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Diário de bordo – Nani Tavares


Quarta feira, último dia de seminário, sala de multimeios do IAP, dia 24 de fevereiro de 2010, às 14h30. Aqui estamos, eu, Alberto, Nando, Valéria, Vandi, Milton e Paulo dando início ao nosso último encontro dessa primeira etapa de trabalho. Como encaminhamento do dia, foi definido que eu, Nani, teria um tempo de uma hora para expor o tema: “Processo colaborativo – um sistema de criação polifônico”. Sugeri, então, que minha fala fosse mais uma conversa do que propriamente uma explanação, já que todos os criadores, de alguma forma, poderiam contribuir com o assunto. Decerto, foi o que aconteceu. O diálogo surgiu naturalmente. Minhas pontuações apenas indicavam os princípios que norteiam o processo colaborativo, e não que o definem, tendo em vista que esse não se reconhece como método (na acepção cientificista do termo), mas no âmbito das relações criativas que se inscrevem ao longo do processo de construção de um espetáculo teatral. Diante das vivências relatadas, pude perceber que as pessoas presentes já experimentaram esse tipo de prática de criação, mas com orientações e caminhos diversos. O Paulo Faria em oficinas com o Pessoal do Faroeste, a Vandiléia com o Galpão Cine Ortho, e o próprio Usina, em seus últimos espetáculos, o Parésqui e a Mandrágora, com a participação dos outros colaboradores desse processo, não citados. É importante destacar alguns aspectos que considero relevantes, em relação ao que foi discutido e apreendido com a fala de todos, sobre processo colaborativo: estou me referindo às relações de poder exercidas pelos criadores durante a construção do espetáculo teatral. A primeira é o das relações criativas, e é neste lugar que reside a horizontalidade das relações entre os participantes; e a segunda, é o espaço muito bem definido das funções de cada criador no processo, e aqui o grupo deve respeitar com rigor o papel de cada colaborador dentro do esquema criativo. Na segunda parte deste dia de seminário foi realizada a dinâmica sugerida por Alberto, desde o primeiro dia de encontro. Cada um deveria trazer uma proposta de encenação, ou induções para o processo criativo. Após o relato de cada criador, ficou constatado que esse foi mais um exercício que exprimia sensações, percepções, interpretações e imagens, do que propriamente, uma idéia de encenação. Milton apresentou um forte indutor para a construção do seu trabalho: de forma simples e verdadeira, tira de dentro de sua “bolsashíptica” o seu pequeno caroço de tucumã, e com ele o menino de Ponta de Pedras que carrega todas as impressões e memórias de sua infância. Milton aponta com esta apresentação, a necessidade de mergulhar enquanto ator, em sua dramaturgia pessoal, utilizando como matéria norteadora de seu trabalho, a memória afetiva de sua vida naquele lugar. Depois do Milton, foi minha vez. A princípio tinha como pretensão expor da forma mais objetiva possível as minhas idéias e sensações. Porém, no meio de minha apresentação, acabei


sendo tomada por um subjetivismo que vergou mais para um olhar interpretativo da obra, do que propriamente para uma proposta cênica precisa. Na minha fala tentei construir sentido entre os objetos cênicos que desenhei na cartolina, e a obra na qual estamos debruçados. Para isso utilizei como referencial simbólico o desenho do baú e da roda, que podem ser lidos sob o ponto de vista da mitologia grega, como uma metáfora dos sistemas da vida (natureza) experimentada pelo homem.

Vandiléia, de mdo objetivo, apresentou a tela de cinema como um forte indutor para o trabalho, determinando inclusive uma proposta de uso do espaço. Desenhou em uma cartolina, uma sala de cinema como sendo o lugar dessa representação.


Nando, através de um avançado programa de computador, apresenta sua idéia de encenação. O espaço é de um palco italiano, e o jogo cênico um ensaio entre os atores, com intervenção dos demais criadores na cena. Uma espécie de metalinguagem do próprio processo, calcada em uma dramaturgia, cenografia, musicalidade e representação, construídas e formalizadas num repertório de cenas.

