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Perfil: Newton da Costa

N

Newton da Costa

Um lógico irredutível por Henrique Kugler

Um dos maiores lógicos do século vinte? Quem conhece sua obra garante que sim – embora ele insista em dizer que “isso é exagero”. O fato é que Newton Carneiro Affonso da Costa é, hoje, um dos pensadores mais respeitados no mundo. Engenheiro por formação, matemático por talento e lógico por amor, esse paranaense foi quem criou a lógica paraconsistente – em resumo, a teoria que transcendeu um paradigma aristotélico de 2.300 anos.


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S

egundo a lógica clássica, fundada por Aris-

sas e outras, esse paranaense é um dos cientistas mais

tóteles por volta de 380 a.C., uma senten-

influentes da atualidade – com algo em torno de trinta

ça e sua negação jamais podem ser ambas

mil citações pelo mundo afora (o que é, talvez, um re-

verdadeiras no mesmo contexto. A ciência

corde mundial na área de lógica).

se construiu sobre tal pensamento, que reinou soberano até o século vinte. Mas na natureza esse princípio nem sempre se verifica. Foi somente nos anos 1950 que alguns matemáticos resolveram colocá-lo em xeque – e quem mais se destacou nessa empreitada foi o brasileiro Newton da Costa. A perspicácia desse “capiau de Curitiba” (como

Nascido em 16 de setembro de 1929, ele foi precursor dos estudos de lógica no Brasil. Graduouse em engenharia e matemática pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde foi professor por quatorze anos – até se transferir para a Universidade de São Paulo (USP). Ao longo de sua carreira, teve passagens pela Universidade Estadual de Campinas

certa vez foi chamado) nos permitiu entender o que

(Unicamp),

hoje parece óbvio: a contradição não invalida a legiti-

(ITA),

midade de um raciocínio. Soa abstrato. Mas um bom

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e por

exemplo pode ilustrar. A mecânica newtoniana dife-

diversas instituições de pesquisa no mundo todo. As

re radicalmente da mecânica quântica, que, por sua

universidades da Califórnia, de Stanford, Autônoma do

vez, é incompatível com a teoria da relatividade – são

México, de Buenos Aires, de Paris, de Barcelona, de

sistemas de pensamento absolutamente divergentes

Varsóvia e Nacional da Austrália são apenas algumas

entre si. Porém todos são verdadeiros, cada um em

delas. Em 1979, foi um dos fundadores da Sociedade

seu próprio campo de aplicação. Acontece que, para

Brasileira

a lógica clássica, essas teorias não podem coexistir,

presidente.

uma vez que se contradizem. Para que elas convivam harmonicamente, precisamos transcender o princípio da não-contradição de Aristóteles. E isso só é possível dentro da lógica paraconsistente.

Instituto

Universidade

de

Tecnológico Federal

Lógica,

tendo

da

de

Aeronáutica

Paraíba

sido

seu

(UFPB),

primeiro

Elencar suas honrarias e méritos é uma tarefa ingrata (seriam necessárias algumas páginas). Foi o primeiro membro brasileiro do Instituto Internacional de Filosofia, sediado em Paris; membro das academias

A contribuição de Newton da Costa para a ciên-

de ciência do Chile, Peru e de São Paulo; ganhador da

cia não se limita ao campo teórico. A lógica paracon-

medalha Nicolau Copérnico da Universidade de Torun,

sistente é também responsável pelo desenvolvimento

na Polônia; professor emérito da Unicamp; doutor ho-

de sistemas computacionais cada vez mais complexos.

noris causa da UFPB, entre inúmeras outras distinções.

É, portanto, a grande sacada por trás das inúmeras

Recentemente recebeu o título de professor honoris

tecnologias que nos surpreendem a cada dia. Por es-

causa da UFSC, onde leciona desde 2003. De quebra,


Perfil: Newton da Costa

ainda é cidadão emérito dos estados do Paraná e da Paraíba. Seus colegas se referem a ele como um ‘cientista incansável’. “Hoje temos no Brasil uma escola de lógica respeitadíssima em todo o mundo, e devemos isso essencialmente aos esforços do professor Newton”, diz o engenheiro da UFSC Hamilton Medeiros Silveira. A matemática da Unicamp Ítala D’Ottaviano confirma: “Quando vamos a congressos no exterior, somos conhecidos como a ‘Escola de Da Costa’”, conta. Mas Newton da Costa não entende apenas de lógica. “Ele também é um pesquisador de destaque em filosofia da ciência, computação teórica, fundamentos da matemática e fundamentos da física”, lembra o engenheiro da UFSC Antônio Coelho. Não por acaso o filósofo finlandês Georg von Wright declarou, recentemente num congresso na Itália, que “o trabalho de Newton é talvez o que há de mais relevante na filosofia da ciência do século vinte”. O que nem todos sabem é que, por trás desse grande cientista, esconde-se um ótimo contador de

Newton da Costa, autorretrato em

piadas! Newton da Costa é um sujeito divertidíssimo

grafite, 1941. “Quando jovem, queria

– que, mesmo com senso crítico implacável, guarda

ser desenhista e pintor. Mas percebi

sempre na manga uma cartada de bom humor jovial. Levar uma prosa com ele é garantia de boas risadas. Hoje, aos 81 anos, ele divide com os leitores de Ciência

que não seria um Da Vinci e resolvi tocar fogo em tudo que havia feito. Por sorte, minha mãe conseguiu salvar algumas coisas, inclusive este

Hoje alguns momentos de sua vida, em um papo

retrato.” (Fotos: Acervo Newton da

descontraído e bem humorado. Assim conhecemos um

Costa/Arquivos Históricos em História

pouco melhor esse brasileiro ilustre que – com todo o

da Ciência/CLE-Unicamp)

respeito – transcendeu Aristóteles.

