JBM - FOGO POSTO - folha de sala

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CENTRO CULTURAL DO BOM SUCESSO, ALVERCA DO RIBATEJO

Rua Fonte de São Romão, n.º 1, Bom Sucesso, 2615-306 Alverca do Ribatejo Tel.: 219 576 104 | Email: cc.bomsucesso@cm-vfxira.pt

HORÁRIO: terça-feira a domingo das 10h00 às 17h30 Encerra às segundas-feiras

O artista, de modo compassivo, e pacientemente, vai cobrindo com uma pasta e grafite, camada sobre camada, moldes e objectos que acabara de unir. Outros objectos encontrados, aparentemente sem relação uns com os outros, vão aguardando a sua vez no ateliê, até ao momento em que o artista decidir “queimá-los”. Até lá, vão pontuando o espaço onde trabalha, à espera da sua sorte. Esperam, quiçá, em fila, despojados da patine que José Batista Marques imprime sobre eles. Procurando ocultar partes, ou deixando revelar, ou rebelar, outras.

O artista começa uma escultura, e depois de várias camadas, vai ao encontro de outra, ainda por acabar, proporcionando um suave movimento ao longo do espaço. Envolto em doçura, porém, o seu agitar não é menos enérgico por isso. Os gestos que realiza são de reverência, de consciência profunda face ao que está a cobrir, ou pretende esconder. Parece tratar as peças como se de seres vivos se tratassem. Porém, com candura, vai suplantando o último fôlego dessas criaturas. Antes votadas ao abandono, pela urdida da máquina trucidaria do consumo, são agora salvas, pelo novo sentido que o artista lhes poderá atribuir.

Há todo um regimento libertador nas peças de José Marques. Muitas vezes o artista recorre ao riso.

Com Greenberg, e as funções da pintura reduzidas ao literal abstracto, aprendemos a coarctar o humor. Com Duchamp, ou mais tarde, Jonathan Monk, aprendemos a deixar entrar o riso, na fruição da obra.

Dadaístas e surrealistas usaram-na para abordar temas, umas vezes mais prazenteiros, outras vezes menos fáceis de tratar, como a própria realidade e a quotidianidade.

Marques lida com a união, justaposição e aglomeração de objectos, de forma inusitada, e aparentemente evocadora do caos, como modo de assentir na efemeridade das coisas, na transitoriedade das ideologias, na fragilidade do Homem. O artista parece gravitar em torno do término inelutável da própria humanidade. Apesar da visão antropocêntrica, o homem continua a precipitar-se para um fim. É desses mundos perecíveis, e com ironia, que o artista “fala”, através das suas esculturas.

O riso aguarda, a qualquer momento, despontar de um lugar inesperado, numa ocasião menos provável, e desferir as suas gargalhadas (como golpes), sobre a prepotência humana, que, num tempo mais próximo, provavelmente jazerá, moribunda.

O velho despotismo, e a ideia de controlo dos homens sobre os outros homens, e sobre o meio ambiente, pode notar-se em peças do artista como “O Trono do Rei é Florido”, 2022, e “O Descanso das Abelhas”, 2022.

Podemos então observar, em “O Descanso das Abelhas”, um ovo lascado (ou talvez um meteorito), que ameaça ruir, e sobre ele, uma vanitas, coroada por insectos verdejantes, que, num olhar mais atento, apercebemos que se tratam, afinal, de cinco abelhas, peças de bijuteria em tons coloridos, invocando o seu papel vital para a vida na terra.

As abelhas, esvoaçantes, gravitam sobre o crânio, talvez representativo do artista. Procuram reanimá-lo, nutri-lo, para que assim adquira uma nova vida, uma vida eterna.

A obra é contrastante, no modo como as pequenas abelhas estão fixadas sobre a vanitas – que se presentifica sempre numa ideia de imagem negra, de cavidade, de ausência de vida – com as suas cores cintilantes, oriundas do imaginário kitsch, do cartoon, e da cultura pop.

No seio dessa ideia de vulnerabilidade e transitoriedade encontramos a obra “Dream House”, 2021, a “Planta Luz”, 2022, e “Paradise Lost”, 2022, acompanhadas, depois, por desenhos satíricos evocativos de Pablo Helguera.

Carla Carbone

26/11/22 a 22/01/23