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JOSÉ MANUEL QUINTÃ TEIXEIRA VENTURA

A NECRÓPOLE MEGALÍTICA DO AMEAL, NO CONTEXTO DO MEGALITISMO DA PLATAFORMA DO MONDEGO

LISBOA, 1998


FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA

A NECRÓPOLE MEGALÍTICA DO AMEAL, NO CONTEXTO DO MEGALITISMO DA PLATAFORMA DO MONDEGO JOSÉ MANUEL QUINTÃ TEIXEIRA VENTURA

Dissertação de Mestrado em Pré-História e Arqueologia apresentada, sob orientação do Sr. Prof. Doutor João Carlos de SennaMartinez, ao Departamento de História da F.L.U.L.

LISBOA, 1998


À ROSA

POR TODOS OS TEMPOS LIVRES QUE NÃO PASSÁMOS JUNTOS.


RESUMO Apresentam-se aqui os dados adquiridos nos nossos últimos 8 anos de investigação arqueológica, na Plataforma do Mondego, no âmbito do megalitismo. Tomando como ponto de partida as informações existentes para o principal núcleo megalítico identificado na região, o de Fiais/Ameal, tecem-se considerações sobre a sua inserção crono-cultural, importância e implantação na paisagem.

O núcleo megalítico é constituído, até ao momento, por sete monumentos megalíticos de onde avulta uma necrópole, objecto deste estudo, constituída por dois pequenos monumentos de câmara megalítica simples e aberta. O estudo dos materiais provenientes das deposições funerárias permitiu o reconhecimento de uma acção de selecção nos depósitos votivos e a sua inserção em contextos associados ao arranque do megalitismo regional, que parece situar-se algures nos finais do V e inícios do IV milénio cal AC.

A presença, no tumulus da Orca 2 do Ameal, de materiais indiscutivelmente de filiação do Neolítico antigo ou de tradição antiga, permite questionar as diversas formas e vias de neolitização da Plataforma do Mondego.

Por outro lado, será após a desactivação destes pequenos monumentos que se irão construir, possivelmente em momentos próximos da 2ª metade do IV milénio cal AC no Núcleo em estudo, os grandes monumentos megalíticos de planta evoluída, onde as deposições votivas corresponderiam a uma reformulação das prescrições até aí em uso, eventualmente como forma de regularizar tensões sociais que então se desenvolveriam, nos grupos humanos do Neolítico médio/final regional.

Quanto ao núcleo como um todo, as conclusões possíveis, indicam-nos uma certa preocupação de posicionamento espacial, por via da ocupação das diversas cristas de terreno sobranceiras ao Mondego, orientados no sentido da posição do sol nascente no outono/inverno. O seu início terá ocorrido, como já foi afirmado, por volta do princípio do IV milénio A.C. com a construção de pequenos monumentos de curta duração de utilização, se tivermos em conta as suas funções sepulcrais. Seguidamente, o núcleo será ampliado com a construção de diversos monumentos, de maiores dimensões, envolvendo um maior esforço de mão-de-obra e que, a julgar pelos dados disponíveis, teriam uma longa duração de ocupação/utilização.

Este segundo momento de expansão do Núcleo, corresponde a uma monumentalização da paisagem, implicando o aumento da influência dos monumentos na organização do espaço, simbólico e profano, por via da sua visibilidade e pela existência, no sentido arquitectónico, de espaços cénicos onde se passam a realizar, agora, parte dos rituais associados aos mortos.


ABSTRACT In this dissertation we present an analysis of the work we have done throughout the last 8 years on Mondego’s Platform, concerning the megalithic phenomena. Starting with the data available for the main megalithic nucleus identified in the region, designed as Fiais/Ameal, we discuss problems concerning its cronocultural insertion, importance and location in the landscape.

This megalithic nucleus is composed, as we know it, by seven monuments including a necropolis with two small monuments with simple and open megalithic chambers, the main subject of this study. The analysis of the ritual deposits allows us to identify them as resulting from a deliberate act of selection and to place them at the start of the phenomena somewhere in the late V, early IV millennia cal BC.

The presence, in the tumulus of the «Orca 2 do Ameal», of materials clearly connected with an early Neolithic age, opens new possibilities for discussing the neolithisation process of the Mondego basin.

It will be after these small monuments were closed and deactivated that, in the 2nd half of the IV millennium cal BC, the larger ones with complex architectural structures were constructed, involving ritual depositions now including elements taken from domestic environments, possibly as a way to stabilise social tensions inside the middle/late Neolithic groups.

Seeing the nucleus as a whole, the results indicate that the location where the monuments were built had been carefully and purposefully selected. The predetermined construction of the monuments on the high ridges above the Mondego river would allow them to be oriented towards the sunrise in the fall and winter. In the beginning, about the start of the IV millennium BC, we witness the construction of small monuments, with a short utilisation if we consider only its burial functions. These were replaced by larger monuments with a longer use, and involving a greater construction effort by the local communities in terms of man-power.

This second moment can be interpreted as model of spatial monumentalization. This might imply a greater control over the territory, either in its symbolic or profane meaning, owing to the monuments’ visibility and the existence of special architectural scenic areas where some of the rituals associated with the dead start to occur.


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ÍNDICE Pág. 1. RAZÕES PARA UM PROJECTO 1.1. Enquadramento Geológico, Geomorfológico, Paleoflora e Clima 1.2. Os antecedentes: Modelização e Periodização

2. O NÚCLEO MEGALÍTICO DOS FIAIS/AMEAL 2.0. O Historial das Intervenções Arqueológicas no Núcleo 2.1. A Orca 1 de Oliveira do Conde 2.2. A Orca 2 de Oliveira do Conde 2.3. A Orca 1 do Ameal 2.3.1. O Tumulus - Sanjas A a D 2.3.2. A Câmara Megalítica 2.3.3. Os Dados Estruturais - Interpretação 2.4. A Orca 2 do Ameal 2.4.1. A Sanja A 2.4.2. O Sector Central - Entrecruzamento das Sanjas A e B 2.4.3. A Sanja C 2.4.4. Os Dados Estruturais - Interpretação 2.5. A Orca dos Fiais da Telha 2.5.1. O Tumulus 2.5.2. O Sector Frontal 2.5.3. Os Enchimentos interiores 2.5.4. Os Dados - Interpretação 2.6. O Monumento da Víbora 2.7. A Orca do Santo

3. A ANÁLISE ARTEFACTUAL 3.0.1. Considerações Metodológicas 3.0.2. Os Elementos constituíntes das Matrizes 3.0.3. Os Atributos Cerâmicos 3.0.4. Os Artefactos Líticos 3.0.5. Lâminas e Lamelas 3.0.6. Os Geométricos 3.0.7. Raspadores e Lascas Retocadas 3.0.8. Núcleos e materiais de reavivamento 3.0.9. A Pedra Polida

1 6 9

13 13 16 18 18 19 23 28 30 32 34 39 46 51 53 55 56 57 58 60

61 61 62 63 67 67 68 69 70 71


Pág. 3.0.10. Os Conjuntos Artefactuais 3.1. A Análise Artefactual: A Orca 1 do Ameal 3.1.1. A Cerâmica 3.1.2. Os elementos líticos 3.1.3. Os Artefactos Líticos de Pedra Lascada 3.1.4. Os Geométricos 3.1.5. Ponta de Seta e Elemento de Adorno 3.2. A Análise Artefactual: A Câmara da Orca 2 do Ameal 3.2.1. Os elementos líticos 3.2.2. Os Artefactos Líticos de Pedra Lascada 3.2.3. Os Geométricos 3.2.4. Os Geométricos na Plataforma do Mondego 3.2.5. Integração crono-cultural dos Geométricos da Plataforma do Mondego 3.2.6. O UAD 3.2.7. Elementos de Adorno 3.2.8. A Pedra Polida 3.3. A Análise Artefactual: A UE.7 da Orca 2 do Ameal 3.3.1. A Cerâmica 3.3.2. Os estilos decorativos 3.3.3. Os Artefactos Líticos de Pedra Lascada 3.3.4. Os Produtos Alongados 3.3.5. As Lascas 3.3.6. O Geométrico 3.3.7. Integração crono-cultural da indústria lítica 3.3.8. Integração cronométrica do conjunto artefactual

4. O ENQUADRAMENTO CRONOLÓGICO: O CONTEXTO REGIONAL 4.1. Metodologia 4.2. Condicionalismos das Amostras 4.3. Os Dados cronométricos para a Plataforma do Mondego 4.4. Integração dos datações provenientes de sítios de habitat

5. O ENQUADRAMENTO CRONOLÓGICO DO(S) FENÓMENO(S) MEGALÍTICO(S) PENINSULAR(ES) 5.1. Introdução 5.2. Monumentos Megalíticos da Serra da Aboboreira 5.3. Monumentos Megalíticos do Planalto de Castro Laboreiro 5.4. Monumentos Megalíticos de Trás-os-Montes

71 73 73 74 76 78 80 81 81 82 84 85 88 91 92 93 96 96 100 104 105 107 109 110 115

118 118 119 121 131

135 135 136 138 140


Pág. 5.5. Monumentos Megalíticos da Meseta espanhola

141

5.6. Monumentos Megalíticos da Galiza

143

5.7. Monumentos Megalíticos das Astúrias

148

5.8. Monumentos Megaliticos do Alentejo

150

5.9. O Arranque do Fenómeno Megalítico no Ocidente da Península Ibérica

151

6. O NÚCLEO MEGALÍTICO

DOS

FIAIS/AMEAL,

NO

CONTEXTO

LOCAL E

REGIONAL.AS LEITURAS

POSSÍVEIS

154 6.0.1. A UE.7 e o Neolítico Regional

155

6.0.2. Possíveis estratégias de implantação e económicas

158

6.0.3. A (possível) evolução na Plataforma do Mondego

160

6.1. Integração do Núcleo megalítico 6.1.1. Megalitismo versus Megalitismos

165 165

6.1.2. O Megalitismo da Plataforma do Mondego. A evolução das estruturas, espólios e simbologias

168

6.1.3. Enquadramento das Sociedades do Neolítico final

174

6.1.4. Espaço, Paisagem e Ritual. Hipóteses de um Discurso

182

BIBLIOGRAFIA

ANEXO I. - SOFTWARE PARA CÁLCULO DE VOLUMES ANEXO II. - ESTAMPAS DOS MATERIAIS PROVENIENTES DAS ORCAS 1 E 2 DO AMEAL ANEXO III. - MATRIZES DOS MATERIAIS PROVENIENTES DAS ORCAS 1 E 2 DO AMEAL

192


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1. ____________________________________

RAZÕES PARA UM PROJECTO

Pode-se considerar, que até aos inícios do Séc. XX, o Megalitismo, enquanto conceito, sempre foi associado a um costume funerário, reduzido à deposição dos mortos em grandes monumentos construídos com grandes pedras (Megalítos), normalmente constituídos, apesar da variabilidade, por uma área de deposição (a câmara) e outra de acesso/passagem (o corredor). Entendido, neste sentido simplista, linear e monumentalista, o megalitismo assumia-se como um fenómeno planetário, com estruturas que se espalham desde a Europa Atlântica à África equatorial e do Pacífico ao Indico (Cf. JOUSSAUME, 1985).

Recentemente têm-se levantado vozes discordantes desta visão de um fenómeno único e linear, propondo-se uma pluralidade de fenómenos, ao longo de uma longa diacronia, sem que no entanto seja possível encontrar um fio condutor, senão na solução empregue em termos arquitectónicos, que formalmente se convencionou designar de "Megalitismo" (JORGE V., 1986a e 1990a; SILVA F., 1993 e 1994). No entanto, pela sua prática e diversidade, o fenómeno ultrapassava também a simples realidade regional para se afirmar como o produto de um determinado momento da evolução das comunidades humanas. No caso português e de uma forma geral em todo o ocidente peninsular, a originalidade parece situar-se, não tanto, na expressão arquitectónica, produto de uma semântica regional, mas sim na concepção e no conjunto dos artefactos que reflectem uma realidade regional e os contactos supra-regionais (GONÇALVES, 1992:173; VENTURA, 1994b). Assim sendo, o Megalitismo passa a ser entendido como uma "comunhão de prescrições e rituais" relacionadas com o culto dos mortos, que se assume, a longo prazo, como um fenómeno pluri-regional.

Neste sentido, o Megalitismo passa a ser considerado, mais como um conjunto de prescrições rituais ou "mágico-religiosas" e práticas funerárias (VENTURA, 1994b; GONÇALVES, 1992:57), que se consubstanciam no colectivismo do espaço reservado aos mortos. Assim, parece corresponder, no que se refere à faixa ocidental da Península Ibérica, a uma evolução de determinadas comunidades neolíticas, que apesar das assimetrias regionais e dos diferentes ritmos de evolução, parecem ter desenvolvido ou adoptado em comum uma "Concepção", que abrange não só os aspectos arquitectónicos, mas também o tipo e qualidade de ofertas aos mortos. Desta forma, dá-se "eternidade" ao perecível, através de gestos modeladores, que corporalizam e consubstancializam estruturas definitivas, elas mesmas a "mumificação" da realidade simultaneamente perecível e duradoura.

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Assim, apesar das diferenças regionais, estes grupos humanos mantêm um certo "fio condutor" comum, o que poderá indiciar que, apesar de uma clara distinção em realidades regionais, com personalidade própria, e assentando no substrato cultural, recursos e potencialidades económicas locais, tem de se reconhecer a existência de ideias que "viajariam", concretizando-se numa maior ou menor homogeneidade discreta das estruturas arquitectónicas, que se mantêm mais ou menos inalteráveis, na sua Concepção.

Este conjunto de prescrições rituais e práticas funerárias, ultrapassaria largamente a simples expressão arquitectónica, consubstanciando-se sim num conjunto de práticas de aproximação ao mundo dos mortos, com prescrições, ritos e comportamentos, que se inter-relacionam (Cf. GONÇALVES, 1992:57; VENTURA, 1994b; SENNA-MARTINEZ, 1995/96a). Por seu lado, reconhece-se que a organização do Espaço dos Mortos seria efectuada em função do Espaço dos Vivos, ainda que de uma forma idealizada ou purificada (Cf. RENFREW, 1983; HODDER, 1984; CRIADO BROADO, 1995; SENNA-MARTINEZ, LÓPEZ PLAZA & HOSKIN, 1997).

O ponto de partida do presente Projecto, inicia-se com o estabelecimento em 1984, de um projecto conjunto para a bacia do Médio e Alto Mondego (Cf. SENNA-MARTINEZ, GUERRA & FABIÃO, 1986), onde um dos sub-projectos era designado por «Ideologia e práticas funerárias da neolitização ao Bronze Final (MEGABMAM)». Desenvolvido na sequência do frutuoso projecto da Serra da Aboboreira (JORGE V., 1988 e 1990a) o presente projecto pretendia antes de mais proporcionar condições para o estudo de raiz, de monumentos megalíticos1, que podessem permitir a detecção de níveis conservados, em sequência, que permitissem deslindar o que então eram consideradas as principais questões do megalitismo regional:

"- Constituem os pequenos monumentos sem corredor ou com este mal diferenciado, a fase mais arcaica do fenómeno ? - Qual a época de construção e que reutilizações sofrem, quando e como, os grandes monumentos ? - Como se relacionam, enquanto necrópoles, os monumentos megalíticos de corredor desenvolvido, reutilizados na Idade do Bronze, os monumentos funerários não-megalíticos Tipo Fonte da Malga 1 e M3MV(...) ?" (SENNA-MARTINEZ, GUERRA & FABIÃO, 1986:5)

A nossa inserção neste Projecto inicia-se em 1985, aquando do inicio do estudo dos materiais recolhidos durante uma campanha de limpeza de monumentos megalíticos na zona de Carregal do Sal e Nelas. Este estudo preliminar, foi depois alargado para incluir a escavação da Orca dos Fiais da Telha, em colaboração com João Carlos de Senna-Martinez e Pedro Delgado (Cf. SENNA-MARTINEZ, VENTURA & DELGADO, 1987).

Com a conclusão, em 1988, do estudo desta Orca, procurou-se a redefinição do projecto original de modo a adequa-lo as realidades então detectadas, nomeadamente a identificação de um Núcleo Megalítico, onde

1 Então designada como Fenómeno Megalítico.

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para além dos espaços funerários, tinham sido detectadas as primeiras estruturas habitacionais, passíveis de estarem associadas, pelo menos em parte, aos utilizadores de alguns destes monumentos megalíticos.

Se do ponto de vista formal grande parte das questões levantadas pelo Projecto MEGABMAM apresentado em 1986, ainda se podem considerar pertinentes, havia necessidade de o restringir em termos do âmbito geográfico, de maneira a circunscreve-lo a uma realidade concreta, que fosse possível de ser estudada na sua evolução na longa duração, tal como tinha ocorrido com projectos análogos em regiões próximas às nossas (Cf. JORGE V., 1983, 1986b, 1987, 1988 e 1990a; CRUZ, 1988 e 1992; OLIVEIRA J., 1988; SILVA F., 1989a, 1993 e 1994; GOMES L., 1996). Assim, o actual projecto resume-se a uma área restrita constituída por um núcleo megalítico, e no qual se procura a reconstrução da Paisagem e da sua evolução ao longo do V a III milénio cal AC2.

Deva-se compreender, que entendemos Paisagem, no sentido em que recentemente tem vindo a ser entendida, ou seja, como artefacto, num sentido de território ou entidade arqueológica globalizante, onde se acumulam milhões de gestos modeladores - estratégias de apropriação do espaço, organização social, subsistência e conceptualização/utilização do ambiente (CRIADO BROADO, 1993:20) - que englobam e simultaneamente retratam a totalidade das actividades das sociedades humanas e respectivos padrões de ocupação e semantização do espaço (CRIADO BROADO, 1989, 1993 e 1995; CRIADO BROADO et al., 1991; VENTURA, 1993, 1994b e 1997).

Assim pretendemos compreender: •

As estratégias de ocupação do espaço e as formas de apropriação e (re)construção da paisagem, ao longo de um período que por ora se situa entre o V e o III milénio cal AC;

A correlação e/ou inter-relação entre as áreas funcionais dos espaços para os Vivos e os para os Mortos;

As inter-relações locais, regionais e supra-regionais destas comunidades e dos seus diversos "espaços operacionais", de modo a permitir a estabelecer não só "rotas" de circulação de "gentes" e "produtos", mas, primordialmente concepções de "espaço" e "território".

Se o volume de informação de base, relativo à área em estudo, é ainda reduzido, não impede no entanto a (re)construção de Modelos Sócio-Económicos, mais ou menos aprofundados, que permitam a compreensão das dinâmicas por detrás da construção de alguns dos monumentos megalíticos.

Assim o presente trabalho apresenta-se também como uma sistematização e organização dos dados disponíveis no referido núcleo. Por outro lado, devido à especificidade geográfica do núcleo, o âmbito geográfi2 Esta definição cronológica tem a ver antes de mais, pelos dados que até ao momento se conhecem para a realidade arqueológica do «Planalto do Ameal», ainda que recentemente se tenha alargado este âmbito com a recolha de toda um imaginário popular e recolha documental relativa à área em estudo, permitindo abarcar até ao Séc. XVI, pelo menos a actual evolução da paisagem cultural local.

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co deste trabalho, irá circunscrever-se-lhe, ainda que, sempre que útil, se tenha recorrido à comparação ou mesmo à integração supra-regional. O mesmo se passando em relação aos limites cronológicos, que serão definidos pela própria inserção dos arqueosítios em análise.

No entanto, o estabelecimento de comparações supra-regionais resultou na maioria dos casos, extremamente difícil, tendo em conta que, muitas intervenções regionais em zonas imediatas à área de estudo, se encontram ainda inéditas ou não se encontram suficientemente publicadas, para poderem servir de base a comparações nos mesmos moldes aqui apresentados.

Por outro lado tenta-se, com base no estudo específico quer sobre o talhe da pedra e os restantes conjuntos artefactuais, determinar as tecnologias e eventuais origens das comunidades neolitizadoras da Plataforma do Médio Mondego, tendo por base não só os espólios presentes nos primeiros monumentos megalíticos, mas também os testemunhos recolhidos nas massa tumulares dos mesmos.

O presente texto procura, em conclusão, a reconstituíção de um modelo que possa servir para estudo comparativo com outras áreas, tanto ao nível económico e social, como fundamentalmente em relação às Atitudes perante a Morte.

Desta forma foi constituído um projecto que antevia a formação de uma equipa interdisciplinar no âmbito da arqueometria, no entanto dificuldades diversas, que passam por diversos factores desde o pessoal até ao institucional impediu até ao momento a concretização desta realidade. Também é verdade que a realidade arqueológica se encontra limitada pelos recursos disponíveis ao arqueólogo e na dificuldade de inter-relação entre os projectos pessoais e obrigações académicas de cada um. Ainda assim, procurou-se, dentro dos possíveis recolher elementos que podessem, eventualmente, num futuro mais ou menos próximo possibilitar esta análise3.

A viabilidade de um projecto arqueológico, só pode ser garantido, pela colaboração de entidades e de pessoas, que de diversas formas contribuem para a sua concretização, tanto quanto possível. Assim não quero deixar de agradecer em primeiro lugar à Câmara Municipal de Carregal do Sal, que ao longo destes anos apoiou, não só financeiramente como humanamente as intervenções arqueológicas efectuadas neste Núcleo Megalítico. Quero deixar uma palavra de apreço, para os diversos vereadores do Pelouro da Cultura, que sempre souberam entender, dentro das disponibilidades, as necessidades de uma equipa de arqueologia.

Em termos financeiros, para além do apoio autárquico, fomos também apoiados pelo Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico (IPPAR), não querendo deixar de salientar o esforço da Dr. Ana Leite da Cunha, na resolução de alguns dos problemas burocráticos que bloqueavam os referidos apoios.

3 Assim, para além da recolha de elementos carbonizados, que integraram um Programa de datações pelo radiocarbono, foram recolhidos elementos para futuros estudos de Antracologia e de Palinologia, para permitir uma eventual reconstituíção da paisagem envolvente dos monumentos.

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À Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Canas de Senhorim (Núcleo Filatélico e Numismático) e à Junta de Freguesia de Canas de Senhorim, na pessoa do seu presidente, Fernando Almeida, não quero deixar de expressar a minha simpatia pelo apoio incondicional que, nos últimos 12 anos nos prestaram, agradecimento que quero alargar a toda a população de Canas de Senhorim e em particularmente ao Horácio Peixoto, pelo carinho com que nos receberam e nos apoiaram ao longo desta "caminhada".

Não quero deixar também de destacar a participação neste Projecto dos apoios da Delegação Regional de Viseu do Instituto da Juventude, da Companhia Portuguesa do Urânio, do então Centro de Cultura e Desporto da Casa do Pessoal dos Fornos Eléctricos de Canas de Senhorim, da Delegação Regional de Viseu da Direcção Geral de Desportos e do Regimento de Infantaria de Viseu

Desta forma foi possível, ao longo dos últimos 8 anos realizar dos 5º ao 10º Campos Arqueológicos de Canas de Senhorim, sob a égide dos quais se realizaram as intervenções arqueológicas, cujos resultados permitiram a realização desta dissertação.

Ao longo destes anos de trabalho, tive o prazer de trabalhar lado a lado, com diversos alunos universitários, actualmente licenciados e, do ensino secundário, bem como estrangeiros que ao abrigo de intercâmbio do IJ, participaram nas diversas campanhas de escavações nos arqueosítios aqui referidos. A todos eles não quero deixar de agradecer o seu esforço e empenho. Mesmo assim, não quero deixar de destacar, aqueles, que nos últimos anos, têm sistematicamente "sacrificado" as suas férias e conforto, para participarem num projecto, que desta forma, apesar de se ter iniciado como uma realidade pessoal, se transformou numa concretização de todos, nomeadamente à Rosa Resende Correia, Pedro Miguel Xavier, Ana Cristina Silva, Isabel Maria Simões, José Carlos Quaresma, Rui António Cardoso, Margarida Barroso, Ana Paula Henriques, Maria Manuela Deus, Catarina Lopes, Catarina Tente e Francisco Almeida

Ao Prof Doutor Victor dos Santos Gonçalves, com quem aprendi, no ano já remoto de 1982, a pôr em causa os diversos dogmas, que até aí tinha aceitado sagrados, em especial no que se referia ao megalitismo português e das Beiras.

Por fim, mas não por último, não quero deixar de destacar o apoio sempre constante, as inúmeras sessões de trabalho, as longas horas de discussão e a palavra sempre amiga do Prof. Doutor João Carlos de SennaMartinez, orientador desta tese, iniciador de um projecto, que "herdei" e tento levar a bom termo.

Para todos eles o meu Profundo Agradecimento.

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1.1. Enquadramento Geológico, Geomorfológico, Paleoflora e Clima A entidade geomorfológica onde se situam os monumentos que aqui serão estudados, a Plataforma do Mondego (FERREIRA, 1978:7-9), é limitada a sul pela Cordilheira Central, a ocidente e noroeste pelo Maciço Marginal e a norte pelas bacias hidrográficas do Vouga e Paiva, cujos vales profundamente entalhados, constituem não só limites, mas também importantes vias de acesso (Cf. Figura I.1).

Legenda: Habitats do Neolítico antigo Monumentos Megalíticos Habitats do Neolítico final

N 0

2 Km

Figura I.1 - A área da Plataforma do Mondego analisada no presente trabalho. O Núcleo Megalítico dos Fiais/Ameal: 1Orca 1 do Ameal, 2-Orca 2 do Ameal, 3-Orca dos Fiais da Telha, 4-Orca 1 de Oliveira do Conde, 5-Orca 2 de Oliveira do Conde, 6-Orca do Santo, 7-Monumento da Víbora. Outros monumento megalíticos referidos no texto: 8-Orca do Outeiro do Rato, 9-Orca do Valongo, 10-Orca de Santo Tisco, 11-Orca de Pramelas, 12-Arquinha da Moura (Tondela), 13-Lapa da Arquinha da Moura (Oliveira do Hospital), 14-Orca do Seixo da Beira. Sítios de habitat do Neolítico final regional: 15-Pedra Aguda, 16-Quinta Nova, 17-Barrocas, 18-Ameal-VI, 19-Mimosal, 20-Murganho 2. Sítios de habitat do Neolítico antigo ou de tradição antiga: 21-Carriceiras e 22-Complexo 1 do Penedo da Penha.

A oriente o rebordo da Meseta Norte, separa-a desta. Esta Plataforma constituí-se em plano inclinado de nordeste para sudoeste (FERREIRA, 1978:141-2). __________________________________________________________________________________________ 6


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Em termos específicos a nossa área encontra-se definida pelo interflúvio dos rios Dão, a norte e o Mondego a sul (Cf. Figura I.2), delimitado a nor-nordeste pela ribeira de Beijós ou da Aguieira e a nordeste pela ribeira das Caldas. Esta área abrange parte dos concelhos de Santa Comba Dão, Carregal do Sal e Nelas. Orcas 1 e 2 de Oliveira do Conde m

Orcas 1 e 2 Do Ameal

Rio Mondego

Ribeira da Azenha

300

Rio Dão

200

100

E

W 0

4 Km

Ribeira de Beijós ou Aguieira Ribeira do Pisão

Ribeira de Cabanas

Orca do Santo

Orca dos Fiais da Telha

Rio Dão

Cabeço da ´Víbora

m

Orcas 1 e 2 Do Ameal Rio Mondego

300 Rio Seia 200

100

N 0

S 4 Km

Figura I.2 - Núcleo Megalítico dos Fiais/Ameal: perfis topográficos realizados a partir da Carta Militar de Portugal, 1:25000, fl. 199, 210 e 211.

O substrato é constituído fundamentalmente pela grande mancha de granitos hercínicos, permitindo um perfil rígido e bem conservado. Estes encontram representados, por dois grupos: pela sua série mais jovem (FERREIRA, 1978: 21-3) surgindo como calco-alcalinos, biotíticos, porfiróides de grão médio a grosseiro, ainda que esporadicamente sejam atravessados por filões quartzosos e os Granitos não-porfiróides de grão médio a fino, biotíticos, que têm a sua maior presença na zona nor-noroeste da Plataforma, junto ao vale encaixado do Dão, onde ocorrem, frequentemente, zonas de contactos entre os granitos e os xistos do complexo xisto-grauváquico, daí a existência, com relativa frequência, de pequenos filões de xistos anfibólicos. Os depósitos quaternários de cobertura, são formados por argilas e arcoses diversas (TEIXEIRA et al., 1961: 8-9).

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Quanto a solos, dominam os cambissolos húmidos, (Cf. "Carta dos Solos", Atlas do Ambiente, II.1, 1978), geralmente pouco profundos e extremamente ácidos, variando o Ph entre 4.5 e 4.6, formando algumas manchas de solos de "Classe A", entremeadas por manchas de "Classe C e F", de capacidade agrícola reduzida (com limitações moderadas ou acentuadas) ou apenas florestal (Cf. "Carta de Capacidade de Uso do Solo", Atlas do Ambiente, III.3, 1978), com alguma horticultura, cultivo de milho e de oliveira em socalcos ou nas baixas aluviais, ocupando a vinha algumas das vertentes e parte dos interflúvios entre os cursos de água principais.

Núcleo Megalítico dos Fiais/Ameal m 1000 500 0

N 0

10 Km

Figura I.3 - Bloco diagrama da área correspondente à Plataforma do Mondego (perspectivado a partir da Foz do Rio Mondego), com a localização do Núcleo Megalítico dos Fiais/Ameal (Adaptado de SENNA-MARTINEZ, 1989a:Fig.1.3).

No entanto, a grande transformação da paisagem em momentos, eventualmente, pós-medievais, em que parece ter ocorrido um acentuado processo de desflorestação das encostas e de preenchimento de alguns vales, parece ter alterado em parte os dados actuais, em relação a uma realidade mais distante (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1995/96a e 1996; PINTO E., 1996).

Quanto à cobertura vegetal, os dados disponibilizados pela equipa da Universidade de Utrecht (JANSSEN & WOLDRINGH, 1981; JANSSEN, 1985.; VAN DEN BRINK & JANSSEN, 1985; DAVEAU, 1985; KNAAPP & JANSSEN, 1991), apontariam fundamentalmente para um revestimento, no V a IV milénio cal AC, constituído por carvalhos (Quercus pyrenaica Willd.), azinheiras (Quercus rotundifolia Lam.), o teixo (Taxus baccata L.) e de alguns raros pinheiros bravos (Pinus pinastar Ait.), complementada por uma vegetação rasteira constituída maioritariamente por esteva (Cistus ladanifer L.), giestas (Lavandulo-Cytisetum multiflori Br.-Bl.) e fetos

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

(Pteridium aquilinum (L.) Kuhn) (SILVA et al., 1980). Actualmente esta vegetação original, foi em grande parte substituída por pinheiro e ultimamente pelo eucalipto.

No que se refere à precipitação, esta atinge na generalidade valores superiores a 1400 mm anuais (RIBEIRO, LAUSTENSACH & DAVEAU, 1988:398-9). A média anual entre 1931-1960, situou-se entre os 12001400 mm (RIBEIRO, LAUSTENSACH & DAVEAU, 1988:398-9). Em termos climáticos, a região é caracterizada por invernos frescos e frios, com temperaturas mínimas médias, do mês mais frio entre os 1º e os -4º C (RIBEIRO, LAUSTENSACH & DAVEAU, 1988:434) e verões quentes a moderados, com temperaturas máximas médias do mês mais quente entre os 23º a 32º C (RIBEIRO, LAUSTENSACH & DAVEAU, 1988:440).

1.2. Os antecedentes: Modelização e Periodização No que se refere à Pré-História recente da Plataforma do Mondego, foi realizada até ao momento uma única tentativa de modelização e periodização crono-cultural global, apresentada em 1989 por João Carlos de SENNA-MARTINEZ (1989a e 1989b). Posteriormente, o modelo foi ajustado e completado, ainda que tenha mantido a sua estrutura original (SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995a).

Já em 1995, foi dada à estampa um texto, que visava unicamente o estabelecimento de balizas cronométricas para o fenómeno megalítico do Norte/Centro de Portugal, no qual a região em estudo era considerada (CRUZ, 1995a) e nos inícios de 1997, António Valera apresenta uma proposta de interpretação e periodização para uma realidade inserivel já no III milénio cal AC, na Plataforma do Alto Mondego (VALERA, 1997a).

A base do modelo de João Carlos de Senna-Martinez, assenta fundamentalmente no conceito operacional de Horizonte, o qual envolve, segundo este autor, um sistema produtor, conjuntos de artefactos e estações articuladas de uma forma cronológica (SENNA-MARTINEZ, 1989a:655-6).

Estas entidades crono-artefactuais, são construídas, a partir dos dados dos espólios dos monumentos megalíticos e/ou a partir dos de povoados. Tenta-se, neste sistema, caracterizar o possível funcionamento económico das sociedades visadas e a partir daí inferir da sua realidade social.

O referido modelo, assume-se como um instrumento indispensável para a análise das construções sócioeconómicas da sociedade responsável por esta actividade artefactual, possibilitando a definição de estádios tecnológicos, tendências a médio e longo prazo e, eventualmente, situações de ruptura (pelo menos tecnológica), ainda que a sua limitação a um âmbito quase exclusivamente tecno-económico, limita substancialmente a sua apreensão da restante realidade humana, presente no registo arqueológico (SHANKS & TILLEY, 1988; SILVA C. T., 1989b; TILLEY, 1990; CRIADO BROADO, 1993). __________________________________________________________________________________________ 9


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Apesar das suas limitações, este tipo de abordagem, permitiu antes de mais o tratamento morfo-métrico, de um volume apreciável de artefactos, que até aí se encontravam inéditos, tornando-os assim acessíveis de uma forma lógica e organizada. Desta forma, foi possível a este investigador, a caracterização da realidade regional, desde o V até ao I milénio cal AC.

Por outro lado, esta abordagem fundamentalmente tipológica, permitiu, antes de mais ultrapassar a simples análise arquitectónica, para concentrá-la na realidade e nos fenómenos associados à deposição dos materiais, permitindo a inflecção da análise, no que diz respeito às realidades regionais abordadas. Por sua vez, ao criar um corpus de materiais, estabeleceu um ponto de partida para outras vertentes de estudo, mais concretas em termos crono-culturais.

O Modelo de Senna-Martinez, baseia-se , no que respeita ao V a IV Milénios cal AC, na aceitação da existência de três Horizontes individualizáveis (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1989b, 1994a e 1995a). A primeira destas realidades, é representado por um único sítio, as Carriceiras (Carregal do Sal), correspondente "a uma primeira penetração (...) de um "Neolítico de Tradição Antiga" e de origem estremenha (...)" (SENNAMARTINEZ & ESTEVINHA, 1994:61). Assim este sítio caracterizar-se-ía pela sua localização, ao situar-se numa zona aberta, sem condições naturais de defesa, numa rechã a meia vertente, voltada a sul para a ribeira de Cabanas. Apesar de profundamente revolvido pelo plantio de eucaliptos, foi possível recuperar alguma pouca cerâmica, onde os fragmentos decorados são largamente minoritários. As formas reconstituíveis são maioritariamente fechadas, surgindo os fragmentos decorados em números muito reduzidos (SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA,

1994; SENNA-MARTINEZ, 1997). Quanto à pedra talhada, domina a debitagem de produtos lamelares

ou micro-laminares, estando representados geométricos crescentes sobre lamela, furadores, buris e lascas. Quanto à matéria-prima, o quartzo é predominante, com 61% das ocorrências (Cf. SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994; SENNA-MARTINEZ, 1997).

Este sítio das Carriceiras, marcaria assim um primeiro momento de penetração de comunidades humanas, em zonas até aí não ocupadas, anteriormente ao início do megalitismo regional. Poder-se-ía estar assim perante uma das vias de penetração humanas, por grupos neolíticos ou neolitizadores, que seriam responsáveis, eventualmente, pelo desabrochar do fenómeno megalítico. Assim, uma das influências poderia vir do Maciço Calcário estremenho, utilizando a grande via de comunicação, constituída pela bacia hidrográfica do BaixoMédio Mondego, situação que seria visível, não só em momentos mais tardios, presentes nos monumentos dos Moinhos de Vento (Arganil) e S. Pedro Dias (Vila Nova de Poiares), como ainda no próprio sítio das Carriceiras (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a, 1995a e 1997).

A outra eventual via de penetração, seria constituída por uma certa difusão regional do fenómeno megalítico a partir do grupo de Évora/Reguengos, tendo em conta os dados então disponíveis para os conjuntos megalíticos do território português. Esta eventual difusão das ideias ligadas ao megalitismo, quer para a Beira __________________________________________________________________________________________ 10


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Alta como para a Meseta Norte, proceder-se-ia através dos "corredores" de Castelo Branco e de Cáceres (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a:665; VALERA, 1997b).

Assim, o segundo horizonte, de «Carapito/Pramelas», seria definido tendo em conta os espólios votivos, provenientes dos Monumentos 1, 2 e 3 do Carapito (Aguiar da Beira), da Orca de Pramelas (Canas de Senhorim) e da Lapa de Tourais (Seia), aos quais seriam assimilados os resultados preliminares da Orca 1 do Ameal (Carregal do Sal).

O seu enquadramento cronométrico seria estabelecido pelos dados de radiocarbono, provenientes do Monumento 1 do Carapito, nível de base, Orca dos Castenairos4 (Vila Nova de Paiva) e de Seixas (Moimenta da Beira). Estes dados apontariam para uma inserção nos finais do V e inícios do IV milénio cal AC.

Em termos arquitectónicos, é reconhecido a existência de um "certo polimorfismo", logo no inicio desta etapa, mas que cujo elemento fundamental de caracterização seria constituído, por um "pacote artefactual" padronizado (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1994a:16-17), onde avultariam os geométricos sobre lâmina, fundamentalmente os triângulos e os crescentes, as lâminas não retocadas e/ou com retoque marginal, os elementos de adorno, onde se salientariam as contas em xisto e algumas em pedra verde. Quanto aos elementos em pedra polida, estes, apesar de raros, apresentar-se-íam predominantemente com secção transversal oval ou sub-elíptica, com o polimento a tender para o integral (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a:639-40).

Os elementos de cerâmica, estariam totalmente ausentes, ainda que seja reconhecida a sua presença nos habitats contemporâneos desta etapa, até ao momento desconhecidos5.

Posteriormente, a este conjunto seriam adicionados novos elementos, nomeadamente as pontas de seta, presentes no conjunto funerário da Lapa de Tourais (Seia), sem no entanto que se notasse uma profunda alteração do resto do espólio, em relação ao dos monumentos anteriormente referidos6.

Em termos económicos, este horizonte seria marcado pelo pastoreio, a caça e a recolecção de vegetais disponíveis na floresta, devido, em grande parte, à desadequação dos solos para o cultivo de cereais (CF. SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a e 1995a), facto este que teria como suporte fundamental os dados provenientes da Palinologia, em especial os facultados pela equipa da Universidade de Utrecht (Cf. JANSSEN & WOLDRINGH, 1981; JANSSEN, 1985.; VAN DEN BRINK & JANSSEN, 1985; KNAAPP & JANSSEN, 1991).

4 Este monumento é normalmente referenciado como "das Castenairas", mas esta designação parece corresponder a uma não correcta interpretação do seu topónimo original, que é de "os Castenairos", daí que utilizemos esta última referência ao longo deste texto. 5 No entanto, o reconhecimento do sítio das Carriceiras, permitiu a confirmação desta realidade cerâmica para momentos anteriores, podendo-se assim afirmar que o carácter "acerâmico" do megalitismo inicial, corresponderia apenas a uma opção na deposição dos espólios (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1994a: 17). 6 Situação esta que seria posteriormente confirmada pelos resultados da Orca de Santo Tisco, Carregal do Sal (Cf. SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994b, SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995a).

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Num terceiro momento ou horizonte, surgiria um novo elemento nos conjuntos funerários, a cerâmica desenvolvendo-se assim o Horizonte Moinhos de Vento/Ameal (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a:641-2). Este é definido com base no espólio de diversos monumentos megalíticos, mas onde um conjunto em especial avulta, o Monumento dos Moinhos de Vento (Arganil). Para além dos monumentos funerários, existem dados provenientes de alguns habitats, correlacionados com alguns dos conjuntos funerários, dos quais se destaca, pela qualidade de informação, o conjunto das Cabanas 1 e 3 do sítio do Ameal-VI, Carregal do Sal, que seriam depois complementadas com as escavações nos habitats da Quinta Nova, Carregal do Sal, e Murganho 2, Nelas (SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995a).

Em termos de cultura material, assiste-se a uma maior diversidade nos conjuntos detectados já que, para além da presença de cerâmica nos monumentos megalíticos, se constata um certo paralelismo entre os espólios funerários e os depósitos dos contextos domésticos, permitindo uma certa inferência de prolongamento ritual do "espaço doméstico" no "espaço funerário" (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1995/96a; SENNA-MARTINEZ, LÓPES PLAZA & HOSKIN, 1997:665-6). Estes últimos contextos, localizam-se preferencialmente em áreas abertas, onde parecem não existir preocupações defensivas, nem sequer de controle agressivo da paisagem, mantendo-se as mesmas estratégias de exploração dos recursos envolventes, já propostas para o horizonte anterior.

Estes mesmos sítios caracterizariam-se ainda por uma ocupação de outono/inverno, devido à abundante presença de bolota, só possível de ser recolhida durante o outono. Assim, para além de uma eventual transumância, aproveitando os pastos das serra durante a primavera/verão, recolecção de vegetais e caça (SENNA-MARTINEZ, 1989a:666-7), propõe-se uma maior interacção destes grupos, no tráfico de sílex, entre a Estremadura e as Beiras (SENNA-MARTINEZ, 1995a e 1995/96a), utilizando os cursos fluviais ou ao longo destes, como rotas de circulação preferenciais. As rochas duras, como o anfibolito seriam utilizados como "moeda de troca" nestas "transacções" (SENNA-MARTINEZ, 1995a:72).

No entanto, apesar de adições nos espólios funerários, toda a estrutura ritual e simbólica é mantida, passível de ser observada nas declinações dos diversos monumentos megalíticos da Plataforma do Mondego, que mantêm uma discreta e perturbante homogeneidade ao longo de todo um milénio (SENNA-MARTINEZ, LÓPES PLAZA & HOSKIN, 1997).

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

2. ____________________________________

O NÚCLEO MEGALÍTICO DOS FIAIS/AMEAL 2.0.

O HISTORIAL DAS INTERVENÇÕES ARQUEOLÓGICAS NO NÚCLEO Os primeiros trabalhos de índole arqueológica registados, realizados na área em apreço, o planalto do

Ameal, ocorreram em Setembro de 1895, através de Maximiano Apolinário, quando este instruído por Leite de Vasconcelos efectuou pesquisas na Lapa da Moira/Orca dos Fiais da Telha (VASCONCELOS, 1896:247). Esta "pesquisa" permitiu a recolha de uma ponta de projéctil, actualmente depositada no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia Dr. Leite de Vasconcelos (SENNA-MARTINEZ, 1989a:51). Posteriormente Leite de Vasconcelos voltaria a referir a dita Lapa da Moira, nas Religiões da Lusitânia (VASCONCELOS, 1897:289).

Nos inícios do presente século seria um outro monumento megalítico da região, mas não do presente núcleo, alvo de uma outra notícia, com a visita de Pedro Belchior da Cruz, à Lapa do Lobo, Nelas, para recolher aí "antiguidades" na posse de Anníbal de Brito Paes, que os "populares tinham pilhado aquando da descoberta de uma orca no outeiro da rata" (Orca do Outeiro do Rato) (Cf. CRUZ, 1903).

Irá decorrer algum tempo antes de a região voltar a ser notícia, já que poucos atractivos apresentava para os "arqueólogos oficiais". Assim, o estudo dos monumentos deste planalto só foram reiniciados na década de 50, quando Irisalva Moita, visita a Orca dos Fiais da Telha, da qual elabora a respectiva planta e refere a existência de mais duas Orcas, que não visitou1 (MOITA, 1966:261-2 e Fig. 22).

Entretanto, noutras áreas da então província da Beira Alta, sucediam-se os trabalhos sob a iniciativa quer de Castro NUNES (1974), quer da equipa composta por Vera LEISNER e Leonel RIBEIRO (1966a, 1966b e 1968).

No entanto a dinamização dos estudos arqueológicos na área, no que diz respeito ao megalitismo, só ocorrem na década de 80, com o desenvolvimento do já referido projecto «Ideologia e práticas funerárias da neolitização ao Bronze Final (MEGABMAM)». Aliás, este projecto em conjunto com o desenvolvimento do "Projecto da Serra da Aboboreira" (JORGE, 1988), que se desenvolvem uma nova fase de investigação do fenómeno megalítico, quer através da formação directa de uma série de investigadores, que posteriormente se envolveram em linhas de investigação localizadas entre o Mondego e o Douro (CRUZ, CUNHA & GOMES, 198889; CRUZ & VILAÇA, 1989, 1990a, 1990b e 1994; VENTURA, 1993, 1994a e 1994b; CUNHA, 1995; SILVA, 1986, 1987, 1988, 1989a, 1989b, 1993 e 1994; GOMES L., 1996) quer ainda pela sua influência no "tecido" da 1 Sabemos actualmente que se referia à Orca 1 do Ameal e à Orca 1 de Oliveira do Conde.

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investigação arqueológica portuguesa, fomentando o desenvolvimento de projectos, que procuravam a correcta integração de todas as vertentes deste fenómeno, ainda muito envolto em "névoa".

Assim, em 1979 se retomaram os trabalhos no Dólmen Nº 1 dos Moinhos de Vento (Arganil), continuados logo em 1982 com o inicio do estudo do Dólmen de S. Pedro Dias (Vila Nova de Poiares) (SENNAMARTINEZ, 1989a:22-7). Esta dinâmica iria alargar-se, em 1985, com a realização dos primeiros trabalhos de reconhecimento e prospecção no planalto, através da reidentificação da Orca dos Fiais da Telha e da Orca 1 de Oliveira do Conde2. Logo em 1986 iniciaram-se os primeiros trabalhos arqueológicos na área desenvolvidos segundo métodos actualizados e dirigidas por elementos com preparação teórico-científica adequada aos problemas então em estudo (cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a). Foi na sequência deste movimentos que se realizaram as intervenções arqueológicas na Orca dos Fiais da Telha, co-dirigidos pelo signatário (SENNA-MARTINEZ, VENTURA & DELGADO, 1987, SENNA-MARTINEZ, 1989a:51 e SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994a).

Conjuntamente com o início da investigação, continuaram-se os trabalhos de prospecção, que permitiram a reidentificação da Orca 1 do Ameal e a descoberta de mais quatro monumentos - em 1987 da Orca 2 do Ameal, Orca do Santo e Orca da Víbora e em 1990 da Orca 2 de Oliveira do Conde (SENNA-MARTINEZ, 1989a:51 e VENTURA, 1993) - para além da detecção das primeiras áreas habitacionais relacionadas com os monumentos megalíticos - o Habitat do Ameal e o do Mimosal (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1989b, 1994a, 1995a e 1995b).

Perante esta situação, tudo parecia indicar que estávamos perante uma multiplicação dos monumentos na proximidade do grande monumento dos Fiais da Telha, o que pareciam configurar-se, não como uma necrópole, visto que as distâncias entre os sítios arqueológicos não permitir esta leitura, mas sim de um núcleo, através de um processo de nuclearização (JORGE, 1986) em redor do grande monumento3, que apesar do aparente polimorfismo evidenciado pelos novos tumuli, parecia evidenciar a permanência do significado funerário-religioso de um determinado espaço cultural, polarizado pela actividade construtora destes monumentos.

Após a conclusão da intervenção no monumento dos Fiais da Telha, em 1988, tornava-se lógico a continuidade dos trabalhos nos monumentos então descobertos de modo a correlacionar os dados então adquiridos quer em termos de estruturas e de depósitos votivos com novas realidades e situações. Assim em 1989 iniciaramse os trabalhos na Orca 1 do Ameal, continuados em 1992 pelos na Orca 2 do Ameal e em 1994 iniciaram-se os trabalhos na Orca 2 de Oliveira do Conde4.

2 E também da Orca do Outeiro do Rato e a de Pramelas, em Nelas. 3 Esta percepção seria alterada com a continuidade da investigação e das releituras subjacentes. 4 O estudo arqueológico deste monumento, encontra-se ainda numa fase preliminar, pelo que os poucos dados existentes serão descritos no respectivo ponto.

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

No que se refere à metodologia utilizada para a escavação dos referidos monumentos5, adoptamos o sistema divulgado, entre nós, pelo Prof. Doutor Vitor Oliveira Jorge, que consiste na delimitação prévia, após o levantamento topográfico de superfície, de faixas de 2 a 3 m de largura (Sanjas) até um número máximo de quatro, que se entrecruzam no centro do monumento, na zona correspondente à localização da câmara megalítica. Desde modo, é possível a obtenção de um perfil longitudinal da mamoa e o acesso à totalidade da área da Câmara, com uma relação de economia de meios/resultados extremamente favorável (Cf. JORGE, 1978).

Por outro lado, no que se refere à leitura estratigráfica e ao seu respectivo registo, partimos das propostas metodológicas apresentadas por Philip Barker (BARKER, 1977 e 1986) em conjunto com as de Edward Harris (HARRIS, 1979), que dizem respeito à interpretação e registo de entidades estratigráficas diversas, normalmente referenciadas por Unidades Estratigráficas6, quer estas se apresentem, no sentido tradicionalista numa dimensão linear vertical, com a respectiva ênfase temporal, ou numa perspectiva horizontal, situação muitas vezes fundamental no caso de monumentos funerários.

Tivemos um primeiro e frutuoso contacto, com esta metodologia, aquando da 1ª Campanha de Trabalhos no Casto de S. Romão (Seia), em 1985, integrando a equipa do Prof. Doutor João Carlos de Senna-Martinez, onde depressa apreendemos as potencialidades de um sistema que longe de pretender a criação única de sequências estratigráficas, nos permitia seguir a ordem inversa à sua formação, independentemente da sua situação na quadrícula. Assim, o registo gráfico ortogonal, ao ser efectuado cumulativamente, após a decapagem das diversas UE. até se atingir a interface inferior7, permitem-nos a realização de cortes cumulativos, nas diversas áreas escavadas, possibilitando a reconstrução gráfica das diversas fases de construção do monumento, expressas depois numa Matriz Barker-Harris, ou seja um conjunto de UE. organizadas quer na vertical quer na horizontal (SENNA-MARTINEZ, GUERRA E FABIÃO, 1986).

O registo destas unidades, foi efectuado assim, numa ficha adaptada, da elaborada, por Amilcar Guerra e João Carlos de Senna-Martinez (SENNA-MARTINEZ, GUERRA

E

FABIÃO, 1986), que pretende substituir com

vantagem o tradicional caderno de campo.

Quanto aos materiais recolhidos durante a intervenção, estes foram recolhidos por Quadrado e UE., sendo, sempre que possível, referenciados tridimensionalmente (X, Y e Z), no momento em que eram recolhidos dos respectivos quadrados. Todas as terras removidas foram sistematicamente crivadas, sendo-o por quadrado e UE., utilizando-se um crivo com malha metálica de 2 mm e nalguns casos especiais, onde existia a suspeita de ocorrência de pequenos artefactos, utilizou-se um crivo com uma malha metálica de 1 mm.

5 À excepção do Monumento dos Fiais da Telha, no qual utilizámos a metodologia empregue pelo Prof. Doutor Senna-Martinez, no Dólmen de S. Pedro Dias (SENNA-MARTINEZ, 1989a:25). 6 Indicadas no texto como UE. 7 Superfície que separa duas UE.s

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Não pretendemos produzir um catálogo exaustivo de todos os monumentos deste núcleo, mas entendemos preocupar-nos tão somente com aqueles que tendo fornecido dados estruturais e artefactuais significativos, se encontrem ainda inéditos e que possam contribuir para a compreensão da génese e desenvolvimento do respectivo núcleo megalítico. Assim iremos apresentar os monumentos detectados até ao momento no núcleo, referindo caso a caso a localização e ambiente, conjuntamente com a descrição das estruturas conservadas e contexto dos depósitos recuperados.

2.1.

A ORCA 1 DE OLIVEIRA DO CONDE A Orca 1 de Oliveira do Conde (OROC1), situa-se no sector noroeste do núcleo (Cf. Figura II.1). As

suas coordenadas hectométricas GAUSS, são 215.500/386.125, folha 211 da Carta Militar de Portugal, escala 1/25000. Situa-se numa rechã, na vertente leste da ribeira da Azenha, 1600m a leste da povoação de Oliveira do Conde e a 1025m oeste, em linha recta, da Orca dos Fiais da Telha.

Esta Orca encontrava-se já referenciada por Irisalva MOITA (cf. 1966:261), tendo sido relocalizada por João Carlos de Senna-Martinez, em 1985 (SENNA-MARTINEZ, 1989a:51). Em termos arquitectónicos, pode ser caracterizada como

pertencendo

ao

grande

grupo

de

monumentos beirãos de câmara poligonal de 9 esteios, encontrando-se três deles na cabeceira sendo o central o mais largo, com cerca de 2.5 metros de diâmetro e de corredor alongado (com OROC 2 OROC 1

cerca de 5m). A estrutura central foi incorporada num dos elementos habitacionais de uma granja e utilizada como tal até à década de 70. A estrutura básica do monumento sofreu assim diversas modificações devido as suas novas funções, nomeadamente, a alteração do percurso do corredor, com a eliminação dos esteios do lado

esquerdo, que foram utilizados como elementos Figura II.1 - Localização das Orcas 1 e 2 de Oliveira do Conde, no de construção. Por outro lado o elevado grau de Núcleo Megalítico dos Fiais/Ameal destruição, que a zona sofreu para a construção da habitação fez desaparecer qualquer vestígio do tumulus. A ruína actual do imóvel tem-nos impedido, até ao momento, a elaboração de um levantamento topográfico detalhado e preciso.

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2.2.

A ORCA 2 DE OLIVEIRA DO CONDE

A Orca 2 de Oliveira do Conde (OROC2), localiza-se no sector norte do núcleo a 375 m a nordeste da Orca 1 de Oliveira do Conde (Cf. Figura II.1). As suas coordenadas hectométricas GAUSS, são 215.750/386.500, folha 199 da Carta Militar de Portugal, escala 1/25000. Situa-se numa pequena crista granítica no topo da vertente sul da ribeira da Azenha.

O monumento foi identificado em Fevereiro de 1991, por Horácio Peixoto, tendo sido reconhecido posteriormente, em Março de 1991 pelo autor. Configurava-se, nessa altura, como sendo constituída por uma mamoa com 20 metros de diâmetro e 2 metros de altura, com profunda fossa de violação na área a que corresponderia a câmara e o corredor, com cerca de 5 metros de diâmetro (VENTURA, 1993:15), não se tendo então detectado à superfície quaisquer vestígios de esteios ou de materiais arqueológicos.

No verão de 1993, realizaram trabalhos de limpeza de matos e de levantamento topográfico, por parte de uma equipa orientada pelas Dras Ana Paula Henriques e Margarida Barroso, tendo sido possível verificar que a mamoa, de forma elíptica, media cerca de 14 metros, no sentido E-O por 12 de largura, no sentido N-S e de que

a

fossa

de

violação

central

não

corresponderia, eventualmente, ao centro do monumento (Cf. Figura II.2).

Iniciaram-se os primeiros trabalhos arqueológicos, no verão de 1994, sob a direcção do signatário, estando o estudo do presente monumento ainda em curso8.

2.3.

A ORCA 1 DO AMEAL ORAM 1

A Orca 1 do Ameal (ORAM1), localizase no hipotético centro do núcleo (Cf. Figura II.3).

As

suas

coordenadas

hectométricas

GAUSS, são 216.125/386.050, folha 211 da Carta Militar de Portugal, escala 1/25000. Figura II.3 - Localização da Orca 1 do Ameal, no Núcleo Megalítico Tendo sido identificada no inverno de Fiais/Ameal 8 Efectuaram-se até ao momento três campanhas de escavação neste monumento, tendo sido possível a detecção de um anel pétreo de contenção exterior da terras do tumulus e de uma estrutura pétrea em forma triangular, eventualmente associada a três fossas, no sector central do monumento, que se configuram como de implantação de ortóstatos. Quanto a depósitos rituais, apenas foram detectados, resultando possivelmente de profundos remeximentos, um geométrico (trapézio) em sílex e os fragmentos de 2 machados de Anfibolite (Cf. VENTURA, 1997).

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1986/87, por Horácio Peixoto, foi visitada na Páscoa de 1987 por uma equipa dirigida por João Carlos de SennaMartinez, que a correlacionou com a Orca descrita por Irisalva Moita (SENNA-MARTINEZ, 1989a:51; MOITA, 1966:261). No verão desse mesmo ano, a Drª Luisa Portela e o autor efectuaram o levantamento topográfico (Cf. Figura II.4). O monumento configurava-se então como sendo constituído por uma mamoa com cerca de 15 metros de diâmetro onde se encontrava implantada, no seu centro, uma câmara megalítica aberta de pequenas dimensões, constituída por 6 esteios, um deles de cabeceira, três no sector sul e dois deslocados no sector norte da mesma. Esta câmara megalítica aparentava ser desprovida de corredor.

O presente monumento foi então seleccionado para ser intervencionado, após a conclusão dos trabalhos realizados na vizinha Orca dos Fiais da Telha (Cf. SENNA-MARTINEZ, VENTURA & DELGADO, 1987; SENNAMARTINEZ, 1989a; SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994a), tendo-se efectuado duas campanhas (5º e 6º Campos Arqueológicos de Canas de Senhorim), que decorreram em 1989 e 1991.

No que se refere à metodologia adoptada para este monumento megalítico e posteriormente adaptada a outros monumentos do mesmo núcleo, consistiu na delimitação prévia, após o levantamento topográfico de superfície, de faixas de 2 m de largura (Sanjas) até um número máximo de quatro, que se entrecruzam no centro do monumento, na zona correspondente à localização da câmara megalítica (Cf. Figura II.4). Desde modo seria possível a obtenção de um perfil longitudinal da mamoa e o acesso à totalidade da área da Câmara, com uma relação de economia de meios/resultados extremamente favorável (Cf. JORGE, 1978).

Às Sanjas assim delimitadas atribuímos a identificação de Sanja A a D, respectivamente, no sentido dos ponteiros do relógio, tendo em conta a orientação no sentido norte.

2.3.1. O TUMULUS - SANJAS A A D Iniciámos, os trabalhos pela a remoção da camada humosa superficial [UE.0], que cobria a totalidade da superfície da mamoa, a qual integrava raízes e abundantes carvões resultantes dos incêndios florestais. Sob esta UE., detectou-se o que restava da provável carapaça lítica, que cobriria a superfície da mamoa [UE.2]. Esta era constituída por pedras de pequena-média dimensão de granito, quartzito e grauvaque, denotando remeximentos importantes, devidos à lavra efectuada para o plantio do pinhal, a qual permitiu a detecção do conjunto de monumentos/sítios do "planalto" do Ameal.

Os elementos líticos da UE.2 assentavam sobre terras de matriz amarelo-alaranjadas (Munsell 10YR5/3) de consistência média [UE.1], atingindo uma potência média de 40 cm (Cf. Figura II.5).

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As UE.1 e UE.2 foram integralmente desmontadas nas Sanjas A e D. Era evidente, em ambas as áreas abertas, a existência de grandes remeximentos, mas na UE.1, foi impossível a detecção, dos limites das áreas remexidas, que viemos a detectar subjacentes.

Na Sanja D (H-Q/9-10) após a remoção da UE.1, eram-nos visíveis as seguintes realidades: •

Em J-I/9-10, encostando aos esteios E.1 e E.2 pelo lado exterior, detectámos o topo do respectivo anel de contrafortagem interior [UE.6], constituído por elementos pétreos de média e grande dimensão, maioritariamente de granito, com alguns exemplares de grauvaque, cuidadosamente imbricada de modo a que as exteriores travam as interiores (Cf. Figura II.5);

Na periferia sudoeste da Sanja (O-P/9-10) existia uma outra estrutura lítica [UE.7], do mesmo modo constituída maioritariamente por blocos de granito de média a pequena dimensão;

No intervalo entre as UE.6 e UE.7 surgiu a UE.8, constituída por terras amarelas alaranjadas (Munsell 10YR5/3) compactas, que constituíam também a matriz das duas unidades acima referidas. Estas terras não foram desmontadas9.

Exteriormente à UE.7, apareceram terras muito semelhantes às da UE.8, conquanto de menor consistência [UE.5]. Na Sanja A, as realidades detectadas sob a UE.1, são algo distintas: assim, verificámos que enquanto na extremidade noroeste encontramos bem conservado o anel pétreo exterior de contenção da mamoa [UE.10 = UE.7], ocupando os quadrados G-H/2-4, no restante da área intervencionada encontraram-se remeximentos que afectaram as terras entre o anel exterior e o contraforte interior, bem como os próprios do lado norte da câmara (E.5 e E.7). Entre a UE.10 e os esteios da câmara surge a UE.11, formada por terras amarelo-acinzentadas (Munsell 7.5YR6/4) de consistência média e com alguns carvões dispersos, contendo algum material arqueológico, quer pré-histórico, quer moderno (fragmentos de cerâmica a torno rápido). No seu interior e na metade superior, em G/H-7, detectámos um conjunto lítico de médias dimensões [UE.13], talvez restos do anel de contrafortagem interior.

Desmontada a UE.11, verificámos que enquanto na maioria dos quadrados (G-H/5-7), esta assentava directamente e em descontinuidade clara sobre o areão granítico de base [UE.16], no limite sudoeste de H6-7 surgia a base do contraforte interior, aqui designado UE.12, em G8 e parte de G7, onde recuperámos, integrada na massa pétrea, um fragmento de dormente de mó manual reaproveitada. Outra estrutura idêntica, a UE.15, pode representar a continuação daquele anel de contrafortagem, pelo lado oriental da câmara. Esta última unidade recobre parte do esteio E.8, encontrado tombado para o interior da câmara.

9 Apenas se procedeu a um ligeiro nivelamento, para se poder definir as faces dos dois anéis líticos detectados.

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No lado sudoeste da Sanja A, existe continuidade entre as UEs.10 e 12 e respectivas terras de suporte [UE.9], de coloração amarelo-alaranjadas (Munsell 10YR4/3), compactas, estratigraficamente equivalentes às que constituem a UE.18, sobre as quais assenta a UE.15 (Cf. Figura II.6). Na base da UE.18, detectámos nos quadrados H-G/8, três pequenas lentículas de carvões (22x10x2 cm), resultado de outras tantas pequenas fogueiras, aí ateadas aquando da construção do anel de contrafortagem, permitindo identificar as acções rituais relacionadas com a erecção desta estrutura.

Perante esta situação tornava-se necessário alargar a área escavada, para Este, de modo a poder-se definir a existência de um possível fecho do corredor, o que não era possível, tendo em conta o estado de conservação da UE.15. Assim procedemos abertura dos F9 e F10. Assim após a remoção da UE.0, reidentificou-se a interface da UE.11, onde ainda se notavam os negativos das fossas, por onde provavelmente se teria efectuado a violação da câmara.

Procedeu-se, de seguida, à desmontagem desta UE, tendo então sido detectados os restos da carapaça de cobertura do tumulus [UE.25], que se configura como sendo uma extensão do anel pétreo exterior [UE.10], que após a construção e consolidação da estrutura tumular, terá sido alargado de modo a revestir com uma camada de pedras de pequena e médias proporções, toda a superfície da mamoa.

Sob os restos desta carapaça de revestimento/consolidação da mamoa, separada por uma matriz de terras [UE.26] de cor amarelo-alaranjada (Munsell 7,5YR 4/2, quando húmidas) encontravam-se os restos do anel pétreo interior [UE.15]. Este anel configura-se como sendo constituído por elementos pétreos de granito de origem local, com alguns elementos em quartzito, de médias e grandes dimensões, imbricados e dispostos em plano inclinado, no sentido Este-Oeste, situando-se o topo da crista do anel a oeste (Cf. Figura II.8).

Confirmou-se assim a hipótese inicial, segundo a qual o monumento teria uma planta poligonal aberta e sem corredor, sendo rodeado na totalidade por um anel pétreo, que lhe serviria de fecho e de consolidação.

2.3.2. A CÂMARA MEGALÍTICA No que respeita à escavação dos enchimentos da câmara megalítica a situação era a que vamos passar a descrever.

Após a remoção da UE.0, onde apenas recolhemos alguns fragmentos de cerâmica contemporânea (recipientes para recolha de resina), surgiu a UE.3: terras avermelhadas claras (Munsell 10YR5/3), pouco compactas e com abundantes elementos orgânicos (raízes e carvões) e pedra de pequenas e médias dimensões.

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Sob a UE.3 apareceu a UE.4, constituída por terras amarelo escuras (Munsell 7YR5/6) de consistência mais compacta que as anteriores e que apresentavam uma potência média de 20 cm (Cf. Figura II.6). Pensamos que a diferenciação das UEs.3 e 4 se deve ao facto da superior ter sido remexida pela acção da alfaia agrícola utilizada na preparação do terreno para a plantação do pinhal novo, que cobre o planalto do Ameal. O facto de termos recuperado na UE.4 o resto de um percutor aparecido na UE.3, vem em abono desta leitura.

Uma vez removida a UE.4, identificámos a UE.14, caracterizada por terras arenosas, amarelo-alaranjadas (Munsell 5YR5/4), de consistência compacta com alguns elementos líticos em granito de pequenas e médias dimensões, dispersos e sem qualquer nexo aparente. A respectiva potência média ronda os 40 cm (Cf. Figura II.6).

A remoção da UE.14, permitiu detectar a existência de outros ortóstatos, que não eram visíveis anteriormente, por se apresentarem tombados quer no interior, quer na periferia da câmara. Dos esteios inicialmente detectados, somente E.1, E.2, E.4 e E.6 se encontravam aparentemente na sua posição original, já que o que designámos inicialmente por E.5 constituía apenas um fragmento mediano deslocado, sendo detectado posteriormente a sua base e outro fragmento do topo.

O esteio E.7 encontrava-se quebrado pela base a cerca de 1.35m do topo e deslocado 10 cm para NO. A sua base permaneceu na posição original. No quadrante oeste da câmara identificámos E.3, tombado para o exterior, provavelmente devido à remoção de grande parte da UE.6 - anel de contrafortagem - por uma violação antiga.

No quadrante norte, detectámos um esteio tombado E.8, contra o esteio de cabeceira E.1, apoiando-se sobre o fragmento superior de T.1 (como fora definido na 2ª campanha) tombado no interior da câmara.

A desmontagem da UE.14 proporcionou a recuperação de alguns artefactos de origem pré-histórica, mas a presença igualmente de fragmentos de cerâmica a torno e um pedaço de papel, com restos ilegíveis de escrita a azul, configuram para esta unidade, um ambiente de violação moderna do monumento, tanto mais que os artefactos pré-históricos foram todos localizados nas áreas de maior remeximento da unidade.

Sob a UE.14, detectámos a interface superior de uma camada de terras arenosas muito compactadas e de constituição semelhante à anterior [UE.20]. Para a continuação dos trabalhos, com a decapagem da unidade anteriormente referida, solicitámos a ajuda de uma máquina retroescavadora, da Câmara Municipal de Carregal do Sal, que sob a nossa directa orientação removeu os Esteios E8 e E3, tendo sido depositados na Sanja A, para posteriormente serem recolocados na sua posição original, aquando do processo de restauro deste monumento. Aproveitou-se ainda a presença da máquina e de um especialista, para se escorar os principais esteios de forma poder-se intervir no interior do monumento, com o máximo de segurança possível.

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A intervenção na câmara do monumento desenvolveu-se então em duas vertentes: •

Definição de possíveis pontos de assentamento/fossas do esteio E7 e da delimitação da câmara ao nível dos negativos presentes no granito de base [UE.17], nos quadrados H8/9 e G8/9;

Definição do enchimento da câmara, o que em 1(989) tinha sido identificado como UE.20.

A escavação dos quadrados H/G 8/9, permitiu definir os contornos exteriores de uma fossa [UE.27], que delimita a câmara megalítica e que foi escavada no granito de base, [UE.17], preenchida pela UE.20, tendo o esteio E7 e muito possivelmente o do E8 - Fossa UE.31 - sido colocados no bordo desta fossa, apoiados directamente sobre o granito de base.

No referente à desmontagem por níveis artificiais de 10 cm da UE.20, verificou-se ser esta unidade similar à que se lhe sobrepunha [UE.14] ainda que mais compacta, com uma matriz de terras amareladas (Munsell 7,5YR 4/4) . Assim verificou-se o surgimento de fragmentos de olaria a torno rápido, de produção recente, conjuntamente com restos de telha, que se misturavam com fragmentos de carvão vegetal e alguns artefactos em sílex.

Foi possível com o decorrer da escavação verificar, que o que se julgava ser o topo do esteio E.5 (T.1) é na realidade um fragmento da tampa de cobertura do monumento, que tombou para o seu interior por via da sua fragmentação, muito provavelmente por acção de instrumentos contundentes, utilizados na acção de violação antiga.

Por via desta violação todo o conteúdo da câmara terá sido remexido, misturando-se depois com materiais transportados quer por elementos humanos, quer por acção tafonómica. Esta violação, ocorrida muito possivelmente já neste século, terá mesmo afectado a estrutura do monumento, não só pelo deslocamento/remoção de ortóstatos, como ainda pela escavação do solo antigo subjacente à câmara [UE.29] - constituído por terras alaranjadas (Munsell 7,5YR 5/6) e com bastante areão de granito, proveniente da desagregação do subsolo - penetrando bastante abaixo - cerca de 50 cm do ponto de assentamento dos esteios - retirando o apoio a estes, sem dúvida uma das causas da queda dos esteios E3 e E8 (Cf. Figuras II.6 e II.7).

2.3.3. OS DADOS ESTRUTURAIS - INTERPRETAÇÃO A análise dos dados fornecidos pela escavação da Orca 1 do Ameal, podem ser divididos em duas vertentes, a estrutural e a artefactual, sendo esta ultima analisada no Ponto 3. do presente texto. Quanto aos dados estruturais, podemos considerar (Cf. Figura II.9):

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1.

Existiu uma preparação do solo, através da sua regularização, que eliminou em grande medida o "solo antigo" [UE.29];

0 2.

Após isto terá sido delimitada uma área circular, com pequenas fogueiras, onde posteriormente se erigiu uma estrutura lítica, assente sobre uma matriz de terras, de planta mais ou menos

3 1

4

2

circular [UE.6]. Este anel lítico seria construído em rampa do exterior para o interior da zona que delimitava;

3.

Eventualmente no mesmo momento em que se erigia o anel interior, iniciava-se a construção de uma outra estrutura lítica,

14 20 27

que constituiria o limite exterior do tumulus [UE.7];

4.

Entretanto, procedeu-se ao preenchimento do espaço, com cerca de 2 a 3 metros que se situava entre os anéis líticos, com terras

11

13

7=10

9

[UE.8], muitas delas resultado dos diversos trabalhos entretanto

8

já realizados na área;

5.

5

6 = 12 = 15

Em determinado momento foram os ortóstatos colocados na sua posição, possivelmente por arrasto utilizando a massa tumular

18

como rampa de acesso. Seria, assim, constituída uma câmara megalítica de planta poligonal simples, aberta e sem corredor,

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com um grande esteio de cabeceira e três outros imbricados no quadrante sul e quatro no lado norte. Muito possivelmente, após

16

a construção da câmara teriam sido efectuadas as deposições funerários10.

17

Figura II.9 - Organigrama estratigráfiPosteriormente teria sido o tumulus completado em termos volu- co simplificado da Orca 1 do Ameal métricos sendo também colocada a laje de cobertura sobre os ortóstatos (Matriz Barker-Harris) que constituiriam a câmara funerária, após o que se terá terminado o monumento com a construção de uma "carapaça pétrea" sobre a totalidade da superfície tumular, partindo da periferia, apoiando-se no anel exterior e desenvolvendo-se para o centro, eventualmente cobrindo mesmo a tampa de cobertura. Assim, finalizado o tumulus assumiria uma forma elíptica, no sentido N-S, com 18m por 12.5m, atingindo actualmente uma altura de 1m, sobre o terreno envolvente.

