TRIBUTO AO “VELHO CHICO”: ELEMENTOS ARGUMENTATIVOS DO ENREDO E DO SAMBA-ENREDO DA MANGUEIRA NO CARNAVAL 2006 Juliana dos Santos Barbosa Mestranda do Programa de Pós Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Londrina juliana.barbosa@uel.br
Abstract Leaving of the estimated theoreticians of the Semantics Argumentative, this article if considers to analyze the linguistic marks of articulation of the plot and the samba-plot "Das águas do Velho Chico, nasce um rio de esperança ", subject of the carnival 2006 of the samba school Estação Primeira de Mangueira.
Key words Semantics Argumentative; Samba-plot; Linguistics.
INTRODUÇÃO “O carnaval é uma realidade ou uma ficção? Não importa, é um texto a ser lido com cuidado, porque também ele é uma leitura da realidade” Ivete Lara C. Walty (1985:57)
Neste trabalho nos propomos a estudar alguns aspectos lingüísticos do enredo e do samba-enredo do carnaval 2006 da escola de samba Estação Primeira de Mangueira do Rio de Janeiro. Com base no postulado de que o uso da linguagem é sempre caracterizado por uma intenção, buscamos analisar as marcas lingüísticas que caracterizam essa intencionalidade, levando ao desencadeamento de efeitos, de ações, de conclusões. Em outras palavras, nossa proposta é verificar o valor argumentativo dos enunciados presentes nos referidos textos. O enredo e o samba-enredo, como toda forma de linguagem humana, constituem atividades interativas. São elementos textuais que buscam comunicar um determinado conceito ou tema ao público por meio de um conjunto de enunciados organizados subjetivamente pelos seus autores.
A sinopse do enredo é o cerne de um desfile carnavalesco. É a partir dela que se desencadeia toda a produção do carnaval, um processo com duração de aproximadamente dez meses coordenado pela figura do carnavalesco. Num
processo
de
tradução
inter-semiótica,
este
texto
é
representado sob diversos signos no desfile das escolas de samba, com o propósito de que a platéia possa fazer uma “leitura” do tema abordado pela agremiação carnavalesca em seu desfile. Neste
contexto
percebe-se
a
importância
da
orientação
argumentativa do enredo, que deve conter alto grau de informatividade e apresentar consolidadas bases de coesão e coerência textuais. Isto vai favorecer a fidelidade de sua representação no desfile e, conseqüentemente, aumentar as chances do público e do jurado fazerem uma leitura compreensível do espetáculo visual. O samba-enredo é a trilha musical elaborada para representar as principais idéias do enredo. Sua letra e melodia são quesitos avaliados pelos jurados; na avenida constitui um elemento facilitador da compreensão do desfile e de empolgação do público. Sob o título “Das águas do Velho Chico, nasce um rio de esperança”, a Escola de Samba Mangueira desenvolveu um enredo sobre o São Francisco – rio com nascente na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e foz no Oceano Atlântico, entre Sergipe e Alagoas. De autoria de Osvaldo Martins, a sinopse narra a trajetória do “riomar” que, desde o seu descobrimento, vem “mineiramente” ocupando um importante espaço na história do povo brasileiro. Suas riquezas, mitos e lendas são fortes “argumentos” para justificar a preservação de um dos maiores rios do Brasil. O samba-enredo do carnaval 2006 da Mangueira é de autoria de Henrique Gomes, Gilson Bernini e Cosminho, membros da ala de compositores da Escola – uma das mais tradicionais agremiações carnavalescas do Rio de Janeiro, com mais de 70 anos de história, e 17 campeonatos. Fundada em 1929, a Estação Primeira de Mangueira está entre as 14 escolas de samba do Grupo Especial; possui um dos mais completos acervos culturais de memória do samba, sua bateria caracteriza-se por uma única marcação do surdo e a direção da Escola desenvolve relevantes obras sociais na comunidade.
