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Edição nÚmero 7 - OUTUBRO

A SIRENE

PARA NÃO ESQUECER


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A SIRENE

Editorial

Em nossa última edição, comemoramos. Com a volta do processo para Mariana e a contratação da assessoria técnica, a sensação foi de vitória. Nesse mês de setembro, a notícia da autorização do Governo de Minas para que sejam iniciadas as obras do “dique S4”, trouxe de novo a sensação de que as decisões continuam alheias às lutas e direitos que perseguimos há quase um ano. Nesta edição não temos muito o que comemorar. Fica a sensação de que pequenas vitórias vão sendo minadas, como na trajetória de Simone, mãe de Sofya, e sua luta, narrada aqui já em nossa primeira edição. Com a filha doente desde os primeiros meses do rompimento da barragem, ela tem, agora,

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um laudo médico atestando que a saúde da sua filha foi comprometida por uma reação à poeira do rejeito da barragem. O laudo, uma vitória. A negativa da Samarco para o ressarcimento dos gastos, nova derrota. Na matéria de capa, mostramos que apesar da definição pelo início da obra do dique S4, ainda há muitas dúvidas sobre o que representa a sua construção para a contenção dos rejeitos que ainda avançam. Entendemos que são necessários outros laudos (que não o da empresa) para que seja atestada a real necessidade dessa barragem em Bento Rodrigues. Em "Direito de Entender", questionamos o treinamento para acessar as terras de Bento e a diferença entre in-

Resultados de Audiências Sobre o artigo difamatório divulgado no Jornal Ponto Final

Ficou decidido que o Sr. José Fausto publicará um pedido de desculpas (uma retratação) no mesmo formato do jornal onde publicou o texto difamatório, para que seja divulgado a toda população, da mesma maneira como foi feito na primeira publicação. Os demais termos podem ser encontrados nos autos do processo civil 040016001962-2.

Sobre contas de energia elétrica

A Samarco se comprometeu a custear o valor excedente ao que era pago nas antigas residências. Os que preferirem não passar as contas para o seu nome terão as contas no nome da Samarco, que descontará o valor no cartão mensal. Quem já possui conta em seu nome receberá a diferença, também no cartão. A empresa se compromete, no prazo de 90 dias, contados da entrega das contas a pagar, a ressarcir ou descontar o valor da diferença. Mais informações nos autos do processo cívil 040016003023.

Erramos Na edição número 06, o jornal A Sirene errou. Na matéria “Da lama à reserva”, localizada na página 4, afirmamos que o nome da empresa de arqueologia que atua no resgate das peças sacras é Arcade. O correto é Arcadis. Nós pedimos desculpas à empresa e reiteramos que vocês, leitores, nos ajudem a corrigir os erros escrevendo para a seção “Espaço dos leitores” através do email: jornalasirene@gmail.com

denização e venda de propriedades. Perguntas necessárias neste momento, em que parte do distrito poderá ser alagada. Ainda sobre o direito ao uso social dos locais atingidos, trazemos relatos sobre festas religiosas tradicionais das comunidades. A festa de Nossa Senhora das Mercês, em Bento Rodrigues, simbolizou a busca dos moradores pelo acesso ao território onde estão suas memórias e identidade. A celebração em Paracatu nos lembrou que festejar é um grande alento e uma boa forma de reforçar o pertencimento. Assim como a expectativa para a festa em Ponte do Gama nos indica outros caminhos da luta por direitos. Conselho Editorial

CUIDADO Não assine nada: w Se tiver dúvidas sobre o conteúdo. w Se precisar de ajuda de um advogado ou qualquer outro especialista. w Se alguém disser que “todo mundo já assinou, só falta você”. w Se você quiser consultar algum familiar antes. w Se alguém disser que “se não assinar, não terá mais direito”. Atenção! w Se alguém tentar fazer você assinar qualquer coisa, procure o Ministério Público ou a Comissão dos Atingidos. w O tempo para analisar e questionar qualquer documento é seu! Leve essa mensagema todos os outros atingidos!

EXPEDIENTE Realização:

Atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão; Arquidiocese de Mariana; Projeto de extensão A Sirene e o Direito à Comunicação dos Atingidos pela Lama (Curso de Jornalismo/ICSA/UFOP); Um Minuto de Sirene Conselho Editorial: Milton Sena (Editor Chefe), Ana Elisa Novais, Antonio Santos, Cristiano José Sales, Fernanda Tropia, Genival Pascoal, Lucimar Muniz, Manoel Marcos Muniz, Mônica dos Santos, Pe. Geraldo Martins, Rodolfo Meirel, Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio), Silvany Diniz, Simone Maria da Silva e Thiago Alves | Diagramação: Silmara Filgueiras (Editora) | Fotografia: Rodolfo Meirel (Editor), Foto de capa (Genival Pascoal)| Apoio: Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e MICA/Brazil Foudation (Antonio Santos, Carlos Paranhos, Caroline Hardt, Daniela Felix, Flávio Ribeiro, Genival Pascoal, Larissa Helena, Miriã Bonifácio e Wandeir Campos) | Revisão: Adelaide Dias, Ana Elisa Novais e Mariana Viana | Impressão: Sempre Editora | Tiragem: 2.000 exemplares | Contato: jornalasirene@gmail.com


