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CORREIO BRAZILIENSE SUPLEMENTO ESPECIAL

Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012

Terra da alegria

O CEARÁ VIVE UM MOMENTO ÚNICO NO SETOR DE TURISMO, COM FORTE INVESTIMENTO EM INFRAESTRUTURA E EM ÁREAS DE LAZER E EVENTOS. ESTE SUPLEMENTO ESPECIAL MOSTRA POR QUE O ESTADO ENCANTA TANTO OS BRASILEIROS

Fotos: Jarbas Oliveira/Esp. CB/D.A. Press, Igor de Melo/Esp.CB/D.A Press, Ananda Rope/CB/D.A Press, Patrícia Banuth/CB/D.A Press, Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil


2 • Suplemento especial • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • CORREIO BRAZILIENSE

SEGMENTO REPRESENTA 10,8% DO PIB CEARENSE. GOVERNO LOCAL INVESTE R$ 2,3 BILHÕES EM INFRAESTRUTURA PARA RECEBER OS MILHÕES DE VISITANTES QUE CRESCEM A CADA ANO

Patrícia Banuth/CB/D.A Press -26/11/2010 -

Prioridade para o turismo O

turismo no Ceará vive o seu momento histórico mais importante. Vocação econômica do estado, a atividade, que responde por 10,8% do Produto Interno Bruto (PIB) cearense, ganhou nos últimos anos status de prioridade, ao lado de políticas públicas fundamentais, como saúde e educação. Ainda bafejado pelos bons ventos da economia nacional, que nos últimos anos permitiram o aumento do poder aquisitivo das classes C e D e fizeram com que milhões de brasileiros passassem a consumir viagens de lazer, o estado viu crescer a participação do setor na geração de suas riquezas a uma taxa média anual de 2,8%, entre 2006 e 2011. De acordo com o secretário de Turismo do Ceará, Bismarck Maia, já na primeira campanha, em 2006, o governador Cid Gomes (PSB)ressaltou que o turismo seria prioritário na agenda do Executivo. “Ao tomar posse, ele reafirmou isso em seu discurso, assim como o fazem diversos candidatos e gestores que acabam deixando o turismo em segunda, e até terceira prioridade. Só que, de fato, o governo desenhou uma estratégia para poder tornar isso uma realidade”, ressalta Maia. O secretário lembra que o primeiro passo oficial foi habilitar política e institucionalmente a Secretaria de Turismo (Setur), para fazer do segmento uma prioridade. “Ele deu suporte institucional de secretaria de primeiro escalão. Além da valorização institucional, reforçou o orçamento”, afirma. De acordo com Bismarck Maia, a Setur passou a ter condições de atuar na busca de recursos externos, com garantia das contrapartidas e parcerias necessárias por parte do estado, “independentemente de valores percentuais”. Além disso, a orientação foi a de traçar um plano para implantar macroestruturas fundamentais e poder dar ao Ceará sustentabilidade no crescimento turístico e, assim, proporcionar um diferencial ao perfil do setor em relação aos outros destinos brasileiros. A mudança de postura deu resultados.“Nenhum outro estado — e eu conheço todos — investe na infraestrutura turística como o Ceará. Só para se ter ideia, temos hoje em curso, entre obras inauguradas, em execução e prestes a ser entregues, R$ 1,83 bilhão sendo investido”, aponta Maia. A esse montante,

somados ainda saldos de contratos já garantidos no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e no Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), o Ceará chega a quase R$ 2,3 bilhões aplicados em infraestrutura turística, valor custeado e gerenciado diretamente pela Setur. Nos últimos cinco anos e meio, por exemplo, o governo local direcionou seus investimentos turísticos para a ampliação e recuperação de estradas de acesso aos destinos. Símbolo disso foi a duplicação de 44,5km da CE-040, entre os municípios de Aquiraz e Beberibe, no litoral leste, região onde se localizam as praias de Cascavel, Fortim, Aracati e Icapuí. A obra custou R$ 93 milhões e o estado já corre para duplicar mais um trecho da rodovia, de Beberibe até Aracati. O valor previsto para a licitação é de R$ 110 milhões, com recursos do BID. Ao mesmo tempo, já foi assinada a ordem de serviço para as obras do trecho 2 da duplicação da CE-085, que dá acesso ao litoral oeste. Orçado em R$ 21 milhões — dinheiro do CAF mais a contrapartida do estado —, o trecho terá 12,56km de extensão duplicados do entrocamento com a CE-085, em Caucaia, ao contorno do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP). Segundo Maia, a duplicação vai começar pelo segundo trecho devido à “urgência em fazer o contorno do complexo, uma obra de extrema importância para o Ceará”. O trecho 1, já em fase de análise das propostas, vai da ponte do Rio Cauípe até o entrocamento com a variante do Pecém — como será chamado o contorno do porto —, e o último termina no entrocamento com a CE-341, na entrada de Paracuru, a 91km de distância da capital. A previsão é que até o início de 2014 a estrada esteja duplicada de Fortaleza a Paracuru. Além de aplicar recursos na duplicação dessas rodovias, o estado trabalha na recuperação de acessos a diversos outros municípios turísticos em várias regiões. Bismarck Maia destaca ainda que outro foco dos investimentos feitos nos últimos anos tem sido o plano de recuperação de pequenos aeroportos e implantação de dois grandes aeroportos, um no polo de Canoa Quebrada, em Aracati, e outro no polo de Jericoacoara, no município de Cruz, a 245km da Capital, no litoral oeste. No primeiro, prestes a ser inaugurado, foram aplicados

O estado reforçou a política de turismo para atrair investimentos e melhorar a infraestrutura do setor

R$ 22 milhões. O segundo teve investimento de R$ 44 milhões na primeira etapa, e a segunda, já em execução, custará R$ 9,2 milhões. Projetado para ser um dos principais vetores do turismo no Ceará, o Aeroporto de Jericoacoara, com capacidade de 1,2 mil voos/ano, deve incrementar o fluxo turístico do Litoral Oeste. Além disso, encurtará o tempo de viagem entre Fortaleza e as belas praias da região, passando das atuais cinco para apenas uma hora. Ainda na área de infraestrutura, o governo está aplicando dinheiro na construção de sistemas de água e esgoto nas comunidades de diversas praias do estado. “O objetivo é dar sustentabilidade e garantir que essas praias sejam balneáveis para o resto da vida”, explica Bismarck Maia. Cerca de 30 comunidades terão obras como pavimentação de ruas, calçadas e outras melhorias no mobiliário urbano. Com o objetivo de proporcionar um diferencial, o Ceará aposta no Centro de Eventos e no Acquario Ceará, ambos em Fortaleza, para ancorar a atração de turistas durante o ano inteiro. Juntas, as duas obras deverão consumir recursos da ordem de R$ 800 milhões e contribuirão para consolidar o estado no mapa turístico nacional. Outros Centros de Convenções estão sendo construídos no centro sul e no Cariri como forma de potencializar o turismo de eventos no interior. Paralelamente ao trabalho de infraestrutura, o estado contratou, através de licitação internacional, empresas para atuar na elaboração de um estudo de mercado. “Partindo dessa nova realidade, o documento vai poder dizer que produto nós somos e quais são os nichos de mercado potenciais que desejamos e o que o Ceará tem”, detalha o titular do Turismo. Em seguida, deu-se início à confecção de um planejamento de marketing, que deve ficar pronto até setembro. “Esse plano vai deixar o Ceará blindado para os próximos 15 anos, 20 anos em relação ao que os setores público e privado devem fazer diante dessa nova realidade de infraestrutura. Dessa forma, o Ceará será posicionado no mercado internacional de forma científica, e não por meio do famoso ‘chutômetro’”, avalia Maia, ao acrescentar que o estado também desenvolve um amplo programa de qualificação profissional e empresarial na área do turismo.

SOMENTE EM DUPLICAÇÃO DE RODOVIAS ESTÃO SENDO INVESTIDOS R$ 224 MILHÕES


CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • Suplemento especial • 3

NÚMERO DE TURISTAS QUE CHEGAM AO ESTADO VIA FORTALEZA CRESCEU 38% EM SEIS ANOS, PASSANDO PARA 2,8 MILHÕES. IMPACTO NA ECONOMIA LOCAL VAI A 10,8% DO PIB

Um setor cada vez mais forte

O

s investimentos em infraestrutura turística e a construção de grandes equipamentos deverão impactar significativamente no turismo cearense já a partir de 2012, com a inauguração, por exemplo, do Centro de Eventos (CEC). Entretanto, nos últimos anos, o estado vem apresentando números significativos que indicam o crescimento do setor. Entre 2006 e 2011, o impacto do turismo sobre o Produto Interno Bruto (PIB) do estado passou de 9,4% para 10,8%, aumento de 14,8% no período. Em seis anos, o fluxo de viajantes via Fortaleza subiu 38%, de 2 milhões para 2,84 milhões de turistas, enquanto a receita turística direta, obtida a partir do produto entre gasto per capita e demanda turística aumentou 80%, variando de R$ 2,4 bilões em 2006 para R$ 4,5 bilhões em 2011. Ao se analisar a estrutura e distribuição dos gastos turísticos entre 2006 e 2011, verifica-se que 28% das despesas dos turistas que vão ao Ceará correspondem a compras. A receita gerada com elas saltou de R$ 686 milhões para R$ 1,3 bilhão em seis anos. Alimentação está em segundo lugar, com 21,5%, seguida de hospedagem (19,2%), diversão/passeio (16,5%) e transporte (10,2%), enquanto outros gastos correspondem a 4,5%. Segundo a pesquisa Demanda Turística via Fortaleza nos meses de julho a novembro de 2011, realizada pela Secretaria de Turismo do estado (Setur), os principais produtos adquiridos pelos turistas são artesanatos/suvenires (45,9%), confecções/roupas (42,9%), castanhas (26,5%), calçados (18,6%), bebidas (16,8%) bijuterias (16,7%), bolsas (15,9%), doces (13,6%) e redes (11,5%). A pesquisa mostrou ainda que o Mercado Central, com 67,9%, e a Feirinha da Avenida Beira-Mar, ambos em Fortaleza, são os locais preferidos para compras. Dados de 2010 indicam que o passeio é a principal motivação de quem visita o Ceará, com 47,4% do total (1,2 milhão de pessoas). Embora tenha a segunda maior média de permanência (10,9 dias), esse tipo de turista representa apenas o terceiro maior gasto per capta, com R$ 1.498,22, despendendo em média R$ 137,45 por dia. Em segundo lugar no quesito motivação, estão as pessoas que vão a negócios ou a trabalho (570 mil em 2010, 21,2% do total), perfil que apresenta maior gasto individual (R$ 1.825,56). Visita a parente/amigo vem logo em seguida, em terceiro, com 19,3% (519 mil) do número de turistas, e o menor valor em despesa por pessoa (R$ 84,85

por dia). Na quarta colocação em volume (somente 6,5% e 218 mil visitantes em 2010), o turista de congressos e eventos é o segundo público com maior gasto per capita no estado (R$ 1.712,04). Ele permanece em média 6,5 dias em solo cearense, onde despende em torno de R$ 263,39 por dia. Tal perfil tende a ter seu percentual ampliado a partir da inauguração do Centro de Eventos, este mês. No que diz respeito à movimentação turística dentro do estado, a partir da capital, os destinos litorâneos justificam a vocação do Ceará para o turismo de sol e praia. As praias do litoral são os lugares preferidos por 80,4% dos turistas, ficando 13,9% para o sertão e apenas 5,7% para as serras. O mercado interno nacional é o principal emissor de turistas para a terra de José de Alencar. Dos 2.848.459 turistas que aportaram em 2011, apenas 8% (220.098) foram de outros países. A Região Sudeste, com mais de 1 milhão, foi a que mais enviou visitantes ao Ceará, seguida dos outros estados do próprio Nordeste, com cerca de 940 mil pessoas. Norte (262 mil), Centro-Oeste (258 mil) e Sul (124 mil) completam a lista. Itália, com 58 mil, e Portugal, com 44 mil, foram os principais mercados emissores internacionais. Apesar de não representar o fluxo turístico direto, mais um dado reflete o bom desempenho do setor no estado: o crescimento de 12,4% no número de desembarques no Aeroporto Internacional Pinto Martins em 2011, em relação ao ano anterior. Segundo levantamento da Infraero, o crescimento superou o da Região Nordeste. O Ceará está à frente de Rio Grande do Norte (6%), Bahia (7,6%) e Pernambuco (8%). Os estados com maior evolução no quadro geral — Maranhão, Paraíba, Sergipe e Piauí — ou não têm ou apresentaram decréscimo no número de desembarques internacionais. Em 2010, foram 2.658.315 desembarques entre domésticos e internacionais, contra 2.989.218 no ano passado, 330.903 mil pessoas a mais chegando ao Pinto Martins. A movimentação maior foi de voos domésticos, com 2.874.232 desembarques, ante 2.546.269 de 2010, uma variação positiva de 2,6%. No que diz respeito ao fluxo internacional, o estado permaneceu com o segundo maior número absoluto de desembarques internacionais na região. Foram 114.986 operações — crescimento de 2,6% —, atrás apenas da Bahia, com 178.703 (crescimento de 1,7%) e à frente de Pernambuco, com 113.949 (elevação de 15,7%). Este é o melhor resultado desde 2008.

