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Orca 2 de Oliveira Do Conde, Carregal Do Sal, Viseu

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Trabalhos de Arqueologia da EAM, 6, Lisboa, Colibri, 2000, pp.1-23

ORCA 2 DE OLIVEIRA DO CONDE, CARREGAL DO SAL, VISEU José Manuel Quintã VENTURA* RESUMO

Apresentam-se aqui os dados adquiridos nos nossos últimos 7 anos de investigação arqueológica, na Plataforma do Mondego, no âmbito do megalitismo, em particular os obtidos com a escavação deste monumento. A Orca 2 de Oliveira do Conde, Carregal do Sal, apresenta-se como um monumento de câmara megalítica, aberta. Por outro lado, o presente monumento apresenta uma série de estruturas complexas, nomeadamente um "corredor intratumular". Apesar da sua arquitectura, os depósitos votivos onde se destaca a total ausência de olaria pré-histórica nos sedimentos associáveis à câmara, juntamente com as características do restante espólio recolhido são de molde a considerá-lo integrável na fase inicial do megalitismo regional (cf. SENNA-MARTINEZ, 1994a e 1995; VENTURA, 1998a). A desmontagem da mamoa permitiu detectar um conjunto de materiais, provenientes, provavelmente de um habitat existente da zona envolvente do monumento, antes da construção do mesmo. A análise morfométrica dos mesmos permite-nos inseri-los em ambientes afins de um Neolítico antigo ou Neolítico antigo evoluído, tendo em conta os contextos regionais e supra-regionais conhecidos para este momento. Palavras-Chave: Megalitismo, Neolítico antigo evoluído, Beira-Alta

ABSTRACT

Megalithic Tomb 2 of Oliveira do Conde, Carregal do Sal, Viseu. In this paper we present an analysis of the fieldwork we have done throughout the last 7 years on Mondego’ s Platform, concerning the megalithic phenomena, particularly those from the excavation of this monument. The Tomb 2 of Oliveira do Conde, Carregal do Sal, presents as a megalithic tomb with an open chamber, and complex structures on the frontal area, with an intratumular passage. While this architecture is more like to be presented in later monuments, the materials found point toward the inclusion of this monument in an early moment of the regional Megalithism within the Middle Neolithic (cf. SENNA-MARTINEZ, 1994a and 1995; VENTURA, 1998a). The excavation of the tumulus, revealed the existence of a group of artefacts, probably, from a previous habitat in the close scrutiny of the monument, before it's construction. The associated artefacts lead us to think it can be dated to a late phase of the recently identified regional early Neolithic, Key-words: Megalithism; Late early Neolithic, Beira Alta

1. INTRODUÇÃO Apresentam-se aqui os resultados das seis campanhas de intervenção arqueológica realizadas neste monumento megalítico, que se integra num Núcleo Megalítico, constituído por mais cinco monumentos megalíticos. Na sequência dos reconhecimentos efectuados em 1990 e 1991 (VENTURA, 1993) e das cinco campanhas realizadas entre 1994 e 1999 (VENTURA, 1998b e 1998d). Os trabalhos decorreram nos âmbitos dos 9º a 16º Campos Arqueológicos de Canas de Senhorim (organizado com o apoio da Associação para o Estudo Arqueológico da Bacia do Mondego - EAM), tendo sido apoiados pelo Instituto Português de Arqueologia (IPA) — no âmbito do Projecto PAISAGENS (cf. SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1999a), Câmara Municipal de Carregal do Sal, pela Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Canas de Senhorim (Núcleo Filatélico e Numismático), Escola EB2.3/S de Canas de Senhorim e pela Junta

de Freguesia de Canas de Senhorim), Instituto Português da Juventude (IPJ - Delegação de Viseu) e Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico (IPPAR), tendo também participado nos trabalhos diversos alunos universitários e do ensino secundário, a quem agradeço o empenho nos trabalhos apesar de todas as dificuldades. 2. LOCALIZAÇÃO E ANTECEDENTES A Orca 2 de Oliveira do Conde (OROC 2) localiza-se no topo do interflúvio, a uma altitude aproximada de 301m, entre o Mondego, a sul, e a ribeira da Azenha, o noroeste (cf. Fig. 1). As suas coordenadas são 64º00'00"N/152º00'00"W, freguesia de Oliveira do Conde, concelho de Carregal do Sal, distrito de Viseu. A área aplanada, rasgada pelo vale do Mondego, onde se situa o sítio arqueológico, é constituída, a nível geomorfológico, maioritariamente por granitos,

* Mestre em Pré-História e Arqueologia pela F.L.U.L., Investigador do PEABMAM - PAISAGENS e Investigador Exterior do Instituto «Alexandre Herculano» de Estudos Regionais e do Municipalismo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. <jmqtventura@yahoo.com>


José Manuel Quintã VENTURA

ainda que esporadicamente, estes sejam, atravessados por filões quartzosos. O granito surge nas suas variedades de monozonítico de duas micas e biotítico de grão médio a fino. Os depósitos quaternários de cobertura são formados por argilas e arcoses diversas (TEIXEIRA et al., 1961:8-9) de fraca potência, reduzidos a escassas manchas na envolvência imediata do sítio arqueológico em questão.

prévia, após o levantamento topográfico de superfície, de faixas de 2 a 3 m de largura (Sanjas) até um número máximo de quatro, que se entrecruzam no centro do monumento, na zona correspondente à hipotética localização da câmara megalítica. Desde modo, é possível a obtenção de um perfil longitudinal da mamoa e o acesso à totalidade da área da Câmara, com uma relação de economia de meios/resultados extremamente favorável (cf. JORGE V., 1978). Neste monumento, tendo em conta as condicionantes de implantação no terreno, a vegetação — o monumento encontra-se implantado no meio de um pinhal — e aspectos temporais e financeiros, apenas foi intervencionado um quadrante do monumento. Assim, após o corte da vegetação superficial, implantou-se um referencial, orientado a 357º Norte magnético, com uma malha de 1 m de lado, delimitando-se as referidas Sanjas, no entanto por limitações de tempo e recursos, apenas três áreas foram intervencionadas: O Quadrante Norte/Sanja A; Quadrante Este/Sanja B e a Área Central (cf. Fig. 2). Outro elemento condicionador, da nossa abordagem ao monumento, teve a ver com os remeximentos, que o monumento sofreu, após o final da terceira campanha, realizada em 1995 (cf. VENTURA, 1998b), tendo sido o sector Norte da Sanja A e o sector a sul da Sanja B, as zonas mais afectadas por este "atentado". Ainda que, em princípio, as valas de violação pareciam não ter afectado profundamente o monumento, já que na zona do anel pétreo os violadores tinham-se limitado a descobrir o topo do referido anel, já escavado em anteriores campanhas, na área central do tumulus, no entanto, eram visíveis profundos remeximentos, que nos obrigaram a dar a prioridade à intervenção, neste sector. No que se refere à leitura estratigráfica e ao seu respectivo registo, partimos das propostas metodológicas apresentadas por Philip BARKER (1977 e 1986) em conjunto com as de Edward HARRIS (1979), que dizem respeito à interpretação e registo de entidades estratigráficas diversas, normalmente referenciadas por Unidades Estratigráficas (UE), quer estas se apresentem, no sentido tradicionalista numa dimensão linear vertical, com a respectiva ênfase temporal, ou numa perspectiva horizontal, situação muitas vezes fundamental no caso de monumentos funerários.

Fig. 1 — Localização da Orca 2 de Oliveira do Conde (OROC 2), na C.M.P. fl. 211, 1:25000. Fig. 1 - Location of the Megalithic Tomb 2 of Oliveira do Conde (OROC2), in C.M.P. sheet 211, 1:25000.

O monumento, foi reconhecido pela primeira vez no Carnaval de 1990, por uma equipa do PEABMAM, depois de informação do nosso colaborador Horácio Peixoto que o descobrira. Em 1993, durante o 8º Campo Arqueológico de Canas de Senhorim, uma equipa, dirigida pelas Dras. Ana Paula Henriques, Margarida Barroso e Maria Rosa Gonsalez Rocha, procedeu ao corte de matos, para a confirmação do interesse arqueológico do sítio e para estabelecimento das futuras estratégias de intervenção.

