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Número 22 Verão 2014 Gratuito

Como será o mundo em 30 anos? Em 2100, que língua se e falará? E, em 2432, existirão cidades? E, em 3266, existirão pessoas? Sim, existirão bicicletas, haverá pedal. Aqui é estampado o que se poderá tornar a bicicleta, no que poderá fazer à cultura urbana que envolve. Este é o Pedal liberto de amarras do mundo real, um olhar para além deste mundo, um salto para um ciclo-imaginário rosado… O sonho rosa começa nas Metáforas do Pedal pelo Tiago e é musicado por Miura e Salto até à Bicicleta do Génio da Joana. Redesenha-se a própria máquina de pedais ora por um Rudolfo ora por um Favas esticando depois a perna até ao Bike Arte do Murilo. Entra-se numa Ciclolistopia que desemboca num construtor de bicicletas germânico e aterra-se num "somos o que nos resta". Este é um Pedal para sonhar ao calor e ao som de mar a bater em areia.


BREVES foto: Roda Gira

Urbanfix no Parque das Nações Depois do Largo do Intendente, no bike.POP, a Biciway inaugurou mais um posto de self-service para arranjos rápidos de bicicletas, o Urbanfix, em Lisboa, desta vez no Parque das Nações. Sempre que necessário, vão lá com a vossa bicicleta. É no Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva. — biciway.eu Velo-Cidade: serviço de recados em bicicleta em Almada Para além de uma empresa de estafetas em bicicleta, a Velo-Cidade é uma empresa de serviço de recados, na cidade de Almada, abrangendo, por agora, os concelhos de Almada e do Seixal. Para além de entregar documentos e objectos, a empresa de Bruno Brazão faz também e, acima de tudo. um sem número de recados e tarefas que os clientes não têm disponibilidade para fazer, proporcionando-lhes uma melhor qualidade de vida, nomeadamente: ir ao supermercado, ao banco, levantar o cartão de cidadão ou passaporte, levar ou levantar roupa à lavandaria, entre muitas outras tarefas do dia-a-dia. Garantem rapidez, eficácia e 0% de emissões de CO2. Para qualquer serviço ou informação, visitem o site ou utilizem o telefone (964889775). velo-cidade.com

ROSS I O . AV L I B E R DA D E . SA L DA N H A

CIRCUITO DE LISBOA 10 DE AGOSTO DE 2014

14:00 .

TREINOS LIVRES //

: 3 0 C H EGA DA 1 4 : 3 0 . PA R T I D A / / 1 5

MININOS MASCULINOS // FE

MO.PT E 2014 EM FPCICLIS ” AT É 8 D E A G O S T O D INSCRIÇÕES:“ONLINE FPCICLISMO.PT 13 802 140 // GERAL@ MAÇÕES:TEL (+351) 2 C O N TA C T O S / I N F O R

Festival Bike de Santarém faz dez anos O Festival Bike - Festival Internacional da Bicicleta, Equipamentos e Acessórios e Salão de Ciclismo Profissional, evento que decorre no Centro Nacional de Exposições, em Santarém, entre os dias 17 e 19 de Outubro, comemora, este ano, uma década. Para assinalar a data, haverá uma exposição de fotografia: "10 anos, 20 imagens". A estes 20 momentos, junta-se uma exposição de cartazes desde 2004. cnema.pt III Campeonato Brompton a 20 de Setembro, em Lisboa Após duas edições de sucesso, o III Campeonato Brompton acontece novamente nos jardins de Belém, no dia 20 de Setembro, integrando o programa da Semana Europeia de Mobilidade de Lisboa, sendo também a actividade-âncora do Festival de Bicicleta Urbana, organizado pela marca e pela Câmara Municipal de Lisboa. O campeonato é aberto a profissionais e amadores (inscrições no site da Brompton) e tem a particularidade dos participantes terem que respeitar um código de indumentária que exclui qualquer peça de roupa desportiva. Os primeiros prémios são duas bicicletas Brompton (de valor aproximado a 1,200€ cada), além das inscrições automáticas no Campeonato do Mundo de 2015. Do Festival de Bicicleta Urbana fazem parte venda de produtos, área de comida e bebidas, jogos, corridas, workshops, entre outras actividades. brompton.pt / f b.com/bromptonportugal

Ilustração: Bráulio Amado #22

Anita Picnic Gostamos de piqueniques, gostamos da vida ao ar livre, gostamos de comidas boas e de bebidas de Verão, gostamos de pegar na bicicleta e de ir "piquenicar". Quem gostar de tudo isto, vai também gostar da Anita Picnic, nova marca de produtos artesanais com desenhos originais, para colorir e tornar ainda melhor a vida ao ar livre: por agora, há cestos, toalhas e guardanapos. Para depois estão previstos cestos para bicicletas e outros objectos adequados ao campo, à praia, à montanha ou aos jardins citadinos. À venda em anitapicnic.com.

Roda Gira apresenta Zorlac Nuno Sota está cada vez mais empenhado em desenhar e construir bicicletas, alargando a família Roda Gira. Desta vez, o novo rebento é a Zorlac, gama com um número limitado. O nome foi inspirado na conhecida marca de skate dos anos 80 e "a ideia foi pegar nesse nome e homenagear em bicicleta aquilo que mais caracterizava a marca: a agressividade. É um dos quadros Roda Gira fabricado na Europa em alumínio Oria 7005 e 7020". Em Setembro, está prevista a edição da Zorlac2. bicirodagira.com

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foto: Luís Mileu

Circuito de Lisboa e Bike Polo, dia 10 de Agosto Na mesma tarde em que o pelotão profissional da Volta a Portugal vai percorrer o já tradicional circuito entre o Rossio, a Avenida da Liberdade e o Saldanha, a Federação Portuguesa de Ciclismo convida todos os ciclistas amadores e cicloturistas a pedalar no mesmo percurso, no Circuito de Lisboa, Domingo, dia 10 de Agosto. A prova começa às 14h30 e é aberta a todos os maiores de 17 anos e a todos os tipos de bicicleta. Inscrições limitadas a 250 participantes, no site fpciclismo.pt. Em paralelo com o Circuito de Lisboa e também integrado na festa de consagração da Volta a Portugal, vai realizar-se uma demonstração de Bike Polo. Entre as 14h e as 18h, todos os interessados podem assistir a jogos de Bike Polo, no Marquês de Pombal, e experimentar esta modalidade.


AS   METÁFORAS   DO PEDAL

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A NOSSA LINGUAGEM e o nosso discurso estão povoados de metáforas. Algumas são óbvias, outras nem por isso; umas apresentam-se mais recônditas, outras mais explícitas mas quase todas remontam a sua origem à experiência sensível e aos hábitos de todos os dias, expandindo-se e entrecruzando-se com as referências culturais da música, do cinema e da literatura. É, por exemplo, conhecida a facilidade com que transpomos características de animais e alimentos para características pessoais de indivíduos e povos. Talvez isso se deva ao longo tempo de permanência da ruralidade como modo de vida e que ainda hoje caracteriza Portugal. O reino animal e vegetal, enquanto manancial de formas, cores e comportamentos constitui-se assim como um chão fértil, dimanando a sua riqueza para o vocabulário comum e providenciando um enraizamento telúrico do nosso imaginário. Todos sabemos o que é alguém ser um "nabo" ou ter "cabeça de alho chocho"; dizemos que fulano em tal situação foi um pouco "burro" e de sicrano que só faz "macacadas"; do teimoso sabemos que "burro velho não aprende línguas" e dizer que alguém é um "pãozinho sem sal" é eufemizar o quão chata pode ser a sua companhia... ou se queremos falar de quão parvo foi um certo indivíduo, podemos dizer que ele é um "banana"; e não nos esqueçamos dos vários gestos "amanteigados" e ternos entre namorados. Por vezes as metáforas não respeitam apenas e só a pessoas, mas a situações ou dilemas, adquirindo contornos morais quase proféticos; é o caso do famoso "mais vale um pássaro na mão do que dois a voar" que na sua simples brevidade nos ensina a valorizarmos o que efectivamente temos e a não desejarmos mais do que nos basta; já "querer sol na eira e chuva no nabal" trata da incompatibilidade entre dois desejos ou situações, sugerindo a responsabilidade e o compromisso de uma escolha. Também o nosso corpo é uma fonte de inúmeras metáforas, devido à sua abertura relacional ao exterior; a autolocalização no espaço, por exemplo, é uma tarefa contínua e que assume que configuramos o mundo de acordo com várias metáforas aprendidas e expandidas a partir de movimentos corpóreos. O pensamento conceptual está inevitavelmente enraizado na nossa carne e não podemos articular um sentido familiar do lugar que habitamos sem uma ligação experiencial e corporal ao mesmo. Por exemplo, ambas as noções de "cima" e "baixo" recebem um sentido diferenciado que está embebido na construção corporal desses conceitos. O "baixo" está ligado à terra, a assuntos práticos, à renovação e à morte, enquanto o "cima" associa-se à conquista

