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recentes sobre as dependências online nos jovens e em adultos portugueses revelaram que a utilização problemática da Internet está associada a diversas alterações no estado de humor, no funcionamento familiar, nas relações sociais, entre outras.

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Principais Temas Segurança online A escola e as TIC Ciberbullying Redes sociais Jogos online Relações amorosas Funcionamento familiar Intervenção clínica nas dependências online

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COORDENADORES

Daniel Sampaio – Médico Psiquiatra, é Diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN) de 2014 a 2016. Professor Catedrático de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Autor de 26 livros sobre a adolescência, a família e a escola, e também de mais de uma centena de artigos em revistas científicas nacionais e estrangeiras.

ISBN 978-989-693-060-8

9 789896 930608

IVONE PATRÃO E DANIEL SAMPAIO

Ivone Patrão – Psicóloga Clínica, com Mestrado e Doutoramento em Psicologia da Saúde no ISPA – Instituto Universitário (ISPA-IU). Terapeuta Familiar e de Casal pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (SPTF). Docente e investigadora do ISPA-IU (Grupo de Investigação Promoting Human Potential). Colaboradora do Núcleo de Utilização Problemática da Internet (NUPI) do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN).

O PODER DAS TECNOLOGIAS

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O objetivo deste livro, escrito por vários especialistas que se dedicam à investigação e à intervenção clínica, e dirigido sobretudo aos profissionais e técnicos envolvidos na área das dependências, é dar a conhecer os aspetos positivos e negativos do consumo da Internet, percorrendo os principais temas de interesse; sugerindo um conjunto de orientações para a gestão dos comportamentos online, quer pelos jovens, quer pelas famílias ou até pela escola; apresentando exemplos nacionais e internacionais de intervenção psicossocial adequada aos casos mais problemáticos de dependência ao espaço virtual; e oferecendo uma abordagem de intervenção clínica múltipla (individual, familiar e de grupo) no tratamento do uso excessivo da Internet.

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Tal como noutros comportamentos associados ao consumo, estar online também traz prazer e gratificação, e será neste limite que é importante fazer-se uma gestão dos riscos para a saúde em geral e para a segurança de cada um. Uma gestão saudável dos comportamentos online passa por um uso da Internet adequado à idade, ao nível de desenvolvimento e às exigências académicas ou profissionais.

DEPENDENCIAS ONLINE

Estudos

IVONE PATRÃO E DANIEL SAMPAIO (COORD.)

DEPENDENCIAS ONLINE O PODER DAS ^

TECNOLOGIAS

PREFÁCIO DE ISABEL LEAL


EDIÇÃO PACTOR – Edições de Ciências Sociais, Forenses e da Educação Av. Praia da Vitória, 14 A – 1000-247 LISBOA Tel: +351 213 511 448 pactor@pactor.pt www.pactor.pt DISTRIBUIÇÃO Lidel – Edições Técnicas, Lda. R. D. Estefânia, 183, R/C Dto. – 1049-057 LISBOA Tel: +351 213 511 448 lidel@lidel.pt www.lidel.pt

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Índice Os Autores.............................................................................................................. XI Prefácio................................................................................................................... XIX Isabel Leal Introdução............................................................................................................... XXIII Ivone Patrão e Daniel Sampaio 1 Um desafio dos tempos modernos: A Internet e as novas gerações ......... 1 Cristina Ponte Introdução............................................................................................................ 1 Jovens, culturas de pares e meios digitais............................................................ 3 Os Media na Cultura de Pares Face a Face..................................................... 4 A Cultura de Pares Gerida pelo Telemóvel....................................................... 4 A Cultura de Pares na Internet......................................................................... 5 Da Internet cega à idade aos direitos digitais de crianças e de jovens.................. 10 Considerações finais............................................................................................ 17 Bibliografia........................................................................................................... 18 2 A segurança e a Internet.................................................................................. 21 António Luís Valente e António José Osório Introdução............................................................................................................ 21 O que é a segurança?.......................................................................................... 22 Segurança e privacidade digital: desafios reais!.................................................... 23 Riscos de segurança: porque nos preocupamos?................................................ 27 A Internet: conhecer, utilizar e educar................................................................... 32 A Internet das pessoas: as redes sociais na e fora da Internet.............................. 34 © PACTOR

As Redes Sociais............................................................................................ 35 A socialização de pequenos grupos........................................................... 36 A importância do perfil nas redes sociais.................................................... 38


VI

DEPENDÊNCIAS ONLINE

A rede social é o público............................................................................ 39 A Internet das coisas: onde está a Internet?......................................................... 40 Comportamentos, Adrenalina e Risco............................................................. 43 Considerações finais............................................................................................ 45 Bibliografia........................................................................................................... 48 Glossário de segurança na Internet...................................................................... 51 3. A relação entre a escola e as TIC: que desafios?.......................................... 53 Rita Brito, Ana Luísa Rodrigues e Fernando Albuquerque Costa Introdução............................................................................................................ 53 A educação no século XXI: tecnologias e escolas................................................. 54 Mais-valias das tecnologias digitais na educação................................................. 55 Fatores que Influenciam a Integração das Tecnologias na Escola.................... 57 Cultura da escola....................................................................................... 57 Apoio das lideranças.................................................................................. 58 Competências tecnológicas dos professores............................................. 58 Atitudes e crenças dos professores............................................................ 58 Metodologia utilizada na sala de aula......................................................... 59 Formação inicial......................................................................................... 59 Formação contínua.................................................................................... 59 Tempo para exploração das tecnologias.................................................... 59 Acessibilidade............................................................................................ 60 Apoio técnico............................................................................................. 60 Professores, Alunos e Tecnologia.................................................................... 61 Os professores........................................................................................... 62 Os alunos................................................................................................... 64 As tecnologias e a educação: novas abordagens................................................. 64 Formação Ativa de Professores....................................................................... 65 Modelo F@R (Formação-Ação-Reflexão)......................................................... 68 Self Organized Learning Environment.............................................................. 69 Considerações finais............................................................................................ 71 Bibliografia........................................................................................................... 72 4 Ciberbullying: O papel dos pais, da família e da escola................................ 75 Introdução............................................................................................................ 75 Ciberbullying: uma nova forma de bullying?.......................................................... 76

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Ana Tomás de Almeida e Patrícia Gouveia


ÍNDICE

VII

Competência e vulnerabilidade ............................................................................ 79 Os pais................................................................................................................. 80 Os pares.............................................................................................................. 81 A escola: estudos e visões para a intervenção...................................................... 83 O programa de intervenção: uma vida na escola ou uma escola para a vida?...... 86 Considerações finais............................................................................................ 91 Bibliografia........................................................................................................... 93 Glossário.............................................................................................................. 95 5  Os comportamentos e as preferências online dos jovens portugueses: o jogo online e as redes sociais ..................................................................... 97 Ivone Patrão e Pedro Hubert Introdução............................................................................................................ 97 Os comportamentos online.................................................................................. 98 Preferências online............................................................................................... 99 Perfis de risco...................................................................................................... 101 Perfil das raparigas: as redes sociais.................................................................... 102 As redes sociais e o uso problemático da Internet................................................ 103 Perfil dos rapazes: o jogo online........................................................................... 104 O jogador patológico online.................................................................................. 106 Jogador Patológico: Fatores de Risco............................................................. 107 Porquê o jogo online?........................................................................................... 108 As Emoções Online......................................................................................... 110 Outras Motivações para o Jogo Online............................................................ 111 Jogo Patológico Online: Sinais de Alerta......................................................... 112 Perfil do Jogador Patológico Online................................................................. 113 Considerações finais............................................................................................ 114 Bibliografia........................................................................................................... 115 6 As relações amorosas e a Internet: Dentro e fora da rede........................... 117 Rui Miguel Costa e Ivone Patrão Introdução............................................................................................................ 117 O mundo real....................................................................................................... 118 As vantagens do mundo online............................................................................ 119 © PACTOR

Problemas com o mundo online........................................................................... 120 As redes sociais e os ciberrelacionamentos.......................................................... 120 O cibersexo e a pornografia online....................................................................... 122


