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SUMARIO

AS TRANSFORMAÇÕES DA CIDADE MEDIEVAL: ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS (SÉC. XII – XIV) INTRODUÇÃO ....................................................................................... 04 AS FEIRAS ................................................................................................ 16 A USURA................................................................................................... 18 O JUSTO PREÇO .................................................................................... 21 A FEUDO-CLERICALIZAÇÃO .......................................................... 22 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................. 24 REFERENCIAS ....................................................................................... 26


AS TRANSFORMAÇÕES DA CIDADE MEDIEVAL: ASPECTOS SÓCIO-ECONÔMICOS (SÉC. XII –XIV) Daniel Oliveira de Medeiros Graduando - UFRN Este trabalho objetiva analisar algumas questões de relevância observadas na formação das cidades medievais e as funções exercidas por determinados grupos sociais essenciais no desenvolvimento e crescimento desses núcleos populacionais e seus desdobramentos sob a ótica dos aspectos religioso, econômico e político. Através de revisão bibliográfica pretendemos focar tanto nas questões relacionais como econômica que demanda do comércio, um dos pontos mais relevantes que deram impulso e importância às cidades, resultando no desenvolvimento dos estabelecimentos onde eram negociados desde excedentes agrícolas, artesanatos, serviços e produtos manufaturados. Outro aspecto de relevância a ser analisado será as transações cambiais ocorridas entre judeus e cristãos que eram rigorosamente limitadas conforme diz LeGoff, pela igreja. Assim podemos concluir, ao menos em parte, que as cidades no medievo constituem territórios de atuação de diferentes setores da sociedade, inclusive, a nobreza que fazia parte dos lucros no comércio, são estratos flutuantes que mais tardes poderão ser adquiridos por meio de acordos selados com casamentos. Trata-se da lenta e gradual inversão de uma sociedade dividida horizontalmente, que aos poucos adquire aspectos verticais, cumulativos de bens e fortunas. Palavras-chave: Idade Média. Cidade medieval. Economia. Burguesia.


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AS TRANSFORMAÇÕES DA CIDADE MEDIE VAL: ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS (SÉC. XII – XIV) Daniel Oliveira de Medeiros 1

INTRODUÇÃO Entre os séculos XII a XIV ocorreu um crescimento das cidades no medievo, iremos analisar alguns aspectos que contribuíram para esse desenvolvimento Para isto, serão debatidas temáticas como: a economia que permeia as cidades e a sociedade derivada dela, em conjunto com os papéis referidos a cada indivíduo alusivo ao recorte temporal exposto anteriormente. O crescimento das cidades medievais está pautado no desenvolvimento econômico advindo da produção comercialização

dos

excedentes

agrícolas

e

e do

aumento demográfico na Europa Ocidental entre os séculos XII e XIII. Nestes séculos, o setor de produção era essencialmente agrícola sob o domínio senhorial, baseado na exploração da terra por camponeses, servos de um

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Discente do Curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Orientador: Prof. Dr. Elton John – Departamento de História (UFRN). E-mail: irdanielmedeiros@hotmail.com.


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senhor feudal, que exercia sobre os mesmos poderes e direitos. As terras

cidades de

nasciam

algum

geralmente

senhor,

próximas

às

nas localidades chamadas

de burgos, uma espécie de pequeno povoado fortificado onde os produtores levavam seus produtos e lá faziam uma espécie de feira trocando suas mercadorias por outras ou por dinheiro. Os moradores dos burgos dedicavam-se a atividades ligadas ao comércio e à produção artesanal, e eram chamados de burgueses, cujo crescimento e poder desse grupo social se consolidariam no século XIX como classe, com a Revolução Industrial de 1750. Daí organizou-se a produção e surgiram máquinas como os moinhos hidráulicos que eram utilizados tanto no beneficiamento de grãos como também pelos moleiros e outros que se dedicaram aos ofícios têxteis. Esse contexto é composto também de Corporações de Ofício que se dedicaram a atividade artesanal com destaque na produção têxtil, ou seja, a produção de tecidos de lã e seda, entre outros. Nessas corporações, onde

todos

desenvolviam

encontravam-se de

uma

pessoas

de

uma uma

atividade congênere, mesma

profissão,

mesma religiosidade e que mantinham um

corporativismo funcional mútuo.