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Como foram seus primeiros passos na escola? Minha vida escolar começou no antigo Colégio Americano, em Curitiba. Foi fundado por um grupo de protestantes, que mais tarde fundou também a Universidade Mackenzie em São Paulo. Era um colégio interessante, razoável. Em seguida fui para o Colégio Estadual do Paraná, onde terminei o ensino secundário.

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um grande mestre. Discutíamos, líamos, tomávamos café, e eu achava aquilo o máximo. Ele era catedrático da Faculdade de Medicina da UFPR, e dava aulas de história da filosofia. Minha mãe também foi uma influência muito especial. Ela era professora de literatura francesa, e vivíamos lendo livros franceses em casa. Quanto ao meu pai, ele me ensinava geometria, fazíamos exercícios o tempo inteiro. Era um grande admirador de Augusto Comte, e vivia lendo trechos de sua obra pra mim.

O senhor era um bom aluno?

Tive uma tia que era professora de inglês, e me mostrava tra-

Não! Eu jamais fui um bom aluno. Na verdade eu nunca gostei

duções de Shakespeare. A primeira vez que me lembro de ter

de aulas. Curso primário, secundário, universidades: eu sempre

chorado foi aos 15 anos, quando ela leu o discurso de Marco

detestei tudo isso. Aliás, eu sistematicamente detesto aglome-

Antônio no enterro de César [na peça Júlio César, de Shakes-

rações.

peare]. É lindo! Outra tia minha era especialista em história da

Nossa! Alguma razão especial para essa ojeriza? Não sei exatamente. Acho que nasci assim. Talvez porque eu fosse muito diferente das outras pessoas. Tudo de que eu gostava meus colegas não gostavam. E vice-versa. Claro que eu jamais me achei superior a eles, mas sempre preferi fazer as coisas sozinho. Essa solidão era apenas um traço da minha natureza. Ou era algum parafuso frouxo, mesmo (risos). Tamanha aversão a grupos teve um lado bom: graças a isso, tudo que eu pude fazer na vida foi ciência, filosofia. Porque assim podia ficar sozinho. Se bem que, por outro lado, sempre trabalhei em grupos. Gosto muito de pequenas reuniões, com poucas e seletas pessoas.

Do que o senhor gostava e os outros não? Na escola, por exemplo, em vez de conviver com meus amigos, ia para a casa de meu tio, Milton Carneiro, que era professor de filosofia. Ele tinha uma biblioteca enorme, e eu queria ler todos os livros dele. Naquele tempo as escolas não tinham muitos livros, e a maioria das boas bibliotecas era particular. Meu avô, por exemplo, tinha uma biblioteca incrível no porão de casa, e era lá que eu gostava de ficar o dia todo. Meu tio, assim como eu, também era visto como uma pessoa esquisita.

música, e me ensinava a apreciar e analisar as obras dos grandes compositores.

O senhor teve uma família e tanto! Muita sorte, não? Com certeza. Mais que sorte! Aprendi em casa muito mais do que aprenderia em qualquer lugar do mundo. Com um time tão seleto de mãe, pai, tio e tias, não poderia ser diferente. Curiosidade: lá em casa todos nós éramos considerados estranhos (risos). Sabe que eu tive em minha infância exatamente o que falta para os jovens nos dias atuais. Hoje as famílias não colaboram para a educação. Pelo contrário: atrapalham! A mãe em geral é analfabeta, e o pai também. Se você cresce em uma família de idiotas, você será um idiota também – com raras exceções.

E no ensino superior, como foram seus primeiros passos? Eu não sabia o que fazer. Pensei comigo: qual será o curso que tem pelo menos um pouquinho de matemática? Na época só tinha sentido seguir três caminhos: engenharia, medicina ou direito. Quanto ao direito, nunca sequer considerei a ideia. Quanto à medicina... Bem, eu tenho medo de sangue. Então fui para a engenharia, na UFPR. O nível da escola não era muito bom, mas ainda assim aprendi bastante. Havia alguns professores in-

Na vizinhança ele era considerado um cara estranho, largadão,

teressantes. Mas muitas vezes eu mandava meu irmão assistir

que caminhava de chinelo pela rua. Ele me dizia: “Newton, seja

aulas em meu lugar. Eu pagava pra ele (risos).

sempre você! Lixem-se os outros”. Sempre respeitando o próximo, evidentemente.

Algum professor chegou a influenciar sua carreira científica? Depende do que se considera professor. Meu tio foi para mim

Que falcatrua, professor! O curso era tão chato assim? Não, é que eu tinha um parafuso mal atarraxado. Não gostava de festas, aulas, aglomerações. Eu sou tão estranho! Até hoje, aliás, em congressos, a Ítala [D’Ottaviano, da Unicamp] me


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pede encarecidamente para que eu fique até o fim das cerimônias, eventos. Então eu sempre respondo algo como: “Tudo bem, Ítala, eu fico, mas só por sua causa, viu?”.