VIII

DEPENDÊNCIAS ONLINE

Importância dos estilos de vinculação.................................................................. 122 Relações e adolescência...................................................................................... 123 Diferença de Sexos?....................................................................................... 125 O prazer sexual online.......................................................................................... 126 Porquê o recurso às ciberrelações e ao cibersexo? ............................................. 127 A falta de informação sensorial............................................................................. 128 Considerações finais............................................................................................ 130 Bibliografia........................................................................................................... 131 7 O funcionamento familiar, o bem-estar e o uso da Internet......................... 133 Ivone Patrão, Mariana Machado e Rita Brito Introdução............................................................................................................ 133 O modelo familiar e o uso das tecnologias............................................................ 134 Famílias com Crianças Pequenas.................................................................... 135 Dispositivos preferidos das crianças com menos de 6 anos....................... 136 Mediação dos pais na utilização de meios digitais...................................... 137 Famílias com Adolescentes............................................................................. 139 A tecnologia e o (des)encontro de gerações......................................................... 141 Qual a Perceção dos Pais Sobre o Uso das Tecnologias e da Internet?........... 141 O Controlo Parental......................................................................................... 142 Vinculação e abuso das tecnologias..................................................................... 143 Estilos Parentais e Abuso das Tecnologias...................................................... 144 Estrutura e Funcionamento Familiar e Abuso das Tecnologias......................... 144 Quando os pais abusam das tecnologias................................................... 145 Educação e novas tecnologias............................................................................. 146 Os Pais Educam Através do Próprio Modelo?................................................. 146 Considerações finais............................................................................................ 147 Bibliografia........................................................................................................... 147 8 As dependências online: controvérsias e perfis............................................ 151 João Reis, Samuel Pombo, Rita Barandas, Marta Croca, Sofia Paulino, Sérgio Carmenates, Ivone Patrão e Daniel Sampaio Introdução............................................................................................................ 151 Controvérsias: existirá utilização problemática da Internet e será uma Relação com as outras dependências.................................................................. 153 Existem diferenças entre culturas?....................................................................... 156

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dependência? ..................................................................................................... 152


ÍNDICE

IX

O meu filho está em risco? .................................................................................. 158 O papel dos pais: a adolescência como período de maior risco para o UPI.......... 159 Implicações no funcionamento académico e profissional...................................... 162 Considerações finais............................................................................................ 164 Bibliografia........................................................................................................... 165 9 Intervenção clínica nas dependências online................................................ 169 Ivone Patrão, João Reis, João Gonçalves, Bernardo Moura, Cristiano Nabuco de Abreu e Daniel Sampaio Introdução............................................................................................................ 169 Intervenção mais eficaz nos casos de UPI............................................................ 170 Entrevista Motivacional.................................................................................... 171 Terapia Cognitivo-Comportamental................................................................. 171 Intervenção com a Família............................................................................... 173 Uso de Psicofármacos.................................................................................... 173 Intervenções no UPI a nível mundial..................................................................... 174 Ásia................................................................................................................. 174 Estados Unidos da América............................................................................ 175 Brasil............................................................................................................... 175 Grupo de psicoterapia................................................................................ 176 Grupo de orientação para cônjuges/pais.................................................... 178 Palestras mensais abertas à população..................................................... 179 Europa............................................................................................................ 179 Portugal..................................................................................................... 180 Intervenção com os jovens: o que se faz?............................................................ 182 Intervenção com as famílias: o que se faz?........................................................... 182 Considerações finais............................................................................................ 184 Bibliografia........................................................................................................... 185

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Índice Remissivo.................................................................................................... 187


Os Autores COORDENADORES E AUTORES

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Ivone Patrão Psicóloga Clínica, com Mestrado e Doutoramento em Psicologia da Saúde no ISPA – Instituto Universitário (ISPA-IU). Terapeuta Familiar e de Casal pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (SPTF). Desenvolve há vários anos intervenção clínica no Serviço Nacional de Saúde, com crianças, jovens e famílias, em particular na área das dependências da Internet ao longo dos últimos anos. Docente e investigadora do ISPA-IU (Grupo de Investigação Promoting Human Potential), com publicação de vários artigos científicos e livros. Colaboradora do Núcleo de Utilização Problemática da Internet (NUPI) do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM – CHLN). Técnica Superior de Saúde na Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT, IP). Editora Associada da Psychology, Community & Health Journal. Daniel Sampaio Médico Psiquiatra, é Diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN) de 2014 a 2016. No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, organizou o atendimento de jovens em risco de suicídio e com perturbações do comportamento alimentar. Professor Catedrático de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Autor de 26 livros sobre a adolescência, a família e a escola, e também de mais de uma centena de artigos em revistas científicas nacionais e estrangeiras.


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AUTORES Cristina Ponte Professora Associada com Agregação no Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde concluiu o seu Doutoramento em 2002. Tem investigado a relação entre media e gerações, com foco em crianças e jovens, desde os anos 90. Coordenadora da equipa portuguesa na rede europeia de investigação EU Kids Online desde o seu início, é atualmente membro da sua direção e da direção do projeto Global Kids Online, com participação da UNICEF. Coordenou os projetos Inclusão e Participação Digital (2009-2011) e Crianças e Jovens em Notícia (2005-2007), ambos financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Autora e editora de 13 livros e de dezenas de capítulos e artigos sobre temáticas relativas à relação entre crianças e media, bem como ao estudo do jornalismo, em revistas nacionais e internacionais.

António José Osório Professor Associado, com Agregação, da Universidade do Minho, membro do Departamento de Estudos Curriculares e Tecnologia Educativa do Instituto de Educação e investigador do Centro de Investigação em Educação, sendo coordenador do grupo de investigação em Tecnologias, Multiliteracias e Curriculum. Com Doutoramento em telemática educacional na Universidade de Exeter, no Reino Unido, prestou provas de agregação em Ciências da Educação, na especialidade de Tecnologia Educativa, na Universidade do Minho. Tem experiência docente na formação inicial e contínua de educadores e professores e experiência de investigação em telemática educacional, além de coordenar vários projetos de

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António Luís Valente Doutor em Estudos da Criança, na especialidade de Tecnologias de Informação e Comunicação, grau conferido pela Universidade do Minho em 2011.Tem experiência docente no Ensino Básico e Superior, bem como na formação contínua de professores. Exerce funções técnico-pedagógicas no Centro de Competência em TIC na Educação do Instituto de Educação da Universidade do Minho, onde também desenvolve investigação no domínio da aplicação educativa das novas tecnologias. Participa regularmente em projetos nacionais e internacionais de inovação educativa, estando ligado a projetos de promoção da utilização segura da Internet desde 1999.


OS AUTORES

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investigação, nacionais e internacionais, no âmbito da Tecnologia Educativa ou das Tecnologias de Informação e Comunicação na Educação. Diretor de ciclos de estudos a nível de mestrado e orientador de diversos projetos de mestrado e doutoramento, nessas áreas de especialização. Rita Brito Licenciada em Educação de Infância e realiza Pós-Doutoramento na Universidade do Minho sobre a utilização de tecnologias por famílias e crianças até 6 anos de idade. Doutorada pela Universidade de Málaga em tecnologias educativas na educação pré-escolar. Investigadora da Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Educação e Formação (UIDEF), no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (IE-UL). Pertence à coordenação do Mestrado em Educação Pré-escolar e 1.º Ciclo, no Instituto Superior de Educação e Ciências. A sua investigação centra-se na utilização de tecnologias por crianças até 6 anos de idade e na formação de educadores de infância. Tem vários artigos publicados em revistas nacionais e internacionais, assim como capítulos de livros. Membro de vários projetos de investigação nacionais e internacionais, como as ações “COST eREAD” e “DigiLitey”, “Let’s try ICT” e “Young Children (0-8) and Digital Technology”, da Comissão Europeia.