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Os

principais

produtos

comercializados

são

os

grãos, vinho, sal, couros, peles, tecidos, minerais e metais além de madeira, sendo as feiras o ponto de encontro de pessoas e culturas haja vista que nessa dinâmica comercial havia trocas de saberes, experiências que possibilitaram avanços em diversas áreas do conhecimento. Ocorria entre os senhores e citadinos um intenso jogo de interesses. Os senhores pretendiam continuar exercendo um amplo domínio sobre os habitantes e seus negócios que aconteciam dentro de sua área de jurisdição, enquanto os citadinos, representados pelos burgueses, tinham como diz Jacques Le Goff: [...] três preocupações essenciais: o direito de enriquecer, o direito de administrar e a possibilidade de dispor facilmente da mão-de-obra. É preciso, portanto, que não haja sobre a produção artesanal e o comércio direitos senhoriais exorbitantes; os burgueses devem ser livres e poder dedicar-se aos seus negócios, ter o direito de se reunir livremente e a possibilidade de controlar a vida econômica e administrativa da cidade; todos os habitantes devem ser livres como os burgueses, que poderão assim obter a mão-de-obra, sobre a qual não pesa nenhuma coação senhorial. Atendidas essas condições, os burgueses não têm razões para se opor ao modo de produção senhorial, que lhes proporciona a baixo preço as matérias-primas para o artesanato e o comercio. (LE GOFF, 1992, p.56)

Nesses embates, vemos a burguesia buscando um espaço

cada

vez

maior

e inevitavelmente ocorreram


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choques por vezes violentos nos quais os citadinos buscavam uma maior autonomia enquanto os senhores cediam o mínimo em seus direitos e lucros. As cidades do período medieval se caracterizaram por seu dinamismo e equilíbrio, independente da sociedade que as construiu, seja ela urbana ou rural. Na sua estrutura se destaca principalmente as muralhas com o objetivo da proteção almejada no período e erguida sob a responsabilidade da Igreja. No século XII a esfera econômica da cidade é marcada, em sua primazia, pela prática agrícola na qual é denominada de “modo de produção feudal”2. Sob esta ótica ocorre uma relação e atuação mercadológica em que o senhor passa a adquirir os seus bens com a venda dos produtos da terra, e o camponês, com o pouco que adquire, através de seu

trabalho paga a

fatia monetária ao senhor e depois comercializa seus bens. Nesse sentido, percebemos a importância do mercado urbano para, até então, o mundo rural. Esse mercado passa a ser indispensável ao mundo urbano na qual há a necessidade do uso dele por parte do senhor, para a venda de seus produtos e adquirir bens que deseja, e do lado do camponês, para possuir bens de que precisa, e 2

Modo de produção Feudal, segundo (FRANCO JUNIOR, 2004, p.120), é o conjunto da formação social dominante no Ocidente da Idade Média Central, com suas facetas política, econômica, ideológica, institucional, social, cultural, religiosa. Em suma, uma totalidade histórica, da qual o feudo foi apenas um elemento.


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que ele não produz, e com isso passa a comercializá-los. Portanto, o mercado torna-se um fenômeno social devido aos atos coletivos ocorridos em seu território. É a partir dele que entra em atuação o sistema feudo-burguês3

que priorizava, além da prática agríco-

la, a integração campo e cidade numa única realidade culminando na expansão das cidades. Isto ocorria devido a esse sistema não visar à acumulação, por meio disto, esses espaços passaria a ter senhores urbano, contudo, em sua maioria não dominante por estarem sujeitos aos burgueses. Essa situação levou, por exemplo, ao não desenvolvimento do sistema capitalista nesse período. As relações estabelecidas entre o espaço urbano e o feudalismo são permeadas por falsas visões que constroem a cidade medieval, entre elas destaca-se: a ideia de que se trata de um fenômeno, essencialmente, “antifeudal”, quando na verdade ela encontra seu lugar no sistema feudal e forma com ele novo sistema que se renovava rapidamente por meio de empreendimentos sem longa duração. É um território marcado pela lógica econômica relacionada mais ao dinheiro do que a terra e por seu sistema de valores de caráter vertical, de duração, 3