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O laudo de Sofya

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Em junho de 2016, na edição 03 do jornal A Sirene, Simone denunciou que a poeira dos rejeitos de minério havia causado danos respiratórios e alergia na população de Barra Longa, a começar por sua filha. Agora Simone conseguiu um laudo médico comprovando sua denúncia, mas ainda não conseguiu que a mineradora se responsabilize pelos gastos do tratamento. Por Simone Silva e Carlos Paranhos Com apoio de Mariana Viana A desconfiança de Simone veio quando Sofya, na época com 10 meses, passou a sofrer com intensas diarreias, febre e carocinhos que apareciam pelo corpo. No dia 30 de junho, quando despejaram rejeitos na porta de sua residência para a construção de um calçamento, a situação respiratória da menina piorou. Como consequência, Sofya precisou ser trancafiada dentro de casa, pois sua situação só se agravava. O cheiro era forte e estava por todo o lugar. “O nosso organismo não estava preparado” A lama como vilã Na busca por obter um laudo médico, a família correu para o posto de saúde de Barra Longa, município onde vivem. Quando chegaram lá, descobriram que não havia um médico especializado, somente o clínico geral.

Foi preciso levar Sofya para Ponte Nova. Depois de percorrer 38,9 km, aproximadamente uma hora e dez minutos de carro, mãe e filha conseguiram uma consulta em uma clínica particular – “só tinha em particular”. O laudo de Sofya chegou, junto com a confirmação da lama como vilã e outra notícia que preocupou ainda mais a todos: o preço dos remédios. Quem vai pagar os remédios? Para se ter uma ideia, a vacina, cuja aplicação e tratamento devem durar três meses, custa 300 reais a dose. Os únicos medicamentos que a família consegue facilmente são o soro e a dipirona, já que são encontrados em qualquer farmácia popular por um preço baixo. “Temos o laudo e o apresentamos para a Samarco, mas eles dizem que temos que

encaminhar para o SUS. Quando estive no SUS, falaram que a responsabilidade é da Samarco. Ela [a Samarco] sempre se pronuncia dizendo que a lama não é tóxica, mas quando a gente aparece no escritório, tem álcool em cima da mesa e todo mundo usa protetor. [...] eles dizem que vão dar auxílio, mas é tudo mentira. Outras mães já foram procurar o SUS e receberam a mesma resposta. É uma vergonha!”. Até quando? O outro filho de Simone, David, manifesta os mesmos sinais: febre, diarreias e caroços pelo corpo. Os filhos de outras três amigas também apresentam as mesmas enfermidades. O triste caso de Sofya está se repetindo e a única pergunta que nos resta é: até quando?

Sofya Silva Marques, 1 ano e 8 meses Portadora de quadro alérgico (cansaço, chieira, obstruçāo nasal) - dificuldade respiratória. Quadro clínico desencadeado por inalantes (fatores desencadiantes e irritativos, relacionados à exposição à poeira proveniente dos rejeitos de minérios). Devido ao rompimento de barragem de Mariana afetando o meio ambiente da cidade de Barra Longa - cidade onde reside - menor. Utilização de imunoterapia + Inalantes Imunoestominulantes Sublingual 1 frasco = a 3 meses de tratamento Valor 300 reais


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Ainda decidem por nós

Por Lucimar Muniz e MAB Com o apoio de Adelaide Dias, Débora Rosa e Miriã Bonifácio A Fundação Renova foi criada como parte do “Acordão” (Termo de Transação e Ajustamento de Conduta - TTAC), firmado entre as empresas Samarco, Vale e BHP e os governos federal e estaduais do Espírito Santo e Minas Gerais. Esse acordo foi anulado no dia 17 de agosto, em uma ação do Ministério Público Federal, que alegou falta de legitimidade por não contar com a participação de atingidos. Na edição 4, publicamos uma entrevista com o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, na qual ele explicou que essa anulação não invalidaria totalmente o processo. Apesar da anulação do acordo, a Fundação está em funcionamento. Para que serve a Fundação?

A Fundação é a instituição responsável por ressarcir os atingidos e coordenar a realização de todas as ações previstas no acordo. Ela funciona através de conselhos e de um comitê, e iniciou suas atividades em 02 de agosto de 2016. Como funciona a Fundação? O Conselho de Curadores decide sobre as ações a serem tomadas e o Conselho Consultivo, o único que tem a participação dos atingidos, não tem poder de decisão. Além disso, foi criado um Comitê Interfederativo para fiscalizar as ações da Fundação. Ele é formado, em geral, pelos mesmos órgãos governamentais que deveriam ter fiscalizado a barragem de Fundão, em Bento Rodrigues. ARTE: Izabella Oliveira Walter

COMO FUNCIONA A

FUNDAÇÃO RENOVA

ATINGIDOS PODER PÚBLICO SAMARCO S.A VALE E BHP

CONSELHO INTERFEDERATIVO Responsável por decidir e aprovar projetos e ações.

- COMITÊS DA BACIA - INSTITUIÇÕES DE PESQUISA - MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL - MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL

CONSELHO CONSULTIVO Possui a função de orientar e aconselhar nos projetos e ações.