10 Os profundos remeximentos detectados na área não nos permitiram a recuperação de qualquer artefacto in situ na câmara megalítica. Quanto aos remeximentos, estamos agora na posse de elementos, que nos apontam para que o presente monumento tenha sido "explorado" na década de 50, pelo então vigário de Nelas, que terá procedido a escavações neste monumento e no dos Fiais da Telha. Após diversos contactos, foi-nos possível saber que não foi recuperado qualquer espólio nesta acção, ainda que toda a estrutura megalítica tenha sido profundamente afectada.

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2.4.

A ORCA 2 DO AMEAL A Orca 2 do Ameal (ORAM2), localiza-se também no hipotético centro do Núcleo Megalítico dos Fi-

ais/Ameal (Cf. Figura II.10). As suas coordenadas hectométricas GAUSS, são 216.125/386.050, folha 211 da Carta Militar de Portugal, escala 1/25000.

Tendo sido identificada no inverno de 1986/87, na sequência do plantio do pinhal que permitiu a identificação da Orca 1 do Ameal e do Habitat do Ameal-VI, este monumento, foi também visitado na Páscoa de 1987 por uma equipa que então procedia ao reconhecimento do planalto do Ameal, que confirmou a sua identificação como eventual monumento megalítico (SENNA-MARTINEZ, 1989a:51). No verão desse mesmo ano, a Drª Luisa Portela efectuou o respectivo levantamento topográfico (Cf. Figura II.11). ORAM 2

O monumento apresentava-se então como sendo constituído por um tumulus, com um diâmetro médio de 10m, apresentando uma profunda fossa de violação, com 1.5 metros de diâFigura II.10 - Localização da Orca 2 do Ameal, no Núcleo Megalítimetro, no seu centro, sendo visível à superfície co Fiais/Ameal os restos de um ortóstato. Tudo parecia indicar estarmos perante um monumento similar, quer em dimensões tumulares, quer em implantação no espaço, à Orca 1 do Ameal, que dista apenas 75 metros para nordeste, indiciando estarmos perante um conjunto de monumentos pertencentes a uma necrópole.

Durante a limpeza prévia da superfície, anterior à implantação do referencial guia para o levantamento topográfico de base, foram recolhidas alguns restos de talhe em sílex e quartzo, sem sinais de retoque e de pequenas dimensões.

A Orca 2 do Ameal, foi estudada ao longo de quatro campanhas arqueológicas de escavação, tendo-se realizado uma quinta referente à consolidação prévia das áreas escavadas.

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No que se refere à metodologia empregue neste sítio, inseriu-se fundamentalmente na mesma linha da já empregue na Orca 1 do Ameal, consistindo na delimitação de três faixas de 2 m de largura (Sanjas), que se entrecruzavam no centro do monumento, na zona correspondente à eventual localização da câmara megalítica, marcada pela profunda fossa de violação. Optámos neste monumento por empregar unicamente três Sanjas, visto que todo o quadrante Oeste da mamoa, tinha sido em parte seccionado pelo caminho florestal, que lhe encontra anexo. Às Sanjas assim delimitadas atribuímos a identificação de Sanja A a c respectivamente, tendo em conta a orientação da quadrícula no sentido norte (Cf. Figura II.11).

2.4.1. A SANJA A Os trabalhos arqueológicos iniciaram-se pela escavação da Sanja A, de maneira a permitir a avaliação do estado de conservação deste sector. Procedeu-se assim à remoção da camada humosa superficial [UE.0], terras castanhas escuras (Munsell 10YR4/3), a qual integrava raízes, fragmentos de cerâmicas a torno rápido e abundantes carvões resultantes dos incêndios florestais, permitindo a detecção de uma camada de terras castanhas (Munsell 7.5YR5/4), que cobria a superfície da mamoa [UE.1], com uma potência média de 35 cm. Estas envolviam pedras de pequena-média dimensão de granito com alguns elementos de quartzito e quartzo leitoso, denotando remeximentos importantes, devidos à lavra efectuada para o plantio do pinhal, a qual permitiu a detecção do conjunto de monumentos/sítios no "planalto" do Ameal.

Era evidente a existência de grandes remeximentos, mas apesar da decapagem da UE.1, por níveis artificiais de 10 cm de espessura, não foi possível a detecção, dos limites das áreas remexidas.

Sob a UE.1 eram visíveis as seguintes realidades (Cf. Figura II.12): •

Em H/I-3, encostando ao topo norte, e continuando por H/I-4, detectámos o topo de um forte anel pétreo [UE.4], com continuação pela Sanja B (quadrados G/F-4), constituído por elementos pétreos de média e grande dimensão, maioritariamente de granito, com alguns exemplares de quartzito, que se encontram cuidadosamente imbricados de modo a que as exteriores travam as interiores (Cf. Figura II.12 e II.13), configurando-se como o anel interior, de contrafortagem da câmara;

Na periferia da Sanja (H/I-4/6) encostando ao anel de contrafortagem, UE.4, pela sua face norte, ou seja exterior, detectámos, o que parecem ser, as terras de enchimento da mamoa [UE.7], composta por terras castanho claras (Munsell 10YR 6/4) de consistência média-dura (Cf. Figura II.13). No seio desta UE, a cerca de 35 cm do topo da mamoa, em H-5, recuperámos um fragmento de bojo de olaria manual e de um fragmento distal de lasca em sílex, provenientes das terras utilizadas na construção da mamoa;

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No topo norte da Sanja B (H/I-6/7), a cerca de 1.5m da UE.4, surgiu-nos uma outra estrutura lítica [UE.8], que à semelhança da UE.4, era constituída maioritariamente por elementos pétreos em granito de grande e média dimensão, com alguns exemplares de quartzito, que se encontram cuidadosamente imbricados de modo a que as exteriores travam as interiores. Esta estrutura encontrava-se inserida numa matriz de terras castanho amareladas (Munsell 10YR 6/6) [UE.15];

A UE.8, em H/I-6, apresentava como que uma extensão do anel pétreo exterior, que após a construção e consolidação da estrutura tumular, terá sido alargado, acavalgando sobre a UE.7, de modo a revestir com uma camada de pedras de médias e pequenas proporções, toda a superfície da mamoa, dando-lhe a forma de uma carapaça de revestimento da superfície de tumulus, similar à situação detectada na Orca 1 do Ameal (VENTURA, 1994d.);

Na face exterior da UE.8, em H/I-8/9, sob a UE.1, detectou-se uma matriz de terras amarelas-alaranjadas (Munsell 10YR5/3) compactas [UE.20] e que durante a sua remoção, por camadas artificiais de 5 cm de altura, permitiram a recolha, em H-6, de 2 fragmentos de olaria manual e, em I-8, de 3 fragmentos de olaria manual, um dos quais um fragmento de bordo de uma taça hemi-elipsoidal, tipologicamente afim às do Habitat Ameal-VI (SENNA-MARTINEZ, 1989a e 1995a:73), que se situa a cerca de 130 metros para norte. No entanto, os remeximentos ocorridos recentemente no planalto, não permitiram a detecção de quaisquer estruturas associadas a estes fragmentos, na área escavada;

Desmontadas estas UEs, verificámos que enquanto na maioria dos quadrados (H/I-3/9), estas assentavam directamente e em descontinuidade clara sobre o areão granítico de base [UE.21], no entanto, em H5, surgia na base das terras de enchimento da mamoa [UE.7] um camada de terras, castanhas vivas (Munsell 7.5YR 5/6), com uma espessura média de 8 cm [UE.22], sem qualquer espólio, possivelmente resultantes do transporte de terras de uma origem diferente, aquando da construção do tumulus. Sob a UE.21, encontravam-se os granitos de base [UE.19].

2.4.2. O SECTOR CENTRAL - ENTRECRUZAMENTO DAS SANJAS A E B A área correspondente à designação de sector central, correspondia grosso modo aos quadrados F/I-1/3, onde, durante a prospecção se tinha detectado um ortóstato e uma fossa de violação. Após a remoção da UE.0, onde apenas recolhemos alguns fragmentos de cerâmica contemporânea (recipientes para recolha de resina), surgiu a UE.1, que também aqui assumia as mesmas características, já referenciadas no ponto anterior.

Era evidente, também aqui, a existência de grandes remeximentos, mas apesar também da decapagem da UE.1, por níveis artificiais de 10 cm de espessura, não foi possível a detecção, dos limites das áreas remexi__________________________________________________________________________________________ 34


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das. No interior da UE.1, recolhemos um geométrico crescente em I-2 e um raspador em quartzo, de G-2. Esta UE assentava, em parte, sobre terras de matriz amarelo-acastanhadas (Munsell 10YR5/6) de consistência média [UE.2] onde eram visíveis as seguintes realidades (Cf. Figura II.13): •

Em G-1 e G-2, detectámos a existência de dois ortóstatos, que não eram visíveis anteriormente, por se apresentarem cobertos por esta UE. Estes esteios [E.1 e E.2], que se encontram aparentemente na sua posição original, ainda que ambos se encontrem, aparentemente, quebrados no topo, definem um espaço que poderá corresponder à entrada do monumento, de forma similar ao encontrado em ORAM111;

Em G-2/3, encostando pelo exterior ao ortóstato E.2, detectámos o topo de um forte anel pétreo [UE.4] e com continuação pelos quadrados H/I-4, constituído por elementos pétreos de média e grande dimensão, maioritariamente de granito, com alguns exemplares de quartzito, que se encontram cuidadosamente imbricados de modo a que as exteriores travam as interiores (Cf. Figuras II.13), configurando-se como o anel interior, de contrafortagem da câmara;

Na continuação da UE.4, em G-1, em frente da entrada da câmara, detectou um pequeno aglomerado de elementos líticos de médias proporções [UE.9], que se configuram, para além da continuação do contraforte, como os elementos de fecho da câmara sepulcral. Assim, tudo parece indicar que a realização desta UE se efectuou depois da construção da UE.4, eventualmente com o fim de "selar" o acesso à estrutura central após a conclusão da mesma. No entanto, não nos parece que esta "selagem" se tenha efectuado muito tempo após a construção da UE.4, visto que seguia a mesma concepção de construção e orientação dos elementos líticos e a estrutura era em parte sobreposta por uma carapaça lítica [UE.6], que não aparentava ter sido perturbada;

Entre I-2 e H-1, encostando a um conjunto pétreo [UE.6] detectámos o topo de dois ortóstatos [E.5 e E.3 respectivamente], sobre os qual se apoia a única laje visível antes dos trabalhos, que assim se poderá assumir como uma possível tampa do monumento, deslocada por via da acção das "garras" da máquina usada para o plantio do pinhal;

Em H/I-1/2, detectámos um conjunto pétreo [UE.6], encostando pelo lado exterior aos esteios E.1, E.3 e E.5, que, apesar dos profundos remeximentos provocados, se configura, também, como uma carapaça lítica, já que em parte se sobrepunha a outro conjunto lítico [UE.4];

No quadrante sul de H-3 e continuando por H-2, identificámos os contornos exteriores de uma fossa [UE.5], escavada na UE.2, que se encostava a uma grande laje de granito tombada sobre o interior da

11 Cf. VENTURA, 1994a e 1994c.

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Câmara [E.4], que pela sua situação e características, se configura como um dos esteios do lado norte do monumento e a fossa como o testemunho de uma presumível violação da Câmara. Ainda sob a UE.1, em F/G-1/2, no topo norte e nordeste, detectámos a interface superior de uma camada de terras arenosas (Munsell 10YR 6/4) muito compactadas [UE.7], que encosta aos elementos dos anéis pétreos UE.4 e UE.9. Esta UE, encontrava-se coberta, em parte, em F/G-3, por uma estrutura pétrea [UE.8], que, como já referimos, como que acavalgava sobre a UE.7. A escavação, em níveis artificiais de 5 cm, permitiu identificar esta UE, como os restos conservados da carapaça lítica de cobertura superior da mamoa, à semelhança da UE.2, que o registo arqueológico observado na Sanja A, na mamoa, indiciam como uma continuação do anel lítico, de retenção exterior. Esta estrutura lítica encontrava-se inserida numa matriz de terras em tudo semelhantes à UE.7, mas que pela sua posição receberam a designação de UE.15, já caracterizada no ponto anterior.

A escavação, em níveis artificiais de 10 cm da UE.7, até uma profundidade de 30 cm, do topo original da unidade, permitiu a detecção do seguinte: •

Em F-1, a uma cota de 315.47, um fragmento de bordo de recipiente de olaria manual, com uma linha de incisões ao longo do lábio e uma outra ao longo do bojo, paralelas ao bordo, que pelo tipo de pastas e decoração, fazem lembrar peças afins encontradas no sítio das Carriceiras (SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994.). Associado a este fragmento, encontraram-se ainda, 2 fragmentos de bojos de olaria manual, com as mesmas características, no que se refere às pastas;

Em G-1, nas mesma situação da olaria, detectou-se um pequeno fragmento distal, de uma lamela de quartzo.

Tudo parece configurar que, pelo menos a olaria e a lamela, tenham vindo misturadas com as terras que serviram de enchimento à mamoa, por isso, possivelmente, provenientes de um sítio de habitat próximo, que no entanto não nos foi possível detectar.

A remoção da UE.212, permitiu caracterizá-la como resultante dos diversos remeximentos, que o monumento sofreu, ao longo da sua existência, já se recuperam não só artefactos de inserção pré-histórica, dos quais destacamos, um núcleo em quartzo, um fragmento de bordo de cerâmica manual, bem como fragmentos de cerâmica vidrada dos finais do séc. XIX.

Durante a escavação da UE.2, detectamos, em H/I-2 e parte sul de I-3, um conjunto lítico [UE.11], que se configurava como o derrube do anel de contrafortagem [UE.4], para o interior do espaço sepulcral, por via das diversas violações que o monumento sofreu (Cf. Figura II.14). 12 Nesta tarefa, tivemos o auxilio da máquina da C.M. de Carregal do Sal, que efectuou a remoção da Tampa T.1 e Esteio E.4, tombados no interior do espaço sepulcral.

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A UE.2 assentava directamente e em descontinuidade clara sobre a UE.10, que era constituída por uma matriz de terras castanho amareladas claras (Munsell 5YR 5/4) bastante compactadas, que se configurava como a camada de enchimento original, conservada da câmara. A escavação desta UE, permitiu recuperar in situ uma pequena goiva em xisto polido, uma pequena lamela de dorso, em sílex e 2 Geométricos crescentes, sobre lâmina e um outro Geométrico trapézio sobre lâmina. Foi ainda possível recuperar, 7 pequenas contas discoídais, em xisto, com perfuração central, provenientes desta unidade.

Ainda na UE.10, demarcavam-se os contornos de seis fossas (Cf. Figura II.15): a UE.12 encostada à UE.9, em G-1, resultado de uma toca de animal; a UE.13, em G-2, que se afigura como a fossa de implantação do Esteio E.4, que terá tombado para o interior, por via das violações que o monumento sofreu; a UE.14, em H-2 e parte sul de H-3, correspondendo à fossa de implantação do Esteio em falta do lado norte, em frente a E.6; a UE.16, em I-2, que se afigura como a fossa de implantação, do Esteio de cabeceira em falta; a UE.17, em I-1, encostando ao Esteio de cabeceira E.5, correspondendo à sua fossa de implantação. Por fim a UE.18, em H-2, no centro da câmara, que pela sua localização e estrutura (uma fossa circular com 12 cm de diâmetro e 11 cm de profundidade) se configura como um possível buraco de poste, para apoio a estrutura de sustentação dos Esteios/Tampa, durante a erecção do monumento, à semelhança do detectado na Orca dos Fiais da Telha (SENNAMARTINEZ 1989a:65-6 e SENNA-MARTINEZ & VENTURA 1994a)13.

Ainda durante a escavação da UE.10, detectaram-se os calços internos dos Esteios E.2 [UE.23], E.1 [UE.24] e E.3 [UE.25], respectivamente. Sob a UE.10, encontravam-se os granitos de base [UE.19].

2.4.3. A SANJA C A estratégia empregue na escavação da Sanja C - quadrados I/H-1-12' - foi idêntica à que tinha norteado a intervenção nos outros sectores. Assim a remoção da camada humosa superficial [UE.0], terras castanhas escuras (Munsell 10YR4/3), a qual integrava raízes e carvões resultantes dos incêndios florestais, permitiu a detecção de fragmentos de cerâmicas a torno rápido e de olaria manual diversa, bastante fragmentada, o resultado dos remeximentos ocorridos recentemente no planalto, possivelmente devido às movimentações de terras ocorridas durante o plantio do pinhal nesta zona.

Sob a UE.0 detectou-se uma camada de terras castanhas (Munsell 7.5YR5/4), que cobria a superfície da mamoa [UE.1], com uma potência média de 27 cm. Estas envolviam pedras de pequena-média dimensão de granito com alguns elementos de quartzito e quartzo leitoso, denotando remeximentos, sem dúvida devidos à lavra efectuada para o plantio do pinhal, a qual permitiu a detecção do conjunto de monumentos/sítios no "planalto" do Ameal, situação já detectada na Sanja A.

13 Não nos parece que estejamos perante uma fossa de implantação associada a uma estrutura anterior à construção deste monumento megalítico.

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Também nesta Sanja, era assim evidente a existência de alguns remeximentos, ainda que de menor dimensão que os detectados na Sanja A, sem dúvida devido ao facto de as garras da máquina que efectuou o plantio, não terem sido utilizadas, senão ligeiramente neste quadrante da mamoa.

Sob a UE.1 eram visíveis as seguintes realidades (Cf. Figura II.16): •

Em H/I-1/1´, encostando ao topo norte, detectámos a continuação do topo da carapaça pétrea da mamoa [UE.6], constituída por elementos maioritariamente de granito, com alguns exemplares de quartzito, de dimensões médias (cf. Fig. 8). No sector sul de I/H-1 e prolongando-se por I/H-1´ detectou-se o que interpretamos como sendo um derrube desta carapaça, por via da acção das garras da máquina já referida anteriormente [UE.39];

Sob esta carapaça, suportando esta, localizámos um anel pétreo em tudo idêntico, quer em posição quer em função, ao detectado na Sanja A e B daí que também recebesse a designação de UE.4. Esta unidade encostava aos esteios da Câmara pela face sul, sendo constituída por elementos pétreos de média e grande dimensão, maioritariamente de granito, com alguns exemplares de quartzito, que se encontram cuidadosamente imbricados de modo a que as exteriores travam as interiores (Cf. Figuras II.16 e II.17), configurando-se como sendo o anel de contrafortagem;

Em H/I-1´/4´, encostando aos restos da carapaça e do anel de contrafortagem, UE.4, pela sua face sul, ou seja exterior, detectámos, o que parecem ser, as terras de enchimento da mamoa [UE.7], compostas por terras castanho claras (Munsell 10YR 6/4) de consistência média-dura. Parte destas terras, até uma profundidade de cerca de 40 cm do topo, apresentavam-se com alguns distúrbios, verificáveis pela consistência mais solta e que para associamos a acção da máquina que operou neste sector, comprovável pela detecção dos negativos de duas das garras [UE.40 e 41], que no seu trabalho de abertura de valas para a implantação dos pinheiros, em 1987, terá deslocado parte dos componentes pétreos que se encontravam mais à superfície da estrutura tumular, em especial do topo dos anéis e da possível laje de cobertura T.1 (Cf. VENTURA, 1994a);

No seio desta UE, a partir de cerca de 25 cm do topo da mamoa, recuperámos uma série de fragmentos de olaria manual, sendo alguns deles bordos, conjuntamente com restos de talhe em sílex e quartzo, para além de vários artefactos nas matérias-primas já referidas. Destes artefactos destacamos a detecção: de 1 fragmento de geométrico crescente em sílex; de um micro-buril sobre lamela e de uma lamela de crista. Destacamos ainda quatro pequenas concentrações de carvões, com cerca de 15 cm de diâmetro cada, com uma profundidade variável entre os 5 a 10 cm, por nós atribuíveis a pequenas fogueiras não estruturadas, realizadas sobre a, então, superfície da mamoa, em construção.

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Estes artefactos, pela sua posição estratigráfica, no seio das terras da mamoa, sem distinção de níveis e ou cotas, sem associações claras e pela inexistência de estruturas, configuram-se como possivelmente provenientes das terras utilizadas na construção da mamoa, que teriam, muito possivelmente, pelo volume de objectos recuperados, e nalguns casos tendo em conta as fracturas vivas, provindo das zonas imediatas em redor da mamoa, consubstanciando a nossa hipótese da existência de antigas estruturas de habitat em redor da estrutura tumular, pelo menos ao tempo da sua construção.

Ainda sob a UE.1, em H/I-4´/6´, a cerca de 3.5m da UE.6/UE.4, surgiu-nos uma outra estrutura lítica [UE.8], que à semelhança da UE.4, era constituída maioritariamente por elementos pétreos em granito de grande e média dimensão, com alguns exemplares de quartzito, que se encontram cuidadosamente imbricados de modo a que as exteriores travam as interiores. Esta estrutura encontrava-se inserida numa matriz de terras castanho amareladas (Munsell 10YR 6/6) [UE.15] (Cf. Figura II.17).

A UE.8, em H/I-3´, apresentava um segmento que apesar de um ligeiro deslocamento posicional (sem dúvida resultado das garras utilizadas na abertura dos regos para o plantio do pinhal, cujos negativos já foram referenciados) que interpretamos como que uma extensão do anel pétreo exterior, visto não assentar directamente sobre este, mas antes partir de, que após a construção e consolidação da estrutura tumular, terá sido alargado, acavalgando sobre a UE.7, de modo a revestir com uma camada de pedras de médias e pequenas proporções, toda a superfície da mamoa, dando-lhe a forma de uma carapaça de revestimento da superfície de tumulus [UE.6]. Na face exterior da UE.8, em H/I-6´, sob a UE.1, detectou-se uma matriz de terras amarelas-alaranjadas (Munsell 10YR5/3) compactas [UE.20], correspondente às terras que cobrem o planalto do Ameal, mas na qual não detectámos qualquer indício ou recuperámos qualquer artefacto.

Efectuou-se depois a desmontagem destas UEs para fins de controle na totalidade dos quadrados H/I1'/4' e parcialmente nos quadrados H/I-1, situando-se assim esta sondagem entre os anéis líticos [UEs 4 e 8]. A finalidade desta desmontagem parcial prendeu-se com a necessidade de determinar com segurança, tendo em conta a economia de meios e tempo, o limite da presença de artefactos englobados nas terras da mamoa, que então tinham sido detectados.

A desmontagem da UE.7 nos acima referidos quadrados, processou-se utilizando a metodologia já empregue em anteriores campanhas, nomeadamente a decapagem por níveis artificiais de 5 cm, de modo a possibilitar o máximo de recolha de elementos no contexto original. Assim, No seio desta UE, a partir de cerca de 25 cm do topo da mamoa, recuperámos uma série de fragmentos de olaria manual, sendo alguns deles bordos, conjuntamente com restos de talhe em sílex e quartzo. Destes artefactos destacamos a recuperação em I-4' de fragmento de asa de rolo (ORAM2 185/95), um raspador sobre lasca de quartzo leitoso (ORAM2 186/95), uma lamela de crista em sílex (ORAM2 191/95) e o fragmento de outra, também em sílex (ORAM2 194/95).

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Podemos verificar, mais uma vez, que estes artefactos se localizavam no seio das terras da mamoa, sem distinção de níveis e ou cotas, sem associações claras e pela inexistência de estruturas, configuram-se como possivelmente provenientes das terras utilizadas na construção da mamoa, que teriam, muito possivelmente, pelo volume de objectos recuperados, provindo das zonas imediatas em redor da mamoa. No entanto, como irá ser abordado adiante, esta nossa hipótese não foi consubstanciada, na escavação por nós efectuada no sector sul da Sanja C.

Verificou-se então, que a UE.7 assentava directamente e em descontinuidade clara sobre o areão granítico de base [UE.21]. Sob a UE.21, encontravam-se os granitos de base [UE.19].

Para fins de análise polínica foi recolhida uma coluna de sedimentos da UE.7, em H-2´ e I-1´, na totalidade da altura do tumulus, pelo Dr. António Neves, da Escola Secundária de Santa Comba Dão, a ser realizada no âmbito da disciplina do Curso Secundário Introdução às Técnicas Laboratoriais. Até ao momento ainda não foi possível a apresentação de qualquer resultado.

Quanto aos quadrados I/H-7'/12' área situados a sul da UE.8, procedeu-se também à remoção da camada humosa superficial [UE.0], que nos surgia, também aqui, como constituído por terras castanhas escuras (Munsell 10YR4/3) a qual integrava raízes, carvões resultantes dos anteriores incêndios e alguns fragmentos de recipientes a torno rápido para a recolha de resinas (resineiros). Foi também possível a recolha de um fragmento de bordo cerâmico manual, em H-9' (ORAM2 179/95).

Sob a UE.0 detectaram-se duas realidades (Cf. Figura II.16): •

Em I/H-7' e na parte norte de I/H-8', detectámos a continuação do topo da carapaça pétrea/anel pétreo periférico da mamoa [UE.8], configurando-se o presente troço como a continuação do já detectado anteriormente, nos quadrados I/H-4'/6', marcando a estrutura agora identificada o limite sul da mamoa. Este troço denota ainda uma série de derrubes, que interpretamos como sendo o resultado da acção das máquinas envolvidas nos trabalhos no planalto do Ameal, para a implantação do presente pinhal.

Em I/H-8'/12', encostando ao topo norte, detectámos a interface superior de uma camada de terras acastanhadas (Munsell 7.5YR5/4) em tudo idênticas à UE.1, identificada em áreas contíguas, pelo que também recebeu essa designação. Esta unidade tinha uma potência estratigráfica de 7,5 a 15 cm, tendo sido apenas recuperados dois percutores sobre seixos rolados de quartzito, em H-10' e I-8' (ORAM2 198 e 199/95 respectivamente).

Sob a UE.1 identificámos uma camada de terras amarelas-alaranjadas (Munsell 10YR5/3) compactas [UE.20], onde em I/H-9'/10' eram visíveis alguns sulcos paralelos, que interpretamos como tendo sido o resul__________________________________________________________________________________________ 45


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tado da acção das garras utilizadas para o plantio do pinhal. A decapagem, em níveis artificiais de 5 cm de altura desta unidade permitiu a recuperação de alguns artefactos, a maioria deles fragmentos de cerâmica de fabrico manual.

Assim de H-9' recuperámos 5 fragmentos do mesmo recipiente, dois dos quais eram bordos (ORAM2 181 e 182/95), que nos surgiram no topo da interface da UE.20 com uma certa conexão. Recuperámos ainda em I-9' um fragmento de bordo de taça de carena alta (ORAM2 184/95) e dois percutores sobre seixos rolados de quartzito em H-9' (ORAM2 190/95) e I-8' (ORAM2 200/95).

Após a decapagem integral em I/H-8'/12' da UE.20 de cerca de 6 fatias de 5 cm eram visíveis várias fossas, que podiam ser atribuídas quer às máquinas que efectuaram o plantio no planalto, quer à acção de raízes de pinheiros. Assim no primeiro grupo detectámos (Cf. Figura II.16 e II.17) em I/H-9'/10' 5 fossas [UE.27, 28, 32, 33 e 34] e em I-11'/12' uma só fossa [UE.38]. Quanto a fossas de raízes de pinheiro, foram detectadas um total de 8: em H-9' [UE.42 e 26], em I-9' [UE.29 e UE.30], em H-10' [UE.31], I-10' [UE.35] e em I-11' [UE.36 e 37].

Devido ao facto de não termos, passados o primeiro nível artificial de 5 cm, encontrado qualquer tipo de estrutura ou alterações de terras que nos elucidassem sobre a existência de qualquer ocupação humana no local e devido à total ausência de vestígios artefactuais, decidimos, terminar aqui a nossa intervenção neste sector, visto que pela nossa observação da situação ocorrida no sector norte da presente Sanja, estaríamos neste nível a atingir o nível de alterite e o granito de base - UE.21 e UE.19 respectivamente - consubstanciado por uma pequena sondagem com sonda, que nos permitiu verificar que teríamos no máximo, neste sector a cerca de 10-25 cm dos já referidos níveis, por isso por uma questão de economia de meios e de tempo e visto os resultados conseguidos parecerem apontar para a ausência de quaisquer testemunhos foram aqui concluídos os trabalhos.

2.4.4. OS DADOS ESTRUTURAIS - INTERPRETAÇÃO

A informação recolhida durante a escavação da Orca 2 do Ameal, permitiu determinar não só as diversas fases construtivas, como a reconstituíção de alguns episódios relativos à sua utilização como monumento funerário. Como a análise morfo-métrica do espólio será efectuada no Ponto 3 iremos aqui apenas debruçarmos sobre a contextualização dos referidos artefactos.

Quanto às diversas fases construtivas podemos considerar, que estas decorreram segundo a seguinte ordem (Cf. Figura II.18): 1.

Parece ter existido uma preparação prévia do solo, através da remoção do "solo antigo" e da delimitação de uma área em fossa, na zona onde iria ser erigida a câmara megalítica. Infelizmente não foi

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0 possível determinar a existência

1

de "acções rituais" de delimitação do recinto megalítico, como

26 a 43

5

12

tinha ocorrido na Orca 1 do

2

Ameal14;

2.

ter-se-á iniciado a construção de

11

3

Após esta limpeza de terreno, Abandono

20

uma estrutura lítica, assente sobre uma matriz de terras, de planta mais ou menos circular [UE.4], envolvendo pelo exte-

6

Conclusão da construção e Encerramento

9

rior o que veria ser a câmara megalítica. Este anel lítico seria

10

Deposições

construído em rampa do exterior para o interior da zona que delimitava;

3.

7

Construção

Eventualmente no mesmo mo-

8

mento em que se erigia o anel

15

23

24

25

4 13

14

17

18

interior, iniciava-se a construção de uma outra estrutura lí-

22

tica, que o limitaria pelo exterior o tumulus [UE.8];

4.

Entretanto, os construtores pro-

21 19

cederam ao preenchimento a Figura II.18 - Organigrama estratigráfico simplificado da Orca 2 do Ameal zona entre estes dois anéis líti- (Matriz Barker-Harris). cos, com terras [UE.7], algumas delas provenientes das diversas actividades desenvolvidas na área e outras das zonas circundantes. É exactamente no seio destas terras de enchimento da mamoa, que vão ser detectados diversos materiais arqueológicos.

Este conjunto de artefactos, pela sua posição estratigráfica, no seio das terras da UE.7, sem distinção de níveis e ou cotas, sem associações claras e pela inexistência de estruturas (Cf. Figura II.19), configuram-se tendo sido englobados nesta matriz estratigráfica, através da recolha de terras numa área onde anteriormente à construção do monumento teriam existido antigas estruturas de habitat. Tendo em o volume de objectos recupe14 Saliente-se que rituais de limpeza e de preparação, através da utilização de fogueiras começam a tornar-se lugar comum no megalitismo a norte do Mondego, destacando, só a título de exemplo, os casos do Monumento 1 de Madorras (GONÇALVES & CRUZ, 1994), do de Antelas (CRUZ, 1995b), Lameira de Cima 1 e 2 (GOMES L., 1996) e o monumento de Areita (GOMES L. et al., 1997a e 1997b).

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rados e, nalguns casos, a presença de fracturas vivas, tudo parece indicar que estas estruturas se localizariam imediatamente na zona da mamoa, num raio máximo de 25 a 50 metros.

Após o preenchimento de parte do tumulus com terras, o tumulus configurava-se como uma plataforma em rampa, subindo da periferia para o centro, onde se localizava uma área não preenchida. Esta "rampa" era sustida pelo exterior e interior pelos dois anéis líticos. Os diversos ortóstatos15, que iriam formar os esteios da estrutura central, foram transportados, possivelmente por arrasto, utilizando a referida rampa e colocados nos seus alvéolos de implantação, entretanto escavados. É possível, que durante este episódio, que tenham sido utilizados suportes em madeira, como "caibros" ou "escoras" para suster os referidos esteios em posição, enquanto eram calçados. Durante este processo, foram ateadas várias fogueiras no então topo da mamoa, cujo significado desconhecemos16.

Foi assim constituída uma câmara megalítica poligonal simples, aberta e sem corredor, com dois esteios de cabeceira, colocados em V e três outros imbricados nos quadrantes sul e norte, encontrando-se a câmara orientada a leste, com uma declinação de -16º (SENNA-MARTINEZ, LOPEZ PLAZA & HOSKIN, 1997). Terá sido imediatamente após a construção da estrutura central e antes da sua cobertura por uma laje e do terminar da construção do tumulus, que se terão efectuado as deposições funerárias.

Foi-nos possível determinar três áreas de deposições de materiais (Cf. Figura II.20), eventualmente correspondentes a outros tantos sepultados, se fizermos corresponder a cada área um tumulado. Assim, teríamos a Deposição α em H-2 e quadrante este de I-2, constituída por dois geométricos em sílex, uma lamela de crista em sílex e uma pequena goiva em fibrolite. A Deposição β, constituída por um geométrico em sílex e quatro pequenas contas de xisto discoidais, encostando aos calços do Esteio E.3 e eventualmente a Deposição χ, apenas representada, por três pequenas contas de xisto discoidais, encostando ao Esteio E.2, junto à entrada do monumento.

Posteriormente a estas deposições, teria sido a entrada do monumento selada, através da extensão do contraforte exterior, para essa área [UE.9], envolveria assim totalmente a estrutura megalítica central, tendo sido o tumulus completado em termos volumétricos, com o concluir do enchimento com terras da mamoa e a colocação da laje de cobertura sobre os esteios da câmara funerária, utilizando também a superfície da mamoa como rampa. O monumento terá sido terminado com a construção de uma "carapaça lítica" sobre a totalidade da superfície tumular, partindo da periferia, apoiando-se no anel exterior e desenvolvendo-se para o centro, eventualmente, cobrindo a laje de cobertura. Assim, finalizado o tumulus assumiria uma forma elíptica, no sentido N-S, com 14m por 11m, atingindo actualmente uma altura de 1,4m, sobre o terreno envolvente.

15 Que em qualquer dos casos, do presente núcleo, foram extraídos localmente, num raio máximo de 100 metros dos monumentos. 16 Estas fogueiras tanto podem estar associadas a necessidades de aquecimento se não esquecermos que o monumento poderia ter sido, eventualmente, construído durante o outono/inverno (Cf. Ponto 6.1.4), ou então relacionados com tarefas ou rituais então desenvolvidos na construção do túmulo.

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O monumento teria sido então abandonado, não se registando então qualquer outra actividade de deposição de materiais arqueológicos. Ter-se-á assim criado a UE.20, onde posteriormente se terão englobado materiais afins dos encontrados no habitat do Ameal-VI (SENNA-MARTINEZ, 1989a e 1995b) possivelmente devido à presença de algumas estruturas de cariz habitacional nas imediações deste arqueosítio, ainda não detectadas. No entanto estes materiais são claramente posteriores ao encerramento e abandono do monumento e que julgamos se enquadrarem mais em actividades domésticas do que em deposições rituais relacionadas com este monumento, já que se encontram em zonas claramente periféricas, no quadrante norte e sul, a uma certa distância do monumento e em níveis em nada relacionados com os episódios anteriores, por tudo isto julgamos que não se enquadram com deposições como as detectadas nos Dólmen dos Moinhos de Vento (NUNES, 1974; SENNAMARTINEZ, 1983, 1989a), Dólmen de S. Pedro Dias, Orcas dos Fiais da Telha e do Outeiro do Rato (SENNAMARTINEZ, 1989a) e monumento de Antelas (CRUZ, 1995b) e Lameira de Cima 1 e 2 (GOMES L., 1996).

Posteriormente, já na nossa era, seria o monumento alvo de diversas depredações, que lhe amputaram o sector noroeste da mamoa, a remoção dos esteios do quadrante norte da câmara e o remeximentos de diversas áreas da superfície da massa tumular.

2.5.

A ORCA DOS FIAIS DA TELHA A Orca dos Fiais da Telha (ORFI), lo-

caliza-se no sector nordeste do núcleo (Cf. Figura II.21). As suas coordenadas hectométricas GAUSS, são 216.500/386.050, folha 211 da Carta Militar de Portugal, escala 1/25000. Situa-se a cerca de 1000 metros em linha recta a sudeste da povoação que lhe dá o nome.

Configura-se como um grande dólmen de câmara poligonal (com cerca de 3,90 metros

ORFI

de comprimento) e corredor longo (cerca de 7,90 metros), envolto numa mamoa com cerca de 20 metros de diâmetro.

A câmara megalítica é composta por 9 esteios, localizando-se 3 na cabeceira, com um ortóstato largo central e dois secundários, Os Figura II.21 - Localização da Orca dos Fiais da Telha, no Núcleo restantes

esteios

da

câmara

encontram-se Megalítico dos Fiais/Ameal

imbricados, três em cada quadrante. O corredor, longo, é composto por 15 ortóstatos numa formula de 7 esteios __________________________________________________________________________________________ 51


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no quadrante norte e 8 no quadrante sul. O monumento possui ainda 4 lages de cobertura, uma correspondente à "tampa" da câmara, outra a uma laje colocada em diagonal no topo da "antecâmara", à forma de "pedra de guilhotina", e as restantes duas correspondem à primeira e terceira tampas do corredor, respectivamente.

A primeira notícia referente a este monumento é-nos relatada por Leite de VASCONCELOS (1896:247), que refere que em Setembro de 1895, um funcionário seu, Maximiano Apolinário, terá efectuado "recolhas" na Lapa da Orca dos Fiais da Telha, resultando daí a recolha de uma ponta de projéctil (MNAE 9314), actualmente depositada no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia Dr. Leite de Vasconcelos (SENNA-MARTINEZ, 1989a:51)17. Segundo Leite de Vasconcelos, o Dólmen seria utilizado, à data, como curral de cabras.

Este monumento terá sido entretanto "esquecido", voltando somente na década de 50, já do presente século, a ser visitado por Irisalva Moita, que elabora a respectiva planta, mais ou menos pormenorizada (MOITA, 1966:261-2 e Fig. 22).

Em 1985, aquando do 1º Campo Arqueológico de Canas de Senhorim, uma equipa dirigida por SennaMartinez, elabora uma primeira planta topográfica do monumento e numa limpeza superficial no interior da Câmara18, recolhe algum espólio arqueológico (SENNA-MARTINEZ, VENTURA & DELGADO, 1987 e SENNAMARTINEZ, 1989a:51-2).

Após este reconhecimento, foram iniciados os passos para o inicio de trabalhos arqueológicos, que visavam antes de mais recuperar o espólio ainda existente no monumento e permitir a identificação de possíveis contextos e estruturas conservadas.

Estes trabalhos arqueológicos realizaram-se nos verões de 1986 a 1988, sob a co-direcção do signatário e de Senna-Martinez, tendo contado com a colaboração, na 1º Campanha [1(986)] de Pedro Delgado (SENNAMARTINEZ, VENTURA & DELGADO, 1987, SENNA-MARTINEZ, 1989a:50-69 e SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994a).

A estratégia utilizada neste monumento, resumiu-se às seguintes intervenções: •

Decapagem do quadrante sudeste da mamoa, complementada com a abertura de um corte nesta, de modo a percepcionar a estrutura interna do tumulus;

17 Recentes informações, provenientes do Caderno de Campo de Maximiano Apolinário, permitem actualmente estabelecer que este funcionário foi impedido pela população local de continuar os seus trabalhos neste monumento, sendo obrigado a fugir perante a ira dos populares. Agradecemos ao Prof. Doutor Senna-Martinez, que se encontra a estudar o referido Caderno de campo a informação disponibilizada. 18 Tudo parece indicar que este monumento terá sido alvo da visita de diversos exploradores amadores ao longo dos tempos, que realizaram explorações clandestinas, mais ou menos superficiais, que tiveram o condão de remexer os depósitos ainda existentes. Durante os trabalhos arqueológicos, em 1987, que co-dirigimos, tivemos a ocasião de detectar os negativos de uma sondagem efectuada no centro da câmara. Esta sondagem teria sido realizada utilizando regras específicas, nomeadamente com o estabelecimento de uma quadrícula de 1x1 metros e crivagem das terras. No entanto, apesar dos nossos esforços junto da população local, à excepção de um grupo de escuteiros, ninguém se recorda de qualquer intervenção anterior às nossas.

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Escavação integral da área frontal, do monumento, de maneira a permitir detectar eventuais estruturas de "fecho" ou de tipo "átrio";

Decapagem dos enchimentos da Câmara e Corredor, para a detecção de contextos, relativos aos depósitos arqueológicos entretanto detectados (SENNA-MARTINEZ, 1989a:52).

2.5.1. O TUMULUS A decapagem do quadrante sudoeste, o que aparentemente se supunha mais bem conservado, permitiu a detecção de uma carapaça pétrea, relativamente bem conservada [UE.3], que cobriria integralmente a superfície tumular. Esta carapaça teria sido construída, utilizando-se elementos de médias dimensões de granito disponível localmente. Nesta massa pétrea era possível detectarem-se alguns elementos em quartzo e em quartzito, alguns deles utilizados como percutores no assentamento da referida estrutura pétrea.

No sector este deste quadrante foi possível identificar um arranque de uma outra estrutura pétrea, constituída por elementos graníticos de médias-grandes dimensões, que apesar de bastante danificada, constituiria, possivelmente, o arranque de uma estrutura de "fecho" ou "estrutura de condenação" do sector frontal do monumento.

Neste quadrante, foi possível a recuperação de vários artefactos, cujo padrão de dispersão aponta para uma acção de esvaziamento dos depósitos do interior do corredor megalítico, para esta área ao invés de constituírem depósitos votivos (cf. SENNA-MARTINEZ, VENTURA & DELGADO, 1987 e SENNA-MARTINEZ, 1989a:52-3, Fig. 2.31.-2.).

O corte da massa tumular, realizado nos quadrados L-1/8, permitiu a identificação das seguintes realidades (Cf. Figura II.22): •

No sector norte deste corte, detectou-se uma estrutura pétrea, composta por elementos graníticos, de médias e grandes dimensões, que se configura como sendo o sistema de contrafortagem externo [UE.4] dos ortóstatos do corredor19;

Situando-se a sul desta estrutura, desenvolvia-se um outro anel lítico, que surgia como o de retenção do anterior [UE.6];

No sector sul do corte, desenvolvia-se uma outra estrutura pétrea [UE.7] que se configura como sendo o anel pétreo de retenção exterior da mamoa;

19 Eventualmente, com continuidade para os da Câmara.

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Entre estes últimos, encontravam-se as terras de enchimento do tumulus [UE.5].

A remoção parcial das estruturas atrás descritas, permitiu inferir que estas se sobrepunham, em clara descontinuidade sobre as arcozes dos depósitos de cobertura originais ou então sobre o granito de base, possibilitando a compreensão de que teriam existido trabalhos prévios de preparação do solo para a construção da massa tumular.

No sector sul do corte, a realidade era algo diferente, já que o anel pétreo de contenção exterior, assentava, não sobre as arcozes, mas sim sobre uma camada de terras, extremamente finas (entre 5 a 10 cm de espessura) que identificámos como sendo os restos de um provável "solo antigo" enterrado [UE.18] (cf. SENNAMARTINEZ, 1989a:53-6, Fig. 2.33.-8. e SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994a).

2.5.2. O SECTOR FRONTAL Este sector corresponde aos quadrados C/E-8/10 e D/E-11/12, a escavação deste sector permitiu a identificação de uma zona de remeximentos, imediatamente sobre a camada de terras superficiais, que depois se veria a verificar serem o resultado da destruição de grande parte de uma estrutura de "fecho" ou de "condenação" cujo arranque tinha já sido inferido, na decapagem do quadrante sudeste da mamoa. Mesmo apesar das profundas alterações ocorridas nesta área, foi possível determinar a existência de um pequeno troço onde a estrutura da mamoa dava lugar a um pequeno recinto ou passagem com não mais de 1 metro de comprimento e por outro tanto de largura. Julgamos que esta passagem poderia corresponder aquilo que se convencionou designar por "corredor intratumular". Nesta zona, à mistura com elementos pétreos foram recuperados uma série de deposições, infelizmente fora de contexto, que se configuram quer como deposições rituais nesse sector à mistura com artefactos removidos do inicio do interior do corredor megalítico e lançados para este sector;

Sob esta unidade detectou-se o que restava do murete pétreo de "fecho" ou "condenação" do monumento [UE.10], que poderia estar em profunda conexão com o "corredor intratumular" ou mesmo com um eventual "átrio" que se desenvolveria para este, mas que a construção de um caminho florestal, já neste século, teria destruído em grande parte, restando-nos apenas alguns fragmentos cerâmicos, para nos apontar, eventualmente, possíveis áreas de deposições rituais, ou então remeximentos profundos..

Deve-se salientar, que os profundos remeximentos detectados neste sector se devem aos vários episódios da "vida" do monumento, após a sua desactivação, nomeadamente a sua utilização como eventual forja em momentos atribuíveis ao período moderno, a sua adaptação a curral de animais, o que implicou a reconstrução integral deste sector e ainda a abertura do já referido caminho rural que contorna a mamoa a norte e este, que

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amputou o extremo norte e nordeste da massa tumular e do sector frontal do monumento (cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a:56-9, Fig. 2.43 e 2.45).

2.5.3. OS ENCHIMENTOS INTERIORES A escavação dos enchimentos da Câmara e Corredor megalíticos permitiu identificar a seguinte sequência de Unidades Estratigráficas [UEs]: •

Sob a UE.0, situava-se a UE.1 (câmara) ou UE.2 (corredor), que eram idênticas, caracterizadas por profundos remeximentos, bem patentes na extrema fragmentação da cerâmica recuperada. A presença de elementos modernos nesta UE. permite-nos estabelecer, que é o resultado das diversas violações que este sector terá sofrido, consistindo basicamente na mistura das terras de superfície, com os enchimentos originais do monumento;

As unidades anteriormente descritas, sobrepunham-se à UE.16 (câmara) ou UE.11 (corredor), correspondente aos restos do enchimento original do monumento, no momento em que a função funerária deste terá terminado20. No entanto, apesar dos cuidados desenvolvidos na escavação desta UE não foi possível detectar individualização de depósitos rituais nem de agrupamentos, antes pelo contrário, certos fragmentos de cerâmica, que colavam uns com os outros, foram encontrados a vários metros uns dos outros, o que parece indiciar, ser este estrato o resultado da acumulação, ao longo de toda a vida do monumento, que como veremos adiante pode ter atingido um milénio.

Estas UEs sobrepunham-se em clara descontinuidade sobre uma camada de areão misturado com alterite (cf. SENNA-MARTINEZ, VENTURA & DELGADO, 1987, SENNA-MARTINEZ, 1989a:59-69, Fig. 2.45 e SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994a).

Tudo parece indicar, que antes da construção do monumento tivessem ocorrido trabalhos de terraplanagem e de remoção da superfície do "solo antigo", de maneira a preparar a zona de implantação do dólmen. Assim teria sido formado uma depressão, mais ou menos correspondente ao volume ocupado pela Câmara e corredor megalíticos.

Após este processo ter-se-ía construído o anel lítico UE.6 (de contenção interior) e parte do enchimento UE.5, criando-se uma plataforma em plano inclinado do exterior para o interior. Esta rampa teria sido utilizada para o transporte/arrasto dos ortóstatos, que iriam constituir a câmara e o corredor, onde seriam colocados nas fossas de implantação previamente escavadas. Para suster em posição os esteios, teria sido eventualmente construída uma estrutura, em materiais perecíveis, possivelmente madeira, que à forma de "andaime" teria 20 Sem dúvida momento contemporâneo da construção da estrutura UE.10, do sector frontal da Orca.

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mantido os esteios na sua posição enquanto eram calçados internamente e externamente21. Posteriormente seria completada a massa tumular e assentamento das lages de cobertura, utilizando-se o mesmo processo já descrito.

2.5.4. OS DADOS - INTERPRETAÇÃO Apesar de o monumento ter sido alvo de diversas violações ao longo da sua existência, o estudo dos materiais e da estrutura tumular permitiu diferenciar dois grandes momentos na "vida" do monumento. O primeiro, que parece iniciar-se com uma consagração simbólica, indiciada pela deposição de alguns geométricos (trapézios) e pontas de seta (de base triangular com aletas). Na imediata sequência destas deposições, vão ser depositados espólios, constituídos por cerâmicas e elementos líticos em tudo similares aos recuperados no vizinho habitat do Ameal-VI, o que levou João Carlos de Senna-Martinez, a considerar este monumento como a necrópole daquele arqueosítio (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a e 1995a).

Eventualmente, após um período de utilização mais ou menos longo, que não nos é possível determinar com segurança, mas que não deve ultrapassar em muito a transição do IV para o III milénio cal AC22, o monumento teria sido encerrado e "condenado" com a construção de um fecho na zona frontal ao monumento, na área onde existiria, eventualmente, um pequeno corredor "intratumular", visto que sobre os restos deste murete terem sido recuperados alguns artefactos, conectados com os materiais encontrados no interior do monumento e sobre este mesmo "fecho" terem sido detectadas algumas deposições, infelizmente em contexto secundário, como um pequeníssimo vaso cerâmico, de "cariz ritual".

Este encerramento do monumento vai terminar o primeiro "ciclo de vida" do referido arqueosítio. Em momentos posteriores, já da 2ª metade do III ou mesmo de inícios do II milénio cal AC, teriam sido depositados objectos, eventualmente associados a tumulações, quer na zona da câmara megalítica, quer no início do corredor ou no "fecho", materiais esses onde avultaria cerâmica com decoração "penteada" ou tecnologias decorativas híbridas, com caneluras e bandas brunidas e um punhal de lingueta e rebites laterais em cobre arsenical (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a:388-411). Julgamos, que este(s) episódio(s) marca(m) o segundo ciclo de vida, com a esporádica utilização do monumento como local funerário, o que se deve não só à sua monumentalidade, mas também, eventualmente à manutenção de uma tradição, que associaria o local a uma função funerária23.

21 Foram detectadas diversas pequenas fossas, com não mais de 20 cm de diâmetro, nos granitos de base da Câmara, que pela sua estrutura e posição parecem corresponder aos negativos dos pontos de apoio ou suporte de uma estrutura tipo "andaime", para a sustentação dos ortóstatos da Câmara (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a:65-6). 22 Cf. Ponto 4 e 5 desta dissertação. 23 O que parece estar marcado, com a construção a este de uma estrutura em tudo similar à do monumento da Víbora.

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2.6.

O MONUMENTO DA VÍBORA O Monumento da Víbora (ORVI), localiza-se no sector sudoeste do núcleo (Cf. Figura II.23). As suas

coordenadas hectométricas GAUSS são 216.125/385.375, folha 211 da Carta Militar de Portugal, escala 1/25000. Situa-se junto do vértice geodésico com o mesmo nome a cerca de 750 metros a su-sudoeste da Orca dos Fiais da Telha.

O monumento foi detectado no verão de 1987, por João Carlos de Senna-Martinez, aquando da prospecção do planalto. A ocorrência de um incêndio florestal, no ano anterior, permitiu a remoção de grande parte da cobertura vegetal deste planalto, possibilitando a detecção deste

monumento

(SENNA-MARTINEZ,

1989a:141-2). ORSA

Nesse mesmo ano, uma equipa dirigida pela Drª Luisa Portela, efectuou a limpeza do monumento e elaborou a respectiva planta topográfica de superfície (Cf. Figura II.24). O monumento configurava-se como sendo uma estrutura circular, tipo "cairn", onde era possível identificar, pelo menos dois anéis pétreos, um

ORVI

deles servindo de delimitação externa. As suas dimensões são cerca de 11 metros, no sentido norte-sul e de cerca de 9 metros no sentido Este- Figura II.23 - Localização do Monumento da Víbora e Orca do Oeste (SENNA-MARTINEZ, 1989a:141-2). A se- Santo, no Núcleo Megalítico dos Fiais/Ameal melhança formal entre este monumento e outros detectados entre o Mondego e o Douro, levou Senna-Martinez a colocá-lo no momento tardio do desenvolvimento do megalitismo regional, eventualmente integrável em momentos do II ou mesmo I milénio cal AC (SENNA-MARTINEZ, 1989a:142).

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2.7.

A ORCA DO SANTO

A Orca do Santo (ORSA), localiza-se no sector este do núcleo (Cf. Figura II.23). As suas coordenadas hectométricas GAUSS, são 216.800/386.700, folha 211 da Carta Militar de Portugal, escala 1/25000. Situa-se a 825m em linha recta para Nordeste da Orca dos Fiais.

Mamoa identificada em 1988 e bastante destruída, apresentando actualmente duas enormes fossas de violação no seu interior (SENNA-MARTINEZ, 1989a:51-2). Durante o 4º Campo Arqueológico de Canas de Senhorim (1988) uma equipa dirigida por Teresa Graça, efectuou a limpeza superficial deste monumento, tendo uma equipa constituída pelo autor e Drª Teresa Graça, efectuado o respectivo levantamento topográfico (Cf. Figura II.25) (VENTURA, 1993:17).

No entanto o elevado grau de destruição que este monumento sofreu24, não nos permitiu estabelecer com precisão os limites exteriores da mamoa, verificando-se, apenas que, actualmente, a altura máxima da mesma atinge os 0.75 m. Também não se detectaram restos de esteios ou lages de cobertura. A

B

C

D

E

F

G

H

I

J

K

L

M

N

O

P 16 15 14 13 12 11 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1

0

ORSA P0 1989

3m

Nm

Figura II.25 - Planta Topográfica da Orca do Santo, Oliveira do Conde, Carregal do Sal, Viseu.

24 Deva-se referir, que o monumento em apreço situa-se a menos de 200 de distância para sul dos Bairro e Estádio das Gândaras e a menos de 125 metros a norte da Quinta do Santo, junto a um caminho bastante utilizado, quer pelos habitantes do local, quer por veículos pesados, que aí despejam entulhos e realização manobras diversas.

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3. ____________________________________

A ANÁLISE ARTEFACTUAL

3.0.1. Considerações Metodológicas No que se refere à análise dos materiais, procurámos organizá-los através da elaboração de matrizes de estados de atributos, a partir das quais se tentou estabelecer a respectiva classificação tipológica, para posteriormente poderem ser enquadrados e comparados num panorama mais amplo.

Por outro lado, será necessário não esquecer que todo o trabalho de classificação não passa de uma esquematização/simplificação do real, onde todos os elementos constantes de uma determinada amostra são valorizados em relação a outros menos frequentes, de maneira a criar abstractamente categorias significativas e significantes para o investigador (CLARK, 1968). Não passam por isso de uma idealização ou de uma forma conceptual de ver o objecto real.

Para que tal processo se possa efectuar, é necessário a construção de matrizes de análise, a partir de um sistema codificador que se desenvolve sobre determinados pressupostos eleitos pelo seu criador, ou seja, a definição e valorização de determinados atributos em prejuízo de outros, o que resulta num processo subjectivo. Ao conjunto de objectos com atributos ou estados de atributos afins atribuímos a designação de "Tipo" (MOBERG, 1981:87-102).

Após a criação do "Tipo" é-lhe posteriormente assimilada toda o "real", que possua os atributos seleccionados pelo arqueólogo, dentro de determinados limites de variabilidade, também eles estabelecidos pelo investigador.

Quantos aos atributos, passíveis de serem valorizados estes podem-se circunscrever nos seguintes grupos:

1.

Atributos relacionados com os comportamentos e condicionalismos inerentes à "construção" do artefacto, normalmente passíveis de serem medidos e avaliados, podendo por isso surgir sobre a forma de um valor aritmético;

2.

Atributos relacionados com a funcionalidade tecnológica do objecto, ou seja elementos que surgem sobre uma forma qualitativa;

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3.

Atributos relacionados com o contexto do artefacto reflectindo a sua apreensão pela entidade que o depositou;

Desta forma, como destacou Lewis BINFORD (1982) os artefactos podem ser entendidos como Tecnómicos, Sociotécnicos e Ideotécnicos. Por outro lado, os próprios objectos podem ser entendidos de formas diversas na teia de comunicação entre as várias comunidades que os possuem (CLARK, 1968; CRIADO BROADO, 1995; PEARSON, 1995).

Apesar de todas estas dificuldades na selecção e manuseamento dos atributos, consideramos que os elementos seleccionados, para além de se enquadrarem nos aspectos morfológicos e tecnológicos, deveriam também incidir nos funcionais e estilísticos. Desta forma, a categorização em Grupos ou Tipos, pode reflectir, ainda que nem sempre, a realidade da Sociedade que os criou e/ou utilizou (SILVA C., 1989:94-5; HODDER, 1995; SHANKS, 1995).

No entanto, a aceitação desta relação entre Artefacto e Sociedade, não implica obrigatoriamente uma correlação imediata entre Tipo e Cultura, já que se a formulação de tipologias podem auxiliar a definição do aparelho tecnológico de determinado grupo humano, no Espaço e no Tempo (Cf. HODDER, 1995; SHANKS, 1995), podendo permitir a inferência das interacções desenvolvidas no âmbito do Grupo e eventualmente com outras entidades externas, não permite per si a visualização da totalidade da realidade responsável pela deposição do artefacto, ainda que permaneça como um instrumento de trabalho útil.

3.0.2. Os Elementos constituíntes das Matrizes No referente à região onde se inserem os monumentos estudados, possuímos de momento dois modelos de análise tipológica, que longe se serem opostos se complementam (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1995a, VALERA, 1997a). A necessidade de permitir a correlação da nossa investigação com a destes dois autores, para possibilitar uma análise comparativa que ultrapasse o limite das próprias estações em estudo nesta dissertação, levou a criar padrões de análise, que apesar de diferenciados em certos aspectos, devido à especificidade dos artefactos e ao tipo de valorização de determinados atributos, possuem pontos em comum, em especial nas nomenclaturas e nos índices construídos.

No que concerne à análise dos materiais esta incidiu sobre os aspectos de morfologia e tecnologia associada aos artefactos em análise, sendo os resultados apresentados sob a forma de uma matriz codificada (Cf. Anexos III), apresentando-se aqui a chave de interpretação das referidas matrizes, encontrando-se entre parênteses as siglas utilizadas nas mesmas.

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Antes de mais todos os objectos sujeitos a análise encontram-se identificados por um número de registo (Nº) constituído por três elementos:

1.

A sigla da estação de onde são provenientes (ORAM 1 e ORAM 2 para os casos das Orcas 1 e 2 do Ameal, respectivamente);

2.

O número de ordem no registo do caderno de campo;

3.

Após a barra encontra-se o ano correspondente à Campanha arqueológica onde se recolheram os materiais.

A coluna seguinte corresponde à Unidade Estratigráfica (UE) onde foi recolhido o objecto, seguindo-se os parâmetros referentes à localização na quadrícula de campo do mesmo (Q.) e à sua localização tridimensional (X, Y e Z). A seguir a estes elementos de registo seguem-se-lhe os atributos morfológicos e tecnológicos, que variam conforme o tipo de artefacto analisado.

Outro elemento presente em todas as matrizes consiste na determinação das cores das superfícies. Para tal utilizamos a Munsell Soil Colours Charts, para estabelecer o código da tonalidade dominante da peça analisada, ainda que reconheçamos que esta depende de diversos factores, em especial nas cerâmicas, onde os factores determinantes como as condições de cozedura, ou até mesmo de utilização podem fazer variar a cor ao longo do mesmo recipiente, no entanto consideramos que a informação disponibilizada pelos códigos Munsell, podem ser úteis se compreendido como mais um elemento informativo da tonalidade dominante da peça.

Por outro lado todas as medições foram efectuadas em mm, com a aproximação às décimas de unidade.

3.0.3. Os Atributos Cerâmicos Quanto à análise dos elementos cerâmicos baseámos a nossa matriz interpretativa nas propostas desenvolvidas por diversos investigadores (SHEPARD, 1971; ERICSON & STICKEL, 1973; SILVA & SOARES, 1976/77; SÉRONIE-VIVIEN, 1982; BALFET, FAUVET-BERTHELOT & MONZON, 1983; LULL, 1983; SENNA-MARTINEZ, 1989a; NAVASCUES, 1990; VALERA, 1997a)

No referente à amostra em estudo, esta foi triada de forma a estabelecer um número mínimo de recipientes através da determinação do número mínimo de bordos da amostra.

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Seguidamente procedemos à análise segundo os atributos morfológicos e tecnológicos presentes no Quadro III.1, sendo posteriormente explicados os atributos mais pertinentes. Quadro III.1: Matriz de Materiais Cerâmicos 1 - Medidas D - Diâmetro interno máximo d - Diâmetro interno da boca dm - Diâmetro interno mínimo colo/gargalo Dc - Diâmetro exterior da Carena H - Altura total interna HD - Altura interna até ao plano de D.máx. Hd - Altura interna até ao plano de D.min. Hc - Altura externa da carena E - Espessura máxima das paredes e - Espessura máxima do lábio ou bordo

4 - Bordos/Lábios 4.a - Forma (F) 0 - Redondo 1 - Direito 2 - em Bisel simples interno 3 - em Bisel simples externo 4 - em Bisel duplo 5 - Espessado internamente 6 - Espessado externamente 7 - Bi-espessado 8 - Enrolado

2 - Índices Ia1 (dm/D x100) = Abertura Ia2 (d/D x100) = Abertura Ip (H/D x100) = Profundidade Ihc (Hc/H x100) = Altura da Carena Ie (HD/H x100) = Estabilidade Icv (Hc/Dc x100) = Convexidade da carena Ies (e/E x100) = Espessamento do Bordo

4.b - Orientação (O) 0 - Direito 1 - Invertido 2 - Exvertido

8.d - Calibre (Calib.) 0 - < 1 mm 1 - 1 a 3 mm 2 - 3 a 5 mm 3 - > 5 mm

5 - Bases 0 - Convexa

9 - Cor Munsell Soil Colours Charts

6 - Meios de Preensão (M.P.) SÉRONIE-VIVIEN (1982:13-33)

10 - Superfícies 10.a - Cozedura (Coz) 0 - Oxidante 1 - Redutora 2 - Redutora/Oxidante 3 - Oxidante/Redutora

3 - Forma 3.a - Formula descritiva (Formula) HS - Hemi-esfera HE - Hemi-elipsoíde T - Tronco de cone T-HS ou T-SS - Parabolóide S(SS) - Segmento esférico 3.b - Abertura (Ab) 0 - Aberta 1 - Fechada 3.c - Volume (Vol)

7 - Decoração 7.a - Técnica (Dec.Téc.) 1 - Impressão 2 - Incisão 3 - Em Relevo: Mamilos

8.b - Textura (P.t.) 0 - Homogénea 1 - Xistosa 2 - Granular 3 - Arenosa 8.c - Elem. não-Plásticos (enp) Quartzos (Q) Feldspatos (F) Micas (M)

7.b - Motivo (código)

10.b - Tratamento (Int. e Ext.) 0 - Normais 1 - Com Engobe 2 - Polida

8 - Pasta 8.a - Consistência (P.c.) 0 - Compacta 1 - Média 2 - Friável

10.c - Conservação (Cons) 0 - Boa 1 - Média/Boa 2 - Média/Degradada 3 - Degradada

Para a determinação da Formula descritiva interna, do recipiente, retomamos as propostas de SÉRONIEVIVIEN (1982:64-73) e em especial a estabelecida por Ericson & Stickel, também seguida por outros investigadores (ERICSON & STICKEL, 1973; SENNA-MARTINEZ, 1989a). Este sistema caracteriza-se pela decomposição em sólidos geométricos da forma interior do recipiente analisado, permitindo também o calculo do volume interno do recipiente1.

Devido ao facto, da maioria dos fragmentos analisados não permitirem a diferenciação através dos índices, com segurança, entre formas abertas e fechadas2, procedemos a esta determinação através de extrapolação, sempre que nos era possível fazê-lo, da orientação do bordo/lábio e da projecção das paredes do recipiente.

1 No presente caso foi utilizado uma aplicação desenvolvida pelo autor e poo João Carlos de Senna-Martinez, de modo a estabelecer, dentro de uma margem de segurança aceitável este valor, mesmo reconhecendo, que nos casos dos recipientes modelados à mão, sem o auxilio da roda de oleiro, exista uma flutuação elevada neste parâmetro (Cf. Anexos III). 2 As formas fechadas correspondem a um Ia1 ≤89 e as abertas a Ia1 ≥90.

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No que se refere à classificação dos Bordos/Lábios, optou-se por utilizar a formulação proposta por Senna-Martinez, que tem por base a proposta de Balfet (SENNA-MARTINEZ, 1989a:226; BALFET, 1968:273-5).

A quase ausência de Meios de Preensão, na amostra analisada, levou-nos a não desenvolver nenhuma em especial, pelo que adoptámos a proposta de SÉRONIE-VIVIEN (1982:13-53)

A identificação de bases, no conjunto recuperado tornou-se extremamente difícil, visto, que a quase totalidade dos recipientes recuperados, teriam bases convexas ou plano/convexas, o que nos impede a sua distinção dos bojos recuperados, por outro lado, só um recipiente, da Orca 2 do Ameal, permitiu a identificação do tipo de base presente através da reconstituíção gráfica, pelo que unicamente foi considerado este tipo na Matriz.

A codificação das Técnicas Decorativas, foi também ela limitada aos elementos presentes na amostra, daí que apenas fossem considerados as técnicas (1. Impressão, 2. Incisão e 3. Plástica) e os motivos decorativos presentes no Quadro III.2 e não a totalidade das hipóteses, daí a sua limitação. Quadro III.2: Matriz de Tipos de Técnicas e Motivos decorativos Impressão Incisão 1.1.

1.2.

1.3.

2.

Tipo 1.1. - Organização de tendência horizontal, através de três bandas paralelas, obtidas por linhas de impressões sucessivamente repetidas. A impressão foi efectuada através de um punção aguçado, utilizado ligeiramente na oblíqua;. Tipo 1.2. - Organização de tendência horizontal, através de uma linha de impressões. Estas foram efectuadas utilizando uma pequena espátula ou os lados de um punção; Tipo 1.3. - Organização de tendência horizontal, onde apenas foi identificada uma impressão arrastada, utilizando uma técnica similar à de boquique, por via da utilização de uma matriz aguçada, colocada na obliqua; Tipo 2. - Organização de tendência horizontal, que tem por motivo três bandas paralelas, compostas por caneluras. A técnica utilizada é a incisão.

Quanto à análise de pastas, devido à a impossibilidade de usar outro tipo de análise, que não a macroscópica, apenas nos foi possível considerar a Consistência, Textura, presença de Elementos não-Plásticos, o seu Calibre e o Tratamento efectuado sobre as superfícies do recipiente. Para tal adaptámos o modelo proposto mais uma vez por Carlos Tavares da SILVA e Joaquina SOARES (1976/77:181-2), também adoptado por outros autores (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a; NAVASCUES, 1990; VALERA, 1997a), na qual introduzimos alterações no que respeita à identificação e categorização dos Elementos não-Plásticos.

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Na identificação dos Elementos não-Plásticos (e.n.p.) tivemos em consideração a sua relativa frequência na pasta e em especial nas zonas de fractura, tentando distinguir entre os elementos predominantes e os residuais. Assim, considerámos três categorias, que se prendem com a identificação da ocorrência dos e.n.p., na pasta. Para uma frequência que se situa entre os 5 a 10% de frequência nas superfícies analisadas foi atribuído uma codificação de 1; para uma frequência entre os 11 a 25% o valor de 2 e o valor 3 corresponde a a frequências superiores a 26%.

A medição do calibre/diâmetro máximo dos e.n.p. efectuou-se sobre o elemento de maiores dimensões detectado, sempre que este correspondesse à realidade da pasta analisada.

Por fim no referente ao tratamento das superfícies foram consideradas as condições de cozedura (Cf. SILVA & SOARES, 1976/77:181-2) e o tratamento das mesmas, tendo sido analisadas separadamente as superfícies interiores e exteriores, tendo sido identificadas na amostra, os seguintes tipos:

0.

As superfícies, que foram regularizadas ou alisadas, quando a pasta se encontrava ainda húmida, quer este processo se tenha efectuado com os dedos ou utilizando um instrumento (Normais na Matriz);

1.

Superfícies, que após a modelação do recipiente e após a secagem, mas antes da cozedura, teriam sido cobertas por um engobe;

2.

Por fim, alguns dos elementos analisados, apresentam as superfícies brilhantes, devido a uma acção mecânica, efectuada durante a fase de secagem, mas antes da cozedura, com um objecto duro (em madeira, pedra etc:) cuja finalidade pode estar associada a uma impermeabilização do recipiente (Polida na Matriz);

No capítulo da conservação das superfícies, procurou-se estabelecer o estado de conservação do objecto, em especial através da análise das fracturas, de maneira a determinar as condições de jazida dos mesmos. Assim considerámos quatro níveis, o primeiro correspondendo a peças onde as fracturas se encontram bem conservadas, com as arestas extremamente vivas, denotando fracturas recentes e/ou deposição prolongada sem movimentos assinaláveis posteriores; o nível seguinte corresponde a uma situação similar, ainda que as fracturas e respectivas arestas apresentem já um certo desgaste, demonstrando algum movimento do fragmento após a sua deposição. As duas últimas categorias referem-se a peças que apresentam um desgaste assinalável em termos das superfícies interiores e exteriores como ainda das fracturas, correspondendo o último nível às peças extremamente roladas, onde já não se distinguem as arestas de fractura, devido a movimentações do artefacto por períodos longos e intensos.

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3.0.4. Os Artefactos Líticos Os artefactos líticos constituem, o outro conjunto de artefactos analisados, tendo sido a amostra dividida nos seguintes grupos para análise, seguindo-se-lhe a codificação dos atributos presentes na matrizes respectivas: 1. Pedra Lascada a. Material de preparação/reavivamento Núcleos Flancos de Núcleos Tablettes de Núcleos b. Produtos de Debitagem não modificados por retoque Lascas Lamelas Lâminas restos de debitagem diversos c. Utensílios (produção lítica modificada por retoque) 2. Pedra Polida 3. Elementos de Adorno

A selecção dos atributos visou quer a descrição morfológica do artefacto e a sua caracterização conforme a tecnologia utilizada e a funcionalidade do mesmo. As propostas de análise aqui efectuadas foram, baseadas em diversos investigadores, já que se procura estabelecer um termo de comparação com outras áreas de análise. Como ocorreu com a matriz de cerâmica, apresentamos nos Quadros III.3 a III.7, os atributos seleccionados, e caso seja necessário explicaremos em cada ponto os aspectos mais relevantes.

3.0.5. Lâminas e Lamelas Consideram-se lâminas e lamelas, os produtos de debitagem, cujo comprimento é maior ou igual ao valor da largura multiplicado por dois, sendo denominados no geral por produtos alongados, distinguindo-se os primeiros dos segundos por possuírem uma largura igual ou superior a 12 mm (CARVALHO, 1996:31). No referente aos atributos considerados significativos, utilizámos as propostas avançadas por LEROI-GOURHAN (1968), TIXIER, INIZAN & ROCHE (1980), ZILHÃO (1994), CARVALHO (1996)3, ao mesmo tempo que tentámos manter uma certa paridade com as propostas avançadas por SENNA-MARTINEZ (1989a) de forma a permitir a comparação entre resultados (Cf. Quadro III.3).

3 Agradecemos as orientações de trabalho avançadas por Thierry AUBRY no âmbito de uma sessão de trabalho, realizado no decurso do Mestrado em PréHistória e Arqueologia da F.L.U.L..