3.1 O QUADRANTE NORTE/SANJA A Correspondendo grosso modo aos quadrados I/N14/17, iniciámos a nossa intervenção pela decapagem da camada humosa superficial [UE.0], constituída por terras castanhas escuras (Munsell 10YR 4/2, quando secas), de consistência solta, a qual integrava húmus, raízes e alguns fragmentos de cerâmicas a torno

3. OS TRABALHOS: METODOLOGIA No que se refere à metodologia utilizada para a escavação deste arqueosítio, à semelhança de outros por nós intervencionados, procedemos à delimitação

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rápido. Sob esta UE detectou-se uma camada de terras castanho claras (7.5YR 6/2), quando secas, que cobria a superfície da área escavada [UE.1]. Nesta matriz de terras foi possível detectar algumas fossas de violação, [UE.2] e [UE.3]. Para além destas fossas foram ainda reconhecidas seis pequenas fossas [UE.4, 5, 6, 7, 8 e 9] correspondentes a outros tantos buracos de raízes de antigos pinheiros.

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Fig. 2 — Planta Topográfica da Orca 2 de Oliveira do Conde (P0), com a indicação das áreas escavadas.

tectámos, o que parece configurar-se como, as terras do exterior da mamoa [UE.12], composta por terras castanho muito claras (10YR 7/4) de consistência muito dura; Nos quadrados I-13/16, sob a UE.1, reconhecemos a interface de uma unidade [UE.13] com uma matriz castanha claras (7.5YR 6/2), por isso em tudo semelhante à UE.1, com excepção da sua consistência muito dura; Em M/N-15, surgiu-nos um outro anel pétreo [UE.50], constituído também de blocos em granito de médias e grandes dimensões. A forma como estes se encontravam profundamente imbricados e o seu posicionamento, levou-nos a considerá-los como parte integrante do anel periférico da mamoa [UE.50=UE.11]; Em L-14/16, detectou-se o topo de uma outra estrutura pétrea [UE.55] bastante danificada, constituída fundamentalmente por blocos em granito e alguns em quartzo, em ambos os casos de médias dimensões, numa matriz de terras castanhas claras (7,5YR 6/2), idênticas às da UE.50. Esta estrutura pétrea encontrava-se, em especial no seu topo, bastante danificada, com a maioria dos blocos pétreos que a constituíam a não assentar directamente sobre os que se lhe encontravam subjacentes; Desenvolvendo-se a Este desta última estrutura, situava-se uma matriz de terras [UE.48] bastante compactas castanho claras (7,5YR6/2) em tudo idênticas à UE.13.

O estado de conservação da UE.55, a sua estruturação anómala, em relação a modelos locais nossos conhecidos e também as informações disponibilizadas pela nossa intervenção no sector Noroeste desta área e, conversas tidas com habitantes locais, que nos informaram da existência, na 1ª metade do Séc. XX de um abrigo de pastor naquele local, permitiram-nos ponderar sobre a hipótese de o topo desta estrutura não corresponder a uma realidade do monumento original, mas sim a uma modificação recente. Assim, perante esta situação procedemos à desmontagem da UE.55, removendo todos os elementos que julgámos estarem fora de contexto, ao mesmo tempo que alargámos a área de escavação de forma a integrar também os quadrados M-N/14-15, permitindo desta maneira uma articulação com a UE.50. Sob a UE.55, detectámos uma outra estrutura pétrea, bem conservada, apesar de o topo ter sido amputado, constituída por blocos de granito, de médias dimensões, bem imbricados, na mesma matriz de terras [UE.10]. Esta estrutura apresentava-se como a continuação lógica da UE.50, localizada no topo norte dos quadrados M-N/15, pelo que também recebeu a mesma designação (cf. Fig. 6).

Fig. 2 - Topographic Plant of the Megalithic Tomb 2 of Oliveira do Conde (P0) with indication of the excavated areas.

Durante a escavação da UE.1/UE.2 não foram recuperados quaisquer artefactos, apesar de todas as terras terem sido crivadas, a seco, em crivo de malha de 1 mm. Sob a UE.1/UE.2 eram visíveis as seguintes realidades (cf. Fig. 6): • No topo norte da Sanja A, quadrados I/J-17, detectou-se o topo de um anel pétreo [UE.11], constituído por elementos pétreos de média e grande dimensão, maioritariamente de granito, com alguns poucos exemplares de quartzito, envolta numa matriz de terras [UE.10] castanhas muito claras (10YR 7/4). Os elementos pétreos encontravam-se cuidadosamente embricados de modo a que as exteriores travam as interiores, configurando-se como o anel de retenção externo do tumulus; • No seu extremo norte, encostando ao anel pétreo UE.11, pela sua face norte, ou seja exterior, de-

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Procedemos então à desmontagem da UE.13 e da sua equivalente UE.48, através do sistema de níveis artificiais de 5 cm. Sob esta UE, com uma potência de cerca de 35-40 cm, foi possível detectar o seguinte (cf. Fig. 7):

pondentes a outros tantos buracos de raízes de pinheiros [UE.44, 45, 46 e 47]. Procedemos de imediato à decapagem da UE.13, por níveis artificiais de 10 cm, que permitiu, após a remoção de 3 unidades artificiais, detectar a continuação do anel pétreo [UE.32 e 33], sob esta mesma UE. Assim, foi possível, determinar que a UE.31, se configurava como sendo os restos da carapaça pétrea, da superfície da mamoa, enquanto que as UE. 32 e 33, não surgiam como entidades distintas, mas como uma mesma realidade, visto que a primeira, surgia com a continuação da segunda, ainda que num estado de conservação bastante diferente. Ambas constituíam um anel pétreo único, desenvolvendo-se no sentido Este-Oeste, configurando-se ter uma forma triangular, quer em planta quer em perfil transversal, visto que era formada por duas faces, uma virada a norte e a outra a sul, formadas por pedras de médias e grandes dimensões, maioritariamente em granito, cuidadosamente imbricadas, de forma a primeiras travarem as seguintes. Nesta estrutura, foi possível identificar no seu centro, no cruzamento dos quadrados L/M-10/11, uma pequena fossa de forma sub-circular com cerca de 20 a 25 cm de diâmetro [UE.40] e uma profundidade de 20 cm, perfeitamente delimitada por pedras, que parecem configurar-se como calços de contrafortagem. Não podemos de deixar de notar uma certa similaridade, entre esta pequena estrutura e outras, normalmente associadas a pequenos menires encontradas no território nacional, como seja o caso do Menir de Cegonhas, em Idanha-a-Nova (cf. CARDOSO, GOMES, CANINAS & HENRIQUES, 1995). Assim, tudo parece apontar, com as devidas reservas, para que esta fossa também possa corresponder a uma situação similar, configurando-se como uma fossa de implantação de um monólito, de dimensões e forma indeterminadas, entretanto desaparecido. A UE.32/33 possuía um dos vértices a Este, no quadrado N-10, desenvolvendo-se, aparentemente no sentido E-O. No seu sector oeste, esta entidade encontrava-se bastante danificada, já que apenas era visível a sua face sul, sem dúvida o resultado de violações, que afectaram todo este sector central do monumento. No entanto, o facto de se terem recolhido poucos elementos pétreos, durante a remoção das terras soltas e na desmontagem da UE.13, permitem indicar, que a desmontagem da UE.32, não terá ocorrido em momentos recentes, apontando mais para uma violação antiga, para tal concorre a recuperação de diversos fragmentos de olaria a torno de pastas finas cinzentas claras e escuras, associadas na região, a cerâmica de tradição regional, de longa duração. A estrutura acima descrita [UE.32/33], encontrava-se em parte assente sobre o granito de base [UE.41], nos quadrados K/L-10/11, encontrando-se

• Na maioria dos quadrados escavados, sob a UE.13 e, destacando-se claramente, detectámos a alterite de granito [UE.14] e sob esta encontrava-se imediatamente o granito de base [UE.15]. • Em I-15, na parte sul do quadrado foi detectada um pequena fossa [UE.16], escavada no granitos de base [UE.15] com cerca de 8 cm de profundidade e 20 cm de diâmetro e encontrava-se preenchida pela UE.13; • Em M-N/14-15, a decapagem da UE.48, permitiu verificar que esta UE. assentava directamente e em clara descontinuídade sobre os granitos alterados de base, neste sector designados UE.43. 3.2 O QUADRANTE ESTE/SANJA B Este sector foi dividido, em termos de escavação em duas áreas mais ou menos distintas: O sector sul, afectado pelos remeximentos já anteriormente referidos e a Sanja B, tal como tinha sido definida pela nossa abordagem à escavação do monumento. Quanto ao sector sul, começámos por retirar as terras soltas provenientes dos trabalhos clandestinos, as quais eram o resultado da mistura da UE.0 com a UE.1 e a UE.13, sendo então possível colocar uma estrutura pétrea — já observável em parte antes dos nossos trabalhos — à vista. Foi assim possível, detectar o topo de um estrutura pétrea que se desenvolvia no sentido Este-Oeste. Esta estrutura apresentava três realidades: • Uma zona bem conservada, delimitada pela vala dos violadores, onde os elementos pétreo — maioritariamente de granito à mistura com alguns elementos de quartzo e quartzo — se encontravam bem assentes e embricados, abrangendo os quadrados K a N-10 e L a N-11 [UE.33]; • Uma pequena linha superficial de pedras, que pareciam ser o resultado de um derrube, na linha de demarcação dos quadrados I/J-9/10 [UE.32]; • Por fim, o que nos pareceu constituir os restos de uma pequena "carapaça pétrea" de cobertura do tumulus em N-9 [UE.31]. Todas estas estruturas pétreas encontravam-se inseridas numa camada de terras castanho claras (Munsell 7.5YR 6/2), quando secas, que eram idênticas à UE.13, já identificada em outras áreas. Nesta matriz eram visíveis quatro pequenas fossas corres-

