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JUNÇA REVISTA CULTURAL FEVEREIRO DE 2013 - MARÇO DE 2013 NÚMERO SEGUNDO

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JUNÇA EQUIPA Samuel Pereira Pinto Marta Soutinho Alves André Pereira Pinto Silvia Oliveira Ramos BLOG www.junca.tumblr.com E-MAIL junca.web@gmail.com

NÚMERO SEGUNDO FEVEREIRO DE 2013 - MARÇO DE 2013

____________________________ EDIÇÃO/ COORDENAÇÃO

Samuel Pereira Pinto TEXTOS

Samuel Pinto Marta Alves André Pinto Silvia Ramos

• • • •

S.P. M.A. A.P. S.R.

DESIGN

NOEMA (www.noema.pt) DISPONÍVEL EM issuu.com/junca.web/docs/o_blog_da_junca_n2


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JUNÇA REVISTA CULTURAL

FEVEREIRO DE 2013 - MARÇO DE 2013 NÚMERO SEGUNDO

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o blog A Junça é uma aldeia do Concelho de Almeida, distrito da Guarda, que como a generalidade das aldeias portuguesas do Interior excessivamente dependentes da economia rural e da agricultura de subsistência, conheceu desde meados do século passado o fenómeno massivo da emigração. A proximidade com Espanha, a uns escassos oito quilómetros de distância, que alimentaria por algum tempo a actividade marginal do contrabando serviria, logo depois, de porta de saída a sucessivas gerações de jovens que encontraram numa Europa progressista e na América Latina uma inevitável alternativa a um destino certo de incerteza, e na fronteira o desejo para sempre adiado de um dia voltar. Décadas de emigração que se resumem de modo mais evidente numa perda irreversível de habitantes, num envelhecimento generalizado da população e num abandono massivo da terra, mas também de forma sub-reptícia no desaparecimento dos lugares de representação colectiva, da memória histórica e pessoal de um espaço geográfico e das suas gentes. Com os mais velhos morrem também os aspectos particulares que sustentam a relação singular que uma pessoa mantém com o sítio geográfico a que chama “casa”, que é também o lugar intransmissível onde se dispõem os afectos de uma infância que o esquecimento ameaça transformar num arquipélago, como se à emigração geográfica se seguisse inevitavelmente uma circunstância de isolamento/esvaziamento emocional.

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Deste mesmo sentimento intransmissível se faz o mês de Agosto, arquétipo da saudade portuguesa, que devolve às origens os fragmentos de um passado disperso, alimentando por breves instantes a esperança de uma aldeia de novo completa. O mesmo sentimento que alimenta este blog, lugar virtual de encontro dessa Junça perdida pelo, e para, o mundo, e simultaneamente tão ávida de se encontrar. www.junca.tumblr.com encontra nesse desejo ininterrupto a oportunidade de inverter um ciclo, ao ir buscar à própria “patine” deixada pelo tempo nas pedras, ou ao baú das recordações dos mais velhos os objectos e vivências de outrora, para dar a conhecer aos que nunca conheceram e recordar aos que já esqueceram, ou quiseram esquecer, a sua identidade ancestral. Aqui se pretende despertar os olhares mais e menos atentos e informar sobre um legado secular que é de todos, e que de tão antigo, por vezes, tendemos a menosprezar, mas que todos temos a obrigação de preservar sob pena de esquecermos o próprio nome.

S.P. e M.S.

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1 de Fevereiro de 2013. #N. S. Mosteiro #Arquitectura

§ Capela de Nossa Senhora do Mosteiro, “Planalto de Castela, Junça. © Marta Soutinho

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2 de Fevereiro de 2013. #Oralidade #Gente da Junça

“ Se aparece algum pistola que te aperte as nalgas!

___________________ § António Pedroso O Sr. António Pedroso trabalhava num estabelecimento prisional pelo que estava familiarizado com os procedimentos da polícia (os pistolas) que apertavam com os suspeitos, que não tinham qualquer alternativa senão a confissão. A expressão era utilizada pelo Sr. António para mostrar a inevitabilidade de ter de fazer ou contar algo diante de um motivo de força maior. S.P.

>>>>> Porta chanfrada com inscrições judaico-cristãs, Antiga Judiaria, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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4 de Fevereiro de 2013.

#Arquitectura #Arquitectura Popular #Judiaria #Gliptografia

em cima: Ombreira da porta da antiga Judiaria, Rua do Adro, Junça. © Marta Soutinho ao lado: Ombreira da porta da antiga Judiaria, Rua do Adro, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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§ Aspectos singulares da Arquitectura Judaico-Cristã: padieira com estrutura de descarga em forma triangular, acesso à Antiga Judiaria, Junça. © Marta Soutinho

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§ Aspectos singulares da Arquitectura Judaico-Cristã: peitoril ornamentado, com inscrições judaico-cristãs (pentagrama e cruz com braços), Rua Direita, Junça. © Marta Soutinho

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5 de Fevereiro de 2013.

#Gente da Junça #Mural #Poesia

“Sou Patriota genial !..

Deus do céu não me castigou! Viva! Viva! Portugal!… É a minha terra natal! ___________________ § Mural, António Rodrigues, Junça. cedido por: Cátia Limão

<<<<< Mural, António Rodrigues, Rua do Chafariz Junça. © Cátia Limão

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6 de Fevereiro de 2013.

#Gente da Junça #Joaquim Ferreira

§ Manuel Ferreira, Teresa de Jesus Almeida e filhos (Pe. Joaquim, Mª Helena, Alípio, Ascensão e Leonel) retirado de: Joaquim A. Almeida Ferreira, “Famílias da Junça e de Muitas Outras Terras”.

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7 de Fevereiro de 2013. #Samuel Pinto #Poesia #Parir

todas as palavras de todas as palavras as que mais me doem são as que não sei, as que desconheço. não as vadias, as promíscuas, as de sangue, afiladas… mas, exactamente as que não sei. essas mesmas que estando por dizer ficaram para sempre por sentir no devir dos dias por chegar!

§ Samuel Pinto in: parir, 2013. aos homens sem palavras

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8 de Fevereiro de 2013. #Matança #Etnografia

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§ As Matanças (introdução) in: MARQUES, Carlos Alberto; “Algumas Notas Etnográficas de Riba Côa”; Separata da revista Biblos (Coimbra), vol. XIV (1938) e vol. XV (1939).

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10 de Fevereiro de 2013.

#Mural #Poesia #Gente da Junça #Adriano Pinto

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10 de Fevereiro de 2013.

#Oralidade #Expressões Populares

“Isso não é nenhum nariz de santo! ___________________ § expressão popular Aplica-se a um trabalho que não exige grande perícia nem acarreta grande responsabilidade, bem ao contrário do trabalho pormenorizado e delicado que é a realização do nariz de um santo da igreja. S.P.

<<<<< Mural, Adriano Pinto da Silva Rua do Santo Cristo, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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12 de Fevereiro de 2013.

