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A Revista A Revista Cruviana é uma produção independente que conta com o apoio da editora Sarau das Letras. A proposta é semestral, sendo uma edição impressa a cada cinco publicações. Os contos enviados são submetidos a um conselho editorial, formado por uma equipe de parceiros com experiência literária. A edição, diagramação e publicação são de responsabilidade de seu organizador. O objetivo da Revista Cruviana é aproximar contistas, demais escritores e outros artistas, de modo que os mais conhecidos sirvam de apoio aos estreantes. Todos os envolvidos são convidados a fazer parte da divulgação da ideia através das redes sociais, mailing e outros meios, virtuais, ou não.

Responsabilidade O editor da Revista Cruviana é isento de toda e qualquer informação que tenha sido apresentada de maneira equivocada por parte dos autores aqui publicados, bem como de possíveis práticas ilícitas como plágio e outras. Organizador: José de Paiva Rebouças (Jornalista, articulista e poeta) Revisão: Regiane Santos Cabral de Paiva (Professora de língua e literatura espanhola da UERN) Comissão editorial: • Clauder Arcanjo (Escritor e editor) • David de Medeiros Leite (Doutor em Direito pela Universidade de Salamanca/Espanha, escritor, editor e professor da UERN) • Carlos Gildemar Pontes (Escritor, ensaísta, editor e professor de literatura da UFCG) • Raimundo Leontino Filho (Escritor, poeta, ensaísta; doutor em literatura é professor da UERN). Contato revistacruviana@gmail.com www.revistacruviana.blogspot.com


A arte ĂŠ um dos meios que une os homens. Leon Tolstoi


www.revistacruviana.blogspot.com


‘~ A Deusa do vento “Cruviana”, transforma-se em mulher sedutora e, de madrugada, chega de mansinho e seduz o forasteiro, que deitado em sua rede, deixase levar pelo encanto da brisa fria e, ao despertar com os primeiros raios do Sol, tem a nítida sensação de estar apaixonado. Mal sabe ele que essa paixão não é só pela Cruviana, mas também pelos encantos que a Terra de Makunaimî possui~’ Gabriela Makuxi Terra Indígena São Marcos (Boa Vista/RR).


ÍNDICE 19

Oscarina José de Paiva Rebouças

Homenagem O calção vermelho 25 Yvonne R. de Miranda Convidados O inferno

33 Walter Moreira Santos Sinais

45 Clauder Arcanjo través 49 De Raimundo Leontino Filho Em nome do pai

52 Carlos Gildemar Pontes O amor de Alencar

55 Mário Gerson

O colecionador de guarda-chuvas 58 David Medeiros Leite Álibe

63 Lilia Souza


Colaboração internacional Marga

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Pedro García Lavin

73

Carla Duarte

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Confissão O homem batata-frita Regiane Santos Cabral de Paiva

3ª tomo

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A cor dos olhos Maria da Glória Jesus de Oliveira

Um segundo e meio

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Alexandre Cunha dos Santos

89

Arlete Mendes

Devoção

93

Sidney Summers

96

Gustavo Nishida

Acre cheiro da morte A sobrinha de Mário Prata Ascenção e queda do corpo

99

Joaquim Dantas

101

Raoni G. Henrique

Ecos de uma vida

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7


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Nove anos Tobias Goulão

4ª tomo

108

Janaína Eliana Klas

A viagem

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Ieda Leones Nascimento

113

Pedro Fernandes de O. Neto

Entrelugares Isso é guerra

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Sidileide Batalha do Rêgo

128

Elilson José Batista

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Ser tão resistência A filha do policial Anchieta Rolim

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editorial

Acerca da quinta edição A Revista Cruviana mantém vivo o seu projeto inicial de juntar talento e experiência. Reunindo contos de diversas partes do Brasil, de Portugal e Argentina, o projeto sustenta a sua universalidade. Nesta quinta edição, os contos de escritores consagrados como Olga Savary, Walter Moreira Santos, Gildemar Pontes entre outros, se encontram com os novos talentos das letras brasileira e estrangeira, provando que não pode haver fronteira entre a literatura e o livre pensamento. Apenas na quinta edição, conseguimos a participação do poeta e escritor Raimundo Leontino Filho. Mesmo fazendo parte CRUVIANA

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de nosso Conselho Editorial desde o início, Leontino resistiu sob algumas justificativas. Apontou-nos apenas três contos, nos permitindo a publicação de um deles. Não é verdade que o poeta tem limitação para a prosa de ficção, mas é nítido o traço poético em cada frase, sentença e pensamento construtivo da trama. Um dos destaques deste projeto é o resgate de um texto da escritora mossoroense (RN) Yvonne R. de Miranda. “O calção vermelho (Argus, 1987)”, título que também deu nome ao livro de contos, revela a magnitude de uma escritora que sumiu das vistas potiguares, mas que continua inevitavelmente atual. Publicada no Rio de Janeiro, Yvonne se destacou na década de 1980, com uma série de trabalhos impressos despertando interesse de muitos críticos, entre eles Elói Pontes, do jornal O Globo. A apresentação de seu trabalho é feito aqui na Revista pelo conselheiro editorial David Medeiros Leite. Destacamos novamente a participação do escritor pernambucano, de Vitória de Santo Antão, Walter Moreira Santos, ganhador de mais de 100 prêmios literários, entre eles o José Mindlin e, atualmente, o Pernambuco de Literatura. Sua colaboração é mais uma prova da seriedade depositada no projeto Cruviana. Na mesma dimensão, agradecemos a sempre disposição de Carlos Gildemar Pontes, também ganhador de diversos prêmios literários e que, embora seja cearense, entra aqui como representante da Paraíba, por sua atuação como professor de literatura da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), campus de Cajazeiras/PB. Além deles, temos ainda a participação da escritora Maria da Glória Jesus de Oliveira (RS), dos primos Roni e Tobias Goulão (GO), Lilia Souza (PR), Alexandre Cunha (RJ), Ieda Leones e Sid Summers (BA), além de Arlete Mendes e outros escritores de São Paulo. Importante citar ainda a participação de Carla Duarte (Portugal) e do excelente poeta e contista argentino Pedro

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García Lavin, que desde o início tem nos presenteado com verdadeiras obras primas da literatura portenha. Nesta edição, ele ganha duas publicações, sendo uma inédita em língua espanhola, e uma tradução realizada pela professora de Literatura Hispanoamericana, Regiane Santos Cabral de Paiva. Queremos ainda fazer referência aos escritores potiguares: Mário Gerson (Mossoró), Pedro Fernandes, Joaquim Dantas e David Medeiros Leite (Natal), além de outros colaboradores de outras partes do Rio Grande do Norte, representados aqui pelo agitador cultural Elilson José Batista. Por último, nosso agradecimento pela colaboração como contista e participação direta como editor, ao escritor Clauder Arcanjo, entusiasta deste projeto ao lado de David Leite, através da editora Sarau das Letras. Acreditamos ter realizado nesta quinta edição mais um feito em favor da ficção brasileira, por permitir esse encontro intercontinental da nova literatura, permitindo aos leitores uma versão do mundo a partir da visão atual dos autores impressos nas páginas da Revista Cruviana. Sobre a capa A fotografia da capa da quinta edição da Revista Cruviana foi tirada na Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador (BA). A cadeira do escritor vazia, representa o espírito poético que habita em cada um de nós. José de Paiva Rebouças Organizador

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homenagem

Yvonne Rêgo de Miranda A revista Cruviana, com a publicação do conto “O Calção Vermelho”, extraído do livro homônimo, de autoria de Yvonne Rêgo de Miranda, resgata, de um inexplicável esquecimento, o nome dessa mossoroense cuja farta produção literária é praticamente desconhecida por estas paragens. O único registro que encontrei sobre Yvonne foi no livro Presença da Mulher na Literatura do RN, organizado por Zelma Bezerra Furtado e Kacianni de Sousa Ferreira, publicado pela Academia Feminina de Letras do RN. É bem verdade que Yvonne publicou seus livros no eixo Brasília-Rio de Janeiro. Mas, mesmo assim, causa-me espécie nunca CRUVIANA

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ter sido citada ou comentada por nossos curiosos pesquisadores. E foram muitos livros, em vários gêneros: conto, crônicas, memórias... Tive o privilegio de ler três deles: Homens e Fatos da Constituinte de 1946 (Argus, 1982); Através da Europa - Farofeiros Internacionais (Argus, 1986), e O Calção Vermelho (Argus, 1987). O primeiro deles constitui-se importante registro histórico; já o segundo contém deliciosas e bem humoradas crônicas de viagens, e do terceiro é de onde se extraiu o conto aqui publicado. Também merece registro que a sempre solícita pesquisadora Conceição Medeiros é uma potiguar que possui considerável material sobre Yvonne. Pedi sua permissão para transcrever um parágrafo de uma carta, datada de 2009, que Conceição recebeu de Yvete, irmã de Yvonne. A missiva termina assim: Ia esquecendo uma coisa que não só para Yvonne mas para todos nós seus irmãos (que infelizmente agora somos só dois) tem um grande valor. O amor que nossa querida mãezinha nos falava desde quando éramos crianças. Que Mossoró foi em sua vida ‘um pedacinho de céu na terra’. Ali nasceram os seus filhos, Yvonne, Yvan e Yolanda. Eu já nasci em Natal e Yêddo nasceu no Rio de Janeiro.

Enfim, Yvonne Rêgo de Miranda, escritora nascida no chão de Mossoró, merece nossa atenção. David de Medeiros Leite Conselho Editorial da Revista Cruviana

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Foto: Ana PĂŠrola Pacheco

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oscarina

José de Paiva Rebouças Sentada na salinha pequena, Oscarina vê a missa na televisão, algo nunca imaginado antes quando o rádio era a única tecnologia para seus ouvidos. Interage, toca na tela e sussurra como no tempo em que conversava consigo mesma. Estendia ao rádio as respostas para ela mesma no hiato da solidão tardia. No meio do mato na serra azul, vivera seus últimos momentos de lucidez razoável. Seu juízo fora atingido pela manivela da cacimba que ainda antes da meia idade a botara no chão. Dizem que desde esse tempo, ela esqueceu-se do óbvio e se prendeu nas lembranças de algum passado. Passou a percorrer a lista interCRUVIANA

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minável dos filhos até lembrar-se do nome que quer chamar. Faz isso também com os netos. A hora mais tarde que dormia antes era às 21h, quando na serra já é quase madrugada. Fora isso, só quando, por ventura ia a um enterro de algum conhecido ou parente. O seu filho Pedro, morto drasticamente na explosão de um balde de combustível. Incendiou quase vazio, mas o queimou por inteiro. Todos sofreram e trazem, até hoje, a lástima da dor. Talvez ela ainda se lembre dele, porque quando perdeu o filho mais velho para o álcool, já não lembrava mais e perguntava aos que rodeavam o caixão: quem era? Enviuvou cedo, aos 76. Era cedo porque foi isso que lhes disseram. O marido tinha a mesma idade que ela. Não se conversavam muito, mas viveram juntos para sempre. Dois vaqueiros cuidando do gado e dos filhos com o mesmo intento e devoção. Todos com nome de gente. Todos amados de maneira mais primitiva a que, possivelmente, seja a mais real. Sentada em frente da televisão na pequena sala vazia, não estranha a solidão das moscas. Elas, antes talvez, tivessem tido mais espaço para seus ouvidos. Agora, no entanto, são apagadas pelo barulho que vem da rua na pequena cidade, lugar que quase não ia quando a serra era seu único mundo: a casa grande – primeiro a da estrada, depois a do armazém – a cacimba, os currais, as aroeiras, os pereiros, as ovelhas, as vacas e o vazio dos caminhos. Ela, pequena e magrinha em seu vestido acinturado, movia-se como quem tem pressa. Pressa do fogo e do fogão a lenha. Pressa do sol que se espreguiça cedo, mas dorme no mesmo ritmo e deixava tudo um breu, na dependência da lamparina. Se o padre manda, ela levanta; se reza, ela obedece. O resto são elucubrações, devaneios e incertezas daquilo que lhe conduziu até agora. Deste tempo que não imuniza as carnes, nem a linha tênue da memória.

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Oscarina nasceu no mato há mais de 90 anos. Cresceu junto com as pedras que enfeitavam o seu quintal. A casa pequena e escura lembrava uma construção medieval. Foi ali aonde ela veio ao mundo junto a vários irmãos. Foi lá também que se deixou interessar por seu primo, que se casou com ele e passou a seguilo como retirante, de lugar em lugar, de filho em filho. Perderam dois no nascimento, mas criaram o resto. Também criaram muitas vacas e cortaram muitas terras. Depois perderam mais um filho e tiveram de criar seus netos. Ele morreu e ela ficou na companhia do tempo que lhe estendeu o prazo da vida. Deixou-a para sempre esquecendo o que fora ou o que fizera. Um dia, Oscarina teve um sonho confuso e distante daquilo que tinha à mão. Sonhou que caminhava em passos firmes para um rumo desconhecido. Como se não tivesse escolha, andava sem parar, ao mesmo tempo em que atravessava situações distintas e estranhas para a sua alma. Continuava chamando-se Oscarina, mas as ações realizadas na estrada lhe fazia pensar ser, de uma só vez ou de muitas maneiras, ela mesma e outras três pessoas. Tudo isso estava no ritmo da caminhada, ação frenética e meio atormentada. Luzes cortando as lembranças e ações. Mudanças de planos e diegese. Ela transfigurava-se instantaneamente em suas personalidades como se pudesse escolher seguir uma das vidas propostas. Primeiro se viu nascendo no mesmo lugar, no entanto ela era filha de um de seus filhos. Nascera na pele de uma neta e seguia perdida como ela mesma. Um pouco pior, talvez. Com menos recursos, via as pedras devorarem sua meninice e a ausência de ação levá-la por um percurso mais incerto do que o que caminhava agora. Não teve a chance de se apaixonar, embora também tivesse caído nos braços dos primos. Mas cometera os erros que ela mesma jamais cometera. Tivera quase tantos filhos CRUVIANA

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quanto, mas só criara alguns. Oscarina não daria seus filhos a ninguém, os criaria com barro se fosse o caso, porém, nesta nova pele não tinha escolha. Uma angústia de fome e sede sugara-lhe as palavras e o pranto lhe enrijeceu a garganta. Uma dor no palato. As narinas inchadas e as lágrimas sugando-lhe o resto de ar. Uma mão forte lhe acarinhou as costas. Virou-se de súbito e encontrou-se consigo mesma, mas já sendo outra. Agora tinha mais idade e mais propósitos. Estava diferente do que se conhecia, era rechonchuda, sem ser gorda, bem parecida, com a personalidade que assumira anteriormente, a que acabara de abandonar. Poderia seguir marchando à lira dos 20 anos. Tinha-lhe lembranças tão duras quanto, contudo parecialhe mais emergente para as mudanças. Não vinha da serra, não diretamente, mas tinha as mãos duras e o pescoço grosso. Vestia calças e partia de outro lugar. Não tinha tempo para os amores efêmeros e dava o que tinha para concluir a universidade. Sim, ela se permitira ir além das possibilidades, da limitação da pobreza moral e seria uma entre poucos. Não saberia do futuro porque o tempo lhe permitia o desinteresse, mas talvez tivesse filhos, filhos melhores e mais saudáveis, filhos que iriam à escola. Tudo parecia melhor e Oscarina sorriu levemente. Algo lhe permitia escrever de novo sobre as linhas tortas. Escreveu seu nome uma, duas, três vezes, foi aí que se deu conta que algo novamente estava diferente. Oscarina agora se assinava como Oskarine e o fazia desvairadamente. Tinha diversos documentos que precisava de seu nome. Era agora funcionária pública. Tinha estudado e se tornado assistente administrativa de uma grande universidade. Era bonita e se parecia mais com ela mesma, pelo menos caberia nos vestidos acinturados. Estava em um relacionamento sério e expunha na mesa uma foto com uma criança. Possivelmente seu filho, não tinha certeza. Caboclinho marrento, bem a cara de seus

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filhos. Afeiçoou-se a ele rápido achando ser mesmo seu. Gostava agora dessa vida porque, por mais que a estrada se abrisse em sua frente, parecia segura, e não tinha que se preocupar com a falta de chuva. O dinheiro que ganharia com aquele trabalho deveria ser bem mais do que a pensão da Previdência que ganhava na velhice. Com tanto dinheiro, não lhe faltaria farinha e queijo, beiju e tapioca, nem resíduos para o gado. Talvez não precisasse vender as novilhas que lhe afeiçoara, as que respondiam pelo nome. Sorriu sozinha, mas sentiu falta de alguma coisa e começou a chamar pelo nome dos filhos, um a um, e das vacas, uma a uma, tentando encontrar o que procurava. Era possível que eles soubessem o que ela tanto queria. Resolveu deixar os papéis e retomar a estrada. Passou pela casa velha, pelos terreiros de louça e entrou nos currais. O cheiro era de neblina sobre o esterco. Revigorante. O matinho crescendo sob seus pés e o rádio cantando a Ave Maria. Um baralho velho adormecia sozinho na mesa cumprida e as moscas voltavam a lamentar o silêncio do dia. Um vento frio tingiu-lhe os cabelos e marcaram-lhe a pele com sulcos profundos. Ela abriu os olhos, levantou-se da cadeira, fechou a porta abafando o barulho da rua, voltou para a televisão, tocou a tela, fez o sinal da cruz e sentou-se novamente sem pressa como se nada tivesse acontecido.

JOSÉ DE PAIVA REBOUÇAS é de Apodi (RN), mas veio nascer em Mossoró (RN). É jornalista, poeta e escritor. Editor e organizador da Revista Cruviana, é também responsável pelo projeto Aspirinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). Escreve semanalmente a coluna Balada do Impostor (Jornal de Fato e Defato.com) e mantém coluna fixa no Substantivo Plural (www. substantivoplural.com.br).

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O calção vermelho*

Yvonne R. de Miranda** A porta foi aberta violentamente. Revólver nas mãos, olhos fixos nela, a hipnotizá-la. - Quieta, aí, vovó, se não qué se machuca! A expressão entre perversa, decidida e, paradoxalmente, inquieta, do rosto muito jovem, assustavam mais do que a própria arma. A velha e elegante senhora quis falar. Não encontrou a voz. Por quê? Indagou-se apavorada. Através do noticiário dos jornais, dos fatos, acontecidos frequentemente com pessoas conhecidas, já devia estar preparada para a violência. CRUVIANA

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- Velha, vai falando, sinão o pau vai comê e já! Onde tá os dola, a grana, os ouro? Precisava responder, obedecer ao jovem marginal. Era uma questão de vida ou de morte. - Nicão, fica aqui e dá um aperto nessa velha. Vou dá uma geral na casa. Tu aí, Pelezinho, dá uma espiada lá nos fundo... Jesus, precisava entregar logo tudo de valor que tinha em casa! Seria suficiente? O grosso já estava no cofre do banco. Talvez o que tinha, os satisfizesse... O principal era salvar Adriana. O bem mais precioso. Adriana que já devia estar deitada no segundo andar, linda no seu baby-doll... Sentiu um calafrio. Que iriam aqueles marginais fazer com “sua menina”? Levantou-se, disposta a seguir o primeiro que lhe falara e que já sumia na curva da escada. - Pára aí, velha do diabo, sinão te arrebento os miolos! O safanão fê-la cair novamente na poltrona. As pernas tremiam. Adriana tão linda, tão boa, tão caridosa! Que a matassem, mas não tocassem nela! Num salto ele estava diante da porta abeta, o 38 seguro pelas duas mãos, pronto para puxar o gatilho ante qualquer sinal de resistência. - Tu aí, moça, vai dizendo logo onde tá os dola, os ouro, a grana viva... Adriana deixou cair o livro, encarando o intruso, surpresa. Um assalto! E a vozinha? - Dipressinha, dona! Enfiou o robe e começou a juntar tudo o que havia de valor. Era pouco, não iria satisfazer o assaltante! Calças jeans velhas, tênis sujos, cabelos longos e despenteados, ele seguia atento os movimentos da moça. Deu um passo a frente.

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Ela, descontrolando-se momentaneamente, derrubou o vidro de perfume... Ele parou indeciso... Aquele cheiro... - João! João, ela chegou! Não esperou segundo aviso. Correu, o coração aos pulos. As outras crianças já se agrupavam em volta dela. Foi abrindo caminho até chegar junto da moça, sentir seu cheiro bom. - Oi, João, como vai? Está ficando um rapazinho hem? Sorriu totalmente. Com ela por perto, se derretia. Não era ele. Rude, Revoltado. Atrevido. Brigão. Era outro. Chegava a rir. Também, tudo mudava quando ela aparecia. Até os sacanas dos inspetores ficavam dando uma de bonzinhos. Sua mão! Como era macia! Por que ela não era sua mãe, sua irmã? Por que ele era um menino sujo das ruas, e estava sempre indo para ali, onde tudo era ruim, nojento? As bolas de gude, os doces, pequenas coisas que distribuídas por ela com carinho, tomavam um valor diferente para todos. Especialmente para ele. Ela. Sempre indagando, sempre interessada nos problemas de cada um daqueles meninos, acostumados a serem tratados como lixo. Na hora da saída, a cena que ele odiava. Sempre a mesma. - Tia, me leva. – Moça, me leva com você... – Não posso, queridinhos, vocês são tantos e eu uma só. Não tenho casa minha, moro com minha família... Compreendam. Eles não compreendiam. Resmungavam. Alguns. Mas até esses acabavam aguardando ansiosos aqueles momentos de alegria. A levavam até ao portão, disputando como cães sem dono – que eram – o prazer de segurar-lhe a mão, de ganharem um beijo de despedida. Uma vez por mês. Pouco. Mas representava alguns momentos de alegria para quem não tinha nenhuma. CRUVIANA

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Cochichos. Risinhos. Diz você... Eu não, diz você... E a decisão do companheiro pegando-o de surpresa: Moça, ele sonhou que a senhora deu pra ele um calção de banho vermelho. E bateu no Tonho pruque ele disse que isso era só sonhos de boboca... O rosto começou a queimar, como quando levara uma bofetada do inspetor. Avançou enfurecido para outro menino. – Mentiroso! Mentiroso! Tu me paga! O seguraram. Conseguiu desprender-se. Fugiu envergonhado sem olhar para ela. No dia seguinte pegou o outro de jeito. Ficou preso na cela escura dois dias. Mas passou a ser respeitado. Na outra visita dela não apareceu. Ela mandou procurá-lo. Queria falar com ele. Longe dos outros. Tinham lhe contado tudo. - Que bobagem, rapazinho. Fiquei contente que tivesse sonhado comigo. Tome isto, é para você. Beijou-o na testa e se foi. Abriu o embrulho tremendo. Era um calção vermelho, o mais lindo que já vira em sua vida! Um dia, tomou coragem. Dominou o orgulho. Deu um jeito de falar com ela. Longe de meninos e inspetores. Se ela lhe dera o calção, talvez... - Tia, me leva com você? Eu sou são... Sei trabaiá. Faço tudo que me manda. Me leva, sim? Ela passara-lhe a mão na cabeça, abraçara-o envolvendo-o naquele cheiro bom. - A tia não pode levá-lo, queridinho. Ela vai estudar num país muito distante daqui. Estava mentindo! Não o queria! Nunca mais pediria nada a ninguém! Deu-lhe um empurrão. Fugiu revoltado. Por que se rebaixara? Aquela dona era igualzinha a todos os filhos da p... que conhecia.