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este nalgumas zonas bastante deteriorado. Nos restantes quadrados, parecia continuar por uma camada de terras castanha claras, algo amareladas (7.5YR 6/8, quando húmidas) extremamente duras [UE.35], que pareciam configurar-se como sendo as terras do enchimento original da mamoa, neste sector. Entretanto, iniciou-se a escavação da UE.35, que por razões de tempo se circunscreveu aos quadrados I/J-9/10 e M/N-9/10, para permitir determinar a continuidade da estrutura UE.32/33. Assim foram decapados em média cerca de 40 cm, tendo sido confirmado que a continuidade da UE.32/33, em ambos os casos. Nos quadrados I/J-9/10 a UE.32/33 assentava directamente sobre a alterite de granito [UE.42] (cf. Fig. 8). Nos restantes sectores, que não tinham sido remexidos, procedemos à remoção da camada humosa superficial [UE.0]. Sob esta UE identificámos a UE.1 (já descrita anteriormente) que cobria a superfície da área escavada, com uma espessura variável entre os 10 a 30 cm. EM O/P-11/12, detectou-se uma mancha de terras castanhas escuras (7,5YR4/2, quando húmidas) algo soltas [UE.52]. De seguida procedemos à remoção, em níveis artificiais de 10 cm da UE.1 e UE.52, sob estas UEs eram visíveis as seguintes realidades (cf. Fig. 6):

crescentes e um geométrico trapézio, para além de fragmentos de telha moderna e recipientes de resina. Tudo parece apontar para uma fossa de despejos, eventualmente associada à pequena estrutura habitacional detectada na Sanja A, já descrita; • Em Q-12/13, detectou-se uma estrutura pétrea, constituída fundamentalmente por blocos em granito e alguns, poucos, em quartzo, em ambos os casos de pequenas e médias dimensões [UE.31]. Tudo parece indicar, pela sua estrutura e posição, serem os restos conservados de uma carapaça pétrea de revestimento da superfície da mamoa, à semelhança do que tinha já sido detectado em N9; • Em O-10, após a remoção da UE.1, detectou-se o topo da estrutura pétrea UE.32/33. Esta estrutura, configura-se assim como a parte sul de um "corredor intratumular", de acesso à câmara funerária; • Nos restantes quadrados, sob a UE.1 detectámos uma matriz de terras muito compactas, de tonalidade castanha amarelada (7.5YR 6/8) [UE.35]. De seguida, após registo fotográfico e gráfico, procedeu-se à desmontagem do topo superior da UE.57. Sob esta detectámos a continuação do anel pétreo [UE.49], desta vez, bem conservado, constituído também de blocos em granito de médias e grandes dimensões. A forma como estes se encontravam profundamente imbricados e o seu posicionamento, levou-nos a considerá-los como a continuação, senão parte integrante do anel periférico da mamoa [UE.11]. Esta estrutura articula-se com a estrutura UE.32/33, de forma a criar um espaço frontal de acesso ao monumento, eventualmente através de um corredor intratumular. Este conjunto pétreo assentava numa matriz de terras amarelas claras (10YR7/4) de enchimento da mamoa [UE.54] (cf. Fig. 7). O passo seguinte consistiu na decapagem em toda a área intervencionada da UE.35 e da Fossa UE.53. Sob a UE.35 foi possível detectar, na maioria da área escavada, a alterite de base [UE.42], enquanto que em O-9/10 foi colocada à vista a totalidade da estrutura UE.32/33 e em P-12, foi possível detectar os restos de um eventual empedrado [UE.58] bastante degradado. Esta estrutura é constituída maioritariamente por elementos em granito, de pequenas e médias dimensões, cravados na UE.42.

• Em M/N-13/14, detectou-se o topo de uma estrutura pétrea [UE.49] bastante danificada, constituída fundamentalmente por blocos em granito e alguns em quartzo, em ambos os casos de médias dimensões, numa matriz de terras [UE.13] castanhas claras (7,5YR6/2). Esta estrutura pétrea encontrava-se, em parte interrompida em M-14, em parte devido à presença de diversas raízes de pinheiros entretanto carbonizados. De entre os elementos pétreos que constituíam esta UE destaquese a presença de um dormente de mó manual em N-13. Apesar do estado de conservação da UE.49, tudo parece indiciar, pela sua posição na mamoa e estrutura, corresponder à replicação, neste sector, da estrutura UE.32/33; • Em O/P-12/13, foi identificado o topo de um conjunto pétreo [UE.57], bastante danificado, constituído fundamentalmente por blocos em granito com alguns poucos em quartzo, todos eles de médias dimensões, numa matriz de terras [UE.10] castanhas claras (7,5YR6/2). Tudo parece indicar serem estes elementos pétreos, o resultado de remeximentos da carapaça pétrea de revestimento da mamoa; • Em O/P-11/12, surgiu-nos os contornos de uma fossa, preenchida pela UE.52. Esta, de contornos irregulares, era em parte o resultado da acção de algumas raízes mas também de acção humana. Diversos materiais foram recuperados nesta fossa, de entre os quais destacamos dois geométricos

3.3 A ÁREA CENTRAL No referente à Área Central, correspondente aos quadrados I/K-12/14 e M-12-13 (cf. Fig. 2), após o corte da vegetação superficial iniciou-se a decapagem integral da mesma. Após a remoção da camada hu-

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mosa superficial [UE.0], detectou-se uma camada de terras castanhas claras, que cobria a superfície da área escavada, que era em tudo idêntica à identificada nas Sanja A e B, pelo que também recebeu a designação de UE.1. A decapagem da UE.1, revelou que esta tinha uma espessura variável entre os 10 a 20 cm, conforme as áreas e que esta UE assentava, em toda a área escavada, directamente sobre uma outra, de matriz idêntica mas extremamente compacta, em tudo similar ao ocorrido na Sanja A [UE.13]. Nos quadrados K/L-10, foi possível detectar na interface superior desta matriz de terras [UE.13] três fossas [UE.20, 21 e 22], resultando da acção de raízes de antigos pinheiros. Nos quadrados I/J-11/12, no topo da interface da UE.13 surgiam-nos outros 5 negativos equivalentes a outras tantas fossas [UE.23, 24, 25, 26 e 27], também elas o resultado da acção de raízes de pinheiro, enquanto que a UE.27 é, sem sombra de dúvida, a fossa de implantação da raiz carbonizada de um velho pinheiro. A desmontagem da UE.13 revelou que esta tinha uma espessura variável entre os 8 a 15 cm, conforme as áreas e que esta UE assentava directamente sobre uma outra, de matriz castanha pálida (10 YR 7/4) extremamente compacta [UE.34]. Sob a UE.34, eram visíveis as seguintes realidades: •

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Em K-14, zona delimitada a Oeste e sul por uma árvore, detectámos um desnível, em relação à UE.50, preenchido por terras castanhas pálidas (10YR 7/4) extremamente compactas [UE.56] em tudo similar à UE.34. Procedemos, após o registo gráfico, à desmontagem da UE.56, que se apresentava extremamente compacta, assentava directamente e em clara descontinuídade sobre os granitos alterados de base, que formavam uma fossa, em tudo idêntica à detectada na restante área central [UE.43]. No sector de contacto com a Sanja B, sob a UE.13 eram visíveis as seguintes realidades (cf. Fig. 7): •

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Abarcando a totalidade da Área Central, foi detectado os contornos de uma grande fossa [UE.43], escavada nos granitos de base, preenchida pela UE.34. Tudo parece indiciar que esta fossa constitui a base de uma eventual câmara funerária Detectou-se nos quadrados I/J-11 duas fossas, com uma profundidade de cerca de 10 cm [UE.38 e 39]. Em I-12, ] uma fossa, no canto N-E, delimitada em parte por dois elementos pétreos em granito [UE.37] Na metade norte de J-13, foi detectada uma pequena fossa [UE.51], com cerca de 5 cm de profundidade na sua área central. Em I-13, no seu sector a sul detectámos duas fossas, também escavadas nos granitos de base, uma no quadrante Oeste [UE.18] e outra no Este [UE.19]. Esta última, UE.19, parece configurar-se como de assentamento de um ortóstato, indicando possivelmente a existência de uma câmara megalítica ou similar. No corte Oeste de I-13, identificámos, o que pensamos ser os vestígios de um possível anel pétreo [UE.17] bastante danificado pelas destruições que afectaram esta área.

