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O CRUZEIRO uma revista (muito) ilustrada

Alberto Gawryszewski (org.)

Coleção História na Comunidade – volume 3


O CRUZEIRO

uma revista (muito) ilustrada

Coleção História na Comunidade volume 3


Reitor Prof. Dr. Wilmar Sachetin Marçal Vice-Reitor Prof. Dr. Cesar Antonio Caggiano Santos Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-graduação Prof. Dr. Alamir Aquino Corrêa Pró-Reitor de Extensão Prof. Dr. Paulo Bassani Pró-Reitora de Ensino Profa. Dra. Fátima Cristina de Sá Diretor do Centro de Letras e Ciências Humanas Prof. Dr. Ludoviko Carnascialli dos Santos Chefe do Departamento de História Prof. Dr. Cristiano Gustavo Biazzo Simon Coordenador do Ledi Prof. Dr. Alberto Gawryszewski

Agradecemos • Aos funcionários:

- CDPH/UEL; - Biblioteca Municipal de Londrina; - Comissão de Licitação/UEL; - Arquivo Público do Estado de São Paulo.

• Em especial, a Diretora da DM/UEL, Dra. Arlete F. da Silva Reis.


Alberto Gawryszewski (org.)

O CRUZEIRO

uma revista (muito) ilustrada

Coleção História na Comunidade volume 3

Universidade Estadual de Londrina Londrina • 2009


Uma publicação do Laboratório de Estudos dos Domínios da Imagem (LEDI), do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina Copyright© dos autores

Capa e editoração: Humanidades Comunicação Geral Imagem da capa: O Cruzeiro, 26/04/1930 Imagem da contracapa: “Personalidades do ano de 1956”, O Cruzeiro, 06/01/1957

Tiragem: 1000 exemplares Distribuição gratuita. Venda proibida.

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) C957

O Cruzeiro : uma revista (muito) ilustrada / Alberto Gawrysewski (org.). Londrina : Universidade Estadual de Londrina / LEDI, 2009. (Coleção História na Comunidade, v.3) 90 p. : il. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-7846-067-9

1. Ensino de História. 2. Ilustração. 3. Fotojornalismo – Brasil – História. I. Gawrysewski, Alberto. II. Título. CDU 930.1:77

Toda matéria publicada é de inteira responsabilidade dos autores. Impresso no Brasil / Printed in Brazil Feito depósito legal na Biblioteca Nacional


Sumário

7 9

Apresentação

Propagandas, masculino/feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História Ana Heloisa Molina

35

Ilustradores da revista O Cruzeiro

55

Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

89

Referências bibliográficas

Alberto Gawryszewski

Jorge Luiz Romanello


Sobre os autores

Ana Heloisa Molina Doutora em História Social pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professora Adjunto do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina. anaheloisamolina@yahoo.com.br Alberto Gawryszewski Doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professor Associado do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina. agawry@pq.cnpq.br Jorge Luiz Romanello Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP-Assis). Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina. ediromanello@yahoo.com.br


Apresentação A publicação deste terceiro livro, da coleção História na Comunidade, é a continuidade da realização de um desejo: dar transparência às atividades científicas produzidas pelos professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), em especial do Departamento de História, que participam do Laboratório de Estudos dos Domínios da Imagem (LEDI). É possibilitar um diálogo entre o saber científico e a comunidade. Em agosto de 2006, foi criado no Departamento de História da UEL, na forma de projeto integrado (pesquisa/ extensão), o LEDI. Em três anos de existência, este tem desenvolvido diversas atividades relevantes. Entre elas podemos apontar: a realização, em maio de 2007, do I ENEIMAGEM (I Encontro Nacional de Estudos da Imagem – (www2.uel.br/eventos/eneimagem); a publicação da revista semestral Domínios da Imagem – http://www2.uel.br/cch/ his/dominiosdaimagem/ (em novembro de 2009 será lançado o número 05); cursos de extensão, e a realização, em maio de 2009 do II ENEIMAGEM (www.uel.br/eventos/eneimagem). Em 2008, o LEDI teve aprovado seu projeto junto ao PROEXT/2008- Programa de Extensão Universitária (ProExt Cultura), um programa dos Ministérios da Cultura e da Educação, realizado com a colaboração da Fundação de Apoio à Universidade Federal de São João Del Rei (FAUF). Para este projeto partimos da afirmação contida nas Diretrizes Curriculares para o Ensino da História na Educação Básica, que diz que as imagens, livros, jornais, fotografias, filmes etc. são documentos que podem ser transformados em materiais didáticos de grande valia na constituição do saber histórico. Este livro, que acompanha a exposição com o mesmo nome, foi concebido como mais um instrumento nas mãos dos professores na tarefa de dialogar com os alunos. Existem muitos trabalhos acadêmicos que tratam da revista O Cruzeiro e da fotorreportagem, mas nenhum dirigido ao público comum. A exposição, composta por cerca de 80 banners (que podia variar conforme o espaço físico disponível), será montada em escolas, 7


museus, associações esportivas, classistas e culturais. Foi dividida em tantas cinco partes, da seguinte forma: Capas; reportagens sobre diversos temas (lazer, policial, política, entre outras); propagandas; Riso (charge e caricatura); Assis Chateaubriand. Este livro é formado por três artigos. No primeiro a autora propõe discutir as características essenciais dos periódicos enquanto fonte histórica e apontar sugestões para a sala de aula no Ensino Fundamental e Médio, recortando os temas propaganda, a construção dos papéis masculinos e femininos e variedades culturais e sociais no interior da revista O Cruzeiro delimitando as décadas de 1930 e 1940 para tal proposta. O segundo artigo discute alguns ilustradores da revista O Cruzeiro. Optou-se em apresentar quatro importantes desenhistas: Belmonte; Nássara; Augusto Rodrigues e Borjalo. Por fim, no último, o autor teve por objetivo escrever uma breve história da revista O Cruzeiro destacando aspectos gerais de sua trajetória de quase cinco décadas: o uso maciço de imagens; importância no cenário político e cultural brasileiro, estratégias de comunicação etc. Metodologicamente o autor recorreu, sempre que possível, a análise das imagens e dos conteúdos das reportagens discutidas dentro das tendências historiográfica atuais sobre a temática. Espero que este livro, da coleção História na Comunidade (composta por nove livros), contribua para o debate do ensino de História e, especialmente, possa ajudar no resgate de um importante instrumento de cultura e lazer do Brasil, bem como formador de opinião, a revista O Cruzeiro. Este material pode ser copiado, no todo ou em parte, devendo ser nomeada sua fonte. O download dos textos poderá ser realizado pela página do LEDI (http://www.uel.br/cch/his/ledi/ ), bem como dos vídeos produzidos e das imagens que compõem a exposição. Boa leitura! Alberto Gawryszewski Coordenador da coleção

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Propagandas, masculino/ feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História Ana Heloisa Molina

O uso de revistas, jornais e periódicos em aulas de história para o Ensino Fundamental e Médio não é novidade. Recortes de jornais, trechos e imagens de revistas pontuam livros didáticos ou mesmo em textos preparados por professores. O

desafio

seria

pensar

tais

fontes

históricas

transformando-as em mediadoras culturais na relação de ensino e aprendizagem em sala de aula. Siman (2004) toma as idéias de Vygotsky para analisar a construção e a aquisição do conhecimento (e da própria subjetividade) a partir de matrizes sociais mediadas pela cultura e pela linguagem. Desta forma, o professor de História ao mediar as relações entre os sujeitos e o objeto a ser conhecido (o conhecimento histórico) inclui [...] como parte constitutiva do processo ensino/ aprendizagem, a presença de outros mediadores culturais, como os objetos da cultura, material, visual ou simbólica, que ancorados nos procedimentos de produção do conhecimento 9


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

histórico possibilitarão a construção do conhecimento pelos alunos, tornando possível “imaginar”, reconstruir o não vivido diretamente, por meio de variadas fontes documentais” (SIMAN, 2004, p. 88)

Neste sentido, procuramos relembrar algumas características essenciais dessa fonte (periódico) e apontar algumas sugestões para a sala de aula de História, recortando os temas propaganda, a construção de papéis masculinos e femininos e variedades, no interior da revista O Cruzeiro e delimitando as décadas de 1930 e 1940 para tal proposta. História e periódicos Temos a possibilidade de leitura e escrita da história tanto nos periódicos como por meio dessas fontes e como tal, existem armadilhas passíveis de serem contornadas desde que atentos a alguns cuidados. Não podemos deixar de registrar o alerta de Ana Maria de Almeida Camargo [...] corremos o grande risco de ir buscar num periódico precisamente aquilo que queremos confirmar, o que em geral acontece quando desvinculamos uma palavra, uma linha ou um texto inteiro de uma realidade (apud LUCA, 2006, p. 117).

Mediante a essa não fragmentação, podemos pensar jornais e periódicos como uma fonte rica para obtenção de dados econômicos e a ampliação de aspectos da vida social, política e cultural de um determinado período histórico.1 1 Entre outros pesquisadores, Gilberto Freyre, por exemplo, estudou aspectos da sociedade brasileira no século XIX a partir de anúncios de jornais, no texto “O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX”. Recife, Imprensa Universitária, 1963 (LUCA, 2006, p.117)

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Propagandas, masculino/feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História

Revistas, porém, necessitam de um grande cuidado. Temos revistas ilustradas ou de variedades, e em grande quantidade de títulos, em número crescente a partir do início do século XX. A leitura fácil e agradável e a abundância de temas e imagens, em diferentes suportes como fotografias, desenhos, charges e caricaturas, diagramadas de forma a chamar a atenção dos leitores foram a tônica naquele momento. Mas o que é uma revista de variedades? Luca (2006, p. 121) nos esclarece: [...] poderia incluir acontecimentos sociais, crônicas, poesias, fatos curiosos do país e do mundo, instantâneos da vida urbana, humor, conselhos médicos, moda e regras de etiqueta, notas policiais, jogos, charadas e literatura para crianças, tais publicações forneciam um lauto cardápio que procurava agradar a diferentes leitores, justificando o termo variedades.

A autora alerta ainda para o uso deste termo no início do século XX, onde a escolha “[...] não era arbitrária, antes apontava para a relativamente pequena segmentação de mercado. [...] Ainda que grande parte se autodenominasse “de variedades”, é possível distinguir a intenção de atingir públicos diversificados” (2006, p. 122). Assim, as revistas de variedades procuravam atender ao público feminino, masculino, infantil, esportivo, educacional, literário, cultural e científico que no decorrer do século XX se especializarão em segmentos distintos. Procuremos atentar à materialidade das revistas em diferentes momentos históricos ou perceber as mudanças ocorridas em uma mesma revista em sua apresentação visual. 11


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Formato, tipo de papel, tamanhos de letras, diagramação e disposição de imagens e textos, qualidade de impressão, cores utilizadas, a divisão em seções, a distribuição de títulos e subtítulos são alguns elementos que necessitam de atenção, pois, tais apresentações propõem uma forma de leitura, nada inocente, direcionando o olhar do leitor a determinadas imagens ou manchetes em destaque, o que nos coloca outros vetores: as orientações dos editores e o público alvo de anúncios e reportagens, ou seja, o circuito produção, circulação e recepção. Feitos tais alertas vejamos as singularidades da revista O Cruzeiro. O Cruzeiro e o contar “a Verdade”. O Cruzeiro surge em 1928 e a fotografia e a reportagem adquirem novos sentidos e status o que proporciona a liderança de vendas à revista. A revista possuía circulação semanal, a primeira a percorrer todas as regiões do país e pertencia ao conglomerado “Diários Associados” sob a liderança de Assis Chateaubriand. Com tiragem inicial de cinqüenta mil exemplares estabelecia um verdadeiro Record para os padrões da época chegando a circular 600.000.000 exemplares em média entre o meio e o final da década de 1950, atingindo um público estimado entre três e quatro milhões de leitores (devemos lembrar que cada revista normalmente era lida por várias pessoas) (ROMANELLO, 2009, p. 14).

A importância dessa revista no decorrer da primeira metade do século XX pode ser mensurada pelos leitores 12


Propagandas, masculino/feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História

colecionarem tais reportagens acreditando guardar em suas casas um pedaço da história do país e do mundo, “[...] uma vez que os editores e fotógrafos de O Cruzeiro produziam no leitor a sensação de contar “A Verdade” dos fatos, e não apenas uma versão – entre muitas possíveis – sobre eles” (ROMANELLO, 2009, p. 16). Fartamente ilustrada, com fotografias coloridas e desenhos, com textos cuidadosamente redigidos para serem lidos com rapidez e facilmente compreendidos, impressa em papel de alta qualidade, que a tornava mais atraente, os temas abordados ganham uma nova dimensão de apresentação e recepção pelos leitores. Uma breve parada para analisarmos os desenhos da revista. No período compreendido entre 1928 a 1940, as imagens – desenhos, charges e fotografias – serviam muito mais para explicar, ao acrescentar informações ao texto escrito. Ao seduzir o olhar do leitor fazia com que este se interessasse pelos assuntos apontados, e o direcionasse às informações explicitadas pelo texto escrito. Segundo Romanello (2009) o uso de desenhos era uma opção, uma forma de atender ao gosto do público naquele período, ainda muito acostumado a este tipo de comunicação, pois os desenhos permitiam ressaltar detalhes e usar uma paleta maior de cores, situação em que as fotografias começavam a aperfeiçoar, bem como, as técnicas para imprimi-las. Propagandas e a sedução do consumo A publicidade irá atender às novas necessidades impostas pelas mudanças da vida urbana e social do início do século XX 13


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

e a imprensa periódica a transformará em sua principal fonte de recursos. O anúncio se altera em sua estrutura e linguagem e os reclames ocupam diferentes espaços seja em muros, bondes, restaurantes, almanaques, jornais e revistas. Pelas propagandas podemos perceber uma série de elementos importantes na compreensão do cotidiano e da dinâmica da sociedade em determinado período histórico, como por exemplo, os diferentes estilos e padrões de vida, as diversas expectativas dos vários grupos sociais, os papéis delegados a mulheres, homens, crianças e idosos naquela sociedade, os códigos de comportamento entre outros. A publicidade não anuncia somente um produto, mas, provoca um desejo. Esse desejo pode ser ao comprar um produto possuir automaticamente as qualidades descritas pela imagem e reforçadas pela seleção de palavras que a acompanha como belo, forte, viril, saudável e sedutora. Recursos textuais e visuais, as intenções empregadas para atrair o consumidor do produto, as palavras chaves de persuasão propõem modelos de comportamento e a manutenção de padrões estéticos a diversas categorias sociais. As propagandas veiculadas pelo O Cruzeiro eram executadas em forma de desenhos ainda no início da década de 1950. Por meio desses desenhos oferecia ao consumidor uma variedade de serviços e objetos como produtos farmacêuticos, mobiliários, sapatos, bebidas entre outros. Destacam-se os produtos dirigidos às mulheres, principal alvo da revista enquanto um público consumidor em potencial, em especial, os cosméticos e alimentos para a família como nas figuras 01, 02, 03 e 04 abaixo. Comentemos as ilustrações. 14


Propagandas, masculino/feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História

A ilustração 01 nos traz informações textuais e visuais interessantes. As propagandas da página à esquerda nos anuncia, em desenhos, de cima para baixo, a loção Frank Lloyd, aparentemente, unissex, com a chamada “ A loção Frank Lloyd fica para o encantamento de todas as horas”; no meio da página a esquerda, Vinovita “ É preciso que os músculos e cérebros estejam vigorosos, isso só se consegue com o poderoso tônico Vinovita” e abaixo, a publicidade dos sapatos “Pompadoior. O sapato elegante que todas preferem”. A página a direita é inteiramente dedicada à qualidade dos biscoitos Aymoré, marca famosa, ainda hoje, no Rio de Janeiro, pois “Um biscoito Aymoré appetece sempre. Em qualquer occasião, ao café ou à hora do chá”.