Feudo-burguesa: adjetivação dada por José Luis Romero (82) à fase, entre 1150 e 1300, de grandes transformações globais que iriam aos poucos descaracterizar a sociedade feudal clássica ou feudo-clerical*, com a lenta mas firme difusão dos valores sociais burgueses. (Franco Júnior, Hilário, 1948- A Idade média : nascimento do ocidente / Hilário Franco Júnior. -- 2. ed. rev. e ampl. -- São Paulo : Brasiliense, 2001).


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de ociosidade, e largueza. A partir disso inaugura-se uma nova concepção de tempo, trabalho e do cálculo que dá início a deterioração do sistema feudal. Nesse sistema em transição ainda havia limitações que impediam a total liberdade dessa burguesia ascendente, entre elas está o poder exercido pelos senhores feudais no solo urbano a partir de prerrogativas dominantes, esses sujeitos não se restringiam apenas nobreza

aristocrática,

compunham

o

mas

incluíam

membros

à que

corpo eclesiástico e que em alguns

casos exerciam seu poder sobre partes consideráveis da cidade. Dessa forma, como aponta Le Goff4, os burgueses eram os burgueses de um ou outro desses senhores, eles geralmente eram julgados por este corpo eclesial em questões civis ou criminais. A administração do ban, denominado, era exercida em nome do abade por dois oficiais senhoriais, que defendiam os interesses dos nobres, por um monge e pelo prefeito. Por seu intermédio o abade cobrava diversas taxas, fiscalizava as transações comerciais, verificava os pesos e as medidas cuja guarda era confiada ao deão da abadia. Essas questões além de estarem atreladas a funções organizacionais da cidade e do comércio, envolviam também uma tentativa da Igreja de combater a usura, condenada no período. 4

LE GOFF, Jacques. O apogeu da cidade medieval p. 58.


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Em suma a comunidade burguesa nessa época não gozava de uma representação permanente e não poderiam reunir-se sem autorização do abade, entretanto essa realidade não se aplicava a todas as regiões, uma vez que em Chartres a burguesia como intermediaria desenvolve seu papel entre os poderosos e o mundo em evolução, chegando a enriquecer com negócio de excedentes e abusando dos poderes consentidos aos seus membros. Alguns chegaram a adquirir no século XIII em Metz terras enfeudadas no interior da cidade apesar de certa resistência dos senhores eclesiásticos. Eram os limites do sistema feudal que começavam a se fragmentar com o surgimento de novos sujeitos e novas práticas. Forja-se assim um espaço de “liberdades”, que se caracterizava pelo comércio e artesanato intimamente ligados ao seu desenvolvimento e autonomia. Os produtos que movimentavam o grande comércio dos centros urbanos eram predominantemente os grãos, o vinho, o sal, os couros e as peles, os tecidos, os minerais, os metais e a madeira. A hierarquia dos homens, envolvidos nessas atividades econômicas, estava divididas em três tipos de negociantes, os artesãos-lojistas, os mercadores e os banqueiros. Eles atuavam, a princípio, nas feiras e no mercado de caráter local ou regional.


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Durante os séculos XI e XII as cidades desenvolveram com a multiplicação de habitações de forma desordenada. Nos períodos do ano em que as estradas se tornavam intransitáveis, mercadores procuravam cruzamentos de grandes rotas em portos fluviais e marítimos, ou próximos a castelos fortificados e ali se instalavam fazendo surgir bairros mercantis, inicialmente compostos por “um emaranhado de vielas, cloacas e pocilgas” exprimidas entre muralhas e portões que se fechavam a noite. Esses burgos, nascidos próximos aos domínios dos castelos ou catedrais, não tardaram muito tempo sobre o julgo dos senhores feudais, obtendo sua autonomia em outro momento através da compra da carta de franquia, mediante uma indenização paga ao conde ou barão ou pela guerra. Os grupos ascendentes desse movimento urbano no medievo procuraram como já foi mencionado, se integrar ao mundo rural e feudal, adquirindo terras e palácios

e posteriormente

casando-se

com

membro

da

aristocracia, apesar de serem vistos com maus olhos, tendo a sua profissão associada a grandes tentações condenadas pela Igreja. José de Assunção Barros5 levantou a discussão de que o aparente crescimento urbano não 5