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Dias depois, no pátio, ouviu uma conversa do diretor. Ela ia mesmo estudar no estrangeiro. Arrependeu-se do empurrão. Ela não lhe mentira. Veio despedir-se de todos. Trouxe de presentes para eles a TV dela. Ficou olhando de longe, desconfiando. Envergonhado. Ela o chamou, levando-o para conversar à parte. Deu-lhe um abraço e prometeu. – Quando voltar, vou dar um jeito de tirá-lo daqui. Esperou. Sonhou. Esperou. Esperou. Cansou. Nunca mais a vira. Com ela foram os últimos momentos bons que a vida lhe dera. Ao completar 12 anos, foi transferido para outro estabelecimento de internos maiores. Teve então a certeza de que não mais a veria. Mesmo que ela voltasse... O perfume! Fixou-a. Teve a certeza. Era ela! Ela que lhe dera aquele calção vermelho que o fizera tão feliz! Como não a reconhecera logo? Baixou o 38. A cabeça girando. - Moça, deixa tudo aí. Não vou lhe fazê mal. Nem a ninguém de sua casa... Garanto, tia... Saiu correndo. Nos primeiros degraus ouviu os tiros. Acabou de descer de três em três. A mulher velha estava estirada no chão, a cabeça arrebentada. - João, a velhota não queria obedê... Pintou sujeira, cara, vamo dá o fora... - Tu não, desgraçado! Um tiro só. Acertou bem na cabeça do parceiro. Ainda viu-lhe o olhar cheio de surpresa. Ela surgiu na escada. Olhou-a humilde, envergonhado. – Foi ele! gaguejou. Eu não queria fazê sujeira em sua casa... Ela deteve-se atordoada ao ver o corpo ensanguentado do outro ladrão. CRUVIANA

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Lançando um olhar de raiva ao companheiro morto, ele saiu, batendo a porta com violência. Ela continuou imóvel, sem compreender. Só então viu o corpo da avó. Com um grito de dor, abraçou-a soluçando desesperadamente. *Esta obra foi publicada originalmente pela editora Argus (RJ, 1978). Durante a transcrição do livro, mantivemos todas as características do original.

**YVONNE R. DE MIRANDA nasceu em Mossoró (RN), mas publicou o livro “O calção vermelho” no Rio de Janeiro em 1987.

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As cidades – Anchieta Rolim

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o inferno está cheio de velhos simpáticos e meninas boazinhas

Walther Moreira Santos * Bill Gates mandou todos os jovens estudarem mandarim, pois o futuro é a China – e nada do que vem da China presta: as peças dos brinquedos chineses se soltam e matam engasgadas milhares de crianças ao redor do mundo, tintas tóxicas se desprendem e vão cegar os olhinhos inocentes das criançinhas felizes com suas primeiras bicicletas. Os chineses têm a ética de um bando de gafanhotos; tal um organismo viral, os chineses querem apenas sobreviver. Se o futuro é a China, então estamos todos perdidos – e eu o mais perdido de todos porque não tenho como pagar um curso de idiomas. A mim só resta usar as maldiCRUVIANA

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tas gravatas chinesas, que se encolhem ante o calor do ferro de passar. - “Barrufa” com água que melhora! – diz a voz atrás de mim. - É “borrifa” – resmungo para a Pequena Molambenta. - Ah. Vim dizer que o Velho tá morreno – me diz a Senhorita Ninguém, a boca suja de Ovomaltine que ela adora comer às colheradas, às escondidas. Não adianta reclamar, ela está sempre trocando o d pelo n e comendo: ou Ovomaltine ou os esses dos plurais. Ou ambos. Meia hora com ela e qualquer um vê que não tem jeito. Cada pessoa tem seu jeito de enganar a tristeza. O meu é me concentrar no que estou fazendo e esquecer tudo em volta. Geralmente dava certo. Também, sem emprego, sem dinheiro para arcar com a faculdade e sem algo para vender na praça (nem mesmo um sorriso de trinta e dois dentes perfeitos) eu tinha poucas opções. E neste horrível tempo de vacas magras e ranger de dentes, bem no meio do período de provas e de uma gravata chinesa que não quer ser espichada, meu pai foi inventar de morrer. A menina que ele havia recolhido na rua e mais ou menos morava conosco há uns oito meses esperava à porta do meu quarto, e como eu voltara os olhos para a tábua de passar, ela insistiu: - Acho que o Velho tá morreno de verdade. Uma vez eu tive um gato e foi mesmo assim quando um carro atropelou ele: ficou chiano chiano chiano e depois pronto. Morreu. Em casa sempre fora cada um por si. Um velho por volta dos 70 anos (cujos cigarros e bebida o faziam parecer com 90), uma menina encardida sabe-se lá Deus com que idade e eu, um cara de vinte e um. Mas agora aquele delicado equilíbrio tinha desmoronado de vez.

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A menina dizia ter quatorze mas não passava dos dez, aposto, apesar da pele encardida e dos olhos de quem viu Roma ser incendiada. A qualquer momento papai podia ser preso por pedofilia. Mas também é fato que a garota não estaria melhor nas ruas, à mercê de todo tipo de crueldade. Papai, apesar da língua ferina e de latir muito, não mordia. Era cuidadoso – 25 anos dirigindo ônibus e nunca sofrera um arranhão, apesar de demitido tantas vezes por dirigir em alta velocidade e/ou embriagado. - Escutou? O velho tá morreno - repetiu a Pequena Molambenta. - Como é que você sabe? Por acaso a senhorita fez algum curso de medicina pela internet e eu não estou sabendo? - Eu num já disse?! Um dia eu vi um cachorro morrer e ele ficou chiano chiano chiano do mesmo jeito que o velho está agora. - Um gato, você disse um gato. - Gato, cachorro, é tudo a mesma coisa... E teve aquele gato que era daqui. Ela está se referindo a um gato horrível que inventou de se enfiar num saco de cimento. Bastaram umas lambidas e a saliva deve ter pedrado no estômago dele. - Meu irmão também morreu assim. - Lambendo cimento? - Não... morreu logo, quero dizer. - Ah, bem! § “Batei e a porta se abrirá” E dentro do quarto haverá um velho morrendo. Isso não está na Bíblia – mas constato. A Senhorita Ninguém dessa vez não tirara a manhã para me aporrinhar em vão. Papai não iria mais me amolar. Que tipo de esperteza era CRUVIANA

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aquela minha que servia para entrar numa universidade mas não para ganhar dinheiro?, isso papai vivia questionando. Afinal, o Presidente da República era analfabeto e o Silvio Santos não passava de um mascate e veja só aonde eles chegaram! É, papai tinha lá seus argumentos. - Pega o relógio, a aliança e a carteira dele antes que a ambulância chegue – diz ela, e fica me olhando, desconfiada, como se o que acabara de dizer fosse algum tipo de blasfêmia. Sorri – ela sempre dá um sorriso besta quando se sente ameaçada. A Pequena Molambenta tinha razão. Não é por que a pessoa está morrendo que vai deixar de ser roubada. Não nesta cidade. Não no Brasil. Desabotoei a camisa grudenta de suor de papai, como nos filmes, e pus a mão em sua fronte. Papai ardia o ardor frio dos amaldiçoados. Estava com uns trezentos graus de febre. A morte é quente, úmida e pegajosa – exatamente como o permanente ar rançoso desta cidade. A morte só é fria na cabeça dos desinformados. - Se tu não pegar essas coisas agora o pessoal do hospital vai acabar fazendo isso – diz a menina. Por mais que a escorraçassem, ela sempre ficava ao alcance da mão, alegre e prestimosa – como um cão de estimação. - Pega você – eu digo. Preciso telefonar. § Quem paga o coveiro escolhe a música Como estava sem créditos no celular, corri ao orelhão para telefonar para o irmão de papai, um cara que começara do nada e hoje possuía uma bela concessionária e, como todos aqueles jogadores negros da seleção brasileira de futebol, estava casado com uma loira com um quarto da idade dele; portanto: tinha vencido na vida. É claro que ele e papai não se falavam há muito

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tempo (e meu tio tinha bons motivos para isso), mas no câncer e na morte (afinal somos todos pré-cadáveres) ainda havia espaço para a solidariedade. Mas esperar pela solidariedade familiar me faz perder a segunda chamada da prova de direito de família – logo; perderei a bolsa que me permite cursar uma das mais caras universidades do país – como diabo farei para continuar no curso é o que preciso descobrir. Papai não poderia ter escolhido dia pior para morrer – até na hora de morrer o filho da puta aprontava. Uns trinta minutos depois um carro encostou à porta, dois funcionários da concessionária puseram papai dentro e sumiram na poeira. Eu não precisava me importar com mais nada. Eles cuidariam de tudo – entregariam papai moribundo ao hospital e uma vez confirmado morto, lidariam com enterro; um enterro decente – eu é que não iria reclamar das flores. Que paga o enterro escolhe a música, as flores, além de receber pelas costas os comentários maldosos. É preciso admitir que esse povo da rua amadurece cedo. A Senhorita Ninguém estava certa, o velho não durou duas horas no hospital. Meu tio acabava de me dar a notícia. Tudo o que eu desejava era desaparecer antes que o proprietário do imóvel soubesse da morte e viesse correndo cobrar os três meses de aluguel atrasado. Inquilino morto não paga. Saber fugir é a aptidão mais crucial na vida dos animais mais fracos. Fugir é uma arte que os mais fracos não podem desprezar. Então comecei a empilhar meus trapinhos e meus não poucos livros. Em criança eu não furtava frutas – eu furtava livros, e nunca parei. Devo ter levado à falência umas dezessete livrarias e desfalcado um monte de bibliotecas públicas pois naquele tempo bom não havia câmeras de segurança ou sistemas de alarme; ah os cortázas os borges os dostoieviskis ganhados-comprados-furtados de sebos só se equiparavam às montanhas himalaicas de garrafas vazias de vodka gim pinga cerveja, pertencentes a papai. CRUVIANA

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- Você nem teve pena dele – diz a Senhorita Ninguém. – Tu é muito ruim mesmo! O velho era legal. Mas você nem chorou nem nada. - Como você pode saber o que estou sentindo? Virou psicóloga de uma hora para outra? Morrer antes do humilhante fraldão, antes da incontinência urinária; antes mesmo de a pele mostrar os primeiros sinais de manchas senis assinalando o bolor do tempo numa carne com data de validade vencida – papai não sabia a sorte que tinha. Parágrafo único. Deixe para julgar seu pai quando tiver, ao menos, a idade que ele tinha quando morreu. - E o resto das coisas? – quis saber a Senhorita Ninguém. - Sei lá. Vende. Ela me olhou com os olhos arregalados de quem não acredita em generosidades. Para aquela menina encardida, ganhar alguma coisa, qualquer porcaria, seria uma das formas que a felicidade podia tomar. E ela acabara de ganhar uma casa atulhada de cacarecos. - Eu posso pedir a um amigo meu que venha aqui me ajudar a pegar tudo? Eu ri ao ver pelo canto do olho esquerdo os sofás desconjuntados como prostitutas velhas; o estofamento à mostra. Nem se o amigo dela fosse dono de ferro velho! Geladeira, fogão, armários, camas – o que não estava se desmanchando pela ação dos cupins virava pó pela ação da ferrugem. Não havia tevê ou outro eletrodoméstico pois foram todos vendidos/engolidos pelas mensalidade da faculdade, antes de eu conseguir a bolsa. Mas viver sem eletrodomésticos era uma constante lá em casa: sempre que conhecíamos o tempo das vacas magras e papai perdia o emprego lá se ia a tevê e os outros eletrodomésticos logo a seguiam. E

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bem provável que mamãe nunca tenha assistido a uma novela do início até o fim. - Você pode trazer até o guarda, estou me lixando. Mas antes passa no mercadinho e arranja umas caixas pra mim. Ela corre como uma maluca e eu começo a rir porque não deixa de ser engraçado pensar que a Pequena Molambenta poderia ser minha irmã. Daí me lembro que eu já tenho uma irmã, embora isto não tenha dado muito certo. As circunstâncias me forçam a telefonar para ela. - Dona Maura não se encontra – disse a empregada. Se não se encontra, por que ela não procura um analista? Tive vontade de perguntar. Sou contra a pena de morte – mas abro uma exceção para algumas pessoas que atendem telefone. - O senhor quer deixar recado? - O pai dela morreu. O irmão dela mandou avisar. Diga só isso, obrigado. § A Elite é perfeitamente dispensável – não a ralé - Tem cachorro? – a pergunta veio de fora junto com o ranger do portão. Em dois segundos a Senhorita Ninguém estava dentro de casa com um negro tamanho-família, com os olhos mais amarelos que os girassóis de Van Gogh. É claro que não havia cachorro na casa: não era um lar de verdade. Mas a frase devia ser praxe para ladrões e carteiros. - Este é o Alceu. Não queria nem estar por perto quanto a raspa daquele entulho chegasse à rua, mas sem demora o Alceu alçou toda a tralha de dentro de casa e equilibrou numa carroça de recolher “material reciclável”. Posso apostar que nunca ninguém esvaziou uma casa tão rapidamente – em algumas coisas a ralé é mesmo nota mil! - A um real, só de discos eu estou feita! – exclamou a SenhoCRUVIANA

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rita Ninguém, com um leve tremor na voz. Eu podia apostar que sim. Dinheiro não traz felicidade – mas manda buscar numa Ferrari. Papai não tinha mais bandolim (vendera para pagar a conta de luz), também não tinha mais aparelho de som, mas se apagava à sua coleção completa de discos do Nelson Gonçalves. E qual a utilidade de um disco de Nelson Gonçalves nos dias de hoje? Não fosse a senhorita ninguém, é bem provável eu pusesse fogo em tudo. Ela sai pulando de um pé só, atrás dela como um Cristo sofredor vai o Alceu e a carroça de entulho. Nessas horas vê-se claramente que a Elite é perfeitamente dispensável – não a ralé. § Criatividade para surpreender até o diabo Foi aí que notei que a menina tinha restos de esmalte vermelho em todas as unhas dos pés de das mãos. Chapeuzinho de roídas unhas vermelhas e o Lobo Mau, finalmente morto. Com um pouco de trato a menina poderia ser bonita. Pelo jeito, o fato de papai ser um palerma não queria dizer que ele fosse um palerma em tempo integral. Entendo suas noites, as risadinhas espocando sacanas da menina e os grunhidos de papai. Ele: ho ho ho ho ho ho! e Ela: hi hi hi hi hi hi hi! - Me morda, gorda! Me morda, gorda! – ouvia-se papai dizer e a graça, se é que havia alguma, estava em a menina ser magra como um graveto. A diabetes tinha deixado papai impotente nos últimos anos; seja lá o que ele fizesse com a menina não seria pior do que ela encontraria lá fora. Mas esse povo está sempre levando a baixaria a patamares cada vez mais altos – sentado em seu barril de chope, no inferno, o diabo deve dar boas e surpreendidas gargalhadas.

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Há mais que piolhos na cabeça de tipos como a Pequena Mulambenta. Há mais que calvice na cabeça de velhos como papai. Perdido nessa bobeira não me dou conta de que o negão levara duas de minhas caixas também. Meus livros. § O inferno está cheio de velhos simpáticos e meninas boazinhas Corro até a esquina e a chamo a dupla de volta. - Por que estão levando minhas caixas? Ela olha para cima, esmagada pelo sol a pino. - Foi ele. O Alceu que pegou. Sua lesma desnutrida! e por que você deixou, se sabia que eram minhas?! Tenho vontade de gritar, mas não consigo falar assim com quem está mais fodido do que eu, por mais que mereçam. Não digo isto porque tenho pena dela, às vezes bate em mim um imprestável coração de gelatina. O imperador Calígula disse que é muito fácil ser um deus: basta endurecer o coração. Então para sempre eu serei uma ameba. - Você não sabia que aquelas caixas eram minhas? É claro que ela sabia. Mas aos 11 (?) anos ela já é diplomada e pós-graduada na arte de furtar. - Manda ele botar tudo no lugar onde achou. E sem demora as duas caixas estão de volta. - Você tem para onde ir? – eu pergunto. Ela me conta que ficará na casa de um pai-de-santo. - Pai Ramiro de Oxossi. Conhece? - Nunca vi mais fresco. - Mas ele é famoso, até político vai lá. Até na rádio ele consulta. - Não diga! CRUVIANA

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A fila de velhos pedófilos dá a volta ao mundo, mas com um pouco de sorte, e se a fama dos pais de santo prevalecer, esse tal pai de santo vai ser uma mãe para a pequena cretina. Papai estava na horrível fase onde os velhos ficam ruminando a mesma história, o tempo todo. E a pequena agüentou uma boa pá de meses. Ela merece dias melhores. O velho era tão filho da puta que quem passasse na porta veria um senhor simpático e uma menina boazinha (o inferno está cheio de velhos simpáticos e meninas boazinhas), mas a sós ele reclamava de tudo. O tempo inteiro. Principalmente porque não botávamos dinheiro dentro de casa. Adeus, conto sórdido antigo. - Te cuida. - Táaaaaaa! – ela desaparece, toda saltitante. Chapeuzinho vermelho finalmente livre. E não deixa de ser, estranhamente belo, e de causar uma cicatriz na memória. Bom. Pelo menos uma pessoa está feliz neste lindo planeta poluído. § Quando o inferno fechou para reforma Vou pôr a gravata chinesa enquanto arrumo as idéias: com a certidão de óbito, talvez eu arranje vaga na Casa do Estudante; é minha única saída. Porque por aqui, senhores, o inferno fechou para reforma. - Tem um soldado abestalhado aí na frente perguntando se teu pai mora aqui, o que é que eu digo a ele? Eu só sei que eu é que não moro mais. Ha ha ha! A Senhorita Ninguém está de volta. - Você não tinha ido embora? - Você não quer o endereço de onde eu vou ficar? – pergunta ela.

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Faço cara de quem vai levar o tiro de misericórdia – vou ver quem é esse policial. Meu Deus, e mais essa agora? Porém, seja lá o que o velho tenha aprontado, esse policial chegou tarde. A dona Justiça vai ficar sem receber. Mas oh que alívio!, não é um policial militar e sim um soldado raso do exército brasileiro que veio com um daqueles carros monstros bebedores de petróleo com tração nas quatro rodas, vindo a mando do Militar H., marido da minha irmã, para me levar ao meu novo lar. Com um carro desses o Militar H. só pode estar comendo da banda boa da vida – e indo morar lá estarei enfim dispensado de comer da banda podre. Empurro minhas caixas dentro do carro e rejeito a carona do soldado bonzinho porque digo que vou para a faculdade e é muito contramão. O carro é bonito sim, mas há uma miniatura do horrível palhaço da Mcdonald pendurada no espelho que é de doer de mau-gosto. Então o cabo Anselmo se dignou a me informar: - Quem vai levar é o carro, não eu – sorri o Cabo bonzinho, em seguida pergunta o que estudo. - Direito – eu digo, alisando minha linda gravata barata. - Legal. - Mas a bosta da faculdade é paga - informo. - Então quer dizer que você é o Bernardo? É impressão minha ou há um tom de xaveco na voz do Cabo Bonzinho? - Pois é, mais um estudante de Direito; hoje em dia até os cachorros são bacharéis. - Vou te levar até a faculdade. O Coronel me deu o dia livre; depois, a gasolina é por conta do governo, sobe aí. Papai morreu mas vou ganhar casa nova. Tenho 21 anos. Pressão 12/8. E fuck you Mister Bill Gates! – eu terei um futuro – é só permanecer sorrindo - mesmo sem estudar CRUVIANA

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mandarim - muito embora o palhaço da Mcdonald balance e caçoe de mim durante todo trajeto, me dizendo que não. Mas quem quer saber de mais essa bosta fabricada na China?

WALTER MOREIRA SANTOS é de Vitória de Santo Antão (PE). Escritor e ilustrador, é um dos brasileiros mais premiados da atualidade, com mais de 100 prêmios ganhos. É autor de: Helena Gold, O ciclista, dentre outros livros. Este conto foi originalmente publicado no livro O Metal de que Somos Feitos, vencedor do prêmio Pernambuco de Literatura.