E como foi sua trajetória até a matemática, lógica e filosofia? Seu interesse por essas disciplinas começou na engenharia? Não, a engenharia jamais me serviu pra nada. Durante o curso eu estudava matemática por conta própria com meu pai e meu tio. Meu primeiro contato com a lógica foi através de dois livros que ganhei de presente do meu tio: O sentido da nova lógica, de Willard Quine; e La logique, de Louis Liard. Foi meu tio, também, que me mandou ler Bertrand Russel. A biblioteca dele era ótima, e foi lá que eu estudei lógica desde jovem – pois o assunto me atraiu desde o primeiro momento em que o conheci.

E na academia, como foi que seguiu carreira dentro da lógica? Tomei finalmente a decisão de que eu deveria exercer alguma função relacionada à ciência e à filosofia. Principalmente matemática! Aí voltei para a graduação na UFPR e fiz o curso de matemática. Havia um professor chamado João Remy Teixeira Freire, um português perseguido por Salazar que veio passar uma temporada no Brasil. Era um cara formidável, e me dei muito bem com ele. Foi, sem dúvida, uma importante influência na minha carreira. Ele me contava uma história interessante: “No Brasil, basta um sujeito dizer que é professor universitário e já dizemos que é um idiota. Até que se prove o contrário”, dizia ele. “Na Europa é o oposto. Se o sujeito diz que é professor universitário já se imagina que ele é um cara muito bom. Até que se prove o contrário.”

A imagem dos professores era tão ruim assim? Mais que ruim. Até hoje, aliás, não estamos muito melhores. A própria Universidade de São Paulo, uma das mais conceituadas daqui, é quase a centésima no ranking mundial. Como se pode ter uma universidade que não tem um prêmio Nobel, ou um cientista de reputação internacional? Isso é uma loucura. O volume de publicações que temos no exterior é limitadíssimo. Quais são nossas patentes? De manhã, levantamos alegres e vamos escovar os dentes: escova Tek e pasta Colgate, americana. Aí vamos ver televisão num aparelho da Philco, europeu. Tomamos café, e o leite é Nestlé, da Suíça. E depois vamos trabalhar num carro da Volkswagen, alemã. Será que nem palito de dente nós fazemos? A tecnologia aqui é quase zero. E como uma universidade que não contribui com tecnologia pode ser universidade?

Newton da Costa aos três anos, na época em que o penteado da foto era a última moda para crianças


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Sua avaliação de nosso sistema universitário não é das mais cordiais... Pois é. O pior disso tudo não é que nosso sistema universitário é uma palhaçada; é que nem temos consciência dessa palhaçada. O velho Remy Freire dizia que existem universidades de três níveis: as completamente despindocadas e sem consciência disso; as que são ruins mas sabem que são; e, finalmente, as boas. A UFPR já está passando da primeira fase para a segunda, mas ainda não passou. A UFSC está passando. A USP felizmente já passou. Vou te contar um causo. Há uns quarenta anos, eu era professor do curso de matemática da UFPR. Fui falar com o reitor, pois queria trazer um pesquisador francês para trabalhar conosco. Sabe o que ele me disse? “Newton, isso é uma barbaridade! Por que você vive querendo trazer francês pra cá? Dê mais valor para a prata da casa.” Ele insistia no seguinte argumento: “Para qualquer área em que você apontar um sujeito de primeira linha no exterior, eu garanto que nós temos um pesquisador igual ou melhor aqui”. Naquele momento eu pensei em dizer ‘Einstein’, mas achei melhor ficar quieto. Quando eu estava indo para a França, esse mesmo reitor me disse que brasileiros só vão para lá por três motivos: perfume, mulher e

Familiares de Newton da Costa na praça General Osório, em Curitiba, 1941. Da esquerda para a direita, seu tio Leocádio Correia Jr., Newton, seu tio Manuel Eriksen, seu irmão Haroldo da Costa e sua tia Cândida Eriksen

folie. E me deu um conselho: “Cuidado ao atravessar as ruas por lá, porque você é só um capiau de Curitiba”. Percebe como era medíocre a mentalidade da turma?

Quais foram seus passos depois da graduação em matemática? Assim que me graduei, com toda aquela ingenuidade de jovem, eu quis criar um instituto de matemática na UFPR. A ideia era convidar um pessoal de bom nível e iniciar pesquisas. Mas percebi que era impossível. Naquela época não dava, pois era uma burrice só. Ainda assim continuei dando aulas na universidade por algum tempo, achando que poderia melhorar as coisas por lá.

E aí, o senhor conseguiu implantar alguma melhoria no curso? Nada. Sabe que nenhum catedrático dava aula. Isso mesmo: ninguém dava aula! Eu era exceção. Os professores só apareciam na universidade pra receber dinheiro. Aliás, nem isso, porque o pagamento era direto com o banco. Eram assistentes que davam aula. Certa vez eu solicitei uma sala pra mim. Aí o diretor me disse: “Mas Newton, por que você quer uma sala? Você é engenheiro, catedrático. É melhor você trabalhar numa firma de engenharia e deixar um assistente no seu lugar. É melhor pra você, melhor pra mim, mais fácil pra todos nós.” Dá pra acreditar nisso? Situações desse tipo aconteciam de norte a sul e de leste a oeste no Brasil.