BARROS. Cidade Medieval e Feudalismo – Um balanço da questão. Artigo publicado na revista Publicatio, 16, n°2. Ponta Grossa: UEPG, 2008. p.289-300.


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significaria nenhuma razão primordial para que

os

senhores feudais lutassem contra a atuação da burguesia, senão nas ocasiões em que os burgueses, individualmente, e as comunidades urbanas, passaram a disputar esses espaços ou tentaram privar os senhores da totalidade de seus direitos na cidade. Quanto aos burgueses não teriam, nenhuma razão primordial igualmente para se oporem ao sistema feudal, tendo em vista que eles se beneficiavam da produção senhorial e de seus excedentes. Os confrontos entre esses grupos só surgem em três situações específicas, quando ocorre

o exercício exorbitante

dos direitos

senhoriais sobre o comércio, ou quando se cria obstáculos para os burgueses exercerem sua autonomia na cidade, além de quando era restringida a essas comunidades sua liberdade pessoal. Deste modo, o que desestabilizava essas relações era o ataque ao direito burguês de enriquecer, e de autonomia administrativa, admitindo choques entre os interesses desses grupos indistintos.

De

resto, os acontecimentos costumavam a evoluir no tocante a adaptação entre as cidades e as forças senhoriais. O burguês, enquanto termo, só irá se consolidar por volta do século XIV, definindo como uma categoria jurídica frequentemente definida pelo pagamento de uma taxa.


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Dessa forma, reconhecer a

burguesia a partir desse

conceito é admitir o surgimento de uma categoria social original, segundo Le Goff, na história do Ocidente. Apesar de não haver ainda um espirito de

lucro e de

ganho nesse novo mundo de agressividade econômica trazida pelos burgueses. Eles desconhecem a poupança, mas já se lançam nos

prazeres antes restritos somente à

nobreza, é na

verdade um espírito de ascensão social diferente do desperdício comungado pela nobreza medieval. Com a crise que afeta o sistema feudal no século XIV, tem-se início uma estratificação dessa sociedade com a emergência de grupos marginais, principalmente, num mundo em que o trabalho é instável. Os frutos dessa urbanização acelerada preocupa a

Igreja

que procura construir uma cristandade pura livre de marginais, estrangeiros, infiéis e heréticos, tornandose uma das principais responsáveis juntamente com a realeza pela exclusão e marginalização em sociedade. Em suma, em todos os tempos necessitamos compreender a cidade a partir de sua inserção em sistemas complexos, ou seja, a partir de sua própria organização e do seu modo

de

vida.

Levando em

conta

aspectos

primordiais como a sua função política, econômica e social, distribuídas em relações específicas que irão


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compor

o

imaginário triunfante no caso da sociedade

medieval. É a demanda por lucros suplementares e pela aquisição de novos produtos que permeiam o desenvolvimento das cidades no medievo, inserindo nesses espaços novas dinâmicas sociais, econômicas e políticas. Elas irão se constituir sob os antigos espaços e relações medievais, marcadas pela forte presença dos senhores feudais e

da Igreja Católica, responsáveis, pela

construção de cidades presas às relações de associações, clientelismo

e

defesa desses

territórios,

que

mais tarde irão adquirir um caráter comercial. Será no espaço das cidades que os sujeitos irão almejar apesar do jugo senhorial a liberdade pessoal e fundiária, isto é, a liberdade de transferir e adquirir propriedade. Tais privilégios seriam concedidos por meio da criação de códigos municipais, criando um distrito legal para o qual habitar uma cidade corporativa poderia anular as obrigações de servidão, entretanto esses acordos eram limitados pela influência exercida pelos senhores feudais, que não permitia a perda integral dos seus direitos e de seus lucros. Dotada de uma forma legal e territorial específica que lhe conferia um status excepcional e benefícios, pela

exclusão

das

massas

rurais.