Gunter, o nosso querido professor, e mais recente colaborador desse processo, defende que a abordagem dramatúrgica do romance deve partir da história do Eutanázio, personagem principal do Chove nos Campos de Cachoeira. Desenhou na cartolina o entrelaçamento deste com a personagem de Irene e Alfredo. Enquanto pintava Felícia de vermelho, Raquel de marron e Irene de uma espécie de roxo, Gunter cercou os espectadores em sua proposta de encenação. Cercamento mesmo, como uma metáfora de Ilha, de fronteira intransponível que existe tanto fora, quanto dentro de cada um de nós. Logo em seguida, precisou se retirar do seminário, por conta de um compromisso de trabalho. Estamos na expectativa que ele possa aceitar nosso convite para assumir o papel de dramaturgista nesse processo. Alberto, encenador desse processo e diretor do grupo, propõe radicalmente quatro propostas de trabalho individuais para os atores, segundo abordagens do romance que vergam para caminhos de gêneros dramatúrgicos completamente diferentes. AS QUATRO MORTES DE EUTANÁZIO foi o tema de sua proposta.


EU BOI. Para Milton, Alberto sugeriu que a pesquisa partisse de uma dramaturgia pessoal, trazida por relatos de sua infância no Marajó. Seu espaço de encenação seria uma arena, o tapete mágico do Peter Brock, e a abordagem da obra lírico poética, por meio de uma narrativa íntima. Na mímesis, pesquisaria crianças de Ponta de Pedras e fotos de sua família. Como objeto, Alberto sugeriu que Milton trabalhasse com um baú. QUERO VER DALCÍDIO DAR SUA RISADA. Para Valéria a indicação seria o da narrativa épica, seguido de um trabalho de mímesis, que buscaria a imobilidade, a economia de movimentos e a narração pura, sentada na cadeira, sem apelo a nenhum personagem. Sua investigação estaria entre a arte da representação e o da não representação, num corpo entre personagem e “narrador performer”. Seria uma espécie de narradora onipresente, em um espaço unitário, que procuraria a proximidade absoluta com o espectador, construindo com isso, uma espécie de intimidade doméstica. OS SETE NOIVADOS DE BITA. Para Vandiléia, Alberto sugeriu que trabalhasse com o texto dramático, a metamorfose pura, e personagens ficcionais. Buscaria no texto histórias cômicas, e as experimentaria em sala de ensaio com exercícios de improvisação. Seu espaço cênico seria de um mini palco italiano, com uma representação dramática, figurino e cenografia naturalistas. OS CONTOS PROIBIDOS DE FELÍCIA E DJ MELODY. Para mim, Alberto sugeria a linguagem da performance como matéria norteadora do meu processo de investigação sobre a obra do Dalcídio, e experimentos em sala de ensaio. Trabalharia diretamente como o Nando e o Léo, cabendo neste espaço todo o recurso tecnológico que iremos experimentar no decorrer do processo. Projeções, nudez, ruptura com a linearidade da estrutura narrativa convencional, e na relação entre performer (ator) e espectador. Um teatro pós moderno, que traria para o trabalho a escada utilizada como objeto cênico e cenográfico na Mandrágora, último espetáculo do grupo Usina. Como encaminhamento desse último dia de seminário, ficou definido uma avaliação a ser discutida na próxima reunião do grupo, ainda a ser marcada. Paulinho, como não estará mais em Belém, enviaria por escrito o diário de dois dias de trabalho do grupo, o do dia 22 e 23 de fevereiro, e mais sua avaliação. No mais, finalizamos aqui nosso primeiro seminário, muito felizes, cheios de informações e referências para darmos início à nossa próxima etapa de trabalho. Nani Tavares.



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