A Sirene 4 anos - Ed. 43 (Novembro/2019)

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A SIRENE

EDIÇÃO ESPECIAL 4 ANOS | PARA NÃO ESQUECER Ano 4 - Edição nº 43 - Novembro de 2019 | Distribuição gratuita


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Novembro de 2019 Mariana - MG

AGENDA Encontro dos atingidos(as), às 06h, na Arena Mariana (Mariana MG).

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Concentração para a Marcha dos Atingidos e Atingidas, às 16h, promovido pelo MAB Minas Gerais, em frente ao Centro de Convenções (Mariana MG) Missa às 18h, na praça à beira Rio (Barra Longa MG) Missa presidida pelo Bispo Airton José dos Santos em memória aos quatro anos do crime da Samarco, Vale e BHP Billiton, às 18h30, na Igreja Nossa Senhora do Carmo (Mariana MG)

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A Mineração que Queremos: I Encontro Regional por um novo modelo de mineração / I Jornada Universitária de Debates na Mineração, início às 08h no auditório do ICSA/UFOP e às 17h na praça Gomes Freire (Mariana MG)

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IV Seminário Integrado do Rio Doce promovido por Univale, UFJF, IFMG. Forum permanente da Bacia do Rio Doce e a Rede Terra Água, no Campus 2 da Univale (Governador Valadares MG)

6/12

Festival Cultural da Água promovido pelo MAB Minas Gerais (Belo Horizonte MG)

20 a 25/01

Marcha do Atingidos e Atingidas promovida pelo MAB Minas Gerais (Pompéu a Brumadinho MG)

25/01

Um ano do crime da Vale em Brumadinho

* Agenda sujeita a alterações

ATENÇÃO! Não assine nada Em caso de dúvidas sobre o conteúdo, conte com a ajuda de um advogado ou qualquer outro especialista. Se te pedirem para assinar qualquer documento, procure o Ministério Público ou a Comissão dos Atingidos.

Escreva para: jornalasirene@gmail.com Acesse: www.jornalasirene.com.br www.facebook.com/JornalSirene

Para reproduzir qualquer conteúdo deste jornal, entre em contato e faça uma solicitação.

EXPEDIENTE Realização: Atingidos(as) pela Barragem de Fundão e Arquidiocese de Mariana | Conselho Editorial: Expedito Lucas da Silva (Kaé), Genival Pascoal, Letícia Oliveira, Pe. Geraldo Martins, Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio), Simone Maria da Silva | Editores-chefe: Genival Pascoal e Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio) | Jornalista responsável: Wigde Arcangelo | Diagramação: Júlia Militão | Reportagem e Fotografia: Joice Valverde, Júlia Militão, Juliana Carvalho, Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio) e Simone Maria da Silva | Apoio: Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) | Revisão: Elodia Lebourg | Agradecimentos: Aedas, Cáritas, Greison Anderson de Souza Costa, José Augusto Cordeiro da Costa, Maria Carneiro (Lilica), Pe. Geraldo Martins, Silvany Diniz, Suzane Pinheiro e Wilson da Costa | Impressão: Sempre Editora | Foto de capa: Joice Valverde | Tiragem: 3.000 exemplares | Fonte de recurso: Termo de ajustamento de conduta entre Arquidiocesse de Mariana e Ministério Público de Minas Gerais (1ª Promotoria de Justiça de Mariana).


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Foto: Júlia Militão

Papo de cumadres:

Opinião:

Quem vai pagar o aluguel das terras que a Samarco usou para o rejeito depositar?

Comsebida e Clemilda estão curiosas pra saber de quem cobrar o aluguel de suas terras e casas que a Samarco encheu de rejeito e até hoje num deu um jeito. por sérgio papagaio

- Cunadre te perguntu di veudade se u meu boi fô pastá nas sua propriedade eu tenhu que te pagá pastage, se eu morá na sua casa vô tê que te pagá hostedage. - Cumade alivia meu peitu, isprica istu di um mio jeitu. - Pois bem, prestensão porque que eu queixu, se minha casa tá cheia de rejeitu eu possu levá us movi du meu barracu e mora lá na Samarcu? - Encheru minha garage de rejeitu se eu pusé meu carru na garage da Samarcu este seria u jeitu? - Ô será quês vai pagá u aluger da minha casa pamode u regeitu podê morá. - E u meu quintá quantu quês vão pagar pelus quatru anos que a lama ta lá. - E us meus boi, que as grama dês cume, a Samarcu com u rejeitu dus infelnu, arrunô um geitu de podê tampá, será que eu possu levá ês pra nas terra da Samarcu podê pastá? - Diz quês alugô as terra dum fazenderu pra uma parte du regeitu depositá, será quês vai pagá pru meu quintá que há quatru ano u regeitu da Samarcu resouveu nele pousá, u mesmu que pagaru lá? - Cumadre minha fia de Deus pra quem é pobre ês trouxe tristeza, mais prus ricu truxeru foi mais riqueza.

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Opinião:

Saúde e direito à informação

Por Edmundo Antonio Dias Netto Junior, Procurador da República, é membro das forças-tarefa Rio Doce e Brumadinho do Ministério Público Federal e procurador regional dos direitos do cidadão substituto em Minas Gerais

O direito de acesso à informação é previsto no art. 5º, XXXIII, da Constituição de 1988 e na Lei nº. 12.527/2011. Além disso, em 27 de setembro de 2018, o Brasil assinou o Acordo Regional de Escazú, que ainda precisa ser ratificado para que passe a integrar o ordenamento jurídico interno brasileiro. Suas disposições oferecem balizas importantes no tocante aos direitos de acesso à informação ambiental, à participação pública nos processos de tomada de decisões em questões ambientais, bem como à justiça em questões ambientais. O art. 6.5 do Acordo de Escazú prevê que, em caso de ameaça iminente à saúde pública ou ao meio ambiente, “a autoridade competente divulgará e disseminará de forma imediata e pelos meios mais efetivos toda informação relevante que se encontre em seu poder e que permita ao público tomar medidas para prevenir ou limitar potenciais danos”. Mesmo antes da desejada ratificação do Acordo de Escazú, tal procedimento está em consonância com o direito brasileiro, que também se orienta pelo princípio da precaução e impõe, aos gestores públicos na área de saúde – Ministério da Saúde, secretarias de Estado e municipais –, coerentemente com o que estabelecem os artigos 196 e 225 da Constituição de 1988, uma atuação que previna a continuada repetição de danos verificados ao longo da Bacia do Rio Doce, em decorrência do crime-desastre das empresas Samarco, Vale e BHP Billiton. Nesse sentido, é espantoso que tenha sido adiada a devolutiva que, de modo responsável, chegou a ser agendada, pelo antigo coordenador da Câmara Técnica de Saúde do Comitê Interfederativo, Sr. Kleber Rangel Silva, para ocorrer, nos municípios de Mariana e Barra Longa, entre os dias 22 e 25 de setembro, quanto a um estudo sobre se há riscos à saúde humana, encomendado pela referida câmara técnica à empresa AMBIOS. Também se encontrava em pauta um outro estudo, elaborado por uma empresa chamada Tecnohydro, embora não tenha sido contratado pela Câmara Técnica de Saúde. O Ministério Público Federal realizou reuniões sobre o assunto com a AEDAS, assessoria técnica dos atingidos de Barra Longa, ocasião em que atingidos se fizeram presentes por uma de suas lideranças e, antes disso, com as Secretarias de Estado da Saúde e de Planejamento de Minas Gerais, bem como com a Secretaria Municipal de Saúde de Barra Longa, com o Ministério Público de Minas Gerais e as Defensorias Públicas mineira e da União. Anteriormente, em 26 de agosto, em audiência pública promovida pela Assembleia Legislativa, ao tratar do referido estudo, solicitei, ao Subsecretário de Vigilância e Proteção à Saúde de Minas Gerais, a antecipação das datas das devolutivas à população. O tema voltou a ser tratado na última reunião da Câmara Técnica de Saúde, que ocorreu em Belo Horizonte, então com novo coordenador, nos dias 2 e 3 de outubro, com a presença de gestores de saúde, de pessoas atingidas e de suas assessorias técnicas. Sendo público o inquérito civil que trata do assunto, foi franqueado acesso a quantos pediram vista dos autos, onde se encontram reunidas tais informações. Mas, ao meu ver, a atual coordenação da Câmara Técnica de Saúde precisa, com urgência, alinhada com os gestores públicos na área de saúde, realizar as devolutivas sobre tais estudos, e oferecer, à população atingida, respostas claras às suas dúvidas e indagações. No dia 29 de outubro, ocorreu, no MPF, uma oficina de trabalho, para a qual foram convidados gestores da área de saúde das três esferas da federação, que trataram, diante desse quadro, da elaboração dos planos de ação de saúde. Trata-se de um desafio essencial para um sistema público de saúde, sem prejuízo do necessário ressarcimento aos cofres públicos pelas empresas responsáveis pelo crime-desastre.