Em K-12, sob a UE.1, detectou-se o limite Este da fossa UE.43, que se articula com os limites sul e norte, já detectados em anteriores intervenções. Desta forma foi possível determinar os limites, neste sector, da eventual câmara funerária. Em K-11/12, foi identificada uma pequena fossa, pouco profunda, escavada na alterite de base [UE.59]. No entanto não foi possível articular esta fossa com nenhuma estrutura conhecida no monumento. Nos restantes quadrados a UE.13, encontra directamente assente, e em descontinuídade, sobre a alterite [UE.42] e sob esta detectaram-se os granitos de base [UE.41].

3.4 INTERPRETAÇÃO A análise dos dados fornecidos pela escavação da Orca 2 de Oliveira do Conde, ao longo destas seis campanhas, permitem-nos inferir, que: • Nos encontramos perante um monumento de câmara megalítica, eventualmente aberta e sem corredor, consubstanciada pela detecção de uma fossa de esteio [UE.19], em I-13. A forma desta eventual câmara megalítica, não nos é possível determinar, não só pela ausência de outros dados, tais como as fossas de assentamento dos ortóstatos, quer pela remoção de todos os elementos pétreos de maiores dimensões, eventualmente utilizados na construção de casas, em momentos mais ou menos recentes; • No quadrante sudeste do tumulus, detectámos uma estrutura de acesso "intratumular" à câmara, constituída por duas estruturas pétreas — UE.32/33 a sul e UE.49 a norte, possivelmente em articulação com o anel de contenção periférico [UE.11 e UE.50], mas aparentemente sem uma estrutura de "fecho frontal"; • Toda esta estrutura tumular era revestida por uma carapaça pétrea superficial [UE.31], da qual foi possível detectar alguns vestígios em N-9 e Q-

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dissimular-se na paisagem através da sua implantação no topo de uma elevação natural, mimetizando-se com ela, enquanto que pela sua própria localização vai acentuar e, eventualmente, reforçar o papel simbólico desse mesmo relevo1.

12/13, mas que parece não abranger o corredor "intratumular"; Assim, tendo em conta a sequência estratigráfica, podemos considerar (cf. Fig. 3): 1.

Parece ter existido, uma preparação do solo, através da sua regularização, que eliminou em grande medida, o "solo antigo", que não foi detectado nas zonas escavadas; 2. Em seguida, foi escavada a Fossa UE.43, onde viria a ser implantada a câmara do monumento. 3. Posteriormente, seria erigida uma estrutura lítica [UE.17], que delimitaria pelo exterior esta fossa central, eventualmente — devido ao actual estado de conservação — poderia já incluir as estruturas laterais do corredor "intratumular" [UE.32/33 e UE.49]; 4. Eventualmente no mesmo momento em que se erigia as estruturas atrás referidas, iniciava-se a construção de uma outra estrutura lítica, que constituiria o limite exterior do tumulus [UE.11]; 5. Após isto, ter-se-á procedido ao preenchimento do espaço, com cerca de 2 a 3 metros que se situava entre os anéis líticos, com terras [UE.35 e UE.48], muitas delas resultado dos diversos trabalhos entretanto já realizados na área, como parecem comprovar os diversos artefactos recuperados no seu seio (cf. Fig. 10 e 11); 6. Eventualmente, de seguida foram os ortóstatos colocados na sua posição, possivelmente por arrasto utilizando a massa tumular como rampa de acesso. Seria, assim, constituída uma câmara megalítica possivelmente de planta simples e aberta sem corredor megalítico, mas com o acesso a processar-se de um "corredor intra-tumular" similar em estrutura ao detectado na Orca do Picoto do Vasco, Vila Nova de Paiva, Viseu (CRUZ, 1998). Muito possivelmente, após a construção da câmara teria sido a estrutura tumular coberta pela carapaça lítica UE.31, partindo da periferia, apoiando-se no anel exterior e desenvolvendo-se para o centro, ainda que não seja possível determinar se cobriria ou não a área do "corredor intra-tumular", que parece não ter sido alvo de qualquer acção de "condenação" ou de encerramento e, se o foi, os remeximentos ocorridos, possivelmente já na nossa era não deixaram qualquer vestígio, quer desta e dos ortóstatos. Assim, finalizado o tumulus assumiria uma forma elíptica, no sentido O-E, com 16m por 13m, atingindo actualmente uma altura de cerca 1m, sobre o terreno envolvente, desta forma o montículo tumular atingiria os 86m3, o que corresponderá a cerca de 286 horas de trabalho. A própria localização do monumento busca duas realidades complementares, por um lado tenta

0

55

52

4a9

20 a 27

44 a 47

53 1 2

3 13

28

29

30

57

37

38

39 31 35

48

40 11=50 10

34=56 16

18

17

51

32=33

49

50

54 58

59

19 43 14=42 15=41

Fig. 3 — Organigrama estratigráfico simplificado da Orca 2 de Oliveira do Conde (Matriz HARRIS) Fig. 3 - Simplified stratigraphic Harris Matrix, from the Megalithic Tomb of Oliveira do Conde.

4. ANALISE ARTEFACTUAL Os materiais recuperados na OROC 2 são os que se encontram patentes no Quadro I, descriminados por matérias-primas e Unidades Estratigráficas (UE.). Quanto ao espólio recuperado neste monumento, desde já é possível retirar as seguintes ilações: •

A presença significativa de 7 geométricos sobre produtos alongados, para além de dois instrumentos de pedra polida, bastante danificados, não sendo por isso possível determinar o tipo; pequenas contas discoides em xisto, uma pequena lâmina não retocada (cf. Fig. 10 e 11), e a total ausência de cerâmica, nos enchimentos

1 Cf. VENTURA, 1999b, para uma análise mais profunda sobre a problemática dos volumes das massas tumulares.

7


José Manuel Quintã VENTURA

•

•

atribuíveis aos episódios originais do monumento remexidos; Alguns destes materiais, surgem associados à "estrutura de acesso", nomeadamente, um conjunto de 4 geométricos e de 2 contas discoides em xisto. Enquanto que, para estes materiais poderemos sugerir uma deposição não intencional, relacionável com processos tafonómicos, devido aos remeximentos ocorridos na área, podemos, por outro lado, devido à total ausência de materiais similares em quadrados adjacentes, avançar que estes podem corresponder a possível deposição ritual, à entrada do "corredor intratumular", como parece ocorrer com o Dólmen de Antelas, Oliveira de Frades, Viseu (cf. CRUZ, 1998); Por outro lado, à semelhança de outros monumentos escavados regionalmente, foram detectados elementos que nos permitem inferir existir ocupação do espaço, em momentos anteriores à implantação do monumento megalítico, não sendo de inviabilizar situações similares à da próxima Orca 2 do Ameal ou mesmo da Orca do Folhadal, em Nelas (cf. VENTURA, 1998a e 1999a; SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1999b e 2000a). Para tal concorre a recuperação de 2 segmentos de círculo em sílex e, de outros utensílios, entre os quais fragmentos de cerâmica manual, bojos não decorados, recolhidos nas terras de enchimento do tumulus.

mentos deste tipo, a partir do momento em que as mesmas passaram a ser escavadas e registadas, tal como ocorre nas mamoas da Orca de Pramelas, Nelas (SENNA-MARTINEZ, 1994a:18); Dólmens 1 e 2 da Lameira de Cima, Penedono (GOMES L., 1996:86 e 141), Orca do Valongo (HENRIQUES & BARROSO, inf. pessoal); Orcas dos Fiais da Telha e Outeiro do Rato (SENNA-MARTINEZ, 1998) e Orcas 1 e 2 do Ameal, Carregal do Sal (VENTURA, 1998a), só para referir monumentos localizados na Plataforma do Mondego, ou em bacias hidrográficas a ela associadas. Apesar do reconhecimento do seu significado/funcionalidade continuar em aberto2, julgamos que, no presente caso, não negando uma eventual ligação simbólica, os elementos de moagem se poderão integrar numa situação de "carácter utilitário", tendo sido utilizados nas construções, após a sua "vida útil", podendo, assim, ser indicadores da presença de habitats perto da zona de construção. Infelizmente, no presente caso, é-nos impossível relacionar a presença destes elementos, com a ocupação prévia do sítio. A presença de abundantes lascas de anfibolite, algumas delas com traços de terem sofrido polimento ou pertencerem a artefactos de pedra polida, apesar de alguns deles poderem eventualmente fazer parte dos instrumentos de pedra polida detectados, ainda que não tenham sido detectadas remontagens, parecem indiciar a presença de outros elementos, neste caso em falta, removidos ou totalmente fracturados aquando dos diversos remeximentos que o monumento sofreu.