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sinais

Clauder Arcanjo “O arrepio é o código do mistério que nos rodeia.” (Paulo Bomfim, em O Colecionador de Minutos)

O primeiro, sob a copa do tamarineiro do Mercado Público, foi descoberto – melhor, percebido – na madrugada da segundafeira. Após a grande feira do domingo, o primeiro das festas da Padroeira Senhora Sant’Anna. – Estranho. Muito estranho. – foram as palavras do Mestre Galdino Epaminondas, sempre chamado a desvendar as estranhezas da província. Ele, estudioso de francês e latim, com os CRUVIANA

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óculos de fundo de garrafa, a colocar o nariz nas letrinhas as mais pequenas, nos rodapés dos grandes tomos, nas coisas nunca lidas, nem muito menos entendidas. “Em busca dos mistérios da vida, minha gente!” – anunciava, quando lhe assacavam a pecha de maluco. – Estranho. Muito estranho. Seria um sinal da Santa? — será preciso melhor acompanhar. Dispôs um cerco em torno do acontecido. Pequenos círculos concêntricos, na tentativa de preservar o objeto para a análise posterior. – Estranho. Muito estranho. O bêbado Zarolho, numa ressaca dos diabos, e incomodado com o movimento na sombra do seu tamarineiro predileto, praguejava, altissonante. – Estranho nada!... Isto deve ser serviço das benzedeiras do Alto da Liberdade, meu povo. Como ontem estava havendo festa lá no Alto, resolveram chamar os santos logo aqui no Mercado. Entenderam? Logo Cabo Dandora quis afastar todo mundo, com receio de altercações. – Vão todos para casa! Deixem a questão com as autoridades constituídas. – rodava o cassetete de juá, e fungava as calças de brim marrom, já marcadas pelo saco herniado. O prefeito quis decretar estado de calamidade pública. Mais de olho no superfaturamento dos procedimentos do que mesmo no desvendamento do misterioso sinal. Na noite da segunda-feira, o aviso segundo. Desta feita, na calçada de Dona Candinha do Matapasto. Mulher do sacristão da Matriz, Seu Geraldo das Nicas. – Estranho. Muito estranho. Com pouco, os malandros de Licânia, a entornarem litros e mais litros da cachaça da bodega do Edmundo Simplista, aposta-

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vam a origem e a relação entre os dois mistérios. “Deve ser coisa da oposição!”; “Que nada, onde já se viu!? Tudo obra de quem?! Deve ser arrumação deste prefeitinho de merda. De merrrrr...da!...” – Vão todos para casa! Deixem a questão com as autoridades constituídas. Cabo Dandora, para não perder o costume, ainda amaciou o lombo de meia dúzia dos mais afogueados com sua adorada companheira de cós. – Mundiça! Na manhã da terça, outro. Agora, o terceiro. Para assombro das beatas, no centro do Largo da Matriz de Sant’Anna. – Minha Santa! Santa minha! As beatas entoaram o Salve Misericórdia, puxando, em seguida, o ofício do rosário, em favor das almas mais desgarradas, e desgraçadas, no purgatório. “No Céu, no Céu, com minha mãe estarei. No Céu, no Céu...”; cantavam a plenos pulmões as Irmãs de Maria, sob a regência de Dagmar das Piranhas, ex-prostituta do Caneco Amassado, convertida a pia mariana do Santo Ofício, após a morte do Seu Cristiano Falômetro, amante inesquecível. – Estranho. Muito estranho. Na quarta, outro aviso na calçada da delegacia. O quarto. Saudada com uma sova nos presos da cadeia. Peia de fazer todos se urinarem de dor, e de raiva do “maldito cabo”. Quinta-feira, na calada da noite, os meninos da Rua de Trás deram com mais um: o quinto. Em frente ao Patronato Sant’Anna. As freiras, atordoadas, não sabiam se oravam ou se praguejavam contra tamanho infortúnio. – Estranho. Muito estranho. Sexta, o prefeito, ao ficar sabendo de mais um acontecido, o sexto, e com as filas de visitantes de várias cidadezinhas da ribeira do Acaraú para testemunharem o inesperado, chamou CRUVIANA

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o seu assessor de confiança, responsável pelas licitações mais rentáveis, e confidenciou-lhe: – Não podemos desperdiçar tal oportunidade, Seu Chaga Magrela. Nosso município foi escolhido pelo Além. Você não acha? Agora, só nos resta dar uma “mãozinha” para tais sinais nunca faltarem. Você me entende? – ... – Não me venha com esta cara de égua, seu cabra frouxo. Honre essas calças, homem de Deus! O caso é para o bem comum. Somos servidores públicos. Nossa missão: servir ao povo! Nunca se esqueça: servir ao povo! – Estranho. Muito estranho. Quando, no sábado, o sétimo sinal deu-se na Prefeitura, ninguém entendeu nada. Foi o maior deles, bem em frente à porta principal. Não houve expediente. A horda quilométrica de visitantes, a carregar o manto da Santa e a proclamar o fim dos tempos, já era notícia em todos os jornais do estado. Quando o servidor Chaga Magrela, preocupado com o “apurado das últimas ações públicas”, conseguiu finalmente entrar no prédio, pelos fundos da prefeitura, a cidade foi sacudida por um grito de horror, e arrepio. “No Céu, no Céu, com minha mãe estarei. No Céu, no Céu...” – Estranho. Muito estranho.

CLAUDER ARCANJO é de Santana do Acaraú (CE). Autor de Licânia, Lápis nas Veias e Novenário de Espinhos, é também editor da editora Sarau das Letras e apoiador da Revista Cruviana. clauderarcanjo@gmail.com.

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de través

R. Leontino Filho “Que o amor é um duelo, o amor entre um homem e uma mulher”. (Antonio Carlos Villaça)

1º MOVIMENTO: volta Nas vezes em que ele saía, tudo acontecia do mesmo jeito: aquela cantilena enfadonha de enganar e ser enganada, nada de novo, a mesma traição ascética que morre na rotina dos prazeres. Nas vezes em que ele ficava, tudo parecia um sonho: de repente, o pesadelo de acreditar que o gozo nunca se liberta da CRUVIANA

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imaginação: mas como acabar com o traiçoeiro engano? Ele que descubra nas noites mal dormidas, o resto de solidão que ainda me sobra. Nas vezes em que tudo parecia bem, as mesmas aparências mudavam de rumo: no trabalho, quanto engano, ele nem pressentia o fim, cada vez mais morria a última gota do derradeiro beijo: baba que ensaia vôos dormentes de uma adormecida paixão. Nem sei mais a quem traio – a própria traição ou a mim mesma. Olhos – tudo e nada mais – sem retorno: olho, de soslaio: olhos. E quantas vezes o sino tocará a sua morte? Quando sai ou quando chega, não há diferença alguma, somente passos ao léu, ventos que balançam o vazio das lembranças. Cada cortina abre-se para um dia igual aos outros. E ele nem percebe os aflitos enganos que rondam o quarto onde, de braços e pernas bem abertas, recebo outras borboletas de asas tão afiadas que desconfio até que não são para mim. Juras rondam o tempo de não dizer mais nada, sim, ele é, em toda a sua finitude, a única poeira que inunda minha pele, tanta precisão nessa seara cega de intensa metamorfose. Há um certo modo de ser na cotidianidade todas as vezes que o silêncio, lá de sua mesinha-de-cabeceira, atravessa o vasto território de mediocridades e ganha um colorido especial; confiantemente, a cidade de abafadas vontades e intensa boçalidade nada só e ele nem nota: o olhar que para ele se volta.

2º MOVIMENTO: fica A vida, sem ela, segue. Por quê? Nem tudo ou quase nada necessita de porquês, ainda mais quando se trata de separação: ela que siga seu rumo, o meu já está destroçado, quer dizer, traçado em linhas tão desalinhadas. Há algo mais deselegante do que um olhar traiçoeiro? Sim, há: a ressaca de não olhar de frente a traição. Ela que prossiga – no prumo do avesso, de preferência: de gorjeta em gorjeta, faz-se o mundo da solidão. Resta, ainda,

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muito medo entremeado na paixão distante: toda grande paixão está sempre para lá do horizonte, por isso mesmo, nada resta dos amores que juntos foram perdendo o viço. Não, ela, na vida, segue, em outros lençóis, sei lá em que camas ou redes soltas correm suas taras, a minha não a quer mais por perto, também pudera, em cada saída, nas muitas vezes em que jurava o que nunca poderia cumprir, e eu sabia, ela, também. Doce Ângela de endemoninhados pensamentos, ficar é perder o senso e entrar, de vez, no purgatório das fantasias. Nessa dilaceração, alheio às vontades do mundo, guardo penumbrosas saudades. De dentro do ódio, retiro o meu nome, afogueado Antônio, de tantas luas e de poucos esquecimentos, cada inferno acende uma brasa para a tua maldição, queria dizer mais diretamente o que só obliquamente me dizias: vai, segue a picada que mais forte fere a alma: e, ainda assim, não esqueço, porque esqueceria, se tudo corria contra nós: a mais sagrada mentira sangrava de tuas mãos e eu sentia imenso prazer em marcar as horas dos desencontros: sempre ao cair da noite eu me erguia – sonâmbulo de todas as mentiras: as minhas, as tuas – nossas traiçoeiras promessas de amores austeros: onde a orfandade de quem ama está, sem enfeites, perdida no olhar. DE ÂNGELA PARA ANTÔNIO NO VÍCIO DO DIA QUE CHEGA OU DE ANTÔNIO PARA ÂNGELA NA FARSA QUE GERMINA Quanta imaginação no parentesco turvo da noite: os amantes amando se traem, ainda assim amam em tendas armadas de más-intenções: uma bênção para a pestilência do engano – salve-se quando puder. Se o tempo assim o quiser. R. Leontino Filho nasceu em Aracati/CE. É poeta e professor Teoria da Literatura e Literatura Brasileira, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte/UERN. Publicou os seguintes livros de poemas: Amor – Uma Palavra de Consolo, Imagens, Cidade Íntima, Entressafras e Sagrações ao Meio. Doutor em Estudos Literários pela UNESP (Campus de Araraquara/SP) com a tese: Lavoura arcaica – o narrador solto no meio do mundo (2005).

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em nome do pai

Carlos Gildemar Pontes Pai nosso que estás no céu... Ele era um menino especial. De cedo já sabia muita Geografia. Capitais dos estados, dos países da América do Sul, da Europa, alguns da Ásia, até nomes de governadores e presidentes. Engraçado é que quarenta anos depois ele ainda ouvia falar nos mesmos nomes ou nos filhos e netos que herdaram esse poder. Sua memória fabulosa gravava imagens dos lugares da infância como quadros de um filme que passava à noite, sempre na hora de dormir. Gostava de acompanhar o pai nos passeios

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pelo subúrbio, pelas praias tranquilas onde borbotavam jangadas cedinho da manhã. O mar sempre foi a sua maior paixão, superou a Geografia, era como se em suas veias corresse água do mar. Com a mãe andava às tardes, nas compras pelo centro da cidade. Ia para ganhar os adoráveis bolinhos de goma e alguma revista do Homem-aranha, do Batman, do Superman, do Fantasma, do Quarteto fantástico, do Homem de ferro... Aguentava as paradas intermináveis nas lojas porque sabia que seria recompensado com algum gibi e com o “bulim”, sua segunda paixão. Era um menino de coração bondoso que sabia dos lugares, gostava de passear e adorava comer bulim. Quando seu pai foi embora, não soube de nada, foi arrancado dos braços da mãe e colocado num internato. Não lembra quanto tempo passou ali. Sua memória foi abalada pelo seu sofrimento e o de muitas crianças. Ali dentro era um lugar sem mar, sem mapas e sem bulim. Sua mãe passou a ser a sua única Geografia, seu mar, seus bolinhos que derretiam na boca. Esperava alucinado a hora de vê-la e chorava muito de uma dor maior que a dos maus tratos. Era uma dor na alma que não passava naquele internato. No dia do seu sequestro, sua mãe entrou de supetão e quebrou o que pôde, tirando-o dos trapos da cama velha, onde havia uma colcha marcada de sangue das suas feridas e muitas moscas, companheiras de todos os meninos. Viveu muito tempo pelas casas, bolando, agarrado na barra do vestido da mãe. Passou a ver olhos no escuro. Olhos coloridos. Talvez fossem os olhos aflitos daquelas crianças infelizes. Tornou-se triste, sem lembrança da Geografia. Queria ser um super herói para punir os maus que judiavam com crianças e para afastar aqueles olhos que o perseguiam no escuro. Onde andarão aqueles meninos e meninas do internato? Em que sorte de vida se meteram? Terá algum médico, juiz, CRUVIANA

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governador? Claro que não. Serão homens e mulheres tristes, loucos para matarem aqueles demônios do internato. A maioria não tinha pai nem mãe. Iriam morrer da primeira doença que lhes entrasse pelas feridas. O inferno e o céu não existiam. Só o internato e a janela de vidro onde começava o mundo. Um dia desses, ele passou no lugar onde fora o internato. Sentiu calafrios e lembrou do traste do pai que o gerou. Lembrou da mãe trabalhando feito uma condenada para alimentá-lo e vesti-lo com carinho. Reviu a mãe morta, com uma expressão serena, e chorou novamente sobre aquele caixão de lembranças. Perdeu-a antes de terminar a faculdade, o que aumentou ainda mais a sua dor da alma. Havia flores no jardim do colégio Santo Antônio. Beijaflores e bem-te-vis deviam passar o dia ali. Olhou para a foto dos seus filhos e foi a procura do seu pai. Já velho e adoentado teria melhor vida num asilo, pensou afinal que a sua cota de bondade permitiria que fizesse um último favor ao pai. Na entrada do asilo foi recebido por uma enfermeira e por um sujeito forte, com olhos puxados, meio oriental. Assinou o protocolo de entrega do velho e pagou um ano adiantado. Na saída, chamou o sujeito de olhos puxados e deu-lhe uma boa gorjeta. - Bata sempre, de preferência nos lugares onde não ficam marcas. E não pare de repetir no seu ouvido: “Eu vim lá do Internato Santo Antônio do Buraco!”.

CARLOS GILDEMAR PONTES é escritor, Poeta, Professor de Literatura da UFCG/ Cajazeiras. Editor da Revista Acauã, Vice-presidente do Conselho Municipal de Cultura de Cajazeiras-PB. gilpoeta@yahoo.it.

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o amor de alencar

Mário Gerson Assíduo frequentador de lojas de antiguidades, Alencar sempre se dispôs, nos fins de semana, a procurar fotografias antigas dentro de livros, nos sebos que visitava. Era comum vê-lo folhear páginas e páginas; às vezes gastava tardes inteiras, manhãs iam embora, céleres, enquanto Alencar passava as páginas dos livros. Bartolomeu, O Livreiro, contou-me, certa vez, que Alencar folheara toda a sua estante de História Universal à procura de qualquer fotografia... Ficava assim, horas e horas, caçando um retrato dentro dos livros... uma mania esquisita, a de Alencar. Eu CRUVIANA

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nunca entendi o que ele queria com essa procura por fotos. Alencar fora jornalista num diário de sua cidade. Entrara na Redação ainda de calças curtas... Lá aprendeu de tudo um pouco. Primeiro, começou como aprendiz, um troca-tintas, como se dizia no jargão... ficava vendo os outros escreverem. Ouvia o barulho das máquinas, via a medida da página, depois ia para gráfica acompanhar a gravação das chapas e a impressão do jornal. Jovem ainda, Alencar começara cedo demais numa profissão que mata antes de realizar os sonhos literários e assassina a criatividade. Durante quase um ano, Alencar ficou pela Redação, zigue-zagueando pelos corredores, deixando recados, levando encomendas. Um dia, um repórter adoeceu e Alencar teve de substituí-lo. Recebeu uma caneta e um bloco de notas para escrever a reportagem. Passou o dia inteiro para redigir o primeiro parágrafo e no final da tarde concluiu o pequeno texto, escasso de informações. A primeira experiência como jornalista foi um fracasso. Não nascera para aquele mundo de cigarros e cafés, de noites insones, de barulhos de máquinas, de folhas de papel, de anotações, de discórdias e vaidades e, também, por que não, de babões de plantão. Alencar rendeu-se a outras atividades. Era inteligente... Passou num concurso para professor, aos 26 anos, e foi ensinar numa escola pública. Aos 30 era um bem-sucedido professor de Língua Portuguesa e Literatura. Porém, solteiro. Numa manhã, contou-me Bartolomeu, Alencar apaixonouse por uma jovem estudante. Era muito velho para a moça, diziam alguns. Especialmente discreto – mal abria a boca –, Alencar passou anos gostando de Marília, um amor silencioso, recluso, respeitoso.

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Nos últimos tempos, antes da loucura o dominar, Alencar começou a colecionar objetos variados e estranhos: pedaços de papel, velhos cadernos, colheres de lanchonete, lenços manchados de batom. E ele colecionava essas coisas?, perguntei a Bartolomeu... Colecionava. O vi muitas vezes vasculhando o lixo à procura de objetos, disse-me ele. Por um tempo, nem eu nem Bartolomeu desconfiamos da estranha mania de Alencar. De uma hora para outra, ele enlouqueceu, começou a colecionar, colecionar... de tudo um pouco, objetos e utensílios inimagináveis... Da segunda vez que visitou o sebo de Bartolomeu, Alencar sussurrou duas ou três palavras próximo à estante onde estavam os livros de poesia. Bartolomeu aproximou-se para ouvir: Ele suplicava que o livro onde guardara o fio de cabelo e a fotografia de Marília sorrisse para ele...

MÁRIO GERSON nasceu em Mossoró, RN. É autor dos livros A Morte do Pescador (novela), O Suspiro do Inimigo (Contos) e A Noite de Luvas Brancas (Poemas).

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o colecionador de guarda-chuvas

David de Medeiros Leite Meses e meses recolhida e murcha, sai de casa, liberta-se da estufa, a flor guardada (o guarda-chuva). Agora, cresce na mão pluvial, cresce... (Mauro Mota, no poema “O Guarda-chuva”)

O perfeccionismo extremado e o jeito sistemático de levar a vida foram, decerto, causas determinantes para o surgimento do colecionador. O começo de tudo, porém, pode ser creditado a um ou outro esquecimento do inseparável guarda-chuva, em casa

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ou no trabalho. Este foi o motivo para que, um de reserva, fosse providenciado para cada local; pois nada lhe era mais incômodo que, pelo fim do expediente, enfrentar uma intermitente garoa – ou até mesmo uma forte neblina - que lhe molhasse o engomado terno. Com o passar dos dias, e sem perceber, Dirceu foi comprando outros tantos. Quando via um camelô, aos berros, em uma calçada, oferecendo um, a preço convidativo, não hesitava em adquiri-lo. Em viagens de férias, o guarda-chuva, também, passou a ser o suvenir das cidades visitadas. Não demorou nada para que os colegas de repartição começassem a presenteá-lo com guarda-chuvas. Em seu aniversário, por exemplo, a preocupação dos amigos não era lhe escolher o presente - isso todos já tinham bem claro -, senão que encontrar modelos diferentes: já havia certo esforço em não regalarem exemplares repetidos. No entanto, nem mesmo os idênticos eram rejeitados, na medida em que seriam destinados ao uso diário, ou à composição de um “estoque mínimo” destinado ao socorro de colegas, nos casos de esquecimento. Sim, não tardou, e emergiu clara divisão, ou seja, nada de misturar as “peças” que seriam destinadas à coleção com as que pertenceriam ao referido “estoque mínimo”; cuidadosamente reservado às situações emergenciais. Por motivos óbvios (não devoluções, avarias, coisas assim), estes eram, justamente, os semelhantes. E a coleção ganhava robustez em número e, principalmente, crescia o esmero no acondicionamento e na sistematização dos registros individuais: origem, data de aquisição, características básicas, por aí. As diferenças e os detalhes, geralmente despercebidos ao usuário comum, sobremaneira aguçavam os sentidos do atento colecionador. Era comum vê-lo admirandoos horas a fio, descobrindo e anotando minúcias, comentando CRUVIANA

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absorto: - As varetas daquele são admiravelmente arqueadas; a cobertura desse outro é de material especial; e este, de cabo revestido de couro, revela um tom nobre... A sombrinha colorida, que comprei numa viagem a Pernambuco, foi a primeira da extraordinária série das sombrinhas. Quase suspirando, filosofava: - Como as pessoas, os guarda-chuvas, mesmo que pareçam iguais, possuem diferenças, melhor avaliadas por quem os olham de forma singular. Com o passar do tempo, a casa estava ingurgitada. Todos os cômodos ocupados. O que antes ficara restrito ao quarto do filho – que não tivera – avançou para o de hóspedes, biblioteca, sala, corredor, cozinha, banheiro social, chegando mesmo a invadir o quarto do casal. - Isso não pode continuar assim! - esbravejava a mulher. - Clotilde, veja bem, somente ocupamos lugares nunca utilizados! A prova maior é que seguimos fazendo tudo que fazíamos antes, sem maiores problemas. A divergência entre eles descambou para um nível insuportável. Após uma convivência de trinta anos, o casamento parecia ameaçado. - Dirceu, é comum ouvir-se falar em coleções de selos, chaveiros, canetas... Mas, guarda-chuvas?!... E, finalmente, para que serve esta sua coleção, se ninguém ao menos a visita? Francamente!... Olhe, você terá que resolver: ou ela ou eu? À força do ultimato, o colecionador perdeu a alegria de viver. Seguiram-se noites insones, com o pensamento a ruminar o destino que daria ao que ele considerava “parte de minha vida”. Com a chegada do inverno, Dirceu encontrou a saída: esperou uma chuva torrencial para, da porta de sua casa, distribuir

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a sua coleção. Transeuntes apressados levavam enorme susto, quando ouviam aquele grito oferecendo um guarda-chuva. E, quase todos, perguntavam instintivamente: - Quanto custa, senhor? Incrédulos, escutavam: - Nada, é um presente. Alguns ainda insistiam em alongar um pouco a conversa – misto de agradecimentos e curiosidade –, mas o fluxo de pessoas era tão intenso que Dirceu apenas pedia desculpas, e continuava sua tarefa. Pouco mais de uma hora foi o bastante para desmanchar o que edificara em vinte anos. Suas lágrimas, misturando-se com a chuva, nem eram percebidas. Em meio a tanta tristeza, uma alegria: a certa altura, Dirceu pôde contemplar a imagem mais bonita à visão dos seus olhos: sua coleção espraiada por toda a rua. E ficou maravilhado com a diversidade de cores e formas em movimento que, mesmo sob o cinzento da tarde, lhe sugeria uma bela aquarela, talvez nunca antes concebida pelo mais talentoso dos pintores. De sorte que a cena conseguiu arrancar-lhe um sorriso, a desfazer-lhe, no instante, a gravidade do rosto. Foi-lhe, então, inevitável a lembrança das repetidas vezes em que ouviu, da mulher, sobre a inutilidade da coleção. De repente, uma vontade de olhar para a janela, a verificar se ela, também, estava apreciando o “espetáculo”. Contudo, deu de ombros, e seguiu em sua faina. Depois da longa chuva, Clotilde, tentando a reconciliação, convidou-o para um passeio: era bom aproveitar a brisa vespertina. Calados, saíram caminhando, a pretexto de um café. De volta a casa, ela lembrou-se de que, como não havia restado um só guarda-chuva, necessitariam adquirir outro tipo CRUVIANA

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de abrigo para os dias invernosos. Entraram em uma loja e pediram duas capas de chuva. Ela escolheu uma branca, e ele optou pelo vermelho. Na manhã seguinte, bem cedo, Dirceu voltou à mesma loja em busca de uma capa amarela que lhe tinha enchido os olhos no dia anterior. Terminou levando, também, uma verde e outra azul, a seus olhos tão bonitas. Foi quando, quase em tom de justificativa, comentou com o vendedor: - É sempre bom termos alguma reserva para as eventualidades; não é mesmo?