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Conversão ecológica e preservação da Amazônia

Foto: José Augusto Cordeiro da Costa

Em 2019, vimos o rompimento da Barragem da Mina do Córrego do Feijão, um número alarmante de focos de incêndios florestais na Amazônia e praias do Nordeste sendo poluídas por óleo. A natureza e os direitos humanos são constantemente violados por uma economia extrativista gananciosa. O Padre Geraldo Martins compartilha sua experiência na missão em Humaitá, no sul do Amazonas. A nossa luta pelos direitos humanos violados e pela preservação do meio ambiente é coletiva. O capitalismo selvagem, que destrói a natureza na Amazônia, no Nordeste e no mundo, é o mesmo que ceifa vidas e as deixam submersas em lama de rejeitos em Minas Gerais. Por Pe. Geraldo Martins Com o apoio de Wigde Arcangelo

O Sínodo para a Amazônia, convocado pelo papa Francisco e realizado em Roma, neste mês de outubro, chamou a atenção do mundo para essa rica e vasta região que abrange nove países: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela. Essa área soma 7,8 milhões de quilometros quadrados, onde vivem cerca de três milhões de indígenas de, aproximadamente, 390 povos. Além desses povos, há cerca de 110 a 130 “povos indígenas em situação voluntária de isolamento”, segundo o Conselho Indigenista Missionário. A Amazônia concentra entre 30% a 50% da flora e da fauna do mundo, 20% da água doce do planeta e mais de um terço das florestas primárias em nível mundial. Isso a torna uma das maiores reservas da biodiversidade do nosso planeta. Some-se a isso a riqueza étnica, cultural e religiosa oriunda da diversidade dos povos que aí vivem, sobretudo, os indígenas, os ribeirinhos e os afrodescendentes, a quem se deve a preservação dessa região, que é vital para o mundo. Essa riqueza da Amazônia enche os olhos dos gananciosos, que constituem sua maior ameaça, em nome de um desenvolvimento econômico descomprometido com a preservação da natureza e da vida. A violação dos direitos dos povos originários, como o direito ao território, à autodeterminação, à demarcação dos territórios e à consulta e ao consentimento prévios, responde a interesses econômicos e políticos de poderosos grupos, como empresas extrativistas e mineradoras. Lamentável é que, muitas vezes, os governos são coniventes com isso.

Nas assembleias realizadas em toda a Amazônia, em preparação para o Sínodo, as comunidades fizeram uma extensa lista para enumerar o que mais ameaça a vida na Amazônia: (a) criminalização e assassinato de líderes e defensores do território; (b) apropriação e privatização de bens da natureza, como a própria água; (c) concessões para madeireiras legais e entrada de madeireiras ilegais; (d) caça e pesca predatórias, principalmente nos rios; (e) megaprojetos: hidrelétricas, concessões florestais, desmatamento para produzir monoculturas, estradas e ferrovias, projetos mineiros e petroleiros; (f) contaminação ocasionada por todas as indústrias extrativistas que causam problemas e enfermidades, principalmente para as crianças e os jovens; (g) narcotráfico; (h) alcoolismo, violência contra a mulher, trabalho sexual, tráfico de pessoas, perda de sua cultura originária e de sua identidade (idioma, práticas espirituais e costumes) e todas as condições de pobreza às quais estão condenados os povos da Amazônia (cf. Instrumentum Laboris, n. 15). Uma experiência missionária de quatro meses em Humaitá, no sul do Amazonas, fez-me perceber melhor a realidade descrita acima e compreender que, de fato, é urgente a “conversão ecológica” proposta pelo papa Francisco. Essa conversão deve levar governo e sociedade ao compromisso de defenderem e de cuidarem da Amazônia, ao respeitarem os povos originários, sua cultura e seus territórios, e se oporem a projetos e ações que, submetidos a uma economia insaciável, desrespeitam a vida da floresta e de seus povos.

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Linha do tempo OUTUBRO

São quatro anos de resistência diante de um crime sem precedentes. Nesse período, as pessoas atingidas pela barragem de rejeitos da Samarco em Mariana/MG obtiveram muitas conquistas que não podem ser esquecidas. Listamos aqui algumas dessas vitórias, todas elas fruto da luta coletiva em prol de uma reparação justa e integral. Por Ellen Barros (assessora de comunicação da Cáritas) Com apoio de paola Fonseca, Jéssica Augusta, Geruza da Silva, Crislen Machado e Letícia Aleixo (equipe da Cáritas)

2015 DEZEMBRO

26 Out. Direito à Assessoria Técnica de confiança. Implementação da Assessoria Técnica da Cáritas aos atingidos(as) para garantir a participação ampla e informada nos processos decisórios e a efetivação plena da reparação das perdas e danos sofridos pelas famílias atingidas.

NOVEMBRO Reprovação do Projeto urbanístico de Bento Rodrigues Comissão dos Atingidos de Bento Rodrigues reprova o primeiro projeto urbanístico apresentado pela Fundação Renova/Samarco, produzido sem qualquer participação dos(as) atingidos(as). Parecer sobre projeto de Bento Rodrigues Cáritas emite parecer com críticas e sugestões ao projeto urbanístico apresentado.

11 Dez. Bloqueio Judicial 300 milhões de reais são bloqueados da Samarco, para assegurar os direitos das vítimas de Mariana.

28 Nov. Acordo garante reassentamento Em acordo judicial fica determinado que as empresas devem fazer os reassentamentos, garantindo a participação dos(as) atingidos(as) em todas as fases.

23 Dez. Mitigação (Auxílios Emergenciais)

Suspensão do Cadastro da Samarco Suspensão da aplicação do cadastro proposto pela Samarco por ser considerado inapropriado.

Direito à moradia provisória Casas alugadas para as famílias que sofreram deslocamento forçado até três meses após o reassentamento. Reembolso de aluguel para as famílias que preferiram não ficar nas casas alugadas pela Samarco. Direito ao auxílio financeiro mensal Cartão com um salário mínimo, mais 20% por dependente e cesta básica do DIEESE para todas as pessoas atingidas que tiveram perda de renda em função do rompimento da barragem. 28 Dez. CABF Em Mariana é criada a CABF, a primeira Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão na Bacia do Rio Doce.

2016 MAIO

04 Mai. Acesso e celebrações Atingidos(as) garantem o acesso a Bento Rodrigues, para celebração de atividades culturais. 07 Mai. Terreno para o novo Bento Rodrigues A comunidade escolhe o terreno da “Lavoura”, da empresa ArcelorMittal, para o reassentamento de Bento Rodrigues.

SETEMBRO 03 Set. Terreno para o novo Paracatu de Baixo A comunidade escolhe o terreno da “Lucila” para o reassentamento. Acordo define a compra do terreno de Toninho, para o acesso a “Lucila”.

2017 JANEIRO

10 Jan. Feira Noturna, jornal A Sirene e União São Bento O dinheiro fruto de doações em solidariedade às comunidades atingidas passa a ser administrado pela Arquidiocese para utilizá-lo em projetos de interesse das vítimas. Os projetos são: “Feira Noturna”, jornal “A Sirene” e time de futebol “União São Bento”.

MARÇO 17 Mar. a Ago. Reformulação do cadastro Processo de reformulação do cadastro com ampla participação dos(as) atingidos(as) no GT específico para a tarefa. O processo de cadastramento passa a ser composto por quatro etapas: formulário, cartografia social familiar, vistoria e tomada de termo. Mar. Compras de terrenos ampliadas Ampliação da compra de terrenos para reassentamento de Paracatu de Baixo.

OUTUBRO 04 Out. Reconhecimento Determinação para o reconhecimento das vítimas que tiveram seus direitos aos auxílios emergenciais rejeitados pelas empresas. 05 Out. Sem Permuta A decisão sobre o destino dos imóveis atingidos será das vítimas. Manifestação dos atingidos em frente ao Fórum em Mariana: “Não vai ter permuta!”


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18 Out. Cadastro e Autodeclaração Garantia do direito de responder ao cadastro para qualquer pessoa que se declare atingida. Em audiência judicial a Assessoria Técnica assume a aplicação das quatro etapas do processo de cadastramento.

DEZEMBRO Lista Reassentamento Familiar É elaborada, pelos(as) atingidos(as) e MAB, uma lista de interessados no Reassentamento Familiar.

2018 FEVEREIRO

Paracatu conquista mais terrenos São adquiridos os 09 terrenos necessários para o reassentamento de Paracatu de Baixo. 01 Fev. Início do processo de cadastramento Começa a aplicação da primeira etapa do processo de cadastramento, o preenchimento do formulário nas casas das pessoas atingidas. 08 Fev. Aprovado projeto urbanístico de Bento Rodrigues Projeto urbanístico do reassentamento de Bento Rodrigues é aprovado pela comunidade. Fev. Mar. e Jul. Diretrizes de Reassentamento São homologadas 78 diretrizes de reassentamento que determinam as regras que devem ser seguidas para garantir a plena restituição do direito à moradia digna para os(as) atingidos(as).

ABRIL Mutirão para coleta de termos É realizado um mutirão para coleta de termos com a finalidade de garantir o acesso ao auxílio emergencial para atingidos(as) das comunidades da Zona Rural de Mariana.

AGOSTO 03 Ago. Autorização para construção do novo Bento Rodrigues Alvará para construção do reassentamento de Bento Rodrigues e autorização para início da obras de infraestrutura.

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02 Out. Direito à Assessoria Jurídica É conquistado o direito à Assessora Jurídica independente e gratuita prestada pela Cáritas para as negociações das indenizações.

2019 JANEIRO 23 Jan. Primeiro dossiê do cadastro É entregue o primeiro dossiê do processo de cadastramento.

FEVEREIRO É definida a ampliação da equipe da assessoria técnica. Novos Núcleos Em assembleia atingidos(as) votam no marco temporal para declaração de novos núcleos familiares: um dia antes da entrega do Reassentamento.

ABRIL Prazo para entrega dos Reassentamentos Justiça define 27 de agosto de 2020 como data limite para que a Fundação Renova entregue os reassentamentos das comunidades atingidas. A multa é de um milhão de reais por dia de atraso.