#Invasões Francesas #Eventos Históricos #Documentos

§ Relato do confronto entre as tropas comandadas por Sir Wiliam Erskine e o 9º Corpo de Infantaria francês. Junça, 7 de Abril de 1811. in: Cyril Thornton; Annals of the Peninsular Campaigns from MDCCCVIII to MDCCCXIV, Vol. III; Philadelphia: Carey & Lea, Chesnut Street; 1831; p. 37.

“Aos sete, Sir Wiliam Erskine, que tinha sido despachado com seis esquadrões de cavalaria e duas tropas de artilharia a cavalo, para reconhecer Almeida, e penetar nos postos inimigos, encontrou, inesperadamente, uma brigada de infantaria francesa na Junça. Nada poderia exceder a frieza e coragem com a qual este corpo recebeu as investidas dos atacantes. O comandante francês formou as suas tropas num quadrado, no qual a cavalaria não conseguia fazer qualquer dano, apesar de suportado pelas armas, que ocasionaram grande distúrbio nas fileiras. Desta maneira continuou a brigada a sua retirada, até chegar a Duas Casas, carregando o oficial de comando, que fora severamente ferido, proporcionando um belo exemplo de disciplina e de coragem. A cavalaria teve sucesso, contudo, em garantir a segurança dos muitos prisioneiros, e, no geral, a perda deste corpo valente foi considerável.” S.P. (tradução)

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12 de Fevereiro de 2013.

#Invasões Francesas #Eventos Históricos

§ Projéteis de canhão encontrados no Ribeiro das Nogueiras e terrenos adjacentes (Junça), coincidentes com as munições utilizadas durante as Invasões Francesas. No dia 7 de Abril de 1811 as tropas comandadas por Sir Wiliam Erskine travaram nesta povoação um confronto com as tropas do 9º Corpo de Infantaria francês. © Samuel Pinto

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13 de Fevereiro de 2013.

#Invasões Francesas #Eventos Históricos #Documentos

§ Cópia de um oficio do Tn. Lord Visconde Wellington, ao Secretario da Guerra Lord Conde Liverpool. Villa Fermosa, 9 de Abril de 1811. in: Correio Braziliense, Vol. VI; Londres: Impresso por W. Lewis, na Officina do Correio Braziliense, em St. John´s Square, Clerkenwell. 1811; pp. 336-391. texto completo: issuu.com/junca.web/docs/oficio_wellington

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13 de Fevereiro de 2013. #Oralidade #Música #Cantares

Resineiro Engraçado in: “Cantares de Andarilho” Zeca Afonso letra e música popular: Beira-Alta (adaptada por Zeca Afonso)

Resineiro engraçado, engraçado no falar, Resineiro engraçado, engraçado no falar, Ó i ó ai, eu hei-de ir à terra dele, Ó i ó ai, se ele me lá quiser levar. [bis] Já tenho papel e tinta, caneta e mata-borrão, Já tenho papel e tinta, caneta e mata-borrão, Ó i ó ai, pr’a escrever ao resineiro, Ó i ó ai, que trago no coração. [bis] Resineiro é casado, casado e tem mulher, Resineiro é casado, casado e tem mulher, Ó i ó ai, vou escrever ao resineiro, Ó i ó ai, quantas vezes eu quiser. [bis] Resineiro engraçado, engraçado no falar, Resineiro engraçado, engraçado no falar, Ó i ó ai, eu hei-de ir à terra dele, Ó i ó ai, se ele me lá quiser levar. [bis]

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14 de Fevereiro de 2013.

#Arquitectura Popular #Arquitectura

Aspectos singulares da Arquitectura Popular: vão e porta de entrada Nas paredes de alvenaria de granito miúdo, enquadram-se as pedras de cantaria que hão-de conformar o vão destinado à porta, talhadas habilmente pelo canteiro, frequentemente um artífice proveniente da Beira Baixa. A distinção entre estas duas formas distintas de tratar o material, fica bem clara na indicação do vão, caiado de branco de forma a demarcar inequivocamente a entrada da habitação, a dignidade dos elementos construtivos e prolongando até ao exterior o sentido higiénico que pauta a habitual caiação da casa pelo interior. A porta feita de um modo expedito com tábuas corridas que se prolongam até ao solo pregadas sobre uma travessa inferior à meia madeira, assegurando o correcto escoamento da água, divide-se não raras vezes em duas partes. Na parte superior encaixa-se uma folha móvel chamada na gíria popular de “postigo” que permite arejar e iluminar a casa sem a devassar. É no “postigo” que se dispõe também a fechadura, que depois de aberta permite aceder ao verdadeiro fecho da porta, um ferrolho apenas acessível pelo interior. Não existindo aro, a porta fecha sobre um batente talhado directamente nas ombreiras e padieira, segura por dobradiças de leme (chumbadouros) ou, sendo pivotante, encaixando-se o prolongamento da couceira, cortada em redondo, superiormente num entalhe feito na padieira e inferiormente numa metade de uma bala de canhão onde gira livremente. Não menos singular é o pormenor da “gateira”, buraco que permite a entrada do gato, animal doméstico frequente, senão mesmo indispensável, a que cabe o encargo ingrato de controlar os eventuais ratos. S.P.

<<<<< Aspectos da Arquitectura Popular: vão e porta de entrada. Casa Particular, Rua da Oliveira, Junça. © Samuel Pinto

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§ Censo 1890. “Fogos-População de Residencia Habitual e População de Facto; Sexo, Naturalidade, Estado Civil e Instrução”. Extracto relativo às freguesias do Concelho de Almeida. disponível em: issuu.com/junca.web/docs/censo_1890

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18 de Fevereiro de 2013. #Pesca #Etnografia

§ “Pesca no rio Coa” in: MARQUES, Carlos Alberto; “Algumas Notas Etnográficas de Riba Côa”; Separata da revista Biblos (Coimbra), vol. XIV (1938) e vol. XV (1939).

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19 de Fevereiro de 2013.

#Oralidade #Expressões Populares

“nemNemburro xô, nem arre, se queres palha!

___________________ § expressão popular Expressão utilizada para retratar a indignação sentida, por comparação com um burro, quando se está à espera da resposta de alguém acerca de determinado assunto e dita pessoa evita deliberadamente o tema, não dando aval negativo (xô), nem incentivando (arre), nem tão pouco prestando explicações ainda que burocráticas pela sua aparente falta de consideração (nem dando palha ao burro). S.P.

<<<<< Aspectos da Arquitectura Popular: vão e porta de entrada. Rua do Forno, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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21 de Fevereiro de 2013. #Documentos #Geologia

Fazendo parte da história singular da região de Riba Côa, a exploração mineira do volfrâmio, que atingiu o seu pico em meados do século passado, encontrase todavia bastante presente na memória colectiva das gentes da região, perpetuada em inúmeras histórias rocambolescas que a tradição oral tratou simultaneamente de exagerar e tornar mais aliciantes. Facto é que esta a actividade teve por epicentro as minas de Vilar Formoso, as maiores do Concelho, que por alguns anos constituíram um importante incentivo para a economia local, captando grande parte dos homens capazes da época e mesmo das mulheres. Material de extrema importância para o Estado Novo, vendido aos países do Norte da Europa durante o período da 2ª Guerra Mundial e utilizado para o fabrico de armamento, o volfrâmio e depois o urânio despoletaram um levantamento preciso do território português por parte da Junta da Energia Nuclear. O documento apresentado constitui um texto integral que acompanha a Carta Geológica referente a Almeida, que dá conta várias explorações do Concelho e do seu rendimento e vai ao detalhe das características particulares do solo de cada freguesia, incluindo a Junça, onde se chegaram a realizar várias prospeções. S.P.