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Ana Luísa Rodrigues Professora Assistente Convidada no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, formadora de professores e professora profissionalizada do Ensino Básico e Secundário. Mestre em Ensino de Economia e de Contabilidade pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (IE-UL) e possui também mestrado em Gestão e Estratégia Industrial pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade Técnica de Lisboa e licenciatura em Organização e Gestão de Empresas. Tem desenvolvido nos últimos anos a sua atividade profissional em várias instituições de ensino público e privado, nas áreas pedagógica, da economia e da gestão, com a publicação de diversos artigos científicos, na área da integração das tecnologias digitais no processo de ensino-aprendizagem. Fernando Albuquerque Costa Licenciado em Psicologia e Doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Lisboa. Professor Auxiliar no Instituto de Educação da mesma universidade (http://aprendercom.org/comtic/). Coordenou em Portugal diferentes projetos europeus: PEDACTICE (1997-2000), sobre avaliação de software multimédia


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educativo; IPETCCO (2001-2004), sobre inovação das práticas pedagógicas; DIGIFOLIO (2005-2008), sobre portefólios eletrónicos e desenvolvimento profissional de professores; e TACCLE2 (2011-2014), sobre desenvolvimento de atividades com tecnologias. Para o Ministério da Educação, coordenou a equipa interuniversitária responsável pelo estudo Competências de professores em TIC (2008/2009), a equipa responsável pela elaboração das Metas de Aprendizagem na área das TIC (2010), e o projeto de Ensino à Distância para a Itinerância (2010-2013). Presentemente, coordena o projeto Amadora Aprender Digital (2016-2019), projeto de investigação-ação com o propósito de estimular o uso de tecnologias digitais em escolas do 1.º Ciclo do concelho da Amadora. Ana Tomás de Almeida Licenciada em Psicologia pela Universidade de Lisboa e com Doutoramento em Estudos da Criança pela Universidade de Minho. Professora Associada do Departamento de Psicologia da Educação e Educação Especial, no Instituto de Educação da Universidade do Minho. Diretora do Mestrado em Estudos da Criança, Especialidade de Intervenção Psicossocial com Crianças, Jovens e Famílias. Os seus temas de investigação, publicações, atividades de extensão universitária estão relacionados com o desenvolvimento interpessoal no contexto da família e da escola, parentalidade positiva e educação parental, relações entre pares em contexto escolar, bullying e cyberbullying.

Pedro Hubert Psicólogo, possui Doutoramento baseado na Investigação “Caracterização e comparação de jogadores patológicos offline e online em Portugal”. Diretor do Instituto de Apoio ao Jogador (IAJ) e da Linha de Ajuda ao Jogador (LAJ) desde 2009. Faz atendimento clínico na área das dependências e em particular com jogadores e respetivas famílias desde 2004. Colabora com o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) e Administração

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Patrícia Gouveia Assistente Convidada no Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz (ISCSEM). Psicóloga, Licenciada em Psicologia Clínica pelo ISCSEM. Mestre e doutoranda em Psicologia da Saúde no ISPA – Instituto Universitário (ISPA-IU), com bolsa de doutoramento financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) (SFRH/BD/81009/2011). Investiga nas áreas da adolescência, da agressão e violência escolar, da sexualidade e da saúde.


OS AUTORES

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Regional da Saúde (ARS) na área do problema de jogo e também na formação. Dá supervisão e formação na área do jogo em comunidades terapêuticas e a outros técnicos de saúde. Autor do livro O problema do jogo e o tratamento da dependência invisível. Rui Miguel Costa Licenciou-se em Psicologia Clínica e completou o mestrado em Sexologia na Universidade de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. Em 2011, doutorou-se em Psicologia na University of the West of Scotland. Presentemente, é investigador pós-doutoral e membro integrado do William James Center for Research, no ISPA – Instituto Universitário (ISPA-IU), em Lisboa. Autor de mais de 30 artigos científicos em revistas internacionais com revisão por pares. Mariana Machado Psicóloga Clínica e da Saúde, é Mestre em Psicologia da Saúde pelo ISPA – Instituto Universitário (ISPA-IU). Investigadora na área das dependências, com foco no uso problemático da Internet e, atualmente, a realizar o estágio profissional na área das toxicodependências. João Reis Assistente Convidado da cadeira de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Assistente hospitalar no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, onde tem desenvolvido trabalho na área da utilização problemática da Internet e dependências comportamentais, da psiquiatria geriátrica e psiquiatria comunitária. Membro do Núcleo de Utilização Problemática da Internet (NUPI) do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN).

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Samuel Pombo Psicólogo Clínico do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN). Professor Auxiliar Convidado de Psicologia Médica da Faculdade Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Doutorado em Ciências e Tecnologias da Saúde, Especialidade em Desenvolvimento Humano pela FMUL. Sócio da Associação Portuguesa de Terapias Comportamental e Cognitiva (APTCC). Autor e revisor de vários artigos científicos publicados em revistas indexadas.


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Rita Barandas Médica Psiquiatra, exerce funções no Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN). Assistente Livre de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Integra o Núcleo de Utilização Problemática da Internet (NUPI) do HSM, participando nas atividades clínicas e de investigação. Marta Croca Licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), onde exerce atualmente funções como docente da cadeira de Psiquiatria. Médica no Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN), onde tem desenvolvido trabalho na área da utilização problemática da Internet, da psiquiatria do adolescente e do primeiro episódio psicótico. Sofia Paulino Assistente Livre de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Médica Interna de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN). Sérgio Carmenates Médico Interno de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN). Presentemente, integra o Núcleo de Utilização Problemática da Internet (NUPI) do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN).

Bernardo Moura Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Médico Interno de Psiquiatria no Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN), onde colabora com o Núcleo de Utilização Problemática da Internet (NUPI).

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João Gonçalves Médico Interno de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN). Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Membro fundador da Associação Portuguesa de Psicopatologia.


OS AUTORES

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Cristiano Nabuco de Abreu Psicólogo, tem Aprimoramento em Psicoterapia Focada nas Emoções pela York University de Toronto, no Canadá, e Mestrado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade do Minho e Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Coordenador do Grupo de Dependência Tecnológica do Programa dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) do Instituto de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Núcleo Perseus Terapias Virtuais de São Paulo (SP) e Diretor do Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Terapias Cognitivas (SBTC). Colunista (“Blog do Dr. Cristiano Nabuco”) do Universo Online (UOL). Autor de 10 livros sobre saúde mental, psicologia e psiquiatria, além de centenas de artigos.


Prefácio

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Isabel Leal

No mundo contemporâneo habituamo-nos a ouvir falar de dependências. Primeiro as dependências químicas, as chamadas toxicodependências que marcaram de forma terrível as gerações das últimas décadas do século XX e depois, no alvorecer do novo milénio, um outro conjunto de comportamentos humanos capazes de suscitar o mesmo caráter impulsivo e compulsivo: o jogo, as compras, o sexo, a comida, a atividade física e até a Internet. Dessa experiência socialmente traumática sobre os malefícios das dependências prevalece até hoje uma atitude angustiada já que se foi percebendo que a questão era por demais complexa. Foi-se dando conta que o problema não existia apenas no consumo de determinadas substâncias, uma vez que objetos, atividades e comportamentos que fazem parte do nosso reportório habitual de respostas individuais e sociais se podem transformar em adições, quer dizer, podem tornar-se no foco principal da vida de um dado sujeito, implicando prejuízos sensíveis de enorme impacto social, psicológico e físico. Este ganho de consciência sobre, por um lado, circunstâncias, fases da vida ou características de personalidade que tornem os sujeitos mais vulneráveis a ligar-se de forma aditiva a produtos ou a atividades e, por outro, sobre especificidades dos próprios produtos e atividades que facilitam vínculos patológicos, tornou-se uma preocupação geral. Uma preocupação individualizada, mas também circulando socialmente, de pais e de educadores, e também de meros cidadãos, que têm hoje a perceção de que promover e manter um almejado equilíbrio não é uma tarefa nem fácil nem facilitada. A mais atual dessas preocupações é capaz de ser a que se relaciona com a Internet. A Internet, os computadores, os novos meios de comunicação e