De realçar a contínua presença de elementos de moagem manual, nas estruturas pétreas dos monu-

Quadro I: Inventário da Orca 2 de Oliveira do Conde Artefacts list from the Megalithic Tomb 2 of Oliveira do Conde

Percutores em quartzo Percutor em granito Seixo Rolado em quartzo Seixo rolado em xisto Dormente de Mó em granito Movente de Mó em granito Bigorna de Talhe Bipolar Lascas de anfibolite Fragmentos de ocre Restos de debitagem em quartzo Restos de debitagem em sílex Utensílios em sílex Utensílios em quartzo Utensílios em Anfibolite/Xisto Frag. de Cerâmica Manual

0 2 1 2 4 1 1 3 2 2

1 1 2 1 1 1 -

Unidade Estratigráfica 10 12 13 32/33 34 35 48 49 52 54 55 56 Total - - 1 1 1 - - 2 1 - 9 - - - 1 - - - - - 1 - - 1 1 7 - - - - - 9 - - 1 - 5 - - - 1 - 8 - - - - - 1 - - - 1 - - 1 - - - - - - - 1 - - 1 - - - - - - - 1 - 1 15 2 11 1 - - - - - 5 37 - - - 1 - - - - - 5 - - 1 - 3 1 - - - - 8 - 2 2 1 - - - 1 - 1 1 10 1 - 3 2 4 - - 4 1 1 20 - 2 5 1 - - - - - 1 12 - - 2 3 - - - - - 5 1 - 2 - - 1 - - - - 2 8 2 cf. SENNA-MARTINEZ, 1994a e CARDOSO, GOMES, CANINAS & HENRIQUES, 1995

8


A Orca 2 de Oliveira do Conde, Carregal do Sal, Viseu

ção do monumento e englobadas nas terras tumulares, esta situação inverte-se, com a indústria lítica em quartzo a atingir os 54,1% (cf. Fig. 4). A primeira situação ocorre também na totalidade dos monumentos megalíticos, até agora estudados, onde foram identificadas deposições funerárias atribuíveis aos primeiros momentos dos respectivos megalitismos regionais, como sejam o caso da Orca de Pramelas e do Folhadal, Nelas (SENNA-MARTINEZ & VALERA, 1989, SENNA-MARTINEZ, 1989a e 1989b, SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1999b e 2000a), nível de base da Orca 1 e 3 do Carapito, Aguiar da Beira (LEISNER & RIBEIRO, 1968; SENNA-MARTINEZ, 1989a) e Orcas 1 e 2 do Ameal, Carregal do Sal (VENTURA, 1998a). Mais uma destacamos, de que devido ao facto de o sílex ser relativamente raro na região, achamos sintomático que tenha sido exactamente este tipo de matéria-prima a escolhida para as eventuais deposições na câmara funerária do monumento, o que nos poderá dar pistas acerca de dois aspectos: as prescrições rituais associadas a este monumento e as eventuais vias de comunicação utilizados para o abastecimento desta matéria-prima.

A análise da indústria de pedra talhada foi efectuado conforme o modelo proposto por ZILHÃO (1994:36-7) e CARVALHO (1998a:25-37) e já adoptado em anteriores estudos (VENTURA, 1998a e 1999a), sendo estes classificados em três categorias: materiais de preparação/reavivamento; produtos de debitagem não modificados por retoque, constituindo potenciais suportes, componentes de utensílios ou utensílios em bruto (TIXIER, INIZAN & ROCHE, 1980:101; CARVALHO, 1998a:29-30) e utensílios, ou seja, produção lítica modificada por retoque. Por outro lado, optou-se por dividir a amostra em dois conjuntos (Quadro II), um referente a materiais que poderão ter origem nas deposições funerárias neste monumento, englobando particularmente as UE.34 e UE.56 e artefactos que apesar de serem provenientes de outras UEs, pela sua localização, como o caso da UE.52 — junto à entrada do corredor "intratumular" — ou por se encontrarem na periferia da Área Central e, se encontrarem tecnologicamente e qualitativamente muito próximos do conjunto proveniente do enchimento de base da câmara, aí foram englobados, sendo referenciados como "Deposições". O outro conjunto — "Mamoa" — é constituído pelos materiais provenientes das terras da mamoa, nomeadamente as UEs 12, 13, 35, 48, 54 e 553. Assim, é possível verificar, que o sílex domina totalmente, em termos de indústria lítica não-macrolítica, os artefactos atribuíveis às deposições no monumento megalítico, com 100% de ocorrências. Por outro lado, constata-se, que no caso dos artefactos atribuíveis a deposições anteriores à constru-

4.1 AS DEPOSIÇÕES FUNERÁRIAS Como já foi constatado os geométricos são os utensílios dominantes. Estes distribuem-se desigualmente, conforme se pode verificar pelo Quadro II.

Quadro II: Inventário da Indústria Lítica de Pedra Lascada (N=50) Lithic artefacts inventory (N=50)

Tablette de rejuvenescimento do Núcleo Lascas corticais Lascas parcialmente corticais Lascas não corticais Esquírolas e pequenas lascas Lamelas Lamelas parcialmente corticais Lamelas de crista Lamelas de crista parcialmente corticais Lâminas Lâminas parcialmente corticais Geométricos Raspadores Total 3

"MAMOA" Total "DEPOSIÇÕES" Sílex Quartzo Sílex Quartzo Sílex Quartzo % 3 3 6 1 1 2 1 2 3 6 5 5 10 2 5 1 7 1 16 4 3 4 3 14 1 1 2 1 1 1 1 4 3 3 6 1 1 2 2 1 3 6 7 2 9 18 4 4 8 13 0 17 20 30 20 100%

Foram também inseridos neste conjunto materiais, que pela morfologia se enquadraram neste grupo, ainda que provenientes de contextos profundamente remexidos, como o caso das UE.0 e 1.

9


José Manuel Quintã VENTURA

QUADRO III: Inventário de geométricos Microliths inventory Tipo Nº Triângulo escaleno 2 Trapézio escaleno 1 Crescente/Segmento 4 Total 7

MARTINEZ, 1989a:604), a Orca de Pramelas, Nelas, com 479 ocorrências (SENNA-MARTINEZ & VALERA, 1989; SENNA-MARTINEZ, 1989a:604), onde, no primeiro dos casos, parecem constituir um dos elementos presentes nas mais antigas deposições em monumentos megalíticos, tal como também ocorre na Orca 1 do Carapito, Aguiar da Beira, com 320 contas e a Lapa de Tourais/Anta da Mondegã, Seia, com 1497 contas, para além do conjunto de 5 milhares de contas de discoidais em xisto, associadas a contas em variscite, elementos em pedra polida e geométricos, que foram recuperadas da câmara do Dólmen de Areita, S. João da Pesqueira (cf. GOMES L. et al., 1998). Do enchimento de base da câmara (UE.34), foram ainda recuperados dois grandes fragmentos de instrumentos de pedra polida, conjuntamente com diversas lascas de anfibolite. O estado de conservação destes fragmentos, não nos permitem determinar o tipo de instrumento a que se referem, excepto de que em um dos casos corresponde a um instrumento de secção ovalada e o outro apresenta uma secção subrectangular. Se por um lado a presença de artefactos em pedra polida é algo comum na maioria dos monumentos megalíticos, também é verdade que as frequências de ocorrências nos monumentos megalíticos do Núcleo e da Plataforma do Mondego, são extremamente reduzidas. Assim, da Orca 1 do Ameal, apenas são conhecidas algumas lascas de anfibolite e nenhum artefacto completo, da Orca 2 do Ameal provem uma pequena goiva em fibrolite (VENTURA, 1998a), da Orca dos Fiais da Telha, apenas foi recuperada uma enxó, de polimento integral e secção transversal subrectangular, da Orca do Outeiro do Rato, Nelas foi recolhida uma enxó e um machado, ambos de secção sub-rectangular e polimento parcial (SENNAMARTINEZ, 1989a:597), enquanto da Orca de Pramelas, apenas 2 machados foram recolhidos, de secção transversal sub-quandrangular e sub-rectangular e polimento tendendo para o integral (SENNAMARTINEZ & VALERA, 1989; SENNA-MARTINEZ, 1989a:597).