§ “Notícia Explicativa da Folha 18-B (Almeida)”, Junta de Energia Nuclear in: Carta Geológica de Portugal por Carlos Teixeira (Prof. Da Universidade de Lisboa – Consultor da J. E. N.), A. C. de Medeiros, L. Pilar, J. T. Lopes e A. T. Rocha; Lisboa: Serviços Geológicos de Portugal, 1959. disponível em: issuu.com/junca.web/docs/carta_geologica

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22 de Fevereiro de 2013.

#Arquitectura #Água #Monumentos

A fonte do “Vinhado” Fonte de mergulho de planta rectangular, tem a particularidade de estar embebida no muro de suporte de um socalco de uma antiga vinha. Embora simples no traço, destaca-se pela singularidade dos elementos construtivos de grandes dimensões talhados com uma perfeição invulgar para uma fonte rural que servia de apoio ao trabalho agrícola. A perfeita simetria da construção encimada pelo frontão triangular de estilo classicizante permite datar o monumento, ainda que de uma forma conjectural, dos séculos XVII XVIII. S.P.

§ um agradecimento ao Sr. Alberto Monteiro, que tem assegurado a limpeza dos terrenos imediatos à fonte

>>>>> Fonte, Vinhado, Junça.

© Marta Soutinho e Samuel Pinto

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24 de Fevereiro de 2013. #Oralidade #Adágios

“muchacho, Pão torrado não farta e se o farta, mal do saco! ___________________ § ditado popular Em tempos idos o pão assumia-se como um bem de primeira necessidade, constituindo um dos alimentos base da dieta das remediadas gentes de Riba-Côa. O provérbio provavelmente de origem espanhola deve ter sido adoptado pelas populações da região no contexto da forte interação que mantinham com as povoações raianas espanholas, onde iam buscar o pão e outros bens de necessidade durante o período do contrabando. De facto homens e mulheres eram educados desde gaiatos a percorrer os vários quilómetros de trilhos que ligavam os dois países separados por divergências políticas mais do que por diferenças culturais. Sendo um escape à rotina alimentar o pão quando torrado era especialmente atractivo para os jovens em idade de crecimento (muchachos), que não se satisfaziam facilmente. O ditado popular alerta para este facto e adverte que se não houver controlo e os progenitores cederem à vontade dos filhos quem paga é a carteira (saco). S.P.

<<<<< Debulhadoras de Adriano A. Pinto da Silva, folheto publicitário, anos 50. cedido por: Pedro Tavares

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24 de Fevereiro de 2013.

#Arquitectura Popular #Arquitectura #Pombais

As variações de formas e elementos arquitectónicos e de materiais usados nas construções dos pombais, torna difícil agrupá-los em tipologias restritas. Podemos contudo dizer que a maioria dos pombais tem planta circular ou de ferradura sendo que, raramente, também se encontram de secção quadrada ou rectangular. Relativamente à cobertura, encontramo-los com telhados planos, de uma água (raramente de duas) e com telhados cónicos. Os primeiros são característicos das zonas mais a norte do Douro Internacional, Sabor-Maçãs e Vale do Côa e os segundos encontram-se mais a partir do concelho de Freixo de Espada à Cinta, para sul. As localizações das portas também os podem diferenciar, mas todas têm uma característica comum, é que nunca estão ao nível do solo. Este facto está relacionado com a produção de pombinho, que ao acumular-se no chão do pombal, que pode ser lajeado ou em terra batida, impediria a abertura da porta caso esta estivesse ao nível do solo. Esta localização também pode ter a finalidade de dificultar a entrada de alguns predadores.” ___________________ § Domingos Amaro, Recuperação de pombais tradicionais, Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte, Novembro de 2010.

>>>>> Pombal, Teixoeira, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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26 de Fevereiro de 2013.

#Arqueologia #Agricultura #Vinho #Monumentos

Independentemente da forma que os vários lagares apresentam, todos teriam uma área para esmagamento, fosse ela efectuada por pisa por pé humano, e/ou através de processos mais complexos que implicavam a utilização de mecanismos em madeira, pesos, contrapesos e pedras de lagar. Este processo era efectuado numa pia, frequentemente de pouca profundidade (calcatorium) escavada no granito. O líquido resultante deste processo escorreria por canais ou bicas para um novo espaço, o pio, que estava separado do anterior e que poderia ser escavado na rocha ou, em alternativa, ser amovível. […] Após os processos de pisa e prensa, quando esta era aplicada, o mosto seria transportado para outras instalações, cobertas, para que se processasse a fermentação. Estas instalações, que podemos, denominar de adegas, deviam situar-se junto das habitações, nos casos dos casais, e mesmo dentro das povoações, no caso do povoamento mais concentrado. Com o tempo, as adegas e, mais tarde, os lagares, passam a ocupar uma parte da casa, desenhando-se o que hoje conhecemos da casa tradicional beirã.” ___________________ § Catarina Tente, Lagares, lagaretas ou lagariças rupestres na vertente noroeste da Serra da Estrela, Revista Portuguesa de Arqueologia. volume 10. número 1. 2007, pp. 345-366.

Simples no funcionamento, o lagar rupestre de tipologia rectangular consiste de dois tanques ligados por um canal de escoamento: um destinado à pisa das uvas por pé, e um pio para recolha do mosto. Distingue-se pela sua situação, inscrito no cimo de um barroco, mantendo uma relação estreita com a paisagem e a orientação solar de um modo que, ultrapassando o mero funcionalismo, parece indiciar uma sacralização do ritual ligado ao vinho, relembrando outras estruturas rupestres todavia mais antigas a que costuma estar associado, as sepulturas rupestres intencionalmente talhadas no alto de afloramentos rochosos com uma larga amplitude visual sobre a paisagem e orientadas segundo os pontos cardeais. Certa é a ancestralidade da prática da cultura da vinha, comprovada pela própria toponímia do lugar, ainda hoje chamado de “Vinhado”. O lagar que deve remontar à Idade Média, poderá ter funcionado até ao século XIX, altura em que foi substituído por um edifício situado nas imediações (actualmente em ruínas) exclusivamente destinado a esta função. S.P.

<<<<< Lagar Medieval, Vinhado, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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Ceifeiras in: “Cantares de Riba Côa”,Côro Etnográfico de Almeida letra: Luís Pereira, natural da Junça. (adaptada pelo Maestro Bernardo Terreiro)

[REFRÃO]

LETRA:

Olha as ceifeiras tão engraçadas, Lenços chineses, saias rodadas. Saias rodadas, chapéu ao lado, Ora aqui está um rancho engraçado.