Ilustração 1. O Cruzeiro. 29/05/1937

A ilustração 02 nos proporciona outro viés. O uso de fotografias interativas à palavra, marca do produto. Nesse caso, a pasta Limol “ Faz uma pérola de cada dente” ocupa a metade de duas páginas, com textos, em colunas, louvando seus efeitos, e mulheres sorridentes abraçando as letras do dentifrício. Vale observar que tal propaganda encontra-se 15


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

abaixo de uma série de 04 fotografias de uma bela mulher sorridente apresentando os cuidados necessários e charmosos com os cabelos, em um diálogo sedutor entre as diversas imagens, mesclando os produtos e suas mensagens.

Ilustração 2. O Cruzeiro. 13/05/1939

A página escolhida para a ilustração 03 nos fornece elementos instigantes. Temos a propaganda, com letras destacadas, do produto cafiaspirina, (a atual aspirina) com o texto “Eu me defendo trazendo sempre na bolsa um “carnet” de cafiaspirina. Cafiaspirina o remédio de confiança contra dores e resfriados, dor de cabeça e crises mensaes” ao lado do logotipo dos laboratórios Bayer. Percebemos a figura de uma mulher sorridente, prevenida, que possui um remédio adequado tanto para a família (resfriados) quanto para indisposições tipicamente femininas como as crises mensais (leia-se as temidas cólicas menstruais). É interessante notar que abaixo, em um retângulo menor, e uma figura desenhada com tremores, temos o anúncio de outro remédio contra dores de cabeça, o Transpirol: “Cuidado com o primeiro arrepio. Transpirol evita resfriado, gripes,

16


Propagandas, masculino/feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História

dores de cabeça”. Ainda na coluna esquerda, outro anúncio para as senhoras, em um pequeno quadrado Ilustração 3. O Cruzeiro. 17/06/1939

onde uma figura feminina com barba propaga: “Bigode de senhoras e verrugas. Eliminação

garantida.

Absolutamente

sem

cicatrizes” e o endereço do consultório do profissional responsável

pela

proeza.

Na coluna da direita temos anúncios

de

produtos

destinados à família como o Tônico Infantil e desenhos de duas crianças e acima, a pasta Kolynos, que “ embelleza seu sorriso” é demonstrado pela fotografia de uma mulher branca e loura, sorrindo. Temos aqui elementos suficientes para refletirmos alguns aspectos dessas mensagens tanto para o período como para o contemporâneo: a ação de grande laboratórios (Bayer) ou marcas (Kolynos) estrangeiros; o modelo ideal de mulher como agente de propaganda (loura e branca); os cuidados higiênicos associados à beleza do corpo (comprimidos para a família e crises mensais, dentifrício que embeleza e eliminação de pêlos por profissionais), o que nos propõe a pensar na permanência, sutil, desses vieses em propagandas atuais (vide especialmente aquelas veiculadas pelas vendas de cervejas, as pastas dentais ou aparelhos que prometem acabar com os incômodos da depilação em canais de shoppings virtuais).

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Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Os anúncios da ilustração 04 são demonstrativos que a sedução para a compra de determinados produtos está relacionada às idéias de força e energia. Temos então um casal beijando-se apaixonadamente indicando que Sexuol é aconselhado para os casos de fraqueza nervosa e ergastenia (estafa) (observando que não há textos, mas, a imagem e as palavras relacionando-as ao produto) e um homem rabiscando em uma parede “nada de xaropes ou remédios”, pois, Uredol em gotas é um “dissolvente do ácido úrico”. Atentemos que estes anúncios estão localizados em uma página a esquerda da revista, no canto inferior direito para refletirmos sobre sua capacidade de atrair a atenção em meio a outros textos, ou mesmo, os valores pagos pelos produtos para anunciar em posições mais favoráveis, o que nos remete também à capacidade de síntese entre imagens e palavras chaves, exercendo um impacto visual e promovendo significados de forma direta ao público. A leitura de imagens e textos de produtos em propagandas nesse periódico

nos

permite

exercitar

alguns pontos: a crítica ao consumo hoje (ao lidar com as informações que nos são transmitidas pelos anúncios publicitários podemos pensar acerca do discernimento para o consumo atual e o estímulo ao supérfluo); a semelhança entre os produtos oferecidos naquele período e hoje; os Ilustração 4. O Cruzeiro. 11/02/1939

18


Propagandas, masculino/feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História

modelos de propaganda, principalmente, os femininos; a decodificação direta dos rótulos dos produtos no período (Sexuol, Limol, Vinovita, por exemplo); as imagens desenhadas das propagandas entre outros. Mulheres e homens: lugares sociais e imagens construídas Podemos pensar que as imagens veiculadas em um periódico nacional proporcionam determinadas construções sobre o masculino, o feminino e a família que desejam atingir. Maria Paula Costa ao analisar a imagem feminina na revista Cláudia nas décadas de 1960 a 1980 nos apresenta algumas considerações pertinentes que podemos adotar nesse item, atentando para os devidos períodos históricos. A Revista Cláudia privilegiou a vida cotidiana feminina principalmente no âmbito familiar. No início dos anos 60, quando foi lançada, o perfil idealizado pelos editores seria a mulher casada, dona de casa, mãe e que teria no universo do lar o palco principal de suas experiências. O cotidiano familiar transformou-se em discurso nas páginas de Cláudia, e várias representações em torno do feminino e do masculino foram construídas, pensadas, inventadas e reinventadas no decorrer do período pesquisado (COSTA, 2009, p. 70).

Nos interessa aqui especialmente as construções e reinvenções sobre o feminino e o masculino nas reportagens apresentadas pelo O Cruzeiro. Essa revista destinava seções direcionadas às mulheres com títulos gerais como “Moda” ou “Culinária” e em um período menor, por algumas décadas, possuía uma seção de 19


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

conselhos femininos intitulada “Da mulher para a mulher” com opiniões sobre um amplo leque de possibilidades, desde a vestimenta adequada a determinadas ocasiões ao desejo de ser independente, indagações presentes nas correspondências de mulheres de todo país.

Ilustração 5. O Cruzeiro.14/08/1943

Nessas duas páginas da edição de 14 de agosto de 1943 (ilustração 05) temos elementos interessantes que nos dão a dimensão desse moldar o público feminino. À esquerda, a página apresenta uma reportagem sobre vitaminas (canto direito superior): “A vitamina E e sua influencia sobre os órgãos de reprodução”; três anúncios, dois tomando grande parte das colunas a esquerda (“Lojas Dr Scholl para o conforto dos pés”) e a direita (Realce os encantos de sua cútis. Milhares de mulheres usam e recomendam o talco Ross para realçar a beleza da cútis. Boratado, antisséptico e confortante) e um pequeno quadro da “Casa e Jardim” no canto inferior esquerdo. Entremeando as três propagandas temos trechos das cartas destinadas à seção “Da mulher para a mulher”, respondida por Maria Teresa. Observemos respostas: 20

algumas

perguntas

e

excertos

de


Propagandas, masculino/feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História

Jacy – Rio “Como conquistá-lo?”: Resposta: “No seu caso ao que parece tudo marcha de maneira mais ou menos satisfatória e, se for hábil, conseguirá, finalmente chegar ao fim. Você bem o merece”. Neném – Florianópolis “ só me casarei com trinta anos”. Resposta: “Creio que deve pensar assim “só me casarei quando encontrar alguém que ame” e estará com a razão. O resto é literatura.” Martha Lúcia – Rio “devo esperar que volte?” Resposta: “[...] Aliás, antes do casamento, nenhuma situação deve ser forçada e qualquer compromisso pode ser desfeito, desde que represente sacrifício.” Malita – Rio Grande do Sul “ acho que uma moça deve ler tudo.” Resposta: “Discordo. Há coisas que nem um homem, em díade adulta, deve ler. [...] E os livros denominados “fortes” só podem cair nas mãos de criaturas que possam compreendê-los convenientemente.” Em meio a produtos para os pés, para beleza da cútis e novidades para a casa, as indagações e respostas às cartas possibilitam perceber a valoração da conquista e fisgar o homem certo para o casamento e os compromissos com essa instituição civil; o amor como premissa ao compromisso matrimonial e as indicações de leituras a jovens, para que essas não sejam envenenadas em suas concepções e convenientemente encaminhadas à boa literatura. Essas referências dizem respeito à família e ao lugar da mulher como esposa e indivíduo a ser guiado, especialmente, em um momento da história onde a mulher, devido ao período da II Guerra, ocupa o mercado de trabalho e tem acesso ao voto, ou seja, reorganiza e redimensiona seu papel na sociedade. 21


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Na página a direita, tomando metade da folha, a fotografia de uma jovem sorridente, a beira da piscina, recostada em uma espreguiçadeira em trajes de maillot, tendo crianças em efeito borrado na água ao fundo. Maria Teresa escreve mais longamente nessa seção indagando sobre os “Perigos do amor” e responde a mais correspondências como para a Funcionária – Rio, se esta deve ou não usar óculos ou Juma – Rio Grande do Sul sobre a renúncia ao amor ou ser “a outra”, onde a tônica, nessa questão prende-se, para a conselheira sentimental, às ilusões, relacionando-as aos perigos do amor, título de chamada da página. As respostas de Maria Teresa (não sabemos seu sobrenome, cargo ou se realmente era uma mulher respondendo a outras) sugerem um reenquadrar e moldar para o lar e as relações sociais, preservando assim, a instituição família, um dos pilares da propaganda veiculada pelo governo Vargas. Sobre a figura da mulher conquistadora, mas, enquadrada

em

determinados

padrões,

temos

duas

propagandas interessantes. As figuras 06 e 07 apontam produtos cosméticos com apelos comerciais e sedutores. O anúncio do creme Pond’s traz duas fotos e um longo texto atestando as qualidades do produto para a saúde da pele. As fotografias trazem uma jovem de cabelos curtos e ondeados e sorriso sedutor. Abaixo a fotografia e o depoimento da marquesa de Cambridge “bella cortezã de Inglaterra” corroborando os efeitos promovidos e prometidos pelo produto. As semelhanças entre as figuras femininas selecionadas apontam a aproximação, ou sua tentativa, entre modelos 22


Propagandas, masculino/feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História

estéticos

internacionais

e a adequação ao público feminino brasileiro, ou seja, se até a cortesã inglesa utiliza um produto acessível e facilmente encontrado

em

farmácias,

porque não a mulher brasileira?

Ilustração 6.O Cruzeiro.20/08/1938

Lembremos, somente que o termo “cortesã”, aqui, possui a conotação de pertencente à Corte, à nobreza, no caso, a inglesa. A ilustração 07 propaga as vantagens dos productos Satan com o título “Realce o encanto de sua beleza” com o desenho de uma bela mulher cujas feições evocam a grande dama do cinema Greta Garbo (1905-1990). A marca desse cosmético sugere uma mulher fatal realçada pelos encantos do produto calcada em uma atriz de grande apelo erótico, mas, ao mesmo tempo, recatado, como toda mulher, leitora de O Cruzeiro deveria ser. A atriz tomada como referência para o desenho exerceu, durante sua atuação no cinema norte americano (entre 1926 a 1941) uma aura de mistério, de fascínio, inatingível, cujo filme A Dama das Camélias (1936) tornou-se sucesso de público pela estória de uma prostituta se redimir ao final da vida pelo amor, mas, esse amor não ser possível de consagração, pois, a doença, devido aos excessos, a ceifa da felicidade. Nessa película tais características tornaramse mais marcantes e consagraram internacionalmente a atriz, 23


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

símbolo de beleza, encanto feminino e intocabilidade, daí, sua referência em muitos produtos destinados às mulheres.