JUNHO 03 a 26 Jun. Protesto e Ocupação Uma das mais extensas manifestações realizadas pelos(as) atingidos(as) pelo crime da Samarco, Vale e BHP Billiton, na bacia do Rio Doce, a ocupação do escritório da Fundação Renova, em Mariana, durou 23 dias. Pagamento da Matriz de Danos Entre as exigências apresentadas na manifestação constava a liberação do recurso para pagamento da Matriz de Danos dos Atingidos, demanda conquistada com a determinação judicial favorável a pauta dos(as) manifestantes. (A Samarco ainda recorre da decisão no TJMG). 17 Jun. Prêmio Innovare O processo que envolve a luta dos(as) atingidos(as) pelo rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, em parceria com Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e com a Cáritas Brasileira Regional Minas Gerais, Assessoria Técnica de confiança dos(as) atingidos(as), concorre ao prêmio Innovare 2019.

SETEMBRO SETEMBRO 13 Set. Aprovação e ampliação do projeto de Paracatu de Baixo Projeto urbanístico do reassentamento de Paracatu de Baixo é aprovado pela comunidade.

OUTUBRO 02 Out. Obrigatoriedade da indenização aos atingidos Audiência define a obrigação das empresas indenizarem os (as) atingidos(as) com base na inversão do ônus da prova e do levantamento feito no cadastro conduzido pela Cáritas. 02 Out. Suspensão da prescrição Em protesto diante do fórum de Mariana atingidos exigem o fim do prazo prescricional que seria em dezembro de 2018. Após o acordo ficou definido novo prazo: 2 de outubro de 2021.

12 Set. Luta pela não desapropriação Atingidos(as) se mobilizam contra proposta de TAC sobre patrimônio que previa desapropriação das terras destruídas pelas empresas em Bento Rodrigues. Sob pressão, MP promete publicamente que enquanto as vítimas do crime da Samarco não estiverem reassentadas não haverá desapropriação e que a solução para a destinação do território será resultado de construçã coletiva.

OUTUBRO Matriz de Danos É encerrado o ciclo de apresentação e discussão da Matriz de Danos dos Atingidos, instrumento construído com metodologia participativa e com fundamentação baseados em parâmetros técnicos e científicos para valorar as perdas e danos sofridos pelos atingidos de Mariana.


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Quatro anos depois: balanço da situação dos(as) atingidos(as) de Barra Longa O crime-desastre de Fundão provocou uma série de danos e prejuízos à população de todas as cidades por onde a lama de rejeitos passou. Em Barra Longa, para levantar os danos sofridos e contribuir na sistematização das pautas da população, a assessoria técnica vem organizando os debates e reflexões a partir dos eixos de Trabalho e Renda, Moradia, Saúde e Ambinte. A seguir listamos os avanços e conquistas alcançadas pelos atingidos de Barra Longa em cada um dos eixos destacados nos quatro anos de luta e quais são os desafios colocados no âmbito da reparação integral.

Por Danielle Passos Jorge (Arquiteta), Aline Pacheco Silva (Psicologa), Juliana Cobuci (Assistente Social), Lina de Anchieta Sales (Mobilizadora Social), Isabel Gonçalves Cordeiro (Assistente Social) Com apoio de Leandro Borges Raggi (Mobilizador Social) e Wigde Arcangelo

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Trabalho e Renda No que diz respeito aos danos referentes ao trabalho e à renda dos(as) atingidos(as), pouco se avançou na reparação. Hoje, a grande pauta se coloca em torno do reconhecimento dos diagnósticos, levantamentos e entendimento elaborados pelos(as) atingidos(as) em parceria com a assessoria técnica a partir dos Grupos de Base nos bairros e na zona rural da cidade de Barra Longa e também nos Seminários Temáticos – divididos por categorias de trabalho e atividades produtivas. Os dados levantados nos Grupos de Base demonstram que, de 953 pessoas, 672 tiveram aumento dos gastos por decorrência do crime-desastre. Já os Seminários Temáticos demonstraram que, do total de 1.217 pessoas que participaram, o que corresponde a 19,81% da população, todas as categorias profissionais informaram ter havido alterações nas suas fontes de renda em virtude da sua diminuição ou perda. Essa situação se explica, na maioria dos casos, devido à interrupção de muitas atividades produtivas, como a agricultura e a pesca, o que inviabilizou o acesso à renda proveniente delas. Outro fator determinante da configuração atual do trabalho e da renda das famílias de Barra Longa se refere às despesas geradas por novos gastos, todos determinados por situações oriundas do rompimento da barragem, como: - Aluguéis - Tratamentos de saúde e medicação - Alimentação (devido à perda das áreas agricultáveis)

- Material de construção e reformas (devido às trincas e rachaduras causadas pelo intenso tráfego de caminhões e máquinas pesadas na retirada de parte do rejeito)

- Transporte - Material de limpeza - Outros

Sobre o aumento dos gastos, destaca-se o acréscimo significativo de despesas relativas à saúde e à alimentação, o que indica situação de insegurança e risco alimentar vivenciada, hoje, pelas famílias. Essa realidade aponta para a necessidade de construção de um plano de reabilitação econômica para o município visto que a cidade, atualmente, vivencia um rompimento do seu ciclo produtivo e um processo de empobrecimento acelerado. Outro grande problema existente no território é o não reconhecimento, por parte da Fundação Renova, do trabalho das mulheres. Os dados levantados demonstram que a perda de trabalho e


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Fotos: Nilo Biazzeto

renda atingiu profundamente as mulheres do município, uma vez que a inserção desse grupo social se dava, predominantemente, via atividades informais, ou seja, sem quaisquer garantias trabalhistas e que, após o crime-desastre, foram prejudicadas pela inviabilidade de sua continuidade, como é o caso das trabalhadoras que produziam itens para comercialização. Além disso, destaca-se o não reconhecimento do trabalho de cuidados – com o lar, de familiares adoecidos e/ou idosos, de crianças - realizado, em sua maioria, por mulheres e que são essenciais para que o trabalho e a renda da família sejam garantidos. Sobre essa questão, a Defensoria Pública do Estado do Espírito Santo produziu um parecer bastante completo, que evidencia essa tratativa no que tange à vida das mulheres para a reparação do crime-desastre. É importante destacar que, hoje, o grande empecilho na reparação integral do crime-desastre é, sem sombra de dúvidas, a própria responsável pela reparação, a Fundação Renova, que opera com base em forte seletividade, ao estabelecer critérios não fundamentados na realidade territorial local, o que dificulta o acesso das famílias aos recursos destinados a reparação, como o Auxílio Financeiro Emergencial (AFE), que não é pago à totalidade de atingidos(as) do município tendo em vista os procedimentos adotados pela Fundação para o reconhecimento das pessoas enquanto atingidos(as).

Saúde e Ambiente Desde a chegada da lama de rejeitos no município de Barra Longa, a população atingida vivencia profunda alteração nos seus modos de vida, ambiente, alimentação, sossego e tranquilidade. Para compreender os efeitos de tais alterações na vida e na saúde das pessoas, diversos estudos foram realizados e seus resultados demonstram o adoecimento da população. Essa situação é comprovada também pelo significativo aumento do número de atendimentos médicos realizados pelo SUS desde o rompimento:

2583 atendientos em 2014 4000 atendimentos em 2018 Segundo dados coletados pela equipe do EPISUS/Ministério da Saúde, a maior parte dos atendimentos diz respeito a problemas respiratórios, hipertensão arterial, diabetes, transtorno mental e depressão, e problemas de pele. Outros estudos já realizados no território (Instituto Saúde e Sustentabilidade, Rede de Médicos Populares, AEDAS) apontam para as mesmas queixas relatadas pela população. Além disso, pesquisas também demonstram contaminação de pessoas por metais tóxicos (Instituto Saúde e Sustentabilidade) e contaminação do ambiente em Barra Longa (Ufop, Ambios, Jacobs, Technohidro). O contato com os metais pode acontecer por diversas vias, afinal o rejeito de minério que invadiu o centro da cidade foi retirado dessa área sendo descartado no Parque de Exposição do município, em depósitos de rejeitos na zona rural, foi usado para calçamento das ruas dos altos dos morros e das estradas rurais e ainda se encontra no município. Fica claro que a convivência diária com o rejeito, as mudanças nos modos de vida da população, as mudanças na alimentação e as constantes violações de direitos pelas empresas trazem, consigo, o adoecimento de toda a população do município de Barra Longa.