A minha foice de lide, Foi prenda do meu avô. Já minha mãe foi criada Com o pão que ela ceifou. [REFRÃO] Nasce o sol e põe-se a lua, E nós ainda a ceifar. Vai dizer ao meu amor, que me venha cá buscar. [REFRÃO] Ceifeira, minha ceifeira, Ceifeira, minha paixão. Vai dizer ao meu amor, Que é seu meu coração. [REFRÃO] Viva quem nos tem amor, Quem nos quer auxiliar. Viva também nosso rancho. E o povo em geral. [REFRÃO] [bis]

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27 de Fevereiro de 2013. #Cantares #Música

§ Ceifeira da Beira, postal antigo (início do século XX) ©

M.F.Lisboa

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1 de Março de 2013.

#Arquitectura Popular #Arquitectura #Pombais

§ Pombal, Tapada Eira, Junça. © Marta Soutinho

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1 de Março de 2013.

#Arquitectura Popular #Arquitectura #Pombais

… as paredes, muito largas, são feitas em alvenaria de pedras miúdas, de xisto, ou de granito, ligadas por argila, e rebocadas com uma argamassa feita de cal e areia. Este reboco é sempre muito fino para impossibilitar a subida de predadores. Posteriormente são caiadas de branco para proteger o reboco e, talvez, para atrair as pombas; as portas são feitas de madeira, normalmente de freixo ou carvalho; a cobertura é feita de telha capa e canal, assente em vigas de madeira, que são suportadas por caibros e vigas de madeiras da região (freixo, zimbro, carvalho ou olmo). O corta-vento é desenvolvido com os mesmos materiais e pode ser ornamentado no cume por pedras brancas de quartzo, ou por pináculos de granito ou xisto. No interior, em cujas paredes se localizam os ninhos, o chão pode, ou não, ser coberto por lajes e a mesa de alimentação é também de xisto ou granito conforme a implantação do pombal.” ___________________ § Domingos Amaro, Recuperação de pombais tradicionais, Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte, Novembro de 2010.

>>>>> Pombal, Tapada Eira, Junça. © Marta Soutinho

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4 de Março de 2013.

#Jogos #Arqueologia #Santíssima Trindade #Gliptografia

Alquerque de três O Alquerque, também conhecido como Qirkat, é um jogo de tabuleiro de estratégia que se supõe tenha origem no Médio Oriente. O jogo não aparece na literatura até ao final do século X, quando o autor Abu al-Faraj al-Isfahani menciona o Qirkat na sua obra de 24 volumes, Kitab al-Aghani (Livro das Canções), que no entanto não faz nenhuma menção às regras do jogo. Introduzido na Península Ibérica pelos muçulmanos a partir do século VIII o alquerque teve grande difusão ao ponto de ter sido alvo de análise no manuscrito “Libros de Ajedrez, dados y tablas” ou “Livro dos Jogos” do rei Afonso X, o Sábio (1251-1382). Fruto do espírito de universalismo e liberdade religiosa do monarca, que ficou conhecido na história pela sua elevada cultura, rodeando-se dos principais estudiosos cristãos, judeus e muçulmanos do seu tempo, surgem compilados nesta obra os jogos mais populares da época. O manuscrito, cujo original se encontra na Biblioteca de Filipe II no Mosteiro de S. Lourenço do Escorial apresenta as regras originais e algumas das variantes do jogo do alquerque, bem como diversas ilustrações que, de forma exemplar, retratam cenas de partidas disputadas entre vários adversários.

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Este jogo tornou-se popular surgindo em várias partes da Europa durante a época medieval. Em Portugal, o jogo conhecido por várias denominações locais como “jogo dos pocinhos” ou “jogo do algarve” disseminou-se sobretudo pelo sul do País (Alentejo e Algarve) que permaneceu por um longo período sob a influência cultural islâmica, sendo ainda hoje jogado. O tabuleiro gravado na parede de uma casa da Rua da Oliveira, na Junça, é certamente proveniente de um outro local e corresponde a uma variante do jogo original, denominada na literatura de “alquerque de três” e conhecida popularmente por “jogo do castro”. Ao contrário do alquerque tradicional, que se joga com vinte e cinco casas (cada jogador dispõe de doze peças ficando uma casa livre no centro) e cujo objectivo consiste de modo semelhante às damas em eliminar as peças do adversário, no “alquerque de três” ou “castro” cada jogador vai dispondo alternadamente as peças que possui, na versão original pedras de diferente cor. O objectivo consiste em formar uma linha vertical, horizontal ou diagonal com três peças da mesma cor, procurando reproduzir as linhas demarcadas no tabuleiro. S.P.

em cima: Alquerque de três, Iluminura, “Livro dos Jogos” de Alfonso X, o Sábio, Espanha, 1273. ao lado: Alquerque de três, Casa Particular, Rua da Oliveira, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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2 de Março de 2013.

#Agricultura #Debulha #Cereal #Pintura

§ Debulha, óleo sobre tela, Isabel Valeroso, 2002. baseado numa fotografia cedida por Alberto Jorge da Fonseca

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5 de Março de 2013. #Oralidade #Adágios

Uns morrem com falta de ar, outros é um ar que lhe dá. Quem não tem cabeça, escusa carapuça. Se meu pai não morresse, ainda hoje era vivo. Não é por aí que os gatos vão às filhós. De noite, todos os gatos são pardos. Contas com Jorge e Jorge na rua. Não te mando dizer que teu pai morreu, para não te afligires, mas que morreu, morreu mesmo. Esta é a primeira vez que te escrevo e ainda não obtive resposta. Quem parte leva saudades, quem fica saudades tem !... Os homens não se medem aos palmos. Gato por bofes, é como diabo por almas. Quem canta seu mal espanta !... Uns bebem o vinho, os outros é que se embebedam. Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele. Quando nasce, o Sol é para todos. Quem tem amores não dorme. O linho, é só frio, por um bocadinho. O que não mata engorda. Quem corre por gosto não cansa. Todos os caminhos vão dar a Roma. Quem sai aos seus não degenera. Quem caminha por atalhos, mete-se em trabalhos. Dinheiro e santidade é metade da metade. Anda mouro na Costa. Vale mais um gosto na vida, do que cem mil réis na algibeira. Quem tem amigos não morre na cadeia. O amor é cego e arde sem se ver. Cresce e aparece. Lobos esfaimados, descem aos povoados.

continua...