Entretanto, para


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poderem exercer o domínio sob os monopólios era preciso se associar em grupos (corporações), uma vez que não havia segurança longe deles, nem liberdade que não reconhecesse as obrigações

de

uma

vida

corporativa.

Nesse sentido, se configuram os contornos das cidades, em suas relações e estruturas físicas com vias, limites, bairros, entre outros elementos que irão compor essa paisagem coletiva. Trata-se de ambientes mais íntimos, com sistemas de defesa que acompanham o seu crescimento, delimitando a forma, tamanho e imagem da “cidade protegida”, de acordo com Mumford6. As construções arquitetônicas de maior destaque ainda eram as igrejas e as sedes governamentais, que exerciam grande influência na organização social. As cidades são nesse momento domínio de bispos, arcebispos, reis e senhores feudais. Entretanto, o essencial é a conquista de seus habitantes, resultado de uma luta social. Tais lutas irão permitir o surgimento de um novo tipo de estratificação social ligado à economia, à propriedade urbana, ao dinheiro e a influência na cidade. Os indivíduos desses novos estratos nem sempre eram dotados de grandes capitais, desconstruindo assim a imagem da cidade povoada por burgueses no meio MUMFORD, L. A cidade na história: suas origens, transformações, 1982. [...] Quando a ponte levadiça era erguida, e fechados os portões ao pôr do sol, ficava a cidade desligada do mundo. O fato de se achar assim fechada ajuda a criar um sentimento de unidade bem como de segurança (p.331).

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de um campo dominado pela nobreza dos castelos. As cidades no medievo constituem territórios de atuação de diferentes setores da sociedade, inclusive, a nobreza que fazia parte dos lucros no comércio, são estratos flutuantes que mais tarde poderão ser adquiridos por meio de acordos selados com casamentos. da lenta e gradual

inversão de

uma

Trata-se

sociedade

divi-

dida horizontalmente, que aos poucos adquire aspectos verticais, cumulativos de bens e fortunas.

AS FEIRAS A cidade medieval comumente cercada por muralhas fortificadas não a tornava um lugar de isolamento, haja vista as conexões entre as cidades próximas como ocorreu no Reino Franco sendo que esse comércio estendeuse através de diversas rotas terrestres e marítimas. Citamos as feiras de Champagne que se situava geograficamente num ponto equidistante que interligou através do comércio povos tanto de outras áreas da Europa como outras que eram ligadas através do mediterrâneo incluindo o norte da África e Ásia. Leo Huberman7 diferencia os mercados locais das feiras. Os mercados locais comerciariam apenas produ7

HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. 21. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. P.19.


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tos locais essencialmente agrícolas enquanto que as feiras Os mercados eram pequenos e negociavam produtos locais, essencialmente agrícolas. As feiras, ao contrário, Eram imensas, e negociavam mercadorias por atacado, que provinham de todos os pontos do mundo conhecido. A feira era o centro distribuidor onde os grandes mercadores, que se diferenciavam revendedores vam

e

errantes

vendiam

e

artesãos

dos

pequenos

locais,

compra-

as mercadorias estrangeiras proce-

dentes do Oriente e Ocidente, Norte e Sul

(HUBER-

MAN,1986, p. 19). As feiras se revestiram de tamanha importância que em

Champagne8

foram criados

acordos

comerciais

vantajosos para atrair a vinda de mercadores dos mais variados países que desfrutavam de vantagens especiais bem como a promessa de segurança no trajeto através de salvo-condutos essencial nesse período onde os ladrões assolavam as rotas de comercio. Havia também isenção de pedágios como incentivo. Evidentemente que as taxas cobradas para comercialização de produtos nessas feiras eram compensadoras para aqueles que detinham o controle do espaço onde essas feiras eram realizadas. Outro fator de relevância era a presença de trocadores daí entendemos que as feiras eram impor8

HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. 21. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. P.20.