Secretaria de Turismo e Romaria de Juazeiro do Norte (CE)/Divulgação

Juazeiro do Norte, terra de Padre Cícero, recebe anualmente cerca de 2,5 milhões de visitantes. Cidade homenageou o religioso com uma estátua de 25 metros

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 04/01/2010

Cerca de 258 mil turistas que visitaram o Ceará no ano passado saíram do Centro-Oeste

A fé que mobiliza milhões A busca por destinos religiosos estimula a economia de mais de 300 cidades brasileiras. No Ceará, o turismo religioso tem em Juazeiro do Norte e Canindé os maiores polos de peregrinação de fiéis. Segundo o secretário de Turismo e Romarias da prefeitura de Juazeiro, José Carlos dos Santos, a cidade, conhecida em todo o Brasil e até mundialmente por ser a terra do Padre Cícero, recebe aproximadamente 2,5 milhões de romeiros, turistas e visitantes por ano. “É reconhecida como o segundo centro de peregrinação do Brasil, ficando atrás apenas de Aparecida”, afirma. As romarias são as fontes da identidade do município, que tem na fígura do padre Cícero Romão Batista a maior referência no que diz respeito ao processo de desenvolvimento cultural, social, econômico e religioso do lugar. Tido pelos romeiros como santo popular do Nordeste, o Padim Ciço —– representado por uma estátua de 25 metros de altura — é alvo de diversas manifestações de devoção e simbologia de fé e esperança do povo sertanejo. Entre as romarias, destacam-se a da Mãe das Dores, a de Finados, a do Ciclo Natalino, a de São Sebastião e a das Candeias. Localizado a 600km de Fortaleza, Juazeiro do Norte, que completou no ano passado 100 anos de emancipação política, tem no comércio e no turismo os responsáveis por 69,6% do seu PIB. Terceiro polo calçadista do Brasil, o município experimenta forte desenvolvimento do setor imobiliário, além de contar com um polo universitário formado por 11 instituições de ensino superior e 70 cursos de graduação. A cidade dispõe ainda de 25 hotéis de grande porte, com 1.749 leitos e 697

apartamentos, 319 ranchos e pousadas de romeiros e 11 pousadas de médio porte com 620 leitos em 308 apartamentos. São aproximadamente 165 restaurantes e bares. O aeroporto regional do Cariri registra movimentação superior a 300 mil embarques/desembarques por ano. O orçamento anual da prefeitura é de R$ 320 milhões, mas o secretário de Turismo e Romarias diz que é impossível calcular o quanto a cidade fatura com o turismo religioso. “Nós não temos esse cálculo porque 90% da economia movimentada pelos peregrinos é informal, mas posso dizer com certeza que são as romarias que impulsionam o nosso desenvolvimento”, explica José Carlos. Assim como Juazeiro, o município de Canindé, a 120km da capital, também vive do fervor dos fiéis. A devoção a São Francisco das Chagas é o motivo para a peregrinação de 2 milhões de pessoas por ano, principalmente nos fins de setembro e início de outubro. A Basílica de São Francisco, construída no início do século 20, é parada obrigatória para os peregrinos, que chegam à cidade de carro, ônibus e até a pé. Em homenagem ao santo padroeiro da cidade, foi erguida uma estátua de 30 metros. O Caminho de Assis, percurso que se inicia em Maranguape, na região metropolitana de Fortaleza, e termina na Basílica de Canindé, recebeu investimentos de mais de R$1,5 milhão do governo do estado. Todas as cinco estações agora contam com espaços dedicados às orações e ao recolhimento espiritual, dormitório coletivo, banheiros, refeitório, oratório e obelisco, todos aptos a tornar o percurso mais confortável e seguro para os romeiros.

CANINDÉ RECEBE 2 MILHÕES DE ROMEIROS POR ANO. MUITOS CHEGAM A PÉ


4 • Suplemento especial • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • CORREIO BRAZILIENSE

OFERTA DE LEITOS AUMENTOU 14,6% NOS ÚLTIMOS SEIS ANOS. TAXA DE OCUPAÇÃO FORA DOS MESES TRADICIONAIS DE FÉRIAS TAMBÉM REGISTROU CRESCIMENTO NO PERÍODO

C

om o objetivo de estruturar as bases do desenvolvimento do setor turístico no Ceará, incluindo a rede hoteleira, a Secretaria de Turismo (Setur) conclui até setembro um plano de marketing que deve servir como parâmetro para os próximos 20 anos. Juntamente à execução e à finalização das obras dos equipamentos indutores (duplicação e recuperação de rodovias, aeroportos de Jericoacoara e Aracati, Centro de Eventos e Acquario), o estado aposta nesse estudo de mercado. “É uma base consolidada de diagnóstico que serve de suporte à confecção do plano de marketing. Com ele, independentemente do gestor que o turismo tiver daqui para a frente, não será preciso inventar a roda. Basta pegar o plano de marketing, feito sobre essa nova realidade”, explica o titular da Setur, Bismarck Maia. Segundo o executivo, será possível saber quem, de fato, são os consumidores do turismo cearense a partir desses novos produtos, orientando qual caminho possibilitará o melhor retorno. É essa estratégia que irá reposicionar o estado nos mercados nacional e internacional. “Ainda não somos destino internacional. Nós recebemos turistas internacionais”, compara Maia. Os dados já levantados pela consultoria do plano, conforme a Setur, mostram que o Brasil e a América do Sul são as regiões que devem apresentar o maior crescimento percentual dos seus fluxos turísticos até o ano 2030. Em 2011, a média de crescimento do setor turístico no continente foi de 5,3%, abaixo da média de regiões consolidadas, como Europa (6%) e Ásia (5,6%), o que revela potencial não aproveitado. A Organização Mundial doTurismo (OMT) prevê que, em 2030, o número de viajantes no mundo será de 1,8 bilhão de pessoas, superior aos atuais 980 milhões. Outros índices se mostram promissores: a participação da atividade no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil é de 7% a 8%, o que torna o turismo o importante gerador de riquezas. Na América Latina ,a média é de 6,5% e a mundial, de apenas 2,8%. No Ceará, os quase 3 milhões de turistas de 2011 geraram receita direta de R$ 4,5 bilhões. Um dos elos mais importantes da cadeia produtiva do turismo, o setor hoteleiro cearense tem experimentado nos últimos anos um crescimento significativo, que deve ser acelerado com a Copa do Mundo. Entre 2006 e 2011, a demanda hoteleira de Fortaleza saltou 44%, de 1,082 milhão para 1,560 milhão de pessoas. No período, a oferta de unidades habitacionais (apartamentos/suítes) no Ceará cresceu 14,6%, de 24.294 para 27.836, o que dá um total aproxima-

Temporada sempre alta do de 70 mil leitos, segundo dados da Setur. Já o número de empregos gerados pelos setores de hotelaria e alimentação passou de 117.997 para 129.990 vagas, alta de 10,2%. A taxa de ocupação hoteleira de Fortaleza, por outro lado, mostra o aquecimento do turismo no estado. “O Ceará praticamente deixou de ter o que se convencionou chamar de baixa estação. Estamos crescendo mês a mês em relação ao ano anterior. Vivíamos tão somente dos meses de julho e de janeiro, com as férias de verão, e um pouco melhor no segundo semestre. Agora, temos alta e altíssima estações”, comemora Bismarck Maia. Na comparação, as curvas da taxa de ocupação hoteleira em todos os meses dos anos de 2006 e 2011 não se tocam. Em janeiro do ano passado, a taxa foi de 84,5%, caiu para 54,2% em maio (menor taxa do primeiro semestre), e subiu para 81,2% em julho. De agosto a dezembro, oscilou entre 66,1% e 68,8%, com pico de 71% em outubro. Em 2006, os números foram de 81,2% em janeiro, 46,2% em maio e 63,2% em julho, ficando entre 54% e 56,2% entre agosto e dezembro. O aquecimento do mercado hoteleiro por conta da Copa do Mundo já começa a ser sentido. Um total de 70% dos leitos de 55 dos 63 hotéis filiados à Associação Brasileira da Indústria de Ho-

téis no Ceará (Abih-CE) foi bloqueado pela Match Hospitality para o período da Copa do Mundo de 2014. A empresa recebeu da Federação Internacional de Futebol (Fifa) a delegação para a venda de ingressos e pacotes oficiais relativos aos jogos. Segundo o novo presidente da Abih-CE, Darlan Teixeira Leite, os hotéis poderão comercializar apenas os 30% restantes como desejarem. Além disso, acrescenta que operadoras de turismo do Brasil e do exterior também estão fazendo seus bloqueios à hotelaria local, negociando com cada hotel em separado. Darlan revela que o preço médio da diária desembolsado pela Fifa é de US$ 250 dólares por apartamento. A entidade máxima do futebol considera satisfatório o número de leitos disponíveis em Fortaleza como subsede da Copa. A capital conta com 26,3 mil leitos, dos quais 16,5 mil pertencem aos associados à Abih-CE. Levantamento do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) elaborado pela empresa de consultoria Hotel Invest e divulgado este mês aponta que, mesmo depois da Copa, a ocupação hoteleira de Fortaleza deve continuar alta. Em Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Manaus e Salvador é alto o risco de não haver turistas suficientes depois do evento, segundo o estudo. Igor de Melo/Esp. CB/D.A. Press

O litoral cearense conta com dezenas de opções de hotéis de luxo, administrados por grupos nacionais e estrangeiros

Resorts à beira-mar De acordo com o vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Ceará (Abih-CE), Régis Medeiros, cinco projetos de hotéis estão em estudo para construção nas praias do Futuro, do Meireles, de Iracema e no entorno do Centro de Eventos. Ele diz não saber se ficarão prontos até a Copa do Mundo, e defende a qualificação dos serviços prestados como foco principal. Além das pousadas e de pequenos hotéis, o litoral cearense se destaca com dezenas de opções de resorts e hotéis de luxo, e tem sido alvo de investimentos de grandes grupos hoteleiros. Caso dos portugueses do Vila Galé. O grupo, que já dispõe de um hotel na Praia do Futuro, em Fortaleza, investiu R$ 100 milhões na construção do Vila Galé Cumbuco, um resort de alto nível no município de Caucaia, perto de Fortaleza. Com 255 funcionários, 80% dos quais oriundos do próprio município, o resort, que funciona no sistema all inclusive (alimentação e bebidas inclusas no pacote de hospedagem), conta com 465 unidades habitacionais entre apartamentos e chalés, e tem capacidade para receber 1.200 hóspedes ao mesmo tempo. Quatro restaurantes funcionam dentro do resort, que disponibiliza um clube para crianças, centro de convenções com capacidade para 700 pessoas, complexo aquático com três piscinas descobertas, academia de ginástica e SPA médico com 3.500 metros quadrados. O Vila Galé Cumbuco abriu em outubro de 2010. Em 2011, a taxa de ocupação foi acima da prevista, e o empreendimento atingiu uma média de 31%. De acordo com o gerente Carlos Maia, a meta para 2012 é de 42% de ocupação e de 65% daqui a dois anos. E quem pensa

que o resort é direcionado apenas para o público classe A, engana-se. Em períodos de baixa estação, a diária para um casal com criança no apartamento standard custa R$ 560, preço que sobe para R$ 800 na alta. “Temos hóspedes em variados segmentos. Hoje em dia, as operadoras facilitam em termos de pagamento e conseguem montar pacotes atrativos o suficiente para outro tipo de público que normalmente não viria para um empreendimento desses”, afirma o gerente. O Vila Galé Cumbuco deverá hospedar uma ou mais seleções durante a Copa do Mundo, e os planos de ampliação do grupo Vila Galé são o de transformar a região em um complexo turístico.

Outra iniciativa de grande vulto está localizada na praia de Marambaia, em Aquiraz, a 35km de Fortaleza. O Aquiraz Riviera é o maior empreendimento turístico de padrão internacional do Brasil, com valor total estimado em US$ 350 milhões. A área de 285he está dividida em setor residencial, hoteleira e de proteção ambiental, com 58 hectares de fauna e flora locais, além de 1.800 metros de frente para o mar. As 102 unidades de alojamento do Hotel Dom Pedro Laguna estão divididas em 64 apartamentos, com varanda ou terraço; 22 Water Villas (com um quarto); oito Presidential Water Villas (com dois quartos) e outras oito RoyalVillas, com piscina privada em frente à praia.