Ilustração 7. O Cruzeiro. 24/02/1938

Os modelos masculinos, ou melhor, as possibilidades da construção do masculino encontram-se nas ilustrações 8 e 9. A reportagem, em duas páginas abertas, apresenta o sugestivo título “Necessita o homem ser bello?” feita por Maurice Romain, de Paris, no qual entrevista mulheres da sociedade francesa na discussão desse interessante assunto. As mulheres entrevistadas são caricaturadas em meio ao texto, que possui as seguintes chamadas: “A força e a expressão, eis a verdadeira belleza masculina, diz Germaine Dulac”; “Todo os homens interessantes a quem conheci, diz Marguerite Deval, eram feios”; “Escolha de preferência um marido bello, diz Mme Yvonne Netter”. Os cantos das duas páginas apresentam uma fotografia em tamanho grande, de Charles L Laskey, que segundo a legenda que as acompanha nos informa que se trata de “bailarino americano, considerado padrão de belleza corporal”, agregando, ainda, as fotografias, em tamanho 24


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Ilustração 8. O Cruzeiro. 20/08/1938

menor do astro hollywoodiano, Cary Grant, “Um homem bonito” e Walter Connoly, na outra página com a legenda “Um homem feio”. Cary Grant (1904-1986) inglês, com 1,87m, alça ao estrelato em 1935 com o filme “Vivendo em dúvida” junto à atriz Katharine Hepburn. Símbolo de elegância masculina, estréia a comédia “Levada da breca” (1938) e o musical “Prelúdio de amor” (1937) consolidando uma carreira cinematográfica com tipos boas praças, sedutores e defensor de valores familiares. Walter

Connolly

(1887-1940)

ator

americano,

coadjuvante, atuando no cinema entre 1914 e 1939, era conhecido por personagens rústicos, com uma figura rotunda típica, representava normalmente papéis como empresários exasperados ou chefes maus. A disposição das fotografias, caricaturas, texto e chamadas internas nos sugere que é desejável que o homem seja belo, especialmente o eleito para o matrimônio, mas, a presença de “força e expressão” e “interesse” para os menos favorecidos constituem cabedal também para brilhar na sociedade, ao 25


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menos, na francesa e porque não na brasileira, já que ressoam por aqui muitos dos clichês europeus naquele momento. A escolha dos atores do cinema e do bailarino como padrão de comparação não foi casual. Tais referências conjugam possuir ou não beleza plástica às qualidades expressas por esses personagens, amenizando os possíveis “desajustes” ao exercer determinadas características aceitáveis socialmente.

Ilustração 9. O Cruzeiro.14/05/1938

A ilustração 9 apresenta em duas páginas abertas, uma reportagem especial para a revista realizada por A. Gugas, “Para que os homens aprendam a cosinhar” e os seguintes trechos do texto: “ Os homens estão aprendendo a cosinhar – pois não. Isto também está sendo feito em Nova York, a cidade das cousas surprehendentes. Não só as mulheres, donas de casa devem saber a arte subtil de Vatel e seus discípulos, pela falta de empregadas domésticas. Mas...quando as esposas fizerem greve? Os barbados deverão ir para a cosinha e é esta a razão pela qual.... estão pondo as barbas de molho! [...] E são os homens de destaque social os alumnos mais assíduos. Talvez porque estejam acostumados a comer bem, e não 26


Propagandas, masculino/feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História

queiram se arriscar a ingerir bifes de sola e arroz com Bispo” A legenda: “Lavar pratos também faz parte do aprendizado” constitui o toque de humor a um surpreendente assunto, segundo inferimos pela reportagem. As fotografias contribuem para reforçar essa “revolução” masculina, já que a cozinha é um espaço consagrado da dona de casa, mesmo para as esposas de “homens de destaque social”. Um senhor jovem com barbas, em mangas de camisa, aparentemente, batendo manteiga, supervisionado pelo chefe e de homens confeitando um bolo, por exemplo, no canto direito em coluna e outras fotografias com os alunos observando cuidadosamente o chefe da escola de culinária reforçam as frases do texto. Apesar de se tratar de um caso na “surpreendente” Nova York repercutiria da mesma forma em lares brasileiros? Talvez, como peculiaridade para a elite, pois, o uso do termo surpreendente, por diversas vezes, alude a exceção da situação. Poderíamos indagar junto aos alunos quais os padrões de beleza sugeridos pela sociedade, a influência dos meios de comunicação e da cultura de massa na invenção de referências masculinas e femininas e os papéis esperados para homens e mulheres contemporaneamente a partir dessas duas últimas ilustrações apontando para o poder de sedução e sugestão das imagens e de palavras escolhidas para a construção de uma sociedade que define claramente suas funções e lugares. Variedades: o universo cultural e a sociedade em flashes diversos. Os temas culturais, a coluna social e a transformação de elementos da sociedade e da paisagem em espetáculo 27


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

constituem os motes de um periódico voltado a entreter e informar o público. Selecionamos três figuras, entre tantas, para pensarmos esse item. Como comentado, por variedades entende-se acontecimentos sociais, crônicas, poesias, fatos curiosos do país e do mundo, instantâneos da vida urbana, humor, conselhos médicos, moda e regras de etiqueta, notas policiais, jogos, charadas e literatura para crianças entre os temas propostos pela equipe editorial da revista. A primeira ilustração tem como chamada “Doze anos com Walt Disney” As legendas das imagens correspondem à esquerda no alto com os dizeres “ O primeiro “Mickey” e a primeira “Minnie” de Ilustração 10. O Cruzeiro. 21/09/1940

Disney em 1928. À direita figuras de sua primeira “Silly Sinphonies” em 1929”, com três caveiras dançando. Ocupando

mais

da metade da página uma

cena

do

filme

Três Porquinhos com a legenda “O primeiro grande sucesso de Walt Disney foi em 1933 com os “Três Porquinhos” que cantavam “Who’s afraid of the big bad wolf”. Continuação nas páginas seguintes”. Esse quadro maior, levemente deslocado chama a atenção do público infantil e também do adulto para a indústria cinematográfica 28


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e de desenho animado em franca expansão, salientando os principais personagens de Disney (os camundongos Mickey, Minnie e o cachorro Pluto) e a animação, especialmente via música, de histórias infantis clássicas. Em meio às transformações tecnológicas da indústria do cinema e da atração exercida, ainda hoje, pelo império Disney de animação, convém refletir com os alunos o papel do cinema na sociedade contemporânea, a expansão visual dos games e jogos interativos e o reinventar da imagem cinematográfica pela versão em terceira dimensão.

Ilustração 11. O Cruzeiro, 21/05/1938

A ilustração 11 alia a crônica poética sobre o morro e imagens que o repórter José Conde, autor do texto, considera como a paisagem humana. Nessa reportagem temos a autoria das fotografias, que nesse caso, pertencem a Kikoler e a chamada possui referências onduladas, como a própria idéia de morro. Vejamos trechos do texto: 29


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

[...] Tudo foi afastando o pobre para os casebres de latas, do morro. Veiu o malandro: mixto de desordeiro e poeta. O samba era uma expressão da alma daquella gente. Triste, angustiado. Conseqüência da miséria do meio. A religião foi trazida pelos escravos da costa e aqui sofreu influencias da terra. Adaptou-se. Macumbas com “mãe de santo” e “filha de santo”. Com Xangô, Ogum, Exu. Com grande tristeza nos cantos de uma saudade estranha. Hoje o malandro desceu p’ra cidade. O andar bambo, a camisa listada. No morro ficaram as famílias pobres de operários e de marítimos que vão vivendo a vida ao seu jeito.

Nesse excerto podemos pensar alguns temas como: a idéia de morro apresentada enquanto um lugar primeiramente do malandro e depois do pobre; a descida do malandro à cidade; a expressão do samba como elemento cultural das classes sociais menos favorecidas; a religião africana e as apropriações realizadas por seus moradores. Cabe perceber o tom melancólico dado às macumbas de “mãe de santo” e os cantos entoados por seus integrantes. [...] negras lavando roupas, outras mulheres cuidando dos serviços caseiros, magras, caras de soffrimento. Uma venda, mais adeante (onde, de noite, os homens vêm beber e cantar sambas, para esquecer a vida). Crianças que não tem brinquedos, mas sabem brincar de roda... “Sou uma pobre viúva...Pobre de mim....”. Lá em baixo é a cidade grande se estendendo até longe. O mar. A bahia. Os edifícios sumptuosos. Coisa differente, que não é triste.

Esse trecho poético alia a descrição das mulheres pobres e magras e os homens que vão ao bar a cantar os sambas em contraste com os edifícios majestosos da cidade. O contraponto pobreza-riqueza e a dura vida de seus personagens são descritos nas histórias dos moradores como a de “[...] Vicência é viúva. 30


Propagandas, masculino/feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História

Cheia de filhos para criar. O marido ficou debaixo das rodas de um bonde”; e os caminhos possíveis sonhados especialmente pelas crianças. “Cada um tem o seu ideal. Esse menino deseja ser marinheiro para correr mundo.” As imagens da página à esquerda salientam uma criança chorando, os barracos e as formas de cozinhar. Essas últimas possuem como legendas “Cozinhar ao ar livre não enche de fumaça a casa” e “ A bateria é pequena, e as cozinheiras, milagrosas” indicando as dificuldades apresentadas e as soluções encontradas pelas mulheres na sobrevivência cotidiana. O que une as duas páginas é uma fotografia deslocada de crianças brincando de roda, tendo a paisagem de galpões e trens a seus pés. À direita, como pilar, fotografias de duas negras grávidas trabalhando: a primeira cortando lenha e a segunda lavando roupa em uma tina. A legenda indica uma contradição ou uma inversão da idéia de trabalho, como se no morro não pudesse ocorrer o trabalho, ainda mais, o pesado executado por mulheres, mesmo grávidas guerreando pela sobrevivência: “Também no morro se trabalha... Trabalho differente e pesado, sem direito a descanso quando alguém está para nascer.” A fotografia de crianças, dois meninos e uma menina, registradas em ângulo de baixo para cima, o que valoriza a dimensão a que se queira dar, fecha a reportagem. A legenda sugere alento e a capacidade da infância em resistir em meio a precariedade da situação: “A vida é boa de verdade para estes. E, no morro, quantos motivos para grandes descobertas que a alma infantil realiza sempre, dentro de mil insignificâncias...” Temas atuais podem ser dialogados com as sugestões promovidas por esta ilustração: a ocupação de morros por 31


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

traficantes e a utilização de crianças no tráfico de drogas cada vez mais cedo; os morros cariocas enquanto local de turismo estrangeiro; a relação da religião com determinados setores sociais e a infiltração de outros vieses religiosos naquele espaço; os sinais de pobreza que foram captados pelas lentes do fotógrafo e as mudanças ou permanências desses sinais e principalmente, quais seriam as possíveis paisagens humanas proporcionadas pelo morro hoje. A ilustração 12 registra o desfile do Dia da Raça em 1937 e é uma cena perfeitamente adequada para conjeturarmos acerca das estratégias adotadas pelo governo Vargas na estruturação do Estado Novo. Atentemos às propagandas em um primeiro momento. Dispostas nos cantos esquerdos e no alto à direita têm produtos voltados ao público feminino respectivamente: o dentifrício Gessy “... clareia... sem desgastar o esmalte”; Metrolina “ antisséptico gynecológico para a Hygiene íntima da mulher” e o perfume Organdy de Bazin “ a venda em todo o país. Os perfumes tem, como as artes e as letras, os seus grandes mestres e as suas obras primas. Organdy de Bazin é a grande obra prima da perfumaria.” As

fotografias

dos

desfiles

apresentam

moças

uniformizadas e percebemos pelas legendas tratar-se de escolas femininas, crianças de escolas municipais e moças do Instituto Superior de Preparatório. Bandeiras, ordem, uniformes, chapéus são a tônica dos registros fotográficos. As legendas e o texto narram: “ O Rio de Janeiro assistiu em 05 do corrente ao “Dia da Raça”. 40.000 crianças de nossas escolas, colegiais, classes armadas, associações esportivas.” E ainda: “Foi um espetáculo grandioso e confortador, uma

32


Propagandas, masculino/feminino e variedades: a revista O Cruzeiro na aula de História

affirmação de pujança da nova geração do Brasil [...]. Nossa objectiva procurou collher alguns aspectos da parada, que dão idéia da sua imponência e grandiosidade”. Temos aqui vários elementos interessantes para discutir o período: o desfile do Dia da Raça (05/09) às vésperas do desfile de independência (07/09); o uso de bandeiras e uniformes, vetores fundamentais na organização visual de corpo da nação, corpo social muito utilizado em governos autoritários; a presença feminina ( a mulher enquanto símbolo da nova raça); o diálogo com os produtos próprios ao universo feminino (perfumes, higiene íntima, pasta dental) relacionando raça/mulher/higiene; o próprio termo “raça” utilizada naquele momento e os adjetivos e os termos adotados pelo texto jornalístico (pujança, imponência, grandiosidade, nova geração).