Perfil: Newton da Costa

Que horror. Mas, afinal, o senhor conseguiu sua sala? Não. Logo caí fora de lá, e me transferi para a USP. Foi uma mudança da água pro vinho. Mesmo com todas as deficiências que a USP tinha naquele tempo, era uma universidade muito

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símbolo por símbolo, pelas mãos de sua esposa! Ela tivera um trabalho descomunal para copiar tudo, e deu os cadernos de presente ao marido. Quase caí duro no chão quando ele me contou. Na mesma hora eu quis me ajoelhar e beijar as mãos da Belkiss. Perguntei a ela como conseguira copiar uma obra

melhor. Foi no final da década de 1960.

tão extensa, e a resposta foi que ela associava os símbolos às

Como eram, nessa época, os estudos em lógica e matemática no Brasil?

cadernos são uma obra monumental.

Praticamente não existiam. Havia uma má vontade total e completa. Todos me diziam que lógica era bobagem. Mas eu sempre brincava que, pra mim, era uma questão de amor. Então

notas musicais! Essa pra mim é uma história incrível, e aqueles

Nossa, sensacional! Falando agora sobre sua carreira, professor, quais haviam sido seus trabalhos mais importantes até essa época?

fui o primeiro brasileiro a estudar lógica. Isso me faz pensar no

Comecei bem cedo, com teoria dos números. Produzi alguns

positivismo. O próprio Augusto Comte dizia que a matemática

artigos interessantes sobre teoria das estruturas também. Mas

havia chegado ao fim: não haveria mais nada para se fazer ou

minha obra mais importante foi a tese de cátedra na UFPR, de

pensar. Tudo que nos restava era ensiná-la. Talvez essa tenha

1963, logo no início da minha carreira. Chamava-se Sistemas

sido uma das influências mais nefastas do positivismo no Brasil.

formais inconsistentes. Considero a mais importante por ser a

Em nível internacional, como era o panorama? Bem melhor, evidentemente. A lógica era algo de primeiro nível, principalmente nos Estados Unidos e na União Soviética. Eu fui o segundo assinante brasileiro do The Journal for Sym-

mais citada. Com vinte e poucos anos eu já trabalhava na lógica paraconsistente. Eu disse que havia inventado uma nova lógica, e um amigo meu, que era um professor muito crítico, me falou brincando: “Olha, tenho a impressão de que você é um vigarista”. E o sujeito tinha um plano: ele me ajudaria a escrever uma

bolic Logic. O primeiro, depois conheci, era Simão Carneiro de Mendonça, um professor do interior de Goiás. E nos tornamos grandes amigos! Essa é uma história que gosto muito de contar: quando nos conhecemos, ele me levou à casa dele para mostrar sua biblioteca. Era uma sala enorme, com todos os livros de lógica que se podia imaginar, do mundo inteiro. Ele era rico, tinha conta em livrarias internacionais. Assim que eram publicados, os livros iam diretamente pra ele. Certa vez, entrando nessa biblioteca, me chamaram a atenção uns cadernos empilhados num canto. Perguntei o que era, e, para minha surpresa, eles guardavam uma história belíssima!

carta em francês, apresentando meu trabalho, e um colega nos-

Uma história belíssima?

Paris! Então mostrei a carta para o colega, quando ele disse:

Simão era casado com Belkiss Carneiro de Mendonça, uma exímia pianista conhecida por concertos brilhantes tanto no Brasil quanto no exterior. O casal passou um ano no Rio de Janeiro, onde Simão, que era fascinado por lógica, teve acesso ao livro

Principia Mathematica, de Bertrand Russel. Eram três enormes volumes, com cerca de mil páginas cada um, repletos de números e símbolos extremamente complexos. Ele queria muito essa obra! Mas era impossível comprá-la, pois se tratava de um item raríssimo nos tempos da guerra. Fiquei perplexo quando descobri, finalmente, que aqueles cadernos que me chamaram a atenção na biblioteca eram justamente os três volumes do imenso livro – copiados página por página, linha por linha,

so que estava indo para a França submeteria esse documento à apreciação do pessoal de lá. “Os franceses vão nos dizer se essa sua nova lógica vale alguma coisa”, brincava meu colega. “Aí veremos se você é um vigarista ou não.”

E aí, vigarista ou não? Enviamos cinco notas para os franceses. Para minha surpresa, dentro de pouco tempo recebo uma carta do lógico Marcel Guillaume, comentando meus teoremas e demonstrações. Eles haviam sido apresentados à Academia de Ciências de “Puxa, Newton, se você for mesmo um vigarista, é um vigarista muito bom!”. Foi muito engraçado.

E como o senhor chegou na lógica paraconsistente? Ela surgiu naturalmente. Talvez o fato de eu ter sido relativamente isolado tenha ajudado um pouco.

O que é a lógica paraconsistente? Há vários tipos de lógica, e a paraconsistente é uma delas. Trata-se de uma ampliação do campo da lógica. Mas ela não descarta a anterior, e é isso que o pessoal não entende. Um


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alemão disse-me certa uma vez que eu queria destruir a lógica clássica. Mas eu nunca destruí lógica nenhuma. Jamais afirmei que a lógica clássica estava errada.