1
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Os estudos da linguagem se dividem historicamente em duas grandes vertentes: a primeira analisa a língua de forma abstrata, fora do seu contexto de uso, e a segunda enfoca a linguagem enquanto atividade humana, analisando situações concretas em que o ser humano (inter)age por meio da linguagem. É neste segundo enfoque que as teorias sobre os aspectos argumentativos da língua encontram terreno para serem desenvolvidas. De acordo com os postulados desta área, podemos considerar a argumentação como fator intrínseco à linguagem humana, fazendo-se presente em qualquer tipo de texto e não somente naqueles considerados tradicionalmente como argumentativos. Para Ducrot e Anscombre (1989, p.16) “a argumentação está na língua”; em Koch (2004,p.29) encontramos a afirmação de que “o uso da linguagem é essencialmente argumentativo” Ainda em Koch (2004, p.29) vamos encontrar a afirmação de que “pretendemos orientar os enunciados que produzimos no sentido de determinadas conclusões
(com exclusão de outras)”. Para Guimarães (1975, p.82) “a
argumentação é um procedimento próprio do funcionamento da linguagem (...) [e também] um efeito da política do silêncio”, pois, mais que buscar estabelecer uma conclusão, argumentar é “silenciar outros percursos de significação textual”. O conceito de objetividade no discurso se torna, neste contexto, questionável ou mesmo inviável, pois fazemos uma seleção dos elementos gramaticais que vamos utilizar para dar o sentido que desejamos ao nosso discurso, seja falado ou escrito. E a língua nos fornece os recursos para dar esse direcionamento. Com base nesses princípios, os pesquisadores nos apresentam estudos
sobre
as
chamadas
marcas
lingüísticas
da
enunciação
ou
da
argumentação. Desenvolve-se a partir de então a análise dos elementos que determinam a intenção argumentativa dos enunciados de uma determinada língua. São preposições, conectivos, expressões e outros elementos gramaticais que determinam o valor argumentativo de um enunciado, apontando o “modo como aquilo que se diz é dito” (KOCH 2004). A Semântica Argumentativa é a área da Lingüística que estuda esses fenômenos relacionados aos elementos gramaticais que indicam o sentido a
ser dado em um enunciado. Os pressupostos teóricos desta área nos permitem identificar, conforme Oliveira (2003, p.232) um elenco de palavras que veiculam as “estratégias lingüístico-argumentativas” utilizadas pelos autores na produção de textos. Este conjunto de elementos gramaticais caracteriza a subjetividade do locutor em determinados enunciados. Nos enredos e sambas-enredo das escolas de samba encontramos uma possibilidade de pesquisa sob esta ótica, uma vez que são textos produzidos com o objetivo comunicar um determinado tema ao público durante o desfile carnavalesco. De acordo com o Manual do Julgador da LIESA - Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, “enredo, em desfile de Escolas de Samba, é a criação artística de um tema ou conceito”. O mesmo constitui um dos quesitos avaliados pelos jurados, que avaliam a coerência entre elementos do desfile e o conceito proposto textualmente: Para conceder notas de 07 a 10 pontos [no quesito enredo], o Julgador deverá considerar: o argumento, ou seja, a idéia básica apresentada pela escola; o roteiro, ou seja, o desenvolvimento seqüencial das diversas partes (Alas, Alegorias, Fantasias, etc.), que irá possibilitar o entendimento do tema ou conceito proposto no argumento. (MANUAL DO JULGADOR, P.27)
O propósito da sinopse do enredo é direcionar a elaboração das alas, fantasias, alegorias, samba-enredo e de todos os demais elementos que compõem o desfile de uma escola de samba. Esta sinopse deve, portanto, apresentar o tema a ser desenvolvido de forma ampla e clara, visando garantir a eficácia de sua representatividade nas outras linguagens características do carnaval. Uma dessas linguagens é o samba-enredo que, de acordo com FARIAS (2002), teve seu auge com compositores expoentes como Cartola, Noel Rosa, Martinho da Vila, dentre outros, e hoje conta com a ala de compositores, reunindo “grandes talentos que, com seu trabalho, registram para a posteridade a trilha musical feita para conduzir o carnaval”. Na mesma obra encontramos citações de Aberto Mussa (1988:15), que fala da obrigação do samba-enredo de ser belo “pois se relaciona intimamente com os fatos do desfile”. Paulo Soares (apud Farias 2002) registra que “na maioria
