Page 1

Universidade Federal do Rio Grande do Norte Centro de Ensino Superior do Seridó Departamento de História Disciplina: Historiografia Brasileira – 2017.1 Professor: Evandro Santos

O MESSIANISMO DE ANTONIO CONSELHEIRO Daniel Oliveira de Medeiros1

A guerra de Canudos foi um dos maiores traumas sociais e políticos ocorridos na primeira república do Brasil cuja chaga ainda permanece exposta para nossa vergonha nacional. A contestação do regime republicano por Antônio Conselheiro afrontava os ideais cívicos e o conceito de modernidade político-social. Antes de adentrar-nos mais na historia desse personagem emblemático vamos conhecer um pouco da trajetória de vida dele e o que fez tornar-se um líder religioso reacionário. Figura 1 Revista Ilustrada

Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu na Vila de

Campo Maior em 13 de março de 1830 e morreu em Canudos, aos 22 de setembro de 1897. Ficou historicamente conhecido pela alcunha de Antônio Conselheiro e ele mesmo se autodenominava de "o peregrino". Essa figura adquiriu aspectos messiânicos liderando o arraial de canudos, um pequeno vilarejo de casebres em meio ao Sertão baiano onde se ajuntou grande massa de pessoas pobres, marginalizados dentro de um contexto social e politico dominado pelo coronelismo que apoiavam o regime republicano e viam em Canudos uma ameaça á ordem social e politica vigente. A imprensa da época explorava de forma negativa esse movimento incentivando inclusive através de charges jornalísticas o uso da força militar diante

1

Graduando em História (Licenciatura) pela UFRN/CERES.


do grande “perigo” representado por aquele arraial de jagunços cujo líder era retratado como um louco, um fanático religioso, afrontando o poder da Igreja católica ao realizar cerimonias religiosas à revelia da proibição impetrada pelo sistema eclesiástico e se mostrando contrário ao nosso sistema de governo, esses argumentos foram usados para justificar o extermínio daquela comunidade 2. Ao sofrer uma desilusão amorosa sai errante pelos sertões peregrinando pelo Ceará, Sergipe, Pernambuco e Bahia. Amado pelos pobres e excluídos Conselheiro dedicou-se a servir o próximo cooperando com ações comunitárias por onde passava e caindo na graça daquele povo que viam nele a figura de um “libertador” ou “messias” que viria para minorar as condições calamitosas em que viviam. Conselheiro era um visionário, desde cedo percebeu as injustiças sociais a que estavam expostos o extrato empobrecido da população que habitavam os sertões por onde ele transitava e daí começou a florescer os ideais libertários que ele colocaria em prática quando começou a liderar o arraial de canudos, ponto final de mais de vinte anos de andanças comtemplando o estado de exclusão a que estavam sujeitos ex-escravos, pardos, indígenas, mestiços, etc. Estes viviam em estado de exclusão social e sem perspectivas de uma vida digna e livre como apregoava os ideais republicanos, ao invés disso, viviam sob um regime de autoritarismo representado pelo domínio opressor dos coronéis que abundavam por essas paragens. Apesar de amado pelos pobres que o tinham como um homem santo, conselheiro era incompreendido e perseguido pelas autoridades que viam nele a figura de alguém ameaçador e tipificava a figura do mal. Canudos era uma pequena vila nos arredores da Fazenda Canudos, localizada às margens do rio Vaza-Barris. Com a chegada de Antônio Conselheiro em 1893 cresceu sobremodo chegando a ter uma população aproximada de vinte e cinco mil habitantes. O conselheiro muda o seu nome para Belo Monte. Com esse aumento populacional e os constantes problemas ocorridos com os latifundiários na região, a elite e o clero começaram a se incomodar com a quebra da normalidade cotidiana e começam a demonizar a figura do Conselheiro espalhando boatos de que ele seria um perigoso monarquista que estaria empenhado em restaurar a 2

Ver figura1. A Revista Ilustrada, de Angelo Agostini, veículo de propaganda republicana durante o Império, retratava Conselheiro de forma caricatural, com séqüito de bufões armados com velhos bacamartes, tentando "barrar" a República. Exemplo de como a imprensa da época reagiu ao messianismo.


monarquia no Brasil incitando dessa forma o governo a atuar de forma violenta sobre o arraial e seus moradores, com essa propaganda nefasta começaram a ganhar o apoio da opinião pública do país para justificar a guerra movida contra seus habitantes. Em 1874, em Sergipe O Jornal o Rabudo trás uma matéria onde traça um perfil do conselheiro de forma degradante como o de um fanático religioso que se interpunha aos padrões da igreja com características similares a um lunático Há seis meses que por todo o centro desta Província e da Província da Bahia, chegado (diz ele) do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antônio dos Mares. O que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito, tem dado lugar a que o povo o trate por S. Antônio dos Mares. Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de hábito a forma do de sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos e sebosos entre os quais se vê claramente uma espantosa multidão de bichos (piolhos). Distingue-se pelo ar misterioso, olhos baços, tez desbotada e de pés nus; o que tudo concorre para o tornar a figura mais degradante do mundo. (O Rabudo, 22 de Novembro de 1874)