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Quadro III.3: Matriz de Lâminas e Lamelas 1 - Tipo 0 - Lâmina 1 - Lamela de crista 2 - Lamela 3 - Lamela ultrapassada 2 - Estado (Est) 0 - Inteiro 1 - Distal 2 - Proximal 3 - Mesial 3 - Fractura (Fra) 0 - Micro-buril 1 - Flexão 2 - Percussão 4 - Córtex 0 - Sem Córtex 1 - Parcialmente cortical 2 - Cortical 5 - Matéria-Prima (Matéria) 0 - Sílex 1 - Calcário silicificado 2 - Quartzo hialino 3 - Quartzo leitoso 6 - Cor Munsell Soil Colours Charts 7 - Medidas C - Comprimento máximo L - Largura máxima E - Espessura máxima H - Altura do arco

8 - Índices Ia1 (L/C x100) - Alongamento Ie (E/C x100) - Espessura Iar (H/C x100) - Arqueamento 9 - Lados (La) 0 - Paralelos 1 - Convergentes na ext. distal 2 - Convergentes na ext. proximal 3 - Biconvexos 4 - Bicôncavos 5 - Plano-convexos 6 - Plano-côncavos 7 - Convexo-côncavos 8 - Sinuosos 10 - Retoque 10.a - Posição (R.P.) 0 - Directo 1 - Inverso 2 - Alterno 3 - Alternante 4 - Cruzado 5 - Bifacial 10.b - Repartição (R.R.) 0 - Parcial 1 - Descontínuo 2 - Total 10.c - Extensão (R.E.) 0 - Marginal curto 1 - Marginal longo 2 - Invasor 3 - Cobridor 10.d - Inclinação (R.I.) 0 - Abrupto 1 - Semi-abrupto 2 - Rasante

10.e - Morfologia (R.M.) 0 - Escamoso 1 - Escalariforme 2 - Sub-paralelo 3 - Paralelo 11 - Secção 11.a - Longitudinal (SL) 0 - Recta 1 - Arqueada 2 - Sinuosa 11.b - Transversal (ST) 0 - Triângulo isósceles 1 - Triângulo rectângulo 2 - Triângulo assimétrico 3 - Trapézio isósceles 4 - Trapézio rectângulo 5 - Trapézio assimétrico 6 - Pentagonal 7 - Irregular 12 - Talão (Ta) 0 - Cortical 1 - Liso 2 - Punctiforme 3 - Facetado 4 - linear 5 - Asa de pássaro 6 - Irregular 7 - Esmagado 12.b - Labiado (T.l) 0 - Sim 1 - Não 13 - Pré-Aquecimento (Aq) 0- Sim 1 - Não

3.0.6. Os Geométricos No respeitante ao caso particular dos geométricos4, para além das propostas de LEROI-GOURHAN (1968) e TIXIER, INIZAN & ROCHE (1980), utilizámos também as avançadas pelo Groupe D'Étude de L'Épipaléolithique-Mésolithique (1969), conforme se encontra patente no Quadro III.4.

4 Preferimos a designação de Geométricos à de Micrólitos geométricos, visto que as dimensões dos materiais recuperados não permitem de forma alguma a sua inserção na mesma "família" de artefactos definida para os ambientes Mesolíticos e Epipaleolíticos.

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Quadro III.4: Matriz de Geométricos 1 - Tipo 0 - Triângulo Escaleno 1 - Triângulo Isósceles 2 - Triângulo Rectângulo 3 - Trapézio Escaleno 4 - Trapézio Isósceles 5 - Trapézio Rectângulo 6 - Crescente ou Seg. de Círculo

6 - Matéria-Prima (Matéria) 0 - Sílex 1 - Calcário silicificado 2 - Quartzo hialino 3 - Quartzo leitoso

2 - Estado (Est) 0 - Inteiro 1 - Fragmentado

8 - Secção 8.a - Longitudinal (S.L.) 0 - Recta 1 - Arqueada 2 - Sinuosa

3 - Orientação (Or) 0 - Direita 1 - Esquerda 4 - Medidas C - Comprimento máximo L - Largura máxima E - Espessura máxima T - Comprimento da G. Truncatura p.t. - Comprimento da peq. Truncatura B - Comprimento da Grande Base p.b - Comprimento da pequena Base h - Altura do Arco longitudinal 5 - Índices Ia1 (L/C x100) = Alongamento Ie (E/C x100) = Espessura Iar (H/C x100) = Arqueamento Ias (t/T x100) = Assimetria

7 - Cor Munsell Soil Colours Charts

8.b - Transversal (S.T.) 0 - Triângulo isósceles 1 - Triângulo rectângulo 2 - Triângulo assimétrico 3 - Trapézio isósceles 4 - Trapézio rectângulo 5 - Trapézio assimétrico 6 - Pentagonal 7 - Irregular 9 - Truncaturas 9.a - Delimitação (GT.d e pt.d) 0 - Recta 1 - Côncava 2 - Convexa 3 - Sinuosa 4 - Denticulada

10 - Bases 10.a - Delimitação (GB.d e pb.d) 0 - Recta 1 - Côncava 2 - Convexa 3 - Sinuosa 4 - Denticulada 11 - Retoque 11.a - Posição (R.p) 0 - Directo 1 - Inverso 2 - Alterno 3 - Alternante 4 - Cruzado 5 - Bifacial 11.b - Inclinação (R.i) 0 - Abrupto 1 - Semi-abrupto 2 - Rasante 11.c - Morfologia (R.m) 0 - Escamoso 1 - Escalariforme 2 - Sub-paralelo 3 - Paralelo

3.0.7. Raspadores e Lascas Retocadas Estes conjuntos de materiais, de filiação paleolítica, tendem a manter a sua representatividade, apesar de residual, nos conjuntos presentes na Plataforma do Mondego (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a; VALERA, 1997a). A base destes utensílios, na totalidade dos casos aqui analisados, é a lasca, que poderá ser definida como um produto de debitagem, cujo comprimento é inferior à sua largura. mais uma vez, usámos as propostas avançadas por LEROI-GOURHAN (1968), TIXIER, INIZAN & ROCHE (1980), SENNA-MARTINEZ (1989a) e CARVALHO (1996) (Cf. Quadro III.5).

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Quadro III.5: Matriz de Raspadores e Lascas retocadas 1 - Suporte (Sup) 0 - Lasca 1 - Lasca cortical 2 - Lâmina 3 - Indeterminado

7 - Retoque 7.a - Posição (R.P.) 0 - Directo 1 - Inverso 2 - Alterno 3 - Alternante 4 - Cruzado 5 - Bifacial

2 - Estado (Est) 0 - Inteiro 1 - Fragmentado 3 - Matéria-Prima (Matéria) 0 - Sílex 1 - Calcário silicificado 2 - Quartzo hialino 3 - Quartzo leitoso 4 - Quartzito

8.b - Transversal (ST) 0 - Triângulo isósceles 1 - Triângulo rectângulo 2 - Triângulo assimétrico 3 - Trapézio isósceles 4 - Trapézio rectângulo 5 - Trapézio assimétrico 6 - Pentagonal 7 - Irregular

7.b - Inclinação (R.I.) 0 - Abrupto 1 - Semi-abrupto 2 - Rasante

4 - Cor Munsell Soil Colours Charts

7.c - Morfologia (R.M.) 0 - Escamoso 1 - Escalariforme 2 - Sub-paralelo 3 - Paralelo

5 - Medidas C - Comprimento máximo L - Largura máxima E - Espessura máxima H- Altura

8 - Secção 8.a - Longitudinal (SL) 0 - Recta 1 - Arqueada 2 - Sinuosa

9 - Talão (Ta) 0 - Cortical 1 - Liso 2 - Diedro 3 - Facetado 4 - linear 5 - Asa de pássaro 6 - Irregular 7 - Eliminado 9.b - Labiado (T.l) 0 - Sim 1 - Não 10 - Pré-Aquecimento (Aq) 0- Sim 1 - Não

6 - Índices Ia1 (L/C x100) = Alongamento Ie (E/C x100) = Espessura Iar (H/C x100) = Arqueamento

3.0.8. Núcleos e materiais de reavivamento Tendo em conta a definição avançada por TIXIER, INIZAN & ROCHE (1980:93) e tendo presente a presença exclusiva, nos nossos conjuntos, de materiais de reavivamento de núcleos, elaborou-se a presente matriz tendo em conta as formulações de LEROI-GOURHAN (1968), TIXIER, INIZAN & ROCHE (1980) e SENNAMARTINEZ (1989a): Quadro III.6: Matriz de Materiais de Preparação/Reavivamento 1 - Tipo 0 - Prismático com 1 plano de percussão 1 - Prismático com 2 plano de percussão opostos 2 - Prismático com planos de percussão múltiplos 3 - Bipolar 4 - Sobre lasca 5 - Paralelepipédico 6 - Paralelepipédico com planos de percussão opostos 7 - Tablette de rejuvenescimento do Núcleo 8 - Flanco

4 - Produto 0 - Lâmina 1 - Lamela 2 - Lasca 5 - Plano de Percussão (Pla) 0 - Cortical 1 - Liso 2 - Preparado 6 - Número de Negativos (Neg)

2 - Matéria-Prima (Matéria) 0 - Sílex 1 - Calcário silicificado 2 - Quartzo hialino 3 - Quartzo leitoso

7 - Medidas C - Comprimento máximo Cd - Comprimento do plano de debitagem L - Largura máxima

3 - Cor Munsell Soil Colours Charts

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3.0.9. A Pedra Polida No referente à macro-utensilagem polida tivemos em consideração as propostas de LEROI-GOURHAN (1968) e SENNA-MARTINEZ (1989a): Quadro III.7: Matriz de Artefactos de Pedra Polida 1 - Tipo 0 - Enxó 1 - Machado 2 - Goiva 3 - Cunha 2 - Medidas C - Comprimento máx. c - Comprimento do gume L - Largura máx. Lg - Largura do Gume Lt - Largura do Talão E - Espessura máx. Eg - Espessura máx. do Gume Et - Espessura do Talão g - Peso em gramas 3 - Índices Ia (L/C x100) = Alongamento Ir1 (E/C x100) = Robustez/Espessura Ir2 (Eg/c x100) = Robustez do Gume Ir3 (Et/Lt x100) = Robustez do Talão Ic (Lt / Lg x100) = Simetria transversal 4 - Sistema para Fixação (Fix) 0 - Presente 1 - Ausente 5 - Bordos (Bor) 0 - Paralelos 1 - Convergentes no gume 2 - Convergentes no talão 3 - Sinuosos

6 - Gume 6.a - Perfil Bisel (G.p) 0 - Simples convexo 1 - Simples plano 2 - Simples Côncavo 3 - Duplo simétrico plano 4 - idem convexo 5 - Duplo assimétrico plano 6 - idem convexo 7 - idem plano-convexo 6.b - Linha (G.l) 0 - Rectilínea 1 - Convexa simétrica 2 - Convexa assimétrica 3 - Sinuosa 6.c - Plano (G.pl) 0 - Rectilíneo 1 - Convexo 2 - Côncavo 3 - Sinuoso 6.d - Estado (G.e) 0 - Intacto 1 - Ligeiros sinais de uso 2 - Desgastado/Boleado 3 - Partido/Danificado 7 - Secção 7.a - Longitudinal (Long) 0 - Flancos paralelos 1 - Convergentes no gume 2 - Convergentes no talão 3 - Biconvexos 4 - Sinuosos

7.b - Transversal (Trans) 0 - Circular 1 - Elíptica 2 - Biconvexa 3 - Plano-convexa 4 - Rectangular/sub-rectang. 5 - Quadrangular/sub-quad. 8 - Polimento (Pol) 0 - Integral 1 - Parcial + 1/2 2 - Parcial - 1/2 3 - Só gume 9 - Flancos (Fl) 0 - Rectangular 1 - Trapezoidal 2 - Triangular 10 - Talão (Tal) 0 - Truncado 1 - Redondo 2 - Pontiagudo 3 - Rectilíneo 11 - Cor Munsell Soil Colours Charts 12 - Matéria-Prima (Matéria) 0 - Anfibolite 1 - Fibrolite

3.0.10. Os Conjuntos Artefactuais A análise artefactual foi organizada tendo em conta as seguintes realidades:

1.

O conjuntos dos materiais recuperados da Orca 1 do Ameal, devido à impossibilidade de se poder estabelecer com certeza, a real origem da maioria dos materiais líticos recuperados neste monumento, devido aos profundos remeximentos que ele terá sofrido5;

2.

Os materiais atribuíveis às deposições funerárias da Câmara da Orca 2 do Ameal, que nalguns casos, como já foi referido, incluem materiais provenientes das Unidades Estratigráficas superiores;

5 Consultar Ponto 2.4. da presente Dissertação.

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3.

O conjunto de artefactos provenientes da UE.7 da Orca 2 do Ameal. Este conjunto, pela sua situação no tumulus do monumento, pode ser considerado como fechado, correspondendo a uma realidade diferenciada, pelo menos em termos de análise, do conjunto funerário.

A única excepção a este sistema, consiste na análise do grupo de cerâmica, tendo em conta a necessidade de uma aproximação global a este grupo, de forma a poder-se estabelecer ligações entre os fragmentos provenientes de níveis de remeximento, com outros de UE. cuja integração não levanta questões. Assim o conjunto da cerâmica recuperada na Orca 2 do Ameal, foi analisada no subponto referente à UE.7, visto ser essa Unidade Estratigráfica, que maior número de fragmentos de cerâmica forneceu.

Por outro lado, a abordagem foi organizada conforme o tipo de conjuntos artefactuais. No final, tentarse-á estabelecer uma leitura global, indicando as principais linhas de força presentes.

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3.1. A ANÁLISE ARTEFACTUAL: A ORCA 1 DO AMEAL 3.1.1. A Cerâmica Quanto à análise dos recipientes cerâmicos, procedemos, em primeiro lugar, a uma contabilização prévia, por Unidade Estratigráfica (UE) do número e peso dos fragmentos recolhidos, segundo as categorias detectadas, a saber, Bordos, Bojos e Asas.

Sempre que era possível a determinação de formas, recorremos às tipologias de formas, existentes para a região (SENNA-MARTINEZ, 1989a e 1995a; VALERA, 1997a) de forma a possibilitar a comparação com os elementos estudados por estes investigadores.

Para o caso da cerâmica recolhida na Orca 1 do Ameal (ORAM 1), os resultados são os patentes no Quadro III.8, o que em termos de número mínimo de recipientes, estes se reduzem a um, correspondendo a 3,33% da amostra. Deva-se destacar também o reduzido número de fragmentos recolhidos, a maioria dos quais nos limites exteriores das Sanjas escavadas, o que permite inferir, que a maioria, senão a totalidade, destes recipientes se encontravam originalmente em terras fora dos limites da mamoa, tendo sido arrastados para a superfície desta por via das movimentações de terras, que afectaram a superfície do tumulus, afectando a carapaça lítica do mesmo. Quadro III.8 Orca 1 do Ameal: Inventário dos fragmentos de cerâmica manual UE Bordos Bojos 0 *** 18 1 *** 8 3 *** 1 4 1 1 9 *** 1 24 *** 1 Total (peso) 1 30 (140g)

A reconstituíção gráfica do recipiente, através do bordo recuperado (Cf. Estampa II.23/89) não permitiu a apreensão da totalidade da forma deste, senão que corresponde a uma forma eventualmente globular fechada, com um pequeno colo ou estrangulamento no bordo, enquadrável no Tipo 6 de SENNA-MARTINEZ (1989a e 1995a:73, Cf. Figura III.1)6.

Deve-se relembrar que este fragmento de bordo, bem como os fragmentos de bojos das Unidade Estratigráficas U.0 a 8, correspondem aos níveis superficiais da mamoa, na maioria resultantes das movimentações de terras que ocorreram na área do monumento, principalmente para o plantio dos diversos pinhais, que constituem,

6 Quanto à tipologia cerâmica de António VALERA (1997a:67-70) este tipo de forma também se encontra presente, correspondendo também ao Tipo 6., já que este autor manteve a mesma nomenclatura de SENNA-MARTINEZ (1989a).

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actualmente, a cobertura vegetal do sítio. Tendo em conta esta realidade, é bem possível, que os fragmentos recuperados sob a mamoa, correspondam a restos de ocupações, posteriores à construção e utilização do monumento, das quais já foram detectados alguns núcleos bem perto deste monumento7.

3.1.2. Os elementos líticos Os materiais líticos recuperados na ORAM 1, são os que se encontram patentes no Quadro III.9, descriminados por matérias-primas e Unidades Estratigráficas (UE.). De notar, a elevada presença de percutores em quartzo, todos eles com marcas de terem sido utilizados como martelos, para a conformação dos vários blocos de granito que compõem a estrutura lítica do tumulus. A presença de seixos rolados, em especial devido à ausência de contextos seguros, não pode ser abalizada em termos de significado simbólico, para o qual contribui o facto de 50% deles, apresentarem também indícios de terem sido usados como martelos, numa funcionalidade similar aos dos simples blocos de quartzo. Quadro III.9 Orca 1 do Ameal: Inventário dos elementos líticos Unidade Estratigráfica 0 1 3 4 5 9 11 12 13 14 Percutores em quartzo 1 2 1 1 1 ** ** ** 1 ** Seixo Rolado em quartzo 1 ** ** ** ** ** 1 ** ** 1 Seixo rolado em granito ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** Dormente de Mó em granito ** ** ** ** ** ** ** 1 ** ** Lascas de anfibolite 2 ** ** ** 1 ** ** ** ** 1 Fragmentos de ocre 1 ** ** ** ** ** ** ** ** 1 Restos de debitagem em quartzo ** ** ** ** ** ** 1 ** ** ** Restos de debitagem em sílex 2 ** ** ** ** ** ** ** ** ** Utensílios em sílex 6 3 ** ** 1 1 ** ** 1 3

15 1 ** ** ** ** ** 1 1 **

16 3 1 ** ** 1 ** ** ** 1

20 2 ** ** ** ** ** 1 ** **

21 ** ** ** ** ** ** ** ** 1

23 ** ** 1 ** ** ** ** ** **

Total 13 4 1 1 5 2 3 3 17

De realçar, no entanto três elementos que consideramos importantes: os elementos de moagem manual; as lascas de anfibolite e os fragmentos de ocre.

A contínua presença de elementos de moagem manual, nas estruturas pétreas deste monumentos, parece tornar-se uma realidade, a partir do momento em que as mesmas passaram a ser escavadas e registadas, tal como ocorre nas mamoas da Orca de Pramelas, Nelas (SENNA-MARTINEZ, 1994a:18); Dólmens 1 e 2 da Lameira de Cima, Penedono (GOMES L., 1996:86 e 141), Orca do Valongo, Carregal do Sal (HENRIQUES & BARROSO, inf. pessoal); Orcas dos Fiais da Telha e Outeiro do Rato8, Carregal do Sal, só para referir monumentos localizados na Plataforma do Mondego, ou em bacias hidrográficas a ela associadas. 7 Relembre-se o caso do Habitat do Ameal VI (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1989b e 1995b) e o da Orca 2 do Ameal. Ao longo dos últimos 7 anos têm vindo a ser prospectado a totalidade do planalto onde se insere a necrópole em estudo, tendo sido possível, até ao momento, detectar diversas zonas onde os artefactos cerâmicos ocorrem com uma certa frequência: na vertente da Víbora, uma pequena elevação a SO das presentes Orcas e ao longo do estradão florestal, que passa a norte dos referidos monumentos. 8 Dados ainda inéditos e SENNA-MARTINEZ, 1995/96b.

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No entanto o reconhecimento do seu significado/funcionalidade continua em aberto, levantando-se, actualmente, duas hipóteses de interpretação deste acto:

1.

Carácter utilitário, sendo os restos destes elementos utilizados nas construções, após a sua "vida útil", implicando a presença de habitats perto da zona de construção (Cf. JORGE & VILAÇA, 1985:59; SENNA-MARTINEZ, 1994a)

2.

Acção simbólica, através de um acto intencional de fragmentação da peça e a sua incorporação na estrutura de um monumento claramente funerário (Cf. OLIVEIRA, 1993:133-4; CARDOSO, GOMES, CANINAS & HENRIQUES, 1995:11).

Apesar de as duas interpretações longe de se excluírem poderem funcionar em conjunto, para os casos conhecidos na Plataforma do Mondego, a questão aponta mais para uma situação afim da primeira hipótese, ainda que não excluamos desde já a segunda, visto que até ao momento, não se detectaram situações de fractura e deposição intencional em situações que podem ser considerados como simbólicas.

A presença de lascas de anfibolite, algumas delas com traços de terem sofrido polimento ou pertencerem a artefactos de pedra polida, levantam outra questão. Se no conjunto do espólio recuperado, não se encontra nenhum objecto em pedra polida, parece-nos que tal poderá não corresponderá à realidade original deste monumento, podendo incluir alguns, ainda quer poucos elementos de anfibolite polido. Eventualmente, os escassos elementos de anfibolite polido recolhidos, poderão corresponder aos elementos em falta, removidos aquando dos diversos remeximentos que o monumento sofreu9.

Por outro lado, os fragmentos de ocre recuperados neste monumento, não apresentam qualquer contexto fiável, que possa determinar o seu eventual significado. Podemos assim limitar-nos a colocar hipóteses acerca da sua finalidade: •

Corresponderem a deposições associadas a rituais funerários, ainda que a quantidade detectada possa ser considerada insuficiente10;

9 Refira-se mais uma vez, que em recentes trabalhos num monumento localizado junto à aldeia do Folhadal, Nelas, tivemos conhecimento de há 40-30 anos atrás, o então vigário da paróquia de Nelas, ajudado por trabalhadores agrícolas, terá visitado e explorado o Monumento do Folhadal e outros três na zona dos Fiais. Pelos testemunhos entretanto recolhidos, os monumentos dos Fiais, poderão corresponder à Orca dos Fiais da Telha, a Orca 1 do Ameal e a Orca 1 de Oliveira do Conde. Os resultados destas "visitas" terão sido enviadas para o Prof. Dr. Amorim Girão da Faculdade de Coimbra, entretanto falecido, tendo-se, eventualmente, perdido os elementos resultantes das "pesquisas". 10 O melhor paralelo, ainda que o não seja em termos de quantidade poderá ser encontrado na "Camada Vermelha" da Lapa do Fumo, Sesimbra(Cf. SERRÃO & MARQUES, 1971) e recentemente no caso do Monumento de Areita, S. João da Pesqueira (GOMES et al., 1997b), onde na câmara, associada a deposições de materiais em tudo similares às da presente orca, foi detectada uma camada de cerca de 10 cm de saibro com ocre, conservado em virtude do desmoronamento da estrutura ortostática, que selou este nível, permitindo mesmo a conservação de vestígios osteológicos.

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Constituírem matéria-prima de corantes, utilizados para elaborar nos ortóstatos desta Orca, motivos a vermelho actualmente desaparecidos?11;

Ou então, enquadrarem uma situação semelhante à detectada na Orca de S. Tisco, Travanca de S. Tomé, Carregal do Sal, onde sob a base conservada do contraforte exterior da câmara e do corredor megalítico, na sua zona frontal12, foram detectados vários fragmentos de ocre13, interpretados como restos de uma marcação da zona de assentamento do anel pétreo referido, com um eventual significado simbólico de demarcação de um espaço sagrado e restrito.

3.1.3. Os Artefactos Líticos de Pedra Lascada A análise da indústria de pedra talhada foi efectuado conforme o modelo proposto por ZILHÃO (1994:36-7) e CARVALHO (1996:25-37), sendo estes classificados em três categorias: materiais de preparação/reavivamento; produtos de debitagem não modificados por retoque, constituindo potenciais suporte, componentes de utensílios ou utensílios em bruto (TIXIER, INIZAN & ROCHE, 1980:101; CARVALHO, 1996:29-30) e utensílios, ou seja, produção lítica modificada por retoque. Na primeira fase desta análise14, foi possível determinar os artefactos patentes no Quadro III.10. Quadro III.10 Orca 1 do Ameal: Inventário da Indústria Lítica de Pedra Lascada (N=26) Sílex Quartzo Total % b) Tablette de rejuvenescimento do Núcleo 1 *** 1 3,8 Lascas corticais 1 2 3 11,6 Lascas parcialmente corticais 2 1 3 11,6 Lamelas 2 *** 2 7,7 Lamelas parcialmente corticais 2 *** 2 7,7 Lamelas de crista 1 *** 1 3,8 Lamelas de crista parcialmente corticais 1 *** 1 3,8 Lâminas 2 *** 2 7,7 Geométricos 8 *** 8 30,8 Pontas de seta 1 *** 1 3,8 Raspadores e Lascas retocadas 1/1a) *** 2 7,7 Total 23 3 26 100% a) peça que apresenta indícios de pré-aquecimento e/ou calcificação b) Percentagens em relação ao total da indústria lítica de pedra lascada

11 Veja-se o caso da Orca de S. Tisco, Carregal do Sal (SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994). 12 Trata-se claramente do contraforte original e não de uma eventual "estrutura de condenação", posterior à construção do monumento, que teria truncado o corredor, reduzindo-o à sua dimensão actual (Cf. GOMES L., 1996:172). 13 Dados inéditos, provenientes da Campanha 2(993). 14 Tal como foi referido no Ponto 2.3., na impossibilidade de distinguir entre os materiais líticos provenientes do interior da Câmara megalítica e os provenientes da superfície da mamoa e/ou terras circundantes, devido aos profundos remeximentos que o monumento terá sofrido, preferimos efectuara a análise da indústria lítica no seu conjunto.

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Uma rápida consulta deste quadro, basta para reconhecer a grande importância relativa do sílex na indústria da Orca 1 do Ameal, onde atinge os 88,5%. De destacar que tal como acontece na maioria dos monumentos megalíticos, onde foram identificadas deposições funerárias atribuíveis aos primeiros momentos dos respectivos megalitismos regionais, como sejam o caso da Orca de Pramelas, Nelas (SENNA-MARTINEZ & VALERA, 1989, SENNA-MARTINEZ, 1989a e 1989b), nível de base da Orca 1 e 3 do Carapito, Aguiar da Beira (LEISNER & RIBEIRO, 1968; SENNA-MARTINEZ, 1989a) e Pena Mosqueira 3, Mogadouro (SANCHES, 1987).

As deposições no presente arqueosítio, excluindo os elementos de adorno, são constituídas quase exclusivamente por geométricos, que no presente caso apresentam dentro do conjunto uma percentagem de 30,8%. Este valor pode ser mais elevado, se retirarmos todos os elementos líticos cuja atribuição possa ser considerada suspeita15, como sejam a totalidade das lascas e raspadores, a tablette de núcleo e o fragmento de ponta de seta, que foram encontrados nos limites exteriores das Sanjas escavadas e cuja origem deve ser similar aos fragmentos de cerâmica manual, recuperados neste monumento.

Por outro lado, apesar do facto do sílex ser relativamente raro na região16, achamos sintomático que tenha sido exactamente este tipo de matéria-prima a escolhida para as eventuais deposições na câmara funerária do monumento, o que nos poderá dar pistas acerca de dois aspectos: as prescrições rituais associadas a este monumento e as eventuais vias de comunicação utilizados apara o abastecimento desta matéria-prima.

No que diz respeito ao material de reavivamento deste arqueosítio, foi possível recuperar uma tablette de reavivamento de um núcleo, possivelmente de tipo prismático. Os negativos de levantamentos observáveis, permitiram-nos estabelecer que destinar-se para extracções lamelares, tendo sido detectados cinco negativos. O facto de apenas subsistir um elemento de preparação/reavivamento não nos permite outras deduções17

O grosso da debitagem detectada na Orca 1 do Ameal é composta por produtos alongados, ou seja Lâminas e Lamelas e utensílios sobre estes produtos (Cf. Quadro III.10), que representam 61,5% do total do material de debitagem (material retocado inclusive). A extrema fragmentação destas peças não nos permite o estabelecimento de valores médios para o comprimento e a largura podendo só ser estabelecido a média para a espessura, que se situa nos 3,02–0,4 mm, o que parece aproximar este conjunto dos recuperados em contextos do Neolítico final regional, nomeadamente do Ameal-VI18.

15 Passando o valor para 50%. 16 Para uma abordagem da eventual existência de nódulos de sílex, na zona de Nelas Cf. VALERA, 1997a:190 e LEAL, 1997:190. 17 Para além do facto de a sua atribuição estratigráfica, não nos permitir a inclusão desta peça, no conjunto proveniente da câmara megalítica. 18 De notar que apesar de uma análise deste tipo não ter sido efectuada sobre a totalidade dos elementos recolhidos nas cabanas 1 a 3 do Ameal-VI, os valores aproximam-se bastante dos apresentados para o Neolítico final do Maciço Calcário Estremenho (VALERA, 1997a:114; CARVALHO, 1995/96; SENNA-MARTINEZ, inf pessoal) onde os valores apresentados parecem indicar um robustecimento generalizado das lâminas, em relação ao que ocorria no Neolítico antigo e médio.

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Os talões das lascas e dos produtos alongados da Orca 1 do Ameal apresentam algumas diferenças entre si, tendo em conta a técnica de debitagem utilizada, conforme é possível verificar no Quadro III.1119. Apesar do reduzido número de peças que possibilitaram esta análise (20% da amostra) é possível verificar, que a maioria das peças foi debitada utilizando a percussão directa, apresentando somente uma lamela de crista, através de um talão punctiforme (Cf. Anexo III) os eventuais indícios de ter sido extraída por percussão indirecta20. Quadro III.11 Orca 1 do Ameal: Técnicas de debitagem conforme os dados dos talões (N=5) Pressão e/ou Percussão Tipo Percussão indirecta directa Lamela de crista em sílex 1 *** Lamela em sílex *** 1 Raspador em sílex *** 2 Lascas em quartzo *** 1 Total 1 4

Associado a esta análise foi identificada uma peça com indícios de pré-aquecimento antes da debitagem, visíveis pela descoloração do sílex, conforme se apresenta no Quadro III.10, correspondendo a um raspador em sílex, recuperado à superfície do estradão que lhe passa a norte21.

Por outro lado as técnicas de fracturação, nas peças onde tal foi possível determinar, domina a fractura por flexão, com 4 ocorrências (80%) seguida da percusão com 1 caso (20%), encontrando-se a técnica do microburil desconhecida.

3.1.4. Os Geométricos Como já foi constatado os geométricos são os utensílios dominantes (Cf. Estampa I e II). Estes distribuem-se desigualmente, conforme se pode verificar pelo Quadro III.12 Quadro III.12 Orca 1 do Ameal: Inventário de geométricos Tipo Nº % Triângulo escaleno 1 12,5 Triângulo ísosceles *** *** Triângulo rectângulo *** *** Trapézio escaleno 2 25 Trapézio isósceles *** *** Trapézio rectângulo *** *** Crescente/Segmento 5 62,5 Total 8 100% 19 Para a determinação da técnica de debitagem utilizada, utilizou-se a proposta de António CARVALHO (1996:106-7) 20 No actual estado da investigação das técnicas de debitagem, para a região em apreço, este tipo de análise ainda não foi prosseguida com afinco, pelo que desconhecemos qual a situação presente na maioria das estações atribuíveis ao Neolítico e Calcolítico. Só muito recentemente este tipo de abordagem foi iniciado (Cf. VALERA, 1997a:92-104) 21 Tendo em conta o já apresentado no Ponto 2.3., a origem desta peça pode ser problemática, daí que tenhamos preferido a sua não inclusão no conjunto dos materiais do monumento.

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Tal como já tinha sido verificado pelo estudo dos materiais líticos de pedra lascada (Cf. Quadro III.10) não surpreende que a totalidade deste utensílios tenham sido realizados em sílex e sobre produtos alongados. O conjunto da Orca 1 do Ameal é claramente dominado pelos crescentes com 62,5% das ocorrências, que atinge os 75% se considerarmos que a diferença de concepção funcional entre os triângulos e os crescentes é nula22, contra os 25% do grupo dos trapézios.

A determinação das dimensões dos geométricos crescentes (Cf. Anexo III) permitiu estabelecer as médias que seguidamente se apresentam, visto ser o único grupo verdadeiramente representativo: Comprimento médio: 25,9±4,5 mm Largura média: 9,5±0,9 mm Espessura média: 3,2±0,5 mm

A média das larguras dos geométricos crescentes é inferior ao limite convencional da largura mínima de peças laminares, que é situado nos 12 mm (TIXIER, INIZAN & ROCHE, 1980; CARVALHO, 1996)23, mesmo considerando o desvio-padrão, podendo-se assim concluir-se que se está perante uma indústria sobre suporte lamelar24. se considerarmos a totalidade da amostra (os oito geométricos) veremos que os resultados são os seguintes: Comprimento médio: 26,1±3,9 mm Largura média: 10±1,2 mm Espessura média: 3,2±0,4 mm

Por estes dados vemos que a anterior inferência se mantêm, consubstanciada pelo Quadro III.13, onde se apresentamos valores absolutos e percentuais das frequências das larguras dos geométricos. Perante isto, podemos categoricamente afirmar que a indústria de geométricos recolhida na Orca 1 do Ameal25 é essencialmente sobre suporte lamelar, sendo também possível inferir, que no que diz respeito à produção dos elementos presentes nas deposições, que estas se efectuam sobre debitagem de produtos alongados. Quadro III.13 Orca 1 do Ameal: Frequências das larguras dos geométricos (N=8) Largura total % < 6 mm *** *** 6-7,9 mm *** *** 8-9,9 mm 4 50 10-11,9 mm 4 50 12-13,9 mm *** ***

22 Conforme informação divulgada por Thierry AUBRY, relativamente aos geométricos neolíticos, em sessão de trabalho, sobre técnicas e métodos de análise da pedra lascada, realizada no âmbito do Mestrado em Pré-História e Arqueologia da F.L.U.L.. 23 Algumas questões se levantam quanto ao valor fronteira entre as lamelas e as lâminas, particularmente quando nos encontramos perante peças fragmentadas. Assim António VALERA (1997a:94) considera o valor de 14 mm como a fronteira, enquanto que António CARVALHO (1996), coloca este valor nos 12 mm. Devido à necessidade de restringir a amostra optámos por este último valor (Cf. TIXIER, INIZAN & ROCHE, 1980; SENNA-MARTINEZ, 1989a:515). 24 Tal como António CARVALHO (1996:99) consideramos que deverão existir poucas distorções no que se refere aos resultados da largura dos crescentes, por via do retoque abrupto utilizado na redução da largura original do suporte, como é possível constatar no Quadro III.13. 25 O único conjunto que, com pendeloque em pedra verde, podemos afirmar com certeza ser proveniente da câmara megalítica deste monumento por isso ter integrado as deposições funerárias.

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3.1.5. Ponta de Seta e Elemento de Adorno O fragmento de base de ponta de seta recuperado da UE.5, correspondente a remeximentos na periferia da mamoa, por isso com uma inserção estratigráfica idêntica às cerâmicas recuperadas neste monumento. Corresponde a peça de base possivelmente recta de talhe bifacial, sobre lasca, com retoque cobridor nas duas faces. O seu elevado estado de fragmentação não permite estabelecer muito mais dados, mas devido ao seu posicionamento estratigráfico e devido ao facto de nos arredores desta mamoa e da Orca 2 do Ameal, se terem detectados fragmentos cerâmicos e restos de debitagem em sílex e quartzo, apontam para a existência de um núcleo de povoamento, que pelas formas cerâmicas entretanto detectadas26, parecem apontar para contextos do Neolítico final regional, afins dos encontrados no sítio do Ameal-VI (SENNA-MARTINEZ, 1989a).

Da Orca 1 do Ameal, foi também recuperado um pendeloque de forma subeliptica27 em pedra verde28 (Cf. Estampa II.51/91). Se objectos em pedra verde não são estranhos aos ambientes dos inícios do Megalitismo da Plataforma do Mondego, bastando para tal relembrar a Orca dos Fiais da Telha, do mesmo núcleo, onde foram recuperadas 6 contas discoidais e 2 cilindricas achatadas em pedra verde, para além de uma forma irregular (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a:604), a Orca do Outeiro do Rato, Nelas, com 6 contas discoidais e 4 cilindricas, do mesmo tipo de material (idem:605), a Orca 1 do Carapito, com 1 discoidal, 6 cilindricas e 1 esferoide (Cf. LEISNER & RIBEIRO, 1968:Abb. 11; SENNA-MARTINEZ, 1989a:604) e Anta da Arquinha da Moura, Tondela (CUNHA, 1993 e 1995)..

No entanto pendeloques de forma subeliptica, não são muito conhecidos na região, ainda que surjam em contextos associados ao Neolítico antigo/médio do Languedoc, onde por exemplo um pendeloque, também pedra verde e de morfologia similar ao aqui descrito, foi recuperado no Dolmen du Pala, Chauzon, Ardeche (Cf. BARGE, 1982:38, 203).

26 Veja-se o que vai dito acerca das cerâmicas da UE.20, provenientes da Orca 2 do Ameal. 27 Devido ao pouco número de peças preferimos adoptar a Nomenclatura e Tipologia proposta por Hélène BARGE (1982:35-61). 28 A impossibilidade de efectuar a análise desta peça em tempo útil não permitiu, ainda, a determinação da matéria-prima utilizada. No entanto, enquadrado num projecto dirigido pela Dr. Margarida Moreira (Mestrado em Pré-História e Arqueologia da FLUP) foram analisados (sob a responsabilidade do Dr. António Huet Gonçalves, da FCUP) um conjunto de artefactos de adorno em pedra verde, de monumentos megalíticos situados no planalto do Ameal, nomeadamente da Orca dos Fiais da Telha e Orca do Outeiro do Rato, em que a matéria prima de todas elas foi identificada como sendo variscite.

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3.2. A ANÁLISE ARTEFACTUAL: A CÂMARA DA ORCA 2 DO AMEAL 3.2.1. Os elementos líticos Os elementos líticos recuperados na Orca 2 do Ameal, encontram-se patentes no Quadro III.14, descriminados pelas categorias já referenciadas anteriormente na análise do mesmo tipo de elementos da Orca 1 do Ameal: Quadro III.14 Orca 2 do Ameal: Inventário dos elementos líticos Unidade Estratigráfica 0 1 2 5 6 7 8 10 Percutores em quartzo 15 2 1 1 1 12 2 1 Percutor em granito ** ** 1 ** ** ** ** ** Seixo rolado em quartzo ** 2 ** ** ** 3 1a) ** Seixo rolado em xisto ** ** ** ** 1 2 ** ** Movente de Mó em granito 1 ** ** ** ** 3 ** ** Lasca de anfibolite 1 ** ** ** ** 4 ** ** Ocre ** 1 ** ** ** ** ** ** Restos de debitagem em quartzo 2 1 ** ** ** 14 ** ** Restos de debitagem em sílex 3 ** ** ** ** 29 ** ** Utensílios em xisto ** ** ** ** ** ** ** 7 Utensílios em quartzo 3 ** ** ** ** 11 ** ** Utensílios em sílex 4 1 ** ** ** 36 ** 5 Goiva em fibrolite ** ** ** ** ** ** ** 1

24 2 ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** **

Total 37 1 6 3 4 5 1 17 32 7 14 46 **

a) Fragmentado devido a acções térmica (termoclasto)

Tal como no caso da vizinha orca, também no presente arqueosítio são de destacar alguns elementos presentes no inventário de materiais líticos.

Os percutores, utilizados como martelos para a preparação dos diversos blocos de granito porfiróide de grão fino-médio, utilizado na estruturas pétreas do tumulus. A sua distribuição ao longo das diversas unidades estratigráficas, implica apenas a sua relativa importância. De notar que os elementos recuperados da UE.7 tanto podem-se enquadrar no contexto dos materiais aí recuperados, como na acção de construção da Orca29;

A presença de seixos rolados, em números pouco elevados, levantam as mesmas questões já formuladas para a situação da Orca 1, enquanto que, mais uma vez, se encontram presentes elementos de moagem manual, neste caso 5 moventes, 4 dos quais provenientes da UE.7, levantando-se mais uma vez a questão acerca da sua correcta inserção crono-cultural. No entanto, num dos seixos recolhidos, integrando o contraforte exterior da câmara (UE.8) detectado no topo norte da Sanja C, apresenta claros indícios de ter sido fracturado por via da acção térmica, indicando possivelmente a sua proveniência de estruturas de combustão, em zona habitacional próxima do monumento.

29 De todos os percutores recuperados nenhum possuía indícios que o podessem destacar no talhe da pedra lascada.

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Achamos, no entanto, que para o caso do ocre, com apenas uma pequena ocorrência à superfície, estarmos perante uma situação acidental, não podendo relacionar este elemento com nenhum episódio decorrido no arqueosítio.

O reconhecimento de todo um conjunto de pequenos fragmentos de anfibolite, alguns dos quais com inquestionáveis indícios de polimento, no seio das terras que constituem a UE.7, levam-nos a equacionar a sua origem: •

Por um lado poderão ser os testemunhos de uma acção de desbaste da vegetação, ocorrido imediatamente antes ou em momentos anteriores à construção do monumento30, tendo sido integrados na UE.7, por via das movimentações de terras, associadas à "terraplanagem" prévias da área para a construção do mesmo;

Serão o resultado de acções de reavivamento dos gumes de instrumentos em pedra polida, devido ao facto de se terem danificado em acções diversas31. Estarímos assim, perante um eventual processo de reconfiguração de instrumentos líticos32.

Infelizmente a escassez dos dados não nos permite avançar mais do que o simples reconhecimento desta ocorrência.

3.2.2. Os Artefactos Líticos de Pedra Lascada Quanto à análise da indústria de pedra talhada, utilizou-se o mesmo modelo, já descrito anteriormente, tendo sido possível determinar, para as UE. que dizem respeito à câmara megalítica do monumento, os artefactos que se encontram patentes no Quadro III.15.

Mais uma vez é possível verificar, que mesmo incluindo a globalidade dos materiais recolhidos na UE.0, 1, 2 e 1033, o sílex, domina em termos de indústria lítica, com 68,4%, apresentando um padrão similar ao ocorrido na Orca 1 do Ameal, para uma situação idêntica.

30 Neste caso poderão ser contêmporaneos do restantes materiais da UE.7. 31 Quer de desbaste ou trabalhos agrícolas, no exterior da eventual zona de habitat. 32 À semelhança do que foi detectado recentemente no Castro de Santiago, Fornos de Algôdres (Cf. VALERA, 1997a:120), tendo em conta as diferenças provenientes do enquadramento crono-cultural de cada um destes sítios. 33 Ou seja incluindo contextos que nada podem ter a ver uns com os outros.

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Quadro III.15 Orca 2 do Ameal: Inventário da Indústria Lítica de Pedra Lascada (N=19) UE.0+1+2 UE.10 Total Sílex Quartzo Sílex Sílex Quartzo Lascas parcialmente corticais 1 1 *** 1 1 Lascas não corticais 1 2 *** 1 2 fragmentos inclassificáveis 1 *** *** 1 *** Lamelas 1 *** *** 1 *** Lamelas parcialmente corticais 1 *** *** 1 *** Lamelas de crista *** *** 1 1 *** Lamelas de crista parcialmente corticais *** *** 1 1 *** Geométricos 3 *** 3 6 *** Raspadores e Lascas retocadas *** 2 *** *** 2 UAD *** 1 *** *** 1 Total 8 6 5 13 6

% 10,5 15,8 5,3 5,3 5,3 5,3 5,3 31,6 10,5 5,3 100

Se efectuarmos uma triagem dos materiais recolhidos, nas UE.0 a 2, seleccionando apenas os que se encontram tecnologicamente e qualitativamente mais próximos do conjunto proveniente do enchimento de base da câmara megalítica (UE.10) apenas seleccionamos os geométricos e uma das lamelas34, atingindo neste caso o sílex um valor de 100% nas ocorrências, tal como ocorria no monumento 1.

Verifica, mais uma vez, que a maioria das deposições, excluindo os elementos de adorno, neste monumento megalítico, são constituídas por geométricos, que atingem os 60% dos objectos35.

No que diz respeito unicamente às lamelas detectadas, na UE.0 e 10, o baixo número de peças recuperadas e a sua fragmentação, não nos permite estabelecer valores médios.

Quanto aos talões das lascas e produtos alongados da Orca 2 do Ameal, estes apresentam algumas diferenças entre si, aquando respectiva análise (Cf. Anexos III). No entanto, mais uma vez, o reduzido número de peças que possibilitaram esta análise, conforme é visível no Quadro III.16, permite apenas estabelecer, que apesar da ocorrência da técnica de talhe por debitagem por pressão e/ou debitagem por percussão indirecta, esta é minoritária, no conjunto em estudo, já que apenas 1 elemento apresentava indícios da utilização de uma destas técnicas de debitagem, possivelmente de debitagem por percussão indirecta, se tivermos em conta a dimensão do produto (Cf. CARVALHO, 1996:99 e 1995/96).

34 Se temos a certeza, no caso dos geométricos da sua correcta inserção no conjunto da UE.10, pelas suas características morfológicas e métricas, no caso das lamelas e tendo em conta a presença de materiais avulsos no planalto do Ameal, esta certeza já não pode ser consubstanciada, visto que um dos exemplares apresenta características métricas que a aproximam mais do grupo das Lâminas (L ≥12 mm) e também o tipo de talhe e matéria-prima utilizada, nomeadamente um sílex muito granuloso, muito próximo do calcário silicificado. 35 Isto se só contabilizarmos os elementos provenientes da UE.10. Mas se contabilizarmos o conjunto após a triagem já referida, este valor passa para os 66,7%.

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Quadro III.16 Orca 2 do Ameal: Técnicas de debitagem conforme os dados dos talões (N=3) Pressão e/ou Percussão Percussão indirecta directa UE Tipo 10 0 Lamela de crista em sílex 1 *** Raspador em quartzo *** 2 Total 1 2

3.2.3. Os Geométricos Como já foi referido os geométricos são os utensílios dominantes, no conjunto das deposições da câmara do monumento. Estes, ao contrário dos do monumento 1, concentram-se no grupo dos geométricos crescentes, com 83,3% de ocorrências, conforme se pode verificar pelo Quadro III.17: Quadro III.17 Orca 2 do Ameal: Inventário de geométricos Tipo Nº % Triângulo escaleno *** *** Triângulo isósceles *** *** Triângulo rectângulo *** *** Trapézio escaleno *** *** Trapézio isósceles 1 16,7 Trapézio rectângulo *** *** Crescente/Segmento 5 83,3 Total 6 100

A determinação dimensões dos geométricos crescentes (Cf. Anexos III), do conjunto da câmara da Orca 2 do Ameal, permitiu estabelecer as médias que seguidamente se apresentam: Comprimento médio: 25,1±3,8 mm Largura média: 11,3±2,2 mm Espessura média: 2,5±0,4 mm Como se pode verificar, a média das larguras dos geométricos crescentes, permite inferir, tendo em conta o desvio padrão, que o conjunto da câmara da Orca 2 do Ameal, apresenta um ligeiro aumento das dimensões da largura média, em relação aos elementos similares da Orca 1 do Ameal. Em qualquer dos casos, temos que as dimensões da maioria dos geométricos analisados permitem inferir que estes foram realizados sobre suporte lamelar36. Se considerarmos a totalidade da amostra (os seis geométricos) veremos que os resultados são os seguintes: Comprimento médio: 25±3,5 mm Largura média: 11±2,1 mm Espessura média: 2,5±0,4 mm

36 Em sintonia com António CARVALHO (1996:99) também consideramos que deverão existir poucas distorções no que se refere aos resultados da largura dos crescentes, por via do retoque abrupto utilizado na redução da largura original do suporte, como é possível constatar no Quadro III.13.

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Por estes dados vemos que não existem grandes alterações a este padrão, consubstanciada pelo Quadro III.18, onde se apresentamos valores absolutos e percentuais das frequências das larguras dos geométricos. Quadro III.18 Orca 2 do Ameal: Frequências das larguras dos geométricos (N=6) Largura total % <6 mm *** *** 6-7,9 mm 3 50 8-9,9 mm 1 16,6 10-11,9 mm 1 16,6 12-13,9 mm 1 16,6

Constata-se que a totalidade da debitagem detectada (bruta e retocada) na Orca 2 do Ameal, é composta por e sobre produtos alongados, maioritariamente lamelares37.

Perante isto, podemos categoricamente afirmar que a indústria de pedra lascada recolhida no conjunto da indústria lítica de pedra lascada das deposições das duas Orcas do Ameal é essencialmente sobre suporte lamelar, secundada por suporte laminar, numa percentagem mínima.

3.2.4. Os Geométricos na Plataforma do Mondego Tendo em conta os presentes resultados, para o conjunto de monumentos em estudo, elaborámos uma comparação entre os valores percentuais das frequências das larguras dos geométricos38, provenientes da Orca 1 do Ameal (ORAM 1), Orca 2 do Ameal (ORAM 2), Orca de Pramelas, Nelas (ORPRA) e o conjunto da Lapa de Tourais/Anta da Mondegã, Seia (LT/AM)39 (SENNA-MARTINEZ, 1989a), conforme é visível na Figura III.1.

Verifica-se um aparente aumento da frequência das larguras dos suportes alongados, sobre os quais são produzidos os geométricos em apreciação. Esta situação pode ser explicada pelo contínuo aumento das larguras dos produtos alongados e sintomaticamente dos utensílios elaborados sobre este tipo de suporte, como parece ser consubstanciado pela informação disponível actualmente para as sequências da indústria de pedra lascada do Neolítico do Maciço Calcário Estremenho (CARVALHO, 1995/96)40.

37 Se considerarmos os 12 mm de largura, como valor fronteira entre o agrupamento das Lamelas e os das Lâminas (Cf. CARVALHO, 1996:31). 38 A escolha deste artefacto têm a ver com a sua relativa frequência e variabilidade dentro dos conjuntos artefactuais comparados. 39 A escolha desta estação verificou-se pela necessidade de aferir os nossos resultados, com os de uma estação que inquestionavelmente fosse inserivel numa integração crono-cultural afim daquela, que consideramos afim destes dois monumentos. 40 Tal como ocorre em contextos do Neolítico final regional na Plataforma do Mondego, onde os produtos laminares são dominantes (SENNA-MARTINEZ, 1989a)

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< 6 mm

L a r g u r a s

6-7,9 mm 8-9,9 mm 10-11,9 mm 12-13,9 mm

ORAM 1 (N=8) ORAM 2 (N=6) ORPRA (N=10) LT/AM (N=93)

14-15,9 mm 16-17,9 mm 18-19,9 mm 20-21,9 mm 22-23,9 mm 0

10

20

30

40

50

60

70

% Figura III.1 - Frequências da larguras dos geométricos provenientes das Orca 1 do Ameal-ORAM 1, Orca 2 do Ameal-ORAM 2, Orca de Pramelas-ORPRA e Lapa de Tourais-LT/AM. Verifica-se claramente uma tendência para o alargamento relativo dos geométricos do primeiro conjunto para o último, dentro da sequência.

Esta mesma situação parece ocorrer nos diversos monumentos atribuíveis aos primeiros momentos do megalitismo da Plataforma do Mondego, já que no caso da Orca de Pramelas, Nelas (SENNA-MARTINEZ & VALERA, 1989; SENNA-MARTINEZ, 1989a) se tivermos em consideração a totalidade da indústria lítica de pedra lascada, verifica-se que domina a debitagem de produtos alongados lamelares, o que confirma a informação proveniente unicamente do conjunto dos geométricos, ainda que surjam, neste conjunto, elementos que se encontram ausentes no conjunto da câmara da Orca 2 do Ameal, nomeadamente os produtos laminares (Cf. Figura III.2)..

No caso da Lapa de Tourais/Anta da Mondegã (LT/AM), apesar do estado de ruína que este monumento apresentava41, foi possível recuperar um importante conjunto de geométricos, num total de 93. No entanto apesar deste conjunto ser também o mais representativo da indústria lítica de pedra lascada, assiste-se a uma maior variabilidade em termos de frequências das larguras dos produtos alongados, como se verifica na Figura III.242, onde as frequências das larguras da totalidade dos produtos alongados (em bruto e retocados) deste arqueosítio43 foram comparados com os mesmos dados da Orca 2 do Ameal (ORAM 2), Orca de Pramelas (ORPRA) e Dólmen 1 dos Moinhos de Vento (D1MV).

41 Os principais problemas relacionam-se com o facto de o espólio recuperado poder encontrar-se truncado ou ser o resultado de diversas acumulações. No entanto deve-se não esquecer a a escavação da Orca de S. Tisco, Carregal do Sal, veio, em parte confirmar a situação da Lapa de Tourais (SENNAMARTINEZ & VENTURA, 1994). 42Elaborado a partir das Matrizes elaboradas por SENNA-MARTINEZ (1989a) a quem agradecemos a disponibilização das mesma. 43 Com excepção do conjunto de pontas de projéctil.

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

A razão da inserção dos dados provenientes do Dólmen 1 dos Moinhos de Vento, Arganil, deve-se ao facto de se necessitar utilizar um conjunto fechado e bem localizado no tempo44, por via de informação cronométrica, como aferidor da análise (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1989b, 1994a, 1995a).

L a r g u r a s

< 6 mm 6-7,9 mm 8-9,9 mm 10-11,9 mm 12-13,9 mm 14-15,9 mm 16-17,9 mm 18-19,9 mm 20-21,9 mm 22-23,9 mm 24-25,9 mm 26-27,9 mm 28-29,9 mm > 30 mm

ORAM 2 (N=8) ORPRA (N=14) LT/AM (N=137) D1MV (N=184)

0

10

20

30

40

50

60

% Figura III.2 - Frequências da larguras dos produtos alongados (em bruto e retocados) provenientes das Orca 2 do Ameal-ORAM 2, Orca de Pramelas-ORPRA, Lapa de Tourais-LT/AM e Dólmen 1 dos Moinhos de Vento-D1MV. Verifica-se claramente uma evolução de produtos alongados lamelares para laminares, ao longo da sequência.

Constata-se, claramente através do Gráfico de Frequências (Cf. Figura III.2), que a percentagem dos produtos alongados laminares45 (em bruto e retocados) sobe ao longo da sequência, com 37,5% de presenças na Orca 1 do Ameal, passando para os 42,9% na Orca de Pramelas, mas passando a dominante nos dois restantes monumentos, com 78,1% e 95,1% na Lapa de Tourais e Moinhos de Vento, respectivamente.

Se considerarmos os paralelos do Maciço Calcário Estremenho46 (CARVALHO, 1995/96) como também válidos para a nossa região47 verificamos que, na sequência do Neolítico assiste-se também a este mesmo processo, com a predominância dos produtos alongados transitar de suportes lamelares para laminares, do Neolítico antigo para o Neolítico final48.

44 Os dados de escavação deste monumento, publicados até ao momento, parecem inferir da utilização curta do monumento, quer em termos temporais, quer em deposições, pelo que aliado aos dados cronométricos, possibilitam a sua utilização como aferidor estatístico, no presente caso. 45 Voltamos a relembrar que consideramos a fronteira entre os produtos lamelares e os laminares nos 12 mm de largura (Cf. CARVALHO, 1996) 46 Tendo em conta os dados da estratigrafia do Abrigo da Pena d'Água, Torres Novas. 47 Os dados provenientes do sítio do Ameal-VI, parece corroborar também esta análise (Cf. SENNA-MARTINEZ 1989a e 1995/96b). 48 O que levanta sempre problemas de apreciação, visto serem comparados dados de sítios de sítios habitacionais do Maciço Calcário com necrópoles da Plataforma do Mondego, onde as prescrições funerárias podem alterar todos os padrões de comportamento da elaboração de artefactos.

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José Manuel Quintã VENTURA __________________________________________________________________________________________________________________________

3.2.5. Integração crono-cultural dos Geométricos da Plataforma do Mondego Os geométricos, são um dos elementos que marcam sistematicamente a sua presença nos conjuntos artefactuais recuperados de diversos tipos de monumentos megalíticos, da Plataforma do Mondego. No entanto, se os dados actualmente disponíveis destacam a grande longevidade deste tipo de utensílio em contextos funerários e habitacionais49, também são mais ou menos unânimes em salientar a diminuição da frequência deste tipo de artefacto em contextos do Neolítico final e mais recentes (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a; JORGE S., 1985 e 1990). Esta presença, parece estar associada à eventual função do geométrico, que tanto pode ser interpretado como ponta de projéctil, no caso dos crescentes e triângulos50 e, de pontas transversais para o caso dos trapézios51. Por outro lado, o mesmo artefacto, poderá ser utilizado na elaboração de utensílios compostos (Cf. CLARKE, 1978:10-1).

No entanto, este utensílio multifuncional, será substituído, posteriormente, pelo menos numa das suas funções, por pontas de projéctil mais adequadas à função de perfuração da massa muscular e fractura dos ossos longos dos alvos - a ponta de seta52. Este novo utensílio irá destronar a utensilagem sobre geométrico, pelo menos no que diz respeito às frequências nos conjuntos artefactuais dos monumentos megalíticos53 (Cf. SENNAMARTINEZ, 1989a, 1995a e 1995/96a; JORGE S. 1990).

Se a inserção cronométrica desta alteração não se encontra ainda suficientemente determinada a realidade é que o geométrico passará a constituir elemento minoritário, nas deposições de certos tipos de monumentos, normalmente associados às etapas mais recentes do fenómeno megalítico da Plataforma do Mondego, como sejam o caso das Orcas do Fiais da Telha, Orca de S. Tisco e Orca do Valongo, todos em Carregal do Sal54, Outeiro do Rato, Nelas55, Monumentos 1 e 2 da Lameira de Cima, Penedono56, Orca dos Juncais e Orca do Tanque, em Vila Nova de Paiva57, Dólmen 1 dos Moinhos de Vento, Arganil58 e Anta da Arcainha da Moura, Tondela59. 49 De referir a presença de geométricos em contextos integráveis no Bronze antigo e pleno do Alto Mondego, como sejam o caso da Fraga da Pena, Fornos de Algôdres (VALERA, inf. pessoal). 50 Mais uma vez se referia a dificuldade em termos de concepção funcional de diferenciar os dois tipos um do outro (Cf. NUZHNYJ, 1989). 51 Relembremo-nos da "Cena de Caça" da Orca dos Juncais (TWOHIG, 1981:151 fig. 39; SENNA-MARTINEZ, 1989a). 52 Sobre este aspecto relembre-se a apresentação dos estudos preliminares efectuados sobre as Pontas de Projéctil da Orca dos Fiais da Telha, que permitiu determinar a existência de dois grupos de projecteis, em termos de perfuração: Projecteis para Caça, caracterizados por uma superfície de impacto alargada, com peso acima da média e médio/elevado poder de penetração; Projecteis de guerra, caracterizados por pequena superfície de impacto e um elevado valor de penetração (SENNA-MARTINEZ & VENTURA, comunicação ao 2º Colóquio Arqueológico de Viseu, 1990). 53 Cf. Vítor Oliveira JORGE, Debate da 1ª Sessão de Trabalhos, no Seminário "O Megalitismo no Centro de Portugal", in: Actas do Seminário, Mangualde, 1994, pp.72-3. 54 Para a situação da Orca dos Fiais da Telha Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a. Para o caso da Orca do S. Tisco (Cf. SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994 e para a Orca do Valongo (HENRIQUES & BARROSO, Inf. Pessoal). 55 Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a. 56 Cf. GOMES, 1996. 57 Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a. 58 Cf. NUNES, 1974; SENNA-MARTINEZ, 1989a. 59 Cf. CUNHA, 1993 e 1995.

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

Para o conjunto de monumentos situados no núcleo megalítico em apreço, conhecem-se um total de 48 geométricos recuperados dos três monumentos do núcleo, escavados até ao momento60. Para alargar o nível de análise, para destes três monumentos (ORAM 1 e 2 e ORFI), foram seleccionados os monumentos, que pela sua proximidade geográfica e inserção na Plataforma do Mondego, podessem servir de elementos de comparação, como seja o caso do Outeiro do Rato (OROR) e de Pramelas (ORPRA)61 em Nelas e da Orca de S. Tisco62, Carregal do Sal (ORTIS).

Foram utilizados os geométricos dos conjuntos provenientes dos Monumentos 163 (nível de base) e 364 do Carapito, Aguiar da Beira (ORCAR 1 e 3), tendo em conta a integração cultural dos respectivos espólios e os dados cronométricos do primeiro monumento. Foram ainda utilizados os conjuntos do Dólmen 1 dos Moinhos de Vento65, Arganil (D1MV), pelas razões já aduzidas anteriormente e da Lapa de Tourais/Anta da Mondegã, Seia (LT/AM)66, tendo em, conta também a sua inserção crono-cultural. O Quadro III.19 espelha a realidade encontrada, em termos deste artefacto.

Consideraram-se os tipos de geométricos já definidos nas matrizes, sendo apenas necessário a determinação de um novo tipo de geométrico, por este se encontrar ausente no nosso conjunto. Referimo-nos ao geométricos trapézio "tipo Monchique" (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a:532), que se pode definir como uma variação dos trapézios isósceles, onde a base menor é retocada en coche (Cf. VIANA, FERREIRA & FORMOSINHO, 1950; SENNA-MARTINEZ, 1989a).

Tipo Triângulo escaleno Triângulo isósceles Triângulo rectângulo Crescente Trapézio escaleno Trapézio isósceles Trapézio rectângulo Trapézio t. Monch. N.I. total (nº)

Quadro III.19 Plataforma do Mondego: Frequência de tipos de geométricos (%) Monumentos Megalíticos ORAM 1 ORAM 2 ORPRA LT/AM ORTIS ORCAR 3 ORCAR 1 D1MV 12,5% *** 30% 6,5% *** 20% 4% *** *** *** 40% 1% 17% 20% 12% *** *** *** *** *** *** *** *** *** 62,5% 83,3% 10% 7,5% 42% 40% 4% *** 25% *** 10% 37,7% 8% 20% 48% 60% *** 16,7% 10% 4,3% 25% *** 32% 20% *** *** *** 6,5% *** *** *** 20% *** *** *** 36,6% *** *** *** *** *** *** *** *** 8% *** *** *** 8 6 10 93 12 5 25 5

ORFI 11,8% 2,9% *** *** 17,6% 20,6% *** 44,1% 2,9% 34

OROR 11,1% *** 11,1% *** 55,6% 11,1% *** 11,1% *** 9

60 O que incluí as Orcas 1 e 2 do Ameal e a Orca dos Fiais da Telha. Encontra-se em estudo a Orca 2 de Oliveira do Conde, onde até ao momento, foi possível recuperar um pequeno espólio, onde avultam um geométrico crescente e um machado de pedra polida e a ausência total de cerâmica. No entanto, o facto de a intervenção neste arqueosítio se encontrar longe de estar concluída impede-nos de incluir outra informação no presente texto. 61 Idem. 62 Dados inéditos, visto que o estudo do espólio deste monumento, sob a nossa responsabilidade, se encontrar longe de estar concluído. 63 Para este monumento foram considerados os conjuntos atribuídos por SENNA-MARTINEZ (1989a:533) ao nível de base, em conjunto com os elementos recuperados por Domingos CRUZ & Raquel VILAÇA (1990) durante as obras de recuperação do referido monumento, também atribuíveis, devido às condições de jazida, a estas primeiras deposições. 64 SENNA-MARTINEZ, 1989a:533. 65 Idem. 66 Ib. id.

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Não obstante o pequeno número de elementos presentes em alguns monumentos, com valores inferiores a 10 exemplares, é possível distinguir entre os conjuntos, diversas realidades (Cf. Quadro III.20): •

Em determinados monumentos o conjunto dos geométricos crescentes apresenta-se como dominante67, como sejam o caso das Orcas 1 e 2 do Ameal, enquanto que em outros são os triângulos a dominar como seja o caso da Orca de Pramelas;

Em conjunção, com o anterior, existem conjuntos onde nenhum dos tipos de geométricos dominam, mas em que o conjunto dos geométricos crescentes e triângulos atinjam os valores dominantes68, como no caso da Orca 3 do Carapito e Orca de S. Tisco;

Finalmente, num outro conjunto de monumentos, são os trapézios, nas suas diversas variedades a dominar, como seja o caso da Lapa de Tourais, Orca 1 do Carapito, Dólmen 1 dos Moinhos de Vento, Orca dos Fiais da Telha e Orca do Outeiro do Rato;

Tal como já tinha inferido SENNA-MARTINEZ (1989a:534-9), tudo parece sugerir que os conjuntos onde dominem os geométricos crescentes e/ou triângulos sejam os mais antigos, quer pelo "arcaísmo" dos conjuntos e também pela ausência da cerâmica69. Não consideramos fundamental a diferenciação entre conjuntos dominados por crescentes e os por triângulos, só por si, como indicador da anterioridade dos primeiros sobre os segundos, ou vice-versa70, sendo necessário o restante espólio para definir a sua relação crono-cultural71.

Em clara dissociação com o anterior conjunto, surgem-nos, os espólios, onde os trapézios, aparecem como maioritários. Estes surgem associados, na Plataforma do Mondego, a deposições de cerâmicas, a monumentos de concepção desenvolvida72, com estruturas complexas, tais como corredores longos, estruturas fron67 Com frequências superiores a 50%. 68 Como já referimos anteriormente a diferença funcional e em muitos casos conceptual entre um crescente e triângulo é nulo, tal já o referiu Thierry AUBRY. 69 tendo em conta que são exactamente estes mesmos geométricos os dominantes em contextos regionais atribuídos ao Neolítico antigo. Deva-se destacar por exemplo o sítio das Carriceiras, Carregal do Sal (SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994; SENNA-MARTINEZ, 1997) e o Penedo da Penha, Nelas (CARVALHO, 1996; VALERA, 1997a e 1997b). Para além disso a presença de geométricos crescentes e triângulos, encontra-se atestado no sítio da Várzea do Lírio, Figueira da Foz, (JORGE S., 1979), para além da mesma situação ocorrer em contextos similares do Maciço Calcário Estremenho (CARVALHO, 1996) e no sudoeste alentejano (SOARES & SILVA, 1979; SILVA & SOARES, 1981). Ainda sobre esta questão veja-se Vítor Oliveira JORGE, Debate da 1ª Sessão de Trabalhos, no Seminário "O Megalitismo no Centro de Portugal", in: Actas do Seminário, Mangualde, 1994, pp.72-3. 70 Pode-se, com os dados provenientes das estações mesolíticas portuguesas, defender uma anterioridade dos triângulos e trapézios sobre os crescentes, é bem verdade porém que as características morfométricas destes elementos nada têm a ver com as peças aqui em análise (Cf. CARVALHO, 1996:16-7). 71 Os factores culturais podem no caso destes tipos de geométricos ter favorecido a predominância de determinado tipo sobre o outro, o que neste caso levar a deformar certas concepções. 72 No caso da Orca 1 do Carapito, a dominância dos trapézios pode ser explicada, por factores tafonómicos, que terão permitido a "viagem" destes elementos para a base do monumento, situação que não foi detectada, pelos escavadores (LEISNER & RIBEIRO, 1968). Por outro lado, a recolha durante os trabalhos de "restauro" do monumento, nos calços dos esteios, de um conjunto de materiais, permitiu, eventualmente, confirmar esta situação, que poderá, no nosso entender corresponder a uma realidade local. Relembre-se que por exemplo, para o planalto mirandês, que nas deposições funerárias mais antigas, como no caso da Pena Mosqueira 3 (Mogadouro) os trapézios e não os triângulos/crescentes, são os dominantes, com 55,1% das ocorrências (Cf. SANCHES, 1987). Para o caso da Lapa de Tourais/Anta da Mondegã (Seia) o elevado estado de ruína deste monumento e a situação

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

tais, etc.. Ainda recentemente, foi levada à estampa, um núcleo de monumentos megalíticos (Lameira de Cima, Penedono), que apesar da sua inserção nos primeiros momentos do arranque regional deste fenómeno, devido aos dados cronométricos, o espólio recolhido e a estrutura dos monumentos, parecem apontar para momentos mais tardios73, onde os trapézios dominam totalmente no conjunto dos geométricos (Cf. GOMES, 1996:48-9 e 130).

Tipo Triângulos Crescentes Trapézios N.I.

Quadro III.20 Plataforma do Mondego: Frequência de tipos de geométricos (simplificada) Monumentos Megalíticos ORAM 1 ORAM 2 ORPRA LT/AM ORTIS ORCAR 3 ORCAR 1 D1MV ORFI OROR 12,5% *** 70% 7,5% 17% 40% 16% *** 14,7% 22,2% 62,5% 85,7% 10% 7,5% 42% 40% 4% *** *** *** 25% 14,3% 20% 84,9% 33,3% 20% 80% 100% 82,4% 77% *** *** *** *** 8% *** *** *** 2,9% ***

3.2.6. O UAD Do conjunto de materiais recuperados da Orca 2 do Ameal, em especial da superfície da mamoa74, foi identificado um UAD. Esta categoria de utensílios, definidos por SENNA-MARTINEZ (1989a:527-8), como utensílios de arestas diédricas, cujas funcionalidades que se situariam entre os buris e os raspadores carenados, que seriam, na totalidade dos casos conhecidos, constituídos por cristais de quartzo, com retoques na extremidade distal de forma a criar uma aresta de corte.

Apesar deste tipo de utensílios se reportar, fundamentalmente, a contextos do Paleolítico superior final e/ou Epipaleolítico (Cf. FRANCISCO FABIAN, 1984/85), têm vindo a ser detectados, numa série de arqueosítios da Plataforma do Mondego, em especial em situações habitacionais75, ainda que também em contextos funerários tardios76, relacionados com o Neolítico final e o Calcolítico regional.

Provêm da UE.0 da Sanja B, um pequeno cristal de rocha, com 55 mm de comprimento e uma espessura de 14 mm, onde é possível observar uma série de retoques intencionais na extremidade distal, para a criação de um gume cortante, onde são ainda visíveis marcas de uso. A morfologia da peça da Orca 2 do Ameal, parece indicar uma função mais próxima da dos furadores e/ou buris, principalmente para tarefas pesadas, onde a dureza do quartzo seria mais viável do que o sílex.

como os materiais se encontravam no interior do mesmo, podem levantar questões sobre a validade desta amostra, na globalidade do Megalitismo da Plataforma do Mondego, daí que deveremos considerar com cuidado os resultados daí provenientes (SENNA-MARTINEZ, inf. pessoal). 73 Para a integração cronométrica deste monumento veja-se o Ponto 4. 74 Por isso com atribuição de contexto dificultada, tendo em conta, os diversos remeximentos de superfície, já referidos. 75 No caso dos sítios do Ameal-VI e Quinta Nova, Carregal do Sal ( SENNA-MARTINEZ, 1995/96b) e no Castro de Santiago, Fornos de Algôdres (VALERA, 1997a:104) 76 No caso da Orca de Travanca, Carregal do Sal (VENTURA, 1993:Est. V).

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José Manuel Quintã VENTURA __________________________________________________________________________________________________________________________

3.2.7. Elementos de Adorno No conjunto dos artefactos recuperados na Orca 2 do Ameal (Câmara) surgem 7 contas discoidais em xisto (Cf. Estampa III), todas apresentando perfuração central cilindrica.

As sete contas discoidais77, enquadram-se no grande grupo de contas em xisto, já recuperadas em outros monumentos megalíticos regionais, alguns dos quais situando-se bem perto dos monumentos em apreço, nomeadamente da Orca dos Fiais da Telha, com 588 ocorrências (SENNA-MARTINEZ, 1989a:604), a Orca de Pramelas, Nelas, com 479 ocorrências (SENNA-MARTINEZ & VALERA, 1989; SENNA-MARTINEZ, 1989a:604), onde, no primeiro dos casos, parecem constituir um dos elementos presentes nas mais antigas deposições em monumentos megalíticos, tal como também ocorre na Orca 1 do Carapito, Aguiar da Beira, com 320 contas e a Lapa de Tourais/Anta da Mondegã, Seia, com 1497 contas78.

No entanto o mesmo artefacto pode ser detectado, às vezes com ocorrências mínimas, em monumentos mais evoluídos arquitectonicamente e/ou associado a espólios mais tardios, como sejam o caso já referido da Orca dos Fiais, a Orca do Pinhal dos Amiais, Nelas, com 2 contas (SENNA-MARTINEZ, 1989a:604-5), o Dólmen 1 da Lameira de Cima, Penedono, com 2 contas discoidais, entre outras de outras tipologias e matérias-primas e ainda o Dólmen 2 da Lameira de Cima com 4 contas em xisto (Cf. GOMES L, 1996:81 e 141).