Moradia

Com o rompimento da Barragem de Fundão, o centro urbano e as zonas rurais do município de Barra Longa foram invadidos pela lama de rejeitos da Samarco, Vale e BHP Billiton. Com isso, a cidade sofreu vários danos relacionados à moradia e à infraestrutura, tanto urbana quanto rural. Com o início dos trabalhos da assessoria técnica, ficou evidente, nos relatos dos(as) atingidos(as), os problemas relacionados à chegada da lama de rejeito, bem como outros, que surgiram em decorrência do processo de sua retirada. Uma das ações executadas pelas empresas foi a retirada de parte da lama de rejeitos do centro da cidade, que foi levada para o Parque de Exposição, no local onde residem oito famílias. Esse parque era utilizado como espaço para a realização de diversos eventos, festas, campeonatos e jogos, e era o principal espaço de lazer do município. A empresa não consultou os moradores e depositou toneladas de lama tóxica próximas às casas das famílias. Houve, durante meses, intensa movimentação de maquinários pesados e de caminhões no local. Isso fez com que as estruturas das casas fossem abaladas, e surgiram trincas e rachaduras em muitas delas. As famílias passaram a conviver com poeira, diversos veículos, trabalhadores desconhecidos das empresas e muito barulho. Em setembro de 2017, a Fundação Renova assinou um acordo com as oito famílias moradoras do Parque de Exposição. Seis famílias optaram por sair do local durante o período de reforma de suas casas e das estruturas do parque e ir para moradias temporárias alugadas pela Fundação. Hoje, passados mais de dois anos do acordo, a reforma do Parque está parada, assim como a reforma das casas das famílias. Além disso, não se sabe qual o risco de contaminação presente no local. Antes, essas famílias possuíam fortes laços comunitários e afetivos. Conviviam, trocavam alimentos das hortas e plantas medicinais. Hoje, possuem modos de vida completamente modificados, principalmente, as pessoas idosas que, por estarem há tanto tempo fora de suas casas, têm apresentado quadros de depressão, tanto pela alteração do seu modo de vida, quanto pela forma como vêm sendo tratadas pela Fundação Renova. Até hoje, a grande maioria das casas que sofreram danos decorridos ou da chegada da lama de rejeitos, ou de sua retirada, ainda não foram reparadas e os(as) atingidos(as) organizados(as) fizeram a luta para o reconhecimento dos danos sofridos e do direito à reparação. Com a aprovação dos parâmetros e das diretrizes da moradia pelos(as) atingidos(as), foi garantido o direito à equipe de acompanhamento técnico. Foi por meio da luta e da organização dos(as) atingidos(as) que foi conquistado o direito de ter uma equipe de confiança para acompanhar as famílias do centro, das comunidades da zona rural e o reassentamento de Gesteira em todo o processo de reparação das moradias. A comunidade de Gesteira, com assessoria técnica, escolheu o terreno para o reassentamento. Esse terreno foi comprado pela Fundação Renova e, atualmente, estão sendo feito furos de sondagem para estudos. Importante ressaltar que o tamanho do terreno anterior proposto pela Fundação Renova era seis vezes menor, e não caberia toda a comunidade a ser reassentada. Hoje, para as 37 famílias a serem reassentadas, é garantida, além do terreno, a construção de uma casa.


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Cartas de Acaiaca

Estudantes da Escola Estadual Professor Martins, no município de Acaiaca, nos enviaram cartas para contar como enxergam as transformações na vida dos(as) atingidos(as) pelo rompimento da Barragem de Fundão. O município de Acaiaca ainda luta pelo reconhecimento como território atingido pelo crime da mineradora Samarco/Vale/BHP Billiton. Por Aline dos Santos Oliveira, Ana Luiza Gonçalves Barçante, Débora Marcelly M. da Silva, Ester Machado Armond, Gabriel de Carvalho Guimarães, Igor da Silva Santos, Ingrid Vitória Machado Moreira, Jéssica Guilherme Martins, Marcela Eduarda Lourenço Gomes, Maria Luiza Vicente Isaias, Naryara Oliveira Silva, Rayane Josefa da Cruz Silva e Valdeci José Alcântara Euzébio Com o apoio de Simone Silva e Wigde Arcangelo

No dia 5 de novembro de 2015, entre às 16h e 17h, aconteceu o maior crime socioambiental desse país, com 20 mortos. Isso aconteceu, porque, infelizmente, ainda existe muita corrupção, ganância, preconceito e racismo ambiental. As barragens, na maioria das vezes, se localizam em comunidades de quem trabalhou anos para conquistar suas coisas. Elas viram seus pertences sendo levados em questão de segundos. Não só bens materiais, mas pessoas queridas que foram embora. Depois disso tudo, essas pessoas nunca terão a mesma vida de volta. Nem todos aguentam tantas perdas de uma só vez.

Débora Marcelly M. da Silva, moradora de Acaiaca

ciedos pela so a lg ju o it u m e graça por d ngidos são ti s a e õ s s o n , e s p e z casas e uanMuitas ve ue ganham ão sabe o q q n e m d e a v d u ie o c as a so s, docudade, pois atingidos. M e familiares querido m a r fo e u clusiv coisas. dizer q der tudo, in o, entre outras muitas r e p im u r caram to é e estimaçã arragem fi d b à is a m a im r n e a as mentos, ue sobreviv ficaram contaminad q s a o s s e p do ou Algumas erderem tu p r o p s te muito tris em. l de Car va g a ie r r r b a a b G a , d s os saia com resídu a Vicente I e Ester Ma Maria Luiz Igor da Silva Santos caiaca rães, es(as) de A r o d a r o lho Guima m ond, chado Arm

Não tem como a vida de pessoas atingidas por barragens continuar a mesma, porque isso destrói a vida delas, ao acabar com suas moradas. Levam animais por água abaixo, polui água, mata peixes dos rios e, depois, eles têm que recomeçar a vida do zero, reconstruir casas e arrumar empregos. A Barragem do Fundão se rompeu no dia 5 de novembro de 2015 e causou uma devastação ambiental enorme. Ela saiu de Bento Rodrigues, município de Mariana, atingiu Barra Longa, Rio Doce e chegou ao mar do Espírito Santo. A mais recente foi a de Brumadinho, no dia 25 de janeiro de 2019, no Córrego do Feijão, que matou mais gente do que a de Fundão. Até hoje, as pessoas lutam para arrumar sua coisas de novo. Valdeci José Alcântara Euzébio, morador de Acaiaca


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Já s a s s o e p a s s ar a m fr ria. A endo po quatro a r n ragem vida das perderem os e aind a p ident nunca v essoas qu seus fam há muita oltar i id ade s p es l e iares sof á s f am i liares , suas ca a ser a m rem esse e sua hi os as , h s c t press e, d e e r ós ma . i me is p ã um c o, com m ois desse tórias, m Elas per da bard u c r u com ime, por ito medo rime, mu itas perd em sua qu e it a guém estrutur e eles sa de acont as ficam m seus e c a b cer n om d e ne m i am r uim q o e Alin tentaram e não f ue a bar vamente e dos a r . Sant arrumá- lavam na agem esta É os O l d v a a com a liveir . nina, mo rado r a de Acai aca

Faz quatro anos do rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana. Mais um crime contra a vida, fruto desse modelo que apenas provoca tragédias anunciadas. Foi denunciado o atual modelo de mineração utilizado no país. Mais uma vez, o lucro está acima de vidas humanas e do meio ambiente. Algumas pessoas perderam completamente tudo, inclusive seus familiares, alguns tiveram depressão forte. Algumas coisas foram recuperadas mas, infelizmente, as pessoas queridas que perdemos não podem ter de volta suas vidas. Naryara Oliveira Silva, Jéssica Guilherme Martins, Marcela Eduarda Lourenço Gomes, Ingrid Vitória Machado Moreira, moradoras de Acaiaca

Em 5 de novembro de 2015, aconteceu um crime em Bento Rodrigues, município de Mariana. Esse crime acabou com as identidades, histórias, famílias, casas de muitas pessoas. Nesse processo de demora vai fazer quatro anos que não tem uma casa feita. Rayane Josefa da Cruz Silva e Ana Luiza Gonçalves Barçante, moradoras de Acaiaca

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É questão de justiça, sim Já se passaram quatro anos, 1.460 dias e 35.040 horas que a vida dos(as) atingidos(as) se transformou em uma rotina sufocante de reuniões, audiências, comissões, negociações e denúncias em busca de reparação justa e integral. Ainda assim, é evidente o descaso da Fundação Renova/Vale/Samarco/BHP Billiton nas negociações, o que dificulta cada vez mais que os(as) atingidos(as) retomem suas vidas. Por isso, o cansaço. Há quatro anos, tudo mudou. Os fios de esperança enfrentam a dura realidade dos processos intermináveis. Em uma das muitas audiências, os(as) atingidos(as) foram pegos de surpresa com uma representante do poder judiciário que dizia que a compensação não é questão de justiça. Já que não está óbvio, é necessário reiterar que é questão de justiça, sim. Como falar sobre tudo que não estão sendo feitas? É preciso continuar na luta. Por Cristiano Sales, Genival Pascoal, José Geraldo Marcelino, Mauro Silva, Marcos Muniz, Marinalda Aparecida da Silva Muniz, Mirella Lino, Rennê Tavares (assessor técnico da Cáritas) Com o apoio de Joice Valverde, Júlia Militão, Juliana Carvalho, Silvany Diniz e Wigde Arcangelo

Completamos quatro anos do rompimento da Barragem de Fundão, que acabou com as nossas vidas e o prêmio é para aqueles que cometeram o crime. Vivemos em um país sem lei, sem justiça, em que impera a força daquele que tem o poder do dinheiro. Compram a imprensa, que manipula a opinião pública; os políticos e órgãos, que poderiam fazer com que as empresas pudessem agir com seriedade e responsabilidade, se fossem aplicadas leis mais eficazes; e a justiça, que, infelizmente, favorece sempre o mais forte, nesse caso, o criminoso. Há 11 dias de completar quatro anos do rompimento, a dor que sentia era como se a barragem tivesse rompido novamente. wNão temos nossas casas, direitos são negados a todo instante pelas empresas e, pior, pela justiça, que deveria fazer cumprir a lei. Hoje é a Samarco que foi autorizada a voltar suas atividades, no dia que completam nove meses do rompimento da Barragem da Vale, Córrego do Feijão, em Brumadinho. Ironia do destino? Não, propósito das empresas, dos órgãos responsáveis pelas autorizações e da justiça, que permite que tudo isso aconteça. Quando nós teremos nossas vidas de volta? Paramos no tempo desde o dia 5 de novembro de 2015, apertaram o stop das nossas vidas. Quando teremos o direito de apertar o play?