O presidente do Conselho de Curadores é Wilson Nélio Brumer, que presidiu o Conselho de Administração da Vale e da BHP Billiton. O gestor geral é Roberto Waack, que tem relação com a área de sustentabilidade ambiental. A Fundação Renova define os valores das indenizações e os critérios de quem será considerado atingido. Apesar disso, ainda não há previsão de reparação aos municípios que tiveram sua renda atingida com o rompimento, como é o caso de Mariana, Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado.

ORGÃOS FISCALIZADORES DO GOVERNO

CONSELHO DE CURADORES Responsável por fiscalizar as ações da fundação.

E agora? Como 90% do poder de decisão da Fundação é de pessoas indicadas pela Samarco e suas acionistas, é preciso estar atento às suas futuras ações. Sem a garantia do envolvimento de todas as partes interessadas, essa gestão, por exemplo, definirá o valor da indenização a ser repassada para a hidrelétrica de Candonga, fechada desde o rompimento, cuja principal proprietária é a própria Vale.


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O direito de entender Treinamento e território

Por Antônio Geraldo Santos e MAB Com apoio de Mônica dos Santos e Miriã Bonifácio Respondido por guilherme de sá meneghin / Ministério Público Sirene: Quem pediu a audiência para não será “criminalizado”. Porém, estalegalizar a ida ao Bento Rodrigues? rá vedado o acesso a Bento Rodrigues. Com qual objetivo? S: Qual o posicionamento do MinisMP: O acesso a Bento Rodrigues foi tério Público em relação a esse treiassegurado na Ação Civil Pública namento? ajuizada pelo Ministério Público de Minas Gerais. O acordo, formulado MP: O treinamento foi uma recomenentre as partes (Ministério Público e dação dos órgãos da Defesa Civil e atingidos de um lado e Samarco, Vale homologado judicialmente, de modo e BHP de outro, com consentimento que é a melhor maneira dos envolvida comissão de moradores), foi ho- dos sentirem-se seguros com a permologado pelo juiz no processo n. missão de acesso ao local. Vale desta0014819-10.2016. car que o local ainda permanece como uma área de risco. S: Com o treinamento, a empresa será eximida de responsabilidade? S: Os diques que estão sendo construídos acima de Bento Rodrigues MP: O treinamento não exime a res- estão sendo monitorados? Nesse ponsabilidade da empresa em even- caso, há perigo de rompimento? tuais sinistros que ocorram no local, exceto em ações em que os próprios MP: Não há informações sobre os asatingidos se coloquem em risco. pectos perguntados na Promotoria de Justiça de Mariana. De qualquer maS: Quem não fizer o treinamento neira, a Promotoria de Mariana enserá proibido ou criminalizado por trou com uma Ação Civil Pública para entrar em Bento? verificar a possibilidade de medidas alternativas à contenção da lama, sem MP: Quem não fizer o treinamento a necessidade da construção do dique.

S: De alguma forma, esse contexto pode ajudar a empresa a tomar posse de nossas propriedades? MP: O contexto verificado não autoriza a posse das propriedades por parte da empresa. Os imóveis pertencem aos seus legítimos proprietários, ou seja, os atingidos. S: Depois que as indenizações forem pagas, de quem serão as propriedades? MP: Ainda não há uma definição sobre a destinação de Bento Rodrigues e Paracatu. No decorrer do processos, as partes - Ministério Público e atingidos de um lado e a Samarco, a Vale e a BHP de outro -, tentarão um acordo. Se não houver, o juiz decidirá. S: De quem será a área pública das comunidades onde a lama está hoje depositada? MP: A área pública é de propriedade do município de Mariana. Foto: Caroline Hardt

Única fotografia que o atingido Antônio Geraldo Santos possui do antigo distrito Bento Rodrigues.

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“Escolas não deveriam fechar” Por adriane melo Com apoio de caroline hardt Preocupação e angústia estão entre os sentimentos que mais afetam pais, alunos e funcionários do Colégio Arquidiocesano Unidade Cônego Paulo Dilascio -, instituição filantrópica localizada em Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, mantida por convênio da Samarco. A mineradora anunciou a suspensão do contrato mantido há 17 anos com a escola, alegando falta de verba, e forçando o encerramento das atividades em dezembro desse ano. São 260 alunos, 41 professores e 34 funcionários. Hoje, desamparados, se manifestam. Uma petição online para a manutenção do colégio está circulando na internet. A seguir, relatos de algumas professoras:

Me sinto muito triste com o encerramento das atividades pedagógicas desta instituição. Pois, além das funções pedagógicas, formativa e educativa, que contribuem para o desenvolvimento das habilidades e as competências cognitivas dos educandos, desempenha também uma função social, principalmente por ser uma escola inclusiva. Com isso, as comunidades da Vila Samarco e Antônio Pereira perderão o espaço de encontro e de referência para educandos e familiares.” Adriane Melo

Sinto tristeza, desesperança e uma profunda dor... inexplicável! Muitos anos de amor e dedicação. Penso na falência e no descaso com a educação de nossas crianças, que infelizmente serão afetadas.” Marisa Azevedo Estou muito triste em ver a nossa escola fechar as portas para o futuro. Eu acredito na educação de qualidade mediada com amor. Peço à Deus que nossas crianças sejam muito felizes e amadas onde quer que estejam. Fico feliz em fazer parte dessa linda história. Ainda não consigo acreditar… Escolas não devem fechar, isso é uma regressão.” Jandimare Matos