Este artefacto, parece assim, enquadrar-se assim em padrões de comportamento relacionadas com as prescrições funerárias, dos inícios do megalitismo79, tal como ocorre também na mamoa 3 da Pena Mosqueira, Mogadouro, onde cerca de 2000 contas discoidais em xisto foram recuperadas do nível de base do monumento (SANCHES, 1987a:103). Também num monumento do arranque do megalitismo, na Meseta Norte espanhola (El Miradero, Valladolid) num conjunto constituído por geométricos onde predominam os triângulos/crescentes, lâminas não retocadas, machados de secção transversal elíptica, punções e espátulas em osso, foi possível recuperar um número não descriminado de contas discoidais achatadas em xisto, entre outros elementos de adorno das mais diversas matérias-primas (Cf. DELIBES DE CASTRO, ALONSO DÍEZ & ROJO GUERRA, 1987:183-4)

Em termos de dimensões, os exemplares provenientes da câmara da Orca 2 do Ameal, apresentam as seguintes médias: Diâmetro médio: 4,1±0,2 mm Espessura média: 0,9±0,2 mm Diâmetro interno médio da perfuração: 0,9±0,2 mm

77 Correspondente ao Tipo 2 de SENNA-MARTINEZ (1989a:603). 78 Recentemente um conjunto de 5 milhares de contas de discóidais em xisto, associadas a contas em variscite, elementos em pedra polida e geométricos, foram recuperados da câmara do Dólmen de Areita, S. João da Pesqueira (Cf. GOMES L. et al., 1997a e 1997b). 79 E também das fases mais avançadas, ainda que com ocorrências inferiores.

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

Possuímos poucos dados sobre estes tipos de conjuntos, talvez devido à valorização dos outros conjuntos artefactuais, nomeadamente os cerâmicos, no entanto, sabemos que para o conjunto da Pena Mosqueira 3, a média de diâmetros será muito próxima dos 5 mm (SANCHES, 1987a:103) e que no caso da Lapa de Tourais e Orca de Pramelas80, os valores médios do diâmetro dos exemplares aí recuperados são inferiores a 5 mm, por isso aproximando-se bastante dos espécimes da Orca 2 do Ameal. Por outro lado, no caso da Orca dos Fiais da Telha, os elementos deste tipo apresentam diâmetros médios de 5,6±0,4 mm81.

Não sabemos se os valores aqui apresentados, serão significativos, não deixando no entanto de salientar a aparente coincidência de valores para monumentos, que parecem, apresentar conjuntos similares em vários aspectos com os aqui apresentados.

3.2.8. A Pedra Polida Do enchimento de base da câmara megalítica da Orca 2 do Ameal (UE.10), foi ainda recuperada uma pequena goiva em fibrolite82, de bordos e secção longitudinal, convergentes no talão, de secção transversal subrectangular, de polimento integral e talão truncado (Cf. Anexos III e Estampa III.18/93). O extremo cuidado no polimento e dimensões da presente peça, indicam-nos estarmos perante um elemento de excepção83. Por outro lado, a matéria-prima pode ser considerada como rara, senão exógena, no contexto geológico da Beira Alta e, mais particularmente da Plataforma do Mondego (TEIXEIRA et al., 1961). Normalmente é considerada a Serra do Guadarrama, como a única zona viável, na Península, para a recolha de nódulos desta matéria-prima, em tamanhos suficientemente dimensionados para poderem ser utilizados, para este tipo de instrumentos (Cf. GUERRA & FERREIRA, 1979:326). No entanto, pesquisas recentes, permitiram detectar a ocorrência de nódulos, de menores dimensões, mas ainda assim passíveis de poderem constituir suporte para a peça aqui em apreço, a sul de Vinhais e a norte do Caramulo, em Trás-os-Montes (Cf. VILAÇA, 1988:26)84.

Se por um lado a presença de artefactos em pedra polida é algo comum na maioria dos monumentos megalíticos85, também é verdade que a frequência de ocorrências nos monumentos megalíticos do Núcleo e da Plataforma do Mondego, são extremamente reduzidas. Assim, da Orca 1 do Ameal, apenas são conhecidas al80 Agradecemos ao Prof. Dr. Senna-Martinez, a oportunidade de analisar estes dois conjuntos. 81 Referia-se, só a título de exemplo, que o único exemplar enquadrável neste grupo, proveniente do Castro de Santiago, Fornos de Algôdres apresenta um diâmetro de 6 mm (Cf. VALERA, 1997a:126), enquanto que os 2 exemplares com indicações métricas do Dólmen 1 da Lameira de Cima, Penedono, apresentam valores médios 4 mm de diâmetro (GOMES L., 1996:82). 82 Esta peça foi no início identificada como sendo em xisto polido. Posteriormente, uma análise macroscópica, realizada por Adilson Matos (Lic. em Geologia, F.C.U.C.), a quem agradecemos, permitiu a correcta identificação da matéria-prima. 83 Sem deixar de salientar o carácter utilitário que este tipo de peça poderia ter, devido à dureza da matéria-prima, mais que adequada ao trabalho de materiais duros, em especial madeira, uma vez encabada de topo num cabo. 84 Recolhas recentes efectuadas nos aluviões do Mondego, permitiram a detecção de pequenos nódulos desta matéria (Inf. Pessoal de Adilson Matos, a quem agradecemos), o que poderá permitir viabilizar a recolha local da matéria-prima. No entanto, qualquer que seja a situação, a fibrolite não deixa de ser escassa. 85 A presença deste tipo de artefacto, num contexto que parece inserir-se nos inícios do Megalitismo regional, vem desmentir a sua inserção em ambientes exclusivamente tardios (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a:588-9).

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gumas lascas de anfibolite86 e nenhum artefacto completo, da Orca dos Fiais da Telha, apenas foi recuperada uma enxó, de polimento integral e secção transversal sub-rectangular87, da Orca do Outeiro do Rato, Nelas foi apenas recolhida uma enxó e um machado, ambos de secção sub-rectangular e polimento parcial (SENNAMARTINEZ, 1989a:597), enquanto da Orca de Pramelas, apenas 2 machados foram recolhidos, de secção transversal sub-quandrangular e sub-rectangular e polimento tendendo para o integral (SENNA-MARTINEZ & VALERA, 1989; SENNA-MARTINEZ, 1989a:597)88.

Da Orca 1 do Carapito, Aguiar da Beira, foram recuperados, do "nível de base", 2 pequenas enxós, uma delas em fibrolite. Estas apresentam secção transversal sub-eliptíca (LEISNER & RIBEIRO, 1968:Abb.11; SENNAMARTINEZ, 1989a:597)89. Por sua vez a Orca 3 do Carapito, forneceu 1 machado e uma enxó, ambos de secções sub-quadrangulares e polimento tendendo para o integral (LEISNER & RIBEIRO, 1968:Abb.15; SENNA-MARTINEZ, 1989a:597), enquanto que o monumento 4, apenas forneceu uma goiva em anfibolite de secção sub-circular. (LEISNER & RIBEIRO, 1968:Abb.13b; SENNA-MARTINEZ, 1989a:597). Na Lapa de Tourais, Seia, foram recuperadas três enxós e cinco machados, elípticas, sub-elipticas e sub-quadrangulares (idem: 593). Por outro lado, já na bacia hidrográfica do alto Távora, em Penedono no Dólmen 1 da Lameira de Cima, foram recuperados três enxós, uma delas de silimanite e 2 machados. Dominam as secções transversais sub-rectangulares, ainda que tenha surgido um exemplar com secção sub-cilindrica (GOMES L., 1996:79-81). O conjunto artefactual proveniente do Dólmen 2 da Lameira de Cima, não forneceu qualquer elemento de macro-utensilagem polida90.

No entanto, se estes tipo de artefactos rareia em certos contextos, são por outro lado abundantes noutros, nomeadamente na Necrópole dos Moinhos de Vento, Arganil, com trinta e duas peças91 e o Dólmen de S. Pedro Dias, Vila Nova de Poiares, com treze exemplares. Aqui, as secções são quase exclusivamente rectangulares, sub-rectangulares e afins (SENNA-MARTINEZ, 1989a:598-9)92.

Por outro lado, é comummente aceite a relativa anterioridade dos machados de secção circular/ovalada, com polimento no gume e corpo picotado. No entanto, é necessário relembrar que nos contextos inseríveis, no Neolítico antigo ou de tradição antiga, estes modelos se encontram a par, de outros modelos, de secção rectangular e sub-rectangular, como por exemplo no caso da Várzea do Lírio, Figueira da Foz, onde foram recolhidos

86 Relembre o que foi dito a este respeito no Ponto 3.1.2.. 87 Também neste monumento, foram recolhidas mais de 20 pequenas lascas de anfibolite, algumas com indício de polimento, que podem provir de elementos fragmentados. 88 Refira-se que para a Orca 2 de Oliveira do Conde, inserivel no Núcleo em estudo, durante a campanha de 1996, foram recolhidas 2 machados fragmentados em anfibolite, de secções transversais sub-rectangulares e polimento integral. 89 No total foram recolhidos neste monumento 5 artefactos polidos, onde dominam as secções transversais sub-rectangulares e, existem também secções elipsoides, com polimento integral (LEISNER & RIBEIRO, 1968:Abb.11; SENNA-MARTINEZ, 1989a:597; CRUZ & VILAÇA, 1990:Fig.5). 90 De notar, que da câmara do Dólmen de Areita, S. João da Pesqueira, foi recuperado uma goiva em tudo similar a este nosso exemplar, quer em termos morfológicos, quer ainda em termos de matéria-prima, proveniente de contextos similares aos da Orca 2 do Ameal (Cf. GOMES L., et al., 1997a e 1997b). 91 Oitos das quais inacabadas e inseridas num depósito no contraforte (NUNES, 1974, SENNA-MARTINEZ & LUZ, 1983, SENNA-MARTINEZ, 1989a:597). 92 A grande longevidade deste tipo de artefacto está atestada em contextos do Bronze final (Cf. SENNA-MARTINEZ, 189a:588).

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18 exemplares (16 machados e 2 enxós) dominando as secções transversais sub-elipticas e rectangulares e somente 2 exemplares apresentam secção sub-circular93.

Por outro lado, nos sítios de habitat com ocupação atribuível ao Neolítico antigo ou de tradição antiga, da Plataforma do Mondego, como sejam o caso do Penedo da Penha e Buraco da Moura de S. Romão, são conhecidos um e três peças respectivamente, onde dominam peças de pequenas dimensões e secções transversais elípticas ou sub-elípticas, com polimento a tender para o integral (VALERA, 1997a:122).

Isto permite pelo menos determinar, que a tipologia destes objectos só por si, não é suficiente para permitir a correcta inserção crono-cultural dos contextos de onde são provenientes, já que apesar dos instrumentos de pedra polida, de secção circular/ovalada e polimento limitado ao gume, poderem ser encontrados preferencialmente em contextos antigos, também é verdade que estes coexistem, pelo menos em parte, com instrumentos de outras tipologias, nomeadamente as secções rectangulares, sub-rectangulares e sub-elipticas. No entanto, o primeiro tipo de instrumentos, não se restringe aos primeiros momentos do megalitismo regional, antes pelo contrário, pode se encontrado, ainda que residualmente, em contextos, do apogeu deste mesmo, como sejam o caso do monumento 1 da Lameira de Cima94.

Também, tudo parece indicar, que estes instrumentos que se encontram associados a trabalhos de desbravação da floresta e, nalguns casos ao próprio trabalho dos solos, aumentem a sua frequência, nos monumentos megalíticos, conforme se assiste a uma intensificação da produção agrícola, com os respectivos trabalhos de preparação dos solos95. Quanto ás pequenas dimensões de alguns destes tipos de objectos, devemos salientar que eles só por si não são determinativos da função simbólica dos mesmos, visto que a maioria destes são constituídos por enxós e goivas, por isso passíveis de serem encabados em estruturas em madeira e/ou osso e utilizadas, para trabalhos de maior cuidado, onde a maior dimensão dos instrumentos poderia constituir um verdadeiro obstáculo e onde a matéria-prima utilizada permitiria um gume mais duradouro. Também, no entanto, deveremos reconhecer, que existe uma tendência para a deposição preferencial destes tipos de instrumentos em contextos funerários, o que apenas indica um cuidado da selecção e não uma produção exclusiva.

93 Cf. JORGE S., 1979:66-7. Deva-se salientar, que apesar de Raquel Vilaça, não considerar o conjunto proveniente deste arqueosítio e, em especial, a pedra polida, como homogénea, avançando com a hipótese de corresponder a vários núcleos localizados diacronicamente, não consegue demonstrar o contrário, aceitando mesmo a "existência, desde muito cedo, de uma variabilidade tecnológica" (Cf. VILAÇA, 1988:26). 94 Onde num monumento evoluído, de corredor e estruturas frontais "complexas" foi recuperado um exemplar de secção circular, que ainda por cima, não se encontrava associado, às eventuais deposições primárias neste monumento (Cf. GOMES L., 1996:80). 95 Como, por exemplo, ocorrem nos povoados da bacia do Alto Mondego do III milénio cal AC (Cf. VALERA, 1997a: 123)

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3.3. A ANÁLISE ARTEFACTUAL: A UE.7 DA ORCA 2 DO AMEAL 3.3.1. A Cerâmica Quanto à amostra cerâmica recuperada na Orca 2 do Ameal, conforme patente no Quadro III.21, foi possível a recolha de 322 fragmentos, contabilizando cerca de 1,5 Kg de cerâmica manual, cuja distribuição pelas diversas Unidade Estratigráficas é a seguinte:

UE 0 1 2 7 20 Total (Peso)

Quadro III.21 Orca 2 do Ameal: Inventário dos fragmentos de cerâmica manual Cerâmica não decorada Cerâmica decorada Bordos Bojos Asas Bordos Bojos total (Peso) 2 31 (365g) *** 1 2 36 (380g) *** 7 (95g) *** *** *** 7 (95g) 1 1 *** *** *** 2 (5g) 17 (35g) 239 (755g) 1 2 *** 259 (885g) 2 16 (210g) *** *** *** 18 (215g) 22 (65g) 294 (1,43 Kg) 1 3 (20g) 2 (10g) 322 (1,58Kg)

Se tivermos em consideração que as UE.0, 1 e 2 correspondem a níveis de profundos remeximentos, os materiais daí provenientes, tanto podem ter origem em deposições no monumento e/ou em materiais que foram depositados após a construção e utilização do mesmo, não existindo garantias da sua uniformidade ou mesmo origem, pelo que resolvemos agrupá-los num único grupo, em termos de análise. A mesma situação ocorre com a UE.20, que se terá formado após a construção do monumento, sobre a qual se detectou deposição de materiais, possivelmente originários de zonas de habitat96, cuja tipologia das cerâmicas parece apontar para momentos coevos, com a ocupação das Cabanas 1 e 3 do habitat do Ameal VI (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1989b, 1995a e 1995b).

Tendo em conta estes aspectos foi elaborado um novo quadro (Cf. Quadro III.22), onde se apresenta a amostra, em termos de absolutos e percentuais, com as seguintes realidades em termos de Unidades Estratigráficas: unidades superficiais de remeximento: •

UE.0, 1 e 2;

Enchimento da mamoa (UE.7);

Unidades Estratigráficas exteriores ao tumulus (UE.20).

Assim é possível verificar, que do total da amostra, o grosso é proveniente da UE.797, responsável por 80,4% da amostra ceramológica deste monumento, para um número mínimo de 25 recipientes.

96 Infelizmente sem estruturas identificadas, resumindo-se a alguns achados dispersos (Cf. Ponto 2.). 97 Que como já foi observado no ponto anterior, corresponde a materiais que surgiram integrados nas terras de enchimento do tumulus.

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UE 0, 1 e 2 7 20 Total (Peso)

Quadro III.22 Orca 2 do Ameal: Inventário síntese da cerâmica manual Cerâmica não decorada Cerâmica decorada Bordos Bojos Asas Bordos Bojos % a) 3 39 (465g) *** 1 2 6,7% 17 (35g) 239 (755g) 1 2 *** 0,8% 2 16 (210g) *** *** *** *** 22 (65g) 294 (1,43 Kg) 1 3 (20g) 2 (10g) 1,6%

total (Peso) 45 [14%] (480g) 259 [80,4%] (885g) 18 [5,6%] (215g) 322 (1,58Kg)

a) percentagem do nº total de fragmentos decorados em relação ao total de fragmentos recuperados na presente UE.

O Quadro III.23, resume a realidade da amostra em cada UE., tendo em conta o número mínimo de recipientes individualizáveis98 (Nm); o número daqueles para os quais foi possível, pelo menos, a determinação do diâmetro do bocal (Nb); o número daqueles que permitiram classificação tipológica (Nf) e por fim o numero de recipientes que permitiram reconstituíção integral, pelo menos em termos gráficos (Ri). Quadro III.23 Orca 2 do Ameal: Síntese do conjunto cerâmico UE Nm Nb Nf Ri 0, 1 e 2 4 *** *** *** 7 19 6 *** *** 20 2 2 2 2 Total 25 8 2 2

Avulta de imediato a baixa percentagem de bordos que permitiram o cálculo do diâmetro (32% dos bordos identificados), mas destes apenas 8% dos bordos identificados permitiram a determinação de "Tipo".

Por outro lado, pretendemos estabelecer o estado de conservação dos fragmentos recuperados tendo em conta os estado das fracturas, de modo a permitir inferir das condições de jazida e eventual conservação dos mesmos. Assim, para ampliar a amostra, para além dos 28 fragmentos contabilizados no Quadro I.9, foram ainda analisados 3 fragmentos de bojo, com engobe a almagro. Os resultados são os patentes no Quadro III.24. Quadro III.24 Orca 2 do Ameal: Estado de conservação dos fragmentos cerâmicos UE.0 e 2 UE.7 UE.20 Condição Ocorrência % total Ocorrência % total Ocorrência % total Cód. 0 e1 3 37,5% 4 19% 1 50% Cód. 2 e 3 5 62,5% 17 81% 1 50% total 8 *** 21 *** 2 ***

Estes dados indicam, sem margem para dúvida, que os fragmentos recuperados, com raras excepções, estiveram sujeitos a movimentações diversas, antes de serem depositados, na UE. de onde foram recolhidos, permitindo determinar, que, em especial para a UE.7, onde os fragmentos cerâmicos mais rolados e em pior es-

98 Calculado após a determinação de possíveis associações e colagens, a partir do conjunto dos fragmentos recuperados (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1993).

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tado de conservação, correspondem à esmagadora maioria (81%) do total da amostra, permitem confirmar o inferido durante o processo de escavação.

Pretendíamos na análise da amostra seguir um processo estandartizado, com a apresentação, em tabela, dos elementos considerados significantes na definição dos Tipos, com os respectivos indicadores volumétricos e os valores de Índices correspondentes, de forma a estabelecer um "Padrão" (SHENNAN, 1990:101-156). No entanto, a amostra não é suficientemente representativa para tentarmos, com relativa segurança uma aproximação estatística dentro destes moldes, visto que dos 25 recipientes mínimos, apenas possuímos um total de 8, onde foi possível o estabelecimento do respectivo diâmetro e apenas 1 dos bordos permitiu a reconstituíção da possível base.

Perante uma amostragem desta dimensão é-nos impossível uma outra aproximação senão a que passamos a desenvolver. Assim podemos identificar um total de 5 Formas ou Tipos de recipientes cerâmicos, como é possível de verificar na Figura III.3. Deva-se salientar que a numeração dada a cada Forma, não é sequencial, visto que utilizamos, sempre que possível a designação presente nos estudos de formas cerâmicas, existentes na área em apreço (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a e 1995a e VALERA, 1997a).

Tipo 4

Tipo 3

Tipo 6

Tipo 8

Tipo 9 0

5 cm

Figura III.3 - Tabela de formas de recipientes cerâmicos identificados na Orca 2 do Ameal. Note-se que os Tipos 3 e 4 são exclusivos dos recipientes recuperados na UE.20, correspondendo, por isso, a eventuais zonas habitacionais, formadas após a construção do monumento na sua periferia. __________________________________________________________________________________________ 98


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As cinco formas identificadas, podem ser descritas da seguinte forma:

Tipo 3 (Taças carenadas) - com apenas um exemplar identificado (Estampa VIII.181/95), corresponde a um recipiente aberto de pouca profundidade, com um Ip de 26, e de forma hemi-elipsoidal, sendo a carena formada pelo espessamento externo da pasta no 1º terço da peça . No caso específico apresenta um bordo espessado externamente;

Tipo 4 (Tigelas) - Recipiente aberto com uma volumetria hemi-elipsoidal aberta, que se distingue da forma anterior devido a um índice de profundidade superior, que no caso presente não foi possível calcular, devido ao elevado estado de fragmentação dos recipientes. Encontra-se também representado por um único exemplar (Estampa VIII.33/93). O Bordo do recipiente em questão é enrolado.

Os Tipos acima referidos correspondem a recipientes recuperados nos níveis exteriores ao tumulus, correspondendo eventualmente a ocupações de tipo habitacional. A pasta, dos dois recipientes, em termos de consistência é média, de textura xistosa, num dos casos, e granular, no outro caso, com bastante elementos nãoPlásticos, dominando os quartzos, que chegam a atingir dimensões superiores aos 5 mm de diâmetro. Em ambos exemplares a superfícies foram regularizadas e alisadas utilizando os dedos.

Estas mesmas formas, em especial o Tipo 3, constituem um dos elementos mais representativos da cultura material dos sítios habitacionais do conhecidos na região, nomeadamente as Cabanas 1 e 3 do Ameal-VI99, sito a pouco a menos de 150 para norte do presente monumento. O Tipo 3 assume uma maior importância, se tivermos em conta, que taças desta tipologia se encontram totalmente ausentes nos contextos do Calcolítico regional (Cf. VALERA, 1997a), pelo que a sua presença, quer em monumentos megalíticos de corredor médio e longo, quer em contextos habitacionais, permite a sua inserção crono-cultural, no Neolítico final regional100 (Cf. VALERA, 1994a), naquilo que foi definido por SENNA-MARTINEZ por «Horizonte Moinhos de Vento-Ameal» (1989a, 1989b, 1994a, 1995a).

No que se refere aos resto dos Tipos, todos eles são provenientes da UE.7, onde foram identificados os seguintes:

Tipo 6 (Globulares com colo) - Formas possivelmente globulares fechadas, com colo, que possivelmente se desenvolvem com fundos em saco (SENNA-MARTINEZ, 1989a e 1995a; VALERA, 1997a) mas que devido ao elevado estado de fragmentação dos presentes exemplares não é possível determinar com segurança. Apenas foi identificado 1 exemplar, com um bordo redondo (Estampa VII.188/95);

99 Para além do sítio do Ameal-VI, este tipo cerâmico encontra-se também representado noutros sítios de habitat do Neolítico final regional, nomeadamente nas Barrocas (VENTURA, 1993 e dados inéditos) e Quinta Nova (SENNA-MARTINEZ, inf. pessoal), ambos no concelho do Carregal do Sal. 100 Para as questões de cronologia ver Ponto 4 e 5.

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Tipo 8 (Globulares fechados) - Formas globulares de tendência fechada, correspondendo ao Tipo 8 (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a e 1995a). Encontra-se representado por um só exemplar, que apresenta um bordo em Bisel simples interno (Estampa VII.124/94);

Tipo 9 - Desta forma, apenas conhecemos o seu colo, podendo corresponder tanto a formas em "saco" ou então a formas de colo, mas com corpo globular ou afim. No entanto o estado de conservação não permite outras inferências. É o tipo mais comum, entre as formas identificadas, com 4 ocorrências na UE.7, de onde foram identificas apenas 6 recipientes enquadráveis em Tipos. Dominam os bordos em bisel simples interno (Cf. Anexos III). De destacar, que é neste Tipo que se encontra o único exemplar decorado (impressão, Cf. Estampa VII.11/93), cuja forma foi reconstituída.

Tal como ocorria com as cerâmicas recuperadas da UE.20, também as da UE.7 apresentam uma certa homogeneidade em termos de pastas, já que a totalidade dos fragmentos analisados apresenta uma consistência média e 75% das mesmas é xistosa em termos de textura. Por outro lado, em termos de e.n.p. eles apresentam-se em pequeno número, ocupando menos de 10% da superfície e fracturas da pasta, denotando pastas bem depuradas, onde existe um equilíbrio entre as micas, os feldspatos e os quartzos. Só num caso o calibre dos e.n.p. é superior aos 3 mm de diâmetro.

Todas os 4 recipientes apresentam superfícies vermelho-acastanhadas, que denunciam cozedura em ambientes oxidantes, enquanto que as superfícies se encontram alisadas, excepto num exemplar, onde a superfície interior foi polida, para eventualmente criar uma impermeabilização, destinando-se possivelmente, devido à sua pequena dimensão (Cf. Estampa VII.160/94) para o consumo de líquidos.

Para além deste pequeno conjunto foi ainda recuperado da UE.7, um pequeno fragmento de asa de rolo, de secção transversal circular. Na impossibilidade de se poderem reconhecer vestígios de fixação da mesma, énos impossível determinar, se este elemento corresponderia a elemento isolado ou a um sistema de asas duplas, como ocorrem por exemplo nas ocupações neolíticas do Penedo da Penha, Nelas e Buraco da Moura de S. Romão, Seia (VALERA, 1997a:88 e 166)

3.3.2. Os estilos decorativos No que se refere à decoração detectada nos fragmentos provenientes da UE.7, esta resume-se a 2 fragmentos (0,8% da amostra), que apresentam nos dois casos a técnica da impressão. Num dos casos foi detectado um motivo impresso, organizado em três bandas horizontais, paralelas ao bordo (código 1.1. na Matriz), enquanto que noutro o motivo aparenta ser um linha, utilizando o puncionamento arrastado tipo boquique (código 1.3.). Quanto ao motivo não foi possível determiná-lo devido às dimensões reduzidas do fragmento.

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Na totalidade do conjunto, proveniente das UE.0 a 2 surgem também fragmentos cerâmicos decorados com técnicas e motivos similares, onde se destacam a incisão em bandas horizontais caneladas, impressão, elementos plásticos sob a forma de pequenos mamilos (Cf. Estampas VIII)e, se a considerarmos decoração o engobe a Almagro. Poder-se-á considerar, que alguns destes fragmentos são provenientes de remeximentos nas terras de enchimento da mamoa, que foram assim deslocados para a superfície desta. Um factor, que parece confirmar esta interpretação tem a ver com a localização destes fragmentos nos quadrados correspondentes às referidas Sanjas, em zonas afastadas da câmara megalítica.

Assim, o conjunto passa para 304 fragmentos, dos quais 5 apresentam decoração (1,6% da amostra) onde domina a impressão com 3 ocorrências (60% de entre os decorados), seguida da incisão e decoração plástica, com uma ocorrência cada. No entanto, perante uma amostragem tão diminuta e, baseando-nos só nos poucos exemplares em presença, estas constatações não são mais do que simples referências, já que disso não podem passar.

Perante o escasso número de bordos que permitia o estabelecimento de formas, procurámos estabelecer a ocorrência de formas abertas e fechadas101. Para tal, houve necessidade de extrapolar algumas das eventuais reconstituíções gráficas de modo a permitir o maior número possível de determinações com segurança. Assim dos 25 bordos presentes na amostra, foi possível distinguir em 13 deles (52% dos bordos) se pertenciam a formas abertas ou fechadas, com se pode constatar no Quadro III.25. Quadro III.25 Orca 2 do Ameal: Frequências de Formas Abertas e Fechadas UE.0 e 2 UE.7 UE.20 Formas Ocorrência % total Ocorrência % total Ocorrência % total Abertas 1 50% 2 22,22% 2 100% Fechadas 1 50% 7 77,77% 0 total 2 100% 9 100% 2 100%

Perante estes dados podemos considerar, salvaguardando a dimensão da amostra e as condições de jazida, que os recipientes provenientes da UE.7 são predominantemente formas fechadas, surgindo a única forma decorada desta UE. como aberta. No entanto a situação do conjunto da UE.20 é completamente o inverso, já que estas são exclusivamente abertas.

Todas as características, enunciadas para o conjunto da UE.7, parecem distância-las dos tipos cerâmicos conhecidos para ambientes afins de algumas deposições em monumentos megalíticos102. Por outro lado, a presença de decoração e a predominância de formas fechadas, parecem aproximar este conjunto dos conhecidos para o Neolítico antigo ou de tradição antiga, conhecidos na região, que incluem o sítio das Carriceiras, Carregal do Sal, Penedo da Penha, Nelas e Buraco da Moura de S. Romão, Seia. 101 Na situação ideal, procedíamos a uma filtragem dos dados tendo em conta os valores dos índices: formas Fechadas (Ia1 ≤89) e formas Abertas (Ia1 ≥90). 102 Nomeadamente dos conjuntos associados aos ambientes tipo «Ameal-VI».

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As Carriceiras apresentam um conjunto artefactual onde avulta a indústria lítica de pedra lascada sobre lamela e lasca, predominantemente sobre quartzo (61% da amostra), com alguns poucos fragmentos cerâmicos (Cf. SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994:60; SENNA-MARTINEZ, 1997), com formas predominantemente fechadas, minoritariamente decorada103 através da técnica da impressão, incisão e também plástica.

O conjunto das Carriceiras, parece apresentar alguns pontos de contacto com o aqui em estudo, em especial no que diz respeito à cerâmica. No entanto, o reduzido número de elementos cerâmicos do conjunto das Carriceiras, não nos permite estabelecer uma outra relação senão "um certo ar de família" entre esse conjunto e o da UE.7.

Ainda na Plataforma do Mondego, os arqueosítios do Penedo da Penha, a pouco menos de 8 Km em linha recta do sítio em estudo e, o Buraco da Moura de S. Romão, permitiram a recuperação de um importante conjunto ceramológico, onde as técnicas e os motivos presentes na UE.7 também se encontra aí replicados, entre outros. As frequências de fragmentos decorados são extremamente elevadas, atingindo valores bem superiores aos 50%, onde surgem associados a formas predominantemente fechadas, como esferóides, globulares, recipientes tipo "garrafa" e recipientes parabolóides com e sem colo. Os fundos destes recipientes são convexos e cónicos com espessamento (Cf. VALERA, 1997a:88)104.

Também são conhecidos alguns sítios atribuíveis ao Neolítico antigo e antigo evolucionado, na zona do baixo Mondego, nomeadamente as estações do Forno da Cal, Várzea do Lírio e Junqueira105 (JORGE S., 1979; VILAÇA, 1988). A análise ceramológica efectuada nestes sítios, permitiu identificar formas tipo "saco", globulares e em calote de esfera, predominantemente abertas, onde se destaca a dominância da técnica da impressão com punção106 sobre os motivos incisos e plásticos, as percentagens de decoração, atingem valores próximos dos 40% (JORGE S., 1979:64) o que apesar de corresponderem a amostragens pouco significativas107, parece-nos que se afastam do conjunto aqui em estudo.

No nordeste de Portugal, mais concretamente no Buraco da Pala, Mirandela, no nível IV, atribuído a um "neolítico de tradição meridional", surgem cerâmicas, apesar de pouco frequentes, assumem formas em saco, predominantemente fechadas e onde a decoração, surge em 44% dos recepientes, dominando a técnica da impressão/puncionamento arrastado, com alguns elementos com decoração plástica. Tendo em conta as técnicas estilísticas, este conjunto é relacionado, com uma expansão para o norte da "Cultura das Grutas" da Andaluzia espanhola (Cf. SANCHES, 1995:125-7). 103 Com frequências que se aproximam das aqui apresentadas (SENNA-MARTINEZ, 1997). 104 Recentemente foram apresentados dados referente ao arqueosítio da Quinta do Soito, Nelas, onde, na pequena sondagem efectuada, foi possivel detectar um conjunto de cerâmicas inseríveis neste conjunto (VALERA, 1997b). 105 Refira-se ainda, que na área do baixo Mondego, foram recuperados alguns materiais da Eira Pedrinha inseríveis em ambientes afins do Neolítico antigo e antigo evolucionado (Cf. VILAÇA, 1988:19-23). 106 Não são por isso considerados os motivos elaborados com Cerastoderma edule. 107 O que também pode ser referido em relação ao conjunto em estudo.

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No Maciço Calcário Estremenho, é conhecido o importante conjunto da Gruta do Caldeirão, Tomar, onde nos «horizontes NA1 e NA2» foram recuperados um conjunto de recipientes cuja tipologia de formas e decoração se aproximam com as aqui em estudo, nomeadamente com o predomínio de formas fechadas tipo de "saco". Outras semelhanças também podem ser encontradas, ao nível da indústria lítica de pedra lascada108. No entanto em qualquer destes dois «horizontes» existe uma elevada percentagem de fragmentos decorados, com incisões, impressões109 e elementos plásticos (Cf. ZILHÃO, 1992:80-93).

Relativamente ao litoral do sudoeste alentejano110, os dados disponíveis, apesar de indicarem uma certa familiaridade entre formas cerâmicas, onde dominam os globulares fechados e, onde as técnicas mais utilizadas são a impressão e a incisão a par de alguns elementos plásticos e com motivos decorativos em tudo similares aos provenientes da UE.7 da Orca 2 do Ameal111, apresentam percentagens elevadas de ocorrências, em alguns dos casos bastante superiores aos 50% (Cf. SOARES & SILVA, 1979; SILVA & SOARES, 1981).

Por outro lado, no que respeita a conjuntos cerâmicos atribuíveis ao Neolítico final regional112, apenas conhecemos, na actualidade, os conjuntos que Senna-Martinez apelidou de «Tipo Ameal-VI»113, todos eles localizados na bacia do médio Mondego. Nestes conjuntos, a decoração encontra-se ausente, predominando formas abertas como pratos, taças e tigelas hemi-esféricas e elipsoidais. Os globulares fechados, apesar de presentes, apresentam frequências reduzidas (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a, 1995a).

Como já foi referido o conjunto constituído pelos Tipos 3 e 4, apresenta características morfológicas, que permitem diferenciá-las inquestionavelmente do restante conjunto, em especial das provenientes da UE.7. Pelo que se conhece das formas deste Neolítico final, parece-nos que este primeiro conjunto, deva ser inserido numa realidade afim do conjunto do Ameal-VI. Estes materiais seriam assim o resultado de uma ocupação na área circundante do monumento, em momentos em que este se encontrava desactivado, pelo menos na sua função funerária. Assim, não corresponderiam a deposições voluntárias sobre o mesmo, visto que se localizavam fora da área tumular do monumento, em zona claramente exterior a este, onde não se detectaram quaisquer estruturas.

108 Como irá ser abordado em seguida. 109Onde avulta a decoração «Cardial». 110 Como sejam o caso das estações de Vale Pincel I, Samouqueira, Vale Vistoso e Salema (Cf. SOARES & SILVA, 1979; SILVA & SOARES, 1981:45-99). 111 Para além de semelhanças claras em termos de indústria lítica de pedra lascada, abordada mais adiante. 112 Que pela informação cronométrica abrange, para a Plataforma do Mondego, um intervalo de tempo que abarca a 2ª metade do IV milénio à 1ª metade do III milénio cal AC. Sobre esta problemática, veja-se o Ponto 4. 113 E que engloba sítios como o Ameal-VI, o Mimosal, Quinta Nova, Pedra Aguda, Barrocas, no concelho de Carregal do Sal e o sítio do Murganho 2 em Nelas (Cf. VENTURA, 1993; SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995a)

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3.3.3. Os Artefactos Líticos de Pedra Lascada Na análise da indústria de pedra talhada, foi possível determinar os artefactos patentes no Quadro III.26:

Quadro III.26 UE.7 Orca 2 do Ameal: Inventário da Indústria Lítica de Pedra Lascada (N=90) Matéria-Prima Sílex Quartzo % Total % Sílex % Quartzo Flanco de reavivamento de Núcleo *** 2 2,2 *** 100 Lascas parcialmente corticais 7/3a) 1 12,2 90,9 9,1 Lascas não corticais 6/4a) 6 17,8 62,5 37,5 Esquírolas e pequenas lascas 7/2a) 5 15,6 64,3 35,7 fragmentos inclassificáveis *** 2 2,2 *** 100 Lamelas 13 2 16,7 86,7 13,3 Lamelas parcialmente corticais 13 2 16,7 86,7 13,3 Lamelas de crista 3 1 4,4 75 25 Lamelas de crista parcialmente corticais 3 1 4,4 75 25 Geométricos 1 *** 1,1 100 *** Raspadores e Lascas retocadas 2/1a) 3 6,7 50 50 Total 65 25 100 72,2 27,8 a) peça que apresenta indícios de pré-aquecimento e/ou calcificação

É assim possível verificar, que também neste conjunto existe uma predominância do sílex, enquanto matéria-prima preferencial, com 72,2% de ocorrências. Este domínio é verificado em todas as categorias à excepção dos flancos de núcleo, exclusivamente em quartzo leitoso e nos raspadores, onde existe um equilíbrio em termos de matérias-primas.

De destacar que tal como acontece com algumas estações do Neolítico antigo, da Plataforma do Mondego114, do Sudoeste Alentejano e do Maciço Calcário Estremenho, neste último, em especial a Gruta do Almonda (Cf. CARVALHO, 1996:42-44), também os valores provenientes da UE.7 apontam para uma predominância desta matéria-prima, apesar da sua relativa ausência na região em apreço (Cf. VALERA, 1997a:190), o que nos pode dar pistas quanto às origens desta realidade. Os valores ponderais das matérias primas representadas são igualmente elucidativos (Cf. Figura III.4) já que os materiais em sílex somam 370g (64,9%), resumindo-se o quartzo a apenas 200g (35,1%).

114 Nomeadamente Penedo da Penha, Nelas e Buraco da Moura de S. Romão, Seia (VALERA, 1997a:113).

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Sílex

Número Peso

Quartzo

0

20

40

60

80

% Figura III.4 - Matérias-primas utilizadas no talhe da pedra: número de peças e respectivo peso (em gramas). De notar, que o sílex domina inteiramente nos dois âmbitos, ao contrário do que ocorre no sítio das Carriceiras (SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994; SENNA-MARTINEZ, 1997) e em consonância com os dados do Penedo da Penha e Buraco da Moura de S. Romão (VALERA, 1997a).

Neste conjunto de pedra lascada, dominam os produtos sobre os utensílios, com 90% das ocorrências, dos quais 75,3% são em sílex. Quanto aos utensílios, 7,8% das ocorrências da indústria de pedra lascada, o sílex é a matéria-prima em 57,1% dos casos.

A análise deste conjunto (em bruto e retocados) permite estabelecer que os produtos alongados, correspondem a 43,3% (39 ocorrências) desta indústria e, as lascas, correspondem a 36,7% (33 ocorrências), continuando em qualquer dos grupos a predominância do sílex.

No que diz respeito ao material de reavivamento deste arqueosítio, foi possível recuperar dois flancos de reavivamento de núcleo, em quartzo leitoso, possivelmente de tipo prismático. Os negativos de levantamentos observáveis, permitiram-nos estabelecer que um se destinou à debitagem de produtos alongados lamelares e o outro para a extracção de lascas.

3.3.4. Os Produtos Alongados A maioria da debitagem de sílex, recolhida na UE.7 da Orca 2 do Ameal, é composta por produtos alongados (lâminas e lamelas) conforme se demonstrou no Quadro III.26. Estas peças perfazem 43,3% do total do material de debitagem (material retocado inclusive), enquanto que as lascas e derivados equivalem a 36,7%. __________________________________________________________________________________________ 105


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Esta preferência de suportes alongados em contraponto à utilização de lascas, aproxima este conjunto dos detectados no sudoeste Alentejano, no nordeste Transmontano e na Estremadura portuguesa, que são inseríveis no Neolítico antigo, em oposição aos momentos do Neolítico antigo evoluído e Neolítico médio, nas mesmas áreas, onde a utilização das lascas passa a deter uma maior importância (SOARES & SILVA, 1979; SILVA & SOARES, 1981; SANCHES, 1995; CARVALHO, 1996 e 1995/96)115.

A determinação das dimensões dos produtos alongados (Cf. Anexos III) permitiu estabelecer as médias que seguidamente se apresentam (os cálculos sobre a largura foram obtidos sobre 14 exemplares e a espessura sobre 15 exemplares): Largura média: 9,8±1,9 mm Espessura média: 3±0,9 mm

A média das larguras dos produtos alongados é inferior ao limite convencional da largura mínima de peças laminares, que situamos nos 12 mm116 (TIXIER, INIZAN & ROCHE, 1980; CARVALHO, 1996), mesmo considerando o desvio-padrão, podendo-se assim concluir-se que se está perante uma indústria de dimensões lamelares, à semelhança das estações, atribuíveis ao Neolítico antigo e antigo evolucionado da Estremadura, Alto Douro e do litoral alentejano (SOARES & SILVA, 1979; SILVA & SOARES, 1981; ZILHÃO & CARVALHO, 1994; Sanches, 1995; CARVALHO, 1996 e 1995/96)117. No Quadro III.27, são apresentados os valores absolutos e percentuais das várias categorias de larguras dos produtos alongados. Quadro III.27 UE.7 da Orca 2 do Ameal: Frequências das larguras dos produtos alongados [sílex e quartzo, brutos e retocados] (N=14) UE.7 (ORAM2) Largura total % < 6 mm *** *** 6-7,9 mm 1 7,1% 8-9,9 mm 8 57,2% 10-11,9 mm 2 14,3% 12-13,9 mm 3 21,4% 14-15,9 mm *** *** 16-17,9 mm *** ***

115 A elevada frequência de produtos sobre lasca, pode levantar a questão de o presente conjunto se encontre em plena fase de transição, entre os conjuntos do Neolítico antigo, para o Neolítico médio (Cf. CARVALHO, 1996 e 1995/96) o que pode ser perfeitamente defensável, se lida em conjunto com os dados provenientes da cerâmica. Por outro lado, a realidade patente nos conjuntos líticos de pedra lascada, do Neolítico final regional, demonstra, por exemplo, que na Cabana 3 do sítio do Ameal-VI, apesar de dominarem globalmente os produtos e utensílios sobre lasca, com 58,4% das ocorrências, contra 41,6% para os lamelares e laminares, em termos exclusivos de utensíilios retocados esta visão altera-se para uma predominância total dos produtos laminares (SENNA-MARTINEZ, 1995/96b), à semelhança do que também parece ocorrer para os conjuntos do Neolítico final do Maciço Calcário Estremenho (ZILHÃO,1994). 116 Vide nota 23. 117 Tal como parece também ocorrer com os conjuntos da Plataforma do Mondego inseríveis neste período crono-cultural (SENNA-MARTINEZ, 1997; VALERA, 1997b).

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Na Figura III.5, comparam-se os valores percentuais, presentes no anterior Quadro, com os provenientes da Gruta do Almonda e da Pena d'Água (nível Ea)118 (CARVALHO, 1996 e 1995/96) sendo possível verificar, que apesar das eventuais condições de deposição e tendo em conta a possibilidade de uma amostra truncada119, não deixa de ser sintomático a semelhança entre os resultados, que mais uma vez contribuem para uma eventual atribuição deste conjunto de artefactos a comunidades portadoras de uma cultura atribuível ao Neolítico antigo ou de tradição antiga120.

< 6 mm

L a r g u r a s

6-7,9 mm 8-9,9 mm 10-11,9 mm 12-13,9 mm 14-15,9 mm

UE.7 ORAM 2 UE.7 ORAM 2 Gruta do Almonda Gruta do Almonda Pena d’Água Pena d’Água

16-17,9 mm 18-19,9 mm 20-21,9 mm 22-23,9 mm 0

10

20

30

40

50

60

% Figura III.5 - Larguras dos produtos alongados em sílex e quartzo provenientes da UE.7 da Orca 2 do Ameal (N=14), da Gruta do Almonda (N=93) e da Pena d'Água c. Eb (N=77) (Cf. CARVALHO, 1996 e 1995/96). Pode-se observar neste gráfico a semelhança estatística entre os conjuntos dos arqueosítios do Maciço calcário estremenho, atribuíveis ao Neolítico antigo e os artefactos recuperados da UE.7 da Orca 2 do Ameal.

3.3.5. As Lascas Quanto ao conjuntos das lascas, também elas dominadas, em termos de matéria-prima, pelas produções em sílex, foi efectuada a determinação das suas dimensões médias (os cálculos sobre o comprimento foram obtidos com 16 exemplares, a largura sobre 20 exemplares e a espessura sobre 22 exemplares) sobre a totalidade dos exemplares brutos e retocados: Comprimento médio: 24,6±6,3 mm Largura média: 20,5±6,8 mm Espessura média: 5,6±1,9 mm 118 O recurso aos dados provenientes do Maciço calcário estremenho, deve-se à ausência de dados deste teor em zonas mais próximas da área em apreço. 119 Cf. Ponto 2 da presente Dissertação. 120 Neste caso, entendível como grupos humanos, que apesar de cronologicamente não serem coevos deste momento desenvolvem uma cultura material que os torna indistingiveis da realidade atribuível ao Neolítico antigo.

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O conjuntos de lascas, provenientes da UE.7, parece indiciar, a presença de duas realidades, em termos de métodos de debitagem. Por um lado, processos de conformação final de núcleos parcialmente descorticados121, indicado pela presença significativa de elementos com córtex parcial (42,4% das lascas detectadas), ao mesmo tempo que se assinala a presença de uma exploração de pequenas lascas, eventualmente, através do reaproveitamento de pequenos núcleos. No entanto, a ausência deste tipo de núcleos apenas pode levantar a questão mas não confirmá-la. De notar que esta realidade também pode ser observada nos produtos alongados, com um elevado número (19 ocorrências) de lamelas parcialmente corticais correspondendo a 50% destes produtos.

Os talões das lascas e dos produtos alongados da UE.7 da Orca 2 do Ameal apresentam algumas diferenças entre si, tendo em conta a técnica de debitagem utilizada, conforme é possível verificar no Quadro III.28122. Apesar do reduzido número de peças que possibilitaram esta análise (26,1% da amostra) é possível verificar, que no conjunto, onde foi possível identificar as diversas técnicas de debitagem, a maioria dos produtos (71,4%) a apresentarem indícios de debitagem por percussão directa e, somente, 28,6% a apresentarem as restantes técnicas, nomeadamente através de talões punctiformes (Cf. Anexos III) e a dimensão do produto (Cf. CARVALHO, 1996 e 1995/96) a indicar a eventual extracção por percussão indirecta. De salientar que no caso das lascas, apenas foi detectada a percussão directa. Esta coexistência de técnicas, foi também detectada nos conjuntos do Neolítico antigo, provenientes da Estremadura portuguesa, onde permite demarcar estes conjuntos dos do Mesolítico (CARVALHO, 1995/96). Quadro III.28 UE.7 da Orca 2 do Ameal: Técnicas de debitagem conforme os dados dos talões (N=23) Pressão e Percussão indirecta Percussão directa Lamela em sílex 4 (28,6%) 10 (71,4%) Lamela de crista em sílex 3 *** Lamela em quartzo *** 2 Raspador em sílex *** 1 Raspador em quartzo *** 3 Total 7 16

Associado a esta realidade, foram identificados várias elementos com indícios de pré-aquecimento antes da debitagem, conforme se apresenta no Quadro III.29. Deva-se referir que se é possível observar esta técnica, ela continua minoritária no conjuntos das peças analisadas, já que para o caso da Orca 2 do Ameal (UE.7), esta realidade é de 15,4%, para a totalidade das peças em sílex e de 11,1% para a totalidade da amostra.

121 Os núcleos teriam sido transportados para a eventual zona de habitat, parcialmente já descorticados, daí a ausência de lascas e produtos alongados corticais, neste conjunto. 122 Para a determinação da técnica de debitagem utilizada, utilizou-se a proposta de António Faustino CARVALHO (1996:106-7).

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Quadro III.29 UE.7 da Orca 2 do Ameal: Vestígios de pré-aquecimento e/ou calcificação (N=10) Nº % total a) % total b) Lascas parcialmente corticais 3 27,3% 30% Lascas não corticais 4 25% 40% Esquírolas e pequenas lascas 2 14,3% 22,2% Raspadores e lascas retocadas 1 16,7% 33,3% Total 10 11,1% 15,4% a) Em relação à mesma categoria de produtos e utensílios; b) Em relação à mesma categoria de produtos e utensílios em sílex

Quanto às técnicas de fragmentação intencional das peças, foram identificadas as técnicas patentes no Quadro III.30, onde é possível verificar, que apesar da presença da técnica do micro-buril, em 3 exemplares (20%), esta é minoritária, conjuntamente com a percusão, visto que a flexão foi a técnica mais utilizada neste conjunto, com 10 exemplares (66,7%)123. Quadro III.30 UE.7 da Orca 2 do Ameal: Técnicas de fractura intencional (N=15) Técnica total % Micro-buril 3 20 Flexão 10 66,7 Percussão 2 13,3

3.3.6. O Geométrico A listagem dos utensílios existentes no conjunto lítico recuperado desta UE., inclui um pequeno segmento de circulo ou crescente em sílex (Estampa V.98/94). Apesar de fragmentado é possível determinar que foi extraído de uma lamela, parcialmente cortical. O seu retoque, limitado à truncatura, é directo, abrupto e escalariforme.

As características morfométricos124 desta peça, aproxima-a bastante dos elementos do mesmo tipo recuperados em sítios inseríveis no Neolítico antigo e antigo evolucionado, como sejam o caso do sítio das Carriceiras, Carregal do Sal (Cf. SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994:Fig.5), Penedo da Penha, Nelas e Buraco da Moura de S. Romão, Seia (Cf. VALERA, 1997a) para além de utensílios do mesmo tipo provenientes do arqueosítio da Várzea do Lírio, Figueira da Foz (JORGE S., 1979:Fig.5). É patente uma certa "padronização", visível nas dimensões, dos exemplares referidos, em situação similar aos dos conjuntos recuperados no Maciço Calcário

123 Destaque-se que nas estações do Neolítico antigo, do Maciço Calcário Estremenho, apenas foram identificas as técnicas de flexão e percussão, apenas surgindo a técnica do microburil em contextos do Neolítico da costa sudoeste alentejana, onde é predominante (Cf. CARVALHO, 1996 e 1995/96; SOARES & SILVA, 1979; SILVA & SOARES, 1981), enquanto que no sítio das Carriceiras a técnica mais utilizada é a flexão, sendo as outras duas minoritárias (SENNA-MARTINEZ, 1997). 124 Os observáveis directamente e, extrapolados no caso do cumprimento.

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Estremenho (Cf. CARVALHO, 1996:136-9) em oposição por exemplo ao conjunto das câmaras das Orcas 1 e 2 do Ameal125.

3.3.7. Integração crono-cultural da indústria lítica Um dos aspectos que ressalta do conjunto da UE.7 da Orca 2 do Ameal, é a predominância de matériasprimas, dificilmente obtiveis na região126, na produção lítica talhada. O domínio do sílex em quase todas categorias de produtos e utensílios é flagrante, levantando questões sobre eventuais áreas de abastecimento e no caso de importação, das rotas seguidas, questão que necessita de ser explorada a fundo, de modo a responder a várias questões formuladas ao longo do tempo127. No entanto, é necessário não esquecer que a vertente lamelar detectada e, em especial, a certa padronização visível, por exemplo na larguras dos produtos e utensílios, só é possível, com a utilização quase exclusiva do sílex, situação essa que também é perpetuada nos conjuntos das câmaras megalíticas dos dois monumentos.

Outro aspecto a salientar, do presente conjunto, tem a ver com a organização da produção da indústria de pedra lascada, onde se destaca, mais uma vez a predominância dos produtos brutos de debitagem - lamelas e lascas - sobre os utensílios, situação que normalmente se encontra associado a sítios de habitat, em contraponto aos sítios funerários, onde quase exclusivamente surgem utensílios128.

Assim, estaremos perante uma situação de produção e utilização destes produtos e a sua transformação em utensílios, quando muitos destes produtos não o são em bruto, ou seja, sem retoque prévio, criando-se instrumentos de ocasião ou a posteriori. Como, já referimos anteriormente, a preponderância dos produtos sobre os utensílios, tem a ver, por um lado, com as condições especiais de deposição, visto que o abandono da maioria dos utensílios, ocorreria na zona de utilização e, por outro lado, não é impensável, que numa situação de zonas de ocupação precária, temporal e eventualmente de curta duração129, todos os utensílios passíveis de serem reaproveitados e/ou conformados fossem recolhidos aquando do abandono do local pelo grupo humano130. Por outro lado, é um facto conhecido, que no Neolítico, o maior investimento de trabalho, processa-se sobre o produto e não o utensílio (Cf. CARVALHO, 1995/96).

Em qualquer dos casos, quer ao nível de produtos em bruto, como ao nível de instrumentos, o domínio recai sobre a produção lamelar, alguma dela debitada no local, tendo em conta a frequência de pequenas lascas e 125 Destaque-se que nos exemplos referidos, estes foram efectuados sobre suportes lamelares com menos de 6 mm de largura, enquanto que os geométricos, provenientes dos monumentos megalíticos estudados e referidos, só num caso, a Lapa de Tourais, Seia, apresentou 1 exemplar, entre 93 com valores inseríveis nessa categoria (Cf. Figura III.1). 126 Volte-se a referir os dados provenientes de VALERA ( 1997a:107-8) para a eventual possibilidade de abastecimento limitado local de sílex. 127 Refira-se a este propósito SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995a e VALERA, 1997a:108. 128 No caso do sítio das Carriceiras, os produtos brutos de debitagem atingem os 86,7% (SENNA-MARTINEZ, 1997). 129 Neste aspecto acreditamos que a situação aqui presente é similar, às detectadas nos sítios do Neolítico final regional (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a e 1995a), padrão este que também pode ser identificado nos sítios do Neolítico antigo ou de tradição antiga, das Carriceiras (SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994; SENNA-MARTINEZ, 1997) e Várzea do Lírio (JORGE S., 1979). 130 Relembremo-nos só a título de exemplo a situação dos Nunamiut, referida por BINFORD (1988:127-153).

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esquírolas, resultado da conformação e preparação dos núcleos, para a debitagem destes produtos alongados, utilizando predominantemente a técnica da debitagem por percussão directa, complementada, eventualmente, pela percussão indirecta. Estes produtos lamelares, seriam depois ou utilizados em bruto (a posteriori, sem retoque) ou transformados em diversos utensílios, de onde apenas nos restam um geométrico e os raspadores, mas cujo repertório artefactual deveria incluir as mesmas categorias de utensílios detectados em arqueosítios cronoculturalmente afins, como o caso das Carriceiras (SENNA-MARTINEZ, 1997) e Penedo da Penha (VALERA, 1997b), apenas para indicar os mais próximos.

A presença de produtos alongados parcialmente corticais e de lamelas de crista, parecem apontar para que a debitagem se tenha efectuado quase exclusivamente para a extracção de suportes para utensílios e à realização de operações de manutenção dos núcleos. Isto implicaria que os núcleos tivessem sido preparados, através extracção parcial do córtex e da preparação dos planos de percussão (CARVALHO, 1996:45). No entanto a ausência de qualquer indício relativo a núcleos não nos permite avançar com outra informação, nem quanto às Cadeias Operatórias presentes no sítio, devido ao pequeno número e variedade de utensílios recolhidos.

Relativamente à representatividade de grupos tipológicos de utensílios, foram considerados os seguintes:

1.

Lascas em bruto, devido a eventualidade destas poderem constituir utensílios "em bruto" e de "ocasião";

2.

Utensílios, que têm por produto base as lascas, neste caso os raspadores e lascas retocadas;

3.

As lamelas, pelas mesmas razões aduzidas para as lascas;

4.

As lamelas de crista, para a determinação da importância deste grupo no global do conjunto;

5.

Os geométricos.

É possível observar (Cf. Figura III.6), que de imediato sobressai o grupo das lamelas, que em conjunto com as lamelas de crista constitui o grupo dominante (52,8%), em termos do conjunto da produção lítica de pedra talhada. Assim, predominam os grupos de utensílios, adequados ao corte131, enquanto os instrumentos fundamentalmente destinados à raspagem, como as lascas e raspadores apenas representam 45,8%, do conjunto. O único geométrico presente tanto pode ser interpretado como ponta de projéctil, inserivel por isso numa economia de caça, enquanto que, também pode ser compreendido como parte de utensilagem compósita, quer em termos de corte e/ou raspagem132.

131 Ainda que se possa ponderar alguns destes como multifuncionais, devido à sua adaptação para função de raspagem. 132 De salientar, como curiosidade, que a percentagem dos geométricos neste conjunto, os aproximam mais dos conjuntos do Calcolítico regional e da Estremadura portuguesa, do que dos conjuntos do Neolítico antigo conhecidos (Cf. UERPMANN, 1995:42; VALERA, 1997a:112).

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Lascas Lascas retocadas/Raspadores Lamelas Lamelas de crista Geométricos 0

10

20

30

40

50 %

Figura III.6 - Representatividade relativa dos grupos tipológicos de utensílios (em bruto e retocados). Verifique-se a dominância dos conjuntos baseados em lamelas, por isso com uma função de corte, em relação ao conjunto de raspagem.

Se compararmos este conjunto com os provenientes de outras estações atribuíveis ao Neolítico antigo, como por exemplo do Maciço Calcário Estremenho e do Nordeste Transmontano (Cf. SANCHES, 1995; CARVALHO, 1996)133, verifica-se de imediato a ausência de determinados grupos no nosso conjunto, visto que nestas áreas estariam também presentes as peças de retoques marginais descontínuos, denticulados, para além de raspadores, de utensílios a posteriori e geométricos, especialmente representados por crescentes (Cf. CARVALHO, 1996 e 1995/96). A ausência de grande parte destes grupos de utensílios, poderá ser explicada por duas hipóteses: Uma delas teria a ver com uma amostra truncada, onde estariam ausentes determinados elementos; a outra hipótese, seria de estarmos perante um conjunto especializado, eventualmente uma "oficina de talhe". Quanto à primeira hipótese, consideramos que a eventual truncagem da amostra não seria suficiente para eliminar na totalidade determinados grupos de instrumentos, o máximo que poderia ocorrer era a sobrevalorização de determinada categoria de utensílio em detrimento de outra. A segunda hipótese, apesar de atraente, poderá ser desmentida pela presença relativa de fragmento cerâmicos, o que inviabiliza uma opção deste género134. Por isso é bem possível, que se esteja perante uma situação híbrida, onde os materiais, que foram transportados para o enchimento do tumulus, poderiam ter origem em diversas zonas de habitat, de funções diferenciadas - zonas de habitação versus "oficinas de talhe" - ou então sejam provenientes de conjuntos de ocupação humana diferenciados em termos de Tempo.

133 Era nosso intuito utilizar dados de arqueosítios localizados na Plataforma do Mondego. Infelizmente, ao momento da elaboração deste ponto, não possuímos qualquer informação pormenorizada sobre as Carriceiras, o Penedo da Penha, o Buraco da Moura de S. Romão, o mesmo acontecendo com o conjunto de arqueosítios do baixo Mondego. 134 Veja-se por exemplo a crítica de António Faustino Carvalho, sobre a mesma questão aplicada à estação da Cabranosa, Sagres (Cf. CARVALHO, 1995/96).

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Para, poder aceitar esta última hipótese teria-se que analisar o conjunto proveniente da UE.7 da Orca 2 do Ameal, em paralelo com outros inseríveis na mesma sincronia crono-cultural regional.

No que se refere aos dados acerca da indústria de pedra talhada de outros contextos habitacionais, atribuíveis ao Neolítico antigo ou de tradição antiga da Plataforma do Mondego135 provêm dos sítios das Carriceiras136 e, das ocupações neolíticas do Penedo da Penha e Buraco da Moura de S. Romão137, onde a informação disponível sobre esta indústria, nos indicam uma preferência por suportes lamelares ou micro-laminares maioritariamente em quartzo, para o primeiro caso138 e em sílex139, nos dois últimos. No entanto, pelo facto dos estudos, em especial sobre os dois últimos, não terem sido ainda publicados, não possuímos ainda informações definitivas, para além daquelas que já foram tornadas públicas.

No entanto, para estes três conjuntos de materiais, os respectivos investigadores são unânimes em propor uma inserção no Neolítico antigo, das mesmas. Para o caso das Carriceiras (SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA,

1994:60, SENNA-MARTINEZ, 1997) é proposta uma filiação na tradição do Neolítico antigo evolucio-

nado/tardio, do Maciço Calcário Estremenho, tendo em conta as semelhanças entre os raros elementos cerâmicos recuperados e a sua indústria lítica, com a recuperada, nos sítios do baixo Mondego140 e na Gruta do Caldeirão «Horizontes NA1 e NA2»141.

Por outro lado, para os materiais neolíticos, do Penedo da Penha e do Buraco da Moura de S. Romão, com uma grande identidade comum (CARVALHO, 1996:13; VALERA, 1997a:165-6 e 1997b), onde predominam cerâmicas profusamente decoradas, com uma produção lítica orientada para os suportes lamelares e lascas, ainda que residualmente surjam suportes laminares. Propõe-se para esta realidade paralelos com as ocupações neolíticas do Buraco da Pala142 e da Fraga D'Aia143, para além de sítios análogos mesetenhos e, em especial, da Andaluzia (Cf. VALERA, 1997a:165-7 e 1997b).

A indústria lítica, da UE.7, é inquestionavelmente de cariz Neolítico antigo ou antigo evolucionado, quer ao nível de características morfométricas, com a predominância de produtos alongados lamelares, seguida 135 As estações da Junqueira e Várzea do Lírio (JORGE, 1979; VILAÇA, 1988), situam-se já no baixo Mondego, fora da nossa área de estudo. Os resultados provenientes destes dois sítios são, no entanto, consonantes com os provenientes de outras estações afins do Maciço Calcário estremenho (CARVALHO, 1995/96). 136 Cf. SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994 e SENNA-MARTINEZ, 1997. 137 Cf. VALERA, 1997a e 1997b. A este conjunto junta-se o conjunto proveniente da Quinta do Soito, Nelas, quase exclusivamente sobre quartzo, o que parece indiciar uma «oficina de talhe» (VALERA, 1997b). 138 Os produtos lamelares são responsáveis por 30,6% do conjunto (Produtos de debitagem e utensílios), estando o quartzo representado numa frequência de 61% para a totalidade da amostra e de 77% se considerar-mos unicamente os utensílios retocados (SENNA-MARTINEZ, 1997). 139 Que se encontra ausente na região, à excepção de alguns pequenos nódulos, que podem ser localizados na região de Nelas, a pouco mais de 10 Km a Nordeste, em linha recta (VALERA, 1997a:190). No entanto, pelos dados disponibilizados, parece-nos que os nódulos serão de pequenas dimensões (cerca de 5 a 7 cm de diâmetro) não permitindo a debitagem de objectos alongados, com excepção de pequenas lamelas ou de lascas. 140 Cf. JORGE S., 1979. 141 Cf. ZILHÃO, 1992. 142 Cf. SANCHES, 1995. 143 Cf. JORGE et al., 1988; JORGE V., 1991; SANCHES, 1995.

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de lascas, estando os produtos laminares ausentes. As técnicas e métodos de debitagem apresentam paralelos mais que evidentes com os conjuntos conhecidos para os conjuntos do Maciço Calcário Estremenho, do Nordeste Transmontano e do Sudoeste Alentejano, em contraponto aos conjuntos regionais provenientes do Neolítico final regional associados aos sítios de habitat do Ameal-VI e da Quinta Nova onde predominam os utensílios sobre lâmina144.

Quanto à cerâmica, o tipo de pastas, formas e temáticas decorativas, afastam-nas dos conjuntos ceramológicos deste Neolítico final regional, bem representado, apesar da dimensão diminuta, no conjunto da UE.20. Se as percentagens de cerâmicas decoradas, parecem afastar o conjunto da UE.7, da maioria dos conhecidos para o Neolítico antigo do conjunto da Plataforma do Mondego145, é inegável a sua proximidade estilística. Não é impossível que se esteja perante uma das duas situações: •

A maioria do conjunto lítico seria do Neolítico antigo ou antigo evolucionado, com raras intrusões de materiais posteriores, devido às condições muito especiais da criação desta UE146. O conjunto cerâmico, na sua maioria, seria posterior, crono-culturalmente, a este conjunto lítico, integrando-se num momento imediatamente anterior ao arranque do megalitismo regional;

O conjunto, apesar das condições de jazida, seria originário de uma mesma área habitacional, em termos de Espaço e Tempo, por isso contemporâneos. A indústria lítica marcaria ainda a permanência da tradição de debitagem do Neolítico antigo e do Neolítico antigo evolucionado147, enquanto, que a cerâmica, pelas suas características, marcaria já momentos de evolução, para os conjuntos posteriores, bem representados pelas cabanas 1 e 3 do Ameal-VI, com a eventual ausência de decoração cerâmica148. Por isso, este conjunto, situar-se-ía algures na transição crono-cultural regional, entre o Neolítico antigo evolucionado para o Neolítico médio.

144 em termos de produtos de debitagem e de utensilios, o grupo mais representado, com valores rondando os 42% é o das lascas, mas se forem retirados todo o material residual, os produtos laminares são claramente dominantes (SENNA-MARTINEZ, 1995/96b). 145 A única excepção parece ser o sítio das Carriceiras, que no entanto se afasta em termos de produção lítica, com a sua preferência pelo quartzo, como matéria-prima. 146 No entanto a proximidade morfométrica destes materiais líticos mais tardios, com os mais antigos, impossibilitaria a sua detecção. 147 Ainda que a frequência extremamente elevada de produtos e instrumentos sobre lasca, pareça indiciar um momento já de transição para momentos mais tardios, nomeadamente do Neolítico médio inicial (na designação de António Faustino Carvalho), tendo em conta informação similar proveniente do Maciço Calcário Estremenho (Cf. CARVALHO, 1996:134-6). 148 Enquanto não existirem dados sobre a evolução das comunidades que ocuparam os abrigos do Penedo da Penha e do Buraco da Moura de S. Romão, parece existir um "hiato" entre os sítios de habitat do Neolítico antigo e os do Neolítico final regional.

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

3.3.8. Integração cronométrica do conjunto artefactual Em termos cronométricos, o Neolítico antigo149, localizar-se-ía150, no caso da Estremadura portuguesa, entre os 5100 a 4500 anos cal AC, tendo em conta os dados actualmente disponibilizados para os níveis da Gruta do Caldeirão, Tomar151 e S. Pedro de Canaferrim, Sintra152. Por seu lado a realidade do Neolítico antigo do Nordeste português, presente fundamentalmente nos níveis neolíticos do Buraco da Pala, Mirandela, que, eventualmente completados com a informação cronométrica proveniente da Fraga D'Aia, permitira situar esta realidade regional entre os 5100 a 4360 anos cal AC153.

Por seu lado, o conjunto artefactual detectado na UE.7 da Orca 2 do Ameal, seria, eventualmente posterior a estas duas realidades, situando-se algures entre os 4300 anos cal AC e o inicio da construção dos primeiros monumentos megalíticos na região, ou seja, situar-se-ía, muito possivelmente, no último quartel do V milénio AC.

Será em momentos posteriores a esta realidade, durante o Neolítico médio regional154, que os primeiros monumentos megalíticos vão ser construídos, algures entre os finais do V milénio e a 1ª metade do IV milénio cal AC155. As deposições efectuadas nestes primeiros monumentos, ainda que determinadas por toda uma série de prescrições rituais ou "mágico-religiosas" (Cf. GONÇALVES, 1992:49) escrupulosamente seguidas, que poderão criar a sensação de um aparente "pacote artefactual comum" (GONÇALVES, 1992:102; VENTURA, 1994d:38), que seria assim determinado pela cultura material das comunidades humanas156 responsáveis pela sua construção, ou seja, baseado na predominância de produtos lamelares e de utensílios sobre estes mesmos produtos, onde os geométricos e, em particular os crescentes e/ou triângulos estariam preferencialmente representados (JORGE S., 1985:173; SENNA-MARTINEZ, 1989a:534-5). Estas prescrições rituais impediriam a deposição de elementos cerâmicos, possivelmente por os considerarem como "impuros" em termos rituais157, obrigando à deposição de determinados artefactos, seleccionados de entre os elementos que constituem o "aparelho

149 Neolítico antigo e Neolítico antigo evolucionado. 150 A falta de informação cronométrica fidedigna obriga-nos a ser cautelosos e extremamente "conservadores" neste aspecto. 151 «horizonte NA2» OxA-1035 6330±80 BP, OxA-1034 6230±80 BP e OxA-1033 6130±90 BP; «horizonte NA1» OxA-1037 5970±120 BP, OxA-1036 5870±80 BP e TO-350 5810±70 BP (Cf. ZILHÃO, 1992:78). 152 Carvões provenientes da UE.4: ICEN-1151 6020±60 BP e ICEN-1152 6070±60 BP (SIMÕES, cit. por CARVALHO, 1996:9). 153 Para o caso do Buraco da Pala: ICEN-935 5840±140 BP e GrN-19104 5860±30 BP (SANCHES et al., 1993:230) e para a Fraga d'Aia: Gif-7891 5750±70 BP e Gif-8079 5690±70 BP (JORGE & DELIBRIAS, 1988:231 e JORGE V., 1991). 154 Cuja definição crono-cultural, apenas pode ser aduzida pelos depósitos funerários. 155 Como se poderá verificar no Ponto 4. 156 Por isso não estaríamos perante uma "especialização intencional do «equipamento» funerário", à semelhança do que foi proposto para momentos posteriores (JORGE S., 1985:175, VALERA & ESTEVINHA, 1989:27-8). 157 Poderemos considerar várias analogias simbólicas ou "mágico-religiosas" para este fenómeno, que podem ir desde: O conjunto seria apenas constituído por artefactos ou grupos de artefactos que podessem ser reconformados e/ou reconfigurados em novos utensílios, em oposição a todo o conjunto de artefactos, que não o podessem ser depois de danificados/fragmentados, tal como a cerâmica, em analogia com uma eventual convicção de vida após a morte ou "reencarnação"; Outra hipótese, menos óbvia, seria a de que estes grupos humanos considerassem os recipientes cerâmicos como frágeis demais para a eventual "viagem" dos defuntos, possivelmente em resultado da observação efectuada durante as suas próprias deslocações; Por fim, o carácter quase exclusivamente feminino da produções cerâmicas em oposição ao carácter masculino da indústria lítica, também poderia determinar quais os conjuntos aceitáveis (Cf. HODDER, 1981).

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José Manuel Quintã VENTURA __________________________________________________________________________________________________________________________

artefactual" do grupo humano, sendo neste caso, utilizada a "Qualidade"158 do mesmo como sistema de selecção para a inclusão nas oferendas funerárias.

Deste, modo as deposições funerárias, deveram ser concebidas como ofertas a mortos, enquanto entidades de uma determinada sociedade, elementos que servem dentro de um processo de coesão, ou mesmo, de redefinição do papel social de cada representante desse mesmo grupo social. Assim, as prescrições rituais, determinariam que tipo de artefactos deverão ser ofertados à entidade colectiva, que tutela os mortos e que constituí a própria memória colectiva ou passado do grupo. Isto implica, que durante este processo os elementos que constituiriam as deposições fossem significativas ou vísiveis (CRIADO, 1995) para o grupo humano159, que pelas suas características, fossem representativas da realidade quotidiana (BRADLEY, 1990:39-41; TILLEY, 1993:225239)

Tendo em conta este último factor, não é estranho que as deposições possam ser mais ou menos coincidentes, visto poderem reflectir a produção artefactual dos grupos, que ocupariam a Plataforma do Mondego. Assim, o utensílio mais comum seria o ubíquo geométrico, nas suas diversas representações, evoluindo do grupo dos crescentes e triângulos, para as diversas "reincarnações" de trapézios (sempre em termos de frequências). A evolução das comunidades neolíticas processar-se-ía de uma base artesanal baseada em produtos lamelares para laminar, provocaria a frequência em maiores números deste produto, nos conjuntos megalíticos, permanecendo o "tabu" da cerâmica e o factor selectivo dos restantes materiais como padrão de comportamento, nas deposições funerárias.

