa e a modinha, além dos gêneros estrangeiros das polcas,
ao
“passo
lento
e
cadenciado
shotishes e quadrilhas, importados
procissões
para o uso das camadas médias e
grupamentos” (TINHORÃO, 1997, p.17).
„populares‟,e, finalmente, o batuque, da sabor africano, exclusivo de negros que formavam o grosso da camada mais baixa, mas aos quais não
podia
chamar
de
povo.
(TINHORÃO, 1997, p.17)
desvairadas
das
Muitos
desses
grupos
desses
foram
fundados por negros baianos de Salvador e da região do Recôncavo Baiano, que migravam para o sudeste brasileiro em busca de trabalho, e traziam consigo, na bagagem, toda uma cultura rítmica e melódica que se fazia presente naquelas
pouco mais atenta desse contexto social
regiões,
das
mencionado acima, discordamos em parte
manifestações
de Tinhorão, sobre o caráter de clivagem
amalgamavam no grande caldeirão cultural
citado pelo autor em relação aos diferentes
representado pela Bahia durante esse
gêneros musicais explicitados, pois apesar
período, como também em períodos
de serem expressões oriundas de classes
anteriores e posteriores.
afro-brasileiras
diversas que
se
sociais diferentes, certamente havia uma
O local que ficou conhecido como
interpenetração de influências entre esses
“Pequena África”, segundo Roberto Moura
gêneros, resultando já nesse período, em
(1983), era localizado no centro antigo da
hibridismos que mais tarde resultariam em
cidade do Rio de Janeiro e foi um dos
novas e outras configurações musicais,
centros
entre elas o próprio samba.
movimento envolvendo esses migrantes
nevrálgicos
de
articulação
do
O samba nasce, portanto, a partir
baianos, entre os quais as conhecidas “tias
desse processo de hibridismo cultural que
baianas”, sendo a Tia Ciata a mais famosa
caracterizava a sociedade carioca da época,
delas. A casa de Tia Ciata era um núcleo de
muito em função da necessidade de
encontro de músicos, artistas, lideranças
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influências
Página
Contudo, a partir de uma leitura um
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religiosas e populares em torno da festa,
os integrantes do Estácio ouviam de seus
onde havia comida, bebida e muita música.
“rivais” da Pequena África que o que faziam
Diziam os antigos freqüentadores que, a
não era samba, mas sim marcha.
parte da frente da casa, era o local reservado
Os protagonistas do samba faziam
à música tida como mais “elitizada”, e a
parte do mesmo universo, em fins do
parte dos fundos, o local reservado ao
século XIX e início do século XX, que os
batuque. Grandes músicos e compositores
protagonistas de uma outra importante
como Donga, Pixinguinha, Sinhô, Heitor
manifestação de origem afro-brasileira: a
dos Prazeres e João da Baiana entre outros
capoeira. O praticante dessa arte-luta era
compuseram
obras
nesse
conhecido como o capoeira – um outro
memorável
“Pelo
sujeito social muito próximo ao sambista
Telefone”, tido como o primeiro samba a ser
que dividia com ele os mesmos ambientes
gravado, cuja autoria é atribuída a Donga e
ligados à marginalidade – ambos sendo
Mauro de Almeida, mas que teria sido uma
considerados
composição coletiva, fruto de improvisos de
capadócios.
versos do tipo “partido alto” muito comuns
passagem literária citada por Tinhorão, de
nesses encontros.
J.M.Velho da Silva, datada de 1875, que
inclusive
Quase
o
nessa
mesma
época,
organizava-se no Estácio, bairro do Rio de
malandros, Vale
vadios
acompanhar
e essa
inclusive faz uma interessante menção ao fado:
Janeiro, um outro movimento de samba,
Resta-nos esboçar outro tipo de quem já
produzindo um estilo mais acelerado de
falamos algures: o cantor e tocador de
executar esse ritmo, mais apropriado para
viola dos batuques – o capadócio. O capadócio, como o nome indica, vivia em
desfiles de rua, que mais tarde deu origem
santo ócio, tinha vida folgada e férias
àquilo que conhecemos hoje como “escolas
perpétuas; era de ordinário, valentão e
de samba”. Ismael Silva e Bide eram seus
espadachim; afora essas qualidades,
principais representantes. Segundo Sandroni
tinham outras prendas que o tornavam
(2001), havia já nessa época, uma disputa
complemento natural e necessário dos folguedos de que falamos. Tocava mais
entre esses dois núcleos pela legitimidade do
ou menos perfeitamente a viola, guitarra
samba que faziam. O pesquisador cita que
e bandolim, era magistral no lundu, no
entre as “acusações” de ambas as partes,
fado (grifo nosso), a que chamamos
havia aquela que dizia ser o ritmo que se
rasgado e nas cantigas correspondentes
produzia nas casas das tias baianas, não o
cantava
ao
desafio,
improvisava…(TINHORÃO, 1997, p.17)
samba, mas sim o maxixe. Como resposta, Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
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espaço,
importantes
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em
poder, pois o malandro era um sujeito que
segundo
colocava em risco a ordem social que se
Tinhorão, porque os “convites eram tantos
queria impor. O malandro, o vadio ou o
e tão instantes que havia a dificuldade de
capadócio eram sujeitos que subvertiam
escolha. Assim o capadócio associa as
em termos de conduta e comportamento,
desordens à viola e aos batuques. Quanto à
as regras sociais atribuídas ao bom
cachaça, mesmo se não é mencionada
cidadão. Como destaca Dealtry (2009) no
explicitamente, está implícita na alusão às
livro O Fio da Navalha: malandragem na
festas intermináveis” (TINHORÃO, 1997,
literatura e no samba (2009,p.24) :
“bródios”
capadócios
viviam
2011
intermináveis,
p.17). Já em relação à aproximação entre o samba e a capoeira, o cantor Francisco
A perseguição aos malandros e
Alves, na música “Fala macacada” (1930),
vadios
é
uma
estratégia
de
reconduzir esses tipos aos papeis que
faz uma clara alusão às ligações entre esse
lhes
cabem;
em
especial
do
gênero musical e uma antiga manifestação
trabalhador
denominada batuque ou pernada carioca,
desqualificado, base da sustentação
hoje extinta, mas muito semelhante à
da economia no novo período pós-
mal
remunerado,
abolição (…) Ao reprimirem o jogo,
capoeira
a vadiagem, a cafetinagem, o logro do otário, meios usuais pelos quais Leva, leva, se tens perna pra levar
esses malandros ganham a vida, as
Não há malandro que possa me
instituições
derrubar (bis)
representativas
da
ordem, bem como a moral burguesa, estão,
Eu sou é bamba
igualmente,
tentando
domesticar os corpos desses ex-
Ô macacada
escravos e garantir que a hierarquia
Eu sou do samba e também da
entre as classes sociais não se altere.