FIFA CONSIDERA SATISFATÓRIO NÚMERO DE LEITOS EM HOTÉIS PARA A COPA


CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • Suplemento especial • 5

AQUÁRIO COM 21,5 MIL M² VAI IMPULSIONAR AINDA MAIS O TURISMO CEARENSE. CENTRO DE EVENTOS, COM CAPACIDADE PARA 30 MIL PESSOAS, SERÁ INAUGURADO NO DIA 30

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aralelamente às ações de infraestrutura turística em andamento em diversos pontos do estado, o Ceará aposta em duas grandes obras que irão diferenciá-lo em relação a outros destinos, tanto no Nordeste quanto no Brasil: o Acquario Ceará e o Centro de Eventos (CEC). As atrações somam investimentos da ordem de R$ 800 milhões e prometem colocar a capital cearense e o estado no roteiro turístico nacional e até internacional de forma consolidada. Um dos maiores projetos estruturantes em curso no estado, o Acquario Ceará está sendo erguido pela Secretaria de Turismo do estado (Setur) na Praia de Iracema, em Fortaleza, com investimentos de aproximadamente R$ 250 milhões e previsão de conclusão em 2014. Para financiar a obra, o governo buscou recursos no Eximbank, instituição financeira norte-americana de fomento. O prazo de pagamento do empréstimo é de 10 a 15 anos, a partir do funcionamento do Acquario, com juros subsidiados pelo governo dos Estados Unidos. Com 21,5 mil metros quadrados distribuídos por quatro pavimentos, o equipamento terá 15 milhões de litros de água, o terceiro maior em volume de água de exposição do mundo. São 38 tanques-recinto, entre eles 25 aquários, sendo um master, um de tubarões, um de pinguins e outros aquários menores. A obra contará ainda com dois cinemas 4D, simuladores de submarino, equipamentos que proporcionam interação entre público e aquário e túneis submersos que permitirão aos visitantes observar os tanques, onde estarão 500 espécies de animais diferentes e um total aproximado de 35 mil organismos vivos. A Secretaria de Turismo (Setur) prevê que o Acquario Ceará receba anualmente 1,2 milhão de pessoas. A receita direta gerada deve ser de pelo menos R$ 22 milhões. Para a economia local, o impacto no mercado de trabalho será de 150 empregos diretos, 1,6 mil indiretos e 18 mil empregos na cadeia produtiva. A outra grande obra que alavancará o turismo cearense, o Centro de Eventos do Ceará, terá um impacto de 1% no Produto Interno Bruto (PIB) local, segundo estimativa da Setur. Percentual considerável diante da força que o turismo representa no total do PIB estadual, que é de 10,8%. “O Centro de Eventos é até maior do que o prometido pelo governador Cid Gomes em campanha. Ele vai inserir o Ceará no circuito mais forte do turismo, que é o segmento de feiras, congressos e exposições”, promete o secretário de Turismo do estado, Bismarck Maia. Localizado ao lado do atual Centro de Convenções, cuja área total é de 15 mil metros quadrados, o CEC já está pronto e é o segundo maior espaço para realização de eventos do Brasil e o primeiro do Nordeste. Seu primeiro teste acontece no próximo sábado, quando o local recebe o Arte Music Festival, com shows da norte-americana Jennifer Lopez e da baiana Ivete Sangalo. O centro poderá abrigar até 30 mil pessoas em um único evento. A construção, iniciada em agosto de 2009, teve orçamento de R$ 467 milhões e possui projeto arquitetônico inspirado em aspectos típicos da paisagem e do artesanato cearenses. Ao todo, são 152,694 mil m² de área construída em terreno de 17he; 21 mil m² de jardins, e 3,2 mil vagas de estacionamento. Além disso, serão instalados vestiários, refeitórios, ambulatórios, banheiro e fraldário, salas para produção de eventos, administração, segurança, brigada de incêndio, juizado de menores, Vigilância Sanitária e ouvidoria. Em tamanho, o CEC ficará atrás apenas do Riocentro, no Rio de Janeiro, cuja área total é de 571 mil m², com estacionamento para 7 mil veículos. Em funcionamento, o centro deverá oferecer 400 empregos diretos e 2 mil indiretos, capacidade que poderá aumentar de acordo com o porte do evento. O projeto priorizou aspectos relacionados à sustentabilidade, no que diz respeito a refrigeração, iluminação, sanitários e acessibilidade. Para se ter ideia, o sistema de climatização presente em todos os setores possui central de água gelada e tanque de termoacumulação. A tecnologia reduz de forma considerável o consumo de energia e prolonga a vida útil do sistema, enquanto os sanitários possuem sistemas de escoamento de dejetos a vácuo, ocasionando redução do consumo de água. Tendo em vista o impacto que o CEC irá causar em seu entorno, o governo do estado promoveu uma série de intervenções nos acessos ao equipamento. As obras objetivaram a melhoria do tráfego na região por meio da construção de quatro trincheiras (túneis) subterrâneas de 9,5 metros de largura. Estes túneis vão eliminar dois semáforos e agilizar a entrada e a saída para o local e equipamentos vizinhos. Com valor de R$ 94 milhões, os túneis deverão ser liberados também no próximo fim de semana.

Setur-CE/Divulgação

Viagem ao fundo do mar Acquario (acima e ao lado) terá 38 tanques espalhados pelos seus quatro pavimentos. A obra deverá ficar pronta em 2014. Centro de Eventos (abaixo) abrirá com show de Jennifer Lopez

Igor de Melo /Esp. CB/D.A. Press

Para navios de grande porte O secretário especial de Portos, Leônidas Cristino, assinou em marçoaordemdeserviçoparaoiníciodasobrasdoterminalmarítimo de passageiros do Porto do Mucuripe, em Fortaleza. Orçado em R$ 150 milhões, o empreendimento deve estar concluído no fim de 2013. Durante a Copa do Mundo, o terminal pode funcionar como um complemento à rede hoteleira de Fortaleza. O novo terminal vai fomentar o desenvolvimento da vocação turística da capital cearense. Com ele, navios de grande porte passarão a atracar no porto de Fortaleza, o que trará ainda mais turistas à cidade, com impacto na movimentação da economia local. Na condição de equipamento turístico, o terminal estará aberto ao público local para visitação. Além da importância para o turismo, deverá proporcionar a concretização de novos negócios. Os investimentos incluem os custos das obras civis, do fornecimento de equipamentos como sistemas de ar-condicionado, escadas rolantes e elevadores. A nova estação de passageiros disporá de infraestrutura semelhante à dos terminais

de aeroportos, com restaurante, Correios, Polícia Federal, Anvisa, Receita Federal, lojas de conveniências e suvenires. O cais de atracação terá 350 metros de extensão e 13 metros de profundidade, preferencial para navios de passageiros. O equipamento atende ao que foi definido no Plano de Desenvolvimento e Zoneamento do Porto de Fortaleza (PDZ) para os próximos 30 anos. A obra contempla, além da nova estação e do novo cais, uma retroárea de 40 mil m² para armazenagem de carga seca, no caso, contêineres — o que garante sua viabilidade econômica, tendo em vista que o cais poderá ser utilizado o ano inteiro para atender a crescente demanda de navios de carga neste porto. Em uma estimativa otimista, o novo terminal marítimo de passageiros deverá receber, a partir de 2014, 39 navios de cruzeiros com um total de cerca de 25 mil passageiros, número que deve saltar para 34 mil com as 52 embarcações previstas para 2020, de acordo com o Plano de Desenvolvimento e Zoneamento do Porto de Fortaleza.

Igor de Melo /Esp. CB/D.A. Press

No Porto do Mucuripe vão poder atracar grandes navios de cruzeiros

ACQUARIO DEVE RECEBER 1,2 MILHÃO DE PESSOAS POR ANO


6 • Suplemento especial • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • CORREIO BRAZILIENSE

A CULINÁRIA É UMA DAS ATRAÇÕES CEARENSES QUE MAIS ENCANTAM OS TURISTAS DE TODO O PAÍS. DO BAIÃO DE DOIS AOS FRUTOS DO MAR, O CARDÁPIO LOCAL GARANTE RESTAURANTES SEMPRE CHEIOS

Fotos: Igor de Melo/Esp. CB/D.A. Press

Zuleika, da Vignoli: pizza para comer com as mãos, ultilizando luvinhas. Sucesso que está sendo exportado

O

Ceará, ao longo do tempo, vem incrementando seu perfil culinário — e, em especial, os seus negócios de gastronomia. A galinha-caipira, a carne bovina e caprina com seus derivados, o cuscuz, a mandioca e o milho com suas possibilidades, tudo faz parte do cardápio associado ao Nordeste. Com outros diversificados ingredientes, são orgulho da região e fazem sucesso entre os próprios nordestinos e os visitantes. O Ceará segue essa linha, mas vai além. Na capital, Fortaleza, e nas cidades praianas, a proximidade com o mar e a ascendência do turismo internacional possibilitaram a chegada de novos conceitos de gastronomia, mantendo a base da culinária mais tradicional. O presidente Associação Brasileira de Bares e Restaurantes do Ceará (Abrasel-CE), Ivan Assunção, lembra que o extenso litoral influencia muito na culinária voltada, principalmente, para os frutos do mar. Contundo, ele ressalta a grande importância da tradição do interior. “Varia de acordo com o perfil do próprio restaurante e do público. Geralmente, a comida regional (baião de dois, frutos do mar, carne do sol) faz muito sucesso com os turistas. Atualmente, a culinária nos polos gastronômicos de Fortaleza é muito mais vasta (comida contemporânea, italiana, oriental), com muitas opções para os clientes brasileiros e estrangeiros”, explica. “A cozinha cearense, especificamente, é muito bem vista no mercado nacional. O turista chega, experimenta e sai muito encantado. Para nós que somos do setor, sabemos as diferenças. Tem os melhores e outros nem tanto. Apesar de ser muito boa, a gastronomia no Nordeste como um todo, quando se fala em negócios, ainda requer muita profissionalização”, cobra Frederico Soares Fernandes, sócio do Restaurante Coco Bambu Sul. Estão filiados à Abrasel-CE cerca de 300 restaurantes. A média de crescimento do setor tem sido de 12% a 15% por ano. A meta da entidade é dobrar o número de associados, com o objetivo de fortalecer mais ainda os negócios e, paralelamente, intensificar a capacitação profissional e atualizar a profissionalização administrativa desses estabelecimentos. Aspiração antiga de empreendedores do Bairro Varjota, a transformação da região em um polo gastronômico foi efetivamente formalizada. O pleito era para a prefeitura desenvolver uma sistemática que incluísse controle do tráfego, estacionamentos e fiscalização das atividades, além da divulgação do polo. Por meio de um projeto aprovado pela Câmara de Vereadores em 2009 e sancionado pela prefeita Luizianne Lins, a lei fora aprovada. No entanto, apesar dos benefícios que a nova regra poderia trazer aos moradores, empresários e trabalhadores do local, ainda há dificuldade de implantação de alguns dos itens da proposta. A Abrasel nacional representa um setor com cerca de 1 milhão de empresas e que gera 6 milhões de empregos diretos em todo o país. Desde a sua criação, em 1986, vem tentando contribuir para o desenvolvimento do segmento de alimentação fora do lar, que representa 2,4% do PIB nacional. O hábito de comer fora de casa corresponde a 26% dos gastos dos brasileiros com alimentos. “A associação conquistou o apoio de parceiros de peso, como o Ministério do Turismo, o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), a Ambev e outras empresas que apoiam um conjunto de ações estratégicas que estão revelando todo o potencial da gastronomia, tanto para o setor de turismo como para a economia brasileira”, informa Assunção. Entre as ações citadas pelo empresário, estão o Programa Caminhos do Sabor e o Festival Bar em Bar.