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tantes não apenas por causa do comercio de produtos,

mas também das transações financeiras que ali

eram realizadas.

A USURA Apesar das concessões aos burgueses, principalmente os senhores eclesiásticos continuavam a “amofiná-los” em seus negócios, condenando o lucro que chamavam de usura9

principalmente

quando

advindos

das transações econômicas de empréstimos a juros ou outras práticas equivalentes. Apesar minaram

desses por

desentendimentos adaptar-se

os

senhores

ter-

à dinâmica da cidade e esta

ao modo de produção senhorial. No século XII a necessidade de dinheiro vai de encontro à insuficiência das disponibilidades pecuniárias principalmente dos camponeses da Idade Média, haja vista que a venda de produtos agrícolas nesse período era de baixo valor. LE GOFF diz que “nos Pirineus orientais, no século XIII, um grande numero de homens do campo tinham judeus como credores de empréstimos”.

9

LE GOFF. A Idade Média e o Dinheiro, 1924. p. 42. O Código de direito canônico classificava como usura “tudo aquilo que se pede em troca de um empréstimo para além do empréstimo em si mesmo; pedir isso é um pecado proibido pelo Antigo e o Novo Testamento; a só esperança de um bem de retorno para além do bem emprestado é um pecado; as usuras devem ser integralmente restituídas a seu verdadeiro dono; preços mais altos por uma venda à credito são usuras implícitas”.


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A Igreja nesse período condenava veementemente a prática de usura entre cristãos o que também acontecia entre os judeus tendo por base a Bíblia e a Torá. Essa prática, porém acontecia entre judeus e cristãos ou viceversa. A taxa desses juros advinda desses empréstimos chegava a 20%. Até o século XIII as instituições monásticas eram quem emprestavam, depois, Quando o emprego do dinheiro urbanizou-se, os judeus desempenharam um importante papel de emprestadores, uma vez que, segundo a Bíblia e o Antigo Testamento [...] o empréstimo a juros era, teoricamente, qualquer que fosse o caso proibido entre cristãos, por um lado, e judeus, por outro, mas autorizado se de judeus para cristãos e vice-versa, e os judeus, mantidos fora da agricultura, acharam em certos ofícios urbanos, como a medicina, uma fonte de rendimentos que puderam aumentar emprestando a cristãos urbanos sem fortuna (LE GOFF, 1924. p.42).

Considerada pecado pela Igreja Católica, a Usura era proibida com base no Antigo e Novo testamento,10 porém permitida aos estrangeiros. A prática da usura, com a expulsão dos judeus nos séculos XII e XIII de partes da Europa passou para os cristãos, descontruindo assim a ideia antissemita do século XIX.

10 Deuteronômio 23:19,20 - A teu irmão não emprestarás com juros, nem dinheiro, nem comida, nem qualquer coisa que se empreste com juros. Ao estranho emprestarás com juros, porém a teu irmão não emprestarás com juros; para que o Senhor teu Deus te abençoe em tudo que puseres a tua mão, na terra a qual vais a possuir.


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No havia

mundo medieval um

equivalente

islâmico

nesse

interim

controle exercido pelos dog-

mas religiosos onde também condenavam a pratica da usura. Isso porque, segundo os dogmas do islamismo, a usura não é nem comércio nem lucro, e é completamente contrária ao zakat11. O Profeta Muhammad pregava que “Deus amaldiçoou aquele que cobra juros, aquele que os paga, aquele que redige o contrato e aquele que testemunha a transação”. O livro sagrado do Alcorão, portanto, rechaça a prática da usura. Vejamos: “Quando emprestardes algo com usura, para que vos aumente (em bens) às expensas dos bens alheios, não aumentará perante Deus; contudo, o que derdes em zakat, anelando contemplar o Rosto de Deus (ser-vos-á aumentado)”. (Alcorão 30:39). “Ó crentes, não exerçais a usura, multiplicando (o emprestado) e temei a Deus para que prospereis”. (Alcorão 3:130). “Ó crentes, temei a Deus e abandonai o que ainda vos resta se sois crentes!” ( Alcorão 2:278).