batucada
sociais
Da velha guarda
representavam tudo aquilo que o poder
Não uso arma
queria eliminar do comportamento social
Tenho fé numa pernada (Discografia
da época, pois segundo Sandroni (2001,
de acervo pessoal do Autor)
p.160),
“compartilhavam
certas
características de rejeição ao trabalho, de Os
termos:
malandro
e
delinqüência, de uma „ética‟ particular
malandragem sempre foram utilizados no
(…) e da associação ao samba na sua
sentido pejorativo por parte dos donos do Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
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sujeitos
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Esses
Sou carioca
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versão moderna”. O malandro era então
a eliminação dos símbolos que remetiam
um tipo mal visto que se tentava a todo
às
custo banir do cenário social da época.
civilizatório – negros e indígenas – e a sua
Um famoso sambista a retratar a
culturas
subjugadas
substituição
definitiva
europeizados,
no
processo
pelos a
padrões
malandragem, Wilson Batista, com o
culturais
partir
do
samba “Lenço no pescoço”, gravado em
incentivo à imigração da mão-de-obra
1933, descreve a figura do malandro:
vinda de países europeus, como impulso à modernização do trabalho no campo, e
Meu chapéu de lado
também ao processo de industrialização
Tamanco arrastando
que começava a se delinear no Brasil no
Lenço no pescoço
alvorecer do século XX.
Uma navalha no bolso
Um sambista que era flagrado nas
Eu passo gingando Provoco e desafio
ruas do Rio de Janeiro em fins do século
Eu tenho orgulho
XIX ou início dos XX, levando seu violão
De ser tão vadio
às costas, ou batucando um pandeiro ou tamborim
Sei que eles falam
em algum espaço público,
Do meu proceder
certamente era alvo de abordagem nada
Mas eu vejo quem trabalha
cordial por parte da polícia, o que
Andar no miserê
resultava muitas vezes em espancamentos e prisões, e na maioria das vezes na
Eu sou vadio
apreensão
Porque tive inclinação
destruição
dos
seus
Eu me lembro era criança
instrumentos musicais, mesmo que esse
Cantava samba canção
sujeito fosse um trabalhador cumpridor de
(comigo não, eu quero ver quem tem
seus “deveres” sociais, que era o caso de
razão)(Discografia de acervo pessoal
muitos deles. Porém, a ligação entre a
do autor)
imagem do sambista e do malandro ou
Brasil em fins do século XIX, que uma
“modernização”
na
sociedade brasileira, processo esse que passava, invariavelmente, pelo fenômeno conhecido por “branqueamento”, ou seja,
esses cidadãos numa situação desfavorável perante os olhos da lei e de seus representantes. O malandro era, todavia, nesse contexto social, uma figura valorizada socialmente por seus pares. O samba já foi
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poder instaurado com a república no
vadio, era sempre imediata e colocava
Página
O samba foi muito perseguido pelo
propunha
ou
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definido como sendo a “melodia do
errante
malandro”, ou a “alma sonora” desse
soteropolitanas, conduzido pelo som da
personagem. O “bom sambista” de outrora
batucada que emana de algum botequim
–
considerados
ou fundo de quintal, localizado em Itapuã
“bambas” de hoje em dia – buscam de
ou na Ribeira, pontos extremos da cidade.
alguma forma, sempre uma referência que
Martinho é autor de frases que definem
os liguem à “malandragem”; seja nas
um pouco esse universo, tal como:
e
mesmo
aqueles
que
perambula
pelas
noites
letras das composições, seja na maneira de cantar ou de tocar um instrumento com a
“O malandro não é vagabundo... o
malícia e a ginga características; seja na
vagabundo
é
o
periculoso,
o
malandro é o artista ! O malandro é
maneira de se expressar verbalmente de
aquele que sabe se dar bem....mas
forma cifrada e metafórica – a chamada
sem prejudicar ninguém. Em todos os
“gíria do malandro”; seja ainda nas
setores você tem que ser malandro.