DAVID DE MEDEIROS LEITE é autor de vários livros, dentre eles: Ombudsman mossoroense (crônicas), Incerto caminhar (poesia), e Cartas de Salamanca (crônicas). davidmleite@hotmail.com

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álibi

Lilia Souza Sexta-feira, 21 Oito da manhã. Tribuna de Vale do Rio Doce. “Mulher morta, com tiro no peito, em seu apartamento. Na manhã de ontem, foi encontrado o corpo da modelo de 30 anos, solteira e que morava sozinha. O crime aconteceu na noite anterior, e não há evidências de arrombamento ou de luta. Suspeita-se que o assassino, ainda não identificado, seja um possível amante da vítima.” Quarta-feira, 19 CRUVIANA

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Onze da noite. Com o leito já arrumado, ela se despe, veste a camisola, se penteia e se recosta à cama. Como há dois anos, toma o comprimido que rapidamente a faz dormir pesado até às sete da manhã. Não é dia de se fazer amor. Apanha o livro na mesinha de cabeceira e continua a leitura interrompida na noite anterior – quando pegara no sono e o volume lhe caíra das mãos. Enquanto engata a leitura, observa o marido, preparandose com seu jeito disciplinado, meticuloso. Depois que se deitar, sem precisar de soníferos, logo ele estará roncando e dormirá como um menino, até que amanheça. Dez e cinquenta e cinco. Escritório, escrivaninha, gaveta, revólver, bolso do casaco, gaveta, casaco, cadeira, porta, sala. Escada, corredor, porta, quarto. Botões, camisa, sapato, meias, zíper, calça, pijama, chinelo. Banheiro, vaso, tampa, papel, tampa, descarga, pia, torneira, sabonete, água, torneira, toalha. Armário, gaveta, escova, dentifrício, torneira, água, torneira, toalha. Pente, cabelos. Porta, quarto, cama, chinelos, travesseiro, lençol, boa-noite, boa-noite. Olhos fechados, ronco. Meia hora. Ruído de livro ao chão. Olhos abertos. Dez minutos. Silêncio. Chinelo, passos leves, porta, corredor, escada, sala, porta, escritório, cadeira, casaco, chapéu, luvas, porta, sala, porta, varanda, portão, passos pela rua deserta, duas quadras, prédio, porta, escada, mão no bolso, campainha, porta. Bolso, arma, mira, tiro, bolso, porta fechada, escadas, rua deserta, passos apressados, duas quadras, portão, varanda, porta, sala, porta, porta, escritório, escrivaninha, gaveta, arma, chapéu, luvas, gaveta, casaco, cadeira, porta, sala, passos leves, escadas, corredor, porta, quarto, cama, chinelo, travesseiro, lençol. Ronco. LILIA SOUZA nasceu em Volta Redonda – RJ, mas reside em Curitiba – PR. Licenciada em Letras, é especialista em construção de texto e literatura brasileira. Professora, pesquisadora, revisora de texto, poetisa, contista. Membro efetivo do Centro de Letras do Paraná, membro titular da Academia Paranaense da Poesia (onde ocupa a cadeira de número 34) e associada correspondente do ICOP – Instituto Cultural do Oeste Potiguar.

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Carla Diacov

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Marga

Pedro García Lavin Nos cruzamos por primera vez en la esquina de Bulnes y Corrientes, pasados diez años de aquel terrible episodio. En esa oportunidad me había gritado para detenerme, pero aceleré mi paso y me perdí entre los otros peatones. No recuerdo con claridad los hechos, pero ella me lo afirmó en el segundo encuentro, diez años después de la fallida convocatoria, cuando su llamado fue efectivo, al oír mi nombre y volver mi mirada hacia ella me detuve. Me miró como uno mira a un amigo que hace tiempo que no ve, me reconoció sin dudarlo y me preguntó con voz tímida, pero esperando una respuesta sabida.

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-¿Profesor Raúl Núnez? - ¿Quién es usted? Le respondí, mientras encendía un cigarrillo para incomodarla. (Pensé en Marga, aunque supiera que no era real). Contrariamente a lo deseado, ella tomó más seguridad al ver la  marca de cigarrillos y la manera de encenderlo. Al verla tan cerca sentí un profundo desasosiego. Yo era el profesor Raúl Nuñez y esa esquina y ese encuentro, ahora sí, eran escenas repetidas. – Soy Marga Solari, profesor. Dijo. Sin pensar acaso si el cigarrillo estaba o no encendido o a medio fumar, lo arrojé al suelo y lo destrocé de un pisotón con el taco de mi zapato. –Discúlpeme, esta porquería me esta matando. Le dije para ocultar mi pánico, mi exaltación. -Marga Solari… Si, la recuerdo, fue alumna mía. Le dije, para seguirle la corriente a un imposible. - Si profesor, Soy Marga, su amante; también fui alumna suya de la clase de filosofía en el año 72. ¿Sólo me recuerda como su alumna? ¿Tan poco he sido para usted? Me dijo mientras se levantaba levemente la camisa y me mostraba un lunar que tenía a la altura de su abdomen que yo y mi boca bien conocíamos. -No, no puede ser, vos estabas… -No profesor, estoy viva y frente a usted. ¡Tóqueme, siéntame! He vuelto para estar a su lado… -No señorita, es de muy mal gusto jugar con estas cosas. Usted es una mujer muy bella, con un gran parecido a Marga, pero no es bueno hacer bromas con gente que ya no está entre nosotros. No sé qué pretende teniéndome enfrente suyo y diciéndome todas estas cosas, lo creo muy humillante. Mientras decía esto algo se estremecía en mí y me consolaba pensando que he pagado y seguiré pagando esa culpa toda mi vida. Que ya es suficiente, que ya no puedo soportar más puntadas de lanza con CRUVIANA

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las que mi culpa me flagela. -Sí, profesor. Soy yo, Marga. Habitación 37 del Hotel Mediterráneo de Montevideo, esa que nunca usamos, me dijo cerrando los ojos... es nuestro secreto… ¿Se acuerda? -No, es imposible, es una impostora bien informada, nada más que eso ¿Qué quiere? Estaba frente a ella y no podía escapar. Pude salir corriendo, perderme entre las señoras que hacían compras, o los chicos que salían del colegio. Pero la misma inquietud, la misma intranquilidad que me obligaba a salir de escena, me paralizaba. -No profesor, soy Marga, su Marga ¿Se acuerda cuando me hizo el amor en la oficina del rector? ¿Quién más que nosotros lo sabe? Al oír esto dudé, y atemorizado decidí huir; huir por segunda vez. - Estoy apurado señorita, realmente siento mucho haber creado en usted falsas expectativas, le dije mientras encendía otro cigarrillo y caminaba hacia atrás, sin dejar de mirarle la cara, chocando con la gente que me insultaba. -¿Siente lástima por mí? ¿Yo era su preferida, no? Dígamelo y lo dejo en paz. Quiero oírlo de sus labios y me iré para siempre. Me dijo levantando la voz, casi gritando. Mientras avanzaba hacia mí. -Discúlpeme no quiero llegar tarde a clase. Le prometo que la contactaré y hablaremos en otra ocasión y en otro ámbito. Caminé unos pasos más y giré para acelerar la huida, ella corrió hacia mí, me tomó del brazo y me dijo. –¡Quédese profesor, si usted me deja le juro que mi vida será un tormento! Apenas me di vuelta para oírla se colgó con sus dos brazos de mi cuello, abrazándome, como una novia, como esa jovencita que me abrazó por primera vez luego de clase en los años setenta, cuando yo era un hombre y ella apenas dejaba de ser una niña.

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Me besó y saqué mis labios. Me besó nuevamente y la besé. Al abrazarla sentí que su corazón latía lento, con bombazos pesados, como moviendo mercurio. Fuimos a un hotel, esa tarde falté a clases. Al denudarse me dijo. -Lo amé profesor, lo amé cada una de esas noches que pasamos en Montevideo. Lo amé en sus clases, en su casa, en la oficina del rector. Bajé la mirada al ver su piel. Ella supo la causa y me dijo. -No se deje condicionar por lo que vea en mi cuerpo, cada mutilación es fruto del amor, de la devoción que siento por usted. Me enseñó una de sus muñecas, estaba fieramente cortada y dijo señalando la herida. -No fui yo profesor, fue su abandono. No dije nada. Luego, ya sin pudor, miré hacia abajo y a los lados, tenía cicatrices por todo su cuerpo. No me importó, la besé, la lamí hasta no sentir mis labios ni mi lengua. Después de saciar el deseo, me quedé dormido un breve instante. Un llamado telefónico, que no llegué a contestar, me despertó. Me levanté de la cama y fui hasta una de las esquinas del cuarto donde había dejado sobre una silla mi saco, y busqué en uno de los bolsillos el móvil. Tenía dos llamadas perdidas de mi esposa, no las respondí. Miré el reloj, eran casi las once y cuarto de la noche, debía haber llegado a casa hacía más de una hora. Volví hasta la cama, ella todavía dormía, la tomé por el hombro y la sacudí levemente para despertarla. Giró la cabeza y desde su posición me miró y volvió a apoyar su rostro en la almohada. Me puse los zapatos y me dispuse a retirarme. -¡No se vaya profesor, tenemos tres noches! ¿Se acuerda cuando usted me dijo eso, hace veinte años? Me dijo desde la cama. -No, no lo recuerdo. Mentí. Es un error repetido que yo esté CRUVIANA

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aquí junto a usted, dije mientras mi interior desconsolado era un letrero luminoso en la inseguridad de mi voz. -¿Se acuerda, me lo dijo en Montevideo, profesor? -Sí, recuerdo Montevideo como otro echo común en mi vida. Disculpe, pero debo irme, a esta hora ya debería estar en casa, como todos los días. Mi esposa debe estar preocupada. -¿Su esposa? ¿Ahora le importa la preocupación de su esposa? -Ya es suficiente, no creo merecer tal falta de respeto. -Su esposa, su esposa…ella lo llamaba al hotel y le preguntaba sobre el seminario y usted le mentía concientemente para que no sospechara. ¿Ahora le importa ella? Di el portazo y bajé corriendo por las escaleras. Salí del hotel sin mirar atrás, caminé dos o tres cuadras por Corrientes, paré un taxi y ordené me llevara a mi casa. Al llegar, luego de hablar de nuestro hijo que vive en el extranjero, de la clase sobre Heidegger (que nunca dicté), del perro que hoy no ha querido comer porque está enfermo y otros temas menores y cotidianos, mi mujer me dijo. -Llamó la señora de Solari para avisarnos que, aunque ya no hagamos tiempo de ir, hoy a las 8 de la tarde daban una misa en conmemoración de la muerte de Marga, su hija. ¡Veinte años ya! Cómo se pasa el tiempo… que buena chica era, venía y se quedaba horas hablando con vos ¡Me acuerdo como si la estuviese viendo!... ella sentadita frente a vos, escuchándote con tanta atención. Hubiera sido importante para su familia y para su memoria que hayamos ido, Raúl. Por eso te llamé dos veces, no quise insistir para no molestarte, seguramente te habrás quedado con algunos alumnos fuera del aula hablando de la clase ¡Heidegger es tan difícil!...  Sin responder nada me senté en el sillón de la sala tratando de olvidar a Marga. De olvidar ese balcón y mí soberbia. Olvidar

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ese rostro y ese asfalto de la calle 18 de Julio. Olvidar esa voz que nombraba lo que yo no quería escuchar y esos días en Montevideo. Maldigo haberla visto morir por atender mis miedos y humillar su amor. Recuerdo que discutimos antes de la terrible decisión. No. Ella gritó y lloró como una fiera, como una niña. Yo callé y luego huí. Las lágrimas mojaban sus pómulos y la sangre perturbada hinchaba las venas de su cuello, tengo la imagen grabada cuando entre mocos y lágrimas me dijo: -Haría todo por usted profesor, lo que me pida, pero no me deje sola. ¡No me deje sola! -Marga, tranquilízate por favor; tranquilízate. No me vengas con cosas de adolescentes enamorados, sabes cuales son los límites de nuestra relación. Me voy al bar, así estás un momento sola, te calmas y podemos hablar como dos adultos. No atendí sus palabras ni lo determinante en ellas. Tampoco oí el amor. Bajé al bar del hotel, me senté frente al ventanal que da a la calle para perder la mirada entre los desconocidos que pasaban por la vereda. El mozo trajo mi güisqui, tomé un sorbo y me dispuse a volver a la habitación y terminar con Marga, juntar mis cosas y volver a Buenos Aires con o sin ella. Apenas me levanté de la silla me detuvo un extraño e intenso movimiento en la calle. En ese mismo instante el botones que entraba al hotel desde la calle desencajado y a los gritos, dijo que alguien se había arrojado desde alguno de los pisos superiores del hotel. Dudé entre salir a la vereda o volver a la habitación. Mientras se oían gritos de horror y de auxilio y las sirenas de las ambulancias, subí hasta la habitación y vi sus cosas y esa ventana abierta. Supuse el resto. Metí mis pertenencias en la valija y las llevé al cuarto que CRUVIANA

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habíamos reservado para que nadie sospechase lo nuestro. Volví al bar y de ahí salí a la calle. Al salir me acerqué hasta el cordón policial. Ahí estaba su hermoso cuerpo golpeado y muerto sobre el asfalto. Dije que la conocía y que estaba conmigo, me dejaron acercar hasta ella. Me arrodillé junto a su cadáver a esperar al médico. Mientras la subían a la ambulancia respondí las preguntas de oficio que me hizo la policía. -Todo fue muy rápido. Era mi alumna, no sabía mucho sobre ella, estábamos en el mismo hotel porque la universidad nos pagó un viaje para asistir al congreso de filosofía. Declaré. Reconocí el cadáver en la morgue, hice los trámites y volví a Buenos Aires con Marga. Yo en el camarín, ella en una caja de madera en la bodega del barco. Hoy la vi de nuevo en la misma esquina y ella me vio. Me esperaba ahí, como hace diez; como hace treinta años. Ya hace tres décadas de su muerte, mis canas y el lento caminar apoyado en mi bastón no me permitieron eludirla. Marga me habló, yo miré el piso, sabía bien que esta vez no podría huir. Me paré frente a ella. Cuando sentí que buscaba el fondo de mis ojos me mantuve inmóvil, bajé la mirada en una retardada entrega. Renuncié a mi voluntad y dejé que ella decidiera qué iba a pasar. -Hola profesor, lo estaba esperando. ¡Hace tanto tiempo lo espero! Me dijo. Mientras ella hablaba yo sólo veía en la periferia los pies de los caminantes, de las señoras que hacen compras, de los chicos que vuelven de la escuela y el entramado de baldosas que recubren la acera. Ella me tomó del brazo y caminamos por Corrientes hasta perdernos entre la gente. PEDRO GARCÍA LAVIN, nasció en la ciudad de Azul (Pcia. de Buenos Aires), vivió toda su vida en Saladillo (Pcia. de Buenos Aires), excepto cuando fue por estudios a la ciudad de Buenos Aires, donde recebió el título de Administrador Agropecuario. Actualmente vive en Saladillo, donde trabaja y desempeña actividades en ralación a sus intereses artísticos que van desde la escritura y la fotografía, hasta la música y la pintura. Publicó en el año 2006, un libro de poemas al que tituló “otra vez donde otras veces”.

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confissão

Carla Duarte Vejo-a subir a rua de passo largo, os saltos altos não atrapalham. Traz um decote generoso, faz invejar qualquer outra mulher. De pasta na mão, segue de cabeça erguida, o vento faz os cabelos louros esvoaçarem. Todos os dias pelas 8h15 eu espero na janela da sala, que ela passe na rua. Como desejo que olhe para mim. No dia que caiu saraiva, o decote não estava lá, mas o cabelo pintado de louro esvoaçava, no seu passo ligeiro, os grandes olhos castanhos cruzaram os meus negros. Como desejo que sorria para mim. CRUVIANA

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Os dias passaram e eu desesperei pela aquela rua, não a vi passar, até o cão ladrar, corri à janela. Vi-a afagar as orelhas do hug. O pequeno cachorro correu para mim, um sorriso nos lábios vermelhos emergiu para mim. Como desejo ouvir a sua voz. A chuva passou, o decote voltou, as calças deram lugar à saia, como as curvas bem definidas alegram os meus olhos, de sorriso nos lábios um bom dia expressou. Como desejo cheirar o seu perfume. Os dias quentes estavam a dar cabo de mim, na janela não conseguia ficar, uma cadeira de verga, deixei à porta e sentei, esperei. Uma vez mais vi-a a passar no seu andar gracioso. O seu perfume bailou no ar. Como desejo tocar-lhe... Querida mãe, nessa tarde, convidei-a a entrar. Estava calor, ofereci-lhe um sumo fresco das laranjas do teu pomar, mas ela não pareceu gostar, cuspiu o delicioso néctar. Levei-a até ao altar e mostrei-lhe a tua foto, ela chorou e pediu para sair. Ajudei-a sentar , poderia ela sentir-se mal, hug enroscou-se ao lado dela, rosnou, e não a deixou sair do sofá até eu voltar com o teu pente de osso que pertencera à avó. Toquei-lhe no lindo cabelo louro, cheirava a alecrim. Fechei os olhos. Desejei que fosse só minha. Eles querem saber onde ela está ... … só eu sei.

CARLA DUARTE nasceu na cidade de Faro, capital do Algarve (Portugal). De momento, vive em Lagos, numa bonita cidade costeira. Sempre que a disposição aparece, escreve contos, desenha e pinta quadros a óleo.

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O homem batata frita*

Regiane Santos Cabral de Paiva (tradução) Quinta-feira. Fabián se levantou pela manhã com uma ressaca que lhe partia a cabeça. Na noite anterior havia bebido muito. Olha-se ao espelho e sorri; está feliz, tinha saído com Roxana. A principio, Roxana não queria sair com ele; ele insistiu. Às vezes, não sabemos se é o que alinha os planetas, mas estamos mais lindos; elas menos pretenciosas, ou sem pretender ofendê-las, não se deixam levar por esse primeiro impulso de histeria que as bloqueia. O fato é que ela aceitou uma tarde de quarta, sob uma série de condições, como é natural. Ele disse sim a tudo e CRUVIANA

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marcaram lugar e hora. Fabián a esperou às 10 da noite, conforme o pedido dela, naquela esquina. Foram comer. Em seguida, a convidou para tomar alguma coisa e, depois, a noite seguiu crescendo e terminaram meio bêbados, dançando salsa num bar do bairro Once. Mais tarde, fizeram amor. Fabián, enquanto se espreguiçava, notou algo estranho. Na rua, olhando da varanda, via o mundo mais acordado do que ontem, antes de ontem e antes de antes de ontem a essa mesma hora. Era como se tivesse acordado mais tarde do que o normal. Olhou o relógio da parede, eram 8hs; depois o de pulso, eram 8hs. Ligou a tv no canal de notícias, eram 9. Esse dia Fabián não chegaria a trabalhar. A noite anterior, assim que desse meia noite, tinha que adiantar uma hora dos relógios, devido ao ajuste pela mudança de estação. Seu trabalho é, além de pensar em Roxana – e hoje mais que nunca-, distribuir sacolas de batatas congeladas nos locais da rede Fritpap’s, que hoje não teria matéria prima para acompanhar os gordurosos hambúrgueres. Javier saiu de seu trabalho às 12. Como todo meio-dia, foi almoçar essas batatas fritas que não podia deixar de comer. Chamavam-no o místico da batata frita. Outros o consideravam um ‘batata frita’ por sua devoção ao indigesto tubérculo frito. Outros tantos perderam-lhe o respeito por esta razão. Mas ele não se importava com nada disso, enquanto tivesse batatas fritas, as coisas funcionavam muito bem para ele. Sentou-se num banquinho que já tinha o formato de suas nádegas. Karina, a moça sardenta que atende no local, lhe perguntou: __ O que vai comer? __ O de sempre, respondeu Javier. __ Senhor, não temos esse menu, disse a aparentemente ingênua moça.