Ilustração 12. O Cruzeiro, 11/09/1937

33


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Dessa forma, o termo “variedades” nas ilustrações selecionadas agregou crônicas culturais, sociais e políticas com o objetivo de apresentar flashes da sociedade, mas, sem abrir espaços a maiores reflexões, onde até mesmo a pobreza ganha tintas de poesia e melancolia. Considerações finais As sugestões ora proporcionadas nesse texto tomam como premissa a atividade do professor em sala de aula com o documento imagético e textual disposto em um periódico. Isso implica em pensar as etapas de apresentação desse documento: a mobilização de conhecimentos prévios de alunos envolvidos; a descrição (destacar as informações que o documento possui); a explicação (associar as informações com os conhecimentos anteriores); a contextualização do documento na época, bem como, a identificação da natureza do documento e finalmente, a verificação dos limites e os interesses vinculados ao documento. Dessa forma o uso de O Cruzeiro em uma aula de história possibilita uma multiplicidade de questões que dialogam com a contemporaneidade: a análise dos conteúdos dos textos, o formato apresentado, as propagandas e anúncios, a disposição de imagens e fotografias, as autorias envolvidas, como o conjunto de informações está distribuído, a circulação territorial, o consumo da revista enquanto produto cultural, mas, também como mercadoria e o público a ser atingido. Assim, essa fonte histórica, como outras possíveis de serem utilizadas na organização de um conhecimento histórico escolar, media reconstruções explicativas de um período, em diálogos atuais, orientando alunos a atentar quanto às escritas e narrativas históricas realizadas em diversos momentos. 34


Ilustradores da revista O Cruzeiro Alberto Gawryszewski

O editorial do número 01 da revista O Cruzeiro deixava clara a importância da imagem em sua composição: “O concurso da imagem é nela um elemento preponderante. A cooperação da gravura e do texto concede à revista o privilégio de poder tornar-se obra de arte.” Por ser uma revista nova e moderna, apresentava-se como portadora de uma nova mensagem usando novas tecnologias. O uso das imagens, em especial da fotografia e da ilustração em cores, e de uma nova diagramação foi pensado para mexer com os velhos hábitos e criar novos modelos. A capa do primeiro número, por si só, já é um bom exemplo da proposta do editorial. As capas eram assinadas como se fossem quadros. Nas reportagens, propagandas, enfim, em quase toda a revista se encontravam ilustrações feitas pelo lápis de algum artista. As fotos também estavam presentes e foram ocupando um espaço cada vez maior dentro 35


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

da revista, mas não tiravam a beleza e a importância dos desenhos, em especial dos desenhos satíricos. Nossa preocupação neste trabalho não é discutir todas as ilustrações contidas na revista O Cruzeiro, mas mostrar o uso do cartum, da charge ou da caricatura em seu conteúdo. Muitos foram os que contribuíram para O Cruzeiro com sua arte. Como exemplo, podemos citar J. Carlos (1884-1950), com ilustrações e capas; Guevara (?-1965), com caricaturas; Appe (1920-2006), com caricaturas políticas; Alceu Penna (1923-1980), em páginas duplas com a série As Garotas; Millôr (1923), com a série Pif-Paf e Ziraldo (1932-), com a Turma do Pererê. Péricles (1924-1961), criador de um grande sucesso com o personagem O Amigo da Onça, Carlos Estevão (1921-1970), continuador da série com a morte de Péricles e criador de, entre outros sucessos, Dr. Macarra e Ser Mulher, foram estudados no primeiro volume da série História na Comunidade (volume 01), portanto, optamos por excluí-los deste volume. Selecionamos quatro ilustradores da revista O Cruzeiro para a abordagem neste estudo, a saber: Belmonte, Nássara, Bordalo e Augusto Rodrigues. Outras seleções seriam possíveis, pois outros ilustradores fizeram excelente trabalho na revista e em suas carreiras profissionais. Há uma diferença conceitual entre caricatura, mais voltada para traços corporais do caricaturado, charge, mais voltada para crítica a um fato específico e, por fim, cartum, este com uma linguagem artística universal. A charge e a caricatura possuem limites temporais e espaciais, já o cartum, não. Acredito que o leitor ficará, ao final do texto, curioso por conhecer ainda mais sobre os artistas aqui tratados, como também pelos apenas nomeados. 36


Ilustradores da revista O Cruzeiro

Belmonte “Juca Pato está careca De tanto levar no coco... Ele apanha como peteca, Até parece pato choco...”

Os versos acima fazem parte de um maxixe (tipo de música muito difundida no fim do século XIX e início do século XX, propícia à dança de salão) que fez muito sucesso na cidade de São Paulo nos anos trinta. Seu nome é “Coitado do Juca Pato” e se refere a uma figura muito popular na imprensa brasileira nas primeiras décadas do século XX (criado em 1925). “Juca Pato” é o personagem mais importante criado por Belmonte. Hoje ele est�� associado a um importante prêmio da Associação Brasileira de Escritores, dado anualmente: o Prêmio “Juca Pato”. Mas seu nome já esteve associado a propaganda de cigarros, água sanitária, graxa de sapatos, entre outras coisas. Sua figura, por si só, já expressava sua personalidade: careca,

óculos

escuros,

gravata

borboleta,

cabeça

desproporcional, terno preto, polaina. Ele representava o povo brasileiro, com seus sofrimentos cotidianos, indagações sobre a existência, mutretas políticas etc. Simbolizando o cidadão comum, não poderia se dar bem, pois não é o povo que paga o pato? Segundo Belmonte: “O ideal de justiça e os anseios de igualdade foram, em verdade, os princípios que moveram meu Juca Pato... Seria o nosso Dom Quixote a lutar contra os moinhos de vento não fictícios?” Belmonte foi um paulistano por toda a vida. Nasceu em 1897 e morreu em 1947 sendo enterrado em sua terra, na 37


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

quadra 44 do cemitério São Paulo, onde, sobre a sepultura há uma estátua de “Juca Pato”. Foi convidado para trabalhar no Rio de Janeiro, mas sua “vida carioca” só duraria dois dias, retornando para São Paulo. Também foi convidado para ir para os Estados Unidos, mas se recusou. Era, talvez, o mais importante desenhista fora do circuito carioca, que concentrava a “nata” dos grandes chargistas e caricaturistas (J. Carlos, Nássara, Theo, Álvarus etc.). O período ditatorial do Estado Novo (1937-45) se caracterizou pela repressão às diversas formas de expressão coletiva, fosse reivindicatória ou cultural. O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) foi o órgão responsável por divulgar as mensagens que interessavam ao Estado, realçando as qualidades do líder Vargas, de suas propostas, pela difusão da imagem do “bom trabalhador” brasileiro, detentor de direitos trabalhistas e da proteção do Estado, e pelo combate contra o “malandro”, o “sem-emprego”, o desocupado, que deveria ser punido por não contribuir para o “engrandecimento” da Nação. A censura sobre as artes não poderia ter sido diferente: músicas, jornais, esculturas, romances etc., todos sofreram com sua existência. A censura direta às caricaturas trouxe mudanças de conteúdo. O sentimento reinante para os caricaturistas de humor no Brasil foi o da decadência de seu campo de produção, atribuída à violência da censura. Sgarbi (apud SILVA, 1989, p.27) nos informou que a caricatura política deixou de existir para ceder lugar à caricatura de costumes (fatos corriqueiros do dia-a-dia sem crítica ao estado). Álvaro Cotrim (1965, p. 25), famoso caricaturista brasileiro, sobre o mesmo período, disse:

38


Ilustradores da revista O Cruzeiro

A partir de 1937, com a implantação do celerado DIP, a caricatura, especialmente a política, que havia dado tão belos frutos, perdeu, naturalmente, seu ímpeto, [...]. Como na França de Luiz Felipe, em 1834, ao rigor da censura, os nossos caricaturistas também se voltariam, como seus ancestrais franceses, para a caricatura de costumes, um tanto anódino.

Herman Lima (1963, p. 30) também reforça essa tese da liberdade de criação do caricaturista citando um de nossos maiores caricaturistas, J. Carlos: Era assim que em pleno Estado Novo, falado à Revista da Semana, em agosto de 1944, o mesmo J. Carlos afirmava categoricamente a decadência vertiginosa da caricatura, entre nós, por falta de ambiente propício, porque ‘reproduzir nos jornais, deformando-a, a cara de pessoas ilustres, famosas ou conhecidas por qualquer motivo não tem nenhuma significação.’[...].

Belmonte enfrentou a censura do Estado Novo com dignidade e coragem, até que foi obrigado também a se voltar para a temática internacional, tão crítica quanto a que fazia correntemente, mas com menos censura. Estas charges tiveram reconhecimento de fora do país. Um dos políticos mais caricaturados por Belmonte foi o chefe de propaganda e subordinado íntimo de Hitler, Goebbels. Conta-se que, ao ver os desenhos de Belmonte que lá chegavam, teria dito que o nosso artista estava a serviço dos Estados Unidos e Inglaterra, ou seja, receberia dinheiro para produzir aqueles desenhos. Para a revista O Cruzeiro Belmonte criou uma charge dividida em dois quadros, onde comparava dois tempos. Não era uma proposta inovadora, pois na música, por exemplo, já encontraríamos tal situação. O Brasil se transformava, 39


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

urbanizava-se e se industrializava. Desde a reforma urbana que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, em 1904, a elite buscava romper com o passado colonial e imperial e mudar o perfil das cidades com a construção de largas avenidas arborizadas e de prédios com traços mais modernos. A revista O Cruzeiro acompanhava e defendia essa transformação e visão. A imagem ao lado, por exemplo, publicada no primeiro número da revista O Cruzeiro, em 10 de novembro de 1928, é muito significativa. Ao fundo, na parte de cima, temos o Pão de Açúcar, gasômetro,

arranha-

céus,

fábricas,

avião,

entre outras imagens. Abaixo,

em

primeiro

plano, a palhoça, um homem

dormindo

na

rede amarrada em uma árvore e uma bananeira, um caçador e uma onça, um formigueiro sendo atacado por um tamanduá, um índio dormindo enquanto a carne humana estava sendo preparada na panela e por aí vai. São personagens retirados de pinturas clássicas brasileiras do século XIX, que na perspectiva dos autores possuíam carga positiva. A revista, ao contrário, buscava mostrar essas imagens representando o Brasil atrasado, inclusive com um olhar preconceituoso, já que defendia o Brasil Moderno, ou seja, tudo que poderia barrar o progresso do país era denunciado e criticado, mesmo 40


Ilustradores da revista O Cruzeiro

que fosse preciso adentrar em um discurso carregado de idéias pré-concebidas. O editorial do primeiro número de O Cruzeiro deixou sua proposta: Porque é a mais nova, Cruzeiro é a mais moderna das revistas. É este o título que, entre todos, se empenhará por merecer e conservar: ser sempre a mais moderna num país que cada dia se renova, em que o dia de ontem já mal conhece o dia de amanhã; ser o espelho em que se refletirá, em períodos semanais, a civilização ascensional do Brasil, em todas as suas manifestações; ser o comentário múltiplo, instantâneo e fiel dessa viagem de uma nação para o seu grandioso porvir. Propunha ser uma publicação em prol do progresso do Brasil. Não só defender, mas também registrar a ascensão de nossa modernidade. Nada mais sutil. O conceito de civilidade passava pelo desenvolvimento urbano, pelo crescimento industrial, pela adoção de costumes modernos no trajar, falar e comer. As comparações, para ajudar a difusão e aceitação dessas idéias pela população, foram uma constante na revista. Assim, Belmonte aceitou a proposta da revista e a defendeu com seus desenhos. Assim criou a série Ontem e Hoje. É claro que, como veremos a seguir, seus traços também tinham a meta do riso e de uma crítica moral. A

imagem

ao

lado,

publicada em dois de agosto de 1930, é muito curiosa. A 41


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

comparação proposta por Belmonte é em todos os sentidos. Vejamos a escrita: O homem – criação do mistério – teve sempre atração ao misterioso... Há anos uma perna feminina tinha todo o encanto das coisas ignoradas... Mas hoje que as saias subiram, as pernas desceram de cotação! Na imagem superior temos os prédios coloniais, buracos na via pública, uma carruagem e um homem com sua roupa de época vendo passar duas mulheres com cabelos presos, chapéu e longos vestidos. Como diz a legenda, sem as pernas à mostra. Na parte superior da imagem temos os prédios altos, automóvel, mulheres acompanhadas de um homem, de outra mulher e sozinhas. Homens conversando com homens e com mulheres. A vestimenta de ambos os sexos compatível com a modernidade, bem ao estilo americano da década de 20. As mulheres usando o cabelo curto e com as pernas à mostra. Belmonte não ousou colocá-las de calça comprida. A dúvida é: se as pernas caíram de cotação, qual a outra parte feminina que subiu de cotação? Veja-se que os vestidos agora são mais justos. Para concluir, chamamos a atenção do cachorro rindo para o leitor. Representa, talvez, alguma homenagem a um cachorro do artista ou, quem sabe, foi puro prazer. Afinal, na modernidade não é concebível cachorro abandonado na via pública. Outra imagem curiosa e divertida de Belmonte vem a seguir. Diz o jovem à moça: A senhorita dá licença que eu a acompanhe? Ela responde: Se o cavalheiro quiser. Na parte inferior da imagem o diálogo quase que se repete: A senhorita dá licença que eu a acompanhe? Se o cavalheiro puder... Na parte superior temos a lentidão da liteira, que é carregada por dois escravos descalços, sem camisa e com traços de aborrecimento. Novamente a via esburacada e um prédio 42


Ilustradores da revista O Cruzeiro

colonial ao fundo. Na parte inferior da imagem vemos um prédio em linhas modernistas, a via pública sem buracos e um policial, com olhar surpreso, mas representando a segurança dos tempos modernos. A mulher com seu cabelo curto, independente, dirige seu automóvel, deixando o cavalheiro a “comer poeira”. As vestimentas mais uma vez com suas transformações. Temos também a figura do cachorro. Agora são dois, cada um no ritmo de seu tempo: no passado, lento;

O Cruzeiro, 16/08/1930

no presente, ligeiro.