atitudes cotidianas que demonstram uma
Malandragem não é pilantragem e não
maneira muito própria de ser e estar no
interstícios do sistema, como diria Michel
peregrinações
como
músico e sambista, frequentando rodas de samba por esse Brasil, o autor tem encontrado
diversos
desses
sujeitos,
muitos inclusive trajados ainda da velha maneira: calça branca, sapato de verniz bicolor, chapéu de banda, a exemplo do sambista
baiano
conhecido
como
Martinho da Cuíca, já perto de completar 70 anos, muito respeitado nas rodas de samba
de
Salvador
e
um
legítimo
representante daquilo que a figura do malandro relembra. segundo sapatos”(em
ele
Um sujeito que
próprio,
depoimento ao autor)
“mora
nos
. Um sambista
O conhecido sambista também baiano, Riachão, aos 90 anos de idade, outro que é considerado pelos pares e por si próprio, como um “legítimo malandro”, com seu boné de pala, calça e sapatos brancos, paletó xadrez e toalha sempre em volta do pescoço, durante entrevista que concedeu ao autor, também entra nessa discussão e diz que o malandro não pode ser
confundido
com
o
vagabundo.
Aproveita e canta um trecho de um samba “O bom malandro” acompanhado com o tamborilar dos dedos na mesa de madeira do
“Porto
do
Moreira”,
conhecido
restaurante da região central de Salvador, ponto de encontro de sambistas da “velha
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suas
!!”(depoimento
Página
Em
poluição
concedido ao autor)
mundo, aproveitando-se das brechas e
de Certeau (1994).
é
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guarda”, durante a entrevista realizada
Portanto, não pertence à ninguém:
pelo autor:
fica circulando entre a inconsciência dos praticantes e a reflexão dos nãopraticantes, sem pertencer a nenhum. Vou lhe dizer qual é a diferença Que tem do malandro para o
Esse conhecimento de que trata
vagabundo É que o malandro vive na cidade
Certeau, também pode ser designado aqui
Gozando as delícias desse mundo....
por “malandragem” e é um conhecimento muito presente no universo cultural do
Certeau (1994, p.143) define esse
samba
e
do
sambista,
sendo
fator
tipo de sujeito social, a partir de suas
fundamental para o seu reconhecimento no
estratégias muito criativas de lidar com as
seu meio, em sua comunidade.
dificuldades do seu dia a dia, sobretudo
O sambista e compositor Paulinho
nos grandes centros urbanos que começam
da Viola, um dos ícones do nosso samba,
a se formar entre o fim do século XIX e
falando sobre a figura do malandro,
início do XX. O autor define essa
contou em depoimento para essa pesquisa,
“sabedoria” instituída nesses locais, por
a resposta que obteve de um antigo
esses
sambista da Velha Guarda da Portela, já
sujeitos
trampolinagem,
marginalizados, palavra
como
associada
à
falecido, a respeito da pergunta feita a ele
acrobacia de um saltimbanco e à sua arte
sobre quem teria sido o maior malandro
de saltar no trampolim, e também como
que conhecera. Diz Paulinho:
trapaçaria, astúcia e esperteza no modo de utilizar ou de burlar os termos dos
E o sujeito parou, pensou, e me
contratos sociais.
respondeu que o maior malandro
Para o autor, esse conhecimento é um conhecimento que não se conhece. Diz ele:
para ele era o Heitor dos Prazeres. Aí eu perguntei, como assim ? O Heitor era um ilustrador conhecido, um
compositor,
como
assim
que o Heitor era uma pessoa muito
conhecimento
uma
ativa, sabia circular entre todos os
“terceira” posição, não discursiva,
ambientes, coisa que eles não faziam,
mas primitiva. Acha-se recolhido,
ia pra cidade, se relacionava com
originário,
ocupa
como
ainda
uma
“fonte”
daquilo que se elucida mais tarde.
um, com outro, conseguia isso, aquilo, ele gravava....
Trata-se de um “saber não sabido”.
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Entre a prática e a teoria, esse
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malandro ? Então ele me respondeu
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O conceito de malandragem pode
importantes na forma de compor e
passar então por várias interpretações e
interpretar esse gênero musical, mas gera
diferentes
compreensão,
também resistências. O samba do morro,
conforme o lugar de onde cada um fala.
por exemplo, tendo a malandragem como
Mas todas essas compreensões sobre os
marca
conceitos de malandro e
malandragem,
prevalecendo com sua carga identitária,
demonstram que tais sujeitos acabam por
que remetia a um modo de ser e estar no
desenvolver formas muito peculiares de se
mundo
relacionar com o ambiente social a que
determinado grupo social.
formas
de
irrefutável,
pertencem, mesmo num contexto adverso
muito
O
continuava
característico
de
aprendizado
um
social
de perseguição por parte do poder vigente.
proporcionado pelo samba, re-significa o
Mas apesar de toda a violência e
conceito de “malandragem”, que aqui
repressão aqui mencionadas, exercida
deve ser entendida tanto em relação às
sobre esse universo de marginalidade do
qualidades artísticas (formas de compor,
qual o samba e os sambistas faziam parte,
interpretar e dançar o samba) que o
essa manifestação sempre resistiu e soube
sambista desenvolve de uma maneira
encontrar formas de ressignificação de
muito própria e peculiar, quanto em
suas práticas dentro desse contexto. O
relação
samba, que tinha o morro e os terreiros e
dificuldades enfrentadas em seu cotidiano,
quintais do centro da cidade do Rio de
que
Janeiro - como o das famosas casas das
conhecimento
que
tias baianas Ciata e Perciliana - como
coletivamente,
a
palco principal, passa a frequentar também
comunitária
os salões da burguesia e começa a ganhar
aglutinador dos mais importantes, como já
mais notoriedade a partir das primeiras
foi afirmado em trabalho anterior (Abib,
gravações em disco e da veiculação pelo
2005).