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__ Posso lhe oferecer hambúrgueres simples, duplo, triplo com presunto, queijo, com presunto e queijo, com tomate e sem alface, com alface e sem tomate, com tomate e cebola, com cebola e queijo, com queijo e molho e pepino. Se quiser o combo 2, lhe damos um quarto a mais de Poca Cola e Spiritis; se quiser acrescentar algo mais, o combo 3 lhe dá a sobremesa grátis, mas se quiser uma sobremesa maior terá que pagar um pouquinho a mais... e assim a moça seguiu falando durante dois ou três minutos. Ele a escutava atentamente – ou pelo menos dava a entender- até que a olhou e, com um tom ansioso lhe disse: __ Menina, quero batata frita! Nada mais do que isso. Venho todos os dias aqui e sempre me pergunta a mesma coisa. __ Desculpe senhor, mas hoje não temos batatas fritas. O distribuidor de batatas não foi trabalhar e até amanhã não teremos. Quem segue!? Javier, mergulhado em uma incontida depressão, se colocou de lado, baixou a cabeça enquanto se apoiava em uma das colunas do local, caiu aos pés do mundo. Pensou que toda luta por vedar sua felicidade, sua alegria, seus cotidianos costumes. Esses costumes que não fazem mal a ninguém, que não prejudicam, que não invadem, que não matam. Hoje não poderia ver esses lampejos de ouro sobre os bastões amarelos. Hoje a luz não empurrava no óleo fumegante como um trigal. Esses bastões que se nevam com o sal e se deslizam um a um como um snowboard sobre sua língua, paladar e garganta, estaria, longe, incalculável, incompreensivelmente longe dele. Sentiu que morreria sem as batatas fritas e que tudo é tão, tão injusto que nesse dia CRUVIANA

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sua estadia na terra teria sido inútil, desesperada e nula. No final das contas, a felicidade dos homens sempre está determinada por um sim ou por um não de uma mulher que nem sequer a conhecemos. *Hombre papafrita, conto original do poeta e contista argentino Pedro Garía Lavin, traduzido para o português por Regiane Santos Cabral de Paiva.

REGIANE SANTOS CABRAL DE PAIVA é de Fortaleza (CE), mas nasceu em São Paulo (SP) no bairro da Liberdade e hoje, mora em Mossoró, a terra da liberdade. Mestra em Letras, é professora de literatura hispano-americana da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e comete alguns contos. Dessa vez, se aventurou pela tradução. www.regianelatina.blogspot.com.br

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Fred Veras

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a cor dos olhos

Maria da Glória Jesus de Oliveira Papai era um homem trabalhador. Passava o dia na roça. Seus olhos verdes pareciam ser o reflexo do milharal. Não tinha relógio. Quando o estômago roncava, punha a enxada de pé. Se a sombra descesse sobre o cabo, era meio-dia. Hora de ir para a casa, almoçar. Mamãe espera ele chegar. Colocava a esteira de taboa no chão. Servia uma gamela de comida no centro, e nós sentávamos ao redor. Papai fazia a prece de agradecimento. Para não haver briga com os manos, mamãe cortava um pedaço da carne seca e assada sobre a chapa e dava a cada o seu quinhão. Jorge olhava CRUVIANA

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para o meu e reclamava, dizendo que era maior do que o dele. Depois do almoço, papai fazia a sesta de quinze minutos. Antes de voltar ao trabalho, brincava um pouco. Amarrava um graveto no sentido contrário do sabugo de milho, fazendo às vezes de guampa. Prendia um cordão e eu ia puxando. Era meu boizinho. Antes de sair, papai fazia um carinho aveludado em minha cabeça com as mãos repletas de calos. Dava um sorriso e subia a lomba cantarolando. Papai também pescava. O peixe era nosso sustento. Mais fácil de conseguir do que a carne. Papai tinha uma canoa. Bem velha, mas ainda servia. Quando ele pegava bastante, encarregava-me de sair pela vizinhança, vendendo. O dinheiro dava para comprar farinha de mandioca. Às vezes, até arroz, com casca. Mamãe pilava. Era mais gostoso do que o pirão de farinha de mandioca. Um dia, papai saiu para pescar e não voltou. Mamãe segurou nossas mãos e desceu a ladeira em direção à lagoa. Sentounos no trapiche e rezamos até ficar escuro. Tia Lica, quando não viu ninguém na nossa casa, foi nos procurar. Tentou convencer mamãe, mas ela não arredaria pé até papai voltar. Titia também ficou rezando. Mais tarde, foi a vez da comadre Alzira. Reuniu-se a nós na rezadeira. O padre, quando soube, achou que deveria nos acompanhar. O dono da roça onde papai trabalhava passou a fazer coro conosco, acompanhado da esposa e de um filho. O homem que fazia caixões também foi. Acho que tinha outras intenções, mas rezou. Minha madrinha desceu. Levou cobertas para as crianças, comida, água e velas. Tio Clarisdino ia passando de canoa e aportou. Era irmão

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mais velho de papai. O açougueiro viajava com ele. Juntou-se a nós. Dona Minervina, a parteira, que tantas vezes ajudara mamãe, também se fez presente. Com ela foram duas filhas. No trapiche não cabia mais ninguém. Os demais a se aproximarem, foram ficando pela beira da lagoa. Já eram muitas vozes, algumas lanternas, velas e lampiões. Quando amanheceu, o padeiro levou pães, o dono do armazém ofereceu café, o leiteiro trouxe um tarro de leite. Embora a tristeza de uns, as lamentações já pareciam um piquenique. Falas mais altas e até risadas. Um desrespeito. Vovó Marieta, que morava distante, é que deu fim à reunião. Depois de abraçar a filha e chorar junto, convenceu-a de que era hora de voltar à vida, aos afazeres, aos cuidados da casa e das crianças. Podia chorar o que quisesse, mas não deixar a labuta. Mamãe levantou-se, segurou nossas mãos. Ficou com o olhar perdido em direção à lagoa. Depois virou as costas e caminhou com os filhos: a fortuna que lhe restava. Foi subindo a ladeira e deixando as lágrimas descerem. Atrás, a longa fila a acompanhava. Em certa parte do trajeto, cada um tomou seu rumo. Hoje, meus cabelos estão grisalhos. Quando vou ao espelho, vejo meu pai de olhos castanhos, as mãos lisas e o sorriso. Deixei meus filhos no carro e desci para o trapiche. Já fiz isto tantas vezes. Penso que agora os olhos de papai estão azuis, reflexos da lagoa e do céu. MARIA DA GLÓRIA JESUS DE OLIVEIRA, residente em POA-RS, aposentada, publicou: “Despertar”, poesia, “Ninho de Pedras”, romance, “Contos Transeuntes”, contos; “Além do Jardim” – memórias, “Estelinha” – infantil – e “Nascidos do Coração” - infantil. Pertence à AJEB-RS- Assoc. das Jornalistas e Escritas do Brasil; à AGEI - Assoc. Gaúcha dos Escritores Independentes; à CAPORI - Casa do Poeta Rio-grandense. Membro da Academia de Artes, Ciências e Letras Castro Alves, Porto Alegre/RS; Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais; Associação Internacional dos Poetas del Mundo; Divine Académie Française des Arts Lettres et Culture, Paris/France; Sociedade Brasileira dos Poetas Aldravianistas. (madaglor@ibest.com.br)

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um segundo e meio depois

Alexandre Cunha dos Santos De súbito, uma frase atravessada cruzou a mesa acometendo meus ouvidos desarmados. Justamente aquele encontro, promovido à custa de muita insistência, tinha o objetivo de acalmar os ânimos exaltados das últimas semanas. Pelo menos, o cenário era favorável. As notas do piano compunham harmonicamente o som ambiente, tornando o simpático bistrô ainda mais aprazível. A segunda garrafa de vinho tinto trazia maior satisfação ao paladar que a anterior, contribuindo de maneira decisiva com a crescente desenvoltura de nossa conversa. Até então, o clima beligerante havia sido substituído por uma promissora

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possibilidade de reconciliação. Era a primeira vez em que saía de casa nesses sete anos de casamento. Tudo por causa de uma despretensiosa carona. Como explicar um batom perdido no console do carro? Até existe justificativa, pois não há nada demais em transportar uma colega de trabalho que seguiria por um trajeto semelhante. O problema é levar alguém tão distraído a ponto de deixar um rastro inocente, embora comprometedor ao faro feminino de uma esposa desconfiada. Mesmo sem culpa no cartório, não conseguia parar de gaguejar. O rosto lívido, o olhar de espanto e os dedos irrequietos coçando a cabeça de maneira intermitente desenhavam o perfil do réu sem defesa. Jurei inocência, no entanto, as evidências pareciam refutar de bate-pronto qualquer tentativa minha de explicar a situação. Parecer culpado é tão constrangedor como ser culpado de fato. Não adiantava repetir, pela décima vez, que o raio do batom não era de nenhuma vagabunda com quem estava saindo. Rosana permanecia irredutível. A traição arquitetada por sua imaginação tornara-se líquida e certa, não me permitindo qualquer recurso em minha defesa. A sentença já estava formulada, e as duas malas de roupas empilhadas sobre o capacho da porta de entrada indicavam o caminho a seguir. Naquele instante, senti muita vontade de ter tido efetivamente alguma responsabilidade. Seria mais justo pra nós dois, assim o casamento terminaria por algo concreto. Não merecíamos ter a figura de um culpado inocente, de um vilão sem delito, de um pecado sem originalidade como estopim de nossa separação. Os primeiros dias foram de isolamento absoluto. A partir da segunda semana, ela passou a atender minhas ligações e, finalmente, algum tempo depois, marcamos nosso jantar. Não imaginava encontrá-la tão atraente, ou melhor, havia me CRUVIANA

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esquecido da última vez em que se produzira daquela maneira – decididamente, Rosana não trazia consigo o cabelo, a pele e o olhar cotidianos. Não demorou muito, esvaziamos a primeira garrafa de vinho, quebrando a formalidade inicial e enchendo de sorrisos abertos o nosso encontro. Àquela altura, inúmeras recordações passeavam entre goles tintos e gestos apressados tentando resgatar episódios que cada um de nós expunha com promissor entusiasmo. Talvez, para reconstruir o futuro, seja menos penoso recorrer aos bons momentos do passado. E o fazíamos com plena competência. Começamos pelo nascimento da Clarinha. O cordão umbilical enrolado em seu pescoço sufocava a nossa esperança, e o medo da perda nos assombrou como nunca antes havíamos experimentado. Contudo, a explosão de alegria ao ouvir o choro mais aguardado de nossas vidas foi algo de retumbante, inigualável, inenarrável. Sempre nos emocionamos ao pensar... Rosana lembrou o dia do casamento no instante em que fizemos o segundo brinde. Ela se vangloriava em dizer ser a responsável por ter me ensinado a brindar de maneira polida: “Pôr a taça na mesa antes de provar a bebida é de uma pobreza de espírito sem precedentes...”, asseverava sempre num tom de provocação e com um meneio de cabeça reprovador. Antes da cerimônia, recomendou-me duas coisas apenas, ainda que umas trezentas vezes: “Não se esqueça de sorrir na entrada e, no brinde, pelo-amor-de-deus, não deixe de provar a bebida logo depois da saudação! Posso ficar tranquila?”. Pura quimera! Não ficaria tranquila enquanto não começasse a celebração e se certificasse do bom andamento de tudo. Brinquei que quase desisti de casar ao presenciar sua crise nervosa por causa das indesejáveis nuvens cinzentas. Eram realmente numerosas pela manhã, passeando intimidadoras e sobranceiras pelo céu – justo no grande dia! A recepção seria

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realizada num vasto gramado, ao ar livre, e, se a chuva tivesse chegado conforme a ameaça, a festa iria literalmente por água abaixo. Obviamente, não perdi a deixa: “Nunca entendi aquele seu piti, o maior prejudicado seria eu...” e prossegui sarcástico, porém evidenciando familiar carinho: “Eu quem tive de fazer dois investimentos de alto-risco de uma só vez: pagar uma fortuna por uma festa que podia não acontecer e consentir em passar o resto dos meus dias ao seu lado... Muita coragem!”. Ela me premiou com uma risada aberta, embora isso não significasse bastante devido às circunstâncias, devo confessar. A bebida já se encarregara de afastar qualquer inibinição remanescente. Nossa viagem ao passado finalmente chegou ao ponto de partida. Decisão da Copa de 94, as ruas do Leblon estavam apinhadas de gente na hora da disputa dos pênaltis. Minha euforia após a cobrança do Baggio por cima do travessão durou relativamente pouco. De súbito, senti uma ligeira, mas aguda queimadura no braço esquerdo. Era o cigarro de Rosana, que pulava feito louca no meio da multidão. Disse somente aceitar as desculpas se ela concordasse em tomar um sorvete. E o nosso primeiro beijo foi verde-claro, com gostinho de pistache... A noite caminhava para o desfecho esperado quando uma frase atravessada cruzou a mesa acometendo meus ouvidos desarmados. Eu não podia ter perdido o timming, não naquele momento. Rosana não se conteve e disparou em minha direção, cobrando mais compostura e respeito à sua presença. Meu descuido – chamemos desta maneira – durou um segundo e meio a mais, não chegou a dois – tenho certeza absoluta –, mas foi o suficiente para reavivar os nossos tempos mais críticos. Dispensável dizer que minha atitude mereça alguma defesa, mas era simplesmente impossível não observar a presença devastadora da dona daquele vestido justo. E digo justo não CRUVIANA

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apenas pela estreiteza, mas, sobretudo, por delinear com desejável competência e fidelidade suas curvas. Perigosas curvas... Ao passar pela lateral da mesa, cativou simultaneamente nossos olhares por alguns instantes, meu e de Rosana. O grande erro, entretanto, foi me prolongar por um segundo e meio em minha atenta observação – uma eternidade para um homem acompanhado. O pior é que não cogitava de forma alguma aventurarme em qualquer relacionamento extraconjugal. Pura babaquice masculina... Não pedimos a terceira garrafa de vinho, a solicitação ao garçon foi de que telefonasse à cooperativa de táxi mais próxima da região. Em silêncio, sentimos o último gole descer amargo pela garganta quando a derradeira nota do piano desafinou, quebrando o encanto da noite. Paguei a conta antes que as luzes de nossos rostos se apagassem por completo. Partimos em carros separados, cada qual para seu respectivo destino.

AlEXaNDrE CuNHa Dos SaNtos é Jornalista, contista, casado, três filhos queridos. Responsável pela Programação e Aquisição de Conteúdo do Canal Brasil. Trabalha na Globosat há 21 anos - os 14 últimos no Canal Brasil -, com passagens pelos canais GNT e Universal. Em 2004, foi premiado no 1º Concurso Contos do Rio, organizado pelo Jornal O Globo e pela Academia Brasileira de Letras. No mesmo ano, publicou seu 1º trabalho: “Pracinha Xavier”, parte integrante do livro “Contos do Rio”, da Editora Bom Texto.

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devoção

Arlete Mendes Estava lá. Parada. Nua diante dele. O quarto era escuro, iluminado apenas pelo brilho da TV, que agora falava para ninguém. Para além de suas forças, banhava-se, perfumava-se, postava-se nua. Imóvel. Musa Impassível. Era o que fazia e mais nada. Fazia como uma necessidade para sua existência. Ele. Deitado. Imponente. Via. Distante deleite.... Não ousaria tomá-la. Nem ela o tomaria, mas estaria lá. Sempre. Era o que sua consciência pedia. Pois os corpos possuem uma consciência só deles, apartada da mente e do espírito. Era essa consciência que ela seguia, mas nunca deixaria de lado a mente e o espírito. CRUVIANA

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Na verdade era toda seguidora, complacente com o corpo, com o espírito e com a mente. Haveria sempre de ir, haveria sempre de voltar. Devoção é para toda a vida. Sim. Havia um homem seu que lhe dava valor, lar e nome. Seria tudo o que ela quisesse, por ela seria. Simples assim, mas a vida é denso nevoeiro. O fato é que nada do que é pode verdadeiramente ser, nada do que se faça pode realmente dizer o que somos. Não passamos de nuvem rala. Impossível de decifrar se bom ou mau agouro. Por mais que ela vigiasse e zelasse seu homem e por ele fosse, seu corpo estava preso àquele outro. Não. Antes não poderia sentir o prazer que só agora conhecera. Junto ao seu homem podia ser. Um fardo? O poder que a aprisionara, jamais a libertaria? Seu coração estava nu diante do homem que nunca fora seu. Arrebatava-se, pulsava em descontrole, músculo involuntário, com sua permissão, ou não, bateria. Talvez não houvesse como. Deixaria estar. Presa imóvel diante da força do predador. Não sabia como se mexer. Estática. Sua única resistência era não se entregar, que a visse, a tocasse levemente o contorno do rosto com o suave dos dedos, que sentisse o cheiro do seu corpo limpo e perfumoso e a deixasse ir. Isto era tudo que lhe devia. Por vezes, caminhava à esmo até chegar em casa. Era como se continuasse em transe. Respondendo automaticamente aos estímulos do mundo externo. Não via o movimento da multidão. Desvia-se, como se estivesse sendo guiada por grandes cordas ocultas. Fantoche. Sem vida. Sem feição. Sem. Completamente envolta pela lembrança do cheiro das mãos daquele homem. Elas cheiravam a pão quente saído do forno, que era seu alimento. Fora dele e assim seria.

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Todo dia os filhos, a casa e seu homem a exigiam. Ela também os obedecia, porque o amor é obedientemente cego. Não deixa nunca de obedecer. Do mesmo modo, também ela obedecia aquele homem, aquele que nunca fora e nem haveria de ser seu. Homem-sol, que nunca fora seu. Havia criado um sistema planetário inteiro. Ela? Sua mera estrela cadente. Agora decadente. Tinha hora de chegar e de partir. Não podia ser tocada, nunca seria totalmente dele, pois há muito fora espedaçada pelo universo, o que ele via era o lusco-fusco dos seus fragmentos, apenas. Diante do homem-sol, que nunca fora seu... Giraria em torno dele para sempre? Era a gravidade? A mesma força que a arrastava, a expulsava para longe. Por isso sempre haveria de partir. E ele, importava-se? Quem sabe? Mas o universo nunca se importaria, estava a esmigalhá-la, lenta e infinitamente, até que não houvesse mais o pó de sua existência. Desestrela. Já seu homem, este confiava. Essa crença era a única força que a trazia de volta, senão ainda estaria vagueante. Tinha os cabelos úmidos ao chegar em casa, mas ele, seu homem, a abraçava, roçava os dedos em seus longos fios gelados e a conduzia docemente ao leito. Juravam um para o outro a eternidade e suados adormeciam. Novamente tinha de cumprir a sina. E lá estava nua e casta. Diante do outro que conhecia a nudez daquela mulher, mais do que a dele própria. Num ímpeto, ele avançara. Desta vez lhe sussurrara obscenidades. Dizia que a tomaria, porque ela o pertencia. Encostou docemente seus lábios. O coração gritou descompassado. Enregelou-se, embora o quarto estivesse quente e úmido pelo banho demorado. É que o homem-sol, por dentro, era frio. Olhando para esse frio, a mulher agarrou-se a um fio de coragem e disse: CRUVIANA

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-Já não basta tudo o que tens de mim? Dei-te minha juventude... um lar... Teus filhos! Nunca saberás o que fazer com o que gratuitamente te ofereço! Vestiu-se mais depressa do que o de costume e foi-se. Chorou o caminho de volta. Choraria mais se houvesse mais caminho para chorar. Mas ali se secou e seguiu para seu quarto, para seu homem, para seus filhos, que sempre a exigiam de volta e assim haveria de cumprir. Eterna entrega ao desconhecido.

ArlEtE MENDEs, mora em São Paulo. É mestre em Letras e professora de Língua Portugesa na rede municipal de ensino. Tem participado de alguns concursos literários e de alguns projetos coletivos.

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acre cheiro da morte

Sidney Summers Houve um tempo que eu corria desesperado ao banheiro para urinar e era recepcionado com as boas vindas de um cagalhão alheio, um tolete fétido e grosso que não teria conseguido sair pelo meu cu. Fora um tempo em que meu tempo era ocupado com trabalho inútil, pura perda de tempo. Eu era um empregado desinteressado e mal remunerado com poucas horas de sono, mas isso foi essencial para que a flor desabrochasse. Nem sei se eu poderia chamá-la de flor; talvez, sejam apena os vermes da mosca varejeira que devoram a carne, vermes que se transformaram em borboleta. Ou que eu veja como borboletas CRUVIANA

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por que com eles veio o dinheiro fácil. O movimento ascendente como um gráfico de função exponencial começou com a publicação em revistas simples, daquelas que qualquer um que tenha combinado certo número de palavras com um mínimo de coerência poderia ser publicado. A literatura é uma arriscada corda bamba. Até os mais néscios, dementes e incapazes podem conceber isso sem esforços. Mas como disse um poeta famoso que esqueci o nome: “o poeta é irrazoável”. Eu não sou poeta, mas irrazoável, muitas vezes. Senti que eu poderia continuar. Não me custava nada e eu ainda ganhava um assunto a mais se tivesse a oportunidade de dialogar com alguém. Consegui, em textos, me espalhar pelo Brasil, para os lugares que nunca visitei, depois pelo universo lusófono, pelo mundo hispânico e pelo globo. Ganhei um concurso literário. Não digo que fiquei exatamente feliz, não entendi como o relato de meu cotidiano, sem tramas ou requinte, foi capaz disso. Minha vida deve ser mesmo pura poesia. Em degredo, tive a companhia dos lagos mortos, esquecidos e sujos que margeiam a Avenida Paralela e agora estou aconchegado e protegido em conforto num lar burguês, reproduzindo valores em que não creio. Tanto faz, o conforto compensa. Agora tenho água quente no chuveiro e nas torneiras, uma mobília tradicional em madeira de lei, uma cama confortável, espaço e tempo. Tudo isso, quase uma complexa equação física, num endereço fixo. Somente por relatar a realidade, a minha realidade, a visão dos meus olhos. Hoje preciso inventar coisas que vivi para continuar com a grana fácil. Minto sem me preocupar em ser convincente ou que saibam da irrealidade dos fatos. Esse texto, por exemplo, não interessaria a ninguém. Mas como continuo o mesmo... Que você e todo o resto se fodam. Mas antes quero que saiba que escrevi tudo isso num rou-

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pão branco, mais imaculado que a virgem Maria. Saí a pouco da hidromassagem e estou esperando a puta morena mais gata (e mais cara) que já vi. A vida sempre será difícil. Para uns mais, para outros menos. Sempre de um jeito diferente. Meu conselho e exemplo coincidem, aproveite como der. E o resto? Não se esqueça de se alimentar e de transcender os limites da mente sem preconceito. A falta de alimento matará o corpo com o tempo, mas a burrice extermina a alma, mesmo que o corpo esteja aparentemente bem. Quando saio de casa tenho a sensação de atravessar um imenso cortejo de zumbis. Nunca deixe de acreditar na sua própria merda. Deus fez as uvas, o homem as passas. Já me falaram que eu, Will Cagliostro, estou morto. Não me reconhecem após eu ter trocado a podridão que me cobria, a lama do fundo do poço, pelo suave aroma do meu pós-barba. Se esse é o cheiro acre da morte... Ele me cai muito bem.