Certo. Mas como o senhor explicaria o que é lógica paraconsistente para, digamos, minha avó? Brincando, eu diria que é a lógica feminina. A lógica clássica é a do homem, sério, sisudo. Ou é ‘sim’, ou é ‘não’. Mas, reforçando, isso é só uma brincadeira – tenho medo das brincadeiras. Resumindo, é uma lógica que flexibiliza a lógica clássica em certos aspectos. Sempre que há uma contradição, a lógica clássica entra em colapso, arrebenta tudo. E a paraconsistente nos permite tratar essa contradição de um modo mais sensato. Por isso hoje ela está sendo empregada em tudo. Tráfego aéreo, distribuição de energia, bancos de dados, sistemas especialistas, economia, em tudo, até em fabricação de cerveja! É uma loucura.

Newton da Costa recebe os cumprimentos do professor Durval Ribeiro durante a cerimônia de formatura em engenharia civil na UFPR, em janeiro de 1953

Aparentemente a lógica soa como algo tão teórico, mas, de repente, ela se desvela em aplicações tão concretas! Interessante, não? Pois é, é incrível. Quando desenvolvi a lógica paraconsistente, eu não fazia ideia de que ela poderia ter tantas aplicações. Nunca imaginei que ela fosse ter mais importância tecnológica do que teórica.

A lógica paraconsistente nos propõe uma nova abordagem para entender a relação entre verdadeiro e falso? Não é bem assim. A questão se amplia. Vou dar um exemplo: você acredita em Deus? Se eu digo que Deus existe, isso é verdadeiro ou é falso? Bem, pra começar eu não sei o que se entende por ‘Deus’. Se ele for um homem barbudo, de sunga na praia, eu acho que a coisa não vai funcionar. Mas vamos dar uma de Einstein, dizendo que Deus é uma força, talvez o próprio universo. Já é diferente. Sabe, essa ideia de verdadeiro e falso que a lógica clássica já assume de partida não funciona sempre. A ciência não é assim, e precisamos definir muito bem o que estamos considerando. Precisamos ter cuidado. Na minha visão, ciência não retrata o real. Ela é apenas um modelo do real – o que é bem diferente. Até pouco tempo atrás, achava-se que a ciência era a cópia exata da realidade, mas hoje sabemos que não é assim. A ciência não é reflexo exato da realidade.

O que é realidade, professor? Não sei. Não podemos comparar a ciência com algo que está além da experiência. A não ser o metafísico, a intuição. Na prática, você não está me vendo realmente, como sou por dentro, por exemplo. Você vê apenas minha aparência. Mas como saberá quem ou o quê sou? A


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ciência apenas sistematiza nossa experiência, nossa maneira de apreender o mundo.

Será que existe uma realidade absoluta? Não sei o que é isso. Se existe, não temos acesso direto a ela. Eu pelo menos não conheço. Mas tem místico que diz que conhece. Santa Tereza de Ávila, por exemplo. Ela dizia que, ao fechar os olhos, contatava Deus. Bem, como vou saber se ela está certa ou errada? Pra ser franco, eu nem sei se você existe! Falando nisso, quando completei quinze anos meu tio me levou num restaurante no bairro Água Verde. Fomos tomar pinga. Então ele me desafiou: “Prove que você existe!”. Eu tentei por vários caminhos. “Tio, eu sinto que existo. Penso, logo sou. Penso, logo existo, existo em pensamento”, e por aí vai... Eu tentava de alguma forma provar, mas ele me mostrou que não era possível. Assim aprendi a lição: pensar que eu existo é simplesmente um ato de fé. Eu sinto, e pronto. Um ato irracional. Não podemos provar que existimos. É pura fé. Descartes dizia “penso, logo existo”. Maine De Biran dizia “desejo, logo existo”. Pois bem, eu digo “sinto, logo existo”.

O senhor escreveu certa vez: “A razão não pode provar nenhuma verdade absoluta, mas pode demonstrar a existência de uma ‘quase-verdade’”. Como assim? Em certas circunstâncias podemos definir uma versão mais fraca da verdade. Digo, por exemplo, que o potencial de um sistema quântico é tanto. Posso aceitar essa ideia, mas é muito difícil explicar o que isso quer dizer. Mesmo porque a noção quântica é complicada, e potencial não é algo claro. Então estamos falando de uma verdade que sistematiza experiências dentro de certos limites. Se solto um objeto no ar, ele cai. Mas se solto fumaça, ela sobe. Tudo cai? Não. Então precisamos ter muito cuidado com essa história de verdadeiro e falso. Essas palavras devem ser usadas de modo mais crítico.

Se bem entendi, não devemos nos limitar a categorizar tudo como simplesmente ‘verdadeiro’ ou ‘falso’. Nem devemos achar que tudo se resolve com ‘sim’ ou ‘não’. É isso? Exato. Uma vez fiz uma conferência numa faculdade católica de Petrópolis (RJ). Enalteci muito a matemática soviética. De repente um ouvinte levanta-se questionando: “Então na União Soviética tudo é bom? Eles são comunistas!”. Olha, foi complicado. O rapaz tinha essa mentalidade dividida entre ‘sim’ e ‘não’, e aplicava o mesmo raciocínio em tudo. Mas tentei explicar: “Você não entendeu o que eu disse. Eu afirmei que a matemática da União Soviética é a melhor do mundo”. Ele não tardou a retrucar: “Mas professor, eu quero que o senhor

Grupo de lógicos e matemáticos brasileiros no Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos (SP), em 1962. Da direita para a esquerda, Mario Tourasse Teixeira (1925-1993), Newton da Costa, Edison Farah (1915-2006), Jacob Zimbarg Sobrinho, Benedito Castrucci (19091995) e Leonidas Hegenberg