de um terreno superior, para pensar, analisar ou conceptualizar. "Vir abaixo" é tão fácil como inevitável, até porque "todos os santos ajudam"; seja num baloiço ou numas escadas, a gravidade puxa-nos continuamente para baixo e apenas através de obras de engenharia civil poderemos esperar subir sem cair, embora estejamos sempre com os dois pés na terra; a presença do "baixo" é também subjectiva, porquanto alguém "em baixo" parece retratar alguém triste ou melancólico; o "cima" necessita de mais esforço físico, mas a recompensa parece ser uma percepção incomum das redondezas, uma perspectiva mais larga da nossa própria situação, uma grandeza (estar "em altas") e uma realização mais ou menos ascética; "cima" pode também significar mais importância numa escala hierárquica, ou até um desenraizamento de questões mais terrenas, em direcção a uma necessidade desencarnada de justificar o conhecimento teórico sobre as necessidades mais pragmáticas; finalmente o "acima" pode também significar alheamento, esquecimento do corpo e dos condicionamentos históricos e sociais; o "cima" é pois concomitante de ideias utópicas e fantasias tecnológicas. Considerações similares podem ser avançadas para o "esquerdo e o direito", o "perto" e o "longe", ou o "dentro" e o "fora". Todas estas metáforas corporais estão presentes e são activadas de modo claro no caminhar e na pedalada, e apesar de poderem ser traduzidas como metáforas para outros universos conceptuais, permanecem ligadas a esta maneira básica de estar e de nos deslocarmos na cidade. Uma metáfora, afinal, é este transporte, no plano do sentido, das características de um corpo para outro que lhe é diferente, um prolongamento de cada objecto noutro, numa ligação que conserva as diferenças mas ilumina as semelhanças. A metáfora é pois um abraço entre o que há de comum entre as coisas e que à partida não nos surge como evidente. No seu poder imagético e sugestivo, a metáfora denuncia a não separabilidade das coisas e molda a maneira como nos percepcionamos a nós próprios, os outros e o mundo. Escolher que metáforas usamos e recusamos é em grande medida uma função dos nossos hábitos e rotinas, das nossas leituras e de tudo aquilo que consumimos. Daí que ao escolhermos certos hábitos em detrimento de outros estamos inevitavelmente a escolher as metáforas que admitimos nas nossas vidas e a determinar como insuflamos o nosso imaginário de experiências únicas e significativas. O perigo de estarmos todos em contacto com o mesmo mercado cultural e de experiências com origem nas tecnologias de comunicação é o de haver uma erosão

da diversidade metafórica e da força moral dessa diversidade. A bicicleta, enquanto meio de transporte, é imensamente rica em metáforas e daí advém muito da sua força e popularidade. Mesmo que tais metáforas não se cristalizem num vocabulário elas trabalham secretamente a nossa vida de modo articulado, recheando-a de contextos humanos. Estou convencido que a pedra-de-toque desta abundância moral se deve à fragilidade que ela ilustra. A persistência nobre que é deslocarmo-nos com as nossas próprias pernas não é feita em nome de nenhum movimento ou ideal mas apresenta a sua própria lógica sensível. Convenhamos que não é "do pé para a mão" que alguém começa a pedalar entre automóveis que expelem gases nocivos e ameaçam colisões mortíferas. Tampouco é claro porque há-de alguém percorrer em esforço algumas subidas e ladeiras íngremes ou vencer uma batalha contra o vento. Esta estranheza a um compromisso de corpo e alma com a maneira com que nos movimentamos só surge aliás devido à proliferação de escravos tecnológicos. Ao sermos aliviados de qualquer esforço na nossa locomoção perdemos a noção de escala e somos despojados de metáforas exemplares. Podemos dizer que alguém "tem pedalada" para ilustrar uma destreza elegante e jovial mas o poder evocativo e metafórico da bicicleta não advém daí. Ao pedalarmos ficamos expostos ao aleatório, em certa medida; podemos ter furos, ser castigados pela chuva ou sofrer a trepidação de um piso irregular; temos de ficar calmos após razias, concentrados para cruzar carris, persistentes nas subidas. A cada metro a leveza preserva-se e o sentimento de superação aumenta e há uma volúpia no nosso cansaço que aprendemos a cuidar. Cada percurso na cidade densifica-se nas suas qualidades porque não é trivializado; não existe a inoculação tecnológica do nosso imaginário alimentada pela carapaça metálica do automóvel ou pelas velocidades geradas por um motor de combustão. Em suma, nesta entrega frágil ao risco e à sua aceitação expandimos na imaginação as nossas fronteiras de pele e osso, em direcção ao outro, idêntico e diferente. Interiorizamos, a pouco e pouco, toda a importância e necessidade do respeito e de um encontro com pessoas e coisas. E sabemos melhor colocarmo-nos no lugar do outro porque vivemos no gume de uma ameaça à nossa integridade. E percebemos que um mundo em que todos os lugares ficam ligados pela pressa é um mundo sem lugar nenhum. Pedalar ensina-nos a permanecer e a olhar com olhos curiosos e fascinados para o que sempre tivemos diante de nós. Te x t o : T iag o C ar valh o


A BICICLETA          DO GÉNIO

O problema de Turing A corrente de Turing vai saltar quando a bicicleta atingir o estado (theta = 0, C = 0) e isso vai acontecer quando F. (que é simplesmente um contador que indica quantas vezes a roda traseira já girou) tiver um valor hipotético de tal forma que F*n mod L = 0 Ou seja, sucederá se houver algum múltiplo de n (2n, 3n, 395N, 109.948.368.443n) que seja também um múltiplo exacto L. Objectivamente, podem haver vários desses múltiplos chamados comuns, mas de um ponto de vista prático, o único que interessava a Turing e à sua vontade de chegar a casa seria o primeiro, o mínimo múltiplo comum, ou MMC, porque esse seria o primeiro a fazer a corrente saltar. Se, por exemplo, o pinhão tivesse 20 dentes (n = 20) e na corrente houvesse 100 anelos (L = 100), em seguida, depois da roda girar uma vez teríamos C = 20, depois de girar duas voltas teríamos C = 40, depois 60, e 80 e 100. Mas como estamos a trabalhar