SIDNEY SUMMERS é escritor, autor de “Prazer, Sid!”, “Para Além do que Não Há” e “Os Dias Quentes se Arrastam Mornos”, co-autor de “Ratos com Asas” e “Pão com Recheio de Sobras”. Tem textos publicados em diversas revistas nacionais e internacionais. Como roteirista trabalhou nos curtas “Olho Mágico” e “Aroma de Café e Cinzas” e na web-seri “Mata-Alta” (4 capítulos). Se sente próximo a literatura marginal, o que quer que seja isso e considera sua obra uma espécie de pós-beat. Atualmente é estudante do bacharelado interdisciplinar em artes da UFBA.

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a sobrinha do mário prata

Gustavo Nishida A menina entra no escritório do cara. Faz um cafuné estranho no busto do Mozart que está em cima da vitrola. Concentrado, só se dá conta da presença dela porque há, como de costume, aquele pequeno chute no pé da escrivaninha: Que susto! - exclamou o cronista. Ué? A minha presença, não tinhas notado? Já falei pra parar com esse tu. Oras, um grande escritor, não sois? - dramaturgicamente, como se fosse uma caveira, levantou uma borracha que estava por ali sobre a mesa e estendeu o braço esquerdo. Era canhota.

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Ah, menina, o que quer? E já basta de segundas pessoas! - gramaticalmente, como se não gostasse dos tus e vósses ultramarinos, implicou com a menina. Ah, sei lá, tio, só passei pra dar um oi. Oi. Que rude! Chega desses erres múltiplos também. Agora é narrador de futebol? A menina riu. Achou o tio nervoso engraçado. Sabe, ela gostava dele. Era o seu tio preferido. Tinha lido tudo do cara. Uma fã. Sem carteirinha, porque o tio Mário não tinha desses clubes. Certamente, ele chiaria que seus fãs lhe enviariam uma carteirinha e a exibiriam por aí com orgulho salientando o ditongo da palavra: Car-tei-ri-nha. Carterinha, oras! Sabe, tio, já tô treinando pra quando tiver idade pra falar assim. Tá. Um silêncio surgiu. Ela gostou dele, mas do nada: Você não gosta de velho, tio? O quê? - respondeu atônito e quase engasgando. O Mário sentiu seu rosto esquentar. Quase que as lentes dos óculos se embaçaram. Ah, sei lá. Você sacaneou com o velhinho lá no Purgatório? Como assim? Que velhinho? Que purgatório? Aquele do Dante. Do Dante Alberto. Ah, é desse velhinho, desse Purgatório e desse Dante que você tá falando. É! Quais mais seriam? - sorriu pela concordância do qual. O Mário ficou desapontado pela falta de referências literárias da menina. Gostava dela também. Achava que ela tinha insights legais e engraçados. Tinha acabado de tomar nota sobre o treino dos erres múltiplos para quando ficasse mais velha. Sem contar que já tinha finalizado crônicas com as tiradas da menina. Mas ter percebido que CRUVIANA

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ela não tinha entendido o processo de criação daquele folhetim moderno realmente o desapontou. Levantou da cadeira e foi à janela. Olhou para o quintal. Graminha verde. Lá estavam os chalés de Gildão e de Gema Margarida. Não se contentou. Foi à rua e buscou um velhinho qualquer. Lá estava ele sentado em um toco em frente da casa sem varada da rua de baixo. Parou diante do velhinho e permitiu ser reconhecido. Ele disse “Fala, Jabour!” com a certeza absoluta que esse era o cronista certo. Que importa, pensou o Prata. Pegou o senhorzinho pelo braço e o levou ao chalé da Gildão. Pedindo licença por entre os dentes, entraram lá. O Mário a abraçou e pediu um tratamento vip para o velhote. Ela deu uma piscadela e foi servindo um chá para ele. Em minutos, o daime da Gildão bateu forte no velho e lhe abriu as portas da percepção. Certamente, o velhinho se sentiu o avô do pequeno Charlie da Fantástica Fábrica de Chocolate saindo dançando após anos e anos de cama. Ficou por ali para qualquer eventual emergência. Enquanto esperava, não acendeu um cigarro porque seria muito caro voltar ao SPA do Diário para parar mais uma vez de fumar. Tomou água. Muita água. De repente, Gildão conduziu o senhorzinho até o Mário. Ele, sorrindo, disse: Foi mal, Veríssimo. Te chamei de Jabour. O Prata franziu a testa. Que foi, tio? Não pensei que ficaria bravo! Sabe, não é que eu não gosto deles. A menina fez uma cara de prossiga. Só daqueles que não sabem o meu nome.

GUSTAVO NISHIDA nasceu em Votorantim (SP), mas cresceu em Capão Bonito (interior de São Paulo). Lá se interessou pela literatura e pelas línguas. Em 2002, ingressou no curso de Letras da Universidade Federal do Paraná. Hoje, doutor em Letras, leciona no curso de Pedagogia da UFSCar, campus Sorocaba. Escreve pequenos contos porque gosta de situações insólitas.

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“ascensão e queda do corpo” Morre assim um verme.

Joaquim Dantas De tombo em tombo, o veneno. Quantas gotas de café maldito. Navalhada no sangue. Os olhos em chama agasalham a rua num último abraço. Quanto tempo levou para se desconhecer? Que vida viveu em merda?! Se preparando a boca para o vômito. Uma última golfada. Não existem palavras. Todas as latas de lixo choram a queda de um irmão. Com o rosto limpo em água corrente. A torneira da rua. Um gole, outro, um bom dia aos tijolos do muro conhecido. Barba de animal a caminhar numa nova manhã comum. A camisa lhe vai aberta. O homem em busca de café. Neandertal. O pão da CRUVIANA

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rua. Que coma algo, que viva algo, mas que seja vazio. Todo o sentido que se perca. Hominis Estupidus. Lambe lixo de uma bota suja. A porca noite é escura. Fuça. Luz de poste ao longe. Num gradeado, pendurada a única camisa. Se deixa em pelos, ao vento. As estrelas já não são vermelhas, as paisagens já não são vermelhas, as horas já não o são. Verifica novamente o céu, e nada há ali que justifique barulho. Corações calados e bichos. Somente ali. Ali. Ainda acordado. Talvez pela primeira vez. Jogado, um corpo, na rua. Todas as verdades que lhe deram os livros, todas as certezas que lhe deram os fogos. O fogo. Agora reduzido a nada. Nem pó, nem cinzas. À vergonha, ao cansaço. Não adiantou acreditar em si quando a verborragia se transformou em brutalidade. Sangue sobre as palavras sagradas. Todos contra uma idéia. Os brutos e sua voz. Todos, e uma idéia se tornou tão quebradiça quanto ossos. Dono de suas certezas, pai de suas palavras. Um discurso aos outros, sua fala de professor inflamado. Um apaixonado. Um militante. Descrente de milagres impensados. Todas as mãos dadas seriam união. Todos os olhos sorveriam justiça. Um amor ao digno, ao correto, ao humano. A sala cheia de livros, de alunos, de debates. Construiu o mundo das idéias. Não viu. Não quis ver muito além das janelas. Porque não era vivo. Porque não era belo. Porque as certezas não são feitas da cor das árvores, mas sim da incolor reação dos axiomas. O garoto filho do pai. Cresceu ali, as estantes por todos os lados. Leitor, tomando café de pequeno. Excepcional. Gênio. Todos aplaudem o caminhar precoce. Todos riem as falas balbuciadas. Um mimo. Vai ser grande, vai ser magnífico. Ensinará

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aos outros, perpetuará o saber. Perpetuará a espécie. Que vida! Que vida! Sapatinho limpo de caminhar sobre os tapetes. Sono maneiro. Um herói nasce ao seu modo.

JoaQuIm DaNtas nasceu no dia 8 de setembro de 1989. Filho de pai e mãe dedicados, foi criado em Mossoró-RN, sua terra de coração, carne e sangue. É ainda vivo. Continua escrevendo conto

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ecos de uma vida

Raoni G. Henrique Do lado de cá, no nosso mundo, as ações podem ser vítimas dos efeitos. Como uma atitude que é tomada em busca de um fim específico, mas no caminho acaba por gerar dezenas de outras atitudes. É tudo meio descontrolado por aqui, feito fumaça que ganha volume quando se tenta dissipá-la. Mas até onde vão todos esses efeitos colaterais? Meu nome é Joel, mas meu médico carinhosamente me chama de bronquite. Não se espante pela intimidade, crescemos juntos. Daí, a “gentileza”. Tusso a cada cinco segundos. Parece até que há um relógio marcando esse exato momento; maldito

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seja, se realmente existir. O problema com a tosse não é resultado de uma bronquite, como o apelido sugere, mas sim pelos 25 anos e alguns milhares de maços que fumei. Mas também, aonde quer que eu vá neste podre emaranhado de prédios, tudo o que vejo é a velha e companheira fumaça. Já nem sei mais se a minha morte virá por aquela que trago intencionalmente ou por essa outra que sai das podres fábricas e dos irritantes carros. Como você, eu também já tive um amor. Não como esses que se vê nas famílias certinhas, nos filmes babacas de comédia romântica. No meu caso, essa história de convivência nunca deu certo. Entretanto, éramos apaixonados. E isso durou até o dia em que ela, Marisa, deu seu último suspiro. A bala atravessou o lobo temporal, disse o doutor. Um fim trágico para quem só quis ajudar... Paradas em um semáforo, ela e uma amiga, ficaram aterrorizadas quando um indivíduo chegou numa moto ao lado da porta de Marisa e encostou o cano em sua cabeça. Pediu as joias, maldito miserável. Marisa, no entanto, pensou em enfiar a mão na bolsa para apanhar o dinheiro que lá estava e entregá-lo ao cretino armado. Mas o miserável pensou que ela fosse sacar uma arma ou coisa do tipo, e então disparou. A bala atravessou sua cabeça e ainda resvalou no rosto da amiga, que estava no banco de passageiros. O que havia de bondade no meu coração foi dissolvido naquele dia. Devo confessar que isso me ajudou a encontrar o miserável responsável pelo disparo. Não era de tiros que ele gostava? Pois então, também disparei contra ele. Dez vezes. Com a morte de Marisa, comecei a fumar. Certa vez até me senti merecedor de uma medalhe, pois acredito ter batido todos os recordes: fumei oito maços num só dia! Dentes e barba amarelados. Pele enrugada. Hálito corrosivo. De um homem, tornei-me um mero escravo do tempo. CRUVIANA

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Anos se foram sem que eu me desse conta. E o reflexo dos meus atos me trouxe de presente o câncer. O difícil é saber se isso foi resultado do tabaco, ou se foi uma praga por eu ter praticado a vingança. Todo esse tempo não foi capaz de me fazer seguir em frente. Na verdade, o que significa esse “seguir em frente” que todos dizem? Droga! Meu cigarro acabou. Agora tenho alguns meses de vida. A metástase trouxe de presente ao meu corpo a pluralidade: o que era apenas um tumor tornou-se quinze. Após me dar essa bela notícia, o médico tentou justificar a obra prima que estava sendo formada dentro dos meus pulmões. Disse que aquilo que crescia dentro de mim era apenas o eco de uma vida desregrada. Eu poderia até estar feliz, pois, ao morrer, iria para perto do meu amor. Mas como sou responsável pela minha decadência, meu destino será outro: um lugar onde o fogo e a fumaça não cessam. Maldita ironia, não?

RAONI G. HENRIQUE é natural de Pirinópolis, Goías. Atualmente, mora em Anápolis (GO). É graduado em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda – e atua em uma agência de publicidade como redator. Há alguns anos escreve contos que são postados em seu blog: issuu.com/raonihenrique.

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nove anos

Tobias Goulão Depois de mais um dia comum acordei no meio da noite. Despertei de forma estranha, sentindo-me bem mais leve. Estava realmente mais leve. Observei-me ao levantar da cama, que demorei a reconhecer como minha, e notei uma coisa estranha: estava com os braços sem pelos e minhas mãos estavam pequenas. E estava em uma antiga casa na qual morei por volta dos nove anos. Daí percebi... estava novamente com nove anos! Rondei pela casa, já era manhã e tive que ir ao colégio. Voltei aos tempos de aluno de escola. Sem preocupações com emprego, diários, faculdade, monografia e trabalhos. E o melhor, o CRUVIANA

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estágio já era! Assisti às cinco aulas, mas a única da qual me lembro é a de História. Coitada da professora, no fim dos anos 90 e ainda ensinava como se estivesse na década de 60. Ri muito com isso, mas não me preocupei. Aproveitei e ignorei aquilo, estava pensado e agindo como criança novamente. Ri. Corri. Brinquei. E o melhor, não me flagelei por “perder” esse tempo. A aula chegou ao seu fim. Fui voltando a casa e uma cena me amedrontou. Chegando lá não havia ninguém. Nem mãe, nem pai. Estava tudo vazio. Pia cheia de vasilhas sujas e com os talões de contas debaixo da porta. Olhando os talões, outro susto! Estavam com MEU nome! Como eu, uma criança, tinha isso? Então olhei para a mesa e vi um monte de livros, Xerox, diários, fichas de estágio e um notebook. Vi que eram coisas da minha vida atual. Percebi que essa vida, além de tomar meus dias, além de se alimentar de minha energia e vitalidade, agora se alimentava de minhas lembranças. Até meus sonhos foram roubados. Foi então que veio a maior saudade da infância. Além da falta de não ter que me preocupar, aquele era um tempo no qual eu podia deitar, dormir e sonhar.

TOBIAS GOULÃO é mestrando em História pela Universidade Federal de Goiás, natural de Pirenópolis, que divide o tempo entre os estudos, o trabalho e os livros, filmes e séries que mais chamam a atenção. Escreve quando não há mais para onde correr, a não ser uma tela em branco na qual pode fazer o que achar melhor.

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Augusto Paiva

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Janaina

Eliana Klas Janaina corria para a janela, tapava os ouvidos e fugia de si. As vozes vinham por todos os lados, elas riam, cantando cantigas tribais. Ele olhava para ela com ternura e tentava acalmá-la até a chegada do médico. O bem-te-vi que ria na janela, falava a Janaina do prenuncio de suas loucas viagens, e cada martelada do prédio ao lado lhe fazia lembrar, que aquilo tudo não passava de uma alucinação. O mundo não havia parado, e todos continuavam amanhecendo e saindo em busca do mesmo pão com gosto de brioche.

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Dentro dela uma cantiga de pássaros pedia que continuasse o jogo e voasse. Lembrou-se de Ismália, aquela que quando enlouqueceu pôs-se na torre a sonhar, e de tão louca morreu no fundo do mar. Tapou os ouvidos e mandou o pássaro ficar quieto. Janaina só queria ir trabalhar no dia seguinte, viver uma vida medíocre, andar em seu carro medíocre, comprar uma casa medíocre, e um dia ter uma aposentadoria medíocre. Ela só queria viver sem ter a dor latente de negar que dentro dela morava alguém; alguém maior que ela. Janaína queria correr. Com o pé na terra, Janaina sabia onde estava. No cimento Janaína enlouquecera. Mas agora eles já estavam lá. Estava tudo bem, esta noite ela dormiria, amanhã ela iria ao trabalho, seu trabalho garantiria o futuro de sua filha e aquelas vozes iriam embora. Ela podia acalmar-se, que o pão, o pão, que não era brioche, chegaria à sua mesa. O bem-te-vi pararia de cantar e ela... ela voltaria a ser só Janaina, sem o pé no chão que causa vergonha, sem o rosto afogueado que causa medo, sem os sonhos que podem fazê-la saltar da torre.

ELIANA KLAS é formada Tecnologa em Secretariado pela Universidade Nove de Julho - São Paulo, exerço a função de Secretário de Escola na Secretária da Educação no Municipio de Suzano - São Paulo. Escrevo no http://eutodososdias.blogspot.com.br/...ali o lugar é meu...meu quarto, meu canto. Tudo que tenho para chamar de meu.

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a viagem

Ieda Leones Nascimento Preparou-se por dias. Vários motivos a fizeram alterar a data. O destino era incerto. Não seria “uma viagem”. “Seria a viagem”. Sair sem destino, aventurar-se, descompromissar-se. Paisagens novas, gente não igual, mas tanto a dizer, a ensinar, a aprender. Frutas nunca saboreadas. Gosto nunca experimentado. Tão bom! Sem preocupação com a chegada, apenas a partida interessava. Seu instinto de animal livre, liberto de horários, de convenções sociais, de rotina, de cartão de ponto. Sem hora para dormir, sem hora para acordar. Lua,

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estrelas, sol, vento rio, mar, cheiro de capim verde e um violão.  Não casara por isso. Casar é por algemas, ter obrigação para com outro, é perder metade de si. É matar sua melhor parte. Não ser você. Ser outro ser. Quando criança quis fugir com um grupo de ciganos. Conhecer vários lugares, não ter parada certa. Hoje aqui, amanhã acolá. Sua imaginação viajava.  A mãe percebeu sua intenção e a emparedou. Cresceu. Libertou-se. Viajar por viajar. Ver gentes diversas. Lugares outros que alegram ou entristeçam os olhos, mas nunca vistos. Ver terras alheias que os olhos hão de comer. Nasceu sem raiz que busca abrigo nas profundezas da terra. Planta aquática que o rio leva, brinca com os peixes, as iaras, isso, sim. Tão bom. Sons diferentes, música do vento, da água, outros ritmos, outros ritos, sotaques vários, banho de cachoeira, modo de contar o tempo todo seu, sem relógio. Percorrer caminhos, atalhos verdejantes, ressequidos. Sol, chuva. Sentir a vida na sua dinâmica de contrários, de ser e não ser de espiar, de respirar. Pena! Sua vontade não está só. Nunca estamos sós, mesmo nos sentindo só. O outro está ali com sua vontade contrária, impedindo o fazer e a felicidade do outro. Não ver as estrelas, não sentir a chuva escorrendo pelo corpo, nem ter o sol os raios de sol lambendo sua nudez. Não cheirar a flor, não morder o capim. Besteira. Não viver, enfileirar-se. Receber a esmola nossa de cada dia. Vida? Não. Bicho adestrado, boi de canga, operários de fábricas, corpo cansado sobre o catre, um pedaço de pão, uns grãos de feijão, a farinha nossa de cada dia. Porém o outro estava ali. Sua vontade imperando. Ela secando, como o rio no verão. CRUVIANA

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A viagem entristeceu, se ressentiu, recolheu-se. A chuva chorou por ela. Adoeceu. Desenganada. Apenas uma cruz na beira da estrada. Só uma data escrita em tinta preta.

IEDA LEONES NASCIMENTO, 49 anos, nascida e residente em Salvador-Bahia. Professora de Língua Portuguesa. Ensina há 20 anos numa escola do estado, especializada em Estudos Literários pela UNEB e mestranda em Crítica Cultural pela mesma instituição. Nas horas vagas e em que surge a inspiração se arvora a escrever contos, crônicas e poesias.