das vezes, os sambas possuem dois refrões, estando um no meio da letra e um no final da mesma”. Este é o caso do samba-enredo do carnaval 2006 da Mangueira. Todos os anos os membros da ala dos compositores das Escolas produzem diversos sambas sobre o tema definido. Eles concorrem entre si, em disputas que acontecem nas quadras de ensaio das escolas, e, com as eliminatórias do concurso, somente um samba é escolhido para ser gravado e representar o enredo da Escola no CD oficial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Os aspectos avaliados no quesito samba-enredo são letra e melodia, segundo o Manual do Julgador da LIESA. A letra deve ter riqueza poética e clareza, e não deve haver preocupação com a rigidez gramatical na avaliação feita pelos julgadores. No tópico a seguir apresentamos a análise lingüística do enredo e do samba enredo sobre o Rio São Francisco - temática da escola de samba Estação Primeira de Mangueira no carnaval 2006. O fator lingüístico predominante do enredo é a informatividade. Já no samba-enredo a função poética é que prevalece. Serão analisados os seguintes elementos da gramática portuguesa que definem o valor argumentativo dos enunciados: a) processos de repetição; b) intertextualidade; c) seleção lexical; d) elementos da subjetividade dêitica; e) operadores argumentativos. É importante ressaltar que os operadores argumentativos ou discursivos, em alguns casos são considerados pela gramática tradicional, conforme koch (1984), como elementos meramente relacionais ou mesmo vocábulos que não se enquadram em nenhuma classe gramatical. Os trechos analisados estão identificados por meio do número de linha do texto. Pela natureza pontual deste trabalho, selecionamos os tipos de análise a serem feitas em cada texto. No texto do enredo verificaremos os processos de repetição, a seleção lexical (específica sobre o Rio São Francisco), os operadores argumentativos e a intertextualidade. No samba-enredo examinaremos os elementos da subjetividade dêitica, e também a intertextualidade.
2
ANÁLISE DOS TEXTOS
2.1
Enredo “Das águas do Velho Chico, nasce um rio de esperança” Texto: Osvaldo Martins Carnavalesco: Max Lopes Fonte: www.mangueira.com.br
Não foi um qualquer o cara de fora que te descobriu. Foi o tal do Vespúcio, que Cabral conhecia quando chegou ao Brasil. Nem sabia o teu nome, que os índios te deram pra te batizar: Opará, que na língua tupi quer dizer rio-mar. Opará, ó rio-mar, tua hora chegou! Mangueira vem pra mostrar que o Velho Chico mudou. Eram muitos, eram tantos, que nem dá pra contar. Caipós, cariris, caetés e tuchás. Era quatro de outubro quando o navegador tua foz contemplou. Dia de São Francisco, “esse é o seu nome!”, ele logo pensou. E São Francisco ficou. Vem navegar no rio-mar, vem sambar a noite inteira, que hoje tem tutu com vatapá no barco da Estação Primeira. Discreto como convém a um mineiro de nascença, o rio brota do chão, não se nota sua presença. Se esgueira na terra em plena Canastra e segue em frente, mineiramente, só depois se alastra. Em cascata despenca pra exibir a primeira ousadia. Parece intuir o que o espera, o difícil labor do dia-adia. Quando cresce e se vigora de Minas já está fora, já chegou lá na Bahia. Tanta lenda, tanta história, que é difícil de saber. O que é fato, o que é lorota, não me cabe resolver. Paulo Afonso era padre? Então por que se afogou, remando na correnteza com aquela índia brejeira? Uma coisa é certeza: virou nome de cachoeira. São Francisco Peregrino, padroeiro da ecologia [que ironia!] talvez possa me informar onde é que foi parar a bela mata ciliar. Não permita, São