Ao sabor dos bons negócios Frederico, do Coco Bambu: “A cozinha cearense é muito bem vista no mercado nacional”

Da pizza ao camarão Após inaugurar a hoje reconhecida pastelaria Dom Pastel, o engenheiro e empresário Afrânio Barreira resolveu formar sócios para abrir outros empreendimentos. Chegou ao conceito do Coco Bambu, que oferece um ambiente rústico, com culinária que varia do simples regional ao sofisticado. Já são oito lojas da marca em quatro estados e em Brasília. Em Fortaleza, um deles é o Coco Bambu Sul, que funciona há dois anos e já faz parte da paisagem do Bairro Parque Manibura, onde é referência para a população dos bairros próximos. “Aqui servimos pizzas, crepes, pastéis, tapiocas, frutos do mar, carnes e peixes. O cardápio possui 36 páginas. São 81 sabores de pizzas e 51 sabores de crepes”, relata Frederico Soares Fernandes, um dos sócios. Ele lembra que o forte da casa é o prato chamado Camarão Internacional, que custa R$ 77,60 e serve bem quatro pessoas. Outro empreendimento cearense que vem ganhando o Brasil é a Pizza Vignoli, que chegou ao cenário local em 2004. O estabelecimento fornece pizzas finas e crocantes que podem ser saboreadas com as mãos, utilizando-se luvinhas plásticas. O ambiente é de uma cantina italiana, com peças originais e muitas antiguidades. A PizzaVignoli passou a contar com três endereços em menos de três anos. No primeiro ano de funcionamento, de junho de 2004 a junho de 2005, houve incremente de 200% nas vendas. No segundo, a alta foi de 350%, impulsionada pela abertura de uma nova loja, que ampliou a capacidade de atendimento. O crescimento em 2007 foi de 400%, graças à instalação de outra loja. As cidades de Salvador (BA), São Luiz (MA) e Teresina (PI) já recebem a pizza cearense. A gerente-geral do empreendimento, Zuleika Poggialli, diz que já existe uma grande procura nacional e internacional pelo formato do negócio. “A gente quer se estruturar bem por aqui antes de crescer mais, para não fazer nada no escuro”, diz. Mas Zuleika garante que, em pouco tempo, aVignoli, que nasceu no Ceará, vai ganhar o mundo.

COMER FORA CORRESPONDE A 26% DOS GASTOS DOS BRASILEIROS COM ALIMENTAÇÃO


CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • Suplemento especial • 7

BOA PARTE DOS BRASILIENSES QUE VIAJAM AO NORDESTE A LAZER PREFEREM AS BELEZAS, AS BADALAÇÕES E A ESTRUTURA TURÍSTICA CEARENSES. PROCURA SE ESTENDE POR TODO O ANO

Destino preferido A

PLANEJE SUA VIAGEM

PACOTES ■ CVC

O Ministério do Turismo lança campanha para orientar turistas brasileiros em viagens domésticas. As dicas estão no rádio, na internet, em revistas e em mídias segmentadas divulgadas por todo o país pelo projeto Viaje Legal. Dúvidas, como o que considerar na hora da escolha do destino turístico, como optar pela empresa contratada e quais os canais para fazer reclamações, estão explicadas no guia. Faça o download do guia de bolso completo pelo site www.viajelegal.turismo.gov.br

www.cvc.com.br Tel.: 3044-4646 Fortaleza Duração: oito dias. Inclui: passagens aéreas, traslados, sete noites de hospedagem no Hotel Iracema Travel, café da manhã, city tour e passeio pela praia do Beach Park (Ingresso não incluído). Preço: a partir de R$ 1.248* por pessoa em apartamento duplo, para saída em 14/07. Fortaleza com Jericoacoara Duração: oito dias Inclui: passagens aéreas, traslados, cinco noites em Fortaleza no Ponta Mar Hotel e duas noites em Jericoacoara, na Pousada do Norte, café da manhã, city tour, passeio pela praia do Beach Park (Ingresso não incluído) e pela Lagoa do Paraíso, em Jericoacoara. Preço: a partir de R$ 2.248* por pessoa em apartamento duplo, para saída em 14/07.

Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press

servidora pública Larissa Marques, 41 anos, gosta muito de viajar. Por ano, conhece de três a quatro estados. Mas tem carinho especial por um: o Ceará. Para lá, foi cinco vezes. As últimas foram em 2011, em que passou 10 dias, e fevereiro deste ano, com 15 dias de descanso. E não é só Larissa. Os brasilienses são fãs do estado. A entusiasta das cidades cearenses foi de avião com o marido e a mãe, alugou um carro e, por conta própria, organizou toda a programação. Mas quem prefere recorrer aos pacotes, as agências de viagens oferecem ainda mais opções voltadas para eventos, como o Fortal (micarê de Fortaleza) e o tradicional revéillon do hotel Marina. E não apenas em datas especiais o lugar faz sucesso. “Vendemos pacotes durante todo o ano. Claro que em alta temporada as cidades lotam, mas tem gente que quer ir no verão e no inverno. Não tem tempo ruim”, comenta Marcelo Rhormens, diretor da operadora Interline. Além disso, a Interline também tem parceria com o parque aquático Beach Park. O diretor diz que o lugar que mais encanta os turistas é a capital cearense, mas locais mais afastados também são atraentes. É o caso de Jericoacoara e Canoa Quebrada (300km e 170km, respectivamente, distantes de Fortaleza). O segredo do turismo em

alta no estado, para Rhormens, não são as praias como imaginado, mas a boa estrutura turística com muitos hotéis, restaurantes, baladas. “É o que diferencia o Ceará dos outros estados”, analisa. E Larissa Marques concorda. O que mais gosta no estado é o clima, a comida, a recepção das pessoas e a temperatura da água. “Sou brasiliense, mas morei no Rio de Janeiro e sei bem que o mar lá é bem gelado. Posso comparar, e é por isso que gosto tanto do Nordeste”, conta. Ela ressalta que também vale a pena financeiramente. “O gasto médio para três pessoas em 15 dias ficou em R$ 3,1 mil, sem passagens de avião. Ficou mais em conta do que em outros lugares da região que eu visitei”. A servidora acredita que esse motivo contribui para a escolha dos brasilienses pelo destino, mas que não é o principal. A beleza do lugar, a facilidade de comércio por perto, restaurantes e lojinhas a beira mar são características peculiares da capital. E visitar parece ser não mais suficiente para Larissa. Na última ida ao Ceará, ano passado, ela voltou decidida a morar lá e começou a analisar o preço dos apartamentos em Fortaleza. Mas desistiu, “por enquanto”, lembra. “Quando eu me aposentar, quem sabe?” O plano é morar na capital e ter uma casa em Jericoacoara para passeios. “A cidade é mais rústica, de difícil acesso e tem menos pessoas. Uma delícia”, comenta.

Beach Park Fortaleza Duração: oito dias Inclui: transporte aéreo, traslados, sete noites de hospedagem no Beach Park Acqua Resort, meia pensão e city tour. Preço: a partir de R$ 4.448 por pessoa em apartamento duplo, para saída em 14/07.

■ INTERTRAVEL OPERADORA www.interlineturismo.com.br Tel.: 3962-4035

Fortal Data: 18 a 23 de julho Inclui: passagem aérea, hospedagem, café da manhã, traslados e city tour Preço: a partir de R$1.582*, por pessoa em quarto duplo

■ INTRAVEL

Larissa tem um carinho muito grande pelo Ceará. “Quem sabe no futuro me mudo para lá”

www.intravel.com.br Tel.: 2626.3241

Cumbuco Duração: oito dias Inclui: passagem aérea, sete noites de hospedagem, café da manhã, traslados, assistência personalizada com guias locais e bolsa de viagem. Preço: a partir de R$ 2.060* por pessoa em apartamento duplo

Arquivo pessoal

Fortaleza Duração: oito dias Inclui: passagem aérea, sete noites de hospedagem, café da manhã, traslados, city tour, passeio a Cumbuco ou Beach Park (sem ingresso), assistência personalizada com guias locais e bolsa de viagem. Preço: a partir de R$ 1.303* por pessoa em apartamento duplo

DEPOIMENTO Adriana Magalhães, servidora pública, responsável pelo blog atravessarfronteiras.blogspot.com.br. Confira a postagem sobre o Ceará: “O Ceará era meu destino de férias do verão em todos os anos. Mas o tempo passou, eu perdi o encanto por Fortaleza e as minhas visitas ao Ceará começaram a rarear. Este ano de 2012, eu, inexplicavelmente, desisti de ir para Salvador no carnaval. Preferi passar o feriado prolongado com o Bruno (meu marido) e os meninos numa praia, e a escolhida ficava o Ceará. Minha mãe já tinha dito que o calçadão da Praia de Iracema estava uma festa. Eles estão reformando, tem muita polícia, está bem bonito, e de noitinha começam a alugar patins para o pessoal se divertir.

As barracas da Praia do Futuro continuam com uma superestrutura, principalmente para crianças. No parque aquático da Itapariká, os meninos só saíram da piscina porque foram obrigados pelos pais a comer e tomar água de coco. Mas um grande problema da Praia do Futuro é a distância para o centro de Fortaleza: um táxi até a barraca Itapariká, por exemplo, custa R$ 25. Como gosto muito de ficar ‘pé na areia’, resolvemos permanecer alguns dias em uma praia pequena. Escolhemos a Prainha, a cerca de 30km de Fortaleza. É uma praia deliciosa, bem simples, de pescador, sem atrativos turísticos. Mas é DEZ e ainda tem uma lagoa gostosa que era onde os meninos gostavam de ficar. Com direito até a andar de jangada. O Ceará me reconquistou.”

Praia das Fontes Duração: oito dias Inclui: passagem aérea, sete noites de hospedagem, café da manhã, traslados, assistência personalizada com guias locais e bolsa de viagem. Preço:R$ 1.609*, por pessoa em apartamento duplo

Patrícia Banuth/CB/D.A Press

Vista parcial da costa de Fortaleza. Beleza da cidade atrai muitos brasilienses

Jericoacoara Duração: oito dias Inclui: passagem aérea, sete noites de hospedagem, café da manhã, traslados, assistência personalizada com guias locais e bolsa de viagem. Preço: a partir de R$ 1.956*, por pessoa em apartamento duplo Fortal 2012 / Fortaleza Duração: quatro dias. Período: 19 a 22 de julho Inclui: passagem aérea, hospedagem, café da manhã, traslados, city tour na praia de Cumbuco ou Beach Park (sem ingresso), assistência com guias locais Preço: a partir de R$ 868*, por pessoa em apartamento duplo

■ INOVAR

www.inovarturismo.com.br Tel.: 3022-4516

Fortaleza Duração: sete dias Inclui: hospedagem, café da manha, passagem aérea, translado e city tour Preço: R$ 1.450*, por pessoa, em julho Fortal Duração: sete dias Inclui: hospedagem, café da manha e passagem aérea Preço: R$ 1.100* por pessoa, sem os ingressos

■ VISUAL TURISMO

www.visualturismo.com.br Tel.: (11) 3235-2000 Fortaleza e Jericoacoara Duração: sete noites com saída em 26 de julho. Inclui: passagens aéreas, traslados, hospedagem no hotel Oasis Atlântico e na Pousada Blue Jeri e city tour. Preço: a partir de R$ 2.498*, por pessoa em apartamento duplo

Fortaleza Duração: quatro dias com saída em 28 de julho. Inclui: passagens aéreas, hospedagem no hotel Rah Villa Costeira, café da manhã, city tour e passeio pela Praia de Cumbuco. Preço: a partir de R$ 1.278*, por pessoa em apartamento duplo * Preços podem ser alterados pelas agências sem aviso prévio.