___________________ § Albertino José Rebelo de Sousa, “Adágios e anexins correntes no Distrito da Guarda” in: Revista Altitude, nº1, 3ª série, 1º semestre, 1993; pp. 47-52. disponível em: issuu.com/junca.web/docs/adagios

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§ Censo 1900. “Fogos-População de Residencia Habitual e População de Facto, distinguindo o Sexo, Naturalidade, Estado Civil e Instrução. Extracto relativo às freguesias do Concelho de Almeida.” disponível em: issuu.com/junca.web/docs/censo1900

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8 de Março de 2013. #Água #Engenhos

O “picanço” O picanço é um aparelho rudimentar, destinado a elevar a água dum poço para a superfície, normalmente com a finalidade de irrigar as plantações vizinhas. Originário da Mesopotânia e trazido para a Europa pelos árabes, o engenho com cerca de 5000 anos foi, até à chegada dos modernos sistemas de rega, abundantemente usado de norte a sul do país, constituindo um elemento característico da paisagem rural e testemunho histórico de indiscutível valor por ter contribuído de modo decisivo para a evolução da cultura de regadio. Utilizado um pouco por toda a parte de acordo com as necessidades, o mecanismo que pontua ainda hoje, com relativa frequência, os antigos terrenos agrícolas foi adquirindo diversas denominações particulares, compiladas pelo reputado etnógrafo português Leite de Vasconcelos na seguinte lista: balança, bimbarra, burra, burra-cega, burro, cambão, cavaleiro, cegonha, cegonho, gaivota, picanço, poço com vara ou poço armado, saragonha, varola, zabumba, zangarela. Conhecido regionalmente por “picanço”, o mecanismo funciona como uma alavanca interfixa, que neste caso permite diminuir o peso do balde cheio de água, quando se puxa do fundo do poço. Consiste, de um modo simplificado, de um poste vertical enterrado no chão que é encimado por uma forquilha, onde se coloca a vara que gira livremente num eixo de ferro. Esta vara tem fixa numa das extremidades um contrapeso constituído por uma ou mais lajes de pedra, e no outro extremo uma outra vara, pendurada na vertical, fina e comprida, de acordo com a profundidade do poço e de modo a que possa ser segura entre as mãos. Esta tem por sua vez na ponta inferior uma argola onde se pendura o balde, tradicionalmente um caldeiro de lata. O contrapeso deve ser tal, que não seja muito custoso levantá-lo, quando se desce o balde vazio, até ao fundo do poço, mas que na situação inversa, seja suficiente para de facto ajudar a retirar o balde cheio de água do poço até à superfície. Na sua versão mais corrente o poste encimado pela forquilha é um simples pau de madeira com uma bifurcação na extremidade, mas na Beira Alta, onde existe uma abundante disponibilidade de pedra de grandes dimensões, usam-se a par da forquilha de madeira, um ou dois esteios robustos de granito que conferem maior estabilidade ao suporte e não têm o inconveniente de apodrecer quando em contacto com a terra húmida. S.P.

<<<<< ”Picanço”, Veigas, Junça. © Marta Soutinho

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9 de Março de 2013. #Oralidade #Adágios

“Quem não trabuca, não manduca! ___________________ § ditado popular

“Trabucar” é trabalhar. E “manducare”, em latim, é comer com as mãos – num tempo em que não se usavam talheres. Ou seja, quem não trabalha não come. S.P.

<<<<< ”Picanço”, Veigas, Junça. © Marta Soutinho

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10 de Março de 2013.

#Documentos #Literatura #N. Sra do Mosteiro # Festividades

A festa de N. Sra. do Mosteiro no “Malhadinhas” Espaço sagrado onde terá existido um conjunto monástico coevo da reconquista cristã e anterior à própria formação dos actuais aglomerados humanos, que serviu de necrópole na Idade Média, o “Planalto de Castela” seria abandonado nos séculos seguintes, até à reedificação da actual ermida em finais do século XV - início do século XVI, altura em que se instituiu o culto de Nossa Senhora do Mosteiro. A Capela, símbolo ancestral da devoção cristã situada na delimitação geográfica das povoações de S. Pedro do Rio Seco, Vale da Mula e Junça, converteu-se num dos mais significativos locais de devoção para as gentes da região, sendo a festa anual originalmente celebrada pelas três povoações no dia 10 de Agosto, de acordo com o Livro de Actas. Era também neste dia que decorria no local a feira de ano das três aldeias, ocasião relevante no contexto da organização da vida colectiva e economia local, instituida por alvará régio datado de 28 de Abril de 1819. Esta celebração anual perderia fulgor com a disputa acesa das aldeias pela propriedade da Ermida e o direito exclusivo de realizar a festa de Nossa Senhora do Mosteiro, que terminaria com a integração da capela no território pertencente à freguesia da Junça. O livro “O Malhadinhas” de Aquilino Ribeiro, por ventura, o mais genuíno dos escritores da Beira Alta, que soube descrever como ninguém os aspectos etnográficos próprios da região, relata a história de um almocreve, que viaja de terra em terra procurando no comércio um sustento errático que não dispensa a trapaça deliberada e muitas vezes anda par e passo com a briga e a zaragata esporádica. A passagem aqui apresentada retrata a história rocambolesca da sua passagem pela feira de Nossa Senhora do Mosteiro, que ao contrário do seu livro, considerado a mais perfeita novela picaresca em língua portuguesa, não conseguiria sobreviver ao tempo. S.P.

<<<<< § Passagem de “O Malhadinhas” relativa à feira de N. Sra. do Mosteiro in: Aquilino Ribeiro, “O Malhadinhas” (1922); Bertrand Editora, Venda Nova; 1996; pp.112-114. disponível em: issuu.com/junca.web/docs/malhadinhas

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11 de Março de 2013.

#Arquitectura #Arquitectura Popular #Pombais

§ Pombal, Feiteira, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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12 de Março de 2013.

#Arquitectura Popular #Arquitectura #Emparedamentos

Os muros são construções de pedra, que individualizam a propriedade e que determinam os terrenos, a fim de evitar que sejam invadidos por animais, para além de proporcionar a arrumação de pedra solta que impede o amanho da terra. A despedrega foi um facto necessário para a obtenção de solo cultivável e contribuiu, paralelamente, para a construção de muros, muretes e abrigos. No entanto, situações houve em que a pedra era trazida, em carros de bois, de outras pedreiras. Nas propriedades, as pedras maiores eram transportadas para o local de construção por meio de rastras ou corsas, as quais eram puxadas por animais jungidos, sendo as pedras mais pequenas transportadas em padiolas e suportadas, a pulso, por dois ou mais homens ou em carretas. Uma parede inicia-se com a colocação de um baraço, que se ata a duas pedras que se encontram nas respectivas extremidades, a fim de se proceder ao alinhamento dos alicerces, quando os há, bem como das respectivas paredes. Os muros podem ser feitos por pedreiros ou por outras pessoas com alguma habilidade. Na generalidade, os muros eram construídos por duas pessoas, as quais operavam uma de cada lado, trabalhando a menos experiente do lado de dentro. Estes construtores eram ajudados por um terceiro ou quarto elementos, os quais ajudavam a chegar a pedra, distribuída no decorrer do alinhamento. Na ausência destes, eram os pedreiros que iam buscar a pedra e a colocavam. Estas pessoas trabalhavam o dia inteiro, de sol a sol. Na construção, o pedreiro usa como utensílios a marra, o pico, a maceta e o ponteiro. Os emparedamentos que se efectuam dependem da capacidade económica do proprietário, do tipo de pedra existente, da modelação do terreno e da respectiva localização, bem como da qualidade da terra e da habilidade construtiva do pedreiro. Uma propriedade murada possui um valor superior e pertence, geralmente, a pessoas abastadas ou com algum valor económico, pois os mais pobres raramente possuem propriedades “tapadas”, visto que não têm posses para as murar. Os muros possibilitam assim, uma diferenciação de espaços e, paralelamente, de classes sociais, já que o simples erguer de uma parede era por si só um acto de privacidade, distinguindo-o das áreas circundantes.” ___________________ § José A. Nobre, “A demarcação da propriedade e os emparedamentos” in: Revista Brigantia, Vol. XXVI, nº1/2/3/4, Jan-Dez 2006; pp. 702-704. >>>>> em cima: Vista da Junça, Bajanca, Junça. © Marta Soutinho em baixo: Vista da Junça, Lancha Alta, Junça. © Marta Soutinho 62

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30 de Março de 2013.