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Cerimônia em que Newton da

me responda com ‘sim’ ou ‘não’. A vida lá é boa?”. Foi o erro

Costa foi nomeado membro

dele, pois eu retruquei da seguinte maneira: “Meu rapaz, me

da Academia de Ciências

responda com ‘sim’ ou ‘não’ a seguinte pergunta: você já parou

do Chile, em Santiago, na

de bater na sua mãe?”. Foi um angu de caroço. Um sarro. Você

década de 1980. Da esquerda

precisava ver a cara do jovem. A moral da história é a seguinte:

para a direita, sua esposa

certas perguntas não podem ser respondidas apenas com ‘sim’

(Neusa da Costa), Newton e alguns membros da academia chilena. Ao fundo (encoberto), o lógico e matemático chileno Rolando Chuaqui (19351994), “uma pessoa brilhante,

ou ‘não’!

Ainda sobre lógica paraconsistente: imagino que seja comum o senhor encontrar interpretações totalmente estranhas a respeito de sua teoria. Isso acontece mesmo?

um dos grandes amigos que

Não tenha dúvida. Fui a um congresso na Argentina uma vez,

tive na vida”

e participei de uma sessão de lógica. Dois autores começaram a discutir a chamada ‘negação de Da Costa’, isto é, a minha negação (risos). Cada um dizia uma coisa, deu o maior bafafá, e não chegaram a conclusão alguma. Mas ninguém perguntou o que eu achava! Aliás, se perguntassem, eu ficaria numa situação complicada, pois eu não estava entendendo nada que eles diziam. Nada, nada, nada. Outra vez, na abertura de um outro congresso, um professor francês tecia comentários sobre minha lógica. Também não entendi xongas de mirongas. Mas o pior foi quando recebi abraços efusivos de um psicanalista italiano, que dizia que minha lógica havia mudado a vida dele.


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Depois li um livro do sujeito, e vi que aquilo não tinha nada a ver com o que eu penso. Sequer entendi o que ele escreveu.

Então se eu for ler algum material sobre lógica paraconsistente por aí, devo ficar com o pé atrás? É claro, fique com o pé atrás em relação a tudo! Você só ouve loucura por aí.

O senhor aposta na razão como o caminho final para a evolução da humanidade? Não sei. Mas acho que é o único caminho que podemos seguir para a humanidade não desaparecer tão cedo. A razão é uma grande força, absolutamente fundamental – principalmente a razão crítica. Sou um impenitente racionalista. Racionalista até o fundo da minha alma. O que nós precisamos mesmo é exercitar o raciocínio crítico permanente. Isso aprendi com a minha mãe. Um dia lhe perguntei: “Mãe, afinal qual é a minha

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Algo um tanto quanto panteísta? Sim, uma espécie de panteísmo. Não digo que Einstein era panteísta, mas ele elogiava muito Spinoza. O universo teria uma certa ordem, algo difícil de compreender, inefável. Mas Einstein não tinha nenhuma religião natural. Para ele era tudo porcaria, inclusive a religião dos judeus.

Sua fama mundo afora é a de ser um dos lógicos mais importantes da atualidade. Procede? Não, não diga isso, rapaz. Diziam que a melhor defesa da copa era a do Brasil. E se arrebentaram com os holandeses. Bem, indiscutivelmente eu fiz alguma coisa em lógica. Mas dizer que sou o maior lógico do mundo é exagero, não gosto (entre nós: parece papo daquele reitor da UFPR que citei no início da nossa conversa). Sou um lógico de reconhecimento internacional, e

c’est fini.

so decidir por você. Seja o que você quiser, e terá todo o meu

E suas andanças pelo mundo afora, como se iniciaram?

apoio”.

Bom, depois que me tornei professor da USP, comecei a saçari-

E o senhor, tem alguma religião?

car pelo mundo todo. Tudo que é país da Europa, Estados Uni-

Não, nunca me interessei realmente. Não me meto muito com

matemática, nem sempre sobre lógica paraconsistente.

religião?”. Ela disse: “É algo muito importante que eu não pos-

isso. O que não significa que sou ateísta.

dos, Austrália, Nova Zelândia... Sempre dando palestras sobre

Esses ateístas são exagerados. É uma maneira absurda de ser.

Nessas caminhadas, o senhor conheceu muita gente de primeiríssimo nível. No decorrer de sua carreira, alguém influenciou sua maneira de ser ou pensar?

Como provar que Deus não existe? Do ponto de vista científico

Nada. Claro que foi ótimo estar junto de sujeitos tão bacanas.

essa prova é inviável. Não posso provar que existe, e nem que

Mas eu já tinha minhas idéias, já estava tudo pronto, desde mi-

não existe. Pelo menos agora. Não sei se no futuro poderemos.

nha juventude com minha família. Eu já era eu mesmo, e até

Por isso, tanto fundamentalistas religiosos quanto caras como

hoje sou.

Hoje em dia o ateísmo está na moda. Qual é a sua visão sobre o assunto?

Richard Dawkins [autor the The God delusion], pra mim, não servem.

E o Deus de Einstein?