Ser grato e compartilhar gratidão é uma das melhores coisas que um ser humano pode fazer. Em três anos de colégio tenho esse sentimento: gratidão. Agradeço a Deus a oportunidade de ter trabalhado com uma ótima equipe, com a qual aprendi muito, principalmente na questão da inclusão. Peço a Deus que ilumine o caminho de cada um. Saudades todos nós sentiremos, mas lembraremos de cada momento maravilhoso vivido por nós.” Fernanda Gomes Estou vivendo um momento de indignação e tristeza diante desta situação, com a qual sofrerão as crianças e seus familiares, nós funcionários e toda comunidade. É impossível ficar indiferente diante disso!” Tânia Nogueira Essa situação não é a que eu gostaria de viver. Saber que no ano que vem não teremos mais o Colégio Arquidiocesano, que as amizades feitas acabarão se afastando, que os alunos não terão mais acesso ao que têm como referência de escola, causa uma série de sentimentos que não gostaria de sentir. Faltam-me palavras para expressar o que se passa dentro de mim.” Fadua do Nascimento Foto: COMISSÃO UCPD

Entrada do colégio que será fechado no fim deste ano pela Samarco.


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Carta de um professor atingido

Por Paulo Leandro Freitas Eleutério Com apoio de Carlos Paranhos Foto: DANIELA FELIX

Estou escrevendo essa carta para me expressar. Sou professor desde 2007, mas nunca, nunca presenciei uma situação tão crítica quanto a do dia 5 de novembro de 2015. Na hora, durante todo aquele movimento, me senti impotente, não podia ajudar porque era muito perigoso enfrentar a lama. Vi uma colega de trabalho dizendo que queria pular de uma altura inimaginável na tentativa de se salvar. Foi horrível. Pela primeira vez, senti medo de morrer. No entanto, a vida teve que continuar. Meus alunos foram realocados para a Escola Dom Luciano/Bento Rodrigues, pois já estavam sem aula a duas ou três semanas. Não podiam mais esperar. Eu sempre tive um carinho muito grande por eles, mas com a realocação para um espaço “estranho”, tive que dobrar a atenção, dando mais suporte e colocando o astral lá em cima. Sinto essa obrigação de estar perto deles porque criei um laço muito forte. Não sou só um professor, mas sim, um amigo. Aos professores, todo o dia é

nosso dia, vai além do mês de outubro! Quando relembro daquele tristonho novembro, vem na minha cabeça o que tentamos fazer juntos, como uma família, na parte alta de Bento Rodrigues: acalmar o pessoal, pedir por socorro, e, claro, tentar confortar nossos meninos. Somos abençoados só pelo fato de termos superado tudo e ainda lecionar. O que eu mais quero agora é ver meus alunos felizes e confortáveis com a nova escola. Desejo também que todos os professores estejam cada vez mais fortes e unidos. Sou otimista e creio em Deus que nossa situação só irá melhorar. Com carinho, Paulo Leandro Freitas Professor de Educação Física

Mariana, 30 de setembro de 2016. Queridos Srs. professores e alunos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo,


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Aprender a

E s ta m os a to d o m o m e n to ap re n d e n d o. S N a ú l ti m a e d i çã o, fa l e i d a m i n h a co n d i çã o d e ati n gi d a e co nve rso to d os os d i a s co m os m e u s a l u n os d e Pa

o. se u co be rtor prefe rid K. (9 an os ) ficou se m

Mariana é muito ruim , pois aqu i R.E. (10 anos) apre nde u que morar em gen te gra nde iria correr atrás se sen te pou co impo rta nte e se foss e “am o muito, muito meu Para catu ”. dos seu s dire itos. Num susp iro diz:

A. (9 an os ) ap re nd co m a mu da nça. “E eu qu e se r atin gi do é se r tris te. acabou . Ag ora só rera ma is sim pl es mo ra r on de eu es ta Nã o se acos tu mo u va acos tu ma do. Tu do sta a es pe ra nça. ”

o so n h eza . Pe rd e u st ri t , a iv ra é d o r, co m os u , e m e d iz re n d e u o qu e t p a ca ) ra os Pa n a e d 0 J. (1 ig re ja fo rm a t u ra n a a su ti n gid a ”. r ze fa e d qu e ri a se r a o ã “n s: a m ri ch e ios d e lá g

J. V. (10 anos) diz: “pensei que a barragem tinha acabado com tudo para sempre, mas descobri que nunca deixarei Paracatu. Vou voltar. Amo meu lugar.