Os padrões de comportamento, quanto às deposições funerárias, só serão alterados, com a construção, ou pelo menos, com a utilização intensiva dos grandes monumentos megalíticos, com a própria complexização arquitectónica e o surgimento de uma nova concepção ao nível dos depósitos funerários (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1997b).

Quanto à questão do sílex, como material de excepção deverá ser reponderado, visto que para os quatro arqueosítios conhecidos do Neolítico antigo evolucionado, apenas um não apresenta dominância dos produtos e utensílios em sílex e, se adicionarmos a possibilidade de abastecimento local, ainda que limitado, desta matériaprima, a razão de excepção deste produto cai por terra.

Aliás, mesmo em momentos posteriores, as comunidades do Neolítico final regional, não parecem ter dificuldades de abastecimento desta matéria-prima, pelo que se depreende das produções líticas de pedra lascada, presentes nas áreas de habitat respectivas, onde o sílex é maioritário em termos dos produtos e utensílios

158 O conceito de "Qualidade" deverá ser aqui considerado no sentido do cuidado dispensado na debitagem e acabamento do objecto e, não como em utensílios elaborados de raiz para uma finalidade funerária. 159 Abstraindo-se o facto destas mesmas, pela matéria-prima e/ou acabamento, se destacassem dos utilizados durante o dia-a-dia. Não esquecer no entanto que qualquer objecto, por mais comum que possa ser na sociedade que o produziu, deverá sempre ser considerado como votivo ou especial, pela sua inclusão nas deposições funerárias (Cf. GONÇALVES, 1992:61-3).

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sobre suporte laminar, enquanto que se considerarmos os produtos e utensílios sobre suporte lamelar e lascas, o sílex, mesmo assim, ainda é responsável por 53% dos artefactos presentes na Cabana 3 do Ameal-VI (SENNAMARTINEZ, 1995/96b).

São só as comunidades calcolíticas do Penedo da Penha, para já não falar das que irão desenvolver no III milénio AC, na Bacia do Alto Mondego, que terão a dificuldade de acesso a esse tipo de matéria-prima, predominando aí, como matéria-prima o quartzo (VALERA & ESTEVINHA, 1989; VALERA, 1997b), possivelmente resultante da sua evolução interna e/ou das vias de acesso a matérias-primas controladas, que se situariam eventualmente em zonas marginais, relativamente às comunidades do Neolítico final, com as quais muito possivelmente interagiram.

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4. ____________________________________

O ENQUADRAMENTO CRONOLÓGICO: O CONTEXTO REGIONAL

4.1. Metodologia A vulgarização, entre a comunidade arqueológica portuguesa, dos métodos de datação absoluta tem possibilitado a construção, com maior ou menor sucesso, de sequências cronológicas, que têm permitido uma maior compreensão do desenvolvimento de fenómenos que até aí apenas eram aflorados de uma forma empírica (Cf. SOARES, 1993).

Também recentemente, têm aparecido entre nós, estudos que se preocupam, não só, na interpretação dos dados cronométricos, mas também na divulgação dos aspectos positivos e negativos do processo de datação absoluta pelo método de Carbono 14 (SANCHES, SOARES & ALONSO MATHIAS, 1993, SOARES, 1995, CRUZ, 1988 e 1992).

Assim, uma das principais noções a reter, é a de que o postulado relativo à permanência constante do teor de radiocarbono na atmosfera, não é totalmente correcto (SANCHES, SOARES & ALONSO MATHIAS, 1993 e SOARES, 1995), conjuntamente, acresce que as datas convencionais de radiocarbono, utilizam o valor médio do período de C14 de Libby e não o verdadeiro (SOARES, 1995 e SANCHES, SOARES & ALONSO MATHIAS, 1993), tornando-se necessário a utilização de curvas de calibração, que permitam converter as data convencionais em datas de calendário solar (STUIVER & PEARSON 1986 e PEARSON E STUIVER, 1986).

Para os dados que se apresentam neste capítulo, recorreu-se à utilização de curvas de calibração, calculadas através do programa CALIB, desenvolvido por STUIVER & REIMER, na sua versão 3.0.3, que permite a calibração de datas convencionais de radiocarbono de uma forma imediata e simples. Grande parte dos dados aqui apresentados, foram já objecto de tratamento por parte da equipa encabeçada por Monge SOARES1, enquanto que parte dos dados provenientes da Meseta norte espanhola e Galiza, foram calibradas por nós. Para todos os fins consideraram-se somente os intervalos de confiança de 2 σ ou seja para uma probabilidade de 95,46%. Em termos de apresentação recorreu-se à proposta de norma apresentada pelo investigador acima referido2 segundo a qual as datas de radiocarbono calibradas serão apresentadas seguidas de cal AC.

1 Cf. SOARES & CABRAL, 1993. 2 Cf. SOARES & CABRAL, 1993

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4.2. Condicionalismos das Amostras

Em trabalhos recentes Domingos CRUZ (Cf. 1988:34, 1992:86 e 1995:81) sistematizou e problematizou as questões associadas à recolha de amostras de monumentos megalíticos para datação absoluta, que, sinteticamente se podem resumir às seguintes:

a.

Amostras provenientes das terras que constituem o tumulus do monumento;

b.

Amostras provenientes dos "solos" antigos enterrados;

c.

Sedimentos provenientes do espaço sepulcral e do corredor de acesso;

d.

das estruturas arqueológicas existentes: a) no tumulus; b) no "solo" antigo enterrado.

Tendo em conta a sua proveniência estas poderão ser ou não valorizadas. Assim, as amostras provenientes da primeira e quarta situação constituem terminii post quem datando episódios eventualmente contemporâneos da construção dos monumentos, enquanto que os resultados obtidos de amostras provenientes da segunda e parte da quarta situação, apesar de menos importantes, continuam no entanto a indicar também uma situação de terminii post quem, já que na maioria dos casos, corresponderam a momentos imediatamente anteriores, por via de queimadas preparatórias para a construção da estrutura tumular, servindo por isso como preciosos indicadores, pela negativa, da inserção cronológica do respectivo monumento (Cf. CRUZ, 1992:87-88). Contudo, consideramos haver uma profunda necessidade de repensar com cuidado o valor das amostras provenientes das primeiras, segundas e quartas situações, em especial na determinação da verdadeira origem destas. Assim, consideramos, quer pela experiência pessoal, quer pelos dados recentemente apresentados3 que as amostras provenientes de monumentos megalíticos deverão antes enquadrar-se no seguinte esquema:

1.

Amostras provenientes das terras que integram o tumulus do monumento, podendo ser por isso: a) contemporâneos da construção deste, b) provenientes de actividades antrópicas ou não, anteriores à construção do mesmo4;

2.

Amostras

provenientes

dos

solos

antigos

enterrados

com

a

mesma

problemática

de

contemporaneidade já referida no ponto imediatamente anterior, ainda que se possam diferenciar duas situações: a) sedimentos provenientes de estruturas existentes no "solo" antigo enterrado, quer à superfície ou no seu seio, b) sedimentos avulsos;

3 Cf. SOARES, 1993, para as questões que se prendem com a análise e valorização de certos tipos de amostras, enquanto representativas de realidades arqueológicas. 4 Destaque-se aqui os dados anómalos detectados por Domingos CRUZ (1992:86-87), para a Mamoa 1 de Chã de Carvalhal, onde entre a datação absoluta e o possível enquadramento cronológico do monumento, medeiam pelo menos 2000 anos cal AC.

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3.

Amostras provenientes dos sedimentos do espaço sepulcral - câmara e corredor (quando este último esteja presente). Neste caso deverá sempre o arqueólogo ter em conta de que os elementos que constituem a amostra podem ou não ser o resultados de movimentos de elementos, que se encontrando na situação 2. referida anteriormente, possam ter "viajado" para o interior do monumento. Daí que se deveria dividir estes elementos em dois subpontos: a) amostras provenientes de estruturas de combustão ou afins5, b) amostras não associadas a estruturas de qualquer espécie ou recolhas avulsas;

4.

Amostras provenientes de estruturas de combustão existentes no interior do tumulus e, por isso em princípio, contemporâneas da construção do mesmo.

No que se refere às situações abordadas nos aspectos 1., 2. e 3.b os dados cronométricos daí resultantes deverão sempre ser consideradas como constituindo terminii post quem6 num sentido genérico. Isto implica, que os possíveis dados cronométricos que daí advierem, não deverão ser considerados como os momentos imediatamente anteriores à construção da estrutura tumular, mas sim, simplesmente, como momentos anteriores, cuja ordem de grandeza temporal, pode oscilar entre a centena de anos (calibrados AC) até uma magnitude de vários milhares de anos de calendário7.

Isto não implica, que todo e qualquer elemento cronométrico, proveniente destes contextos deva ser eliminado à partida e que os investigadores se devam abster da realização de datações de amostras nestas condições. Em primeiro lugar há que referir que uma datação ou conjunto de datações cronométricas, não valem por si, nem sequer pelo seu número ou qualidade, mas sim pelos contextos arqueologicamente seguros a que se encontram associados e que directamente validem o parâmetro cronométrico obtido.

Assim, as datações dos aspectos 1., 2. e 3.b supra referidos, poderão constituir dados, de segunda ordem, importantes para definir o espectro do monumento antes e depois da sua existência. Isto implica, que as amostras por si não têm qualquer valor, enquanto não forem enquadradas num conjunto mais lato, com amostras provenientes de estruturas na massa tumular (aspecto 3.a) e/ou dos sedimentos do interior do espaço sepulcral (câmara e corredor).

Naturalmente, que se as únicas amostras existentes do monumento, se enquadram nesta situação, encontra-se o investigador na contingência de efectuar "um tiro no escuro" com as consequências que daí advêm e que se conhecem8.

Perante esta situação, há que reter as seguintes ideias relativamente à validade das amostras a utilizar para datação cronométrica: 5 Cf. OLIVEIRA, 1988, em relação à situação presente na Anta da Bola de Cera. 6 Cf. SOARES, 1993, CRUZ, 1988 e 1992. 7 Cf. nota 4 supra referida. 8 Cf. CRUZ, 1992:86-105, SOARES, 1993.

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

As presentes no espaço sepulcral (câmara e corredor) podem provir de sedimentos alheios ao monumento;

A contemporaneidade só pode ser aceite quando correspondam a estruturas de combustão, directamente associadas a deposições de espólios arqueológicos, bem definidos;

As estruturas presentes no tumulus tanto podem corresponder a momentos contemporâneos9 da construção deste, a momentos de utilização ou mesmo a momentos de violação bastantes posteriores à utilização primária do monumento;

Mesmo quando as amostras provêm de estruturas presentes no "solo antigo" enterrado, estas, apesar de na maioria do casos, poderem não estar associadas aos construtores do monumento, constituem, mesmo assim, um elemento precioso para estabelecer o momento a partir do qual o monumento pode ter sido construído;

A correcta inserção arqueológica das amostras só poderá ocorrer quando estas ocorram em interrelação com espólios que as acompanhem.

4.3. Os Dados cronométricos para a Plataforma do Mondego

Tendo em conta os monumentos megalíticos aqui em estudo verifica-se a total ausência de datações absolutas. Em parte, isto deve-se, à falta de elementos fiáveis para datação, quer pela extrema raridade de elementos ósseos10 quer de elementos vegetais, resultado da extrema acidez dos solos e do processo de lexiviação que aí ocorre. Quando, mesmo assim, estes elementos ocorrem, normalmente a quantidade detectada é mínima, muitas vezes não possuindo o teor de carbono suficiente para poderem ser utilizados na realização de datações.

Assim perante esta situação, vê-mo-nos na contingência de utilizar dados provenientes de sítios localizados fora da nossa área imediata de estudo que, apesar das proximidades geográficas e culturais, apenas nos podem permitir antever uma imagem difusa da realidade local. Para tal utilizámos os dados provenientes dos diversos monumentos megalíticos, situados no CentroNorte de Portugal, encontrando-se alguns destes monumentos na Plataforma do Mondego, mas fora da área 9 Mesmo esta relativa contemporaneidade pode ser colocada em causa, visto que o dado cronométrico, apenas diz respeito ao momento em que o combustível utilizado deixou de "existir" e não ao momento da realização da sua carbonização (Cf. SOARES, 1993)

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abrangida pelo núcleo em estudo, ao mesmo tempo que recorreremos aos dados provenientes de outros sítios arqueológicos "não-megalíticos", que situados na referida área geográfica e, pelos espólios que daí provêm, nos permitem alicerçar um esboço de cronologia, por se integrarem na mesma realidade geo-cultural (SENNAMARTINEZ, 1989a, 1995a e 1995/96a). Quadro IV.1: Monumentos Megalíticos e deposições funerárias no Centro-Norte de Portugal Sítio 1 - Orca 1 do Carapito 2 - Orca 1 do Carapito

Referência

GrN-511011 Hv-? 12

Data Conv. (BP) 4850±40

cal AC (1 σ) 3697-3545

cal AC (2 σ) 3775-3525

4590±65

3492-3144

3510-3050

OxA-3733 13 To-3336 14

5125±70

3984-3805

4073-3774

5120±40

3970-3817

3987-3798

5 - Orca dos Castenairos

GrN-492415

5060±50

3964-3786

3990-3709

6 - Orca dos Castenairos

GrN-492516 GrN-573417

4610±50

3494-3343

3510-3135

7 - Orca de Seixas

4900±40

3776-3647

3783-3548

8 - Dólmen 1 Moinhos de Vento

ICEN-19618

4720±40

3620-3378

3632-3368

9 - Lameira de Cima 1

OxA-408419

4990±80

3934-3695

3966-3638

10 - Lameira de Cima 2

OxA-510220

5360±55

4317-4088

4338-4005

11 - Lameira de Cima 2

GrN-2135321 CSIC-111322

4990±40

3892-3708

3935-3694

12 - Lameira de Cima 2

4961±27

3778-3702

3792-3692

13 - Lameira de Cima 2

CSIC-111423

4999±29

3891-3727

3931-3704

14 - Senhora do Monte 3

GrN-2079124

5130±40

3974-3822

3991-3802

15 - Senhora do Monte 3

ICEN-120025 ICEN-120126

5100±70

3974-3795

4036-3715

4990±50

3899-3705

3943-3661

GrN-2130427 OxA-448428

5060±50

3950-3786

3970-3713

4960±65

3794-3666

3943-3638

19 - Orca de Antelas

OxA-549629

5330±60

4244-4043

4332-3989

20 - Orca de Antelas

OxA-549730 OxA-549831

5295±60

4228-3999

4318-3975

21 - Orca de Antelas

5070±65

3960-3784

3986-3704

22 - Orca de Antelas

OxA-543332

4655±60

3507-3354

3625-3141

ICEN-6433

4490±50

3336-3043

3354-2927

3 - Orca 1 do Carapito 4 - Orca 1 do Carapito

16 - Senhora do Monte 3 17 - Senhora do Monte 3 18 - Orca dos Padrões

23 - Gruta dos Alqueves 1

10 Na Plataforma do Mondego, até à actualidade apenas se detectaram elementos ósseos, em quantidades suficientes, para permitirem um estudo detalhado, nos casos da Anta da Arquinha da Moura (Tondela) atribuíveis a momentos afins dos estudados nesta síntese (CUNHA, 1995, SILVA, 1995) e no Buraco da Moura (S. Romão, Seia), nesta situação atribuíveis a momentos do Bronze pleno (CARDOSO, SENNA-MARTINEZ & VALERA, 1993). 11 Carvão proveniente de uma fogueira no chão da câmara. SOARES & CABRAL, 1984, SENNA-MARTINEZ, 1989a:, SOARES, 1993. 12 Carvão proveniente de uma fogueira situada num nível superior ao do chão da câmara. SOARES & CABRAL, 1984, SENNA-MARTINEZ, 1989a, SOARES, 1993. 13 Carvão proveniente da fossa de implantação do esteio de cabeceira. CRUZ & VILAÇA, 1994:65 14 Carvão proveniente da fossa de implantação do esteio de cabeceira. CRUZ & VILAÇA, 1994:65 15 Carvão proveniente do chão da câmara. SOARES & CABRAL, 1984, SENNA-MARTINEZ, 1995/96a. 16 Carvão proveniente de um nível acima do enchimento de base da câmara. SOARES & CABRAL, 1984, SENNA-MARTINEZ, 1995/96a. 17 Carvão proveniente da U.E. de enchimento da base da câmara. SOARES & CABRAL, 1984, SENNA-MARTINEZ, 1995/96a. 18 Carvão proveniente de uma fogueira realizada sobre a sepultura secundária. SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1995a e 1995/96a. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 19 Carvão proveniente das terras sob o lageado do início do "corredor intratumular". CRUZ, 1995:99; GOMES L, 1996:101-2. 20 Carvão proveniente das terras sob o lageado do início do "corredor intratumular". CRUZ, 1995:99; GOMES L, 1996:150-1. 21 Cortiça carbonizada proveniente do "piso" do "corredor intratumular". CRUZ, 1995:99; GOMES L, 1996:150-1. 22 Cortiça carbonizada proveniente do "piso" do "corredor intratumular". CRUZ, 1995:99; GOMES L, 1996:150-1. 23 Cortiça carbonizada proveniente do "piso" do "corredor intratumular". CRUZ, 1995:99; GOMES L, 1996:150-1. 24 Cortiça carbonizada proveniente do "piso" do "corredor intratumular", sob "estrutura de condenação". CRUZ, 1995:99. 25 Madeira carbonizada proveniente do "piso" do "corredor intratumular", sob "estrutura de condenação". CRUZ, 1995:99. 26 Carvão proveniente de estrutura de combustão, nas terras do tumulus. CRUZ, 1995:99. 27 Carvão proveniente do "piso" do "corredor intratumular", sob "estrutura de condenação". CRUZ, 1995:99. 28 Carvões provenientes das terras de enchimento da base dos calços dos esteios do corredor. CRUZ, 1995:99. 29 Carvões provenientes das terras do "corredor intratumular". CRUZ, 1995:99. 30 Carvões provenientes das terras do "corredor intratumular". CRUZ, 1995:99. 31 Carvões provenientes das terras do "corredor intratumular". CRUZ, 1995:99. 32 Pigmento negro das pinturas do Esteio de Cabeceira. CRUZ, 1995:99.

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

Em muitos casos estes dados, como adiante veremos, não serão suficientes para uma correcta integração da realidade existente em balizas cronológicas bem definidas, pelo que também seremos obrigados a recorrer aos dados provenientes, quer dos elementos artefactuais, fundamentais em muitos casos para correlações em termos latos e, aos dados provenientes das estruturas arquitectónicas, estes últimos mais problemáticos, quer, não só pelo processo de polimorfismo - entendido no sentido sincrónico - existente em muitas das áreas vizinhas à realidade arqueológica estudada, mas também pela forte identidade regional, que desde muito cedo este tipo de sítios arqueológicos de largo espectro temporal, parecem demonstrar.

No que se refere ao Centro-Norte de Portugal, espaço geográfico normalmente designado por Beiras, possuímos, de momento, as datações de cronométricas, relativas a sítios de cariz funerário, presentes no Quadro IV.1.34

Deste conjunto, salientamos, pelo quantidade e polémica associada as pertencentes ao monumento normalmente designado por Casa da Moira (MOITA, 1966:272) ou Dólmen/Orca 1 do Carapito (Aguiar da Beira, Guarda), resultantes de duas intervenções distintas realizadas, uma na década de 60 (LEISNER & RIBEIRO, 1968) e outra já na de 90 (CRUZ & VILAÇA, 1990 e 1994).

Este monumento, de planta poligonal alargada35, sem corredor36, apresentando em alguns dos seus Esteios insculturas apresenta um conjunto de datações, que pode por sua vez entendido, pelos intervalos de tempo abrangidos, como subdividido em três momentos distintos:

1.

As amostras OxA-3733 e To-3336, correspondentes ao grupo de datações, que indubitavelmente se situam entre os finais do V e os inícios do IV milénio cal AC, provenientes de amostras de carvão vegetal, recolhidas na fossa de implantação do Esteio E (CRUZ & VILAÇA, 1994:65), que os autores associação a trabalhos de desflorestação, prévios ao inicio da construção deste monumento;

2.

Relativo a um momento inserivel na 1ª metade do IV milénio cal A.C. (GrN-5110) corresponde à realidade do nível de base da câmara, por isso, do nível de deposição primária do Monumento, onde a fogueira de onde é originária a amostra, estaria directamente associada a um conjunto de 3 geométricos sobre lâmina (2 trapézios e 1 triângulo), 2 enxós (uma em xisto sercítico e outra em fibrolite), 6 contas em pedra verde e 1 em grauvaque e mais de três centenas de contas discóidais em xisto (LEISNER & RIBEIRO, 1968:18-19; KALB, 1987; SENNA-MARTINEZ, 1989a:112);

33 Ossos humanos. VILAÇA & RIBEIRO, 1987:50. 34 Não foram consideradas todas as amostras, consideradas anómalas, por parte do respectivo investigador, estando incluídas neste grupo as amostras provenientes da Orca do Outeiro do Rato, Nelas, Viseu [ICEN-441 2200±40 BP e ICEN-442 2340±40 BP] (SENNA-MARTINEZ, 1989a:84); Dólmen/Orca do Carvalhal, Penedono, Viseu [GrN-20792 3100±90 BP] (CRUZ, 1995:99); Orca da Matança, Fornos de Algôdres, Guarda [ICEN-480 1140±60 BP; ICEN-481 1120±60 BP e ICEN-482, 1170±60 BP] (CRUZ, 1995:99 e Dólmen/Orca da Bobadela, Oliveira do Hospital, Coimbra [GrN-5629 2500±40 BP](SOARES & CABRAL, 1984:194). 35 Visto que apresenta um comprimento máximo da Câmara superior à largura máxima da mesma (Cf. Ponto 4.) 36 Para a hipótese da existência de corredor deste monumento e da Orca de Corgas de matança (Fornos de Algôdres, Guarda)Cf. CRUZ, CUNHA & GOMES, 1990:17.

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3.

Por fim o terceiro momento, representado pela amostra Hv-? que foi recolhida na entrada da Câmara, a uma cota superior à da amostra GrN-5110 e possivelmente associada aos poucos fragmentos de cerâmica manual37, detectados neste monumento (LEISNER & RIBEIRO, 1968; KALB, 1987; SENNAMARTINEZ, 1989a);

Mas a questão fundamental, que se põe em relação a estes dados, consiste em saber qual o significado arqueológico das amostras. Para tal é necessário compreender que, se em termos físico-químico, o que aliás não se insere no âmbito deste trabalho, nada há a apontar a estas datações, o mesmo já não se passa quanto ao significado das mesmas.

Assim, iniciando a nossa análise pelo primeiro conjunto de datas (OxA-3733 e TO-3336) é fácil verificar, que para um intervalo de calibragem de 2 σ o espaço de tempo abrangido por ambas, se situa entre 4213 a 3780 cal A.C. e, que segundo a informação dos responsáveis pela recolha das amostras, estas «Dizem, portanto, respeito ao mesmo contexto e problemática arqueológica, senão mesmo do mesmo indivíduo» (CRUZ & VILAÇA, 1994:65). Tendo em conta que os possíveis desvios padrão poderão corresponder às diferentes tecnologias empregues para cada uma das amostras, é bem possível que utilizando só os intervalos de tempo que se sobrepõem (Cf. Figura II.1) o momento aqui representado corresponda a 4031-3813 cal AC.

No entanto esta datação poderá ser interpretada de duas formas: •

Por um lado, a crer na proposta dos investigadores responsáveis pela recolha, as amostras seriam o resultado de uma acção de limpeza da cobertura vegetal, imediatamente antecedente à construção do monumento, podendo esta limpeza funcionar como um processo dualista, limpeza para a preparação do solo e actividade ritual de consagração do espaço, através da sua purificação. Eventualmente, os elementos que constituem a amostra teriam sido deslocados durante o processo de construção do monumento para o interior das fossas de implantação dos esteios. Assim os resultados corresponderiam a um momento terminus post quem, marcando o início da construção do monumento.

Em alternativa, e na sequência de recentes debates38, estas amostras poderiam corresponder, não a fogos rituais de limpeza, mas sim a fogos florestais que poderiam ocorrer naturalmente, pelo que, nem sequer corresponderiam a actividades antrópicas sobre a paisagem, devendo assim ser encarados como correspondentes a episódios anteriores à construção do monumento e que de forma alguma poderiam ser correlacionados com o mesmo. Momentos esses que se poderiam distanciar numa ordem de várias centenas de anos.

37 Os poucos fragmentos recolhidos neste sector, não permitiram todavia qualquer reconstituíção gráfica dos recipientes a que pertenceriam (SENNAMARTINEZ, 1989a:112) 38 Cf. Ponto 4.1. e SOARES & CABRAL, 1993 e SOARES, 1993

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Felizmente, para este monumento possuímos mais duas datações provenientes das escavações dos anos 60 (LEISNER & RIBEIRO, 1968), que nos permitem correlacioná-las com as já referidas. Assim, como é possível verificar na Figura IV.1, estas duas (GrN-5110 e Hv-?), em especial a 1ª, permitem-nos situar as possíveis primeiras deposições funerárias (pelo menos parte delas) no 2º quartel do IV milénio cal AC. Tudo isto, em conjunto com o espólio recolhido na base da câmara, a arquitectura do monumento, parece consubstanciar, com alguma segurança, a construção desta estrutura, nunca antes dos inícios do 1º quartel do IV milénio cal AC, correspondendo, assim, a amostra GrN-5110 aos primeiros momentos de utilização deste. Datas Radiocarbono cal AC intervalo de confiança de 2 σ

1 - Orca 1 do Carapito/GrN-5110 2 - Orca 1 do Carapito/Hv-? 3 - Orca 1 do Carapito/OxA-3733 4 - Orca 1 do Carapito/To-3336 5 - Orca dos Castenairos/GrN-4924 6 - Orca dos Castenairos/GrN-4925 7 - Orca de Seixas/GrN-5734 8 - Dólmen 1 Moinhos de Vento/ICEN-196 9 - Lameira de Cima 1/OxA-4084 10 - Lameira de Cima 2/OxA-5102 11 - Lameira de Cima 2/GrN-21353 12 - Lameira de Cima 2/CSIC-1113 13 - Lameira de Cima 2/CSIC-1114 14 - Senhora do Monte 3/GrN-20791 15 - Senhora do Monte 3/ICEN-1200 16 - Senhora do Monte 3/ICEN-1201 17 - Senhora do Monte 3/GrN-21304 18 - Orca dos Padrões/OxA-4484 19 - Orca de Antelas/OxA-5496 20 - Orca de Antelas/OxA-5497 21 - Orca de Antelas/OxA-5498 22 - Orca de Antelas/OxA-5433 23 - Gruta dos Alqueves 1/ICEN-64

2000

2500

3000

3500

4000

4500

5000 cal AC

Figura IV.1 - Datações Absolutas dos sítios funerários do Centro-Norte de Portugal

Podem-se, no entanto, levantar questões acerca da segurança dos dados proporcionados por esta data obtida ainda nos anos 60, com a tecnologia então disponível, mas deveremos aqui salientar, que apesar da sua antiguidade e origem, nunca em termos de validade do processo físico-químico, responsável pela sua definição, foi questionada pelos diversos autores especializados na problemática (Cf. SOARES & CABRAL, 1984 e SOARES, 1993) pelo que a sua viabilidade não deverá ser colocada em questão. Por outro lado, as garantias dadas pelos responsáveis pela sua recolha (em termos de associação arqueológica) tendo em conta a reconhecida qualidade de trabalho por estes desenvolvido durante os anos 50 e 60, em termos de processos de escavação, registo e interpretação, acreditamos que esta data verdadeiramente corresponda às primeiras deposições no monumento.

Quanto à amostra Hv-? levanta outro tipo de questões, já que os próprios escavadores têm dificuldade em associá-la a episódios concretos da utilização do monumento, visto que em termos latos, este foi afectado por dois grandes momentos de deposição, um bem caracterizado, correspondente a deposições rituais de geométricos, lâminas sem retoque e uma total ausência de cerâmica, sendo posteriormente depositados alguns recipientes (ou fragmentos) de cerâmica manual, eventualmente correspondentes a momentos posteriores (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1995a). Assim, esta segunda amostra poderia ser o resultado das poucas deposições de espólios ceramológicos ou então a intrusões/remeximentos ocorridos na entrada da câmara. Estas deposições teriam assim ocorrido algures, na 2ª metade do IV milénio cal AC. _______________________________________________________________________________________ 125


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Não queremos, no entanto, deixar aqui de salvaguardar que não nos repugnaria recuar a datação da construção e eventual utilização deste monumento para momentos abrangidos pelo conjunto de datações obtidos mais recentemente, ou seja, para momentos coevos do 4º quartel do V milénio cal AC/1º quartel do IV milénio cal AC, como os dados provenientes da amostra GrN-4924 da Orca dos Castenairos (Vila Nova de Paiva, Viseu) parecem aduzir, mas no nosso actual estado dos conhecimentos, parece-nos ser mais seguro apreciá-los como resultante de acções anteriores à construção do monumento.

Esta situação parece ser confirmada com os dados provenientes de dois outros monumentos da região, nomeadamente da bacia do Alto Paiva, a Orca de Seixas (Moimenta da Beira, Viseu) e a Orca dos Castenairos (Vila Nova de Paiva, Viseu), onde se recolheram amostras, que permitiram a realização de uma datação para o primeiro monumento e duas para o segundo (Cf. Quadro IV.1), tendo sido as intervenções arqueológicas e a recolha das amostras da responsabilidade da mesma equipa, que efectuou os primeiros trabalhos na Casa da Moira/Orca 1 do Carapito (LEISNER & RIBEIRO, 1966a e 1966b).

De salientar, ainda, que para o caso da Orca de Seixas, um monumento de câmara poligonal com corredor médio e uma possível estrutura de encerramento frontal do monumento39 (KALB, 1981 e 1987, CRUZ, 1995), a amostra provém da base do monumento, do mesmo contexto arqueológico que forneceu as deposições primárias caracterizadas pela presença de geométricos sobre lâmina, lâminas de sílex sem retoque ou com retoque marginal, machados de pedra polida de secção oval ou sub-oval e, mais uma vez, uma total ausência de elementos de cerâmica. Ora, esta amostra (GrN-5734), para um intervalo de confiança de 2 σ (95,46%) é idêntico, em termos estatísticos à amostra GrN-5110, contemplando uma situação arqueológica similar. Também aqui, se poderiam levantar questões, acerca da situação de recolha da amostra, mas salientamos que quer nesta situação quer na situação da Orca 1 do Carapito e dos Castenairos, estamos perante estruturas, claramente identificadas como sendo de combustão, associadas, se não directamente, pelo menos em termos de níveis arqueológicos, a um conjunto significativo de artefactos, pelo que dificilmente será possível negar-lhe a sua correcta atribuição arqueológica.

No que se refere à Orca dos Castenairos, também ela de câmara poligonal e corredor médio, com uma possível "estrutura de condenação" frontal não escavada40 (Cf. LEISNER & RIBEIRO, 1966, KALB, 1981 e 1987 E CRUZ, 1995), estamos aqui, também, perante uma situação em que aos dois momentos de utilização do monumento, correspondem duas estruturas de combustão, uma situada na base do monumento (GrN-4924) associada, mais uma vez, à deposição ritual de geométricos sobre lâmina, lâminas não retocadas ou com retoque marginal, contas discóidais em xisto, e machados de pedra polida e à ausência de cerâmica e, que para intervalo de confiança de 2 σ (95,46%), se situa no 1º quartel do IV milénio AC, sobrepondo-se quer às amostras mais

39 Possivelmente uma estrutura semelhante à detectada na área frontal da Orca do Outeiro do Rato (Nelas, Viseu) Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a:78-81). 40 Trabalhos recentes realizados por Domingos Cruz e Raquel Vilaça, permitiram a detecção de um "corredor intratumular", de "estruturas de condenação" e de um eventual "átrio" na zona frontal do monumento.

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antigas, provenientes das fossas dos esteios da Orca 1 do Carapito, quer à amostra proveniente da estrutura de combustão da base da Câmara do mesmo monumento.

Perante esta situação, tudo parece indicar que, para este monumento em particular, algures nos inícios do IV milénio cal AC, se teriam efectuado as deposições presentes no nível de base do monumento. Naturalmente, que podemos também considerar, que a amostra GrN-4924, corresponde a uma situação de terminus post quem, permitindo assim corroborar a situação presente na Orca 1 do Carapito, nomeadamente das amostras To-3336 e OxA-3733, colocando o inicio da construção e utilização deste monumento particular no 2º quartel do IV milénio cal AC.

O segundo momento, neste sítio arqueológico, parece estar relacionado com deposições ocorridas em momentos mais tardios, referentes à 2ª Metade do IV milénio cal AC, onde surgem já deposições de elementos cerâmicos, alabardas em sílex e pontas de seta (Cf. LEISNER & RIBEIRO, KALB, 1981 e 1987, SENNA-MARTINEZ, 1995/96a). Por fim, sobre esta realidade arqueológica, recolheram-se alguns fragmentos de cerâmica campaniforme, inseríveis em contextos regionais do Bronze antigo (SENNA-MARTINEZ, 1995/96a)

Recentemente, devido a vários projectos de investigação, têm sido divulgados novos dados cronométricos, para uma série de monumentos localizados na área regional já referida. Assim, um dos elementos provem da sepultura secundária do Dólmen 1 de Moinhos de Vento (Arganil, Coimbra), este último constituído por uma câmara poligonal e corredor médio, em cuja área frontal se desenvolve uma estrutura de fecho frontal tipo "átrio" (Cf. NUNES, 1974, SENNA-MARTINEZ & LUZ, 1983, SENNA-MARTINEZ, 1981, 1983 e 1989a). Após a utilização da estrutura dolménica, foi inserida na mamoa, num processo de monumentalização (JORGE, 1986a) uma estrutura secundária, constituída por uma fossa de planta circular, reforçada por elementos de quartzito, inserida numa estrutura tumular de planta ligeiramente ovalada (NUNES, 1974:29). Foi em torno do tumulus desta sepultura secundária, que foi acessa uma fogueira, posteriormente apagada com a construção de um murete de pedras, para a consolidação externa da referida sepultura secundária. A amostra de madeira carbonizada, provem exactamente desta fogueira ritual, que teria sido efectuada imediatamente após o fecho da referida sepultura secundária (SENNA-MARTINEZ, 1989a:32-3).

A datação disponível (ICEN-196), permite situar o episódio, que a ele se encontra associado, como tendo ocorrido entre os finais do 2º quartel e o 3º quartel do IV milénio cal AC (Cf. Figura II.1), estabelecendo um terminus ante quem para a construção e utilização das estruturas tumulares, central e secundária.

Quanto ao espólio recuperado, este caracteriza-se pela existência de geométricos sobre lâmina, pontas de seta, lâminas com e sem retoque, elementos de pedra polida, alabardas em sílex, um punhal em sílex e recipientes de cerâmica manual, cujas tipologias são afins das presentes em estações atribuídas ao Neolítico final da Estremadura (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a:228-240).

Podemos, considerando a estrutura da sepultura

secundária, mais afim de monumentos tardios (Cf. SILVA, 1993 e 1994) e pelo espólio recuperado, então _______________________________________________________________________________________ 127


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considerar como uma certeza de que este conjunto funerário estaria operacional durante a 2ª metade do IV milénio cal AC.

Recentemente, foram apresentados alguns resultados relativos a monumentos estudados no concelho de Penedono (Viseu), nomeadamente nos Dólmens 1 e 2 de Lameira de Cima e Dólmen 3 da Senhora do Monte (CARVALHO, 1989; CRUZ, 1995; GOMES L., 1996).

No referente aos Monumentos 1 e 2 de Lameira de Cima, com características estruturais similares, nomeadamente de câmara poligonal, corredor médio, com «estruturas complexas na área de acesso - "átrio", "corredor intratumular", "estrutura de condenação", etc.» (Cf. GOMES L, 1996) o que parece desde já indicar uma realidade estrutural com carácter regional. Os dados relativos aos espólios destes dois monumentos parecem situá-los em momentos senão contemporâneos, pelo menos bastante próximos um do outro, eventualmente já numa fase de desenvolvimento do megalitismo regional, nomeadamente através da presença de geométricos, maioritariamente trapézios, pontas de seta de tipologia diversa, produtos alongados preferencialmente laminares, pedra polida e fundamental cerâmica, alguma da qual decorada (Cf. GOMES L., 1996).

Do Dólmen 1 de Lameira de Cima, possuímos unicamente o resultado de uma amostra (OxA-4084) inserivel na 1ª metade do IV milénio cal AC (3966-3638 cal AC) proveniente «sob o lageado (espécie de soleira) existente no início do "corredor intratumular"» (CRUZ, 1995:99; GOMES L, 1996:101-2), devendo ser considerada como terminus post quem, situando a construção deste monumento nos finais da 1ª metade ou, mais provavelmente, já na 2ª metade do IV milénio cal AC, o que é consentâneo com os dados da Orca 1 do Carapito (Hv-?) e da Orca dos Castenairos (GrN-4925)41.

Quanto ao Dólmen 2 de Lameira de Cima, foram já apresentadas 4 amostras: OxA-5102, recolhida «sob o "lageado" do início do "corredor intratumular"» (CRUZ, 1995:99; GOMES L, 1996:150-1) para a qual foi atribuída uma datação inserivel no 4º quartel do V milénio cal AC, correspondendo também a uma situação de terminus post quem. As restantes 3 amostras (GrN-21353, CSIC-1113 e CSIC-1114) são estatisticamente idênticas inserindo-se na 1ª metade do IV milénio cal AC (Cf. Quadro II.1 e Figura II.1). Estas provêm de cortiça e madeira carbonizada «relacionáveis com fogueiras» realizadas na entrada do monumento aquando do seu encerramento definitivo, através da construção de uma estrutura de condenação (CRUZ, 1995:100; GOMES L, 1996:150).

Apesar de serem consideradas como terminii ante quem (CRUZ, 1995:100; GOMES L, 1996:151), várias questões se podem levantar, nomeadamente da real inserção arqueológica, visto que pouco ou nada sabemos acerca da realidade arqueológica retratada por estas amostras. Estas, tanto podem corresponder quer à realidade de encerramento definitivo do monumento ou apenas a carvões já existentes anteriormente, remexidos pelas movimentações ocorridas aquando da construção da estrutura de condenação. Pelo que vai dito, no estado actual 41 Cf. GOMES L, 1996:102.

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do conhecimento dos monumentos desta área, tendo em conta as suas características "tardias" é mais seguro considerar as amostras como terminii post quem, do que o contrário, permitindo-nos inseri-los na 2ª metade do IV milénio cal AC.

Quanto ao Dólmen 3 da Senhora do Monte (Penedono, Viseu) configura-se como um monumento de câmara poligonal e corredor, ao qual se encontram também associadas estruturas complexas, como "átrio" "corredor intratumular" e "estrutura de condenação" (CRUZ, 1995:100). Ao momento da redacção deste ponto, não tinham ainda sido publicados os resultados definitivos sobre o espólio recolhido e da sua inserção arqueológica.

Tal como nos monumentos da Lameira de Cima, foram detectados fragmentos de cortiça e madeira carbonizadas, na área do "átrio" do monumento, no entender do escavador, consequência das fogueiras rituais aí ocorridas. Estas amostras (GrN-20791, ICEN-1200 e GrN-21304) são estatisticamente idênticas, englobando um intervalo de tempo entre 4036 a 3713 anos cal AC. Existe uma quarta amostra (ICEN-1201) recolhida numa fogueira realizada à superfície do tumulus, sob a carapaça pétrea que o revestia (CRUZ, 1995:101) à qual foi atribuído um intervalo de tempo 3943 a 3661 anos cal AC, por isso também estatisticamente idênticas às anteriores. Considerando esta ultima amostra como representando um terminus post quem, para a construção do monumento, podemos considerar, que as outras amostras provenientes deste monumento se inserem na mesma categoria, podendo assim ser afirmado com uma certa certeza, de que o monumento terá sido construído e utilizado, no 2º quartel do IV milénio cal AC42.

Outro monumento megalítico, para o qual dispomos de informação cronométrica é a Orca dos Padrões (Mangualde, Viseu), que em termos arquitectónicos se apresenta como sendo um dólmen de câmara poligonal e de corredor médio. Em recentes trabalhos de consolidação e restauro (GOMES & CARVALHO, 1995) foi possível recolher, sob os calços de um dos esteios do corredor, uma amostra de madeira carbonizada (OxA-4484) a que corresponde um intervalo de tempo de 3943 a 3638 anos cal AC (CRUZ, 1995:102), correspondendo também a uma situação de terminus post quem, pelo que no caso particular deste monumento, ele teria sido construído em momentos finais da 1ª metade do IV milénio cal AC ou, mais provavelmente, já na 2ª metade deste milénio, delineando assim uma situação em tudo similar à ocorrida no Dólmen 1 de Moinhos de Vento (Arganil, Coimbra) e, muito possivelmente dos monumentos 1 e 2 de Lameira de Cima e da Senhora do Monte (Penedono, Viseu).

42 Recentemente foram disponibilizadas algumas informações relativas ao Dólmen de Areita, S. João da Pesqueira, inserível na bacia hidrográfica do Távora. Este monumento, constituído por uma câmara megalítica poligonal de 7 esteios e um corredor de médias dimensões, permitiu a recuperação de um espólio considerado "arcaico" na câmara, onde sobre uma base de areão coberta de ocre, foi recuperado um importante conjunto de geométricos, lâminas não retocadas, uma goiva e dois machados de pequenas dimensões e cerca de 3000 contas discóidais em xisto. Este conjunto teria sido selado pela queda da estrutura ortostática da câmara e corredor. O monumento teria sido, eventualmente, modificado, com "corredor intratumular" e "estrutura de condenação" em momentos posteriores, possivelmente relacionados com os poucos fragmentos de cerâmica manual recuperados do corredor. Uma série de troncos carbonizados, localizados na Câmara megalítica, quer estejam associados a uma estrutura anterior ou a elementos de suporte dos esteios, durante a construção, permitiram os seguintes valores cronométricos: "Amostra 4" 5629±38 BP (4531 a 4357 anos cal AC [a 2 σ]) e a "Amostra 7" 5699±31 BP (4654 a 4462 anos cal AC [a 2 σ]). Os valores apresentados foram calibrados com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993). Estes valores terminus post quem para a construção da estrutura megalítica, permitem inserir, pelo menos em parte, este monumento na primeira etapa do megalitismo local (GOMES L., et al., 1997a e 1997b).

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Por fim, o ultimo conjunto de amostras, recentemente disponibilizadas, correspondem à Orca ou Dólmen de Antelas (Oliveira de Frades, Viseu). Em termos estruturais é um monumento de câmara poligonal e de corredor médio, cuja área de acesso frontal apresenta um conjunto de estruturas complexas, nomeadamente "átrio", "corredor intratumular" e "estrutura de condenação", com deposição de objectos "votivos junto à "estrutura de fecho" do mesmo (CRUZ, 1995:102)43. Este monumento caracteriza-se também pelo seu conjunto de pinturas na maioria dos seus esteios, conjuntamente com algumas gravuras (FERREIRA & VIANA, 1957 e CRUZ, 1995).

Foram, para este monumento, apresentados os resultados de 4 análises, de outras tantas amostras provenientes deste monumento. Três delas correspondem a carvões recuperados nas terras existentes no "corredor intratumular" (OxA-4484, OxA-5446 e OxA-5498), que se podem considerar para todos fins como estatisticamente idênticas, estabelecendo no seu limite mais recente (3704 anos cal AC) o período a partir do qual teria sido edificado o monumento44, correspondendo por isso a uma situação de terminii post quem, situando-se esta construção, mais uma vez, em momentos do 2º quartel do IV milénio cal AC. Consubstanciando esta interpretação, possuímos uma outra amostra (OxA-5433) proveniente dos pigmentos negros das pinturas do esteio de cabeceira, cuja analise permitiu situá-la num intervalo tempo correspondente a 3625 a 3141 anos cal AC, por isso em plena 2ª metade do IV milénio cal AC45.

A inclusão, neste grupo, dos dados referentes à Gruta dos Alqueves 1 (S. Martinho do Bispo, Coimbra) uma cavidade cársica, correspondendo a uma gruta de corredor dividida em duas salas (VILAÇA & RIBEIRO, 1987:29-31), justifica-se quer pela inserção geográfica e pela realidade arqueológica aí detectada, em grande medida afim de algumas das deposições em monumentos megalíticos da Plataforma do Mondego. Deste sítio arqueológico, foi recolhida uma amostra de ossos46 que serviram para a datação cronométrica (ICEN-64), que abrange grosso modo o 4º quartel do IV milénio cal AC, para um intervalo de confiança de 95,46% (2 σ).

Por outro lado, a amostra era proveniente de um nível atribuível, em termos de conjunto artefactual, a momentos do Neolítico final regional (VILAÇA & RIBEIRO, 1987:40-3), com largos paralelismos, para a realidade, quer do Centro de Portugal, quer para situações semelhantes encontradas na Bacia do Tejo ou mesmo mais a sul. Esta informação é de extrema importância visto, que esta mesma realidade artefactual, presente nos Alqueves 1 é paralela, com os conjuntos presentes em alguns dos monumentos com dados cronométricos que os podem inserir, já na 2ª metade do IV milénio cal AC, nomeadamente o Dólmen 1 dos Moinhos de Vento (ICEN43 Nomeadamente um pequeno recepiente cerâmico e um machado polido sob a "estrutura de condenação", para além de lâminas e geométricos na periferia do "átrio" (Cf. CRUZ, 1997e). No entanto o conjunto recuperado do interior da câmara megalítica, era constituído por geométricos e elementos líticos polidos, sem a presença de cerâmica (CASTRO, FERREIRA & VIANA, 1957), o que parece indiciar um conjunto artefactual em tudo similar ao detectado por exemplo nos monumentos 1 e 2 do Ameal. 44 Discordamos com Domingos CRUZ (1995:102) de que a amostra cuja análise estabeleceu o intervalo de tempo mais recente deva ser valorizado, para estabelecer o momento de construção deste monumento, visto que as três amostras se sobrepõem. Devemos, assim considerar o valor mínimo, como o período de tempo a partir do qual foi o monumento construído e não o inverso. Aliás, foram apresentadas recentemente, mais duas datações convencionais, também provenientes de carvões recolhidos no átrio, que permitiram confirmar as três primeiras datações anteriores: GrA-5417 5120±50 (4031-3790 anos cal AC [a 2 σ]) e GrA-5418 5090±50 (3982-3776 anos cal AC [a 2 σ]) (Cf. CRUZ, 1997d e 1997e). 45 O intervalo de tempo abrangido por esta amostra, é demasiado grande para se poder considerar, se estamos perante uma repintura ou do pigmento original, aplicado no início do processo. No entanto, estes valores são consentâneos com os resultados provenientes da situação terminii post quem. 46 Por isso uma situação de terminus ante quem.

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196) e Orca dos Castenairos (GrN-4925) (SENNA-MARTINEZ, 1995a e 1995/96a), que por sua vez apresentam datações de radiocarbono que permitem a sua inserção num intervalo cronométrico coevo (Orca 1 do Carapito Hv-?) ou imediatamente anterior (Dólmen 1 dos Moinhos de Vento ICEN-196).

4.4. Integração dos datações provenientes de sítios de habitat

O recurso aos dados de radiocarbono 14, provenientes dos poucos habitats conhecidos na Plataforma do Mondego justifica-se se tivermos em conta que os espólios presentes neste tipo de sítios é assimilável aos existentes nos monumentos megalíticos das suas áreas operacionais (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1989b, 1995a e 1995/96a, VENTURA, 1993 e 1994b). Assim, não é difícil de entender que existe uma correlação directa entre as tipologias dos artefactos utilizados nos meios domésticos e aquelas daqueles que, eventualmente, foram utilizados para as deposições rituais em monumentos funerários47. Será, ainda mais importante esta correlação se entendermos que estas "intromissões" do mundo doméstico no mundo dos mortos ocorrem em momentos em que se encontram operacionais os grandes monumentos de corredor evoluído, como seja o caso, no Núcleo dos Fiais/Ameal, da Orca dos Fiais da Telha48, pelo que são um auxiliar importante, por via indirecta para a inserção crono-cultural dessas mesmas deposições, por similitudes artefactuais.

Encontram-se expressas no Quadro IV.2, as datações absolutas existentes, neste momento, para a Plataforma do Mondego. Quadro IV.2: Habitats do Centro-Norte de Portugal cujos espólios são assimiláveis aos dos monumentos megalíticos

Sítio

Data Conv. (BP) 4155±55

cal AC (1 σ) 2875-2614

2890-2500

3980±110

2611-2327

2873-2142

C - Cabana 3 do Ameal-VI

ICEN-345 50 ICEN-908 51

4590±45

3370-3337

3499-3106

D - Cabana 3 do Ameal-VI

ICEN-909 52

4545±45

3354-3106

3370-3048

E - Murganho-2

ICEN-905 53

4330±45

3013-2892

3037-2881

A- Cabana 1 do Ameal-VI B - Cabana 1 do Ameal-VI

Referência OxA-543649

cal AC (2 σ)

Assim, como é facilmente verificável, através da expressão gráfica destes dados na Figura IV.2, para data calibradas para um intervalo de confiança a 2 σ (95,46%), esta realidade desenvolve-se num intervalo de tempo que iniciando-se na 2ª metade do IV milénio cal AC, tendo em conta as amostras ICEN-908 e ICEN-909 (para um intervalo de tempo conjunto de 3499 a 3048 anos cal AC) provenientes da Cabana 3 do habitat do Ameal-VI, abarcando também a 1ª metade do III milénio cal AC (para um intervalo de tempo entre os 3037 a

47Cf. VILAÇA & RIBEIRO, 1987, SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a, 1995a e 1995/96a. 48 Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a, VENTURA, 1994b. 49 Madeira carbonizada. SENNA-MARTINEZ, 1995/96a. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 50 Madeira carbonizada. SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a, 1995/96a. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 51 Bolota carbonizada. SENNA-MARTINEZ, 1995/96a. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 52 Bolota carbonizada. SENNA-MARTINEZ, 1995/96a. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 53 Bolota carbonizada. SENNA-MARTINEZ, 1994a:22, 1995/96a. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993)

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2500 anos cal AC) consubstanciado pelas amostras provenientes da "cabana" do Murganho-2 (ICEN-905) e da Cabana 1 do habitat do Ameal-VI (OxA-5436)54. Datas Radiocarbono cal AC intervalo de confiança de 2 σ

A - Ameal-VI-C.1/OxA-5436

B - Ameal-VI-C.1/ICEN-345

C - Ameal-VI-C.3/ICEN-908

D - Ameal-VI-C.3/ICEN-909

E - Murganho 2/ICEN-905

2000

2500

3000

3500

4000 cal AC

Figura IV.2 - Datações Absolutas dos sítios de habitat do Centro-Norte de Portugal

Assim, não será difícil, defender uma mesma inserção cronométrica, para a realidade detectada em certos monumentos megalíticos do núcleo em apreço. Se em termos de realidades artefactuais, parecem não existir grandes alterações quer em tipologias, quer em frequências estatísticas dos diversos tipos de artefactos (SENNA-MARTINEZ, 1989a:221-254 e 1995a), ao longo desta diacronia, esta mesma realidade parece também consubstanciar-se na maioria das deposições rituais, que ocorrem em monumentos com um carácter arquitectónico evoluído, representado, no presente núcleo pelo monumento da Orca dos Fiais da Telha.

No actual estado da investigação, parece-nos prudente, conceber as mesmas balizas cronológicas, para certas deposições rituais recuperadas em alguns monumentos megalíticos da nossa área, onde se encontram presentes diversos elementos55 e em especial tipologias de cerâmicas manuais similares às encontradas nos poucos habitats56 conhecidos regionalmente (SENNA-MARTINEZ, 1995a e 1995/96a).

No entanto, surge-nos como algo natural, questionar a extrema longa duração desta realidade cronocultural, presente na vertente funerária e nas diversas estruturas habitacionais detectadas (SENNA-MARTINEZ, 1994a, 1995a, 1995/96a), particularmente porque em certas áreas circundantes, a partir dos inícios do III milénio cal AC, começam a surgir realidades bem diferenciadas, quer em parâmetros de ocupação do espaço, exploração 54 Será necessário ter em conta que a amostra OxA-5436, não passa senão de uma aferição de uma amostra anteriormente datada por métodos clássicos (ICEN-345 3980±110 BP) permitindo a redução do desvio padrão em 50%, colocando, sem margem para dúvida, a realidade expressa pela Cabana 1 do Habitat do Ameal VI, para intervalo de confiança a 2 σ, na 1ª metade do III milénio cal AC (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1995/96a). 55 Dos quais destacamos: lâminas maioritariamente retocadas; foices de encabamento transversal; pontas de projéctil (vulgo de pontas de seta) de diversas tipologias, mas tendencialmente sobre lâmina e unifaciais; macro-utensilagem de pedra polida de secção transversal rectangular ou subrectangular 56 Cujas características principais correspondem a estruturas habitacionais implantadas em zonas abertas e sem características de preocupação defensivas, com um padrão tendêncial de ocupação sazonal, preferencialmente, durante o Outono/Inverno, com estruturas habitacionais perenes (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1995a e 1995/96a)

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dos recursos naturais e com a consequente alteração de tipologias e frequências estatísticas artefactuais, apontam para "uma complexização social" (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a, 1995a, VALERA & ESTEVINHA, 1989, VALERA, 1994, 1995 e 1997a), associada ao desenvolvimento de estruturas habitacionais situadas em zonas com condições naturais de defesa, nalguns casos reforçadas ou complementadas com estruturas construídas, que parecem marcar uma ruptura com a "tradição megalítica" (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a, 1995a, VALERA, 1994, 1995 e 1997a).

Esta questão já tinha sido abordada por Susana Oliveira JORGE (1985:173-176) tendo sido depois retomada pela mesma investigadora e por outros (JORGE S., 1986, VALERA & ESTEVINHA, 1989, VALERA, 1992, 1994, 1995 e 1997a). Contudo como qualquer relação entre fenómenos regionais, que se assumem como fenómenos diversos e de longa duração, que traduzem em muitos casos contactos e caminhos díspares ainda não inteiramente definidos, é necessário compreender, que certas realidades podem surgir e manter-se por um largo espectro temporal (SENNA-MARTINEZ, 1995a e 1995/96a).

Assim, tudo parece apontar, que na região em apreço, não negando outras evoluções, possivelmente alternativas (SENNA-MARTINEZ, 1995a:72-76, VALERA & ESTEVINHA, 1989: 26-29) parece ter existido uma longa duração de uma realidade, que formalmente é designada por Neolítica, que se mantêm, enquanto noutras áreas vizinhas, surgem já comunidades normalmente designadas por Calcolíticas, estaremos assim perante uma situação para o recentemente Victor GONÇALVES, propôs a designação de Epineolítico (1994:183). O prolongamento desta realidade pela 1ª metade do II milénio cal AC, em termos habitacionais, corresponderia também a uma mesma longevidade em termos de deposições rituais em monumentos megalíticos, pelo que também nestes, esta última etapa também se prolongaria até balizas temporais similares.

Em forma de síntese, do que ficou expresso ao longo deste capítulo, podemos considerar, que tendo em conta a informação cronométrica disponível neste momento, poderíamos inferir as seguintes Fases:

1ª. Que as primeiras manifestações megalíticas na área podem ser inseridas em momentos que se situam próximos dos inícios do IV milénio cal AC até ao 2º quartel deste milénio, não recusando no entanto o possível recuo a momentos situados nos finais do V milénio cal AC.

2ª. Por sua vez, a realidade arqueológica do megalitismo irá desenvolver-se muito rapidamente após este primeiro momento57, com a inclusão nos espólios de novos elementos relacionados com as realidades domésticas58, nomeadamente com a inclusão do elemento cerâmico, que provocará uma série de alterações quer de ordem artefactual, quer de ordem simbólica (SENNA-MARTINEZ, 1995/96a; VENTURA, 1994b)59, que deverá iniciar-se por volta dos inícios da 2ª metade do IV milénio cal AC prolongando-se, ou melhor sobrevivendo, enquanto realidade artefactual até aos finais da 1ª metade 57 Que se assumiria como de curta duração, muito provavelmente não ultrapassando os 200 anos de calendário. 58 Cf. SENNA-MARTINEZ, 1995/96a. 59 Cf. Ponto 3.1 e 3.2..

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do III milénio cal AC, pelos dados presentes nas cabanas do habitat do Ameal-VI. No entanto, devemos salientar que, se não nos é lícito, com os actuais conhecimentos, invalidar uma utilização dos monumentos megalíticos regionais, em especial os de grandes dimensões e arquitectonicamente complexos, em momentos já dentro do III milénio cal AC, consideramos que a construção deste tipo de estruturas60 se restringe ao IV milénio cal AC, inserindo-se os monumentos funerários do II e I milénio cal AC, numa outra conceptualização e realidade mágico-simbólica distinta, apesar de seguirem uma "forma de construir" de tradição megalítica (Cf. SILVA, F., 1997a).

Assim, na Figura IV.3, encontra-se representada, em expressão gráfica este modelo de inserção cronométrica. Para além das amostras foi indicado o intervalo de tempo a que corresponderá cada momento identificado no respectivo monumento. No caso do monumento da Senhora do Monte 3 (Penedono, Viseu), devido à ausência de informação relativa aos artefactos recuperados e da sua inserção crono-cultural, não nos foi possível o estabelecimento de que etapas poderão estar representadas neste arqueosítio. Foi ainda indicado, nos casos em que isso é possível, vários momentos possíveis de inicio da utilização do respectivo monumento. Datas Radiocarbono cal AC intervalo de confiança de 2 σ

1 - Orca 1 do Carapito/GrN-5110 2 - Orca 1 do Carapito/Hv-? 3 - Orca 1 do Carapito/OxA-3733 4 - Orca 1 do Carapito/To-3336 5 - Orca dos Castenairos/GrN-4924 6 - Orca dos Castenairos/GrN-4925 7 - Orca de Seixas/GrN-5734 8 - Dólmen 1 Moinhos de Vento/ICEN-196 9 - Lameira de Cima 1/OxA-4084 10 - Lameira de Cima 2/OxA-5102 11 - Lameira de Cima 2/GrN-21353 12 - Lameira de Cima 2/CSIC-1113 13 - Lameira de Cima 2/CSIC-1114 14 - Senhora do Monte 3/GrN-20791 15 - Senhora do Monte 3/ICEN-1200 16 - Senhora do Monte 3/ICEN-1201 17 - Senhora do Monte 3/GrN-21304 18 - Orca dos Padrões/OxA-4484 19 - Orca de Antelas/OxA-5496 20 - Orca de Antelas/OxA-5497 21 - Orca de Antelas/OxA-5498 22 - Orca de Antelas/OxA-5433 23 - Gruta dos Alqueves 1/ICEN-64

2000 Legenda:

2500

3000

3500

4000

4500

5000 cal AC

Atribuíção crono-cultural

- indeterminada

- possível 1ª Fase

- 1ª Fase

- 2ª Fase

Figura IV.3 - Datações Absolutas dos sítios funerários do Centro-Norte de Portugal com a indicação dos respectivos períodos de utilização: 1ª Fase, correspondendo ao arranque do fenómeno megalítico e 2ª Fase, correspondente ao seu apogeu, com a construção dos monumentos evoluídos e deposição de espólios mais variados, com a inclusão de cerâmica, no interior dos monumentos. Note-se que na quase totalidade dos casos, as manifestações megalíticas (de raiz) não ultrapassam os finais do IV milénio cal AC, o que nos permitirá situar este fenómeno como indiscutivelmente do referido milénio.

60 Pelo menos obedecendo às prescrições estabelecidas no arranque desta realidade (Cf. Ponto 6).

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5. ____________________________________

O ENQUADRAMENTO CRONOLÓGICO DO(S) FENÓMENO(S) MEGALÍTICO(S) PENINSULAR(ES) 5.1. INTRODUÇÃO No capítulo anterior analisamos a informação cronométrica proveniente de monumentos megalíticos ou deposições funerárias, situados no centro-norte de Portugal. Propomo-nos alargar esta análise a outras zonas. Para tal utilizámos os dados cronométricos de diversos monumentos megalíticos ou de "tradição megalítica"1 de regiões cuja proximidade em relação à nossa, possam completar o quadro inferido no ponto anterior. Em muitos casos estes dados, como adiante veremos, não serão suficientes para uma correcta integração da realidade existente em balizas cronológicas bem definidas, pelo que fomos obrigados a construir uma "imagem" geral, apesar dos particularismos que cada "área megalítica" apresenta.

No que respeita à atribuição dos contextos arqueológicos a que corresponde cada amostra, esta é realizada de acordo com a informação publicada pelos autores. Assim, considerámos unicamente as amostras atribuíveis a momentos do arranque do megalitismo regional e/ou a uma realidade "neolítica", excluindo toda e qualquer amostra atribuível a contextos "calcolíticos"2.

Para além da escassez de informação proveniente de algumas zonas geográficas, outros problemas se levantaram, em especial os relativos à fiabilidade dos resultados provenientes das datações cronométricas. Assim grande parte da informação cronométrica, para algumas das áreas analisadas, é proveniente de contextos associados a "solos antigos" enterrados, pelo que a realidade arqueológica a que se reportam pode nada ter a ver com aquela a que se lhe tem tentado associar (SOARES, 1993)3.

Considerámos, mesmo assim, neste conjunto, sob reserva, algumas amostras provenientes dos "solos antigos" enterrados, sempre que sejam atribuíveis, pelos autores, a estruturas de combustão devidamente identificadas ou a então a topos de "solos antigos" sobrepostos directamente pelas estruturas da massa tumular, pelo seu valor arqueológico, enquanto terminii post quem, indicando-nos, à falta de outros elementos, o momento antes do qual o monumento não pode ter sido erigido. 1 Segundo o conceito de Fernando SILVA (Cf. 1993 e 1994:16-7)). 2 A única excepção é constituída pelo monumento de Dombate (ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995, BELLO DIÉGUEZ, 1995). 3 Veja-se, por exemplo, o caso paradigmático dos monumentos megalíticos da Serra da Aboboreira, onde das quase 70 amostras processadas através do método de radiocarbono, a esmagadora maioria é proveniente de contextos associáveis a "solos antigos" enterrados, com os problemas que daí advêm (Cf. SOARES, 1993 e Ponto 4.2)

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5.2. Monumentos Megalíticos da Serra da Aboboreira No caso da Serra da Aboboreira4, o conjunto que presentemente apresenta um maior número de sítios megalíticos estudados até ao presente (Cf. JORGE, 1987, 1988, 1989b, 1990a; CRUZ, 1988:36-8, 1992:69-70 e 1995a:82-9), podemos considerar que a evolução dos monumentos funerários, tendo em conta as últimas propostas (Cf. JORGE, 1988, 1989b; JORGE, ALONSO MATHIAS & DELIBRIAS, 1988; CRUZ, 1988:36-8, 1992:6970 e 1995a:82-9), se efectua a partir de monumentos com câmaras megalíticas poligonais simples, eventualmente fechadas (Tipo Ia). Estas estruturas funerárias encontram-se-íam revestidas por um anel de contrafortagem e uma massa tumular recoberta por uma carapaça ou "couraça" pétrea.

Posteriormente, no caso da Serra da Aboboreira, estes monumentos seriam complementados por dólmens simples de câmara poligonal alongada aberta (Tipo Ib), inserida em tumulus de terra e pedras e contraforte de grande envergadura, que se desenvolveriam em momentos imediatamente localizados após o arranque dos monumentos do tipo anterior (CRUZ, 1988:36-8, 1992:69-70 e 1995a:82-9).

Estes monumentos desenvolveriam-se, num intervalo de tempo5 situado entre o 4º quartel do V milénio cal AC até à 1ª metade do IV milénio cal AC (Cf. CRUZ, 1988:37-38, 1992:69-70, 94-5 e 1995a:84-5). No entanto, não querendo depreciar o imenso e fundamental trabalho de releitura efectuado por Domingos Cruz, consideramos que os dados cronométricos, provenientes da maioria destes monumentos (Cf. CRUZ, 1995a:86) não poderão ser considerados como indicadores fundamentais, visto a maioria, senão a totalidade das amostras corresponderão a situações de terminii post quem, mas num sentido lato, já que todas provêm de carvões provenientes dos "solos antigos" enterrados ou então de estruturas de combustão nestes mesmos6. Perante esta situação, na maioria dos casos não os poderemos considerar como imediatamente válidos.

Tendo em conta este aspecto, restam-nos as duas amostras provenientes do monumento da Mina do Simão (CSIC-715 e CSIC-716), correspondentes a carvões recolhidos na base da câmara, por isso muito possivelmente numa situação de terminii post quem, abarcando um intervalo de tempo (com uma probabilidade de 95,46%) de 3955 a 3690 anos cal AC7 (Cf. Quadro V.1 e Figura V.1), ou seja, o presente monumento teria sido construído em momentos coevos dos finais da 1º metade do IV milénio cal AC, ou mais provavelmente, já na 2º metade do mesmo milénio. Quadro V.1: Monumentos Megalíticos da Serra da Aboboreira 4 Deve-se salientar, que apesar da sua importância os dados provenientes da Serra da Aboboreira, têm um carácter exclusivamente regional senão local, visto aplicarem-se unicamente à realidade específica deste conjunto de monumentos megalíticos. 5 Para uma confiança de 2 σ. 6 Veja-se por exemplo o caso do Monumento 3 de Outeiro de Ante, eventualmente inserivel no Tipo Ia, do qual possuímos 4 amostras datadas pelo radiocarbono (Gif-4857, Gif-4858, Gif-4856 e Gif-4859) todas elas provenientes de carvões recolhidos no tumulus, que abarcam, um período de tempo, a 2 σ, situado entre 4811 e 2288 anos cal AC (Cf. CRUZ, 1995:86). Naturalmente não queremos aqui defender que neste caso específico não existam amostras, que do ponto de vista arqueológico, serão aberrantes e que devam ser excluídas da leitura, mas queremos antes de mais salientar que os dados exclusivamente provenientes dos "solos antigos" ou de carvões isolados, encontrados no seio da massa tumular, não poderão ser utilizados como um indicador útil para a clarificação cronométrica do sítio, mas unicamente como um indicador de quando o monumento não existia, que poderá ter um valor demasiado lato, tendo em conta que nalguns casos, com os trabalhos de preparação dos solos, para a erecção dos monumentos, o topo do "solo antigo" teria sido "decapitado", permitindo que níveis mais antigos (com os respectivos elementos carbonizados) fiquem em contacto com as estruturas construídas iludindo a leitura do arqueólogo que efectua a recolha e interpretação. 7 Média ponderada dos resultados destas análises.

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Sítio 1 - Chã de Parada 1

Referência ICEN-4078

Data Conv. (BP)

cal A.C. (1 σ)

cal A.C. (2 σ)

4880±50

3774-3637

3780-3531

Gif-78739 ICEN-17310

4635±100

3601-3149

3640-3043

4610±45

3492-3345

3507-3139

ICEN-40811 ICEN-40912

4180±110

2910-2590

3030-2470

4130±45

2874-2613

2887-2578

3940±80

2573-2343

2855-2200

7 - Mina do Simão

Gif-767213 CSIC-71614

5150±70

3970-3781

4000-3700

8 - Mina do Simão

CSIC-71515

5010±70

3948-3705

3990-3650

2 - Chã de Parada 1 3 - Chã de Parada 1 4 - Chã de Parada 1 5 - Chã de Parada 1 6 - Chã de Parada 1

Pelo que vai dito, não negando a anterioridade deste monumentos megalíticos de Tipo I (a e b) em relação aos monumentos mais "evoluídos" de câmara e corredor, consideramos que os dados provenientes da Serra da Aboboreira, não são ainda suficientemente seguros16 para os podermos situar correctamente no tempo, excepto, que muito possivelmente seguiram o trend encontrado noutras áreas, colocando-os, eventualmente, algures entre os inícios do IV milénio cal AC17 e os inícios do 2º quartel deste mesmo milénio, o que aliás poderá ser corroborado pelos actuais dados disponíveis para esta área.

Posteriormente, tendo em conta o âmbito deste trabalho, surgiriam os monumentos dolménicos de câmara poligonal larga e corredor curto, com tumulus em terra, com possante contraforte e carapaça de cobertura. Este último tipo de monumentos, no qual se integrariam dois monumentos - Chã de Parada 1 e Chã de Arcas 5 (Cf. JORGE & BETTENCOURT, 1988 e MOREIRA & CARNEIRO, 1995) - mas apenas com informação cronométrica para o monumento de Chã de Parada 1 (Cf. JORGE, 1993, CRUZ, 1992 e 1995a). Quanto a este dólmen, possuímos um total de 11 amostras, das quais 9 poderão corresponder a uma situação de terminii post quem (Cf. CRUZ, 1995a:85-7 e Quadro V.1).

Assim a construção deste monumento situar-se-ía num momento posterior a 3260 anos cal AC18, ou seja nos finais do IV milénio cal AC ou mesmo já nos inícios do III milénio cal AC (CRUZ, 1988:38, 1992:70; 94-95 e CRUZ, 1995a:88). Por outro lado, as amostras ICEN-408 e ICEN-409, que são estatisticamente idênticas,

8 Carvão proveniente do "solo antigo" enterrado sob o tumulus. CRUZ, 1995:86. 9 Carvão proveniente do "solo antigo" enterrado sob o tumulus. CRUZ, 1995:86. 10 Carvão proveniente do "solo antigo" enterrado sob o tumulus. CRUZ, 1995:86. 11 Carvão proveniente do enchimento de base da câmara. CRUZ, 1988:39, 1991:Q.XIII, SOARES, 1993. 12Carvão proveniente da base da Camada 4 na periferia do monumento. CRUZ, 1995:86. 13 Carvão proveniente de estrutura pétrea da entrada do monumento, marcando a condenação deste. CRUZ, 1988:39, 1991:Q.XIII, SOARES, 1993. 14 Carvão proveniente do enchimento da câmara. CRUZ, 1988:39, 1991:Q.XIII, SOARES, 1993. 15 Carvão proveniente do enchimento da câmara. CRUZ, 1988:39, 1991:Q.XIII, SOARES, 1993. 16 No entanto não queremos deixar de referir a admiração que temos pelo o Projecto da Serra da Aboboreira, onde pela primeira vez em Portugal, se abordou um espaço definido no sentido geográfico e eventualmente humano. A grande inovação deste Projecto, consistiu, no entanto, no desenvolvimento de uma perspectiva multidisciplinar e multi-histórica de abordagem da "evolução da paisagem" através da acção humana ao longo de uma diacronia de longa duração. Na sequência deste projecto foi possível a recolha, com uma certa abundância, de dados cronométricos, que directamente e indirectamente pelo debate que promoveram, permitiram o desenvolvimento de mecanismos de critica e análise até então desconhecidos no nosso país. Foi através deste diálogo construtivo e fundamental, que nos é possível actualmente apreender toda uma série de fenómenos e perspectivar questões, que anteriormente nos eram impossíveis sequer de conhecer a existência. 17 Como já afirmámos anteriormente não nos repugnaria recuar este início para momentos coevos do último quartel do V milénio, mas os dados actuais obrigam-nos, de momento, a escolher um posicionamento conservador nesta matéria. 18 Para tal concorre o intervalo de tempo, a 2 σ, entre 3534 a 3260 anos cal AC (Média ponderada dos resultados), proveniente das diversas amostras provenientes do "solo antigo" enterrado sob o tumulus (Cf. Quadro V.1).