Chico, o, mercúrio do garimpo e o vinhoto do canavial. Quero o rio sempre limpo para alegrar meu carnaval. Me devolve a piracema que nada contra a corrente. Eu imploro com fervor, que esse rio merece amor, pelo amor da sua gente! Carrancas do São Francisco, no mundo inteiro não tem nada igual. Elas são feias, mas são belas, são do bem, e afugentam as forças do mal. Com o velho Guarany aprendi a encarar assombração. Cara feia não me assusta, a minha ninguém desbanca. Não vem que não tem, eu sou Mangueira e vou mostrar minha carranca. Pelo sim pelo não, Deus me livre nessa rota de encontrar o Minhocão. Surubim-rei, Serpente-d’água, ele tem cara de dragão. Se abraçar a minha proa vai virar a embarcação. Do Nego-d’água ninguém acha graça. Se é duende, ninguém entende. Pra não complicar é melhor logo dar fumo em rolo e um bom gole de cachaça. Prefiro Mãe-d’água, muito mais maneira, vaidosa como toda iara barranqueira. Navegar nos gaiolas não era só sobressalto. Com uma figa no peito, a reza da fé chega a Deus, lá no alto. Com a brisa no rosto, minha rede no convés, eu senti gosto de que a felicidade estava a meus pés. Se no banco de areia o barco encalhava, a sanfona gemia e o forró começava. No vai-e-vem desse rio, tanta gente a trazer e tanta tralha levar, na Lapa eu vou me benzer, pra minha sorte mudar. Então o Senhor vai ter que atender o meu modesto favor: que o apito estridente desse velho vapor me deixe contente e anuncie a chegada do meu grande amor. Tem de tudo nesse barco que é a cara do Brasil. Romeiro, remeiro, rameira, é um bafafá como nunca se viu. Tem porco, galinha, tem peixe, pra vender, pra comprar, pra trocar. Tem renda, tem pano, tem fita, tem balaio e tem cantil. No mercado flutuante nada falta, nem as mais finas sedas – pro rico dar pra amante que exibe em tom triunfante no Grande Sertão: Veredas. Sertão que viu muita luta no tempo da bala e da faca na mão. O rio viu muita disputa, foi lá que morreu Lampião. Hoje os tempos são outros e o banho de sangue não têm mais razão. A água que bebo, como uma redenção, banha minh’alma e meu coração. O Chico pacato manda um recado pra quem quer ouvir: a mudança que faz na vida da gente não é só do presente, mas também do porvir. Não mudou por mudar, por cisma de inventar. Se hoje colhe a riqueza que vem da mãe natureza é porque soube plantar. Quem olha a espuma atrás dessa barca e lembra de um tempo sem fim, vê que a bonança era pouca, era parca, nunca foi tanta assim. Só não muda a rixa de quem se proclama o melhor violeiro. Nessa rivalidade, sem rancor ou maldade, uma ponte separa quem é o primeiro - Petrolina ou Juazeiro. O Velho Chico faz de conta que não tem nada com isso. Segue em frente pra Penedo e deixa atrás o reboliço. Juazeiro entra na história quando o samba se renova. Foi lá que nasceu João, o inventor da bossa nova. Petrolina também sabe fazer moda e alvoroço. De tanto plantar idéia fez a uva sem caroço.
E da uva faz o vinho, premiado sim senhor. Até parece visagem, mas é fato pra valer. O vinho do São Francisco o mundo todo quer beber. É fruta de todo tipo nesse imenso pomar que o Brasil já descobriu e não pára de exportar. E não podia faltar, sendo a terra brasileira, um lugar abençoado onde reina a mangueira. É manga doce da boa, sem fiapo e com sabor, plantada em pleno sertão – que agora vai de jato, embarcada pro Japão. O milagre é de casa, e de fácil explicação. Uma coisa tão singela que se chama irrigação. O novo Chico, minha gente, quer mudar o seu destino, sua sina é redimir todo o povo nordestino. O Chico anda atacado de mania de grandeza. Quer subir sertão adentro e mostrar sua beleza. Diz que afoga suas mágoas espraiando suas águas, não agüenta mais represa. Diz que vai à Paraíba e também ao Ceará sem perder seu rumo antigo, o caminho para o mar. Há quem diga que o Velho não tem força pra bombar (sic). Há quem veja nesse sonho o direito de ousar. Essa historia inda vai longe ninguém perde por esperar. Se o Chico sobe a serra ou se fica como está... não se aflija, nada de pressa – quem viver verá.