com aritmética de módulo 100 este valor deve ficar no zero. Desta forma, depois de cinco revoluções da roda traseira, atingiríamos o estado (theta = 0, C = 0) e a corrente do Turing saltaria. Mas com cinco rotações da roda a bicicleta só teria avançado 10 metros, o que demonstra que, com estes valores de n e de L (correspondentes aos dentes do pinhão e anéis na corrente) a bicicleta seria quase inutilizável. Mas isto seria também se Turing fosse tonto o suficiente para começar a pedalar no estado em que a corrente salta (theta = 0 e C = 0) Se alternativamente a bicicleta estivesse no estado (theta = 0, C = 1) ao começar a pedalar, então os valores sucessivos de C seriam C = 21, 41, 61, 81,1,21 ... e a corrente nunca saltaria. Mas este é, matematicamente, o que se chama um caso “degenerado”, termo que para os matemáticos alude a uma questão profundamente entediante. Mas, ainda em teoria, sempre que Turing deixasse a sua bicicleta sem cadeado em qualquer lugar, livre para ser roubada, mas no estado (theta = 0 e C = 0), estaria seguro de que qualquer ladrão não avançaria mais de 10 metros com ela. Talvez por isso se conte de que ele tinha um obsessão de prender com cadeados a sua chávena de café favorita, mas nunca a sua bicicleta. Complicando um pouco mais, se a corrente de Turing tivesse não 100 mas 101 anéis de ligação (L = 101), depois de cinco rotações da roda temos C = 100 e depois de 6 rotações C = 19, pelo que: C= 39, 59, 79, 99, 18, 38, 58, 78, 98, 17, 37, 57, 77, 97, 16, 36, 56, 76, 96, 15, 35, 55, 75, 95, 14, 34, 54, 74, 94, 13, 33, 53, 73, 93, 12, 32, 52, 72, 92, 11, 31, 51, 71, 91, 10, 30, 50, 70, 90, 9, 29, 49, 69, 89, 8, 28, 48, 68, 88, 7, 27, 47, 67, 87, 6, 26, 46, 66, 86, 5, 25, 45, 65, 85, 4, 24, 44, 64, 84, 3, 23, 43, 63, 83, 2, 22, 42, 62, 82, 1, 21, 41, 61, 81, ZERO

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O facto de Alan sempre ter sido visto na sua bicicleta só comprova a sua genuína genialidade. No entanto, o uso que ele lhe deu também ilustra a ideia de que a bicicleta de um homem espelha a sua personalidade. Até perante a sua bicicleta Turing demonstrava ser um tipo singular. O problema estava na corrente, o que tornava a benquista bicicleta de Alan num veículo imprestável. Perante uma corrente naquele estado qualquer um faria o mais óbvio, que era colocar uma nova. Mas Turing não, ele elevou o incidente a proporções matemáticas e recusou-se a concertar a corrente. Ele reinventou a sua bicicleta de forma a que ela contivesse aquele contenda matemática. A dita corrente saltava fora da cremalheira após um número regular e periódico de rotações. Alan contou, enquanto pedalava, as rotações da cremalheira até a corrente ser forçada a saltar fora. Com base nisso, traduziu o incidente a uma fórmula matemática e concebeu um dispositivo mecânico que contava as rotações da cremalheira, e reajustava a corrente automaticamente. Será que não lhe ocorreu simplesmente comprar uma corrente nova? Ou a resolução daquele desafio matemático era mais importante? É assim, a bicicleta reinventada pelo génio.

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A PALAVRA GÉNIO é doada em frequente demasia, ou trocada por pouca coisa. Uma finta mais acrobática num jogo de futebol é genial, aquela banda que acertou três acordes seguidos é genial, a espetada de migas do novo restaurante gourmet - é muito genial. Nos dias que correm, qualquer coisa é genial. O Verão é genial, as minis são geniais, o jornal Pedal é genial (Hey, o jornal Pedal é mesmo genial!) – afinal, o que resta ao génio de verdadeira genialidade? O maior problema do uso abusivo da palavra é esse, ficarmos sem termo para descrever aqueles que rasgaram com a sensação de mediania e romperam com os limites. Aqueles que mudaram o mundo, renovaram o saber, fizeram tudo como se nada fosse garantido – os génios. Os génios-mesmo. Se houve génios-mesmo, Alan Turing (1912-1954) foi sem dúvida um. Basta dizer que o computador moderno não seria o que é sem ele. Deu também contributos pioneiros ao campo da inteligência artificial, da biologia matemática, da criptoanálise e da lógica. Foi ele quem quebrou códigos nazis que ninguém mais decifrava, solução que diminui dois anos à II Guerra Mundial. Sem empunhar uma arma, determinou o fim de uma guerra e salvou milhares de vidas: se isto não é de génio, o que será? Apesar de todo o seu mérito, a sua história não acabou nada bem. Foi punido por ser homossexual e a castração química a que foi sujeito deixou-o num estado tal que acabou por se suicidar comendo uma maça envenenada. Mas antes do seu fim trágico, acumularam-se em torno da sua pessoa uma série de lendas. Como génio que se preza, Turing não fazia nada de forma previsível e há um sem número de excentricidades que se contam sobre a sua conduta. São histórias difíceis de crer mas que, por ele se tratar de um génio, nos fazem duvidar sobre os limites das nossas capacidades. Muitas dessas narrativas míticas sobre a sua pessoa não têm a ver com tecnologia ou matemática, mas com prestações desportivas. Encontram-se suas biografias referências de idas a Londres a correr, não obstante viver a 60 quilómetros. Estas falam também da afeição do génio à sua velha bicicleta. Conta-se que Alan pedalava para todo o lado e que, no seu primeiro dia de aulas na Sherborne School, com apenas 14 anos, perante uma greve geral dos transportes britânicos, Alan simplesmente agarrou na sua bicicleta e foi, tornando-se pelo feito uma celebridade local. Eram 100 quilómetros, de Southampton a Sherborne.


Então, até que a roda gire 101 vezes, a bicicleta não retorna ao estado (theta = 0, C = 0), em que a corrente salta. Com essas 101 rotações a bicicleta avançou um quinto de quilómetro, o que já é melhor que 10 metros. Por outro lado, se no exemplo anterior havia a possibilidade de deixar a bicicleta sem cadeado, no estado (theta = 0, C = 0), confiante de que o ladrão não iria longe, neste caso essa possibilidade não existe. A diferença entre os dois exemplos, o caso degenerado e não degenerado, tem a ver com as propriedades dos números envolvidos. A combinação de (n = 20, L = 100) tem características radicalmente diferentes da combinação (n = 20, L = 101). A diferença fundamental é que 20 e 101 são "primos relativos", ou seja, não têm factores comuns. Isto significa que o menor múltiplo comum, MMC, é um número grande, mais precisamente L*n=20+101=2020

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Enquanto o MMC de 20 e 100 é simplesmente 100. A bicicletas com a corrente L=101 tem um período longo, ou seja, passa por muitos estados diferentes antes de retornar ao estado inicial, enquanto a bicicleta com a corrente L=100 tem um período de apenas alguns estados. Agora, suponhamos que descrevemos a posição da roda traseira pelo ângulo theta. Para simplificar, diríamos que a roda inicia o movimento na posição em que o raio curvado pode bater no anel débil da corrente, e nesse caso theta = 0. Se usarmos graus como unidades de medida, durante a rotação da roda, theta vai aumentar 359 graus antes de retornar a zero. Nesse ponto, o raio curvado e o anel débil da corrente raio voltam a encontrar-se. Agora, suponhamos que descrevemos a posição da corrente pela variável C, atribuindo um número a cada anel da corrente. O ponto fraco é o número zero, o seguinte anel é o 1, e assim por diante até L-1, em que L é o número total de anéis em cadeia nessa corrente. Mais uma vez, para simplificar, vamos dizer que quando a corrente está na posição em que o anel mais fraco pode ser atingido pelo raio curvado, então C = 0. Para determinar quando saltará afinal a corrente, tudo o que precisamos saber sobre a bicicleta está contido nos valores de theta e de C. Esses números definem o estado da bicicleta. Dos muitos estados possíveis, apenas um define o momento em que a