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a ser atingido

S e r ati n gi d o ta m b é m re qu e r ap re n d i zage n s. d i ss e qu e e s to u n o ca m i n h o, n ã o d i ss e ? D e sd e o i n í ci o d o a n o, a racat u so b re o ro m p i m e n to d a b a rrage m d e Fu n d ã o.

arte: mariana viana

Por Angélica Peixoto, professora da Escola Municipal de Paracatu de Baixo Com apoio de Fernanda Tropia

T. (1 0 an os ) ta mb ém ap re nd eu o qu e é se ntir sa ud ad es to dos os dia s.

perd i meu cora ção. Aprend i que E. (9 anos) “Nã o perd i minh a casa , masvolta. Pou co a pou co vou luta r e sou fort e e que ro minh a aleg ria de ven cer. ” R . L . (1 0 a n os) a p re n d e u o qu e é se n tir sa u d a d e s to d os o s d ia s.

ho o lh os

riu da ag em de lam a e de scob se m rr ba ia ist ex e qu bia A. C. (1 0 an os ) nã o saSu a fal a trad uz isso: “t en ho me do de ficar pio r ma ne ira possíve l. ca sa ”.

M. (1 0 an os ) Ve mu ito te mp o, se ntr Pa ra ca tu co be rto de la ma fo i de i a tris teza no ma fu nd o do me u co ra is : “fi qu ei ch oran do çã o” .

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Experiências de outras lutas: Fumaça

O jornal A SIRENE conversou com o casal Marta e Claudiano, atingidos pela usina hidrelétrica de Fumaça, construída em 2003 pela empresa Alcan. A barragem alagou muitas áreas rurais, deixando fazendas debaixo d’água e os moradores sem suas fontes de renda. Então, a comunidade se uniu, com o apoio do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), e descobriu que tinham um direito a reivindicar: o reassentamento rural. Por Antônio Santos Com apoio de Adelaide Dias e MAB Fotos: Letícia Caldeira

Vista da Barragem de Fumaça. Parte alagada do antigo povoado.

A barragem da Usina Hidrelétrica Fumaça foi construída pela transnacional Alcan, no Rio Gualaxo do Sul, entre as cidades mineiras de Mariana e Diogo de Vasconcelos. Cerca de 22km² de extensão foram inundados, deixando muitas fazendas debaixo d’água, proprietários sem terras e trabalhores rurais sem fonte de renda.

História das conquistas

Os atingidos Claudiano José da Silva e Marta Caetana do Espírito Santo, moradores da área rural de Diogo de Vasconcelos, relatam como se deu o processo de reassentamento desde a negociação até a construção das casas. Claudiano: Pra você ter uma ideia, aqui não tinha proposta de reassentamento. O lago

estava cheio, a ponto de gerar energia, e não tinha nada de conversa. Eles me chamavam de louco quando eu falava de reassentamento. E foi aí que nós fomos pra luta, pra ocupação, nós já estávamos em negociação, mas eles não tinham comprado o terreno aqui e não tinha projeto nenhum. A partir da nossa denúncia, de que não tinha projeto de reassentamento nem nada, a mediadora determinou que só se gerava energia na Usina a partir do momento em que se desse início à compra de uma terra. Foi quando a empresa abriu mão para que nós procurássemos uma propriedade. E aí foram seis meses com o lago cheio, sem gerar energia. Marta: Nós escolhemos o

terreno, foram colocadas as pessoas pra dividir a gleba, e depois foram escolhidos os terrenos individuais por sorteio. Isso foi em 2005. Claudiano: Foi feito um estudo, veio um engenheiro agrimensor e fez um estudo da área, do relevo, da área de plantação. E aí foi decidido o tamanho pela situação da terra. Marta: Os tamanhos são diferenciados. O maior terreno aqui tem 23 hectares e o menor tem 10 e alguma coisa. Nosso módulo rural aqui de Diogo de Vasconcelos é 25 hectares. Em Mariana, como é um lugar mais rico, é de 23.

O que é reassentamento rural? Cada família recebe uma área rural, com uma casa construída e uma área para atividades agropecuárias. Em Fumaça, todos os reassentamentos coletivos e individuais foram projetados e construídos com participação dos atingidos.

Casa de Marta e Claudiano, construída nas terras onde foram reassentados.


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Claudiano: Aqui a fazenda não comportava todo mundo, aí foram dadas outras opções. Algumas pessoas escolheram terreno em outros cantos, e outras escolheram casa na cidade. Mesmo a negociação sendo coletiva, houve a opção. A mediação serviu para todos os grupos, todos os casos de atingidos.

Marta: A equipe elaborou os projetos, mas nós participamos. Foi criado um critério: se a casa tinha de 1 a 4 moradores, era de 67m². De 4 a 7 na família, a casa era de 77m². Acima de 7, 90 m². Os três modelos serviram para os quatro reassentamentos e até para os individuais. Assim, na hora das reformas!

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Claudiano: Nós ajudamos na construção, acompanhando a obra da nossa casa. Não diretamente, nós éramos fiscais, vamos dizer assim. Se o tijolo tivesse fraquinho, a gente pisava em cima, mandava trocar.