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entrelugares

Por Pedro Fernandes de O. Neto 1 No sítio todas as casas estavam vazias de adultos. E eram três – a principal, dos meus avós, a nossa e a dos meus tios. Havia outras mais, mas casa vazia não se enumera. Uma casa só existe se há alguém nela. Pode ser que haja bicho, mas bicho não é gente, bicho não é alguém. Tudo por aqui já tinha sido um dia um rebanho de gente. E ainda era. Três casas com pelo menos três pessoas dentro dela já é um rebanho, ainda mais quando a casa se resume a dois pequenos quartos, uma sala e uma cozinha. Do rebanho que restara, o maior era o lá de casa, porque CRUVIANA

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eu tinha um irmão mais novo um ano que eu, eu catorze e ele treze. Eram, como dizia minha tia, ainda os criados debaixo das saias de minha avó. Uma vergonha, Conceição, você não acha? Nossos maridos, tudo já quase de cabelo branco no cu, pais de família, ainda viverem às tetas da velha. Mas, comadre, eu não acho que as coisas sejam desse jeito não. Não tem trabalho para ninguém pressas bandas de cá. Ainda têm essas frentes de emergência, mas é só, o que que eles podem fazer? Alguma coisa, Conceição. Não vê os irmãos que se foram daqui como que vivem? Eles são é dois frouxos, isso sim. Preferem ficar nesse fim de mundo, numa terra que só produz pedra, e quando produz o que comer mal dá pra o bucho. Minha avó era também minha madrinha e eu vivia mais na barra da saia dela. E me baseando no que minha tia dizia, nunca tive a permissão de entrar debaixo da saia como tinham meu pai e meu tio. Nunca fiz questão. Por lá creio que não tinha coisa boa de vê. Imagine que quando eu era ainda meninote, um frangote de sete para oito anos, dou com minha avó de saia arribada em cima da cama fazendo não sei o quê. Pedro, sempre mais atrevido que eu, dizia ouvir por cima da parede do quarto os gemidos do pai sobre a mãe querendo por a pomba numa toca e a pomba, concluímos, numa dessas conversas sexuais, era o que nós homens tínhamos no meio das pernas e a toca era cu. O que as mulheres faziam com os homens era dá o cu. E nascíamos todos de uma cuzada. Não por aí, mas pela barriga. O que minha avó fazia nua em cima da cama devia ser amaciar o cu para o meu avô. Apesar de sempre me perguntar para quê então servia as mulheres terem tabacas. Em se tratando de minha avó, eu preferia não crer nessa conclusão de Pedro. Para mim, avó e ainda mais madrinha, era uma Nossa Senhora, e como santa era lacrada de cu e tabaca. Por onde meu pai e meus tios haviam saído eu não sei. Mas que vó era uma santa, isso era. Santa não como aquelas de garrancho que

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eu fazia e pendurava no tronco da grande caraúba do sítio para rezar minhas missas num latim desconjuntado, do que minha mãe morria de orgulho, e minha tia dizia ser aquilo alaúzo de doido. Tenho para mim, Conceição, que esse seu menino mais velho, tem pareia com Paixão e não custará nada quando ele pegar as trouxas e correr por aí no meio do dia, feito o doido. No dia que escutei isso, passei a rezar minhas missas mais escondido. E morria de medo de sair meio-dia ou noite afora feito o doido Paixão, arrastando latas num alaúzo, Eu ando fora de hora, virado num guaxinim, descompondo os inimigos, dona Rosa é uma puta, uma puta doida sem fim. O grande mal de deixar de celebrar minhas missas debaixo da caraúba é que perdi a majestade divina. Deus devia era se sentir muito bem tendo como morada aquela grandeza da planta, a única de belo porte que tinha no sítio. Que atravessava verões e secas e não perdia a majestade. Que todos os anos coloria meio quarteirão à beira do rio Salgado de amarelo e era tudo um cheiro agridoce no ar. Também acho que Deus gostava daquilo tudo. Principalmente dos alaúzos. Eu sempre escutava no rádio da minha avó todos aqueles vivas e aqueles tirinetes de fogos que eu repetia no tom que eu achava que devia ser nas minhas missas. E se minha tia Rosa, achava aquilo princípio de maluquice, eu tinha era arrepios de saber rezar uma missa de ponta a outra para meus fiéis invisíveis. O fato é que eu não fiquei doido. As rezas de mentira foram sendo substituídas pelas de verdade e descobri que o que fazia nunca nem era heresia, pelo menos foi o que me disse mais tarde, porque comunguei quase depois de velho, a minha professora de catecismo. Pecado é não rezar, pecado é se desfazer de Deus, Deus gosta que lembremos dele, ainda mais quando para louvá-lo. Depois da resposta desse dia, Pedro dizia que Deus era muito interesseiro querer que todo mundo viva por aí só pensando nele quando se tem tanta coisa melhor para CRUVIANA

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se pensar e ainda ter de passar vergonha por ficar em alaridos no meio dos matos feito doido. 2 Nos dias de feira todos tomavam o rumo da cidade. Para vender ou trocar as pequenas produções por produções nenhuma. Que sempre foi assim em vida de campo. Produzir para trocar por merda. Ou comida não é merda? Comida é merda mesmo, sim, meu filho, come-se tudo num dia, caga-se no outro. Você já viu aqui na casa velha da sua avó entrar coisa que valha? A única coisa de valor que ainda existe aqui é aquele rádio velho que aliás só tá vivo ainda, rouco desse jeito, porque Betinha, mesmo sendo doida, cuidou de livrar o pobre dos trovões e dos relâmpagos daquela chuva do ano passado, enquanto eu tava passada em cima da cama, morrendo de dor, de dor e de medo, que você sabe bem, quando tem essas trovoadas eu não saio nem a porrete de riba da cama. E o que eu digo é que tem de poupar as merdas que o que sua avó ganha para suster esse rebanho de menino não chega não. Zé, Paulo, Francisco e Manuel estão todos pelo mundo. Não se contentaram com os regurgito da velha aqui, ou são um bando de ingratos, querem ter a pança farta, mas a mãe não se importa, se querem cagar macio, vão comer a merda dos grã-finos, porque aqui a bosta é seca. E pra mim tá de bom tamanho. Tendo a farinha para misturar com o feijão, o açúcar para fazer uma garapa de lanche, o resto a gente se vira com o que aparecer da terra. Vamos escapando, Deus me perdoe, segurando nos bagos Dele, até quando Ele achar que a gente deva fazer isso. Nunca tive os olhos grandes. Pari onze, morreram dois, e o resto, todos se criaram. Tão tudo por aí. E tem uma coisa, tempos piores já foram, viu, quando seu avô, na seca, tinha de arribar de casa e trazer de fora o que comer. Não esse aposento que hoje dão pros velhos. Café da manhã era um naco de rapadura preta com farinha. E

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só os filhos chegando que graças a Deus, Deus me deu bucho bom. Dos que morreram, só um foi de aborto. Mas era um por ano. Hoje minhas noras só querem ser cocota. Depois de casada ainda querem ser arrochadinha. A da esquerda, só tem um e se acha toda cu doce. Vive enfiada na pílula. Vai morrer seca. Não deu nem de mamar direito ao bezerro pequeno, tacou logo esses mingau de farinha sem sustança nenhuma. A da frente, tem dois, mas é mesmo que não ter, vive batendo perna no meio do mundo. E em casa, eu ouvia as queixas de minha mãe para minha tia Rosa, que dona Maria é por demais muito ignorante, deixou todo esse tempo a tabaca azedando em casa e quer que a das noras dê o mofo. Eu não, faço o que tenho de fazer em casa e vou todo dia dar satisfação as minhas amigas, que não tem coisa melhor, Rosa, que conversar com quem entende a gente. Do que tenho meio das pernas cuido eu. E, olhe, que sou muito mulher para dizer que aqui não veio ninguém mais que Joaquim, que, aliás, depois que o Vicente nasceu, quando eu quase morri, nunca mais ele tem me procurado. E foi quando dessa conversa que corri para dizer para Pedro que o que as mulheres davam não era o cu, era a tabaca. E de novo, ele sempre mais esperto em safadezas que eu, disse que isso era só conversa de mulher, que dependendo da posição, cu também fica no meio das pernas. 3 Nesse dia, o sítio estava vazio de adultos. Sobrou eu, Pedro e meu irmão. Nos dias de feira, em casa às vezes ficavam as mulheres a cuidar do que não tinha para cuidar, que o almoço só era feito quando os maridos voltam para casa. Meu pai sempre vinha com umas e outras na cabeça e um bafo de cão, como dizia minha mãe, e os almoços de sábado era coisa que pouco vingava. Quando meu tio chegava e pai não vinha junto, mãe deixava o que servia de comida para nós, tomava banho de perfume e saía para o sítio CRUVIANA

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vizinho. E se minha avó sempre dizia que cachaça era coisa do Diabo, e quem bebia ficava tomado pelo Diabo e tudo de ruim podia fazer, lá em casa nunca foi verdade, ou meu pai tinha couro de bode para espírito ruim. Nunca o vi judiar de minha mãe, nunca judiou de nós, só dizia que tomar umas e outras, assim quando em vez, era muita coisa de macho do interior, e menino, não tem para que menino na feira, menino fica em casa na barra da saia da mãe. Quando for gente, tudo bem. Há de ir. Cabritote de barbicha tem de conhecer as coisas do mundo, mas enquanto for frangote, não há para que ir, fica em casa. Vicente não dizia nada. Aliás, Vicente pouco conversava comigo. Vivia mais na barra da calça de pai. Posso mesmo garantir que era o meu pai em miniatura. Até cachaça roubou escondido num dia de novena só para experimentar sua macheza. Eu ainda ensaiei perguntar se meu tio e o meu avô era menos macho que meu pai porque nunca vi nem soube que eles vivessem de beber. Meu avô porque talvez fosse velho e acho quando nos vem a velhice a gente não serve mesmo mais para nada. Só para contar lorota, briboto e carga d’água. Mas, nunca perguntei nada. Morria de medo de aquele perpétuo jejum de surra fosse descumprido se eu ameaçasse o lugar do meu pai. Mas quando Vicente bebeu, eu não dormir no resto de noite que ainda sobrou depois da novena. Fiquei na espera de ver a macheza do meu irmão. Não vi muita coisa. Só muito remexido na rede, um sobe e desce do lençol no escuro e no dia seguinte a reclamação da minha mãe, que diabos que Vicente tinha feito que o lençol estava em algumas partes mais amarelo que o de costume. Encatarrado não estava, mesmo que todo aquele manchado seco parecesse catarro. Não tás tomando o lambedor de pepaconha que fiz não, danado? Meu pai, sabedor de que há outros catarros, foi quem ficou contente. Deixa o menino, Conceição, parece que antes de José, Vicente é quem vai à feira comigo por esses dias. Entendedora, certamente, desses assuntos, minha mãe trocou danados de braveza pelo riso solto.

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E dizia que eu só ia servir para ser beato mesmo, e já era muito. Imagine o que é ter na família, um rezador de missa, Joaquim? Vai fazer é crescer as novenas aqui de casa. Eu não acho nada de bom, Conceição, prefiro filho meu macho, essa coisa de usar saia, mijar de cócoras como os padres, é coisa de moça, tu pensas que não sei o que se passa entre essas maricota de saia preta não? Do que dizem, e eu muito que acredito, é que nos seminários é igual na marinha. Todo mundo dá para trás. Imagine eu ter um filho meu moça, dando ré e vestindo saia, quero nunca um mal desses. Doulhe é uma surra de quixaba para desvirar a frescura. Desde então reduzi ainda mais minhas missas de mentira. Que meu pai sabia, mas levava aquilo tudo como molecagem. Só mãe é que colocava fé de me ter padre. Rezava embaixo das algarobas lá de perto de casa com quase a mesma frequência que rezava na caraúba grande do roçado, mas agora em voz baixa, de mim para mim, mas desse dia passei a rezar uma vez e olhe lá por semana por detrás dos grandes serrotes que tinham perto da casa de Pedro. 4 Mas nesse dia não era feira. Era coisa melhor ou pior que feira. Todos acordavam de sorriso estampado no rosto. Vendiase dignidade, sonhos por pouca coisa e causa nenhuma e tudo ficava vazio durante e depois desse dia. É claro que depois não era vazio de pessoas, era de esperança, conservada em mínguas até que viesse outro dia desses para abrir de novo esses sorrisos. É que nesses dias todos iam e voltavam para cidade de carros. Recebiam camisetas escolhidas entre o verde e o amarelo. E não era da bandeira do Brasil. Era de bacuraus e araras. E nesse terreiro de aves vez por outra havia grande arranca-rabo. Principalmente entre mãe e tia, cada uma de um lado do terreiro. Uma embandeirava a casa de verde, a outro de amarelo. Nesse dia de vazio que não era de feira, todos comiam de graça banquetes dado às CRUVIANA

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escondidas e parte só voltava para casa depois de aprender pela manhã a desenhar números com cartões furados numa tentativa analfabeta de reconhecer qual era o lado que deviam marcar xis ou cruz, se o dos bacuraus ou o das araras. Só voltava para casa depois também dos arrotos do almoço e da bebedeira no fim do dia. Outra parte, geralmente os homens, meu pai era um e até meu tio não escapava, ficava por lá e só depois da meia-noite é que um carro qualquer empoeirava a frente lá de casa. As mínguas que nos chegavam de tempos em tempos eram em parte sacos de cimento e tijolos. Que meu pai era um sonhador. Queria transformar a casa em mansão e todos os anos desfazia e fazia de novo com um cômodo a mais. É verdade que esses dias em que o sítio ficava vazio só aconteciam na eternidade dos anos, e ano após ano, meu pai nem sempre tinha tijolos e cimento para o sonho dele. Então, aproveitava o que derrubava, fazia de um tijolo dois três e erguia tudo com o barro acrescentando mais uma novidade à casa. Foi numa dessas reformas que estavam no teto meu pai e meu tio e nós cá embaixo, eu e Pedro, fazendo brincadeiras de nada. Até que fiquei vendo Vicente dando uma de ajudante. Olhando para cima vi, pela perna do calção, pendurados numa nuvem negra de pentelhos os colhões e o pau do meu tio. Vi e baixei a vista de fingimento que não vi. No banho à noite fiz comparações imaginárias entre o entrepernas do meu tio e o meu. E mais tarde, tanto que puxei e repuxei, rasguei-me e sujei o lençol de pouco sangue e muito visgo em jatos com cheiro de clara de ovo. A única certeza que tive no dia seguinte é que meu pau tinha a forma do que do meu tio e achava que havia ganhado macheza também, sem precisar da cachaça que meu irmão bebeu. Minha mãe há de ter percebido os lençóis, mas ninguém comentou nada. 5 Nesse dia, todas as casas estavam vazias de adultos. Eu voltei

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a caraúba e fiz à vontade a missa que há tempos não fazia. Depois visitei as fazendas que nós tínhamos perdidas no meio do mato. Eram várias, mas a minha tinha mais coisas que a do meu irmão, o mais desleixado, e a de meu primo. A surpresa que tive foi ver todas as galinhas partidas ao meio, os pintinhos caídos, a casa bagunçada, o poço soterrado. O pedregulho de vacas e o caminhão de lata eram as únicas coisas de conservado que existia. Fiquei pensando em quem poderia ter feito aquele tipo de maldade comigo. Pedro era muito meu amigo. Por meu irmão é que eu não colocava a mão no fogo e de mim para mim concluí logo que a única pessoa capaz daquilo era ele. Meu primo não havia sido, ele estava descartado. Muitas das galinhas que eu tinha no meu galinheiro foram presentes dele. A pintadinha, que era a mais velha, e também raça rara, porque nem sempre os pereiros produzem galinhas do tipo, era uma delas. Não tinha sido ele e a suspeita recaía sempre em conclusões para uma única pessoa, Vicente. Só podia! Por pura demonstração de macheza. E Vicente tinha uma ponta de inveja de mim com Pedro. E talvez por essa proximidade entre nós dois é que ele sempre preferisse está aonde meu pai estava a estar com a gente. Mas, agora, dessa vez, tudo havia passado dos limites. Ah, se passava! Nem inventei de organizar aquela bagunça para não dá tempo da raiva ir embora. Fui para casa como quem vai de partida para um acerto de contas de gente adulta. Entrei pela porta da cozinha e na sala meus ouvidos pressentiram conversas sussurradas vindas do quarto. Baixei a raiva e coloquei no lugar a curiosidade. Fui com passos de pena e sobre minha cama deparei-me com dois corpos nus. Era Vicente sobre Pedro que avançava corpo adentro um do outro. Vi e corri de volta para fora de casa. Receio que eles não me viram. O que faziam por qualquer motivo obrigava os dois a estarem de olhos fechados presos num mundo muito particular que a simples vista de um intruso poderia ser capaz de destruir. E embaixo CRUVIANA

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das algarobas quis pensar sobre qual era o sentido daquela cena. Lembrei-me de Pedro me vendo nu enquanto tomava banho na casa de minha avó. Que era sempre assim. No início da noite ele me via passar lá de casa, com toalha nas costas e sabonete na mão indo para a casa da minha avó e me acompanhava sempre durante os banhos. Ele na porta do banheiro, pouco falava. Ficava mais ouvindo minha conversa solta. Nunca dei a mínima para o porquê daquilo. A amizade que tínhamos desde criança nos permitia que não tivéssemos pudores. Agora, eu gostava de me exibir para ele. Principalmente depois que me tornei homem. Se ele reparou o detalhe do meu sexo, antes fechado, agora exposto, também nunca me disse e nem perguntou sobre nada. Depois, lembrei-me de quando, intrigado com esse espírito de curiosidade do primo, cheguei a conversar uma noite com meu irmão sobre o caso. Ele calado estava e calado ficou. Só quebrou o silêncio sobre numa outra noite muitos dias depois com uma observação nada sensível. O que sei, Dedé, era como ele me chamava, é que Pedro e você são duas frutinhas, nasceram com pau só para mijar. Fiquei pensando no que isso significava. Na escola tinha um menino chamado Joaquim e todos faziam o diabo com ele. E das provocações feitas a ele, uma era com essa palavra que meu irmão nomeou a mim e meu primo. Mas tive comigo sempre acreditando que frutinha fosse qualquer coisa como mole, que apanha fácil. Tanto era isso, que num dia dessas confusões, eu entrei na roda daqueles que cantavam em bom som, Lá vem Joaquim-quim-quim, das pernas torta-ta-ta, enquanto os outros surravam e chamavam ele de frutinha. Depois do que vi, sei que não é mais só isso. Eu já estava no oitão da casa de vó quando vi Pedro que corria em minha direção. Perguntou onde eu estava. Desconversei com duas palavras e disse que ia almoçar. Vicente já havia posto o almoço e depois de deixar a louça com a encomenda de que eu lavasse disse que ia por aí. Deixei a comida para ficar de

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olho na fresta da janela a ver qual rumo ele tomava. Não foi para a casa de Pedro como pensei. Depois do almoço, saí para conversar com meu primo. Queria saber dele o que faria para me vingar de Vicente pela destruição de minha fazenda. A porta da casa estava aberta e não havia sinal qualquer de vida. Entrei e no quarto da cozinha, de bruços, o corpo nu de Pedro. Branco. Magro. Um menino em formação. Nunca o tinha visto assim. Retornei para casa e aí fiquei até que minha mãe chegasse. Deitei-me cedo numa cama de impressões que tresandavam ao suor de Vicente e Pedro. E mais tarde meu irmão se levantava, mais forte, de pau em riste. Vinha em minha direção. Pegava-me e fazia comigo o que fizera com Pedro. Eu abafava o gemido de dor nos lençóis. E vi vindo a beleza do corpo nu de Pedro, branco, que assistia a tudo e caía num riso solto entrecortado com um palavreado que eu não entendia. Daí a pouco, éramos nós três. Vicente cada vez mais forte, cada vez maior. Vocês são duas frutinhas, nasceram com pau só para mijar. Na manhã seguinte voltei à fazenda. Vicente e Pedro já lá estavam. Para minha surpresa, tudo estava reposto no lugar. Uma galinha pintadinha igual no lugar da outra, o poço refeito, com água e tudo. Deixei os dois e fui ter com meu pai. Era tempo de inverno e no sítio as casas estavam vazias de adultos.

PEDRO FERNANDES DE O. NETO é de 1985. Nascido em Lajes, Rio Grande do Norte. Atualmente é aluno do Doutorado em Literatura Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde desenvolve tese sobre António Lobo Antunes e José Saramago. É autor de O ser em O conto da ilha desconhecida diante do ser sartriano (ensaio acadêmico, inédito), Sertanices (poesia, inédito), Bardos (poesia, inédito), Palavras de pedra e cal (poesia, edição independente) e Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago (ensaio acadêmico, Editora Appris). Foi editor do jornaleco Trabuco. É moderador do blog Letras in.verso e re.verso. Coordena o projeto Um caderno para Saramago. É editor do caderno-revista 7faces, um periódico eletrônico de poesia.

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isso é guerra

Sidileide Batalha do Rêgo Meu nome é Paul Witshon, tenho vinte e quatro anos de idade e sou um soldado do exército americano. Há dois anos encontro-me nesse campo de batalha denominado Sinsig. Hoje faz exatamente dois dias que não durmo, pois é um pouco difícil adormecer com o odor forte de pedaços de corpos humanos decompondo-se. Na verdade, estou com medo de fechar os olhos e não acordar mais. Minha garganta está seca e minha pele do rosto está queimada por causa do sol forte. No momento, estou segurando a morte nas mãos em forma de arma. No lugar desta Sten MKV, queria estar segurando a minha filha, que deve ter

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agora dois anos e três meses de idade. Recordo-me agora a noite do seu nascimento; era dia 03 de setembro de 1939, uma noite de tempestade, onde se ouviam os trovões e viam-se os raios. Eu estava sentado na cadeira, no corredor do hospital, com a cabeça entre as mãos, o coração disparado, esperando o milagre da vida acontecer. Levantei da cadeira e acendi um cigarro. Fiquei caminhando de um lado para o outro enquanto tragava o cigarro e passava uma das mãos entre os cabelos. Após duas horas de espera, escutei um choro de criança e adentrei no quarto. Mary encontrava-se segurando um pequeno ser. Aproximei-me devagarinho. A Mary estava pálida e suada, as toalhas da cama estavam ensanguentadas. Parei perto da cabeceira da cama, abaixei-me e peguei minha filha nos braços. - “Então era uma menina, uma pequena flor”- Pensei. Não consigo descrever a emoção daquele momento, mas lágrimas quentes escorreram dos meus olhos. A TV do corredor estava ligada e por um momento deixei de fitar aqueles pequenos olhos azuis para ouvir o pronunciamento do presidente. - A guerra está declarada. Olhei novamente para aqueles lindos olhos e falei baixinho: - Rose... - Paul, acorde! Está dormindo em pé ou sonhando acordado? – Perguntou- me Andrew sentando-se em um pedaço de madeira que estava à minha frente. - Não estou dormindo e nem sonhando acordado, apenas estava pensando na minha filha e na Mary, como elas devem estar? – Falei sentando-me ao lado do Andrew. - Não se preocupe Paul, aposto que as duas estão melhores do que nós dois – disse Andrew. Andrew também era americano. Mais novo do que eu apenas três anos. Andrew tinha orgulho de estar na guerra, de deCRUVIANA

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fender o seu país. Estava sempre com um belo sorriso nos lábios e costumava cantar o hino nacional enquanto cavava os poços para reter água da chuva. Não era casado e nem tinha filhos, talvez por esse motivo ele não se importasse de passar anos fora de casa. - Acho melhor deixarmos de jogar conversa fora e irmos para a fila da ração. – Falei levantando-me e pegando minha MKV do chão. Ração era o nome dado a nossa comida que, muitas vezes, era um pedaço de pão com enlatados. Enquanto estava na fila aguardando chegar a minha vez para pegar a comida, vi o Porsche entrando no campo cheio de prisioneiros acorrentados uns aos outros. - “Acho que são japoneses. Hoje à noite os meus colegas irão se divertir torturando-os...” - pensei. Os soldados puxavam com violência os prisioneiros de cima do carro, que caiam no chão e eram chutados até levantarem. A noite foi tranquila, silenciosa, consegui recuperar o sono atrasado. A sirene tocou às cinco horas da madrugada, como de costume - era hora da ração. Levantei da cama do alojamento, peguei minha garrafa térmica com água e lavei as minhas partes íntimas. Tomar banho, totalmente, apenas quando chovia. Vesti meu uniforme, sentei na cama e peguei embaixo dela a caixa em que guardava as cartas da Mary e sua foto segurando nossa pequena Rose. Olhei o retrato das duas sorridentes e chorei novamente. É como se eu estivesse vivendo a vida de outra pessoa. Tudo que eu queria era apenas voltar para casa. E pela primeira vez, nesses dois anos em que estou aqui, ajoelhei e rezei, chorei e rezei. Porque homens também choram e também têm fé. Pedi a Deus que o ser humano deixasse de ter tanta ganância e que a guerra acabasse.