Marinalda Aparecida da Silva Muniz, moradora de Bento Rodrigues

Foto: Joice Valverde


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Desde o rompimento, desde que comecei a entender direito o processo e a entender como a Renova pretendia levar a situação, o meu tempo acabou. Ele, agora, é tomado por reuniões e reuniões e reuniões, infinitamente. Semana sim, semana não, eu tenho reunião de comissão para acompanhar, e toda semana, tenho reunião com a Assessoria e o MAB para preparar a reunião com a Renova. Quase que não sobra tempo pra nenhuma outra coisa. Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama

A minha rotina, hoje, após o rompimento, ela mudou muito. Antes, eu tinha muita alegria de encontrar os amigos, de estar mais presente, mas, após isso, com essas várias reuniões, eu já não me sinto bem assim. Não tenho a liberdade que eu tinha. Eu vejo que minha vida, após o rompimento da barragem, acabou. Acabou entre aspas, porque eu vivo de reuniões em reuniões. E lazer que é lazer mesmo, hoje, eu já não consigo ter mais. Cristiano Sales, morador de Bento Rodrigues

O meu marido é de Paracatu e eu represento ele, porque ele não gosta de mexer com esses negócios. Ele está em um estágio que não gosta nem que fala. A gente vê o pessoal lá de Paracatu morrendo e nada resolvido. Muitos desses faleceram e eles também queriam voltar pro novo Paracatu. Poxa vida, quanto tempo mais vai demorar? Essas pessoas não vão estar lá. Viviana Renata Montibeller, familiar de moradores(as) de Paracatu de Baixo

Eu comecei a participar efetivamente quando eu tinha 19 anos, quase 20. Eu decidi participar, porque, olha, as coisas não estavam dando certo. E eu pensei que, mesmo sendo uma menina, mesmo eu tendo 19 anos, mesmo eu não entendendo muita coisa do mundo ainda, eu teria que fazer alguma coisa. E aí eu comecei a perceber o que as pessoas ao meu redor estavam fazendo. Eu participava de um grupo, mas eu era uma espectadora, digamos assim, eu ainda não tinha uma voz ativa. Depois que eu percebi que não teria muito jeito mesmo, que eu e minha mãe teríamos que fazer alguma coisa pela nossa família, porque, não fosse isso, ninguém faria, é que eu comecei a participar das reuniões, que eu comecei a ter um espaço de fala também. Hoje, eu tô muito cansada. Quando eu ainda não aparecia, que eu era só uma espectadora, alguém que ia para as reuniões, mas ficava assistindo, era de um jeito. Eu sofria, mas sofria de um jeito. Agora é diferente. Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama

Qualquer coisa que envolve Renova, meu pai e minha mãe me colocam para acompanhar. Então, eu sempre tô à disposição. Mas a última escuta que a gente teve não foi das melhores. Nunca foi as melhores, né? Mas essa daí, então, nem se fala. Em determinado momento, eu falei pra eles que o dia que eles tiverem uma resposta certa pra gente, verdadeira e definitiva, chama a gente lá e não fica tirando meu pai e minha mãe pra ir daqui até lá pra ouvir coisa da boca deles que já tá todo mundo sabendo. Claudinei Marques da Silva, morador de Bento Rodrigues

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Foto: Juliana Carvalho

Desde que eu entrei na comissão, venho participando de várias reuniões e audiências, mas venho participando e lutando, com essa luta incansável, pra não ter o prejuízo que a gente tá tendo, porque a empresa não pensa na gente. Mas a minha vida é isso, reunião atrás de reunião, desde o dia 5 pra cá, não mudou muito. Cristiano Sales, morador de Bento Rodrigues

Cristiano Sales e outros(as) atingidos(as) em mais uma audiência no Fórum de Mariana.

Depois de tantas reuniões, eu tô muito cansada, mas eu não tenho a opção de desistir, como todos os meus companheiros de luta não têm também, porque é somente a nossa vida que tá em jogo. Eu fazia Pedagogia na Universidade Federal de Ouro Preto. Depois de um processo de adoecimento mental, um quadro de depressão e de síndrome do pânico, eu tive que trancar, porque já não conseguia mais conciliar tanta coisa. E, da faculdade, eu tinha a opção de desistir, porque eu posso fazer depois, mas, da luta, eu não posso, porque, se não for isso, eu não vou ter a minha vida, eu não vou ter os meus direitos reparados e eu vou ser reduzida a pó. É isso, eu tô cansada, mas eu não tenho a opção de desistir. Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama

Por uma reparação justa A questão da reparação caminha ao lado da questão de compensação. Quando não se pode reparar o que foi perdido, tem de haver uma compensação justa por aquela perda. Com a Fundação Renova/Vale/Samarco/BHP Billiton não é bem assim que tem funcionado. Há uma tentativa de colocar, na conta da indenização, o que se deve compensar ao(à) atingido(a) por problemas nos terrenos, por exemplo, como perdas de área, declividade, testada, entre outros. Além disso, tudo se resume a dinheiro para as empresas rés do crime. Mas, para os(as) atingidos(as), o dinheiro oferecido não cobre as perdas que estão, na maioria dos casos, ligadas diretamente aos modos de viver e de sobreviver da comunidade. Se há menos terra, há menos área de plantação. Em Bento, o reassentamento foi iniciado em 2018 e os problemas nos lotes já são bastante evidentes. Já em Paracatu, cujo processo de reassentamento começou no meio deste ano, os problemas têm começado a aparecer aos poucos e alguns(mas) atingidos(as) já têm conhecimento de lotes menores do que os originais.


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Foto: Joice Valverde

As empresas estão com o argumento, agora, de que os valores das compensações não podem ultrapassar uma determinada faixa da indenização dos atingidos. Eles ficam vinculando a compensação à indenização para poder restringir o direito do atingido de ser compensado pelos desequilíbrios do processo de restituição. A indenização é um processo individual e localizado, ou seja, ela vai acontecer uma vez. A restituição já é um processo muito maior, muito mais amplo, e a compensação está dentro desse processo mais amplo. Rennê Tavares, assessor técnico da Cáritas De acordo com o que está na maquete, o meu terreno é muito inclinado, tornando necessário construir vários taludes após minha casa. Onde minha casa vai estar será plano e, atrás dela, na parte do terreiro, vou dar de cara com um barranco que pode ser de dois a três metros. Ainda tenho uma rampa ou escada para acessar o terreno. Genival Pascoal, morador de Bento de Rodrigues O processo para definir os critérios de compensação foi iniciado em dezembro de 2018, quando o Ministério Público exigiu que a Fundação Renova/Vale/Samarco/BHP Billiton apresentasse uma proposta. Em abril deste ano, essa proposta foi apresentada aos(às) atingidos(as) com valores absurdamente baixos. Diante disso, os(as) atingidos(as) construíram uma nova proposta com a assessoria técnica da Cáritas. A questão ainda está sem uma solução e foi levada para o âmbito judiciário. Há famílias que tinham iniciado suas obras no antigo Paracatu de Baixo e que tiveram seus planos interrompidos pela lama de rejeitos. Quando a gente foi fazer a vistoria no terreno, a gente fez uma medida, aí já deu uma diferença enorme no lote. Tá faltando muita terra, tá faltando mais de 700 metros de terra. E a gente já falou com eles e a Renova ia ver o que podia fazer. O dinheiro que eles estão querendo pagar, a gente não vai aceitar, a gente tá querendo é o lote. É a terra. Não compensa, porque eles não falaram qual o valor eles iam pagar pra gente, uai. E, às vezes, paga um valor que a gente não dá pra fazer nada com esse valor, então a gente tá querendo o lote. Igual o projeto da casa também, a gente fez o projeto, eu falei para o menino: “eu não quero que o projeto vá pra prefeitura pra eles aprovarem enquanto eles não decidirem os negócios do terreno que estão faltando, uai”. José Geraldo Marcelino, morador de Paracatu de Baixo

Foto: Wigde Arcangelo


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Foto: Joice Valverde

Quatro anos já se passaram. A gente já podia estar com a nossa casa lá [no antigo Paracatu] tranquilo. Já tava tudo planejado. Meu marido trabalha com a mineração, em Itabirito, ele sempre falou, toda vida, que ele não quer morrer cheirando minério. Os planos que a gente tinha foram todos cancelados. A gente já ia começar a construir. Nossa vida já tava organizada. Viviana Renata Montibeller, familiar de moradores(as) de Paracatu de Baixo Foto: Wigde Arcangelo

Tudo que o atingido tenta resolver com a Renova, a Renova não aceita. Aí a Renova leva pra justiça e eu não posso falar muito bem de justiça não, que é pouco o que eu entendo, mas a justiça, hoje, ela beneficia quem? O réu. O réu que eu tô dizendo é quem? Samarco, Vale, BHP, Fundação… Então quem não tem nada a ver que está pagando a conta? É o atingido. Claudinei Marques da Silva, morador de Bento Rodrigues


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Água, essencial para a manutenção da cultura rural O plantar e o colher, o cuidar dos animais sempre foram presentes na rotina de muitos moradores das regiões atingidas, desde lavouras coletivas, como a cooperativa de pimenta biquinho, em Bento, até hortas no quintal, rodeada por jardins, além da criação dos animais. Muitos dos terrenos em Bento Rodrigues fazem divisa com rios de nascentes próximas e a vida dos seus moradores relacionava-se ao uso dessa água, que era utilizada para o cultivo e a criação de animais. O fornecimento de água em Bento foi elaborado pela Fundação Renova, com a Prefeitura e o SAAE, sendo um abastecimento de água público. A água será captada, tratada, armazenada em caixa d’água e distribuída. A captação foi dimensionada por um consumo suficiente, mas doméstico. Os costumes da maioria das famílias permanecerão afetados, na medida em que essa água, fornecida por empresa pública, além de limitada, será cobrada, em um custo imensamente mais elevado daquele que sempre tiveram, o que seria empecilho para uma produção rural. A necessidade de uma água bruta de qualidade já foi solicitada desde 2016, no levantamento de expectativa feito pela empresa, o que havia deixado uma concepção de que cada casa teria duas penas d’água, uma de água tratada e tarifada, e outra de água bruta, sem tratamento. Porém, até hoje, não há um acordo entre os moradores e a empresa para que essa captação ocorra de modo próximo ao que ocorria no distrito. Para que os modos de vida permaneçam e possam passar essa tradição para os filhos e netos, verificamos que o ônus, mais uma vez, está recaindo sobre os atingidos. Por Silvany Diniz