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entretenimento que invadiram os espaços públicos e privados e fazem parte do nosso estilo de vida. De repente, demos conta de que vivemos num mundo que roda em torno de ecrãs. E nós debruçados sobre eles. Ecrãs de televisões, de PC, de tablets, de smartphones. Aos bebés pequenos já se dá, qualquer dia como prenda de enxoval, dispositivos móveis para eles verem e ouvirem a gosto, bonecos e musiquinhas. Qualquer criança de 3 anos manipula com maestria os dispositivos eletrónicos a que a deixam aceder e vai buscar os filmes que prefere e as canções que conhece de cor para nos desafiar a ver ou ouvir com ela. Os miúdos na escola começam a aprender em tablets, muito mais práticos já que condensam num único e pequeno objeto resmas de livros e, por isso, também se lhes tira de cima o carrego das pesadas mochilas. Até os animais de estimação já têm um canal de cabo para, diz a publicidade, não se sentirem sozinhos em casa quando os donos trabalham. Muitos adultos passam muitas horas por dia a trabalhar em frente a ecrãs de computadores. Façam o que fizerem, tenham a profissão que tiverem, têm de viver estruturados nos seus desempenhos profissionais por softwares pensados para facilitar, senão a vida deles, pelo menos a das empresas que têm nos computadores formas seguras de armazenar e gerir informação. Falar de computadores, hoje, é falar sobretudo de Web. Se toda a gente introduz dados, muito úteis e relevantes para o sistema, a grande conquista é ter esses dados disponíveis numa qualquer cloud e toda a gente contar com a Net para encontrar a informação de que precisa para trabalhar. Todos produzem documentos, escrevem emails, respondem a emails, fazem as pesquisas que têm de fazer e, quando largam o ecrã daquilo que é trabalho, agarram num outro qualquer dispositivo para se manterem ligados, para continuarem em conexão e fazerem aquilo que as pessoas do nosso tempo fazem permanentemente: enviar mensagens aos filhos, aos cônjuges, aos pais, aos amigos. Falamos com eles, dizemos nós, escrevendo num ecrã, pequenino e portátil, as recomendações, as irritações, as indicações, os recados e os desabafos. No lazer lá estamos nós de novo colados ao ecrã. Vemos os filmes e os vídeos, lemos as notícias, jogamos sozinhos ou online. Ainda há, claro, as redes sociais onde nos inteiramos do que acontece na vida dos nossos conhecidos e amigos com quem não temos tempo para estar e conversar.

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PREFÁCIO

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Depois, às vezes, para descansarmos, sentamo-nos no sofá em casa e olhamos distraídos para a televisão. No meio de tudo isto reparamos nas pessoas que vão nos transportes públicos coladas aos seus smartphones e indiferentes a tudo o mais que as rodeia; nos casais que sentados frente a frente na mesa do restaurante mal conversam entre si porque estão conectados com outros que lhes chegam pelo ecrã; nas histórias que os pais contam sobre os filhos que mal saem do quarto para jantar porque estão perdidos numa galáxia apaixonante que um jogo online lhes apresentou. Reparamos neles e em nós que perdemos as estribeiras quando não há wi-fi, como se, ter rede, estar em rede, fosse um bem de primeira necessidade. Mudou o mundo e mudámos nós. Mudámos tanto que, por vezes, temos dificuldade em saber quais são e devem ser os valores em uso perante uma realidade que há menos de 20 anos se estranhou e de lá para cá se foi entranhando como parte irremediável do nosso quotidiano. É nesse contexto que se torna não só pertinente mas mesmo relevante podermos contar com este livro sobre Dependências Online. Fala-se de dependência e risco e explanam-se algumas das intervenções clínicas que têm sido usadas, mas fala-se também de todo o movimento que trouxe a Web para o meio de nós. Fala-se de alguns perigos que ela comporta, mas também das vantagens que nos tem proporcionado. Discute-se como tem interferido nas relações amorosas e familiares e como tem impactado as nossas produções culturais. A ideia de Dependências Online julgo que é a de nos abrir perspetivas para um trabalho fundamental de elaboração, que cabe a cada um de nós realizar, sobre aquilo que queremos que sejam as tecnologias de informação e comunicação e, em especial, tudo o que é mediado pela Internet. Precisamos de, no registo do privado, esclarecer o valor que atribuímos àquilo que a tecnologia nos possibilita e devemos saber o que queremos usar e também o que seletivamente negligenciar. A Internet veio para ficar. Nestes últimos 20 anos não tem parado de crescer, de se desenvolver, de potenciar novos recursos e de nos colocar perante ameaças e perigos que nem sabíamos que podiam existir. Dizem os que sabem que ainda agora a procissão vai no adro, que é como quem diz, que tempos vindouros trarão novas camadas de possibilidades que afetarão ainda mais a forma como nos relacionamos uns com os outros, como trabalhamos, como negociamos, como acedemos ao conhecimento e à informação.


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DEPENDÊNCIAS ONLINE

Por tudo o que é e há de ser parece bem que sejamos e queiramos ser cidadãos conscientes.

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Isabel Leal Professora Catedrática do ISPA-Instituto Universitário Investigadora do William James Center for Research


Introdução

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Ivone Patrão e Daniel Sampaio

O uso da Internet veio revolucionar a comunicação e o acesso à informação. Nas últimas décadas existiu uma rápida difusão da Internet a nível mundial. O número de utilizadores da Internet, por 100 pessoas, aumentou 806% de 2000 a 2015. O telemóvel é o dispositivo mais utilizado para aceder à Internet de forma rápida, com um número estimado de 4,43 mil milhões de utilizadores no mundo em 2015. Outro dado interessante é o crescimento dos contratos de banda larga fixa, numa escala de mais de três vezes, de cerca de 150 milhões em 2004, para quase 547 milhões até ao final de 2010. Atualmente, como seria viver sem Internet? Claro que alguns ainda se lembram como era viver sem Internet. Há quem ainda não use a Internet de forma regular e sistemática, nem por lazer nem no trabalho. Mas outros usam as tecnologias quase como uma extensão de si próprios. Como todas as invenções tecnológicas, o sentimento que persiste é de progresso na história da humanidade, com vantagens e desvantagens a todos os níveis. Existem aplicações online que permitem que famílias em pontos diferentes do mundo se possam ver e comunicar. Já existem também programas online de acompanhamento de doentes, em diferentes áreas, como por exemplo na gestão da doença crónica. O que permite maior adesão, pelo conforto de não ser necessário sair de casa. Com esta revolução tecnológica, será que se está a caminhar para a prevalência de relações virtuais?


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O ser humano não consegue viver só assim, virtualmente. Tem necessidade do toque, do olhar, de comunicar com o outro na sua presença física. Andrew Keen é um dos autores mais polémicos nesta área, com um livro – Vertigem Digital, datado de 2012 – sobre o impacto psicológico e a invasão da privacidade pelo uso das diferentes aplicações online. Alguns estudos com jovens apontam como desvantagem para a saúde no geral o uso excessivo da Internet, que pode ser causa ou efeito de problemas emocionais e relacionais. Alguns autores falam de dependência da Internet, outros de uso problemático da Internet, mas referindo-se ao mesmo tipo de sintomatologia e aos diferentes graus de severidade. A questão central é desde logo perceber se existe um uso específico ou generalizado, i.e., se há um consumo excessivo de funções específicas online (e.g., jogos, compras, redes sociais, pornografia) ou se existe um consumo multidimensional associado a passar o tempo online sem atividade específica. Qualquer um destes tipos de uso da Internet quando excessivo será problemático pelo impacto adverso nas rotinas diárias, na performance académica e/ou laboral, na relação familiar e no estado emocional. Na adolescência uma das tarefas principais está associada à pertença a um grupo de pares, que vai permitir desenvolver as competências sociais e passar para a conquista de uma relação amorosa. Atualmente uma parte desta tarefa passa-se de forma virtual. Há algum problema? Não, desde que essa não seja a única via de relação e comunicação. É mais fácil expor-se com o escudo da Internet. Por isso, pais, professores e comunidade em geral deverão estar sensibilizados para este fenómeno. É importante que todos estejam informados e que se discuta esta temática. Da partilha de ideias entre todos, i.e., comunidade (jovens, pais, professores, empregadores e técnicos) resultarão consensos sobre um comportamento saudável online e uma gestão integrada das tecnologias na rotina diária. Nos adolescentes portugueses parece existir uma tendência para procurar ajuda online quando têm algum problema (e.g. conflito com os pais, com os pares, com os professores). A baixa autoestima, o isolamento, a depressão e a baixa perceção da coesão familiar estão associados ao uso problemático da Internet. Já nos adultos portugueses ativos no mercado de trabalho parece que a baixa performance e a fadiga estão associadas ao uso problemático da Internet. Ter uma rede de suporte assume aqui um duplo significado, i.e., ter uma rede física e virtual em cooperação.