à
sua
demandam
postura
um
perante
saber se
partir
e
às
um
desenvolvem da
vivência
onde o samba é um fator
com o Estado Novo de Getúlio Vargas, o
Batuque é um privilégio…ninguém aprende samba no colégio
samba passa a ganhar o status de símbolo nacional, e começa a sofrer uma tentativa de controle por parte do estado. Esse processo acaba gerando modificações
O samba sempre foi uma via muito importante de transmissão de saberes para uma determinada camada social. O trecho da música “Feitio de Oração”, citado
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Com o nacionalismo implantado
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rádio, isso já a partir da década de 1920.
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acima e de autoria de Noel Rosa (1934),
Personagens belíssimos povoam a
revela um pouco dessa característica do
memória de toda a comunidade na qual se
samba, que critica os processos de
insere a Velha Guarda da Portela, como o
aprendizagem centrados na formalidade e
inesquecível
nos saberes científicos, típico daquilo que
Histórico” da Portela, exímio compositor e
é ensinado “no colégio” e por meio da
partideiro,
escrita.
justamente por ter na juventude, levado sim
esse
apelido,
“um
uma vida de malandro vagando sem
privilégio” fazer parte de um grupo social
destino e sem ocupação fixa. O termo
que transmite seus saberes e valores sem
partideiro
depender
formais
especializado em cantar uma modalidade
institucionalizados, pois dispõe de um
de samba conhecida como Partido- Alto
sistema simbólico que determina um
em que os sambistas improvisam os versos
repertório
suas
numa disputa entre eles. E também por ter
próprias formas de transmissão, pautados
sido portador de excelente memória, sendo
pela
o responsável pelo registro oral de um
dos
é
recebe
processos
cultural
memória
e
detentor
de
oralidade
como
referências principais desse processo.
refere-se
ao
sambista
grande número de sambas cantados nos
Um exemplo que revela toda a
“botecos” e terreiros pelos compositores
dignidade do processo de aprendizagem
da Portela e outras escolas, e que, se não
social e cultural envolvendo o samba,
fosse
baseado
na
memória,
ancestralidade, agremiação
é
sem
conhecida
por
ele,
teriam
caído
no
oralidade
e
esquecimento, já que na época o registro
dúvida,
a
por outros meios não eram comuns.
como
Velha
Guarda da Portela. Formada no início da
O dia se renova todo dia
década
Eu envelheço cada dia em cada mês
de
1970,
por
iniciativa
do
sambista/compositor Paulinho da Viola, a
O mundo passa por mim todos os dias
Velha Guarda reúne os antigos sambistas
Enquanto eu passo pelo mundo uma
do tradicional bairro de Osvaldo Cruz –
vez
subúrbio carioca onde se localiza a Escola de Samba da Portela – cuja história se
Trata-se do samba “O
confunde com a de seus associados e
mundo é Assim” de autoria
fundadores.
Alvaiado da Velha Guarda da
Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
150
sentido,
que
“Malandro
Página
Nesse
Alcides
ISSN 2177-661X
Portela
2011
Prof.Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib
(1945)
(parte
da
circunstâncias que evocam os eventos e
discografia pessoal do autor)
pessoas deste tempo passado; preces
A oralidade, presente no mundo do
espontâneas dirigidas a estes ancestrais” .
samba, é um fator essencial para os
Considera
processos de transmissão de saberes e
presentes na memória de determinado
valores, e a memória enquanto qualidade
grupo social, são uma das referências
essencial de um bom sambista – assim
principais
como a de Alcides “Malandro Histórico” –
identidade, é aquilo que permite fortalecer
acaba sendo desenvolvida de forma muito
os laços culturais, sociais e afetivos entre
particular entre os sujeitos pertencentes a
seus membros.
esses grupos sociais que têm no samba, sua referência principal.
o
de
autor
que
as
constituição
canções
de
sua
É muito comum atualmente, em rodas de samba espalhadas pelo Brasil
Os sambistas – assim como todos
inteiro, ouvir sambistas (mesmo os mais
os sujeitos envolvidos nas manifestações
jovens), entre uma garrafa de cerveja ou
das culturas populares tradicionais em
um copo de cachaça, “desfiarem um
geral – tem essa qualidade de desenvolver
rosário” interminável de sambas de todas
a memória de maneira singular. As letras
as épocas, fazendo reverência a grandes
de uma enorme quantidade de músicas,
sambistas, muitos já falecidos há várias
seus autores, os personagens importantes,
décadas, mas todos guardados na memória
as datas e locais significativos, tudo isso,
como
na maioria das vezes é transmitido
significado, o pertencimento a um grupo
oralmente e guardado cuidadosamente na
social do qual todos se orgulham e
memória de cada membro do grupo.
estufam o peito ao afirmarem: sou
Price, em sua obra “First Time”
relíquia
e
que
trazem
como
sambista !