11

Zakat é uma palavra árabe que não tem outra correspondente na língua portuguesa. Dentre os seus significados possíveis estão aumento, crescimento, purificação. O zakat diz respeito à responsabilidade social que o muçulmano deverá ter em relação ao seu semelhante. Uma espécie de contribuição para ajudar os muçulmanos sem condições financeiras de subsistência. Esse percentual é de 2,5% da riqueza de cada islâmico.


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O JUSTO PREÇO Quando as corporações aumentavam os preços das mercadorias e auferiam lucros excessivos, as autoridades municipais poderiam intervir, abolindo os seus privilégios ou licenças para comercializar. Conforme a descrição de um juramento proferido por Bailio de Carlisle, ao tomar posse no cargo [...] Fiscalizarei para que toda sorte de mercadorias que venham a este mercado sejam boas e integrais, e vendidas por preço razoável (Huberman, 1981, p. 41). Essa noção de preço justo durou até que o comercio se ampliasse ou as cidades crescessem. No início do período medieval, o mercado ainda limitado pelo espaço reunindo apenas os habitantes da cidade e dos campos imediatamente vizinhos. Não tinha ligações com dos

pelos

mercados externos mesmos,

sendo

e

seus

não

eram

afeta-

preços determina-

dos apenas pelas condições locais. Mesmo assim, as condições também eram diversas e os preços só poderiam ultrapassar os valores comumente praticados em caso de escassez de produtos ocasionados principalmente por más colheitas. Nesse caso poderiam ser vendidos aqueles que pudessem pagar por ele alto preço. Isso obviamente é diferente da alta intencional provocada por um


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determinado grupo que desejasse auferir maiores lucros elevando sem motivos os preços. Contudo,

com

crescimento

variavam

do

comércio,

as

condições

o

bastante tornando essa pratica obsoleta sendo substituída finalmente pelo preço do mercado. Jehan Buridan, reitor da Universidade de Paris no século XIV: "O valor de uma coisa não deve ser medido por sua validade intrínseca é necessário levar em conta as necessidades do homem, e avaliar as coisas em suas relações para com essa necessidade”. Assim os preços deveriam variar de acordo com a oferta e procura. Dessa forma a pratica do preço justo foi substituído pelo preço de mercado.

A FEUDO-CLERICALIZAÇÃO A igreja exercia um papel preponderante na sociedade feudal, sendo a maior detentora de terras naquela sociedade agrária onde recebia e concedia feudos. Como instituição religiosa, controlava os homens nos seus aspectos mais íntimos: a consciência (através da confissão), a sexualidade dos indivíduos pelo casamento, enfim, a vida e a morte passagem

através

da

ministração

com os de

ritos

de

sacramentos

que determinavam a condição de salvo exercendo uma


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mediação com o divino, ou seja, o único canal de ligação com Deus. Partindo dessa prerrogativa, o clero se colocava acima da lei humana arvorando o direto de superioridade sobre os demais grupos daquela sociedade. O clero devido o Celibato, não se reproduzia, renovava

seus

quadros

com membros

mais alta nobreza. Foi ela quem trato

feudo-vassálico,

oriundos

legitimou o

da con-

justificando assim a dependên-

cia servil. Assim a Igreja agia ideologicamente incutindo nas camadas sociais uma imagem de como elas deveriam agir como escreveu o bispo Adalberon de Laon, “O domínio da fé é uno, mas há um triplo estatuto na Ordem. A lei humana impõe duas condições: o nobre e o servo não estão submetidos ao guerreiros

são

protetores

das

mesmo igrejas.

regime.

Os

Eles defen-

dem os poderosos e os fracos, protegem todo mundo, inclusive a si próprios. Os servos, por sua vez, têm outra condição. Esta raça de infelizes não tem nada sem sofrimento. Fornecer a todos alimentos e vestimenta: eis a função do servo. A casa de Deus, que parece una, é portanto tripla: uns rezam, outros combatem e outros trabalham. Todos os três formam um conjunto e não se separam: a obra de uns permite o trabalho dos outros dois e cada qual por sua vez presta seu apoio aos outros” (FRANCO JUNIOR, 1992, p.121).