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José Manuel Quintã VENTURA __________________________________________________________________________________________________________________________

abrangendo um intervalo de tempo, a 2 σ, entre os 2875 e 2573 anos cal AC19 (Cf. Quadro V.1 e Figura V.1), poderão muito bem corresponder ao período de "existência" do monumento enquanto espaço funerário. Infelizmente o intervalo de tempo é demasiado longo incluindo, eventualmente, diversas reutilizações que se terão prolongado ao longo de todo o III milénio cal AC (CRUZ, 1992 e 1995a).

Em termos de ocupação do espaço os monumentos mais antigos, os do Tipo I e II, situar-se-iam implantados em zonas de destaque, com uma visibilidade imediata. Quanto aos monumentos de corredor da Serra da Aboboreira, em especial Chã de Parada 1, este localizar-se-ía numa zona de periferia de um núcleo, mais por questões da existência de outros monumentos em posições dominantes, do que por opção dos construtores, mas em qualquer caso existe indubitavelmente a valorização de um espaço sepulcral através da sua própria massa e dimensão monumental, mantendo a continuidade em termos de tradição sepulcral e simbólica (CRUZ, 1988:38 e 1992:83-85). Datas Radiocarbono cal AC intervalo de confiança de 2 σ

1 - Chã de Parada 1/ICEN-407 2 - Chã de Parada 1/Gif-7873 3 - Chã de Parada 1/ICEN-173

Serra da Aboboreira

4 - Chã Parada 1/ICEN-408 5 - Chã de Parada 1/ICEN-409 6 - Chã Parada 1/Gif-7672 7 - Mina Simão/CSIC-716 8 - Mina Simão/CSIC-715

9 - M.1 Alto da Port. do Pau/CSIC-1003 10 - M.2 Alto da Port. do Pau/CSIC-1119

Planalto de Castro Laboreiro

11 - M.2 Alto da Port. do Pau/CSIC-1120 12 - M.2 Alto da Port. do Pau/CSIC-1121 13 - M.3 Alto da Port. do Pau/CSIC-1122 14 - M.3 Alto da Port. do Pau/CSIC-1123 15 - M.3 Alto da Port. do Pau/CSIC-1124 16 - M.3 Pena Mosqueira/CSIC-756

Trás-os-Montes

17 - M.1 das Madorras/GrN-21066 18 - M.1 das Madorras/OxA-5199 19 - M.1 das Madorras/GrA-885

2000

2500

3000

3500

4000

4500

5000 cal AC

Figura V.1 - Datações Absolutas dos Monumentos Megalíticos do Norte de Portugal (Serra da Aboboreira, Planalto de Castro Laboreiro e de Trás-os-Montes).

5.3. Monumentos Megalíticos do Planalto de Castro Laboreiro No que se refere aos trabalhos desenvolvidos no Planalto de Castro Laboreiro, até ao momento possuímos informação cronométrica de 3 monumentos, integráveis na Necrópole do Alto da Portela do Pau, Melgaço (Cf. JORGE, SILVA, BAPTISTA & JORGE, 1995 e JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996).

19 Média ponderada dos resultados destas amostras. Excluímos deste bloco a amostra Gif-7873 (cf Quadro V.1) devido ao seu elevado desvio padrão, superior, para uma confiança a 2 σ, a 500 anos de calendário solar.

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

O primeiro monumento a ser estudado, a Mamoa 1, era composta por uma massa tumular construída maioritariamente em terra, e coberta por uma carapaça ou couraça lítica. Muito possivelmente esta couraça "arrancaria" de uma coroa lítica periférica. Uma característica detectada neste monumento foi a detecção de um "lageado basal" em toda a dimensão do tumulus.

A câmara megalítica deste monumento configurava-se como sendo de planta poligonal aberta e ligeiramente alongada sendo contrafortada pelo seu exterior. Durante a escavação foi detectada, na zona de "entrada" da câmara uma estrutura de "fecho" ou "condenação" do monumento, constituída por um anel lítico, com elementos de médias/grandes dimensões (Cf. JORGE, SILVA, BAPTISTA & JORGE, 1995). Quanto a espólio, foram recolhidos alguns fragmentos de cerâmica campaniforme, para além de 4 geométricos (2 trapézios, um crescente e possivelmente 1 triângulo). A amostra de madeira carbonizada (CSIC-1003) foi recolhida sob o lageado de base do monumento, configurando-se assim como uma situação de terminus post quem, pelo que o monumento teria sido erigido, posteriormente ao limite mais recente do intervalo de tempo, que para um intervalo de confiança de 95,46% se situa entre 4350 a 4230 anos cal AC20 (Cf. JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996:8 e Quadro V.2 e Figura V.1).

A Mamoa 2 corresponde a um "grande tumulus em terra, revestido por uma couraça lítica", com uma câmara megalítica de planta poligonal aberta. Um processo de "monumentalização" teria ocorrido na altura da sua "condenação" através da construção, na zona fronteira do dólmen, de uma estrutura que selou o acesso à câmara (JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996:2-3). Foi sob esta estrutura que se recolheram as amostras publicadas, das quais as amostras CSIC-1119 e 1120, numa situação de terminii ante quem, são estatisticamente idênticas, abarcando um intervalo de tempo, a 2 σ, entre 3986 a 3808 anos cal AC21, ou seja permitindo localizar a utilização deste monumento em momentos do início do IV milénio cal AC ou mesmo nos finais do V milénio cal AC (Cf. Quadro V.2 e Figura V.1).

No que se refere à mamoa 3 da referida necrópole, esta caracteriza-se pela massa tumular ser constituída por um anel lítico exterior e outro interior, este último delimitando uma fossa central. As amostras (CSIC-1122 a 1124) provêm de uma concentração de madeira carbonizada proveniente do "solo antigo" situado imediatamente sob o "anel lítico central". As datações obtidas, todas elas estatisticamente idênticas, permitem localizar uma situação de terminii post quem, num intervalo de tempo, a 2 σ, entre 4329 a 4049 anos cal AC22, que por sua vez insere a construção deste monumento e eventualmente da Mamoa 2 que lhe fica anexa, nos inícios do IV milénio cal AC (JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996:4-5 e Quadro V.2 e Figura V.1).

20 Consideramos no entanto que o momento de construção da Mamoa 1 do Alto da Portela do Pau, não se será iniciado em momentos imediatamente posteriores ao limite mais recente do intervalo de tempo estabelecido pela datação de radiocarbono, mas, muito possivelmente, terá mediado algum tempo entre a cessação de "vida" da amostra e a construção do lageado, que sem dúvida terá "decapitado o topo do "solo antigo", colocando carvões mais antigos junto da superfície do solo. 21 Média ponderada dos resultados destas análises. 22 Média ponderada dos resultados destas análises.

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José Manuel Quintã VENTURA __________________________________________________________________________________________________________________________

Infelizmente quer da Mamoa 2 quer da 3, não foram recuperados espólios significativos, passíveis de ilustrar a realidade cultural responsável pela sua construção e utilização. Quadro V.2: Monumentos Megalíticos do Planalto de Castro Laboreiro Data Conv. (BP)

cal A.C. (1 σ)

cal A.C. (2 σ)

CSIC-100323 CSIC-111924

5440±35

4339-4250

4350-4230

5087±31

3954-3805

3970-3790

5131±28

3969-3829

3980-3810

12 - M.2 do Alto da Portela do Pau

CSIC-112025 CSIC-112126

5435±44

4340-4242

4350-4160

13 - M.3 do Alto da Portela do Pau

CSIC-112227

5253±28

4213-3995

4220-3980

14 - M.3 do Alto da Portela do Pau

CSIC-112328

5274±29

4217-4003

4220-3990

15 - M.3 do Alto da Portela do Pau

CSIC-112429

5368±36

4313-4153

4330-4050

Sítio

Referência

9 - M.1 do Alto da Portela do Pau 10 - M.2 do Alto da Portela do Pau 11 - M.2 do Alto da Portela do Pau

5.4. Monumentos Megalíticos de Trás-os-Montes Por outro lado em Trás-os-Montes, no planalto mirandês, deposições constituídas por geométricos, contas discoidais em xisto e uma enxó em silimanite, ocorrem na Mamoa 3 de Pena Mosqueira (Mogadouro), que se caracteriza por ser um monumento, sem câmara megalítica, muito possivelmente com fossa central, sendo a massa tumular constituída por terras contidas externamente e medianamente por anéis pétreos. Possuímos deste sítio uma única datação radiocarbónica (CSIC-756), proveniente de madeiras carbonizadas, provenientes de uma fogueira, realizada sobre o enterramento central, estabelecendo assim, eventualmente, uma situação de terminus ante quem, para a construção e utilização do monumento, que se enquadraria assim, para um intervalo de tempo a 2 σ, entre 3937 a 3545 anos cal AC, ou seja, nos primeiros momentos do IV milénio cal AC (SANCHES, 1987 e Quadro V.3). De destacar que este monumento apresentaria, segundo a responsável pelo seu estudo, uma situação de utilização de curta duração (SANCHES, 1987). Quadro II.5: Monumentos Megalíticos de Trás-os-Montes Data Conv. (BP)

cal A.C. (1 σ)

cal A.C. (2 σ)

CSIC-75630 GrN-2106631

4930±60

3784-3688

3937-3545

4790±60

3645-3389

3696-3376

OxA-519932 GrA-88533

4540±65

3359-3099

3496-3032

4420±40

3095-2925

3300-2917

Sítio 16 - M. 3 Pena Mosqueira 17 - M. 1 das Madorras 18 - M. 1 das Madorras 19 - M. 1 das Madorras

Referência

Também para Trás-os-Montes conhecemos dados cronométricos para o Monumento 1 de Madorras (Sabrosa), um monumento de câmara de planta poligonal e corredor alongado e estruturas de "condenação" na zona fronteira do monumento (GONÇALVES & CRUZ, 1994, CRUZ & GONÇALVES, 1995 e CRUZ, 1995a). Das seis 23 Madeira carbonizada sob as pedras do lageado de base. JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996:8. 24 Carvões provenientes de um nível compacto junto à entrada do monumento e no seu exterior. JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996:8. 25 Idem nota 15. JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996:8. 26 Idem nota 15. JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996:8. 27 Carvões provenientes de um nível subjacente ao anel central do tumulus. JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996:8. 28 Idem nota 18. JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996:8. 29 Carvões provenientes de um nível subjacente ao anel central do tumulus, sob uma lage horizontal. JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996:8. 30 Concentração de carvão sobre o "piso de ocre" que estabelece a construção do tumulus do monumento. SANCHES, 1989:114, SOARES, 1993. 31 Carvão proveniente das terras do tumulus, sobre o contraforte. CRUZ & GONÇALVES, 1995:153. 32 Carvão proveniente das terras do tumulus, sob o contraforte. CRUZ & GONÇALVES, 1995:153. 33 Carvão proveniente do "átrio", sobre o piso de terra endurecida. CRUZ & GONÇALVES, 1995:153.

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

amostras recolhidas deste monumento apenas três foram consideradas como fiáveis (GrN-21066, OxA-5199 e GrA-885) das quais as duas primeiras correspondem a uma situação de terminii post quem no sentido lato34, visto terem sido recolhidas de níveis subjacentes à estrutura tumular (CRUZ & GONÇALVES, 1995 e CRUZ, 1995a e Quadro V.3 e Figura V.1).

Assim a construção deste monumento de características evoluídas deve ter ocorrida num momento localizável nos finais do IV milénio cal AC, visto que o intervalo de tempo corresponde a 3670 a 3087 anos cal AC35. Por outro lado a amostra GrA-885 (3300-2917 anos cal AC) corresponderia eventualmente a um momento de encerramento, correspondente à estrutura de "condenação" do monumento. Note-se que os resultados das três amostras são estatisticamente idênticos, pelo que possivelmente estaremos perante uma das duas seguintes situações: As amostras recolhidas correspondem a um mesmo episódio que teria ocorrido anteriormente à construção do presente monumento, ou então, eventualmente, o Monumento 1 das Madorras teria tido uma utilização extremamente curta, na ordem da centena de anos (CRUZ & GONÇALVES, 1995 e CRUZ, 1995a e Quadro V.3 e Figura V.1).

5.5. Monumentos Megalíticos da Meseta espanhola No que respeita à região da Meseta espanhola (DELIBES & SANTONJA, 1986a, 1986b; DELIBES, PALOMINO, ROJO & ZAPATERO, 1992), nomeadamente a submeseta norte, os primeiros momentos do megalitismo, parecem estar associados a monumentos "não-megalíticos" de fossa central, de câmara megalítica simples e/ou câmara megalítica circular e corredor curto ou médio, prenunciando o polimorfismo estrutural do Grupo de Zamora-Salamanca (DELIBES & SANTONJA, 1986a:201-3, 1986b:154). Para esta área possuímos a informação proveniente do monumento de El Miradero (Villanueva de los Caballeros, Valladolid), um monumento de fossa central e tumulus constituído por dois aneis pétreos concêntricos. Neste caso de Villanueva de los Caballeros existe a deposição ritual de geométricos sobre lâmina36, em especial triângulos e segmentos de circulo, lâminas em sílex, na maioria das vezes não retocadas, macro-utensilagem em pedra polida, de secção transversal sub-elíptica, com gume polido e corpo picotado, elementos de adorno diversos, onde se destacariam as contas discoidais em xisto e espátulas em osso37, estando a cerâmica mais ou menos ausente. De destacar que no caso particular deste monumento, segundo os responsáveis, teria ocorrido uma situação de utilização de curta duração (Cf. DELIBES & SANTONJA, 1986a; DELIBES, ALONSO & ROJO, 1987).

Em termos cronométricos, possuímos o resultado da datação de duas amostras (GrN-12100 e GrN12101) recolhidas na base do monumento, provavelmente provenientes de fogueiras efectuadas durante a 34 Cf. Ponto 4. 35 Média ponderada dos resultados destas análises, para um grau de confiança de 2 σ. 36 De notar que estes elementos podem ainda surgir como elementos de comuns ao longo de todo o fenómeno do megalitismo da plataforma do Mondego, à semelhança de outras áreas vizinhas (Cf. SILVA, 1993) 37 Parece ser este um dos elementos mais característicos deste grupo (San Martín/El Miradero) em termos artefactuais (Cf. DELIBES, PALOMINO, ROJO & ZAPATERO, 1992:13-6).

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José Manuel Quintã VENTURA __________________________________________________________________________________________________________________________

construção do monumento, por isso estabelecendo uma situação de terminii post quem. Em termos de resultados podemos considerar que são estatisticamente idênticas (Cf. Quadro V.4 e Figura V.2) e assim, poderemos considerar que o monumento foi construído algures após o intervalo de tempo, estabelecido para uma margem de confiança de 95,46%, de 3979 a 3802 anos cal AC38 (Cf. Quadro V.4 e Figura V.2), mais uma vez, estamos perante um monumento que, apesar das características estruturais e artefactuais o colocarem nos momentos iniciais do megalitismo regional, se situaria nos inícios do IV milénio cal AC ou mesmo apontando para momentos do final do 1º quartel desse mesmo milénio (DELIBES & SANTONJA, 1986a e CRUZ & VILAÇA, 1994). Quadro II.6: Monumentos Megalíticos da Meseta espanhola Sítio 20 - Ciella (Burgos)

Referência GrN-1212139

Data Conv. (BP)

cal A.C. (1 σ)

cal A.C. (2 σ)

5290±40

4223-4005

4233-3988

GrN-1210140 GrN-1210041

5155±35

3982-3953

4032-3818

5115±35

3966-3817

3981-3800

5250±60

4218-3981

4222-3957

24 - Azután (Toledo)

GrN-1299442 UGRA-28843

5060±90

3966-3730

4036-3654

25 - Azután (Toledo)

Ly-450044

4590±90

3498-3107

3623-3032

GrN-1755945 GrN-1629546

4840±25

3649-3634

3690-3541

4810±200

3787-3360

3990-3032

21 - El Miradero (Valladolid) 22 - El Miradero (Valladolid) 23 - El Moreco (Burgos)

26 - La Vega 1 (Burgos) 27 - La Velilla 1 (Palencia)

GrN-1716647 GrN-1716748

5250±50

4216-3985

4227-3965

29 - La Velilla 3 (Palencia)

5200±55

4040-3963

4219-3822

30 - Fuenteblanquilla (Burgos)

GrN-1299449

5160±60

4030-3828

4212-3799

31 - Arnillas (Burgos)

GrN-1212450

4575±40

3363-3142

3493-3104

28 - La Velilla 2 (Palencia)

Para o caso do monumento de Ciella (Burgos) para uma situação de recolha de amostra similar à de El Miradero (GrN-12121) podemos considerar que este monumento foi construído (com todas as ressalvas para situações de terminus post quem51) em momentos dos inícios do IV milénio cal AC (Cf. Quadro V.4 e Figura V.2). A mesma situação pode ser inferida para a situação do monumento de El Moreco, também em Burgos, onde uma amostra, também ela proveniente da base da estrutura tumular (GrN-12994) se pode atribuir a construção deste dólmen, para um intervalo de tempo, a 2 σ, na 1ª metade do IV milénio cal AC (DELIBES & SANTONJA, 1986a e CRUZ & VILAÇA, 1994). 38 Média ponderada dos resultados destas análises. 39 Carvão proveniente do solo antigo enterrado. DELIBES CASTRO et al., 1992:17, CRUZ & VILAÇA, 1994:67 40 Carvão proveniente do interior da câmara, presumivelmente dos madeiros utilizados na construção do monumento. DELIBES CASTRO et al., 1992:17, CRUZ & VILAÇA, 1994:67. 41 Carvão proveniente do interior da câmara, presumivelmente dos madeiros utilizados na construção do monumento. DELIBES CASTRO et al., 1992:17, CRUZ & VILAÇA, 1994:67. 42 Carvão proveniente do solo antigo enterrado. CRUZ & VILAÇA, 1994:67 43 Ossos humanos. PRIMITIVA BUENO, 1991:57, CRUZ & VILAÇA, 1994:67. 44 Ossos humanos. PRIMITIVA BUENO, 1991:57, CRUZ & VILAÇA, 1994:67. 45 Carvão proveniente do enchimento da câmara. DELIBES CASTRO et al., 1992:17. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 46 Carvão. DELIBES CASTRO et al., 1992:17. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 47 Carvão proveniente de estrutura de combustão do solo antigo enterrado. DELIBES CASTRO et al., 1992:17. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 48 Carvão proveniente de estrutura de combustão do solo antigo enterrado. DELIBES CASTRO et al., 1992:17. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 49 Carvão proveniente de estrutura de combustão do solo antigo enterrado. DELIBES CASTRO et al., 1992:17. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 50 Carvão proveniente do interior da câmara. DELIBES CASTRO et al., 1992:17. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 51 Em especial de recolhas de carvões provenientes da base do monumento, por isso possivelmente originários do "topo do solo antigo" enterrado.

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

Quanto aos monumentos clássicos, de câmara e corredor desenvolvido, possuímos os resultados de uma amostra proveniente do monumentos de Arnillas (Burgos), que para uma situação de terminus post quem (GrN12124), permite situar a construção deste monumento já na 2ª metade do IV milénio cal AC (Cf. DELIBES, PALOMINO, ROJO & ZAPATERO, 1992:16-9; Quadro V.4 e Figura V.2). Datas Radiocarbono cal AC intervalo de confiança de 2 σ

20 - Ciella/GrN-12121 21 - El Miradero/GrN-12101 22 - El Miradero/GrN-12100 23 - El Moreco/GrN-12994 24 - Azután/UGRA-288 25 - Azután/Ly-4500 26 - La Vega 1/GrN-17559 27 - La Velilla 1/GrN-16295 28 - La Velilla 2/GrN-17166 29 - La Velilla 3/GrN-17167 30 - Fuenteblanquilla/GrN-12994 31 - Arnillas/GrN-12124

2000

2500

3000

3500

4000

4500

5000 cal AC

Figura V.2 - Datações Absolutas dos Monumentos Megalíticos da Meseta espanhola.

Para esta área geográfica, mas na submeseta sul, possuímos ainda resultados cronométricos para outros monumentos megalíticos, ainda que os contextos e condições de recolha possam ser ainda obscuros. Assim para o monumento de Azútan (Toledo) existem duas amostras datadas (UGRA-288 e Ly-4500) a primeira correspondente a uma das primeiras

deposições na base do monumento e colocando, eventualmente, a

construção deste monumento em momentos da 1ª metade do IV milénio cal AC (Cf. PRIMITIVA BUENO, 1991:57, CRUZ & VILAÇA, 1994:67), enquanto que a segunda amostra poderá possivelmente datar as últimas deposições neste mesmo sítio, marcando a altura em que o monumento deixa de ser "operacional", situado algures52 na 2ª metade do IV milénio cal AC (Cf. PRIMITIVA BUENO, 1991:57).

5.6. Monumentos Megalíticos da Galiza No respeitante à Galiza os mais recentes estudos (BELLO DIÉGUEZ, 1995:43-49) parecem indicar uma primeira fase do megalitismo com a implantação de estruturas tumulares onde se inserem câmara megalíticas simples e ligeiramente alongadas, predominantemente abertas (BELLO DIÉGUEZ, 1995), para quais existem alguns dados provenientes de datações de radiocarbono.

52 Mais uma vez o elevado desvio padrão, neste caso de 90 anos radiocarbono, impede o estabelecimento de um intervalo de tempo mais reduzido).

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No entanto alguns destes dados cronométricos não podem ser correctamente ajuizados, por, por um lado, provirem do Laboratório de Gakusshuin (Tóquio) que têm merecido sérias reservas quanto à sua fiabilidade e em especial o elevado desvio padrão e, por fim, devido à dúbia atribuição de certos contextos arqueológicos53 (CRUZ, 1995a). Assim não foram aqui considerados todos os dados provenientes de amostras processadas pelo supra referido laboratório, nem as amostras cuja atribuição arqueológica, não tenha sido correctamente balizada. Quadro V.5: Monumentos Megalíticos da Galiza Data Conv. (BP)

cal A.C. (1 σ)

cal A.C. (2 σ)

CSIC-64254

5210±50

4071-3969

4219-3949

GrN-1769855 GrN-1842056

5230±80

4218-3965

4244-3812

4940±80

3792-3647

3947-3539

GrN-1432857 UtC-320358

4300±60

2922-2881

3037-2702

Sítio 32 - M.1de Chan da Cruz 33 -Cotogrande 1 34 -Cotogrande 1 35 -Os Campiños 6 36 -Dombate (I)

Referência

4950±70

3792-3655

3943-3633

4918±4660

3760-365061

3789-363762

38 -Dombate (I)

CSIC-890 & 89159 UtC-320063

4780±60

3642-3387

3693-3374

39 -Dombate (II)

UtC-320264

40 -Dombate (II)

4430±50 4439±1266

3261-2925 3094-303767

4205±2970 4035±2874

2881-270171 2579-249175

2589-246976

3950±60

2553-2347

2582-2275

37 -Dombate (I)

41 -Dombate (III)

CSIC-893, 939-942, 963 & 96465 CSIC-892 & 94869

42 -Dombate (IV)

CSIC-962 & 106673

43 -Dombate (IV)

UtC-320177

3333-2915 3100-303068 2817-269172

53 Para o qual muito contribui o facto de a grande maioria das intervenções terem sido efectuadas ao abrigo de programas de emergência, com a respectivas implicações. 54 Carvão proveniente de estrutura sob o monumento, sobre o "solo antigo" enterrado. CRUZ, 1988:42, BELLO DIÉGUEZ, 1995:42. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 55 Carvões provenientes do "solo" da câmara. CRUZ, 1995:93. 56 Carvões sob o "anel lítico" no topo do "solo antigo". CRUZ, 1995:93. 57 Carvões provenientes dos sedimentos do corredor correspondentes ao momento final de utilização do monumento. CRUZ, 1988:42, BELLO DIÉGUEZ, 1995:45. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 58 Carvão proveniente de estrutura de combustão do solo antigo enterrado. ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:162-163, BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 59 Carvão proveniente de estrutura de combustão do solo antigo enterrado. Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1994:302, ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:162-163, BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 60 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 61 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 62 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 63 Carvão proveniente de estrutura de combustão do solo antigo enterrado. ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1993, ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:162-163, BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 64 Carvão proveniente dos enchimentos de base do monumento. ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1993, ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:162-163, BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 65 Carvão proveniente dos enchimentos de base do monumento. Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1994:302, ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:162-163, BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 66 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 67 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 68 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 69 Carvão proveniente dos enchimentos do monumento da fase pré-campaniforme. Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1994:302, ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:162-163, BELLO DIÉGUEZ, 1995:52. 70 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 71 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 72 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 73 Carvão proveniente dos enchimentos do monumento da fase campaniforme. Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1994:302, ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:162-163, BELLO DIÉGUEZ, 1995:52. 74 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 75 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 76 Médias ponderadas. BELLO DIÉGUEZ, 1995:52 77 Carvão proveniente dos enchimentos do monumento da fase campaniforme. ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1993, ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:162-163, BELLO DIÉGUEZ, 1995:52

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

Restam-nos assim os dados provenientes da Mamoa 1 de Chan da Cruz (Pontevedra), onde apesar de não ter sido possível a detecção da câmara, pela ausência da totalidade dos esteios que a constituiriam, foi possível reconstituir a sua forma através do potente contraforte pétreo que a envolvia pelo exterior. Possuímos deste monumento os resultados de uma amostra (CSIC-642) recolhida de uma das duas lareiras estruturadas encontradas na base do monumento, que poderá constituir uma situação de terminus post quem para a datação da construção do monumento (Cf. Quadro V.5 e Figura V.3), que se situaria assim nos inícios do IV milénio cal AC, para um intervalo de tempo a 2 σ (PATIÑO, 1985).

Ainda dentro deste grupo, conhecemos os dados cronométricos provenientes da Mamoa 1 de Cotogrande (Vigo), onde também foi impossível determinar o número de esteios e as dimensões correctas da câmara megalítica, que eventualmente seria aberta (ABAD, 1992). As amostras recolhidas neste monumento, em número de duas (GrN-17698 e GrN-18420) correspondem ambas a situações de terminii post quem, visto terem sido recolhidas quer no nível de base da câmara quer sob o contraforte exterior da mesma. Os resultados provenientes destas duas amostras são estatisticamente similares (Cf. CRUZ, 1995a:93 e Quadro V.5 e Figura V.3) correspondendo a um intervalo de tempo, para uma confiança de 95,46%, entre os 3946 a 3625 anos cal AC78. Este elevado intervalo de tempo, encontra-se relacionado com o elevado valor do desvio padrão79 pelo que se torna muito nebuloso tentar discernir o real momento da construção deste tumuli.

Posteriormente, ao mesmo tempo que alguns monumentos do tipo anterior continuariam a ser utilizados, iniciar-se-ía a construção de dólmens de corredor incipiente ou curto, surgindo em dois modelos de corredor indiferenciado da câmara quer em planta quer em alçado ou então de corredor bem diferenciado na planta e alçado (BELLO DIÉGUEZ, 1995). Deste fase possuímos os resultados provenientes de dois importantes monumentos da zona da Coruña: a Mamoa 6 de Campiñas e o Dólmen de Dombate. Datas Radiocarbono cal AC intervalo de confiança de 2 σ

32 - M.1 Chan da Cruz/CSIC-642 33 - Cotogrande 1/GrN-17698 34 - Cotogrande 1/GrN-18420 35 - Os Campiños/GrN-14328 36 - Dombate I/UtC-3203 37 - Dombate I/CSIC-890 & 891

Galiza

38 - Dombate I/UtC-3200 39 - Dombate II/UtC-3202 40 - Dombate II/CSIC-893, 939, 940, 941, 942, 963 41 - Dombate III/CSIC-892 & 948 42 - Dombate IV/CSIC-962 & 1066 43 - Dombate IV/UtC-3201

44 - M.A Llag. Niévares/GrN-18282 45 - M.A Llag. Nieváres/GrN-18283

Astúrias

46 - M.D Llag. Niévares/GrN-16648 47 - M.D Llag. Niévares/GrN-16647 48 - M.XV Monte Areo/GrN-19724

2000

2500

3000

3500

4000

4500

5000 cal AC

Figura V.3 - Datações Absolutas dos Monumentos Megalíticos da Galiza e Astúrias. 78 Média ponderada dos resultados destas análises. 79 de 80 anos em qualquer dos casos.

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A escavação da Mamoa 6 de Campiñas permitiu a detecção de uma câmara megalítica de 12 esteios de planta poligonal alongada e um corredor curto, complementado por um corredor "intratumular". Estas estruturas encontravam-se inseridas numa massa tumular em terra com cerca de 20 metros de diâmetro e era revestida na sua superfície por uma carapaça ou couraça pétrea que engrossava na periferia, constituindo um verdadeiro anel pétreo de contenção exterior. Por outro lado desenvolvia-se um contraforte pétreo pelo exterior da câmara. Na zona fronteira do monumento, foi detectada uma estrutura de "condenação" da entrada do monumento, realizada com entulho. Deste monumento recolheram-se 5 instrumentos de pedra polida, 3 pontas de seta, 1 geométrico (trapézio), lâminas em sílex retocadas e não retocadas, fragmentos de "moinhos manuais" e diversos vasos cerâmicos de tipologia afim de outras peças associadas ao apogeu do megalitismo galego e mesmo integráveis no calcolítico regional (Cf. FÁBREGAS VALCARTE & FUENTE ANDRÉS, 1991-92:119-21). Foi sob esta estrutura de "condenação" que se recolheu a amostra GrN-14328, proveniente de uma eventual fogueira de ritualização do processo de encerramento do monumento (Cf. FÁBREGAS VALCARTE & FUENTE ANDRÉS, 1991-92:130-1). Esta amostra corresponderia assim como terminus ante quem, para a construção e utilização funerária deste monumento, que se teria realizado, em momentos anteriores ao intervalo de tempo localizado entre 3037 e 2702 anos cal AC, para 2 σ de confiança (Cf. Quadro V.5 e Figura V.3). Quanto ao Dólmen de Dombate, caracteriza-se por ser um monumento de corredor alongado e de câmara poligonal. Na zona frontal do monumento desenvolveria-se, eventualmente, uma estrutura tipo "átrio" caracterizada por um "lageado", onde se identificou "alinhamento" de 20 "ídolos" de formas antropomórfica. Nesta área foi também detectada uma estrutura de "fecho" e "condenação" do monumento. Estas estruturas seriam envolvidas por uma massa tumular constituída maioritariamente por terra, coberta por uma "couraça" ou carapaça pétrea que no limite exterior do tumulus constituiria um anel pétreo de contenção exterior. A construção deste monumento teria "absorvido" um outro de menores dimensões, constituído por uma câmara megalítica aberta e alongada80. Outro aspecto importante deste sítio reside nas pinturas e gravuras detectadas nos ortóstatos da Câmara e Corredor (BELLO DIÉGUEZ, 1992-93, 1994, 1995 e ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995). Foram recolhidas um total de 13 amostras de madeira carbonizada, pertencentes às diversas "fases de vida" detectadas neste monumento, num número de quatro (Cf. ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995 e Quadro V.5 e Figura V.3). De notar que na maioria dos casos, em monumentos evoluídos como o de Dombate, é extremamente difícil discernir momentos apenas através da deposição de espólios, o que também ocorre neste sítio, daí que as fases que iremos descrever, prendem-se com momentos de construção ou de alteração de áreas, em termos estruturais e muito raramente com momentos concretos de deposições funerárias, daí que devam ser vistos como tal: • A fase identificada pelo escavador como Dombate I, correspondente a recolhas no topo do "solo antigo" enterrado, num total de 4 amostras (UtC-3203, CSIC-890, CSIC-891 e UtC-3200). No caso

80 Eventualmente uma situação de Monumentalização (Cf. JORGE, 1986a; CRUZ, 1995:96)

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A Necrópole Megalítica do Ameal, no contexto do Megalitismo da Plataforma do Mondego __________________________________________________________________________________________________________________________

específico deste monumento, foi possível recorrer a situações de média ponderada (Cf. BELLO DIÉGUEZ, 1995:51-3), agrupando várias amostras estabelecendo intervalos de tempo menores e mantendo uma probabilidade de confiança de 95,46. A totalidade das amostras provenientes desta fase (Cf. Quadro V.5 e Figura V.3) correspondem a uma situação de terminii post quem, para a construção do Dólmen central, que se situaria após um intervalo de tempo, a 2 σ, entre 3789 e 3637 anos cal AC, situando-se, muito possivelmente, a construção deste monumento em momentos da 2ª metade do IV milénio cal AC. Eventualmente, estas amostras funcionariam como terminii ante quem, para a desactivação do pequeno monumento englobado na massa tumular e que teria sido destruído aquando da construção do dólmen de corredor. Este pequeno monumento, teria sido assim edificado possivelmente em momentos coevos do 1º quartel do IV milénio cal AC (Cf. BELLO DIÉGUEZ, 1995:51-3 e ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:166-8); • A fase Dombate II, corresponde ao momento em que o "lageado" frontal e a linha de ídolos aí colocada se torna operacional, muito possivelmente num momento em que o dólmen de corredor, já se encontraria operacional. Possuímos para este momento, um conjunto de 8 amostras (UtC-3202, CSIC893, CSIC-939, CSIC-940, CSIC-941, CSIC-942, CSIC-963 e CSIC-964), das quais o resultado das 7 últimas amostras foram englobados para criar uma média ponderada (Cf. BELLO DIÉGUEZ, 1995:513). Assim, este momento de restruturação e "monumentalização" da área fronteira do monumento, teria ocorrido, para um intervalo de confiança de 95,46%, após 3030 anos cal AC81 (Cf. Quadro V.5 e Figura V.3), ou seja na transição entre o IV milénio e o III milénio cal AC (Cf. BELLO DIÉGUEZ, 1995:51-3 e ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:166-8). • Dombate III relacionaria-se com a desactivação do monumento através da construção de uma estrutura de "condenação", através do entulhamento da zona de acesso frontal. Para este momento possuímos um total de 2 amostras (CSIC-892 e CSIC-948), provenientes de eventuais fogueiras rituais realizadas na área em apreço aquando do seu encerramento. Os resultados cronométricos destas duas amostras permitiram a criação de uma média ponderada (Cf. BELLO DIÉGUEZ, 1995:51-3), que para um intervalo de tempo, a 2 σ, se situa entre 2817 e 2691 anos cal AC (Cf. Quadro V.5 e Figura V.3). Deva-se referir, mais uma vez, que os dados de radiocarbono, se inserem numa situação de terminii post quem, pelo que o episódio datado se situaria, com toda a probabilidade em momentos dos finais da 1º metade, senão já na 2º metade do III milénio cal AC. Este momento marcaria, sem dúvida, o fim operacional82, do monumento central, através da sua desactivação (Cf. BELLO DIÉGUEZ, 1995:51-3 e ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:166-8). • O momento referido como Dombate IV, corresponde às reutilizações efectuadas por elementos, que teriam depositados vasos cerâmicos campaniformes no monumento central. Para este momento

81 De salientar que as amostras provenientes deste sector, terão de ser consideradas como de terminii post quem, para as alterações estruturais ocorridas e não como datando directamente estas, daí que o intervalo de tempo que se situa entre 3100 a 3030 anos cal AC, deveremos valorizar a última destas datas como indicador, para estabelecer a partir de quando se encontra a área operacional, sob a forma que a conhecemos actualmente. 82 Em termos funerários pelo menos.

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dispomos de 3 amostras (CSIC-962, CSIC-1066 e UtC-3201), as duas primeiras permitiram em conjunto o estabelecimento de uma média ponderada (Cf. BELLO DIÉGUEZ, 1995:51-3 e Quadro V.5 e Figura V.3). Os resultados cronométricos possibilitaram localizar este momento, num intervalo de tempo, a 2 σ, de 2589 a 2469 anos cal AC, estabelecendo o momento das últimas deposições funerárias, ainda que episódicas, num monumento já desactivado (Cf. BELLO DIÉGUEZ, 1995:51-3 e ALONSO MATHIAS & BELLO DIÉGUEZ, 1995:166-8).

Apesar da riqueza de dados cronométricos, provenientes deste monumento terem permitido, até certo ponto determinar os principais momentos de alterações estruturais, não conseguem no entanto, determinar com rigor momentos extremamente importantes como sejam o momento de desactivação do pequeno dólmen destruído e a construção do de corredor, nem quando teria sido edificado este último83.

Aliás para toda a área do noroeste da Península Ibérica, faltam-nos informações completas sobre a evolução dos núcleos e das necrópoles megalíticas, visto que de momento os únicos dados existentes, apesar dos problemas que possam levantar (Cf. CRUZ, 1995a:96-7) se resumem ao monumento de Dombate e a falta generalizada de informação cronométrica de confiança, quer ao nível de contextos quer de condições de recolha, não permite uma melhor aferição do modelo apresentado pelos nossos colegas da Galiza, que por isso têm tido uma grande necessidade de se valer de áreas, que apesar de contíguas, representam situações muito específicas84, como é o caso da Serra da Aboboreira.

5.7. Monumentos Megalíticos das Astúrias No que se refere às Astúrias, os dados disponíveis, parecem indicar que os monumentos buscam em termos de implantação situações de predomínio topográfico, a visibilidade e zonas de passagem. Por outro lado, se se pode considerar que em termos de realidade megalítica esta região se encontra extremamente próxima da realidade galega, é bem verdade que certas características existem para a diferenciar regionalmente, dos quais se salienta o volume das massas tumulares que são bastante superiores às necessárias para finalidades construtivas, possivelmente dentro de um processo de monumentalização da paisagem (BELLO DIÉGUEZ, 1995:40, VENTURA, 1994b:5).

No que concerne às arquitecturas encontramos monumentos com estrutura tumular a envolver uma arquitectura interior ortostática, quer com dólmens simples ou dólmens de corredor, quer com cistas megalíticas.

83 Mais uma vez salientamos, por experiência pessoal, a dificuldade que resulta de identificar, em monumentos evolucionados de câmara e corredor megalíticos, as diversas deposições que poderão ter ocorrido ao longo de várias centenas de anos, com os contínuos remeximentos e "arrumações" efectuadas pelos utilizadores, sempre que era preparada uma área para uma nova deposição funerária, o que em termos do registo arqueológico é difícil, senão impossível detectar, senão as últimas deposições, normalmente efectuadas por elementos, que nem sempre se encontravam identificados com imaginário ligado à construção e às primeiras deposições no monumento. 84 Cf. BELLO DIÉGUEZ, 1995:34-43.

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Para além dos modelos «clássicos» podemos encontrar estruturas tumulares sem câmara ortostática ou então sem câmara definida (BELLO DIÉGUEZ, 1995:41-2). Infelizmente, os dados cronométricos são ainda muito escassos para permitem estabelecer com segurança as relações de cariz cronológico entre as referidas arquitecturas. Assim, possuímos de momento resultados de quatro amostras provenientes de dois monumentos (A e D) da necrópole de Llaguna de Nieváres e do monumento XV da Necrópole de Monte Areo. Os dois primeiros monumentos caracterizam-se por possuírem fórmulas "clássicas", ou seja, uma câmara poligonal85 envolta por uma mamoa de terra coberta por uma carapaça lítica, que espessa na sua periferia constituindo um anel de retenção (Cf. BLAS CORTINA, 1993:168). No caso do Monumento D, o facto desta carapaça ser constituída por blocos com várias centenas de kg, levam os investigadores a percepcionarem que a função funerária se teria efectuado antes de se completar o tumulus, que funcionaria assim como um processo de monumentalização do monumento pelas suas dimensões, mas também como um processo de condenação da câmara funerária pela sua obstrução. Em termos artefactuais ambos o monumentos forneceram lâminas, geométricos (trapézios) e peças polidas, estando ausente por completo a cerâmica. As amostras deste conjunto de monumentos foram recolhidas na base das estruturas dos mesmos, muito possivelmente do topo dos "solos antigos"86 (Cf. BLAS CORTINA, 1993:168). Quanto ao Monumento XV de Monte Areo, é constituído por uma potente massa tumular constituída essencialmente por terra, que é coberta na sua totalidade por uma carapaça pétrea que na zona periférica do tumulus, se alarga de modo a constituir um anel pétreo de contenção. A mamoa envolvia uma câmara megalítica aberta provida de um pequeno corredor, bem diferenciado quer em planta e alçado. Neste monumento recolheram-se lâminas, alguns geométricos, pontas (de projéctil ?) e peças polidas, não sendo referida a presença ou ausência de elementos de cerâmica. Não possuímos qualquer indicação acerca das condições de recolha da amostra, que serviu de base à datação de radiocarbono (Cf. BLAS CORTINA, 1993:166). Quadro V.6: Monumentos Megalíticos das Astúrias Data Conv. (BP)

cal A.C. (1 σ)

5175±25

3987-3965

4033-3954

5140±60

3986-3817

4071-3791

5110±60

3974-3803

4033-3776

47 -M.D, Llag. de Nieváres (Astúrias)

GrN-1664889 GrN-1664790

5135±40

3976-3825

3993-3804

48 -M. XV, Monte Areo (Astúrias)

GrN-1972491

5040±70

3950-3729

3978-3669

Sítio 44 -M.A, Llag. Niévares (Astúrias) 45 -M.A, Llag. de Nieváres (Astúrias) 46 -M.D, Llag. de Nieváres (Astúrias)

Referência GrN-1828287 GrN-1828388

cal A.C. (2 σ)

Em qualquer dos casos, deveremos estar, eventualmente, perante situações de terminii post quem, nas quais as quatro amostras, provenientes dos Monumentos de Llaguna de Niévares e do Monumento de Monte 85 Mais difícil de perceber no caso do Monumento A devido ao seu estado de conservação. 86 Infelizmente a informação disponível é insuficiente quer para caracterizar as condições de recolha quer os contextos arqueológicos de origem das amostras que forneceram a informação cronométrica. 87 Carvão. BLAS CORTINA, 1993:173, BELLO DIÉGUEZ, 1995:42. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 88 Carvão. BLAS CORTINA, 1993:173, BELLO DIÉGUEZ, 1995:42. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 89 Carvão. BLAS CORTINA, 1993:173, BELLO DIÉGUEZ, 1995:42. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 90 Carvão. BLAS CORTINA, 1993:173, BELLO DIÉGUEZ, 1995:42. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993) 91 Carvão. BELLO DIÉGUEZ, 1995:42. Calibrado com CALIB 3.0.3 (STUIVER & REIMER, 1993)

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Areo, são estatisticamente idênticas (Cf. Quadro V.6 e Figura V.3), enquadrando-se num intervalo de tempo, a 2 σ, que abrange desde 3996 até 3802 anos cal AC92. Tudo parece indicar que a realidade presente nestes monumentos megalíticos se iniciaria nos finais o 1º quartel ou já no 2º quartel do IV milénio cal AC, o que vai de encontro aos dados provenientes de outras áreas, apesar de não possuirmos muitas referências seguras sobre a evolução das arquitecturas, estruturas tumulares, dos sistemas de implantação na paisagem e dos depósitos votivos que acompanham as deposições funerárias.

5.8. Monumentos Megaliticos do Alentejo No que se refere a outra "zona megalítica" por excelência, nomeadamente a região de Évora/Reguengos de Monsaraz, tudo parece indicar que os monumentos megalíticos de corredor longo ou evoluído, possam ser posteriores, no tempo, aos monumentos de corredor mal definido ou curto, ainda que alguns destes monumentos possam ter, eventualmente, coexistido no espaço e no tempo, por se adequarem a situações diferenciadas (Cf. GONÇALVES, 1992:101). No entanto, quanto a dados cronométricos, com excepção do conjunto de datações pelo método da Termoluminescência, que devido ao elevado desvio padrão, não se tornam úteis93, não possuímos dados que possam situar, neste espaço geográfico os primeiros monumentos megalíticos94.

Quanto ao arranque do megalitismo, no Alentejo, segundo os Leisner (LEISNER & LEISNER, (1951) 1985) este estaria associado aos pequenos monumentos sem corredor, lendariamente estudados por Manuel Heleno, na zona de Montemor-o-Novo. Em termos artefactuais nas deposições rituais estaria ausente a cerâmica, sendo o espólio composto, quase exclusivamente, por objectos em pedra polida, predominando os machados de secção transversal cilindrica e corpo picotado e os geométricos (Cf. GONÇALVES, 1992:147). No entanto, não existem dados publicados que nos permitam abalizar este modelo.

Por outro lado também no "Grupo de Reguengos de Monsaraz" parecem existir dois conjuntos discerníveis, em particular no que se refere ao seguimento de uma prescrição ritual, que apresentam garantias de corresponderem a uma realidade concebida na sincronia: •

O 1º conjunto, inserível num Neolítico, ainda não suficientemente definido, incluíria alguns tipos de geométricos, machados, enxós e goivas e alguma cerâmica com decoração a "Almagre", podendo ser indicado o conjunto proveniente do monumento do Poço da Gateira 1;

92 Média ponderada dos resultados destas análises. 93 Refira-se que para o caso da Anta do Poço da Gateira 1 (OxTL-169h) o intervalo de tempo, a 2 σ, abrangido pela amostra situa-se entre 5230 e 3790 anos AC, situando a deposição da amostra algures entre o VI ao IV milénio AC (Cf. WHITTLE & ARNAUD, 1975; ARNAUD, 1978; SOARES & CABRAL, 1984; SOARES, 1993). Por outro lado, os únicos dados publicados referem-se à Anta da Bola de Cera, onde foi possível proceder à datação de uma das tumulações originais do monumento, inseríveis já em momentos de transição entre o IV e o III milénios cal AC, podendo por isso servir de terminus ante quem, para a construção deste monumento, na 2ª metade do IV milénio cal AC (Cf. SOARES, 1993; OLIVEIRA J., 1988) [ICEN-66 - 4350±50 BP, 32582900 cal AC, a 2 σ). 94 Apesar de alguns autores, nomeadamente Victor GONÇALVES (1992:174), situarem este fenómeno globalmente nos IV e III milénio cal AC.

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Em sequência da desagregação/evolução desta realidade, vão ser adicionados a estes conjuntos, alguns elementos que Víctor Gonçalves, considera exógenos, provenientes de um, eventual, complexo mecanismo de trocas. Assim, apesar da manutenção de presenças isoladas ou de associações reduzidas dos seus componentes originais, existe uma alteração ou corrupção da prescrição "mágico-religiosa" original (Cf. GONÇALVES, 1992:132).

Também nesta área regional, se parece assistir a uma certa organização social dos sepulcros megalíticos, com a coexistência de várias arquitecturas e, com uma aparente necropolização através da construção de pequenos monumentos na órbita de um grande monumento (Cf. OLIVEIRA, 1997:53).

5.9. O Arranque do Fenómeno Megalítico no Ocidente da Península Ibérica Já tivemos oportunidade, anteriormente de afirmar que o Megalitismo deve, na realidade, ser encarado, não como um fenómeno único e linear, mas sim como uma pluralidade de fenómenos que apenas têm em comum o caracter de deposição em grandes estruturas, caracterizadas pela utilização, em parte da sua construção, de grandes blocos pétreos (VENTURA, 1993 e 1994b). Esta realidade parece abranger de uma forma geral, estruturas que se espalham desde a Europa Atlântica à Mediterrânica, ao Pacífico e ao Indico (JOUSSAUME, 1985), durante de uma longa diacronia, sem que no entanto seja possível encontrar um fio condutor, senão na solução empregue em termos arquitectónicos, que formalmente se convencionou designar de "Megalitismo".

O Megalitismo deve ser assim considerado, não só como uma realidade física, com a respectiva expressão arquitectónica, mas também como um conjunto de interacções com o mundo dos mortos, com "prescrições", ritos e comportamentos, que se interligam. Assumindo-se como um fenómeno estrutural de um dado momento das sociedades humanas, à escala planetária (JOUSSAUME, 1985; GONÇALVES, 1992:173), a sua variedade ultrapassa as "originalidades" regionais. A realidade regional, concretiza-se assim, não só pelo aspectos estrutural e arquitectónico, mas também, fundamentalmente, pelos conjuntos artefactuais que constituem as deposições rituais, que parecem ser estabelecidas por prescrições rituais ou "mágico-religiosas" (Cf. GONÇALVES, 1992). Estas prescrições, longe de serem só uma realidade exclusiva a determinado grupo humano/conjunto megalítico, no Espaço e no Tempo, reflectem também uma série de contactos inter-regionais. Se actualmente já não faz sentido falar de um "fenómeno megalítico", como uma unidade única e indivisível, no Tempo e no Espaço, pode-se apreender a existência de "fenómenos megalíticos" com marcadas características regionais, correspondentes às diversas soluções que regionalmente e supra-regionalmente se desenvolveram no seio da dita realidade megalítica, que se encontra muito longe de ser uniforme (JORGE, 1989: 365-66), mas que apresentam como ponto comum um processo de uma certa "mumificação" da realidade perecível, realidade esta que se torna "eterna" através da elaboração de estruturas definitivas, mais ou menos complexas. E, como já foi observado para várias áreas regionais (JORGE, 1987, 1988, 1989b e 1990a; CRUZ, __________________________________________________________________________________________ 151


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1988 e 1992; SILVA, 1993 e 1994; VENTURA, 1993 e 1994b; GOMES L., 1996), os monumentos de cariz megalítico, não surgem isolados, mas sim integrados em núcleos e em necrópoles.

No entanto, esta aparente homogeneidade estrutural, não impede, no entanto, um certo polimorfismo formal95, com o desenvolvimento nos mesmos núcleos, de monumentos estruturalmente tão diversos, mas simultaneamente bastante próximos em termos de uma "filosofia de operacionalidade"96. Mas quando são abordados os escassos dados cronométricos existentes97 nota-se que também aqui vai surgindo uma certa "homogeneidade", em especial, a que se prende com as cronologias de arranque do fenómeno megalítico, em diversas regiões peninsulares98.

Assim, logo no início do IV milénio cal AC, a crer nos dados apresentados, teríamos as diversas comunidades regionais a iniciarem a construção de toda uma série de monumentos, que apesar das diferenças arquitectónicas, sem dúvida o resultado da personalidade própria e das distinções da realidades regionais, apresentam características suficientemente comuns para poderem ser identificados como uma mesma realidade99, a existência de uma massa tumular, que vai marcar, em termos de paisagem o monumento100.

O grupo de dados cronométricos para tumuli, da região da Galiza101 permite inferir, apesar dos dados ainda parcelares102, que os primeiros monumentos erigidos na região vão ocorrer já no IV milénio cal AC103, como seja o caso do Monumento 1 de Chan da Cruz. Apesar de alguns destes monumentos poderem ter uma certa continuidade de utilização, em momentos mais recentes, a realidade é que a partir da 2ª metade do IV milénio e estendendo-se pelo III milénio, vão surgir monumentos de maiores dimensões, especialmente no que diz respeito ao tumulus, desenvolvendo-se estruturas complexas como sejam o caso de "lageados", "corredores intratumulares" e corredores ortostáticos de curta ou média dimensão, sendo o caso de Dombate o paragdima.

Por outro lado, no caso da Serra da Aboboreira104, também é nos inícios do IV milénio AC, que os primeiros monumentos vão fazer a sua aparição como um marco na paisagem, para posteriormente serem complementados pelos poucos monumentos evoluídos, ou seja de corredor, conhecidos.

95 Concebido em termos de contemporaneidade ou Sincronia. 96 Veja-se o caso da Serra da Aboboreira e do Planalto de Castro Laboreiro (Cf. JORGE, 1987, 1988, 1990a, 1990b; JORGE, SILVA, BAPTISTA & JORGE, 1995 e JORGE & ALONSO MATHIAS, 1996). 97 Apesar dos esforços, que se têm realizado nos últimos 15 anos. 98 Não pretendemos aqui estabelecer uma prioridade de determinada área sobre outra, nem sequer estabelecer hierarquias regionais, para defender processos "difucionistas" ou "regionalistas", mas somente constatar uma realidade. 99 É particularmente feliz a atribuição do conceito de "monumentos de tradição megalítica" ou sub-megalitismo, por parte de Fernando SILVA (1993 e 1994:16-7) para englobar toda uma série de monumentos com características afins ao "megalitismo clássico" sem no entanto as possuírem na totalidade. 100 Tal como Domingos CRUZ (1988, 1992 e 1995a) muito bem destaca, a monumentalidade não reside na unicamente na construção da câmara e eventualmente do corredor com ortóstatos em si, mas sim na globalidade da estrutura, na qual se destaca a função "monumentalizante" do tumulus. 101 Também em certa medida também aplicável à situação das Astúrias, como iremos ver de seguida. 102 Refira-se que apenas um monumento, o de Dombate, possui neste momento informação que grosso modo, abrange grande parte da sua "existência". 103 Normalmente monumentos com câmara simples, tendencialmente abertas, envoltas em massas tumulares de pequena ou média dimensão. 104 Podemos também considerar a mesma situação para nos monumentos de Trás-os-Montes e, eventualmente, os do Planalto de Castro Laboreiro.

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O caso da Meseta espanhola, é mais complicado, em grande parte devido à não divulgação dos contextos e situação de recolha dos dados cronométricos, mas mesmo assim, tudo também parece indicar, um momento de arranque por volta dos inícios do IV milénio AC.

Nos casos, em que se detectaram espólios associados a estes primeiros momentos105, estes consistem em deposições rituais de certos tipos de objectos, nomeadamente de geométricos (trapézios), lâminas sem retoque, macro-utensilagem polida, onde seriam adicionados, conformes a áreas, elementos de adorno, em xisto ou pedra verde e/ou então objectos em osso. Poderíamos estar assim perante um eventual "pacote" cultural, determinado por um conjunto de prescrições rituais, que permitiria a visibilidade de certos elementos, em oposição a outros. Assim o monumento megalítico, seria definido não só por um eventual impacto arquitectónico na paisagem, em sentido lato (Cf. SILVA, 1993 e 1994 e CRIADO, 1995), mas também em termos artefactuais.

Também a crer no entrecruzamento dos dados provenientes das diversas áreas aqui apresentadas, a partir da 2ª metade do IV milénio cal AC e por toda a 1ª do III milénio cal AC, grosso modo, assistir-se-ía à edificação de uma série de monumentos, num processo de necropolização do espaço (JORGE, 1986a), que parece constituir a norma nas zonas em apreço106, levando a supor que o megalitismo atinge a sua fase de apogeu, em especial, pelo desenvolvimento, quer de estruturas complexas ligadas a um aumento do impacto do monumento na paisagem107, quer ainda da adição, aos espólios anteriores, de vários novas categorias de artefactos, tais como as pontas de projéctil e/ou os elementos cerâmicos. Este apogeu dos diversos megalitismos regionais, parece constituir também, o momento da cessação de utilização de algumas das pequenas sepulturas megalíticas e concentração das deposições funerárias nos grandes monumentos de corredor evoluído.

105 Como no caso do Monumento 3 da Pena Mosqueira, El Miradero, os Monumentos A e D de Llaguna de Nieváres e eventualmente Mamoa 1 do Alto da Portela do Pau. 106 Mais uma vez com a excepção de Dombate, ainda que se possa colocar a questão se estaremos perante uma verdadeira monumentalização (Cf. Cruz, 1995:96, nota 23) 107 Relembre-se mais uma vez a situação de Dombate, onde um monumento de pequenas dimensões não só é substituído como "englobado" no novo monumento (Cf. BELLO DIÉGUEZ, 1992-93, 1994, 1995).

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6. ____________________________________

O NÚCLEO MEGALÍTICO DOS FIAIS/AMEAL, NO CONTEXTO LOCAL E REGIONAL. AS LEITURAS POSSÍVEIS

Os objectivos do presente capítulo, podem ser sintetizados em dois pontos: produzir uma interpretação da evolução da ocupação humana, na Plataforma do Mondego, ao longo do V e IV milénios cal AC e em segundo lugar fazer um ensaio de análise espacial, tendo em conta a implantação dos monumentos megalíticos.

Assim, visaremos sobretudo a transição do V para o IV milénio cal AC, abordando o desenvolvimento do fenómeno megalítico regional e, em especial, o que vai ocorrer no núcleo megalítico em apreço. É antes de mais a perspectivação de um "fenómeno de larga duração" passível de ser observado, não só localmente como ainda regionalmente e, nalguns casos, transregionalmente.

O carácter relativamente recente dos estudos sobre o povoamento do Neolítico antigo na Plataforma do Mondego, implica que os resultados disponíveis são ainda parcelares, visto que um desses sítios é aqui apresentado pela primeira vez enquanto que os restantes, à parte de apresentações preliminares (SENNAMARTINEZ & ESTEVINHA, 1994; CARVALHO, 1996; VALERA, 1997a) só no ano de 1997 é que foram apresentados os resultados definitivos do seu estudo e integração (SENNA-MARTINEZ, 1997; VALERA, 1997b)1. Assim, não será ainda possível a construção de uma Modelização totalmente coerente, constituindo estas linhas apenas mais uma contribuição e reformulação de interpretações anteriores (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a e 1995a; CRUZ, 1995a; VALERA, 1997a).

É também necessário ter em conta, que a construção de sequências crono-culturais deve ser sempre considerada como uma acção interpretativa individualizada, de realidades históricas que nos surgem sempre segmentadas ainda que na sua existência própria se assumam como um contínuo histórico.

A "Mudança" e a "Ruptura" é antes de mais uma conceptualização do investigador, que a analisa, classifica e a situa no Espaço e no Tempo, assim longe de ser só um instrumento, torna-se em muitos casos a própria essência da interpretação (Cf. MARTINEZ NAVARRETE, 1989:139).

Os critérios para esta análise, abragem os níveis tecnológico, económico, social, cronológico e simbólico/mitológico, para referir apenas os principais. A sobrevalorização de alguns sobre os outros depende antes de

1 Mesmo assim à data da redacção final deste ponto, ainda não se encontravam publicadas as actas referentes ao Colóquio «A Pré-História na Beira Interior», realizado em Tondela (21 a 23 de Novembro de 1997), onde os referidos estudos foram apresentados.

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mais da própria concepção historiográfica do pré-historiador, que é definida logo com a elaboração da metodologia de recolha e tratamento da informação (MARTINEZ NAVARRETE, 1989; ALARCÃO, 1995 e 1996)

6.0.1. A UE.7 e o Neolítico Regional

A recente descoberta de sítios com materiais atribuíveis ao Neolítico antigo, veio permitir inferir um povoamento anterior à construção dos primeiros monumentos megalíticos na Plataforma do Mondego e no geral a norte deste rio, situação que seria indefensável na década passada (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a; JORGE S., 1990:140; VALERA, 1997a:165-7).

Quanto ao território a norte do Mondego, foram detectados, até ao momento cinco arqueosítios2 que se podem enquadrar no Neolítico antigo ou tradição antiga3, aos quais se junta agora a UE.7 da Orca 2 do Ameal.

No Nordeste de Portugal, O Abrigo do Buraco da Pala, Mirandela (SANCHES et al., 1993 e SANCHES, 1995); no alto Douro, o Abrigo da Fraga D'Aia, S. João da Pesqueira (JORGE et al., 1988; JORGE, BAPTISTA & SANCHES, 1988; JORGE S., 1991; SANCHES, 1995) e na Plataforma do Mondego, o sítio das Carriceiras, Carregal do Sal (SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994; SENNA-MARTINEZ, 1995a e 1997) e os abrigos entre cavidades graníticas do Penedo da Penha, Nelas e do Buraco da Moura de S. Romão, Seia (VALERA, 1997a e 1997b).

Quanto ao primeiro do referidos sítios, o Nível IV do Abrigo do Buraco da Pala, apresenta uma indústria lítica de pedra lascada, de carácter microlítico de "tradição epipaleolítica", onde se destacam os geométricos, aí indicados como tendo uma função preferencial, como pontas de projéctil, em especial os crescentes. A cerâmica, apesar de ter sido recolhida em pequeno número, apresenta-se com formas predominantemente fechadas, onde se destacam as em "saco". A decoração encontra-se presente em 44% dos recipientes, dominando a técnica da impressão/puncionamento arrastado (boquique), estando também representada a decoração plástica. Ao nível das técnicas e organizações decorativas, estas parecem estar ligadas estilisticamente à "Cultura das Grutas" da Andaluzia (Cf. SANCHES, 1995:122-6).

2 Sem contabilizar os eventuais arqueosítios atribuíveis ao Neolítico do vale do Côa, como sejam o caso da Quinta das Quebradas e da Quinta da Torrinha (Cf. ZILHÃO et al., 1997:77-195)e o possível sítio da Quinta do Soito em Nelas (VALERA, 1997b). 3 Conforme designação de João Carlos de Senna-Martinez (SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994:61).

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É proposto para este nível uma cronologia situada na 1ª metade do V milénio cal AC4 e este nível IV, seria o resultado de penetração de comunidades neolitizadoras provenientes da Meseta espanhola, para novas zonas: "(...) é fundamentalmente a estilística decorativa da cerâmica da "Cultura das Grutas" que tem vindo a ser utilizada para suportar a ideia de que a neolitização das regiões mais setentrionais localizadas no interior, dependeu directa ou indirectamente (e segundo processos variados) do sul, onde num período mais precoce se iniciou a economia agro-pastoril a par de inovações técnicas particulares como sejam o fabrico de cerâmica e a feitura de instrumentos de pedra polida (...)" (SANCHES, 1995:126)

No referente ao Abrigo da Fraga D'Aia, apesar das dificuldades na correlação entre os níveis de ocupação e os dados cronométricos aí recolhidos, propõe-se também uma integração no Neolítico antigo5, devido a um certo paralelismo entre alguns materiais aí recuperados com os provenientes do nível mais antigo do Buraco da Pala. Assim, a indústria lítica, seria também microlítica, sendo maioritariamente sobre lascas de quartzo, tendo surgido um geométrico crescente e uma lamela6. Quanto à cerâmica foi detectado um fundo espessado e alguns fragmentos decorados com técnicas e motivos estilísticos afins de alguns recuperados no nível IV do Buraco da Pala (SANCHES, 1995:187-8).

É referida, uma certa dicotomia de ocupação do espaço, onde estariam presentes na região a norte do Douro, sítios de carácter ritual com alguma ocupação doméstica7, enquanto ocorreriam povoados com estruturas pouco duráveis, em zonas abertas, predominantemente rechãs.8

Quanto à Plataforma do Mondego, o sítio das Carriceiras, ocupa uma zona aberta, sem condições naturais de defesa, numa rechã a meia vertente, voltada a sul para a ribeira de Cabanas. Apesar de profundamente revolvido pelo plantio de eucaliptos, foi possível recuperar alguma pouca cerâmica, onde os fragmentos decorados são minoritários. As formas reconstituíveis são maioritariamente fechadas, surgindo os fragmentos decorados em número muito reduzido. Quanto à pedra talhada, domina a debitagem de produtos lamelares, sendo o quartzo a matéria-prima predominante, estando representados geométricos crescentes sobre lamela, furadores, buris e lascas. Quanto às técnicas de fractura intencional, encontra-se testemunhada a presença da técnica do microburil, mas esta não é a maioritária, posição que é ocupada pela flexão (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1997).

4 Estabelecida por dados cronométricos e o conjunto artefactual. ICEN-935 5840±140 BP [5193-4367 cal AC a 2 σ] e GrN-19104 5860±30 BP [4830-4697 cal AC a 2 σ] (Cf. SANCHES et al., 1993:230). 5 1ª metade do V milénio cal AC. Gif-7891 5750±70 BP [4780-4457 cal AC a 2 σ] e Gif-8079 5690±70 BP [4717-4360 cal AC a 2 σ] (JORGE & DELIBRIAS, 1988:231 e JORGE V., 1991). 6 Maria Jesus Sanches refere-se a uma ponta integrável neste conjunto, não definindo no entanto se será uma ponta de projéctil, tendo como base um geométrico (NUZHNYJ, 1989) ou se será uma ponta de seta normal (Cf. SANCHES, 1995:188) 7 Como seria o caso da Fraga D'Aia, devido à arte parietal aí detectada (JORGE et al., 1988) e eventualmente o mesmo ocorrendo com o Buraco da Pala, tendo em conta a descoberta do mesmo tipo de elementos (Cf. SANCHES, 1995:183) 8 Como seriam os casos dos recentemente detectados povoados na bacia hidrográfica do Côa e, eventualmente, os sítios de habitat relacionados com materiais detectados nos solos antigos enterrados de alguns monumentos sob tumuli, como por exemplo a Mina do Simão, Furna 2, Chã de Santinhos 2 (Cf. JORGE V., 1984 e 1985; JORGE V. et al., 1987) e Madorras 1 (Cf. GONÇALVES & CRUZ, 1994).

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Em termos cronológicos, o sítio é integrado num momento crono-cultural, com claras afinidades com o Neolítico antigo evoluído da Estremadura portuguesa, podendo corresponder: "(...)a uma primeira penetração (...) de um «Neolítico de Tradição Antiga» e de origem estremenha (...)" (SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994:61)

No entanto, mais recentemente têm sido levantadas questões acerca da correcta integração deste arqueosítio, propondo-se, eventualmente, também uma integração, tendo em conta os estilos decorativos da cerâmica, em conjuntos artefactuais de tradição meridional, presentes por exemplo nos conjuntos do nível IV do Buraco da Pala e da Fraga D'Aia (SANCHES, 1995:196).9

As ocupações dos abrigos entre cavidades graníticas do Penedo da Penha e do Buraco da Moura, apresentam materiais cerâmicos onde os fragmentos decorados são maioritários, com técnicas e estilos decorativos similares às encontradas, quer no Buraco da Pala (nível IV), quer em contextos do Neolítico antigo da Andaluzia, com formas predominantemente fundas e fechadas, onde surgem fundos cónicos, espessados externamente. A indústria de pedra talhada é maioritariamente em sílex, baseando-se na debitagem de produtos lamelares, complementada por lascas, onde se verifica a presença de crescentes sobre lamela, furadores, raspadores, etc. A fractura das peças é realizada, pelo menos em parte, utilizando a técnica do microburil (CARVALHO, 1996:13; VALERA, 1997:165-6 e 1997b) enquanto que na pedra polida, apesar de escassa, dominam as secções transversais circulares ou ovaladas.

Para estes dois últimos ambientes é apontada, devido à falta de elementos cronométricos, uma inserção crono-cultural similar aos detectados para momentos coevos do Neolítico antigo senso lato. Assim, tendo em conta a similaridades entre os conjuntos recolhidos e os da 1ª metade do V milénio cal AC, provenientes do Buraco da Pala (nível IV) e da Fraga D'Aia, é proposta uma cronologia semelhante para as ocupações iniciais destes dois arqueosítios (Cf. VALERA, 1997a:166-7 e 1997b).

Os materiais provenientes da UE.7 da Orca 2 do Ameal, deverão ter origem num sítio de habitat10, que deveria localizar-se na área envolvente da presente Orca, ou seja, numa zona aplanada, sem condições naturais de defesa e sem controle visual da paisagem envolvente. Apesar do conjunto recolhido, poder encontrar-se truncado, foi possível recuperar cerâmica manual, que apesar dos poucos recipientes identificados, permitem estabelecer que as formas reconstituíveis são predominantemente fundas e fechadas, encontrando-se os fragmentos decorados em percentagens reduzidas (inferiores a 1%). Quanto à pedra talhada, domina a debitagem de produtos lamelares, sendo o sílex a matéria-prima predominante, estando representados, em termos de utensílios, um geométrico crescente sobre lamela e raspadores sobre lasca. Quanto às técnicas de fractura intencional, encontra-

9 Por outro lado António VALERA, propõe que esses mesmos paralelismos ocorrem em estações da bacia do médio e alto Mondego, mais concretamente no Penedo da Penha e Buraco da Moura de S. Romão (1997a:166 e 1997b). 10 Eventualmente de ocupação precária e limitada no tempo.

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se testemunhada a presença da técnica do microburil, mas que não é a maioritária, já que a flexão é a predominante11.

Em termos funcionais, se não é de excluir estarmos em presença de um conjunto artefactual eventualmente proveniente de um sítio especializado12, a dimensão e a natureza da amostra não nos permite determiná-lo com rigor.

O conjunto da UE.7, em especial a cerâmica, tendo em conta as morfologias e os estilos decorativos, tanto se aproxima dos conjuntos do Neolítico antigo não-cardial (ou seja, antigo evolucionado) da Estremadura (ZILHÃO, 1992) e da bacia do Baixo Mondego (JORGE S., 1979), como também permite paralelos, com os conjuntos do Buraco da Pala (nível IV) e da Fraga D'Aia (SANCHES, 1995:196) e eventualmente, também poderá encontrar paralelos nos estilos decorativos recuperados no Penedo da Penha e Buraco da Moura de S. Romão (VALERA, 1997a:166-7 e 1997b).

No entanto, os conjuntos destes quatro últimos arqueosítios, apresentam cerâmica maioritariamente decorada, o que não ocorre na UE.7, pelo que tendo em conta todo o conjunto apresentámos uma inserção num momento de transição do Neolítico antigo evolucionado para um Neolítico médio regional, dentro de uma situação que recentemente António Faustino Carvalho, designou de Neolítico médio inicial13 (CARVALHO, 1996:603). Assim enquanto os anteriores arqueosítios se inseririam em momentos da 1ª metade e prolongando-se até aos finais do 3º quartel do V milénio cal AC, o conjunto da UE.7, situar-se-ía em momentos cronológicos do 4º quartel do V milénio cal AC.

6.0.2. Possíveis estratégias de implantação e económicas Normalmente aceita-se a existência de duas etapas principais no Neolítico antigo a sul do Tejo, em termos cronológico-culturais (SILVA & SOARES, 1981; SILVA C., 1983; ZILHÃO, 1992). A mais antiga destas etapas, seria caracterizada pela presença, ainda que mínima, de cerâmicas decoradas com impressões de Cerastoderma edule, ainda que se encontre associada a outras técnicas e temáticas decorativas. Posteriormente, ocorreria um outro momento, onde a cerâmica cardial seria residual ou desconhecida.