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INTRODUÇÃO

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Neste livro, que apresenta os saberes de diferentes especialistas, que se dedicam à investigação e intervenção clínica, percorrem-se as principais temáticas de interesse, num continuum que passa pela compreensão do que a revolução tecnológica traz para as novas gerações (os nascidos digitais), por um alerta relativo à segurança online, pelos olhares dos professores, dos pais, das crianças e dos jovens sobre o uso da Internet e das funções que nela se podem aceder, terminando numa abordagem psicopatológica e de intervenção clínica múltipla (individual, familiar e de grupo) em situações que preenchem os critérios de diagnóstico da dependência da Internet. É transmitida uma perspetiva compreensiva do fenómeno da gestão dos comportamentos online, por crianças, jovens e adultos, deixando exemplos, nacionais e internacionais, de intervenção psicossocial adequada para os casos mais problemáticos.


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Um desafio dos tempos modernos: A Internet e as novas gerações Cristina Ponte

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INTRODUÇÃO Há cerca de 20 anos, num dos primeiros estudos, em Portugal, sobre a relação de crianças (8-10 anos) com a televisão (TV), à pergunta sobre o que escolheriam, entre ver um programa de TV de que gostassem muito ou sair para fazer um piquenique com amigos, perto de três quartos elegeram a segunda opção. Essa resposta foi mais referida por raparigas e por crianças de meio urbano e de famílias de meios sociais mais abastados, como se essas crianças dispusessem de menos espaços abertos para responderem às suas necessidades de desenvolvimento psicossocial, como escreve Manuel Pinto, o autor deste estudo[1]. Atualmente, nas condições da TV digital, a alternativa entre o piquenique e o programa de televisão já não teria sentido para muitas crianças portuguesas; caso optassem pelo piquenique, certamente ficariam registadas, nos telemóveis dos participantes, imagens para serem partilhadas nas redes sociais digitais. Mas, nem por isso esses momentos de brincadeira ao ar livre serão hoje mais frequentes para as crianças. Mais de dois terços dos portugueses vivem em áreas urbanas, que se expandiram nas últimas décadas. Apesar de Portugal ser um país


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relativamente seguro, em termos europeus e internacionais, a perceção da rua como um lugar de perigo e de insegurança faz com que a mobilidade dos mais novos seja reduzida, com muitos deles a verem o mundo através das janelas dos carros de família. As novas gerações estão a crescer em condições muito diferentes das que rodearam os seus pais, eles próprios também com infâncias distintas das dos seus pais. As memórias de infância de pais e de avós recordam brincadeiras de praceta ou nos campos, com crianças da mesma idade; havia mais crianças nas famílias, mais irmãos, mais primos. Com o decréscimo no número de filhos, em Portugal as crianças crescem mais sozinhas, muitas são o único filho, neto, sobrinho, numa nova posição relativa e foco de atenção sobre si. A expansão das catedrais de consumo e do mercado das tecnologias de uso doméstico e cada vez mais pessoal tem uma história recente, que se acelerou nos últimos anos. Os recursos tecnológicos – do computador de secretária aos portáteis, ecrãs táteis e smartphones – tornaram-se mais acessíveis e populares. Foi em 2009 que a Internet passou a ser usada por mais de metade da população portuguesa, vários anos mais tarde do que em países do Norte europeu. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2014, 65% dos agregados familiares tinham acesso à Internet, sendo a presença de crianças um fator de diferença. Em famílias com crianças até 15 anos, o acesso supera, de longe, a média nacional, estando próximo dos 90%. A idade é, assim, um importante fator de diferenciação na sociedade portuguesa: entre os jovens portugueses de 16 a 24 anos, o acesso à Internet é praticamente pleno (98%), decaindo nas faixas etárias seguintes, mas ainda atingindo 59% das pessoas entre os 45 e os 54 anos, a faixa etária em que se encontram muitos pais de crianças e de adolescentes. Acima dos 55 anos, os valores descem para menos de um terço das pessoas dessa faixa etária. Os internautas portugueses com mais de 15 anos distinguem-se ainda por liderarem no uso das redes sociais digitais no contexto europeu. Em 2014, 70% usavam essas redes, para uma média de 57% nos 28 países da União Europeia. Dos internautas portugueses que usam redes sociais, 98% têm um perfil no Facebook, de longe a rede social mais popular. O envio de mensagens é a sua atividade mais frequente (85%); marcar “gosto” nas páginas de outros, usar o chat e comentar publicações são usos de mais de dois terços; criar álbuns fotográficos e assinalar aniversários de amigos são práticas de mais de metade destes internautas[2].

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A segurança e a Internet António Luís Valente e António José Osório

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INTRODUÇÃO Fazendo parte das nossas vidas, de tal modo que já não nos imaginamos sem a utilizar no quotidiano, a Internet, ainda assim, deixa-nos perplexos a ponto de nos levar a refletir sobre a qualidade e a intensidade do seu uso. Saber utilizar a Internet em segurança ou como lidar com os perigos quando se correm riscos, nem sempre involuntários, implica estudo e intervenção especializada. Neste capítulo, partilhamos uma perspetiva construída a partir de vivências muito enriquecedoras com crianças, jovens e adultos em várias funções educativas formais ou informais. Começamos por nos deter um pouco no conceito de segurança, após o qual analisamos a relação entre segurança e privacidade. Procuramos, em seguida, justificar a relevância de conhecer a Internet das pessoas e a Internet das coisas, para que possam ser utilizadas adequadamente nas nossas vidas, designadamente no processo educativo. Depois de refletirmos sobre dano, adrenalina e risco, ilustramos algumas descobertas da investigação recente e em contextos que nos são familiares, para concluirmos sublinhando a necessidade de, colaborativamente, prosseguirmos com investigação e ação educativa, mediadora e participante.


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O QUE É A SEGURANÇA? Segurança é um conceito tão complexo que se torna quase impossível defini-lo sem um contexto enquadrador bem delimitado. Se considerássemos razoável uma definição do dicionário, bastar-nos-ia aceitar o significado de que a segurança é algo que serve para diminuir os riscos ou os perigos[1]. Contudo, consideramos esta sinonímia insuficiente para enquadrar a importância sistémica do conceito na nossa vida na Internet. Por essa razão, tentaremos seguidamente operacionalizar o conceito de segurança que orientará a nossa abordagem. Na cultura anglo-saxónica, o conceito de segurança é distribuído fundamentalmente por dois termos: safety e security. Ao conceito de safety é comum associar-se a prevenção, a deteção e a proteção contra danos acidentais, enquanto security se associa à prevenção, à deteção e à proteção contra danos intencionais. Podemos, assim, melhorar o conceito de segurança acrescentando-lhe a dimensão de acidente – evento que ocorre de forma imprevista – e a dimensão maldosa – evento que decorre da intencionalidade, que é deliberado. Os incidentes de segurança podem, deste modo, ter duas plataformas de desenvolvimento associadas aos perigos e às vulnerabilidades, tal como se representa no esquema da Figura 2.1.

Evento pode originar Risco

pode causar

Incidente aproveita

Atacante

Vulnerabilidade

provoca

Quase acidente não causa

Incidente de segurança (intencional)

Acidente

Ataque gorado

causa

não causa

Ataque bem-sucedido causa

Dano

Figura 2.1 Incidentes de segurança (reconstruído de Firesmith[2], p. 48)

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Incidente de segurança (acidental)


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A relação entre a escola e as TIC: que desafios? Rita Brito, Ana Luísa Rodrigues e Fernando Albuquerque Costa

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INTRODUÇÃO O século XXI é caracterizado por desenvolvimentos surpreendentes relacionados com as tecnologias de informação e de comunicação (TIC), em particular dos computadores e da Internet, que, ao longo dos últimos anos, têm revolucionado todos os aspetos da atividade humana[1]. A tecnologia tem muito para oferecer no campo da educação, pois além de facilitar diferentes aspetos da administração das escolas, tem reconhecidamente um forte potencial se pensarmos no próprio processo de ensino e de aprendizagem[2]. O acesso à World Wide Web (WWW) e a facilidade de pesquisa por motores de busca providencia hoje, a professores e a alunos, uma grande variedade de informação, que pode ser consultada a qualquer hora e em qualquer lugar, desde que esteja disponível uma ligação à Internet. Os professores podem aceder a informações online, em tempo real, para a planificação das suas aulas, enriquecendo o conteúdo destas, mas podem também atualizar os seus conhecimentos pedagógicos, através do contacto com novos e diferentes métodos de ensino que as próprias tecnologias acabam por induzir. Os alunos, por seu lado, têm a possibilidade de aceder a informações úteis, que