ITÁLIA E PORTUGAL SÃO OS PAÍSES QUE MAIS ENVIAM TURISTAS AO CEARÁ


8/9 • Suplemento especial • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • CORREIO BRAZILIENSE


10 • Suplemento especial • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • CORREIO BRAZILIENSE

APRESENTAÇÕES DE HUMORISTAS, ESPETÁCULOS TEATRAIS E FESTIVAL DE CINEMA MOSTRAM QUE A PRODUÇÃO ARTÍSTICA DO ESTADO TAMBÉM ATRAI QUEM CHEGA DE FORA

A

Caldeirão cultural

irreverência cearense não tem limite. Tanto que um dos seus personagens folclóricos é um bode, chamado Ioiô. O caprino percorria sempre o mesmo trajeto nas ruas do Centro da capital, Fortaleza, na década de 1920. Acompanhava escritores e boêmios, chegando a ser citado em livros de historiadores e poetas. Descansa, hoje, empalhado no Museu do Ceará. Mas o cúmulo da qualidade de ser irreverente — ou em bom cearês, fulêro —, aconteceu em 30 de janeiro de 1942. Em meio ao clima de guerra e futebol, um grupo de pessoas, em um uníssono grito, vaia o sol. Ora, vejam, o sol sendo vaiado é a prova de que Chico Anysio, Renato Aragão, Tom Cavalcante, Falcão e Rossicléa não foram tão pioneiros assim. Além dos humoristas conhecidos nacionalmente e dos que atuam no estado, o Ceará apresenta um dos principais festivais de cinema do país, o Cine Ceará, e oferece à população e aos visitantes um circuito bastante diversificado de festivais de teatro. O caldeirão cultural cearense mostra a diversidade de um povo que acende a luz do palco, abre as cortinas e prova que vai além da importante representação musical típica do Nordeste — o forró. Quem conhece bem a trajetória do humor nacional é Benedito José Barbosa, conhecido pelo personagem “Papudim” — um cronista bêbado formado em filosofia. Nascido na cidade de Sobral, queria ser ator. Chegou a trabalhar como office boy na Rede Globo, aos 16 anos. Mas a vontade naquele período era mesmo de trabalhar no programa do Chico Anysio.“Só tinha duas possibilidades. Ou eu me sindicalizava no Sindicato dos Artistas eTécnicos em Espetáculos de Diversões, o que era impossível para um cara com 19 anos, vindo do Ceará; ou me desvincularia da Globo para fazer figuração. Eu pedi demissão e dei de cara com um produtor que disse que eu teria que pagar 50% do meu cachê para uma agência. Eu disse ‘não, eu não quero só aparecer na televisão, eu quero fazer disso uma profissão.’” Após o insucesso no Rio, voltou à terra natal e começou a trabalhar na produção do palhaço — cearense — e atualmente deputado federal pelo estado de São Paulo, Tiririca. Apesar do êxito com Tiririca, ainda não estava satisfeito. Um convite para um festival de piadas em uma pizaria iria marcar sua carreira. “Escrevi um texto na segunda, na terça eu ensaiei pelo telefone com o Zé Modesto (outro humorista cearense), ele me deu uns toques e eu tirei primeiro lugar na eliminatória. Tirei segundo lugar geral do festival”, relembra Papudim, orgulhoso. Decidiu que iria enveredar para o rumo do humor de personagem, o grande trunfo da primeira geração de humoristas cearenses. “Eu nunca tive muita pressa. O fato de eu ter trabalhado com o Tiririca me deu uma coisa muito legal que foi você ter a compreensão do tempo.Você só pode estar pronto depois de um certo período. O Tiririca já tinha mais de 20 anos de carreira. Esse tempo de maturidade que a maioria de nós não tem paciência para esperar, acaba nos levando para um caminho que é muito ruim, que é o caminho do imediatismo”, argumenta. Sobre o humor no estado, ele analisa ser preciso uma revisitação dos que fazem a profissão.“Nós temos um produto maravilhoso. Aquilo que é mais difícil de conseguir em relação a um produto é uma coisa chamada reconhecimento. Precisa ter uma nova visão em criação de personagem, criação de texto. A gente precisa enxergar isso como produto e dar acabamento de produção, além de ter essa preocupação de não ser imediatista”, cobra o experiente e reconhecido artista.

Cara limpa Em 2008, uma famosa forma norte-americana de fazer comédia chega ao Ceará. O stand up, humor de cara limpa, sem personagem, sem fantasia, contando a comédia do dia a dia, passa a figurar como a promessa da profissão de fazer rir. Deu certo e os pioneiros no estado, Glayco Sales e Luis Carlos de Freitas – o LC Galetto (com dois “t” mesmo) passam a ficar conhecidos pelo estilo. “Começamos a fazer humor na faculdade de jornalismo, escrevendo para as rádios internas. Não andou porque tínhamos muito projeto. A gente também nunca se viu de personagem. Mas aí apareceu essa coisa do stand up. Em agosto de 2008, o espetáculo Comédia em Pé veio para Fortaleza. Eu mandei um e-mail com um texto. Eles acabaram respondendo dizendo que o texto estava legal e pediram para fazer. O mais interessante é que tem tido aceitação em um mercado consagrado pelo humor de personagens”, comenta LC Galetto. Glayco lembra que a produção de textos era muito grande e aquele acúmulo de produção o estava incomodando. “Fazemos crônicas com o olhar cômico. Com um tempo, a gente conversou e disse um pro outro: ‘vamos fazer nós mesmos’. Aí começou. Estamos há pouco tempo no mercado, mas já passamos por muita coisa legal”, comenta o humorista.

Igor Melo/Esp.CB/D.A Press

LC Galetto, “Papudim” e Glayco Sales: humor inspirado também nos grandes mestres cearense do gênero

TRÊS PERGUNTAS PARA WOLNEY OLIVEIRA, DIRETOR EXECUTIVO DO CINE CEARÁ Em meio à valorização da indústria audiovisual brasileira, o Cine Ceará é um dos principais festivais de cinema do país. O diretor executivo,Wolney Oliveira, fala dos méritos do cinema cearense. A quantas anda a produção audiovisual do estado? Além dos inúmeros prêmios nos festivais nacionais e internacionais, o cinema cearense vem respondendo positivamente na produção do nosso audiovisual, ganhando os editais de B. O. (baixo orçamento) do Ministério da Cultura e outras instituições. Filmes como Homens com cheiro de flor, de Joe Pimentel; O grão”, de Petrus Cariry; Rânia, de Roberta Marques; Cine Hollíudy, de Halder Gomes; Linz, de Alexandre Veras; Os últimos cangaceiros, de minha direção; e Cego Aderaldo – O Cantador e o Mito, de Rosemberg Cariry, são exemplos disso, revertendo o montante de aproximadamente R$ 10 milhões à economia cearense nos últimos cinco anos. Não podemos esquecer ainda o filão de filmes espíritas, que surgiu no Ceará através da iniciativa do produtor Luis Eduardo Girão, como a produção Bezerra de Menezes – Diário de um espírito, de Joe Pimentel e Glauber Filho. O Cine Ceará contribui de que forma para a geração de emprego e renda no estado? O Cine Ceará, que este ano completou sua 22ª edição, é um

dos responsáveis por toda a efervescência cinematográfica vivida no Ceará, seja na área da docência, da produção e da difusão do audiovisual, inclusive abrindo espaço para trazer ao nosso público um grande número de produções ibero-americanas. O Festival criou a necessidade dessas demandas tanto na produção quanto no surgimento dos cursos de graduação nas Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade de Fortaleza (Unifor), ou o curso sequencial da Vila das Artes, da prefeitura de Fortaleza. Tem papel fundamental também na difusão, com o surgimento de outros eventos audiovisuais no estado — que já totalizam quase dez festivais. Do ponto de vista econômico, o festival movimenta a cadeia turística cearense, criando demandas para a rede hoteleira, aluguel de veículos, gastronomia, contratação de técnicos da área do audiovisual e artistas, serviços de mídia, agências de publicidade, entre outros setores. Quem mais é beneficiado com o festival? Além do público cearense — estudantes, cinéfilos e a população em geral, que frequenta gratuitamente o evento desde a sua criação, em 1991 —, também se beneficiam os patrocinadores, que têm um excelente retorno de marketing, bem como a cadeia da produção, difusão e formação. Ganha com o festival ainda a classe artística em geral e, em especial, o governo do estado, que é o único parceiro que tem o nome incorporado ao evento.

RECONHECIDO NACIONALMENTE, O FESTIVAL CINE CEARÁ ESTÁ NA SUA 22ª EDIÇÃO


CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • Suplemento especial • 11

EM FORTALEZA, COMÉRCIO DE LUXO NÃO TEM DO QUE SE QUEIXAR. NÚMERO DE LOJAS QUE VENDEM CARROS DE ALTO PADRÃO, JOIAS E ROUPAS CRESCE A CADA DIA

Igor de Melo /Esp. CB/D.A. Press

Rodrigo Carvalho e Ronaldo Munhoz (ao fundo): “Consumidor cearense quer realmente o que for melhor”, diz Munhoz

E

xclusividade, atendimento diferenciado, instalações superconfortáveis, além de preço que acompanha a soma do que vale o produto, e os mimos oferecidos. Assim é o mercado premium, que se fortalece no Ceará em diversos ramos. O Grupo Ner Land é um exemplo desse segmento seletivo e crescente ao mesmo tempo. Atua no ramo de veículos e iniciou as atividades no estado em 1992, com a primeira revenda da marca de automóveis japonesa Toyota. “A Toyota, naquela época, mais do que é hoje, era considerada uma marca de veículo premium, um veículo top. Eram carros importados do Japão. De lá pra cá, verificamos a identificação do público cearense com produtos que oferecem um valor agregado a mais. Percebemos que o cliente daqui é exigente, ele quer realmente o que for melhor. Se você tem produtos distintos, a maior atenção vai ser para os da linha top, que são mais complexos, mais requintados, que têm mais acessórios”, comenta um dos sócios do Grupo New Land, Ronaldo Munhoz. O retorno positivo da empresa levou à iniciativa de abrir mais lojas no Ceará e no Brasil. Hoje, são cinco estabelecimentos no estado: duas lojas plenas (vendas e pós-vendas) em Fortaleza, uma plena em Juazeiro, além de duas que fazem somente prestação de serviço”, informa o empresário. Ele conta ainda que está ampliando a atuação para Teresina, João Pessoa e para Brasília. A mais nova investida de Munhoz e seu sócio Rodrigo Carvalho foi a diversificação, em 2011, no segmento de carros luxuosos, com as lojas da Mercedes-Benz e da Chrysler. “Isso vem reforçando a nossa aposta nesse mercado. Muitas vezes, esse segmento não sofre com oscilações de crise, como outras atividades. É mais consistente”, diz Carvalho. Em números absolutos de vendas, a loja da Mercedes em Fortaleza, que consumiu investimentos de R$ 5 milhões, ficou, em maio, na 8ª colocação entre todas as concessioárias do país. Levando-se em consideração as vendas em todo o Ceará, somando com todas as lojas que vendem a marca, o estado ficou na 4ª posição. “O Ceará sempre foi diferenciado do resto do Brasil. É um estado que vende muito mais carros de luxo do que a maioria dos outros estados, em termos proporcionais. Por exemplo, a Toyota tem participação no mercado de 3%. Aqui, chega a ter meses que alcança 5%”, informa Carvalho. O empresário explica que o perfil dos clientes é principalmente profissional liberal — como médico e advogado —, além de empresários e muita gente do interior. O sócio afirma que cerca de 50% das compras são realizadas à vista. É um belo investimento para quem pode descolar R$ 126 mil em uma Mercedes C180 ou R$ 480 mil em um modelo C63 AMG. Mas o consumo de luxo no Ceará não se restringe a automóveis de alto padrão. O ramo de joias também se destaca entre a clientela exigente e abastada. Exemplo disso pode ser constatado na Vivara, que lança por ano duas coleções de brincos, anéis e colares. A loja localizada no Shopping Iguatemi foi, dentro do grupo, a que mais cresceu no país no mês de maio, chegando ao faturamento de R$ 1 milhão, conta a gerente Laura Sonntag. O pagamento é parcelado em até dez vezes e as peças partem de R$ 1,2 mil a R$ 20 mil. “A Vivara de Fortaleza é considerada uma das 10 melhores entre as 121 lojas no Brasil”, garante Laura.

Mercado pra lá de premium Nas lojas roupas de grife, o atendimento é diferenciado

Produtos que enchem os olhos “Nossas clientes têm condição de viajar e comprar roupas fora do Brasil. No entanto, cada vez mais, elas sentem a necessidade de ficar por aqui no Ceará para consumir, primeiro porque a vida fica cada vez mais apertada, depois porque temos produtos de muita qualidade”. O comentário é de Mauro Mendonça, gerente da Animale, loja de roupas femininas. Para Mauro, o diferencial não é só na peça de roupa, mas no atendimento exclusivo que a marca oferece ao seu púbico A e B. A Animale é carioca e está no Ceará há cerca de três anos e meio. Oferece bolsas, calçados e acessórios, com valores que vão de uma peça básica de R$ 79 até um vestido de

R$ 2 mil. “Temos clientes magrinhas, gordinhas, mas todas com bom poder aquisitivo. Buscamos despertar o fetiche nas clientes”, ressalta o gerente. Também direcionada ao público A e B, a Brooksfield enche os olhos dos marmanjos que gostam de roupas mais exclusivas. Do mesmo tipo, cada loja só recebe 15 peças.“A marca patrocina grandes novelas e seriados. Os artistas realmente usam”, comenta George Barroso, gerente de uma das filiais de Fortaleza. Em todo o Brasil, são 90 lojas da grife de origem portuguesa — algumas do próprio fundador, Carlos Antunes, e outras franqueadas, como é o caso do empreendimento em Fortaleza.