corrente saltará e o matemático poderá estatelar-se no chão, o estado (theta = 0, C = 0). Suponhamos que iniciamos o movimento nesse estado, ou seja, com (theta = 0, C = 0), mas a cadeia não saltou porque habilmente o Turing parou a meio da estrada e avançou ligeiramente com theta ou com C. Volta a pedalar sossegado até saber que a bicicleta está prestes a retornar ao estado (0, 0). Mas isso não funciona novamente, e porquê? Se C inicia em C = 0 passa para 1 no momento em que o anel seguinte atinge o alinhamento fatal que faz a corrente saltar. Depois passa para 2 e assim sucessivamente. A corrente terá de girar de forma síncrona com o pinhão ao centro da roda, pinhão donde saem n dentes. Depois de uma rotação da roda de trás, quando theta retorna a theta = 0, C = n. Depois de nova rotação da roda, theta é novamente zero mas agora C = 2n. Na próxima será C = 3n, e por aí fora. Mas como a corrente não é um elemento linear infinito, mas sim um “loop” com L posições, quando C = L volta a ser C = 0, o ciclo repete-se. Por isto, para calcular o valor de C há que recorrer à aritmética modular. Isto significa que, se a corrente tem 100 anéis em cadeia (L = 100) e o número total de anéis que se moveram for de 135, então o valor de C não é 135, mas sim 35. Sempre que um obtivermos um número maior ou igual a L, então teremos de subtrair repetidamente L até obter um número menor que L. Esta operação pode ser representada matematicamente como mod L. Os valores sucessivos de C, cada vez que as rotações da roda voltarem a theta = 0, são: Ci= n mod L, 2n mod L, 3n mod L... in mod L Em que i = 1, 2, até ao infinito. Não realmente infinito, porque implica também quanto tempo poderia Turing ter paciência de pedalar, claro. Mas sobre isso, sabemos já que era muito. Enfim, Definitivamente, qualquer pessoa comum simplesmente COMPRARIA UMA CORRENTE NOVA!!!!!

Te x t o : J o ana B é r th o l o — w w w.uns cr a t chabl e .in f o L i v r e m e n t e adap t ad o d o li v r o “ C r y p t o n o mi c o n” d e N e al S t e ph e ns o n F o t og r af ia: D R


QUE NÃO SE pense que só de lamechiches vive o amor. “Ninguém escreve cartas de amor”, o EP de estreia de Miura vem demonstrar exactamente o oposto. Com letras incisivas embrulhadas em rock à séria, estes rapazes da Figueira da Foz (o Luís, o André, o Nelson e o Nuno) impressionam. No próximo mês tocam em casa, no Festival Fusing Culture Experience. É dia 15 de Agosto, não percam. O amor, esse sentimento tão esdrúxulo, é a liga dos Miura, “gostamos de abordar o amor em si e tudo o que ele arrasta consigo. Falamos na ausência, na distância, de tudo aquilo que poderia ter sido dito e feito e não o foi. Falamos do tempo que não pára, das amizades perdidas e da alegria de as voltar a encontrar. Da angústia de estar longe, da saudade mas também daquela sensação de voltar”. Miura é uma homenagem aos touros Miura “uma raça de touro possante, ágil e feroz criada na Andaluzia a partir de cinco raças de touro. Consideramos que representa bem a energia e poder que pretendemos passar com a nossa música”. Gostam de fazer música como quem faz um filme, contar uma história. “Consideramos que a música é uma história, um filme e como todos os bons filmes tem de ter um bom argumento, uma boa imagem e uma boa banda sonora.” Cada música nasce de uma base rítmica e harmónica forte que inspira a criação das letras. “Gostamos que a música nos desperte, nos transporte para a história que vamos contar e isso tudo ganha forma na nossa sala de ensaios. A composição tem partido de bases de guitarra e baixo que, por sua vez, inspiram temas, letras e respectivas baterias.” O trabalho resulta sempre de um equilíbrio entre os vários elementos do grupo: “apesar dos inputs de todos na construção dos temas, a base de construção parte sempre de cada um.”

Ainda que este seja um projecto bastante recente, os quatro elementos já andam há muito por aí. Podem encontrá-los em projectos como Killerkarma, Damm, Junkymachine ou Hand Puppets. Agora, garantem que estão a tempo inteiro em Miura. O EP de estreia que saiu em Março deste ano tem tido uma excelente recepção, “de forma geral todos a quem já conseguimos fazer chegar o trabalho o feedback tem sido bastante positivo, as pessoas estão a reconhecer o potencial e a perceber o conceito”. Apesar disso, os Miura ainda não têm planos certos para um próximo álbum, preferem concentrar-se na promoção deste. “Neste momento estamos focados na gravação do vídeo do primeiro single retirado do EP. Um futuro álbum? Nunca se sabe! Mas para já queremos levar este EP a um maior número de pessoas e, no final, retirar as devidas conclusões. Vamos criando expectativas conforme tudo vai evoluindo.” Dos quatro, o Nelson é aquele que é “completamente viciado em bicicletas”, faz BTT regularmente “na vertente cross country e enduro”. Os outros confessam que “é mais numa vertente de puro transporte, terapia e lifestyle.” Garantem-nos que Miura seria um óptimo nome para uma linha de bicicletas “mas teria que ser uma linha old school.” Nada de extraordinariamente novo, afinal as biclas já têm todas as funcionalidades. A bike Miura “bastava ser uma single speed só para duros, pura e dura como a nossa música.” De resto, confessam que o essencial é que “haja pernas e vontade para pedalar, de preferência com Miura a bombar nos headphones”. Sempre com calma que a estrada é longa. Te x t o : M aí lis Ro dr igu e s F o t og r af ia: M ar iana Ro s a mar ianar o s a. c o m

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Segundo Carlos Martins, da organização do Fusing Culture Experience, "um festival para bicicletas parece ser coisa do presente. Com toda a cultura da bicicleta em alta, este pode ser um bom conceito a explorar. Por aqui, vemos a coisa por dois prismas, um mais ligado ao culture e lifestyle e outro mais relacionado com a parte de desporto e de aventura. Obviamente que um conceito destes, e sendo a bicicleta um meio de transporte, terá que ser algo movível, que obrigue as próprias pessoas a utilizarem a bicicleta para se deslocarem, com apontamentos relacionados com esta vivência pela venue do festival. Isto é tudo muito superficial, mas a multiplicidade de coisas que podiam ser feitas neste campo não nos permite aprofundar muito o tema. Deixamos o repto ao Pedal para pensar em algo deste género. Certamente que iríamos a pedalar".

MIURA

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FUSING  2014

O Pedal pergunta: "Como imaginariam um festival só para bicicletas?"


SALTO

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OS SALTO GOSTAM mesmo é de fazer música. Estes rapazes exploram, dedicam-se e trazem muita boa onda em cada acorde que tocam ou beat que criam. Com trabalhos tão díspares como “Salto” e “Beat Oven #1” demonstram-se os mais fiéis escudeiros da música com M maiúsculo. Antes de actuarem no Fusing, a 15 de Agosto, estivemos à conversa para divagar sobre futuras bicicletas geradoras de gelados (devem ser italianas com certeza!) e música, claro, rainha-mãe dos Salto. A formação dos Salto é incrivelmente dinâmica. Actualmente, conta com quatro elementos: o Luís, o Guilherme, o Filipe e o Tito. Esse dinamismo, dizem, resulta de “um processo muito natural, porque antes de os novos elementos entrarem nos Salto já eram nossos amigos e é daí que nasce esta partilha. A nossa vontade sempre foi de fazer música com mais gente e agora os tempos e espaços de cada um começam a alinhar-se e torna-se possível alargar os Salto a mais gente”. A relação que mantêm com a música nasce de um sentimento de espontaneidade. Do início de Salto ao lançamento do álbum passaram quatro anos. “Desde 2006 que tocamos juntos. Somos primos e, naturalmente, começámos a experimentar tocar música, de uma forma tão descomprometida que nem nos passava pela cabeça gravar um álbum. Divertíamos-nos a fazer gravações com um minidisc num armário em casa do Luís e criámos assim a Armário Records. Depois começaram a surgir concertos e vontade e entusiasmo em fazer mais e melhor. Em 2010, surge o primeiro convite para editarmos uma música na colectânea dos Novos Talentos Fnac e daí até ao álbum foi um instante”. Lançaram há poucos meses “Beat Oven #1”, primeiro de uma série de experimentações electrónicas.