43


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Nássara Alá-la-ô ô ô, mas que calor ô ô. Atravessando o deserto do Saara, o sol estava quente e queimou a nossa cara, Alá-la-ô ô ô. Viemos do Egito e muitas vezes nós tivemos que rezar: Alá, Alá Alá, Meu bom Alá, mande água para ioiô, mande água para iaiá, Alá, meu bom Alá... Sucesso do carnaval de 1941. Autoria de Nássara e Haroldo Lobo

Antônio Gabriel Nássara é uma das personalidades mais ilustres da História do Brasil. Como caricaturista, chargista e compositor de samba produziu alguns dos desenhos de humor gráfico e sambas que mais marcaram o imaginário popular de seu tempo. A música Alala-ô é cantada até hoje. Podemos somar: Floribela, Balzaquiana, Sereia de Copacabana e Periquitinho Verde. Foi também locutor do Programa do Casé, sendo assim um dos pioneiros do rádio, e criador de jingle publicitário. Como caricaturista e chargista trabalhou para os principais meios de comunicação impressos do Brasil, entre eles: revista O Cruzeiro, A Nação, Diretrizes, Última Hora e Pasquim. Nássara nasceu no Rio de Janeiro em 1910, cursando arquitetura até o quarto ano na Escola Nacional de Belas Artes (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro). Seu primeiro desenho publicado foi no jornal carioca O Globo, em 1927, mas 44


Ilustradores da revista O Cruzeiro

somente na década de 30 é que se tornou profissional. Teve uma vida profissional ativa até sua morte, em 12 de dezembro de 1996, com 86 anos de idade. Assim como as letras de suas músicas, que satirizavam e criticavam a situação política, econômica e social brasileira, seus desenhos também o faziam. Apesar de a letra acima, por exemplo, não trazer nenhuma referência ao problema da falta de água na cidade do Rio de Janeiro, à época capital da República, a correlação é clara para os contemporâneos da música. Para a revista O Cruzeiro produziu inúmeras caricaturas de artistas e políticos brasileiros e estrangeiros e tinha sessão intitulada Caricaturas do Nássara. A imagem a seguir, por exemplo, com o título Água e Leite, traz uma situação comum ao carioca e ao brasileiro urbano que era a falta de água nas torneiras e o excesso de água no leite distribuído para o consumo. Portanto, em uma mesma charge conseguiu denunciar e fazer rir frente a dois problemas enfrentados pela população. A mistura da água e leite era chamada de “batismo” e objetivava o aumento do lucro do vendedor do produto. Na primeira imagem temos a seguinte legenda: Eis aqui os três “personagens” do drama da “Água no leite”. A ingênua Mimosa, o inteligente Seu Manuel e a impossível bica d’água. A mimosa é a vaca propriamente dita; o Seu Manoel é o português que adultera o leite para aumentar seus ganhos, e a bica d´água a responsável pelo produto adicionado ao leite. Na segunda imagem vemos a cena de dois cientistas, em seu laboratório, analisando uma suposta amostra de leite. Chegam à seguinte conclusão: Depois de muitas horas de inúteis trabalhos de pesquisa, os químicos resolveram mudar de orientação; passaram a procurar a existência de leite na água. 45


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

O Cruzeiro, 14/08/1943

O Cruzeiro, 22/04/1944

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Ilustradores da revista O Cruzeiro

Outra série produzida por Nássara para O Cruzeiro foi Minha Luta, onde satiriza a figura de Hitler utilizando o título do livro do ditador. De 24 de julho a 02 de outubro de 1943, o leitor da revista pôde se deliciar com o seu humor destruidor. A imagem anterior foi publicada em 14 de agosto de 1943. As críticas das frases são, especialmente, dirigidas a Mussolini, a quem chama de rinoceronte e responsabiliza pelas dificuldades encontradas pela Alemanha na guerra em função de seus atos estratégicos fracassados. Na primeira imagem publicada, em 24 de julho, Hitler escreve que copiou de Chaplin o bigodinho e a de Napoleão a mão dentro da casaca. Em síntese, de um lado ridiculariza o ditador e conta uma parte da História, na visão do artista. Na imagem abaixo, publicada em 17 de junho de 1944, podemos perceber que agora se chamava Charges de Nássara e seguia o modelo de Belmonte, ou seja, trabalhava com dois tempos, passado e presente. Mais uma vez a figura é Hitler, que, no primeiro momento, domina o leão inglês, mas por ele depois é derrotado. Churchill, Primeiro-Ministro da Inglaterra, joga no lixo, com ar de satisfeito, o símbolo nazista, a suástica.

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Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Borjalo Mauro Borja Lemos, cujo nome artístico era Borjalo nasceu em 15 de novembro de 1925, na cidade de Velho da Taipa, estado de Minas Gerais. Faleceu em Teresópolis, em 19 de novembro de 2004. Por seu estilo de desenhar teria causado um furor no meio artístico, ou seja, seus desenhos eram compreendidos facilmente, mesmo sem o uso de palavras. Além da revista O Cruzeiro, trabalhou para outras importantes revistas e jornais brasileiros: A Cigarra e Manchete. No fim dos anos 50 trocou a imprensa pela Televisão, que ainda engatinhava. Passou pela TV Excelsior, TV Rio e, por fim, a TV Globo, onde trabalhou até morrer. Foi nesta emissora que criou, nos anos 70, para o programa Fantástico, a Zebrinha da Loteria, que dava o resultado da Loteria Esportiva. Sua boca e seus olhos se movimentavam quando falava. De sua boca saía uma voz fina e, quando o resultado do jogo não era o esperado, ela gritava: ZEBRA! Outra criação sua, que todos conhecem, é a vinheta da Globo que faz Plim-Plim. Um exemplo do que representava sua revolução artística é a imagem ao lado, publicada em O Cruzeiro, no dia 29 de julho de 1958. Não foi a primeira, mas a escolhi pela sua beleza e simplicidade. Em realidade, trata-se de um cartum, isto é, um desenho que possui linguagem universal, não se limita ao tempo ou espaço específico. Neste outro caso estão a caricatura e a charge que, em geral, só podem ser entendidas no seu contexto, por seu público. Nesta imagem, o artista, em uma caverna, copia pedaços de outra obra, ou conjunto de obras, que se encontram pintadas na parede. São as conhecidas 48


Ilustradores da revista O Cruzeiro

pinturas rupestres. O suposto autor das obras, o homem das cavernas, parece não estar gostando do que vê: ou a invasão de seu lar, ou da cópia de suas obras, ou dos dois.

Por produzir cartuns e por serem de excelente qualidade plástica, Borjalo teve seus trabalhos distribuídos fora do Brasil. Assim, foram publicados na Inglaterra, Estados Unidos, Itália, França e Bolívia. 49


O Cruzeiro, 13/07/1957

Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Outro cartum publicado na revista O Cruzeiro e que mostra a genialidade de seus traços foi intitulado Borboletas. As imagens emocionam e falam por si. O caçador sonha com as borboletas, oferece flor, caça com o filho enquanto a borboleta pai passeia com a borboleta filho e por aí vai...

O Cruzeiro, 28/06/1958

O Cruzeiro, 09/04/1960

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Ilustradores da revista O Cruzeiro

No final dos anos cinquenta, publicou diversos cartuns, cada um com um tema, divertindo-se e divertindo os leitores: farol, laço, baleia, hidroavião, entre outros mais variados possíveis. Na página anterior apresentamos dois, um de 1958 e outro de 1960, para mostrarmos uma continuidade na forma de expressão. Diferentemente de outros de seus trabalhos, traziam o humor fácil. Buscava provocar o riso simplório e mexer com as emoções de seus leitores. Era internacional porque suas causas não estavam limitadas às fronteiras do Brasil. Logo após esta série, sai da revista. Augusto Rodrigues Augusto Rodrigues foi outro genial artista plástico a figurar nas páginas da revista O Cruzeiro. Como pintor, caricaturista, chargista, educador, teve uma vida intensa. Nasceu na cidade do Recife, estado de Pernambuco, no ano de 1913, filho de uma família abastada e tolerante politicamente e de importantes jornalistas na cidade do Rio de Janeiro. Sem formação acadêmica, estreou como ilustrador do jornal Diário de Pernambuco. Depois partiu para a cidade do Rio de Janeiro, onde seu tio, Mario Leite Rodrigues, proprietário de jornais como A Manhã e Crítica o ajudou. Como caricaturista e chargista político, trabalhou em diversos jornais: O Jornal, Diário de São Paulo, Fon-Fon!, Tribuna Popular, entre outros. Na revista O Cruzeiro, além de reportagens, fez muitas ilustrações. Um exemplo de suas reportagens é a que aparece abaixo, onde trata de um tema de sua seara. 51


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

O Cruzeiro, 01/06/1957

Tal como tantos outros desenhistas, no período do Estado Novo partiu para charges e caricaturas de costumes ou que tratavam de tema internacional. Ao travar uma luta contra o nazi-fascismo internacional, sabia que combatia o regime totalitário de Vargas. Desenhos seus com esse tipo de perspectiva corriam o mundo, em especial na América Latina. Um exemplo de charge de costumes, que buscava somente o riso do leitor, é a intitulada Foot-ball (Futebol), publicada em pleno Estado Novo, no dia 20 de janeiro de 1940. Apresenta, de forma cômica, alguns personagens que compunham o futebol: a esposa do jogador; o médico; o fotógrafo; o jogador, o beque e, por fim, uma cena especial de um jogo. O fotógrafo diz ao goleiro em plena ação: “Atenção! Fique firme! Não se mova, que o flagrante vai sair na primeira página”. A esposa 52


Ilustradores da revista O Cruzeiro

do jogador se dirige ao marido e fala: “Não, Fernando! Não pegue nesta bola! Está toda suja de lama”. O jogador, com uma galinha morta na mão, pensa: “Este é o único jeito de me iludir, quando gritarem: GALINHA MORTA!. Fingindo que não é comigo...”. Na parte inferior direita, em uma cena onde jogadores estão machucados (um sem a cabeça) e brigando diz que é “um ligeiro acidente ocorrido entre o Paz e Amor Sport Club e o Harmonia Foot-Ball Club”. No quadro dentro da ilustração, pede perdão pela forma como desenhou: “Perdão! O futebol é uma coisa séria![...]. No estádio moderno, são os espectadores que massacram o juiz [...] ou os próprios jogadores, quando se trata de partidas internacionais[...]”. Ou seja, na imagem ou no texto, ou em ambos, a razão é o riso fácil, a descontração.

O Cruzeiro, 20/01/1940

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Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Quando criança, teve muitos problemas nas escolas em que estudou, sendo expulso de várias delas. Assim, esse passado em que contestava a forma de ensinar, somado ao fato de que compreendia que a escola não mudara desde seu tempo, nem mudaria simplesmente com a redemocratização, levou-o pensar na importância da arte para o ensino. Em 1948 fundou, com outros artistas que tinham a mesma preocupação, a Escolinha de Arte do Brasil. Para Augusto Rodrigues e seus companheiros, o regime democrático só se consolidaria com cidadãos que soubessem preservar a paz e compreendessem a condição humana, criando um meio social tranquilo e saudável. Hoje, Augusto Rodrigues é mais citado e estudado como educador do que como pintor, embora sua proposta pedagógica esteja toda relacionada com a arte. Desenvolveu importantes trabalhos educativos, entre eles a organização de exposições de arte produzidas por crianças brasileiras em várias capitais da Europa. Todas essas atividades com a educação o levaram a abandonar, quase que completamente, a charge e a caricatura. Parou de trabalhar para os Diários Associados e deixou de ilustrar O Cruzeiro. Nos últimos anos de sua vida morou no bairro de Penedo, cidade de Itatiaia, interior do estado do Rio de Janeiro, onde faleceu, em 1993. Ao finalizarmos este texto, espero ter contribuído para a divulgação do trabalho desses ilustradores brasileiros. Por sua arte se pode compreender melhor a História brasileira, História política ou cotidiana, econômica ou da comunicação. As imagens, neste caso, podem trazer o riso e a reflexão, mas o importante é que representam uma forma de ver o mundo, que era de muitos. 54


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

Jorge Luiz Romanello

Introdução Falar em poucas páginas da história daquela que foi uma das mais importantes revistas que já circulou no Brasil não é tarefa simples. O Cruzeiro, de fato, mais do que uma revista ilustrada, foi um modelo para a mídia brasileira, ou, melhor dizendo, foi uma lançadora de modelos que motivou importantes mudanças nas estruturas da própria comunicação do país. Ao longo das décadas em que a revista circulou, as matérias e reportagens veiculadas em suas páginas ganharam a confiança dos leitores e eram, em larga medida, encaradas como “A Verdade” sobre os fatos publicados, e não apenas uma versão entre as muitas possíveis. Nesta

história,

tão

importante

quanto

sua

representatividade enquanto veículo de comunicação e sua respeitabilidade junto ao público, foi o fato de conseguir atingir, de maneira única, a afetividade dos leitores. Era 55


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

comum encontrar pessoas que colecionavam as revistas, que as guardavam semana após semana como uma referência sobre os acontecimento, ou mesmo por sua beleza. Muitos dos ex-leitores até hoje relatam em conversas informais, com carinho, as lembranças das experiências de receber em casa, ou de comprar nas bancas o esperado exemplar semanal da revista. Segundo eles, estes eram momentos habitualmente vividos em família, e a chegada da revista aos lares é lembrada em detalhes, como motivo de ansiedade para ler sobre os acontecimentos da semana, ou, o mais comum, para saber a última travessura feita pelo “Amigo da Onça”, o célebre personagem criado por Péricles Maranhão e imortalizado nas páginas de O Cruzeiro. A variedade e a profusão de imagens foram suas principais marcas, semanalmente a revista era ilustrada com uma grande quantidade de fotos, cartoons, charges e desenhos de todos os tipos, o que a tornava bastante atraente. Em suas páginas os leitores – mas principalmente as leitoras – encontravam cotidianamente uma enorme variedade de assuntos: política, cidades, ciências, cinema, teatro, o mundo do rádio, contos, moda, carnaval, história, lugares exóticos, esportes, curiosidades e um sem número de outros que se alternavam ou se sucediam semana após semana, inseridos em meio a uma profusão de propagandas de quase todos os produtos que se possa imaginar. Para dar conta, ainda que parcialmente, de assunto tão amplo e complexo, é necessário trabalhar simultaneamente com a abordagem de várias perspectivas que se enredam na história da revista. Nesta perspectiva, é tão fundamental considerar a 56


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

perenidade do periódico, quanto as mudanças técnicas – que dizem respeito ao maquinário disponível, à adoção de novos padrões editoriais e estilos fotográficos e etc. – ocorridas ao longo das quase cinco décadas em que circulou. Da mesma forma o poder e a influência de seu proprietário, Assis Chateaubriand também devem ser considerados, entre outros aspectos. Esta história – que é apenas uma entre as muitas possíveis e necessárias a respeito do tema e que não pretende esgotá-lo – tenta contemplar, na medida do possível, estas diferentes questões, considerando elementos pertinentes à cada uma delas. A implantação e os primeiros anos de O Cruzeiro A história da revista O Cruzeiro confunde-se com a história da vida do advogado e jornalista aventureiro, Assis Chateaubriand Bandeira de Mello – conhecido publicamente como Assis Chateaubriand e, pelos íntimos, simplesmente como Chatô. Nascido em 1892 em Umbuzeiro, na Paraíba, ainda como estudante da Faculdade de Direito do Recife, lançouse na carreira jornalística, fazendo das polêmicas públicas uma forma de se projetar. Chateubriand já havia descoberto o poder desta prática – quando, ainda com 17 anos, travou uma polêmica com Sílvio Romero pelas páginas dos jornais, tornando-se momentaneamente o centro das atenções locais (MORAIS, 1994). Na época, 1909, Romero era um famosíssimo intelectual e Chateaubriand, um ilustre desconhecido. A ousadia deste feito projetou sua imagem. 57