Foto Tainara Torres


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Foto: Suzane Pinheiro

Em Bento Rodrigues, antes do rompimento da barragem, já havia negociação com a prefeitura para uma nova captação de água em um terreno da Vale. Ainda hoje, a caixa para a captação está em Bento e algumas tubulações ficaram espalhadas após o rompimento. Essa água para uso doméstico seria tarifada, porém teríamos fontes alternativas para manter a produção rural. Mauro Silva, morador de Bento Rodrigues Foto: Daniela Felix

O que eu mais gostava de fazer e o que eu sempre planejei para a minha aposentadoria, que foi pouco antes do rompimento, era cuidar das plantações e das minhas criações. Marcos Muniz, morador de Bento Rodrigues


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Em Paracatu, a questão da água bruta está um pouco diferente do que em Bento Rodrigues. A proposta da empresa, que não foi aceita pelos(as) atingidos(as), previa um sistema de barramentos que bombearia a água para os terrenos, sendo que o custeio dos gastos com energia e manutenção seria por conta dos(as) atingidos(as), com um orçamento de 71.680 mil reais por ano. Além de absurda e injusta, pois as empresas é que devem pagar pelos seus crimes, a proposta previa apenas o custo da água bruta e ainda teria o valor a ser pago pela água de consumo doméstico. Antes do crime, os(as) moradores(as) de Paracatu nunca pagaram nenhuma das águas, sendo que, na verdade, era a mesma água utilizada tanto para consumo doméstico, como para produção rural, pois era uma água de qualidade. Os(As) atingidos(as), desde o início das obras e diante de uma proposta irreal das empresas, decidiram formar um grupo de fiscalização do reassentamento, a fim de acompanhar de perto a questão da água e todo o resto. Após muitas tentativas de visitar as nascentes do reassentamento, para debater a questão da água bruta, o encontro ocorreu no dia 1º de novembro. Porém, chegando lá, os(as) atingidos(as) se depararam com uma equipe da Fundação Renova que não tinha relação alguma com a discussão da água bruta, o que dificultou ainda mais o processo de resolução desse problema.

Tem três anos que nós estamos brigando com esse povo da Renova sobre a questão dessa água. Toda vez que a gente toca nesse assunto, eles saem fora da gente, arrumam um jeito de desviar do assunto. Dia 5 agora completam quatro anos pra eles tentarem ver o que vão fazer com essa água pra gente. Ninguém está querendo pagar água e ninguém vai pagar água mesmo não. A gente nunca pagou água. É difícil demais, uai. José Geraldo Marcelino, morador de Paracatu de Baixo Lá não pagava água e, no novo Paracatu, vai ter que pagar. Então, o trabalho e o gasto pra construir no novo Paracatu é muito maior do que no antigo. Você vai construir uma casa, vai pagar um absurdo de água, porque, para construção, gasta muita água. E, no antigo Paracatu, era de graça, era água em abundância, não tinha que pagar. Viviana Renata Montibeller, familiar de moradores(as) de Paracatu de Baixo Foto: Joice Valverde

Uma das 29 nascentes do terreno Lucila onde será o novo Paracatu de Baixo.


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Saúde e futuro Em Barra Longa, os(as) atingidos(as) convivem com a poeira tóxica da lama de rejeito. Problemas de saúde surgiram após o rompimento da barragem, mas muitos ainda sofrem tentando provar que as doenças estão relacionadas com o rejeito de minério. Saber como o organismo humano responderá, no futuro, é uma angústia dos(as) atingidos(as) que buscam soluções para a situação e, no entanto, enfrentam váriwwas negativas.

Devido a muita poeira, minha filha começou esse transtorno, os primeiros sintomas, uma alergia muito forte, uma tosse imensa, aquela tosse grave. Inclusive, essa tosse até eu comecei a ter. Na época, o acesso da rodovia foi limpo da lama de rejeito, mas os quintais próximos da minha casa não foram. Quando batia um vento, a poeira era jogada toda para cá. Aí começou a doença das crianças, a menorzinha foi a que mais adoeceu. A gente não tinha médico alergista na cidade, tive que bancar médico particular, em Ponte Nova, a 50 quilômetros daqui. Não fui ressarcido, porque não é considerado gasto com saúde, embora já tenha levado laudo para a Renova. Ela ficou com imunidade baixíssima, consegui um pediatra, ela tomou vacina para subir a imunidade. A imunidade dela aumentou, mas não sei o que acontece no organismo dela, porque a Renova fala que a poeira da lama do rejeito não é tóxica, mas outros estudos dizem o contrário. Tenho medo do que isso pode causar no futuro. O presente dela estou aqui vendo, mas me preocupo com o futuro. E o meu filho, que nasceu dois anos depois do rompimento, a Renova não reconhece como atingido, acontece o mesmo com os filhos de outras pessoas. José Eduardo Coelho Filho, morador de Barra Longa


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Atingidos(as) acapam por direitos negados

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Parte dos(as) garimpeiros(as) e dos(as) pescadores(as) de Rio Doce, de Santa Cruz do Escalvado e de Chopotó ainda não receberam o cartão de auxílio emergencial, mesmo que suas atividades de sustento tenham sido interrompidas há quatro anos. Diante disso, os trabalhadores seguem na resistência pelos seus direitos. A reivindicação é o cumprimento da Deliberação nº. 300/2019, do Comitê Interfederativo (CIF), para que os(as) trabalhadores(as), deixados de fora do autorreconhecimento, realizado em dezembro de 2018, sejam incluídos(as) na lista de atingidos(as) e recebam o Auxílio Financeiro Emergencial (AFE). Atualmente, os(as) garimpeiros(as) e os(as) pescadores(as) estão acampados na antiga cooperativa, em Rio Doce, como forma de luta por seus direitos.

Foto: Wigde Arcangelo

Foto: Juliana Carvalho

Foto: Juliana Carvalho

Por Geraldo Assunção Vieira, Helcio Neves Martins e Marta Helena dos Santos Ferreira Com o apoio de Juliana Carvalho e Wigde Arcangelo

Já foi deliberado, no CIF, e a Renova se recusou a pagar. Na realidade, já são três negativas que eles dão, então, assim, a gente está paralisando e correndo atrás disso aí. Com a Renova, é muita luta que tem que ter. Fala que não tem o direito ou têm critérios, fala que a pessoa não foi diretamente atingida. Outra hora tá analisando... Eles tiveram 60 dias para analisar a Deliberação número 300. Eles sempre têm uma desculpa para não acatar aquilo ali que eles têm que acatar. A gente faz uma reunião com a Renova, eles olham pra gente com cara de deboche. É incrível a capacidade. Mas também eles são treinados pra isso, né? Marta Helena dos Santos Ferreira

Estivemos em Candonga e viemos para cá. Eles prometem e não fazem nada, só ficam empurrando com a barriga. O povo aqui já está cansado de ficar esperando a resposta deles. Enquanto não tivermos uma resposta, não vamos arredar o pé para nada. A gente não tem que olhar só pela gente, temos que olhar para os atingidos todos. A primeira turma recebeu e a segunda ficou para trás, sendo que ela também foi atingida. Geraldo Assunção Vieira, morador de Rio Doce

Antigamente, o rio era um meio financeiro que a gente tinha. Hoje, infelizmente, os nossos meios de viver foram prejudicados. A reivindicação dos atingidos vem nesse ponto, porque a perda foi grande. Esse rio não vai voltar a ser mais como era antigamente, já houve tempo da gente até beber daquela água, fazer um café, um alimento com aquela água. Hoje, até para entrar nela, corre um risco, a gente não sabe o que está ali dentro. É cansativo. Parece que estamos correndo para alcançar a faixa, quando chegamos lá, eles mudam a faixa para frente. Helcio Neves Martins, morador de Rio Doce


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Foto: Wilson da Costa


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Os trilhos do crime No dia 25 de janeiro de 2018, o crime se repetiu. De propriedade da Vale, a barragem da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, rompeu. 252 pessoas foram mortas e 18 permanecem desaparecidas, segundo dados da Defesa Civil de Minas Gerais, até o fechamento desta edição. Quando se é atingido(a), a vida muda. Não é possível nem enxergar o trem da mesma forma. Por Marina Oliveira Com o apoio de Wigde Arcangelo