2.2
Samba-enredo “Das águas do Velho Chico, nasce um rio de esperança” Compositores: Henrique Gomes, Gilson Bernini e Cosminho Fonte: www.mangueira.com.br
Vou navegar... Com a minha Estação Primeira Nas águas da integração chegou Mangueira Opará... rio-mar, o nativo batizou Quem chamou de São Francisco foi o Navegador Na serra ele nasce pequenino Ilumina o destino, vai cumprir sua missão Se expande pra mostrar sua grandeza ”Gigante pela própria natureza” A carranca na Mangueira vai passar Minha bandeira tem que respeitar Ninguém desbanca minha embarcação Porque o samba é minha oração Beleza... o bailar da piracema Cachoeiras um poema a preservação Lendas ilustrando a história Memórias do valente Lampião Mercado flutuante, um constante vai-e-vem Violeiro, sanfoneiro, que saudade do meu bem O sabor desse tempero, eu quero provar Graças à irrigação, o chão virou pomar E tem fruta de primeira pra saborear Um brinde à exportação, um vinho pra comemorar O Velho Chico! É pra se orgulhar O Sertanejo sonhou Banhou de fé o coração E transbordou em verde e rosa A esperança do Sertão
2.3
Análise de elementos argumentativos do enredo e do samba-enredo
“Das águas do Velho Chico, nasce um rio de esperança”
a) Processos de repetição no enredo
Os
processos
de
repetição
são
considerados
elementos
argumentativos. Serão analisadas aqui as seguintes tipologias de repetição: anáfora, ritornelo, reiteração e paralelismo.
Anáfora: é a repetição de palavra no início de dois ou mais enunciados.
Linhas 3 e 4:
Opará, que na língua tupi quer dizer rio-mar. Opará, ó rio-mar.
Ritornelo: repetição de expressões ou enunciados integrais
Linha 14: O que é fato, o que é lorota, não me cabe resolver Linhas 59 e 60: Diz que afoga suas mágoas espraiando suas águas, não agüenta mais represa. Diz que vai à Paraíba e também ao Ceará Linha 62: Há quem diga que o Velho não tem força pra bombar (sic). Há quem veja nesse sonho o direito de ousar.
Reiteração: repetição de palavra dentro do enunciado
Linha 8: Vem navegar no rio-mar, vem sambar a noite inteira Linha 14:
Tanta lenda, tanta história, que é difícil de saber.
Linha 32: tanta gente a trazer e tanta tralha levar Linhas 36/37: Tem porco, galinha, tem peixe, pra vender, pra comprar, pra trocar. Tem renda, tem pano, tem fita, tem balaio e tem cantil.
Paralelismo: repetição de palavras ou idéias que se correspondem no sentido
Linha 5: eram muitos, eram tantos Linha 43: não mudou por mudar, por cisma de inventar. Linha 45: a bonança era pouca, era parca
b) Intertextualidade no enredo e no samba-enredo
A intertextualidade é a citação de um texto por outro, e este diálogo entre textos é considerado pela Semântica Argumentativa como argumento por autoridade. Tanto a produção quanto a compreensão exigem conhecimento de mundo por parte dos interlocutores do texto. Destacamos que não será considerada nesta análise a intertextualidade entre o enredo e o samba-enredo.
No enredo:
Linha 23: Não vem que não tem (clichê) Linha 25: Pelo sim pelo não, Deus me livre (clichê) Linha 38: que exibe em tom triunfante no Grande Sertão: Veredas (título da obra de Guimarães Rosa) Linha 63: ninguém perde por esperar (clichê) Linha 64: quem viver verá (clichê)
No samba-enredo:
Linha 9: Gigante pela própria natureza (trecho do Hino Nacional Brasileiro) Linha 17: memória do valente Lampião (o cangaceiro mais temido do sertão brasileiro)
c) Seleção lexical no enredo
A escolha de palavras é altamente argumentativa. Este processo de seleção exige criatividade e conhecimento do léxico de uma língua. Verificaremos aqui as formas que o autor do enredo utilizou para denominar e adjetivar o Rio São Francisco.