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contribuem para ampliar a sua compreensão dos temas que, num determinado momento, estão a explorar[3,4]. Num estudo do Pew Research Center[5], no qual foram inquiridos 2462 professores americanos do ensino básico e secundário sobre a utilização das tecnologias por professores na escola, as principais conclusões foram: 92% dos professores referiram que a Internet teve um grande impacto no acesso a conteúdos, recursos e materiais para auxiliar as suas práticas; 69% disseram que a Internet teve um grande impacto na partilha de ideias com colegas; 67% afirmaram que a Internet teve um grande impacto na interação com pais; 57% mencionaram que a Internet teve um grande impacto na sua interação com alunos. Neste capítulo pretende-se refletir sobre a importância das tecnologias na escola, nos dias de hoje. Para que esta integração seja plena, existem alguns fatores que devem ser tidos em conta e que iremos igualmente abordar. Partilharemos a opinião de alguns professores e alunos relativamente à utilização das tecnologias em ambiente educativo, focando-nos nas vantagens e nas desvantagens. Por fim, daremos exemplos de metodologias usadas com vista à utilização das tecnologias em ambiente educativo.

O desenvolvimento da sociedade do conhecimento tem levado o setor da educação a reconhecer o potencial da integração das TIC na escola[6], tornando-se necessário criar um ambiente de aprendizagem do século XXI e preparar os alunos para se tornarem cidadãos competentes nas sociedades baseadas no conhecimento que é proporcionado por estas tecnologias. É esperado que os professores, no século XXI, utilizem as tecnologias digitais para uma melhoria do ensino e da aprendizagem, aproveitando o especial interesse e competência das crianças, nativos digitais, na utilização das tecnologias, e assim contribuindo para a construção de um ambiente de aprendizagem característico deste tempo[7]. É necessário ter professores do século XXI para acompanharem os alunos do século XXI. Alunos que, muitas vezes, são caracterizados como tendo falta de atenção, mas demonstram ser capazes de realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo; alunos que gostam da velocidade na comunicação e no acesso à informação, recorrendo a todo o tipo de tecnologias disponíveis[8];

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A EDUCAÇÃO NO SÉCULO XXI: TECNOLOGIAS E ESCOLAS


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Ciberbullying: O papel dos pais, da família e da escola Ana Tomás de Almeida e Patrícia Gouveia

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INTRODUÇÃO Recentemente, tem-se assistido a uma maior preocupação com a atividade online dos mais novos. As crianças e os adolescentes têm hoje acesso direto e facilitado à Internet, a partir dos telemóveis, dos tablets, das consolas de jogos e dos computadores portáteis, seja em casa, na escola ou em lugares públicos, aumentando o tempo, o modo e o espaço em que estão online. No seio destas atividades surgem os comportamentos de ciberbullying ou bullying online, termos que se usam neste texto indiferenciadamente para distinguir os comportamentos de bullying que são praticados recorrendo aos dispositivos eletrónicos e à Internet. Estes comportamentos surgem ligados a sérias ameaças ao bem-estar de crianças e de jovens, em alguns casos mais graves, terminando no suicídio em resposta ao sofrimento causado pela vitimização online. As interações online têm impacto nas amizades e nas relações entre pares e, no caso do ciberbullying, ditam o seu curso a curto, a médio e a longo prazos. O impacto destes comportamentos na adolescência requer, por isso, que se aprofunde o fenómeno e reúna conhecimentos que permitam compreendê-lo, preveni-lo e gerir as suas consequências[1].


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Fundamentalmente, no desenvolvimento e na implementação de programas e de políticas de prevenção, tem-se reclamado para que os adolescentes assumam um papel mais preponderante. Os esforços para prevenir o bullying online não podem ainda excluir a importância de investigar o uso que os adolescentes fazem da Internet e dos equipamentos eletrónicos, a informação que têm acerca do mundo eletrónico e da Web, e das competências, e sobretudo das vulnerabilidades que evidenciam nas suas atividades online, em particular aquelas mais suscetíveis de desencadear situações de ciberbullying. Sendo os adolescentes os protagonistas do bullying online, é importante que os adultos, em casa e na escola, possam acompanhar, conhecer e ter capacidade de responder às questões que estas atividades colocam aos mais novos. Neste capítulo procura-se fundamentar a necessidade de conhecer melhor em que consiste o bullying online e os contornos que assume, bem como em que sentido se diferencia do bullying tradicional, mas ainda os aspetos em que são comuns; analisa-se também a relação com os pares e os aspetos relacionais, afetivos e emocionais que podem traduzir em riscos potenciais de ciberbullying. Em seguida, sem perder de perspetiva o interesse em olhar para o bullying online no quadro mais vasto das experiências de vida na escola para os adolescentes, dar-se-á conta de um projeto de intervenção em que a escola foi o contexto para a reflexão acerca das suas práticas online. Finalmente, apontam-se os desafios que se colocam à prevenção e à capacitação dos pais e das escolas para responder ao bullying online.

Muitos textos que abordam o tema do ciberbullying começam por discutir se o bullying online é um fenómeno novo ou se é apenas bullying com uma roupagem diferente[2]. Do bullying tradicional, que se conhece da escola ou de outros grupos semelhantes aos escolares, o que distingue e o que é comum ao bullying que se propaga agora no ciberespaço? Para começar, a associação às tecnologias valeu-lhe o nome de ciberbullying – um termo que reconhece a especificidade deste tipo de comportamento e que é usado para designar, de modo geral, o bullying que tem nos dispositivos móveis ou na Internet a sua via de eleição. A designação mantém, no entanto, que

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CIBERBULLYING: UMA NOVA FORMA DE BULLYING?


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Os comportamentos e as preferências online dos jovens portugueses: o jogo online e as redes sociais Ivone Patrão e Pedro Hubert

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INTRODUÇÃO Numa típica cena familiar, temos uns pais que perguntam aos seus filhos adolescentes: “João, o que queres para o Natal? E tu, Maria, já decidiste o que vais escolher?”. Sabemos decerto as possíveis respostas, que irão todas estar centradas na tecnologia. O João poderá escolher um computador novo, com mais capacidade, para conseguir jogar todos os jogos de guerra e estratégia. E a Maria escolhe um novo smarthphone, com mais funções e capacidade, para poder estar online nas redes sociais e fazer FaceTime com os amigos. As novas gerações, que são apelidadas de nascidos digitais, geração magalhães ou mesmo de geração virtual, acrescem ao seu reportório os comportamentos online. Comunicam e relacionam-se na rede. Apresentamos dados sobre os comportamentos e preferências online dos jovens e jovens adultos portugueses. O que será que se passa?


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DEPENDÊNCIAS ONLINE

OS COMPORTAMENTOS ONLINE Vamos pensar num termómetro para abordarmos o tema dos comportamentos online. As temperaturas baixas indicam uma quase ausência de vida online. Será o caso dos infoexcluídos ou até daqueles que se recusam a aceder às novas tecnologias. Este comportamento é mais típico nas gerações mais velhas, que fizeram um caminho de adaptação e de integração da tecnologia na sua vida. Já as temperaturas moderadas indicam que estamos na presença de quem gosta de usar a tecnologia de forma recreativa. À medida que a temperatura sobe, vamos perdendo de vista a moderação e entramos no uso excessivo, problemático, até um pico de dependência de estar online. Kimberly Young, uma autora norte-americana que estuda as dependências da Internet há vários anos, concorda que a entrada numa zona de redline (zona mais quente do termómetro) passa por cinco fases:

Quanto mais tempo um jovem estiver na Internet, maior será a probabilidade de ser considerado um adicto ou dependente? Sim, mas não só. O tempo despendido na Internet, isoladamente, não é suficiente para indicar que existe um problema. Há muitos jovens que dizem: “Mãe, estou a estudar! Estou a fazer um trabalho para português”. E assim passam horas. Perdem a noção do tempo online. Da investigação com jovens portugueses, sabemos que, em média, passam, por semana, de acordo com o nível de ensino, 2 horas (ensino básico), 6 horas (ensino secundário) e 42 horas (ensino universitário) online para estudar[1,2]. Mas fazem muitas outras atividades na Internet. É necessário avaliar a função que o comportamento online tem para o jovem. Os jovens que são considerados dependentes utilizam a Internet, essencialmente, em aplicações interativas de comunicação instantânea (e.g., redes sociais, jogo online) enquanto os utilizadores regulares não dependentes utilizam-na para comunicação pessoal (e.g., email) e pesquisa de informação, seja para trabalhos escolares ou de interesse pessoal. Embora ambos possam despender

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1. Descoberta: “estar online é fascinante”. 2. Experimentação: “estar online permite viver muitas coisas diferentes”. 3. Escalada: “cada vez estou mais horas online”. 4. Compulsão: “não consigo resistir a estar online”. 5. Desespero: “já nem consigo sair de casa, só para estar online”.