Essa figura sinistra vai tomando conta do imaginário popular onde uns o veem como um santo peregrino e outros como alguém perigoso que precisa ser contido a tempo antes que, como em outros movimentos messiânicos ocorridos em outras partes do Brasil terminem em revolta. A imprensa sergipana através do jornal o Rabudo, publica uma matéria onde pede providencias sugerindo a prisão Pedimos providencias a respeito: seja esse homem capturado e levado a presença do Governo Imperial, a fim de prevenir os males que ainda não forão postos em prática pela auctoridade da palavra do Fr. S. Antônio dos Mares moderno. Dizem que elle não teme a nada, e que estará a frente de suas ovelhas. Que audácia! O povo fanático sustenta que n’elle não tocarão; Já tendo se dado casos de pegarem em armas para defendê-lo. Para qualquer lugar que elle se encaminha segue-o o povo em tropel, e em número fabuloso: Achase agora em Rainha dos Anjos, da Província da Bahia, erigindo um Templo. (O RABUDO 22 de novembro de 1874)

As secas constantes e a pobreza extrema de muitos sertanejos pioraram a situação e viam em canudos uma possibilidade de sobrevivência onde o Conselheiro havia criado um sistema de governo próprio igualitário e isso também Em 1877, o Nordeste brasileiro sofre uma das mais maiores secas de sua história causando a fome e o flagelo de grande parte da população pobre que começam a perambular famintas pelas estradas em busca de socorro por parte do governo o que termina em muitos casos em saques nas cidades onde retirantes


famintos passam a fazer justiça com as próprias mãos, na ética dos desesperados "roubar para matar a fome não é crime". Nesse contexto Cresce a fama de Antônio Conselheiro entre os sertanejos pobres que para eles era um profeta enviado por Deus para socorrê-los. Para muitos era apenas um louco. O próprio Euclides da cunha escreveu em sua obra acerca do Conselheiro As fases singulares da sua existência não são, talvez, períodos sucessivos de uma moléstia grave, mas são, com certeza, resumo abreviado dos aspectos predominantes de mal social gravíssimo. Por isto o infeliz, destinado à solicitude dos médicos, veio, impelido por uma potência superior, bater de encontro a uma civilização, indo para a história como poderia ter ido para o hospício (CUNHA, 1902, p.182).

Os movimentos messianismos buscam atender as carências, físicas e espirituais das classes sociais marginalizadas e a figura de Antônio Conselheiro se presta a esse ideal de aspiração do sertanejo sofrido através das agruras sociais e climáticas que os atingem duplamente sendo a busca do sobrenatural uma possibilidade da redenção do sofrimento vivido cotidianamente. A reação de determinados segmentos sociais, políticos e de setores da igreja, forneceram o estopim que deu início à Guerra dos Canudos, que iniciou-se no ano de 1896. Constituindo-se na maior guerra em solo brasileiro no século XIX. Em Outubro de 1896, Antônio Conselheiro encomenda um carregamento de madeira para construção da igreja e mesmo tendo sido pago eles não recebem a mercadoria, esse episodio desencadeou as ações policiais contra Canudos iniciando a

guerra.

As

três

primeiras

expedições militares enviadas contra o arraial foram desbaratadas pelos sertanejos conselheiristas. A quarta expedição

formada

por

tropas

militares estaduais e federais, da polícia e do exército, formada por Figura 2 - Mulheres e crianças, seguidoras de Antônio Conselheiro, presas durante os últimos dias da guerra.

milhares de homens, e armamentos

pesados e depois de sangrentos combates foram capazes de no dia 5 de outubro de 1897, tomar a cidade de Canudos. Poucos dias antes do desfecho final da guerra


morre Antônio Conselheiro em 22 de setembro de 1897, Vítima de ferimentos causados pela explosão de uma granada. Grande parte da população foi literalmente exterminada só restando uns poucos sobreviventes e os casebres foram totalmente destruídos. Canudos virou cinzas, o seu sonho de liberdade e resistência tornou-se símbolo de lutas e de esperança das classes oprimidas no Brasil e ecoa nas Américas e no mundo. O episódio de Canudos inspirou diversos escritores principalmente Euclides da Cunha que fora correspondente de um jornal à época da guerra e escreveu na sua obra clássica Os Sertões a sua versão estereotipada dos fatos. O corpo do conselheiro foi exumado e teve a sua cabeça cortada e enviada para estudos por médicos da época, no cinema inspirou diversos cineastas a fazerem suas versões fílmicas além de peças de teatro que se apresentaram inclusive no exterior denunciando assim um dos mais tristes episódios de nossa história.

Referencias:

ANTÔNIO CONSELHEIRO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2017. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Ant %C3%B4nio_Conselheiro&oldid=49007219>. Acesso em: 10 jun. 2017. CUNHA, Euclides da. Os sertões. 4. ed. São Paulo: Martin Claret, 2002. 637 p. (Ouro) GUERRA DE CANUDOS. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2017. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title= Guerra_de_Canudos&oldid=48887419>. Acesso em: 30 junho. 2017. SCHLLING, Voltaire. A Guerra dos Canudos e Sertões: O Messianismo. 2002. Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/500br/canudos6.htm>. Acesso em: 20 jun. 2017. SILVESTRE, Armando Araújo. Messianismo. 2017. Disponível em: <http://www.infoescola.com/religiao/messianismo/>. Acesso em: 30 jun. 2017. PACIEVITCH ,Thais. Antônio Conselheiro .2017. Disponivel em: http://www.infoescola.com/biografias/antonio-conselheiro/. Acesso em: 30 jun. 2017.

Ensaio o messianismo de antonio conselheiro  
Ensaio o messianismo de antonio conselheiro  
Advertisement