CONSUMO SOFISTICADO TAMBÉM É FORTE ENTRE MORADORES DO INTERIOR DO ESTADO


12 • Suplemento especial • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • CORREIO BRAZILIENSE

GRANDES GRUPOS SURGIDOS NO ESTADO LEVAM SUAS MARCAS E PRODUTOS PARA TODO O PAÍS. REDE DE FARMÁCIAS, POR EXEMPLO, É UMA DAS LÍDERES EM SEU SEGMENTO

Empresas cearenses ganham o Brasil

O

Ceará é reduto de empresas tradicionais, inovadoras e de alcance nacional. Negócios no ramo de massa, drogaria, têxtil e bebidas firmam histórias de sucesso no empreendedorismo do país. Um exemplo disso é o economista Deusmar Queirós, que passou de comerciante de frutas, na década de 1950, a dono de uma das maiores redes de farmácias do país. Deusmar trabalhou em grandes empresas, onde ganhou experiência para abrir seu próprio negócio aos 30 anos. Teve início, então, a PAX Corretora de Valores e Câmbio Ltda. Quatro anos mais tarde, no fim da década de 1970, havia conquistado um patrimônio de US$ 1 milhão. Enquanto trabalhava no mercado financeiro, passou duas temporadas nos Estados Unidos, período em que conheceu as drugstores americanas e seu modelo diferenciado, com grande variedade de produtos ofertados, além dos medicamentos, o que chamou a atenção do empresário. Resolveu, então, investir no setor. Em 19 de maio de 1981, inaugurou a primeira farmácia Pague Menos em um bairro de periferia de Fortaleza, tendo como base o modelo das drogarias americanas. A farmácia começou a mostrar que tinha um aspecto diferente das concorrentes. “Foi a primeira a colocar gôndolas no meio da loja com produtos de higiene, beleza e conveniência. Também foi a primeira a manter as portas abertas nas farmácias 24 horas, além de ser pioneira no serviço de correspondente bancário”, conta o empresário. Já consolidada no Nordeste e em parte da Região Norte, em 2002, a rede desembarcou na cidade de São Paulo. Conforme o plano estratégico, havia chegado o momento de expandir e também se consolidar nas regiões Sul e Sudeste. O plano de “ocupação” de São Paulo foi forte. Para tornar a farmácia mais conhecida pelos paulistas, Deusmar desenvolveu a ideia de distribuir milhares de sacolas, com a lo-

gomarca e telefone da empresa, para os vendedores ambulantes de diferentes áreas daquela capital. “Começamos, então, a incomodar os grandes players dessas regiões, tanto que um deles chegou a abrir duas filiais em Fortaleza, com entrega gratuita para os bairros mais distantes e descontos bastante agressivos. Não houve êxito e, em pouco tempo, as duas filias fecharam”, relata o fundador do grupo. Em 2006, a rede de farmácias se torna a primeira do país em volume de vendas e em número de lojas pelo ranking da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma). Faz parte do sucesso dos negócios um rigoroso planejamento de expansão. A rede abriu mais de 150 filiais nos últimos dois anos. Em 2012, foram inauguradas mais de 30 lojas. O programa de expansão cumpriu as seguintes etapas. De 1981 a 2001, a meta era estar presente em todos os estados do Nordeste e Pará. Foram 30 cidades, 200 lojas e 4,5 mil funcionários. De 2002 a 2007, chegou ao Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Pará e Amazonas, com 65 cidades cobertas, 290 lojas e 7 mil funcionários. Por fim, na terceira etapa, de 2008 a 2012, expandiu a presença para todo o Brasil, com 200 cidades, 530 lojas, além de 14mil funcionários. A terceira etapa termina no fim deste ano, quando a Pague Menos deverá ter 600 lojas, faturamento de R$ 3 bilhões e tendo aberto seu capital. As ações desenvolvidas hoje vão perpetuar a Pague Menos, que este ano completou 31 anos. Outro passo importante que a Pague Menos está prestes a dar é realizar o seu IPO (Oferta Pública Inicial) na bolsa de valores. O Conselho de Administração aprovou oferta primária e secundária de ações, prevista para julho próximo. Na lista das grandes empresas cearenses ou que têm cadastro de pessoa jurídica no Ceará que estão na bolsa de valores (BM&FBovespa) figuram a Vicunha Têxtil, Grendene, Companhia Energética do Ceará (Coelce), Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), J Macêdo e M Dias Branco. Igor Melo/Esp.CB/D.A Press

Cachaça multinacional

Fábricas da M. Dias Branco e da J. Macedo: produtos nos supermercados do Brasil

Liderança em massas e biscoitos Com cinco centros de distribuição, dois escritórios, seis escritórios de vendas, sete unidades fabris e três de faturamento, a J. Macedo é uma das maiores empresas no ramo alimentício do país. É considerada líder de mercado nos segmentos de farinha de trigo doméstica e de mistura para bolos e a segunda maior empresa nacional no segmento de massas alimentícias. Produz, distribui e comercializa vários tipos de produtos que fazem parte do cotidiano dos brasileiros, como a farinhas Dona Benta, Sol, Brandini, Boa Sorte, Lili, Veneranda, Flor e Jauense e as massas Dona Benta Sítio do Picapau Amarelo, Petybon, Brandini, Paraíba, Madremassas, Favorita, Familiar e Premiata. No começo do ano, a J Macedo obteve aprovação de financiamento de R$ 52,8 milhões no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O objetivo é utilizar o recurso para melhorar a armazenagem de trigo e o empacotamento de biscoitos nas unidades de Salvador e Simões Filho, ambas na Bahia.

Quem também figura entre as grandes companhias cearenses que ganharam o Brasil é o grupo M. Dias Branco. No primeiro trimestre de 2012, atingiu um lucro líquido de R$ 106,5 milhões. O resultado é 29,6% superior ao alcançado no mesmo período de 2011. Os dados comprovam a ampliação da participação do grupo cearense, que segue com suas marcas, entre elas o macarrão e o biscoito Fortaleza, na liderança desses segmentos, abocanhando 26,6% do mercado de biscoitos e 25,8% do de massas, conforme números da consultoria AC Nielsen. OgrupoécapitaneadopeloempresárioIvensDiasBranco,que entrou para o ranking dos homens mais ricos do mundo, publicado pela revista norte-americana Forbes. Ivens é o número 290 no mundo e o nono lugar no Brasil, com uma fortuna de US$ 3,8 bilhões. O bilionário está investindo em projetos e produtos, além de iniciar a comercialização de novas linhas de bolos e snacks. No trimestre, os investimentos foram de R$ 25,6 milhões, na manutenção e na ampliação da capacidade produtiva das fábricas.

Rede Pague Menos/divulgação

Deusmar Queirós, da Pague Menos, espera terminar o ano com 600 lojas no país e um faturamento de R$ 3 bilhões

A tradicional Ypióca foi vendida para o fabricante do uísque Johnnie Walker

A cachaça faz parte da tradição nordestina. No Ceará, não é diferente. Apesar de estudos recentes afirmarem que o aumento da renda dos brasileiros está fazendo com que o consumo de uísque e de cerveja cresca, a aguardente segue com força na região, expande-se para o Brasil e, agora, para o mundo. Uma prova disso foi a compra da tradicional cachaça cearense Ypióca pelo grupo Diagel, por R$ 900 milhões. A empresa britânica é líder mundial no segmento de bebidas alcoólicas chamadas premium e detém marcas como Smirnoff e Johnnie Walker. O processo de compra está em fase de finalização e a operação inclui uma destilaria em Paraipaba (CE), uma engarrafadora em Fortaleza e um centro de distribuição em Guarulhos (SP). O presidente da Diageo América Latina e Caribe, Randy Millian, afirma que a aquisição é uma excelente oportunidade de negócios, em função do visível crescimento do Brasil, além da expansão dos consumidores de classe média. Para o presidente da Ypióca, Everardo Telles, a venda trouxe uma grande satisfação. Telles segue atuando com outras empresas, também no ramo de bebidas.

Igor Melof/Esp.CB

EMPRESÁRIO DO RAMO ALIMENTÍCIO ENTROU PARA O RANKING DOS HOMENS MAIS RICOS DO MUNDO


CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • Suplemento especial • 13

GOVERNO IMPLANTA 3 MIL QUILÔMETROS DE CABOS DE FIBRA ÓPTICA NO ESTADO E LEVA PARA A POPULAÇÃO SERVIÇOS COMO INTERNET RÁPIDA E TV DIGITAL

Jarbas Oliveira/Esp. CB/D.A. Press

O Sertão dos Inhamuns do Ceará, região onde chove pouco e que enfrenta grave ameaça de desertificação, abriga uma das cinco cidades da América Latina no ranking de combate à exclusão digital e uma das 10 mais digitalizadas do país. Das cinco do ranking na categoria Redução da Exclusão Digital, no estudo Cidades Digitais 2011, elaborado pela empresa Motorola Solutions, somenteTauá, a 360km de Fortaleza, é brasileira. Já o Índice Brasil de Cidades Digitais, organizado pela Momento Editorial e pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento emTelecomunicações, elegeu o município entre os 10 mais exitosos em políticas de universalização do acesso gratuito à internet. A história de Tauá como município digital data de 2006. “A cidade vivia basicamente da agricultura familiar. Na época, se pensou um projeto que não dependesse de água para dar oportunidades aos habitantes”, relembra o titular da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Tecnológico (Sedete), Elvis Maciel. Como apenas 0,72% da população dispunha de acesso a computador, no início, o projeto focou em ampliar esse benefício e disponibilizar conexão para os moradores. O tempo passou e hoje Tauá, com cerca de 55 mil habitantes, tem 86% da sua área, inclusive zona rural, com cobertura de internet gratuita, que deve chegar a 100% até agosto. Ao todo, 14 mil jovens já foram capacitados na área de tecnologia da informação, no Centro de CapacitaçãoTecnológica da cidade. A instituição, estruturada com dezenas de computadores, fica no Centro de Desenvolvimento Tecnológico e Científico, um dos frutos da incubadora de empresas criada pela prefeitura. Lá, são ministrados cursos de alfabetização digital, profissionais e manutenção de computadores, assim como desenvolvidos softwares comercializados para empresas de Fortaleza e de outros estados. “Também criamos soluções para o município e reciclamos o nosso lixo eletrônico”, afirma Elvis, referindo-se ao projeto de metarreciclagem, que retira lixo eletrônico gerado por equipamentos de informática em desuso para recondicionamento ou reutilização por meio da criação de produtos artesanais. Segundo ele, Tauá trabalha os eixos de inclusão, acessibilidade a novas tecnologias, desenvolvimento sustentável e empreendedorismo no direcionamento de suas ações na área. Uma das iniciativas de maior destaque é o TeleTauá, sistema de comunicação baseado na tecnologia Voip. Em cabines telefônicas, chamadas de “Bode Fone”, o cidadão tauaense pode fazer ligações gratuitas (com duração média de 3 minutos), para qualquer lugar do mundo. Já os Quiosques Digitais, minilan houses fundadas em 2007, promovem a inclusão digital através da acessibilidade gratuita. Instalados em pontos estratégicos da cidade (Centro Comercial, Estação Rodoviária e Campus da Universidade Estadual do Ceará), funcionam de segunda a domingo. Cada quiosque dispõe de quatro computadores e disponibiliza acesso grátis à internet, com um tempo estipulado em 40 minutos por pessoa. Tauá também inovou ao criar em parceria com o Ministério das Comunicações o Tauánet, primeiro provedor público de acesso à internet em sistema de banda larga, que atua no oferecimento de inclusão digital para organizações governamentais, não governamentais e cidadãos. Outra novidade interessante emTauá é oTelessaudade, que disponibiliza computadores para os cidadãos entrarem em contato com familiares e amigos que residem em outras localidades do estado, do país e do mundo. O contato ser dá por meio de bate-papo escrito, falado (audioconferência) e/ou videoconferência por meio do sistema Skype.

Pioneirismo na banda larga T

Na pequena Tauá, todos conectados

Prefeitura de Tauá/ divulgação

ida como nova dimensão de desenvolvimento, a inclusão digital está entre as ferramentas que podem ajudar o país a superar o abismo social que divide a sociedade brasileira. Segundo o Plano Nacional de Barda Larga do governo federal, lançado em 2010, a importância de se estabelecer entre os desafios do milênio as medidas rumo à sociedade da informação foi tema da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (CMSI), em 2003, em Genebra, e em 2005, em Túnis, na Tunísia. Nos eventos, foi firmado um compromisso comum de construção de uma sociedade da informação, centrada na integração dos indivíduos e orientada para o progresso, em que todos possam consultar, criar e compartilhar a informação e o conhecimento. Diante disso, o Ceará tem implantado nos últimos anos um projeto que já o coloca como detentor da maior rede de banda larga pública do país. Inaugurado em novembro do ano passado, o Cinturão Digital (CDC), que recebeu investimentos da ordem de R$ 58 milhões, consiste em uma infraestrutura de 3 mil km de cabos de fibra óptica conectando 92 cidades, com cobertura inicial instalada na sede de 53 municípios, o que corresponde a 85% da população urbana do estado. Os outros municípios por onde o cabo não passa estão sendo interligados ao Cinturão pelas antenasWimax, com conexão via rádio em cada cidade. De acordo com a Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará (Etice), a determinação do governador Cid Gomes de dar ao CDC a importância de projeto estratégico para o estado levou à construção de uma rede de transmissão de dados pioneira e que já é vista como modelo para outras unidades da Federação.“Bem mais do que a garantia de acesso à internet banda larga para os municípios que concentram a maioria da população urbana, o CDC levará mais qualidade de vida para milhões de cearenses”, afirma o governador. A implantação do Cinturão foi dividida em três fases. A primeira, já finalizada, consistiu na interligação de toda a estrutura e os equipamentos do governo do estado, o que, segundo as autoridades locais, vai aumentar a agilidade e qualidade dos serviços prestados à sociedade e economizar recursos públicos. A previsão é que, em três anos, o investimento feito para a instalação seja revertido pela diminuição dos gastos com telefonia e transmissão de dados.