#Festividades #Quaresma #Páscoa

“A Semana Santa era, tradicionalmente comemorada com confissões, sermões, procissões e actos litúrgicos, pelo que as lojas de comércio e os serviços públicos fechavam, por serem “férias divinas”, só reabrindo na “segunda-feira dos Prazeres”. Concretamente, no “domingo de Ramos”, procedia-se à benção dos raminhos de oliveira, posteriormente colocados num qualquer lugar da casa para afugentar as trovoadas.

Mas, o que mais tocava o sentido religioso era o “encontro” de Jesus e de sua Mãe, no caminho do “calvário”, um conjunto de três cruzes postadas, por regra, na periferia da aldeia. Disseminadas pelas ruas, ainda se podem ver outras “cruzes” da Via-sacra, talhadas em granito da região, mas infelizmente em muitos casos destroçadas. Deveriam ser preservadas. No “Domingo de Páscoa”, os padrinhos davam o bolo ou ovo cozido colorido aos afilhados, recebendo em troca, um beijo na mão, com o pedido “deite-me a sua benção”!” ___________________

§ João Marinho dos Santos, “O Concelho de Almeida. Esboço Histórico-Sociológico.”, Palimage Editores e Centro de História da Sociedade e da Cultura, Viseu, 2005, p.232.

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15 de Março de 2013.

#Cantares #Festividades #Quaresma #Páscoa

A morrer crucificado Teu Jesus é condenado Por teus crimes, pecador. [bis]

Das matronas piedosas, De Sião filhas chorosas é Jesus consolador. [bis]

Com a cruz é carregado E o peso acabrunhado Vai morrer por teu amor. [bis]

Terceira vez cai prostrado Com tanto peso esmagado Dos pecados e da cruz. [bis]

Com madeiro oprimido Cai Jesus desfalecido Pela tua salvação. [bis]

Dos vestidos despojado Todo chagado e pisado Eu vos vejo, meu Jesus. [bis]

A sua Mãe dolorosa No encontro lastimosa Na mais viva compaixão. [bis]

Nessa cruz por mim morreste Por meus crimes padeceste Oh! que grande a minha dor. [bis]

Em extremo desmaiado do Cireneu obrigado Aceita confortação. [bis]

Meu Jesus, por vossos passos Recebei em vossos braços Este grande pecador. [bis]

O seu rosto ensanguentado Por Verónica enxugado Contemplemos com amor. [bis]

Da dura cruz Vos tiraram E à Mãe vos entregaram Com que dor e compaixão. [bis]

Outra vez desfalecido Pelo madeiro abatido, Cai em terra o Salvador. [bis]

No sepulcro vos deixaram Sepultado vos choraram Magoado o coração. [bis]

§ Nos domingos, durante a Quaresma, após rezar, canta-se pelas 14 estações da Via-Sacra. cedido por: Joaquina Monteiro

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10 de Março de 2013.

#Arquitectura #Arquelogia #Sta. Maria Madalena #Gliptografia

Siglas de pedreiro As marcas de canteiro ou siglas de pedreiro foram utilizadas principalmente durante a Idade Média e Renascimento, sendo comuns em castelos, igrejas, palácios, pontes, fortificações e outros edifícios e estruturas que pela sua envergadura e significado requeriam o trabalho especializado de um ou vários mestres pedreiros. Segundo a opinião dominante, estas marcas destinavam-se a identificar a autoria do trabalho, de forma a determinar o valor a pagar a cada canteiro, enquanto que outras marcas, normalmente colocadas na parte não visível da pedra, destinavam-se a indicar a posição em que esta deveria ser colocada na obra. As siglas eram, na sua maioria, a marca identificativa do mestre que tinha a seu cargo um conjunto de aprendizes, e raramente do empreiteiro ou encarregado da obra. Participavam ainda, não raras vezes, na construção de edifícios religiosos e civis um grupo indiferenciado de trabalhadores não especializados que colaborava na construção de edifícios religiosos, civis e muralhas. No seu estudo “As Siglas Medievais de Almeida”, Augusto Moutinho Borges identifica na região de Riba Côa sessenta e uma siglas diferentes, distribuídas entre letras e símbolos baseados em linhas rectas ou curvas simples. Podemos encontrar estas siglas em algumas estruturas significativas como os castelos de Almeida, Castelo Bom e Castelo Rodrigo, Castelo Melhor… mas também nas igrejas de pequenas localidades como a Junça e São Pedro do Rio Seco. Refira-se ainda que na região, ideologicamente, os mestres pedreiros só gravavam siglas nos elementos de granito. No que diz respeito à Igreja Paroquial da Junça, de origem românica, as marcas de canteiro são particularmente abundantes na fachada norte, onde se podem distinguir com facilidade três símbolos distintos, permitindo-nos formular a hipótese de que na construção só deste pequeno troço do edifício participaram pelo menos três mestres pedreiros com as respectivas equipas de trabalho. S.P. <<<<< § Siglas de pedreiro, fachada norte da Igreja Paroquial da Junça. retirado de: Augusto Moutinho Borges, “As Siglas Medievais de Almeida” in: Beira Interior, História e Património, Guarda, 2000, pp. 315-330

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14 de Março de 2013.

#Oralidade #Pecuária

§ Vaca, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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“Amancornar ____________

§ “atar uma vaca dos cornos à pata dianteira, para que não fuja do lameiro.”

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17 de Março de 2013.

#Pintura #Paisagem #Pastorícia

§ em cima: Vista da Junça (Caminho dos Chões), óleo sobre tela, Isabel Valeroso, 2002.

>>>>> A “Maria das Cabras”, Vinhado, Fevereiro de 2013. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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19 de Março de 2013.

#Gente da Junça #Pastorícia #Pecuária

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22 de Março de 2013.

#Oralidade #Expressões Populares

“Estarmarrana! a emprenhar a ___________________ § expressão popular

Quer dizer literalmente: Estar a engravidar a porca! Utiliza-se para constatar a incompetência de alguém a respeito de dado serviço. Diz-se de um indivíduo que está a fazer um trabalho improdutivo, apenas com o intuito de passar tempo ou aparentar que faz algo. S.P.

<<<<< As cabras da Maria, Vinhado, Junça. © Marta Soutinho

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21 de Março de 2013.