Velho Chico (título, linhas 4, 48 )
Opará (linhas 2 e 4)
Rio-mar (linhas 3 e 4)
São Francisco (linhas 7, 22 e 42)
Discreto (linha 10)
Pacato (linha 43)
o novo Chico (linha 57)
o Chico (linhas 59 e 63)
o Velho (linha 62)
o rio (linhas 10, 19, 20, 33 e 40)
d) Elementos da subjetividade dêitica no samba-enredo
São as formas as verbais de 1ª pessoa (eu); pronome pessoal de 1ª pessoa; pronome demonstrativo; pronome possessivo de 1ª pessoa, advérbio (lugar e tempo); tempo presente e a pessoa tu/você. Esses elementos são classificados em dêitico pessoal, espacial e temporal.
Dêiticos pessoais:
Linha 1: Vou navegar (verbo em 1ª pessoa) Linha 2: Com a minha Estação Primeira (pronome possessivo de 1ª pessoa) Linha 11: Minha bandeira tem que respeitar (pronome possessivo de 1ª pessoa) Linha 12: Ninguém desbanca minha embarcação (pronome possessivo de 1ª pessoa) Linha 13: Porque o samba é minha oração (pronome possessivo de 1ª pessoa) Linha 19: Violeiro, sanfoneiro, que saudade do meu bem (pronome possessivo de 1ª pessoa) Linha 20: O sabor desse tempero, eu quero provar (pronome pessoal de 1ª pessoa)
Dêiticos espaciais:
Linha 3: Nas águas da integração chegou Mangueira Linha 6: Na serra ele nasce pequenino Linha 20: O sabor desse tempero, eu quero provar
Dêiticos temporais:
Linha 6: Na serra ele nasce pequenino Linha 7: Ilumina o destino, vai cumprir sua missão Linha 8: Se expande pra mostrar sua grandeza Linha 12: Ninguém desbanca minha embarcação Linha 13: Porque o samba é minha oração
e) Operadores Argumentativos no enredo
Linha 5: Eram muitos, eram tantos, que nem dá pra contar. (o.a. de soma de argumento) Linha 11: segue em frente, mineiramente, só depois se alastra (o.a. de restrição) Linha 15: Então por que se afogou, remando na correnteza com aquela índia brejeira? (o.a. de conclusão) Linha 22: Carrancas do São Francisco, no mundo inteiro não tem nada igual (o.a. de negação plena) Linha 22: Elas são feias, mas são belas, são do bem (o.a. de oposição) Linha 23: são do bem, e afugentam as forças do mal. (o.a. de soma de argumento) Linha 24: Cara feia não me assusta, a minha ninguém desbanca (o.a. de negação plena) Linha 27: Se abraçar a minha proa via virar a embarcação (o.a. condicional) Linha 27: Do Nego-d’água ninguém acha graça (o.a. de negação plena) Linha 28: Se é duende, ninguém entende (o.a de negação plena) Linha 29: vaidosa como toda iara barranqueira (o.a. de afirmação plena) Linha 30: Navegar nos gaiolas não era só sobressalto (o.a. de restrição) Linha 32: Se no banco de areia o barco encalhava (o.a. condicional) Linha 34: Então o Senhor vai ter que atender o meu modesto favor (o.a. conclusivo) Linha 36: Tem de tudo nesse barco que é a cara do Brasil (o.a. de afirmação plena) Linha 38: No mercado flutuante nada falta (o.a. de negação plena) Linha 38: nem as mais finas sedas b(o.a de soma de argumento) Linha 41: Hoje os tempos são outros e o banho de sangue não têm mais razão (o.a. de soma de argumento) Linha 43: a mudança que faz na vida da gente não é só do presente (o.a. restritivo) Linha 44: mas também do porvir (o.a. de oposição)