Em abril, na segunda etapa do CDC, um edital foi lançado para formalização de parcerias com prefeituras, com o objetivo de que elas passem a disponibilizar banda larga nas redes de ensino e unidades de saúde. Além disso, as administrações municipais vão firmar compromisso de permitir o acesso público em locais de grande concentração. A Etice adianta que essa etapa está em processo de finalização. O edital garante até 2 gigabits por segundo para os municípios. A terceira fase do Cinturão Digital deve começar no segundo semestre, com a realização do leilão de concessão do uso comercial. O presidente da Etice, Fernando Carvalho, afirma que o processo já está preparado e a expectativa é de recuperar o valor investido na implantação da rede de fibra óptica. Os provedores têm até 180 dias para operar, quando a maior parte das cidades já deverá estar sendo atendida. Serão disponibilizados três lotes, com lance mínimo individual estimado em R$ 15 milhões, mas o estado aposta em ágio. A concessão é de 15 anos e cada empresa poderá arrematar apenas um lote. “Nós temos umas seis empresas no mercado, mas precisamos de concorrência”, explica. O presidente da Etice acrescenta que os resultados das concessões serão analisados por cerca de dois anos antes dos leilões de outros lotes. A cláusula social da licitação prevê o estabelecimento de tarifas máximas de R$ 29,90 mensais para consumidores do interior do estado, para pacotes com velocidade de 1 megabyte por segundo e até três gigas de tráfego de dados. Nos anos seguintes, a estimativa é que o valor caia para R$ 10. Além do preço pela concessão e da cláusula social, as empresas deverão arcar com a manutenção da infraestrutura, inclusive dos cabos que são usados pelo governo do estado, que não terá custo com a manutenção. Com o projeto, a população terá acesso a serviços digitais, como internet, videoconferência, TV digital e telefonia celular. Em Fortaleza, o Cinturão Digital se integra à rede metropolitana Gigafor, utilizando infraestrutura do Ministério da Ciência e Tecnologia, já existente, o que permite o acesso dos órgãos do governo com velocidade de até 2 Gbps. De acordo com Cid Gomes, o esforço do governo cearense está sendo executado em parceria com a Telebras e em consonância com o Plano Nacional de Banda Larga. “O Cinturão Digital é hoje uma realidade e é um pouco do futuro que chega agora ao Ceará.”

Fortaleza e dezenas de outras cidades se beneficiam com a banda larga. Em Tauá, acesso à internet gratuita é possível em qualquer área do município

JOVEM SE DESTACA Após atrair a atenção dos diretores da Microsoft por seus avanços em inclusão digital, Tauá comemora a confirmação da parceria com a empresa, que resulta em investimento de cerca de US$ 100 mil em disponibilização de softwares. O dinheiro será usado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Tecnológico na capacitação dos tauaenses. A ideia é incentivar jovens como a estudante do município, Jeovânia Dávila (foto), que foi selecionada com mais dois colegas brasileiros para representar o país no evento Inovar para o bem (Innovate4Good@Microsoft), ocorrido de 13 a 15 deste mês nos escritórios da Microsoft no México. O movimento, liderado pela empresa de Bill Gates e que visa promover o desenvolvimento de jovens talentos em todo o mundo, reuniu 100 estudantes da América Latina que tiveram a oportunidade de compartilhar ideias, conhecer novos programas e recursos, além de opinarem sobre como a Microsoft pode continuar apoiando a juventude global.

COMUNIDADES DO INTERIOR TERÃO ACESSO A BANDA LARGA A PREÇOS REDUZIDOS


14 • Suplemento especial • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • CORREIO BRAZILIENSE

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ SERÁ A INSTITUIÇÃO ÂNCORA DO POLO TECNOLÓGICO DA SAÚDE. INTERESSE DE OUTRAS EMPRESAS PELO EMPREENDIMENTO JÁ É GRANDE

Na rota dos medicamentos

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Ceará vai entrar para o mapa da fabricação de produtos na área da saúde no Brasil. Está sendo planejado e desenvolvido o Polo Industrial e Tecnológico da Saúde, no município do Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Com o empreendimento, o estado vai contribuir com a estratégia do governo federal de amenizar os gastos com importação de medicamentos, insumos e outros materiais. Somente com a compra no exterior de um remédio contra o câncer, por exemplo, o país gasta cerca de R$ 200 milhões por ano. As obras devem começar no final de 2012, com a instalação de uma unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição âncora do projeto. As informações são do coordenador da implantação da Fiocruz no Ceará, Carlile Lavor. Já está sendo feito o projeto arquitetônico das edificações da fundação, que vão ocupar 10,9ha. A licitação para o projeto foi de R$ 3,7 milhões. Segundo Carlile, a Fiocruz reservou R$ 20 milhões para o Ceará neste ano, recurso garantido no Orçamento Geral da União (OGU). O investimento até 2015 é da ordem R$ 170 milhões, a partir de 2013. Além da Fiocruz, o Centro de Tecnologia da Informação (CTI), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), será outra âncora e vai aplicar R$ 11 milhões na sua instalação.

O cercamento da área da Fiocruz e as contratações dos serviços do polo da saúde já foram iniciados. Por meio de pregão eletrônico, a instituição ligada ao Ministério da Saúde (MS) firmou contrato com a Construtora Silveira Salles para a atividade, que vai colocar 1,4 mil metros de cerca no terreno. Além das obras de cercamento, foi contratada a empresa Acquatool Consultoria para realizar o Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) da área total do polo — cerca de 50ha. O responsável pelo EIA/Rima, o engenheiro em recursos hídricos Pedro Antônio Molinas, calcula que o trabalho deve ficar pronto em três meses. Em maio deste ano, o projeto ganhou força a partir da definição da nova diretoria da Câmara Setorial da Saúde. Segundo o presidente reeleito da Câmara, Augusto Guimarães, a implantação do empreendimento é de alta complexidade, pois não se trata apenas de um distrito industrial. “Há o aspecto da inovação em tecnologia da saúde, o que aumenta muito a responsabilidade”, afirma. Outra iniciativa envolvendo o empreendimento foi a formação do Comitê Gestor do Polo Industrial da Saúde, que tem por objetivo realizar reuniões periódicas e trabalhar em sintonia com a Câmara Setorial. José Dias Vasconcelos Filho, presidente do Sindicato das Indústrias Químicas e Farmacêuticas Fotos: Fiocruz/Divulgação

do Ceará (Sindiquímica), considera que o ritmo de implantação do projeto está sendo mais intenso e célere em função do foco mais efetivo da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), responsável pela atração das empresas. Além das âncoras, José Filho ressalta que para empreendimentos como esse é necessário, por exemplo, contar com fábricas de embalagens especiais e de tintas de parede feitas especificamente para hospitais. O polo não funciona ainda, mas a ampliação já está em andamento. “As primeiras conversas eram para trazer somente a Fiocruz. Depois, a proposta foi ampliada e começou a envolver uma série de grupos empresariais. Inicialmente, era um centro de formação profissional e uma fábrica de vacinas. Agora, também vão se instalar fabricantes de insumos para a saúde”, afirma o secretário da Saúde do Ceará, Arruda Bastos. Em função da grande procura de empresas por terrenos nas imediações do polo, o secretário informou que a Procuradoria Geral do Estado (PGE) analisa a proposta de se ampliar a área do complexo para 100he. Outro aspecto que está sendo resolvido pelo governo do estado é a montagem da infraestrutura de água, esgotamento sanitário, drenagem e energia elétrica no local. Segundo Bastos, a responsabilidade é da Secretaria da Infraestrutura, que já desenvolve os projetos.

Pesquisadores da FioCruz produzirão vacinas em laboratório do Ceará

Vacina contra a febre amarela A Fundação Oswaldo Cruz vai instalar no futuro Polo Industrial e Tecnológico da Saúde uma unidade de produção de vacina contra a febre amarela. Segundo o secretário da Saúde do Ceará, Arruda Bastos, será o primeiro laboratório de vacinas da Fiocruz fora do Rio de Janeiro. A instituição produzirá imunizantes contra a doença aproveitando uma nova tecnologia que utiliza a planta Nicotiana benthamiana, espécie de tabaco cultivado por meio de hidroponia. A espécie possui folhas com genes que codificam a principal proteína do vírus que causa a febre amarela. A fundação também será responsável pela formação e capacitação de profissionais da saúde. As instalações no município de Eusébio são parte dos planos de expansão da Fiocruz, que também pretende abrir representações em Rondônia, Mato Grosso do Sul e Piauí. O presidente, Paulo Gadelha, lembra que em algumas regiões ainda é escassa a integração científica e tecnológica, bem como a discussão sobre temas importantes ligados à saúde. A proposta de Gadelha é fazer com que essas questões estejam mais presentes em todo o país. Para o polo cearense, a fundação já fez o acordo de transferência de tecnologia com o Centro Fraunhofer para Biotecnologia Molecular, sediado nos Estados Unidos, com o objetivo de fabricar a vacina contra a febre amarela. A entidade garante que o novo imunizante é mais seguro e possui baixíssimo índice de reações adversas. A Fiocruz produz cerca de 24 milhões de doses da vacina contra a febre amarela, das quais vende 3,7 milhões para 70 países. São fabricadas pela Fiocruz 140 milhões de doses de oito tipos de imunizantes distintos. Segundo a instituição, existem hoje 25 projetos de pesquisa em andamento para o desenvolvimento de sete imunizantes bacterianos, seis virais, entre os quais contra os quatro sorotipos da dengue.

Sede da fundação no Rio de Janeiro: expansão para outros estados brasileiros

ALÉM DA FÁBRICA DE VACINAS, A FIOCRUZ VAI ADMINISTRAR UM CENTRO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL


CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • Suplemento especial • 15

EMBRAPA ESTIMULA SURGIMENTO DE EMPRESAS A PARTIR DE TECNOLOGIAS DESENVOLVIDAS EM SEUS LABORATÓRIOS. PROGRAMA DE INCUBAÇÃO É SUCESSO NO ESTADO

Agronegócio sustentável

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om mais de 90% do seu território encravado no semiárido, onde as chuvas se distribuem de maneira irregular no espaço e no tempo, o Ceará vive sob o constante dilema de aliar crescimento econômico e desenvolvimento social diante da escassez de água, realidade que atinge diretamente milhares de comunidades rurais. O desafio, portanto, é encontrar alternativas para a convivência com a seca que proporcionem o desenvolvimento sustentável e includente da produção local com o aumento da produtividade no campo e a consequente melhoria da qualidade de vida da população. Nesse contexto, o estado tem no conhecimento uma arma importante para vencer os desafios. Um dos exemplos principais é o da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). No Ceará, a Embrapa Agroindústria Tropical, uma das duas unidades temáticas da instituição, viabiliza, por meio de pesquisa, desenvolvimento e inovação, soluções para a sustentabilidade de cadeias produtivas da agroindústria tropical. “Nossa intenção é fazer a utilização de toda a potencialidade da matéria-prima existente, o que chamamos de aproveitamento integral da biodiversidade do semiárido”, define Genésio Vasconcelos, supervisor de Prospecção e Avaliação de tecnologias da empresa. Segundo ele, a Embrapa Agroindústria trabalha na agregação de valor aos recursos genéticos existentes no semiárido, proporcionando o surgimento de novas oportunidades de crescimento econômico para a sociedade. Um dos principais desafios da pesquisa científica é fazer com que as tecnologias sejam apropriadas por empresas, governos e instituições em benefício da coletividade. Pensando nisso, a instituição desenvolve desde 2005 uma iniciativa que estimula o surgimento de novas empresas a partir de tecnologias iniciadas ou desenvolvidas em seus laboratórios. O projeto, que nasceu como experiência-piloto nas unidades de Fortaleza, São Carlos (SP) e Brasília (DF), foi ampliado em 2008 para todas as Embrapas do país, e ganhou o nome de Programa de Incubação de Agronegócios da Embrapa (Proeta). Com quatro anos de existência, o programa começa a colher frutos no Ceará. No último mês de abril, as empresas cearenses BioCclone e Sabor Tropical, incubadas na Embrapa, foram “graduadas” em sessão solene. A Bioclone, por exemplo,