(1983,p134) ressalta a memória enquanto que
um
grupo
cultiva,
possibilitando formas de reconstrução da identidade
do
grupo,
através
capacita
o
controle
sobre
ASCENSÃO SOCIAL
do
conhecimento especializado do passado que
FADO, MARGINALIDADE E
“O fado é a alma portuguesa !,
as
assim se expressou Fernando Silva em
contingências do presente. Entre essas
depoimento ao Autor. Não há expressão
formas de preservação, Price cita as
mais significativa sobre o sentimento do
“…canções de diversos tipos para várias
povo português sobre o gênero musical
Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
151
viva
Página
força
Prof.Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib
2011
que mais o identifica. O fado e suas
(Vasconcelos, 1989), ou ainda a hipótese
referências estão em toda parte, sobretudo
de origem remota, marítima, segundo a
na cidade de Lisboa, nos nostálgicos
qual o fado já era cantado a bordo das
bairros de Alfama, Mouraria, Madragôa,
caravelas na época dos Descobrimentos
Alcântara e Bairro Alto, locais tradicionais
(Carvalho, 1990).
de aportagem de navios vindos de terras
Não obstante, Nery entende ser
distantes. Foi por aí que o fado chegou,
essas
junto
que
apoiando-se em autores clássicos que se
regressava do Brasil no início do século
debruçaram sobre o tema como Sousa
XIX, trazendo na bagagem
Pinto,
a
côrte
portuguesa
toda
a
Frederico
mera
de
especulação,
Freitas,
Rodney
influência da musicalidade afro-brasileira
Gallop, Luis Moita, Antonio Osório para
que efervecia nas terras de além-mar.
sustentar os dados sugeridos pelas fontes
No contexto multicultural do Brasil
históricas levantadas por ele. Publicações
colonial, “…os ritmos e os padrões de
mais
dança africanos combinam-se com as
pesquisadores
harmonias e as formas européias para gerar
Enciclopédia da Música em Portugal no
uma dança cantada de forte sensualidade.
Século XX (2010) de Castelo-Branco e
Essa música atravessa o Atlântico e
Sonoridades Luso-brasileiras (2004) de
implanta-se nos bairros populares do porto
Brito, Pais e Cavalcante, corroboram
de Lisboa", explica o etnomusicólogo
também com a hipótese da origem luso-
português Rui Vieira Nery (2002, p.23). A
afro-brasileira do fado.
recentes do
de
conceituados
tema,
como
a
interação entre o modelo brasileiro e as
Desde o princípio, o fado sempre
tradições locais da canção portuguesa
foi ligado às camadas mais pobres da
levaram, gradualmente, segundo o autor,
população, e acaba se tornando uma
ao desaparecimento do elemento de dança
canção identitária para essas pessoas, que
e à atenuação do ritmo sincopado original,
vêem no fado algo que representa seus
que
valores, seu olhar sobre a vida e sobre si
deram
lugar
a
uma
atmosfera
nostálgica.
próprios. Os ambientes onde o fado foi
Porém, segundo Nery, existem
germinado, eram os ambientes ligados às
também outras versões sobre a origem do
atividades
portuárias,
fado, indo desde afirmações sobre a
freqüentadas por marinheiros, prostitutas e
influência árabe (Vieira, 1890), sobre a
beberrões.
origem ligada aos trovadores medievais Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
as
bodegas
152
com
hipóteses
Página
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ISSN 2177-661X
Prof.Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib
2011
Sobre essa questão, o pesquisador
marginal, que nasceu na estúria, que
Nery, em depoimento para essa pesquisa
nasceu no mal, nasceu no álcool,
cita as figuras do “faia” e do “malandro”
nasceu na prostituição, nasceu na porrada… era mal visto e sempre era
como sujeitos pertencentes a esse universo
sinônimo de confusão.
social, e sua importância na configuração do fado como gênero musical:
O espírito boêmio que marcou a característica do fado do início do século
O faia e o malandro são sujeitos que circulam constantemente em “ziguezague” entre a cadeia e a liberdade,
XX, ainda se faz presente através de tipos como o fadista Fernando Silva e tantos
envolvidos com a prostituição, com o
outros que circulam em algumas “tascas”
jogo e com pequenos delitos e crimes.
do Bairro Alto, Alfama e Mouraria, onde
Mas possuem também uma incrível
ainda prevalece a cultura do cantor de fado
capacidade de lidar com as situações
errante, aquele cujo maior prazer é chegar
adversas, demonstrando criatividade e capacidade de improvisação, o que
que
é
num
talento
fundamental
na
configuração do fado como estilo
reconhecido
e
valorizado, interpretar geralmente alguns clássicos do gênero e partir para outro destino pela noite adentro.
musical que tem sua gênese nesses ambientes.