% 28,6 14,3 57,1 100

O conjunto da Orca 2 de Oliveira do Conde é claramente dominado pelos crescentes com 57,1% das ocorrências. A determinação das dimensões dos geométricos permitiu estabelecer as médias que seguidamente se apresentam, visto ser o único grupo verdadeiramente representativo: DADOS MORFOMÉTRICOS DOS GEOMÉTRICOS (N=7) Morphometric data for the Microliths

Comprimento médio: 28,6±3,4 mm Largura média: 10,15±0,21 mm Espessura média: 2,45±0,01 mm Largura < 6 mm 6-7,9 mm 8-9,9 mm 10-11,9 mm 12-13,9 mm

total 3 3 1

% 42,9 42,9 14,2

A média das larguras dos geométricos crescentes é inferior ao limite convencional da largura mínima de peças laminares, que é situado nos 12 mm (TIXIER, INIZAN & ROCHE, 1980; CARVALHO, 1998a e 1998b) valor já por nós utilizado em anteriores análises (cf. VENTURA, 1998a e 1999a), mesmo considerando o desvio-padrão, podendo-se assim concluir-se que se está perante uma indústria de produtos alongados, maioritariamente lamelares4. Os únicos elementos laminares são constituídos por um pequeno fragmento mesial de lâmina, onde se observa uma fractura efectuada pela técnica de microburil, um fragmento proximal e uma pequena lâmina parcialmente cortical, estes dois últimas não retocadas. No conjunto dos artefactos recuperados nesta orca surgem 2 contas discoidais em xisto, ambas apresentando perfuração central cilíndrica. Estas contas, enquadram-se no grande grupo de contas em xisto, já recuperadas em outros monumentos megalíticos regionais, alguns dos quais situando-se bem perto dos monumentos em apreço, nomeadamente da Orca dos Fiais da Telha, com 588 ocorrências (SENNA-

4.2 OS MATERIAIS DA MAMOA Neste conjunto de pedra lascada (cf. Quadro II), dominam os produtos sobre os utensílios, com 83,8% das ocorrências, dos quais 51,6% são em quartzo, existindo no presente caso uma paridade entre esta matéria prima e o sílex, ao contrário do que ocorre em outros arqueosítios (cf. SENNA-MARTINEZ, 1998, VENTURA, 1998a e 1999a), não querem sobrevalorizar esta situação, julgamos que as condições de deposição serão em larga medida as responsáveis por uma amostragem truncada. Quanto aos utensílios, 16,2% das ocorrências da indústria de pedra lascada, o

4 Tal como António CARVALHO (1998a:99) consideramos que deverão existir poucas distorções mesmo no que se refere aos resultados da largura dos crescentes, por via do retoque abrupto utilizado na redução da largura original do suporte.

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A Orca 2 de Oliveira do Conde, Carregal do Sal, Viseu

quartzo é também a matéria-prima em 66,6% dos casos.

46% Sílex

larguras (cf. Fig. 5), não deixa de ser sintomático a semelhança estatística entre estes e os valores similares disponíveis para os conjuntos de produtos alongados provenientes da Gruta do Almonda e Pena d'Água, nível Eb (CARVALHO, 1998a e 1998b), DADOS MORFOMÉTRICOS DOS PRODUTOS ALONGADOS (EM BRUTO E RETOCADOS) — SÍLEX E QUARTZO (N=14)

54% Quartzo

Morphometric data for the lithic long products (N=14)

Fig. 4 — Distribuição das matérias-primas, nos artefactos provenientes da mamoa.

Largura média: 8,5±2,9 mm Espessura média: 3±1 mm

Fig. 4 - Mound's artefacts distribution, in terms of material source.

A análise deste conjunto (em bruto e retocados) permite estabelecer que os produtos alongados correspondem a 37,8% (14 ocorrências) desta indústria e, as lascas correspondem a 21,6% (8 ocorrências). Desta forma estaremos perante um módulo de debitagem, orientada principalmente para a produção de lamelas, que poderão ser utilizados em bruto, ou então servirem de suporte para utensílios, no presente caso geométricos. No caso dos materiais em quartzo, torna-se difícil, numa análise macroscópica, a determinação de traços de uso, num produto em bruto, devido à matériaprima utilizada. No entanto, note-se a presença de quatro utensílios, sobre lasca, onde através de levantamentos bifaciais, permitiram a criação de área de corte, possibilitando o seu uso como raspadores ou raspadeiras. No que diz respeito ao material de reavivamento deste arqueosítio, foi possível recuperar três flancos de reavivamento de núcleo, em quartzo leitoso, possivelmente de tipo prismático. Os negativos de levantamentos observáveis, permitiram-nos estabelecer que todos eles se destinaram à extracção de lascas. Os produtos laminares encontram-se apenas representados por um exemplar, uma lâmina de sílex parcialmente cortical. Devido à dimensão da amostra, e as condições de jazida, não poderemos valorizar qualquer dos elementos recolhidos, ainda que a presença de dois segmentos de círculo sobre lamela, em sílex, nos possa orientar numa eventual inserção crono-cultural. A extrema fragmentação dos produtos alongados, não nos permitem estabelecer, uma completa determinação das dimensões destes, ainda que se tenham determinado as médias que se apresentam no quadro seguinte. Mais uma vez se constata, que a média das larguras dos produtos alongados é inferior ao limite convencional da largura mínima de peças laminares, que situamos nos 12 mm, mesmo considerando o desviopadrão. Considerando a distribuição dos valores das

Largura < 6 mm 6-7,9 mm 8-9,9 mm 10-11,9 mm 12-13,9 mm 14-15,9 mm 16-17,9 mm

Total 1 5 5 2 1

% 7,1 35,7 35,7 14,3 7,1

Em todos casos, conclui-se uma tendência generalizada para uma debitagem fundamentalmente sobre produtos alongados lamelares, à semelhança de outras estações, atribuíveis ao Neolítico antigo e antigo evolucionado da Estremadura, Alto Douro e da Beira Alta (SANCHES, 1997; CARVALHO, 1998a e 1998b, SENNA-MARTINEZ, 1998; VALERA, 1998, 2000a e 2000b e VENTURA, 1998a e 1999a), em oposição a uma debitagem de produtos alongados exclusivamente laminares, nos habitates associados ao Neolítico final regional, como o caso do Ameal VI (SENNA-MARTINEZ, 1998). Também integrando a listagem dos utensílios provenientes dos enchimentos do tumulus, surgem dois pequenos segmentos de circulo ou crescentes em sílex. Numa observação macroscópica, tudo parece, serem estes utensílios provenientes do mesmo suporte, ou então do mesmo núcleo, tendo em conta as suas características morfológicas, qualidade da matéria-prima e tonalidade. Em ambos casos, foram extraídos de uma lamela, o seu retoque, limitado à truncatura, é directo, abrupto e escalariforme. As características morfométricas destas peças aproximam-nas bastante dos elementos do mesmo tipo recuperados em sítios inseríveis no Neolítico antigo e antigo evolucionado, como sejam o caso do sítio das Carriceiras, Carregal do Sal (cf. SENNAMARTINEZ & ESTEVINHA, 1994:Fig.5), Penedo da Penha, Nelas e Buraco da Moura de S. Romão, Seia (cf. VALERA, 1998), Orca 2 do Ameal (VENTURA, 1998a e 1999a), para além de utensílios do mesmo tipo provenientes do arqueosítio da Várzea do Lírio, Figueira da Foz (JORGE S., 1979:Fig.5), do Prazo (MONTEIRO-RODRIGUES, 2000). É patente uma certa