“A ideia é criarmos este ‘espaço’ onde, como Salto, damos aso a experimentalismos e composições mais viradas para o beat e para a música electrónica. Onde nos ‘esquecemos’ das vozes e das guitarras e apontamos aos synths, aos samples e aos beats”. “Beat Oven #1”, como o nome indica, é uma colecção de beats produzidos pelos próprios, a electrónica tem uma presença muito mais forte nas músicas do que aquela a que estávamos habituados. Engane-se quem pensa que estes rapazes estão numa de abandonar as canções: “são duas vertentes que nos têm vindo a acompanhar nos últimos anos e que gostamos igualmente de explorar. Quisemos agora arranjar um espaço para cada uma. Enquanto num álbum de Salto a procura é a canção, no “Beat Oven” a procura é a exploração das diferentes texturas da música electrónica”. Para o futuro, querem apenas continuar a fazer música. “É o que nos move!” Mas informam que já estão a preparar novo disco de Salto, “estamos a trabalhar na préprodução do álbum, que se encontra bastante avançada já e, dentro de pouco tempo, queremos estar a gravar”. A bicicleta faz parte da mundo dos Salto mas “O Tito e o Filipe é que são os verdadeiros praticantes do ciclismo. Quase que sobem e descem paredes. Usam-na muitas vezes como o seu meio de transporte principal”. O Guilherme confessa que utiliza pouco a bicicleta, “em miúdo sim, usava bastante, principalmente para fazer o número de ‘vou descer aquela rampa. Agora como é que se trava? Numa parede!!’ Era especialmente bom nesse número!”. Para o Luís, a cena era mais impressionar as miúdas. Ainda assim garante que “era o ride que mais adrenalina me dava”. Hoje em dia usa a bicla para pequenas actividades do quotidiano, “não a uso todos

os dias, infelizmente. Uso-a muitas vezes para ir para o ginásio e ir às compras”. Para a bike do futuro, os Salto imaginariam um objecto super hi-tech: “seria integrada com um pequeno gerador de energia que iria alimentar uma dock para o iPhone, que sincronizava as informações recebidas da pulsação, recolhidas por uns sensores nos manípulos. Assim, poderia registar a prestação de cada passeio. A juntar a isso também ajudaria com um sistema de GPS integrado nos mapas do smartphone.” Mas o que era mesmo incrível era que as bicicletas pudessem ter “uma máquina de gelados. Era do melhor!” Te x t o : M aí lis Ro dr igu e s F o t og r af ia: M ar iana M ar qu e s mar iana - mar qu e s .tumblr. c o m

No Fusing, que decorre de 14 a 16 de Agosto, na Figueira da Foz, as bicicletas são muito bem-vindas e o seu uso é incentivado pela organização, como meio de transporte privilegiado entre os locais onde tudo acontece no festival: há estacionamento para bicicletas na entrada do recinto, aluguer/empréstimo de bicicletas à entrada do recinto, diversos parques de estacionamento espalhados pela cidade e bicicletas clássicas para aluguer na entrada do recinto para itinerário pelos murais. Peguem na vossa e apareçam por lá, já que, para além da atenção dada às duas rodas, há quase 40 bandas para ver e ouvir: Dead Combo, Octa Push, Capicua, Paus, Sequin, The Legendary Tigerman e, entre muitos outros, Salto e Miura, que o Pedal entrevista nestas páginas.


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DAL­ 01 20X X DC. Com o consumo excessivo de matéria prima, cientistas procuram uma alternativa viável à produção de energia eléctrica de forma ecológica e económica. Após anos de estudo e pesquisa intensiva, a cientista russa Anzhelika Volkov cria um novo meio de produção de energia onde a bicicleta se funde com um pequeno motor que produz e armazena electricidade através do movimento dos pedais do utilizador. Baptiza o modelo de DA L- 01 em homenagem da sua já falecida companheira, Magdalina. Esta morreu num acidente de teste do modelo DA L- 0 0.

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H á m o n t anhas , há v ul c õ e s , há m o v im e n t o , há di f e r e n t e s o b s t á cul o s . A bi ci cl e t a P o w e r S hr e dd e r f o i d e s e nhada p ar a subir m o n t anhas e v ul c õ e s e m qu e o ci clis t a p e dala c o m o s p é s e c o m as mã o s , mas p ar a cima e p ar a b ai x o , e m v e z d o m o v im e n t o cir cular t r adi ci o nal. P ar a mudar d e dir e c ç ã o , o guiad o r é um e i x o c o l o c ad o n o c e n t r o da bi ci cl e t a. C o n f o r m e as e t ap as qu e t e r á qu e r e ali z ar, o ci clis t a p o d e mudar a r o da t r as e ir a e m t r ê s p o si ç õ e s : p ar a d e s c e r, r o lar o u subir. A inda nã o há uma v e r s ã o f i x e d g e ar mas o s ci e n tis t as e s t ã o a t r a t ar dis s o .

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L uís Favas luis favas . c o m


Bike           Art              São Paulo

rua com cultura e muita diversão, além de celebrar a bicicleta e a convivência, o saldo foi muito positivo. Agora, na terceira edição, vamos para o Largo de Pinheiros: região que sofreu recentemente mudanças urbanísticas polémicas. Hoje, pode dizer-se que o Largo é um enorme e semi-árido calçadão, servindo quase exclusivamente para passagem de pessoas, mas o local tem muito potencial, pois é uma área pública muito bem localizada e livre de carros. Uma edição do Bike Arte ali ajudará a firmar a vocação do local para a celebração da cultura e do convívio na rua. Neste ano, também atravessaremos o Atlântico e teremos uma parceria com o colectivo Bicicleta Voadora: artistas lusitanos enviarão seus trabalhos para serem expostos em São Paulo; ilustradores brasileiros terão suas obras expostas na exposição Ilustração Voadora, que ocorre em 10 estabelecimentos de Lisboa, no mesmo mês de Outubro. A ideia do Bike Arte surgiu das “Posters parties”, eventos realizados fora do Brasil em que artistas produzem ilustrações para serem expostas durante uma festa de ciclistas. Resolvemos extrapolar o público e a ideia para realizar um festival de rua independente, colaborativo, com formas de financiamentos alternativos e que trabalhe em parceria com a iniciativa privada e o poder público. Artistas cedem as obras para serem revendidas em diferentes formatos, bandas independentes topam tocar gratuitamente, colectivos levam actividades gratuitas, comerciantes são convidados a promover a gastronomia e seus serviços para esse público e toda a cidade ganha em qualidade de vida com um dia de mais bikes e muita arte. E fica a pergunta: como seria se tivéssemos mais eventos e espaços como esses? Texto: Murilo Casagrande