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Em 1916, recém formado e com apenas 24 anos, foi admitido como professor da faculdade em que estudara. Considerado muito jovem e inexperiente por muitos, teve sua admissão contestada e somente conseguiu o cargo após uma batalha judicial que movimentou influências de bastidores em várias capitais. Depois de tudo resolvido decidiu não assumir o posto e mudou-se para o Rio de Janeiro, disposto a construir uma cadeia de jornais. Na capital, desenvolveu diversas atividades como advogado e empresário, nunca se afastando do jornalismo, profissão a qual mais tarde se dedicaria quase exclusivamente (MORAIS, 1994). Em 1924 com a compra de O Jornal, publicado na cidade do Rio de Janeiro, iniciou-se efetivamente a execução do projeto acalentado a muito tempo. Com esta aquisição – logo seguida pela compra do Jornal da Noite de São Paulo – Chateaubriand fundava os alicerces dos Diários Associados A partir da compra de O Jornal, a aquisição de jornais, revistas, rádios, agências de propaganda, e outras empresas do setor, não parou mais. A revista O Cruzeiro integrou este grupo e transformouse em sua empresa mais importante. Em 4 de maio de 1928 foi fundada a Sociedade Anônima Empresa Gráfica O Cruzeiro, uma revista semanal ilustrada (NETTO, 1998, p. 35). O título já existia e foi comprado do antigo proprietário, Edmundo Miranda Jordão, pela importância, vultuosa na época, de dois contos e 500 mil réis (Id. ibid., p. 35), e circulou com o título O Cruzeiro em seus primeiros anos. Este pequeno fato pode parecer pouco importante, mas 58


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

por si só já revela detalhes sobre o funcionamento do mercado editorial da época, na medida em que demonstra que outros já percebiam o espaço e o potencial do mercado para a circulação de mais uma revista, no segmento dos “Magazines”, como foram chamadas mais tarde. Até então não existia no Brasil uma publicação deste tipo que atingisse todas as regiões do país, o que exigiu grandes esforços e gastos e Assis Chateaubriand não mediu esforços para concretizá-lo. A revista definia-se em seus primeiros números, como a “Revista Contemporânea dos Arranha-Céus”, numa clara alusão aos grandes edifícios que erguiam-se nas megalóples dos Estados Unidos e que começavam a ser construídos em maior número também no Rio de Janeiro e em São Paulo. Naquela época, difundiam-se no país as promessas do progresso representadas pelas grandes cidades, pela difusão da tecnologia e da eletricidade que, juntamente com a construção dos arranha céus de concreto, formavam o próprio Glamour do modo de vida urbano, considerado por muitos – principalmente pela elite – como o melhor, mais civilizado e, principalmente, como um modelo a ser seguido pelos brasileiros. No editorial1 do primeiro número – publicado em 10 de novembro de 1928 – a revista definia-se como moderna. O texto de autoria de Carlos Malheiros Dias mais parecia uma declaração de intenções a respeito desta modernidade e associava a imagem da revista aos arranha céus, à radiotelefonia e ao correio aéreo

Termos semelhantes foram utilizados em mais de 400.000 panfletos utilizados para promover o lançamento da revista. 1

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Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Depomos nas mãos do leitor a mais moderna revista brasileira. Nossas irmãs mais velhas nasceram por entre as demolições do Rio colonial, através de cujos escombros a civilisação traçou a recta da Avenida Rio Branco: uma recta entre o passado e o futuro. Cruzeiro encontra já, ao nascer, o arranha-céo, a radiotelephonia e o correio aéreo: o esboço de um mundo novo no Novo Mundo. Seu nome é o da constelação que, ha milhões incontaveis de annos, scintila, aparentemente immovel, no céo austral, e o da nova moeda em que resuscitará a circulação do ouro. Nome de luz e de opulencia, idealista e realistico, synonymo de Brasil na linguagem da poesia e dos symbolos (O Cruzeiro, 10/11/1928).

Segundo Ursini (2000, p. 20) estes elementos apresentavam-se enquanto índices de um novo estilo de vida Os índices do moderno estilo de vida estão relacionados ao que a técnica proporciona, aos novos espaços conquistados por meio da modelação da cidade e aos usos desses espaços. São índices o telefone, a casa com garagem – mesmo que se não o possua, ainda –, o fogão a gás, o aparelhos domésticos movidos a energia elétrica, entre os quais estava o aspirador de pó, chamado na virada da década de 1930 de “máchina elétrica” ... A idéia por trás dessas novidades tecnológicas é a de transformação. Transformação que pode ser vista nas grandes cidades que se remodelam sem parar: abertura de vias, construção de eddifícios, de pontes ... um mundo novo que podia ser visto ao vivo ou em imagens fotográficas. O cenário preferido pela revista O Cruzeiro era a cidade do Rio de Janeiro, a capital da República.

Nesta concepção, integrava-se a própria urbanidade a que já nos referimos, e o Rio de Janeiro é mostrado como modelo e índice de desenvolvimento para um país inteiro (Id. ibid., p. 20). Publicados também no primeiro número, os projetos de reforma urbana propostos para o Rio de Janeiro, elaborados 60


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

pelo urbanista Alfred Agache, integram uma reportagem sobre o futuro da cidade. “O Rio de Janeiro de 1950” (O Cruzeiro, 10/11/1928) exemplifica estes sonhos de um futuro grandioso para a capital do país. Neles, a cidade foi apresentada em um estilo grandioso e futurista, os desenhos criavam a sensação que em 1950 a cidade do Rio seria uma megalópole integralmente constituída por prédios imensos, densamente distribuídos entre ruas largas e avenidas, enquanto poderosos holofotes iluminavam os céus. Todos estes elementos símbolizavam o próprio conceito de modernidade da época.

O Cruzeiro, 10/11/1928. http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro

Outras representações desta modernidade, também podem ser encontradas na revista, como por exemplo, nas propagandas dos mais diversos tipos de produtos, na presença sistemática de reportagens sobre a aviação, ou mesmo na glamourosa passagem do Graf Zeppelim pelo Brasil. A passagem da “fantástica máquina voadora”, uma legítima novidade tecnológica no mundo, produziu uma série de reportagens em várias edições de O Cruzeiro. Nelas o tema foi abordado pelos mais diversos ângulos, tendo sido motivo do desenho de capa em mais de uma ocasião. Na foto de página dupla 24 de abril de 1931 o engenho aparece sobrevoando a cidade do Rio de Janeiro. A legenda 61


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

destaca tratar-se do Graf Zeppelin, passando sobre o bairro dos Arranha-Céus, no Rio de Janeiro – composição de Arnaldo Fogmayer para O Cruzeiro.” Neste desenho, de conotação tão realista que mais parece uma foto aérea, predomina o discurso da modernidade representado tanto no domínio da tecnologia de construção de grandes edifícios, quanto da máquina voadora.

O Cruzeiro, 24/05/1931, p. 34 e 35

A fundação da revista era também parte de um projeto político e criava um espaço que serviria para ajudar a construir a figura de Vargas como candidato à sucessão presidencial nas eleições de 1930. Assim ao mesmo tempo o empresário juntava ao seu rosário de órgãos de comunicação um tão sonhado magazine de circulação nacional com sabor de entretenimento do tipo fait divers e criava uma importante máquina de propaganda política. Com o advento da revolução de 1930 e a vitória de Vargas, que tornaria-se ditador do país pelos próximos quinze anos, o sucesso da revista parecia assegurado. Em 24 de Janeiro de 1931, O Cruzeiro publicou uma extensa matéria a este respeito, consagrando-lhe uma foto de corpo inteiro na capa, provavelmente colorizada por processos 62


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

químicos, ou pelo uso de técnicas gráficas, uma vez que as fotos coloridas ainda não existiam. No plano geral destaca-se a baixa estatura característica de Vargas, minimizada na edição, embora a foto tenha sido tirada de cima para baixo. Inúmeros civis mas principalmente militares cercam Vargas. Enquanto uns simplesmente olham, ao lado esquerdo um bate continência, ao passo que outro à direita, indica-lhe o caminho. Ao fundo pode-se identificar alguma mulheres – elemento importante que demonstra sua participação indireta na vida política uma vez que as mulheres não possuíam, ainda, o direito de votar. A possui

escolha um

desta

significado

importante,

foto muito

considerando-se,

como já foi dito, que não existiam praticamente

publicações

de O Cruzeiro, 24/01/1931

circulação nacional, em primeiro lugar porque muitos brasileiros certamente conheceram a figura de Getúlio Vargas por meio dela e, em segundo, porque com seu uso apresentou-se à nação uma imagem

única,

quase

oficial,

daquele que se apossara da representação de líder da nação representação que seria largamente trabalhada nos anos posteriores por iniciativa do DIP Departamento de Imprensa e Propaganda responsável pela produção da imagem de Vargas. Da mesma forma, no interior daquele número, uma série de longas reportagens procura apresentá-lo como um chefe. Fotos de rosto, de sua juventude, e em atos oficiais resumem uma trajetória apresentada de forma vitoriosa. 63


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Na história da revista este apoio aos políticos, não era uma postura muito clara e principalmente quase nunca assumida publicamente. O Cruzeiro – assim como qualquer outro órgão de comunicação de Chateaubriand – podia publicar propagandas de campanha de outros candidatos, da mesma forma que publicava matérias, geralmente pagas, a respeito das realizações de governo, até mesmo de seus piores inimigos, O Cruzeiro, 24/01/1931

caso isto se fizesse necessário.

Este era um expediente interessante que garantia as fontes de renda necessárias à sobrevivência de suas empresas ao mesmo tempo em que mantinha junto ao público uma imagem de imparcialidade, o que aumentava sua credibilidade. O mais comum era que a resistência em liberar dinheiro para propaganda por parte de algum governante, ou mesmo pessoa influente, acarretasse destruidoras campanhas contra sua imagem. Na década de 1930 discutia-se na sociedade brasileira, questões como a eugenia (a formação da raça) e a formação da nação, na política, as idéias totalitárias ganhavam formas mais definidas. Estes temas refletiam-se em O Cruzeiro. A capa de 27 de Dezembro de 1930 oferece um excelente exemplo disso, pois reúne diversos aspectos destas discussões. Nela se produz um discurso sobre a nação e a raça. Note-se que se trata de uma criança branca, excessivamente grande e forte, o que produz um estereótipo para o brasileiro, um ideal, um objetivo que se desejaria atingir. Isto contrastava com a realidade, pois na 64


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

prática, uma boa porcentagem da população brasileira era mestiça e raquítica e sofria com problemas de saúde, como doenças parasitárias e desnutrição derivadas de deficiências básicas de atendimento de saúde, de falta de informação, problemas provocados, muitas vezes, pelo desinteresse e simples descaso dos governantes e das elites. As simbologias da nação complementam o quadro. No corpo do garoto, aparecem: às costas, a bandeira brasileira indicada pela cor verde; no cinto um coldre com uma arma; na cabeça um quepe; ao seu lado um pequeno canhão, símbolos militares que o transformam em um pequeno soldado. As cores da bandeira estão também representadas ao fundo, o azul representa um céu limpo e claro, uma imagem do infinito e calmo que paira sobre tudo. Sobreposto a ele destaca-se o amarelo de um sol nascente, significando possivelmente o nascimento de novos dias para a pátria que, somados ao branco da pele do menino e ao verde do quepe e da bandeira, completam as cores nacionais. Assim,

uma

das

interpretações

possíveis

desta

mensagem é: pátria forte se constrói com um povo forte. do

fascismo

italiano,

O Cruzeiro, 27/12/1930

Discurso muito parecido ao que

vicejava na época, mais tarde incorporado

também

pelo

nazismo. Algum

tempo

após

a

vitória de Vargas, Chateaubriand começou a se desentender com ele, processo que culminou no apoio do jornalista à revolução constitucionalista de 1932. 65


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

A derrota dos revolucionários paulistas, pelas forças varguistas, e as crescentes críticas a Getúlio Vargas nos anos seguintes custaram caro a Chateaubriand. O ditador tentou exilá-lo e acabou por prendê-lo por um breve período, mas, segundo Aciolly Netto, ex diretor de O Cruzeiro e autor do livro O Império de papel: os bastidores de O Cruzeiro, o maior revés sofrido pela revista foi a execução de prestações atrasadas da compra das rotativas alemãs da marca Hoegen. As dívidas pendentes de várias empresas ligadas aos diários associados junto a bancos públicos, como o Banco do Brasil a Caixa Econômica Federal, foram usadas por Vargas como tentativa de domesticar Chateaubriand. Tornar-se inimigo do ditador quase destruiu os Diários Associados. As empresas passaram algum tempo sem a liderança direta do “Grande Capitão” – título pelo qual mais tarde o Jornalista David Nasser trataria Chateaubriand em seus editoriais – pois na época o empresário saiu do Brasil por algum tempo para evitar maiores conseqüências derivadas da crise. As limitações impostas representaram um duro golpe nos projetos editoriais da revista, a tiragem caiu a modestos 15.000 exemplares semanais – menos de um terço dos 50.0000 iniciais – e cogitou-se inclusive a possibilidade do seu fechamento. A despeito destes reveses, o periódico atravessou os tumultos e continuou a publicar os temas do cotidiano por toda a década. Os bailes de carnaval foram uma das marcas registradas da revista e perduraram como assunto em suas páginas por décadas. Eram dezenas de páginas ricamente ornadas de fotos que cobriam os bailes de salão e alguns eventos de rua promovidos particularmente pelas elites paulistas e cariocas. 66


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

Na cobertura de um destes bailes no carnaval de 1931, destaca-se o tubo de lança perfume, produto livremente utilizado pelos foliões de uma sociedade conservadora, paradoxalmente largamente utilizado até meados da década de 1940 e desde então proibido.

O Cruzeiro, 09/02/1931, p.27.