11


José Manuel Quintã VENTURA

Larguras

"padronização", visível nas dimensões, dos exemplares referidos, em situação similar aos dos conjuntos recuperados no Maciço Calcário Estremenho (cf. CARVALHO, 1998a:136-9) em clara oposição, ao conjunto das deposições funerárias. Situação similar ocorre entre o segmento de círculo recuperado da mamoa da Orca 2 do Ameal e os depósitos na câmara megalítica (cf. VENTURA, 1998a). < 6 mm 6-7,9 mm 8-9,9 mm 10-11,9 mm 12-13,9 mm 14-15,9 mm 16-17,9 mm 18-19,9 mm 20-21,9 mm 22-23,9 mm 24-25,9 mm 26-27,9 mm 28-29,9 mm > 30 mm

cessos de conformação final de núcleos parcialmente descorticados, indicado pela presença significativa de elementos com presença de córtex, para além de múltiplas esquírolas, ao mesmo tempo que se assinala a presença de uma exploração de pequenas lascas. Integrando o conjunto do tumulus, foi recuperada uma lasca em anfibolite, de secção transversal triangular. Pela sua morfologia, este elemento parece uma lasca de debitagem, de um eventual núcleo, para preparação de instrumentos de pedra polida. 5. AS LEITURAS POSSÍVEIS Já como se tinha verificado com outros monumentos do Núcleo Megalítico dos Fiais/Ameal, os geométricos são um dos elementos que marcam sistematicamente a sua presença nos conjuntos artefactuais recuperados. Se, por um lado, se aceita a sua relativa grande longevidade em contextos funerários e habitacionais, também se verifica, de uma forma mais ou menos unânime, que a sua presença percentual diminui em contextos do Neolítico final e mais recentes. No entanto, não deixa de ser sintomático a sua relativa importância em contextos normalmente associados aos inícios dos "megalitismos regionais". Numa análise, envolvendo diversos monumentos da Plataforma do Mondego, verificou-se quer das frequências das larguras dos geométricos, como da totalidade dos produtos alongados (em bruto e retocados) um claro afastamento e evolução no sentido de uma indústria lamelar para uma de carácter tendencialmente laminar (cf. VENTURA, 1998a:86-7). No presente caso, uma rápida comparação permite-nos aferir uma mesma situação, com as frequências das larguras dos produtos alongados (em bruto e retocados) a sobreporem-se sobre as percentagens dos conjuntos similares provenientes das Orcas 1 e 2 do Ameal, em clara oposição com os monumentos de "apogeu". Assim, mais uma vez se verifica uma situação já denunciada por SENNA-MARTINEZ (1989a) e pouca a pouca confirmada por outros investigadores, segunda a qual nos depósitos mais antigos de certos tipos de monumentos, a cerâmica primava pela sua ausência, sendo os depósitos constituídos na sua maioria por geométricos, acompanhados por lamelas/lâminas não retocadas eventualmente acompanhadas por elementos em pedra polida e pequenas contas discoides em xisto. No presente caso, se os depósitos parecem indiciar uma relativa antiguidade, em oposição a monumentos com outros tipos de deposições, sem dúvida associados a uma reformulação das "prescrições rituais", os dados provenientes da estrutura tumular, levantam algumas questões relativamente à evolução

G. do Almonda (n=93) Mamoa OROC2 (n=14)

0

10

20

30

40

50

%

Fig. 5 — Relação Larguras dos produtos alongados, em bruto e retocados, entre os materiais da mamoa da Orca 2 de Oliveira do Conde e os da Gruta do Almonda (cf. CARVALHO, 1998a) Fig. 5 - Comparative graph, using the width of the lithic long artefacts, from Megalithic tomb 2 of Oliveira do Conde and the early Neolithic site of Gruta do Almonda (cf. CARVALHO, 1998a)

Comprimento médio: 15,75±0,05 mm Largura média: 5,98±0,8 mm Espessura média: 2,1±0,3 mm DADOS MORFOMÉTRICOS DOS GEOMÉTRICOS (N=2) Morph-metric data for the geometric (N=2) Largura < 6 mm 6-7,9 mm 8-9,9 mm

total 1 1 -

% 50 50 -

Quanto ao conjuntos das lascas, também elas dominadas, em termos de matéria-prima, pelas produções em quartzo, foi efectuada a determinação das suas dimensões médias (os cálculos sobre o comprimento foram obtidos com 6 exemplares, a largura e espessura sobre 8 exemplares) sobre a totalidade dos exemplares em bruto e retocados: Comprimento médio: 22,6±5,3 mm Largura média: 18,9±7,8 mm Espessura média: 6,1±1,3 mm Os conjuntos de lascas, provenientes do tumulus, parece indiciar, a presença de duas realidades, em termos de métodos de debitagem. Por um lado, pro-

12


A Orca 2 de Oliveira do Conde, Carregal do Sal, Viseu

de estruturas complexas na área frontal dos monumentos. Em texto recente (VENTURA, 1998a), tivemos oportunidade de desenvolver um modelo evolutivo, tendo em conta três parâmetros: o artefactual, o estrutural e o espacial. Nesse modelo, tendo em conta os dados da escavação de um conjunto de 6 monumentos, destacámos de que os primeiros monumentos regionais, para além de estarem associados a deposições similares às presentes neste monumento, aqui em análise, estavam também associados a um certo tipo de "invisibilidade espacial" também em certa forma replicada na Orca 2 de Oliveira do Conde e particularmente à inexistência de estruturas complexas na zona frontal, senão mesmo na estrutura tumular. No entanto, a recente escavação da Orca do Folhadal, com um espólio similar aos dos primeiros monumentos conhecidos regionalmente — Orcas 1 e 2 do Ameal — ainda que apresentando uma localização mais ou menos "invisível", possuía um corredor "intratumular" que se alargaria em "átrio", estruturas estas "condenadas" com a conclusão do anel pétreo periférico que selou todo o processo (cf. SENNAMARTINEZ & VENTURA, 1999b e 2000a), numa situação, que se apresenta muito semelhante, em estruturação, com o presente monumento. Assim, verificamos, como já tinha ocorrido em outras regiões (cf. JORGE, V. O., 1983) desde muito cedo, surge um polimorfismo formal de soluções. No entanto, pela forma incipiente, como estas estruturas surgem, tudo parece indicar de poderemos estar num "fase de experimentação" de todo o processo, ainda não eventualmente, associado ao desenvolvimento de formas complexas de interacção social, como parece ocorrer nos monumentos de "apogeu" (cf. VENTURA, 1998a:174-189). Quanto aos materiais provenientes da mamoa, ressalta a organização da produção da indústria de pedra lascada — à falta de indicadores cerâmicos — onde se destaca, mais uma vez, a predominância dos produtos brutos de debitagem — lamelas e lascas — sobre os utensílios, situação que normalmente se encontra associado a sítios de habitat, em contraponto aos sítios funerários, onde quase exclusivamente surgem utensílios. Apesar, de estarmos, sem dúvida, perante uma amostra truncada — já que por exemplo a cerâmica apenas surge sobre a forma de bojos muito fragmentados — quer ao nível de produtos em bruto, como ao nível de instrumentos, o domínio recai sobre a produção lamelar, alguma dela debitada no local, tendo em conta a frequência de pequenas lascas e esquírolas, resultado da conformação e preparação dos núcleos, para a debitagem destes produtos alongados. Estes produtos lamelares, seriam depois ou utilizados em bruto (a posteriori, sem retoque) ou transforma-

dos em diversos utensílios, de onde apenas nos restam os dois geométricos e os raspadores. Assim, desta forma podemos considerar, de que o conjunto lítico da mamoa da Orca 2 de Oliveira do Conde, é inquestionavelmente de cariz Neolítico de tradição antiga, em especial ao nível de características morfométricas, com a predominância de produtos alongados lamelares, seguida de lascas, estando os produtos laminares quase ausentes. À semelhança com outros conjuntos entretanto detectados na Beira Alta (MONTEIRO-RODRIGUES, 2000; SENNA-MARTINEZ & VENTURA, 1999b e 2000a; VALERA, 1998 e 2000b; VENTURA, 1998a, 1999a), existe uma grande proximidade entre os materiais detectados na mamoa da Orca 2 de Oliveira do Conde e os provenientes de estações atribuíveis ao Neolítico antigo ou Neolítico inicial, do Maciço Calcário Estremenho e do Nordeste Transmontano (cf. SANCHES, 1997 e 2000; CARVALHO, 1998a e 1998b). Até ao momento, este Neolítico Antigo regional surge, em termos artefactuais, caracterizado por indústrias líticas com uma certa variabilidade mas predominantemente sobre suportes lamelares e onde apesar de o sílex representar mais de 50% dos conjuntos líticos não-macrolíticos do Buraco da Moura de S. Romão, Complexo 1 do Penedo da Penha e Mamoa da Orca 2 do Ameal, estes mesmos arqueosítios apresentam contudo percentagens significativas de artefactos em quartzo que predomina com frequências muito elevadas nos conjuntos das Carriceiras, Outeiro dos Castelos de Beijós, Mamoa da Orca 2 de Oliveira do Conde, Mamoa/Habitat do Folhadal e Quinta do Soito. A olaria, detectada em sítios como as Carriceiras, Outeiro dos Castelos de Beijós, Orca 2 do Ameal, Habitat do Folhadal, Quinta do Soito, Buraco da Moura de São Romão e Complexo 1 do Penedo da Penha, apresenta características que se integram nas tradições do Neolítico Antigo dito “evoluído” quer da área Estremenha Atlântica quer de zonas mais meridionais (VALERA, 1998 e 1999b), permitindo colocar a questão de uma eventual dualidade de origens para este mundo cultural. No entanto, apesar dos elementos arqueográficos serem ainda escassos, tudo parece indicar de que estas comunidades não terão uma ocupação agrícola do espaço, dadas as características dos solos e os elementos artefactuais recolhidos, este último aspecto eventualmente demonstrado quer pela ausência relativa de instrumentos de pedra polida, normalmente associados à actividade de desflorestação e de elementos de moagem manual, apesar de estes últimos nem sempre indicativos da sua utilização em situações agrícolas, podem no entanto ser indicadores de determinadas actividades domésticas. Assim, reforça-se a possibilidade de estarmos perante comunidades com baixa densidade demográ-