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As relações amorosas e a Internet: Dentro e fora da rede Rui Miguel Costa e Ivone Patrão

INTRODUÇÃO

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Ele: “Olá Fofinha! Skype hoje?” Ela: “Olá Amor! Que dia… Ui, não dá, tenho trabalhos.” Ele: “Falaste com a malta?” Ela: “Sim. Tudo OK para a festa de sábado.” Ela: “Uma foto… para matar as saudades!” Ele: “;-)” E assim fica a conversa por hoje. Esta conversa será entre quem? Um casal jovem de namorados? Conhecidos? Aquilo que somos, aquilo que queremos ser e aquilo que os outros veem em nós. Muitas vezes, um mar de possibilidades. No mundo real, dá que pensar. Será que estou satisfeito com aquilo que sou? Será que correspondo às expectativas dos outros? Será que posso ser diferente? Claro que sim. Podemos sempre trabalhar algumas mudanças em nós. É um caminho a percorrer de tentativas, de erros, de sucessos. Mais ou menos rápido. Mais ou menos saboreado.


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Mas também podemos dizer que basta um clique e já está. Somos logo outra pessoa. Muitos são os autores que nos dizem que a Internet permite a criação de um Eu virtual. Muitas das identidades que se escolhem são alter egos da vida real. Existem autores que consideram que a Internet tem três funções: informação; comunicação e alteração da identidade[1]. Quando os jovens utilizam a Internet para as primeiras duas funções mantendo a sua identidade, estão a utilizar mais um meio à sua disposição para estabelecer contacto com os outros e, assim, dar seguimento a uma tarefa da adolescência (necessidade de estabelecer novas relações e de ter um grupo de pertença). De outra forma, quando utilizam a Internet alterando a sua identidade (e.g., jogo online com criação de um avatar ou criação de conta nas redes sociais com outra identidade), tal já constitui um sinal de alarme. Sabemos que os jovens com dificuldade em adaptar-se socialmente a situações novas e em estabelecer relações de proximidade têm maior propensão para estar online de forma permanente, pelo menos, em algum período da sua vida[2]. Na adolescência começa toda a descoberta do grupo de pares e das relações amorosas. Hoje em dia, essa descoberta é completada pela presença das redes sociais e pelo uso do cibersexo. Vamos falar das vantagens e das desvantagens destes comportamentos online para os relacionamentos. Desde logo, é necessário saber que existem dois tipos de relações: as reais, também vividas online, e aquelas que são apenas virtuais – os ciberrelacionamentos, com ou sem cibersexo.

Quando as relações sociais na vida real são difíceis, os indivíduos têm maior tendência para procurar relações virtuais, para recuperar a sua autoestima lesada[3]. Os adolescentes com relações interpares de má qualidade tendem a compensar a sua autoestima lesada ou o seu sentimento de inferioridade através da aceitação dos outros online. Contudo, como tendem a esconder e a mascarar o

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O MUNDO REAL


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O funcionamento familiar, o bem-estar e o uso da Internet Ivone Patrão, Mariana Machado e Rita Brito

INTRODUÇÃO Uma foto típica de uma família hoje em dia terá, seguramente, alguém com um dispositivo móvel na mão. Será?

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Mãe: “Meninos, venham para a mesa jantar!” Manel (6 anos): “Agora é a minha vez de jogar!!!!” Beatriz (2 anos): “Nãooooooooooo!” Joana (13 anos): “Que cena, estes putos não se entendem… Mas porque é que não compras um tablet também para a Bea?” Pai: “Bem, bem… Quero tudo na mesa em 5 minutos… ” quero isso tudo desligado!” O crescimento da tecnologia na sociedade de hoje, que é cada vez mais digital em todas as suas áreas (informação, comunicação, relações sociais, lazer, educação e economia, entre outras), está a criar o que vários autores referem como uma nova revolução industrial[1,2]. De forma particular, está a criar uma nova revolução nas famílias.


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DEPENDÊNCIAS ONLINE

A expansão da partilha do conhecimento, navegando em forma de informação através da Internet, está a gerar novas formas de conhecimento, modificando o modo como vivemos, como nos relacionamos uns com os outros e como nos apresentamos ao mundo. As famílias estão interligadas. As tecnologias que permitem o contacto virtual – correio eletrónico, redes sociais, jogos de vídeo e telemóveis – são cada vez mais o meio pelo qual as famílias interagem, se desenvolvem e se adaptam[3], tornando-se em famílias digitais. Nos estudos pioneiros de Ogburn e Nimkoff[4], no livro Technology and the Changing Family, os autores consideraram que existem efeitos na relação de um casal e na vida familiar devido à mudança tecnológica da sociedade, alterando a estrutura familiar, privando-a de várias atividades consideradas mais tradicionais. Assim diminui a importância das questões familiares e assiste-se a uma maior individualização. Qual é o impacto do uso das tecnologias de informação e de comunicação (TIC) ao longo do ciclo de vida das famílias?

Os pais funcionam como modelos e são os agentes centrais de socialização para as crianças. Os pais fornecem as ligações emocionais e os limites e a modelagem do comportamento, que afetam o desenvolvimento da autorregulação por parte das crianças, assim como as expressões emocionais e expectativas no que diz respeito aos comportamentos e relacionamentos. Os pais são, muitas vezes, os ídolos dos seus filhos. É comum a seguinte expressão: “O meu pai sabe mexer em tudo do telemóvel. Põe sempre os jogos que eu quero”. Os pais familiarizados com as TIC permitem que as crianças se desenvolvam numa relação mais estreita com a tecnologia, sem sentirem barreiras. Os pais infoexcluídos, por opção ou por não investirem nas TIC, poderão exercer menor controlo e supervisão sobre o uso das tecnologias pelas crianças. O que é comum? Independentemente da relação com as TIC, é importante que os pais estabeleçam as balizas necessárias para o uso das tecnologias dentro e fora de casa. Educar na sociedade da informação não é apenas investir num aparelho tecnológico, mas sim também ensinar a usá-lo – a chamada literacia digital. Não adianta o jovem saber como utilizar a ferramenta digital; é preciso

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O MODELO FAMILIAR E O USO DAS TECNOLOGIAS


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As dependências online: controvérsias e perfis João Reis, Samuel Pombo, Rita Barandas, Marta Croca, Sofia Paulino, Sérgio Carmenates, Ivone Patrão e Daniel Sampaio

INTRODUÇÃO A história que se segue é real. Numa turma dinâmica e participativa de 10.º ano, de uma escola da área da Grande Lisboa, discutem-se temas relacionados com comunicação online. Surgem prontamente acusações múltiplas de quem será dependente da tecnologia.

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Jovem 1: “O M., o L. e o F. são todos dependentes dos jogos!” Jovem 2: “Eu não, tu é que és. Passas mais horas do que eu… Que cena!” Jovem 3: “Este grupo aqui joga o mesmo jogo e só falam disso… E vêm para as aulas a dormir!” Jovem 4: “Há uns mais do que outros… Mas estamos todos sempre online! É uma cena fixe.” Jovem 5: “É mais as meninas, estão sempre a conversar no Facebook!” E assim continuou o debate, no qual se foram progressivamente definindo os limites para considerar um comportamento online problemático. Partilhou-se quando é que a tecnologia poderá ser considerada


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uma dependência. O tempo que se passa online, fazer sempre a mesma atividade na Internet e deixar que haja interferência com os horários de sono foram aspetos trazidos para este debate e associados a quem tem um problema com o uso da tecnologia. Uma das dificuldades principais é a resistência em admitir que poderá existir um problema, visto que a Internet é vista pelos jovens como familiar e desprovida de riscos. Neste capítulo abordam-se os critérios que permitem distinguir se existe ou não um uso problemático da tecnologia, sobretudo quando o comportamento online perturba o funcionamento geral do indivíduo. Com a Internet, passou a existir um novo espaço partilhado de criação e de exploração, no qual têm surgido novas formas de construção social, de expressão humana e de narrativa pessoal. Houve uma transformação profunda nos modos de comunicação e na organização de um arquivo de memórias autobiográficas que, de outra forma, seriam esquecidas[1]. O risco está em fazer disso a única forma de comunicar e de estar no mundo.