O mesmo tratamento receberam os esportes de maneira geral, com especial destaque para o futebol, que com grande freqüência aparecia nas páginas da revista, sob a forma de reportagens sobre os eventos nacionais, estaduais e eventualmente regionais. A coluna “Stadio” esteve presente desde os primeiros números de O Cruzeiro e caracterizou o tratamento do futebol durante quase toda a década seguinte. A manchete da edição da seção em 23 de março de 1929 foi o embate entre o time paulista “Palestra Itália” (atual Palmeiras) e o carioca “Botafogo F.C’”. A foto mostra um jogador pronto para cabecear a bola – fato técnico relevante em uma época 67


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

em que os equipamentos fotográficos eram grandes, pesados e limitados. Isto nos mostra que as contendas interestaduais, tão exploradas pelas mídias nos dias de hoje, tinham já seu espaço editorial garantido há oitenta anos atrás. Importante notar ainda que na página ao lado, à esquerda, foi publicada uma matéria provavelmente enviada por agências internacionais, a respeito das habilidades do Marechal polonês José Pilsudsky. Isto mostra que nas páginas de O Cruzeiro, havia um pacífico convívio entre temas. Por meio deste simples exemplo, pode-se perceber, como um assunto de relevância internacional, a guerra, podia dividir espaço com uma corriqueira reportagem sobre esportes, sobre o lazer das pessoas. É provável que este espaço dedicado a este esporte tenha contribuído para torná-lo respeitado no Brasil. O Rádio era outro assunto recorrente. No decorrer da década de 1930, várias rádios foram anexadas ao crescente patrimônio do Diários Associados. Este veículo era um meio de comunicação que se desenvolvia de forma muito vigorosa e apresentá-lo na revista produzia uma excelente propaganda

O Cruzeiro, 23/03/1929, p. 4-5

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Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

sobre os eventos, programas e artistas que diariamente chegavam ao interior dos lares brasileiros. Estas reportagens tiveram grande importância em O Cruzeiro até meados da década de 1950, quando começaram a ceder seu lugar para as coberturas sobre a televisão, o novo veículo que invadiu o Brasil em 1950. A preparação de um programa de rádio, veiculado pela “Rádio Tupi” – Chateaubriand era fixado em índios, tanto que batizou uma série de empresas como Tupi, Coroados, Tamoios etc –, foi objeto de uma matéria intitulada “Um Milagre Radiophônico”. De autoria de Alceu Pereira, circulou em 23 de fevereiro de 1939. Nela procurava-se levar ao conhecimento do leitor as diversas etapas de elaboração prévia, necessárias para uma transmissão ao vivo. Desta forma aspectos corriqueiros para os funcionários, tais como a seleção dos discos, a organização de partituras para os cantores e o ajuste dos equipamentos, ocupam o

O Cruzeiro, 23/02/1939, p. 10-11

papel principal.

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Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

O mesmo ocorreu com os concursos de misses, as praias e um sem número de outros aspectos abordados pela revista e que passavam, assim, a integrar a vida cotidiana dos leitores da revista naquela década. Delineados por outras características, encontraremos ainda presentes com freqüência, assuntos relacionados e Ciência e a Tecnologia. A década de 1940, os anos de fortalecimento e consolidação A década de 1940 pode ser considerada como um período de fortalecimento político de Chateaubriand e de consolidação de suas empresas e no qual a revista O Cruzeiro estruturou-se e modernizou-se, tornando-se a mais importante revista do Brasil das décadas seguintes. No âmbito cultural da década de 1940 a revista destacavase por cobrir uma grande variedade de assuntos. No cenário artístico, por exemplo, a atriz Carmem Miranda era uma figura gloriosa e muito querida pelo público. Seus personagens e trabalhos renderam várias reportagens em O Cruzeiro. No entanto, mais importante do que isso, é considerar que ela se tornou uma das poucas personalidades brasileiras a ser representada na capa de mais de uma edição da revista. Naquela altura, no início da década de 1940, a cantora e atriz se transformava, com a colaboração de O Cruzeiro, em um dos estereótipos da cultura brasileira. Na capa publicada em 1941 aparece em uma fotografia colorida – uma das raras que, ao que parece não sofreu retoques, não se assemelhando, portanto, a um desenho. Carmen Miranda foi fotografada nos seus tradicionais 70


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

trajes exóticos e ornamentada com muitas pulseiras brincos e colares, além do cabelo enfeitado com os conhecidos arranjos de frutas tropicais e flores. É importante lembrar que esta imagem é uma das imagens fundadoras, um ícone do cinema brasileiro, uma indústria que dava os seus primeiros passos – a companhia cinematográfica Atlântida foi fundada em 1941 – e que havia uma necessária circulação destas imagens no circuito formado pelas várias mídias (cinema, revistas, jornais, etc), cada uma delas interagindo em relação às outras. A chegada da guerra redefiniu os acordos e alianças políticas do país, redefinindo, desta forma, também os rumos dos Diários Associados. Necessitando reunir politicamente o país, Vargas refez alianças com todos os inimigos, entre os quais estavam, de um lado, o liberal empresário de comunicação Chateaubriand e, do lado oposto, por exemplo, Luís Carlos Prestes, diretor do Partido Comunista brasileiro, preso havia vários anos.

O Cruzeiro, 1941

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Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Abrandadas as disputas – uma vez que até a morte de Vargas, Chateaubriand devotou-lhe um ódio profundo – a rotina de trabalhos lentamente se reestabeleceu e a revista não só sobreviveu como prosperou solidamente. A Segunda Guerra Mundial se tornou o principal assunto da revista na década, e esteve presente em menor escala, antes mesmo da entrada do Brasil no conflito. As matérias enviadas pelas agências internacionais eram publicadas em abundância. As coberturas variavam as temáticas: hora apresentavam a preparação de tropas brasileiras e sua atuação na guerra, hora eram as grandes batalhas navais e aéreas que recebiam destaque; o desembarque das tropas aliadas na Europa em 1944 e, a partir daí, foram publicadas muitas matérias sobre a retomada de territórios conquistados pelas forças do “Eixo”; mais tarde, sobre os acordos de paz e esforços de reconstrução dos países envolvidos. Vindas principalmente da Europa e dos Estados Unidos, essas imagens eram, com frequência, diagramadas entre mapas a respeito dos teatros das operações militares, que esclareciam sobre a geografia dos acontecimentos. Eram ainda acompanhadas de sugestivos títulos, subtítulos e comentários sobre o desempenho dos aliados e suas vitórias, elementos que, conjugados, davam a elas um tom de propaganda. Estas reportagens enchiam muitas das páginas da revista a cada número informavam e formavam a opinião do leitor. “O Drama de Leningrado” este foi o título conferido a uma reportagem publicada no final de 1943 que tratava da desocupação da cidade de Leningrado, na União Soviética (hoje Rússia). O foco principal da cobertura, ilustrada com fotografias do jornal americano The New York Times foi a 72


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

luta dos sobreviventes da cidade que resistiu a anos de sitio e intenso bombardeio, transformando-se, em função disto, num símbolo de resistência aos nazistas. As fotos destacam a cidade arrasada e em alerta contra novos ataques das tropas alemãs, ainda próximas.

O Cruzeiro, 11/12/1943

Em 1943, com a chegada do fotógrafo francês Jean Manzon, iniciou-se uma fase de grande modernização em O Cruzeiro, pois instituíram-se em suas redações novas concepções estéticas de fotografia e novos modelos de editoração. Estas mudanças foram fundamentais para que nas décadas seguintes a revista se tornasse não só uma das mais importantes publicações do mercado editorial brasileiro, mas, principalmente, uma referência para outras revistas que nasceram inspiradas no novo modelo. Com o final da Segunda Guerra mundial em 1945, Vargas encontrava-se politicamente desgastado e sua deposição foi uma questão de tempo. As artes faziam, cotidianamente, também, parte dos assuntos de O Cruzeiro. Chateaubriand, um amante da cultura 73


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

clássica européia, desenvolveu várias ações e campanhas em prol deste segmento. A revista levava aos seus leitores opiniões de críticos de arte e, por meio de extensas reportagens, promovia as mostras e exposições ocorridas no Brasil e no mundo. O Cruzeiro, 03/11/1945, p. 28-29

Em

uma

destas

ocasiões,

pode-se

ver

Assis

Chateaubriand passeando entre as obras da coleção particular de Carlos Guinle. Intitulada O Brasil terá sua galeria, a matéria especial de Alceu Pereira comenta a importância das iniciativas desenvolvidas neste setor, e destaca a participação de “Chatô” na organização da mostra que se realizaria no prédio dos Diários Associados. As legendas informam que trata-se de obras de grandes e importantes artistas tais como: Creuze, George Romney, Nather e Murilo e que estariam abertas à visitação do público, o que deveria ser incentivado, segundo Penna. No detalhe, a figura de Assis Chateaubriand ao lado do colecionador de arte George Guinle. 74


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

Chateaubriand, pouco tempo depois, deu mais uma de suas brilhantes cartadas, parte para a Europa, acompanhado do jornalista e crítico de arte italiano Pietro Maria Bardi para adquirir obras de arte a baixos custos em um continente arrasado por anos de guerra. De volta da viagem, de posse de vários quadros dos mais famosos pintores da história, no final de 1947 fundou o Museu de Arte de São Paulo, o MASP – hoje chamado Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubrind, em sua homenagem. Esta ação espetacular o inseriu de uma vez por todas na história da cultura do país enquanto um de seus personagens mais importantes, uma vez que hoje este é o mais importante museu do gênero na América Latina. A história da formação do acervo do MASP ilustra uma faceta aventureira já conhecida do empresário mas mostra também outra característica típica de sua personalidade, a truculência. Os quadros adquiridos na Europa na fase inicial de formação do museu foram comprados com empréstimos de bancos públicos nunca pagos, e mais tarde com dinheiro doado por fazendeiros e industriais pressionados por ele a colaborar com a iniciativa cultural. Há vários exemplos de pressões e intimidações levadas a cabo por Chateaubriand, relatadas pelo escritor e jornalista Fernando Morais (1994), na fascinante biografia de Assis Chateaubriand, Chatô o Rei do Brasil: A vida de Assis Chateaubriand 1950 década de ouro de O Cruzeiro Em O Cruzeiro, a década de 1950 iniciou-se sob a égide do sucesso. O trabalho de Manzon, iniciado na década anterior, frutificava a olhos vistos, a revista ascendia aos 200.000 exermplares, e o número de leitores também se multiplicava. 75


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

David Nasser, jornalista talentoso formava com Manzon, desde a década anterior, a maior dupla do jornalismo brasileiro da época. Mesmo após a saída de Manzon das redações em 1951, outros jornalistas continuaram a praticar e a aprimorar os modelos do moderno fotojornalismo canonizados pelas maiores revistas da Europa e dos Estados Unidos. O ano de 1950 marca, também, o retorno de Getúlio Vargas à vida política do país, após um exílio voluntário de cerca de 5 anos vividos no interior do Rio Grande do Sul. A simples idéia do retorno do velho inimigo de Chateaubriand causava-lhe repulsa, tanto que envidou grandes esforços contra a eleição de Vargas. De qualquer maneira, apesar de poderoso, Vargas agora voltava eleito e sem os poderes ilimitados que a ditadura proporcionava. As

empresas

ligadas

aos

Diários

Associados

multiplicavam-se em ritmo acelerado e mais uma vez a ousadia de seu proprietário marcou época na história dos meios de comunicação do país. Em 18 de setembro de 1950 entrava no ar a primeira emissora de televisão da América Latina, a “Tv Tupi”. Neste mesmo período as fotos coloridas aumentavam de número nas páginas de O Cruzeiro e passavam a ocupar cerca de 7 por cento das cerca de 200 fotos publicadas em cada edição. 1954 foi um ano muito rico na história da revista, principalmente em função das crises políticas e das comemorações do aniversário de 450 anos da cidade de São Paulo. Para um destes eventos, alguns índios foram “importados” da região do Xingu, em nome da cidade. O Cruzeiro participava ativamente na promoção da cidade e de seu aniversário, publicando artigos e mais artigos sobre a beleza 76


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e a força da Capital Bandeirantes, enquanto Chateaubriand promovia e participava das solenidades, e com isso promoviase também. É fato bastante conhecido a paixão de “Chatô” pelos índios, assunto muito recorrente na revista. Assim, ao passear pelas ruas da cidade de mãos dadas com um jovem indiozinho, em meio a outros membros da tribo Caiapó, consagrava-se mais ainda no cenário cultural e tornava ainda mais público o seu personagem, ligando a sua imagem a um assunto que atraia a atenção do leitor no decorrer das décadas.

O Cruzeiro, 06/02/1954

Isso mais uma vez demonstra que Diários Associados, revista O Cruzeiro e Assis Chateaubriand interligavam-se de maneira quase absoluta. O empresário defendia e ampliava suas empresas, com o poder e a promoção pessoal que estas lhe facultavam. No mesmo ano mais uma crise política chegava ao auge no país: Getúlio Vargas suicidou-se e um repórter de O Cruzeiro conseguiu fotos exclusivas do presidente morto, as tiragens chegavam a espantosos 700.00 exemplares e o público estimado de leitores é de 4 milhões. A repercussão da morte 77


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

do presidente teve, porém, desdobramentos inesperados: um tumulto tomou conta do Rio de Janeiro e instalações de jornais da cadeia dos Diários Associados foram depredados. Chateaubriand foi acusado, juntamente com Carlos Lacerda e outros, de ser o responsável pelo suicídio, em função da campanha deflagrada contra Vargas. Nos meses de setembro e outubro de 1954, uma série reportagem produziu uma biografia do presidente destacando aspectos pessoais e políticos de sua trajetória até o desfecho trágico dos acontecimentos de agosto do mesmo ano. Dezenas de fotos mostravam Getúlio em sua juventude e nos principais momentos de sua intensa vida política. “Getúlio o Homem”, de 16 de outubro de 1954, foi a quarta e última da série, e mais parece uma retratação ou pedido de desculpas velado, objetivando desfazer a imagem negativa contra as empresas ligadas aos Diários Associados e seu proprietário, que uma reportagem. “Morto nos Braços da História” título que acompanha a foto da máscara mortuária publicada no final da matéria (página a direita) liga a reportagem ao texto da carta testamento e soa, ao mesmo tempo, como uma grandiosa e respeitosa epígrafe tumular, dedicada a um grande homem ou um grande líder.