ser
Da boemia lisboeta faziam parte, conforme o sociólogo Pais (2010, p.48),
O fadista Fernando Silva, vestido a caráter com sua boina de feltro e longos bigodes, um notório remanescente desses tempos, senão na idade, mas na sua identificação com os “áureos” tempos do chamado “fado vadio”, em depoimento que concedeu au autor na “Tasca do Chico” localizada no Bairro Alto, um dos locais de referência do fado de Lisboa, diz que:
O fado era coisa chula, era coisa de
“…os fadistas e todos os amantes do fado: as
mulheres
marialvas,
do
dito
(prostitutas),
toureiros,
boleeiros,
vagabundos, marinheiros, etc.”. Cita o autor que entre a fadistagem encontravamse também valentes “jogadores do pau” que eram exímios na manipulação do pau (ou cacete), o que naturalmente originavam muitas mortes “à paulada”. É impressionante a proximidade entre a figura representada pelo fadista
homem marginal e mulher prostituta,
português e o malandro brasileiro no início
bêbada e que fumava… quem olhava
do século XX, diz Soares (1997), a
para o fado olhava como algo
começar pelos trajes típicos: as calças
Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
153
musical
refletindo-se
ambientes,
Página
acaba
nesses
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boca-de-sino,
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os
cabelos
em
bandos
(soltos, desalinhados), o chapéu desabado,
inglês de passagem por Lisboa no início do século XX, citado por Pais (1985,p.47) :
os sapatos de salto de prateleira para o fadista lusitano, equivalem às calças
A maioria dos portugueses veneram
largas, ao paletó-saco desabotoado, à
a navalha com a ternura de uma arma nacional. Ela é-o de fato e os
camisa de cor e o chapéu de feltro do
registros policiais dão eloqüentes
malandro carioca. Tanto o fadista como o
provas de sua acção. Segui com
malandro, diz o autor, eram produtos de
atenção
uma incipiente sociedade urbana do século
desordeiro e vereis que as mãos
XIX, e também filhos da marginalidade
procuram instintivamente os bolsos,
e
simbolizavam
violentamente um
movimentos
de
um
onde a navalha espera o momento de
citadina. Subprodutos de uma sociedade desigual
os
intervir.
excludente,
universo
cultural
singular e único. Isto está presente no acervo do autor desconhecido apresentado em outro País (1985,p.60)
O mesmo autor conta também que as
próprias
fadistas,
prostitutas,
manejavam a navalha com maestria, e traz uma
interessante
descrição
de
uma
personagem que também ficou conhecida O fadista que é fadista A jeito o ferro manobra
nos antros onde se cantava o fado. Trata-se
Metendo a mão aos arames
da Barbuda, que era mãe da mais famosa
Dá facada como cobra, (PAIS, 1985)
fadista do século XIX, a idolatrada Severa. Segundo Pais (2010,p.151), a Barbuda era conhecida por ser uma mulher “de faca na
no Rio de Janeiro, era personagem
liga, cabelinho na venta e língua de prata”.
inevitável da crônica policial lisboeta e
A gíria do fadista, como
destacava-se não somente pelo canto e
Soares
execução do fado, mas também pela forma
semelhanças com o jargão das camadas
singular de luta pela sobrevivência nesses
populares da sociedade carioca: “sardinha”,
ambientes hostis, caracterizada pelo uso da
“naife”, “rasteira”, “ginga”, são expressões
navalha e da faca de ponta. A navalha era o
muito utilizadas no âmbito da malandragem,
instrumento predileto da expansão do
que revela um universo cultural comum,
gênio e o argumento decisivo nas disputas
unindo navalhistas dos dois lados do
e rixas. Eis uma descrição de um cidadão
Atlântico.
Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
guarda
extraordinárias
154
(1997),
lembra
Página
O fadista, assim como o malandro
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2011
Prof.Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib
Soares ainda lembra um outro
ouro” dos faias e fadistas. Nery (2002) cita
personagem da fauna das ruas lisboetas: o
alguns dos primeiros cantadores, como
marialva, que burguês filho da aristocracia,
José Norberto (o Saloio de Campolide), o
acostumado a freqüentar o submundo, que
Sales Patuscão (moço de forcados do
se tornaria um ponto de união entre os
Conde de Vimioso e presumivelmente
salões da camada dominante e a vigorosa
autor do “Fado do Vimioso”), o Sousa do
cultura de rua dos bairros boêmios de
Casacão e o inigualável Paixão, sabendo-se
Lisboa. A cíclica repressão policial que se
que estes dois últimos tanto cantavam
abatia sobre a vida noturna lisboeta, trazia
como tocavam a guitarra portuguesa.
sempre a presença desse personagem.
Referência ainda para Pitalcante, que
Referindo-se à proximidade entre os
alegadamente frequentou o Conservatório,
universos dos sujeitos sociais protagonistas
façanha então inédita para qualquer outro
do fado e do samba, Machado Pais (2010)
fadista. O autor ainda destaca que:
afirma que nesses cenários intimidativos, em
…outro dos pioneiros é António
reconhecer espaço para a criatividade
Maria Eusébio, mais conhecido por o
popular” (p:152). No entanto, diz ele:
Calafate, de Setúbal, muito popular
“…há
quem
tenha
dificuldades
devido à sua arte repentista. Nasceu em 1820 e viria a falecer 91 anos
e
o
samba
–
ícones
mais tarde, já sob a protecção de
emblemáticos das identidades lusa e
figuras
brasileira – acolheram-se nestes
como Guerra Junqueiro. Um certo
antros de marginalidade. De facto,
erotismo cru e infantil eram a marca
das
sociedade
da sua abundante produção poética,
estabelecida irrompe a improvisação,
todos eles partilhando a condição
embora
surja,
marginal ou proletária, o que é
recorrentemente, num estuário em
suficiente para estabelecer o tecido
que deságuam saberes, experiências
social em que se cultivava o fado nos
e
vão
bairros populares de Lisboa. No seu
amalgamando.
meio, são conhecidos por alcunhas,
Aliás, os trânsitos culturais entre
pela profissão que levavam ou até
Portugal e Brasil são evidentes, sem
pela cor da pele. Nessas listagens
esquecer
encontram-se
margens
a
da
criatividade
tradições
que
compartilhando
e
outras
se
marcantes
influências, como as africanas.
da
literatura
ainda
portuguesa
o
Epifânio
Mulato, o Preto da Tia Leocádia ou a Preta Cartuxa, o que dá conta da
Muitos
personagens
povoam
a
memória do fado lisboeta nos “anos de
forte
presença
africana
nestes
bairros de Lisboa, sublinhando a sua
Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
155
fado
Página
O
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Prof.Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib
importância no fado tal como ele
Silêncio, guitarra minha !
existia na Lisboa de meados de
Deixa ouvir, deixa cantar
oitocentos. Ainda de 1860, há a
À branda luz do luar
destacar a Cesária, a primeira não
A virgem que adoro e sigo
prostituta a salientar-se no fado.