15 anos depois, a comunidade ainda enfrenta desafios Na região, ainda existem muitos problemas que a empresa foi deixando para trás. Por isso, os atingidos de Fumaça continuam organizados, buscando melhorias em sua condição de vida. Em reunião com a empresa, que acompanhamos no dia 22 de setembro 2016, o MAB levou as reivindicações atuais dos moradores para os representantes que estavam presentes. Valcileno - MAB: O que está sendo discutido no momento são novos problemas, que continuam por causa dos antigos. Por exemplo, quando se fala de esgoto, falamos de um problema que

curvas perigosas, carros da própria empresa já sofreram acidentes. Claudiano: Nós estamos falando da ge- É compromisso da empresa, não do ração de renda dessa gente. A empre- município, colocar ali uma barra de fersa deu curso, mas não deu condições. ro. Coisa simples. A discussão era manter o jovem aqui, mantê-lo na roça. Além disso, as pesso- Valcileno - MAB: A empresa alega que as que estão aqui na reunião, mais ve- um processo de 15 anos não tem como lhas, não conseguiram retomar a vida. reabrir, mas pelo que eu vejo aqui, esse Dizem que fizeram as estradas perfeitas processo nunca fechou. e que é obrigação da prefeitura manter O que eu vejo não pessoas fazendo luta aquilo ali. Mas todas as estradas em tor- constantemente, e fazendo as reivindino do lago foram mudadas. Então essas cações. O que não se tem aqui é a emestradas precisam de proteção, precisa- presa cumprindo os acordos. vam ter menos curvas. Como foram deixadas uma série de não foi resolvido lá atrás, e continua.

Reunião do dia 22 de setembro entre o atingidos e empresa, em que a comunidade apresentou reinvidicações atuais dos desafios que eles ainda enfrentam na região.


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Da lama à reserva Foto: Rodolfo Meirel

Por Mauro Santos, Manoel Marcos Muniz e Cristiano Sales Com apoio de Kleverson Lima e Silvana dutra

O carpinteiro e pedreiro Caetano Dias Novais, morador de Cláudio Manuel, avistou um tronco com entalhes de flores boiando nas águas do Rio Gualaxo do Norte nos primeiros dias em que estourou a Barragem de Fundão. Como já tinha trabalhado em Bento Rodrigues, percebeu que aquela peça de madeira era parte do altar-mor da Capela de São Bento, igreja destruída pela passagem do rejeito naquele triste dia 05 de novembro de 2015. Caetano não teve dúvidas: entrou no rio tomado pelo rejeito, arrastou a peça até sua margem, a amarrou na garupa de sua moto e a levou para casa. De conhecidos, ouviu que aquele pedaço de madeira daria lindos pés de mesa, mas sabia o que deveria fazer: entregá-la ao povo do Bento. Essa peça ficou na casa do Seu Filomeno esperando uma definição quanto ao seu destino, como ficou acertado com o Padre Armando Godinho. No final de agosto, Seu Filomeno pôde, enfim, entregar a peça à Reserva Técnica da Samarco, ato oficializado em documento. Agora ela será identificada, higienizada e entrará na fila para ser restaurada, assim como outras da Capela de São Bento.


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Festa de Nossa Senhora das Mercês Por Mônica Santos Com o apoio de Maria das Graças Quintão Santos

FOTO: Cristiano José Sales

Moradores voltaram ao território de Bento Rodrigues 10 meses após o acontecido.

Na festa de Nossa Senhora das Mercês deste ano, tivemos momentos de grandes emoções, de muitas alegrias por estarmos celebrando em nossa Capela, percorrendo nossas ruas e nos sentindo novamente em casa. Ao mesmo tempo, nos sentimos tristes pela destruição de tudo o que levamos uma vida toda para construir e pela incerteza sobre o futuro da nossa comunidade. Mas seguimos em frente, com fé e esperança de que a intercessão de Nossa Senhora junto a seu filho Jesus nos alimentará de força para que a justiça seja feita, e para que possamos continuar realizando essa festa todos os anos no nosso Bento.

Festa do Menino Jesus de Paracatu Por Luzia Queiroz Com o apoio de Fernanda Tropia

A festa do Menino Jesus sempre gerou movimentação. Na véspera, todos se precupavam com os preparativos, a decoração, a limpeza interna e externa da Igreja de Santo Antônio, a chegada da banda musical, a participação do congado e da folia de reis, a novena, o almoço - que era gratuito, os fogos de artifício, o hasteamento da bandeira e o show que finalizava o sábado. No dia seguinte, no domingo, era belíssimo o coral que ressoava majestoso no interior da igreja, emocionando a todos. Depois, realizava-se a procissão pela rua enfeitada de flores, junto com a banda, o congado e a folia, e, em

seguida, acontecia o almoço oferecido por Seu Zezinho. Tinha futebol nos dias de festa também! Este ano o ambiente foi outro, não por falta de empenho do Seu Zezinho e de outros, mas porque a sensação era de que faltava alguma coisa: o nosso Paracatu de Baixo, como o conhecíamos. A igreja encontra-se interditada, e ao seu redor ainda são vistos os estragos deixados pela passagem do rejeito sobre as nossas ruas e casas. O cenário ainda é triste, mas também é nosso, e a celebração da festa do Menino Jesus neste ano serviu para reforçar os nossos laços de pertencimento com

Paracatu de Baixo. Como disse o Sr. Sérvulo: “Pelo menos a festa do Menino Jesus se realizou e a comunidade não passou em branco. A festa não morreu.” É isso mesmo: assim como a festa, Paracatu não passará em branco e continuará vivo.