Destacaria algum momento marcante de sua trajetória? Sim! A primeira vez em que fui à Academia de Ciências de Paris,

Tem um livro chamado Einstein e a religião, de Max Jammer.

para entregar um trabalho. Na ocasião, foi aberta uma caixa de

É excelente! Religião para Einstein tinha um sentido diferente

documentos que Pasteur havia deixado para que fossem lidos

do nosso entendimento comum. Ele não aceitava Deus como

somente um século depois de sua morte. Foi emocionante fa-

uma entidade, um ser, uma individualidade. Ele imaginava uma

zer parte de um ambiente de tamanha tradição científica. Ou-

ordem na natureza, seguindo os passos de Spinoza. Aliás, eu

tro momento marcante foi meu encontro com polonês Alfred

discutia muito com meu tio a respeito de Spinoza. Do ponto de

Tarski, o grande Tarski, considerado o maior lógico do século.

vista ético, acho que ele foi um dos filósofos mais sensacionais

Cheguei na sala dele meio nervoso, ele já estava esperando.

– um cara que agia absolutamente de acordo com as próprias

Era um cara baixinho, meio arredio, e foi assustadora a primeira

convicções. Para ele, Deus era praticamente a própria natureza.

frase que ele me disse: “Se eu fosse fazer juízos e induções rá-


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Ciência Hoje 276 | Vol. 46 | Novembro de 2010

pidas, teria a seu respeito a pior ideia possível!”. Foi assim que conheci Tarski. Uma experiência curiosa.

Depois de tantas décadas na estrada, o senhor se aposentou pela USP. Mas continuou trabalhando por lá. Como foi sua carreira a partir de então? Depois que me aposentei, fui dar aula no curso de filosofia da USP. Foi o único caso de um sujeito não filósofo contratado pelo departamento de filosofia daquela universidade. Filósofo pra mim é que nem artista: não é porque tem um diploma que ele será bom. Claro que um bom curso de filosofia pode ajudar, mas não é essencial. Em 2003 vim para a UFSC, como professor do programa de pós-graduação em filosofia. Damos cursos regulares, fazemos seminários e temos um time de primeiríssima qualidade. Dá gosto de trabalhar aqui!

Como o senhor avalia o ensino de filosofia, matemática e lógica no Brasil hoje? Está melhorando muito. O pessoal com doutorado no exterior tem contribuído bastante para melhorar nossos quadros.

E aquela ideia do matemático, lógico ou filósofo como um cara que vive no mundo da lua? Os filósofos que conheci não vivem no mundo da lua. Alguns sim, mas outros não. Tem filósofo muito bacana por aí. Conheci o Quine, por exemplo. Ele definitivamente não era do mundo da lua – exceto, talvez, pelo fato de tomar cinco ou seis canecos de chope todo dia (risos).

Como sabe, na Unicamp há um acervo de documentos históricos referentes à sua carreira, no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência. Como foi a implantação desse acervo? Foi tudo ideia da Ítala. Na verdade, eu devo toda a minha carreira à Ítala, pois foi ela quem me construiu. Quanto ao acervo, é uma história curiosa. Vieram me procurar, apresentando a ideia, e achei bacana. Então doei todo o meu arquivo de fotos e cartas para o pessoal do museu. Doei todas as correspondências científicas que eu trocava com amigos e colegas ao longo de tantas décadas. Um dia perguntei para o pessoal como estava indo o acervo. E responderam algo como: “Professor, está um sucesso! Todos querem ver suas cartas!”. Fiquei muito feliz por haver pessoas interessadas em minhas correspondências com cientistas importantes, e tudo mais. Mas de repente me falam que não eram bem essas as correspondências que estavam fazendo sucesso. O que estava mesmo interessando o pessoal eram as cartas de amor que eu mandava para minha namorada, antes de ser minha esposa (risos)! Só aí percebi que, junto com as correspondências científicas que eu mandara para o acervo, eu havia mandado, por engano, minhas correspondências pessoais! Pedi de volta as cartas, mas não me deram. Aí combinamos o seguinte: eles ficam com o material, mas só poderão mostrá-lo daqui a meio século. Resolvido.


Perfil: Newton da Costa

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O senhor teve algumas participações na imprensa brasileira, não é mesmo? Eu escrevia muito para a imprensa. Certa vez escrevi um artigo com o título Mach e a filosofia da ciência. Mas na página do jornal saiu

Match! Segundo o pessoal, foi um erro de impressão, ou algo assim. Foi n’O Estado do Paraná. Escrevi para a Folha também. Além disso, sempre me procuravam para entrevistas. Certa vez o pessoal de um certo veículo quis me entrevistar; o assunto era inteligência emocional. Mas isso não era da minha alçada, obviamente. Eu não tinha nada a dizer a respeito. Só que eles queriam porque queriam que eu dissesse algo. Topei então falar qualquer coisa, com a condição de que eles me enviassem o texto para minha avaliação antes de publicar – para garantir que não sairia nenhuma besteira. Fizemos a entrevista então. Depois de encerrada, eu fiz algumas brincadeiras com o pessoal que estava presente (aliás, eu sempre faço gozação, conto muita piada). E, numa dessas piadas, minha esposa brincou que eu não tinha inteligência emocional. Uma simples brincadeira, sem grande importância. Mas não deu outra: no dia seguinte, virou título da matéria. ‘Esposa de professor da USP diz que

o marido não tem inteligência emocional.’ Foi ridículo. Não foi uma atitude ética. Depois disso eu cortei relações com aquele jornal.