Linha 44: Se hoje colhe a riqueza que vem da mãe natureza (o.a. condicional) Linha 45: é porque soube plantar (o.a. explicativo) Linha 46: a bonança era pouca, era parca, nunca foi tanta assim (o.a. de negação plena) Linha 47: Só não muda a rixa de quem se proclama o melhor violeiro (o.a. restritivo) Linha 48: O Velho Chico faz de conta que não tem nada com isso. Linha 51: Petrolina também sabe fazer moda e alvoroço (o.a. de soma de argumento) Linha 52: Até parece visagem (o.a. indicativo de argumento mais forte) Linha 52: mas é fato pra valer (o.a. de oposição) Linha 53: O vinho do São Francisco o mundo todo quer beber (o.a. de afirmação plena) Linha 53: É fruta de todo tipo nesse imenso pomar que o Brasil já descobriu (o.a. de afirmação plena) Linha 54: E não podia faltar, sendo a terra brasileira, um lugar abençoado (o.a. de soma de argumento) Linha 55: É manga doce da boa, sem fiapo e com sabor(o.a. de soma de argumento) Linha 63: ninguém perde por esperar (o.a. de negação plena) Linha 63: Se o Chico sobe a serra ou se fica como está (o.a. de opção) Linha 64: não se aflija, nada de pressa (o.a. de negação plena)
3
COMENTÁRIOS FINAIS
As análises lingüísticas feitas sob a luz dos princípios teóricos da Semântica Argumentativa nos permitem constatar a intencionalidade na estruturação de um texto, descartando a possibilidade de neutralidade (ao menos plena) em um discurso. E é por meio dos elementos gramaticais utilizados para construir um texto que podemos ver impressas as marcas da subjetividade do autor. Os enredos produzidos pelas escolas de samba apresentam-se como objeto de estudo nesta área em função de suas características textuais, onde a coesão e coerência são fatores preponderantes para garantir maior eficácia na transmutação de códigos que ocorre no processo de produção do carnaval.
É o argumento do enredo que vai direcionar a composição do samba-enredo, a elaboração das fantasias, das alegorias, coreografias, etc... Tal conjunto constrói um espetáculo que relata durante o desfile a temática desenvolvida pela Escola. Nos bastidores do “maior espetáculo da terra” encontramos a figura do carnavalesco, profissional que coordena o processo de criação dos diversos segmentos da escola de samba. Ele analisa a coerência entre os diversos setores e, como figura central de um processo de produção coletiva, busca a uniformidade com que a Escola se apresenta em todas as suas formas de expressão (textual, musical, dramática, visual etc). Com este artigo buscamos ampliar as discussões sobre a argumentatividade da linguagem, dentro de uma tipologia textual ainda pouco explorada e com um vasto campo de produção. Com a análise do enredo e o samba-enredo do carnaval 2006 da Mangueira pudemos verificar a capacidade do ser humano de interagir socialmente por meio da língua, sob diferentes formas e resultados. Ademais, as reflexões sobre o tema também permitem vislumbrar pesquisas sobre as diversas linguagens do carnaval por outras áreas de estudo.
RESUMO Partindo dos pressupostos teóricos da Semântica Argumentativa, este artigo se propõe a analisar marcas lingüísticas da enunciação presentes no enredo e no samba-enredo “Das águas do Velho Chico, nasce um rio de esperança”, tema do carnaval 2006 da escola de samba Estação Primeira de Mangueira do Rio de Janeiro.
PALAVRAS-CHAVE Semântica Argumentativa; Lingüística; Samba-enredo
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DUCROT, Osvaldo. Argumentação e “Topoi” Argumentativos. In: GUIMARÃES, Eduardo (org). História e Sentido na Linguagem. Campinas, Pontes, 1989. FARIAS, Julio César. Pra tudo não se acabar na quarta-feira: a linguagem do samba-enredo. Rio de Janeiro, Litteris, 2002. GUIMARÃES, Eduardo. Os limites do sentido. Campinas, Pontes, 1995 KOCH, Ingedore Villaça. Argumentação e Linguagem. São Paulo, Cortez, 1984. __________. A inter-ação pela linguagem. São Paulo, Contexto, 2004. OLIVEIRA, Esther G. Aspectos diferenciais dos operadores argumentativos e dos marcadores discursivos. In: MACEDO, Joselice et al. Discursos em Anãlise, Salvador, Universidade Católica do Salvador, Instituto de Letras, 2003. Site www.mangueira.com.br acesso em 27.12.2005