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Após falar com Deus, levantei e fui para o refeitório. No caminho soube pelo Andrew que fomos escalados juntamente com outros dez soldados para a base de Pearl Harbor. A base de Pearl Harbor ficava na ilha de Oahu, Hawai. Eu e os outros soldados chegamos lá por volta do meio dia. Eles estavam precisando de pilotos para os caças. Andrew contou-me que há dois dias soldados da base de Pearl Harbor afundaram um mini submarino japonês que estava tentando lançar torpedos na base. Na manhã seguinte, enquanto eu monitorava o radar, olhei a data no relógio era 7 de dezembro de 1941. Por volta das oito horas da manhã o radar indicou a presença de aviões, gritei pelo capitão. - Está tudo bem rapaz. É apenas um grupo de novos aviões estadunidenses. Estávamos esperando-os – Disse o capitão. Saí da cabine e olhei para o céu, dezenas de caças se aproximavam. - Esses não são aviões estadunidenses. Droga! - Corri para pegar minha arma. Um clarão cortou o céu, e eles estavam vindo pela direita e pela esquerda; é hora de matar ou de morrer. O barulho era ensurdecedor, enquanto os caças japoneses atiraram contra Pearl Harbor. Estou vendo companheiros meus serem mortos. Estou correndo e atirando. Estou pensando na minha filha, enquanto me pergunto pelo que exatamente estou lutando. Nesse inferno o inocente nunca sobrevive. Isso é guerra, entre o bem e o mal, entre o início e o fim, entre a ganância e o poder. Esse é o momento, o momento de rezar e de tentar sobreviver. O momento de matar e o momento de morrer. SIDILEIDE BATALHA DO RÊGO nasceu na cidade de São Miguel-RN, filha de Adalto Batalha e Damiana Bezerra. É graduanda do curso de Letras Português na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Bolsista do Programa de Iniciação a docência – PIBID, atua como roteirista de peças teatrais. No ano de 2011 ficou em 2° lugar no primeiro concurso de literatura da cidade de Assú, categoria contos. Contista, cronista e poetisa. Seus contos e crônicas podem ser encontrados em seu blog: www.esme-tudosobreeueele.blogspot.com

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ser tão resistência

Elilson José Batista I João Carnaúba, dos Carnaúbas da Várzea de Baixo, nos seus 56 anos de vida, afirmava que nunca tinha visto uma seca daquela.  Já não dormia, e quando isso ocorria, não era sono, só pesadelos. Apareciam os animais de sua gleba gigantes, mas esquálidos, a superlativar o sofrimento na forma de mugidos, relinchos, balidos e berros, numa onomatopeia que o despertava em alvoroço. Todos sofrem com a seca. Todavia, João Carnaúba não se preocupava tanto com os seus familiares e agregados. Os ani-

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mais, domesticados, dependiam sobremaneira dos zelos e encaminhamentos do homem. E a escassez d’água e de alimentos atingiam mais duramente os brutos que os humanos. Para fugir dos pesadelos, esse homem já saia de casa de madrugada, a perscrutar o céu, a forçar indícios que viessem amenizar o seu sofrimento e dos outros. Em vão. Com os primeiros raios, como que a trazer-lhe à realidade, encaminhava-se ao curral para levar os animais para beber da pouca água que ainda restava no açude. Quanto à comida, não tinha mais que se falar da existência de ração verde para os animais: palmas e macambiras já tinham se acabado, restando só recolher – cada vez mais distante – xique-xiques e mandacarus para serem assados em fogueiras para a queima dos espinhos, para serem juntados a uma forragem que incluía até papelão. Estava uma situação estarrecedora. Dona Chiquinha, esposa de João, repisava: “Homem, venda esse gado por qualquer preço, fiado se necessário. Eu não aguento mais esse sofrimento desses pobres brutos. Eles estão consumindo nossos recursos e nossas forças”. Carnaúba retrucava: “A quem, mulher? Se nossos vizinhos estão na mesma penúria, sem pasto e sem água, lutando para escapar com os seus. Além do mais, vender a um marchante para descarnar o quê nessas ossadas?” Certo era que não havia mais dinheiro para sustentar o gado com rações de farelos e outros nutrientes caros, pois se vendesse uma rês por mês, só dava para sustentar, com parcimônia, duas reses. A matemática era infalível: nessa pisada, o pequeno rebanho desapareceria... A longa estiagem afetava os homens e os animais. Não se ouviam os cantos dos pássaros; tão-só, um agouro, longe, a deprimir mais o contexto e o ambiente. A tristeza dos animais, notadamente a bovina, contaminava a todos. João Carnaúba, CRUVIANA

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típico sertanejo do semiárido, tinha um constante olhar vago, marcante nos desesperançado.   II   Tudo parado. De vez em quando, o silêncio é quebrado pelo cantar monótono das cigarras, aqui e alhures. O mormaço é sufocante. Animais e pássaros evitam se deslocar e se agasalham nas raríssimas sombras e abrigos. A terra está ressequida há cerca de oito meses, num estado abiótico. Não há que se falar em flora: tão-só galhos e troncos, que acinzentam a visão. Às vezes surge um pequeno pé-de-vento, que não traz frescor, mas sim vai crescendo e se transforma num redemoinho, levantando tudo que posso ser suspenso com sua força. Findo o fenômeno agourento, observa-se a sujidade deslocada. Visto por cima, o tom cinza é pontilhado por carcaças de animais, notadamente reses que não resistiram à fome e à sede. No mais, pequenos oásis, os juazeiros, esses sertanejos que teimam em permanecer verdes, num ambiente tão adverso para se demonstrar verdura. Nos barreiros, pequenos açudes e riachos resta quase nada, ou estão totalmente vazios. Difícil encontrar água, nessas condições, que não seja para o consumo do astro-rei. Jogue-se um pouco de água que, instantaneamente, o precioso líquido se esvai. Nada se move. De repente os animais se inquietam. E se apercebe a mudança. O mormaço cresce. E a torre se avoluma, refletindo os raios solares num tom laranja. Já se veem raios, e se ouve os trovões, ao longe. Uma aragem benfazeja e contínua prepara o terreno para o grande ato. O rebombo está mais próximo e mais forte, replicado até as abas da serra. Cai o primeiro pingo e outro, e outro, e outro, de forma

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lenta, aqui, ali, acolá. Surge o cheiro característico da terra ressequida sendo aguada, que envolve a tudo e a todos. Já se ouve a chuva grossa se aproximando. A Natureza agora atua com vigor. Pequenos filetes de água se avolumam, descem nas depressões e se agrupam nos córregos, que afluem nos riachos, a desaguar nos açudes e barragens ressequidos. Chove forte. Já a força da água barrenta dos riachos carrega carcaças de animais, galhos, árvores inteiras, tudo que estava no seu leito seco. Quem não conhece esse fantástico ecossistema se impressionará com o antes e o depois. Como que por milagre, rebrota toda a fauna sertaneja logo após a primeira chuva. Parece que adormecido, em estado de torpor, à espera da sagrada água, o pasto vigora no outrora campo desnudo. As árvores trocam a sobriedade da cor cinza. Há alegria, o estado de ânimo é outro quando chove no sertão. A flora e a fauna revigoradas, em todo seu esplendor. Além do mais, retorna à região o tiziu, com seu característico canto que o nomeou, a saltitar verticalmente para fazer corte às fêmeas, e impressionar os adversários. Parada a invernada, o tiziu vai a outras paragens, até o retorno das águas.   III   Após a colheita segura e os animais engordados, João Carnaúba, garboso e falastrão, proseia no balcão da Botega com Tenório Barbalho, seu vizinho: “Compadre, três anos seguidos de seca, eles diziam! E falavam também em esquentamento e esfriamento de água do mar, dos ventos que vinham da Amazônia e dos oceanos, esses palavreados dos homens das ciências não quer dizer nadinha de nada, compadre. Eles podem ser sabidos CRUVIANA

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lá com seus estudos, mas não mandam na natureza. Quando Deus fia, pode cortar as terras, amigo, e jogar as sementes”. Depois de três meses de invernada, renasce a alegria sertaneja. As festas juninas são revigorantes, com farturas de comidas, bebidas e forró. E queima-se mais lenha na fogueira – é certo - em homenagem aos padroeiros sertanejos. Mas os meteorologistas não se fazem de arrogantes e participam prazerosamente das festas.   Se a privação de algumas coisas necessárias é parte essencial da felicidade, então o sertanejo é feliz. Depois de infindáveis meses em que lutou pela vida – dele e dos circunjacentes – e aprendeu a suportar as agruras que a natureza lhe traz, a sua sabedoria empírica já entende que tudo é cíclico: vida e morte; bem e mal; real e ideal; seca e inverno. E goza esse período de bonança certo que não será permanente.

ELILSON JOSÉ BATISTA. Potiguar de Pau dos Ferros. Formado em Letras e Direito, ambos pela UERN, com especialização em Linguística e em Direito do Trabalho. Músico amador, comete seus poemas e envereda pela prosa. Editor do blog Rapadura Cult.

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a filha do policial

Anchieta Rolim ...seus olhos, como sempre, estavam vidrados, o corpo cansado, porém, firme. um longo silêncio envolvia a sala.  não havia mais nada a fazer, estava terminado, tudo saiu à sua maneira. nunca cometera um erro.  o sangue nas luvas, pinga no chão por onde ele passa, em uma pia lava-se, limpando, até desaparecer a última gota que por descuido havia salpicado em seu rosto. depois, pega uma toalha branca, enxuga-se como se fosse um ritual. sai às pressas, pega o carro e volta pra casa.   passa direto para o banheiro e toma um banho, em seguida o almoço é servido. por causa da fadiga, perde o apetite.  levanta-se da mesa e vai para o CRUVIANA

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quarto.  senta-se na cama, pega o jornal e começa folheando as páginas policias. sua esposa, mulher dedicada, beija-lhe a testa em sinal de carinho, ele deita-se um pouco, atrás de descanso. de repente, o telefone. ele atende e sai as pressas. só retorna depois das duas horas da madrugada.  quando entra no quarto, a esposa já dorme. ele se aproxima, carecia-lhe os cabelos em seguida beija-lhe o rosto e deita-se a seu lado. o dia amanhece. ao acordar, ela olha para o lado, ele já havia saído, o que não era de costume. olhando a cama, ver manchas de sangue. levantase e, imediatamente, troca a colcha e os lençóis. pouco tempo depois o telefone toca. é seu marido. conversam algo. ele avisa que não vai almoçar em casa. ela fica nervosa mas não questiona. Imediatamente, pega o aparelho e liga para o policial, vai direto ao assunto. é rápida a conversa. a alguns quilômetros dali, em uma rua pouco movimentada, ele entra em um prédio de arquitetura moderna, paredes de mármore tendo em volta um belo jardim. era de uma estrutura impressionante. no terceiro andar, passa por uma grande porta de vidro, onde está escrito: “não entre sem permissão”. às pressas, segue em frente percorrendo longos corredores. no final deles, dirige-se a um quarto, troca de roupa rapidamente. poucos minutos depois, entra na sala.  em sua frente uma linda jovem de mais ou menos vinte anos de idade encontrase deitada, como se estivesse dopada.  fitando seus olhos, ele nota o quanto a moça está apavorada.  como de costume, tenta acalmá-la. é assim que ele age, com cautela e frieza. depois de confortá-la, vira-se de costas e calça suas luvas. ao lado, perto da pia, coloca a toalha branca e imediatamente começa tudo de novo, com requinte e pericia. ao entardecer, volta para casa, abre a porta e percebe que não há ninguém. como de costume, passa direto para o banho.  fica um longo tempo embaixo do chuveiro. Vêm, em sua

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mente cansada, as lembranças dos últimos dias, principalmente as daquele dia. que linda jovem! lembra-se ele. “por pouco eu quase desistia. pela primeira vez, fiquei nervoso, com medo que algo desse errado. ela demostrava tanto medo que chegou a me causar um sentimento de pena, coisa que raramente eu sinto por alguém (deve ser pelo fato de eu conhecê-la). mas tive que fazer, sou bem pago pelo que faço, (embora por esse último trabalho não tenha cobrado nada)”. e continua: “o corte foi cirurgicamente perfeito, quase não deixei marcas. ainda bem que ela sangrou pouco e...” de repente seus pensamentos são interrompidos pelo barulho de um automóvel. em seguida, a companhia toca e ele sai rapidamente do banho.  nas pressas, sem perceber, veste a mesma roupa suja com manchas de sangue. é quando a empregada bate à porta de seu quarto e avisa que um policial está na sala querendo vê-lo. ele segue ao a seu encontro. o policial é um homem forte de aproximadamente um metro de noventa de altura, estava trêmulo, e eufórico.  assim que os dois se encontram o policial avança em sua direção e o agarra com todas as forças que possui, depois afasta-se um pouco e olhando diretamente nos olhos desaba: nos olhos cansados daquele senhor, fala:  carlos, meu querido irmão, obrigado por ter pedido para sua esposa ana me ligar, vi quando saiu às pressas hoje pela manhã, só não sabia que era você quem iria fazer a cirurgia. acabei de chegar do hospital. quero agradecê-lo por ter salvo a vida de minha filha. soube que a cirurgia foi bem sucedida. que não ficou nenhuma sequela do estrago que a bala causou no lindo rosto de nossa querida helena.

ANCHIETA ROLIM é de Areia Branca (RN). Artista plástico, escultor e artística visual, é também poeta e tem enveredado para o a prosa, cometendo alguns contos.

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Publicações da Editora Sarau das Letras 1 – SAUDADES, de Francisco Rodrigues da Costa. 2 – DUARTE FILHO: EXEMPLO DE DIGNIDADE NA VIDA E NA POLÍTICA, de David de Medeiros Leite e Lupercio Luiz de Azevedo. 3 – LICÂNIA, de Clauder Arcanjo. 4 – QUARTEIRÃO DA FOME, de Raimundo Nonato da Silva. 5 – MESSIAS TARGINO-RN: ORIGENS, de Edimar Teixeira Diniz. 6 – CASA DO ESTUDANTE DE MOSSORÓ: PEDAÇOS DA SUA HISTÓRIA, de Sebastião Almeida de Medeiros. 7 – PERDOA-ME POR ME PRENDERES!, de Edilson Pinto Junior. 8 – FOLHAS DE OUTONO, de Francisco Rodrigues da Costa. 9 – JUSTIÇA VERSUS SEGURANÇA JURÍDICA E OUTROS FRAGMENTOS, de Francisco Honório de Medeiros Filho. 10 – PELAS RUAS DE HAVANA, de Rubens Coelho. 11 – SERES, de Pedro Du Bois. 12 – O ALFABETO: A BRINCADEIRA DAS LETRINHAS, de Ana Carla de Azevedo, Joriana Pontes, Jeska K. Medeiros – Org.: Márcia Tavares Silva. 13 – LÁPIS NAS VEIAS, de Clauder Arcanjo. 14 – INCERTO CAMINHAR, de David de Medeiros Leite. 15 – JOÃO BATISTA CASCUDO RODRIGUES: LIÇÕES DE UM PROFESSOR, de Milton Marques de Medeiros. 16 – A DANÇA DOS CROMOSSOMOS, de Marcos Antônio de Andrade Medeiros. 17 – COMEÇO DE CAMINHO: O ÁSPERO AMOR, de Renard Perez. 18 – SÓ RINDO II: A POLÍTICA DO BOM HUMOR DO PALANQUE AOS BASTIDORES, de Carlos Santos. 19 – MASSILON: NAS VEREDAS DO CANGAÇO, de Francisco Honório de Medeiros Filho. 20 – DÊ CARONA PARA A SAÚDE, de Líria Nogueira Alvino e Raimunda Medeiros Germano. 21 – O LAGARTO DO FOLHIÇO, de Marcos Antônio de Andrade Medeiros. 22 – SABOR DE AMAR, de Paulo de Tarso Correia de Melo. 23 – CAMINHOS DE RECORDAÇÕES, de Francisco Rodrigues da Costa. 24 – O SONHO DE UM DROGADO, de Francisco Françuí de Almeida. 25 – DONA HILDA, simples em todos os aspectos, de Maria de Fátima Medeiros Leite, Maria Helena de Medeiros Leite e Valdete Medeiros Leite. 26 – MINHA VIDA, MEUS SONHOS, de Manoel Leite de Souza (Neuzo). 27 – NOVENÁRIO DE ESPINHOS, de Clauder Arcanjo.


28 – A MÚSICA E O SERTÃO ABSOLUTO: A EXPERIÊNCIA NO CANCIONEIRO DE ELOMAR FIGUEIRA MELLO, de Julio F. D. Rezende (coedição com a editora Epifania). 29 – LIVRO DE LINHAGENS, de Paulo de Tarso Correia de Melo (coedição com a editora Corpos, de Porto-Portugal). 30 – TRABALHAR E VIVER O QUE PUDER: Biografia de Francisco Ferreira Souto filho, de Edith Souto e Jacques Cassiano Fernandes Vidal. 31 – CARTAS DE SALAMANCA, de David de Medeiros Leite. 32 – UPANEMA, DE POVOADO A VILA, de Josafá Inácio da Costa. 33 – GESTÃO PARTICIPATIVA E POLÍTICAS PÚBLICAS: UMA AVALIAÇÃO DO PRONAF, de Everkley Magno Freire Tavares. 34 – Contrapontos: REFLEXÕES A PARTIR DA VIDA EM REBANHO, de Antônio Alvino da Silva Filho. 35 – RELENDO GUILHERME DE ALMEIDA, de Sânzio de Azevedo. 36 – SOB O CÉU DE NATAL, de Demétrio Vieira Diniz. 37 – UNS POTIGUARES, de Nelson Patriota. 38 – MEIO HUMANO, MEIO URBANO, de CA Ribeiro Neto. 39 – PORTÃO DE EMBARQUE 2: PORTUGAL (2ª edição), de Manoel Onofre Jr. 40 – BICICLETAS DE PAPEL, de Dulce Cavalcante. 41 – O ZELADOR DO CÉU E SEUS COMPARSAS, de Fábio Lucas. 42 – MISTO CÓDICE (CÓDICE MESTIZO) – edição bilíngue, de Paulo de Tarso Correia de Melo (coedição com a editora Trilce, de Salamanca-Espanha). 43 – INCERTO CAMINHAR (INCIERTO CAMINAR) – 2ª edição (bilíngue), de David de Medeiros Leite. 44 – LUÍS GOMES: UM RESGATE HISTÓRICO, de Caio César Muniz (org.), coedição com a Coleção Mossoroense. 45 – MESSIAS TARGINO-RN: ORIGENS (2ª edição), de Edimar Teixeira Diniz. 46 – BECOS, RUAS E ESQUINAS, de Francisco Rodrigues da Costa. 47 – COMO SE ÍCARO FALASSE, de Patricia Tenório. 48 – COTIDIANAS, de Rizolete Fernandes. 49 – ALGODÃO E SAL, de Maria Maria Gomes e Antonio Francisco. 50 – EXÍLIO SEM CANÇÃO, de Alexandre Abrantes. 51 – GÊNESE, de Leonam Cunha. 52 – RASTROS NAS AREIAS BRANCAS, de José Nicodemos, coedição com a Coleção Mossoroense. 53 – VOCÊ VAI CONTINUAR VIVENDO DA MÚSICA? O MERCADO INDIE E SUAS ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS, de Tobias Queiroz (e-book). 54 – HERÁCLITO NA FILOSOFIA DO JOVEM NIETZSCHE, de Myrna Barreto (e-book). 55 – FUTEBOL DE MOSSORÓ: PEQUENAS GRANDES HISTÓRIAS, de Lupercio Luiz de Azevedo. 56 – CASA DAS LÂMPADAS, de David de Medeiros Leite. 57 – QUANDO MENOS SE ESPERA..., de Cícera Bruna.


58 – DIÁRIO DE NATAL, de Paulo de Tarso Correia de Melo. 59 – LUTO DOCE, de Tatiana Morais. 60 – ROCK’N ROLL: UMA BREVE HISTÓRIA DA MÚSICA QUE MUDOU A MANEIRA DE VER O MUNDO, de Ugo Monte. 61 – CANTO NOVO, de João Pessoa Cavalcante. 62 – CURVAS DOS TEMPOS, de Artur Paula Fausto de Medeiros. 63 – CONTAGEM REGRESSIVA, de Anchieta Rolim. 64 – UM SERTANEJO, CURRAIS NOVOS E O TEMPO, de Maria Maria Gomes. 65 – VIRANDO CACHORRO A GRITO, de Jair Farias Oliveira. 66 – VENTO DA TARDE (VIENTO DE LA TARDE) – edição bilíngue, de Rizolete Fernandes (coedição com a Trilce Ediciones, de Salamanca-Espanha). 67 – INFOGRAFIA INTERATIVA NA REDAÇÃO: O EXEMPLO DO DIÁRIO DO NORDESTE, de William Robson Cordeiro, coedição com a Santos Editora. 68 – O SONHO DE UM DROGADO (2ª edição), de Francisco Françuí de Almeida. 69 – À FLOR DA PELE, de Fátima Feitosa. 67 – CRUVIANA, Contos, organização de José de Paiva Rebouças.


Este livro foi composto na fonte Constantia, impresso em papel pรณlen bold, na Expressรฃo Grรกfica (Fortaleza/CE), em setembro de 2013.


S

entada em frente da televisão na pequena sala vazia, não estranha a solidão das moscas. Elas, antes talvez, tivessem tido mais espaço para seus ouvidos. Agora, no entanto, são apagadas pelo barulho que vem da rua na pequena cidade, lugar que quase não ia quando a serra era seu único mundo: a casa grande – primeiro a da estrada, depois a do armazém – a cacimba, os currais, as aroeiras, os pereiros, as ovelhas, as vacas e o vazio dos caminhos.

APOIO CULTURAL

ISBN – 978-85-60650-54-5


Cruviana revista