#Documentos #Paróquia

Lugar Principal

Concelho

Bispado

Senhorio / Donatário

Adem Aldeia Nova Almeida Amoreira Azinhal Cabreira Castelo Bom Castelo Mendo Freineda Freixo Junça

Castelo Mendo Castelo Mendo Almeida Castelo Mendo Castelo Mendo Castelo Mendo Castelo Bom Castelo Mendo Castelo Bom Castelo Mendo Almeida

Viseu Viseu  Viseu Viseu Viseu Lamego Viseu Lamego Viseu Lamego

Leomil Malhada Sorda Malpartida Mesquitela Mido Miuzela

Castelo Mendo Vilar Maior Castelo Rodrigo Castelo Mendo Castelo Mendo Castelo Mendo

Viseu Lamego Viseu Viseu Viseu

Monte Perobolso

Castelo Mendo

Viseu

Nave de Haver Poço Velho Naves Parada

Vilar Maior Vilar Maior Castelo Bom Castelo Mendo

Lamego Lamego Lamego Viseu

Peva Porto de Ovelha S. Pedro do Rio Seco Senouras

Castelo Mendo Castelo Mendo Castelo Bom Castelo Mendo

Viseu Viseu Lamego Viseu

Vale de Coelha Vale da Mula Valverde Vilar Formoso

Almeida Pinhel Castelo Bom

Lamego Viseu Lamego

Duque de Lafões Era d'el-rei Casa do Infantado Era d'el-rei Comenda de S. Pedro Era d'el-rei Era d'el-rei Marquês do Louriçal Era d'el-rei Casa do Infantado Cónegos Agostinhos de Roncesvalles Era d'el-rei Era d'el-rei Era d'el-rei Era d'el-rei Comenda de S. Vicente de Fora Comenda do Duque de Cadaval D. Teresa de Osório Era d'el-rei Era d'el-rei Era d'el-rei, Comenda de Sta Cruz Era d'el-rei Era d'el-rei Era d'el-rei Universidade de Coimbra e Cónegos Agostinhos de Coimbra Casa do Infantado Conde de Vila Nova Era d'el-rei

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25 de Março de 2013.

#Documentos #Santíssima Trindade #N. Sra. Mosteiro #S. Sancto Christo

Invocação

Localização

Observações

Sto. Cristo Sto. Cristo Sto. Cristo Sto. Cristo Sto. Cristo Sto. Cristo Sto. Cristo Sto. Cristo Cristo Crucificado Cristo Crucificado Senhor da Agonia Vera Cruz Sta. Cruz Santíssima Trindade Espírito Santo Espírito Santo Senhora do Rosário Senhora do Mosteiro Senhora das Neves

Castelo Mendo Freineda Junça Malpartida Nave de Haver Pailobo (Parada) S. Pedro do Rio Seco Vale da Mula Freixo Vilar Formoso Almeida Azinhal Azinhal Junça Poço Velho Chavelhas - Peva Freineda Junça Malpartida

Fora de Muros Com irmandade numerosa Ao fundo do Lugar Em construção

Fora do Lugar Dentro da Praça Dentro do Lugar, com Sacrário Do meio do Lugar, com "olmo" No começo do Povo e estava em reedificação Próximo da Raia Particular Fora do Lugar, com eremita

continua...

§ em cima: “Concelho de Almeida. Ermidas em Meados do Séc. XVIII.” in: João Marinho dos Santos, “O Concelho de Almeida. Esboço Histórico-Sociológico.”, Palimage Editores e Centro de História da Sociedade e da Cultura, Viseu, 2005, pp.273-275. § ao lado: “Integração Administrativa em 1758 dos Lugares do Actual Concelho de Almeida” in: João Marinho dos Santos, “O Concelho de Almeida. Esboço HistóricoSociológico.”, Palimage Editores e Centro de História da Sociedade e da Cultura, Viseu, 2005, pp. 34-35.

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20 de Março de 2013.

#Poesia #Samuel Pinto #A Idade dos Passos

poema maior conheci o teu rosto quando nada sabia das letras e, contudo, sei de cor… da espessura dos dias que devolvias ao inverno mais ténue a cada história lançada ao lume; da história que brotava farta, que corria funda, pelos miles de ribeiros gravados na tua pele escura; cada verso desse poema crescendo maior na certeza da memória pétrea que era a nossa aldeia de afectos no teu sorriso ganapo… que era eu, afinal, estampado, e o meu sangue já sábio nas veias do teu corpo enxuto de mulher sentada ao tempo num “barroco” da Beira.

§ Samuel Pinto in: a idade dos passos, 2013. à Tia Clotilde por ocasião do centenário do seu nascimento

<<<<< Barroco da Albarda, Feiteira, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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23 de Março de 2013.

#Arquitectura #Arquitectura Popular #Pastorícia

§ Abrigo de Pastor, Feiteira, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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23 de Março de 2013.

#Arquitectura #Arquitectura Popular #Pastorícia

Os abrigos de pastor Dispersos pelas agrestes serras do Norte de Portugal e da Galiza existem pequenas construções em pedra que servem de resguardo aos pastores das agruras do tempo, proporcionando um abrigo seguro, ainda que escasso, da chuva, do frio, da neve ou do granizo que ocasionalmente visitam o homem na sua actividade diária. Dentro deles podem recolher-se também nos momentos mais calmos do pastoreio, comendo o magro farnel que trouxeram de casa. Pastor, cães, saco do farnel, um ou outro borrego ou cordeirito mais frágil têm lugar naqueles casebres, engenhosamente fabricados somente com a habilidade destes homens. Na Beira Alta são feitos com pequenas pedras de granito, naturalmente a rocha mais abundante e característica desta região. Estes abrigos, que também servem os propósitos dos agricultores, podem assumir formas e tamanhos diversos, aproveitando sempre que possível a morfologia particular do terreno ou das formações graníticas, segundo um princípio de economia de meios, como é o caso dos abrigos que podemos ver na zona da Feiteira (Junça), habilmente construídos na base de um barroco. Outras vezes é o próprio barroco isolado, que serve de abrigo improvisado, adquirindo denominações peculiares de acordo com a sua forma ou função, como acontece com o “Barroco da Albarda”. Quando construídos de raiz são, regra geral, pequenos, cumprindo apenas com a finalidade com que foram projectados, dotados de uma só porta e eventualmente alguns orifícios que servem de frestas, e cobertos por uma cúpula falsa. Na sua simplicidade e silhueta elegante constituem um exemplo perfeito de integração harmoniosa na paisagem, e um testemunho da relação íntima e ancestral que os homens da Beira mantêm com a Natureza e a actividade da pastorícia. S.P.

>>>>> Abrigo de Pastor, Feiteira, Junça.

© Marta Soutinho e Samuel Pinto

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26 de Março de 2013.