R ô m o l o D H ip ó li t o ( F o z d o I g ua ç u , 19 8 3) I ni c i o u - s e na s ar t e s g r á f i c a s du r an t e a ad o l e s c ê n c ia , p ub li c an d o f an z in e s , e m 19 9 9 . F o r mad o e m D e sig n G r á f i c o , t r an si t a p o r di v e r s a s ling uag e n s c o m o b an da d e s e nhada , anima ç õ e s , p in t u r a s e c ar t o o n s . O s s e u s t r ab alh o s f o r am r e c o nh e c i d o s e p r e miad o s p e la F o lha d e S ã o P aul o e p e l o F e s t i v al A nimamun di , al é m d e t e r p ar t i c ip ad o d e e x p o si ç õ e s n o B r a sil e n o e x t e r i o r. R adi c ad o e m S ã o P aul o , d e s d e 2 0 0 8 , t r ab alha p r o f i s si o nalm e n t e c o m ilu s t r a ç õ e s p ar a li v r o s , r e v i s t a s , j o r nai s , p e ç a s p ub li c i t ár ia s e p r o j e c t o s d e ar t e c o mi s si o nada e , n o s e u a t e li ê , e x p l o r a o uni v e r s o da c i dad e a t r av é s d e s up o r t e s c o m o d e s e nh o , a c r í li c o , g r av u r a s , ag uar e la e c o la g e n s . Fr e qu e n t e m e n t e e x e r c i t a a s ua p e r c e p ç ã o a t r av é s d e e x p e r i ê n c ia s in t e r c ul t u r ai s c o m s e u p r o j e c t o C ad e r n o s d e V iag e m . romolo.com.br

Ilustração Voadora: 4 Outubro a 18 Novembro em Lisboa Organizada pela Bicicleta Voadora, projecto que tem como objectivo sensibilizar as pessoas para o impacto que os seus actos têm no dia-a-dia. em parceria com o Aromeiazero e a ASSOL, a Ilustração Voadora é uma exposição colectiva de ilustração que terá lugar de 4 Outubro a 18 Novembro, em dez lojas de comércio tradicional, em Lisboa, com o intuito de promover o pequeno comércio e de proximidade de modo a dar vida à cidade e dinamizar a economia local. Com ilustrações de Pedro Lourenço, José Josué, Susana Matos, Isabel Alves, Ricardo Figueira, Hugo Serge O. ou Dedo Mau, "nesta mostra haverá também um encontro de desenhadores de diários gráficos e pretende-se celebrar este dia com a produção de forma artesanal de um caderno gráfico de folhas brancas pela Oficina de Encadernação da ASSOL, Associação de Solidariedade Social de Lafões, uma Instituição que apoia pessoas com deficência mental e saúde mental crónica", como refere a organização. As receitas com a venda do caderno reverterão a favor da ASSOL. Promovendo as deslocação a pé ou de bicicleta, os diversos espaços estarão interligados. Como tal, uma das iniciativas a realizar no dia da inauguração será um passeio a pé e outro de bicicleta, visitando todos locais de exposição. Em parceria com o Bike Arte de São Paulo, em todas as lojas irá estar exposto um ou dois trabalhos brasileiros em resultado desta parceria com o Aromeiazero. bicicleta-voadora.blogspot.pt Texto: Maria Lima

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MUITO TEM SE falado sobre a relação de ciclistas e futuro do planeta e as cidades. Ciclovias, ciclofaixas, ciclorotas, cicloativistas são palavras que ganham cada vez mais espaço em grandes metrópoles com graves problemas de mobilidade e uma baixa qualidade de vida. A falta de estrutura e de políticas públicas para as pessoas pedalarem pela cidade é apontada como o principal problema, o Aromeiazero concorda, mas acha que o problema é um pouco mais abaixo. Afinal, a cidade é feita de história, quotidiano, pessoas e suas crenças, estereótipos e preconceitos. Sua cultura. Acreditamos que só criar uma boa estrutura cicloviária não gera uma “cultura da bicicleta”. E para se inserir a bicicleta na dinâmica de uma cidade é preciso formar uma massa crítica que lute pela ocupação e convívio no espaço público. Uma massa heterogénea, com pessoas de diferentes idades, diferentes classes, diferentes regiões de origem e com a mesma necessidade de melhor mobilidade, mais espaços de cultura, convivência e qualidade de vida. A primeira edição do Festival Bike Arte ocorreu em 2012 na Barra Funda, região central de São Paulo, onde realizamos a exposição artística num casarão tombado e outra organização. Em parceria com a Associação Cultural Cecília, fechámos a rua para carros e abrimos para bandas tocarem enquanto grafiteiros e artistas coloriam muros e bicicletas. Na segunda edição, no ano seguinte, que aconteceu na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo, ocasião que fechámos um trecho da Rua Mourato Coelho. Para se obter a autorização era necessário a adesão da maioria dos comércios/ residências da quadra. Nesse processo ficou claro ainda está incorporado no paulistano que as ruas são prioridade dos carros. Foi um trabalho de formiguinha, mas no final conseguimos celebrar a ocupação da

L A R I S S A R I B E I R O ( S ã o P aul o , 19 8 3) É f o r mada e m A r qui t e c t u r a , e m S ã o P aul o e e sp e ciali z o u - s e e m D e sig n G r á f i c o e I lu s t r a ç ã o e m I t ália , E sp anha e R e in o U ni d o . A c t ua n o m e r c a d o e di t o r ial d e s d e 2 0 07, c o lab o r an d o c o m di v e r s as e di t o r as d e li v r o s e r e v i s t as , ag ê n cias d e p ub li ci dad e e d e p r o du ç ã o d e c o n t e ú d o s . E x p l o r a , n o s e u t r ab alh o , di v e r s as t é c ni c as e r e c u r s o s , p as s an d o p e la p in t u r a , c o lag e m , e s c ul t u r a e m p ap e l , f o t o g r a f ia e v íd e o . lar i s s ar ib e ir o . c o m

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B E R N A R D O F R A N Ç A ( B r así lia ,19 8 2 ) F o r mad o e m A r qui t e c t u r a , e m 2 0 0 8 , v i v e e m S ã o P aul o d e s d e e n t ã o , o n d e é d e s e nhad o r. Tr ab alha c o m o dir e c t o r d e ar t e , p r o du z c e nár i o s p ar a anima ç ã o , ilu s t r ad o r, d e sig n e r g r á f i c o . A ma o M o d e r ni sm o d e s d e qu e na s c e u . f a c e b o o k . c o m / b e r nar d o d e lab u r n s


CICLO             LIS TO     PIA

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Estamos no ano de 2025, o mundo mudou. A antiga cidade de Lisboa, actual capital da Portubéria é o conjunto urbano com maior ocupação de ciclistas urbanos, uma transformação que se iniciou em cerca do ano 2000 e mudou o princípio urbano, mudou o rosto à cidade. A própria anatomia humana ajustou-se em pouco tempo, é agora uma existência totalmente adaptada à máquina de duas rodas, com um tronco delgado e pernas robustas capazes de pedalar a velocidades superiores aos 50 Am (Arómetros aproximadamente 100 km/h). As bicicletas têm agora desenhos diferentes, adaptadas aos diversos serviços, quer sejam eles de emergência, carga ou familiares. Todos os apartamentos têm um espaço para receber pessoas em bicicleta com diversos sistemas de rampas. Os veículos motorizados não passam o novo perímetro exterior urbano que liga Algés ao Lumiar e depois a Vila Franca de Xira. A cidade apresenta-se completamente transformada e adaptada às duas rodas de pedalar. As duas pontes de Lisboa são, agora, jardins cicláveis onde predomina o verde atravessado por diversas ciclovias que permitem ciclar de Almada velha a Alcântara e do Montijo ao aeroporto da Portela. A Avenida da Liberdade tem, agora, uma via central expresso-bina e duas laterais de ciclo-passeio, o Rossio apresenta um anel ajardinado com ciclovia que se prolonga pelas ruas da Prata e do Ouro até ao antigo Terreiro do Paço onde se encontra o Anficicloteatro. Junto ao rio, há três ciclovias desenhadas para objectivos diferentes: desporto urbano, ciclo expresso (via ciclável a alta velocidade) e ciclo passeio. A antiga estação de Santa Apolónia foi transformada no Espiródromo de Santacleta, que liga até à estação de comboios de Vila Franca de Xira. O Panteão Nacional é agora templo de bicicletas, onde se encontram guardadas as bicicletas mais valiosas de sempre e onde é possivel olhá-las. Para o lado poente, existe um oscilatónio no Cais do Sodré, um velódromo implantado sobre a água e que oscila com as ondas do rio, aumentando a dificuldade da competição. Mais à frente, encontra-se a Piscimarineta de Santos, uma obra recente que permite uma maior ligação entre o urbanoclista e a água. Quanto se passa em Belém, ainda a pedalar junto ao rio, existe um novo desafio, um mergulho em bicicleta no Mergulhatório de Belém. Trata-se de um sistema de três rampas para alturas diferentes que permitem pedalar em direcção ao rio, o corpo separa-se da máquina para a adrenalina máxima, a mente navega livre ao olhar a Ciclolistopia. Te x t o e D e s e nh o s : J o ã o B e n t e s