A primeira eventual estratégia de implantação seria no litoral e nos vales dos principais rios. Posteriormente, já numa segunda etapa, estas comunidades expandir-se-iam para o interior do território, hoje nacional, utilizando como vias de penetração as zonas de acesso naturais (ZILHÃO, 1992 e 1993)14. Em termos de zonas

11 Cf. Ponto 3.3. para a análise deste conjunto. 12 Eventualmente um acampamento de caça, tendo em consideração o tipo de utensílios detectados. 13 Para a situação detectada em Pena d'Água, camada Eb (CARVALHO, 1996:60-1). 14 Recentemente têm-se proposto outros modelos de neolitização das áreas localizadas a norte do Mondego, que passaria pela expansão demográfica não de comunidades situadas na orla atlântica, mas sim das comunidades neolíticas da Andaluzia, através do conhecido corredor de "Cáceres-Castelo

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preferenciais de implantação dominariam os sítios abertos, perto de cursos de água e zonas adequadas a uma agricultura de tipo primitivo e/ou à pastorícia. Assim, em termos de exploração do ecosistema, as comunidades do Neolítico antigo, seriam portadoras de um sistema agro-pastoril, ainda que mantivessem uma importante economia de caça-recolecção15 (SILVA & SOARES, 1981 e 1987; VICENT GARCIA, 1988; SOARES, 1995 e 1996; ZILHÃO, 1992; CRIADO BROADO, 1993; CARVALHO, 1996). As cavidades16 ou abrigos seriam utilizadas como abrigos temporários e necrópoles (CARVALHO, 1996:10). Cronologicamente o inicio deste momento, pelos dados actualmente ao nosso dispor, situar-se-ía por volta de 5500 cal AC, para a primeira etapa, desenvolvendo-se a segunda a partir dos 5100 a 4400 cal AC (ZILHÃO, 1992; CARVALHO, 1996). Por outro lado, a norte do Mondego e, em especial na bacia hidrográfica do Douro, pelos dados disponíveis, as comunidades neolitizadoras, são portadoras de uma cultura material afim da "Cultura de las Cuevas" (NAVARRETE ENCISO, 1976; PILAR LÓPEZ, 1988). Assim, no parecer de Maria de Jesus Sanches, será um "Neolítico de tradição meridional", que se terá alargado para regiões mais a norte de Portugal, utilizando como vias de penetração as bacias hidrográficas, como resultado de uma eventual pressão demográfica, através da Meseta espanhola, eventualmente a partir de áreas na Andaluzia, entre a 2ª metade do VI e a 1ª do V milénio cal AC (SANCHES, 1995:130). Estas comunidades neolitizadoras seriam assim também responsáveis, pelo menos em parte. pelo mesmo processo na Plataforma do Mondego, utilizando o corredor de Cáceres-Castelo Branco e estariam patentes nos níveis inferiores do Penedo da Penha e Buraco da Moura de S. Romão17 (VALERA, 1997a:167 e 1997b). Por sua vez, para o sítio das Carriceiras é apontada um eventual foco estremenho como o responsável por este mesmo processo (SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994:61). Estes grupos humanos, portadores provenientes da Estremadura litoral portuguesa, teriam utilizado a importante via de circulação que o Mondego constituiria, devido à transgressão flandriana (SENNA-MARTINEZ & ESTEVINHA, 1994; SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995a), podendo os sítios localizados em redor da Figueira da Foz, constituir indícios desses mesmos grupos neolitizadores. No que se refere, ao conjunto da UE.7, apesar da sua eventual cronologia mais tardia, os dados apurados tanto permitem a sua integração num "Neolítico de tradição meridional" vulgo "Cultura das Grutas" onde para além de ocupações em abrigos, também são encontrados zonas de habitat em zonas abertas (Cf. PILAR LÓPEZ, 1988) como na sequência da tradição iniciada pelo foco neolitizador estremenho, que poderá ter utilizado a bacia hidrográfica do Mondego, como uma via natural preferencial18. Branco", sendo os diversos sítios do Neolítico antigo ou de tradição antiga da Estremadura espanhola e do Leste de Portugal o resultado desta expansão (Cf. DINIZ, 1994; VALERA, 1997b). 15 Algo que foi designado por uma economia de largo espectro por Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares (SOARES, 1995 e 1996). 16 Em especial as cársicas, como no caso da Gruta do Caldeirão (ZILHÃO, 1992), Gruta do Almonda (CARVALHO, 1996) e Gruta do Cadaval (OOSTERBEEK, 1993 e 1995). 17 E da Quinta do Soito, Folhadal, Nelas (Cf. VALERA, 1997b). 18 Em boa parte esta dupla possibilidade de enquadramento crono-cultural proposto para a UE.7 também pode ser aplicada ao conjunto artefactual recuperado no sítio das Carriceiras.

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Assim, pela informação actualmente disponível, tudo parece indicar, que estaremos perante uma situação similar à já detectada por Susana Oliveira Jorge, para o Nordeste de Portugal, onde tudo parece indiciar que as diversas tendências estilísticas da cerâmica neolítica decorada, parecem fazer supor um processo de neolitização pouco uniforme, onde a influência de diversas áreas geográficas seriam assimiladas ou filtradas de diversas formas, por diferentes grupos humanos, o que terá levado à evolução e desenvolvimento de diferentes tradições neolíticas (JORGE S., 1990:140; SANCHES, 1995:126-7). Convergiriam assim na Beira Alta, as influências de neolitização provenientes do litoral (Estremadura e Baixo Mondego) e do interior, por via da Estremadura espanhola e/ou Meseta19. Desta forma, na Plataforma do Mondego, teríamos uma realidade cuja evolução, daria origem na 2ª metade do IV e 1ª metade do III milénio cal AC ao conjunto patente nos habitats "Tipo Ameal-VI" (SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995a) e, por outro lado, num período coevo, uma outra vertente, cuja realidade foi recentemente constatada para as comunidades Calcolíticas do Penedo da Penha, Buraco da Moura de S. Romão, ou para as englobáveis na realidade detectada no castro de Santiago, Fornos de Algôdres (VALERA, 1997a) e no Cabeço da Malhoeira, Penamacor (OLIVEIRA A., 1997).

6.0.3. A (possível) evolução na Plataforma do Mondego Nestas circunstâncias não será errado equacionar, que longe de uma única realidade e origem, na Plataforma do Mondego, estaremos perante um processo de evolução, de múltiplas tradições reportáveis aos Neolíticos antigos ou de tradição antiga, das diversas áreas neolitizadoras do ocidente da Península. Para tal, contribuí, o facto do o Neolítico, no geral, aparecer ligado a um conjunto artefactual, bem definido: cerâmicas com formas e tipologias bem definidas, ainda que exista uma certa variação regional e uma certa abundância de recipientes decorados com uma profusa variedade de motivos e técnicas estilísticas; instrumentos polidos, ainda que em pequenas quantidades; uma indústria lítica, onde parecem predominar os produtos lamelares, com o sílex a ser a matéria-prima preferida. Para além destas características "comuns" em certas zonas surgem indícios relativos à existência de animais domésticos e/ou áreas cultivadas (Cf. SILVA & SOARES, 1981 e 1987; PÍLAR LÓPEZ, 1988; JORGE S., 1990; ZILHÃO, 1992 e 1993, SANCHES, 1995).

É a partir desta relativa ou aparente uniformidade20, que rapidamente, se vão criar as diversas realidades regionais, patentes por exemplo ao nível, não só da produção cerâmica, mas também nos produtos e utensílios líticos. Esta mesma regionalização ou individualização foi detectada, por exemplo no que compete à utilização da matéria-prima, nos artefactos líticos talhados, onde tudo parece indicar que existe uma alteração da relação entre o sílex e a utilização de rochas locais, na transição do Neolítico antigo, para o Neolítico antigo evolucionado. Em primeiro lugar, no Neolítico antigo, existe uma prioridade ou mesmo uma presença maiori-

19 Refira-se só a título de exemplo os arqueosítios da Cueva del Aire, Cueva de la Vaquera e a Cueva de la Nogalera, onde conjuntos artefactuais, em especial cerâmicos, apresentam evidentes semelhanças, em especial ao nível das técnicas e estilos decorativos com os recuperados no Buraco da Pala, Penedo da Penha e Buraco da Moura de S. Romão (Cf. MUNICIO, 1988; SANCHES, 1995; VALERA, 1997a e 1997b). 20 Que parece também ocorrer, por exemplo, no arranque do megalitismo da Plataforma do Mondego.

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tária do sílex, nos conjuntos líticos21, para se assistir posteriormente à paulatina substituição, em parte, deste por rochas locais, de onde avulta o quartzo. Na transição para o Neolítico médio, o sílex, nas regiões onde ele escasseia22 passa só a circular sob a forma de lâminas de "fase plena de debitagem" (CARVALHO, 1996:129-30), o que por um lado pode explicar a presença residual deste tipo de artefacto em certos contextos e, por outro explicar a grande dependência na circulação destes produtos laminares, por parte das comunidades que irão depositar artefactos baseados nestes produtos em certos monumentos megalíticos.

Assim, a expansão destas comunidades neolitizadoras, proceder-se-ía, devido não só a um aumento demográfico mas também como o resultado de uma pressão sobre a produção. Quanto aos aspectos da economia destas comunidades, a ausência de informação, parece ser a regra para os grupos humanos que ocuparam a Bacia do Médio Mondego, eventualmente, desde o V milénio cal AC, devido em grande parte às condições de jazida e à extrema acidez dos solos graníticos.

Ultimamente tem sido dado um certo relevo, sobre a informação proveniente investigações de Palinologia, realizadas não só nas turfeiras da Serra da Estrela, mas também da Serra da Freita. Os dados disponibilizados até ao momento, têm permitido a reconstituíção da paisagem envolvente e a sua evolução histórica. No que se refere ao intervalo temporal em apreço, a informação disponível para as turfeiras da Serra da Estrela, têm assinalado uma ruptura, pelo menos ao nível da deposição de pólens, no VII milénio cal AC, através do reconhecimento da diminuição da cobertura arbórea e aumento dos pólens de origem cerealífera (JANSSEN, 1985; VAN DER KNAAP & VAN LEEUWEN, 1994), o que parece corroborar a situação similar, ainda que já do V milénio cal AC, na Serra da Freita (CORDEIRO, 1990 e 1992; CORDEIRO et al., 1991).

Esta ruptura, identificada na deposição de pólens em depósitos fosseis, tem sido identificada, também nas deposições do mesmo tipo na Galiza, durante todo o VI milénio e o V milénio cal AC, onde se assiste também a uma acção de redução da cobertura arbórea, em associada à expansão da cobertura arbustiva e herbáceas (Cf. SANCHES, 1995:186-7; RAMIL REGO, 1993; RAMIL REGO & RAMIL SORREIRA, 1994)

Estes factos são interpretados como um primeiro impacto antrópico, ligado a uma actividade pastoril e de desbravamento através do sistema de queimada, o que leva Maria de Jesus Sanches a relacioná-los com alguns dos dados provenientes dos "solos antigos" enterrados, sob as estruturas tumulares dos monumentos da Serra da Freita e da Serra da Aboboreira (SANCHES, 1995:187). Se por um lado, é um facto, que em alguns monumentos megalíticos da Serra da Aboboreira23 os dados parecem indicar uma ocupação anterior à sua constru-

21 Como ocorre nos conjuntos líticos de pedra talhada, do Neolítico antigo, do nível IV do Buraco da Pala (SANCHES, 1995), Penedo da Penha e Buraco da Moura de S. Romão (VALERA, 1997a e 1997b), na Várzea do Lírio (JORGE S., 1979). Frequências do mesmo tipo foram detectadas para o conjunto da UE.7, o que apesar da sua eventual inserção cronológica mais tardia, parece indicar uma permanência da tradição do Neolítico antigo, pelo menos ao nível da pedra talhada. De destacar, no entanto, que o sítio das Carriceiras não apresenta os mesmos resultados, dominando aqui o quartzo (61%) como matéria-prima, podendo corresponder, eventualmente, a diferentes estratégias de aprovisionamento (SENNA-MARTINEZ, 1997). 22 Como é o caso da Plataforma do Médio e Alto Mondego. 23 Assim teríamos os exemplos da Mina do Simão (JORGE V., 1984), Meninas do Crasto 2 (JORGE V., 1983), Furna 2 (JORGE V. et al., 1987), Chã de Carvalhal 1 (CRUZ, 1992). Em Trás-os-Montes, também parece ocorrer este processo, pelo que se pode inferir dos dados provenientes do solo antigo enterrado de Madorras 1 (GONÇALVES & CRUZ, 1994).

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ção24, através da presença de lareiras estruturadas e/ou materiais recuperados nas terras dos "solos antigos" enterrados, ou nos próprios enchimentos dos tumuli, parece-nos, no entanto, que a maioria dos casos detectados, se devem inscrever numa situação análoga à detectada para a UE.7 da Orca 2 do Ameal, podendo, assim, não corresponder, na realidade, a estruturas dos construtores dos monumentos, mas somente materiais provenientes de zonas de habitat, anteriores à construção dos monumentos, que seriam, por diversas vias, englobados nas terras de construção das estruturas tumulares. Por outro lado, agrupar como um todo, os resultados cronométricos, provenientes dos solos dos monumentos, como o resultado de uma actividade de queimada, ou de preparação dos solos, achamos dificilmente aceitável, visto que o que se está a datar é meramente um incêndio e não uma actividade e perante a hipótese de incêndios naturais de rejuvenescimento da cobertura vegetal, provocados por exemplo por trovoadas, é difícil filtrar no conjunto dos dados quais os provenientes de acções humanas e quais o resultantes da acção natural.25 Voltando aos dados da Palinologia, o problema do impacto antrópico para explicar uma alteração parcial da cobertura vegetal no VII milénio cal AC (Cf. JANSSEN, 1985) carece até ao momento de confirmação arqueológica, e como António Valera, correctamente referiu, parece existir em todo o território português, uma ausência de comunidades neolíticas/neolitizadoras, em momentos anteriores ao VI milénio, que possam corroborar um impacto deste tipo26. Para o caso da Serra da Freita, os resultados parecem ser mais consentâneos, com os dados arqueológicos, já que a redução da cobertura arbórea se faz à custa do aumento de leguminosas27, o que parece ser consubstanciado com a realidade detectada para o nível IV do Buraco da Pala28, sendo também este impacto coevo, não só com a eventual construção/ocupação de áreas detectáveis sob os montículos tumulares de alguns monumentos megalíticos, para além das eventuais ocupações do Neolítico antigo do Penedo da Penha e Buraco da Moura de S. Romão. É plausível, que o povoamento humano no Neolítico antigo ou de tradição antiga assente, a norte do Mondego, em parte, numa exploração hortícola e/ou cerealífera, consubstanciado pelos dados disponibilizados recentemente para a ocupação mais antiga (Nível IV) do Buraco da Pala, Mirandela, onde foram detectados não só cereais (trigo e cevada), como também leguminosas (fava pequenina), para além do eventual recursos à recolecção indirectamente detectável pela Antracologia (Cf. SANCHES, 1995:40-1). No entanto, apesar destes dados, que possam indicar uma economia em parte produtora, à semelhança das suas congéneres da Estremadura e do Sudoeste Alentejano (Cf. SILVA & SOARES, 1981 e 1987; SOARES, 24 Os materiais provenientes dos solos antigos enterrados, parecem indicar a existência de uma ocupação humana, antes da construção do monumento, onde se salienta a existência de uma tradição de cerâmicas decoradas de cariz meridional, afins dos provenientes de sítios como a Fraga D'Aia, Buraco da Pala (Nível IV) e eventualmente o povoado da Lavra I (SANCHES, 1995:198), permitindo situar em parte esta ocupação no V milénio cal AC. Estaria-se assim, pelo menos na Serra da Aboboreira, perante uma eventual exploração de lameiros, relacionada possivelmente, com uma agricultura de tipo "itinerante" (JORGE V., 1996:586-7). 25 Veja-se para esta questão o Ponto 4 e António Monge SOARES (1993) e Domingos CRUZ (1995a). 26 CF. VALERA, 1997a:167-8; ZILHÃO, 1992. 27 Em especial os pólens de Poaceae, Ericaceae e Cyperaceae. 28 Com especial destaque para o Trigo (Triticum aestivum (L.)), Cevada (Hordeum vulgare nudum e Hordeum vulgare var. vulgare) e Fava pequenina (Vicia faba L. var. minor) (Cf. SANCHES, 1995:40-3).

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1995 e 1996; ZILHÃO, 1992; CARVALHO, 1996), os grupos humanos neolitizadores da Plataforma do Mondego, poderam corresponder a sociedades caçadoras-recolectoras e agrícolas incipientes, cujo padrão de subsistência se caracteriza pela enorme mobilidade29, por isso mesmo baseada em recursos também eles moveis e não fixos a um espaço especifico, o que implica a exploração de diversos tipos de territórios de forma diferenciada, em termos económicos (Cf. VICENT GARCIA, 1988; CRIADO BROADO, 1993). Para tal não deixa de ser sintomático a frequência de geométricos crescentes, nos espólios destes arqueosítios, onde poderão ser interpretados, em termos funcionais, como pontas de projéctil30 e uma presença mínima, senão residual, de lâminas e eventuais "foices". Refira-se aqui que no caso da UE.7 os utensílios detectados, parecem circunscrever-se mais a uma situação especializada, de caça ou outra actividade de recolecção, não detectada, tendo em conta as condições da jazida e as dificuldades de conservação de matéria orgânica, nos solos da área em apreço. Por outro lado, a relativamente reduzida ocorrência de elementos de moagem, nestes contextos, parece confirmar este modelo (Cf. VALERA, 1997a:168). Alguns autores têm referido a pouca aptidão agrícola da maioria dos solos na Plataforma do Mondego, em especial, para o desenvolvimento da produção cerealífera31 (VAN DEN BRINK & JANSSEN, 1985:213; SENNAMARTINEZ, 1989a:670), como factor para justificar, a sua relativa ausência em contextos arqueológicos. A constatação desta realidade global, levou João Carlos de Senna-Martinez, a desenvolver um modelo económico, para as comunidades do Neolítico médio e final regional, baseado na recolecção de produtos do bosque e floresta e caça, complementado por uma pequena horticultura, nas zonas baixas junto aos cursos de água. Esta base económica, teria persistido em parte até ao Bronze final, já que no Castro de S. Romão, Seia, foram detectados espaços de torrefação de bolota (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a e 1995a) Esta realidade estaria atestada também para o Calcolítico da Bacia do Alto Mondego, nomeadamente no habitat da Malhada (VALERA, 1997a:126), permitindo assim inferir da continuidade deste processo desde pelo menos do Neolítico final regional32. No entanto, tendo em conta, na nossa área, a falta de estudos de Carpologia e Antracologia, esta realidade apenas pode ser proposta como hipótese mas, se tivermos em conta os dados provenientes do nível IV do Abrigo do Buraco da Pala, o único arqueosítio de onde dispomos este tipo de informação, não é de por de lado, que parte se não a maioria dos cereais e leguminosas aí detectados, possam ter sido cultivados nas pequenas zonas férteis localizadas ao longo dos rios, permitindo assim uma base económica estável33. Por outro lado, a presença eventual de dois sítios abertos sem condições de defesa ou controle da paisagem, como sejam o caso das Carriceiras e UE.7 da Orca 2 do Ameal, associados a duas situações de abrigo nas

29 Que poderá atingir os 100 a 150 Km na óptica de Víctor GONÇALVES (1992:163). 30 Ao contrário de Maria Jesus SANCHES (1995), consideramos que a capacidade de perfuração destes artefactos, quando usados como pontas de projéctil, permitirão a sua utilização em situação de caça de mamíferos de médias dimensões, como pequenos gamos/veados e animais do mesmo porte. 31 Em especial o trigo e e cevada, visto que o centeio seria só introduzido já no Bronze regional, ou seja no II a I milénio cal AC (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a e 1995a). 32 Para além de se encontrar presente nos habitats como o Ameal-VI e Murganho 2 (SENNA-MARTINEZ, 1989a e 1994a) e no conjunto do Castro de Santiago (VALERA, 1997a), manter-se-á até ao «Grupo de Baiões-S.Luzia». 33 Cf. VALERA, 1997a:126.

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vertentes dos rios, como o Penedo da Penha e Buraco da Moura de S. Romão, levantam diversas questões sobre a diversidade de estratégias de ocupação do espaço, eventualmente associadas a funções especializadas em cada um deles, integradas numa matriz de utilização de um território alargado, onde as comunidades se deslocariam, para a exploração de potenciais nichos económicos, ao longo do ano.

No que se refere às práticas funerárias destas comunidades, na actual situação estas são-nos totalmente desconhecidas. Por um lado, Maria Jesus Sanches avança com a hipótese dos primeiros monumentos megalíticos da Serra da Aboboreira, terem sido construídos ainda durante o V milénio, em paralelo com as ocupações análogas do nível IV do Buraco da Pala, do povoado da Lavra I e do Abrigo da Fraga D'Aia (SANCHES, 1995:183), partindo do pressuposto que as diversas datações cronométricas, inserireis em meados do V milénio cal AC, provenientes dos "solos antigos" de alguns monumentos megalíticos da Serra da Aboboreira são válidos.

Se tudo parece, aparentemente, indicar um arranque do megalitismo algures na transição do V para o IV milénio cal AC, como ficou exposto no Ponto 4. e 5. do presente texto, não existem claras indicações de um recuo para momentos coevos das primeiras ocupações neolíticas, ou seja, em meados do V milénio cal AC, para a construção deste tipo de estruturas funerárias. Para tal concorre o facto de que a totalidade das amostras, cujos resultados cronométricos permitem a sua inserção neste período, nomeadamente de Chã de Carvalhal 134, Monte Maninho35, Monte da Olheira36 e Chã de Parada 437, de onde foram recolhidas amostras do "solo antigo", cujos dados cronométricos, permitem a sua inserção nesta etapa, não nos é permite relacionar os acontecimentos datados com a construção do monumento, podendo mesmo corresponder a episódios não antrópicos38. Assim sendo, não nos parece seguro fazer recuar a construção deste tipo de monumentos de modo a fazê-los corresponder a utilizações funerárias das comunidades neolitizadoras da região a norte do Mondego.

Em contrapartida, e como mera hipótese de trabalho, é bem possível que estas comunidades, utilizem abrigos para a deposição dos seus mortos, à semelhança do que ocorre na Andaluzia e no Maciço Calcário Estremenho (PILAR LÓPEZ, 1988; ZILHÃO, 1992), pelo que tendo em conta, as condições de jazida na Plataforma do Mondego, seriam difíceis de identificar e/ou diferenciar de ocupações domésticas, devido à extrema lexiviação dos solos.

34 OxA-1849 5450±80 BP [4460-4045 cal AC a 2 σ] (CRUZ, 1995a) 35 GrN-15569 5805±40 BP [4785-4579 cal AC a 2 σ] e CSIC-775 5680±80 BP [4773-4360 cal AC a 2 σ] (CRUZ, 1995a). 36 UGRA-287 5630±90 BP [4720-4340 cal AC a 2 σ]; GrN-15331 5400±40 BP [4350-4050 cal AC a 2 σ] e GrN-15330 5195±25 BP [4040-3976 cal AC a 2 σ] (CRUZ, 1995a). 37 ICEN-162 5470±45 BP [4454-4239 cal AC a 2 σ] e ICEN-169 5420±40 BP [4355-4159 cal AC a 2 σ] (CRUZ, 1995a). 38 Veja-se por exemplo, o caso da Mamoa de Chã de Carvalhal 1, onde os dados provenientes do "solo antigo", permitem a sua inserção quer no VII a VI milénio cal AC (OxA-2128 7030±130 BP), como no VI milénio (OxA-1848 6150±80 BP e OxA-1850 6340±80 BP) ou mesmo na 2ª metade do V milénio cal AC (OxA-1849 5450±80 BP) (Cf. SOARES 1993 e CRUZ, 1995a).

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6.1. INTEGRAÇÃO DO NÚCLEO MEGALÍTICO

6.1.1. Megalitismo versus Megalitismos Pode-se considerar, que até aos inícios do Séc. XX, o Megalitismo, enquanto conceito, sempre foi associado a um costume funerário que consistia na deposição dos mortos em grandes monumentos construídos com grandes pedras (Megalítos), normalmente constituídos, apesar da variabilidade, por uma área de deposição (a câmara) e outra de acesso/passagem (o corredor). Entendido, neste sentido simplista e monumentalista, o megalitismo assumia-se como um fenómeno planetário, com estruturas que se espalham desde a Europa Atlântica à Mediterrânea, do Pacífico ao Indico (Cf. JOUSSAUME, 1985).

Por outro lado, concepções mais recentes, ao recusar esta visão de um fenómeno único e linear, propuseram uma pluralidade de fenómenos, ao longo de uma longa diacronia, sem que no entanto nos seja possível encontrar um fio condutor, senão na solução empregue em termos arquitectónicos, que formalmente se convencionou designar de "Megalitismo" (JORGE V., 1986a, 1989a e 1990a; SILVA F., 1993 e 1994). No entanto, pela sua prática e diversidade, o fenómeno ultrapassa também a simples realidade regional, para se afirmar como o produto de um determinado momento da evolução das comunidades humanas. Para o caso português e, a bem dizer, do ocidente peninsular, a originalidade situa-se, não tanto, na expressão arquitectónica (resultado de uma concepção multi-regional) mas sim na concepção e no conjunto dos artefactos que reflectem uma realidade regional e os contactos supra-regionais (GONÇALVES, 1992:173; VENTURA, 1994b). Assim sendo, o Megalitismo deve ser visto como uma de "comunhão de prescrições e rituais" relacionadas com o culto dos mortos, que se assume, a longo prazo, como um fenómeno pluri-regional.

Neste sentido, o Megalitismo deverá ser considerado, mais como um conjunto de prescrições rituais ou "mágico-religiosas" e práticas funerárias (GONÇALVES, 1992:57; VENTURA, 1994b), que se consubstanciam no colectivismo do espaço reservado aos mortos. Assim, parece corresponder, no que se refere à faixa ocidental da Península Ibérica, a uma evolução de determinadas comunidades neolíticas, que apesar das assimetrias regionais e dos diferentes ritmos de evolução, desenvolveram em comum uma "Concepção", que abrange não só os aspectos arquitectónicos, mas também o tipo e qualidade de ofertas aos mortos por parte de diversas comunidades.

Assim, apesar das diferenças regionais, estes grupos humanos mantêm um certo "fio condutor" comum, o que poderá indiciar, que apesar de uma clara distinção em realidades regionais, com personalidade própria, que assentam no substrato cultural, recursos e potencialidades económicas de cada uma destas, têm de se reconhecer a existência de ideias que "viajariam" concretizando-se numa mais ou menos homogeneidade discreta nas estruturas arquitectónicas, que se mantêm mais ou menos inalteráveis, na sua Concepção. Tudo parece indiciar, que a existir um cânone, este permite uma certa capacidade de adaptação às realidades locais e uma certa __________________________________________________________________________________________ 165


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variabilidade, na sua estrutura, permitindo a sua "redescoberta" por diversas comunidades, afastadas no Tempo e Espaço, tal como acontece com a constatação da existência de monumentos sub-megalíticos (JORGE V., 1986a e 1988), de tradição megalítica (SILVA F., 1993 e 1994) ou de estruturas funerárias sob tumuli (CRUZ, 1995a). Este conjunto de prescrições rituais e práticas funerárias, ultrapassaria largamente a simples expressão arquitectónica, consubstanciando-se sim num conjunto de práticas de aproximação ao mundo dos mortos, com prescrições, ritos e comportamentos, que se interrelacionam (Cf. GONÇALVES, 1992:57; VENTURA, 1994b; SENNA-MARTINEZ, 1995/96a). Por seu lado, a organização do Espaço dos Mortos seria efectuada em função do Espaço dos Vivos, ainda que de uma forma idealizada ou purificada (Cf. RENFREW, 1983; HODDER, 1984; CRIADO BROADO, 1995; SENNA-MARTINEZ, LÓPEZ PLAZA & HOSKIN, 1997). Os monumentos megalíticos, configuram-se, desde o inicio, como um receptáculo, planeado e significante para os construtores, pelo que a concepção tem uma expressão mais alargada do que as variáveis arquitectónicas39. Assim, quase todas estas sustentam uma câmara, eventualmente um corredor e uma estrutura tumular em pedra e terra (Cf. GONÇALVES, 1992:26). Tudo parece assim indicar a existência de uma prescrição simbólico-ritual escrupulosamente seguida referente à concepção do receptáculo para as deposições funerárias e sem dúvida esta mesma prescrição deveria estabelecer as normas sobre as deposições dos mortos e os espólios associados, como ainda sobre a orientação dos monumentos megalíticos. Podemos considerar que, apesar do eventual individualismo regional, estas formas, no ocidente peninsular e na globalidade dos respectivos fenómenos megalíticos, apresentam perturbadoras variações mínimas, se considerarmos o Espaço envolvido, o que parece indiciar, antes de mais, uma série de "normas" e "prescrições" relativamente "universais". Em primeiro lugar, o megalitismo, parece quebrar com o individualismo das sepulturas do Neolítico antigo ou de tradição antiga40, que se transformará, nos primeiros monumentos, em espaço individualizável41 ainda que logo desde o seu inicio se afirme indubitavelmente como um espaço colectivo, em que o grupo humano assume claramente a Morte como continuadora, ou melhor, como um espelho, uma idealização da vida do grupo. Assim, esta colectivização da Morte é ao mesmo tempo a continuadora da Vida da Comunidade, sendo o outro EU. Esta é a linha dominante do Megalitismo, que naturalmente se vai repercutir na sua formalização simbólico-ritual. No entanto é sempre necessário ter em atenção e cuidado as eventuais similitudes de construção e sincronias "artefactuais" nas construções do fenómeno megalítico, já que estas podem na realidade ser o resultado de uma série de deposições e sobreposição de deposições, onde acrescem as diversas acções de violação e remoção de elementos ou mesmo a alteração total do conteúdo dos monumentos e, por outro lado, estas mesmas po39 A relação entre o espaço funerário megalítico e a reprodução artificial de um espaço de gruta, é algo que já foi apontado por diversos autores (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1994a), que assinalam a fundamental relação entre o elemento telúrico ou ctónico, a Terra-Mãe, de cujo seio a vida sai e onde regressa com a morte, num ciclo eterno de eterna reconstrução do quotidiano (Cf. ELIADE, 1970). 40 Tendo em conta as áreas regionais onde foi possível determinar os tipos de enterramentos e rituais utilizados. 41 Veja-se por exemplo o caso da Orca 2 do Ameal, com 3 áreas de deposição de materiais, correspondendo a outras tantas eventuais deposições funerárias.

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dem não garantir uma "escala de tempo" suficientemente curta para serem significantes (Cf. GONÇALVES, 1992:49) e o polimorfismo regional, resultado da diversidade das tradições culturais, deve ser devidamente ponderado em qualquer apreciação (Cf. SILVA F., 1993; VENTURA, 1994b).

Deste modo, iremos circunscrever a nossa análise à realidade presente no IV milénio cal AC42, em parte devido à informação disponibilizada pela necrópole em estudo, mas também devido á insegurança, que uma análise numa escala superior poderia impôr.

Assim as estruturas funerárias presentes na Bacia do Médio e Alto Mondego, enquadráveis no IV milénio cal AC, caracterizam-se mais pela sua aparente uniformidade, dentro de uma certa variabilidade, em oposição ao que foi já detectado em zonas mais a norte. Assim, apesar de um certo polimorfismo formal (VENTURA 1993 e 1994b), este não atinge a variedade conhecida para outras regiões, nomeadamente do Centro-Norte Litoral e do Noroeste (JORGE V., 1983, 1986a e 1995; SILVA F., 1989, 1993 e 1994, CRUZ, 1988, 1992 e 1995a) ou mesmo das zonas da bacia hidrográfica do Távora (CRUZ, 1995a; GOMES L., 1996) ou mesmo de Trás-os-Montes e Alto Douro (SANCHES, 1994; GONÇALVES & CRUZ, 1994), sendo até ao momento desconhecidas quaisquer estruturas de "tradição megalítica" ou "Sub-Megalíticas" (SILVA F., 1993:115-116). As estruturas tumulares, até ao momento detectadas na região encerram, com raras excepções43 câmaras funerárias, providas ou não de corredor.

Desta forma, os monumentos da Plataforma do Mondego, apresentam as seguintes características, quanto à estrutura tumular: •

Um Anel pétreo interior com as funções de contrafortagem exterior da câmara megalítica;

Um outro anel pétreo, desta vez periférico, em relação ao tumulus, com a finalidade de consolidação e retenção da mamoa;

Entre estes dois anéis pétreos desenvolve-se o enchimento da mamoa, constituído por terras extremamente compactadas;

Cobrindo a totalidade da superfície da Mamoa, desenvolve-se uma carapaça lítica ou couraça (SILVA F., 1993:100), que, na maioria dos casos, arranca do anel pétreo exterior.

42 O que naturalmente inclui a transição do V para o IV milénio cal AC. 43 Até ao momento apenas foram identificados duas pequenas mamoas, que pela tipologia, parecem enquadrar-se em estruturas sem câmara megalítica, afins dos monumentos "Tipo Fonte da Malga" (KALB & HÖCK, 1979).

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6.1.2. O Megalitismo da Plataforma do Mondego. A evolução das estruturas, espólios e simbologias "(...) Since mythical particulars can be substituted, it becomes legitimate to ask whether Gods be also substituted? (...) Thus the myths told by a given culture are artifacts of the culture rather than facts that define the culture. They may play some part in retarding or promoting cultural change but the change itself comes from the needs of the culture rather than the gods (...)" (METCALFE, Peter (1996) Heroquest Smorgasbord. Questlines. p. 44) "(...) Most ancient cultures strive to live in a sacred relationship with the world. In this "sacred relationship", individuals interact with the world through rituals that sanctify both the world and the participants. By imitating the gods, man is sanctified and by the continuous repetition of "paradigmatic divine gesture" the world is sanctified (...)" (RICHARD, Jeff. (1997) Heroquesting. Enclosure. p. 8)

O processo de ocupação do espaço, na Plataforma do Mondego, durante o Neolítico antigo ou de tradição antiga parece ter ocorrido num período de tempo relativamente curto44, o que parece ser substanciado, com o arranque, possivelmente, nos finais do V e/ou inícios do IV milénio cal AC, do fenómeno megalítico45.

No entanto, este momento de arranque do megalitismo regional, que associamos ao Neolítico médio pleno regional, só é conhecido pelos conjuntos funerários, o que à partida parece limitar o conhecimento das organizações da produção artefactual, devido em grande parte à selectividade quer dos utensílios, quer das matérias-primas, dos materiais presentes nestes contextos, indiciando um idealizar simbólico das comunidades que por ele são responsáveis. Estes conjuntos seriam, ainda assim, muito similares na sua organização, aos conjuntos do quotidiano, tendo em conta as produções líticas, com uma predominância, no seu inicio, dos suportes lamelares em bruto ou transformados em geométricos (sobretudo triângulos e crescentes), evoluindo posteriormente para a utilização de produtos laminares que se vão associar já aos conjuntos de geométricos trapézios e eventualmente às primeiras pontas de seta, identificadas localmente em conjuntos presentes na Orca de Santo Tisco, Carregal do Sal ou regionalmente na Lapa de Tourais, Seia. A ausência de cerâmica, teria mais a ver com as realidades das prescrições simbólico-rituais, do que com outras razões46.

44 Naturalmente aqui parte-se do pressuposto, que o espaço em análise só foi ocupado com as comunidades do Neolítico antigo ou de tradição antiga, devido à ausência de indícios que nos façam recuar esta ocupação para momentos Epipaleolíticos ou mesmo do Paleolítico superior. 45 Consideramos que, de momento será de considerar com bastante cepticismo uma inserção dos primeiros momentos do megalitismo a norte do Mondego, em especial traduzido pela construção de mamoas megalíticas ou não, em momentos de meados do V Milénio cal AC, tal como defende Maria de Jesus Sanches, recorrendo a alguns dados provenientes dos "solos antigos" enterrados (Cf. SANCHES, 1995:183). Se é verdade, que os materiais provenientes dos solos antigos enterrados, parecem indicar, a existência de uma ocupação humana, antes da construção do monumento e a eventual utilização do processo de queimada, para a limpeza de eventuais áreas arborizadas, não indicam sem sombra de dúvida, que teriam sido estas mesmas comunidades, portadoras, de cerâmicas decoradas dentro de uma tradição de cariz meridional, afins dos provenientes de sítios como a Fraga D'Aia, Buraco da Pala (Nível IV) e eventualmente o povoado da Lavra I (SANCHES, 1995:198), as responsáveis pela construção dos primeiros monumentos megalíticos, da Serra da Aboboreira, ainda dentro do V milénio cal AC. 46 Destaque-se que actualmente não é aceitável a existência de comunidades megalíticas acerâmicas, em grande parte devido à descoberta não só de arqueosítios inseríveis num Neolítico pré-megalítico, quer ainda pela presença de algumas (poucas) cerâmicas nas terras de enchimento da mamoa, provavelmente provenientes dos habitats dos construtores.

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No entanto, a relativa abundância do sílex como matéria-prima, não traduz em si um desafogo no abastecimento em sílex por parte das comunidades que depositaram estes espólios nos monumentos megalíticos, mas indicará, antes pelo contrário, toda uma série de concepções e, por que não, prescrições simbólico-rituais especificas destas comunidades.

Um contexto funerário apresenta as suas próprias especificidades, podendo ser considerado um reflexo do Mundo dos Vivos (ARIÈS, 1988; HODDER, 1984), mas no sentido de uma "Idealização" do mesmo. O sílex, como matéria-prima, seria assim considerado, um valor acrescido, quando comparado com as matérias-primas locais, não tanto pela sua escassez e/ou origem externa ao espaço da Bacia do Médio Mondego, mas fundamentalmente nas suas "Qualidades" em função do talhe, permitindo utensílios de qualidade superior, o que os colocariam preferencialmente no grupo de peças a adquirirem um "carácter votivo". Assim, não surgiriam como exclusivas dos monumentos megalíticos, mas seriam em especial essas a utilizar em contextos funerários.

No entanto, esta situação não pode ser considerada pacifica, já que no que se refere aos artefactos depositados nos monumentos megalíticos, podemos considerar na sua origem duas categorias: •

Os que são produzidos de raiz para serem depositados em estruturas funerárias, detectáveis através da selecção da matéria-prima e acabamento, surgindo, normalmente, como peças sem uma directa funcionalidade, assumindo-se algumas vezes como réplicas ou representações, do objecto real47 (GONÇALVES, 1992:66);

Os que iniciam a sua "existência" como artefactos usualmente utilizados no quotidiano das comunidades, que eventualmente, pelas suas características intrínsecas foram incluídas nos espólios48 (Cf. BRADLEY, 1990; HODDER, 1984);

Assim, há que ter cuidado, na separação do que, eventualmente, é estritamente votivo, do que assume carácter utilitário, tarefa que se afigura complicada, uma vez que não há hipótese de diferenciar num espólio entre o equipamento quotidiano do morto e o correspondente a uma oferta da comunidade como forma de homenagem (Cf. GONÇALVES, 1992:63), visto que ambos fazem parte de uma mesma realidade ritual, por via do assumir de um carácter votivo e simbólico, por ambos tipos de artefactos, pela própria acção da deposição neste tipo de contextos.

Só no Neolítico final regional, na 2ª metade do IV e inícios do III milénio cal AC, com o conhecimento das primeiras áreas habitacionais - como seja o caso do Ameal-VI - se podem caracterizar os contextos domésticos dos utilizadores de parte dos monumentos megalíticos. Estes apresentam-se normalmente sem condições naturais de defesa e/ou controle da paisagem49, pouca densidade de ocupação, indicando situações de ocu47 Como é apontado para as goivas, de pequenas dimensões, do Poço da Gateira 1 (Cf. GONÇALVES, 1992). 48 Poderemos considerar nesta categoria o "equipamento" que eventualmente faria parte do vestuário do defunto, tal como alguns elementos de adorno. 49 Com a excepção do sítio da Pedra Aguda, Sobral de Papízios, Carregal do Sal, Viseu.

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pação sazonal, preferencialmente no outono/inverno, surgindo ainda como ocupações especializadas na recolecção (SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995a).

Parece ser nos inícios do Neolítico final regional, que se irá assistir a um aparente momento de ruptura, passível de se localizar cronologicamente em meados do IV milénio cal AC, com alterações ao nível da indústria lítica, à semelhança do que também parece ocorrer em contextos similares do Maciço Calcário Estremenho e no Sudoeste Alentejano (CARVALHO, 1996 e 1995/96), com o relativo aumentar da importância de produtos e utensílios sobre lâmina, em contraponto ao domínio anterior dos produtos lamelares ou micro-laminares (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1997). Esta realidade, é também visível no Planalto Mirandês, no Abrigo do Buraco da Pala, em especial na transição do nível IV para o nível III (SANCHES, 1995) embora aí predominem as lascas. Parece ainda ocorrer neste período, nos diversos arqueosítios estudados em que tal é passível de observação, uma certa intensificação na utilização de produtos vegetais, que se tornam a base económica das referidas comunidades, consubstanciada na produção lítica com o aumento das frequências de certos tipos de utensílios como lâminas retocadas, "foices", elementos de moagem, instrumentos de pedra polida e particularmente com a intensificação da produção cerâmica.

Também neste momento crono-cultural, se assiste na Plataforma do Mondego, a uma intensificação na circulação de produtos líticos em sílex, agora normalizados, usualmente grandes lâminas de sílex de "fase plena de debitagem", utilizando a técnica da pressão (SENNA-MARTINEZ, 1989a:496; ZILHÃO, 1994; VALERA, 1997a; CARVALHO, 1995/96). Considerando a origem exógena da maioria destes produtos50, teremos que conceber a hipótese de contrapartidas, para a qual, poderemos, eventualmente, considerar a "exportação" de anfibolite, quer em bruto ou já conformada (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1994a; VALERA, 1997a:133). Esta intensificação irá aumentar com o III milénio cal AC, com a inserção de outras áreas e, eventualmente, com outros artefactos a entrar no sistema de circulação.51

Tendo em consideração que, a organização do Espaço dos Mortos faz-se naturalmente em função do Espaço dos Vivos (Cf. JORGE V., 1986, 1989a; GONÇALVES, 1992; CRIADO BROADO, 1993; VENTURA, 1994b; SENNA-MARTINEZ, 1995/96a) é natural que a um povoamento aparentemente dispersos e temporário dos primeiros habitantes da Plataforma do Mondego, corresponderá a aparente dispersão dos primeiros monumentos, cujas dimensões podem variar entre o pequeno monumento e o de médias dimensões52, localizáveis em áreas de profunda visibilidade para estas mesmas comunidades (CRIADO BROADO, 1993, 1995; VENTURA, 1993, 1994b), apresentando, uma situação de utilização de curta duração53, correspondente à própria realidade do quotidiano.

50 Tendo em conta a suas dimensões e a dificuldade de obtenção de nódulos, para este tipo de debitagem na região (Cf. VALERA, 1997a). 51 Veja-se por exemplo os elementos de origem meridional, que vão ser detectados a norte do Douro, na zona de Mairos (JORGE S., 1986 e 1990; SANCHES, 1995) ou mesmo na Plataforma do Alto Mondego (VALERA, 1997a). 52 Como se encontra patente no Quadro VI.1. 53 Quando nos referimos a uma curta duração, referimo-nos a monumentos que foram encerrados imediatamente após a sua construção ou então, sendo as deposições realizadas ainda durante a construção do monumento, como no caso do monumento 1 da Pena Mosqueira, Mogadouro, onde o monumento foi construído sobre o inumado (SANCHES, 1995) ou então no caso da Orca 2 do Ameal, onde as deposições na câmara megalítica, se efectuaram num momento anterior ao finalizar da construção do mesmo, o que se realizou imediatamente após estas deposições.

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Assim, a dimensão dos monumentos terá mais a ver com a(s) comunidade(s) que serve, do que terá a ver com a sua possível antiguidade. Numa primeira etapa, parece-se assistir a uma certa individualização da deposição dos mortos, situação já inferida pelo casal Leisner, para o caso dos monumentos mais antigos de Reguengos de Monsaraz (LEISNER & LEISNER, 1951), igualmente detectada no caso da Orca 2 do Ameal, com duas áreas de deposição de materiais e eventualmente uma terceira, sem dúvida correspondentes a zonas de deposição de outros tantos corpos, após o que o monumento teria sido completado e encerrado54. Esta mesma situação, foi possível de ser detectada, por exemplo, no monumento 1 da Pena Mosqueira, Mogadouro, onde o inumado, eventualmente uma criança, teria sido depositado antes da construção do tumulus, enquanto que noutros monumentos do Planalto Mirandês, nomeadamente nas Mamoas do Barreiro e de Pena do Mocho, existe a evidência de terem sido encerrados e não mais abertos, após as primeiras deposições (SANCHES, 1995:223-4). Assim teríamos uma situação de continuidade e evolução, em relação ao individualismo das sepulturas do Neolítico antigo ou de tradição antiga, que se transformará, nos primeiros monumentos, em espaço individualizável. Com a evolução destas comunidades para uma situação de maior controle do território, sucede-se-lhe uma malha mais apertada de áreas habitacionais e dos respectivos monumentos megalíticos (Cf. JORGE V., 1989a; GONÇALVES, 1992:140). Assim, a sua localização e função na paisagem, logo desde o inicio, seria determinada por critérios e prescrições rituais, que evoluiram conforme o Espaço e o Tempo. Assim, se os primeiros monumentos, ou da 1ª Fase, parecem traduzir a mobilidade de um grupo de economia itinerante, onde a componente de produção poderia não ser o principal elemento de subsistência, os respectivos artefactos depositados, corresponderiam, não só à fase de alargamento do território55, eventualmente através da caça ou desbravamento (Cf. JANSSEN & WOLDRINGH, 1981; JANSSEN, 1985.; VAN DEN BRINK & JANSSEN, 1985; KNAAPP & JANSSEN, 1991), mas fundamentalmente refletiriam a construção de uma Simbologia da Morte, marcada pela construção de estruturas permanentes, associadas a "símbolos na paisagem" visíveis, eles mesmos, marcando antes de mais a fixação, com um carácter mais definitivo ao solo e território (Cf. CRIADO BROADO, 1993 e 1995). Desta forma, esta 1ª Fase, corresponderia aos inícios da estabilização das comunidades do Neolítico médio, após a sua deslocação para novos territórios. Este processo, no presente núcleo, iniciar-se-ía nos inícios do IV milénio cal AC, sendo então construídos monumentos, que apesar das diferenças arquitectónicas, resultado da personalidade própria e das distinções da realidades regionais, parecem incluir concepções supra-regionais, acerca do que construir e como o construir. Estes monumentos, incluem espólios, ou melhor, deposições rituais de certos tipos de objectos, que seriam sobrevalorizados em relação ao conjunto artefactual das comunidades responsáveis pela sua deposição, obedecendo também a determinadas prescrições. Estes espólios estariam presentes, nos diversos monumentos que se integrariam nesta 1ª Fase, como sejam a Orca de Pramelas, Canas de 54 Em última análise com a colocação da laje de cobertura da câmara megalítica e o terminar da construção da carapaça pétrea de cobertura da mamoa. 55 Como parece acontecer, também em zonas mais meridionais, como por exemplo no Conjunto de Reguengos de Monsaraz, no sobre referido monumento do Poço da Gateira 1, em que os conjuntos artefactuais, corresponderiam à fase de abate das árvores e aproveitamento destas para finalidades construtivas (Cf. GONÇALVES, 1992:202).

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Senhorim (SENNA-MARTINEZ & VALERA, 1987, 1989, 1994; SENNA-MARTINEZ, 1989a) para além da Orca 1 e 2 do Ameal, Carregal do Sal (VENTURA 1994a).

Se considerarmos, os resultados provenientes da nossa análise morfométrica, como seguros e representativos da realidade arqueológica, para a área em estudo, os conjuntos líticos dos monumentos 1 e 2 do Ameal teriam sido depositados antes do de Pramelas. Por outro lado, os conjuntos da Lapa de Tourais e dos Moinhos de Vento, se os considerarmos como entidades depositadas no curto prazo, corresponderiam a momentos posteriores56, visto que se destacariam, o primeiro pela inclusão não só de novos elementos líticos - a Ponta de Seta mas também pelas características morfométricas, já assinaladas no Ponto 3.2. do presente texto. O segundo destacar-se-ía não só por estes últimos aspectos, mas fundamentalmente pela presença abundante de cerâmica.

Num primeiro momento, a crer nos dados disponíveis, ocorreriam paulatinas alterações nos conjuntos funerários, tendo em conta a informação disponibilizada pela escavação da Orca de Santo Tisco, Carregal do Sal e da Lapa de Tourais, Seia, alterações estas, decorrentes, em grande medida, da evolução tecnológica, patente, por exemplo no talhe do sílex, já que os grupos humanos responsáveis pelos depósitos nestes monumentos possuiriam uma indústria lítica de pedra lascada, dominada por utensílios sobre produtos laminares57, e os espólios, apesar de seleccionados, parecem indiciar a adição aos elementos presentes anteriormente, de um novo tipo de artefacto, as pontas de seta.

Sem querer sobrevalorizar este item, consideramos sintomático, que em determinados momentos ele se encontre totalmente ausente do registo arqueológico, vindo depois a surgir numa percentagem elevada nos conjuntos artefactuais recuperados. Este momento, não surge desligada do anterior, não existindo por isso um corte, ainda que até ao presente, as realidades aqui descritas, ainda não tenham sido comprovadas, na vertical, num único monumento, tudo parece indiciar constituírem momentos de uma única fase, sendo a seguinte o resultado da evolução lógica da anterior, daí a nossa designação de momento b da 1ª Fase, indicando a continuidade.

Se a 1ª Fase, nos seus dois momentos, corresponderia ao processo de estabilização, este estaria já concretizado, no Neolítico final regional, como poderíamos entrever com a construção dos monumentos de corredor longo, que seriam assim testemunhas mudas de um aumento demográfico e, consequentemente, de uma intensificação produtiva, para suportar este crescimento populacional.

56 É interessante destacar, que apesar desta evolução de conjuntos lamelares, nos primeiros momentos, para laminares, o conjunto dos geométricos analisados mantêm uma uniformidade, indiciando a permanência da sua elaboração a partir de lamelas ou pequenas lâminas. Esta tendência é notória nos conjuntos da Orca de S. Tisco e da Orca dos Fiais da Telha, Carregal do Sal. 57 Acreditamos que apesar das prescrições rituais que regem a deposição de artefactos nos monumentos megalíticos, estas apenas afectam a selecção dos tipos preferencialmente depositados e não a técnica e a metodologia de produção dos mesmos, pelo que os conjuntos, apesar de poderem representar apenas uma parcela da cultura material do grupo humano, responsável pela sua deposição, reflectem no entanto as normas desse mesmo grupo ao momento da sua elaboração e deposição.

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Este crescimento seria desigual em algumas destas comunidades, correspondendo à complexização desigual dos diversos monumentos. Assim, a generalização desigual dos monumentos de corredor58, corresponderia não só à colectivização da morte, mas também traduziria o aumento demográfico, a assunção colectiva do território e dos laços de parentesco e até certo ponto uma certa solidariedade social estabilizada no Tempo e na pedra (Cf. JORGE V., 1989a; BRADLEY, 1990; GONÇALVES, 1992; CRIADO BROADO, 1993 e 1995).

Este momento, do megalitismo regional, 2ª Fase, parece estar associado, não só com o abandono da filosofia presente nas estruturas sepulcrais anteriores, mas fundamentalmente com o início da construção de grandes monumentos, em termos de mão-de-obra/tempo despendido. Estes últimos, surgiriam isolados do restante conjunto e destacados na paisagem, como no caso da Orca dos Fiais da Telha, da Orca 1 de Oliveira do Conde ou então da Orca do Outeiro do Rato. Enquanto os monumentos da 1ª Fase seriam construídos para se "esbaterem" na paisagem, os da 2ª Fase foram construídos para, antes de mais, serem vistos.

Parece, assim, verificar-se a tendência para uma evolução das arquitecturas no sentido do simples para o complexo (JORGE V., 1986 e 1989a) ou melhor do Invisível para o Visível (CRIADO BROADO, 1993 e 1995). O tumulus passa a assumir funções diversificadas com a sua complexização, através da construção de áreas de múltipla funcionalidade na área frontal59 (JORGE V., 1989a:418 e 420-3; GOMES L., 1996), situação detectável por exemplo na Orca dos Fiais da Telha e na Orca do Outeiro do Rato60 (SENNA-MARTINEZ, 1989a; SENNAMARTINEZ & VENTURA, 1994a; SENNA-MARTINEZ & AMARO, 1987a e 1987b).

Ao mesmo tempo assinala-se a introdução de elementos, quer em termos das matérias-primas, quer em termos de tecnologia, afins das produções conhecidas para os povoados integráveis, em termos crono-culturais, na mesma realidade (SENNA-MARTINEZ, 1989a, 1994a, 1995/96a). Nesta mesma Fase assistimos à restruturação de toda uma "Paisagem Cultural/Cosmogónica" (VENTURA, 1994b), com a criação de elementos de "visibilidade acentuada" (CRIADO BROADO, 1995), que definitivamente organizam o espaço, qualquer que seja o entendimento que dele possa existir, em torno destas estruturas, que se assumem assim como "manifestações simbólicas de largo espectro de aceitação".

58 Assim seria perfeitamente aceitável, que monumentos de arquitectura evoluída fossem contemporâneos de monumentos simples, se encararmos a situação no global. No entanto como a evolução é polissémica, a realidade que é o Megalitismo deverá antes de mais ser entendida ao nível das diversas necrópoles e núcleos, para depois de poder construir o quadro completo, devido em grande mediada à evolução desigual das comunidades. 59 Esta situação parece não ser exclusiva dos monumentos evoluídos, podendo eventualmente ocorrer em monumentos que se encontram em momentos de transição, como sejam o caso da Orca do Picoto do Vasco, Vila Nova de Paiva (CRUZ, 1997c) onde a uma deposição de geométricos e lâminas na câmara, parece corresponder uma deposição de 2 vasos cerâmicos numa estrutura frontal tipo "átrio". No entanto a correcta inserção deste monumento ainda não nos é conhecida, nem sequer a que realidade e evolução regional corresponde, visto que como já afirmámos, existe a necessidade de abordar os monumentos antes de mais na sua esfera local, para depois passarmos à realidade supra-regional. 60 Relembremos que no caso da Orca dos Fiais da Telha foi detectado um pequeno corredor "intratumular" ao qual estaria, eventualmente associado uma "estrutura de condenação" com deposições rituais de cerâmica sobre a mesma estrutura. Existe a eventualidade de existência de um "átrio" na zona fronteira do monumento, mas a construção de um caminho florestal nessa área não permitiu a correcta interpretação desta realidade. No caso da Orca do Outeiro do Rato, para além de uma área de acesso por, também, pequeno "corredor intratumular", foi detectada uma "estrutura de condenação" frontal, eventualmente associada a um "átrio".

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6.1.3. Enquadramento das Sociedades do Neolítico final "(...) This requires the previous dissolution of band type social order and the creation of forms of permanent appropriation (...), such a process probably develops by means of the substitution of band-type classificatory kinships systems by genealogic lineagebased schemes. This system could provide, in its beginnings, the collective (restricted to local kin-ordered communities) basis for the mode of production (...)"

(VICENT GARCÍA, 1995:178)

Segundo Vicent García, as comunidades pré-calcolíticas, ou seja, as do Neolítico final, da Península Ibérica seriam, na generalidade, integráveis naquilo que é classificado como uma estrutura de "política económica primitiva", caracterizada por um "modo de produção" e de apropriação colectivo (mas não necessariamente igualitário). Assim, a estrutura sócio-económica baseada em bandos (BAHN, 1997:72) seria substituída por uma outra que permitiria, a longo prazo61 o desenvolvimento de uma estrutura baseada no sistema de linhagens62 (Cf. JORGE V., 1989a; VINCENT GARCIA, 1995:178). Assim, tudo parece indicar, que nestas comunidades do Neolítico final, vão surgir e desenvolver-se formas incipientes de desigualdade, competição (entre grupos e indivíduos) e de uma certa coerção social (VICENT GARCIA, 1988; CRIADO BROADO, 1993) estaríamos assim perante uma situação de redefinição dos sistemas de coesão social e paralelamente das formas de apreensão das estruturas simbólico-rituais, nas quais as atitudes perante a morte se inserem por excelência.

Com o desenvolvimento destas sociedades, através da implementação de uma actividade produtora permanente o que implicaria um maior controlo da natureza, em todas as formas, desenvolvem-se outras formas de apropriação dos aspectos simbólicos e rituais. Esta acção deixa de ser passiva, para passar a ser uma atitude activa na interrelação dos vivos com os mortos, que passam a ser "testemunhas" dos processos competitivos desenvolvidos por estes grupos.

Esta mesma realidade foi defendida por outros autores, para a necessidade de expansão para novas áreas das comunidades do Neolítico antigo ou de tradição antiga, visto identificarem nesta expansão, não só factores de um certo aumento demográfico, mas também uma certa tensão social, cada vez mais acentuada dentro e entre os grupos neolíticos, o que, eventualmente, se reflectiria, no fenómeno megalítico desde o seu arranque (Cf. DÍAZ-ANDREU, 1995:99; CARVALHO, 1996:130). No entanto, não negando uma possível anterioridade desta tensão63, consideramos, que ela só se encontra presente no registo arqueológico, a partir do momento em que são construídos os grandes monumentos megalíticos.

Os mortos seriam relacionadas, eventualmente, já desde as comunidades do Neolítico médio regional, com figurações de "entidades protectoras" ou mesmo, transcendentalmente, os defuntos seriam investidos de um

61 Na verdadeira concepção de Fernand BRAUDEL (1970). 62 Que, eventualmente, só atingiria o máximo desenvolvimento em momentos já atribuíveis ao Bronze antigo regional (SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995a). 63 Veja-se por exemplo a posição de Víctor Oliveira Jorge, que deixa antever uma hipótese deste género, ao propor uma situação de selectividade dos elementos da comunidade a serem depositados, ligados a um sistema de linhagens (Cf. JORGE V., 1989a)

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estatuto e poderes divinos (GONÇALVES & CRUZ, 1994:211 e 233). Isto implicaria, para alguns autores, que nas comunidades do IV milénio cal AC, nos monumentos funerários só seriam, eventualmente, depositados alguns elementos da comunidade, elementos mais velhos de certas linhagens detentoras de um "saber", em especial, do sagrado/simbólico/mitológico (Cf. JORGE V., 1989a). Estando assim reservado esse privilégio a um número restrito de elementos, que partilhariam algo em comum, o que implicaria que os túmulos megalíticos, seriam minoritários e excepcionais64

A zona de implantação destes monumentos seria significativa para o grupo humano, sendo identificada através de "marcos" naturais, que delimitariam zonas tradicionais de movimentação do grupo, organizando, não só fisicamente o seu quotidiano prático, como o simbólico (JORGE V., 1986 e 1989a; VENTURA, 1993 e 1994b). Constituiriam assim marcas simbólicas, apropriadoras do espaço e dos seus recursos, à sombra das quais seriam erigidos os diversos monumentos funerários, manifestação física do "culto dos antepassados".

Assim, vários autores (Cf. JOUSSAUME, 1985; JORGE V., 1989a, 1989b e 1990a; CRUZ, 1995a e 1997e) são unânimes em considerar, que um pouco por toda na faixa ocidental da Península, a 2ª metade do IV milénio cal AC é caracterizada pela construção e utilização de grandes monumentos de planta evolucionada, ainda que, eventualmente, se continuem a construir e utilizar pequenos monumentos65. Os grandes monumentos, dentro de cada necrópole, são raros surgindo normalmente isolados do restante conjunto e destacados na paisagem66, o que provocaria a criação de "espaços cénicos" em seu redor (JORGE V., 1989a; CRUZ, 1988, 1993; SANCHES, 1995), quer através da própria localização do monumento em espaços visíveis67, quer através da criação de zonas especiais na parte frontal dos monumentos, que limitando em parte o acesso, permitiria uma globalização e visualização directa de parte dos rituais aí praticados, tornando-os acessíveis a uma assistência mais numerosa (GONÇALVES & CRUZ, 1994:211 e 223). Estes espaços cénicos/representacionais, fariam destes tipo de monumentos templos no sentido pleno do termo, com espaços fechados (câmara e corredor), de exclusividade, e espaços abertos (átrios), para um público alargado, mas, eventualmente, socialmente seleccionado (GONÇALVES & CRUZ, 1994; SANCHES, 1995). Este assistiria aos rituais que não só estabeleceriam a relação sagrada com os antepassados e/ou entidades tutelares do grupo, através da imitação dos seus actos, mas também promoveriam a reprodução do "mágico-religioso" e a santificação do seu "mundo".

64 Apesar de atraente, esta proposta, não pode ser totalmente consubstanciada, enquanto não forem encontradas as estruturas funerárias alternativas, quer elas sejam em fossa, como parece ocorrer em momentos mais tardios na Meseta Norte (Cf. FABIÁN GARCIA, 1995), quer sejam abrigos diversos. 65 Sem dúvida devido a assimetrias de desenvolvimento regional e a realidades regionais muito específicas. No entanto a concepção de grande monumento deve ser redefenida à luz do conhecimento do povoamento regional, para determinação do que realmente consistem. No entanto, podemos considerar pacifico, que esta realidade se encontra associada à proliferação senão introdução de "monumentos de planta evoluída", que incluem não só corredores desenvolvidos, particularmente diferenciados ao nível do alçado, mas em especial estruturas tumulares como "corredores intratumulares", "átrios", etc. Por outro lado, a utilização ou melhor a reutilização de estruturas sepulcrais integráveis na 1ª Fase, como sejam por exemplo o caso da Orca 1 do Carapito (LEISNER & RIBEIRO, 1968) ou do recente caso da Orca de Areita (GOMES et al., 1997b) deveriam ser re-equacionados, de forma a podermos distinguir situações de utilização em contínuo, ou então, se não estaremos perante monumentos reaproveitados ou mesmo ampliados em parte, como parece ser o caso do monumento de Areita. 66 O que na concepção de Filipe Criado Broado, corresponderia à transição do fulcro da Visibilidade das características naturais visíveis para o Monumento em si, que provocaria a construção de uma Paisagem Monumental (CRIADO BROADO, 1995; VENTURA, 1994b). 67 Seria aqui importante não só determinar a visibilidade do monumento, ou mais concretamente de onde o arqueosítio é visível, mas também o que seria visível do mesmo.

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É particularmente atraente poder conceber estes "espaços cénicos", como o centro de toda a actividade de coesão social, que estes sítios parecem implicar, visto que será através da visualização ou mesmo reprodução de todo o aparelho simbólico por parte dos participantes, que a função de aglutinação social destes sítios atinge a plenitude (MOHEN, 1995). Assim, o fulcro ritual, parece transitar em parte, do interior para o exterior, de uma área restrita para um espaço global, assistindo-se à sua visualização, perceptível através de deposições de ofertas em zonas fronteiras do monumento, como por exemplo, no caso do Monumento dos Moinhos de Vento (Arganil), Dólmen de S. Pedro Dias (Vila Nova de Poiares), Orca dos Fiais da Telha e do Outeiro do Rato (Nelas) (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a), para já não referir os recentes casos dos monumentos de Antelas (Oliveira de Frades), do Picoto do Vasco e dos Castenairos (Vila Nova de Paiva) (CRUZ, 1997e).

Ora, esta situação de deposições visualizadas parece-nos indiciar, antes de mais, a tentativa de resolução de conflitos potencialmente mais frequentes, nos quais o ritual funerário passaria a reflectir, não só uma realidade simbólica mais também "social", através de mecanismos de regulação social presentes na atribuição de ofertas aos mortos.

Em primeiro lugar há a considerar, que os monumentos de grandes dimensões, de planta evoluída, com corredores médios ou alongados, implicam à partida um maior investimento, de força de trabalho, que os pequenos monumentos, da 1ª Fase, que parecem estar associados a pequenos grupos humanos, onde todos os elementos se encontram ligados entre si por laços familiares directos.

Assim, é possível verificar (Cf. Quadro VI.1), que tendo em conta somente a volumetria dos monumentos, com a estrutura tumular incluída, que um grande monumento, como a Orca dos Fiais da Telha, corresponde a pelo menos quatro monumentos do tipo da Orca 1 do Ameal. Se a esta informação for adicionada, o número de horas de trabalho mínimas necessárias, para a recolha dos diversos elementos construtivos, a extracção dos ortóstatos68 e por fim a construção do próprio monumento, verifica-se claramente uma grande desproporção entre os pequenos monumentos e os de grandes dimensões.

68 Para o caso dos monumentos do presente núcleo, foram detectadas pedreiras, passíveis de fornecerem lages apropriadas para a construção dos monumentos num raio de 50 a 100 metros para o caso das Orcas 1 e 2 do Ameal e de 75 a 150 metros para o caso da Orca dos Fiais da Telha. Valores muito próximos destes, que podem atingir os 250 metros no máximo, parecem ser a norma para a maioria dos monumentos da Plataforma do Mondego, nomeadamente 150 metros para a Orca de Santo Tisco, 180 metros para a Orca de Pramelas e 250 metros para a Orca do Outeiro do Rato.

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Quadro VI.1: Volumes das Massas Tumulares69 Vol (m3)

h/Trab.71

Orca 1 do Ameal

84

280

Orca 2 do Ameal Orca 2 de Oliveira do Conde72

74

166

86

286

Orca de Pramelas73 Orca de Santo Tisco74

62

206

60

200

Monumento70

Orca do Valongo75

199

663

Orca dos Fiais da Telha76 Orca do Outeiro do Rato77

322

1072

375

1249

Dólmen de S. Pedro Dias78

164

546

Dólmen dos Moinhos de Vento79

222

739

Dólmen 1 da Lameira de Cima80 Dólmen 2 da Lameira de Cima81

225

749

176

586

No entanto, é necessário não esquecer que estes valores apenas indicam as necessidades de horas de trabalho, para a construção da estrutura tumular, o que poderá ser feito, na quase totalidade dos monumentos por um pequeno grupo de adultos, diferenciando-se apenas o tempo gasto entre os pequenos monumentos e os grandes, que normalmente apresentam não só uma maior volumetria como estruturas pétreas de maiores dimensões. Assim, realizámos uma segunda abordagem (Cf. Quadro VI.2) a qual consistiu no cálculo da massa (ton.) dos maiores ortóstatos presentes nas estruturas megalíticas e no número mínimo de indivíduos necessários para a sua "manipulação", utilizando diversas técnicas, nomeadamente a da Elevação, Arrasto simples e Arrasto utilizando troncos como roletes (Cf. VÁZQUEZ VARELA, 1991/92; GONZÁLEZ LÓPEZ & TEIJEIRO LÓPEZ, 1997).

69 Foi considerada, como massa tumular, todo o tumulus a partir do limite externo das estruturas de contenção externas, até ao mesmo limite do sector imediatamente contrário. Em termos de altura, foi apenas considerada a diferença entre o nível do "solo original" do monumento, imediatamente após a construção do mesmo, até ao topo da carapaça pétrea de revestimento conservada. Em termos de cálculo utilizaram-se os valores resultantes das medições em relação ao eixo norte-sul e este-oeste, posteriormente aferidos. A metodologia utilizada é afim da também empregue no cálculo dos volumes dos recipientes, tendo-se considerado a volumetria da mamoa, como correspondente a um volume hemi-elipsoide. 70 No presente caso apenas foram consideradas as massas tumulares dos monumentos inteiramente escavados e devidamente publicados, da Plataforma do Médio e Alto Mondego, tendo-se recorrido a monumentos da bacia hidrográfica do Távora, para servir de termo de comparação. 71 Para o cálculo da capacidade energética necessária para a construção deste tipo de estruturas, recorremos à informação disponibilizada pela equipa de Vásquez Varela, que preconiza uma relação de 1 m3:3 h/Trab. (Cf. VÁSQUEZ VARELA, 1991/92; GONZÁLEZ LÓPEZ & TEIJEIRO LÓPEZ, 1997). 72 Dados provenientes das nossas intervenções neste monumento, ainda inéditas. 73 Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a. 74 Cf. SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994b. 75 HENRIQUES & BARROSO, inf. pessoal. 76 CF. SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994a; SENNA-MARTINEZ, 1989a. 77 Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a. 78 Cf. SENNA-MARTINEZ, 1989a. 79 Volume da mamoa, antes da construção do monumento 2, na massa tumular. Cf. NUNES, 1974 e SENNA-MARTINEZ, 1983. 80 Cf. GOMES L., 1996. 81 Cf. GOMES L., 1996.

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Quadro VI.2: Cálculo de Volume dos Ortóstatos e Nº Mínimo de Indivíduos utilizados82 Monumento

Massa (ton)

Elevação

Arrasto

Arrasto com roletes

Orca 1 do Ameal83 Orca 2 do Ameal84

1,1

20

18

7

1

18

16

6

Orca de Pramelas85 Orca de Santo Tisco86

1,4

24

22

8

1,6

28

26

10

Orca 1 do Carapito (e)87 Orca dos Fiais da Telha (e)88

5,1

89

81

30

5,2

91

83

31

Orca dos Fiais da Telha (t)89 Orca da Cunha Baixa (e)90

13,8

245

223

83

4,9

86

78

29

Orca da Cunha Baixa (t)91 Arquinha da Moura (e)92

7,6

133

121

45

3,5

61

56

21

4,6

80

73

27

2,1

37

34

13

9

157

144

54

Arquinha da Moura (t)93 Orca dos Juncais (e)94 Orca dos Juncais (t)95

Se este processo permite no caso dos grandes monumentos, normalmente bem conservados, estabelecer sem grandes distorções, as necessidades de mão-de-obra para a sua construção, no caso dos pequenos monumentos, aos quais faltam normalmente as tampas de cobertura, esta informação apenas serve de indicativo para os valores mínimos de indivíduos envolvidos na sua construção. Naturalmente, que não nos parece no actual estado dos nossos conhecimentos, correcto privilegiar os valores de um método em relação a outro96, situando-se a realidade possivelmente numa média dos valores do conjunto dos métodos. Mesmo assim, constata-se que os pequenos monumentos que parecem caracterizar a 1ª Fase do Megalitismo da Plataforma do Mondego continuam a destacar-se pelo pequeno número de elementos necessários, possibilitando a sua construção por pequenas comunidades. Por outro lado, os grandes monumentos, parecem envolver um maior número de indivíduos, particularmente pela inclusão nas estruturas tumulares de elementos líticos pesando diversas toneladas, o que parece permitir o reconhecimento que o investimento de mão-de-obra e energético necessário à sua construção deveria ultrapassar em larga medida o número de possíveis tumulados97, existindo assim uma clara desproporção entre o número de construtores e indivíduos depositados98. 82 Pelo facto de alguns dos monumentos presentes no Quadro VI.1, não possuírem os elementos ortostáticos completos ou mesmo pela sua ausência, não nos foi possível incluí-los no presente Quadro. 83 Esteio de Cabeceira. 84 Terceiro esteio do Esteio do direito/sul, enfrentando a entrada. 85 Esteio de Cabeceira (SENNA-MARTINEZ, 1989a). 86 Primeiro Esteio da Câmara, do lado esquerdo/norte, enfrentando a entrada (SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994b). 87 Esteio de Cabeceira (LEISNER & RIBEIRO, 1968; CRUZ & VILAÇA, 1990). 88 Esteio de Cabeceira (SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994a; SENNA-MARTINEZ, 1989a). 89 Tampa da Câmara (SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994a; SENNA-MARTINEZ, 1989a). 90 Esteio de Cabeceira (VILAÇA & CRUZ, 1990). 91 Tampa da Câmara (VILAÇA & CRUZ, 1990). 92 Esteio de Cabeceira (CUNHA, 1993 e 1995). 93 Tampa da Câmara (CUNHA, 1993 e 1995). 94 Quarto Esteio do lado esquerdo/norte, enfrentando a entrada (CRUZ, 1993). 95 Tampa da Câmara (CRUZ, 1993). 96 Eles mesmo o resultado da Arqueologia Experimental e por isso mesmos pressupostos, que à partida não envolvem por exemplo a utilização de eventuais animais nas tarefas mais pesadas. 97 Ainda que no único caso em que é possível determinar com alguma segurança o número de deposições conhecidas, no presente Núcleo - a Orca 2 do Ameal - esta constatação também possa ser inferida (Cf. Ponto 2.4), a desproporção cresce dramaticamente nos grandes monumentos paradigmáticos do apogeu do Megalitismo regional, como por exemplo nas Orcas dos Fiais da Telha, da Cunha Baixa (Mangualde) e Juncais (Vila Nova de Paiva), para

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Se estes monumentos de planta mais complexa e maiores dimensões implicam uma maior força de trabalho, isto deve-se possivelmente a dois factores, por um lado o aumento de dimensão do grupo, possibilitado por uma certa expansão da economia produtora (Cf. VICENT GARCÍA, 1988 e 1995), mas fundamentalmente por uma alteração da conceptualização da Morte, que deixa de ser vista como individualizável e restrita ao espaço familiar99, para se assumir como um fenómeno colectivo, daí a necessidade de aumentar o âmbito funerário. Estas mesmas construções vão não só exigir um maior esforço físico, como em si, parecem indiciar o surgimento e desenvolvimento de uma hierarquia, que mesmo que seja temporária, permite a conceptualização arquitectónica e a organização do trabalho, necessário à sua construção. Se aceitarmos estes monumentos da 2ª Fase, como elementos Monumentalizadores da Paisagem e Apropriadores de um determinado território (CRIADO BROADO, 1993; VENTURA, 1994b), encontraremos aqui as formas de justificação da coesão da(s) comunidade(s) que os vão erigir.