Bem, espero que eu encontre um título mais apropriado do que esse para nossa entrevista. Algo a dizer sobre política, professor? Quando eu era jovem eu tentei fazer uma revolução na América. Mas cheguei à conclusão de que não dava. Idealizava uma revolução intelectual, racional, esclarecida. Mas não adiantava.

Newton da Costa

No México, uma moça certa vez me chamou de ‘o novo Simón

recebe homenagem

Bolívar’ (risos).

Um Newton da Costa revolucionário? Que história é essa? Definitivamente um fracasso. O primeiro e único discurso que fiz foi para um grupo de operários em uma empresa de engenharia civil. Eu tentava convencê-los a votar no candidato do partido socialista. Falei por uns dez minutos, mas depois um fulano se aproximou de mim e disse convicto que votaria no outro candidato. “Olha, doutor, eu gostaria de votar no socialista, mas acontece que o outro prometeu emprego pra minha filha, então estou comprometido.” Bem, nesse momento eu desencantei completamente.

O senhor lê muito sobre Napoleão, não é mesmo? Por que o interesse?

de ex-alunos da UFPR, no anfiteatro do campus Santos Andrade, em Curitiba, 1998


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Professores e alunos do curso

Rapaz, eu sou um dos maiores especialistas do mundo nas ba-

de pós-graduação em filosofia

talhas de Napoleão (risos)! Segundo minha esposa, tenho esse

da UFSC, em Florianópolis,

interesse porque sou pirado. Tirando o fato de que era um gê-

julho de 2010. Da esquerda

nio guerreiro, no resto ele era terrível. Se metia com as mu-

para a direita, Antonio Coelho

lheres dos melhores amigos, era um cara completamente sem

(professor), Valéria Gradinar (aluna), Hamilton Silveira e Décio Krause (professores), Newton da Costa, Jaison Schinaider (aluno), Nazareno de Almeida (professor) e Jonas Arenhart (aluno) (Foto: Henrique Kugler)

ética, mentiroso. Mas era gênio.

Quais são os seus hobbies hoje em dia? Um de meus filhos diz que sou um homem unidimensional, que só faço uma coisa (risos). Mas eu gosto muito de xadrez!

O senhor já levou o mate do pastor? Ah, esse eu aplicava nos iniciantes! Foi meu pai quem me ensinou a jogar xadrez. No início, é claro, eu só perdia dele. Mas depois comecei a ganhar todas. Fui ficando com pena, e vez ou outra eu perdia de propósito, só pra não deixá-lo desapontado comigo. Eu gostava muito do Alekhine e do Capablanca.

O que mais o senhor faz no seu tempo livre? Gosto de cinema. Adoro Cidadão Kane, pra mim o melhor filme já feito! Adoro também 2001: uma odisseia no espaço. Genial. E Blade runner também. Ah, e sou fã do Woody Allen.

Como é a sua rotina hoje? Minha rotina é me divertir, escrever. Continuo trabalhando feito louco. Essa é minha diversão.

Planos para o futuro, professor?


Perfil: Newton da Costa

Sim, trabalhar. Se bem que, na verdade, eu nunca trabalhei na vida, sabe? Eu adoro o que eu faço. E pagaria pra dar aula. Gosto de judiar dos alunos (risos). Minha ideia é continuar sempre ensinando. A não ser que eles me toquem daqui. Enquanto me suportarem eu vou ficando.

Algo me diz que não vão mandar o senhor embora, não... Bem, se me mandarem embora, acho que vou acabar indo trabalhar com os psicanalistas.

Psicanalistas? Como assim? Eu ganhava muito dinheiro dando aula de lógica para psicanalistas, tanto na França quanto no Brasil. Eles queriam muito aprender o assunto, pois Lacan pretendia usar lógica em psicanálise. Vivia citando a lógica, mesmo sem entender nada. Há uma história interessante que uma psicanalista me contou esses dias: quando Lacan foi à Venezuela, a primeira coisa que ele fez ao chegar foi dizer: “Eu quero conhecer Newton da Costa”. Informaram-no, porém, que eu era brasileiro, e não venezuelano. Assim ele descobriu que havia ido ao país errado (risos). Infelizmente ele morreu antes de nos conhecermos. Mas acabei dando aula para todo o pessoal da psicanálise.

Certo, mas por que exatamente os psicanalistas queriam tanto aprender lógica? Eles acham que o inconsciente se manifesta baseado num certo tipo de lógica – ele nunca nega nada. E diz coisas como: dei um tapa em fulano; fiz isso; fiz aquilo; tenho medo disso... Segundo o próprio Freud, nunca há negação no inconsciente. Só há lógica positiva. Então Lacan queria estudar isso a fundo, e seus discípulos também. Daí a relação entre psicanálise e lógica.

Com 81 anos, o senhor aparenta uma saúde de ferro! É, vai-se indo. Fiz operação de catarata esses dias. Estou enxergando melhor, agora tenho visão raio X (risos). Mas é aquela história: daqui a pouco já vão querer tirar uma unha aqui, outra ali, um reajuste aqui outro acolá, tira isso, coloca aquilo, depois tira algo mais... E por aí vai. Vou acabar virando uma espécie de ciborgue.

Um ciborgue! Nesse caso, quem sabe, alguma aplicação tecnológica da lógica paraconsistente pode ser bastante útil, não? Ah, sem dúvida!

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Newton da Costa