O Cruzeiro, 16/10/1954

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Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

Outra prática recorrente na revista era procurar ensinar ao leitor a respeito de fotografia. Esta era uma maneira de valorizar as próprias imagens publicadas e tornava-se necessário em função das rápidas e constantes mudanças ocorridas neste campo a partir da década de 1940. Outra faceta importante de O Cruzeiro foi a sua prática pedagógica. Era comum encontrar uma série de orientações sobre o comportamento masculino e feminino, moda, culinária etc. Também a fotografia procurava interar o público sobre os debates no campo da fotografia, um esforço para educar de maneira mais direta o olhar do leitor, fornecendo-lhe informações sobre as tendências internacionais do setor. Publicavam-se matérias especializadas e fotos vencedoras de concursos e mesmo resumos de exposições nacionais e internacionais. Isto ajudava a valorizar de forma mais direta o repórter fotográfico, o principal agente na produção das fotorreportagens desde meados da década anterior. A reportagem No mundo da fotografia de João Martins, constituíu-se em um esforço para ensinar o leitor a perceber as particularidades e as diferenças entre uma foto acadêmica e uma fotografia moderna.

O Cruzeiro, 10/11/1956

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Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

A foto acadêmica foi representada por A visão do semeador, em que o austríaco Leopold Fisher retrata um homem semeando um campo, fotografado em segundo plano atrás de eixos de trigo, que formam o primeiro plano, já no terceiro, um campo arado com pequena mata ao fundo. Na imagem à direita da reportagem acima, mais parecendo uma pintura modernista completando as páginas de abertura da reportagem, encontramos Dança fantástica do tcheco-eslovaco Adolf Rossi, que retrata um grupo de dançarinas, fotografadas enquanto giravam saias rodadas. O efeito da exposição longa transforma tudo – saias e pessoas em movimento – em borrões, realçando o efeito de pintura. A mensagem da reportagem como um todo demonstra a preferência de seu autor pelo estilo moderno, a começar pela distribuição do espaço visual entre as duas imagens. A visão do semeador, uma foto retangular, aparece em tamanho menor, à esquerda da página dupla de abertura da reportagem, ao passo que Dança fantástica, ocupa cerca de uma página e meia do lado oposto. Há ainda o endosso das legendas cujo conteúdo é bem claro: SUPERACADEMISMO. As visões do semeador [...] é um trabalho de montagem bem característico de um estilo fotográfico que, hoje em dia é relegado por muita gente à categoria de sub-arte. [...] Representa, realmente um superado produto da câmera escura. Já Dança fantástica é descrita da seguinte forma: SUPERMODERNISMO, Dança fantástica [...] é um inconfundível da arte fotográfica modernista, revolucionária, que atualmente tem adeptos intransigentes.

Em meados da década, a revista apresentou uma série de reportagens e matérias internacionais que enfocavam a paisagem de outras regiões do mundo e os costumes de seus 80


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

povos. Isto não constituía por si só uma novidade, pois este tipo de matéria comparecia com uma certa freqüência em O Cruzeiro, porém após a introdução do fotojornalismo, suas características mudaram: América Latina, Antártida, Goa, Líbano e Pólo Norte adquiriram contornos espetaculares, efeito reforçado pelo uso de fotos coloridas. Na reportagem sobre uma viajem de David Nasser ao “continente gelado” promovida por O Cruzeiro em 1959 intitulada Na Rota do Pólo Norte, acentua-se o caráter etnográfico (de descrição dos costumes de um determinado grupo humano) envolvido em tais viagens, como trazer ao público brasileiro a paisagem e os costumes dos esquimós. As legendas destacam tais características, chamando a atenção para o fato de tratar-se de uma população que vive ornada com suas roupas e botas longas em vermelho e branco. Vistos em suas roupas coloridas, transitando pelas ruas de Godthaab, capital da Groenlândia, e em outros lugares, gentes e paisagens compõem um quadro impresso nas páginas da revista. Devidamente emoldurados pela edição detalhada, chegavam como um pacote cultural fechado ao leitor, que poderia interessar-se por algum ou por diversos dos aspectos abordados.

O Cruzeiro, 31/01/1959

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Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

As estradas em construção criavam representações – e eram representações em si mesmas – da modernidade, veias de fluxo da economia pujante, mas, principalmente, representavam a possibilidade de grandes viagens de carro, materializavam momentaneamente sonhos de liberdade, realizadas sobre quatro rodas. Esta imagem aproximava os brasileiros das classes médias dos modelos propagados nos Estados Unidos, ou seja, materializava-se uma aspiração que ajudava a criar no país uma sensação de pertencer ao mundo considerado desenvolvido. Naquele momento construíram-se, modernizaramse ou ampliaram-se muitas estradas por todos o país, prodígios quase sempre associados à genialidade e ao empreendedorismo de “JK”, assunto este que fornecia fluxo permanente de material para a revista. A tipologia que fundou – ou remodelou – discursos, apelando particularmente para sua espetacularização, foram as representações criadas a partir das obras de construção realizadas em áreas onde predominavam as selvas. Ambientes tratados como hostis, verdadeiros inimigo do país, devendo por isso serem vencidos pelos “heróico trabalhadores”, legítimos representantes da “coragem do povo brasileiro”, que trabalhava penosamente em sua construção para a afirmação da nação, esse processo criou discursos visuais fundamentalmente apoiados em uma relação antagônica entre homem e natureza. A monumentalidade das obras foi fartamente realçada, a revista explorou sucessivamente o contraste fornecido pelas escalas. Comparou- homens com tratores de esteira e outras máquinas. O próprio maquinário com a extensão das obras e seu nível de dificuldades, além de carros e outros elementos que caracterizam a ação humana, foram muito usados, criando, 82


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

com isso, o efeito de contraste com o contexto fornecido pela natureza. Da mesma forma, as fotos aéreas ofereciam acesso ao macro contexto em que se desenrolam as histórias, reforçando ainda mais sua importância. Em setembro de 1959, uma foto aérea muito escura, disposta em duas páginas, trás o título Belém Brasília: a selva vencida, em grandes letras brancas. O que se vê é uma fenda larga e clara, um trecho totalmente desmatado, e uma clareira onde se vêem alguns casebres, representa a estrada, em meio a uma densa vegetação. Abaixo outra foto, menor, mostra quando Whaldir Bohund [um dos engenheiros responsáveis pelas obras] testemunha o entusiasmo de JK no dia em que foi derrubada a última árvore da BR 14. Logo abaixo, o texto legenda confirma a vitória do homem, sua conquista em uma luta de titãs e o benefício que sua construção trará à região. A Belém Brasília é uma realidade – Epopéia daqueles que venceram a Floresta amazônica em 60 a Amazônia ligada ao resto do País por via rodoviária e integrada na economia

O Cruzeiro, 12/09/1959

nacional.

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Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Naquela época, as fotos aéreas não eram um recurso novo em O Cruzeiro. Neste caso específico, porém, não é na grandiosidade da obra – que somente pode ser percebida em imagens aéreas – que reside o valor mais intrínseco do seu uso, mas no efeito contrário, ou seja, no ato de mostrar em que tipo de contexto, no caso, a selva fechada, se insere a obra, de forma a ressaltar que muito embora se trate de uma obra monumental, realizada ao longo de milhares de quilômetros, a custa de muito esforço, vista do alto e de muito longe tornase pequena, em meio à imensidão da selva. Esta serve para contrastar os detalhes tomados ao nível do chão – fartamente explorados em outras imagens tomadas em planos médios, ou fechados – exatamente para relativizar o contexto em que está sendo construída a estrada, além dos títulos e legendas que reforçam os valores da “epopéia” que tais construções representam, e que custaram a vida de heróicos engenheiros e operários. Nas páginas seguintes da reportagem, uma série de fotos mostra em detalhes, homens e máquinas em seus esforços para vencer a lama e a mata, enquanto as legendas complementam as informações afirmando que Apesar do lamaçal, máquinas funcionam em novos lanços e Moderna máquinas funcionam 24h por dia na terraplenagem, ou ainda Mesmo onde há máquinas, o esforço do caboclo é indispensável. Além delas, a fotos aéreas destacam localidades que a construção de pontes envolve no “processo civilizador”. E os títulos reafirmam o porte da batalha empreendida contra a natureza, onde Árvores de até dois metros de espessura eram comuns como barragem na abertura da estrada. As cidades atravessam a década de 1950 como um tema importante em O Cruzeiro. A cidade de Nova Iorque era a 84


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

megalópole por excelência e encabeçava a lista das capitais mundiais do concreto. Aparecendo como uma verdadeira ode ao poder e força do homem, ao representá-la na revista em geral, enfatizava-se o domínio dos arranha-céus que projetavam uma certa frieza, o que não significa que não se invocasse aspectos de sua beleza e fascinação como cidade de costumes cosmopolitas. Muito em função das semelhanças físicas e por representarem os centros econômicos nos dois países, Nova Iorque, pelo seu gigantismo, inspirava a comparação com São Paulo, a maior e mais urbana das cidades brasileiras do período. Assim, é comum encontrá-las representadas através de seus principais signos: a profusão dos grandes edifícios e avenidas, os automóveis, e a constante referência a esta urbanidade, onde a natureza ocupa papel de pouca importância. Mas serão também comparadas nos problemas sociais e desumanização gerados por este gigantismo. Em New York, José Amádio e João Martins produzem uma narrativa pessoal, procurando apresentar as fotos como extensões de seus próprios olhares, ação que as legendas, em tom pessoal, reforçam. Ao mesmo tempo em que o subtítulo comenta A maior e mais complexa cidade do mundo, assemelha-se a uma garotinha de saia curta e idéias compridas, a maioria das fotos publicadas focam o concreto. A maior parte das legendas – muito técnicas – resumem os números colossais das redes de metrô, de distribuição de vapor e outros, que procuram valorizar os aspectos dinâmicos da megalópole, seu trânsito maravilhoso, reservando um pequeno espaço para retratar [...] a velha York, materializada na vida noturna e Times Square. No

conjunto

dessas

imagens,

uma

chama

particularmente a atenção. Fruto de uma tomada aérea 85


Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

da cidade, disposta atravessada em duas páginas, fecha a reportagem. Nela aparece um mar de concreto composto por prédios de diversas alturas, entre os quais se destacam imensos arranha-céus. O título considera que Cada vez mais o homem constrói a sua solidão, ao passo que sob uma pequena foto sobreposta no canto – onde se pode ver um arranhacéu fotografado de baixo para cima – a legenda confirma a perspectiva dizendo que É assim que a gente vê o coração de New York [...]. Ou seja, do ponto de vista do observador posicionado na calçada, a cidade é muito alta, avassaladora, ângulo que acentua a insignificância e impotência do ser humano perante tamanha imponência na altura dos edifícios da cidade. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que erigiamse essas odes ao concreto, na prática, em meados da mesma década, o desenvolvimento urbano do país apresentava peculiaridades típicas da estrutura de um país marcado por sua formação intrinsecamente rural, embora existissem as grandes cidades No final da década de 50, não tínhamos megalópolis no Brasil. Apenas duas cidades, Rio e São Paulo, possuíam mais de 1 milhão de habitantes. O espaço urbano era ocupado por cidades médias e pequenas, que constituíam verdadeiras ilhas na medida em que as precárias redes rodoviária e ferroviária existentes dificultavam a integração regional (Fundação Braudel, p. 9).

Se por um lado o número e o tamanho das cidades não atribuíam a elas um caráter definidor na paisagem e nas estatísticas, de outro, seu crescimento se acelerava ao passo que a sistemática associação da idéia do progresso 86


Uma história da revista O Cruzeiro 1930-1960

com a imagem das cidades refletia-se nos modelos de desenvolvimento que eram propagados, da mesma forma que era influenciado por eles, movimento que se consagrava na projeção do Brasil Moderno. O país era reportado com o entusiasmo típico da época, o crescimento industrial, o aumento vertiginoso das cidades, e as benfeitorias do cotidiano promovidas pelas maravilhas industriais, registravam a certeza do país estar trilhando o caminho da modernidade [...] (BAITZ, 2003, p. 56).

Brasília por sua vez, encarnava toda essa simbologia do novo e o moderno, ao mesmo tempo em que sintetizava todos os valores do período e as ambições do presidente.

O Cruzeiro, 05/11/1955

A capital que nasceu por acaso no comício goiano [...]. Simboliza esta cidade o tom que o presidente da república imprimia ao país, dinamismo, coragem, tenacidade, pioneirismo desbravador e audácia, fruto da vontade política associada ao espírito de aventura. [...] Em sua utopia, Brasília faria a ponte entre o projeto moderno de Juscelino Kubitschek de Oliveira e o modernismo mineiro doa anos 20 (GOMES, 1991, p. 145-147).

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Revista O Cruzeiro: uma revista (muito) ilustrada

Esta reportagem, que clamava as maravilhas e competências de JK e do povo brasileiro, paradoxalmente prenunciava o início de uma década de desastres para o país: o governo de Juscelino aproximava-se do final e as tempestades da conturbada passagem de Jânio Quadros se aproximava, e traziam com elas os maus presságios de uma ditadura que comandaria o Brasil com mãos de ferro a partir do Golpe militar de 1964, por mais de 25 anos. Chateaubriand adoeceu no início dde 1960 e apesar de seus esforços para continuar à frente de suas empresas, não conseguia superar as debilidades por ela causada. Os Diários Associados sofreram então duros golpes, oriundos das mudanças políticas decorrentes do golpe apoiado por seu proprietário e, mesmo, de mudanças no cenário cultural do país: a televisão avançava para tomar o lugar da principal mídia e as revistas ilustradas começavam a se enfraquecer em todo o mundo. Com seu falecimento, em 1968, a derrocada da revista tornou-se inevitável e acelerada e culminou com seu fechamento em 1975. Conclusão Ao finalizarmos este capítulo, esperamos ter oferecido elementos importantes para a reflexão a respeito da “Revista O Cruzeiro”. Esperamos ainda que sua leitura colabore para o entendimento da história recente do Brasil e para uma reflexão crítica a respeito das relações dos meios de comunicação com a sociedade atual.

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