Assim, alguns autores, nomeadamente Vítor Oliveira Jorge, Domingos Cruz, Jorge de Oliveira, Vítor Gonçalves, para apenas nomear os casos portugueses, levantam com razão a questão de que apenas uma parte limitada e seleccionada dos elementos da(s) comunidade(s) teriam a sua deposição assegurada nestes grandes monumentos (JORGE V., 1989b; CRUZ, 1995a; OLIVEIRA, 1997; GONÇALVES V., 1992). Estaríamos assim perante uma elite, que não só seria sepultada, como ainda também monopolizaria as actividades realizadas em torno destes monumentos, eventualmente desde a sua conceptualização até às diversas cerimónias realizadas eventualmente no âmbito do novo papel desempenhado por estes sítios.

Desta forma, estes monumentos, como um todo100, configuram-se também como estruturas fundamentais na organização do Espaço dos Vivos, surgindo, muitas vezes, como "lugares centrais" (Cf. JORGE V., 1989a e 1989b), ou seja verdadeiros Axis Mundi da sociedade, permitindo simultaneamente o desenvolvimento de mecanismos de visualização de uma competitividade entre elementos ou famílias do mesmo grupo que, longe de indicarem profundas alterações sociais, indicam sim o desenvolvimento de formas primitivas de diferenciação, senão pessoal, pelo menos ao nível familiar ou de clãs.

Mas para que a função destes monumentos como "elementos de coesão social" possa ser aferida é necessário que as cerimónias/actividades aí realizadas, possam em parte ser visualizadas, para tal são necessários espaços concretos, "arenas privilegiadas", que estes grandes monumentos, desde a sua origem, senão na sua formulação, parecem constituir. O monumento assume-se assim como um "espaço cénico", na maioria das vezes salientado pela construção de áreas complexas, como "átrios", corredores alongados, corredores

apenas nomear algumas. Apesar de nestes monumentos não se conhecer o número total de eventuais tumulados, durante a "utilização" do mesmo, algumas ilações poderam ser retiradas pelos espólios depositados, que indicam um número relativo de tumulados, de forma a permitir a alguns investigadores, como por exemplo Domingos Cruz a afirmação que estes tipos de monumentos teriam uma utilização limitada no Tempo e nos Indivíduos depositados (CRUZ, 1995a; 1997e). 98 Mesmo tendo em conta as deposições "tardias" já no III e II milénios cal AC, em momentos em que a concepção original do monumento já estaria "corrompida". 99 Com o qual nos parece estar associado os pequenos monumentos que caracterizam a 1ª Fase do Megalitismo da Plataforma do Mondego. 100 O que a partir de agora inclui as estruturas anexas ao tumulus.

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"intratumulares", etc101, onde a comunidade poderia participar, assistir e aferir102, desta mesma competição, consubstanciada pelas ofertas aos mortos e/ou entidades tutelares do grupo, muitas vezes em áreas, não consideradas anteriormente103, enquanto que apenas um pequeno grupo de indivíduos, seleccionado por natureza, teria acesso ao espaço restrito, limitado fisicamente e que implica, nem que seja de uma forma ritual um processo de "passagem física" para o seu interior pelos "iniciados". Estas "passagens", configuram-se sob diversas formas, podendo ser constituídas por um pequeno anel lítico na periferia do tumulus, como no caso das Orcas de Antelas (Oliveira de Frades) e dos Castenairos (Vila Nova de Paiva) (CRUZ, 1997e); pequenas estruturas frontais tipo "átrio" em rampa, como no monumento de S. Pedro Dias (Vila Nova de Poiares) e eventualmente na Orca do Outeiro do Rato (Nelas) (SENNA-MARTINEZ, 1989a) ou então pura e simplesmente por um "átrio" ligado a um "corredor intratumular", como parece ser o caso da Orca dos Fiais da Telha, Monumento dos Moinhos de Vento (Arganil) e Dólmen 1 e 2 da Lameira de Cima (Penedono) (GOMES L., 1996). Por fim, o acesso torna-se ainda mais limitado, não só comunitariamente como fisicamente, através de corredores longos, estreitos e baixos, que impõem uma ideia de respeito e veneração perante os antepassados e as "entidades tutelares". Estas estruturas de acesso, alargam-se dramaticamente ao chegar à Câmara104, muitas vezes precedida de uma pequena antecâmara - caso das Orcas dos Fiais da Telha, da Cunha Baixa (Mangualde) e dos Juncais (Vila Nova de Paiva). As ofertas aos mortos e por conseguinte às entidades divinas e/ou divinizadas, permitiriam o fomentar um método satisfatório de criação/consolidação de prestígio e da própria unidade do grupo, desde que estas ofertas pudessem ser visualizadas e avaliadas pela comunidade, daí a necessidade de novos espaços visuais, preferencialmente nas zonas frontais. Por outro lado, não existiria o problema da contra-oferta, já que estas ofertas surgiriam com um duplo sentido: oferendas a entidades de valor místico/simbólico e ofertas às entidades vivas. Cria-se assim, eventualmente, uma arena privilegiada de "consumo competitivo" em que todas as ofertas são retiradas de circulação, o que impossibilita que outros os usem em outras actividades de oferta, permitindo um contínuo processo de acumulação de prestígio por parte dos ofertantes (BRADLEY, 1990:39). Esta concepção não implica que as ofertas aos mortos, enquanto entidades de uma determinada sociedade, reflictam a sua posição social, mas antes pelo contrário apenas são indicativos que as actividades associadas às acções funerárias sirvam de processo de coesão ou mesmo redefinição do papel social dos ofertantes em períodos de instabilidade. A oferta é feita à entidade colectiva, que tutela os mortos, entidade esta que é a própria

101 Situação que só se encontra patente nos monumentos evoluídos, como sejam a Orca dos Fiais da Telha, com um eventual "átrio" frontal, na Orca do Outeiro do Rato, com um "estrutura de condenação" sobrepondo-se a um "átrio". No caso dos monumentos dos Moinhos de Vento, Arganil e de S. Pedro Dias, Vila Nova de Poiares a construção de um empedrado ou "átrio" frontal (SENNA-MARTINEZ, 1989a), situação também detectada, em outros conjuntos megalíticos da Beira Alta, como sejam o recente caso da Lameira de Cima, Penedono (GOMES L., 1996) 102 Visto que nos monumentos da 1ª Fase, todas estas operações eram relativamente restritas ao conjuntos de indivíduos que realizaria o ritual funerário, sendo restrito senão mesmo selectivo o acesso a estes rituais (Cf. JORGE V., 1986 e 1989a; GONÇALVES & CRUZ, 1994; GOMES L., 1996) mas que em qualquer dos casos deveria envolver uma grande parte da comunidade ou estrutura familiar afectada. 103 Refira-se que nos casos dos monumentos, eventualmente inseríveis na 1ª Fase do Megalitismo regional, este mesmo tipo de estruturas não foram detectadas, apesar de intervenções nessa mesma área. Assim, quer os monumentos do presente núcleo (Orcas 1 e 2 do Ameal), quer a Orca de Pramelas, Nelas e a Orca de Santo Tisco, Carregal do Sal, para somente referir algumas, não possuem estruturas frontais, encontrando-se na sua totalidade encerradas pela estrutura tumular que as consolida e as cobre. 104 Que se assume aqui como o "Santo dos Santos" na feliz expressão de Vítor Oliveira Jorge, durante a 1ª Sessão do Colóquio «A Pré-História na Beira Interior» (Tondela, 21 a 23 de Novembro de 1997).

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memória colectiva e/ou o passado cogniscivel do grupo. Esta posição reflecte-se também no próprio processo funerário, já que a sua complexização permite aos vivos destacarem as suas próprias exigências em termos de posição social. A competição encontra-se presente sempre que elementos de grupos com menor acesso a bens tentam imitar as práticas de elementos que são mais "abonados" (BRADLEY, 1990:39), situação que irá implicar a reconstrução do sistema de prescrições simbólico-rituais, aplicado no cerimonial funerário.

Tudo isto implica que no inicio deste processo só seriam utilizados objectos que pela suas características se assumiam como únicos e significantes para o grupo, assumindo a partir de determinado momento como votivos, quer pelo seu acabamento, matéria-prima ou uma série de outros factores, ou seja, assistir-se-ía a uma continuidade entre os espólios desta Fase com os da anterior105. Com a expansão deste fenómeno e a contínua retirada de circulação de produtos de qualidade, seria necessário para a persecução do sistema, devido à relativa escassez destes, a redefinição das prescrições simbólico-rituais, com o surgimento, nos espólios funerários, de elementos de âmbito doméstico, como sejam a cerâmica, e produções em outras matérias-primas, como por exemplo o quartzo.

Aliás esta realidade, presente nos espólios, parece não se circunscrever à Bacia do Médio Mondego, visto que em outras áreas, se assiste também, com o desenvolvimento do megalitismo e o desenvolvimento dos monumentos de características avançadas, a uma integração de novos elementos, que até aí não surgiam no registo arqueológico, nomeadamente a deposição de artefactos usados e alguns defeituosos. Isto pode implicar, na óptica de Víctor Gonçalves quando confrontado com esta realidade no «Grupo de Reguengos de Monsaraz» um certo enfraquecimento da prescrição anterior (GONÇALVES, 1992:63-5), ou mesmo, na nossa opinião, na redefinição da mesma devido a certas pressões exteriores ao mundo dos mortos.

Esta heterogeneidade dos espólios, que pelas suas características morfométricas, os aproximam das realidades dos habitats conhecidos, com o surgimento de inúmeras peças inacabadas, defeituosas, de restos de talhe e fundamentalmente com o surgimento da cerâmica, até aqui ausente dos registos arqueológicos dos monumentos megalíticos, parecem permitir inferir que estamos perante um momento de alteração, de redefinição das prescrições, num sentido, que Ian Hodder considera de reprodução simbólica do "Espaço dos Vivos", no "Espaço dos Mortos", ou então, da lenta infiltração do elemento feminino, numa simbologia marcadamente masculina (Cf. HODDER, 1984).

Se esta nova realidade arqueológica, parece indicar a redefinição de uma interrelação entre funerário e doméstico, também pode ser entendido, como o aumentar da presença e da importância dos elementos domésticos, e por consequência do elemento feminino, como organizadores do simbólico e consequentemente do quotidiano e vice-versa, reformulação esta, que atingirá a plenitude com o surgimento e desenvolvimento de estruturas habitacionais permanentes, consubstanciadas, nos primeiros povoados fortificados ou estruturas monu105 De notar, que alguns autores aceitam, que aos primeiros monumentos de planta evoluída estejam ainda associados espólios similares aos encontrados nos pequenos monumentos, tal como parece ocorrer, por exemplo, na Orca da Cunha Baixa, Mangualde (CRUZ & VILAÇA, 1989 e 1990a; SENNA-MARTINEZ, 1994a) e nos Monumento de Antelas e do Picoto do Vasco (CRUZ, 1997e).

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mentais, atestados para as comunidades calcolíticas, identificadas, quer na Bacia do Alto Mondego (Cf. VALERA, 1997a), quer para a região a norte do Douro (CF. JORGE S., 1986 e 1997; SANCHES, 1995), onde o povoado é que surge então como organizador espacial e simbólico de toda a realidade do grupo humano, tornandose assim como o elemento preferencial e permanente da Monumentalização da Paisagem.

6.1.4. Espaço, Paisagem e Ritual. Hipóteses de um Discurso "(...) Estas obras, independientemente de que sean funerarias (megalitos), fuertes, fortificaciones o palacios, son en cualquier caso construcciones humanas que, concebidas para ser vistas en el espacio y perdurar en el tiempo, adjectivan culturalmente el entorno y configuran con su presencia un paisaje socio-cultural que habla del hombre y de la sociedad (...) son la metáfora de una nueva estrategia de apropiación del espacio."

(CRIADO BROADO, 1993:31) "(...) From our point of view, a monument can be defined as a cluster of intencional results, made concrete in the form of an artificial product which is visible through space and which maintains this visibily through time."

(CRIADO BROADO, 1995:199)

Em recentes textos salientámos, a profunda interrelação entre os monumentos megalíticos e a sua zona de implantação (VENTURA, 1993 e 1994b), à semelhança do que já tinha sido detectado para outras regiões (Cf. JORGE V., 1989; SILVA F., 1993 e 1994). Tivemos então ensejo de destacar, que no caso do Núcleo Fiais/Ameal, aparentemente, todos os monumentos se localizavam, sem excepção, ao longo da linha de festo, sobranceiras ao grande curso fluvial, que é o Mondego, numa posição de domínio em relação a uma das portelas tradicionais, de travessia deste curso de água. Por outro lado a sua relativa proximidade relativamente à elevação da Víbora, cujo valor "simbólico" é marcado durante a Proto-História local, com uma série rochedos insculturados e, cuja tradição de espaço diferente, é salientado por diversas lendas referentes não só a "Moiras"106, mas também com histórias de antigos templos e povoados107.

Em textos recentes Felipe Criado Broado e a sua equipa, têm procedido a uma análise da Arqueologia da Paisagem, tendo em conta um conceito fundamental, a Visibilidade do registo arqueológico enquanto um acto consciente da comunidade humana (CRIADO BROADO, 1989, 1993 e 1995; CRIADO BROADO et al., 1991; VAQUERO LASTRES, 1990). Assim, segundo estas propostas, podem ser considerados quatro tipos de relacionamento ou atitudes do ser humano para com a natureza envolvente: Passiva; Participativa, Activa e Destrutiva (Cf. CRIADO BROADO, 1993:20), cada uma correspondendo a uma certa estratégia de apropriação e construção da Paisagem Cultural (VENTURA, 1994b).

106 Sem dúvida relacionadas com os monumentos megalíticos. 107 A lenda mais comum, diz respeito a uma povoação localizada junto à Víbora, cuja rainha, uma poderosa feiticeira, teria posteriormente sido amaldiçoada e transformada em conjunto com todos os seus súbditos em víboras. O que destaca esta lenda, das comummente referidas na região é a total ausência de referências a tesouros, mas tão somente a perigos e mortes agonizantes.

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O reconhecimento da existência de diversas formas de Visibilidade ou de Invisibilidade, corresponderia assim, a um processo de simetria inversa, que ao longo do IV e III milénios cal AC, na Península Ibérica, existiriam zonas, ou áreas regionais, onde os monumentos megalíticos assumiriam um papel de maior Visibilidade em oposição aos contextos domésticos, enquanto que a invisibilidade aparente de certos contextos funerários é replicada pela grande visibilidade e aparato dos contextos domésticos108. Esta situação antagónica, pode ser interpretada como uma prática social que exige sempre a necessidade de uma certa visibilidade por parte de determinados grupos humanos, quer esta seja funerária ou do quotidiano (HODDER, 1984; CRIADO BROADO, 1993:32).109

Assim, a Natureza deveria ser conceptualizada ou apropriada, pelos grupos humanos, de uma forma similar à sua própria dinâmica, nos diversos âmbitos da existência dessas comunidades - Físico, Simbólico e Ritual. Estas comunidades tendem a efectuar a demarcação simbólica de determinados pontos geográficos, perfeitamente individualizáveis na paisagem, cujo impacto se realiza em todas as esferas de apreensão do natural por estes mesmos grupos humanos. A Paisagem passa a pertencer ao discurso simbólico110 e como tal, é parte indissociável das realidades da sociedade.

Se considerarmos que a organização do espaço dos mortos se faz naturalmente em função do Espaço dos Vivos, ainda que de uma forma idealizada, é plausível depreender que o espaço ocupado pelos monumentos funerários, seja simbolicamente significativo em relação às duas realidades em presença - os Vivos e os Mortos. Tendo em conta este factor, diversos investigadores, salientaram já a profunda diferença, existente dois tipos de monumentos funerários, presentes nas primeiras etapas do megalitismo do ocidente peninsular: •

Aqueles que uma vez cobertos pelas respectivas estruturas tumulares ficariam invisíveis, pelo que os deveremos considerar como tendo sido construídos com uma única função e utilização, quer implique ou não deposição colectiva. No final são indistinguível da paisagem que os rodeia (BRADLEY, 1990; VENTURA, 1994b; CRIADO BROADO, 1995);

Os dólmens, que apesar das estruturas envolventes, se destacam pela sua dimensão ou características intrínsecas (como por exemplo arte parietal) e que surgem indubitavelmente associados a claras estruturas de acesso (corredores desenvolvidos, átrios, etc) que atingem mesmo os limites exteriores da área tumular, permitindo assim uma forma de reinicialização do processo de deposição, no seu interior (espaços cénicos111). Estes podem funcionar com uma dupla função: Sepulcro e santuário. Assu-

108 Como já referimos para a situação das comunidades calcolíticas a norte do Mondego. 109 É interessante referir que constatação desta realidade tinha já sido avançada por Susana Oliveira Jorge, aquando da análise das comunidades da PréHistória Recente do Nordeste de Portugal (Cf. JORGE S., 1986 e 1990b). 110 Semantização, na concepção de CRIADO BROADO (1993:26). 111 Neste caso será interessante destacar, a hipótese de estes espaços constituírem zonas restritas, impedindo o acesso a indivíduos não-iniciados, mas funcionando com um carácter menos restritivo, que a câmara e o corredor, à semelhança do que foi avançado por exemplo para o monumento 1 de Madorras (GONÇALVES & CRUZ, 1994:211 e 223) ou da Necrópole da Lameira de Cima, Penedono (GOMES L., 1996), situação essa que poderá também ser depreendida para o monumento principal dos Moinhos de Vento e o de S. Pedro Dias, Vila Nova de Poiares (SENNA-MARTINEZ, 1989a), para além da Orca dos Fiais da Telha e do Outeiro do Rato, a um nível local.

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mem-se assim como locais simbólicos, passando a constituir símbolos de um discursos de poder (JORGE V., 1989; BRADLEY, 1990; CRIADO BROADO, 1993; VENTURA, 1994b). Alguns autores, nomeadamente Víctor Oliveira Jorge, propõem que esta diferenciação se deva em grande parte, como acontece em algumas áreas europeias, a uma tendência para a evolução das arquitecturas no sentido do simples para o complexo (JORGE V. 1989). No entanto consideramos, que este factor só por si não explica a razão do surgimento de monumentos não só maiores e mais complexos, mas que também surgem destacados na paisagem, pelo que consideramos, que em determinados grupos humanos, em particular na Plataforma do Mondego, esta evolução se fará, fundamentalmente, do Invisível para o Visível (CRIADO BROADO, 1993 e 1995) podendo, no entanto, coexistir em certos momentos várias soluções arquitectónicas (JORGE V., 1986), ainda que não haja a certeza de tal poder ocorrer nos mesmos núcleos. A estrutura megalítica e o tumulus passam a assumir funções diversificadas com a sua complexização (corredores alongados, átrios, etc) (GONÇALVES, 1992; GOMES L., 1996). Tudo parece indicar que, para as comunidades do Neolítico antigo e/ou médio, a Natureza é entendida numa perspectiva mental/simbólica, como algo que se inter-relaciona com o grupo humano, num sentido que Felipe Criado Broado designa de «naturalização da cultura», ao invés de ser entendida como «domesticação da natureza», como parece ocorrer com as sociedades em momentos posteriores (CRIADO BROADO, 1993:25) No caso dos primeiros monumentos megalíticos, que na sua implantação buscam não tanto destacar-se na Paisagem, mas antes pelo contrário fundir-se nela constituindo um todo, poderão implicar, enquanto concretização de um discurso simbólico da Paisagem, uma situação em as comunidades apreendem o Espaço como aberto, no qual não existem barreiras sociais físicas, sendo a apropriação do território efectuada pela deambulação dos mesmos grupos humanos, na persecução das suas actividades. Assim o que interessa reter da paisagem, são os marcos físicos naturais visíveis (Cf. CRIADO BROADO, 1993 e 1995), daí que os espaços funerários, enquanto realidades simbólicas, tendem a concretizar-se, não tanto em relação a si mesmos, mas sim em relação a estes mesmos marcos multidimensionais, presentes não só no real/quotidiano, mas também no Simbólico/Ritual. Estaríamos assim perante uma sociedade constituída de uma forma indivisa, não existindo divisões ou desigualdades, não existindo pois âmbitos de especialização separados do resto da sociedade (VICENT GARCIA, 1988 e 1995). Assim, os primeiros monumentos megalíticos, do planalto do Ameal, As Orcas 1 e 2 do Ameal e eventualmente, as Orcas 2 de Oliveira do Conde e do Santo, não se destacam na Paisagem, sendo mesmo absorvidas por esta, inserindo-se naquilo que Felipe Criado Broado designa de visibilidade inibitória (CRIADO BROADO, 1995:198-9). Assim, estes primeiros monumentos, situam-se em zonas de passagem e acesso, quer ao vale do Mondego, quer a zonas situadas a norte e/ou a sul, situação esta, que será mantida na rede viária romana112. Por sua vez, a elevação da Víbora, onde se assinalam diversas lendas, constituí na memória colectiva, um elemento

112 A via romana, passa a cerca de 1000 m a norte das Orcas do Ameal, estando ligado uma das portelas naturais do Mondego, a ponte da Azenha, via natural de travessia do Mondego, na área.

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de fácil identificação a média distância113, para além destes monumentos poderem estar associados a eventuais zonas de habitat114. Estes monumentos estariam, eventualmente, associados a pequenos grupos humanos dispersos por um extenso território e auto-suficientes, eventualmente, construindo cada um o seu túmulo megalítico, de dimensões modestas e como já foi referido, de curta duração, em termos de utilização. Esquema VI.1 Sinopse da estruturação dos Monumentos da 1ª Fase do Núcleo Megalítico dos Fiais/Ameal

Prescrição Ritual

Selecção da Área Artefactos (In)Visibilidade

Orientação Votivos

Quotidianos

Construção da Estrutura

Deposição dos Tumulados (Seleccionados ?)

Deposição de Espólio

Prescrição Ritual (Selecção)

Cobertura e Encerramento

Abandono

Na coluna da esquerda, a trama mais escura corresponde ao "período de vida" ou de utilização dos monumentos do Núcleo atribuíveis a esta 1ª Fase, mais particularmente o caso da Orca 2 do Ameal. Destaque-se a curta duração deste tipo de monumentos, o que nos permite relacioná-los, eventualmente, com deposições muito específicas, quer no Tempo ou no período anual.

Com o desenvolvimento das sociedades neolíticas, através da implementação de uma actividade produtora permanente o que implicaria um maior controlo da natureza (VICENT GARCIA, 1995) em todas as formas, desenvolvem-se outras formas de apropriação da natureza, no aspectos simbólico e ritual. Esta acção deixa de ser passiva, pelo simples reconhecimento de certas características visíveis da paisagem e respectiva atribuição de uma carga simbólica, para passar a ser uma atitude activa na interrelação com o Espaço, o que alguns autores designam de «domesticação da paisagem» (Cf. CRIADO BROADO, 1993:27).

113 De salientar a existência perto deste elemento topográfico, de diversos afloramentos com insculturas atribuíveis à Proto-História e marcas medievais de divisão de comarcas, que indicam a perduração do local como marco no imaginário colectivo. 114 Pelo menos durante parte do ano.

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A paisagem domesticada, implica a existência de elementos de caracter simbólico-ritual, que expressam a nova concepção de Espaço, ele mesmo um espelho da realidade do grupo humano. Naturalmente que na construção desta nova paisagem se encontram elementos herdados da anterior concepção, aos quais se vão adicionar os novos elementos, que os modificam e manipulam, de modo a estabelecer novos significados. Esta nova conceptualização, parece estar, ligada ao desenvolvimento de construções funerárias que se assumem como monumentais sobre o espaço e a paisagem.

Com o Neolítico final regional, inserivel na 2ª metade do IV e inícios do III milénio cal AC, passamos a conhecer os primeiros contextos domésticos das comunidades, que eventualmente, terão "utilizado" alguns dos monumentos megalíticos, com o caso do «Ameal-VI». Os habitats destes grupos humanos, caracterizam-se, pela simetria inversa à realidade dos monumentos megalíticos, que utilizam, já que se apresentam sem condições de controle da paisagem115, por construções precárias e total Invisibilidade. A informação disponível, indica ainda uma baixa densidade de ocupação, associada a situações de ocupação sazonal, preferencialmente no Outono/Inverno, correspondendo, eventualmente, a habitats especializados na recolecção (SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995a).

Nos monumentos evoluídos coevos deste tipo de habitats, o que se assiste, não é à fusão entre paisagem física e o simbólica, mas sim a uma restruturação do discurso. Criam-se espaços ou Paisagens Monumentais (CRIADO BROADO, 1993; VENTURA, 1994b), ainda que na sua implantação, estes novos monumentos procurem uma certa continuidade, nem que seja pelo simples facto de surgirem, na periferia de monumentos já existentes, ainda que já se encontrassem desactivados. Assim, parecem aparentemente formar núcleos, criando-se muitas vezes uma imagem artificial de continuidade na tradição social, que permite a afirmação do monumento como "máquina do tempo" (CRIADO BROADO, 1993).

No planalto do Ameal, assiste-se à construção, na periferia de sepulcros de maiores dimensões, todos eles de corredor desenvolvido, caso da Orca 1 de Oliveira do Conde e Orca dos Fiais da Telha, que envolveriam um maior investimento de tempo e mão-de-obra, implicando logo um maior esforço do grupo ou dos grupos humanos envolvidos. Estes monumentos corresponderiam ao apogeu do megalitismo regional e seriam caracterizados pela longa duração da sua utilização116, ao contrário dos primeiros monumentos caracterizados pela curta duração.

Procede-se assim a um processo de "sacralização do espaço", marcado pela construção de monumentos que, ainda que tipologicamente e conceptualmente afins dos primeiros, se destacam pela imponência das suas estruturas, concentrando em si um maior número de mão-de-obra e tempo despendido para a sua edificação117. 115 Com a excepção do já referido sítio da Pedra Aguda, Sobral de Papízios, Carregal do Sal, Viseu. 116 O sentido de longa duração deverá ser entendido em oposição à de curta duração aplicado aos pequenos monumentos da fase inicial. Assim esta longa duração poderá abranger 3 a 4 gerações na interpretação de Domingos CRUZ (1997e) ou mesmo 6 a 8 na nossa óptica, sucedendo-se os grandes monumentos no Espaço e no Tempo, não havendo assim, na maioria dos casos, uma simultaneidade e contemporaneidade de utilização. 117 Este processo de monumentalização associada a processos rituais, não se resumem só ao processo criativo/construtivo, sendo mesmo salientado senão ampliado pelas "estruturas de condenação" e por todos rituais de "selagem" associados a estas últimas adições volumétricas, que os tornam

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Consideramos que se assiste assim a uma Monumentalização da paisagem (CRIADO BROADO, 1993; VENTURA, 1994b), em oposição aos modelos de monumentalização do monumento (Cf. JORGE V., 1986a:235). Este processo inserir-se-ía na confirmação e restruturação da função simbólica da paisagem cultural (CRIADO BROADO, 1995), do espaço utilizado pelo grupo construtor/utilizador de tais monumentos.

Cria-se deste modo uma Paisagem Cultural (VENTURA, 1994b), assumindo estes monumentos uma expressão simbólica, inscrita pelos grupos humanos no espaço geográfico, que polarizaria nestes territórios concepções de uma actividade simbólica e possivelmente de interrelação grupal.

Assim, estes grupos do Neolítico final parecem passar a reclamar a apropriação efectiva do território, assumindo-se o Monumento Megalítico como marca simbólica, apropriadora do espaço e dos seus recursos, bem como manifestação do "culto dos antepassados", símbolos de coesão e legitimadores do(s) grupo(s) humano(s) que o construíram, servindo como lugares centrais ou Axis Mundi, organizadores da sociedade no território (JORGE V. 1989b; VENTURA, 1993 e 1994b).

Este, deixa de ser concebido como um espaço indivisível, aberto, para ser um território fechado, exclusivo. É a transformação da Paisagem em Território (CRIADO BROADO, 1993 e 1995). Assim, desenvolvem-se estratégias de subsistência dependentes do território e em complementaridade este sofre a assimilação de valores de carácter doméstico, prefigurando uma nova atitude social, que se estende da cultura sobre a natureza, convertendo-a, pelo menos em termos simbólicos (Cf. HODDER, 1984), o que também parece estar associado ao surgimento e desenvolvimento de formas incipientes de desigualdade, competição (entre grupos e indivíduos) e de uma certa coerção social (VICENT GARCIA, 1988 e 1995). Isto vai levar, a longo prazo, ao surgimento e desenvolvimento de uma sociedade dividida, com sistemas de controle e exercício do poder. Estas sociedades necessitam, antes de mais de exercer o seu discurso sobre a natureza, alterando-a, conformando a paisagem à sua realidade.

O desenvolvimento de uma conceptualização doméstica da natureza, implica o desenvolvimento de concepções de Tempo e Espaço, anteriormente ausentes ou não fundamentais. O Ser Humano, modeliza agora o Espaço, criando uma Paisagem artificial, que se vai reflectir no discurso simbólico, que se assume como um Espaço fragmentado, plural e propriedade de determinado grupo humano. Os monumentos megalíticos, enquanto marcos deliberados na Paisagem, inserem-se nesta transformação da mesma, sempre entendida como uma acto de leitura ou de interpretação. Esta apropriação simbólica tem, nos monumentos megalíticos, o seu caracter físico ou palpável. Estes monumentos assumem-se agora, mais do que os elementos naturais, que tendem a substituir ou melhor a aproveitar, constituindo-se como Monumentos no verdadeiro sentido da palavra,

particularmente significativos e significantes. Assim, não só a estruturas de condenação vão selar o monumento como o vão ampliar em termos de volumetria, como ainda parecem estar associados a intensos "fogos rituais" por vezes intensos, como se encontra testemunhado nos casos da Mamoa 1 de Madorras (GONÇALVES & CRUZ, 1994), da Orca de Areita (GOMES et al., 1997b) e Necrópole da Lameira de Cima (GOMES L., 1996). Para a Plataforma do Mondego, não conhecemos no entanto situações de "fogos rituais" para além do caso da sepultura secundária do Dólmen dos Moinhos de Vento, Arganil (SENNA-MARTINEZ, 1989a), ainda que o processo de ampliação volumétrica da parte frontal, fosse constatado no caso da Orca do Outeiro do Rato, Nelas e eventualmente no da Orca dos Fiais da Telha.

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porque passam a ter existência no Espaço e no Tempo, visto serem construídos não só o para o imediato mas também como um marco na paisagem do futuro (CRIADO BROADO, 1993:28-9). Esquema VI.2 Sinopses dos Monumentos da 2ª Fase do Núcleo Megalítico dos Fiais/Ameal Prescrição Ritual

Selecção da Área Visibilidade

Orientação

Construção da Estrutura Artefactos Cobertura Votivos

Quotidianos

Utilização Tumulações (Interior)

Espaços Cénicos (Exterior)

Encerramento

Espaço Religioso (?)

Deposição de Espólio

Deposição de Espólio

Prescrição Ritual (Competição)

Utilização

Deposição de Espólio (?)

Abandono

Na coluna da esquerda, a trama mais escura corresponde ao "período de vida" ou de utilização dos monumentos do Núcleo atribuíveis a esta 2ª Fase, mais particularmente o caso da Orca dos Fiais da Telha. Destaque-se a longa duração de utilização destes tipos de sepulcros, no mínimo de 2 a 3 gerações e mais provavelmente atingindo, senão ultrapassando, as 6 a 8 gerações.

Em comunidades estruturadas em torno de laços de parentesco ou de associativismo (RENFREW, 1983), tais como parecem ser as sociedades megalíticas do Neolítico final peninsular, os mortos não são um elemento exógeno à sociedade e como tal os rituais funerários, quaisquer que eles sejam, apresentam-se como o culminar de um comportamento consciente e inconsciente, que passa não só por um comportamento social, da apropriação de um território, não só como espaço físico e/ou simbólico, onde se desenrolariam diversas actividades (paisagem cultural), mas também como uma forma de perpetuação e de comunicação de um saber contido num espaço restrito, vedado, inacessível e inalterável - a montanha, a floresta, o sepulcro, etc (GONÇALVES, 1992; CRIADO BROADO, 1993 e 1995; VENTURA, 1993 e 1994b) - que transmite diferentes mensagens a diversos tipos __________________________________________________________________________________________ 188


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de audiência, que permitiriam a criação, manutenção e transformação da ordem sócio-simbólica ao longo do espaço e do tempo. Esta apropriação do território intensificar-se-ía com o aumento demográfico e com o aumento da concorrência por determinado espaço, obrigando a desenvolvimento de formas, que resultaram na monumentalização da paisagem, por via da multiplicação dos monumentos no território, em núcleos e necrópoles. Os núcleos, surgiriam assim como "intensificadores/confirmadores" dessa "paisagem cultural" (VENTURA, 1994b).

Tudo parece indicar, no núcleo em apreço, que também no que diz respeito à orientação dos monumentos, se pode inferir da existência de uma prescrição simbólico-ritual, consubstanciada por uma variabilidade mínima, se considerarmos a tecnologia então empregue (Cf. WILLIAMSON, 1974; HEGGIE, 1981)118.

Assim, deu-se recentemente inicio, a um projecto interdisciplinar, envolvendo vários investigadores, de modo a abordar a orientação astronómica de vários monumentos megalíticos, do Centro-Norte de Portugal e da Meseta Norte Espanhola, alguns dos quais inseríveis na nossa área de análise119.

Perante estes dados (Cf. Quadro VI.3) é possível verificar que a totalidade dos monumentos do núcleo, bem como os que se inserem na área imediatamente circundante, em termos regionais, se encontram indubitavelmente orientados para Este e Este-Sudeste, permitindo associar este factor a uma motivação de cariz astronómico, servindo o Sol como uma coordenada fundamental..

Sabendo que a coordenada astronómica de Declinação é similar à sua análoga celeste de Latitude, é possível inferir que quando o sol cruza o equador, nos equinócios, esta declinação corresponde a 0º, enquanto que no verão e no inverno, esta se apresenta positiva ou negativa respectivamente. Por volta de 3000 anos cal AC, no verão o sol atingiria uma declinação positiva máxima de +24º, enquanto que no inverno esta seria negativa e atingiria os -24º (Cf. SENNA-MARTINEZ, LÓPEZ PLAZA & HOSKIN, 1997:666-8).

Desta forma é evidente, que a totalidade dos monumentos aqui apresentados, seguem uma tendência para a orientação solar durante os meses de Outono e Inverno, permitindo estabelecer as eventuais correlações: •

Estes monumentos foram construídos durante estas duas estações, sendo por isso mais um testemunho para uma ocupação preferencialmente sazonal da área, correspondendo, tal como os habitats identificados, para uma ocupação de Outono/Inverno (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995b);

Por outro lado, a sua orientação, tendo em conta a órbita solar, permitem associá-los a uma valorização simbólica deste astro, dentro da cosmogonia destas comunidades, apresentando-se, eventual-

118 À semelhança da situação no conjunto de Reguengos de Monsaraz, apesar de distintos sistemas de análise (Cf. GONÇALVES, 1992:56). 119 Cf. HOSKIN, 1997; SENNA-MARTINEZ ; LÓPEZ PLAZA & HOSKIN, 1997; LÓPEZ PLAZA , SENNA-MARTINEZ & HOSKIN, 1996.

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mente, como uma entidade de cariz divino, na qual é reconhecida a sua associação à Vida, Luz e Calor, como se pode depreender pela localização e articulação de algumas representações solares presentes em alguns monumentos megalíticos da região120.

Alguns autores, de entre os quais destacamos Senna-Martinez e Victor Gonçalves, referiram já a aparente complementaridade existente entre as representações dos elementos solares - associados por esta via à Vida, Luz, Ar, Masculino e Quotidiano/Profano - com as dos elementos da Morte, Trevas, Terra, Feminino e Secretista, constituídos pela própria simbologia ctónica do espaço funerário, (Cf. GONÇALVES V., 1992; SENNAMARTINEZ, 1994a, 1995/96a; SENNA-MARTINEZ, LÓPEZ PLAZA & HOSKIN, 1997) presente por exemplo em vários monumentos da Plataforma do Mondego121, constituindo um conjunto que, longe se opor se desenvolve numa complementaridade quase num sentido andrógino. Quadro VI.3 Declinação dos principais monumentos megalíticos da Plataforma do Mondego122 Monumento

Lat. Aprox.

Orient.

Horiz.

Declinação

Arquinha da Moura

40º 30'

98º

-5 ½º

Orca dos Fiais da Telha

40º 26'

109½º

2º 30'

-13º

Orca 2 do Ameal

40º 25'

≈13º

2º 30'

-16º

Orca de Santo Tisco

40º 27'

119º

2º 30'

-20 ½º

Orca do Outeiro do Rato

40º 27'

89½º

Orca de Pramelas

40º 31'

102º

-9 ½º

Casa da Orca da Cunha Baixa

40º 34'

113º

-15 ½º

Orca 1 do Carapito

40º 46'

108º

-11º

Orca 2 do Carapito

40º 46'

117½º

3º 30'

-18 ½º

Esta uniformidade de orientação encontra-se presente quer nos monumentos de pequenas dimensões da primeira fase, quer dos monumentos evoluídos, já do apogeu do megalitismo regional. Assim, mais uma vez, estaríamos perante uma situação de continuidade de uma tradição, consubstanciada nas prescrições rituais relativas à orientação dos monumentos. Esta interrelação entre a construção dos monumentos megalíticos, da Plataforma do Mondego, com o outono/inverno, tinha já sido inferida anteriormente, para os povoados do «Tipo Ameal-VI», tendo em conta a sistemática recolecção de bolota, que só poderia ser recolhida no Outono (SENNAMARTINEZ, 1994a e 1995a). Assim, tendo em conta mais este elemento, pode-se depreender que as comunidades que utilizariam os monumentos megalíticos, nas suas diversas etapas, seriam comunidades moveis, eventualmente com um grande raio de acção, mas que o seu espaço operacional estaria divido em áreas a aproveitar durante a primavera e verão, onde seriam explorados recursos eventualmente ligados a uma pastorícia nas pastagens da serra (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1994a, 1995a e 1995/96a) em oposição às áreas de outono e inverno. Os monumentos funerários estariam localizados em áreas de exploração económica de outono/inverno, situando-se 120 Destacamos apenas a nível de exemplo, pela sua proximidade, os casos do símbolo solar na Orca de Santo Tisco, Carregal do Sal e Orca 1 do Carapito, Aguiar da Beira, ambos monumentos inseríveis por nós na primeira fase do Megalitismo regional (Cf. SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1994b; LEISNER & RIBEIRO, 1968; CRUZ & VILAÇA, 1990b) e o exemplo paradigmático da Orca de Antelas, Oliveira de Frades, que pelo dados disponibilizados recentemente, parece integrar-se já na fase de apogeu do megalitismo regional (Cf. Ponto 4 e CRUZ, 1995a, 1995b e 1997d, CASTRO, FERREIRA & VIANA, 1957:Est. V). 121 Cf. SENNA-MARTINEZ, LÓPEZ PLAZA & HOSKIN, 1997. 122 Cf. SENNA-MARTINEZ, LÓPEZ PLAZA & HOSKIN, 1997.

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as zonas de habitat, bem próximas em relação a estes marcos no terreno, com tudo o que simbolicamente foi já referido anteriormente.

Não deixa de ser interessante a associação simbólica, pelo menos para as comunidades do Neolítico final regional, a relação entre área de outono/inverno com os espaços funerários, o que poderia implicar uma ideia de morte ou repouso/adormecimento ritual da natureza (e da sociedade), antes do seu eterno renascer durante a estação seguinte. Aliás este fenómeno de eterna oposição entre Vida e Morte, Luz e Escuridão, Espaço Livre e Espaço Restrito, num processo cíclico, anualmente repetido, foi já anteriormente perspectivada por diversos autores, quer tendo em conta as orientações e elementos pictóricos presentes nos monumentos megalíticos (Cf. GONÇALVES, 1992:37-51), quer ainda com o surgimento de elementos vegetais, que poderiam estar associados a esta concepção (Cf. GOMES L., 1996:175). Assim a Mãe-Terra, seria concebida, como uma entidade fundamental para as sociedades agro-pastoris, onde o elemento feminino, par essencial, dos mitos da criação, se uniria com o Céu, ou seu governante, o Sol, na eterna reconstituíção, do Dia e da Noite, do Nascimento e da Morte, sempre entendidos em oposição e simultaneamente como complemento (Cf. ELIADE, 1970), funcionando alguns monumentos megalíticos, pelo menos os construídos durante a 2ª metade do IV milénio cal AC, como conceptualizações deste simbolismo.

Venda Nova, Janeiro de 1998

______________________________________ (José Manuel Quintã Teixeira Ventura)

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Anexo I. - SOFTWARE PARA CÁLCULO DE VOLUMES


O presente programa foi desenvolvido em BASIC, por João Carlos de Senna-Martinez, num sistema Sinclair Spectrum 48k, de modo a permitir o cálculo de volumes em recipientes cerâmicos utilizando a propostas de normalização de volumes cerâmicos apresentada por ERICSON & STICKEL, 1973 (Cf. SENNA-MARTINEZ, 1984). Posteriormente, foi adaptado por nós para o Microsoft GW-Basic© 3.xx, de modo a permitir a sua utilização em sistemas compatíveis, que então se tinham tornado a norma.

Com o desenvolvimento de novos sistemas operativos, nomeadamente o Microsoft MS-DOS© 5.0 e 6.xx que incluíam o MS-DOS QBasic© 1.0, foi o presente programa adaptado para os novos requisitos, o que permitia funcionar correctamente, numa "janela" do Microsoft Windows© 3.xx e 95, sem problemas de maior, o que não era totalmente possível com a anterior versão. Apesar da presente aplicação funcionar em MS-DOS e não se encontrar compilada, exigindo a presença do "interpretador" QBasic.exe, esta pode ser facilmente compilada, sem grandes alterações, com qualquer versão produtora de auto-executáveis, nomeadamente o Microsoft QBasic© 5.xx ou superior ou então, com qualquer compilador Basic, que utilize as funções estandarte para o Microsoft Windows©, como por exemplo o Microsoft Visual Basic© 2.xx ou superior, o Aurora Basic© ou então o WinBasic©.

Em termos funcionais o utilizador, uma vez iniciado a aplicação, deve seguir os passos pedidos pela mesma e efectuar a suas escolhas presentes num sistema de "menus", utilizando para tal o teclado, em especial as teclas numéricas. Todos os resultados são impressos directamente na impressora, sendo mesmo necessária a sua presença, para o correcto funcionamento do cálculo.

' CALCVOL.BAS - Cálculo de volumes para recipientes cerâmicos ' Versão 3.02 para Microsoft Qbasic©. JOSÉ VENTURA, 1993/1994© ' SENNA-MARTINEZ, 1885© e SENNA-MARTINEZ & JOSÉ VENTURA 1991 e 1993© ' CALCVOL.BAS é um programa Freeware, podendo ser utilizado e distribuído sem qualquer restrição ' Os autores não se responsabilizam por qualquer dado ou perda de informação ' devido à utilização incorrecta desta aplicação. INICIO: KEY OFF: CLS DIM N$(25), Z$(25), VOL(13) PRINT : PRINT : PRINT : PRINT PRINT TAB(16); "Verifique se a Impressora se encontra em Linha!" PRINT PRINT TAB(16); " Carregue em qualquer tecla para continuar..." 100 IF INKEY$ = "" THEN GOTO 100 LET U$ = "---------------------------------------------------------------------------" LPRINT " LPRINT " CALCULO DE VOLUMES DE OLARIA . (c)J.VENTURA LPRINT " LPRINT LPRINT "CÓDIGO DE PEÇA VOLUME (cm3)" LPRINT U$

II

" " "


START: REM INICIO DA ROTINA COLOR 15, 1: CLS PRINT TAB(18); " " PRINT TAB(18); " Cálculo de volume ....................1 " PRINT TAB(18); " Saída para o DOS......................2 " PRINT TAB(18); " " PRINT " " PRINT TAB(18); : INPUT " Introduza a sua opção "; OP# PRINT " " IF OP# = 1 THEN GOTO INICIO1 IF OP# = 2 THEN SYSTEM IF OP# > 2 THEN GOTO ESCAPE INICIO1: CLS : PRINT : PRINT : PRINT : PRINT : PRINT : PRINT LET VOL = 0 LET N$ = Z$ PRINT TAB(18); : INPUT " Código de artefacto"; N$ MENU: CLS PRINT TAB(20); " PRINT TAB(20); " QUAL O SÓLIDO? PRINT TAB(20); " [1]-ESFERA PRINT TAB(20); " [2]-ELIPSOIDE PRINT TAB(20); " [3]-CILINDRO PRINT TAB(20); " [4]-CONE PRINT TAB(20); " [5]-TRONCO-CÓNICO PRINT TAB(20); " [6]-HEMISFERA PRINT TAB(20); " [7]-HEMI-ELIPSOIDE PRINT TAB(20); " [8]-ESFÉRICO PRINT TAB(20); " PRINT TAB(20); " [9]-Concluir cálculo de volume PRINT TAB(20); " PRINT " " PRINT TAB(22); : INPUT "Qual a sua opção "; IND# PRINT " " IF IND# = 1 THEN GOTO ESFERA IF IND# = 2 THEN GOTO ELIPSE IF IND# = 3 THEN GOTO CILINDRO IF IND# = 4 THEN GOTO CONE IF IND# = 5 THEN GOTO TRONCO IF IND# = 6 THEN GOTO HEMIESF IF IND# = 7 THEN GOTO HEMIELIP IF IND# = 8 THEN GOTO ESFERICO IF IND# = 9 THEN GOSUB IMPRIME: GOTO START IF IND# > 9 THEN GOTO ESCAPE ESCAPE: BEEP: RESUME START ESFERA: REM "VOL.ESFERA" PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de r "; R LET V5 = 4 / 3 * 3.141592654# * R ^ 3 LET VOL = VOL + V5 PRINT "VOL.ESFERA "; V5 PRINT "VOLUME TOTAL ACTUAL "; VOL GOTO MENU ELIPSE: III

" " " " " " " " " " " " "


REM "VOL.ELIPSOIDE" PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de r "; R PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de h "; E LET VE = 4 / 3 * 3.141592654# * R ^ 2 * E LET VOL = VOL + VE PRINT "VOL. ELIPSOIDE "; VE PRINT "VOLUME TOTAL ACTUAL "; VOL GOTO MENU CILINDRO: REM "VOL.CILINDRO" PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de r"; R PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de h "; H LET VC = 3.141592654# * R ^ 2 * H LET VOL = VOL + VC PRINT "VOL CILINDRO "; VC PRINT "VOLUME TOTAL ACTUAL "; VOL GOTO MENU CONE: REM "VOL.CONE" PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de r "; R PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de h "; H LET VK = 3.141592654# / 3 * R ^ 2 * H LET VOL = VOL + VK PRINT "VOL. CONE "; VK PRINT "VOLUME TOTAL ACTUAL "; VOL GOTO MENU TRONCO: REM "VOL.TRONCO-CÓNICO" PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de r1 "; R PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de r2 "; B PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de h "; H LET VT = (R ^ 2 + R * B + B ^ 2) * 3.141592654# * H / 3 LET VOL = VOL + VT PRINT "VOL. TRONCO-CONICO "; VT PRINT "VOLUME TOTAL ACTUAL "; VOL GOTO MENU HEMIESF: REM "VOL.HEMISFERA" PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de r "; R LET VH = 2 / 3 * 3.141592654# * R ^ 3 LET VOL = VOL + VH PRINT "VOL. HEMISFERA "; VH PRINT "VOLUME TOTAL ACTUAL "; VOL GOTO MENU HEMIELIP: REM "VOL. HEMI-ELIPSOIDE" PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor r "; R PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de h "; E LET VHE = 2 / 3 * 3.141592654# * R ^ 2 * E LET VOL = VOL + VHE PRINT "VOL. HEMI-ELIPSOIDE "; VHE PRINT "VOLUME TOTAL ACTUAL "; VOL GOTO MENU

IV


ESFERICO: REM "VOL.SEGMENTO ESFÉRICO" PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de r "; R PRINT TAB(22); : INPUT "Introduza o valor de h "; H LET VSS = 3.141592654# / 6 * H * (3 * R ^ 2 + H ^ 2) REM LET VSS=1/6*3.141592654*H(3*R^2+H^2) LET VOL = VOL + VSS PRINT "VOL. SEGMENTO ESFÉRICO "; VSS PRINT "VOLUME TOTAL ACTUAL "; VOL GOTO MENU IMPRIME: REM "SUB-ROTINA DE IMPRESSÃO DE RESULTADOS" LET VOL = INT(VOL) LPRINT N$; TAB(31); VOL RETURN

V


Anexo II. – ESTAMPAS DOS MATERIAIS PROVENIENTES DAS ORCAS 1 E 2 DO AMEAL


Estampa V


Estampa VI


Estampa VII


Estampa VIII


Anexo III. - MATRIZES DOS MATERIAIS PROVENIENTES DAS ORCAS 1 E 2 DO AMEAL


Nº ORAM 1 1/89 ORAM 1 12/89

Nº ORAM 1 6/89 ORAM 1 7/89 ORAM 1 13/89 ORAM 1 24/89 ORAM 1 34/89

Nº ORAM 1 23/89

Coordenadas Q X Y Z H-9 *** *** ***

Tipo 6

D n/o

d 382

dm 378

Medidas Dc n/o H n/o

HD n/o

Hd n/o

Hc n/o

E 9

Coordenadas Q X Y O-9 *** *** G-7 *** *** Q-10 *** *** *** *** *** H-9 *** ***

Z *** *** *** *** ***

Tipo 2 0 1 2 0

Est 3 3 2 2 3

Fra 1 1 1 1 2

Córtex 0 0 0 0 0

UE 0 0

Coordenadas Q X Y Z *** *** *** *** J-16 *** *** ***

Sup 1 0

Est 0 0

Matéria 0 0

Côr 5YR 8/1 7,5R 7/0

III.1.3. Orca 1 do Ameal. Matriz de Raspadores

UE 0 0 1 0 14

C 34,2 23

C n/o n/o n/o n/o n/o

Medidas L E 40,2 10,8 18,8 5,5

Matéria Côr 0 5YR 8/1 0 2,5Y 4/0 0 5Y 6/1 0 10YR 6/1 2,5YR 8/2 0

H n/o n/o n/o n/o n/o

Ial *** *** *** *** ***

e 6,3

Índices H Ial Ie Iar n/o 118 32 *** n/o 82 24 ***

Medidas L E 10 2,8 n/o 3,5 n/o 2,6 n/o 3,5 n/o 2,7

III.1.2. Orca 1 do Ameal. Matriz dos Produtos alongados (Lâminas e Lamelas)

UE 4

III.1.1. Orca 1 do Ameal. Matriz de Cerâmica

R.P 5 0

Iar *** *** *** *** ***

Ia2 ***

La 5 n/o n/o n/o n/o

Ip ***

Icv ***

Ies 70

Ta 6 6

Talão T.l 1 0

Retoque R.P R.R R.E R.I 0 0 0 1 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o

Índices Ihc Ie *** ***

Retoque Secção R.I R.M SL ST 0 0 2 6 1 0 1 5

Índices Ie *** *** *** *** ***

Ia1 ***

Aq 1 0

R.M 0 n/o n/o n/o n/o

Fórmula T-?

Obs. superf. do Quad. SE

Secção SL 1 n/o 1 n/o n/o

Forma Ab. 1

ST 0 2 1 2 0

Vol n/o

Talão Ta n/o n/o 2 6 n/o T.l n/o n/o 0 1 n/o

Bordos F O 0 0

Aq 0 1 0 1 1

Base n/o

estradão,limite da mamoa

Obs.

M.P. n/o

Téc. n/o

Decoração descrição n/o

Pasta P.c. 0

P.t. 1

E.N.P. Q F M 3 2 1

Calib. 1

Côr 10YR 7/4

Coz 3

Superf Int 0


Nº ORAM 1 3/89 ORAM 1 19/89 ORAM 1 25/89 ORAM 1 26/89 ORAM 1 40/89 ORAM 1 42/89 ORAM 1 46/91 ORAM 1 47/91

Nº ORAM 1 5/89

Coordenadas UE Q. X Y Z Tipo 0 G-7 *** *** *** 6 1 H-5 *** *** *** 3 11 H-6 *** *** *** 6 1 H-10 *** *** *** 0 14 I-8 *** *** *** 3 11 H-8 *** *** *** 6 14 I-9 *** *** *** 6 21 I-8 *** *** *** 6

Est 0 0 0 0 0 0 0 0

Or. 1 1 0 0 0 0 0 1

C 19,5 23,6 26,8 30 25,9 29,2 31,9 22,2

L 11 9,2 9,2 12 11 8 10 9,5

Medidas E T 3,5 13,2 3,3 14,4 3,7 17,3 3,1 19,1 2,7 16 2,4 14,7 3 18,8 3,6 15,3 p.t 12,9 12,9 15,7 16,8 14 14,2 18,4 13,3

B 19,5 23,6 26,8 30 25,9 29,2 31,9 22,2

Coordenadas Medidas Q X Y Z Tipo Matéria Côr Prod Pla Neg C Cd L H-6 *** *** ** 7 0 2,5Y 9/0 1 2 5 17,5 13,1 17,5

III.1.5. Orca 1 do Ameal. Matriz de Geométricos

UE 0

p.b 4,1 3,3 0 0 6,5 4,3 0 0

h 0 0,6 0 0,1 0,1 0,5 0,2 0,6

III.1.4. Orca 1 do Ameal. Matriz de Núcleos e materiais de reavivamento

Índices Ial Ie Iar 55 18 0 39 14 3 34 14 0 39 10 0 44 10 0 27 8 2 32 9 1 43 16 3

Ias Matéria 98 0 90 0 91 0 88 0 88 0 97 0 98 0 87 0

Secção Bases e Truncaturas Retoque Côr S.L S.T GT.d pt.d GB.d pb.d R.p R.i R.m 10YR 6/2 0 5 2 2 2 2 2 0 1 10YR 7/4 1 2 2 3 3 0 2 0 1 10YR 5/2 0 5 2 2 0 n/o 2 0 1 5Y 8/1 0 2 2 3 0 n/o 2 0 1 10 YR 7/4 0 3 0 0 3 0 2 0 1 2,5Y 8/3 2 5 3 2 3 0 2 0 1 5Y 8/1 0 5 2 2 3 n/o 2 0 1 5Y 8/1 1 5 2 0 2 2 2 0 1


Nº ORAM 2 11/93 ORAM 2 19/93 ORAM 2 20/93 ORAM 2 29/93 ORAM 2 33/93 ORAM 2 78/94 ORAM 2 80/94 ORAM 2 76+85/94 ORAM 2 89+103/94 ORAM 2 90+91/94 ORAM 2 100/94 ORAM 2 105/94 ORAM 2 109/94 ORAM 2 124/94 ORAM 2 128/94 ORAM 2 129/94 ORAM 2 130/94 ORAM 2 131/94 ORAM 2 133/94 ORAM 2 150/94 ORAM 2 160/94 ORAM 2 168/94 ORAM 2 169/94 ORAM 2 179/95 ORAM 2 181+182+184/95 ORAM 2 185/95 ORAM 2 188/95 ORAM 2 189/95 ORAM 2 193/95 ORAM 2 201/95 ORAM 2 202/95

UE 7 0 0 2 20 0 0 0 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 0 20 7 7 7 7 7 0

Coordenadas Q X Y H-4 *** *** H-4 *** *** I-4 *** *** I-2 0,43 0,81 I-7 *** *** H-4' *** *** H-4' *** *** H-5' *** *** I-1' 0,1 0,37 H-1' *** *** H-1' 0,34 0,98 I-1' *** *** I-1 0,9 0,3 I-2' *** *** H-2' *** *** H-2' *** *** H-2' *** *** H-2' *** *** H-2' *** *** I-3' *** *** I-3' 0,84 0,72 H-3' *** *** H-3' *** *** H-9' *** *** H-9' 0,53 0,26 I-4' 0,54 0,59 H-4' 0,59 0,11 H-4' 0,59 0,14 I-4' *** *** H-4' *** *** *** *** ***

Z *** *** *** 315,145 *** *** *** *** 314,97 *** 315,02 *** 314,97 *** *** *** *** *** *** *** 314,84 *** *** *** 314,99 314,91 314,91 314,91 *** *** ***

Tipo 9 n/o n/o n/o 4 n/o n/o n/o 9 n/o n/o n/o n/o 8 n/o n/o n/o n/o n/o n/o 9 9 n/o n/o 3 n/o 6 n/o n/o n/o n/o

D n/o n/o n/o n/o 112 n/o n/o n/o 120 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 190 n/o n/o n/o n/o n/o n/o

d 78 n/o n/o n/o 110 n/o n/o n/o 100 n/o n/o n/o n/o 222 n/o n/o n/o n/o n/o n/o 54 104 n/o n/o 190 n/o 254 n/o n/o n/o n/o

Medidas dm Dc H n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 109 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 100 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 222 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 50 n/o n/o 101 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 186 203 50 n/o n/o n/o 251 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o HD n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 50 n/o n/o n/o n/o n/o n/o

III.2.1. Orca 2 do Ameal. Matriz de Cerâmica Hd n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 50 n/o n/o n/o n/o n/o n/o

Hc n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 38 n/o n/o n/o n/o n/o n/o

E 6,4 7,7 9,9 5,9 10,2 8,1 5,9 7,1 4,1 5,8 7,2 7,5 5,8 7,8 7,2 6.7 6,2 6,3 8,5 5,5 5,1 4 4,4 8,2 10,4 10,9 4,5 5,4 4,8 9,3 5,9

e 5,4 n/o n/o 5,5 7,3 n/o n/o 3,9 3,3 3,8 4,5 7,5 4,5 5 4,4 3,1 3,6 n/o n/o 2,8 3,1 2,5 3,6 8,2 5,2 n/o 8,8 3,6 3 4,9 3,2

Ia1 *** *** *** *** 97 *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** 98 *** *** *** *** *** ***

Ia2 *** *** *** *** 98 *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** 100 *** *** *** *** *** ***

Índices Ip Ihc Ie *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** 0 *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** 26 76 100 *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** Icv *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** *** 19 *** *** *** *** *** ***

Forma Bordos Ies Formula Ab. Vol F O 84 T-?? 0 n/o 0 0 0 n/o n/o n/o n/o n/o 0 n/0 n/o n/o n/o n/o 93 T-?? 0 n/o 6 0 72 T-HE 0 n/o 8 0 0 n/o n/o n/o n/o n/o 0 n/o n/o n/o n/o n/o 55 T-?? 1 n/o 0 0 80 T-?? 1 n/o 1 0 66 T-?? n/o n/o 0 0 63 T-?? n/o n/o 0 0 100 T-?? n/o n/o 8 0 78 T-?? 1 n/o 0 0 64 T-?? 1 n/o 2 0 61 T-?? 1 n/o 0 0 *** T-?? n/o n/o 0 0 58 T-?? n/o n/o 2 0 0 n/o n/o n/o n/o n/o 0 n/o n/o n/o n/o n/o 51 T-?? n/o n/o 4 0 61 T-?? 1 n/o 2 0 63 T-?? 0 n/o 2 0 82 T-?? n/o n/o 2 0 100 T-?? n/o n/o 0 0 50 T-HE 0 925 cm3 6 0 0 n/o n/o n/o n/o n/o 196 T-?? 1 n/o 0 0 67 T-?? 1 n/o 0 0 63 T-?? n/o n/o 1 0 53 T-?? n/o n/o 0 0 54 T-T-?? n/o n/o 4 0 Base n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 1 n/o n/o n/o n/o n/o n/o

M.P. n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 40 n/o n/o n/o n/o n/o

Decoração Pasta Téc. Código P.c. P.t. 1 1.1 1 3 3 2 pequenos mamilos 1 1 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 2 n/o n/o 1 1 2 2.1 1 2 1 1.2 1 1 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 3 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 2 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 3 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 3 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 3 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 3 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 3 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 1 n/o n/o 1 1 1 1.3 1 1 n/o n/o 1 2 Q 2 1 2 1 2 2 1 2 1 1 2 1 2 2 2 2 0 2 2 1 1 1 2 2 3 1 2 1 2 2 2

E.N.P. F M Calib. 1 1 2 2 1 1 2 1 2 1 1 0 1 1 3 1 1 1 1 1 0 1 1 0 1 1 0 1 1 1 1 1 2 1 1 0 1 1 1 1 1 2 1 1 1 1 1 3 1 1 0 1 1 2 1 1 1 2 1 0 1 1 0 1 1 0 1 1 2 3 1 3 1 1 3 1 1 0 2 1 1 1 1 0 1 1 1 1 1 1 2 1 0

Superf. Côr Coz Int 5YR 6/3 0 0 7,5YR 4/2 1 0 5YR 5/6 0 1 7,5YR 6/2 1 0 2,5YR 3/4 0 0 5YR 5/4 0 1 2,5YR 4/2 1 0 10YR 3/2 1 0 10YR 7/4 0 0 5Y 4/1 3 2 10YR 6/1 0 0 7,5YR 6/2 0 0 7,5YR 6/4 0 0 10YR 7/4 2 2 10YR 7/4 0 0 7,5YR 7/4 2 2 7,5YR 7/4 2 0 7,5R 5/6 0 1 7,5YR 4/2 1 0 7,5YR 7/4 2 0 7,5YR 7/2 1 2 7,5YR 7/4 0 0 10YR 6/2 3 2 7,5YR 5/2 1 0 7,5YR 5/2 2 0 10YR 7/4 0 0 7,5YR 7/4 0 2 2,5Y 7/4 0 0 7,5YR 5/2 2 2 2,5Y 3/0 1 2 7,5YR 7/4 0 0

Ext Cons Observações 0 1 0 1 Frag. de Bojo 1 0 Frag. de Bojo com Almagro 0 2 0 0 1 0 Frag. de Bojo com Almagro 0 3 Frag. de Bojo 0 3 2 2 2 2 0 1 0 3 0 1 2 1 0 3 2 2 2 2 1 2 Frag. de Bojo com Almagro 0 2 Bojo com negat. de caules carbonizados 0 2 0 2 0 2 2 2 0 2 0 3 0 3 Asa de Rolo 0 2 negativo de caule carbonizado 0 2 2 2 0 2 0 3 terras remexidas pela retro-escavadora


UE

0 7 10 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 7 0 7 7 7

ORAM 2 23/93 ORAM 2 26/93 ORAM 2 27/93 ORAM 2 99/94 ORAM 2 113/94 ORAM 2 114/94 ORAM 2 116/94 ORAM 2 117/94 ORAM 2 120/94 ORAM 2 137/94 ORAM 2 140/94 ORAM 2 141/94 ORAM 2 142/95 ORAM 2 143/94 ORAM 2 154/94 ORAM 2 161/94 ORAM 2 170/94 ORAM 2 171/94 ORAM 2 178/94 ORAM 2 191/95 ORAM 2 192/95 ORAM 2 194/95

I-4 G-1 H-2 H-1' I-2' H-2' I-2' I-1 I-1 H-2' H-2' H-2' H-2' H-2' I-3' H-3' I-2' H-3' H-1' I-4' H-4' I-4'

Q

*** *** 0,19 *** 0,67 0,2 0,83 *** *** *** *** *** *** *** *** 0,69 0,52 *** *** 0,62 0,53 ***

X

*** *** 0,27 *** 0,78 0,12 0,5 *** *** *** *** *** *** *** *** 0,83 0,43 *** *** 0,21 0,35 ***

Y

Coordenadas

*** *** 314,97 *** 314,98 315,14 314,91 *** *** *** *** *** *** *** *** 314,79 314,56 *** *** 314,98 314,85 ***

Z 2 2 1 2 2 2 2 1 2 2 2 2 1 2 2 2 1 2 0 1 2 2

1 1 0 0 1 2 1 0 3 2 3 3 2 2 0 2 0 2 2 0 2 2

2 1 n/o n/o 0 2 1 n/o 2 1 0 1 1 1 n/o 1 n/o 1 2 0 1 1

0 1 1 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 1 1 0 0

Tipo Est Fra Córtex 0 2 0 0 0 0 0 1 0 0 1 1 3 3 0 0 1 0 0 0 0 1

Matéria 5YR 7/4 *** 10R 8/2 7,5YR 7/4 10YR 9/2 7,5YR 6/0 5YR 7/2 10YR 9/2 5Y 7/1 2,5YR 3/6 2,5YR 8/4 7,5YR 8/4 5YR 8/1 5YR 8/1 7,5YR 4/2 2,5Y 9/0 5YR 8/1 7,5YR 6/2 2,5YR 6/4 2,5YR 4/6 10YR 6/1 5YR 8/4

Côr 12,8 8 11,2 8,6 13,7 n/o n/o 8,9 9 9,5 n/o 11,6 n/o 7,1 12,2 10,9 12 n/o 14,9 8 8,7 9,1

L

E n/o 2 5,4 2,7 2,7 3,7 n/o 4,6 n/o 2,6 n/o n/o 3,5 2,4 3,8 2 3,8 2,2 4,8 4,9 2,4 2,5

Medidas n/o n/o 39,3 24,9 n/o n/o n/o 23,8 n/o n/o n/o n/o n/o n/o 37,9 n/o 34,6 n/o n/o 31,4 n/o 16,5

C n/o n/o 3,6 2,1 n/o n/o n/o 1,7 n/o n/o n/o n/o n/o n/o 1,9 n/o 3,1 n/o n/o 2,3 n/o 1

H

Retoque

Secção

Talão

*** *** 28 35 *** *** *** 37 *** *** *** *** *** *** 32 *** 35 *** *** 25 *** 55

*** *** 14 11 *** *** *** 19 *** *** *** *** *** *** 10 *** 11 *** *** 16 *** 15

*** *** 9 8 *** *** *** 7 *** *** *** *** *** *** 5 *** 9 *** *** 7 *** 6

n/o n/o 7 7 n/o n/o n/o 8 n/o n/o n/o n/o n/o n/o 5 n/o 8 n/o 8 8 8 1

0 n/o n/o n/o 0 0 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 0 n/o n/o n/o n/o

0 n/o n/o n/o 0 0 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 0 n/o n/o n/o n/o

0 n/o n/o n/o 1 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o

1 n/o n/o n/o 0 1 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 1 n/o n/o n/o n/o

0 n/o n/o n/o 0 0 n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o n/o 0 n/o n/o n/o n/o

n/o n/o 1 2 n/o n/o n/o 1 n/o 0 n/o n/o n/o n/o 1 n/o 1 n/o n/o 1 2 1

5 2 2 3 0 6 n/o 2 0 3 2 5 2 5 5 5 5 2 2 2 0 5

n/o n/o 2 1 n/o 7 n/o 7 n/o 5 n/o n/o 4 7 1 5 5 5 7 2 6 1

n/o n/o 0 1 n/o 0 n/o n/o n/o 0 n/o n/o 1 1 0 0 1 0 1 1 0 1

1 1 1 1 1 1 1 0 0 1 1 1 1 1 1 0 0 0 1 1 1 0

Ial Ie Iar La R.P R.R R.E R.I R.M SL ST Ta T.l Aq

Índices

III.2.2. Orca 2 do Ameal. Matriz de Produtos Alongados (Lâminas e Lamelas)


Z Tipo Matéria 314,98 7 0 *** 8 2

Côr 5Y 8/1 ***

Prod 2 1

Coordenadas Nº UE Q X Y ORAM 2 8/93 0 F-1 *** *** ORAM 2 32/93 7 I-5 *** *** ORAM 2 79/94 0 H-5' *** *** ORAM 2 84/94 7 H-1' *** *** ORAM 2 88/94 7 I-1' 0,28 0,59 ORAM 2 96/94 7 H-1' *** *** ORAM 2 136/94 7 H-2' *** *** ORAM 2 186/95 7 I-4' 0,47 0,99 Z Sup *** 1 *** 1 *** 1 *** 0 315 0 *** 1 *** 1 314,95 0

Est 0 0 1 0 1 1 0 0

Matéria Côr 3 10YR 9/2 0 2,5YR 9/0 3 10YR 9/2 2 *** 3 10YR 9/2 0 2,5Y 9/4 0 10R 3/6 3 10YR 9/2

III.2.4. Orca 2 do Ameal. Matriz de Raspadores

Coordenadas Nº UE Q X Y ORAM 2 106/94 7 I-1 0,23 0,3 ORAM 2 157/94 7 I-3' *** ***

C 24,3 32,1 20,1 25,2 30,4 13 19,8 31,8

Pla 2 2

Medidas L E 16,2 5,9 18,6 5,2 15,4 5,5 28,7 9,5 21,6 6 8,4 1,9 25,5 6 29,5 4,9

Índices Retoque Secção Talão H Ial Ie Iar R.P R.I R.M SL ST Ta T.l 0 67 24 0 0 0 0 1 4 6 1 1,8 58 16 6 0 0 0 1 5 n/o n/o n/o 77 27 *** 0 0 0 n/o 3 2 1 0 114 38 0 0 0 0 0 7 7 1 1,7 71 20 6 0 0 0 0 7 7 1 0,2 65 15 2 2 0 0 0 0 n/o n/o 0,5 129 30 3 0 0 0 1 7 6 0 2,9 93 15 9 0 0 0 1 7 5 1

Medidas Neg C Cd L 3 14,7 0,2 14,2 3 14,2 4,6 18

III.2.3. Orca 2 do Ameal. Matriz de Núcleos e materiais de reavivamento

Aq 1 1 1 1 1 1 1 1


Coordenadas Q. X Y Z Tipo Est Or. I-2 0,75 0,78 315,395 6 0 1 I-2 0,93 0,12 314,99 6 0 1 H-2 0,13 0,08 314,97 6 0 1 I-1 0,93 0,61 314,91 4 0 0 H-1 0,71 0,53 *** 6 0 0 H-1' 0,43 0,26 315,18 6 1 0 H-1 *** *** *** 6 0 0

Z 314,99

Tipo C c L 2 47 15 16,7

Medidas Lg Lt 16 8,7 E 11

Eg 11

Et 4,5

g 18

Fix 1

Bor 2

Côr 2,5Y 8/0

Retoque R.p R.i R.m Obs. 2 0 1 2 0 1 2 0 1 2 0 1 2 0 1 0 0 1 Enchimento da Mamoa 2 0 1 remexim. no estradão

Gume Secção G.p G.l G.pl G.e Long Trans. Poli Fl. Tal 6 1 1 0 2 4 0 1 0

Secção Bases e Truncaturas Ias Matéria Côr S.L S.T GT.d pt.d GB.d pb.d 81 0 10YR 7/4 1 3 2 2 2 2 92 0 10YR 8/3 0 5 3 1 0 2 93 0 5Y 7/1 2 0 2 2 2 2 96 0 10YR 7/4 0 5 2 2 3 0 68 0 2,5Y 8/3 0 0 2 2 0 2 *** 0 5YR 5/4 0 2 2 2 3 2 93 0 5Y 8/1 1 0 2 2 0 2

Índices Ia Ir1 Ir2 Ir3 Ic 36 24 74 52 54

Medidas Índices C L E T p.t B p.b h Ial Ie Iar 29,8 10,7 2 17,1 13,9 29,8 0 n/o 36 7 *** 24 12,9 2,9 19 17,4 24 0 0 54 12 0 25,5 14,7 3,1 18 16,8 25,5 0 n/o 58 12 *** 24,1 9,8 2 11,3 10,8 24,1 5,6 0,9 41 8 4 27,9 9,2 2,2 19,6 13,4 27,9 0 0 33 8 0 n/o 6,7 1,9 11 n/o n/o 0 n/o *** *** *** 18,7 8,8 2,5 12,8 11,9 18,7 0 0 47 13 0

III.2.6. Orca 2 do Ameal. Matriz de Pedra Polida

UE 1 10 10 10 1 7 0

Coordenadas Nº UE Q X Y ORAM 2 18/93 10 H-2 0,54 0,4

Nº ORAM 2 1/92 ORAM 2 25/93 ORAM 2 28/93 ORAM 2 36/93 ORAM 2 74/94 ORAM 2 98/94 ORAM 2 176/95

III.2.5. Orca 2 do Ameal. Matriz de Geométricos

Matéria 1

Necrópole Megalitica do Ameal  

Tese de Mestrado em Pré-História e Arqueologia apresentada na FLUL em 2008. Policopiado