ANFICICLOTEATRO — Passa-se o rio, vindo do Barreiro ou de Cacilhas até ao Cais das Colunas do antigo Terreiro do Paço, agora Meca do urbanoclista (urbano-ciclista), um poço para concertos e teatro, um descer em bicicleta para observar o espectáculo. A entrada é rampeada com duas passagens de alta velocidade até à arena, junto ao palco. Trata-se de um espaço amplo, escavado no terreiro que serve tanto à programação mais recente na ciclocidade como serve também como espaço para estar ao ar livre. Alguns ciclistas organizam lanches de Verão enquanto outros decidem descer as 35 rampas contínuas até à arena em velocidade. Em dias de sol, há pessoas a passear, casais sentados à beira das rampas com as suas bicicletas encostadas à muralha. Há miúdas deitadas a tostar ao sol também com as suas máquinas de duas rodas deitadas ao lado. Para cima e para baixo andam também miúdos incansáveis que não querem outra coisa senão pedalar. A obra abraça oito festivais ao longo do ano, três de cinema experimental, dois de teatro de improviso e ainda três de bandas de garagem. É agora aqui que se reúnem grupos de urbanoclistas para celebrar o poder ciclável.

ESPIRÓDROMO DE SANTACLETA — Pela ciclovia Tejo que percorre agora uma distância que vai desde Algés a Vila Franca de Xira, passamos pela antiga estação de Santa Apolónia que deu lugar ao Espiródromo de Santacleta. Este serve como rampa para atingir alta velocidade ciclável num troço até à estação de comboios de Vila Franca de Xira, agora porta da Ciclolistopia. Neste projecto, há uma apropriação do antigo edifício da estação construindo uma torre que se ergue até aos 115 metros de altura. A entrada é dupla e virada a poente, a subida é feita em rampas que contornam a torre até ao ponto mais alto. Lá em cima é possível ver até a Serra da Arrábida por momentos e depois faz-se a entrada para a descida em espiral até ao piso zero. A ligação até Vila Franca faz-se em cerca de seis minutos.

PISCINOMARINETA DE SANTOS — O facto da cidade não ter nem um único veículo a motor deu aso a uma total reformulação da relação urbana com a água, agora utilizando sempre a bicicleta para ligar distâncias. Junto a Santos onde ainda permanece uma zona de fabricação e manutenção de pequenas embarcações, é implantada a piscinomarineta. Neste caso, o objectivo é tirar partido de um avanço ao Rio Tejo, avanço que permite por um lado a implantação de uma barreira que permite a existência de uma zona de banhos e, por outro lado, um local para atracar embarcações. Os dois programas são separados por uma ciclovia e parques para descansar a máquina de pedalar. As embarcações são sobretudo à vela mas existem algumas com um sistema de ciclo transmissão, permitindo atravessar até ao Barreiro a pedalar.


Ciclo hó lico o seu trabalho com a própria natureza e pureza como base de desenvolvimento. “O maior acto artístico”, diz Oliver, “é ir direito ao ponto de encontro de todo o vazio com a sobreposição de correntes, uma sobreposição de fantasia pura e habilidade”. Em 2007, construiu a Hermeto’s Dream, a bicicleta que lhe trouxe o maior reconhecimento até ao presente e que o levou agora a trabalhar na sua “família”. Explica Oliver: “esta será uma família de sonhos. Cada bicicleta cada sonho. Comecei há poucos dias e vai levar algum tempo mas vou-vos dando actualizações.” Oliver Baur vive em Freiburg, rodeado pela Floresta Negra, diz que a cidade tem bastante relação com a bicicleta, a cultura anda muito à volta da bicicleta de montanha ou estrada ou ainda do utilizador diário urbano sem qualquer interesse na cultura da bicicleta. No entanto, Oliver diz: ”Isto faz parte da minha utopia pessoal: quero mudar isto! Pelo menos quero mudar um pouco isto!”. No fundo, Oliver está a construir um maior número de utilizadores urbanos com as bicicletas que cria. Continua a conversa apontando para o futuro: “enquanto criança ou jovem adulto, sempre desejei que todas as pessoas, quantas mais melhor, andassem de bicicleta, por vezes, vestia mesmo o papel de missionário”. No presente, olha para uma Alemanha mudada de forma positiva. Para ele, a bicicleta é o único caminho para que as cidades do futuro voltem a ser saudáveis e, nesse seguimento, aponta a cargo bike como um dos aspectos a desenvolver, bem como os serviços de aluguere, sobretudo, as vias cicláveis. Termina dizendo que “as ciclovias são a pasta fundamental a desenvolver pelos pensadores de cidades do futuro”. Texto: João Bentes Fotografia: Cycloholic

SPRINT Roda fixa, carreto simples ou mudanças? Roda fixa é pseudo fixe sem sentido. As mudanças tornam-te mais rápido!!! Uso de capacete, sim ou não? Só quando vou dar voltas de alto risco pela montanha. Herói de bicicleta? O meu herói?…. ninguém. Mas se tivesse um poderia ser o Didi Senft, o diabo da Tour de France. Não há ninguém como ele. Um louco da forma mais positiva que existe.

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to para uma utopia, afirma que muitas das suas bicicletas começam com imagens no seu imaginário no seu “eu” natural. Menciona “Hermeto’s dream” como um bom exemplo para encontrar transcrições utópicas das suas esculturas, uma vez que podemos encontrar sentimentos e pensamentos. Refere Oliver: “estou a tentar mostrar uma outra forma de pensar e de ver o mundo com a esperança de inspirar outras pessoas a fazerem perguntas semelhantes”. No fundo, Oliver quer dizer com isto que o seu trabalho propõe um desdobrar do significado, da definição das coisas. As suas esculturas são bicicletas, sim, existe um assento, pedais, um guiador, rodas. No entanto, por trás do estereotipo que define a bicicleta está um corpo esculpido, membros que se abraçam como duas figuras humanas, peças que se opõem como de medissem forças. Há uma busca da interpretação, de tentar entender como todos vêem o mundo e subvertê-la com o objectivo de levantar as cortinas do limite da imaginação e conseguir renovar ligeiramente o mundo. Os projectos de Baur raramente começam da mesma maneira, ele tenta manter o processo aberto: “tento sempre novas formas ou pelo menos não ficar preso a hábitos”. Bicicletas customizadas para clientes específicos são feitas com e para o cliente, discutidas com ele num trabalho similar ao de um artesão. "Quando há pessoas com pedidos especiais, dependendo de como me sinto com eles, poderei tornar-me num artesão louco.” De uma forma geral, diz que para este trabalho customizado, o processo baseia-se em medições e forças e a função define o caminho, tal como um construtor. “O meu trabalho segue diferentes caminhos”, diz Oliver e explica que, por vezes, é uma imagem no seu subconsciente que inicia o processo. Outras vezes, é apenas uma “emoção forte” que o leva a expressar uma imagem escultórica ou até, por vezes, uma busca definida, tal como o trabalho de um cientista. O nome das obras segue esse processo, é proveniente deste ou não. Explica Baur: “muitas vezes uso nomes ou frases de músicas e de filmes. A Dunkmaster é inspirada por um filme, a Hermeto´s Dream é uma composição de jazz de Medeski, Martin and Wood e por aí fora”. Relacionado com o seu trabalho , Oliver Baur menciona ainda influências como Jen Tinguely ou Bernhard Luginbuehl, autores que inspiram Baur pela tendência para ignorar completamente a estética, concentrados na precisão, em questões filosóficas e ao mesmo tempo infantil. Foram pessoas que o inspiraram, que o ajudaram em certa altura e, actualmente, Oliver tem a necessidade de se afastar destas influências. “A Utopia de uma total liberdade interior”, diz Oliver e continua relacionando