Meu nome é Marina e eu sou mineira. Sou de Brumadinho. Eu fui criada romantizando o barulho do trem. Desde pequena, desenhava o trem que passava pela minha cidade. Eu chamo tudo o que é bom de “trem”. Eu fui criada pra falar com orgulho do minério, do ferro e das coisas boas que eles me trouxeram. Eu nunca estranhei esses buracos nas montanhas e nas serras da minha cidade. O trem sempre chegou vazio e saiu cheio, sem trazer nada em troca. Me formei em Relações Internacionais na PUC-Minas, no dia 24 de janeiro de 2019. Meu sonho era trabalhar na Vale. No dia 25 de janeiro, às 12h28, eu vi a Vale matar rio, matar peixe e matar gente. Nesse dia, eu comecei a problematizar os impactos de uma mineração irresponsável, que coloca o lucro acima da vida. Eles soterraram 272 pessoas [sendo duas crianças nas barrigas de suas mães, não reconhecidas pela Vale], dezenas de casas, hortas, rio, animais, vegetações, culturas etc. Desde então, tenho atuado, contratada pela Arquidiocese de Belo Horizonte, como articuladora social das comunidades atingidas pelo crime. Meu trabalho é acompanhar as comunidades, identificar as demandas, dar os encaminhamentos possíveis e sangrar junto. Dezoito famílias ainda esperam encontrar os corpos de seus familiares para se despedirem. As buscas ainda não terminaram. Dezenas de agricultores atingidos não tiveram qualquer suporte até hoje. Muitas comunidades estão sem água por causa da contaminação dos rejeitos da barragem. O aumento da taxa de suicídio e o índice de depressão são reais. Enquanto isso, as mineradoras gastam milhões de reais em publicidade sem concluir as reparações, indenizações e compensações. Eles se preocupam apenas com a Bolsa de Valores. Eles não querem ser responsabilizados criminalmente pelo que fizeram, pois estariam criando parâmetros internacionais para crimes minerários. Eles querem continuar cometendo crimes com impunidade. Eles gostam de comprar e de controlar todo o território. É a primeira vez que eu vejo isso: o assassino que se senta à mesma mesa da vítima e ainda mostra como vai ser daqui pra frente. O Estado? Coitado. Preso na minério-dependência, não consegue sequer apoiar os(as) atingidos(as) de maneira justa. Em setembro deste ano, participei de um evento da ONU para falar de Brumadinho, no Chile. Lá, estava a representante da Vale, com seu traje social, falando sobre direitos humanos e sustentabilidade. Eles participam desses espaços para pegar o carimbo de responsabilidade social para continuar matando em outros lugares. A pergunta que eu me faço é: para quem devo gritar? Para o Estado? Para a Vale? Para a ONU? Quem vai nos ajudar? Os interesses financeiros envolvidos são muito poderosos. Quem dera existisse uma receita para a reconstrução de uma cidade. Eles estão acostumados a romper barragem: Mariana, Brumadinho... Mas uma cidade nunca estará pronta para se ver coberta de lama de rejeito. Eles chamam o que aconteceu de acidente, de evento. Evento, pra mim, é festa. Acidente, pra mim, é quando a gente se queima fritando ovo. O que aconteceu na minha cidade é um crime. Crime, porque houveram trocas de e-mails entre a chefia para relatar a instabilidade da barragem; porque eles pressionaram a empresa terceirizada a atestar o laudo de estabilidade; porque o refeitório e o prédio administrativo ficavam logo abaixo da barragem; porque as rotas de fugas assinaladas pelo relatório de risco produzido pela empresa estavam erradas. Ou seja, quem correu para os pontos que eram considerados seguros está, hoje, soterrado. Para quem gritar? Eu escolho gritar para vocês: jovens que serão os próximos engenheiros, advogados e deputados (talvez sejam os próximos atingidos também). Eu não acredito neles, mas eu acredito em vocês. Eu tenho o privilégio de viver a conversão real e profética, orientada pelo impacto de um crime contra as várias formas de vida. Espero que muitas outras pessoas possam também se converter. A gente não pode beber, comer e respirar minério. A gente pode mudar. É trabalho de gerações e gerações. Mas a gente pode. Porque, se eu aprendi que o “trem” é bom, daqui pra frente, eu vou ensinar que ele é ruim. E eu jamais, jamais, vou deixar de estranhar os buracos que fizeram nas montanhas, na minha cidade e no meu coração. O trem é ruim. Ele levou nossas riquezas embora. Ele matou nosso rio. Ele levou nossos amigos à força. Ele destroçou nossa cidade. Marina Oliveira, moradora de Brumadinho e articuladora social da Arquidiocese de Belo Horizonte


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Muitas sirenes para pouca orientação Há quatro anos, o mundo parou para olhar Mariana e, após Brumadinho, durante alguns meses, olhou para outras cidades ameaçadas por um mesmo fim. Como em grande parte do território mineiro, os moradores de Congonhas e de Macacos convivem com a insegurança da mineração e com o medo de um novo rompimento de barragem. Passado o alarde da mídia, as comunidades ainda esperam por certezas e respostas. Por Maria Auxiliadora Coelho Pereira e Sandoval de Souza Pinto Filho Com o apoio de Joice Valverde

A questão de barragens em Congonhas vem passando por fases de atenção e esquecimento bem antes do rompimento de Fundão. Em 2008, houve, aqui, um rompimento parcial da Barragem do Vigia, que causou alagamento de um bairro, felizmente sem vítimas. A partir dali, a população começou a ficar mais atenta. Em 2012 e 2017, a grande barragem Casa de Pedra apresentou problemas e teve que ser reparada. Mas, tanto para Congonhas, quanto para o mundo todo, foi Mariana que acendeu definitivamente o sinal vermelho, depois violentamente reforçado com o pesadelo de Brumadinho. Sandoval de Souza Pinto Filho, morador de Congonhas No dia 17 de fevereiro, quando falaram que a barragem ia estourar e que a sirene tocou, estava chovendo muito, foi um alarme total. Eu fiquei apavorada. Tava com visita e a criança que tava lá em casa começou a gritar: “Vou morrer! Vou morrer!”. E meu marido tentando acalmar ela, mais a mãe e o pai. Nós fomos para a casa da minha filha, ficamos lá de um dia pro outro, ninguém dormiu. Aí tocou a sirene de novo depois e todo mundo ficou apavorado mais uma vez. Lá, ninguém dorme, o pessoal ficou com síndrome do pânico, tem gente com pressão alta, fazendo tratamento com psicólogo. Maria Auxiliadora Coelho Pereira, moradora de Macacos Hoje, os que moram próximos da barragem vivem apreensivos, principalmente durante o período chuvoso. Muitos que se encontram em zonas de autossalvamento sequer sabem o que significa a palavra. De prático, temos, no município, uma situação surreal de planos de ação emergencial e de contingência que ainda não têm efetividade e confiança da população. Em duas palavras, medo e desinformação, podemos definir como vive, debaixo de 24 barragens, a população de 70.000 habitantes (fixa e flutuante) de um lugar de altíssimo risco potencial de catástrofe, dado que todas elas se encontram em altitude superior à grande parte da mancha urbana. Ninguém está gostando de viver ao lado de sirenes, como os moradores do Residencial e Cristo Rei (sirenes da CSN) e do bairro Praia (sirenes da Vale), mas não tendo outro jeito. O mínimo que se espera é que as pessoas saibam o que fazer se, um dia, tocarem. Sandoval de Souza Pinto Filho, morador de Congonhas Sobre o medo dela estourar de novo, ninguém fala nada. E aquela contenção que eles estão fazendo lá está atrapalhando o bairro todo. De manhã, a gente vem pro serviço, cheio de caminhão na frente e atrás. Tá insuportável. E ninguém faz nada. Fica assim à mercê: se estourar, estourou, entendeu? E tem muita gente doente com isso, que só de falar de barragem passa mal. Ninguém aguenta isso não, pelo amor de Deus, ninguém aguenta. Eu vivo lá apavorada, tem noite que nem durmo direito. Eu tenho que morar lá, porque é mais perto do meu emprego. Então é assim que o pessoal vive, com medo, angustiado, sem recurso pra nada, tem gente fora de casa desde o dia que tocou a sirene. Maria Auxiliadora Coelho Pereira, moradora de Macacos Grande parte da população de Congonhas ainda não tem informações e orientações confiáveis que tenham sido emitidas por órgãos responsáveis e pelas próprias empresas de forma eficiente. Ver na televisão, todos os dias, o que ocorreu, principalmente em Mariana e em Brumadinho, vivendo nesse vácuo de informações, abre margem para o medo e adoecimento. Só quem sofre sabe o que está passando. Enquanto deveres legais são esquecidos, serviços essenciais, como a creche e a escola do bairro Residencial, foram suprimidos pela Prefeitura. Sandoval de Souza Pinto Filho, morador de Congonhas A Vale está dando uma moeda que se chama vouchers. Essa moeda só funciona dentro de Macacos, para fazer compra nos mercados e restaurantes. Tem família que tem 20 anos que mora lá e eles tiraram da lista pra receber. Isso é um absurdo. Maria Auxiliadora Coelho Pereira, moradora de Macacos