Rumores que ides passando
Engomadeira
Pelos roseirais em flor
Alcântara,
de
profissão,
tornou-se
uma
em quase
2011
Vinde ouvir o meu amor
estrela naquele tempo, só batida pela
Sonhando amores comigo
Severa na memória dos admiradores do fado. Ser-lhe-ia dedicado o “Fado
Mares que vindes à praia
da Cesária”. (VERY, 2002 p.115)
Beijar a areia a morrer Podeis de manso gemer Mas de mansinho cautela
que
Trovadores namorados
concedeu
As vossas liras calar
durante a presente pesquisa de campo
Enquanto se evola e vae
realizada em Lisboa, o próprio Rui Vieira
Na ária d‟amor a alma d‟ela (NERY,
Nery afirmou que:
2002, p.80)
Ao contrário do que acontece hoje,
Pouco a pouco o fado foi ganhando
estes fadistas não eram profissionais,
prestigio entre as camadas mais abastadas
pelo menos segundo a conotação que
e começa então a fazer parte da vida social
atualmente é dada ao termo, pois não praticavam o fado senão por lazer, entretenimento e por razões de
trajetória de ascensão social que o leva
convívio. Ou seja, o fado funcionava
posteriormente a adquirir o status de
para cada um destes personagens
símbolo da cultura portuguesa. Sobre isso,
como
em
uma
forma
identitária
-
individual ou coletiva - e nunca como um modo de ganhar a vida.
O
da cidade de Lisboa, iniciando uma
romantismo
sempre
esteve
seu
depoimento
referido
Nery
informou que:
quando a aristocracia boémia e as classes
médias
urbanas
presente no fado e, apesar do ambiente
redescobriram o género, entre 1860 e
hostil e violento por onde circulavam os
1870, o fado passou a ter lugar no
fadistas, a temática relacionada ao amor,
teatro musical ligeiro, começou a ser
ao romance e à nostalgia eram sempre
publicado em edições de folhetos
presentes
para uso doméstico e acabou por se tornar um dos géneros favoritos da indústria fonográfica nascente.
Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
156
depoimento
Página
Em
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2011
fadistas foi dura e cruel, e se deu por O fado tinha também, no entanto,
razões ideológicas, fazendo com que a
segundo Nery (2002), um componente de
motivação política e subversiva dos fados
subversão e de propagação de idéias
fosse, pouco a pouco, sendo aniquilada
socialistas e anarquistas de justiça social,
pelo poder.
de
liberdade
e
contra
a
exclusão,
Em depoimento que concedeu ao
principalmente a partir de 1870 com o
Autor do presente artigo, a diretora do
arranque do movimento operário, do qual o
Museu do Fado de Lisboa, Drª. Sara
fado era um veículo importante de
Pereira, afirma que:
divulgação dessa ideologia. O autor cita um fado de autor desconhecido, que ilustra
A partir da segunda década do
essa característica.
século XX, com a formatação do fado dentro dos moldes exigidos pela censura
Destruir a monarquia
do
regime
militar
que
assume o poder, aliada também à
Haver no mundo igualdade
ascensão da indústria fonográfica,
São dois pontos sublimes
que também estabelece limites de
Por que pugna a sociedade
duração para as gravações desse gênero - já que anteriormente a
De que serve à pátria, ó rei,
execução de um fado não tinha um
Toda a imbecil nobreza
tempo estabelecido, podendo exceder
Que p‟la força da riqueza
dez ou quinze minutos - o fado vai
E p‟la posição são a lei ? O poder que ao vil darei À desordem e à anarquia
as
características
originais
de
ironia
e
identificação com o universo da
Tudo isso deve acabar
marginalidade e da subversão, para
Cumpre ao povo sem esperar, a
perdendo
espontaneidade,
A vileza e a tirania
Destruir
paulatinamente
monarquia
(NERY,
adquirir o formato que prevalece até os dias atuais.
deu origem a ditadura salazarista em 1926, quando as letras do fado tinham de ser, então, submetidas à censura, sofrendo um severo controle por parte do Estado português. A repressão ao fado e aos
O fado atualmente ganha uma nova força na sociedade portuguesa, e a aquela imagem do fado como gênero musical “antiquado” ligado às pessoas mais velhas, que predominou até um passado bem recente, está sendo substituída por um
Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
Página
Isso durou até o golpe militar que
157
2002,p.96)
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2011
Prof.Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib
cenário cultural do fado onde os jovens
cantoras dessa nova safra, chegam a reunir
estão
milhares e milhares de jovens. Nas
cada
vez
mais
presentes
e
interessados, tanto do lado da platéia que
“tascas”
assiste e aplaude, como do lado do palco,
tradicionais da cidade, o chamado “fado
onde estão os artistas, jovens fadistas,
vadio” - que é a modalidade de fado que se
intérpretes e instrumentistas que vem se
canta de improviso, por cantores e cantores
destacando e produzindo trabalhos de
que
extrema qualidade artística, a exemplo de
programação
Mariza, Dulce Pontes, Jorge Fernando ou
intérpretes muito jovens, que se misturam
Joana Amendoeira.