É inegável que a Internet veio abrir inúmeras possibilidades ao ser humano. No entanto, pode ser também uma plataforma de conflitos ou de isolamento e, portanto, causar sofrimento e gerar comportamentos problemáticos, prejudiciais ou mesmo patológicos do ponto de vista clínico. A massificação do seu uso, a grande disponibilidade e a forma como transformou a vida em sociedade são fatores que têm feito questionar se, em certos casos, a Internet pode ser considerada patológica. O cerne da dúvida está em compreender se esta atividade cria condições para novas formas de doença mental ou se apenas fornece um meio para patologia psiquiátrica, previamente estabelecida, se expressar (e.g., depressões e ansiedade, entre outras). Pode considerar-se, de uma forma simplista, a existência de duas perspetivas clínicas acerca do uso problemático da Internet (UPI). Numa primeira, tem sido argumentado que o uso excessivo de Internet pode ser patológico, levando a dificuldades psicossociais e a quebra do funcionamento ocupacional (trabalho ou estudo) e das relações interpessoais. Para os adeptos desta perspetiva, o UPI

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CONTROVÉRSIAS: EXISTIRÁ UTILIZAÇÃO PROBLEMÁTICA DA INTERNET E SERÁ UMA DEPENDÊNCIA?


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Intervenção clínica nas dependências online Ivone Patrão, João Reis, João Gonçalves, Bernardo Moura, Cristiano Nabuco de Abreu e Daniel Sampaio

INTRODUÇÃO Um jovem de 15 anos, num primeiro atendimento, forçado pelos pais: “Eu não quero estar aqui. Não tenho nenhum problema. Não me deixam em paz. É por causa da cena dos jogos. Eu jogo e pronto! (…) Com os meus amigos, com conhecidos… São todos amigos. (…) O jogo a que eu mais gosto de jogar é o LOL [League of Legends]. (…) É muito fixe. Vemos as estratégias, falamos uns com os outros, a malta está toda lá. (…) Eu uso a mesada e o que a família me dá, quer dizer, os meus avós (para estar online, a jogar e poder comprar os componentes do jogo, e assim chegar mais longe).”

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Do uso excessivo e problemático da Internet até à dependência, pode entender-se que existe uma escalada com picos de intensidade no uso da Internet, especificamente para jogar um número de horas seguido ou postar nas redes sociais. Refere o mesmo jovem: “Perco a noção do tempo, eu sei que sim. Mas o tempo é meu! (…) Eu era bom aluno, mas a escola este ano não está a dar. Eu também não estou preocupado com o curso. Nem sei se quero fazer um curso. (…) Isto do jogo pode dar dinheiro. Há quem viva do jogo, a sério!”


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DEPENDÊNCIAS ONLINE

Uma característica comum nos casos de dependência é os utilizadores não conseguirem parar de estar online. Por várias vezes, tentam reduzir o número de horas em que estão ligados, ou até deixar de estar online (e.g., para jogar), sob pressão de outros (e.g., pais), mas reincidem quase sempre. É um ciclo já conhecido noutro tipo de situações clínicas, associadas ao consumo de substâncias. A perda da noção do tempo é uma realidade, sobretudo, para os mais jovens, que estão mais livres e têm menos carga diária, enquanto os jovens adultos e os adultos já têm um horário de trabalho, com as responsabilidades inerentes. Interessa perceber que tipos de respostas terapêuticas existem, quer do ponto de vista psicoterapêutico, quer do ponto de vista farmacológico. Com base na literatura e na experiência clínica, apresentam-se algumas propostas de intervenção a nível individual, de grupo e familiar.

O tratamento do uso problemático da Internet (UPI) é um desafio complexo. Em primeira instância, por se tratar de uma situação clínica ainda em estudo, cuja natureza continua a ser altamente debatida. Em segundo lugar, os estudos científicos existentes nesta área são ainda escassos e os que existem possuem limitações e problemas de metodologia importantes[1,2]. Até haver consensos, a abordagem irá, necessariamente, refletir a conceptualização individual do terapeuta. Por outro lado, o facto de se tratar de uma entidade que, muitas vezes, surge em comorbilidade com outras perturbações psiquiátricas (e.g., depressão, fobia social, hiperatividade e défice de atenção, entre outras), faz com que o seu tratamento deva ser enquadrado num âmbito mais alargado, uma vez que os estudos mostram que o simples facto de se tratar uma perturbação psíquica comórbida melhora o UPI. Da mesma forma, o UPI parece influenciar negativamente o curso de outras patologias, bem como a resposta terapêutica, factos que justificam o seu diagnóstico[1]. Um dos maiores consensos entre os especialistas e os investigadores nesta área é que o objetivo do tratamento, qualquer que seja a metodologia aplicada, tem de ser realista. A Internet e as tecnologias de informação e de comunicação

© PACTOR

INTERVENÇÃO MAIS EFICAZ NOS CASOS DE UPI


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recentes sobre as dependências online nos jovens e em adultos portugueses revelaram que a utilização problemática da Internet está associada a diversas alterações no estado de humor, no funcionamento familiar, nas relações sociais, entre outras.

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Principais Temas Segurança online A escola e as TIC Ciberbullying Redes sociais Jogos online Relações amorosas Funcionamento familiar Intervenção clínica nas dependências online

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COORDENADORES

Daniel Sampaio – Médico Psiquiatra, é Diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN) de 2014 a 2016. Professor Catedrático de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Autor de 26 livros sobre a adolescência, a família e a escola, e também de mais de uma centena de artigos em revistas científicas nacionais e estrangeiras.

ISBN 978-989-693-060-8

9 789896 930608

IVONE PATRÃO E DANIEL SAMPAIO

Ivone Patrão – Psicóloga Clínica, com Mestrado e Doutoramento em Psicologia da Saúde no ISPA – Instituto Universitário (ISPA-IU). Terapeuta Familiar e de Casal pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (SPTF). Docente e investigadora do ISPA-IU (Grupo de Investigação Promoting Human Potential). Colaboradora do Núcleo de Utilização Problemática da Internet (NUPI) do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte (HSM-CHLN).

O PODER DAS TECNOLOGIAS

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O objetivo deste livro, escrito por vários especialistas que se dedicam à investigação e à intervenção clínica, e dirigido sobretudo aos profissionais e técnicos envolvidos na área das dependências, é dar a conhecer os aspetos positivos e negativos do consumo da Internet, percorrendo os principais temas de interesse; sugerindo um conjunto de orientações para a gestão dos comportamentos online, quer pelos jovens, quer pelas famílias ou até pela escola; apresentando exemplos nacionais e internacionais de intervenção psicossocial adequada aos casos mais problemáticos de dependência ao espaço virtual; e oferecendo uma abordagem de intervenção clínica múltipla (individual, familiar e de grupo) no tratamento do uso excessivo da Internet.

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Tal como noutros comportamentos associados ao consumo, estar online também traz prazer e gratificação, e será neste limite que é importante fazer-se uma gestão dos riscos para a saúde em geral e para a segurança de cada um. Uma gestão saudável dos comportamentos online passa por um uso da Internet adequado à idade, ao nível de desenvolvimento e às exigências académicas ou profissionais.

DEPENDENCIAS ONLINE

Estudos

IVONE PATRÃO E DANIEL SAMPAIO (COORD.)

DEPENDENCIAS ONLINE O PODER DAS ^

TECNOLOGIAS

PREFÁCIO DE ISABEL LEAL

Dependências Online - O Poder das Tecnologias  

Escrito por vários especialistas, este livro apresenta: orientações para um bom comportamento online, exemplos, dicas e uma abordagem de int...

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