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A atuação do Ministério Público vem sendo extremamente importante desde 2011, quando apareceram as primeiras surgências na Barragem Casa de Pedra. Várias situações tiveram que passar por perícias técnicas e correções das estruturas. Não temos dúvida alguma de que, sem atuação do órgão, Congonhas estaria numa situação bem mais delicada do que a que se encontra. Foram diversos TACs e outras questões até judicializadas, como a obrigação de pagamento de aluguéis para moradores e o funcionamento da escola e da creche em locais mais seguros, que se encontram sob apreciação do Poder Judiciário. Da parte das empresas as ações, no sentido de informar e proporcionar mais tranquilidade e meios adequados de enfrentar a vizinhança indesejável com as barragens, ainda é muito tímida, um pouco na linha do assistencialismo e da negação de responsabilidades, sem promoção de medidas efetivas. São muitas sirenes para pouca orientação. Sandoval de Souza Pinto Filho, morador de Congonhas A cidade agora é só aquele paradeiro. Tem gente que não vai fim de semana, porque tem medo. O pessoal corre atrás, mas a Vale e o Ministério Público não resolvem nada. Então eles têm que esperar. A Vale só fala isso: “tem que aguardar pra ver o que que vai fazer, como que vai indenizar as pessoas”. Mas isso não interfere em nada. Indenizar? E o que a gente passou, não conta? Porque lá tem muita gente doente, tem criança apavorada, tem gente acamada. E eles não querem nem saber, só querem olhar o lado deles. Descendo pra Macacos, aqui tá um caos, é gente indo e voltando. É uma poeira, é barulho, que as máquinas trabalham a noite inteira. Depois da mídia, depois que teve aquilo lá, é isso aí que tá acontecendo. Vive com os vouchers, né, até resolver. Maria Auxiliadora Coelho Pereira, moradora de Macacos Principalmente após Brumadinho, houve uma cobertura maciça da situação de Congonhas, inclusive pela imprensa internacional e pela comunidade acadêmica. No rebote da catástrofe de Feijão, desembarcaram aqui todas as grandes mídias nacionais e internacionais. É preciso registrar que estamos há nove meses do infeliz ocorrido e ainda não enfrentamos um novo período chuvoso. Se, por um lado, com o passar do tempo, os impactos e as informações parecem ir se dissipando, por outro, as chuvas estão por chegar. Naturalmente que a vizinhança mais próxima das barragens fica mais temerosa com a possibilidade de eventos climáticos severos, como tem sido comum nos últimos tempos. Sandoval de Souza Pinto Filho, morador de Congonhas Foto: Sandoval de Souza Pinto Filho

Sirene instalada no bairro Lucas Monteiro. Ao fundo se vê uma parte da barragem Casa da Pedra, da empresa CSN.


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fé e luta O corpo e a mente se cansam das intermináveis reuniões, das desgastantes audiências, das imprecisões sobre a saúde da natureza atingida e das incertezas quanto ao retorno ao lar. São quatro anos de constante luta. Para quem perdeu tudo, ou quase tudo, a fé é o fio que sustenta a esperança. No longo caminho de destruição causado pelo crime, a religiosidade é plural, mas é a fé que escora a força para lutar pelos direitos violados.

Por Cacique Toninho, Cláudia de Fátima Alves, Claudinei José Anacleto, José Leite Costa e Pai de santo Adão Bento. Com apoio de Joice Valverde, Júlia Militão, Sérgio Papagaio e Wigde Arcangelo


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Foto: Joice Valverde

Pai de Santo Adão Bento, garimpeiro e morador de Barroca.


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Foto: Joice Valverde

A fé, depois de tudo o que a gente viveu nesses últimos quatro anos, é o que faz a gente permanecer de pé, lutando pelos nossos direitos e para tentar continuar vivendo da melhor maneira possível. É lógico que não vai ser igual a antes, daqui pra frente. Então esses momentos de festividades da comunidade são para reforçar mais a nossa fé, a nossa força e união para permanecer uma comunidade unida, para não perder as tradições que a gente tinha. Cláudia de Fátima Alves, moradora de Bento Rodrigues Foto: Sérgio Papagaio

Se não fosse a fé, eu não estaria aí vivo até hoje. O rompimento da barragem reforçou mais a fé na nossa comunidade quilombola. A gente se viu num transtorno na comunidade: sem serviço, o peixe que você pega não pode vender. Tem uma parte do rio onde o rejeito não chegou. A gente tem fé que a nossa saúde não seja atingida, mas várias lagoas na beira do mar foram atingidas, o mar nem se fala, as vegetações nativas das regiões morreram tudo. Tirou o nosso sustento e o nosso lazer. José Leite Costa, morador de Degredo


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Foto: Joice Valverde

A fé é a melhor coisa que nós temos, ela remove montanhas. Quem não tem fé não adianta correr atrás. Se você tem fé, procura que alcançará. As empresas são grandes, elas têm dinheiro, advogado para se defender. Agora, nós que vivemos catando um ourinho do garimpo para poder sobreviver, vivemos na luta. Eu já fui tirado do rio quando a Barragem de Fundão estourou. A fé ajuda a resistir na injustiça, tem que ter fé. Alguns têm fé no dinheiro, mas se isso bastasse, não morria doutor. Costumo ficar meses sem encontrar ouro, mas, se peço a guia das águas, com pouco mais, já tenho um ourinho para ter alimentação. Pai de santo Adão Bento, morador de Barroca


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Foto: Júlia Militão

A gente se achega na mão de Deus e tenta caminhar, com a força que Ele vai dando. Mesmo que a gente tenha vontade de estar em casa novamente, ainda espera com calma e pede a Deus a força. A gente nem imagina como vai ser, mas tem que pegar com Deus primeiro e seguir. Não tem como querer que uma coisa seja rápida, tem que ter calma e fé em Deus. E, depois desse acontecimento, eu sou mais apegado a Deus, porque Deus tá dando força pra gente resistir, né? Essas festas… A gente vai recuperando, com a fé. Estar junto com a população, as pessoas que a gente vai revendo de novo, né? Claudinei José Anacleto, morador de Paracatu de Baixo Foto: Sérgio Papagaio

Se o índio não tiver a fé no seu dia a dia, dependendo das consequências que causam os problemas dentro do seu território, dentro da sua comunidade, junto com o seu povo, ele não consegue avançar no seu objetivo, que é vencer a batalha que enfrenta. O rompimento da barragem é mais uma batalha que a população indígena vem encontrando, principalmente no território tupiniquim de Comboios, onde já existem vários outros problemas dentro do seu território, de impacto social, econômico e cultural. A fé do povo indígena não é só no deus, que é Tupã, mas sim de tudo que dá a garantia ao povo indígena: é a fé do rio, da mata, do mar, da terra, da natureza, dos pássaros. Se não fosse a fé de ter lutado tanto pela garantia da vida, nós não estaríamos aqui hoje. Há um século atrás, não existiríamos mais. Tudo que a gente tem vencido e vai vencer na batalha faz parte da fé. A fé faz parte do dia a dia, do corpo, da alma, do sangue, do espírito do povo indígena. Cacique Toninho, morador da comunidade indígena tupiniquim de Comboios


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Foto: Júlia Militão

Nossa Senhora Aparecida Por Sérgio Papagaio

Eu pensei em desistir, quando olhei pro lado, ela estava ali. Eu pensei em recuar, quando olhei pra trás, ela estava lá. Eu pensei que tudo estava perdido, quando olhei para frente, um novo mundo ela havia construído. Eu pensei não ter mais jeito, o meu mundo era só defeitos, pois, acreditem, ela produziu um novo efeito. Eu perdi a iluminação, tudo escureceu, ela uma luz na minha vida acendeu. Eu pensei que, no meio de tanto rejeito, a vida perderia o pleito e a morte seria o desfecho, ela jogou seu manto e nos levou para um outro canto onde a vida prosseguia, tinha até alegria. Eu senti o peso sobre meus ombros, não aguento mais, quando saquei do embornal, a minha credencial de homem vivo e normal, e entreguei à morte, que me dava todo o suporte, pra eu passar para outro lugar, houve uma grande explosão, era ela, descendo no meio de um grande trovão e me estendeu as duas mãos mostrando-me que a vida não é só alegria, o sorriso nos faz feliz, mas é a dor que nos dá suporte para enfrentarmos a má sorte, só aí eu compreendi, para melhorar as nossas vidas, só o amor e a graça da Santa Aparecida.


EDITORIAL Na capa, a justiça. Sempre ouvimos que os olhos dela são vendados para a imparcialidade. Em suas mãos, a balança afere de forma precisa. Mas, após quatros anos do crime da Samarco/Vale/BHP Billiton, não é essa justiça que nos foi revelada. A que conhecemos, no nosso dia a dia, se parece mais com a da capa. Um de seus olhos estão bem abertos, consegue enxergar as empresas que possuem grandes quantias de dinheiro e é para esse lado que a balança pende. Enquanto isso, o tempo escorre feito areia em suas mãos. Tudo o que nós mais queremos é ver as famílias reassentadas, adaptando-se aos espaços que poderão chamar de seus e podendo fazer as alterações no que bem quiserem, sentindo-se donas de seus lares. Mas tudo o que as mineradoras, por meio da Renova, fazem é nos enrolar. Quatro anos se passaram. Nós, atingidos(as), continuamos sem o reassentamento e tudo o que vemos é uma série de desmobilizações que vêm da Renova, das mineradoras e do próprio poder judiciário. Para se ter uma ideia, durante as audiências, são três advogados das mineradoras, e três advogados e dois assessores da Renova, que não são parte no processo, dividindo a mesa de audiência. Do nosso lado, está só o promotor, três representantes dos(as) atingidos(as) e dois da assessoria técnica. Somente os defensores das mineradoras podem falar, a nossa assessoria não pode defender o trabalho que fez conosco. Muitas vezes, saímos das audiências e das reuniões transtornados(as). Até nossos(as) assessores(as) técnicos(as) sofrem com isso. Constroem conosco as propostas com toda a capacidade técnica que eles têm, fazem pesquisas, buscam dados jurídicos para nos ajudar a defender nossas pauta diante da mesa de audiências, mas, chegando lá, por vezes, são humilhados diante de muita gente. Em alguns momentos, nas audiências, já nos deparamos com falas que nos incomodaram: “isso não é questão de justiça”, “nem leram a proposta, isso está fora de questão”, “não vamos discutir isso aqui, o que vocês estão pedindo é um absurdo, é querer um enriquecimento ilícito”. O que queremos é bem simples, que se faça reparação de forma justa. Embora, o cansaço, muitas vezes, nos abata, continuaremos lutando por aquilo que é nosso por direito.