Festa do Gama

como sempre muito boa. Só que dessa vez está sendo diferente. É como se a festa nem existisse mais, e está renascendo de novo. Depois dos fatos ocorridos em novembro de 2015, muita coisa mudou completamente. Pensei que não teria mais a nossa praça, pensei que não teria mais a nossa capela para podermos fazer nossas missas. Imaginei que tudo que tinha lá ia ficar perdido. Mas ainda no dia de hoje, tudo se ajeitando e caminhando para a melhora, para mim é uma coisa inexplicável a

volta da festa. Não a volta em si, porque ano passado ela aconteceu, mas podemos dizer que é uma volta, e isso está alegrando muitas pessoas. Gente que eu via com o rosto triste hoje estou vendo com um grande sorriso. A nossa festa está sendo melhor porque, além de homenagear Nossa Senhora Aparecida, é surpreendente a sensação de ter de volta nossa praça para continuar nossas tradições, nesse lugar onde eu e muita gente vimos um cenário devastador, por vários pensamentos, achamos que tinha acabado.

Por Madalena da Dores Com o apoio de Milton Sena Só de pensar que não poderia mais ter a festa na praça, de pensar que não teria mais a praça, já foi motivo de ficar triste. Mas quando falaram que a festa ia acontecer, foi uma das melhores notícias. Ficou parecendo que seria a primeira vez. De fato, cada ano é uma nova sensação, uma nova expectativa, e

FOTO: Luzia queiroz

Paracatu celebrou o seu padroeiro no local atingido.


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Outubro de 2016

Paracatu: memórias da bola Por Luzia Queiroz Com apoio de Ane Souz, Fernanda Tropia e MAB

Costumo dizer que o forte de Paracatu é o futebol, com seus dois times: Paracatu e GAZA. Era sempre uma festa. As famílias se reuniam para ver os jogos e a torcida era cheia de crianças, jovens, senhores e senhoras. Tínhamos que fazer os trabalhos de casa cedo pra ir pro campo, pois a torcida era fundamental e muito fiel. O segredo era ficar atrás do gol do adversário, fazendo muito barulho. Os treinos e as “peladas” eram no campo mesmo, e nesses momentos todos se reuniam e a gente colocava as fofocas em dia. E o tradicional pastel da tia Laura não podia faltar!

Muita gente ficava entre “a cruz e a espada”, porque às vezes o horário do jogo coincidia com a hora da missa. Os comentários sobre os jogos aconteciam nos bares. Bar do Carlinhos, bar do Jairo, bar do Banana e do Machadão. Hoje... silêncio... O time do “Paracatu” tenta se reerguer, mas é difícil. Parte do acervo - medalhas, troféus, uniformes e outros equipamentos - foram perdidos na lama. Histórias de grandes conquistas que estavam no Bar do Carlinhos. Geraldo Gonçalves, o “Rolete”, foi técnico do time “Paracatu” em 2005, 2009 e 2010, quando a equipe foi campeã e conseguiu a classificação para a primei-

ra divisão do campeonato marianense. O troféu de campeão 2010 foi resgatado junto com algumas medalhas, mas muita coisa ficou perdida na lama. Hoje, o time Paracatu está sob nova direção: Nirto, Dirceu, Zé do Banana, Geraldo Catucum e Eriberto. Todos residem em Mariana, mas o encontro para os treinos é muito difícil. Conseguiram sanar as dívidas do time e já atuam nos campeonatos. Mas reivindicam equipamentos esportivos que foram perdidos. “O sentimento é de extrema tristeza, de ver tudo acabado e sem palavras para descrever a dor” - disse Nirto, atual técnico do Paracatu Futebol Clube. Foto: Ane souz

Medalhas foram resgatadas e representam a memória vitorisa do time.


A SIRENE

Outubro de 2016

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Agenda de outubro 03

Reunião do Grupo de Trabalho Temático de Pedras Horário: 17h Local: Escritório dos Atingidos Reunião Interna da Comissão dos Atingidos Horário: 18h Local: Escritório dos Atingidos

04

Reunião Grupo de Trabalho Temático de Bento Rodrigues Horário: 18h Local: Escritório dos Atingidos

05

Reunião Grupo de Trabalho Temático de Paracatu Horário: 18h Local: Escritório dos Atingidos

Local: Escritório dos Atingidos Reunião Interna da Comissão dos Atingidos Horário: 18h Local: Escritório dos Atingidos Início do Seminário "IFMG discute a mineração e seus impactos socioambientais" Horário: 14h Local: IFMG Ouro Preto Bairro Bauxita Informações 35512100

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Reunião Grupo de Trabalho Temático de Bento Rodrigues Horário: 18h Local: Escritório dos Atingidos

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Reunião Grupo de Trabalho Temático de Paracatu I Seminário do Fórum Acolher - Tema: Horário: 18h Praticando o acolhimento, construinLocal: Escritório dos Atingidos do a cidadania - 9h Horário: 9h às 16h Local: Centro Pastoral - Rua Dom Sil- Seminário "IFMG discute a mineração vério, 51 - Centro - Mariana e seus impactos socioambientais" com participação do jornal A Sirene na Um Minuto de Sirene mesa “Fundão, um ano depois” Horário: 18h Horário: 19h Local: Praça da Sé - Mariana Local: Cine Teatro Vila Rica - Ouro Preto Informações: 35512100