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José Manuel Quintã VENTURA

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fica, sem dúvida enquadradas em sistemas familiares alargados, que terão na caça-recolecção a sua principal actividade económica, que poderá ser completada por uma agricultura incipiente nalgumas áreas junto a cursos de água, mas possivelmente pelo recurso a uma pastorícia, como parecem indicar os dados provenientes do sítio do Prazo (MONTEIRO-RODRIGUES,2000). Este povoamento atribuível ao Neolítico antigo parece ainda escolher locais abertos, sem condições especiais de controle da paisagem e muito menos defensivas, localizados preferencialmente em vertentes suaves ou rechãs com boa exposição a nascente ou, ainda, em abrigos sob penedos graníticos. BIBLIOGRAFIA: BARKER, Philip. (1977.) Techniques of Archaeological Excavation, B. T. Batsford Ltd , London. BARKER, Philip (1986.) Understanding Archaeological Excavation, B.T. Batsford Ltd,London. CARDOSO, J.L., GOMES, M.V., CANINAS, J.C. & HENRIQUES, F.R. (1995.) "O Menhir de Cegonhas (Idanha-a-Nova)", In: Estudos Pré-Históricos, 3, CEPBA, Viseu, pp. 5-17. CARVALHO, A. M. F. (1998a.) O Neolítico Antigo do Maciço Calcário Estremenho: Tecnologia e Tipologia da Indústria de Pedra Lascada, Texto Monográficos 2, Lisboa, Colibri. CARVALHO, A. M. F. (1998b.) "O talhe da pedra e a transição Neolítico-Calcolítico no Centro e Sul de Portugal: tecnologia e aspectos da organização da produção", Trabalhos de Arqueologia da EAM. 3/4, Lisboa, Colibri, 1995/1996, pp.4160. CRUZ, Domingos. (1998.) "Aspectos do Megalitismo da Beira Alta", in: Actas do Seminário "A Pré-História na Beira Interior", «Estudos Pré-Históricos», 6, Viseu, pp. 149-166. FERREIRA, A.B. (1978.) Planaltos e Montanhas do Norte da Beira , Memórias do Centro de Estudos Geográficos, 4, Lisboa GOMES, Luis Filipe. (1996.) A Necrópole Megalítica da Lameira de Cima (Penedono-Viseu), Estudos Pré-Históricos, 4, CEPBA, Viseu. GOMES, L. F.; CARVALHO, P. S.; FRANCISCO, J. P.; PERPÉTUO, J. & MARRAFA, L. C. (1998.) "O Dólmen de Areita (Paredes da Beira. S. João da Pesqueira. Viseu)", in: Actas do Seminário "A Pré-História na Beira Interior", «Estudos Pré-Históricos», 6, Viseu. pp. 33-93. HARRIS, Edward C. (1979.) Principles of Archaeological Stratigraphy, Academic Press, London JORGE, Víctor Oliveira. (1978.) "Escavação de um túmulo megalítico: problemas metodológicos", in: Setubal Arqueológica, Vol. V, Setubal, pp.241-255. LEISNER, V. & RIBEIRO, L. (1968.) "Die Dolmen von Carapito", in: Madrider Mitteilungen, 9, pp.11-62 MONTEIRO-RODRIGUES, S. (2000.) "A Estação Neolítica do Prazo (Freixo de Numão - Norte de Portugal) no contexto do Neolítico Antigo do Noroeste Peninsular. Algumas considerações preliminares", in: Actas do «3º Congresso de Arqueologia Peninsular», Vol. III, Porto, ADECAP, pp. 149-180. SANCHES, M. J. (1997.) O Abrigo do Buraco da Pala (Mirandela) no contexto da Pré-História recente de Trás-osMontes e Alto Douro, Porto, SPAE, 2 Vol. SANCHES, M. J. (2000.) "Reflexões sobre o Povoamento do Neolítico inicial do Norte de Portugal (VI.º-IV.º MIL.

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Fig. 6 - Planta global do monumento, após a decapagem das UE.1,2 e 3, sendo então visível a estrutura UE.32/33 e UE.49, referentes a um eventual “corredor intra-tumular”. Na UE.32/33, foram detectada uma fossa de implantação de um eventual ortóstato. Fig. 6 - Global plant of the monument after removal of the top layers [UE.1, 2 & 3] permitting the identification of the structures UE.32/33 and UE.49, that we associate to a possible inter-tumuli passage on the mound. On the top of UE.32/33, it was also detected the implanting hole for a possible standing stone.

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Fig. 7 - Planta global do monumento, após a decapagem da UE.13 e afins. Notar a zona de acesso frontal ao monumento, aparentemente sem fecho, desembocando directamente no “corredor intratumular”. Fig. 7 - Global plant of the monument, after the removal of UE.13 and associate layers. Of note, the already mentioned passage build on the frontal access area of the mound. The megalithic chamber, already destroyed, was perhaps of the close type.

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Fig. 8 - Planta global do monumento, no final dos trabalhos, em 2001. Fig. 8 - Final plant of the monument, in the end of the 2001 excavation.

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OROC 2 Perfil Longitudinal 1994-2001

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Fig. 9 - Perfis Longitudinais da Orca 2 de Oliveira do Conde, Sanjas A e B. De notar a depressão, correspondente à implantação da eventual câmara megalítica, escavada nos granitos de base [UE.15] nos Quadrados I12-I14, no perfil da Sanja A e I13-K13, no da Sanja B. Fig. 9 - Longitudinal profile of the megalithic tomb 2 of Oliveira do Conde. The central depression, relative to the location of the missing megalithic camber, is clearly discernible.

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Fig. 10 - Vista geral do monumento, no sentido W-E, após a remoção do mato e antes da decapagem. Fig. 10 - General view of the monument, W-E, after the removal of the superficial overgrown, but before the excavation.

Fig. 11 - Vista da Sanja B, na Campanha 3(996), sentido N-S, após a remoção das terras soltas e decapagem da UE.13. Em primeiro plano a estrutura UE.32/33, correspondente à face sul do corredor intratumular. Fig. 11 - View of Sanja B, during the works of 3(996), N-S, after the removal of loose earth and the statigraphic layer UE.13. In first plan the structure UE.32/33, relative to the south façade of the intra-tumuli passage.

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A Orca 2 de Oliveira do Conde, Carregal do Sal, Viseu

Fig. 12 - Sanja B/Área Frontal, E-W, sendo visível o acesso frontal, através de um corredor intratumular, como também as respectivas estruturas pétreas. Em primeiro plano a UE.31, carapaça pétrea, e UE.49, o contraforte. Fig. 12 - Sanja B/Frontal area, E-W, being discernible not only the intra-tumuli passage, but also the structures of support, namely UE.31 - stone carapace of the mound - and UE.49 - the contra fort.

Fig. 13 - Área frontal, sentido E-W, sendo visível o corredor intratumular, e eventualmente, em primeiro plano a zona de fecho do monumento, muito afectada por uma fossa de despejos moderna. Fig. 13 - Frontal area, E-W, being clearly visible the intra-tumuli passage, and eventually in the "closing" structure of the monument, very affected by a garbage pit, made in modern times.

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Fig. 14 - Conjunto artefactual da Orca 2 de Oliveira do Conde. Monumento megalítico: Geométricos, fragmento mesial de lamela retocada (94/01), lamela (19/98) e pequena lâmina não retocadas (109/01). Na mamoa, destacamos os dois segmentos de círculo (41/99 e 67/01); a industria lamelar em sílex e a sobre lascas de quartzo (Desenhos de Artur Ramos) Fig. 14 - Artefacts from the megalithic tomb 2 of Oliveira do Conde. On top, the deposits directly associate with the ritual depositions on the megalithic tomb, and, below the ones that accidentally "travelled" during the building of the mound.

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8/96

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Fig. 15 - Artefactos de anfibolite polida do monumento megalĂ­tico: 8/96 e 7/96. Lasca em anfibolite da mamoa: 105/01 (Desenhos de Artur Ramos) Fig. 15 - Artefacts of polished stone, namely 8/96 & 7/96 from the original sediments of the megalithic chamber, and 105/01 from the tumuli.

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