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CONSIDERAÇÕES FINAIS A Sociedade Feudal era sustentada num esquema piramidal (oratores, bellatores e laboratores), assim Hierarquicamente distribuída cujas relações sociais e religiosas entre os grupos envolvidos deveriam ser respaldados pela ordem e obediência onde a elite clerical utilizava desses pressupostos para manter-se hegemonicamente sobre as demais, pois segundo o seu discurso ideológico, o Clero detinha um poder divinizado outorgado pelo próprio Deus e dessa forma mantinha o monopólio do sagrado. Essa distribuição hierárquica de ordens impedia uma mobilidade social. Com a ascensão da burguesia, que encontrara no comercio uma maneira de subsistência econômica, essa pirâmide sofre abalos em sua estrutura basilar e ao longo dos séculos citados, esse emergente extrato social passa a cada dia reivindicar uma liberdade que antes era impensável desfrutar dentro do sistema medieval europeu gerando tensões constantes e revoltas quando os seus interesses não eram satisfeitos. Observamos que aos poucos os senhores feudais vão perdendo a sua hegemonia e sendo substituídos pela burguesia, que detentora de um poder econômico, passa a


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financiar reis onde a cada dia aumentava sua influencia dentro de outros setores dessa sociedade. O comercio em expansão exige novos tipos de transações cambiais com trocas de moedas

e

temente

praticas

mesmo

juros

advindos

dessas

consequenque

sendo condenadas pela Igreja elas continua-

vam a acontecer o que possibilitava acumulo de capital. Vale salientar que a pratica da usura era condenada pela Igreja e pelo Governo, porém ambos a praticavam em muitas ocasiões. O acumulo de capital por parte da burguesia possibilitou também a mobilidade social através de casamentos arranjados

com

membros

da

aristocracia.

Enfim, o

crescimento das cidades do medievo europeu, especialmente no reino

franco,

permitiu mudanças indeléveis

nas relações sociais e econômicas que ocorreram até certo ponto de forma gradual e lenta.


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REFERÊNCIAS BARROS, José D’Assunção. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais Abril/ Maio/ Junho de 2008. Vol. 5 Ano V nº 2 ISSN: 18076971 BARROS, José D'Assunção. Cidade Medieval e Feudalismo: um balanço da questão. revista Publicatio, 16, n°2. Ponta Grossa: UEPG, 2008. p.289-300. FRANCO JÚNIOR, Hilário. A idade Ocidente. São Paulo- Brasiliense,2004.

Média,

nascimento

do

FRANCO JÚNIOR, Hilário. Feudalismo: uma sociedade religiosa, guerreira e camponesa. São Pauilo. Moderna. 2002. LE GOFF, Jacques. O apogeu da cidade medieval/ Jacques Le Goff; (tradução Antônio de Padua Danise). São Paulo: Martins Fontes, 1992. LE GOFF, Jacques. A bolsa e a vida: economia c religião na Idade Média /1924; tradução Rogerio Silveira Muoio; revisão técnica Hilário Branco Júnior. São Paulo :Brasiliense, 2004. MUMFORD, L. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. 2.ed. São Paulo, Livraria Martins Fontes Editora, 1982. União Islâmica - O sistema econômico no Islam. Disponível em: http://www.uniaoislamica.com.br/index.php?r=conteudo/view&id=158 – acesso em 05.08.2016.

Observação: Este artigo foi apresentado e publicado nos Anais da UFRN/CERES. Anais Eletrônicos do VI Colóquio Nacional História Cultural e Sensibilidades Sertões: histórias e memórias UFRN – CERES – Campus de Caicó, RN, 07 a 11 nov 2016 - Simpósio Temático Por uma história do urbano, por uma história das sensibilidades ISBN 978-85-92861-70-41162


As transformações da cidade medieval aspectos sócio econômicos séc xii –xiv  
As transformações da cidade medieval aspectos sócio econômicos séc xii –xiv  
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