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Reunião Interna da Comissão dos Atingidos Horário: 18h Local: Escritório dos Atingidos

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Reunião Grupo de Trabalho Temático de Bento Rodrigues Horário: 18h Local: Escritório dos Atingidos

17

Reunião Grupo de Trabalho Temático de Pedras Horário: 18h

20

Reunião pública geral dos Atingidos de Mariana/Samarco/Ministério Público Horário: 18h Local: Centro de Convenções

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Reunião Interna da Comissão dos Atingidos Horário: 18h Local: Escritório dos Atingidos

25

Reunião Grupo de Trabalho Temático

de Bento Rodrigues Horário: 18h Local: Escritório dos Atingidos

26

Reunião Grupo de Trabalho Temático de Paracatu Horário: 18h Local: Escritório dos Atingidos

27

Reunião Pública Geral da Comissão dos Atingidos de Mariana/Comunidades Atingidas de Bento/Paracatu e demais localidades Horário: 18h Local: Centro de Convenções

31

Reunião Grupo de Trabalho Temático de Pedras Horário: 17h Local: Escritório dos Atingidos Reunião Interna da Comissão dos Atingidos Horário: 18h Local: Escritório dos Atingidos


Nem na minha casa eu mando mais O relato abaixo é o desabafo de um morador de Bento Rodrigues, e foi escrito antes da publicação do decreto nº 499, no dia 20 de setembro, que autoriza a desapropriação dos terrenos de Bento para a construção do dique S4. Há meses a comunidade exige um estudo comprovando a real necessidade da construção da estrutura que irá alagar parte do distrito. Após o decreto, os moradores solicitaram providências do Ministério Público, que agora está exigindo judicialmente esses estudos. Por Antonio Santos Fazendo uma reflexão sobre o passado, há muito o que lamentar. É possível até mesmo deduzir que nada foi por acaso, e que a construção do dique S4 é uma tentativa de pôr fim em algo que começou há tempos. Começaram comprando tudo o que estava a nossa volta, nos deixaram cercados. Sabíamos quem tinha o domínio territorial da região. Nos tornamos um empecilho para as empresas, que só não encontraram uma maneira de comprar a vida das pessoas, pessoas simples, mas com raízes profundas. Um povo que amava seu cantinho e sua história, que contava do começo de Minas Gerais e mostrava que não havia dinheiro que valesse a liberdade e o orgulho. Surgiu, então, a oportunidade: a barragem de Fundão estava instável, corria riscos de romper. O que fazer? Resolver o problema da barragem ou tomar posse do Bento? Sabemos as respostas. Vidas se perderam. Transformaram nossos sonhos em pesadelos, mataram nossa alegria, roubaram nossas esperanças, nosso futuro. Permitiram que se apoderassem de nossas poucas posses, as que não foram levadas pela lama. Será que essa permissão tinha como propósito acabar com qualquer vínculo que tínhamos com nossos lares? Mesmo com esse cenário, recomeçamos a frequentar nossa terra, que nos foi arrancada brutalmente. Com isso renasceu o desejo de pertencimento, pois, mesmo com tanta destruição, ali era nosso lar e não é fácil arrancar nossa identidade. Não estamos dispostos a cedê-la. A nossa persistência como povo pres-

sionou a empresa, que, por isso, dificultou os acessos e colocou guardas para nos vigiarem. Mesmo assim, continuamos indo ao Bento. Perceberam que não íamos desistir e agora propõem a construção do dique S4, como solução para resolver os problemas que a ela mesma causou. A nova barragem quer cobrir com mais lama nossos sentimentos, nossas raízes, mas principalmente quer apagar os vestígios do maior crime ambiental da história do Brasil. Tentam apagar nossa memória. Resistimos e não aceitamos. Em meio ao caos em que vivemos, a empresa se aproveitou de nossa fraqueza. Quando pedimos que melhorassem o acesso ao Bento, para entrarmos com mais facilidade, ela se aliou aos órgãos públicos e dessa forma está conseguindo ter o domínio dos nossos lares. Agora, teremos que ser submetidos a treinamento para entrar no que é nosso. A empresa terá acesso todos os dias, mas os donos das terras de fato, que somos nós, teremos acesso apenas três dias por semana. A Samarco está conseguindo tomar posse do Bento com o consentimento do poder público, que ao invés de zelar pelo povo, faz com que fiquemos mais vulneráveis. O meio ambiente deve, sim, ser preservado pela empresa. Para isso ela deve retirar a lama de toda a margem do rio e construir estruturas - como diques mais perto das barragens, em área que já é de propriedade dela. O dique S4 é só mais uma estratégia das várias que a empresa vem adotando para usar o Bento como fonte de lucro. O que querem de fato é construir uma enorme barragem de rejeitos no futuro.

Jornal A Sirene - Ed. 7 (outubro)  

Nesta edição, a liberação para construção do dique S4 toma conta das incertezas. No laudo de Sofya, a poeira da lama é a doença. E na cultur...

Jornal A Sirene - Ed. 7 (outubro)  

Nesta edição, a liberação para construção do dique S4 toma conta das incertezas. No laudo de Sofya, a poeira da lama é a doença. E na cultur...

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