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Cycloholic é o nome e a definição vem ilustrada com uma colecção de bicicletas de alma louca. Os quadros estão, por vezes, chateados, outras vezes, a dançar pelo meio das pernas e, ainda outras, a flutuar no pedalar. Oliver é ciloholico, um artista enquanto constrói bicicletas. A Cycloholic está sediada em Freiburg, na Floresta Negra Alemã e quadros utópicos poderá ser a definição deste ciclo nicho fundado, em 2005, por Oliver Baur. “Queria tornar real toda a minha criatividade”, diz Oliver. A ideia inicial era criar uma plataforma artística por trás de um serviço de bicicletas. Começou como um projecto a dois mas rapidamente passou totalmente para as mãos de Oliver. “Foi um exercício difícil durante vários anos, sobretudo sem dinheiro, a lutar pelo reconhecimento do meu trabalho artístico como artista sem escola de artes numa cidade cheia de académicos”, explica Oliver, que teve dee trabalhar a tempo parcial noutras empresas de bicicletas, em teatros ou em oficinas de metal para conseguir fazer com que a Cycloholic sobrevivesse. Diz Oliver: “agora as coisas estão mais fáceis, a Cycloholic atingiu um certo nível de reconhecimento e, de qualquer forma, ainda não é a altura para descansar”. Desde o passado mês de Abril, Oliver está completamente dedicado à Cycloholic, abriu uma loja e desde então está dividido entre esta e a oficina metalúrgica. Como é que tudo começou realmente? Oliver responde simplesmente: “a cena toda começou quando tinha quatro ou cinco anos e recebi a minha primeira bicicleta, no meu aniversário, castanha roda 18”. Aos nove, teve uma BMX e aos 15 começou a construir as primeiras shoppers de raiz e, na escola, seguiu uma educação de práticas para aprender como se trabalha com metais, fez um estágio numa fábrica de indústria de metais. Depois disso vieram mais bicicletas, diz Oliver: “reclinadas, uma skate bike, umas quantas shoppers, um triciclo experimental, diferentes tipos de direcção para bicicletas de três rodas, a primeira cargo bike e mais”. Agora existe a Cycloholic. A Cycloholic é um meio para a a arte de escultura através da construção de bicicletas utópicas. O objectivo não é ter uma loja de bicicletas, é antes tornar-se um artista a tempo inteiro, tal como diz o próprio: “o meu objectivo é - e só poderá ser - entrar em solo estável com as artes, deixar para trás qualquer necessidade de trabalhar na loja”. Quando confrontado com o tema da Utopia, recusa ser considerado utópico porque, nas palavras de Oliver: “deixei de acreditar que a sociedade ou um mundo todo lixado como o nosso possa tornar-se um sítio melhor ou mais saudável”. Contudo, afirma que o seu trabalho é fei-


RAIOOO Chama-se RAIOOO, tem três rodas, é de madeira, detém motorização eléctrica e nasceu no Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC). Resultado do trabalho dos docentes Ermanno Aparo e Manuel Ribeiro e de cerca de 19 alunos da disciplina de Projeto do 1º ano do Mestrado em Design Integrado, trata-se de um novo conceito de bicicleta urbana, cuja ideia "surge de uma série de estímulos recebidos e elaborados no âmbito do mundo da mobilidade urbana". O projecto é desenvolvido em parceria com diversas empresas e instituições e apadrinhada pelo ciclista do Boavista, Rui Sousa. “Tendo em conta que os modelos de bicicleta, hoje, constantemente à procura de novas e mais eficazes configurações, pedem uma nova flexibilidade, a ideia que surge é de criar um meio alternativo que possa servir nas cidades novas maneiras de viver o espaço urbano” explica Ermanno Aparo, Coordenador do Mestrado em Design Integrado da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do IPVC. Neste sentido, a RAIOOO "propõe-se com duas peculiaridades que determinam a sua diferenciação

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no mercado português": por um lado, apresenta-se com três rodas, "que a tornam mais estável e segura na mobilidade urbana. Esta configuração é, neste momento, um factor de relevo no âmbito da oferta de mobilidade de algumas cidades do mundo como elemento diferenciador e catalisador de novas funcionalidades. Cidades como Los Angeles, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Pequim, Singapura, Nova Deli, Cidade do México, Moscovo, Barcelona, Londres, Amesterdão ou Copenhaga têm redescoberto este meio e eleito como o ideal para a locomoção na cidade”, observa Ermanno Aparo. Por outro lado, “a motorização eléctrica, auxiliando a utilização do meio de transporte em condições que de outra forma tornariam a utilização do veículo mais complicada. Muitos dos serviços de bike sharing presentes em território internacional têm evoluído pela implementação de uma motorização eléctrica que proporciona uma maior difusão entre novas tipologias de utilizadores”, conclui o responsável. facebook.com/raiooo.medein Te x t o : M ar ia L ima Fotos: DR


NÚMERO VINTE E DOIS – VER ÃO 2014 / Ficha Técnica: Director: Bráulio Amado ba@jornalpedal.com / Director Adjunto: Luís Gregório lg@jornalpedal.com / Editor: João Bentes jb@jornalpedal.com / Redacção: Maílis Rodrigues, Joana Bértholo, Tiago Carvalho, Ana Morais / Capa: Bráulio Amado / Colaboraram nesta edição: Fotografia: Mariana Marques, Mariana Rosa / Ilustração: Luís Favas, Rudolfo / Textos: Murilo Casagrande, Maria Lima / Revisão: Helena César / Design e Direcção de Arte: Estúdio HHH / Comunicação: Helena César hc@jornalpedal.com / Publicidade: Carla Cantante cc@jornalpedal.com, Diogo da Cunha Matos dcm@jornalpedal.com / Distribuição: Lisboa: Camisola Amarela. Algarve: Bike Postal, Markko Bike Messenger. Porto: Roda Livre / Departamento Financeiro: Pedro Bustorff Ferreira / JORNAL PEDAL é uma marca registada / Morada: Travessa do Alecrim, 1, R/C - Sala 1 Tel: 933514506 e-mail: info@jornalpedal.com web: facebook.com/JornalPedal / jornalpedal.com / twitter.com/JornalPedal / Impressão: Empresa Gráfica Funchalense S.A. funchalense.pt | email: geral@egf.com. pt Tel. 219677450 Fax 219677459 / Tiragem: 5.000 exemplares / Depósito Legal: 340117/12 / O JORNAL PEDAL faz parte da Cooperativa POST postcoop.org / Jornal Pedal é uma publicação gratuita que não pode ser vendida.

Pedal N.º22  

Edição de Verão do Jornal Pedal.