acaba de instalar no município de Eusébio, região metropolitana de Fortaleza, a primeira biofábrica de produção de mudas clonadas do estado. Com capacidade de produção de 5 milhões de mudas por ano, a empresa recebeu aporte de R$ 1,2 milhão do Criatec, fundo de investimentos de capital destinado à aplicação em empresas emergentes inovadoras. A empresa virou uma S.A. e agora tem o Criatec como sócio. Com 80% do capital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e 20% do Banco do Nordeste (BNB), o fundo tem como objetivo obter ganho de capital por meio de investimento de longo prazo em empresas em estágio inicial (inclusive estágio zero), com perfil inovador e que projetem um elevado retorno. “O Criatec coloca recursos e profissionais para alavancar o negócio, e depois de alguns anos vende a parte dele dentro da empresa”, acrescenta Vasconcelos. A história da BioClone se confunde com a do seu fundador, Roberto Caracas, e começou há alguns anos, quando ele fez mestrado na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), em Brasília, período em que iniciou o trabalho

com a tecnologia de clonagem de mudas. Após um período na Secretaria de Agricultura do Ceará, Caracas trabalhou na maior produtora de bananas do Brasil. “Lá, tivemos que plantar mais de mil hectares de banana e abacaxi, tudo com mudas de fora do país, porque não tinha quem fornecesse”, conta ele, que teve então a ideia de abrir um negócio no ramo. A Bioclone deu tão certo que nos últimos anos captou mais de R$ 1,5 milhão em projetos de pesquisa subvencionados por instituições como a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap). Com 21 funcionários e cinco pesquisadores, a BioClone produz mudas de abacaxi (ornamental e comestível), cana-de-açúcar, banana e algumas espécies de flores tropicais, vendidas para todo o país. Para este ano, a previsão é que o faturamento fique entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão, com perspectivas de crescimento de 20% para o próximo ano. Segundo Roberto Caracas, a estimativa é de que o Brasil tem um deficit de 64 milhões de mudas/ano de banana, que importa de países como Costa Rica, Israel e África do Sul. “Antes de a gente entrar no mercado, o Ceará importava quase 80% das mudas clonadas de fora do país”, lembra Caracas.

Corante produzido a partir do caju A cajucultura sempre se destacou entre as pesquisas realizadas pela Embrapa Agroindústria Tropical. E a Sabor Tropical é outro exemplo de sucesso bem interessante. A empresa, que produzia cajuína no sistema tradicional, fez uma consultoria técnica na Embrapa para o desenvolvimento do processo de industrialização do produto. Paralelo a isso, a instituição ajudou a Sabor Tropical a obter um selo orgânico para a cajuína, que passou a ser a primeira certificada pela IBD Inspeções e Certificações Agropecuárias e Alimentícias, maior certificadora da América Latina e a única certificadora brasileira de produtos orgânicos com credenciamento internacional. A parceria foi azeitada quando um pesquisador da Embrapa descobriu um enorme potencial no bagaço do caju utilizado para a extração do suco e produção da cajuína. O

bagaço, que antes ia para o lixo, é rico em um pigmento natural chamado carotenoide,que, extraído e purificado, permite a produção de um corante amarelo natural de alto valor agregado. “O corante é hoje altamente procurado pelas indústrias alimentícias e de bebidas”, explica Genésio Vasconcelos, supervisor de prospecção e avaliação de tecnologias da Embrapa. De acordo com ele, a Europa proibiu o uso do corante artificial amarelo tartrazina, que causa diversas reações alérgicas, e a tendência mundial é que ele seja banido. A Sabor Tropical, sediada em São Gonçalo do Amarante, está construindo uma nova fábrica no município de Horizonte. Também graduada pelo Proeta, ela explora comercialmente o processo de extração de carotenoides a partir do bagaço do caju, já patenteado pela Embrapa.


16 • Suplemento especial • Brasília, segunda-feira, 25 de junho de 2012 • CORREIO BRAZILIENSE

O ESTADO SEMPRE FOI EXPORTADOR DE LAGOSTA. AGORA, SE DESTACA NA PRODUÇÃO DE TILÁPIA E CAMARÃO CRIADOS EM CATIVEIRO. EM RELAÇÃO AO CRUSTÁCEO, MERCADO JÁ SUPEROU O RIO GRANDE DO NORTE

Fotos: Jarbas Oliveira/Esp.CB/D.A Press

A produção de camarão criado em cativeiro saltou de 24 mil toneladas em 2009 para 29 mil em 2010

A riqueza que vem da água N

os últimos anos, o Ceará tem redescoberto em uma das principais vocações produtivas, a pesca, a oportunidade de desenvolver ainda mais a sua economia. Histórico líder nacional na produção e exportação de lagosta, o estado vem apostando nos potenciais dos cativeiros de tilápia e camarão para a geração de riquezas. Ancoradas nas excelentes condições existentes no Nordeste em termos de clima, água, solo e incidência solar em praticamente o ano inteiro, hoje a criação de tilápias e a carcinicultura (criação de camarão) cearenses apresentam os maiores volumes produtivos entre todos os estados. Juntos, as duas atividades geram cerca de 18 mil empregos diretos e movimentam em torno de R$ 340 milhões por ano no estado. Organizados em associações de criadores, os dois setores passaram por um processo de estruturação e vêm se articulando com o estado e com as demais instituições correlatas. Exemplo disso foi a criação das câmaras setoriais da tilápia e do camarão no âmbito da Agência do Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), nos últimos dois anos. Entre os objetivos das áreas envolvidas estão os de identificar e discutir gargalos para o desenvolvimento dessas atividades. O potencial de expansão da produção de tiápias e da carcinicultura no Ceará é grande. O presidente da Associação Cearense dos Aquicultores (Aceaq), Camilo Diógenes, lembra da previsão da Adece de o estado saltar das atuais 35 mil para 240 mil toneladas de tilápia produzidas anualmente. Mas, segundo ele, é necessário que o governo federal agilize a questão da legislação ambiental no acompanhamento de outorgas pela Agência Nacional das Águas (ANA), no sentido de eliminar a postura restritiva à prática da atividade nos açudes federais e ampliar as áreas cultiváveis. “Pelo menos 70% do potencial aquícola cearense está em açudes da União”, explica Camilo, cuja entidade, reorganizada há cerca de dois anos, congrega 35 associados que concentram 70% da produção estadual. Segundo a Aceaq, a tilapicultura gera 3 mil empregos diretos no estado. São aproximadamente 1 mil produtores, em sua maioria associativistas, e entre 20 e 30 produtores de médio porte. O Ceará tem no Açude Castanhão o único caracterizado como parque aquícola e o maior produtor local. Envolve os municípios de Jaguaribara, Jaguaretama e Alto Santo. Dentro do diagnóstico do setor elaborado pela Aceaq com base nas bacias da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Estado (Cogerh) e na representatividade da produção, o Ceará está dividido em seis polos produtores. O Castanhão está situado na região do Médio Jaguaribe. Com as regiões Metropolitana (Aquiraz, Itaitinga, Caucaia, Aracoiaba, Guaiúba), do Alto Jaguaribe (açude Orós), e do Curu, ele responde por 85% da produção cearense.

Fazendas de camarão Com fortes investimentos em manejo, a carcinicultura do Ceará acaba de tomar a ponta do vizinho Rio Grande do Norte no cenário da produção nacional de camarão. Cento e oitenta fazendas atuam nos 5.760 hectares onde o crustáceo é produzido, e empregam cerca de 15 mil pessoas. A produção saltou de 24 mil toneladas em 2009 para 29 mil em 2010, até chegar a 31.270 em 2011. “O sucesso do manejo está em as fazendas trabalharem com mais água, aeração (melhoria do solo), oxigênio e bombeamento”, diz o presidente da Associação Cearense de Criadores de Camarão (ACCC), Cristiano Maia. Amadurecido, o setor conseguiu superar duas crises vividas da década passada. Primeiro, em 2005, os Estados Unidos acusaram os produtores brasileiros de dumping e impuseram uma taxação entre 35% e 50% ao camarão para lá exportado. Isso quase inviabilizou o setor a partir de 2006, quando ele voltou-se para a Europa — em especial a França —, e para o consumo interno. Entre 2008 e 2009, o camarão brasileiro começou a perder terreno europeu para países como Vietnã, Tailândia e Equador, que apresentam custos menores de cultivo. “No momento, não estamos exportando, e o mercado nacional absorveu toda a produção. Apesar de o preço de comercialização estar baixo no país, compensa investir na atividade”, esclarece Maia. O camarão de cativeiro no Ceará é criado nos estuários de rios, ambiente aquático de transição entre o rio e o mar, que têm as condições ideais para o cultivo da espécie.

Lagosta sob risco O Ceará produz 35 mil toneladas de tilápia anualmente, e a previsão é de que esse número se multiplique nos próximos anos

Crise que afeta a pesca da lagosta reduziu de 20 para oito o número de empresas exportadoras do crustáceo

EM NÚMEROS A carcinicultura do Ceará é desenvolvida em 180 fazendas e emprega 15 mil pessoas. A criação de tilápias gera 3 mil empregos diretos no Ceará. São aproximadamente 1 mil produtores, em sua maioria associativistas, e entre 20 e 30 produtores de médio porte. A produção nacional de pescado em 2010 foi de 1.264 mil toneladas, sendo 780 mil toneladas (62%) vindas da pesca e 479,3 toneladas (38%) da aquicultura.

Outrora primeiro item da pauta de exportações do Ceará, a lagosta já foi conhecida como “ouro do mar”, por ser vendida a preço superior ao de qualquer outro pescado. Nos últimos anos, a atividade tem declinado no estado, maior produtor do crustáceo no Brasil, em decorrência da pesca predatória e da falta de uma definição clara de competências quanto à fiscalização. Um sintoma dessa queda é a redução do número de empresas exportadoras — que chegaram a 20 e hoje são apenas oito —, devido à crise da atividade. Além disso, o preço, que já chegou a R$ 120 o quilo, caiu para cerca de R$ 30. O estado sempre produziu lagosta para vender para o mercado norte-americano, na forma de cauda congelada, que em tamanho representa apenas um terço do peso total da espécie. Para o engenheiro de pesca e analista ambiental do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) Paulo Lira, medidas de ordenamento para a atividade estão sendo tomadas desde os anos 60, mas as frequentes mudanças nos órgãos de controle e fiscalização e uma legislação dúbia têm sido prejudicial à atividade. “Outra coisa que caracteriza a pesca da lagosta é a tendência de tolerância com a pesca ilegal e a vulnerabilidade dos órgãos competentes a pressões. Até hoje não se deixou de pescar com rede”, aponta. Ele cita também o grande número de barcos ilegais, muitos deles pescando com apetrechos proibidos, como rede caçoeira e compressor para pesca de mergulho. “Hoje se captura lagosta pequena e durante o período do defeso. Lagostas ovadas continuam desembarcando e o número de barcos atuando sem permissão é maior do que os permissionados”, acrescenta Paulo Lira. Com uma área antes restrita aos estados do Ceará, Piauí e Maranhão, a pesca da lagosta se expandiu e hoje é realizada do Amapá ao Espírito Santo. Atualmente, algumas ações estão sendo desenvolvidas no sentido de recuperar a produção da lagosta no estado. Uma delas é o projeto Lagosta Viva, uma parceria da Universidade Federal do Ceará com o Ministério da Pesca, que consiste na instalação de módulos de recepção de lagosta viva nas praias de Redonda (Icapuí), Sucatinga (Beberibe), Mundaú (Trairi) e Itarema.

PRODUTORES DE CAMARÃO SUPERARAM DUAS CRISES NA DÉCADA PASSADA EXPEDIENTE Diretor de Redação: Josemar Gimenez (josemargimenez.df@dabr.com.br); Editora-chefe: Ana Dubeux (anadubeux.df@dabr.com.br); Editor executivo: Carlos Alexandre (carlosalexandre.df@dabr.com.br); Editor de Suplementos: Renato Ferraz (renatoferraz.df@dabr.com.br); Editor de arte: Amaro Jr. Editor de Fotografia: Luís Tajes (luistajes.df@dabr.com.br); Coordenação e edição: Ricardo Nobre, especial para o Correio; Reportagens: Andreh Jonathas Alexandrino, Marcel Bezerra, especiais para o Correio, eVerônica Machado; Diagramação: Andréa Paracat; Revisores: Fernanda Mourão, Gabriela Artemis e Sandro Xavier


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