aos experientes fadistas na noite lisboeta e
Uma cantora de fado ainda muito jovem,
Rebeca
Matosinhos,
por
espalhadas
chegam
e
pelos
cantam
prévia
–
bairros
sem
reúne
uma sempre
se orgulham de dizer: sou fadista !
nós
entrevistada numa “tasca” do tradicional bairro de Alfama, em Lisboa, afirmou com
CONSIDERAÇÕES FINAIS
muita convicção que: Ao
buscar
elementos
de
O fado para mim é minha própria
aproximação
vida. Quando ainda menina, não via
aparentemente tão distantes entre si, como
muitos
jovens
cantando
ou
se
interessando pelo fado. Mas em casa
entre
gêneros
musicais
são o fado e o samba, procurou-se
sempre se cantou muito fado e isso
evidenciar alguns elos importantes de
eu sempre trouxe comigo. Agora vejo
ligação
que o fado tem se popularizado
brasileiras, sobretudo no que diz respeito
bastante também entre as camadas
aos aspectos de marginalidade às quais
jovens da população, e isso é muito importante, faz com que a nossa cultura sobreviva com vigor, com
entre
as
culturas
luso-afro-
muitas manifestações proveniente dessas culturas estiveram historicamente ligadas. A história das culturas populares
muito vigor !
ligada também à história da repressão por
pelo autor na cidade de Lisboa, percebeu
parte
que realmente o fado tem ampliado
preconceito,
bastante sua influência sobre os mais
perseguição que as culturas subalternas
jovens. Alguns shows de fado em lugares
sempre sofreram, fazem parte do processo
públicos, protagonizados por cantores e
civilizatório imposto por uma cultura
dos
poderes a
Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
constituídos.
discriminação
e
O a
Página
Durante a pesquisa de campo feita
158
em quase todo o mundo, quase sempre está
admitiu
ocidental/cristã
outras
formas
que de
nunca
olhar
vezes, um conformismo com a situação,
e
como afirma Chauí (1989) em seu livro
compreender o mundo, outras formas de
“Conformismo e resistência: aspectos da
expressão e de crença, outros sentidos.
cultura popular no Brasil”, onde aponta a
O samba foi por muito tempo
ambigüidade das culturas populares diante
perseguido pelo poder, que sempre se
das tentativas de controle exercidas pelo
utilizou de estratégias - algumas vezes
poder dominante.
violentas, outras mais sutis - de tentar
O fato de se conformar com
controlar e domesticar essa expressão que
determinada situação advinda de uma
sempre deu voz e visibilidade para as
repressão em nome do poder, muitas vezes
camadas marginalizadas da população,
é uma estratégia do mais fraco que, sem
sobretudo em se falando da parcela
optar pelo enfrentamento direto, acaba por
composta por negros e mestiços. A forma
encontrar saídas na maioria das vezes
preconceituosa e discriminatória de se
extremamente criativas para burlar a
referir e tratar os sujeitos envolvidos com
ordem
essas práticas era somente mais um traço
práticas sócio-culturais em busca de
dessa política de “embranquecimento”, que
manter
prevalecia na sociedade brasileira nesse
tradições que julgam serem importantes.
momento histórico.
vigente,
certos
O
Com o fado não foi diferente e a
ressignificando
princípios,
poder,
impossibilidade
ao
de
suas
valores
perceber
extinguir
e
a
formas
profunda repressão iniciada com o regime
culturais advindas das culturas subalternas,
salazarista, como vimos, fez com que essa
passa
expressão cultural fosse perdendo pouco a
modelos e restrições. Foi assim com o
pouco boa parte de sua espontaneidade,
samba, com o fado, com a capoeira, com
sua carga de rebeldia e insubordinação à
as religiões afro-brasileiras e tantas outras
ordem social e à moral vigentes
mais.
Esse processo de repressão e perseguição
às
expressões
populares,
a
tentar
Algumas
controlá-las
se
impondo
adequam,
outras
resistem, outras se conformam, outras ainda, ressignificam-se.
porém, nunca se deu sem uma resistência
Novas conformações culturais vão
por parte dos grupos sociais envolvidos,
se
que
de
contemporâneas, influenciadas por vários
sobreviverem a essa violência cultural,
fatores entre os quais os interesses
mesmo que isso signifique, em muitas das
mercadológicos de uma indústria cultural
sempre
buscaram
formas
apresentando
Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
nas
sociedades
159
dominante
2011
Prof.Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib
Página
ISSN 2177-661X
ISSN 2177-661X
voraz
e
Prof.Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib
avassaladora.
Porém
outros
2011
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
interesses também entram nessa disputa e a resistência de grupos culturais que lutam
ABIB, Pedro Rodolpho Jungers . Capoeira
por manter vivas algumas de suas tradições
Angola: Cultura Popular e o Jogo dos
é um fator que vem, nos últimos anos,
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É Mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia, Doutor em Ciências Sociais pela
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Angola: Salvador:
Universidade de Campinas e Pós-Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Lisboa. É também músico e compositor de samba Contato do autor: pedrabib@gmail.com
Brazilian Cultural Studies v. 2, n. 2, p. 140-161, Julh/Set 2011 Observação – o texto foi usado na atualização do periódico
Página
efetivo na Universidade Federal da Bahia, onde
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Estado de São Paulo e atualmente é professor
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