#Jogos #Arqueologia #Gliptografia

O jogo do Castro Introduzido na Península Ibérica pelos muçulmanos a partir do século VIII o Alquerque ou Qirkat teve grande difusão ao ponto de ter sido alvo de análise no manuscrito “Libros de Ajedrez, dados y tablas” ou “Livro dos Jogos” do rei Afonso X, o Sábio (1251-1382). Fruto do espírito de universalismo e liberdade religiosa do monarca, que ficou conhecido na história pela sua elevada cultura, rodeando-se dos principais estudiosos cristãos, judeus e muçulmanos do seu tempo, surgem compilados nesta obra os jogos mais populares da época. O manuscrito, cujo original se encontra na Biblioteca de Filipe II no Mosteiro de S. Lourenço do Escorial apresenta as regras originais e algumas das variantes do jogo do alquerque, bem como diversas ilustrações que, de forma exemplar, retratam cenas de partidas disputadas entre vários adversários. Em Portugal, o jogo conhecido por várias denominações locais como “jogo dos pocinhos” ou “jogo do algarve” disseminou-se sobretudo pelo sul do País (Alentejo e Algarve) que permaneceu por um longo período sob a influência cultural islâmica, sendo ainda hoje jogado. O tabuleiro gravado num afloramento rochoso, no lugar do “Crasto”, na Rua de Entre Hortas (Junça) corresponde a uma variante do jogo original, denominada na literatura de “alquerque dos nove” ou “jogo do moinho” e conhecida popularmente por “crasto” ou “castro”, nome pelo qual ficou conhecido na Espanha durante a Idade Média. Durante a Idade Moderna o tabuleiro do “alquerque de nove” aparecia frequentemente no revés dos tabuleiros de xadrez.

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em cima: Alquerque de nove ou Castro, Lugar do “Crasto”, Junça. ao lado: Alquerque de nove, Iluminura, “Livro dos Jogos” de Alfonso X, o Sábio, Espanha, 1273.

Ao contrário do alquerque tradicional, que se joga com vinte e cinco casas (cada jogador dispõe de doze peças ficando uma casa livre no centro) e cujo objectivo consiste de modo semelhante às damas em eliminar as peças do adversário, no “alquerque de nove” ou “castro” cada jogador vai dispondo alternadamente as nove peças que possui, na versão original pedras de diferente cor. O objectivo consiste em colocar três peças da mesma cor em linha, momento a partir do qual se poderá comer uma peça do rival. Quando um jogador ficar apenas com duas pedras ou impossibilitado de realizar qualquer movimento perderá a partida. Segundo o códice afonsino a partida pode jogar-se com dados ou sem eles, sendo que a utilização dos mesmos serve apenas para determinar a inserção das peças no tabuleiro. O sistema dos dados é algo confuso, mas de maneira simplificada sempre que um jogador obtém as combinações 6-5-4, 6-3-3, 5-2-2 ou 4-1-1 poderá colocar três fichas de uma assentada sobre o tabuleiro, o que lhe dá o direito de capturar uma peça do adversário. Caso consiga formar duas linhas com as peças que já se encontram no tabuleiro poderá retirar duas fichas do adversário. Se os dados fornecerem outras combinações apenas se colocará uma peça sobre o tabuleiro. Uma vez que os dois jogadores tenham utilizado todas as suas pedras, os dados serão postos de lado e o jogo prossegue de forma habitual, até que algum ganhe. S.P. O BLOG DA JUNÇA | FEVEREIRO DE 2013 - MARÇO DE 2013

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24 de Março de 2013.

#Pastorícia #Gente da Junça #Pecuária

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27 de Março de 2013.

#Oralidade #Jogos #Lengalengas

“catena, una, dona, tena, cigarra,

migalha, calhapís, calhapés, conta bem, que são dez! ___________________ § lengalenga infantil

Utilizada pelos miúdos para contar durante as brincadeiras, como o jogo das escondidas e espada-lua. S.P.

<<<<< “Zé Carlos” Jacinto e o seu rebanho, Fevereiro de 2013, Junça. © Marta Soutinho e Samuel Pinto

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28 de Março de 2013.

#Pecuária

§ As vacas do Zé Santos, Rua do Ribeiro das Nogueiras, Fevereiro de 2013. © Samuel Pinto

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31 de Março de 2013.

#Vinho #Arquitectura #Arquitectura Popular

§ Lagar, Vinha da Cega, Junça. © André Pinto

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31 de Março de 2013.

#Vinho #Arquitectura #Arquitectura Popular

<<<<< Lagar, Vinha da Cega, Junça. © André Pinto

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© Junça, Julho de 2013

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CAPELA DE N. SRA. DO MOSTEIRO • «SE APARECE ALGUM PISTOLA QUE TE APERE AS NALGAS!» • ASPECTOS DA ARQUITECTURA POPULAR: VÃO E PORTA DE ENTRADA • «SOU PATRIOTA GENIAL!» • MANUEL FERREIRA, TERESA DE JESUS ALMEIDA E FILHOS • TODAS AS PALAVRAS • AS MATANÇAS • «QUIS CONSTRUIR UM CASTELO» • «ISSO NÃO É NENHUM NARIZ DE SANTO!» • RELATO DO CONFRONTO ENTRE AS TROPAS DE SIR WILLIAM ERSKINE E O 9º CORPO DE INFANTARIA • TESTEMUNHOS DAS INVASÕES FRANCESAS •OFÍCIO DO TN. LORD VISCONDE WELLINGTON • RESINEIRO ENGRAÇADO • CENSO DE 1890 • PESCA NO RIO CÔA • «NEM XÔ, NEM ARRE, NEM BURRO SE QUERES PALHA!» • CARTA GEOLÓGICA DE PORTUGAL • A FONTE DO VINHADO • DEBULHADORAS DE ADRIANO A. PINTO • «PÃO TORRADO NÃO FARTA MUCHACHO, E SE O FARTA MAL DO SACO!» • POMBAL DA TEIXOEIRA • LAGAR MEDIEVAL DO «VINHADO» • CEIFEIRAS • POMBAL DA TAPADA EIRA • ALQUERQUE DE TRÊS • DEBULHA • ADÁGIOS E ANEXINS CORRENTES NO DISTRITO DA GUARDA • CENSO DE 1900 • O «PICANÇO» • «QUEM NÃO TRABUCA, NÃO MANDUCA!» • A FESTA DE NOSSA SENHORA DO MOSTEIRO NO «MALHADINHAS» • POMBAL DA FEITEIRA • A DEMARCAÇÃO DA PROPRIEDADE E OS EMPAREDAMENTOS • SEMANA SANTA • «A MORRER CRUCIFICADO...» • SIGLAS DE PEDREIRO • «AMANCORNAR» • VISTA DA JUNÇA • A MARIA E O REBANHO • «ESTAR A EMPRENHAR A MARRANA!» • INTEGRAÇÃO ADMINISTRATIVA DOS LUGARES DE ALMEIDA (1758) • ERMIDAS DO CONCELHO DE ALMEIDA EM MEADOS DO SÉC. XVIII • POEMA MAIOR • OS ABRIGOS DE PASTOR • O JOGO DO CASTRO • «ZÉ CARLOS» JACINTO E O SEU REBANHO • «UNA, DONA, TENA...» • AS VACAS DO SÉ SANTOS • LAGAR DA VINHA DA CEGA

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"O BLOG DA JUNÇA" n. II  

Fevereiro de 2012 - Março 2013. A revista compila os artigos do blog: www.junca.tumblr.com

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